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Franz Kafka (Comunicado a uma Academia)

FRANZ KAFKA
(1883-1924 – Checoslováquia)

Pode parecer surpreendente, mas Franz Kafka costumava ler em voz alta e às gargalhadas alguns de seus contos para um grupo de amigos. 

Excentricidade de um gênio ou um humor tão pessoal que passa quase desapercebido do leitor comum? É possível achar graça lendo A Metamorfose, por exemplo? Kafkianamente, parece que sim. O humor de Franz K. não é cômico nem muito menos hilariante: é um fino humor racional, quase filosófico. E às vezes cruel, como esta sátira ao antropomorfismo antiecológico do homem moderno, onde a ironia subjacente ao texto é tão fundamental que sem ela o conto não poderia ser compreendido em sua profundidade.
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Eminentíssimos senhores,

Destes-me a honra de me solicitar que apresentasse eu à Academia um relatório sobre o meu passado de símio.

Não poderei infelizmente atender a tal convite, nos precisos termos em que me foi formulado. Separam-me da minha vida de macaco cerca de cinco anos, período de tempo talvez curto no calendário, mas que se torna infinitamente longo quando passado, como aconteceu comigo, pulando daqui para ali pelo mundo, acompanhado de excelentes homens, de conselhos, aplausos, músicas de orquestra, e no fundo sozinho, já que a minha companhia, para nada perder do espetáculo, se mantinha afastada dos palcos. 

Tivesse eu me obstinado a cismar em relação às minhas origens e recordações da juventude, e as proezas por mim praticadas teriam sido impossíveis. A primeira regra que me impus era exatamente a de renunciar a qualquer tipo de obstinação; ali estava eu, macaco livre, impondo a mim mesmo uma submissão. Em contrapartida a isto, minhas recordações progressivamente foram-se dissipando. No começo poderia ainda ter regressado, se assim tivessem desejado os homens, pela porta que o céu forma sobre a Terra: mas ela ia se tornando cada vez mais baixa e mais estreita à medida em que se processava a minha evolução, ativamente estimulada; melhor me sentia, mais integrado ao mundo dos homens; a tempestade que soprava do meu passado aquietou-se. Hoje não passa de uma corrente de ar que me sopra ligeiramente aos calcanhares e ao buraco do horizonte por onde ela entra e por onde passei um dia e que tornou-se tão pequeno que para o atravessar teria de ficar sem pele, admitindo que tinha eu ainda força e vontade suficientes para o tentar. Falando francamente – nestes assuntos gosto de usar imagens -, falando francamente, a vossa vida como macacos, meus senhores, se acaso vivestes já uma existência desta espécie, não pode estar mais longe de vós do que a minha está de mim. Mas acompanha de perto todos aqueles que vivem sobre a Terra, desde o pequeno sagüi até ao grande Aquiles. 

No entanto, num sentido bastante restrito, posso talvez corresponder ao vosso convite, e é até com prazer que o estou fazendo. A primeira coisa que me ensinaram foi o aperto de mão. O aperto de mão é um gesto de franqueza: assim, naquele dia em que atingi o ponto mais alto da minha carreira, que a franqueza das minhas palavras acompanhe sempre este primeiro aperto de mão. Uma tal franqueza não trará nada de novo a vossa Academia, e as minhas palavras muito aquém ficarão do que me foi pedido e do que eu não saberia dizer, independente da minha melhor vontade; irão mostrar, por outro lado, o caminho pelo qual um antigo macaco ingressou no mundo dos homens e aí se fixou. Mas nem sequer conseguiria eu dizer o pouco que se segue se não estivesse inteiramente seguro de mim mesmo e se não tivesse consolidado a minha posição em todas as cenas de cabaré do universo civilizado, de maneira a não conseguir ser abalada.

Sou originário da Costa do Ouro. Como fui capturado? Neste aspecto, fico reduzido ao testemunho dos outros. Um grupo de caçadores da empresa Hagenbeck – com cujo chefe depois esvaziei muitas garrafas – estava de emboscada numa mata junto ao rio onde eu costumava beber com o meu bando. Dispararam: fui o único atingido. Recebi duas balas. Uma no rosto, ferimento sem gravidade; mesmo assim me deixou uma cicatriz vermelha, sem um só pêlo, o que me deu o apelido de Peter, o Vermelho – epíteto repugnante, perfeitamente injusto e inventado por um verdadeiro macaco -, como se fosse somente essa marca avermelhada que me distinguisse do outro Peter, o macaco sábio recentemente falecido e que gozava naquelas regiões de uma merecida reputação. Isto apenas cá entre parênteses.

