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Alberto Bresciani (Livro de Poemas)

SEDIMENTOS

Aos poucos se apaga
o consentimento da morte

adio a noite, avanço
ao avesso do dentro

e encontro os encontros
do tempo, um gosto

de pele, um nexo
Faço oferendas

à água
ao fogo.

HARMONIZAÇÃO

Demorasse a tua mão
um pouco mais
sobre o meu ombro

e me nasceriam asas

Em silêncio
logo o pressentimento
o pacto e o voo:

grades e escarpas
ruindo sob as pernas
cúmplices, entrelaçadas

as nossas.

REINVENÇÃO

Vertendo do branco:
eu, o anti-herói
preso a ganchos de ar
por sobre as fragas da razão

duras lâminas
que evisceram
a argamassa do corpo
a desbordar de mim

banal, rude, rala argila
não reluz. Só o que destila
por trás do que me é oculto
se esconde à vista

É grampo no avesso
— até a secreção
vir à voz, exposta
aos anjos e algozes

Então o instante que espero
quando me reinventam os dias
e as aves planam
sob o vulto explícito e sem sede

Gritem medos e mentiras
para o estômago do nunca
(o julgamento está surdo
e a tentação de não ser

para hoje
está morta
afogada).

POSSE

O ar é só pele:
teu corpo expira
das dobras do mapa

aquece os dedos
saliva doce na boca
as esferas do sal

A falta é tensão
teu vulto invasivo
conturbando o pulso

em pedras candentes
nas farpas da noite

O ventre esfria
e explode em tentáculos
da fluida água marinha

vertigem que plana e pesa
por sobre as vozes
os cortes do dia

— teu sempre
no fundo de mim.

METAMORFOSE

Era seu rosto
um campo de trigo
e manso se entregava
ao passeio da boca

Braços me protegiam
e enlaçavam
e devolviam ventos
que ninguém sentiu

Desdobrava-se
o seu consentimento
e sem proposições
uma supernova em mim

Talvez reencontrasse o destino
respirasse sem deformidades
talvez fosse apenas como voltar

E já não chovia
E era tão bom.

INVERSÃO

O esgotamento vem
do vazio
esse fundo
enredo de vozes
que uma só valem —

atrás dos nódulos do espanto
das folhas da súplica
e da sequência de sombras
sem volta,

a ilusão habita
a insônia
vergonha e ridículo
do homem parado
diante da pedra.

MIRAGEM

Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho — ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

NUNCA
Um dia encontrei o nunca
preso ao teto
para onde nunca olhei

Tinha a aparência terrível
de uma gárgula
úmida de sangue

Mas sob os flagelos
era apenas
                 um pardal

tão sem pressa
desses que banais habitam
as árvores, a cegueira

Com voz serena e doce
disse que sendo nunca
era eterno, letra em todo nome

Soube quem era o nunca
e meu peito, arfando
pelo que não se esquece

aprendeu a respirar assim
um pouco menos
seca a parte que nunca mais.

SÉPALA

O seu rosto surge
em meio às folhas da pele
onde a mística seiva
invade a memória do sangue

Percebo como essa branda sépala
sobe em mim o feminino
cálice que lhe orna o ser
diáfano ser em branco

Fale-me de ventos, de terras
que os caminhos venceram
Só ao líquido das suas palavras
renasce o tempo, um rio para sentir.

  ACUSAÇÃO
Você me acusa
pelas sombras
que nos cobrem

Não tenho a quem culpar
Guardamos a chave
quando passou a vigésima quinta hora

e os deuses de que fala
nunca souberam de nós
Estamos abandonados

na última vez
na impossível desdobradura
E eu afirmo:

amanhã ainda seremos
somente os dois
o verbo coagulando no escuro.

 FIGO

E então a chance:
o desconhecido destino
tinha seu rosto
e se estendia ao alcance

da mão que abraçou
e adormeceu no amplo figo
cujos olhos eram luz
e também gemido

A posse da pele
veio como tudo enfim
como se os fluxos fizessem sentido
e nós vivêssemos a última cena

Mas há dias que não nascem
e se acaso irrompem
logo secam
definham nos espelhos

Deixei de existir
antes de saber. Ela não era
para além de mim
a imagem que testemunho

e minto apagar
embora toda a saliva
seja só a ilusão
que do seu corpo espero.

