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Literatura na Escola (Plano de Aula – Narrativa de Dyonelio Machado)

OBJETIVOS

– Estimular o gosto pela leitura;
– desenvolver a competência leitora;
– desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico;
– estabelecer relações entre o lido/vivido ou conhecido (conhecimento de mundo);
– reconhecer e analisar os elementos da narrativa (narrador e seu ponto de vista, tempo);
– reconhecer e interpretar o discurso indireto livre.

CONTEÚDOS

Elementos da narrativa: narrador, tempo
discurso indireto livre

TEMPO ESTIMADO : Nove aulas

ANO : 9º ano

MATERIAL NECESSÁRIO

– Livro Os Ratos. Dyonelio Machado. São Paulo: Planeta, 2004.

DESENVOLVIMENTO

1ª etapa: Antecipação/Motivação/Sensibilização
.

LANCE A PERGUNTA À CLASSE:

Você já ouviu falar do escritor Dyonelio Machado? Conhece alguma obra que ele publicou?
Apresenta a biografia do autor.

Dyonelio Machado
Dyonelio Machado nasceu em Quarai, RS, em 21 de agosto de 1895. Além de escritor, Dyonelio foi médico psiquiatra. Aos 12 anos, já trabalhava no semanário O Quaraí, no qual teve seus primeiros contatos com a imprensa. Em 1929 formou-se médico e ingressou na psicanálise, constituindo-se num dos responsáveis pela sua divulgação no Rio Grande do Sul. Em 1934 traduziu a obra Elementos de Psicanálise, de Eduardo Weiss, livro fundamental na área. O interesse pela literatura surge por esta época, tendo seu primeiro livro de contos – Um pobre homem – publicado em 1927. Sua obra não é vasta, porém é bastante significativa: Os ratos, publicado em 1935, recebeu o prêmio Machado de Assis, depois veio O louco do Catí (1942), ambos considerados clássicos da literatura brasileira.
Faleceu em 19 de junho de 1985.
http://www.tirodeletra.com.br/biografia/DyonelioMachado.htm

Explique aos alunos que os dados biográficos interessam-nos só para conhecer um pouco da vida do autor, quantas obras escreveu, quais prêmios ganhou, a qual partido político pertencia. Deixe claro que uma análise literária que leva apenas em consideração a vida do autor tende ao equívoco, já que o escritor é decisivo só no momento da escritura. Depois de a obra estar pronta, ela fala por si só. O autor apenas cria, imagina a história, as personagens, o cenário e cria alguém responsável pelo ato de narrar: o narrador. Sendo assim, como afirma o contista Dalton Trevisan (Record, 1979), “nada tem a dizer fora dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.”

PEÇA QUE OS ALUNOS RESPONDAM ORALMENTE:

A partir do título “Os Ratos”, o que você espera da história?

2º, 3º e 4º etapas:

Leitura compartilhada dos capítulos 1 e 2, seguida de troca de impressões gerais.

Pergunte à classe:
a- Qual é o drama vivido por Naziazeno e sua família?
b- Após o episódio do leiteiro, Naziazeno toma o bonde e segue em direção à repartição pública, da qual era funcionário. No caminho, trava conversa com um viajante, sentado ao seu lado. Veja:
” – Que horas serão?
— Sete horas passadas.
— Vou com atraso.
— A que horas você entra?
— Faltando um quarto pras oito.”

No bonde, perguntam ao viajante, companheiro de viagem de Naziazeno, o que ele levava consigo.

O moço responde: “ Leite. É o meu almoço”.

Naziazeno acha estranho e pensa:” — Como é que um homem pode se contentar apenas com um vidro de leite ao meio dia?”

– O que a fala do moço gera no íntimo de Naziazeno?

c- Ainda no bonde, Naziazeno escuta os viajantes conversando sobre os cavalos de corrida. A partir disso, Naziazeno parece sair do momento vivido e, via memória, é transportado para outro momento. Que momento é esse?

d- O narrador em 3ª pessoa parece conhecer Naziazeno a ponto de mencionar, logo após o episódio dos cavalos:“ Essa história agora lhe causou um mal-estar”. Que mal-estar é esse?

Leia o fragmento a seguir, que servirá de discussão para as questões e, f e g

“Já pôs o pé na calçada do mercado. O “café do Duque” fica na outra esquina. Toda essa calçada é uma sombra fresca e alegre, cheia de passos, de vozes.[…] Não enxerga o duque nos lugares habituais…E, entretanto, é a “ hora dele”. Vai ficar por ali, pelas portas, alguns minutos.Ele não poderá tardar. Nunca deixa de ir a esse café. Só por doença. Naziazeno bem que sentaria. Quem sabe?…talvez haja um conhecido nalguma mesa…Olha!…lá no fundo!…o Carvalho …Mas desvia vivamente a cara, faz que não vê o Carvalho.”

e- O fragmento acima é narrado em qual pessoa? Que efeito de sentido a escolha desse ponto de vista gera na narrativa?