A segunda bala me atingiu na parte inferior da anca. Ferimento grave que é a causa de eu coxear um pouco até hoje. Li recentemente num artigo de uma destas dez mil aves de rapina que se lançaram nos meus encalços pelos jornais, que a minha natureza de macaco não estava ainda completamente domada e que a melhor prova disso era que, quando recebo visitas, costumo tirar as calças para mostrar o buraco da bala. Só desejava que saltasse das mãos, um a um, os dedos do sujeito que escreveu isto. 

Quanto a mim, tenho o direito de tirar as calças diante de quem bem entender; nada mais irão ver do que um pêlo cuidado e a cicatriz, vestígio de uma ação criminosa. 

Tudo isso se pode mostrar em plena luz do dia, nada há para esconder. Quando se trata da verdade, os mais altivos deixam o protocolo de lado. Se o escriba em questão tirasse as calças sempre que recebesse uma visita o quadro é claro seria totalmente diferente, e também admito, lógico, que a razão lhe impeça tal gesto. Mas a este respeito, ele e sua falta de tato que me deixem em paz.

Após os referidos tiros, acordei – e aqui é que começam minhas verdadeiras lembranças – numa jaula no porão da Hagenbeck. Não eua uma jaula propriamente, gradeada por todos os lados. Contentaram-se em adaptar grades sobre três dos lados de uma grande caixa. A própria caixa, portanto, formava o quarto lado. Era baixa demais para se ficar em pé e demasiada estreita para ficar sentado. Ali permaneci, acocorado os joelhos voltados para dentro e sempre tremendo, a cara virada para o lado da caixa, as barras das grades me ferindo a pele das costas, pois no princípio não queria ver ninguém e desejava simplesmente ficar no escuro. Este tipo de enjaulamento em geral é considerado como vantajoso nos primeiros tempos de captura de animais selvagens. Hoje, depois de toda a experiência que vivi, não posso negar a veracidade disto, sob o ponto de vista humano.

Mas naquela hora não me preocupava com isso. Pela primeira vez na minha vida, eu me encontrava num beco sem saída, por assim dizer. Ou se saída houvesse, eu é que não a via; diante de mim surgia apenas a parede da caixa com suas grandes tábuas solidamente unidas. Para falar a verdade, havia uma fenda de alto a baixo; quando a descobri, saudei-a com um grito de alegria, mas a fenda não servia sequer para passar o rabo – e eu não consegui alargá-la apesar de toda a minha força de macaco.

Conforme consegui avaliar pelo que me disseram depois, eu devia então não ser nem um pouco barulhento, donde concluíram que logo, logo, eu ia passar desta para melhor ou, se ultrapassasse o momento critico, me tornaria perfeitamente domesticável. Sobrevivi. As primeiras ocupações da minha nova existência eram soluçar contidamente, catar penosamente as pulgas, lamber com lassidão um pedaço de coco, bater com a cabeça na parte de madeira da jaula ou botar a língua para fora quando alguém se aproximava de mim. Mas no meio de tudo isso, um só sentimento: não havia saída. É claro que não consigo agora reproduzir em palavras humanas o que sentia como macaco naquela época, e o que eu disser sai forçosamente deformado, mas embora não consiga jamais reencontrar a verdade dos símios de outrora, nem por isso a minha narração deixa de assinalar a verdadeira direção por onde ela deve ser procurada. Disto não tenho a menor dúvida.

Tantas andanças tivera eu até aquele momento! Eis-me agora sem nenhuma. Fora apanhado. Se me tivessem crucificado, a minha liberdade domiciliar não teria sido mais restrita. E por quê? Por mais que me arranhasse até sangrar nos artelhos, não conseguia saber a razão. Por mais que fizesse força com as costas contra as grades, até ficar quase cortado em dois, nada conseguia descobrir. Não tinha saída e precisava de uma, não era possível viver sem uma saída. Encostado dentro daquele cubículo da jaula ia acabar estourando. Mas os macacos de Hagenbeck são destinados justamente a viver atrás das grades… Pois bem, eu deixaria então de ser macaco! Belo pensamento, raciocínio luminoso que se formou não sei como bem no fundo da minha barriga, pois os macacos pensam com a barriga.