MILAGRES

Há milagres que se prendem
ao ar como anjos de pedra
no sempre da catedral

crescendo sobre nós
cortando a casa
o ventre

Toda fuga é inútil
a cegueira superior à visão
e a respiração quase sobrevive

à proximidade ou distância
de seu fogo
que pode ser pena, pode ser fome

e nos põe
frente a frente
com a epifania

                              Nas minhas mãos
                             o ramo que arde

Fontes:
 Poemas enviados por Carlos Machado, de poesia.net. http://www.algumapoesia.com.br
Alberto Bresciani. Incompleto Movimento. RJ: José Olympio, 2011.
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/distrito_federal/alberto_bresciani.html

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Kideniro Teixeira (Livro de Poemas)


ADOÇAO – A Manaus

Para Ricardo Roriz – Mestre de Gerações

Esta terra foi minha…
Muito lhe quero, quanto ela me amou!
És de minha alma a formosa Rainha,
ah, minha terra, Mãe que me adotou!

Cheguei com os maltrapilhos,
órfãos de tudo, vindo aos escarcéus,
estropiado como os andarilhos,
estendendo-lhe as mãos e olhando os céus.

E amei… e fui amado!…
Como uma árvore ali criei raízes
no doce embalo que me acalentou.

E parti… Fui gladiado
em batalhas por dias mais felizes…
Ah, minha terra! Mãe que me adotou!

A MINHA MESTRA

“Possa ao menos sentir tua presença
nestes versos que escrevo, amargurado,
ante a profunda, ante a sombria e imensa
saudade de teu vulto idolatrado.”
Homero de Miranda Leão

Foi minha mãe a minha Mestra
que me ensinou a ler, em nosso humilde ninho;
eu era um menininho,
uma criança…
De minha mãe, exímia trovadora,
é de quem guardo esta divina herança.

Recordo agora,
que a sua voz se erguia,
branda e sonora,
como se fosse um sino
tangendo na alvorada fria
do meu Destino:

– Lê! Estuda! Lê, menino!
Era este o heróico estribilho
de cada dia:
– Lê! Estuda! Lê, meu filho!

Como era bela a minha Professora,
no seu vestidinho branco!
O coque alto, olhos castanhos
e esguias mãos da Virgem Redentora!

Somente agora sinto, e guardo, e tranco
no peito esta saudade imorredoura,
como se ouvisse. ainda. a sua voz sonora:
– Lê! Estuda! Lê, meu filho!

E eu que jamais velara o meu Destino,
quanto sofro e me deploro
para cantar minha procela…

E nem sabia, que um dia,
eu sentiria,
tanta saudade dela!

VISITANDO MANAUS

Para Arlindo Porto

Você, minha cidade, foi tão boa,
tão amável, sem nem me conhecer
quando eu vagava no seu seio, à toa…
abrindo os braços pra me proteger.

Você sabia? Creio que sabia
que eu era um “Arigó” que aqui chegava…
E você, cristãmente, me sorria
e até cantar cantou, quando eu chorava.

Aqui cheguei carente de carinho
e de logo a sua mão me abençoou;
e eu tive muito amor, tive outro ninho,
tive outra Mãe, – a Mãe que me adotou.

Deu-me um leito, tirou-me dos retraços
onde estava a minha alma ainda em flor;
e ofereceu-me os seus morenos braços,
como os braços de um Cristo Redentor.

Para mim era tudo um desafio,
um desafio, em tudo, tudo! Enfim,
o Rio Negro não era só um rio,
era um mundo de amor rolando em mim.

A ingratidão, de todos, é o pecado
maior. Deus não concede a remissão;
se fora embora o filho desalmado,
visitando-a espera o seu perdão.
********************************

Olhando o céu, beijei Nossa Senhora,
para a beijar, também, com humildade;
já estou mais velho, a vida se evapora!
Vê-la de novo eu vim, minha Cidade.

