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Alberto Bresciani (Livro de Poemas)

SEDIMENTOS

Aos poucos se apaga
o consentimento da morte

adio a noite, avanço
ao avesso do dentro

e encontro os encontros
do tempo, um gosto

de pele, um nexo
Faço oferendas

à água
ao fogo.

HARMONIZAÇÃO

Demorasse a tua mão
um pouco mais
sobre o meu ombro

e me nasceriam asas

Em silêncio
logo o pressentimento
o pacto e o voo:

grades e escarpas
ruindo sob as pernas
cúmplices, entrelaçadas

as nossas.

REINVENÇÃO

Vertendo do branco:
eu, o anti-herói
preso a ganchos de ar
por sobre as fragas da razão

duras lâminas
que evisceram
a argamassa do corpo
a desbordar de mim

banal, rude, rala argila
não reluz. Só o que destila
por trás do que me é oculto
se esconde à vista

É grampo no avesso
— até a secreção
vir à voz, exposta
aos anjos e algozes

Então o instante que espero
quando me reinventam os dias
e as aves planam
sob o vulto explícito e sem sede

Gritem medos e mentiras
para o estômago do nunca
(o julgamento está surdo
e a tentação de não ser

para hoje
está morta
afogada).

POSSE

O ar é só pele:
teu corpo expira
das dobras do mapa

aquece os dedos
saliva doce na boca
as esferas do sal

A falta é tensão
teu vulto invasivo
conturbando o pulso

em pedras candentes
nas farpas da noite

O ventre esfria
e explode em tentáculos
da fluida água marinha

vertigem que plana e pesa
por sobre as vozes
os cortes do dia

— teu sempre
no fundo de mim.

METAMORFOSE

Era seu rosto
um campo de trigo
e manso se entregava
ao passeio da boca

Braços me protegiam
e enlaçavam
e devolviam ventos
que ninguém sentiu

Desdobrava-se
o seu consentimento
e sem proposições
uma supernova em mim

Talvez reencontrasse o destino
respirasse sem deformidades
talvez fosse apenas como voltar

E já não chovia
E era tão bom.

INVERSÃO

O esgotamento vem
do vazio
esse fundo
enredo de vozes
que uma só valem —

atrás dos nódulos do espanto
das folhas da súplica
e da sequência de sombras
sem volta,

a ilusão habita
a insônia
vergonha e ridículo
do homem parado
diante da pedra.

MIRAGEM

Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho — ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

NUNCA
Um dia encontrei o nunca
preso ao teto
para onde nunca olhei

Tinha a aparência terrível
de uma gárgula
úmida de sangue

Mas sob os flagelos
era apenas
                 um pardal

tão sem pressa
desses que banais habitam
as árvores, a cegueira

Com voz serena e doce
disse que sendo nunca
era eterno, letra em todo nome

Soube quem era o nunca
e meu peito, arfando
pelo que não se esquece

aprendeu a respirar assim
um pouco menos
seca a parte que nunca mais.

SÉPALA

O seu rosto surge
em meio às folhas da pele
onde a mística seiva
invade a memória do sangue

Percebo como essa branda sépala
sobe em mim o feminino
cálice que lhe orna o ser
diáfano ser em branco

Fale-me de ventos, de terras
que os caminhos venceram
Só ao líquido das suas palavras
renasce o tempo, um rio para sentir.

  ACUSAÇÃO
Você me acusa
pelas sombras
que nos cobrem

Não tenho a quem culpar
Guardamos a chave
quando passou a vigésima quinta hora

e os deuses de que fala
nunca souberam de nós
Estamos abandonados

na última vez
na impossível desdobradura
E eu afirmo:

amanhã ainda seremos
somente os dois
o verbo coagulando no escuro.

 FIGO

E então a chance:
o desconhecido destino
tinha seu rosto
e se estendia ao alcance

da mão que abraçou
e adormeceu no amplo figo
cujos olhos eram luz
e também gemido

A posse da pele
veio como tudo enfim
como se os fluxos fizessem sentido
e nós vivêssemos a última cena

Mas há dias que não nascem
e se acaso irrompem
logo secam
definham nos espelhos

Deixei de existir
antes de saber. Ela não era
para além de mim
a imagem que testemunho

e minto apagar
embora toda a saliva
seja só a ilusão
que do seu corpo espero.

MILAGRES

Há milagres que se prendem
ao ar como anjos de pedra
no sempre da catedral

crescendo sobre nós
cortando a casa
o ventre

Toda fuga é inútil
a cegueira superior à visão
e a respiração quase sobrevive

à proximidade ou distância
de seu fogo
que pode ser pena, pode ser fome

e nos põe
frente a frente
com a epifania

                              Nas minhas mãos
                             o ramo que arde

Fontes:
 Poemas enviados por Carlos Machado, de poesia.net. http://www.algumapoesia.com.br
Alberto Bresciani. Incompleto Movimento. RJ: José Olympio, 2011.
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/distrito_federal/alberto_bresciani.html

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Kideniro Teixeira (Livro de Poemas)


ADOÇAO – A Manaus

Para Ricardo Roriz – Mestre de Gerações

Esta terra foi minha…
Muito lhe quero, quanto ela me amou!
És de minha alma a formosa Rainha,
ah, minha terra, Mãe que me adotou!

Cheguei com os maltrapilhos,
órfãos de tudo, vindo aos escarcéus,
estropiado como os andarilhos,
estendendo-lhe as mãos e olhando os céus.

E amei… e fui amado!…
Como uma árvore ali criei raízes
no doce embalo que me acalentou.

E parti… Fui gladiado
em batalhas por dias mais felizes…
Ah, minha terra! Mãe que me adotou!

A MINHA MESTRA

“Possa ao menos sentir tua presença
nestes versos que escrevo, amargurado,
ante a profunda, ante a sombria e imensa
saudade de teu vulto idolatrado.”
Homero de Miranda Leão

Foi minha mãe a minha Mestra
que me ensinou a ler, em nosso humilde ninho;
eu era um menininho,
uma criança…
De minha mãe, exímia trovadora,
é de quem guardo esta divina herança.

Recordo agora,
que a sua voz se erguia,
branda e sonora,
como se fosse um sino
tangendo na alvorada fria
do meu Destino:

– Lê! Estuda! Lê, menino!
Era este o heróico estribilho
de cada dia:
– Lê! Estuda! Lê, meu filho!

Como era bela a minha Professora,
no seu vestidinho branco!
O coque alto, olhos castanhos
e esguias mãos da Virgem Redentora!

Somente agora sinto, e guardo, e tranco
no peito esta saudade imorredoura,
como se ouvisse. ainda. a sua voz sonora:
– Lê! Estuda! Lê, meu filho!

E eu que jamais velara o meu Destino,
quanto sofro e me deploro
para cantar minha procela…

E nem sabia, que um dia,
eu sentiria,
tanta saudade dela!

VISITANDO MANAUS

Para Arlindo Porto

Você, minha cidade, foi tão boa,
tão amável, sem nem me conhecer
quando eu vagava no seu seio, à toa…
abrindo os braços pra me proteger.

Você sabia? Creio que sabia
que eu era um “Arigó” que aqui chegava…
E você, cristãmente, me sorria
e até cantar cantou, quando eu chorava.

Aqui cheguei carente de carinho
e de logo a sua mão me abençoou;
e eu tive muito amor, tive outro ninho,
tive outra Mãe, – a Mãe que me adotou.

Deu-me um leito, tirou-me dos retraços
onde estava a minha alma ainda em flor;
e ofereceu-me os seus morenos braços,
como os braços de um Cristo Redentor.

Para mim era tudo um desafio,
um desafio, em tudo, tudo! Enfim,
o Rio Negro não era só um rio,
era um mundo de amor rolando em mim.

A ingratidão, de todos, é o pecado
maior. Deus não concede a remissão;
se fora embora o filho desalmado,
visitando-a espera o seu perdão.
********************************

Olhando o céu, beijei Nossa Senhora,
para a beijar, também, com humildade;
já estou mais velho, a vida se evapora!
Vê-la de novo eu vim, minha Cidade.

Vim recordar de minha mocidade
tudo aquilo que amei e guardei de cor;
– para matar, meu Deus, esta saudade;
– para voltar, talvez, muito pior!

Aqui vivi e amei… e fui amado
pela Princesa a quem beijei o rosto
e vi nascer minha primeira Flor!

E nunca houvera em versos consagrado
seu nome augusto, assim, nesse antegosto,
Cidade Nobre de meu grande amor!
Manaus (Japiim I, 1991)

NA AMAZÔNIA

Para Clóvis A. da Mata

“As sepulturas ficam abertas nas florestas à
beira dos barrancos, sem cruzes e sem recordações,
protegidas, apenas, pela esmola e pela claridade da luz.”
Álvaro Maia

Nessas umbrosas, vírides florestas
que se levantam no Setentrião,
há pomos fartos e riquezas lestas,
e há ouro em tudo ao desdobrar da mão.

É para ali que corre a multidão
de párias nus, nas levas indigestas,
o lar deixando, a alma e o coração,
ao canto de Sereias desonestas.

Como um gado passivo se despede…
Há um acento de dor na despedida,
lamento triste que nem outro o excede!

E segue estosa e sôfrega a coorte,
pois ali todos vão tentar a vida,
mas, ali quantos vão achar a morte?!

EMIGRANTE

À memória de César Coelho

De um mundo vim, um Mundo malfadado,
de torpezas, de sustos, de agonias,
onde purguei, nas longas noites frias,
as angústias do tédio e do pecado.

Quis ser outro e ser bom. Quis ser amado
e milênios levei nessas porfias…
Minha alma discorreu coreografias
antagônicas nesse aprendizado.

Mas, se hoje vejo as Luzes no Infinito,
nas distâncias sem fim desse esquisito
turbilhonar de sóis – nos olhos meus,

cuido avistar as lúcidas lanternas
que hão de levar-me às Perfeições Eternas,
para enxergar em tudo isso, – Deus!

MODÉSTIA À PARTE

Eu faço versos como se rezasse
e sem ligar que alguém assim os faça;
porque fazê-los como os vi fazê-los,
só uns irmãos que tenho, analfabetos.

Eles não sabem se existiu Bilac,
Camões, Petrarca, Dante ou Baudelaire…
Pois que de escola à porta jamais foram,
mas são poetas, são; sem saber ler.

Eu faço o verso ao jeito que eles fazem,
sem pedantismo, assim como respiro,
ando, paquero, assobio ou falo
de minha própria, ou da vida alheia.

São versos feitos sem contar nos dedos,
e sem Tratado em “Ver se fica são”,
sem “rimas ricas”, feitos da pobreza
de fechaduras sem “chaves de oiro”.