Não sei se vocês compreendem bem o que entendo por “uma saída”. Uso a palavra no sentido comum e em toda a sua amplitude. Propositadamente evito falar em “liberdade”. Não é nesse grande sentimento de liberdade em todos os sentidos que eu penso. Como macaco, eu bem o conhecia e vi homens que por esse sentimento ansiavam. Todavia, no que me diz respeito, nunca exigi nem exigirei a liberdade. Com ela, diga-se de passagem, é que muitas vezes os homens trapaceiam entre si. Como a liberdade se encontra entre os mais sublimes ideais, e o logro que se lhe corresponde passa também por sublime. Quantas vezes não vi, em espetáculos de variedades, artes da minha apresentação, artistas trabalhando no trapézio voador! Projetam-se, balançam, saltam, voam para os braços um do outro e um deles segura o companheiro pelos cabelos. 

“Aquilo ali também é liberdade humana”, pensava eu, “é um movimento de soberania”. Oh, santa ilusão! O riso da categoria simiesca ante este quadro seria o suficiente para abalar o mais sólido dos prédios.

Não, não era pela liberdade que eu ansiava. Uma simples saída, à direita, à esquerda, fosse lá onde fosse. Não tinha outra exigência, mesmo que a própria saída fosse um logro. Pequena era a minha exigência, não poderia ser maior o meu logro. Avançar, avançar! Principalmente não ficar no mesmo lugar, de braços erguidos, colado às grades de uma jaula.

Vejo hoje nitidamente que, sem a maior calma interior, não teria conseguido fugir. E de fato, tudo aquilo que me tornei, devo talvez à calma que de mim se apossou ainda a bordo passados os primeiros dias. E esta tranqüilidade, sem dúvidas, fiquei devendo à tripulação do barco.

Apesar de tudo, era um pessoal admirável. Hoje ainda gosto de me lembrar o barulho pesado dos seus passos, ressoando na minha semi-sonolência. Tinham eles o hábito de tudo fazerem com grande lentidão. Quando precisavam esfregar os olhos, levantavam a mão como quem levanta um saco de areia. Suas brincadeiras eram pesadas mas cordiais. O seu riso acabava se misturando com uma tosse que poderia parecer perigosa mas que era sem nenhuma importância. Tinham sempre alguma coisa na boca pronta para ser escarrada e sem cuidado algum para onde a cusparada poderia cair. Passavam o tempo todo se queixando que pegavam pulgas de mim, mas nunca de fato me quiseram mal. Sabiam que as pulgas abundavam nos meus pêlos e que elas tinham necessidade de saltar: esta explicação lhes era suficiente. Quando não estavam de serviço, acontecia às vezes de sentarem-se em semicírculo à minha volta, sem falar, apenas se dirigindo uns aos outros através de surdos grunhidos. Fumavam cachimbo, deitados por cima das caixas; ao menor movimento da minha parte, eles davam uma palmada nos joelhos; de vez em quando um deles pegava um pedaço de pau e me coçava no lugar certo onde eu gostava. Se me convidassem hoje para fazer uma viagem naquele barco, com certeza que eu declinaria o convite, mas com certeza também que nem todas as lembranças daquela viagem seriam ruins.

A tranqüilidade que consegui em meio àquele pessoal me impediu de tentar fugir. Me parece, vendo tudo pelos olhos de hoje, que eu tinha pelo menos pressentido que necessitava encontrar uma saída se quisesse viver, mas que essa saída não podia estar na fuga. Não sei se a fuga seria possível, mas acredito que sim; para um macaco, a fuga deve ser sempre possível. Com os meus dentes atuais preciso de prudência até mesmo para quebrar uma simples noz, mas naquele tempo teria conseguido despedaçar a dentadas a fechadura da porta. Não o fiz. O que teria ganho cm isso? Assim que pusesse a cabeça de fora, eles teriam logo me recapturado e me encerrado numa jaula ainda pior; a menos que fugisse sem ser visto para o meio dos outros animais, como as boas serpentes ali em frente que me teriam dado a morte com um simples abraço. 

Talvez eu conseguisse escapar até o convés e dele saltar fora, caso em que eu teria boiado por alguns momentos na superfície do oceano, acabando logo por me afogar. 