Vim recordar de minha mocidade
tudo aquilo que amei e guardei de cor;
– para matar, meu Deus, esta saudade;
– para voltar, talvez, muito pior!

Aqui vivi e amei… e fui amado
pela Princesa a quem beijei o rosto
e vi nascer minha primeira Flor!

E nunca houvera em versos consagrado
seu nome augusto, assim, nesse antegosto,
Cidade Nobre de meu grande amor!
Manaus (Japiim I, 1991)

NA AMAZÔNIA

Para Clóvis A. da Mata

“As sepulturas ficam abertas nas florestas à
beira dos barrancos, sem cruzes e sem recordações,
protegidas, apenas, pela esmola e pela claridade da luz.”
Álvaro Maia

Nessas umbrosas, vírides florestas
que se levantam no Setentrião,
há pomos fartos e riquezas lestas,
e há ouro em tudo ao desdobrar da mão.

É para ali que corre a multidão
de párias nus, nas levas indigestas,
o lar deixando, a alma e o coração,
ao canto de Sereias desonestas.

Como um gado passivo se despede…
Há um acento de dor na despedida,
lamento triste que nem outro o excede!

E segue estosa e sôfrega a coorte,
pois ali todos vão tentar a vida,
mas, ali quantos vão achar a morte?!

EMIGRANTE

À memória de César Coelho

De um mundo vim, um Mundo malfadado,
de torpezas, de sustos, de agonias,
onde purguei, nas longas noites frias,
as angústias do tédio e do pecado.

Quis ser outro e ser bom. Quis ser amado
e milênios levei nessas porfias…
Minha alma discorreu coreografias
antagônicas nesse aprendizado.

Mas, se hoje vejo as Luzes no Infinito,
nas distâncias sem fim desse esquisito
turbilhonar de sóis – nos olhos meus,

cuido avistar as lúcidas lanternas
que hão de levar-me às Perfeições Eternas,
para enxergar em tudo isso, – Deus!

MODÉSTIA À PARTE

Eu faço versos como se rezasse
e sem ligar que alguém assim os faça;
porque fazê-los como os vi fazê-los,
só uns irmãos que tenho, analfabetos.

Eles não sabem se existiu Bilac,
Camões, Petrarca, Dante ou Baudelaire…
Pois que de escola à porta jamais foram,
mas são poetas, são; sem saber ler.

Eu faço o verso ao jeito que eles fazem,
sem pedantismo, assim como respiro,
ando, paquero, assobio ou falo
de minha própria, ou da vida alheia.

São versos feitos sem contar nos dedos,
e sem Tratado em “Ver se fica são”,
sem “rimas ricas”, feitos da pobreza
de fechaduras sem “chaves de oiro”.

Lendo esses versos, muitas vezes, tinha
da Glória estar nos cumes cobiçados;
e então da Glória ia beijar-lhe o Trono,
“embebedado do sinistro vinho”.

Pois que da Glória já fui seu fanático,
julgando nela não morresse nunca;
mas, quando a Glória evitou meu rosto,
“eu fui caindo como um sol caindo…”

São versos velhos, feitos de retraços
das ruínas remotas de Pompéia
e das cinzas lascivas de Gomorra;
porém nasceram do meu grande amor.

E tanto os quero porque são meus filhos,
diletos filhos do útero da alma,
para voarem – pássaros queridos,
por este mundo consolando aflitos.

OS QUE ENCONTREI

Para o Poeta Walfredo dos Anjos

I

Eu fui na vida o Poeta embevecido
no meu divino Reino da Ilusão:
– Dando o vinho do Sol ao desvalido
e, após, a Lua-Cheia em comunhão.

Imprimi no meu canto um sustenido
de amor, e paz, e prece, e redenção…
Fui Mensagem, fui fruto repartido
entre os filhos da desconsolação.

A todos prometi a minha palma
e dividir o que eu tivesse na alma,
com quem vivesse, por aí, sozinho…

Já dei tudo o que tinha… e sem ter nada,
minha alma dou em rimas, orvalhada,
aos que passem com sede em meu caminho.