Lendo esses versos, muitas vezes, tinha
da Glória estar nos cumes cobiçados;
e então da Glória ia beijar-lhe o Trono,
“embebedado do sinistro vinho”.

Pois que da Glória já fui seu fanático,
julgando nela não morresse nunca;
mas, quando a Glória evitou meu rosto,
“eu fui caindo como um sol caindo…”

São versos velhos, feitos de retraços
das ruínas remotas de Pompéia
e das cinzas lascivas de Gomorra;
porém nasceram do meu grande amor.

E tanto os quero porque são meus filhos,
diletos filhos do útero da alma,
para voarem – pássaros queridos,
por este mundo consolando aflitos.

OS QUE ENCONTREI

Para o Poeta Walfredo dos Anjos

I

Eu fui na vida o Poeta embevecido
no meu divino Reino da Ilusão:
– Dando o vinho do Sol ao desvalido
e, após, a Lua-Cheia em comunhão.

Imprimi no meu canto um sustenido
de amor, e paz, e prece, e redenção…
Fui Mensagem, fui fruto repartido
entre os filhos da desconsolação.

A todos prometi a minha palma
e dividir o que eu tivesse na alma,
com quem vivesse, por aí, sozinho…

Já dei tudo o que tinha… e sem ter nada,
minha alma dou em rimas, orvalhada,
aos que passem com sede em meu caminho.

II

E fui, de fato, o Poeta dos amores,
vendo em mim mesmo, toda a humanidade;
dei muito amor, carinho e caridade,
minha fazendo a dor dos sofredores.

o meu canto vibrou como tambores
divinos nas falanges da orfandade;
consolei-as pregando a piedade,
como pregam no Templo os Pregadores.

Para os que vinham atirei meus louros;
dos cofres de minha alma seus tesouros,
pus entre as mãos do que avistei sozinho…

Acabei com o que eu tinha nas andadas;
E, em recompensa, recebi pedradas,
de muitos que encontrei no meu caminho.

ETERNlZANDO VIDAS

II

Não há fugir à dor que desconforta,
nem retorcer o mal que em si concentra…
Se hoje a Morte bater em tua porta,
abre-a, de vez, a convidá-la, – entra!!

Diluto em tudo o que a verdade exorta,
expõe o peito à adaga que se adentra
nele, ferindo-o e, torturante, corta
fibra por fibra e a tudo mais descentra…

E quando as tuas células morrerem,
e dezenas de glândulas pararem,
e, cruzadas, as mãos apodrecerem,

naquelas cames rotas, diluídas…
Certos dirão os que te carregarem:
– Hoje ele é vida etemizando vidas!

ÁGUAS BELAS

Fazia anos que eu não visitava
a vilazinha onde nasci e aquelas
paragens todas a que tanto amava…
Minhas Águas-Belas, tão humilde e boa,
com a sua igrejinha iluminada a velas.

Ali vi-me criança, outra vez, correndo
pela campina, olhando o prado em flor
e em tosco engenho a gotejar, moendo…
me vi menino e uma menina loura,
que fora, ó Deus, o meu primeiro amor!

Fui ver o “Tanque”, o poço onde eu nadava
tempo de inverno, arisco como um potro,
a ver se ali ainda eu me encontrava;
mas ao mirar-me nesse espelho de água,
já não vi meu rosto alegre — um outro.

Também não vi aquelas coisas santas:
– rebanhos brancos a beber nos rios
que deslizavam ao longo das gargantas;
nem os velhinhos de cabeças brancas,
aos quais, a todos, lhes chamava tios.

Nem mansos bois a ruminar, tristonhos,
à sombra augusta de augustos juazeiros,
como quem cisma em inocentes sonhos…
Nem as siriemas de olhos amarelos,
cantando, longe, pelos tabuleiros.

Triste saudade amortalhou minha alma,
olhando a velha casa que foi nossa,
toda arruinada e como quem se ensalma…
Ó relembrança, foste uma fiala,
jorrando um vinho que, se amarga, adoça!…

Senti vontade de correr, gritando,
pelo rincão de minha peraltice
e a tudo, por ali, interrogando:
– Quem escondeu a minha mocidade?!
– Quem pôs tão longe a minha meninice?!

Fonte:

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Alberto Bresciani (Livro de Poemas)

ACUSAÇÃO

Você me acusa
pelas sombras
que nos cobrem

Não tenho a quem culpar
Guardamos a chave
quando passou a vigésima quinta hora

e os deuses de que fala
nunca souberam de nós
Estamos abandonados

na última vez
na impossível desdobradura
E eu afirmo:

amanhã ainda seremos
somente os dois
o verbo coagulando no escuro.

HARMONIZAÇÃO

Demorasse a tua mão
um pouco mais
sobre o meu ombro

e me nasceriam asas

Em silêncio
logo o pressentimento
o pacto e o voo:

grades e escarpas
ruindo sob as pernas
cúmplices, entrelaçadas

as nossas.

REINVENÇÃO

Vertendo do branco:
eu, o anti-herói
preso a ganchos de ar
por sobre as fragas da razão

duras lâminas
que evisceram
a argamassa do corpo
a desbordar de mim

banal, rude, rala argila
não reluz. Só o que destila
por trás do que me é oculto
se esconde à vista

É grampo no avesso
— até a secreção
vir à voz, exposta
aos anjos e algozes

Então o instante que espero
quando me reinventam os dias
e as aves planam
sob o vulto explícito e sem sede

Gritem medos e mentiras
para o estômago do nunca
(o julgamento está surdo
e a tentação de não ser

para hoje
está morta
afogada).

POSSE

O ar é só pele:
teu corpo expira
das dobras do mapa

aquece os dedos
saliva doce na boca
as esferas do sal

A falta é tensão
teu vulto invasivo
conturbando o pulso

em pedras candentes
nas farpas da noite

O ventre esfria
e explode em tentáculos
da fluida água marinha

vertigem que plana e pesa
por sobre as vozes
os cortes do dia

— teu sempre
no fundo de mim.

METAMORFOSE

Era seu rosto
um campo de trigo
e manso se entregava
ao passeio da boca

Braços me protegiam
e enlaçavam
e devolviam ventos
que ninguém sentiu

Desdobrava-se
o seu consentimento
e sem proposições
uma supernova em mim

Talvez reencontrasse o destino
respirasse sem deformidades
talvez fosse apenas como voltar

E já não chovia
E era tão bom.

INVERSÃO

O esgotamento vem
do vazio
esse fundo
enredo de vozes
que uma só valem —

atrás dos nódulos do espanto
das folhas da súplica
e da sequência de sombras
sem volta,

a ilusão habita
a insônia
vergonha e ridículo
do homem parado
diante da pedra.

MIRAGEM

Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho — ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

FILME

I

Ao mundo invisível
ao avesso do que é

onde fôssemos sólidos
no todo em transparência

que nos puxasse a planta mágica
retorno cauterizado para sempre

No ar eu sentiria
só o teu sentir meu corpo

um esquecimento cheio de ti
da pele de doces frutas

na boca o sumo e do mundo só
o teu corpo todo meu

como voar pelas voltas do pescoço
e dos ombros

volta ao torso e teus quadris
de volta sobre as pernas

agora nas minhas mãos
nos teus cabelos

II

Funda imersão
dessas que um filme

guarda caleidoscópico
sussurrado, ardente.

NUNCA

Um dia encontrei o nunca
preso ao teto
para onde nunca olhei

Tinha a aparência terrível
de uma gárgula
úmida de sangue

Mas sob os flagelos
era apenas
um pardal

tão sem pressa
desses que banais habitam
as árvores, a cegueira

Com voz serena e doce
disse que sendo nunca
era eterno, letra em todo nome

Soube quem era o nunca
e meu peito, arfando
pelo que não se esquece

aprendeu a respirar assim
um pouco menos
seca a parte que nunca mais.

PULO DO GATO

Recostado
à porta do tempo
esperava a transfiguração

a clareza nos olhos
voo, mergulho, fogo

(viria a revelação
troca de pele)

Mas terras e nomes
disseram flores e ainda
flechas e farsas

e a hora foi mais veloz
do que os sentidos

Perdi o momento de partir
o norte da migração

Agora
nas pausas da noite

fica o gosto pouco
de raízes

a tênue respiração
de pequenas asas

o desconhecimento
da vontade dos pés
e das mãos.

Fontes:
– Poemas enviados por Carlos Machado, de poesia.net.
– Alberto Bresciani. Incompleto Movimento. RJ: José Olympio, 2011.
Antonio Miranda.

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Roberto Pinheiro Acruche (Livro de Poemas)

A SAUDADE
Saudade… Qual é a sua cor?
Por que estou sentindo-a
tão junto a mim e não consigo vê-la?
Não me atormente ainda mais
com este silêncio,
além desta dor que me rasga o peito.
Porque você não aparece
e desvenda logo esse mistério?
Você sabe onde me encontrar!
Vou estar nos mesmos lugares,
sentado na areia olhando o mar
ou nos mesmos bares
consumindo a noite.
E se acaso não me encontrares
pergunte pra solidão…
Somente ela saberá dizer
o meu paradeiro.
Mas não demore mais;
faça antes da tristeza
me levar por inteiro!…
ARCA DOS SONHOS
As horas passam
e eu me curvo diante
do tempo
que também passa… Que passa!…
E eu preso na arca dos sonhos,
fantasiando a vida.
Quando acordar
desta aspiração
liberto do devaneio,
quem sabe ainda haverá tempo
para realizar os sonhos?
E se não houver tempo
e se não realizar meus sonhos,
valeu à pena ter sonhado!
AUSÊNCIA
A tua ausência transforma a noite em um suplício,
faz a formosura da lua desaparecer no infinito
e as estrelas no céu perderem o brilho.
A solidão minha constante companheira
cresce no silêncio que constrói um assombroso vazio,
enquanto as canções evolucionam a saudade.
E não há como se esquecer do passado
quando a caminhada era ornamentada
pela beleza das flores e perfumada em todos os momentos…
Mesmo quando a natureza disseminava as tempestades, com chuvas, trovões e ventos.
A brisa tinha a fragrância dos lírios
e os teus suspiros eram o meu alento.
A tua ausência, sentida nesse momento,
quando o pensamento
é todo reservado a ti,
faz explodir no peito a angústia
dessa solidão que abruma
ainda mais, essa noite triste e vazia.
QUANDO
Quando as gotas d’água
romperem as pedras dos meus caminhos,
cicatrizarem no meu peito as feridas
provocadas pelos espinhos
da desilusão…
Quando o tempo
arrancar do meu coração
as seqüelas da falsidade
e a perfídia for tragada
pela fidelidade…
Quem sabe,
encontrarei razão para viver
e os meus versos
falarão de um outro amor?
Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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Henriqueta Lisboa / MG (Livro de Poemas)

AMARGURA

Eu chegarei depois de tudo,
mortas as horas derradeiras,
quando alvejar na treva o mudo
riso de escárnio das caveiras.

