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Erskine Caldwell (1903 – 1987)

Erskine Preston Caldwell (White Oak, Geórgia, 17 de dezembro de 1903 – Paradise Valley, Arizona, 11 de abril de 1987) foi um escritor estadunidense, autor de romances e contos geralmente ambientados no sul dos Estados Unidos. Foi também ensaísta e correspondente de guerra.

Biografia

Caldwell passou os primeiros anos de sua vida mudando-se de um estado para outro, porque a isso o obrigava a profissão de seu pai, que era pastor presbiteriano. Foi operário, criado, trabalhador rural, cozinheiro, maquinista de teatro e jogador de basebol. Freqüentou a Universidade da Virgínia por três anos; não se formou, mas foi incentivado a tornar-se escritor. Foi ali que viu nascer, em 1926, seu primeiro trabalho impresso, o ensaio “The Georgia Cracker”, onde já se encontram vários dos temas que mais tarde abordaria em sua carreira literária: injustica racial, demagogia, religião, irresponsabilidade social.

Seu primeiro livro importante foi a coletânea de contos American Earth (Frenesi de Verão, Brasil), de 1931. Nos dois anos seguintes, publicou suas obras mais conhecidas: Tobacco Road (A Estrada do Tabaco, Brasil e Portugal) e God’s Little Acre (Pequeno Rincão de Deus, Brasil ou A Jeira de Deus, Portugal). A crueza da linguagem, a ousadia dos temas e o tratamento dado aos personagens chocaram os leitores. Acusados de obscenidade, ambos os livros foram perseguidos e banidos de várias bibliotecas. Caldwell chegou a ser preso quando foi a Nova Iorque para uma noite de autógrafos quando do lançamento de God’s Little Acre. No entanto, a crítica mais progressista elogiou fartamente essas obras, sendo que Tobbaco Road foi adaptado para o teatro, tendo permanecido em cartaz por quase dez anos. Em 1941, foi transformado em filme, sob a direção de John Ford.

Nos anos 1930, Caldwell e Helen Lannigan, sua primeira esposa, mantiveram uma livraria no estado do Maine, para onde haviam se mudado na década anterior. Até o início dos anos 1940, Caldwell já havia escrito mais dois romances, além de três livros de contos e um ensaio fotográfico junto com sua nova esposa, Margaret Bourke-White. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi correspondente de guerra na União Soviética, mais precisamente na Ucrânia. De volta, fixou-se em São Francisco (Califórnia), já divorciado. Entre 1942 e 1955, foi editor da American Folkways, uma série de livros regionais. Pelos próximos anos, além de continuar a escrever, Caldwell dedicou-se a viajar pelo mundo, sempre tomando anotações que podem ser consultadas no The Erskine Caldwell Birthplace and Museum, na cidade de Moreland, Geórgia, um museu dentro da casa onde nasceu. Publicou romances e contos até a década de 1970, mas já sem o aval da crítica e do público. Ainda assim, calcula-se que tenha vendido 40.000.000 de exemplares de suas obras, principalmente aquelas de sua fase mais produtiva artisticamente.

Fumante inveterado, Erskine Caldwell faleceu devido a um enfisema e um câncer no pulmão.

Obra

Caldwell sofreu grande influência de seu pai, um reformador social conservador. Seus primeiros livros tratam de uma outra América, a América dos vencidos, dos desgraçados e sem esperança, daqueles que ficaram de fora do Sonho Americano. Daí sua escrita ser crua e direta, às vezes mesclada com um humor sombrio e patético; seus personagens, a quem faltam consciência social, tendem ao animalesco e à degenerescência moral. As obras são impregnadas de lascívia, crueldade, volúpia, violência física ou mental, racismo e soturna resignação. Assim como William Faulkner, John Steinbeck e outros escritores do período, Caldwell procurou retratar a vida desses miseráveis de um Sul arcaico, segregacionista e reacionário. Apesar de contar com o reconhecimento da crítica menos acomodada e de vender milhões de exemplares, os temas desses livros desagradaram a maioria silenciosa, o que fez com que Caldwell nunca conseguisse livrar-se da pecha de obsceno, comunista e pornográfico. Por isso vários de seus livros foram proibidos, apreendidos ou sofreram todo tipo de perseguição.

No entanto, com a morte do pai em 1944, seu grande leitor e encorajador, a obra de Caldwell entrou em declínio lento e irreversível. Seus personagens já não eram retratados com a mesma força de antigamente e seus temas passaram a sofrer influência de outros campos do conhecimento, como no romance Gretta (Gretta, Brasil), de 1955, em que a psicanálise é convocada para explicar o estranho vício da personagem-título.

Tanto no Brasil como em Portugal, foram publicados diversos livros do autor, principalmente entre as décadas de 1940 e 1960.
Bastard, 1929 – contos
Poor Fool, 1930 – contos
American Earth, 1931 – contos (Frenesi de Verão, Brasil)
Tobacco Road, 1932 – romance (A Estrada do Tabaco, Brasil e Portugal)
We Are the Living, 1933 – contos
God’s Little Acre, 1933 – romance (Pequeno Rincão de Deus, Brasil ou A Jeira de Deus, Portugal)
Tenant Farmers, 1935 – ensaios
Some American People, 1935 – ensaios
Journeyman, 1935 – romance (O Pregador, Portugal)
Kneel to the Rising Sun, 1935 – contos
The Sacrilege of Alan Kent, 1936 – poema em prosa
You Have Seen Their Faces, 1937 – ensaio fotográfico (com Margaret Bourke-White)
Southways, 1938 – contos
North of the Danube, 1939 – ensaio fotográfico (com Margaret Bourke-White)
Trouble in July, 1940 – romance
Say Is This the USA, 1941 – ensaio fotográfico (com Margaret Bourke-White)
Moscow Under Fire, 1942 – reportagens do front germano-russo
Russia at War, 1942 – reportagens do front germano-russo
All-Out on the Road to Smolensk, 1942 – reportagens do front germano-russo
All Night Long, 1942 – romance (Guerrilheiros Russos, Portugal))
Georgia Boy, 1943 – romance (Um Rapaz da Geórgia, Portugal)
Tragic Ground, 1944 – romance (Chão Trágico, Brasil)
A House in the Uplands, 1946 – romance (Uma Casa no Planalto, Portugal)
The Sure Hand of God, 1947 – romance
This Very Earth, 1948 – romance (Três Destinos, Brasil)
A Place Called Estherville, 1949 – romance (A Cidade do Ódio, Brasil)
Episode in Palmetto, 1950 – romance (Episódio em Palmetto, Portugal)
Call It Experience, 1951 – autobiografia
The Courting of Susie Brown, 1952 – contos
A Lamp for Nightfall, 1952 – romance (Os Donos da Terra, Brasil)
Love and Money, 1954 – romance
Gretta, 1955 – romance (Gretta, Brasil)
Gulf Coast Stories, 1956 – contos
Certain Women, 1957 – contos
Claudelle Inglish, 1958 – romance
Molly Cottontail, 1958 – infantil
When You Think of Me, 1959 – contos
Jenny by Nature, 1961 – romance
Men and Women, 1961 – contos
Close to Home. 1962 – romance
The Last Night of Summer, 1963 – romance
In Search of Bisco, 1965 – viagens
The Deer at Our House,1966 – infantil
Writing in America, 1967 – ensaios Miss Mamma Aimee, 1967 – romance
Summertime Island, 1968 – romance
Deep South, 1968 – viagens
The Weather Shelter, 1969 – romance
The Earnshaw Neighborhood, 1971 – romance Annette, 1973 – romance
Afternoons in Mid America, 1976 – ensaios
With All My Might, 1987 – autobiografia

Em 1946, a editora portuguesa Atlântida, Livraria Editora, Lim., dentro de sua coleção “Antologia do Conto Moderno”, publicou o volume intitulado “Erskine Caldwell”, com as seguintes histórias:
Ajoelhai Ante o Sol Nascente (Kneel to the Rising Sun)
Raquel (Rachel)
Ladrão de Cavalos (Horse Thief)
A Rapariga Amarela (Yellow Girl)
O Burro Turbulento (Meddlesome Jack)
O Rio Quente (Warm River)
O Meu Velhote (My Old Man)

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Erskine_Caldwell

http://id.mind.net (foto)

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O. Henry (1862 – 1910)

William Sydney Porter, contista estadunidense nascido em Greensboro, Carolina do Norte, cuja produção de contos romantizados, muitas vezes com finais imprevistos que se tornaram sua marca registrada e o tornaram um dos autores mais populares do seu tempo. De família culta e abastada, sua mãe morreu tuberculosa quando ele tinha três anos e foi criado por uma tia. Começou a trabalhar como aprendiz de boticário aos quinze anos e depois mudou-se para o Texas (1882) onde trabalhou em uma fazenda de gado.

Casou e empregou-se como caixa num Banco de Austin, tentando ao mesmo tempo escrever comédia. Comprou um jornal, a revista de humor The Rolling Stone (1894), porém o projeto fracassou e ele passou a trabalhar como repórter, colunista e cartunista no Houston Post.

Acusado de um desfalque no Banco (1896), fugiu sozinho para Honduras, mas voltou a Austin passados três anos, ao saber da doença terminal da esposa. Viúvo, foi condenado a cumprir três anos de prisão numa penitenciária do Ohio, período em que escreveu contos sob vários pseudônimos até definir-s por O. Henry.

Em liberdade mudou-se para New York (1902), onde continuou escrevendo praticamente um conto por semana e militando na imprensa e, embora extremamente popular, viveu o resto da vida recluso, para não ser reconhecido como William Sydney Porter.

Faleceu alcoólico e na miséria, em New York, deixando várias coletâneas de contos, entre elas Cabbages and Kings (1904), The Four Million (1906), Heart of the West (1907), The Voice of the City (1908) e The Gentle Grafter (1908).

Fontes:
http://www.brasilescola.com/biografia/william-sydney.htm
http://www.releituras.com/ohenry_menu.asp

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O. Henry (Os Caminhos que Tomamos)

Vinte milhas para oeste de Tucson o rápido parou ao pé de um depósito para tomar água. Além deste líquido, porém, a máquina daquele comboio adquiriu também outras coisas que lhe não convinham.

Enquanto o fogueiro estava baixando a mangueira de alimentação, o Bob Tidball, o Dodson Tubarão e um índio de raça cruzada chamado João Cão Grande treparam para a máquina e apresentaram ao maquinista os orifícios de três canos de revólver. As possibilidades desses orifícios a tal ponto impressionaram o maquinista que ergueu logo ambas as mãos num gesto do gênero do que acompanha a exclamação: “Conta lá!” ·

À ordem brusca do Dodson Tubarão, que era o comandante da força, o maquinista desceu ao chão e desligou a máquina e o tender. Então o João Cão Grande, empoleirado no carvão, sorriu por trás de dois revólveres apontados ao ajudante e ao fogueiro, lembrando que corressem a máquina cinqüenta metros pela linha abaixo e ali aguardassem novas ordens.
O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, desdenhando proceder à limpeza de minério tão baixo como os passageiros, dedicaram-se ao veio magnífico que era o vagão de valores. Encontraram o guarda envolto na crença firme de que a máquina não estava tomando nada mais forte que água pura. Enquanto o Bob lhe tirava esta idéia da cabeça por meio de uma coronha de revólver, o Dodson Tubarão ocupava-se em ministrar uma dose de dinamite ao cofre do vagão.

O cofre explodiu no sentido de trinta mil dólares, ouro e notas. Os passageiros espreitaram vagamente pelas janelas a ver de onde vinha a trovoada. O condutor puxou a correia que lhe ficou lassa e caída na mão. O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, com o espólio numa saca de lona forte, saíram do vagão e correram pesadamente, com suas botas altas, até à máquina.

O maquinista, amuado, mas prudente, correu velozmente a máquina, obedecendo às ordens, para longe do comboio parado. Mas antes que isto estivesse feito, o guarda do rápido, tendo despertado do argumento com que o Bob Tidball lhe tinha imposto a neutralidade, saltou do vagão com uma Winchester e entrou no jogo. O sr. João Cão Grande, empoleirado no carvão, perdeu a vasa pelo processo involuntário de imitar perfeitamente um alvo. O guarda caçou-o. Com uma bala exatamente entre as espáduas, o cavalheiro de cor e indústria caiu para o chão, aumentando assim automaticamente em um sexto o quinhão de cada um dos camaradas.

A duas milhas do depósito deu-se ordem ao maquinista que parasse.