Professor, insista com o aluno que as formas verbais “pôr” e “ enxergar” indicam ao leitor que se trata de uma 3ª pessoa. Veja: Quem pôs o pé= ele; Quem não enxerga o duque nos lugares= ele. Sendo assim, quem nos conta a história é um narrador de fora dela, não um narrador personagem.

Feito isso, lance a seguinte pergunta:

f- No trecho acima, apesar de ser contado por um narrador fora da história, em 3ª pessoa, é possível conhecer os pensamentos e sentimentos do personagem principal, Naziazeno?

É o momento de explicar/ retomar com o aluno o discurso indireto livre. Diga a ele que quando lemos uma narrativa, há um narrador, que é quem conta o fato. Esse locutor ou narrador pode introduzir outras vozes no texto. Ao modo como as falas/ vozes são introduzidas na narrativa, damos o nome de discurso. Ele pode ser classificado em: direto, indireto e indireto livre. Se considerar necessário, entregue-lhe o quadro abaixo:

Discurso direto

Reproduz fiel e literalmente algo dito por alguém.
Exemplo: Não gosto disso” – disse a menina em tom zangado.

Discurso indireto

O narrador, usando suas próprias palavras, conta o que foi dito por outra pessoa.
Exemplo: A menina disse em tom zangado que não gostava daquilo

Discurso indireto livre

Este tipo de discurso envolve a combinação de diferentes pontos de vista. O narrador insere “falas- pensamentos” das personagens no seu próprio discurso, dificultando a identificação precisa de quem seria o responsável pelo que está sendo dito (narrador ou personagem). É necessário que se tenha atenção para não confundir a fala do narrador com a fala do personagem, pois esta surge de repente em meio a fala do narrador.

Exemplo: A menina perambulava pela sala irritada e zangada. Eu não gosto disso! E parecia que ninguém a ouvia.

Agora que já explicou os tipos de discurso, pergunte ao aluno:

g- A que tipo de discurso pertence o trecho selecionado?

Fixação: o discurso indireto livre

h- Após o mal-estar, Naziazeno lamenta ter como esposa uma mulher tímida. Veja:

“ Também a sua mulher com os outros é tímida, tímida demais. Fosse a mulher do amanuense, queria ver se as coisas não marchariam doutro modo. Ela se encolhe ao primeiro revés[…] Ele precisava dum ser forte a seu lado. Toda a sua decisão se dilui quando vê junto de si, como nessa manhã, a mulher atarentar-se, perder-se empalidecer[…] Sentir-se-ia fortificado, ou ao menos” justificado”, se visse a seu lado a mulher do amanuense franzindo a cara ao leiteiro, pedindo-lhe para repetir o que houvesse dito, perguntando-lhe o que é que estaria porventura pensando deles. A sua mulher encolhida e apavorada é uma confissão pública de miséria humilhada, sem dignidade_ da sua miséria.”

Sabemos da lamentação de Naziazeno via narrador ou pela personagem. Retire fragmentos que comprovem sua resposta.

Após garantir o entendimento dos tipos de discurso, releia o fragmento da lamentação de Naziazeno sobre a mulher. Diga aos alunos que apesar de a narrativa não ser em 1ª pessoa, nós, como leitores, conhecemos os pensamentos e sentimentos de Naziazeno pelo narrador que, empregando o discurso indireto livre, dá a impressão de a fala, carregada de subjetividade, ser da personagem.

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 3, 4 e 5.

5º etapa: Retome os capítulos lidos em casa. Peça que os alunos respondam às questões a seguir, por escrito:

a- Qual é o único interesse de Naziazeno?

b- Ao descer do bonde, Naziazeno entra em um café. Via narrador, sabemos que o fato de ele ter saído do bonde lhe proporciona uma sensação mais agradável. Leia o fragmento a seguir:

“ Sente-se outro, tem coragem, quer lutar. Longe do bonde não tem mais a ‘morrinha’ daquelas ideias…”

Interprete o fragmento. Por que sair do bonde causa bem-estar em Naziazeno?

c- Após o café, devido às horas, sente-se obrigado a se dirigir à repartição, visando por em prática o seu primeiro plano. Que plano é esse?

d- Do momento em que Naziazeno saiu de casa até a sua chegada à repartição, percebemos o transcorrer das horas, que no romance são bem marcadas. Veja:

“- Faltando um quarto pras oito”
“O relógio da Prefeitura marca pouco mais de oito horas.”
“– Este relógio ainda está marcando oito e dez”
“Os relógios não andam certos. Mas já há de ser umas oito e vinte ou oito e meia. Às nove ele se encaminhará pra repartição”
“São oito e meia quase no relógio do café.”
“9 horas! Já está arrependido daquela longa ‘folga’”
[…]

É importante retomar com o aluno o conceito de tempo narrativo. Predomina em Os ratos o tempo cronológico, mensurado precisamente pelo relógio.