Eu chegarei a passo lento,
exausta da estranha jornada,
neste invicto pressentimento
de que tudo equivale a nada.

Um dia, um dia, chegam todos,
de olhos profundos e expectantes,
E sob a chuva dos apodos
há mais infelizes do que antes.

As luzes todas se apagaram,
Voam negras aves em bando.
Tenho pena dos que chegaram
E as estas horas estão chorando…

Eu chegarei por certo um dia ..
assim, tão desesperançada,
que mais acertado seria
ficar em meio à caminhada.

EXPECTATIVA

Neste instante em que espero
uma palavra decisiva,
instante em que de pés e mãos
acorrentada estou,
em que a maré montante de meu ser
se comprime no ouvido à escuta,
em que meu coração em carne viva
se expõe aos olhos dos abutres
num deserto de areia,
— o silêncio é um punhal
que por um fio se pendura
sobre meu ombro esquerdo.

E há uma eternidade
que nenhum vento sopra neste deserto!

RESTAURADORA

A morte é limpa.
Cruel mas limpa.

Com seus aventais de linho
— flâmula — esfrega as vidraças.

Tem punhos ágeis e esponjas.
Abre as janelas, o ar precipita-se
inaugural para dentro das salas.
Havia impressões digitais nos móveis,
grãos de poeira no interstício das fechaduras.

Porém tudo voltou a ser como antes da carne
e sua desordem.

VEM, DOCE MORTE

Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
desfilam pálidos casulos
e o suspiro das árvores – secreto –
não é senão prenúncio
de um delicado acontecimento.

Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito
espetáculo deslumbrante e inédito
de rubros panoramas abertos
ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
com celeiros refertos e intocados.

Quando queiras. Presentes as estrelas
ou já esquivas, na madrugada
com pássaros despertos, à hora
em que os campos recolhem as sementes
e os cristais endurecem de frio.

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
que a teu primeiro sopro cederei distraída
como um pensamento cortado
pela visão da lua
em que acaso – mais alto – refloresça.

É ESTRANHO

É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.

A MENINA SELVAGEM

Para Ângela Maria

A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.
Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.
A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Oferecei bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

INFÂNCIA

E volta sempre a infância
com suas íntimas, fundas amarguras.
Oh! por que não esquecer
as amarguras
e somente lembrar o que foi suave
ao nosso coração de seis anos?

A misteriosa infância
ficou naquele quarto em desordem,
nos soluços de nossa mãe
junto ao leito onde arqueja uma criança;

nos sobrecenhos de nosso pai
examinando o termomêtro: a febre subiu;
e no beijo de despedida à irmãzinha
à hora mais fria da madrugada.

A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambus verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!

A infância inquieta
ficou no medo da noite
quando a lamparina vacilava mortiça
e ao derredor tudo crescia escuro, escuro…

A menininha ríspida
nunca disse a ninguém que tinha medo,
porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,
Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida
— batendo, batendo assombrado!

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Gladis Deble/RS (Livro de Poemas)

BIOGRAFIA

Se o espelho conservasse as imagens
Eu desfilaria sem roupas
por extensas paisagens
mas o espelho não tem memória.
Não retém o formato dos corpos,
tão pouco devolve o feedback
das histórias vividas.
Da aparência de ontem
nem a sombra,
Na dispersão dos ventos
nenhum oi.
No pequeno infinito
do espelho do meu quarto
cruzo as asas…
Ao descer a cortina
pinto a boca distraída,
Não sei porque fui esquecer
a senha desse acesso.
Só os trevos cultivados
em torno da retina
continuam a gravar
minha biografia.

LÁPIS

Emcaixado confortável
bailando entre meus dedos
grava marcas no papel
este objeto delgado.

Fino lenho preparado
com recheio de grafite
traz a história preservada
torna a arte permanente.

A terna função de escriba
que assumo intuitiva,
não mais me torna cativa
dos sonhos que construí.

Seguindo o velho roteiro
dos sonhos que encoragei
Surgiu o esboço vivo,
no poema me libertei.

Esta pequena varinha
que carrego como fada
vai desenhando o caminho
risca o lápis minha estrada.

A POESIA

A poesia salta da idéia
e cria vida própria.
Sonda lugares fantásticos,
descreve outras paisagens

Percorre distantes países
pensa novas matrizes
dança e reluz
como grão de poeira
projetado na luz.

Descreve trajetória errante
esmiuça sentimentos alheios,
redescobre lugares
que nunca esteve,inventa matizes.
Abraça todos os povos,
faz acordos com o insólito.

A poesia saltitante itinerante
navega na rede,traduz signos gravados
para o mundo ela escapa…
depois de cansado seu corpo de letras,
enroscada na folha como bicho inocente
adormece no livro protegida na capa.

PASTORIL

Apascentei rebanhos nas encostas
conduzi os animais a boa aguada
trouxe ramos de alecrim e flor do campo.
Compuz versos singelos na caverna
junto as cabras espiando o chuvisqueiro
e a neblina pondo a capa na campina.

A luzir a lanterna nos caminhos
rodopiei audaz,desviando o precipício
onde rolam pedras sózinhas no desfiladeiro.

A voz do bosque atraente me chamando
para um encontro mágico na fonte
com água transparente e oração
margeiam musgos, fungos na vertente
santuário verde onde em versos pastoris
esparramei minha canção.

GARATUJAS

Da grafite silenciosa
surgem figuras reais,
rabisco na santa paz
imagens do inconsciente.

O desenho em fragmentos
surge livre no papel
faz deliciosos os momentos
pensando num tal rapaz.

O fundo dessa gravura
de tal forma é texturado
que parece usar recursos
da velha xilogravura.

Rabiscos que crio hoje
tentando fazer desenhos
fugiram pela tangente.
E a imagem que eu queria
desmanchou-se em garatujas
virou pequena poesia.

DAS NAVEGAÇÕES…

Se teu olhar oblíquo descobrisse
a viagem que acontece a revelia
eu nem me atreveria a explicar.

Esfarelo versos na ponta dos dedos
adormeço salpicada de vontades
no afã de te encontrar …

Acarinho certas verdades
escovo a cabeleira revolta
querendo ancorar conforto.

Desdobrada e solitária
sigo a jornada, embora
navegues em mim

Nunca nós dois atracaremos
nossos barcos para dormir
juntos no mesmo porto.

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Ernani Maller (Livro de Poemas)


ESTÃO POR AÍ

As dores que eu causei estão por aí
Os corpos que eu amei estão por aí
As magoas que eu não guardei
Os sonhos que não encontrei
Feridas das qual só eu sei estão por aí

Os ventos que levam segredos estão por aí
Canções de ninar nossos medos estão por aí
O dia repleto de azul
Saudades em bando pro sul
Distantes do meu olho nu estão por aí

Os prantos desperdiçados estão por aí
As súplicas dos desesperados estão por aí
Os lábios repletos de sim
Os corpos que esperam por mim
Colombinas sem seus Arlequins estão por aí

A PALAVRA

A palavra é a matéria prima do escritor,
ela é maleável, sujeita-se aos caprichos do criador.
Mas também se impõem,
em sua ampla diversidade de interpretações.
A palavra morre, cai em desuso, mas também ressuscita.
Idiomas se extinguem,
levando consigo não somente palavras, mas formas de pensar.
Palavras que adjetivam o belo, como: a flôr, a borboleta
e principalmente a mulher.
São obrigatóriamente poéticas, assim como o é,
a palavra que da nome à “lembrança triste”,
um previlégio do idioma português: saudade.
Ao contrário da fotografia, que é o que se vê,
a palavra, é o que se imaginar ser,
ela da campo ao pensamento, asas à imaginação.
Na descrição de uma cena, cada leitor,
com suas experiências de vida, imaginará sua própria cena,
isso torna a palavra infinita, sem limites.
Pela palavra passa o conhecimento, a sabedoria, a erudição.
Sem a palavra não seriamos diferentes dos animais.
Ela distingue povos, classes socias,
profissionais liberais, com seus mais variados discursos,
é o poder das palavras, as palavras do poder.
Quantos livros? Quantos poetas? Quantas religiões?
Filosofia, história, tudo baseado na palavra,
que o ser humano manipula, em um inesgotável quebra-cabeça.
Através da palavra, o ser humano vai se forjando, vai se recriando,
portanto, não acredite se alguêm lhe disser:
“palavras são palavras, nada mais do que palavras”.

SABERÁS QUE É NATAL

Assim que brotar
A lua dos pinheiros crispantes
Assim que soar
Um sino distante

Com cantigas singelas
De inocência angelical
Mesmo que não te digam
Saberás que é natal

Assim que a gota salgada
Correr tua face tranquila
Assim que dor
Se fizer arrependida

Mesmo que sol não venha
E que o desgosto seja fatal
Porém, pela paz devastadora
Saberás que é natal

Mesmo que o silêncio vitalício
Lhe ensurdeça por fim
Que o deserto da alma
Encubra teu jardim

Poderás soluçar
Num sorriso passional
Mas com toda confiança
Saberás que é natal

DEUSA DA SENSUALIDADE

Eu sou carmim de sol que deita no poente
Brilho de estrela cadente
Lua velha na sertão

Nebulosa a fervilhar em noite silente
Olho de água corrente
Que se arrasta no porão

Sou a verdade que arrebenta em qualquer cara
Pau-de-fogo, pau-de-arara
A voar na imensidão

Sou liberdade de um grito incontido
Dos passos do perseguido,
Sou o norte e a razão

Sou a que tem malemolência de serpente
Pra colher estrela cadente
No azul do teu olhar

Sou a que chora amando contra a corrente
Se eu sou tão indecente
É pra poder te despertar

BRIGA DE FOICE

Pode me torturar
Me rasgar
Me bater
Pode me ferir a dente
Me botar corrente
Pois eu sei sofrer

Pode me tratar a berro
Pois eu sou de ferro
Vou até o fim
Pode me ferir a boca
Por que isso é sopa
Lindo querubim

Mas quando cair a noite
Vai ter briga de foice
Pois não quero ver
Você virar de lado
Dizer que está cansado
Sem me enlouquecer

Se não sou eu
Quem te trata a berro
Tu terás que ser de ferro
Para me satisfazer

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Cecília Meirelles (Livro de Poemas)

CANÇÃO

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

CANÇÃO I

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem…
Só que aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também…

DESTINO

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina desamparada
que não principia nem também termina,
e onde nunca é noite e nunca madrugada.
(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.
(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instáveis das reses dispersas.
(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o início da sombra que foge…
Eu, não.)