Os ladrões gritaram um adeus de desafio e enfiaram pelo declive abaixo para os bosques que marginavam a linha férrea. Cinco minutos de caminho difícil através de uma mata de chaparral trouxe-os a um bosque mais aberto, onde estavam três cavalos, presos a ramos baixos. Um esperava o João Cão Grande, que nunca mais andaria a cavalo de dia ou de noite. A este animal tiraram os ladrões a sela e o freio, e puseram-no em liberdade. Montaram nos outros dois, estendendo o saco sobre a maçã da sela de um deles, e seguiram depressa mas discretamente através da floresta e por uma garganta primitiva e solitária acima. Aqui o animal que levava Bob Tidball escorregou num pedregulho musgoso e partiu uma das pernas dianteiras. Mataram-no com um tiro na cabeça, e sentaram-se para realizar um conselho de fuga. Seguros por enquanto, em virtude do caminho tortuoso que haviam tomado, já a questão de tempo os não apoquentava tanto. Havia já muitas horas e léguas entre eles e a mais rápida perseguição que se pudesse organizar. O cavalo do Dodson Tubarão, de corda arrastada e freio caído, resfolegava e comia com agrado da erva à margem do riacho da garganta. Bob Tidball abriu o saco, tirou às mãos ambas maços de notas e um saco único de ouro, e riu com uma alegria de criança.

— Olha lá, meu grande pirata — disse ele rindo para Dodson —, bem dizias tu que a coisa se conseguia. Tens uma cabe~ a de financeiro que deixa atrás tudo no Arizona.

— O que é que a gente vai fazer a respeito de um cavalo para ti, Bob? A gente não pode esperar aqui muito tempo. Logo de madrugada, com a primeira luz, os tipos estão na nossa pista.

— Oh, aquele teu bicho tem que levar dois um bocado — respondeu Bob com otimismo. Deitamos a mão ao primeiro bicho que encontrarmos por aí. Caramba, que fizemos bom negócio, hein? Aqui pelos sinais nas cintas e no saco temos trinta mil dólares — quinze mil a cada bico!

— É menos do que eu esperava — disse o Dodson Tubarão, dando pontapés leves nos pacotes. Depois olhou meditativamente para os flancos suados da sua montada.

— O Bolívar, coitado, está quase que não pode mais disse ele devagar —. Que pena que o teu bicho se estropiasse!

— Ninguém tem mais pena do que eu — disse o Bob sem abatimento —, mas o que é que se há de fazer? O Bolívar é rijo, e pode bem com nós dois até arranjarmos outras montadas. Raios me partam, ó Tubarão, mas não me passa da idéia a piada que tem um tipo do leste como tu vir para aqui ensinar-nos a nós do oeste a dar cartas no negócio de salteador! De que parte do leste é que és?

— Estado de Nova Iorque — disse o Dodson Tubarão, sentando-se num toro e mastigando um fio de erva —. Nasci numa herdade do distrito de Ulster. Fugi de casa quando tinha dezessete anos. Foi um acaso eu vir para oeste. Eu ia pela estrada fora com a roupa numa trouxa a caminho de Nova Iorque, da cidade. A minha idéia era ir para lá e ganhar muito dinheiro. Uma tarde cheguei a um ponto onde a estrada fazia garfo, e eu não sabia por que caminho havia de tomar, estive para aí meia hora a estudar o caso, e depois tomei pelo da esquerda. Nessa noite mesmo fui dar ao acampamento de um circo do oeste que andava dando espetáculos nas várias terras, e segui para oeste com eles. Muitas vezes tenho pensado se não teria dado em qualquer coisa muito diferente se tivesse tomado o outro caminho.

— Hum, a minha idéia é que davas mais ou menos no mesmo — disse Bob Tidball, com uma filosofia alegre —. Não são os caminhos que a gente toma, é o que está dentro de nós, que faz que a gente dê no que vem a dar.

O Dodson Tubarão levantou-se e encostou-se a uma árvore.

— Tomara eu que aquela tua montada se não tivesse estropiado, Bob — tornou a dizer, com uma certa tristeza.

— E dois! — concordou o Bob —. Era um belo bicho. Mas o Bolívar tira-nos aos dois da alhada. Olha lá, e o melhor é a gente ir-se pondo a mexer, hein? Vou meter isto tudo outra vez no saco, e ala para outra terra!

O Bob Tidball repôs o espólio no saco, e apertou a boca deste, com força, com uma corda. Quando levantou a cabeça, a coisa mais notável que viu foi o cano da pistola do Tubarão visando-lhe sem tremer o centro da testa.

— Deixa-te de piadas, rapaz — disse o Bob sorrindo —. A gente tem é que se pôr a mexer.

— Está quieto — disse o Tubarão —. Tu não te vais pôr a mexer para parte nenhuma, Bob. Tenho pena de te dizer, mas não há saída senão para um de nós. O Bolívar, coitado, está muito cansado, e não pode levar dois.

— Temos sido camaradas, eu e tu, Tubarão, há uns três anos — disse o Bob com sossego —. Muita e muita vezes arriscou a gente a vida juntos. Sempre te tenho tratado às direitas, e julgava que eras um homem. Já ouvi coisas que contavam de ti, de como tinhas matado um ou dois homens de uma maneira esquisita, mas nunca acreditei. Ora agora, se estás a brincar comigo, desvia lã a pistola e vamo-nos embora. Mas se queres atirar, atira, filho de um lacrau!

A cara de Dodson Tubarão tinha uma expressão de profunda mágoa.

— Não imaginas que pena eu tenho — suspirou ele — a respeito daquele desastre que aconteceu ao teu cavalo, Bob. A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrou-se de repente uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

E, na verdade, nunca Bob Tidball se poria mais a mexer para parte nenhuma. Falou a pistola do amigo falso, enchendo a garganta de um estrondo que os seus muros devolveram indignadamente. E o Bolívar, cúmplice inconsciente, levou depressa para longe o último dos salteadores do rápido sem ter que “levar dois”.

Mas à medida que o Dodson Tubarão galopava parecia que os bosques se esfumavam e desapareciam; o revólver na mão direita converteu-se no braço curvo de uma cadeira de mogno: a sela estava extremamente estofada, e ele abriu os olhos e viu seus pés, não em estribos, mas pousados alto na ponta de uma secretária rica.

Estou contando aos senhores que o Dodson, da Dodson & Decker, corretores de Wall Street, abriu os olhos. Peabody, o empregado de confiança, estava de pé a seu lado, hesitando em falar. Lá em baixo havia um ruído confuso de rodas, e ao pé o sussurro acariciador de uma ventoinha elétrica.

— Hum, Peabody — disse o Dodson, piscando os olhos . Então não adormeci! Tive um sonho muito curioso. O que é que há?

— É o sr. Williams, sr. Dodson, de Tracy & Williams, que está ali fora. Vem liqüidar aquilo daquelas ações. A alta caiu-lhe em cima, lembra-se o sr. Dodson?

— Sim, lembro-me. Como está isso cotado hoje, Peabody?

— Cento e oitenta e cinco, sr. Dodson.

— Então é isso que ele paga.

— O sr. Dodson dá licença… — disse Peabody, com uma certa hesitação —. Desculpe-me falar nisso, mas estive a falar com o Williams. Ele é um velho amigo seu, e o sr. Dodson pode-se dizer que tem na mão todo este papel. Pensei se o sr…., isto é, pensei que o sr. talvez se não lembrasse que ele lhe vendeu o papel a noventa e oito. Se ele líqüida ao preço do mercado, vai-se-lhe tudo quanto tem e ainda por cima, coitado, tem que vender a casa, e a mobília e tudo, para lhe poder entregar as ações.

A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrou-se de repente como uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

— Cento e oitenta e cinco é que ele paga — disse o Dodson —. O Bolívar não pode levar dois.

Fonte:
http://www.releituras.com/ohenry_menu.asp

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O. Henry (Memórias de um Cachorro Amarelo)

Não creio que a nenhum de vós incomode ler o que diz um cão. Kipling e muitos outros demonstraram que os animais podem expressar-se num inglês sofrível e, hoje em dia, não se imprime revista alguma que não publique a história de um animal; somente as revistas mensais de feição antiga continuam pintando os horrores de Bryan e Monte Pelado.

Entretanto, não deveis procurar aqui literatura aborrecida, como a do urso, do tigre ou da serpente da selva antilhana. Pode-se esperar qualquer surpresa de um cachorro amarelo que passou a maior parte de sua vida num sobrado barato de Nova Iorque, dormindo num canto sobre um velho vestido de cetim: o mesmo em que a dona derramou vinho do Porto, em banquete oferecido por Senhora Longshoremen.

Vim ao mundo como um cachorrinho amarelo. A data, local, genealogia e peso me são desconhecidos. O que primeiro me recordo é que uma velha me tinha metido numa cesta, e que estava em entendimentos de me vender a uma robusta dama da Broadway.

A velha, mamãe Hubard, enaltecia-me, dizendo que eu era um fox-terrier da Pomerânia – hambletoniano – irlandês roxo – Conchinchina – Stoke – Pogis.

A dama gorducha esgravatou entre amostras de moleton que levava em sua bolsa até que encontrou uma nota de cinco, e entregou-lha. Desde aquele momento fui o favorito mimado da dama gorducha. Diga-me, gentil leitor: alguma vez em tua vida, uma gorducha de 200 libras de peso, de hálito misto de queijo Camembert e couro te levantou no ar e bamboleou, enquanto esfregava teu corpo com o nariz, dizendo ao mesmo tempo palavrinhas como: Amor! Encanto! Riqueza! etc.?

De cachorrinho amarelo de raça fui crescendo até me converter num cão amarelo vira-latas, parecendo descender do cruzamento de gato angorá com caixa de limões. Porém, minha dona jamais hesitou: sempre imaginou que os dois primitivos cães que Noé meteu na arca pertenciam a um ramo colateral de meus antecessores. Fiz com que dois guardas impedissem que minha proprietária me apresentasse no jardim do Madison Square para que eu concorresse ao prêmio dos podengos siberianos.

Vou contar algo a respeito daquele pavimento. A casa era como o são ordinariamente em NY: de mármore no porão e seixos nos pavimentos superiores. Ao nosso, era preciso trepar ao invés de ascender. Minha dona o alugou desmobiliado, e instalou nele uma antiga sala de estar estofada, de 1903, umas oleo gravuras com gueixas numa casa de chá, plantas artificiais e o marido.

Eis um bipede que me causava tristeza! Era um homem pequeno, de cabelos amarelados como os meus. Era um dominado, um boneco que enxugava a louça e escutava a mulher falar mal da vizinha do segundo, de quem dizia que usava capa de peles de esquilo mas que a roupa interior era barata e esfarrapada e tinha a ousadia de exibi-la, pendurando-a a secar. E todas as noites, enquanto ela ceava, fazia com que o esposo me levasse a passeio, amarrado à ponta de uma corda.

Se os homens soubessem como passam o tempo as mulheres quando estão sozinhas em casa, nunca se casariam! Laura não fazia mais do que comer bombons e tomar sorvetes de amêndoa, falar com o orchateiro durante meia hora, ler um maço de cartas antigas, comer uns quantos picles, beber duas garrafas de cerveja maltada e passar as horas mortas olhando para o andar da frente através de um buraco feito na cortina. Vinte minutos antes da hora em que o marido devia regressar do trabalho, começava ela a pôr tudo em ordem, inclusive sua dentadura postiça, e tirava uma porção de roupa a fim de passá-la em dez minutos.

Eu, naquela casa, levava uma vida de cachorro. A maior parte do dia passava deitado no meu canto, observando como a gorducha matava o tempo. Algumas vezes dormia, e sonhava que perseguia gatos até fazê-los desaparecer nos portões, e que rosnava a todas as velhas que usavam luvas negras com os dedos de fora: coisas próprias de um cachorro. Depois, a dona me dava palmadinhas com melosa bajulação e me beijava no focinho. Porém, que podia eu fazer? Um cachorro não pode comer pedra.

Comecei a compadecer-me de Hubby, o marido; pareciamo-nos tanto, que a gente o manifestava quando saíamos juntos. Em amável companhia visitávamos as ruas que percorre o carro de Morgan, e pisávamos as últimas neves que dezembro deixava nas vielas habitadas pela gente pobre.

Uma noite, quando passeávamos assim, enquanto procurava adotar a aparência de um são – bernardo premiado e meu amo tratava de parecer um homem incapaz de assassinar o primeiro organista que executou a marcha nupcial de Mendelssohn, levantei para ele a cabeça e disse-lhe, a meu modo:

– Por que tendes esse gesto de amargura? Ela não vos beija. Não tendes que sentar-vos sobre seu regaço nem escutar sua tagarelice, essa tagarelice capaz de fazer que a letra duma opereta pareça o livro de máximas de Epíteto. Deveis agradecer por não seres um cachorro. Dai o fora na melancolia.

Aquela infelicidade conjugal desceu até mim os olhos, quase com inteligência canina em seu semblante.

– Que há, cachorrinho? Olha-me como se fosses capaz de falar. Que é que há? Gatos?

