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Rodolpho Abbud (Livro de Trovas)

À noite, ao passar das horas,
esqueço os dias tristonhos,
pois tuas longas demoras
dão-me folga para os sonhos!

Ao hospício conduziu
a mulher para internar…
Feito o exame, ela saiu,
e ele teve que ficar!…

Ao se banhar num riacho,
distraída, minha prima
lembrou da peça de baixo
quando tirava a de cima ….

Cama nova, ele sem pressa
ante a noivinha assustada,
quer examinar a peça
julgando já ser usada!…

Chegaste a sorrir, brejeira,
depois da tarde sem fim…
E, nunca uma noite inteira
foi tão curta para mim!…

Contemplo o céu para vê-las
com um respeito profundo,
pois na raiz das estrelas
eu vejo o dono do mundo.

É força que vem comigo
e no tempo não se esvai:
– Sempre que eu falo de amigo
eu me lembro de meu pai!

Em problemas envolvida,
por um beco se meteu,
que não tinha nem saída,
e, mesmo assim, se perdeu! …

Em seus comícios, nas praças,
o casal cria alvoroços:
– Vai ele inflamando as massas!
– Vai ela inflamando os moços…

Em tudo o que ja vivi
Nesta passagem terrena,
Se um pecado eu cometi,
Com ela, valeu a pena !…

Enquanto um velho comenta
sobre a vida: -“Ah! Se eu soubesse…”
um outro vem e acrescenta
já descrente: -“Ah! Se eu pudesse…”

Eu finjo que estou contente…
Ela finge que está triste…
— No canto do amor, a gente
desafina… mas resiste!…

Foram tais os meus pesares
quando, em silêncio partiste,
que, afinal, se tu voltares,
talvez me tornes mais triste…

Hei de vencer esta sina
que num capricho qualquer,
me fez amar-te menina
depois negou-me a mulher!…

Minha mágoa e desencanto
foi ver, no adeus, indeciso,
eu, disfarçando meu pranto…
tu, disfarçando um sorriso!…

Na ansiedade das demoras,
quando chegas e me encantas,
mesmo sendo às tantas horas,
as horas já não são tantas…

Não sei como não soubeste
mas o amor veio, infeliz…
Eu te quis, tu me quiseste,
mas o Destino não quis…

Não sendo um homem moderno,
meu pecado e insensatez
foi jurar amor eterno
e amar somente uma vez!…

Naquele hotel de terceira,
que a policia já fechou,
a Maria arrumadeira
muitas vezes se arrumou!

Nas lojas sempre envolvido,
não tem crédito jamais…
– ou por ser desconhecido,
ou conhecido demais !…

Na vida, em toscos degraus,
entre tropeços e sustos,
mais que a revolta dos maus,
temo a revolta dos justos!…

Na vida, lutar, correr,
não me cansa tanto assim…
O que me cansa é saber
que estás cansada de mim!

Nessa paixão que me assalta,
misto de encanto e de dor,
quanto mais você me falta
mais aumenta o meu amor!…

Nosso encontro …O beijo a medo…
A caricia fugidia…
Nosso amor era segredo,
mas todo mundo sabia…

Provando em definitivo
que o Brasil é de outros mundos,
há muito “fantasma” vivo
passando cheques sem fundos…

Seja doce a minha sina
e, num porvir de esplendor,
nunca transforme em rotina
os nossos beijos de amor…

Soube o marido da Aurora,
ela não sabe por quem,
que o vizinho dorme fora,
quando ele dorme também…

Toda noite sai “na marra”,
Dizendo à mulher: -“Não Torra!”
Se na rua vai a farra,
em casa ela vai à forra!…

Um Deputado ao rogar
ao Senhor, em suas preces,
pede que o verbo “caçar”
não se escreva com dois esses!…

Um longo teste ela fez
de cantora, com requinte…
Cantou somente uma vez,
mas foi cantada umas vinte!…

Vem amor, vem por quem és!
Pois já tens, em sonhos vãos,
minhas noites a teus pés,
meus dias em tuas mãos!…

Vendo a viuva a chorar,
muito linda, em seu cantinho,
todos queriam levar
a “coroa” do vizinho…

Vejo em minhas fantasias,
em Friburgo, pelas ruas,
mil sois enfeitando os dias
e, à noite, a luz de mil luas.

Fontes:
http://www.ubtjf.hpg.ig.com.br
Boletim Nacional da UBT

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Eliana Ruiz Jimenez (Livro de Trovas e Poemas )


TROVAS

Voa passarinho, voa
que gaiola é só maldade
livre, lá nos céus entoa
o cantar da liberdade.

Menção especial – I Jogos Florais – BC/2004
O mar de um azul profundo
e as montanhas esverdeadas,
são belezas desse mundo,
precisam ser preservadas.

Menção especial – II Jogos Florais – BC/2006
Rede que volta vazia
traz tristeza ao pescador
que apesar da nostalgia
leva adiante o seu labor.

Pescador mais esportivo
deixa seu peixe escapar,
melhor solto que cativo,
para assim o preservar.

Menção honrosa – III Jogos Florais – BC/2008
Sorriso que é cativante
é sincero e iluminado,
precioso como brilhante
por todos ambicionado.

O sorriso está escasso
nessa tal modernidade,
é preciso dar um passo
e mudar essa verdade.

Menção especial – III Jogos Florais – BC/2008
Sorria pra natureza
respeite e sempre preserve,
só assim teremos certeza
que o mundo assim se conserve.

Vencedora – IV Jogos Florais – BC/2010
Um segredo bem guardado
para assim permanecer
não deve ser partilhado
para nunca se perder.

Menção honrosa – IV Jogos Florais – BC/2010
O futuro do planeta
não é segredo a ninguém
preserve e se comprometa
que a vida assim se mantém.

Menção especial – IV Jogos Florais – BC/2010
Esse mundo feminino
de segredos permeado
é um gracejo do destino
pelos homens odiado.

———–
Obs: BC é Balneário de Camboriú
————-

POEMAS

MENINO POBRE

Menino pobre
Da noite quente
Abandonado
Menor carente.

Menino pobre
Da noite nua
Necessitado
No olho da rua.

Menino pobre
Do pé descalço
Chutando lata
Pela calçada.

Menino pobre
Menino sujo
Vagando triste
Um moribundo.

Menino inquieto
Girando o mundo
Sem casa e roupa
Sem mãe nem pai.

Menino triste
Pra onde vai
O que vai ser
Quando crescer?

MAR

Ventos
Valsando
Voltam
Vagando
Trazendo
O barulho
Do mar.

Brisas
Soprando
Ondas
Tragando
Fazendo
A beleza
Sem par.

Canários
Cantando
Aves
Voando
Planando
A leveza
Do ar.

Praias repletas
Luzes, atletas
Completam
Essa vida
No mar.

FOSSA

Sai dessa fossa, menina
Que isso não tem remédio
O que está feito é passado
E o passado só leva ao tédio.

Se as coisas dão errado
Se a sorte te despreza
Não fuja, não vá de lado
Vá em frente que não pesa.

Sai dessa fossa, menina
Que chorar não adianta não
A vida tem dessas mesmo
Mas chorar não é solução.