Pastora de nuvens, não paro nem durmo
neste móvel prado, sem noite e sem dia.
Estrelas e luas que jorram, deslumbram
o gado inconstante que se me extravia.
(Pastores da terra, debaixo de folhas
que entornam frescura num plácido chão,
Sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono das reses, do dono do prado.
E às vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, não sei por que lado.
(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginação,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não.)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.
(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não.)

A DOCE CANÇÃO

A Christina Christie

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade – e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco-íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
– todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o ausente,
para trazer o Universo
de pólo a pólo contente!

BALADA DAS DEZ BAILARINAS DO CASSINO

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

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Olavo Bilac (Alma Inquieta:poesias) 1


A AVENIDA DAS LÁGRIMAS

A um Poeta morto

Quando a primeira vez a harmonia secreta
De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,
– Dentro do coração do primeiro poeta
Desabrochou a flor da lágrima primeira.

E o poeta sentiu os olhos rasos de água;
Subiu-lhe à boca, ansioso, o primeiro queixume:
Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,
Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.

E na terra, por onde o sonhador passava,
Ia a roxa corola espalhando as sementes:
De modo que, a brilhar, pelo solo ficava
Uma vegetação de lágrimas ardentes.

Foi assim que se fez a Via Dolorosa,
A avenida ensombrada e triste da Saudade,
Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa
Dos órgãos do carinho e da felicidade.

Recalcando no peito os gritos e os soluços,
Tu conheceste bem essa longa avenida,
– Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,
Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.

Teu pé também deixou um sinal neste solo;
Também por este solo arrastaste o teu manto…
E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,
Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.

Mas tua alma ficou, livre da desventura,
Docemente sonhando, às delícias da lua:
Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,
Guardando na corola uma lembrança tua…

O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
– Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.

Inania verba

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
– Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!

Midsummer’s night’s dream

Quem o encanto dirá destas noites de estio?
Corre de estrela a estrela um leve calefrio,
Há queixas doces no ar… Eu, recolhido e só,
Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó,
Para purificar o coração manchado,
Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado…

Que esquisita saudade! – Uma lembrança estranha
De ter vivido já no alto de uma montanha,
Tão alta, que tocava o céu… Belo país,
Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,
Livre da ingratidão, livre da indiferença,
No seio maternal da Ilusão e da Crença!

Que inexorável mão, sem piedade, cativo,
Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?
Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,
Bracejo, e peno em vão, para fugir do mal!
Por que, para uma ignota e longínqua paragem,
Astros, não me levais nessa eterna viagem?

Ah! quem pode saber de que outras vida veio?…
Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio
Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!
Tremo… e cuido sentir dentro de mim pesar
Uma alma alheia, uma alma em minha alma escondida,
– O cadáver de alguém de quem carrego a vida…

Mater

Tu, grande Mãe!… do amor de teus filhos escrava,
Para teus filhos és, no caminho da vida,
Como a faixa de luz que o povo hebreu guiava
À longe Terra Prometida.

Jorra de teu olhar um rio luminoso.
Pois, para batizar essas almas em flor,
Deixas cascatear desse olhar carinhoso
Todo o Jordão do teu amor.

e espalham tanto brilho as as asas infinitas
Que expandes sobre os teus, carinhosas e belas,
Que o seu grande clarão sobe, quando as agitas,
E vai perder-se entre as estrelas.

E eles, pelos degraus da luz ampla e sagrada,
Fogem da humana dor, fogem do humano pó,
E, à procura de Deus, vão subindo essa escada,
Que é como a escada de Jacó.

Incontentado

Paixão sem grita, amor sem agonia,
Que não oprime nem magoa o peito,
Que nada mais do que possui queria,
E com tão pouco vive satisfeito…

Amor, que os exageros repudia,
Misturado de estima e de respeito,
E, tirando das mágoas alegria,
Fica farto, ficando sem proveito…

Viva sempre a paixão que me consome,
Sem uma queixa, sem um só lamento!
Arda sempre este amor que desanimas!

Eu, eu tenha sempre, ao murmurar teu nome,
O coração, malgrado o sofrimento,
Como um rosal desabrochado em rimas.

Sonho

Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade
Solto para onde estás, e fico de ti perto!
Como, depois do sonho, é triste a realidade!
Como tudo, sem ti, fica depois deserto!

Sonho… Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.
Noite… A amplidão se estende, iluminada e calma:
De cada estrela de ouro um anjo se debruça,
E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.

Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.
Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.
E, como sobre um leito um alvo cortinado,
Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.

Porém, subitamente, um relâmpago corta
Todo o espaço… O rumor de um salmo se levanta
E, sorrindo, serena, aparecer à porta,
Como numa moldura a imagem de uma Santa…

Primavera

Ah! quem nos dera que isto, como outrora,
Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

E esse corpo de rosa recendia,
E aos meus beijos de fogo palpitava,
Alquebrado de amor e de cansaço…

A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera… E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço!

Fonte:
BILAC, Olavo. Antologia : Poesias. São Paulo : Martin Claret, 2002. Alma Inquieta. (Coleção a obra-prima de cada autor).

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Ingrid A. Ditzel Felchak (Livro de Poemas)


FRIO

O frio é
Um balaio vazio
Feito de bambu
Lá na beira do caxim.

O frio é
Um monte de pedra
Polida ou não
Para a eterna solidão.

O frio é
Um punhado de areia
Da grossa, da fina.
Com cal ou cimento
Na grande construção.

O frio?
Pode ser a rua vazia
A lua vadia, o pirilampo
Tonto em agonia.

O frio é:
Roupa amontoada
Banho mal tomado
E cheiro de mofo.

É o frio…
Minina serena
Da rua pequena
Lá, lá trás
Do portão.

E o frio?
Não é o vento que sopra
Nem o termômetro que cai
Sou eu, é você, são todos os demais…

Poema publicado no livro”FASE” –Editora Litteres- lançado na XII Bienal Internacional do livro-Rio de Janeiro – maio de 2005. Páginas 12 e 13

VENTO, TEMPO

Ando só pelos campos
o vento sopra
desalinha meus cabelos
qual plumas encantadas
presas sem razão.

O corpo nu
na relva se estende
e o vento geme
qual doente na hora final.

Os primeiros raios de sol
dão colorido À pele.
E a grama
se torna bela.

Vento que descobre meus pensamentos.
Vento que desbrava meu corpo.

Flores se confundem
no azul profundo dos meus olhos
que tocados pelo vento se fecham
qual vítima do próprio tempo.

Vento quem és tu
que arrasta o meu ser
e me desgoverna ?

Vento que me traz loucos pensamentos
e quando o sol surge no seu total fulgor
traz sensação de loucas paixões.

Rolo em desalinho.
Prendo-me na grama úmida
e nas ervas daninhas.

Mais louco que tu,sou eu
que concordo com teus lamentos.
E,sem querer, me lanço nos teus desbravamentos.

Poema publicado no livro FASE páginas 30 e 31 -Editora Litteris – 2005 – XII Bienal Internacional do Livro – Rio de Janeiro -15

FOLHAS DE OUTONO

Secas,balançam ao vento e caem ao chão.
Rolam,rolam e voltam ao marrom.

Brotaram um dia, cresceram verdes e belas
mas voltaram ao chão.
Fortificaram o solo ? Talvez,mas não
caíram em vão.

Balançaram com o vento suave da noite
e resistiram á tempestade,mas não
quiseram o verão.

Caíram soltas, juntas estão.
Secas pairaram e agora adormecem
purificando o mundo da podridão.

Livro FASE ED. Litteris Rio de Janeiro 2005 página 14, Livro lançado na XII Bienal Internacional do Livro Rio de Janeiro.


VERÃO

Apita o trem na estação.
Suspiro e balas de amora.
Avôs na escada.

Férias, flerte na calçada.
A bola rola e pula.
Cuidado a rua!

Passa anel.
Gira ciranda.
Fim do dia!

Amanhã?
A brincadeira continua.
Esconde-esconde o sonho…
Férias de verão!

Publicado no livro: Poesia e prosa de verão- Antologia – 2009- Editora Taba Cultural – Rio de Janeiro -Rj – Página 15

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Eliana Ruiz Jimenez (Livro de Trovas e Poemas )


TROVAS

Voa passarinho, voa
que gaiola é só maldade
livre, lá nos céus entoa
o cantar da liberdade.

Menção especial – I Jogos Florais – BC/2004
O mar de um azul profundo
e as montanhas esverdeadas,
são belezas desse mundo,
precisam ser preservadas.

Menção especial – II Jogos Florais – BC/2006
Rede que volta vazia
traz tristeza ao pescador
que apesar da nostalgia
leva adiante o seu labor.

Pescador mais esportivo
deixa seu peixe escapar,
melhor solto que cativo,
para assim o preservar.

Menção honrosa – III Jogos Florais – BC/2008
Sorriso que é cativante
é sincero e iluminado,
precioso como brilhante
por todos ambicionado.

O sorriso está escasso
nessa tal modernidade,
é preciso dar um passo
e mudar essa verdade.

Menção especial – III Jogos Florais – BC/2008
Sorria pra natureza
respeite e sempre preserve,
só assim teremos certeza
que o mundo assim se conserve.

Vencedora – IV Jogos Florais – BC/2010
Um segredo bem guardado
para assim permanecer
não deve ser partilhado
para nunca se perder.

Menção honrosa – IV Jogos Florais – BC/2010
O futuro do planeta
não é segredo a ninguém
preserve e se comprometa
que a vida assim se mantém.

Menção especial – IV Jogos Florais – BC/2010
Esse mundo feminino
de segredos permeado
é um gracejo do destino
pelos homens odiado.

———–
Obs: BC é Balneário de Camboriú
————-

POEMAS

MENINO POBRE

Menino pobre
Da noite quente
Abandonado
Menor carente.

Menino pobre
Da noite nua
Necessitado
No olho da rua.

Menino pobre
Do pé descalço
Chutando lata
Pela calçada.

Menino pobre
Menino sujo
Vagando triste
Um moribundo.

Menino inquieto
Girando o mundo
Sem casa e roupa
Sem mãe nem pai.

Menino triste
Pra onde vai
O que vai ser
Quando crescer?

MAR

Ventos
Valsando
Voltam
Vagando
Trazendo
O barulho
Do mar.

Brisas
Soprando
Ondas
Tragando
Fazendo
A beleza
Sem par.

Canários
Cantando
Aves
Voando
Planando
A leveza
Do ar.

Praias repletas
Luzes, atletas
Completam
Essa vida
No mar.