E claro que não podia compreender-me. Aos humanos é vedada a linguagem dos animais. O único terreno comum de comunicações em que homens e cachorros estão de acordo é o da ficção.

No andar em frente ao nosso morava uma dona que tinha um fox-terrier com manchas negras e marrons. O marido daquela senhora punha-lhe a corrente e levava-o a passear também todas as noites, mas sempre regressava a casa satisfeito e assobiando. Um dia juntei meu focinho com o do fox-terrier malhado e pedi-lhe que fizesse um esclarecimento.

– Escuta – disse-lhe eu – já sabes que é coisa imprópria de verdadeiros homens fazer o papel de ama-seca com um cachorro em público. Eu nunca vi um que, indo com o cachorro, não pareça senão querer bater em quantos olham para ele. Porém teu amo volta a casa todos os dias tão galhardo e bem posto como um prestidigitador diletante que fizesse o truque do ovo. Como faz isso? Não me venhas dizer que lhe agrada.

– Ele – respondeu o fox-terrier – usa o Próprio Remédio da Natureza. Quando saímos de casa é tímido como um coelho. Mas depois de termos passado por umas oito tavernas, tanto se lhe dá que o que leva na extremidade da corrente seja um cachorro ou um peixe. Já perdi duas polegadas de cauda entre as portas de vaivém desses estabelecimentos.

Pus-me a meditar sobre o que me disse o fox-terrier.

Uma tarde, lá pelas seis horas, minha ama ordenou ao seu marido que desse banho em seu Amante. Ocultei até agora meu nome, porém era assim que eu me chamava. Aquele nome era para mim uma espécie de lata amarrada ao rabo do meu próprio respeito.

Num lugar tranqüilo de certa rua, soltei a corda de meu guardião em frente a uma atraente e refinada taberna. Empurrei com a cabeça as portas, ladrando como um cão que avisa urgentemente à família que a pequena Alice caiu ao arroio quando estava colhendo flores.

– Ou estou cego, disse meu amo, fazendo um muxoxo – ou este bicho me está dizendo que tome um gole. Há quanto tempo não gasto as solas dos meus sapatos pisando o chão destes estabelecimentos! Se…

Vi que era meu. Tomou assento a uma mesa e serviram-lhe uísque quente. Ali esteve uma hora tomando goles. Permaneci ao seu lado, batendo com a cauda para que o empregado acudisse, comendo uma rica merenda, jamais igualada pelos condimentos caseiros que mamãe Hubbard comprava numa tendinha oito minutos antes de papai chegar em casa.

Quando se esgotaram os produtos da Escócia, exceto o pão de centeio, o velho me desamarrou da perna da mesa e tirou-me dali como um pescador tira os salmões. Já fora da casa, arrancou-me a coleira e atirou-a a rua.

– Pobre cachorrinho! Já não te beijará mais essa sem-vergonha! Vai-te, cachorrinho! Corre, e sê feliz!

Não quis abandoná-lo e comecei a traquinar e pular em volta dele, contente como um luluzinho sobre um tapete.

– Mas não vês, cabeça de bobo, imbecil, que não quero deixar-te? Não compreendes que ambos somos os meninos perdidos no bosque e que tua mulher é o tio cruel, que nos persegue, a ti, com o pano de cozinha e a mim, com a pomada para matar pulgas e a fita encarnada para me enfeitar a cauda? Por que não cortas de uma vez essas coisas pela raiz e seremos camaradas toda a vida?

Direis talvez que não me compreenderia; talvez assim fosse. Mas ficou pensativo um pouco, ereto, apesar dos goles que levava no corpo, e disse-me:

– Cachorrinho, nesta vida ninguém vive mais de uma dúzia de vidas. Eu não quero voltar para casa, e se tu o quiseres, apesar do muito que te aborrece minha mulher, mereces que a carrocinha te leve.

Eu não estava amarrado; mas continuei junto do meu amo, saltando, até a estação ferroviária. E os gatos que achei no trajeto viram que tinham razão para agradecer por terem sido dotados de unhas afiadas.

Ao chegar à janelinha, meu amo disse a um desconhecido que estava comendo bolo com passas de Corinto:

– Meu cachorro e eu vamos para as Montanhas Rochosas.

Porém, o que mais me agradou foi que o velho, puxando-me as orelhas até me fazer gritar, disse:

– Oh, cachorrinho vulgar, cabeça de macaco, rabo de rato e cor de enxofre. Qual é teu nome?

Eu, pensando no nome Amante, soltei um triste lamento.

– Vou chamar-te Pedro – disse meu amo; e ao ouvir aquilo, ainda que tivesse cinco caudas, ter-me-iam parecido poucas para agitá-las em ação de graças, fazendo justiça ao acontecimento.

Fontes:
http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/oh_cachorro.shtml

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Isaac Asimov (1920 – 1992)

Isaac Asimov, (Petrovichi, 2 de Janeiro de 1920 — Nova Iorque, 6 de abril de 1992) foi um escritor e bioquímico famoso como popularizador da ciência e como autor de ficção científica, sendo suas séries mais populares Fundação e Robôs. Nesta última criou as famosas Três Leis da Robótica.

Asimov é autor de livros de divulgação sobre praticamente todos os campos do conhecimento e foi um dos homens mais cultos do século XX. Seu QI foi estimado em cerca de 175. Sabe-se que obteve um escore 135 no teste Eisenck, mas resolveu o teste inteiro na metade do tempo. Foi presidente honorário da Mensa, uma associação para pessoas superdotadas que conta com membros de 100 países.

Sua obra de ficção destaca-se por introduzir ao leitor leigo conhecimentos científicos e a idéia do método científico.

Biografia

Asimov nasceu entre 4 de Outubro de 1919 e 2 de Janeiro de 1920 em Petrovichi shtetl ou Óblast de Smolensk, RSFSR (agora Província de Mahilyow, Bielorrússia). A mãe foi Anna Rachel Berman Asimov e o pai Judah Asimov, um moleiro de uma família de Judeus. A sua data de nascimento não pode ser precisada por causa das diferenças entre o Calendário Gregoriano e o Calendário hebraico e por causa da falta de registros. Asimov celebrou sempre o seu aniversário a 2 de Janeiro. A família deriva o nome de ?????? (ozimiye), uma palavra da língua Russa que significa um cereal de inverno em que o seu bisavô negociava, ao qual o sufixo paterno foi adicionado. A sua família emigrou para os EUA quando ele tinha só 3 anos de idade. Como os seus pais falavam sempre hebraico e Inglês com ele, ele nunca aprendeu russo. Enquanto crescia em Brooklyn, New York, Asimov aprendeu por si próprio a ler quando tinha cinco anos, e permaneceu fluente em ídiche assim como em Inglês. Os seus pais tinham uma loja de doces, e toda a gente da família tinha de lá trabalhar. Revistas baratas de banda desenhada sobre ficção científica eram vendidas em lojas, e ele começou a lê-las. Por volta dos onze anos ele começou a escrever histórias próprias, e por volta dos dezenove anos, tendo-se tornado fã de ficção científica, ele começou a vender a vender as suas histórias a revistas. John W. Campbell, o editor de Astounding Science Fiction, foi uma forte influência formativa e tornou-se um amigo.

Asimov foi aluno das New York City Public Schools, inclusive a Boys’ High School, em Brooklyn, New York. A partir daí ele foi para a Universidade de Columbia, da onde se graduou em 1939, depois tirando um Ph. D. em bioquímica em 1948. Entretanto, passou três anos durante a Segunda Guerra Mundial a trabalhar como civil na Naval Air Experimental Station do porto da Marinha em Philadelphia. Quando a guerra acabou, ele foi destacado para o U.S. Army, tendo só servido nove meses antes de ser honrosamente retirado. Durante a sua breve carreira militar, ele ascendeu ao posto de cabo baseado na sua habilidade para escrever à máquina, e escapou por pouco de participar nos testes da bomba atômica em 1946 no atol de Bikini.

Depois de completar o seu doutoramento, Asimov entrou na faculdade de Medicina da universidade de Boston, com que permaneceu associado a partir daí. Depois de 1958, isto foi sem ensinar, já que se virou para a escrita full-time (as suas receitas da escrita já excediam as do salário acadêmico). Pertencer ao quadro permanente significou que ele manteve o título de professor associado, e em 1979 a universidade honrou a sua escrita promovendo-o a professor catedrático de bioquímica. Os arquivos pessoais de Asimov a partir de 1965 estão arquivados na Mugar Memorial Library da universidade, à qual ele os doou a pedido do curador Howard Gottlieb. A coleção preenche 464 caixas em setenta e um metros de prateleira.

Asimov casou com Gertrude Blugerman (1917, Canadá–1990, Boston) em 26 de Julho de 1942. Tiveram duas crianças, David (n. 1951) e Robyn Joan (n. 1955). Depois da separação em 1970, ele e Gertrude divorciaram-se em 1973, e Asimov casou com Janet O. Jeppson mais tarde no mesmo ano.

Asimov era um claustrofilo; ele gostava de espaços pequenos fechados. No primeiro volume da sua autobiografia, ele conta um desejo infantil de possuir uma banca de jornal numa estação de metro no New York City Subway, dentro da qual ele se fecharia e escutaria o ruído das carruagens enquanto lia.

Asimov tinha aviophobia, só o tendo feito duas vezes na vida inteira (uma vez durante o seu trabalho na Naval Air Experimental Station, e uma vez na volta para casa da base militar em Oahu in 1946). Ele raramente viajava grandes distâncias, em parte por causa da sua aversão a voar adicionada as dificuldades logísticas de viajar longas distâncias. Esta fobia influenciou varias das suas obras de ficção, como as historias misteriosas de Wendell Urth e as novelas sobre Robôs em que entrava Elijah Baley. Nos seus últimos anos, ele gostava de viajar em navios de cruzeiro, e em varias ocasiões ele fez parte do “entretenimento” no cruzeiro, dando palestras baseadas em ciência em navios como os RMS Queen Elizabeth 2. Asimov era sabia entreter muitíssimo bem, prolífico, e procurado como discursador. O seu sentido de tempo era fantástico; ele nunca olhou para um relógio, mas falava invariavelmente precisamente o tempo acordado.

Asimov era um participador habitual em convenções de ficção cientifica, onde ficava amável e disponível para a conversa. Ele respondia pacientemente a dezenas de milhares de perguntas e outro tipo de correio com postais, e gostava de dar autógrafos. Embora ele gostasse de mostrar o seu talento, ele raramente parecia levar-se a si próprio demasiado serio.

Ele era de altura mediana, forte, com bigode e um obvio sotaque Brooklyn-Hebreu. A sua motricidade física era bastante limitada. Ele nunca aprendeu a nadar ou andar de bicicleta; no entanto, ele aprendeu a conduzir um carro depois de se mudar para Boston. No seu livro de humor Asimov Laughs Again, ele descreve a condução em Boston como “anarquia sobre rodas”. Ele demonstrou o seu amor por conduzir na sua short story de ficção cientifica, ‘Sally’, sobre carros robô. Um leitor atento reparara que ele faz uma descrição detalhada de um dos carros a que chama ‘Giuseppe’, de Milan – o que significa que Giuseppe era um Alfa Romeo. Asimov não especificou nenhum outro tipo de veiculo em nenhuma das suas historias, o que levou muitos fãs a considerara que ele foi empregue por aquela marca de automóvel.

Os interesses variados de Asimov incluíram, nos seus anos tardios, a sua participação em organizações devotadas à opereta de Gilbert and Sullivan e em The Wolfe Pack, um grupo de seguidores dos mistérios de Nero Wolfe escritos por Rex Stout. Ele era um membro proeminente da Baker Street Irregulars, a mais importante sociedade a volta de Sherlock Holmes. De 1985 ate a sua morte em 1992, ele foi presidente da American Humanist Association; o seu sucessor foi o amigo e congênere escritor Kurt Vonnegut. Ele também era um amigo próximo do criador de Star Trek, Gene Roddenberry, e foram-lhe dados créditos em Star Trek: The Motion Picture pelos conselhos que deu durante a produção (dando a Paramount Pictures a impressão que as idéias de Roddenberry eram legitima especulação de ficção cientifica).

Asimov morreu em 6 de Abril de 1992. Ele deixou a sua segunda mulher, Janet, e as crianças do primeiro casamento. Dez anos depois da sua morte, a edição da autobiografia de Asimov, It’s Been a Good Life, revelou que a sua morte foi causada por SIDA; ele contraiu o vírus HIV através de uma transfusão de sangue recebida durante a operação de bypass em Dezembro de 1983. [1] A causa especifica de morte foi falha cardíaca e renal como complicações da infecção com o vírus da SIDA. Janet Asimov escreveu no epílogo de It’s Been a Good Life que Asimov o teria querido fazer publico, mas os seus médicos convenceram-no a permanecer em silencio, avisando que o preconceito anti-SIDA, se estenderia aos seus familiares. A família de Asimov considerou divulgar a sua doença antes de ele morrer, mas a controvérsia que ocorreu quando Arthur Ashe divulgou que ele tinha SIDA convenceu-os do contrario. Dez anos mais tarde, depois da morte dos médicos de Asimov, Janet e Robyn concordaram que a situação em relação à SIDA podia ser levada a publico.