Deixe de caminhar a esmo
Pare de se sentir errada
As coisas acontecem para o bem
Não há mal que resulte em nada.

Existe um horizonte além
Dos conflitos do dia-a-dia
Sai dessa fossa, menina
Olhe em frente e sorria!

ESCRITÓRIO

Escritório
Sina de todo dia
Multidão comprimida
Na total monotonia.

A porta fecha
Deixando a vida lá fora
O relógio é moroso
E a saída demora.

Presos na caverna de luxo
Onde o sol não entra
Onde a chuva não molha
E até o ar é condicionado.

Escritório
Robôs de crachás
Sem pensamentos, sem vontade
Sem individualidade.

As melhores horas
De muitos dias
Em troca da breve alegria
Do dia dez.

TALVEZ

Talvez seja esse
O amor que procurei por toda a vida
Que pedi às estrelas
Que pedi aos santos
Que procurei nos cantos.

Talvez seja esse
O amor que sonhei da despedida
Quando descobri o engano de um amor trocado
E senti o sofrimento sem pecado.

Talvez seja esse
O amor que me fará forte
E de tão forte me fará fraca
Por ter meu coração entregue à sorte.

Talvez seja esse
O amor que me fará feliz
E será firma e será tão sólido
Que poderemos formas nós dois
Um só tronco, uma só raiz.

Talvez seja esse, finalmente
O meu caminho, o meu destino
A chave que libertará do meu peito
Todo o amor que eu tenho para dar
A recompensa por querer tão somente
Partilhar de um sentimento sincero
A realização do simples, porém complexo
Desejo de amar.

Talvez seja esse, talvez…

Fonte:
Poesias Urbanas e Outras Paixões, , indicação de A. A. de Assis

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Cláudio de Cápua (Livro de Trovas)


É neste “Canto que eu Canto”
belezas que a vida tem
que ao meu mundo dão encanto
e tanto me fazem bem!

Ante ao talento me ajoelho…
E o teu talento invulgar,
tanto me serve de espelho
como me serve de altar.
(uma homenagem a Carolina Ramos)

Esta foto é mais um fato,
que nos traz para o presente,
através deste retrato,
lembranças de antigamente.

Palhaços de profissão?
Ah, Como é bom, fazem bem.
O triste é ter coração
e ser palhaço de alguém!

Unindo a seresta ao verso
quero compor na amplidão.
Sou menestrel do universo,
em tardes de solidão.

Olha! A noite é uma criança,
diz o refrão popular –
que sacode e balança
presa às tranças do luar.

Só por descuido é que a Helena
acabou por se casar…
Pois, pensou que Cibalena
fosse a pílula… Que azar!

Avisto do alto da serra
a pujança do sertão
e sinto orgulho da terra
que mora em meu coração!

Quando o rei sol estorrica,
tortura, com seu clarão,
mais forte é aquele que fica
e dá valor ao seu chão!

De “mau jeito” o Zé Baleia,
pescador de sorte estranha,
noivou com uma sereia,
casou com uma piranha..

Certo bispo ouve uma “história”
de um padre chamado Hilário
e grava, assim, na memória
um bom “Conto do Vigário”

Servidor da tributária,
bem “Severo”, sem igual,
ergue a saia à secretária,
por ser, de “rendas”, fiscal.

O delegado Pereira…
Êta Pereira bacana,
– É de pouca brincadeira,
não dá pêra, só da “cana”!…

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte VI – final

A mulher cresce e domina
seu desejo, seu temor;
porém volta a ser menina
quando vive um grande amor!

Aos fariseus não parece,
mas quem crê sabe e sustenta:
– quanto mais humilde a prece,
mais alta a Deus se apresenta!

Aquela canção que outrora
encheu nosso amor de encanto,
depois que te foste embora
serve de fundo ao meu pranto! …

Busco-a com toda ansiedade
porém o destino estreito
não deixa a felicidade
ter espaço no meu peito! …

Cada vez mais terno e amigo,
na verdade o nosso amor
tem muito do vinho antigo
que o tempo apura o sabor!

Chegaste… E a tua chegada
me trouxe o deslumbramento
de uma estrela inesperada
surgindo em céu nevoento!…

Cheia de graça e feitiço
ela diz: “Vê se me esquece”;
sem saber que para isso
em vão já fiz muita prece!…

Desconfia precavido,
até de quem te aconselha,
que há muito lobo escondido
sob o disfarce de ovelha!

Desfez-se o sonho… Partiste …
Fiquei num desgosto infindo …
Mas o que me fez mais triste
foi que partiste… sorrindo…

De volta à minha cidade,
na emoção que me domina,
posso ver uma saudade
me acenando em cada esquina !…

Enquanto entre alguns se expande
a descrença a fé me alcança;
porque esta Pátria tão grande
cabe na minha esperança!

Eu tento, sem pranto ou queixa
tua ausência suportar..
Mas a saudade não deixa
que eu te lembre sem chorar!

Mesmo que a vida aos meus passos,
seja um caminho sem glória,
eu não percebo os fracassos
porque só penso em vitória!

Meu coração se afigura
um triste barco no mar,
carregado de ternura…
mas sem porto onde ancorar!

Não choro a mágoa, a desdita,
que trazem tristeza a tantos,
porque a vida ainda é bonita
mesmo com seus desencantos!

Não volto, orgulhoso, digo,
quando que eu volte ela insiste…
Mas, saudade, ao teu castigo
orgulho nenhum resiste! …

Na vida sou barco ousado
cheio de sonhos e planos,
que sempre acaba encalhado
na praia dos desenganos!

No verde imenso, a cascata
de brancura cristalina,
lembra um caminho de prata
unindo o vale à colina !

Num mundo injusto é mister
que esta justiça se faça:
sem a graça da mulher
nada mais teria graça.

O mundo é enganoso e vão,
porém não deixo de crer
na esperança – esta ilusão
que ajuda a gente a viver!

Para o tormento em que vivo
desde o teu adeus confesso
que só tem um lenitivo:
o teu mais breve regresso!

Partiste… E o pranto que invade
o meu peito dolorido
tem suspiros de saudade,
tem tristezas de gemido! …

Quem diz, na sua cegueira,
que reza em vão, desconhece
que Deus tem sua maneira
de atender à nossa prece…

Quem já venceu nos ensina
que a vitória é mais de quem,
mesmo por entre a neblina,
descobre um sol mais além! …

Quem sofre mas, constrangido
retém a lágrima, ignora
que o tormento é mais dorido
no peito de quem não chora.

Quem sonha as mágoas olvida,
não perde a fé, nem fraqueja,
porque o sonho adoça a vida
por mais amarga que seja….

Riu-me um dia… Desde então,
com seu jeitinho suave,
entrou no meu coração
e deu sumiço na chave!…

Se a luta é penosa, inglória,
não percas a confiança,
que o segredo da vitória
está na perseverança!

Seja um minuto somente,
a ser feliz não me furto;
pois, dos caminhos da gente,
o da ventura é o mais curto!

Se o pranto fosse alegria,
se fosse festa a desdita,
a minha vida seria
uma risada infinita!…

Ser teu príncipe, não digo…
Tais honras nunca sonhei;
mas, nos momentos contigo,
tenho venturas de rei!