FOSSA

Sai dessa fossa, menina
Que isso não tem remédio
O que está feito é passado
E o passado só leva ao tédio.

Se as coisas dão errado
Se a sorte te despreza
Não fuja, não vá de lado
Vá em frente que não pesa.

Sai dessa fossa, menina
Que chorar não adianta não
A vida tem dessas mesmo
Mas chorar não é solução.

Deixe de caminhar a esmo
Pare de se sentir errada
As coisas acontecem para o bem
Não há mal que resulte em nada.

Existe um horizonte além
Dos conflitos do dia-a-dia
Sai dessa fossa, menina
Olhe em frente e sorria!

ESCRITÓRIO

Escritório
Sina de todo dia
Multidão comprimida
Na total monotonia.

A porta fecha
Deixando a vida lá fora
O relógio é moroso
E a saída demora.

Presos na caverna de luxo
Onde o sol não entra
Onde a chuva não molha
E até o ar é condicionado.

Escritório
Robôs de crachás
Sem pensamentos, sem vontade
Sem individualidade.

As melhores horas
De muitos dias
Em troca da breve alegria
Do dia dez.

TALVEZ

Talvez seja esse
O amor que procurei por toda a vida
Que pedi às estrelas
Que pedi aos santos
Que procurei nos cantos.

Talvez seja esse
O amor que sonhei da despedida
Quando descobri o engano de um amor trocado
E senti o sofrimento sem pecado.

Talvez seja esse
O amor que me fará forte
E de tão forte me fará fraca
Por ter meu coração entregue à sorte.

Talvez seja esse
O amor que me fará feliz
E será firma e será tão sólido
Que poderemos formas nós dois
Um só tronco, uma só raiz.

Talvez seja esse, finalmente
O meu caminho, o meu destino
A chave que libertará do meu peito
Todo o amor que eu tenho para dar
A recompensa por querer tão somente
Partilhar de um sentimento sincero
A realização do simples, porém complexo
Desejo de amar.

Talvez seja esse, talvez…

Fonte:
Poesias Urbanas e Outras Paixões, , indicação de A. A. de Assis

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J. G. De Araujo Jorge (Livro de Poemas I)

A Casa Abandonada

Abro a janela da minha alma e espio:
– tudo é negro é completa a escuridão…
Nesse estranho lugar, triste e vazio,
hoje habita somente a solidão

Há teias de saudade em cada canto,
e a poeira de um amor cobre o seu chão…
São sombrias as salas, – velho encanto
há nesse feio e escuro casarão

Uma ruína em meu peito, abandonada,
com muros desbotados… cheios de hera…
-como um túmulo à beira de uma estrada ,
que nada mais desta existência espera…

O tempo, pouco a pouco, já a consome,
– outrora, por exemplo – havia um nome
de mulher, no portal, mas se apagou…

Quantos homens como eu, na alma fechada,
vão levando uma casa abandonada
de onde alguém que partiu não mais voltou!..

A Cruz de Ninguém

Era uma cruz… pequena… de madeira…
em meio às outras cruzes, desprezada,
sobre um monte de terra, abandonada,
sem uma flor sequer por companheira…

Pendendo sobre o chão, tosca, bem feia,
cobria o corpo de um, que foi fadado
a ser talvez, na vida, um desgraçado,
hoje feliz sob um montão de areia…

Vendo-a tão só, nublou-se o meu olhar,
e orei por esse irmão que ali dormia,
pois morto eu fosse, e a minha cruz seria
tal como aquela, ao tempo, a se inclinar…
……………………………………………………………..

Ao partir… junto à cruz triste e sozinha
escrevi sobre a terra uma inscrição
que é bem possível que ainda seja a minha:

“Aqui se encontra alguém desconhecido,
um que nasceu talvez por irrisão
e que morreu, sem nunca ter nascido…”

A Ilusão de Ser Feliz

Silêncio… A Noite pesa sobre tudo,
e eu, quedo, triste, retraído e mudo
vou traduzindo a dor que me consola…

Deixo falar meu coração tristonho,
e assim, vou despertando um pobre sonho
que alguém me deu por derradeira esmola…

Relembro o doce amor que tanto adoro
e sinto que ao lembrá-lo, quase choro
talvez porque não sei me compreender…

Partiste…e nem sequer adeus te disse
só por temer que desse adeus surgisse
a triste confissão de meu sofrer.

Prefiro esse meu sonho por ventura
uma vaga esperança por tortura
e um porvir de quiméricas visões…

Feliz, eu me contento com a incerteza,
sentindo a vida, embora com tristeza,
uma linda cadeia de ilusões…

E é tudo que me resta. O coração
ainda tenho a pulsar, nesta visão
que, por que tive medo, não desfiz…

A Última Estrela

Voltaste as folhas, uma a uma, e agora
vais fechar este livro: a noite é finda…
O “meu céu interior…” já se descora
à luz de um dia que não vive ainda…

Não sei se achaste a minha noite linda,
se sentiste, como eu, o vir da aurora…
Vai a luz aumentando…A noite é finda
O “meu céu interior…” já se descora!…

Cada folha voltada, foi assim
como um raio de luz, a mais, brilhando…
– como uma estrela que encontrou seu fim…

Esta folha – é da noite, o último véu…
E este verso que lês, e vai findando,
a última estrela a se apagar no céu!…

A Vida Que Eu Sonhei…

Eu sonhei para mim, uma vida discreta
num lugar bem distante, a sós, tendo-te ao lado
– num castelo que fiz lá num reino encantado,
nesse reino que eu chamo o coração de um poeta…

Sonhei… Vi-me feliz na solidão de asceta,
bem longe deste mundo, a rir, despreocupado…
– acordando a escutar no arvoredo o trinado
das aves, e a dormir fitando a lua inquieta…

Vivia na ilusão daquele que ainda crê,
na vida, e o meu amor, eu o tinha idealizado
no romance de um lar coberto de sapê…

– Mentiras que eu sonhei!… No entanto hoje me ponho
muita vez a pensar no tal reino encantado
e sinto uma saudade imensa do meu sonho!…

Adormecer…

Muita vez, no silêncio, enquanto a noite desce
e pousa sobre a terra o seu manto dourado
de estrelas, no meu quarto, a sós, abandonado,
não tenho pelo mundo o mínimo interesse…

Mas, não sei bem dizer… dentro em meu peito cresce
um sonho, e, de repente, eu sinto, consolado
que alguém vem para mim, que alguém vem ao meu lado,
e me diz bem baixinho alguma estranha prece…

Então, tomo da pena, e espero calmamente…
Uma noite, porém, me lembro, adormeci
sentindo esse esplendor de um céu que está contente,

e não pus no papel mais que um nome sequer…
E só quando acordei, na folha branca, eu vi
que apenas tinha escrito um nome de mulher…

As Estações do Amor…

Eu tinha para mim que eras pura e sincera,
e por isso, talvez acreditei em ti…
Nesse tempo, em meu ser, fazia a primavera
e as flores do meu sonho em minha alma colhi…
Depois… Foi de repente… Ao passar da estação,
tornou-se o meu amor maior… e mais ardente…
Havia no meu peito o calor do verão,
– e julguei que eras minha, minha inteiramente…
E o tempo foi passando… E tudo, pouco a pouco
mudou – e me senti num completo abandono…
Caíram para sempre as ilusões – e eu, louco,
as vi secar no chão como folhas de outono…
E um dia… Veio o inverno insípido e tristonho,
– fazia muito frio… e em minha alma nevou…
E a neve foi caindo, e sepultou meu sonho
………………………………………………………………..

As estações do tempo… As estações do amor…
Parecem muito iguais… e diferem no entanto,
– naquelas há o voltar da alegria e da côr
ao de novo surgir, da primavera , o encanto…
Mas nas outras, depois do inverno, nada existe…
Tudo é branco… tristonho… frio e desolado,
– recorda-se a chorar – e vê-se o como é triste
lembrar a primavera antiga do passado !…

Canteiro de Opalas

Céu azul… céu lilás… Noite azul, tropical
que através da janela eu fito deslumbrado,
como o sapo infeliz, de olhar quieto e parado
que mora sem ninguém no fundo do quintal…

Abóbada que encima a imensa catedral
do Universo, onde o poeta, um Deus por Deus deixado
na terra, vai abrir seus olhos, consolado
na extática visão de uma obra magistral…

Quando o vejo a pulsar numa noite bonita,
Parece, nem sei bem – um “canteiro” de opalas
cujo pólen é a luz que nos astros palpita…

Opalas que eu adoro! Em vão tento colhê-las!
– Quisera na minha alma azul também plantá-las
para ter no meu peito um punhado de estrelas!…

Fonte:
JORGE, J. G. De Araújo. Meu Céu Interior. 1ª edição, setembro,1934

Imagem = montagem por José Feldman (poema de Jorge; retrato; bandeiras do Acre (nascimento) e do Rio de Janeiro (radicou-se))

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Eunice Arruda (Poemas Avulsos II)

NOSTALGIA

Amo
os
casais

Ombro
a
ombro

Pisando a mesma calçada

Amo os casais que
atravessam
ruas
estações

Seguram as
mãos
não
o tempo

Amo
os
casais

Que permanecem

(poema publicado no site “escritoras suicidas” – convidadas – edição 36

INICIAL

mudar a sombra e a árvore
da terra do mar mudar
ser par
mudar o risco e o cabelo
o lado de dormir e o de sonhar

(do livro “Mudança de lua”, Scortecci Editora, 1986 – São Paulo/SP)

ESQUECI

o meu
caminho de casa

o sono úmido
útero

o nome dos sentimentos

as mãos
dadas às praças

as flores
as estações, esqueci
o rosto de minha mãe

(poema sobre xilogravura de Valdir Rocha)

CLANDESTINIDADE

Vivi na clandestinidade
anos

No escuro nos bares na periferia
——————————-anos a fio
——————————-escondida
——————————-envolvida
em fumaças
teorias
Na paixão. Na clandestinidade

Até que um dia me entregaram

à vida

(do livro “Mudança de lua”, João Scortecci Editora – São Paulo, 1989)

GABRIEL

a duras penas
o tempo parou:
enterramos o morto

nos misturamos à terra
a
duras penas
conhecemos o nosso verdadeiro nome

(do livro “Gabriel:” – Massao Ohno Editor, 1990, São Paulo/SP)

MULHERES

Mulheres
mecanizadas
simulam
vozes

De passos duros
e roupas leves
alargam a tarde
de fumaça e
objetivos

Têm pressa – não
sonhos

Mulheres mecanizadas
geram filhos e
criam o
abstrato

(do livro “Invenções do desespero”, São Paulo / SP, 1973)

TÃO TRANQÜILA

Tão tranqüila a sala
A tarde caminha lenta impune
Portas fechadas
ressoam vozes
lá fora
um telefone jamais chama

Talvez chova ainda hoje
mas agora
nenhum risco ou relâmpago
Posso dormir neste barco
há árvores à margem sombreando o rio

É tão tranqüila a sala
na tarde seguindo lenta
E vibra
ardente
como uma palma de mão
Aqui descanso do sim e do não

(do livro “Risco” – Nankin Editorial, 1998 – SP)

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Roberto Pinheiro Acruche (Meus Poemas n. 5)

AMOR ETERNO

Foram tantas, as juras que trocamos,
com suaves palavras e verdade,
que firmados nesta sinceridade…
Em nosso caminho continuamos!