II

E fui, de fato, o Poeta dos amores,
vendo em mim mesmo, toda a humanidade;
dei muito amor, carinho e caridade,
minha fazendo a dor dos sofredores.

o meu canto vibrou como tambores
divinos nas falanges da orfandade;
consolei-as pregando a piedade,
como pregam no Templo os Pregadores.

Para os que vinham atirei meus louros;
dos cofres de minha alma seus tesouros,
pus entre as mãos do que avistei sozinho…

Acabei com o que eu tinha nas andadas;
E, em recompensa, recebi pedradas,
de muitos que encontrei no meu caminho.

ETERNlZANDO VIDAS

II

Não há fugir à dor que desconforta,
nem retorcer o mal que em si concentra…
Se hoje a Morte bater em tua porta,
abre-a, de vez, a convidá-la, – entra!!

Diluto em tudo o que a verdade exorta,
expõe o peito à adaga que se adentra
nele, ferindo-o e, torturante, corta
fibra por fibra e a tudo mais descentra…

E quando as tuas células morrerem,
e dezenas de glândulas pararem,
e, cruzadas, as mãos apodrecerem,

naquelas cames rotas, diluídas…
Certos dirão os que te carregarem:
– Hoje ele é vida etemizando vidas!

ÁGUAS BELAS

Fazia anos que eu não visitava
a vilazinha onde nasci e aquelas
paragens todas a que tanto amava…
Minhas Águas-Belas, tão humilde e boa,
com a sua igrejinha iluminada a velas.

Ali vi-me criança, outra vez, correndo
pela campina, olhando o prado em flor
e em tosco engenho a gotejar, moendo…
me vi menino e uma menina loura,
que fora, ó Deus, o meu primeiro amor!

Fui ver o “Tanque”, o poço onde eu nadava
tempo de inverno, arisco como um potro,
a ver se ali ainda eu me encontrava;
mas ao mirar-me nesse espelho de água,
já não vi meu rosto alegre — um outro.

Também não vi aquelas coisas santas:
– rebanhos brancos a beber nos rios
que deslizavam ao longo das gargantas;
nem os velhinhos de cabeças brancas,
aos quais, a todos, lhes chamava tios.

Nem mansos bois a ruminar, tristonhos,
à sombra augusta de augustos juazeiros,
como quem cisma em inocentes sonhos…
Nem as siriemas de olhos amarelos,
cantando, longe, pelos tabuleiros.

Triste saudade amortalhou minha alma,
olhando a velha casa que foi nossa,
toda arruinada e como quem se ensalma…
Ó relembrança, foste uma fiala,
jorrando um vinho que, se amarga, adoça!…

Senti vontade de correr, gritando,
pelo rincão de minha peraltice
e a tudo, por ali, interrogando:
– Quem escondeu a minha mocidade?!
– Quem pôs tão longe a minha meninice?!

Fonte:

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Alberto Bresciani (Livro de Poemas)

ACUSAÇÃO

Você me acusa
pelas sombras
que nos cobrem

Não tenho a quem culpar
Guardamos a chave
quando passou a vigésima quinta hora

e os deuses de que fala
nunca souberam de nós
Estamos abandonados

na última vez
na impossível desdobradura
E eu afirmo:

amanhã ainda seremos
somente os dois
o verbo coagulando no escuro.

HARMONIZAÇÃO

Demorasse a tua mão
um pouco mais
sobre o meu ombro

e me nasceriam asas

Em silêncio
logo o pressentimento
o pacto e o voo:

grades e escarpas
ruindo sob as pernas
cúmplices, entrelaçadas

as nossas.

REINVENÇÃO

Vertendo do branco:
eu, o anti-herói
preso a ganchos de ar
por sobre as fragas da razão

duras lâminas
que evisceram
a argamassa do corpo
a desbordar de mim

banal, rude, rala argila
não reluz. Só o que destila
por trás do que me é oculto
se esconde à vista

É grampo no avesso
— até a secreção
vir à voz, exposta
aos anjos e algozes

Então o instante que espero
quando me reinventam os dias
e as aves planam
sob o vulto explícito e sem sede

Gritem medos e mentiras
para o estômago do nunca
(o julgamento está surdo
e a tentação de não ser

para hoje
está morta
afogada).