Se te aflige um desencanto
recorre à ilusão e sonha,
que a quem sonha não dói tanto
uma verdade tristonha !

Tão forte amor nos enlaça,
e de forma tão perfeita,
que a cada dia que passa
nossa união mais se estreita!

Tendo a graça como tema
e o encanto que o amor requer,
Deus escreveu um poema
que nós chamamos: – Mulher.

Tua ausência me faz ver
a vida tão sem motivo,
que eu vou teimando em viver
mas sem saber porque vivo!…

Vazia de explicação
foi a tua despedida,
mas encheu de solidão
as horas de minha vida!

Volta logo, antes que a espera
transforme, longa demais
meus sonhos de primavera
em suspiros outonais! …

Vou sair de teu caminho…
Percebi que não compensa
dar tanto amor e carinho
em troca de indiferença

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte V


A mendiga não tem nada;
leva um viver vagabundo;
mas, ao filhinho abraçada
se sente a dona do mundo!

A morte não me intimida;
mas, por ser tão inclemente,
eu tenho medo da vida
que mata os sonhos da gente!….

As dunas que o vento forte
faz e desfaz de inopino,
têm, na incerteza da sorte,
um pouco do meu destino…

Cansado de levar tombo
pela vida o negro insiste
na procura de um quilombo
que ele nem sabe se existe!

Das esperas e cansaços
recompensa igual não tem,
como o dilúvio de abraços
que ela me traz quando vem!…

De outros grilhões me desfiz…
do teu amor, todavia,
sou um escravo feliz
que não reclama alforria!…

Derrota não intimida
aquele que, persistente,
esquece a luta perdida
e vai lutar novamente!

Dói mais meu sonho frustrado
ao ver, com tristeza imensa,
o meu afeto humilhado
pela tua indiferença !

Esta renúncia forçada
ao teu amor me dói tanto,
que a minha alma inconformada
nem se consola no pranto!…

Eu planto boa semente,
mesmo assim por mais que eu plante,
minha colheita, desmente
o que o provérbio garante! …

Eu, por ser um pecador,
em ter o céu não me empenho;
na terra, com teu amor,
o céu que eu quero já tenho!

Faço uma fonte de sonho
desta vida; e, sem chorar,
quando um sonho morre eu ponho
outro sonho em seu lugar!

Lembra, na ajuda prestada
que outro interesse resume,
que as flores não pedem nada
em troca de seu perfume!

Luta, e com mão destemida
traça teu rumo e conduta,
antes que sejas na vida
um derrotado sem luta! …

Mesmo depois de desfeito,
um grande amor de verdade
fica escondido no peito
sob a forma de saudade!

Na cartilha do incapaz
consta um lema: prometer..
É fácil dizer que faz,
difícil mesmo é fazer! …

Não sou feliz, todavia
escondo o desgosto meu
simulando uma alegria
que a vida nunca me deu !

Não temo envelhecer.
Tudo na terra é finito…
Repara que o entardecer
é sempre um quadro bonito!

Nas ruas, pobre menino,
vagueias sem pão, sem teto;
mas sei que no teu destino
dói mais a fome de afeto!

Nem todos, tenho certeza,
abrem mão de seu prazer…
Porque renúncia é grandeza
que só os bons podem ter!

Num quilombo bem distante,
palco de uma luta inglória
um sonho foi importante
muito mais do que a vitória!…

Ouço o mar nas madrugadas;
e sinto, em seu murmurar,
os gemidos das jangadas
que não puderam voltar!…

Para Deus, capaz de ver
a fé no peito contrito,
um murmúrio pode ser
mais eloqüente que um grito!

Podes ir… mas, se um lamento
ouvires de vez em quando,
não é murmúrio de vento…
É minha voz te chamando!…

Quem nos erros se aferrenha,
não sabe que a chave torta,
por mais força que se tenha
não abre nenhuma porta!

Quem visa em seu desvario
tudo ter, de imediato,
se esquece que o grande rio
é no princípio um regato.

Saudade… Um sorriso brando
para uma dor esconder…
Alguém partindo, tentando
me dar adeus sem querer!…

Se a vida é penosa e bruta
não fraquejo, sigo em frente,
como um náufrago que luta
contra a força da corrente…

Se quer colher mais adiante
desde já plante a semente,
que o futuro se garante
trabalhando no presente!

Ser bom consiste em sentir
que no mundo da amizade,
entre servir-se e servir,
servir tem prioridade!

Sozinho, sem ter na vida
quem preencha os dias meus,
sou como o altar de uma ermida
num povoado de ateus!…

Tua luta amarga aceita
sem perder a confiança,
que a passagem mais estreita
se alarga à perseverança!

Um grão só nunca é de menos,
muito importa na colheita…
Pois é com elos pequenos
que a grande corrente é feita!

Voltaste. Esquecido, agora,
de mágoas e de abandono,
sinto um fascínio de aurora
na minha tarde de outono! …

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte IV


A brisa quando se lança
pelos campos a correr,
até parece criança
brincando de se esconder

A torre da ermida ao longe,
entre sombra e solidão,
lembra a figura de um monge
numa infinita oração!

Buscando um jeito suave
de superar nossas crises,
o meu deslize mais grave
foi perdoar teus deslizes!

Chora a mulher desolada,
ao ver que o mar traiçoeiro
trouxe de volta a jangada,
mas não trouxe o jangadeiro!

Eu não sei de solidão
que se compare à de quem
não guardou no coração
uma saudade de alguém.

Louvo a mão que, resoluta,
com arte digna de espanto,
transforma a madeira bruta
na doce imagem de um santo!

Mesmo chorando ou sorrindo,
em cada olhar de criança
descubro um sol claro e lindo
com o brilho da esperança !…

Não creio mais no que dizes,
e perdoar-te não vou…
Foram tantos teus deslizes
que o meu perdão se cansou !

Não me empolga a fantasia
de amores fúteis, devassos…
O amor que eu tanto queria
já encontrei nos teus braços!

Não regressas… Triste aceito
cumprir a pena severa
desta espera que em meu peito
é mais angústia que espera! …

Não sou perfeito, mas creio
que entre as pessoas da terra,
censura o deslize alheio
justamente quem mais erra

Não te julgues tão segura
depois que foste e voltaste…
Pois teu regresso não cura
a mágoa que me deixaste!

No constante perde-e-ganha
deste viver peregrino,
há sempre uma força estranha
movendo o nosso destino

No purgatório do mundo
penei… mas pude encontrar
um céu sereno e profundo
quando vi o teu olhar!

Nos aparências não creias…
Existem rios no mundo
de águas escuras e feias
que têm tesouros no fundo! …

O amor que é paixão, que é febre,
põe, com a sua magia,
na pobreza de um casebre
a riqueza do alegria!

Os povos irão se unir
sem que a guerra os amedronte,
quando o mundo construir
menos muralha e…. mais ponte!

Para enfeitar minha vida
não quis um amor-perfeito…
Agora a flor preterida
virou saudade em meu peito!