Os cruzamentos e nossos enganos,
cada tropeço e adversidade,
fizeram de nossas juras, saudade…
Nada mais restando do que sonhamos.

Temendo submergir na memória,
os lindos momentos de nossa história…
Guardei-os, escritos, neste caderno…

E ao relê-lo, o que faço lentamente,
com os olhos molhados e um tanto ardente,
jurando-te o meu amor eterno.

DESVENTURA

Este silêncio, este vazio
deixa uma interrogação,
um sentimento de tristeza
de dúvida, incerteza,
mexe com a minha alma,
rasga-me o coração…
Como dói e machuca a solidão!
É tudo tão isolado, distante
uma ansiedade, um estado ofegante,
uma inquietação…
Até o ar que tanto preciso
não está mais comigo, também me abandonou
deixando-me sem respiração.
E o sono que não chega, o telefone que não toca,
ninguém bate em minha porta; só eu grito;
grito sem pronunciar uma só palavra…
A lágrima cai incontida,
como mudou a minha vida,
a minha alegria de existir e cantar.
Já estão pesados os meus passos,
estão vazios os meus braços
sem ninguém para abraçar.
Estou agora confinado neste quarto
que é toda a extensão do meu mundo
Não vejo mais nada lá fora,
nada que brota e que aflora…
Sou prisioneiro da lembrança… Da saudade!…

DIFERENTE

Queria um poema que fosse diferente,
que falasse de povo… de gente!
Não de rosas, de lua cheia,
nova, minguante ou crescente.
Nem de dores… Sequer de amores,
desejos ou de um beijo ardente.
Muito menos de lembranças ou paixão,
saudade, tristeza e traição.
Quero um poema que fale de gente,
de povo… Que trabalha, que luta, que sua…
Que peregrina pela rua,
enfrenta o campo, conduz o gado,
que prepara a terra,
pega no arado,
aduba e planta, sorri, chora e canta,
pesca, cai e levanta,
nunca se entrega, não perde a esperança,
leva a vida com altivez…
dignidade e perseverança.

EM VOCÊ

Em seu olhar encontrei a luz
que clareia os meus passos e meus caminhos.
Em seus braços encontrei o calor
que me aquece e me conforta.
Em seus lábios encontrei o doce
encanto do amor.
Em sua voz o prazer de ouvir.
Em seu perfume o cheiro das flores
que me embriagam.
Em suas mãos a suavidade dos seus carinhos
e o apoio.
Em seus ombros o amparo e o consolo.
Em você encontrei a vida.

ÊXTASE

Sinto uma exaltação mística
quando te vejo!
Me transporto para fora do mundo…
Você me enlouquece de desejo.
Navego pelo espaço da imaginação
e do sonhos
e flutuo magicamente pelo sobrenatural…
É uma sensação deslumbrante,
imaginar você nos meus braços.

Fonte:
O Autor

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Carlos Drummond de Andrade (Livro de Poemas)

AO AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

A RUA DIFERENTE

Na minha rua estão cortando árvores
botando trilhos
construindo casas.

Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam.
Eles não sabem que a vida
tem dessas exigências brutas.

Só minha filha goza o espetáculo
e se diverte com os andaimes,
a luz da solda autógena
e o cimento escorrendo nas formas.

A FOLHA

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

BEIJO-FLOR

O beijo é flor no canteiro
ou desejo na boca?
Tanto beijo nascendo e colhido
na calma do jardim
nenhum beijo beijado
(como beijar o beijo?)
na boca das meninas
e é lá que eles estão
suspensos
invisíveis

CANÇÃO AMIGA

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar…as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

DIANTE DE UMA CRIANÇA

Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidoso intelectual

vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?

Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?

Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?

Submeter-se à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?

E se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?

Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?

Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.

Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.

“EU HOJE JOGUEI TANTA COISA FORA….”

Não importa onde você parou…
em que momento da vida
você cansou…
o que importa
é que sempre é possível
e necessário” recomeçar”.
Recomeçar é dar
uma nova chance a si mesmo…
é renovar as esperanças
na vida e o mais importante…
acreditar em você de novo.
Sofreu muito nesse período?
foi aprendizado…
Chorou muito?
foi limpeza da alma…
Ficou com raiva das pessoas?
foi para perdoá-las um dia…
Sentiu-se só por diversas vezes?
é por que fechaste
a porta até para os anjos…
Acreditou
que tudo estava perdido?
era o indício da tua melhora…
Pois …agora é hora de reiniciar… de pensar na luz…
de encontrar prazer
nas coisas simples de novo.
Que tal um novo emprego?
Uma nova profissão?
Um corte de cabelo
arrojado… diferente?
Um novo curso…
ou aquele velho desejo
de aprender a pintar…
desenhar…
dominar o computador…
qualquer
outra coisa…
Olha quanto desafio…
quanta coisa nova
nesse mundo de meu Deus
te esperando.
Está se sentindo sozinho? besteira…
tem tanta gente
que você afastou
com o seu período de isolamento
tem tanta gente esperando
apenas um sorriso teu
para “chegar” perto de você.
Quando nos trancamos
na tristeza…
nem nós mesmos nos suportamos…
ficamos horríveis…
o mal humor
vai comendo nosso fígado…
até a boca fica amarga.
Recomeçar…
hoje é um bom dia
para começar
novos desafios.
Onde você quer chegar?
ir alto…
sonhe alto…
queira o melhor do melhor…
queira coisas boas para a vida…
pensando assim trazemos
prá nós aquilo que desejamos…
se pensamos pequeno…
coisas pequenas teremos…
se desejarmos fortemente
o melhor e principalmente
lutarmos pelo melhor…
o melhor vai se instalar
na nossa vida.
É hoje o dia da faxina mental…
joga fora tudo
que te prende ao passado…
ao mundinho de coisas tristes… fotos…
peças de roupa…
papel de bala…
ingressos de cinema…
bilhetes de viagens…
e toda aquela tranqueira
que guardamos
quando nos julgamos apaixonados…
jogue tudo fora…
mas principalmente…
esvazie seu coração…
fique pronto para a vida…
para um novo amor…
Lembre-se somos apaixonáveis…
somos sempre capazes
de amar muitas
e muitas vezes…
afinal de contas…
Nós somos o “Amor”…
––––––––––––––––––––––––-

Mais poesias de Drummond no Blog

Livro de Poesias
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/04/carlos-drummond-de-andrade-livro-de.html
A casa do tempo perdido
A Corrente
A Lebre
Fim
Importância da escova
Lembrança do Mundo antigo
Pavão
Quero me casar
Sentimental

Antologia Poética
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/02/carlos-drummond-de-andrade-antologia.html
A Falta de Érico
A palavra mágica
A poesia (não tires poesia das coisas)

Poesias Além da Terra, Além do Céu
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/04/carlos-drummond-de-andrade-poesias-alem.html
A bruxa
A hora do cansaço
Alem da terra, além do céu
As sem razões do amor
Cantiga de Viúvo
Confidência do Itabirano
Memória
O amor bate na porta
O Tempo passa? Não passa
Poema patético

Campo de Flores – análise da poesia
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/12/carlos-drummond-de-andrade-campo-de.html

Caso Pluvioso
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/11/carlos-drummond-de-andrade-caso.html

Os Ombros Suportam o Mundo
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/02/carlos-drummond-de-andrade-poesia-os.html

José
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/02/carlos-drummond-de-andrade-poesia-jos.html

Mãos Dadas
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2008/05/carlos-drummond-de-andrade-mos-dadas.html

Certas Palavras
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/03/carlos-drummond-de-andrade-certas.html

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Biografia
http://singrandohorizontes.blogspot.com/2007/12/carlos-drummond-de-andrade-1902-1987.html

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Montes Claros (MG) Poético


Alfredo Marques Vianna de Góes

Nasceu em Montes Claros, em 23.11.1908. Terminou seus estudos de segundo grau em Curvelo (MG) , onde viveu toda a sua juventude. Mudou-se para Belo Horizonte em 1935, onde fez o curso de Direito. Cronista e poeta, foi intensa a sua colaboração na imprensa mineira. Durante mais de dez anos foi o presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.

AD IMORTALITATEM

Sinto a saudade vã de recôndita era…
De um mundo onde, talvez, eu já vivi outrora.
E sei, por intuição que a morte não supera
A vida, que transcende o espaço e o tempo em fora…
A vida é como o tempo: uma emoção de espera…
Se acaso vem, depois da noite vem a aurora.
Se um ser morre, ressurge, alhures, noutra esfera…
E assim como expirou, renasce e revigora.
Então, noutro avatar, em nova natureza
Revive, ama e, no amor, realiza a humanidade.
E a vida continua além da flama acesa
Do milagre vital, da entidade criada,
Por ser eterno o ser, essência e atividade
Do próprio Deus que anima a gênese do Nada.
================================
Cândido Canela

Nasceu em Montes Claros(MG), aos 22 de agosto de 1910. Tabelião do 1º Ofício, Vereador à Câmara Municipal de Montes Claros por vários mandatos. Humorista satírico, inspirado trovador, publicou LÍRICA E HUMOR DO SERTÃO e REBENTA BOI. Membro da Academia Montesclarense de Letras.

SAUDADE
Saudade – recordação,
de tudo quanto ficou
bem fundo, no coração
do velho que muito amou.
Saudade – sorriso e dor,
pranto dos olhos que rola,
saudade – prece de amor
passado que nos consola.
Saudade – nosso presente,
relembrando os nossos fados,
saudade – sabor ardente
de antigos beijos trocados.
Saudade – luar de prata,
festivos saraus de outrora,
saudade – mulher ingrata,
que a gente reclama e chora.
Saudade – infância passada,
juventude que se foi.
terno canto à madrugada
de um velho carro-de-boi.
Saudade – perfume estranho
de uma flor já ressequida
entre as páginas de antanho
dos livro de nossa vida.
Saudade – corpo ainda leve,
sorrisos abertos e francos,
saudade- flocos de neve
dos nossos cabelos brancos.
Saudades, enfim, são das dores
da velhice, atroz , arfante,
ouvindo trovas de amores
da mocidade distante.