POSSE

O ar é só pele:
teu corpo expira
das dobras do mapa

aquece os dedos
saliva doce na boca
as esferas do sal

A falta é tensão
teu vulto invasivo
conturbando o pulso

em pedras candentes
nas farpas da noite

O ventre esfria
e explode em tentáculos
da fluida água marinha

vertigem que plana e pesa
por sobre as vozes
os cortes do dia

— teu sempre
no fundo de mim.

METAMORFOSE

Era seu rosto
um campo de trigo
e manso se entregava
ao passeio da boca

Braços me protegiam
e enlaçavam
e devolviam ventos
que ninguém sentiu

Desdobrava-se
o seu consentimento
e sem proposições
uma supernova em mim

Talvez reencontrasse o destino
respirasse sem deformidades
talvez fosse apenas como voltar

E já não chovia
E era tão bom.

INVERSÃO

O esgotamento vem
do vazio
esse fundo
enredo de vozes
que uma só valem —

atrás dos nódulos do espanto
das folhas da súplica
e da sequência de sombras
sem volta,

a ilusão habita
a insônia
vergonha e ridículo
do homem parado
diante da pedra.

MIRAGEM

Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho — ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

FILME

I

Ao mundo invisível
ao avesso do que é

onde fôssemos sólidos
no todo em transparência

que nos puxasse a planta mágica
retorno cauterizado para sempre

No ar eu sentiria
só o teu sentir meu corpo

um esquecimento cheio de ti
da pele de doces frutas

na boca o sumo e do mundo só
o teu corpo todo meu

como voar pelas voltas do pescoço
e dos ombros

volta ao torso e teus quadris
de volta sobre as pernas

agora nas minhas mãos
nos teus cabelos

II

Funda imersão
dessas que um filme

guarda caleidoscópico
sussurrado, ardente.

NUNCA

Um dia encontrei o nunca
preso ao teto
para onde nunca olhei

Tinha a aparência terrível
de uma gárgula
úmida de sangue

Mas sob os flagelos
era apenas
um pardal

tão sem pressa
desses que banais habitam
as árvores, a cegueira

Com voz serena e doce
disse que sendo nunca
era eterno, letra em todo nome

Soube quem era o nunca
e meu peito, arfando
pelo que não se esquece

aprendeu a respirar assim
um pouco menos
seca a parte que nunca mais.

PULO DO GATO

Recostado
à porta do tempo
esperava a transfiguração

a clareza nos olhos
voo, mergulho, fogo

(viria a revelação
troca de pele)

Mas terras e nomes
disseram flores e ainda
flechas e farsas

e a hora foi mais veloz
do que os sentidos

Perdi o momento de partir
o norte da migração

Agora
nas pausas da noite

fica o gosto pouco
de raízes

a tênue respiração
de pequenas asas

o desconhecimento
da vontade dos pés
e das mãos.

Fontes:
– Poemas enviados por Carlos Machado, de poesia.net.
– Alberto Bresciani. Incompleto Movimento. RJ: José Olympio, 2011.
Antonio Miranda.

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Roberto Pinheiro Acruche (Livro de Poemas)