No livro Escolha a Catástrofe, Asimov disserta sobre os futuros problemas que poderiam levar a humanidade à extinção e como a tecnologia poderia salvá-la. Em certa parte do livro, ele fala sobre a educação e como ela poderia funcionar no futuro.

“Haverá uma tendência para centralizar informações, de modo que uma requisição de determinados itens pode usufruir dos recursos de todas as bibliotecas de uma região, ou de uma nação e, quem sabe, do mundo. Finalmente, haverá o equivalente de uma Biblioteca Computada Global, na qual todo o conhecimento da humanidade será armazenado e de onde qualquer item desse total poderá ser retirado por requisição.”

“…Certamente cada vez mais pessoas seguiriam esse caminho fácil e natural de satisfazer suas curiosidades e necessidades de saber. E cada pessoa, à medida que fosse educada segundo seus próprios interesses, poderia então começar a fazer suas contribuições. Aquele que tivesse um novo pensamento ou observação de qualquer tipo sobre qualquer campo, poderia apresentá-lo, e se ele ainda não constasse na biblioteca, seria mantido à espera de confirmação e, possivelmente, acabaria sendo incorporado. Cada pessoa seria simultaneamente um professor e um aprendiz.”
Isaac Asimov – 1979

Asimov pretendia escrever 500 livros e, por pouco, não atingiu essa marca; escreveu 463 obras. Mas somando todos os livros, desenhos e coleções editadas totalizam-se 509 itens em sua bibliografia completa. Asimov pode ter escrito Opus 400, que seria uma comemoração de 400 publicações; contudo a lista de comemorativos da bibliografia vai apenas até o Opus 300.

Memórias de Asimov

À Gertrude, com a qual estive casado, muito satisfatoriamente, durante oito anos, um mês, duas semanas, um dia, duas horas, 45 minutos e alguns segundos“.

A dedicatória que abre uma de suas obras parece mais a afirmação do divórcio de Isaac Asimov. Asimov deu fim a sua vida matrimonial com Gertrude em suas Memórias, atrevendo-se por fim a expressar algumas opiniões não tão positivas e triunfantes como tinha por costume. Para Janet, sua segunda esposa, a quem dedica um livro, tem em troca, umas belas palavras: “minha companheira de vida e pensamento”. Confessou que lhe foi infiel e de seus dois filhos tidos com ela, Robyn era sua preferida. Adorava-a e sentia-se muito mal porque ele morreria e Robyn sofreria com isso. De seu outro filho, David, apenas umas linhas. De forma estranha confessa que seu matrimônio com Gertrude durou doze anos porque tinha dois filhos. É interessante somar-se à sua vida familiar a sinceridade com que Isaac trata este assunto e porque está muito longe da imagem de triunfador nato e otimista da que tanto lhe gostava se ostentar.

Asimov havia escrito outros dois livros de memórias. Terminou em 1990 e Janet teve que se encarregar de sua edição, que ocorreu dois anos depois, mesmo que Isaac nunca o tenha visto publicado. Seu último livro, escrito em 1991, foi “Asimov sorri de novo”, e depois apenas teve forças para realizar algum outro artículo periódico. Desde agosto de 1991, até a sua morte, em 6 de abril de 1992, sofreu um grande declive físico e teve constantes hospitalizações. De acordo com o que relata Janet, pelo menos, morreu em paz, em companhia de Robyn e dela mesma.

Alguns dos aspectos mais insuspeitos de Isaac Asimov se somam em suas memórias. Acostumado com seu excelente humor, sua megalomania simpática e sua hiperatividade contagiosa, neste último texto, o escritor reconhece que algumas matérias como a economia eram-lhe indigeríveis – Pág.54: “Não seria de nada escutar o professor nem estudar o tema. Pela primeira vez em minha vida tropecei com uma barreira mental, algo que não podia fazer entrar na minha cabeça” – e que seus estudos de licenciatura foram um fracasso: escolheu a química para doutorar-se por simples eliminação. Pág.83: “Eliminada a zoologia tive que escolher entre química ou física. Eliminei a física porque era muito matemática. Depois de muitos anos resolvendo a matemática facilmente, cheguei finalmente ao cálculo integral e me choquei contra uma barreira. Dei-me conta de que havia chegado o mais longe possível, e até hoje nunca pude ir mais além“.

Entre outros aspectos, tinha vertigem, odiava viajar, era um adicto ao trabalho e eludia qualquer situação incômoda (quando Janet esteve internada para ser operada de um câncer de mama, ele estava viajando!). Tudo isso foi compensado, como qualquer admirador sabe, com uma fé em si mesmo inquebrável e um conhecimento claro de quais eram seus talismãs. Pág. 84: “Começava a dar-me conta de que eu não era um especialista, de que em qualquer campo do conhecimento haveriam muitos que saberiam muito mais do que eu e que, talvez, poderiam ganhar vida e alcançar a fama nesse campo, enquanto eu não. Eu era um generalista, tinha conhecimentos consideráveis sobre quase tudo. Haviam muitos especialistas de cem ou de mil classes diferentes, mas, eu disse a mim mesmo, só haveria um Isaac Asimov“. E assim foi. É o escritor mais popular de ficção científica e de divulgação científica, até o ponto de seu nome ser garantia de vendas para qualquer livro do gênero. As editoras sabem e exploram isso. O escritor se perpetua assim, interminavelmente.

O grande orador que gostava de falar em público, era um amigo fiel e grato, que nunca deixou desamparados seus amigos.

Asimov estava apaixonado por si mesmo e encerrou estas Memórias com uma das frases mais tristes que só um homem que sabe que vai morrer pode confessar: “Não espero viver para sempre, não me aflijo por isso, mas sou fraco e gostaria de ser recordado eternamente“.

OBRAS

Série Fundação
Os romances dessas três séries foram publicados como histórias independentes. Mais tarde, Asimov sintetizou-os em uma simples e coerente ‘história’ que apareceu na extensão da série fundação.

Série Robô:
Caça aos Robôs (1954) (primeiro romance de ficção científica com Elijah Baley)
Os Robôs (1957) (segundo romance de ficção científica com Elijah Baley)
Os Robôs do Amanhecer (1983) (terceiro romance de ficção científica com Elijah Baley)
Os Robôs e o Império (1985) (seqüência da trilogia Elijah Baley)
O Homem Positrônico (1993) (com Robert Silverberg, um romance baseado no antigo conto de Asimov “The Bicentennial Man”)

Série Império Galáctico:
827 Era Galática (1950)
Poeira de Estrelas (1951)
As Correntes do Espaço (1952)

Trilogia Fundação:
Fundação (1951)
Fundação e Império (1952)
Segunda Fundação (1953)

Extensão da série Fundação:
Fundação II (em Portugal “No Limiar da Fundação”) (1982)
Fundação e a Terra (1986)
Prelúdio à Fundação (1988)
Crônicas da Fundação (em Portugal “Notas Para um Império Futuro”) (1993)

Romances que não fazem parte de séries
Fim da Eternidade (1955)
Viagem Fantástica (1966) (uma novelização do filme apresentando uma equipe de cientistas viajando dentro do corpo humano)
Despertar dos Deuses (1972)
Viagem Fantástica: Rumo ao cérebro (1987) (não é uma seqüência do primeiro Fantastic Voyage, mas sim uma história independente).
Nemesis (1989)
O Cair da Noite (1990) (com Robert Silverberg, um romance baseado em um conto mais antigo).
The Ugly Little Boy (1992) (com Robert Silverberg, um romance baseado em um conto mais antigo).
(Ainda que essencialmente independentes, alguns desses romances têm relações mínimas com a série “Fundação”.)

Coletâneas de pequenas histórias
Lista de pequenas histórias de Isaac Asimov
I, Robot – Eu, Robô (1950)
The Martian Way and Other Stories (1955)
Earth Is Room Enough (1957)
Nine Tomorrows (1959)
The Rest of the Robots (1964)
Nightfall and Other Stories (1969)
The Early Asimov (1972)
The Best of Isaac Asimov (1973)
Buy Jupiter and Other Stories (1975)
The Bicentennial Man and Other Stories (1976)
The Complete Robot (1982)
The Winds of Change and Other Stories (1983)
Robot Dreams (1986)
Azazel (1988)
Gold (1990)
Robot Visions (1990)
Magic (1995)

Mistérios
Romances
The Death Dealers (1958) (republicado mais tarde como A Whiff of Death)
Murder at the ABA (1976) (republicado mais tarde como Authorized Murder)

Coletâneas de pequenas histórias
Black Widowers and others
Asimov’s Mysteries (1968)
Tales of the Black Widowers (1974)
More Tales of the Black Widowers (1976)
Casebook of the Black Widowers (1980)
Banquets of the Black Widowers (1984)
The Best Mysteries of Isaac Asimov (1986)
Puzzles of the Black Widowers (1990)
Return of the Black Widowers (2003) contains stories uncollected at the time of Asimov’s death, in addition to contributions by Charles Ardai and Harlan Ellison

Não-ficção
Ciência popular
Adding a Dimension (1964)
Asimov on Numbers (1959)
Asimov’s Chronology of Science and Discovery (1989, second edition extends to 1993)
Asimov’s Chronology of the World (1991)
The Chemicals of Life (1954)
Choice of Catastrophes (1979)
The Clock We Live On (1959)
The Collapsing Universe (1977) ISBN 0-671-81738-8
The Earth (2004, revised by Richard Hantula)
Exploring the Earth and the Cosmos (1982)
The Human Brain (1964)
Inside the Atom (1956)
Isaac Asimov’s Guide to Earth and Space (1991)
The Intelligent Man’s Guide to Science (1965)
Jupiter (2004, revised by Richard Hantula)
Life and Energy (1962)
The Neutrino (1966)
Our World in Space (1974)
Quasar, Quasar, Burning Bright (1977)
Science, Numbers and I (1968)
The Secret of The Universe (1990)
The Solar System and Back (1970)
The Sun (2003, revised by Richard Hantula)
The Sun Shines Bright (1981)
The Universe: From Flat Earth to Quasar (1966)
Venus (2004, revised by Richard Hantula)
Views of the Universe (1981)
Words of Science and the History Behind Them (1959)
The World of Carbon (1958)
The World of Nitrogen (1958)

Guias
Asimov’s Guide to the Bible, vols I and II (1981)
Asimov’s Guide to Shakespeare
Outros
Opus 100 (1969)
The Sensuous Dirty Old Man (1971)
Asimov’s Biographical Encyclopedia of Science and Technology (1972)
Opus 200 (1979)
Isaac Asimov’s Book of Facts (1979)
The Roving Mind (1983) (collection of essays). Nova edição publicada por Prometheus Books(1997)

Conferência de Isaac Asimov na Universidade do Estado de Michigan (MSU) em 1974

“Quando eu publiquei meu primeiro livro, me fizeram muitas perguntas, como: ‘Bem, é bom? ’ – e eu realmente não sabia o que dizer. ‘O que dizem os corretores? ’ – e haviam muito mais perguntas.
E muito rápido me dei conta, que só havia uma maneira de solucionar aquilo. Eu rapidamente me sentei, e escrevi mais de 145 livros, e agora ninguém pergunta os nomes, ninguém pergunta se são bons, ninguém me pergunta… ninguém me pergunta nada!

Eles só dizem: ‘146 livros, uau! ’. Porque… porque você sabe, se você se detém pensando nisso. ‘Que diferença há se são bons ou ruins? Você já tentou escrever 146 livros ruins? ’.
Então a pergunta: ‘Bem, como você faz… como você faz para escrever tanto? ’.
Eu constantemente me pergunto. ‘Como faço para escrever todos esses livros? ’.
E a resposta é muito simples. Eu jogo fora os pensamentos, as dúvidas.
Você diz que você não acredita em mim, verdade? Mas é a verdade.
Você compreende quantos livros não são escritos por pensar-se?
Isto é, você escreve a primeira frase: ‘Era uma noite escura e chuvosa? ’.
E isso está bem! E você deveria seguir em frente, mas você não o faz.
Você comete o erro fatal de pensar e diz: ‘Não é suficientemente dramático’.

E você escreve… corrige, e volta a escrever de novo: ‘Uma noite escura e chuvosa, isso é o que era’.
E então você pensa: ‘Não, é muito dramático’.
Talvez você queira abrir um ar de incerteza: ‘Era uma noite escura e chuvosa? ’

E então você pensa um pouco mais, e você diz: ‘Não, não, eu… eu estou estropiando-o, isto é o anticlímax’. E você diz: ‘Era uma noite chuvosa e escura! ’. Bem, isto continua assim sempre, e você nunca escreve o livro?