===================
Corbiniano R. Aquino


Nasceu em Januária – MG, em 8.8.1915. Metade de sua infância viveu em Avaí (SP). Residiu por alguns anos em Belo Horizonte, de lá retornando à sua cidade natal. Seis anos após transferiu-se com a família para Montes Claros. Graduado em Direito, em 1964, pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Industrial e comerciante, professor de contabilidade. Em Januária, presidiu a Associação Comercial e fundou “A Tribuna de Januária” dirigindo-a por seis anos. Em Montes Claros, foi presidente da Associação Comercial e Industrial e o primeiro dirigente do Mobral, com Diploma de Reconhecimento entregue pelo ministro Mário Henrique Simonsen.

Romances publicados:
Aconteceu em Serra Azul e Aconteceu…

MÃE
Sonhei vê-la chegando
bem juntinho de mim!
Quisera não ter acordado
para este sonho não ter fim…
Colhi rosas da minha mãe
para a minha vida inteira,
hoje o que mais desejo
é rever minha roseira.
Esta roseira bem se parece
uma planta, tal e qual,
porém ela, como uma prece,
fez um ato adicional!
Mãe é um sorriso de DEUS
nos sofrimentos do mundo,
é paz nos desatinos
e nos dissabores profundos.
À minha mãe querida,
do fundo d’alma revelo,
se hoje a tivesse comigo
redobrada meu desvelo!
Sim, minha mãezinha,
só depois, reconhecemos
o que, então, nós tínhamos
e o que após nós perdemos!…
============================
Geraldo Freire

Nasceu em Montes Claros (MG), aos 4 de julho de 1910. Professor secundário e jornalista, hábil desenhista e tipógrafo. Durante muitos anos foi Inspetor do Ensino Primário Municipal. Em 1957 publicou “Fontes de Suspiros”(poesias). Foi membro da Academia Montesclarense de Letras.

RETORNO À MINHA ALEGRIA
Meus braços estão vazios do teu corpo…
Minh’alma está ausente da tua alma…
E aqui dentro tão frio,
Tão frio,
Que chego a tremer neste vazio!
Vem!
Há torrentes de lágrimas rolando
Pelos longos caminhos de minha solidão.
E há corvos grasnando
Nos misteriosos escaninhos do meu coração!
Vem ! Caminha!
E, em vindo, então,
Eu sentirei toda a pujança do meu verso…
Afastarei toda a angústia do Universo…
– No momento exato em que tu fores minha !
====================
João Valle Maurício

Nasceu em Montes Claros(MG), em 26 de abril de 1922. Diplomado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte em 1946 com especialização em Cardiologia. Reitor da Fundação Norte Mineira de Ensino Superior. Secretário de Estado da Saúde de Minas Gerais. Membro da Academia Municipalista de Minas Gerais, da Academia Mineira de Letras e ex-presidente da Academia Montesclarense de Letras. Diversos livros publicados “GROTÃÒ, TAIPOCA, PÁSSARO NA TEMPESTADE, entre muitos outros.

MUNDO VAZIO
Palavras vazias
Num mundo vazio.
Palavras
Clamando justiça,
Rogando perdão,
Chorando sem fé.
Palavras
Pedindo amor,
Esperando
Orando
Compreensão.
Palavras
Voando confusas;
Alucinadas
Em multidão.
Palavras vazias
Num mundo sem formas,
Sem perfume
Sem beleza,
Sem calor…
Mundo que segue
Sempre girando,
Sempre perdido
Eternamente envolvido,
Em nebulosa de dor.,
Palavras sem formas
Em todas as línguas
Em todas as bocas
Em todas as cores.
E os homens falando
Sempre falando.
E ninguém escutando.
O som das palavras
Não tem ressonância
É Babel de mensagens
Ganhando distância
Voando sem eco
Pelo mundo afora.
E os homens perdidos,
Sofridos,
Desesperados, angustiados,
Falando, sempre falando
E o mundo girando,
Sempre girando,
Sempre mais frio.
Palavras sem formas
Num mundo vazio!
BARRO
Eu queria ter mão imensa,
imensa de força e de amor,
mão mais forte ( com licença)
do que a mão do Criador.
Então, com esta mão,
possuída de piedade
e de puro anseio- paz,
apanharia a humanidade,
carinhosamente,
cuidadosamente,
e a tornaria
barro
novamente…
=====================================
Luiz de Paula Ferreira

Nasceu em Várzea da Palma (MG). Cursos de Contabilidade e Direito. Participou de inúmeras empresas em Montes Claros. Diretor da COTEMINAS S/A e da COTENOR S/A. Foi Vice-prefeito de Montes Claros, Deputado Federal , Governador do Distrito 452 do Rotary International.

MEUS VERSOS
Os versos que eu canto,
Essas rimas que falam de alegrias e pranto,
Eu os faço assim como quem, na viagem,
Não encara o destino, só contempla a paisagem,
Esquecido, talvez, de que pisas em espinho.
E assim vou seguindo a olhar os caminhos…
CONFORTAMENTO
Nos caminhos da vida
Há sempre uma flor, que nasce e viceja
Ao alcance da mão, mais humilde que seja,
Para ser colhida.
OLHAI OS CAMINHOS
Volvei o vosso olhar,
Não vos percais nos longes, que longe é o deserto,
O mistério, é a dúvida. Olhai manso e de perto.
A felicidade que buscais na vida
Pode estar junto a vós, nos caminhos perdida,
E esperar.
=============================
Luíza Otany Barbosa

Natural de Montes Claros (MG), onde fez cursos de Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Norte de Minas e de Literatura Francesa pela Aliança Francesa de Montes Claros. Tem também vários cursos de aperfeiçoamento em Literaturas Brasileira e Francesa. Sócia da Academia Montesclarense de Letras.

CANTIGA
Florinha mimosa,
tão linda é a mensagem
que expões !
Florinha de orvalho,
tão grande é o exemplo
que dás!
Florinha de nuvem,
tão puro é o azul
que ofereces!
Florinha de brisa,
tão grande é o perfume
que emanas!
Florinha do campo,
tão rico é o silêncio
que falas !
Florinha de tule,
tão leve é a corola
que ostentas!
Florinha de amor,
tão nada é a guerra
que enfrentas!
Florinha ditosa,
tão curta é a vida
que tens!
===========================
Maria Luíza Silveira Teles

Nasceu em Belo Horizonte (MG) a 4 de maio de 1943. Licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Norte de Minas. Diplomas de Lower Cambridge, Técnicas de Ensino, Diagnose e Prognose em Educação, Psicologia Comportamental do Adolescente. Professora da UNIMONTES. Publicou, entre muitos livros, UMA INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO, O ALFA E ÔMEGA e AS SETE PONTES.

PROMESSA
Quisera poder ficar
e repousar em ti,
pois meus pés sangram
e o cansaço me domina,
mas o mundo me chama ainda.
É preciso que eu ande
por todos os caminhos
e que derrame todo o orvalho
de meu coração.
É preciso que eu navegue
por todos os mares
e conheça todos os portos.
É preciso que eu veja
a Face de Deus
no rosto de todos os homens.
É preciso que eu vá com os ventos
e cante meu hino
por todos os cantos
se volte, dep0ois, com a chuva,
pr’a fertilizar
a terra do teu espírito!
============================
Olyntho da Silveira

Nasceu em Brejo das Almas (MG), em 25.08.1909. Foi fazendeiro, comerciante, funcionário público, delegado de polícia, vice-prefeito. Publicou: CANTOS E DESENCANTOS, MINHA TERRA E A NOSSA HISTóRIA, PORTAIS VERSIFICADOS, FRANCISCO SÁ NAS SUAS ORGIENS: O VELHO BREJO DAS ALMAS, CINQUENTÃO e, juntamente com sua esposa Yvonne de Oliveira Silveira, BREJO DAS ALMAS. Membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e da Academia Montesclarense de Letras, de que foi presidente.

MARIA LUÍSA
É por você que ainda estou aqui
a padecer dos meus, incompreensões.
Antes, não a queria, e quando a vi,
Joguei por terra as minhas convicções.
Você me trouxe novas ilusões
e, no seu nome, a Mãe eu revivi.
Entre nós dois não há nenhuns senões
E, reforçado, o coração senti.
Você começa a sua Primavera,
enquanto o meu Outono está no fim
e aproveitá-la mais eu bem quisera.
Mas mesmo assim bendigo a sua vinda,
Pois que você é o Universo em mim,
na pouca vida que me resta ainda.
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Patrício Guerra

Nasceu a 17 de março de 1896, no Arraial de Piedade, Licínio de Almeida (BA). Em 1917 começou a faina literária com intensa colaboração em vários jornaisx da Bahia e de Minas Gerais. Escreveu dramas, poemas, comédias, com predileção pela poesia lírica. Publicou FOLHAS DE OUTONO e FLORILÉGIO MARIANO. Foi membro ativo da Academia Montesclarense de Letras.

TRIBUTO
Dentre os muitos sonetos que hei composto
Nem um apenas trata de mulheres,
De rosas bogaris ou mal-me-queres,
De ebúrneo colo ou de moreno rosto.
Hoje, entretanto, com supremo gosto,
Na mais perfeita imitação de Ceres,
Canto as Lucys, as Sílvias, as Esteres
Na emotiva saudade de um sol posto.
Antes que chegue no meu último porto,
Com todo zelo que o amor requer,
As flores orvalhadas do meu horto
Dedicarei ao culto da mulher,
Pois não quero voltar depois de morto
A dar trabalho ao Chico Xavier
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Wanderlino Arruda

Mineiro de São João do Paraíso (MG), residente em Montes Claros. Tem cursos de Contabilidade, Letras e Direito, com pós-graduação em Lingüística, Semântica e Literatura Brasileira. Em Montes Claros, foi presidente de diversas instituições: Câmara Municipal, Sindicato dos Bancários, Centro Espírita Canacy, Conselho Regional Espírita, Departamento de Letras da Unimontes, Elos Clube, Esperanto-Klubo, Academia Montesclarense de Letras e Rotary Club de Montes Claros-Norte. Foi Diretor Internacional do Elos da Comunidade Lusíada, Secretário Municipal de Cultura e governador no Rotary International. Professor de Português, Lingüística e Oratória na Unimontes. Pintor, poeta e cronista. Publicou ” Tempos de Montes Claros”, ” Jornal de Domingo” e ” O dia em Chiquinho sumiu”. É sócio de três academias: Academia de Letras dos Funcionários do Banco do Brasil (Rio de Janeiro), Municipalista de Letras de Minas Gerais (Belo Horizonte) e Montesclarense de Letras (Montes Claros). Como rotarianos é sócio honorário de diversos Rotary Clubs em Belo Horizonte e Montes Claros. Tem medalhas de “Benfeitor da Fundação Rotária” e “Companheiro Paul Harris”. Em 1995 recebeu os dois troféus do Rotary International destinados ao Brasil.