Partiste… De tal maneira
chorei ante o desencanto,
que o orvalho da noite inteira
foi bem menor que o meu pranto! …

Perdido nos descaminhos,
sem ter onde desaguar,
sou um rio de carinhos
à procura do seu mar!

Pobre barraco de morro!…
Quando a chuva a terra invade,
és um grito de socorro
perdido na tempestade!

Pobre do meu coração! …
Por mais que o enganes e pises,
na cegueira da paixão
não enxerga os teus deslizes!

Pode ser que desagrade
a muitos meu parecer;
mas é melhor ter saudade
do que saudade não ter!

Procura na inglória trilha
manter firme o teu comando,
que a derrota nunca humilha
quando se perde lutando

Procura vento, nas noites
invernosas e sem lua,
diminuir teus açoites
contra os que dormem na rua !

Quando a tristeza me invade
e a tua falta lamento,
escuto a voz da saudade
na sinfonia do vento!

Quando nem tudo são rosas
num mundo escasso de fé,
eu louvo as mãos caridosas
que os caídos põem de pé!

Rio, nas águas serenas
que vais levando em teu leito
leva também essas penas
que tanto afligem meu peito!

Se a solidão tem um preço,
eu pago o dobro por certo,
porque até quando adormeço
sonho que estou num deserto…

Se em meu rumo há sombra adiante
a lamentar não me ponho…
Prossigo perseverante
na conquista do meu sonho!

Sei que nem tudo é bonança
entre nós… Mas, por favor,
não plantes desconfiança
na terra do nosso amor…

Sob um luar feito em prata,
sem ela, triste, sem sono,
faço a minha serenata
pelas ruas do abandono!

Vinha bela e sorridente,
e a brisa por cortesia,
ia varrendo na frente
a estrada que ela seguia!

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte III

Água é donzela carente,
tanto que até faz desvio
para mais rapidamente
cair nos braços de rio!

Ao ver na rua um menino
sem rumo, sem lar, sem pão,
não lamento o seu destino…
lamento a nossa omissão!

Beleza em meu pressuposto
é mais um detalhe vão,
quando é presença no rosto
e ausência no coração! …

Entre outras mãos eu bendigo
aquela que, humildemente,
cava a terra e planta o trigo
que mata a fome da gente!

Faze do bem exercício…
Pois, penosa aos olhos teus,
a renúncia é sacrifício
que nos põe perto de Deus !…

Ficou como exemplo ao mundo
que o amor vence os desatinos,
o perdão de um moribundo
para os próprios assassinos!…

Lembrando os tempos risonhos,
vejo com desgosto infindo,
que os meus coloridos sonhos
estão se descolorindo!

Manhã tristonha. Chovia.
Ias partir.. Desencanto…
E o pranto da chuva fria
se misturava ao meu pranto!…

Mar, nas tuas águas mansas
que embravecem de repente,
eu descubro semelhanças
com o destino da gente! …

Mostrando que no teu peito
pulsa um nobre coração,
paga o mal que te foi feito
com moedas de perdão…

Na serenata dos sós
o meu canto é tão sentido,
que quem ouve a minha voz
supõe ouvir um gemido!…

Natal!… Que o toque dos sinos
traga alegrias também
para aqueles pequeninos
que são filhos de ninguém !…

Na vida não queiras ter
só momentos de alegria;
repara que o amanhecer
não é igual todo dia.

No Natal vejo meninos
com boa roupa e bom teto
ganhando presentes finos…
e tão carentes de afeto!…

No peito, por ser sincero,
sinto a aflição de um castigo,
quando digo que te quero
e tu não crês no que eu digo!

Nossas mãos quando as unimos,
embora não tenham voz,
do grande amor que sentimos
falam melhor do que nós!

Para o meu viver tristonho
um motivo mais ressalta:
na trova feliz que eu sonho
és a rima que me falta…

Pela vida, à semelhança
de um colono, sigo eu
plantando nova esperança
onde a esperança morreu!…

Planta, a cada frustração
outro sonho em tua estrada…
Antes crer numa ilusão
do que não crer mais em nada!…

Procure dar mais valor,
nesta vida tão fugaz,
à beleza inferior
que nem o tempo desfaz !

Quando chora a pobre gente
por na mesa não ter nada,
a terra chora a semente
que nela não foi plantada!…

Quando me abraça e murmura:
“serei tua a vida inteira”
nunca vi tanta ternura
em frase tão corriqueira

Quando os pés na terra ponho,
descubro, frustrado e triste,
que o mundo feliz que eu sonho
somente em meu sonho existe.

Quando ris, tenho certeza
que Deus, tão sábio e preciso,
exagerou na beleza
quando fez o teu sorriso!

Quem recebe e não revida
um gesto de ingratidão,
em meio às trevas da vida
semeia a luz do perdão!…

Se tens muito, ao mais carente
procura um pouco ajudar,
que um pingo d’água somente
não faz diferença ao mar..

Sozinho, vivo à procura
de quem seja o mar perfeito
para o rio de ternura
que tenho dentro do peito!

Tenho bem pouco… Migalhas…
mas não me dói ser plebeu:
foi num presépio, entre palhas,
que um Deus-menino nasceu!

Teus olhos, quando me fitas,
parecem, para o meu gosto,
duas rimas bem bonitas
no poema do teu rosto!

Um dia te fiz sofrer…
E agora sofro a aflição
de o meu remorso não ter
como encontrar teu perdão!…

Viva a vida; mas, cuidado!
Precavido, não se esqueça
de construir seu telhado
antes que a chuva aconteça!…

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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Cynira Antunes de Moura (Livro de Trovas: Respeito à Natureza)


Trovador é consciente
e respeita a natureza;
quer dar ao munda da gente
tranquilidade e beleza!

Desmatar!…Ânsia incontida
ataque sem precedente…
ousadia contra a vida
que Deus nos deu de presente!

Como vestida de festa,
de flores se acobertando,
a árvore nos atesta
que há esperança nos rondando!

O ser humano é vadio
não cuioda nem de seu lar,
fecha os olhos ao vazio
que as queimadas vão deixar!

Ao homem Deus presenteia
lindo mundo que o acata,
e ele teimoso incendeia
a beleza dessa mata!

Enquanto há vida no mundo
as florestas preservemos,
o viver é oriundo
do quão bem as conservemos!

A natureza e o progressi
precisam se harmonizar,
mas não alcançam sucesso
se o homem não ajudar!

Quem polui o ambiente
é cego que não quer ver,
que a natureza veemente
só nos enseja viver!

O homem mau não vê na chama
com que ele queima a floresta
que essa criminosa trama
queima a vida que lhe resta!

Contra esse gesto inclemente
do homem cego que a desmata
como um protesto veemente
se faz silêncio na mata!

Em resposta à malvadeza
com que o ser humano a atenta,
floresce a mãe natureza…
dá frutos, e nos sustenta!

É choro da natureza
a chuva que cai na mata
tenta salvar com certeza
o que o homem mau desmata!

Santuário verdadeiro
a mata guarda segredos,
mesmo sem ter jardineiro
florescem os arvoredos!

Deus nos dá fonte perfeita
de água cristalina e pura,
mas o homem não respeita
polui…destrói e satura!