Atos de desespero. Eu não raciocinava tão humanamente assim, mas a influência do entusiasmo me fazia crer que eu tivesse raciocinado. No entanto, se não raciocinava, pelo menos tranqüilamente ia observando tudo. Via as idas e vindas daqueles homens, sempre com as mesmas caras, sempre com os mesmos movimentos, muitas vezes me pareciam ser apenas um. Este homem, ou estes homens, moviam-se pois livremente. Mas diante de mim começava a surgir uma grande possibilidade. 

Ninguém me prometera abrir as grades, caso eu me tornasse como eles; nada se promete em troca de realizações que parecem impossíveis; mas uma vez realizadas estas realizações, as promessas aparecem imediatamente onde antes as tínhamos procurado em vão. Na verdade, nada havia naquelas pessoas que me seduzisse. Fosse eu partidário da famosa liberdade de que falávamos antes, teria com certeza preferido o oceano à saída que se entrevia no olhar turvo daqueles homens. Observara-os detidamente muito antes de pensar nestas coisas, e foram mesmo essas observações repetidas que me impeliram na direção que acabei optando.

Era tão fácil imitar os humanos! Logo nos primeiros dias eu já tinha aprendido a escarrar. Escarrávamos mutuamente um na cara do outro; a única diferença era que em seguida eu me limpava lambendo-me e eles não. Não demorei a fumar cachimbo como um veterano; se acontecia de eu pôr o polegar na parte acesa, eles deliravam como espectadores. Logo passei a distinguir um cachimbo cheio de fumo de outro vazio.

O que me causou maior repugnância foi a garrafa de aguardente. O cheiro me martirizava, eu me sentia terrivelmente agredido; levei semanas para conseguir me dominar. 

Era curioso que as pessoas levavam muito mais a sério estas lutas morais do que todas as outras distrações que eu lhes proporcionava. Não consigo distinguir estes homens, nem mesmo nas minhas lembranças, mas havia um que vinha sempre, só ou com seus camaradas, de dia ou de noite, nas horas mais desencontradas, alojava-se com a garrafa na minha frente e me dava uma aula. Ele não conseguia me compreender, mas parecia querer resolver o enigma do meu ser. Desenrolhava lentamente a garrafa e me olhava em seguida para ver se eu tinha compreendido. 

Confesso que eu olhava para ele sempre com uma atenção apaixonada e ansiosa; nenhum professor de homens terá jamais encontrado aluno como eu em todo o mundo; desarrolhada a garrafa, erguia-a na direção da boca; eu o seguia com o olhar até o gargalo; satisfeito comigo, hei-lo levando a garrafa aos lábios, com um aceno de cumplicidade; então eu, encantado por pouco a pouco ir compreendendo tudo, coçava-me e emitia pequenos guinchos ao acaso e pelo corpo; e ele, contente, emborcava o gargalo e bebia um gole; eu, desesperadamente impaciente para fazer que nem ele, jogava-me pela imundície da minha jaula, o que lhe trazia novamente uma grande satisfação, e então, afastando a garrafa com um gesto largo e trazendo-a para junto de si novamente com um movimento rápido e cheio de vigor, esvaziava-a de um só trago, inclinando-se para trás de um modo exageradamente didático. Esgotado pelos excessos do meu desejo, não conseguia mais segui-lo com os olhos e ficava ali, vacilante, encostado às grades, enquanto ele acabava minha instrução teórica e esfregava a barriga com uma careta de prazer.

Só então começavam os exercícios práticos. Não estava eu já cansado de tanta teoria? Com certeza, cansado e bem cansado. Era o meu destino. Mas agarro a garrafa que ele me estende da melhor maneira que posso; tiro-lhe a rolha, tremendo, mas o resultado obtido faz com que eu ganhe novas forças; ergo a garrafa e praticamente não me distingo mais do meu modelo; levo-a à boca e… afasto-a horrorizado, com repugnância, embora ela esteja vazia, exalando apenas seu odor característico; jogo-a no chão, cheio de asco. Para grande consternação do meu professor; para grande consternação minha. Nem aos olhos dele nem aos meus consigo reabilitar-me pele fato de, após ter jogado a garrafa fora, acariciar a barriga com uma careta de prazer.

Quantas vezes a aula não terminava assim! E devo dizer, em honra do meu professor, que ele não me levava a mal; às vezes encostava o cachimbo aceso nos meus pêlos em algum ponto difícil de eu alcançar, até ficar vermelho, mas ele imediatamente apagava com sua mão enorme e bondosa; até que ele gostava de mim, percebendo a sua maneira que combatíamos ambos do mesmo lado contra a natureza simiesca e que era a mim que cabia a parte mais dura de roer.