A BRISA ME TRAZ PERFUME
A brisa que passa
e envolve teu rosto,
a brisa que voa
e sorri em teus cabelos
é brisa de muito amor.
Ajuda a iluminar tua beleza,
Mais do que tudo.
Adoro o encanto da brisa
porque faz parte da vida,
é muito da minha alegria.
A brisa que passa
e que te faz carinhos
me dá lindo sentimento de amor,
me dá contentamento
de participar da Natureza.
Porque a brisa te faz mais linda,
dela não tenho ciúmes.
Porque a brisa me traz perfume,
Dela me aproximo,
Aproximando-me de ti.
Realidade do ser feliz,
ajuda-me a viver
ajuda-me a te sentir, minha querida.
================================-
Yvonne de Oliveira Silveira

Nasceu em Montes Claros em 30.12.1914. Licenciada em Letras pela UNIMONTES. Professora aposentada de Teoria da Literatura, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Norte de Minas. Publicou, em parceria com seu marido , Olyntho Silveira, o livro BREJO DAS ALMAS. E em parceria com Maria José Colares Moreira, o livro MONTES CLAROS DE ONTEM E DE HOJE. Jornalista, cronista, poetisa, pertence à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. É a presidente da Academia Montesclarense de Letras por sucessivos mandatos.

LINDA MENTIRA
Cristalização de sonhos
nas noites insones:
os braços vazios embalam o corpo
translúcidos e belo do meu menino.
Cresce no tempo o sonho inútil.
e cresce o menino.
Imagens passam móveis , voláteis:
um ser perfeito se desenvolvendo
nos dias falsos
da vida mítica,
alma de anjo, carne de santo.-
– Não fora de sonho o meu menino!
Amores de moças,
invejas de moços,
garbosa avança o meu rapaz,
segue o destino que eu mesma fiz,
sempre vencendo,
nunca perdendo,
Alma de anjo, carne de herói.
– Não fora de sonho o meu rapaz !
Ah, imagens que passais
pelos caminhos dos meus sonhos!
imagens do desejado
inutilmente esperado.
O tempo derrubou os meus castelos.
A árvore morre sem frutos,
vendo a fúlgida visão fugir
no quebranto da vida.
===============================
Zoraide Guerra David

Natural de Mortugaba (BA). Graduação em Geografia pela UNIMONTES. Professora por muitos anos. Diretora do Centro de Educação e Cultura Hermes de Paula, é sócia benemérita da Associação dos Repentistas do Norte de Minas. Secretária da Academia Montesclarense de Letras. Publicou 3XPESIAS e MORTUGABA.

A SERRA
Aquela serra,
verde-terra,
presença bela
com flor amarela
de vetusto ipê,,
é arte divina,
rocha cristalina,
presença galante
para o viajante
que de longe a vê.
Forte muralha,
de escarpa e falha,
e plantas teimosas
que caprichosas
insistem VIVER.
Moldura do céu,
grinalda do véu
de leve bruma,
das nuvens-espuma
do amanhecer.

Fonte:
Academia Montesclarense de Letras

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Arquivado em Jose Ouverney, Livro de Poemas, Minas Gerais, Montes Claros

Pedro Ornellas (Livro de Poemas)

A FIGUEIRA

Orgulho da casa de outrora, na frente,
altiva figueira, frondosa, se erguia…
seu porte soberbo me fez reverente
sem nunca supor que tombasse algum dia!

Mas num vendaval que se armou de repente,
partiu-se a figueira, e sem crer no que via,
então constatei que a gigante imponente
por dentro era podre e ninguém percebia!

Também muita gente que bem nos parece
perdendo valores por dentro apodrece
mantendo por fora a aparência altaneira.

Ilude algum tempo com falsa nobreza,
porém, cedo ou tarde, terá com certeza
o mesmo destino da velha figueira!

O LAMPIÃO

Meu velho lampião a querosene,
relíquia que conservo com cuidado,
herdei de quem também legou-me o gene
de homem de bem, guerreiro, honesto e honrado!

Sinto-lhe a falta e a dor castiga, infrene,
quando te olhando lembro inconformado
quanta festança e quanto ato solene
nós três compartilhamos no passado!

A casa então se torna o antigo rancho,
no canto o esteio, e nele o velho gancho…
e o pranto de saudade aflora e cai…

e ao transmutar-se assim todo o ambiente
– magia da lembrança – em minha frente
não vejo o lampião, vejo meu pai!

FANTASIA

Na casa tosca e pobre a mesa parca,
Coração cheio e mãos sempre vazias…
Fartura de ilusões e fantasias
No reino em que, soberbo, eu fui monarca!

Por sobre a areia fina dos meus dias
O tempo deslizou deixando a marca,
Sulcos profundos que o meu pranto encharca
Quando o passado volta em noites frias!

Como era doce a antiga brincadeira…
Meu trono: um simples banco de madeira,
E de esperanças meu castelo eu fiz!

Hoje, à mercê da vida que me afronta,
Já não sou mais o rei do faz-de-conta…
Já não sei mais brincar de ser feliz!

RECAÍDA

Há tempos que a mantenho controlada,
mas hoje esta saudade bateu forte
e quase conseguiu ferir de morte
meu peito, qual profunda punhalada!

Sem vacilar duvido quem suporte
quando ela bate, súbito, acordada
pela lembrança a repisar magoada
de um grande amor a malfadada sorte…

Recordações julgadas esquecidas
promessas de venturas não cumpridas
vêm no seu rastro em repentinidade.

Quem muito amou tem dessas recaídas
em explosões de mágoas reprimidas
que voltam – quando bate uma saudade!

**********************************

Soneto Vencedor entre os dez primeiros, de um total de 195 participantes, em concurso da Academia Niteroiense de Letras, junho 2007

Fonte:
Recanto das Letras

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Arquivado em Livro de Poemas, O poeta no papel

Florbela Espanca (Livro de Mágoas)

ESTE LIVRO …

Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo … e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem , sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes … Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas … Dores … Ansiedades!
Livro de Sombras … Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo … (Trouxe-o no meu seio …)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio! …

VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo …
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho … E não sou nada! …

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! …

Sou aquela que passa e ninguém vê …
Sou a que chamam triste sem o ser …
Sou a que chora sem saber porquê …

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

CASTELÃ DA TRISTEZA

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor …
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês? … A quem? …
– E o meu olhar é interrogador –
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr …
Chora o silêncio … nada … ninguém vem …

Castelã da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais? …

À noite, debruçada, plas ameias,
Porque rezas baixinho? … Porque anseias? …
Que sonho afagam tuas mãos reais? …

TORTURA

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! …

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento …

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

LÁGRIMAS OCULTAS

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida …

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago …
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim …

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

TORRE DE NÉVOA

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! …”

Calaram-se os poetas, tristemente …
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu! …

A MINHA DOR

À você

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal …
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias …

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve … ninguém vê … ninguém …

DIZERES ÍNTIMOS

É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade! …)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebês doentes
Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos … (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! …”
Responde a minha Dor: “Que linda a cova!”

AS MINHAS ILUSÕES

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisível lira …
O sol é um doente a enlanguescer …

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu … e veste luto o mar …
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim … uma por uma …

NEURASTENIA

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza …

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza …

Chuva … tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento … tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!! …

PEQUENINA
À Maria Helena Falcão Risques

És pequenina e ris … A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa …
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te faz tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente …
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente …

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!

A MAIOR TORTURA
A um grande poeta de Portugal!

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia …
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia! …
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor! …

A FLOR DO SONHO

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! …
Milagre … fantasia … ou, talvez, sina …

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?! …

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minha’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi …

NOITE DE SAUDADE

A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura …
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura …

Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura …
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!

Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!

Saudade que eu sei donde me vem …
Talvez de ti, ó Noite! … Ou de ninguém! …
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

ANGÚSTIA

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! … e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós …
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! …

E não se apaga, não … nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga …
Vem sempre perguntando: “O que te resta? …”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

AMIGA

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho …
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho …

Beija-mas bem! … Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! …

DESEJOS VÃOS

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza …
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras … essas … pisa-as toda a gente! …

PIOR VELHICE

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
De alvas rosas a fronte da mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova … A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova … outrora …

A UM LIVRO

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto! …

Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! … Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! …

ALMA PERDIDA

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente …
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste … e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz! …

DE JOELHOS

“Bendita seja a Mãe que te gerou.”
Bendito o leite que te fez crescer
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer …
Bendita seja a Lua, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver …

Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!

LANGUIDEZ

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar …

E a minha boca tem uns beijos mudos …
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar …

PARA QUÊ?!

Tudo é vaidade neste mundo vão …
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! …

Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! …

AO VENTO

O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amor,
A tua voz tortura toda a gente! …

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim ! … Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir pla vida fora!! …

TÉDIO

Passo pálida e triste. Oiço dizer:
“Que branca que ela é! Parece morta!”
e eu que vou sonhando, vaga, absorta,
não tenho um gesto, ou um olhar sequer …

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
– O que é que isso me faz? O que me importa? …
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente …
O mesmo lago plácido, dormente …
E os dias, sempre os mesmos, a correr …

A MINHA TRAGÉDIA

Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade,
Trazes-me embriagada, entontecida! …
Duns beijos que me deste noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade! …

Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim! …

SEM REMÉDIO

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou …
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

MAIS TRISTE

É triste, diz a gente, a vastidão
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não vêem que eu sou … eu … afinal,
A coisa mais magoada das que são?! …

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!

VELHINHA

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente em mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa! …”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até o fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente …
Já murmuro orações … falo sozinha …

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos …

EM BUSCA DO AMOR

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfilando …
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando …

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu … olhou … e riu …

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados …
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu! …”

IMPOSSÍVEL

Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
“Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar de olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe …

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?! …”
Quando se sofre, o que se diz é vão …
Meu coração, tudo, calado, ouviste …

Os meus males ninguém mos adivinha …
A minha Dor não fala, anda sozinha …
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera! …

Os males de Anto toda a gente os sabe!
Os meus … ninguém … A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera! …
———

Fonte:
ESPANCA, Florbela. Sonetos. Amadora, Portugal : Bertrand, 1978.
Texto de A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

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Arquivado em Livro de Poemas

Livro de Poemas: Poema 1 – Antonio Manuel Abreu Sardenberg (São Fidélis/RJ)

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6 de junho de 2010 · 20:13