Judiada sem piedade
a floresta verdejante,
responde à humanidade
com ar puro e refrescante!

O canto alegre e risonho
das cascatas na montanha,
é melodia de sonho
dá vida à terra que banha!

Fonte:
Trovas entregues pela autora, em Santos/SP

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte II

Amigo bom não procura
nosso pranto consolar:
pressente a nossa amargura
e não nos deixa chorar! …

Ao ver-te me causa espantos
tanta beleza, e não nego
que diante dos teus encantos
lamento a sorte do cego…

Confessar-te às vezes tento
que te quero com fervor.
Mas é pouco o meu talento
para expressar tanto amor!

Em cascatas de poesias
eu transformo, comovido,
o rio de águas sombrias
que a minha vida tem sido…

Esquece, o triste passado
que te deixa descontente…
Se o teu “ontem” foi nublado,
põe um sol no teu “presente”!

Faze o bem e, com urgência,
planta o amor em tua estrada,
antes que a tua existência
seja inútil caminhada…

Mais que a tua despedida
e a mágoa imensa dos sós,
dói-me a distância que a vida
insiste em por entre nós…

Mesmo que o sol não desponte
com seu brilho encantador
haverá belo horizonte
nas manhãs do nosso amor!…

Meu grande engano, confesso,
foi pensar ao ver-te enfim,
que a razão do teu regresso
fosse a saudade de mim…

Muitos sonhos de venturas
são cascatas de ilusão:
encantam, lá nas alturas,
mas se desfazem, no chão…

Não chores, que a tua vida
mesmo ingrata aos olhos teus
é sinfonia regida
pela batuta de Deus! …

Não te iludas com o encanto
que te causa a glória vã…
Quem hoje te aplaude tanto
pode vaiar-te amanhã!

Nas noites que a sós eu passo,
se há luar fico sem sono,
e mesmo sem teu abraço
não me dói tanto o abandono!…

Neste mundo ingrato e rude,
de tantas hipocrisias,
vejo a jóia da virtude
no rol das bijuterias!

No jogo que a vida tece,
a experiência me diz
que a sorte sempre me esquece
quando o prêmio é ser feliz! …

Nossa paixão louca e plena
às vezes me faz supor
que uma existência é pequena
para conter tanto amor!

O tempo passou ligeiro,
mas deixou comigo o vulto
daquele menino arteiro
que hoje chora ao ver-me adulto!…

O teu desprezo me diz
que eu desista… todavia,
no anseio de ser feliz
ninguém mede a teimosia!

Para o carente, o sozinho,
um pouco de amor faz bem,
porque a fome de carinho
às vezes mata também!

Partiste… Não desespero
porque sei, contendo a ânsia,
que o laço do amor sincero
não se desfaz na distância…

Quando diante de um perigo
sentes o amparo de alguém,
é Deus esse alguém amigo
que não sabes de onde vem!

Quem tem pose envaidecida,
talvez não saiba nem sinta
que é na paisagem da vida
um reles pingo de tinta!…

Se cai neblina, acho graça;
se chove, a chuva bendigo;
pois se o mau tempo não passa,
passas mais tempo comigo!…

Se falhas, com paciência
é necessário que insistas…
Porque se deve à insistência
todas as grandes conquistas!

Segue, atento, a voz segura
dos que têm longa vivência…
Erra menos quem procura
ouvir, mais a experiência!

Sem ter amor, contrafeito,
na minha tristonha lira,
para enganar o meu peão
canto um amor de mentira !

Sonha mais, sonha que a vida
mesmo penosa e tristonha,
é paisagem colorida
para os olhos de quem sonha!…

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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José Tavares de Lima (Vozes do Coração) Parte I

Amar alguém eu temia…
E acabei, na indecisão,
pagando essa covardia
com a minha solidão!

As penas da vida aceita
sem revoltas, sem reclamos…
pois sempre a nossa colheita
depende do que plantamos…

Assim como todo lume
tem que ter ardor e chama,
também tem que ter ciúme
o coração de quem ama!

Busca no verso a alegria,
se hoje a vida te amargura,
que a vereda da poesia
pode levar-te à ventura !…

Contra a idade não tem fugas…
Mas eu vejo, com desgosto,
que a vida ingrata pôs rugas
antes do tempo em meu rosto!

Crê na vitória e tem calma
ante o revés que alucina…
Quem traz um sol dentro d’alma
não se perde entre a neblina!

Desperta. A noite é de encanto!
E a lua, aflita, no espaço,
já não pode esperar tanto
para ver o nosso abraço!…

De tanto esperar-te e vendo
que a idade avança, severa,
sinto em minh’alma crescendo
o desencanto da espera !…

Enfrente a luta e, persista
se acaso a vitória tarde…
Não há troféus de conquista
nas estantes do covarde!

Espero-a… A noite está fria,
mas não desisto… Ouço passos
e o prêmio da teimosia
vem se acolher nos meus braços!

Esquece a luta perdida
porque, mais que insensatez,
lembrar fracassos na vida
é fracassar outra vez !

Faz da vida uma peleja
pelo bem que tens em mente;
ninguém colhe o que deseja
desejando… simplesmente!

Fazendo um fico insincero
que na verdade deploro,
eu minto que não te quero
para esconder, que te adoro!

Felicidade, me resta
sonhar contigo e mais nada;
já que a sorte, em tua festa,
não permite a minha entrada!

Festeiro de alma iludida,
disfarçando a sorte ingrata,
faço uma festa da vida
mesmo que o vida me bata! …

Lembra, em tua majestade,
quando o orgulho te arrebata,
que é no espelho do humildade
que a grandeza se retrata!

Meu maior contentamento
é quando, amorosa, dizes
que eu sou o melhor momento
dos teus momentos felizes !

Muita gente, na velhice,
não sonha mais… tem saudade
Corno se o sonho exigisse
certidão de nossa idade!…

Não deixa de ser valente
quem lutando fracassar…
Perder lutando é acidente;
Covardia é não lutar!

Nem a derrota embaraça
quem luta e nunca esmorece;
pois sabe que a nuvem passa
e o sol de novo aparece!

Nos obstáculos que enfrentas
sê forte e perseverante:
– é no rigor das tormentas
que se mede o navegante! …

Nossa união que eu aceito
como a dádiva mais grata,
é nó-cego tão perfeito
que nem a morte desata !

O amor vem, não se procura…
Chega sutil, de repente,
como uma luz que a ventura
acende dentro da gente!

Partiste… Em meu desatino
vejo, ante o sonho desfeito,
que o pranto – intruso inquilino
fez domicílio em meu peito!

Pode ser falso o teor
que este conceito resume:
mas eu não creio no amor
de quem não sente ciúme

Pratica o bem desde agora,
pois com urgência é preciso
que no rosto de quem chora
faças brilhar um sorriso!…

Recebo cartas… Centenas!…
Eu trocaria, porém,
todas elas por apenas
uma que espero e não vem…

Se a sorte não me convida,
teimoso, forças concentro
e entro na festa da vida
como ‘penetra’… mas entro! …

Se não crês em Deus porque
não crês no que nunca viste,
lembra que o cego não vê,
mas sabe que a luz existe!…

Todo o bem que o amor resume
acaba em desilusão,
quando a sombra do ciúme
envolve a luz da razão

Venci distância e cansaço
para abraçar-te … no fim,
quando cheguei, teu abraço
não esperava por mim…

Voltaste tão diferente
da mulher que foi tão linda,
que embora estejas presente
não sei se voltaste ainda!…

Fonte:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
LIMA, José Tavares de. Vozes do Coração.