Mas a vitória, para ele quanto para mim, aconteceu quando uma noite, diante de um círculo de espectadores – talvez fosse dia de festa, um gramofone tocava, um oficial passeava por entre eles -, quando uma noite, dizia eu, em que não era observado, peguei inadvertidamente numa garrafa de aguardente deixada ao lado da minha jaula, tirei-lhe a rolha de acordo com todo o meu aprendizado e, diante de uma sociedade cuja atenção foi desperta pelo meu ato, levei-a aos lábios e sem hesitação, sem uma única careta. Assim, como um verdadeiro profissional, rolando os olhos, a goela tremendo, esvaziei-a de fato, literalmente, e atirei-a fora, ainda não em desespero mas com requintada arte; é verdade que me esqueci da carícia na barriga, mas em contrapartida, porque se impunha, porque era uma necessidade, porque já tinha os sentidos inebriados, em suma, por uma razão ou por outra, soltei um “ahhh! bem humano, entrei de imediato com esta exclamação na comunidade dos homens e o eco que me foi devolvido – “Ouçam só, ele está falando!” – espalhou-se como um beijo sobre meu corpo coberto de suor.

Repito: não me seduzia a idéia de imitar os humanos; se imitei foi porque procurava por uma saída e não por outra razão qualquer. Esta  vitória, aliás, não representou para mim qualquer tipo de progresso; imediatamente a voz me faltou; não a recuperei senão depois de meses; a repulsa pela garrafa de aguardente voltou com força redobrada. Mas de uma vez para sempre, tinha percebido a direção que deveria seguir.

Quando fui entregue em Hamburgo ao meu primeiro adestrador, não demorei para reconhecer as duas possibilidades que se abriam diante de mim: jardim zoológico ou espetáculo de variedades. Não hesitei Disse a mim mesmo: trata, com todas as tuas forças, de fazer com que te levem para o mundo dos espetáculos; é aí que está a saída, o jardim zoológico é apenas uma nova jaula. Estarás perdido neste último caso.

E aprendi, senhores! Ah, como se aprende quando é mais do que necessário encontrar uma saída! Aprende-se sem consideração por mais nada! A gente fica se vigiando de chicote em punho; à menor resistência, lá vai chicotada. A minha natureza simiesca distanciava-se de mim a olhos vistos, entrava na primeira cabeça que me aparecesse, de tal modo que o meu professor tornou-se ele próprio simiesco e se viu obrigado a renunciar às lições ingressando num manicômio. Felizmente não ficou muito tempo por lá.

Mas eu consegui muitos professores e, às vezes, vários ao mesmo tempo. Quando as minhas capacidades se afirmavam um pouco, quando o público começou a acompanhar os meus progressos e o futuro começou a se desanuviar, eu próprio escolhi meus mestres e coloquei-os de enfiada em cinco salas diferentes e tomei minhas aulas com todos ao mesmo tempo, correndo sem descanso de uma sala para a outra.

Ah, quanto progresso! Esta penetração no conhecimento cujos raios vêm de todos os lados iluminar um cérebro que desperta! Não nego: era nisso que residia a minha felicidade. Mas confesso também que, de maneira nenhuma eu me superestimava mesmo naquela época, e muito menos agora! Através de um esforço do qual não surgiu outro na face da terra, adquiri a cultura média de um europeu. Não seria grande coisa em si mesmo, mas já era um progresso no sentido em que me ajudou a sair da jaula e me ofereceu essa saída, uma saída humana. Todos vós conheceis com certeza a expressão “Pôr-se à vontade”; foi o que fiz, pus-me à vontade, não tinha outro caminho, já que decidira não optar pela liberdade.

Quando olho a minha evolução e os objetivos que a guiaram até aqui, não me lamento nem fico contente. Mãos nos bolsos, garrafa na mesa, mantenho-me meio sentado, meio deitado na cadeira de balanço e olho pela janela. Quando chega uma visita, recebo-a conforme a etiqueta. O meu empresário fica na sala de entrada: quando toco a campainha, ele aparece e escuta o que tenho para dizer. À noite, quase sempre tem espetáculo, e, sem dúvida, os meus sucessos nunca serão ultrapassados. Quando volto para casa, tarde da noite, vindo de banquetes, de sociedades eruditas ou de alguma conversa íntima agradável, está à minha espera uma jovem macaca com a qual me entrego aos prazeres da nossa raça. De dia, não quero nem vê-l:a; efetivamente, ela traz nos olhos a expressão perdida do animal evoluído; só eu consigo ver isso e não consigo suportar tal visão.