Agora, bem, eu não faço isto. Eu começo com a promessa de que a maneira que eu escrevo na primeira vez é a certa. Como resultado, eu odeio os críticos literários. Eles podem observar, estudar e analisar, mas eles não podem fazê-lo.”

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Asimov

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Isaac Asimov (A Sensação de Poder)

“Em meu conto “A Sensação de Poder”, publicado em 1957, lancei
mão de computadores de bolso, cerca de dez anos antes de tais
computadores se tornarem realidade. Cheguei mesmo a
considerar a possibilidade de eles contribuírem para
que as pessoas acabassem perdendo a capacidade
de fazer operações aritméticas à maneira antiga.”
(Introdução – Isaac Asimov)

Jehan Shuman estava acostumado a lidar com os homens responsáveis pelas tropas espalhadas pela Terra. Era apenas um civil, mas tinha criado os programas que possibilitaram o surgimento dos mais avançados computadores automáticos de guerra. Consequentemente, os generais ouviam sua opinião. Os líderes das comissões parlamentares também.

Havia um militar e um político no salão especial do Novo Pentágono. O general Weider tinha um rosto bronzeado pelos raios de muitos sóis, e sua pequena boca, cheia de rugas, quase não aparecia. O deputado Brant tinha um rosto suave e olhos claros. Ele fumava um charuto denebiano com a segurança de alguém cujo patriotismo era tão notório que podia se permitir certas liberdades.

Shuman, alto, distinto, um típico programador de elite, encarou-os destemidamente.

– Cavalheiros – disse ele -, esse é Myron Aub.
– É aquele que tem um talento incomum, que você descobriu por acaso – disse Brant, sereno. – Ah. – Ele estudou o pequeno homem de cabeça oval e careca com uma curiosidade cordial.

Em resposta, o homenzinho torceu os dedos de suas mãos ansiosamente. Nunca tinha visto homens tão importantes em sua vida. Era um técnico envelhecido e sem importância, que há muito tempo tinha fracassado em todos os testes destinados a selecionar as pessoas talentosas da humanidade e se acomodara numa rotina de trabalhos não especializados. Tinha apenas um passatempo que, de pois de descoberto pelo grande programador, acarretara todo esse estardalhaço.

– Acho infantil esse clima de mistério – disse o general Weider.

– Vai deixar de achar em um minuto – disse Shuman. – Esse é o tipo de coisa que não pode vazar para qualquer um… Aub! Havia um pouco de autoritarismo na sua maneira de pronunciar esse nome monossilábico, mas, nesse caso, era o grande programador falando para um simples técnico. – Aub! Quanto é nove vezes sete?

Aub hesitou um pouco. Seus olhos pálidos brilharam, ligeiramente ansiosos.

– Sessenta e três – disse ele.

O deputado Brant levantou as sobrancelhas.

– Ele acertou?

– Veja você mesmo, deputado.

O deputado tirou seu computador de bolso, apertou as teclas duas vezes, olhou para a superfície na palma de sua mão e guardou-o.

– É esse o talento que você trouxe para nos mostrar? Um ilusionista?

– Mais que isso, senhor. Aub decorou algumas operações e com elas faz cálculos num papel.

– Um computador de papel? – disse o general. Ele parecia aflito.

– Não senhor – disse Shuman pacientemente. – Não é um computador de papel. É um simples pedaço de papel. General, o senhor faria a gentileza de sugerir um número?

– Dezessete – disse o general..

-E o senhor, deputado?.

– Vinte e três.

– Ótimo. Aub, multiplique esses números e, por favor, mostre a esses cavalheiros como você faz isso..

– Sim, programador – disse Aub, fazendo uma reverência com a cabeça. Tirou um bloco de um dos bolsos da camisa e do outro uma caneta de bico fino. Sua testa se enrugava enquanto desenhava meticulosamente no papel..

O general Weider interrompeu-o bruscamente..

– Deixe-me ver isso.

Aub entregou-lhe o papel..

– Bem, isso parece com o número dezessete – disse Weider..

O deputado Brant balançou a cabeça..

– Parece sim, mas eu acho que qualquer um pode copiar as figuras de um computador. Talvez até eu possa fazer um dezessete razoável, mesmo sem prática..

– Se vocês deixarem Aub continuar, cavalheiros – disse Shuman, sem se perturbar..

Aub continuou com as mãos um pouco trêmulas. Depois de algum tempo, disse em voz baixa:.

– A resposta é trezentos e noventa e um..

O deputado Brant checou de novo o computador. – Por Deus, é isso mesmo. Como ele adivinhou?

– Ele não adivinhou, deputado – disse Shuman. – Ele calculou o resultado nesse pedaço de papel..

– Conversa furada – disse o general, impaciente. – O computador é uma coisa, desenhos no papel são outra..

– Explique, Aub – pediu Shuman..

– Pois não, programador. Bem, eu escrevo dezessete, embaixo dele, escrevo vinte e três. Depois, digo comigo mesmo: sete vezes três.…

– Só que o problema é dezessete vezes vinte e três interrompeu-o o deputado, cortês..

– Sim, eu sei – disse o pequeno técnico, num tom sério. Mas eu começo por sete vezes três, porque é assim que funciona. Agora, sete vezes três são vinte e um..

– Como é que você sabe isso? – perguntou o deputado..

– É uma questão de memória. É sempre vinte e um no computador. Já conferi um monte de vezes..

– Isso não quer dizer que vai ser assim para sempre, não? disse o deputado..

– Talvez não – gaguejou Aub. – Não sou matemático. Mas as minhas respostas sempre estão certas..

– Continue..

– Sete vezes três é vinte e um, então eu escrevo vinte e um. Depois, um vezes três é três e, então, escrevo o três embaixo do dois de vinte e um.

– Por que embaixo do dois? – perguntou de pronto o deputado..

– Porque… – Aub olhou desesperado para o seu superior, como se estivesse pedindo ajuda. – É difícil de explicar..

– Se vocês aceitarem o seu trabalho por um momento, podemos deixar os detalhes para os matemáticos..

Brant se acalmou..

– Três mais dois é igual a cinco – disse Aub. – Então o vinte e um vira cinqüenta e um. Você deixa isso de lado um pouquinho e começa de novo. Você multiplica sete por dois, que é catorze e um por dois, que dá dois. Se você colocá-los assim, isso vai dar trinta e quatro. Agora coloque o trinta e quatro embaixo do cinqüenta e um dessa forma e faça a soma, então terá a resposta final, que é trezentos e noventa e um..

Houve um momento de silêncio..

– Não acredito nisso – disse o general Weider. – Ele vem com essa conversa furada e desenha os números, multiplica e soma dessa maneira, mas não acredito. Isso é muito complicado. Não passa de um truque..

– Não, senhor – disse Aub, ansioso. – Só parece complicado porque o senhor não está acostumado. Na verdade, as regras são muito simples e funcionam com qualquer número..

– Qualquer número, hein? – disse o general. – Então, vamos ver. – Pegou o seu computador (um modelo GI de estilo austero)e apertou-o ao acaso. – Escreva cinco sete três oito no papel. Isto é cinco mil, setecentos e trinta e oito..

– Sim, senhor – disse Aub, pegando uma folha em branco..

– Agora – mais toques no seu computador – sete dois três nove. Sete mil, duzentos e trinta e nove..

– Sim, senhor..

– Agora, multiplique esses dois números..

– Isso vai demorar um pouco – disse Aub, com uma voz trêmula..

– Fique à vontade – disse o general..

– Vá em frente, Aub – disse Shuman, incisivo..

Aub pôs-se a trabalhar, inclinando-se para baixo. Virou outra página e mais outra. O general pegou o relógio e viu as horas..

– Você já terminou o seu número de magia, técnico?.

– Estou terminando, senhor. Aqui está, senhor. Quarenta e um milhões, novecentos e trinta e sete mil, trezentos e oitenta e dois. Ele mostrou o resultado rabiscado no papel..

O general Weider sorriu amargamente. Ele pressionou o botão de multiplicação do seu computador e deixou os números rodopiarem até parar. Então ele olhou o resultado e gritou surpreso. – Grande Galáxia, esse cara está certo..

O Presidente da Federação Terrestre tinha adquirido uma expressão macilenta devido à longa permanência nos escritórios; nas audiências, ele permitia que uma expressão vagamente melancólica tomasse conta de suas feições. A guerra denebiana, depois de um breve começo de grande agitação e muita popularidade, tinha se restringido a uma sórdida questão de manobras e contramanobras, com o descontentamento crescendo continuamente na Terra. Provavelmente também estava crescendo em Deneb..

E agora, o deputado Brant, líder do importante Comitê de Apropriações Militares, estava alegre e entusiasmadamente desperdiçando a sua audiência falando barbaridades..

– Calcular sem um computador – disse o presidente, impaciente – é absolutamente impossível..

– Calcular – disse o deputado – é apenas um sistema de manipulação de dados. Uma máquina pode fazer isso, da mesma forma que a mente humana. Deixe-me dar-lhe um exemplo. E, usando as novas habilidades que tinha aprendido, desenvolveu somas e produtos até que o presidente, a despeito de sua desconfiança, se mostrou interessado. – Isso sempre funciona?.

– Sempre, Sr. Presidente. É infalível..

– É difícil de aprender?.

– Passei uma semana até pegar o macete. Acho que o senhor precisaria de menos tempo..

– Isso é um joguinho interessante – disse o presidente, depois de pensar um pouco. – Mas qual a sua utilidade?.

– Qual a utilidade de um bebê recém-nascido, Sr. Presidente? Por enquanto, não tem nenhuma utilidade, mas o senhor não vê, isso aponta o caminho que libertará a máquina. Pense bem Sr. Presidente. – O deputado se levantou e sua voz profunda automaticamente assumiu algumas das entonações que usava nos debates. – A guerra denebiana é uma guerra de computador contra computador. Os computadores deles produzem um escudo impenetrável de contramísseis contra os nossos mísseis, assim como os nossos fazem contra os deles. Quando modernizamos nossos computadores, eles também modernizam os deles, e há cinco anos existe um equilíbrio precário e inútil..

Agora temos em nossas mãos um método para ir além do computador, pular por sobre ele, ultrapassá-lo. Combinaremos a mecânica do computador com o pensamento humano; teremos o equivalente aos computadores inteligentes; bilhões deles. Não posso prever detalhadamente quais serão as conseqüências, mas elas serão incalculáveis. E, caso os denebianos se antecipem a nós nesse aspecto… o resultado pode ser uma catástrofe..

– O que podemos fazer? – disse o presidente, preocupado..

– Colocar o poder da administração em favor de um projeto secreto de computação humana. Chame-o de Projeto Número, se quiser. Posso me responsabilizar pelo meu comitê, mas vou precisar do apoio da administração..

– Mas até onde a computação humana pode ir?.

– Não há limites. De acordo com o programador Shuman, que me apresentou essa descoberta.…

– Já ouvi falar de Shuman, é claro..

– Sim. Bom, o Dr. Shuman me disse que, teoricamente, não há nada que um computador faça que não possa ser feito pela mente humana. O computador apenas processa um número finito de dados e opera um número finito de operações a partir deles. A mente humana pode reproduzir esse processo..

O presidente pensou um pouco..

– Se Shuman diz isso, estou inclinado a acreditar nele… em teoria. Mas, na prática, como alguém pode saber como um computador funciona?

Brant sorriu cordialmente..

– Sr. Presidente, eu fiz a mesma pergunta. Ao que parece, houve uma época em que os computadores eram projetados diretamente pelos seres humanos. Eram computadores simples; antecederam a época em que o uso racional dos computadores fez com que eles projetassem computadores mais avançados.

– Sim, sim. Continue.

– Aparentemente, o técnico Aub conseguiu, por puro lazer, reconstituir alguns desses velhos esquemas, estudou os detalhes do seu funcionamento e descobriu que podia copiá-lo. A multiplicação que acabei de fazer para o senhor é uma imitação do funcionamento de um computador.

– Surpreendente!

O deputado tossiu educadamente.

– Se posso fazer mais uma observação, Sr. Presidente… quanto mais pudermos desenvolver essa coisa, mais poderemos desviar nosso esforço federal da produção de computadores e de sua manutenção. Assim que o cérebro humano assumir o poder, nossas melhores energias poderão ser canalizadas para procurar a paz, e a influência da guerra nos homens comuns será menor. Isso será mais vantajoso para o partido no poder, é claro.