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Joubert de Araujo e Silva (Livro de Trovas)

A Morte vem tarde ou cedo
– com brumas no fim da estrada.
São as neblinas do medo…
– Talvez tudo… -Talvez nada

A neblina sobre a mata,
antes que o sol doure a terra,
parece um manto de prata
nos ombros verdes da serra.

Aquela aranha paciente,
que tece despercebida,
lembra o destino da gente
e as armadilhas, da vida!

A sorte foi bem marota
para o pobre do Aristeu,
fazendo morrer de “gota”
quem só da “pinga” viveu.

Cessa a luta na colina…
E Deus, ante o horror da guerra,
põe o algodão da neblina
sobre as feridas da terra.

Chego ao fim, com os pés sangrando,
abandonado e sozinho;
meus sonhos foram ficando
um a um pelo caminho…

De todas as despedidas,
esta é a mais triste, suponho:
duas almas comovidas,
chorando a morte de um sonho!

Enganam-se os ditadores,
que, no seu furor medonho,
mandam matar sonhadores,
pensando matar o sonho!

Lembro, triste, o amor passado,
vendo a Luz e o velho cais:
– saudade é barco ancorado
no porto do “nunca mais” …

Manhã… Ao passar das horas,
incendeia-se o horizonte…
E o Sol – pastor das auroras,
varre as neblinas do monte.

Meu dentista entrou em cana;
numa grande confusão…
e uma coroa” bacana
foi o “pivô” da questão.

Na cachaça, o Zé Caolho
se sente realizado:
embora tendo um só olho,
ele vê tudo dobrado…

Os currais estão vazios…
o verde fugiu do chão…
e a seca, bebendo os rios,
vai devorando o sertão.

O segredo que o Biscalho
soube da esposa travessa
deu, por fim, “aquele galho”
que não lhe sai da cabeça…

O vento, pastor estranho,
tangendo as nuvens ao léu,
conduz seu alvo rebanho
pelas campinas do céu!

Quando um povo escravo acorda,
pondo fim ao jugo insano,
a mão de Deus põe a corda
no pescoço do tirano …

Seca Braba. Ao longe, o grito
do carro de bois gemendo
parece um “ai” longo e aflito
do sertão, que vai morrendo …

Se quiser proceder bem
quem briga alheia ajuiza,
dê razão a quem não tem,
pois quem já tem, não precisa!…

“Só com o Zé se casaria…”
Jurou, e foi verdadeira:
Já tem três filhos Maria,
e continua solteira!..

Vem a neblina… e a cidade
goteja um pranto silente…
– Neblina é como a saudade
molhando os olhos da gente.

Fontes:
Colaboração de Darlene A. A. Silva
Verso e Prosa
Evandro Moreira. Poetas Cachoeirenses.

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Carlos Alberto de Assis Cavalcanti (Livro de Trovas)

Tinha viúva demais
no velório do bacana,
todas choravam iguais:
enganaste, seu sacana!

Os moradores do além
não causam mal aos de cá,
mas os que moram aquém
é que nos mandam pra lá.

Discursava no plenário,
se dizendo popular,
mas na hora do salário,
só pensava em se aumentar.

Se antigamente era a mão
que o noivo à noiva pedia,
agora os dois, de antemão,
já nem mais esperam o dia…

Há quem diga que a mentira
tem pernas curtas pra andar,
mas o dono dela estira
as suas para ajudar.

Há quem chore por defunto
bem na beira do caixão,
mas ninguém quer ficar junto
do finado sob o chão.

No domingo, bem contrito,
comunga da eucaristia;
na segunda, bem aflito,
comunga da carestia.

No passado, bem remoto,
havia a mata e o primata;
no presente, se bem noto,
nem primata, nem a mata.

Logo se fez um tumulto
na prova de Português,
achar um sujeito oculto.
pois aluno quer de vez

De que adianta tua cobiça,
teu rasante olhar de abutre,
se há de ser também carniça
essa carne que te nutre.

Se dizia o mais temido
lá no morro do presunto,
sendo assim foi promovido
de valente pra defunto.

Quando o homem é o predador
das belezas naturais,
não respeita nem a dor
que provoca aos animais.

Tão radical se mantinha
quando entrava em discussão,
que nem ele mesmo tinha
pra peleja a solução.

Era um deputado obeso,
mesmo estando em exercício,
tinha um salário de peso
pra tão pouco sacrifício.

Fontes:
UBT Nacional

Curriculo Lattes

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Milton Nunes Loureiro (9 junho 1923 – 31 Janeiro 2011)

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31 de janeiro de 2011 · 19:33

Elizabeth Souza Cruz (Livro de Trovas)

Declarar-me não me atrevo,
com palavras mais ousadas…
E assim os versos que escrevo
são propostas camufladas!…

Qualquer que seja o motivo
que a razão nos tente impor,
não se passa o corretivo
quando um erro é por amor!

Se o teu amor foi miragem
no deserto da paixão,
que importa… me deu passagem
para o oásis da ilusão.

É tão forte a intensidade
das loucuras da paixão,
que no amor a insanidade
é o que eu chamo de razão.

É surpresa repetida,
surpresa mesmo… e bendigo
cada instante em minha vida
me repetindo contigo!

Nem mesmo a ilusão remenda,
com seus fios de saudade,
os velhos sonhos de renda
que eu teci na mocidade!

No desfile à fantasia,
de um carnaval de ilusão,
a saudade é a alegoria
que enfeita meu coração!

Minha saudade é um desvio
que a solidão me propõe
para fugir do vazio
que a tua ausência me impõe!

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Ederson Cardoso de Lima (Livro de Trovas)

Cigana e bela mulher…
Dessa romance eu me ufano.
– Não vive um amor qualquer,
quem vive um amor cigano!

Em cada canto da mente,
o vulto dela flutua!
Não é passado, é presente,
o meu amor continua!

Eu sou quem anula planos
(os grandes planos, talvez).
Rainha dos desenganos,
o meu nome é timidez!

Grita para a garçonete,
um homem simples do povo:
– Vou querer um omelete…
e traga também um ovo!

Imensa expressão na vida,
a renúncia pode ter:
– Quanto mais nobre e doída,
mais nos pode engrandecer!

Já de “porre” um ladrão bronco
cai no sono em casa alheia,
e, traído pelo ronco,
foi roncar lá na cadeia…

Lá, num canto do planeta,
é o siri que “ bota banca” .
O país é tão “careta”
que se chama Siri-Lanca…

Nessa angústia desmedida,
ficou mais do que provado:
eu só me encontro na vida,
se me encontrar ao seu lado!

Nos meus sonhos de guri,
tudo levei de vencida,
mas esse encanto eu perdi
pois hoje apanho da vida!