A SAUDADE
Saudade… Qual é a sua cor?
Por que estou sentindo-a
tão junto a mim e não consigo vê-la?
Não me atormente ainda mais
com este silêncio,
além desta dor que me rasga o peito.
Porque você não aparece
e desvenda logo esse mistério?
Você sabe onde me encontrar!
Vou estar nos mesmos lugares,
sentado na areia olhando o mar
ou nos mesmos bares
consumindo a noite.
E se acaso não me encontrares
pergunte pra solidão…
Somente ela saberá dizer
o meu paradeiro.
Mas não demore mais;
faça antes da tristeza
me levar por inteiro!…
ARCA DOS SONHOS
As horas passam
e eu me curvo diante
do tempo
que também passa… Que passa!…
E eu preso na arca dos sonhos,
fantasiando a vida.
Quando acordar
desta aspiração
liberto do devaneio,
quem sabe ainda haverá tempo
para realizar os sonhos?
E se não houver tempo
e se não realizar meus sonhos,
valeu à pena ter sonhado!
AUSÊNCIA
A tua ausência transforma a noite em um suplício,
faz a formosura da lua desaparecer no infinito
e as estrelas no céu perderem o brilho.
A solidão minha constante companheira
cresce no silêncio que constrói um assombroso vazio,
enquanto as canções evolucionam a saudade.
E não há como se esquecer do passado
quando a caminhada era ornamentada
pela beleza das flores e perfumada em todos os momentos…
Mesmo quando a natureza disseminava as tempestades, com chuvas, trovões e ventos.
A brisa tinha a fragrância dos lírios
e os teus suspiros eram o meu alento.
A tua ausência, sentida nesse momento,
quando o pensamento
é todo reservado a ti,
faz explodir no peito a angústia
dessa solidão que abruma
ainda mais, essa noite triste e vazia.
QUANDO
Quando as gotas d’água
romperem as pedras dos meus caminhos,
cicatrizarem no meu peito as feridas
provocadas pelos espinhos
da desilusão…
Quando o tempo
arrancar do meu coração
as seqüelas da falsidade
e a perfídia for tragada
pela fidelidade…
Quem sabe,
encontrarei razão para viver
e os meus versos
falarão de um outro amor?
Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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Henriqueta Lisboa / MG (Livro de Poemas)

AMARGURA

Eu chegarei depois de tudo,
mortas as horas derradeiras,
quando alvejar na treva o mudo
riso de escárnio das caveiras.

Eu chegarei a passo lento,
exausta da estranha jornada,
neste invicto pressentimento
de que tudo equivale a nada.

Um dia, um dia, chegam todos,
de olhos profundos e expectantes,
E sob a chuva dos apodos
há mais infelizes do que antes.

As luzes todas se apagaram,
Voam negras aves em bando.
Tenho pena dos que chegaram
E as estas horas estão chorando…

Eu chegarei por certo um dia ..
assim, tão desesperançada,
que mais acertado seria
ficar em meio à caminhada.

EXPECTATIVA

Neste instante em que espero
uma palavra decisiva,
instante em que de pés e mãos
acorrentada estou,
em que a maré montante de meu ser
se comprime no ouvido à escuta,
em que meu coração em carne viva
se expõe aos olhos dos abutres
num deserto de areia,
— o silêncio é um punhal
que por um fio se pendura
sobre meu ombro esquerdo.

E há uma eternidade
que nenhum vento sopra neste deserto!

RESTAURADORA

A morte é limpa.
Cruel mas limpa.

Com seus aventais de linho
— flâmula — esfrega as vidraças.

Tem punhos ágeis e esponjas.
Abre as janelas, o ar precipita-se
inaugural para dentro das salas.
Havia impressões digitais nos móveis,
grãos de poeira no interstício das fechaduras.

Porém tudo voltou a ser como antes da carne
e sua desordem.

VEM, DOCE MORTE

Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
desfilam pálidos casulos
e o suspiro das árvores – secreto –
não é senão prenúncio
de um delicado acontecimento.

Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito
espetáculo deslumbrante e inédito
de rubros panoramas abertos
ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
com celeiros refertos e intocados.

Quando queiras. Presentes as estrelas
ou já esquivas, na madrugada
com pássaros despertos, à hora
em que os campos recolhem as sementes
e os cristais endurecem de frio.

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
que a teu primeiro sopro cederei distraída
como um pensamento cortado
pela visão da lua
em que acaso – mais alto – refloresça.

É ESTRANHO

É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.

A MENINA SELVAGEM

Para Ângela Maria

A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.
Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.
A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Oferecei bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

INFÂNCIA

E volta sempre a infância
com suas íntimas, fundas amarguras.
Oh! por que não esquecer
as amarguras
e somente lembrar o que foi suave
ao nosso coração de seis anos?