– Ah – disse o presidente. – Entendo o que você quer dizer. Bem, sente-se, deputado, sente-se. Preciso de algum tempo para pensar. Enquanto isso mostre-me esse truque da multiplicação de novo. Deixe ver se eu consigo pegar o macete. O programador Shuman não tentou apressar o assunto. Loesser era conservador, muito conservador, e gostava de lidar com os computadores da mesma forma como seu pai e seu avo. Mesmo assim, ele controlava o monopólio de computadores do oeste europeu; se conseguisse entusiasmá-lo com o Projeto Número, um passo muito grande seria dado.

Mas Loesser continuava com um pé atrás

– Não sei se gosto da idéia de afrouxarmos as nossas rédeas sobre os computadores. A mente humana é uma coisa caprichosa. O computador sempre nos dará a mesma resposta para o mesmo problema. Qual a garantia que temos de que com a mente humana será assim?

– A mente humana, Loesser, apenas manipula os fatos. Não importa se a mente humana ou a máquina faz isso. Elas são apenas instrumentos.

– Sim, sim. Acompanhei sua engenhosa demonstração de que a mente humana pode imitar o computador, mas isso me parece um pouco vago. Aceito a teoria, mas que razão n6s temos para achar que a teoria será confirmada na prática?

– Acho que temos uma razão, senhor. Afinal de contas, os computadores não existiram sempre. O homem das cavernas, com suas trirremes, machados de pedra e estradas de ferro, não tinha computadores .

– E provavelmente não sabia calcular.

– Você sabe muito bem que sim. Até a construção de uma estrada de ferro ou de um zigurate requeria algum tipo de cálculo, e, como nós sabemos, isso foi feito sem computadores.

– Você está sugerindo que eles calculavam da mesma maneira que você me mostrou?

– Provavelmente não. Afinal de contas, esse método, que, a propósito, chamamos de “grafítico”, da velha palavra européia graphos, que quer dizer “escrita”… esse método foi desenvolvido a partir dos próprios computadores, portanto não pode ter sido usado pelos primitivos. Ainda assim, o homem das cavernas deve ter tido algum método, não?

– Artes perdidas! Se você está falando de artes perdidas…

– Não, não é isso. Não sou um entusiasta das artes perdidas, embora não afirme que não exista nenhuma. Afinal, o homem comia cereais antes de aprender a fazer culturas hidropônicas, e se os primitivos comiam cereais, eles deviam cultivá-los no solo. De que outra forma poderiam ter conseguido?

– Não sei, mas só acreditarei em terra cultivada quando vir algum grão crescer no chão. Também só acreditarei que se faz fogo esfregando uma pedra na outra no dia em que me mostrarem que isso é possível.

Shuman tentou ser conciliador.

– Bem, vamos nos ater aos graníticos. Isto tudo faz parte do processo de eterificação. O transporte por meio de pesados equipamentos está sendo substituído por transferência direta de massa. Os instrumentos de comunicação se tornam cada vez mais leves e mais eficientes. Por causa disso, compare seu computador de bolso com aquelas engenhocas pesadas de mil anos atrás. Então, por que não dar também o Ultimo e definitivo passo, e abolir os computadores? Vamos, senhor, o Projeto Número é inevitável; ele está progredindo rapidamente. Mas queremos sua ajuda. Se o patriotismo não for suficiente para engajá-lo, pense na aventura intelectual que está em jogo.

– Que progresso? – disse Loesser com ceticismo. – O que você pode fazer além de multiplicar? Pode integrar uma operação transcendental?

– Dentro em breve, senhor, Dentro em breve. No mês passado, aprendi a dividir. Posso determinar, e corretamente, quocientes inteiros e quocientes decimais.

– Quocientes decimais? De quantas casas?

O programador Shuman tentou manter um tom natural.

– Qualquer número!

Loesser ficou de queixo caído.

– Sem um computador?

– Faça um problema.

– Divida vinte e sete por treze. Em seis casas.

Cinco minutos depois, Shuman disse:

– Dois, vírgula, zero sete meia nove dois três.

Loesser conferiu.

– Isso é realmente fantástico. A multiplicação não me impressionou muito porque, afinal, isso envolvia números inteiros e acho que uma hábil manipulação pode conseguir isso. Mas decimais…

– E isso não é tudo. Há uma nova pesquisa em curso que até agora é ultra-secreta e que, falando sinceramente, não posso revelar. Mesmo assim… estamos perto de aprender a fazer uma raiz quadrada.

– Raiz quadrada?

– Ainda tem algumas coisas pendentes e não conseguimos acertar na mosca, mas o técnico Aub, o homem que inventou essa ciência e que tem uma incrível sensibilidade para a coisa, assegura que está prestes a resolver o problema. E ele é apenas um técnico. Um homem como o senhor, um matemático talentoso e tarimbado, não encontraria tanta dificuldade.

– Raiz quadrada – resmungou Loesser, encantado.

– Raiz cúbica também. E então? Está conosco?

Loesser levantou a mão rapidamente.

– Pode contar comigo.

O general Weider marchava de um lado para o outro da sala e se dirigia aos ouvintes à sua frente como se fosse um professor ranzinza diante de uma turma de estudantes indóceis. Pouco lhe importava se eram os cientistas civis que coordenavam o Projeto Número. O general era um líder em todos os lugares e assim se comportava em todos os momentos de sua vida.

– Nenhum problema com as raízes quadradas, então – disse ele. – Eu mesmo não sei como fazê-las, mas já estão concluídas. Mesmo assim, não vamos interromper o projeto só porque já solucionamos os problemas que alguns de vocês consideram essenciais. Vocês podem fazer o que quiserem com os grafíticos depois que a guerra acabar, mas, nesse exato momento, temos problemas específicos que precisam ser solucionados.

Num canto distante, o técnico Aub ouvia aflito. É claro que há muito tempo deixara de ser um técnico, tendo sido dispensado de suas tarefas e convocado a participar do projeto, com um título pomposo e um ótimo salário. Mas é claro que as diferenças sociais permaneciam e os líderes científicos, altamente classificados, jamais o aceitariam em seu meio ou o tratariam em pé de igualdade.

E Aub tampouco desejava isso. Sentia-se tão incomodado entre eles como eles se sentiam incomodados na sua presença.

– Nós só temos uma meta, cavalheiros – estava dizendo o general. – Substituir os computadores. Uma nave que possa viajar pelo espaço sem um computador a bordo pode ser construída em um quinto de tempo e por um décimo dos custos de uma nave computadorizada. Poderíamos ter frotas especiais cinco ou dez vezes maiores do que as de Deneb se eliminássemos os computadores. E até vejo mais além disso. Talvez agora pareça loucura ou um simples sonho. Mas no futuro eu posso ver mísseis tripulados .

Houve um instantâneo murmúrio por parte da platéia.

O general prosseguiu:

– No momento, nosso problema principal é que a inteligência dos mísseis é limitada. O computador que os controla não pode alterar o rumo programado e, por essa razão, eles sempre acabam sendo detidos por antimísseis. Poucos mísseis, se é que algum consegue chegar a seu objetivo, e a guerra de mísseis está prestes a acabar; felizmente, tanto para o inimigo, como para nós.
Por outro lado, um míssil com um ou dois homens dentro, controlando o vôo com graníticos, seria mais leve, mais ágil e mais inteligente. Isso nos daria uma vantagem que pode significar a vitória. Além disso, cavalheiros, as necessidades da guerra nos obrigam a lembrar de uma coisa. Um homem é mais descartável do que um computador. Mísseis tripulados podem ser lançados em maior número e sob circunstâncias que nenhum general empreenderia se usasse mísseis computadorizados.

Ele discorreu sobre muito mais coisas, mas o técnico Aub não esperou. O técnico Aub, na intimidade dos seus aposentos, elaborou cuidadosamente sua carta de despedida. Ela dizia o que se segue: “Quando comecei a estudar o que agora chamam de graníticos, isso não passava de um passatempo. Nada mais do que um agradável passatempo, um exercício para a cabeça.

Quando o Projeto Número começou, achava que as pessoas fossem mais esclarecidas do que eu e que os graníticos poderiam ser usados para ajudar a humanidade, apoiando a modernização dos instrumentos necessários à transferência de massas. Mas agora vejo que ele só será usado para a morte e a destruição.

Não posso suportar a responsabilidade de ter inventado os grafíticos.

Depois, virou contra si o foco do despolarizador de proteínas e morreu instantaneamente.
Eles se reuniram em torno do túmulo do pequeno técnico para prestar-lhe honra por sua notável descoberta.

O programador Shuman fez uma reverência com a cabeça, junto com os outros, mas continuou imóvel. O técnico tinha dado sua contribuição e não era mais necessário. Ele podia ter começado os graníticos, mas agora que o projeto já estava em andamento, iria se desenvolver automaticamente até triunfar, tornando os mísseis tripulados uma realidade, juntamente com tantas outras coisas.

Nove vezes sete, pensou Shuman com orgulho, sessenta e três. Não precisava mais que um computador lhe dissesse isso. Sua própria cabeça era um computador. E isso lhe dava uma fantástica sensação de poder.

Fonte:

ASIMOV, Isaac. Sonhos de Robô. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1991. p. 320/330
http://sobral.tripod.com/poder/poder.html

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Isaac Asimov (Alguns de Seus Livros)

Eu, Robô – O Livro e o Filme

O Livro foi lançado em 1950.
O Filme estreou em 2004.

Em um cenário futurista surge o detetive Del Spooner (Will Smith) e logo percebemos que algo o incomoda no ambiente que o envolve: robôs dividem espaços com seres humanos nas ruas daquela cidade, se encarregando das chamadas tarefas mais pesadas do dia a dia social – são lixeiros, entregadores, trabalhadores domésticos.

Spooner é um policial atormentado por um trauma recente que amplifica sua desconfiança em relação aos robôs. Para ele, a qualquer momento uma dessas máquinas irá comprovar sua tese de que não se pode confiar em robôs. Para todas as outras pessoas, essa é uma tese paranóica, já que todos os humanóides (robôs com forma similar à humana) saem das linhas de produção da poderosa companhia U.S. Robots programados com as três leis da robótica:

Este é o código criado pelo cientista Alfred Lanning (James Cromwell) que, segundo a garantia da U.S. Robots e a crença geral da população, determina total proteção contra a famosa “síndrome de Frankenstein”, pela qual a criatura tende a voltar-se contra seu criador.

É nesse ambiente que se passa Eu, Robô, superprodução dos estúdios da Fox norte-americana inspirada em um livro de contos homônimo do escritor russo-americano Isaac Asimov (1920-1992, criador original das chamadas leis da robótica) que chega às telas brasileiras nesta quinta-feira, 5 de agosto. O filme explora as possíveis contradições que podem subverter a razão das leis da robótica e que permitam que os robôs venham a se transformar em uma ameaça à humanidade.

Eu, Robô – dirigido por Alex Proyas (de Cidade das Sombras e O Corvo) – trabalha seu roteiro passando da discussão filosófica sobre a possibilidade de o ser humano criar uma máquina que possa desenvolver inteligência suficiente para tornar-se completamente autônoma para a ação policial tão cara à produções cinematográficas de Hollywood.

A trama (desde sua origem, nos contos de Asimov, e também no próprio roteiro do filme, de Jeff Vintar e Akiva Goldsman) traz elementos que são referências de histórias que alimentam o universo da cultura ocidental como: Frankenstein (a criatura que se volta contra o criador) e Pinóquio (a criatura que quer ser gente) na literatura; Blade Runner (a luta pela sobrevivência dos andróides e a procura por seu criador), 2001 – Uma Odisséia no Espaço (a máquina que assume o controle em lugar do homem) e Inteligência Artificial (a humanização de um andróide), no cinema; e outras até mais prosaicas, como a série de TV Ciborg (que retrata o implante de próteses biônicas em um ser humano) e o desenho animado Os Jetsons (quem não se recorda da arrumadeira da família, com seu corpo de metal vestindo avental e touca de doméstica?).

Evidente que como toda boa superprodução dos Estados Unidos, um herói (Spooner) – que em um primeiro momento é considerado um outsider – vai se defrontar com dramas provocados pelo inesperado (não para ele), onde o desenvolvimento da inteligência artificial foge ao controle do criador, a ponto de essa “consciência eletrônica” poder reinterpretar da forma que lhe parece mais adequada as regras estabelecidas nas leis da robótica.

Os efeitos especiais são um capítulo à parte. Mas como a excelência nesta área vem estabelecendo novos parâmetros a cada produção desde o primeiro episódio da série Matrix, esses efeitos acabam sendo diluídos na trama de forma a serem praticamente acessórios. É claro que sem o uso desses efeitos, a trama pareceria muito menos verossímil. Vale lembrar ainda que o robô que se torna centro da trama, Sonny, é representado pelo ator Alan Tudyk, sobre cuja atuação é montada uma “maquiagem eletrônica” para que o exemplar se encaixe no desenho padrão dos modelos NS-5 (Assistente Doméstico Automático) produzidos pela U.S. Robots.