O café – fonte de renda –
traz-me o tempo de meus pais:
Fui menino da fazenda
no Brasil dos cafezais!

Os pensamentos dispersos
agora tomaram jeito,
pois a Musa de meus versos
divide comigo o leito!

Quem meditar por instantes,
certos conceitos refaz:
– O mais caro dos brilhantes
não vale o brilho da paz!

“Quem sabe ela quer voltar…”
Meu coração não se emenda,
pois não consegue riscar
seu nome de minha agenda!

Somente a troco da “bóia”
trabalhava o comilão.
E foi com essa tramóia
que quebrou o seu patrão.

Sua lira foi – em suma –
de romantismo repleta.
Hoje uma orquídea perfuma,
esse ocaso do poeta!

– Vá com Deus, “bebum” amigo…
E ele, em tropeço, ao andar,:
– Deus, tu podes vir comigo,
mas não precisa empurrar!

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Cornélio Pires (Livro de Trovas)

A bica do maldizente
Que vive de reprovar;
É igual à boca da noite,
Que ninguém pode fechar.

Afirmação que interessa
Tanto ao fraco quanto ao forte:
Quem açambarca a fortuna,
Desconhece a lei da morte.

Ante a Lei de Causa e Efeito
Que nos libera ou detém,
Há muito bem que faz mal,
Muito mal produz o Bem.

A pessoa ponderada
Aceita o dever, age e pensa;
Não exagera perguntas,
Falar demais é doença.

As minhas trovas de agora;
Não guardam nada de novo,
São pensamentos dos sábios;
Com pensamentos do povo.

Até que haja na Terra
Limpeza de alma segura,
Todos nós carregaremos
Um pouco de loucura.

Computador é progresso,
Facilidade de ação,
Prodígio da inteligência,
Mas precisa direção.

Convidado para a festa
Não se adianta, nem demora,
Nunca surge tarde ou cedo,
Dará presença na hora.

Da multidão dos enfermos
Que sempre busco rever
O doente mais doente
É o que não sabe sofrer.

Diz o mundo que a nobreza
Nasce de berço opulento,
Mas qualquer pessoa é nobre,
Conforme o procedimento.

Em questões de livre-arbítrio,
Discernimento é preciso;
Todos temos liberdade,
O que nos falta é juízo.

Eis uma dupla correta
Que na vida é sempre clara:
O sofrimento nos une,
A opinião nos separa.

Estes versos me nasceram
Na intimidade do peito,
Se alguém lhes der atenção;
Fico grato e satisfeito.

Existem casos ocultos
Nos corações intranqüilos
Que, a benefício dos outros,
Não se deve descobri-los.

Existem homens famosos,
E muitos deles ateus,
Esquecidos de que moram
No grande Mundo de Deus.

Fenômeno admirável
Para os crentes e os ateus;
Notar em cada pessoa
A paciência de Deus.

Não te irrites, nem fraquejes;
Quando mais te desconfortas,
A tua vida é uma casa
Com saída de cem portas.

Não te revoltes se levas
Uma existência sofrida,
A provação, quando chega,
Age em defesa da vida.

No corre-corre dos homens
Há quadros fenomenais.
Anota: Quem sabe menos;
É fala muito mais.

No que fazer e fizeste
Registra em paz o que tens;
Há muitos bens que são males,
Muitos males que são bens

Observando a mim mesmo,
Anoto em linhas gerais;
Os nossos irmãos mais loucos
Estão fora de hospitais.

O orgulho é uma enfermidade
Na pessoa o que se aferra,
Doença que a vida cura
Usando emplastros de terra.

Provérbio antigo que achei,
Entre nobres companheiros:
“O avarento passa fome
Para luxo dos herdeiros “.

Quem quiser auxiliar
De qualquer modo auxilia;
Quem não quer, manda fazer
Ou deixa para outro dia.

Quem quiser saber o início
Das grandes obras do Bem,
Procure ajudar aos outros,
Nem fale mal de ninguém.

Sabedoria só age
No que for justo e preciso;
Mas a Ciência, por vezes,
Age fora do juízo.

Sem sofrimento em nós mesmos,
Não se sabe o que se é,
Não se sabe da ingenuidade
Nem se sabe se tem fé.

Silêncio é um amigo certo,
Guardando virtudes raras,
No entanto, a palavra livre,
Às vezes, tem muitas caras.

Sociedade é um jardim
De expressão risonha e bela;
Entretanto, a convivência
Exige muita cautela.

Vinha do enterro do avô,
Mas jogou na loteria;
Ganhando cem mil reais,
Antônio chorava e ria.

Fonte:
PIRES, Cornélio. “Alma Do Povo” – Médium: Francisco Cândido Xavier, 1995.

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Maria da Graça Stinglin de Araújo (Livro de Trovas)

Buscar caminhos amenos,
inovar o dia-a-dia,
errar menos…sempre menos…
também é sabedoria.

Curitiba, da magia,
tem beleza, tem lisura.
Curitiba, muito fria…
mas… só na temperatura!

Faça o trânsito seguro.
Só dirija com cuidado.
Não deixe o outro no apuro…
Está certo? Combinado!

Jovens estão temerosos?
Estimule-os a aprender,
tornando-os bem poderosos
com o domínio do saber.

Linda Noite de Natal!
Nessa noite, muita luz,
brilha a estrela principal,
renasceu nosso jesus!

Na linda manhã de sol
ouvi uma canção tão bela…
Eu debaixo do lençol
e a cigarra na janela!

Os conselhos agradáveis
muitas vezes são tão fúteis,
totalmente dispensáveis.
Bons conselhos são os úteis.

Por incrível que pareça,
a pessoa que é ranzinza
leva acima da cabeça
uma leve nuvem “cinza”.

Primavera… ipês floridos,
pássaros alegres cantam.
Jardins estão coloridos…
todos eles nos encantam!

Quem trafega com atenção
demonstra conhecimento,
melhora a circulação…
e evita aborrecimento!

Todos os anjos e santos
de maneira especial,
consolam os nossos prantos,
com piedade angelical.

Trovadores… luz… ribalta!
No cenário: a poesia.
Trova nasce… verso salta…
na maior coreografia.

Um abraço com frequência
sempre muito amor nos traz.
Ele desarma a violência,
constrói um mundo de paz.

Vem na natureza… em cota!
O dom de ser escritor…
Muitas vezes ninguém nota,
e o texto está numa flor!

Fontes:
União Brasileira dos Trovadores.
Portal CEN

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Clenir Lima Neves Ribeiro (Trovas que eu Faço Sonhando)

Brigamos… e mesmo tensa
renovei minha proposta…
Como dói, se a indiferença
traz em silêncio a resposta!

Quem num gesto de humildade
Planta o bem e não se cansa,
Na colheita da bondade
Enche o mundo de esperança

Disseste adeus… E o tormento
Na hora da despedida,
Foi sentir que, num momento,
Te perdi por toda vida !…

Mantém a calma querido
E não fique assim tristonho
Depois de um sonho perdido
Sempre se encontra outro sonho.