A misteriosa infância
ficou naquele quarto em desordem,
nos soluços de nossa mãe
junto ao leito onde arqueja uma criança;

nos sobrecenhos de nosso pai
examinando o termomêtro: a febre subiu;
e no beijo de despedida à irmãzinha
à hora mais fria da madrugada.

A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambus verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!

A infância inquieta
ficou no medo da noite
quando a lamparina vacilava mortiça
e ao derredor tudo crescia escuro, escuro…

A menininha ríspida
nunca disse a ninguém que tinha medo,
porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,
Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida
— batendo, batendo assombrado!

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Gladis Deble/RS (Livro de Poemas)

BIOGRAFIA

Se o espelho conservasse as imagens
Eu desfilaria sem roupas
por extensas paisagens
mas o espelho não tem memória.
Não retém o formato dos corpos,
tão pouco devolve o feedback
das histórias vividas.
Da aparência de ontem
nem a sombra,
Na dispersão dos ventos
nenhum oi.
No pequeno infinito
do espelho do meu quarto
cruzo as asas…
Ao descer a cortina
pinto a boca distraída,
Não sei porque fui esquecer
a senha desse acesso.
Só os trevos cultivados
em torno da retina
continuam a gravar
minha biografia.

LÁPIS

Emcaixado confortável
bailando entre meus dedos
grava marcas no papel
este objeto delgado.

Fino lenho preparado
com recheio de grafite
traz a história preservada
torna a arte permanente.

A terna função de escriba
que assumo intuitiva,
não mais me torna cativa
dos sonhos que construí.

Seguindo o velho roteiro
dos sonhos que encoragei
Surgiu o esboço vivo,
no poema me libertei.

Esta pequena varinha
que carrego como fada
vai desenhando o caminho
risca o lápis minha estrada.

A POESIA

A poesia salta da idéia
e cria vida própria.
Sonda lugares fantásticos,
descreve outras paisagens

Percorre distantes países
pensa novas matrizes
dança e reluz
como grão de poeira
projetado na luz.

Descreve trajetória errante
esmiuça sentimentos alheios,
redescobre lugares
que nunca esteve,inventa matizes.
Abraça todos os povos,
faz acordos com o insólito.

A poesia saltitante itinerante
navega na rede,traduz signos gravados
para o mundo ela escapa…
depois de cansado seu corpo de letras,
enroscada na folha como bicho inocente
adormece no livro protegida na capa.

PASTORIL

Apascentei rebanhos nas encostas
conduzi os animais a boa aguada
trouxe ramos de alecrim e flor do campo.
Compuz versos singelos na caverna
junto as cabras espiando o chuvisqueiro
e a neblina pondo a capa na campina.

A luzir a lanterna nos caminhos
rodopiei audaz,desviando o precipício
onde rolam pedras sózinhas no desfiladeiro.

A voz do bosque atraente me chamando
para um encontro mágico na fonte
com água transparente e oração
margeiam musgos, fungos na vertente
santuário verde onde em versos pastoris
esparramei minha canção.

GARATUJAS

Da grafite silenciosa
surgem figuras reais,
rabisco na santa paz
imagens do inconsciente.

O desenho em fragmentos
surge livre no papel
faz deliciosos os momentos
pensando num tal rapaz.

O fundo dessa gravura
de tal forma é texturado
que parece usar recursos
da velha xilogravura.

Rabiscos que crio hoje
tentando fazer desenhos
fugiram pela tangente.
E a imagem que eu queria
desmanchou-se em garatujas
virou pequena poesia.

DAS NAVEGAÇÕES…

Se teu olhar oblíquo descobrisse
a viagem que acontece a revelia
eu nem me atreveria a explicar.

Esfarelo versos na ponta dos dedos
adormeço salpicada de vontades
no afã de te encontrar …

Acarinho certas verdades
escovo a cabeleira revolta
querendo ancorar conforto.

Desdobrada e solitária
sigo a jornada, embora
navegues em mim

Nunca nós dois atracaremos
nossos barcos para dormir
juntos no mesmo porto.