Durante a trama, é interessante observar a evolução de Sonny, um robô “único”, desenhado e criado pelo doutor Alfred Lanning – principal pesquisador e um dos fundadores da U.S. Robots – para ser especial. Ele demonstra emoções, sentimentos e tem a capacidade especial de sonhar (capacidade que vai até se transformar em um dom premonitório, como se verá ao final do filme).

ROBBIE
Destaques para Robbie, publicado originalmente com o título “Strange Playfellow”, a primeira história sobre robôs escrita por Asimov, na qual as Três Leis da Robótica são explicitamente apresentadas pela primeira vez.

– George, eu disse! Quer largar esse jornal e olhar para mim?
O jornal caiu ao chão e Weston virou o rosto cansado para fitar a mulher.
– O que é, querida?
– Você sabe o que é, George. Trata-se de Glória e daquela máquina terrível.
– Que máquina terrível?
– Ora, não finja que não sabe de que estou falando. É aquele robô que Glória chama de Robbie. Ele não a deixa por um só instante.
– Bem, por que haveria de deixar? Não deve deixá-la. E, certamente, não é uma máquina terrível. É o melhor robô que se pode comprar e pode ter absoluta certeza de que me custou meio ano de ordenado. Valeu a pena, porém; ele é muito mais inteligente do que a metade de meus empregados do escritório.
Fez menção de pegar novamente o jornal, mas sua esposa foi mais rápida, apanhando-o primeiro. – Escute, George. Não admito que minha filha seja entregue a uma máquina… e não me interessa o quanto ela seja inteligente. Não tem alma. Ninguém sabe o que pode estar pensando. Uma criança não foi feita para ser guardada por um objeto de metal.
Weston franziu a testa.
– Desde quando você decidiu isso? Há dois anos que ele está com Glória e só agora você se preocupa.
– No início, era diferente. Uma novidade; tirava-me uma carga dos ombros e… era uma coisa elegante. Mas agora, não sei… Os vizinhos…
– Ora, o que têm os vizinhos a ver com o assunto? Ouça: pode-se ter infinitamente mais confiança em um robô do que em uma ama-seca humana. Na realidade Robbie foi construído exclusivamente com uma finalidade: fazer companhia a uma criança pequena. Toda a sua “mentalidade” foi criada com esse único objetivo. Ele não pode deixar de ser fiel, carinhoso e bom. É uma máquina – feita assim. O que é bem mais do que pode dizer a respeito dos seres humanos.
– Mas poderia acontecer algo errado. Algum… algum… – a Sra. Weston era um tanto ignorante a respeito dos órgãos internos de um robô – … alguma pecinha poderá soltar-se e aquela coisa horrível ficar maluca e… e…
Interrompeu-se, não conseguindo dizer em voz alta um pensamento tão óbvio.
– Tolice – negou Weston, com um involuntário estremecimento nervoso. –Isso é completamente ridículo. Na época em que compramos Robbie, tivemos uma longa conversa sobre a Primeira Lei da Robótica. Você sabe que é impossível a um robô fazer mal a um ser humano; que muito antes de acontecer o bastante para alterar a Primeira Lei, o robô se tornaria completamente inoperante. Trata-se de uma impossibilidade matemática. Além disso, eu chamo um engenheiro da U.S. Robôs duas vezes por ano e ele faz uma revisão completa no pobre aparelho. Ora, não há maior possibilidade de acontecer algo errado com Robbie do que eu ou você ficarmos birutas de uma hora para outra. Na verdade, as probabilidades são consideravelmente menores, e além disso, como é que você vai tirá-lo de Glória?
Fez um novo gesto inútil para apoderar-se do jornal, mas a mulher atirou raivosamente o Times para a outra sala.
– É justamente isso, George! Ela não brinca com mais ninguém. Há dúzias de meninos e meninas com quem poderia fazer amizade, mas ela se recusa. Nem mesmo chega perto deles, a menos que eu a obrigue. Uma menina não deve crescer assim. Você quer que ela seja normal, não quer? Quer que ela seja capaz de representar o seu papel na sociedade.
– Você está com medo de fantasma, Grace. Finja que Robbie é um cachorro. Já vi centenas de crianças que gostam mais de um cachorro do que do próprio pai.
– Um cachorro é diferente, George. Precisamos livrar-nos daquela coisa horrível! Você pode vendê-lo de volta à companhia. Já indaguei a respeito e sei que pode.
– Indagou? Ora, escute aqui, Grace, não vamos bancar idiotas. Ficaremos com o robô até Glória crescer um pouco mais, e não quero que se volte a tocar no assunto.
E saiu da sala, amuado.

O Homem Bicentenário
Lançamento 1976

Isaac Asimov considera esta novela a melhor história de robô que ele escreveu até hoje e “comparável aos meus maiores êxitos em qualquer outro gênero literário”. Os críticos também concordam com esta opinião. Destinada a figurar em uma antologia que publicou em 1976 para festejar o segundo século da independência dos Estados Unidos, Asimov partiu do título para, aos poucos, criar os pormenores da trama. Estava combinado para 7.500 palavras, mas o autor se deixou empolgar e acabou tendo o dobro. O homem bicentenário, de forma premonitória, toca em problemas que certamente já se colocam nos altos escalões da pesquisa científica. Aqui, Andrew, o robô perfeito, extremamente inteligente, angustiantemente persegue as fragilidades humanas e se torna personagem desta que é uma obra-prima da ficção científica.

Despertar dos Deuses
Lançamento 1972

Que peripécias viverá a humanidade no futuro? Num mundo que sobreviveu a tremenda crise ecológica e que tem fome de energia? Quais os problemas que enfrentará? Do contato da Terra com um desconhecido Universo paralelo surgem terríveis enigmas imprevistos. Como evitar a catástrofe, que virá com a subversão das leis da natureza, se, contra a estupidez humana, os próprios deuses disputam em vão?

Da Terra, à beira da tragédia, somos levados por Isaac Asimov ao estranho e misterioso Universo paralelo, onde seres dotados de inteligência se conduzem de acordo com um padrão de vida completamente estranho ao nosso. E dali somos transferidos ao mundo Selenita, com a sua colônia humana já estabelecida e já desenvolvendo novas formas de convivência social. A essas situações fascinantes se acrescenta a emoção das paixões conflitantes de personagens inesquecíveis desenhados com invulgar maestria literária. Protagonistas de episódios cuja sucessão alucinante não esconde uma meditação profunda, em verdade projetada no futuro a partir da experiência crucial de nossa era.

Fim da Eternidade

Lançamento 1955

Qual seria a nossa atitude se descobríssemos que nossa individualidade como seres humanos poderia ser totalmente anulada por um sistema social maior, dominado pela máquina? E qual seria a atitude sensata e válida a ser tomada se tivéssemos que escolher entre a nossa existência, tal como a desejamos, e a continuidade do mundo de que dependemos, mas que é contrário às nossas aspirações?

Eternidade é uma organização dedicada a cuidar da humanidade, que se move em um tempo paralelo, medindo o tempo em séculos, pulando de um século a outro, entrando e saindo de nosso tempo real, para efetuar microtrocas (TMN: Troca Mínima Necessária, que provoca o RMD: Resultado Máximo Desejado) que suavizem o curso dos acontecimentos e criem o bem total. O processamento de pequenas mudanças no Tempo era a forma ideal de se recuperar o equilíbrio perdido.

Para isso escolhe-se uma das infinitas realidades possíveis, e faz-se os ajustes para que esta produza, mas a escolha do consenso sempre é uma escolha que elimina o extraordinário, que cria proteção e segurança à espécie humana, etc…, e por sua vez elimina as genialidades que provocam saltos na ciência humana.

Eternidade se estende pelos séculos dos séculos de forma infinita, e há uma série de séculos, que vão do ano 70.000 ao 150.000.

Esta é uma das melhores novelas de Asimov. O protagonista é Andrew Harlan, um executor encarregado de realizar as trocas que modificarão a realidade.

Asimov nos descreve uma sociedade estruturada, encarregada de dirigir os destinos da humanidade, e uma força em desacordo com o sistema instaurado que pretende mudar definitivamente essa organização, eliminando a Eternidade.

Viagem Fantástica
Lançamento 1966

O Doutor Benes, científico especialista em miniaturização, vai ao lado ocidental. Resolve o Princípio da Incerteza, pelo que diz: “quanto mais se reduz um objeto, menos tempo se permanece”. Eles – é assim como chamam os Soviéticos –, atentam contra sua vida. Um carro lançado choca contra o carro de Benes; quando o transportam à base, provoca-lhe um coágulo no cérebro, e a única forma de eliminá-lo é desde dentro do cérebro. As Forças Dissuasórias de Miniaturização Combinada (FDMC) bolam um plano para salvá-lo. Miniaturizarão um submarino com cinco tripulantes, o introduzirão em sua corrente sangüínea através da artéria carótida, subirão ao cérebro, eliminarão o coágulo e serão extraídos depois – aparentemente muito simples.

A crítica internacional é unânime em considerar Viagem Fantástica uma das melhores novelas de ficção científica jamais escritas. A densidade da ação mantém um clima de suspense constante e, pela primeira vez, alguém concebeu uma viagem onde o ambiente é o corpo humano.

As possibilidades infinitas da ciência moderna e o clima de otimismo que cercam as constantes descobertas parecem ultrapassar todas as barreiras do possível.

Tripulação
Pete Lawrence Duval – neurocirurgião.
Cora Peterson – ajudante do Doutor Duval.
Max Michels – especialista em circulação sanguínea e cartógrafo da nave.
Capitão Wiliam Owens – piloto do submarino.
Charlie Grant – agente do serviço secreto, herói e chefe da expedição.

Enigmas dos Viúvos Negros
Lançamento 1990

Enigmas dos Viúvos Negros é uma coletânea de doze histórias de mistério, escrita por Isaac Asimov, sobre as aventuras pelos caminhos do raciocínio de sete intelectuais, que formam o Clube dos Viúvos Negros. Uma vez por mês esses aventureiros cerebrais se encontram para jantar, conversar e solucionar enigmas, tudo isso regado a bons vinhos, no Restaurante Milano, onde são sempre servidos por Henry, cuja habilidade vai bem além da de um mero garçom.

Os Viúvos Negros recebem um convidado em cada um desses jantares que, depois da refeição, é submetido a uma bateria de perguntas sobre o modo como justifica sua existência. Mas o convidado quase sempre está enfrentando algum tipo de dificuldade, ou tem um problema que não consegue resolver, ou ainda está envolvido num mistério.

Em Enigmas dos Viúvos Negros, traições, desaparecimentos e mistérios são o prato principal de cada novo jantar.

Nêmesis
Lançamento 1989

Nêmesis não faz parte do Ciclo de Trantor. É um livro que também trata da conquista do Universo, mas não tem nada à ver nem com o Império, nem com os Robôs.

O ano é 2236. A Terra e suas cem colônias espaciais estão superpovoadas, decadentes, ultrapassadas. À dois anos-luz de distância, escondida por uma nuvem de poeira, está Nêmesis, a estrela mais próxima do Sol, em torno da qual gira o planeta Megas, com o satélite natural Eritro e o artificial Rotor.
Quando Nêmesis foi descoberta, os rotorianos a consideraram como a última esperança da raça humana, ponto de partida para uma nova civilização. E foi sob a liderança do comissário Janus Pitt, homem de forte personalidade, que eles viajaram secretamente para o sistema nemético com o objetivo de fundar uma sociedade mais forte, mais pura e mais organizada que aquela que haviam deixado para trás.

Mas Marlene, uma jovem rotoriana dotada de uma incomum habilidade de interpretar, pelos indícios do corpo, as mais bem guardadas emoções humanas, descobre que a promissora estrela é, na verdade, uma terrível ameaça para a Terra. Pitt está a par de todo o segredo, mas se recusa a prevenir os terráqueos; e Marlene sabe que se não agir rápido, o desastre será inevitável.

O cair da noite
Lançamento 1969

No planeta Kalgash sempre é de dia. Seus seis sóis – Onos, Trey, Petru, Dovim, Tano e Shita – fazem com que o céu esteja sempre azul. Essa falta de escuridão provoca aos habitantes de Kalgash a Síndrome da Escuridão, pânico de não ter luz.

Os protagonistas da história são Siferra 89, uma arqueóloga da Universidade de Saro, que descobre debaixo das ruínas do que se supõe ser um assentamento antigo, restos de cidades; Beenay 25, astrônomo que descobre um erro na Teoria da Gravitação Universal de Athor 77, seu mestre, já que os sóis não seguem as órbitas previstas. Talvez por haver um sétimo Sol?

Mondior 71, sumo sacerdote e Folum 66, sua voz, líderes dos Apóstolos da Chama, predizem que depois de um Ano de Graça, 2049 anos de Kalgash, os deuses comprovarão a bondade da humanidade, e se não passarem na prova, destruirão a Terra, enviando Chamas Celestiais. Segundo o Livro das Revelações, isso acontecerá logo; concretamente em 19 de theptar. Thermon 762 é um periodista do diário Crônica que investigará a notícia do Fim do Mundo. Mas, o que aconteceria se a Escuridão chegasse a Kalgash?