No conjunto, cheguei ao que eu queria conseguir. Não posso dizer que não tenha valido a pena. Aliás, não preciso de julgamento dos humanos, procuro a divulgar conhecimentos, contento-me em relatá-los; mesmo convosco, eminentíssimos acadêmicos, contentei-me em relatar.

Fonte:
Flávio Moreira da Costa (org.). Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal. 5.ed. RJ: Ediouro, 2001.

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Franz Kafka (Resumo: O Processo)

O Processo é um romance de Franz Kafka (1883 – 1924), que conta a história de um bancário que é processado sem saber o motivo, este é Josef K.

O perfil de K. era de um funcionário exemplar, sendo que trabalhava num famoso banco e tinha um cargo de grande responsabilidade. Desempenhava sua função com muita dedicação, razão que o levou, em pouco tempo, a crescer na empresa.

Porém na manhã em que completara 30 anos, Josef K. foi detido em seu próprio quarto por dois guardas, que tomaram o café que devia ter sido dele, e depois, sugeriram estarem sendo subornados. Neste momento inicia o pesadelo de Josef K., que foi detido sem ter feito mal algum. De principio, imaginava ser uma brincadeira de seus colegas de banco, pois não podia acreditar no que estava acontecendo.

Josef K. acreditava que todo o mal entendido seria esclarecido e ao ser convocado para um interrogatório viu a oportunidade de isto acontecer. Estava errado. Deparou-se com um inspetor rude e agressivo que o ameaçava e fazia chantagens. Contudo K. exigia esclarecimentos, porém inutilmente, já que nem o inspetor e nem os guardas sabiam sobre o motivo de sua detenção.

E toda narrativa segue sem que se conheça quem teria denunciado Josef K. às autoridades e o motivo de estar sendo preso. Apesar disso, o personagem central luta o tempo todo para descobrir do que estava sendo acusado, quem o acusava e com embasamento em que lei. Contratou um advogado na esperança de ter alguma saída e também para obter informações sobre o seu caso, mas logo ele foi dispensado, pois não estava dando muita atenção ao processo dele.

Tentou entrar em contato com o judiciário, mas teve pouco sucesso, o que encontrou foram muitos processos, sendo o dele apenas mais um que ficaria esperando por muito tempo. Todo o desenrolar do processo não lhe parecia verdadeiro, os acusadores e as testemunhas tinham atitudes duvidosas e absurdas, até crianças eram chamados a prestar depoimentos.

No final, Josef K. se encontrava sem ânimo para prosseguir lutando contra um processo que ele nada conhecia, estava apático e indiferente. Pode-se interpretar que no capítulo X: O fim, Josef K. combinou para que dois senhores o matassem, e assim foi feito.

“(…) as mãos de um dos senhores seguraram a garganta de K. enquanto o outro lhe enterrava profundamente no coração a faca e depois a revolvia ali duas vezes.” (KAFKA, 2004, p. 254).

Este é o fim de Josef K.

A obra é uma crítica direta do sistema judiciário, mas ficar somente nesta interpretação limita a toda uma extensão de pontos de vista que pode ser analisado.

Como uma crítica ao sistema judiciário, podemos nos atentar a este aspecto, pois esta é a primeira interpretação que se observa. Na época e no local onde viveu Franz Kafka imperava um Estado autoritário (primeiramente Tchecoslováquia e logo o Império Austro-húngaro) e havia constantes lutas pelo poder e o ambiente da Primeira Guerra Mundial proporcionava ações arbitrárias pelas autoridades. Assim observamos que é compreensível esta obra ser apresentada de tal forma, como uma crítica ao sistema judiciário.

Contudo esta obra é não somente um retrato fiel do sistema judiciário despótico, e como a burocracia e a justiça são falhas, mas também fazendo um paralelo entre a vida de Josef K. e as nossas, seres humanos na prisão que é o mundo, apesar de não parecer. Sofrendo de alienação, e sendo controlados o tempo todo, sem achar respostas e explicações para nada, frente à um sistema doutrinador que estamos inseridos, e que a todo o momento lançam informações que nós temos de engolir sem ao menos revisar e saber o porquê.

Fonte:
http://www.coladaweb.com/

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