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Arquivado em Livro de Poemas, Rio Grande do Sul

Ernani Maller (Livro de Poemas)


ESTÃO POR AÍ

As dores que eu causei estão por aí
Os corpos que eu amei estão por aí
As magoas que eu não guardei
Os sonhos que não encontrei
Feridas das qual só eu sei estão por aí

Os ventos que levam segredos estão por aí
Canções de ninar nossos medos estão por aí
O dia repleto de azul
Saudades em bando pro sul
Distantes do meu olho nu estão por aí

Os prantos desperdiçados estão por aí
As súplicas dos desesperados estão por aí
Os lábios repletos de sim
Os corpos que esperam por mim
Colombinas sem seus Arlequins estão por aí

A PALAVRA

A palavra é a matéria prima do escritor,
ela é maleável, sujeita-se aos caprichos do criador.
Mas também se impõem,
em sua ampla diversidade de interpretações.
A palavra morre, cai em desuso, mas também ressuscita.
Idiomas se extinguem,
levando consigo não somente palavras, mas formas de pensar.
Palavras que adjetivam o belo, como: a flôr, a borboleta
e principalmente a mulher.
São obrigatóriamente poéticas, assim como o é,
a palavra que da nome à “lembrança triste”,
um previlégio do idioma português: saudade.
Ao contrário da fotografia, que é o que se vê,
a palavra, é o que se imaginar ser,
ela da campo ao pensamento, asas à imaginação.
Na descrição de uma cena, cada leitor,
com suas experiências de vida, imaginará sua própria cena,
isso torna a palavra infinita, sem limites.
Pela palavra passa o conhecimento, a sabedoria, a erudição.
Sem a palavra não seriamos diferentes dos animais.
Ela distingue povos, classes socias,
profissionais liberais, com seus mais variados discursos,
é o poder das palavras, as palavras do poder.
Quantos livros? Quantos poetas? Quantas religiões?
Filosofia, história, tudo baseado na palavra,
que o ser humano manipula, em um inesgotável quebra-cabeça.
Através da palavra, o ser humano vai se forjando, vai se recriando,
portanto, não acredite se alguêm lhe disser:
“palavras são palavras, nada mais do que palavras”.

SABERÁS QUE É NATAL

Assim que brotar
A lua dos pinheiros crispantes
Assim que soar
Um sino distante

Com cantigas singelas
De inocência angelical
Mesmo que não te digam
Saberás que é natal

Assim que a gota salgada
Correr tua face tranquila
Assim que dor
Se fizer arrependida

Mesmo que sol não venha
E que o desgosto seja fatal
Porém, pela paz devastadora
Saberás que é natal

Mesmo que o silêncio vitalício
Lhe ensurdeça por fim
Que o deserto da alma
Encubra teu jardim

Poderás soluçar
Num sorriso passional
Mas com toda confiança
Saberás que é natal

DEUSA DA SENSUALIDADE

Eu sou carmim de sol que deita no poente
Brilho de estrela cadente
Lua velha na sertão

Nebulosa a fervilhar em noite silente
Olho de água corrente
Que se arrasta no porão

Sou a verdade que arrebenta em qualquer cara
Pau-de-fogo, pau-de-arara
A voar na imensidão

Sou liberdade de um grito incontido
Dos passos do perseguido,
Sou o norte e a razão

Sou a que tem malemolência de serpente
Pra colher estrela cadente
No azul do teu olhar

Sou a que chora amando contra a corrente
Se eu sou tão indecente
É pra poder te despertar

BRIGA DE FOICE

Pode me torturar
Me rasgar
Me bater
Pode me ferir a dente
Me botar corrente
Pois eu sei sofrer

Pode me tratar a berro
Pois eu sou de ferro
Vou até o fim
Pode me ferir a boca
Por que isso é sopa
Lindo querubim

Mas quando cair a noite
Vai ter briga de foice
Pois não quero ver
Você virar de lado
Dizer que está cansado
Sem me enlouquecer

Se não sou eu
Quem te trata a berro
Tu terás que ser de ferro
Para me satisfazer

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