Fundação
Lançamento 1975

A trilogia Fundação mostra a evolução de uma crise histórica num imenso Império Galáctico humano. O homem povoa os planetas da Galáxia, a capital localizada em Trantor, centro de todas as intrigas, símbolo da decadência imperial. Graças à psicohistória, uma ciência que estuda os fatos históricos à luz da matemática, Hari Seldon prevê o desaparecimento do Império e o retorno à barbárie. Tem então a idéia de criar duas Fundações situadas em cada extremo da Galáxia, para reduzir o tempo de barbárie a um milênio.

Seldon acaba sendo detido e julgado como traidor, entretanto consegue convencer seus juízes de que deseja apenas preservar o saber do Império através de uma fundação enciclopédica. A partir de então começa a trama real da história que se entrelaça de tal forma que prende o leitor até suas últimas páginas.

Fundação, talvez um dos livros mais conhecidos da ficção científica, está formado realmente por cinco histórias, que narram o início da andadura do planeta Terminus, onde se inicia o projeto da Fundação para acordar o período de barbárie, que continuará com a queda do Primeiro Império Galáctico.

1º : Os psicohistoriadores

A chegada de Gaal Dornick a Trantor, matemático convidado por Hari Seldon para colaborar no projeto da psicohistória, permite explicar a Asimov o projeto da Fundação, como o estabelecimento de uma Fundação em um planeta distante permitirá reduzir o período de anarquia entre a queda inevitável do Primeiro Império e a chegada do Segundo Império.

2º: Os enciclopedistas

Estabelecidos já em Terminus, e transcorridos 50 anos, os membros do projeto Fundação chegam à primeira crise de Seldon. As crises poderiam definir-se como momentos de tensão, por motivos internos ou externos, que habitualmente exigem uma mudança ou uma ação. Além disso, toda crise tem um prego para sustentá-la e levar a Fundação na direção adequada. Aparece a figura de Salvor Hardin, um dos primeiros alcaides de Terminus, que encontra a solução para a crise.

3º: Os alcaides

Terminus estendeu sua influência mediante uma combinação de religião amparada baixo a superioridade científica. Anacreonte, um dos planetas mais próximos, tenta dominar Terminus, ou seja, é uma crise exterior resolvida pelo alcaide Salvor Hardin.

4º: Os comerciantes

A Fundação continua estendendo-se pela Galáxia, com uma combinação de comércio e religião, mas começam a surgir as dificuldades. Assim requere-se uma nova mudança, que como todas as mudanças produz resistência.

5º: Os príncipes comerciantes

A influência de Terminus foi aumentando. Começa a abandonar-se a religião, e o comércio é o meio de conseguir o poder e dominar o resto do Universo.

Segunda Fundação

Formada por dois relatos. Com personagens diferentes, ambas se centralizam no mesmo: a busca da Segunda Fundação para sua eliminação.

O Mulo inicia a busca

O Mulo convertido no Primeiro Cidadão da União de Mundos não abandonou sua intenção inicial de localizar a Segunda Fundação; estendeu rapidamente seu domínio pela Galáxia, mas continua temendo a única força que realmente pode vencê-lo: a Segunda Fundação. Aqui nos relatam o encontro entre essas duas forças.

A busca da Fundação

O Mulo envelheceu e morreu. Voltaram ao poder os governantes da Primeira Fundação, encontrando-se com um Império maior, mas a Primeira Fundação não abandonou seu plano de localizar e destruir a Segunda Fundação. Por outro lado, a subida ao poder do Mulo demonstrou que a Fundação não é invencível e Kalgan declara-lhes guerra.

Fundação II
Lançamento 1982

A Primeira Fundação conservou e depois propagou as ciências físicas; a outra, a Segunda Fundação, oculta aos olhos de todos – secreta mesmo –, controlava cada vez mais o desenvolvimento psicohistórico da Galáxia, rumo ao Segundo Império, com o auxílio do domínio da mente – a ciência mental. Mas a psicohistória é uma ciência estatística – e a margem de erro acabou aparecendo.

Um mutante, o Mulo, surgiu do nada, com poderes mentais numa Galáxia que não os tinha, exceto pela clandestina Segunda Fundação. Os exércitos desistiam de combatê-lo e se tornavam submissos.

A Primeira Fundação, que aos poucos ia substituindo e reconstruindo o Império, foi desbaratada. O Plano de Seldon voltou a ser apenas um sonho teórico. Por uma mulher, Bayta Darell e pela Segunda Fundação, o Mulo foi detido. Mas, com este movimento, a Primeira Fundação descobriu a existência da Segunda, e seus membros, fortemente independentes, imperialistas e individualistas, não querem uma Galáxia controlada por marioneteiros telepáticos; destruíram tudo que puderam descobrir da Segunda Fundação. Passados quase 500 anos depois do estabelecimento da Primeira Fundação, parece que nada a impedirá de fundar o Segundo Império Galáctico… Nada?

A Fundação e a Terra
Lançamento 1986

Golan Trevize, Conselheiro da Primeira Fundação, vê-se diante de uma tarefa assustadora: decidir qual será o futuro da Galáxia. Rejeitando a possibilidade de um Império Galáctico baseado na tecnologia da Primeira Fundação e também a de um Império baseado nos poderes mentais da Segunda Fundação, Trevize escolhe Gaia. O planeta Gaia é um super organismo, um aglomerado de seres que encontra sua força na unidade mental. Se toda a Humanidade se fundir com Gaia, o resultado será um supra-superorganismo dedicado ao bem comum, uma entidade que Trevize chama de Galáxia Viva.

Qual, porém, a razão pela qual Trevize foi levado a optar por Gaia em vez de uma das Fundações? Estará relacionada de alguma forma à história do planeta de origem da raça humana, que os antigos chamavam de Terra? Trevize não descansará enquanto não conhecer a resposta. Descobrindo que todas as informações a respeito da Terra desapareceram misteriosamente da Biblioteca Galáctica de Trantor, parte de Gaia em busca do planeta “perdido”. Enquanto ele e seus companheiros, o historiador Janov Pelorat e a linda mulher de Gaia, chamada Bliss, viajam de planeta em planeta, enfrentam uma odisséia da qual depende o destino do Império… e da própria Humanidade.

Prelúdio da Fundação
Lançamento 1988

O ano é 12.020 da Era Galáctica e Cleon I ocupa o instável trono imperial em Trantor, capital do Império Galáctico. Quarenta bilhões de pessoas compõem uma civilização de imensa complexidade tecnológica e cultural, formando uma malha de relações tão intricadamente tecida que a retirada de um único fio pode desfazer toda essa estrutura complexa. O imperador está inquieto, pois sabe que há muitas pessoas interessadas em sua queda e que a única saída para continuar detendo o controle do Império está nas mãos de um jovem matemático…

Ao desembarcar em Trantor, o heliconiano Hari Seldon, protagonista da história, não tem a menor consciência das conspirações políticas em curso. Mas, ao apresentar na Convenção Decenal uma monografia sobre a psicohistória, sua notável teoria da previsão, ele sela seu destino e determina o futuro da humanidade. Tendo em mãos o poder profético tão ambicionado pelo imperador, o matemático se transforma de uma hora para a outra, no homem mais procurado do Império.

Seldon vê-se obrigado a fugir, e a lutar desesperadamente para evitar que sua teoria caia em mãos erradas, enquanto forja sua poderosa arma para o futuro: uma força que se tornará conhecida

Crônicas da Fundação
Lançamento 1993

Aos 21 anos, Isaac Asimov começou a escrever sua série da Fundação, sem ter ainda consciência de que aquela obra viria a ser considerada uma pedra angular da Ficção Científica. Quase cinco décadas se passaram até que ele viesse a concluir o brilhante épico. Crônicas da Fundação, escrito pouco antes de sua morte, é o último e inesquecível presente do mestre à sua legião de admiradores.

Em uma narrativa fascinante de perigo, intriga e suspense, Asimov relata a segunda metade da vida do herói Hari Seldon em sua luta para aperfeiçoar a revolucionária teoria da psicohistória e firmar o meio através do qual estaria assegurada a sobrevivência da humanidade: a Fundação. Afinal, ele e seu fiel bando de seguidores sabem que o poderoso Império Galáctico está se desmoronando e sua inevitável destruição irá devastar toda a Galáxia…

A Fundação e o Império
Este livro está formado por dois relatos; o primeiro nos apresenta as últimas coletâneas do Império, que, mesmo em decadência, mantém um poder formidável contra uma Fundação que começa a se estender pela Galáxia.

O General

Um general forte e inteligente tenta dominar os planetas que se separaram do Império, pondo Terminus contra eles. Por sorte contavam com “a mão morta de Seldon”, que lhes ajuda a resolver a crise.
O mulo
Aqui o protagonista é um mutante com poderes mentais que permitem-lhe dominar mentes alheias. Ele consegue tomar o poder, um fato que não está previsto na psicohistória, que só pode prever mudanças sociais produzidas por massas humanas, e não atuações individuais. A crise prevista era de relação entre o centro e a periferia da Fundação.

O Mulo toma o poder em Terminus e, detectando um segundo poder mental, dedica-se a buscar a Segunda Fundação, que encarrega-se de velar pelo bom funcionamento do plano. Com um científico da Primeira Fundação – Ebiling Mis –, este descobre a situação da Segunda Fundação.

Poeira de Estrelas
Lançamento 1951

A narrativa inicia-se numa Terra ainda radioativa e insalubre. A época refere-se a um período primitivo da expansão do Império Galáctico, quando apenas 50 mundos constituem a sua unidade.
Em Poeira de Estrelas, Isaac Asimov se lança no fascinante e misterioso espaço cósmico, confundindo ficção e realidade futura, numa antecipação do que a era em que vivemos já denuncia para os cientistas e tecnólogos de hoje.

As correntes do Espaço
Lançamento 1952

A humanidade disseminou-se em alguns milhares de mundos habitáveis, formando-se pequenos reinados que lutam entre si. O planeta Florina, baixo o domínio de Sark, é um desses mundos, mas também tem um problema: seu Sol vai explodir e o único homem que sabe disso perdeu a memória.

Alguns habitantes de Florina trabalham para Sark recolhendo o Kirt, um “algodão” extremamente duro e resistente, usado para fins industriais ou para artículos de luxo. Isso converte Florina numa peça desejada também por Trantor, que evoluiu da República Trantoriana à Confederação Trantoriana e agora é o Império Trantoriano, e está próximo de formar o Império Galáctico.

Florina vem a ser o único lugar onde se obtém o Kirt, pois não se consegue duplicar sua qualidade em nenhum outro planeta, por isso suportam-se certos abusos por parte de Sark, a fim de garantir o comércio.

Os robôs
Lançamento 1957

O planeta Solaria poderia eliminar a Terra e transformá-la em duas partes iguais, e provavelmente o faria. Solaria era poderosa e ávida de poder.

Mais de duzentos anos se passaram para que desenvolvesse a arma derradeira – um maciço exército de robôs que poderia destruir a Terra e governar o Universo em questão de dias. Mas, em vista dos fatos, isto teria que esperar.

Um dos mais eminentes cientistas de Solaria foi encontrado brutalmente assassinado e só um Terrestre, Elijah Baley, poderia desvendar o desconcertante e sombrio mistério. E assim, mesmo contrariados, os Solarianos pediram o auxílio de um Terrestre.

Os Robôs do Amanhecer
Lançamento 1983

O protagonista é Elijah Baley. No planeta do amanhecer, robôs e seres humanos coexistem pacificamente até que o robô Jander é “assassinado”, ou melhor, desativado, em Aurora. Jander era um andróide, um robô de formas humanas – uma das mais sofisticadas e avançadas manifestações de inteligência artificial jamais concebidas.

Só um homem no planeta teria os meios, o motivo e a oportunidade de cometer o crime: Hans Fastolfe.

Hans contrata Elijah Baley para provar que ele não é o criminoso, o que faz Elijah ir ao Planeta Aurora.
A importância dessa inocência, é que o professor Fastolfe defende a liberdade de todos os humanos, para estender-se pela Galáxia, frente à oposição do doutor Kelden Amadiro, que quer que só os Espaciais possam conquistar o Universo e impedir que os terrestres saiam da Terra.

Armado unicamente de seu instinto, sua às vezes estranha lógica e as três imutáveis Leis da Robótica, Baley dispõe-se a revelar o mistério…
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Fontes:
Império de Isaac Asimov. Disponível em
http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?materia=4682

Império de Isaac Asimov. Disponível em http://anglopor8a09.vilabol.uol.%20com.br/index.htm

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