Chame a atenção do aluno pelas horas bem definidas.

Depois lance a seguinte pergunta. Peça que os alunos respondam oralmente:

a- Por qual motivo há no romance a obsessão pela hora marcada? O que o passar das horas representa para Naziazeno?

Às 9 horas, Naziazeno pretende falar com o diretor, porém antes de o fazê-lo, fica imaginando o que lhe dizer e o que receberá como resposta. Veja:

“— Doutor, vejo-me outra vez forçado a recorrer…” — Não ! isto é vago, geral. Deve dizer o fato, o que se passa. “— Doutor, imagine a minha situação, o meu leiteiro…” — Não ! Não! Trivialidade…uma trivialidade… “— O meu filho, doutor…” — Outra vez o teu filho, Naziazeno…sempre o teu filho…”

b- Após refletir sobre isso, como se sente Naziazeno? Sua postura é de alguém diferente do perfil tímido e humilde da mulher?

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 6 a 10.

6º etapa: Retome os capítulos lidos em casa. Depois, inicie uma conversa sobre a cidade.

É na cidade, locus por excelência do consumo, do aumento do nervosismo e da tensão, do domínio do exterior, das aparências e da indiferença que os indivíduos estabelecem uma relação com o dinheiro, único meio de sobrevivência. Em Os ratos, Naziazeno precisa de cinquenta e três mil réis para pagar a dívida que contraíra com o leiteiro e, por isso, sai pela cidade em busca de dinheiro. A narração segue, ao longo de 24 horas, as andanças desse funcionário público, movido por uma das mais básicas necessidades — a garantia de alimento. Ao tentar emprestar o dinheiro, Naziazeno sente a angústia de estar preso à condição urbana e sob o regime de terror imposto pelo dinheiro. Em decorrência do estado de tensão do protagonista, tudo ao seu redor lhe faz lembrar do problema que o atormenta.

Feito os comentários, pergunte aos alunos. Pode ser uma atividade escrita.

a – Como Naziazeno era recebido pelos possíveis credores?

b- Você considera Os Ratos uma crítica à maneira como o dinheiro acabou se tornando a mola propulsora das relações sociais?

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 10 a 25. Estabeleça um cronograma de leitura, de modo a deixar para cada dia dois capítulos.

7º etapa: Retome os capítulos lidos em casa.

Peça que, oralmente, os alunos recuperem a saga de Naziazeno. O intuito é fazê-los perceber o sofrimento de um homem fadado à condição urbana: a máquina inescrupulosa das grades cidades.

Feito isso, peça que respondam por escrito:

Apesar de a trama passar em Porto Alegre, por nenhum momento o narrador afirma tratar-se desta cidade. Arrisque uma interpretação: por qual motivo não foram mencionados detalhes pelos quais pudéssemos reconhecer Porto Alegre?

8º e 9º etapas- leitura compartilhada dos capítulos 26 a 28

Lance a seguinte pergunta à classe. Pode ser uma atividade escrita:

O desfecho dado à narrativa é garantia de resolução dos problemas de Naziazeno?

AVALIAÇÃO

Com o livro em mãos, peça uma atividade escrita e individual.

1- Agora que já conhece a obra, analise o título “Os ratos”. Leve em consideração as suas inferências no início do projeto, o significado do título: suas expectativas para a história se mantiveram ou foram alteradas? Por quê?

2- O título Os Ratos é uma referência ao drama psicológico de Naziazeno Barbosa, protagonista da história, depois de ter conseguido o dinheiro para saldar a dívida com o leiteiro. Naziazeno, meio dormindo, tem o seguinte pesadelo: os ratos estão roendo o dinheiro que ele deixara à disposição do leiteiro sobre a mesa da cozinha.

Arrisque uma interpretação: qual o significado do sonho de Naziazeno?

Fonte:
Revista Nova Escola, disponível em
http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/literatura-escola-9o-ano-narrativa-dyonelio-machado-578513.shtml

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