Quanta tristeza me invade
Nesta vida amargurada.
– Eu quero sentir saudade
Sem ter saudade de nada,

Se o rumo de minha vida
É estreito e sem espaço,
Eu sempre encontro saída
No caminho dos teus braços!…

Depois de tantos fracassos,
Na insônia tento encontrar
Algum espaço em teus braços,
Para eu dormir e sonhar !…

Mais triste que a despedida
Foi sentir nos braços teus
Que o ” Depois ” de minha vida
Carregaste nesse adeus !

O vento sopra tristonho,
Na solidão que me invade…
– Transforma brisas de sonho
Em vendavais de saudade…

Que importa a minha ansiedade
Desta constante lembrança!
– Meu ” agora ” é de saudade…
– Meu ” depois” é de esperança!…

Voa a pipa em céu deserto…
Lembro o meu tempo á distância…
E esse céu era tão perto
Da rua de minha infância…

Minhas noites tem mais brilho,
Não importa meus fracassos…
– Quando acalanto meu filho
Eu sinto a vida em meus braços.

– Sorri a frágil criança
E o seu olhar reluzente,
E a própria luz da esperança
Num pedacinho de gente

Pobre espantalho!… Nem viste
Que a mais triste solidão,
É ver um pássaro triste
Nas palhas de tua mão!..

Não guardo mágoas querida
Sem revolta caminhando
Faço versos pela vida
Porque estou sempre sonhando!

Tu dizes que não me queres,
Eu venço os dias tristonhos
Porque sei que entre as mulheres
– Sou senhora dos teus sonhos’.

No momento da partida,
Disfarço, sei que é preciso…
Falsa alegria da vida,
Que vem por traz de um sorriso !…

Chega a tarde e há nostalgia
Nesta angústia desmedida…
– Que importa o nascer do dia ?
Tudo é tarde em minha vida…

É tanta dor que me invade
Com esta sua demora,
Que ao chegar, minha saudade
Há muito já foi embora.

Partiste… E em meio à lembrança
A saudade continua
Pondo luzes de esperança
Nos postes de minha rua !

Nem precisas mais voltar…
Em meu refúgio tristonho,
Envelheci de esperar…
E mais velho está meu sonho!…

Vendo a espera angustiante,
O meu relógio, sem graça,
Vai mostrando o teu semblante
Em cada instante que passa !…

Mesmo no dia tristonho
Minha esperança mantenho,
Porque nas horas que sonho
Bendigo as horas que tenho.

Foi longa a espera sofrida
Ficaste pouco, eu lamento,
Mas valeu por toda vida
Ser feliz por um momento

Fui pobre quando criança,
Mas nos meus dias risonhos,
Eu me vesti de esperança
Com retalhinhos de sonhos

Tendo a esperança por perto,
Procuro, desde menino,
Caminhar em passo certo,
Mas tropeço em meu destino !

Não me importo se demoras,
Quando a tristeza me invade;
Para que contar as horas
Se já não sinto saudade ?…

Os meus sonhos já morreram
Na vida longa e cansada,
E dentro de mim nasceram
Amanhãs cheios de nada…

Bendita mão calejada
Que trabalha a plantação
E sem colher quase nada
Planta esperanças no chão.

Sou velho, que, em minha andança,
Tenho sonhos de menino…
– E enquanto houver esperança,
Abençôo o meu destino

Se falta um sonho perdido,
No dia a dia tristonho,
Eu não me dou por vencido
E te encontro em outro sonho…

Vais ficar… Por mais que eu tente
O teu desprezo me assalta…
Quanto mais estás presente,
Mais eu sinto a tua falta !

Essa espera me angustia…
E sem ter com o que sonhar,
Vou morrendo a cada dia ! …
Vivendo só de esperar !…

Vais voltar !… Quem sabe o dia ?
– Entre promessa e saudade,
Vou vivendo de agonia
E morrendo de ansiedade.

Pior é a dor que me assalta
Neste momento de adeus
Pois além de tua falta,
Eu sinto a falta de Deus !

Num devaneio tristonho,
Depois de tantos fracassos,
Eu abraço qualquer sonho
Para alcançar os teus braços !…

Neste amor desencontrado,
Busquei, em vão ser feliz…
– Eu quis ficar ao teu lado,
Mas o destino não quis…

Fonte:
UBT Juiz de Fora

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Waldir Neves(Livro de Trovas)

Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

A cortina da janela…
A cama… Tudo tal qual…
— Só que o cenário, sem ela,
nunca mais vai ser igual…

A glória dos homens brilha
com fulgor de eternidade,
toda vez que uma Bastilha
tomba aos pés da Liberdade!

Ah!, meu peito… Esta saudade…
Quero que a expulses, que grites…
Tu lhe deste intimidade,
e ela passou dos limites!

Amanhece… A névoa fina
vai cobrindo a serração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

A saudade, em horas mortas,
sem ver que o tempo passou,
teima em abrir velhas portas
que há muito a vida fechou…

Cai a noite… Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo perfume
um lamento sem tamanho…

Circo novo na cidade!
– No poleiro, a dar risada,
olhem lá minha saudade
no meio da garotada!

Deste-me um beijo – um somente!
E queres que eu me console …
– O desejo é sede ardente,
que não se mata de um gole!…

Deus intangível, etéreo,
mas sempre amor e indulgência,
guarda no próprio mistério
sua infinita evidência.

Deus que é paz… amor profundo,
em sua excelsa grandeza,
se é mistério para o mundo,
para mim é uma certeza!

É uma lágrima sentida
que toda mulher enxuga:
a que lhe rola escondida
por sobre a primeira ruga!

Faz teu ciúme um barulho
que me soa encantador.
– Ele acorda o meu orgulho
de dono do teu amor!…

Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….

Homem sem rasgos nem brilho,
a que a luz não atrai,
vou me orgulhar se meu filho
tiver orgulho do pai.

Irmãos no meu insucesso
o peito implora, a alma pede…
Todos querem teu regresso…
Só meu orgulho não cede!

Mais vibrantes, mais risonhos
a palpitar de inquietude,
diferem dos outros sonhos
os sonhos da juventude!

Meus braços estão vazios,
meus desejos transbordando,
meus pensamentos vadios
no quarto te procurando.

Muito moço inconseqüente,
despreparado e revel,
ganha têmpera de gente
na bigorna do quartel.

Neste abandono sofrido,
sou mais um, que, por vaidade,
deixou que o orgulho, ferido,
matasse a felicidade…

No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
– É uma estrela embriagada
que volta da boemia!

Nos abismos do mistério,
onde a razão perde a voz,
talvez o desvão mais sério
se oculte dentro de nós…

No teu sucesso, milhares
Vêm implorar-te favores.
Uns poucos, se fracassares,
partilham das tuas dores

O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…

O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…

Opondo orgulho e egoísmo
aos meus acenos risonhos,
cavaste o profundo abismo
onde enterrei os meus sonhos.

O vento leva a amizade,
leva o amor, o riso e os ais,
só não carrega a saudade,
– acha pesada demais!

Para a “sede de saber”
há no mundo água abundante.
Para a “sede do poder”
água nenhuma é bastante…

Perante a Divina Luz
a Ciência se ajoelha,
pois, sendo sábia, deduz
quem lhe acendeu a centelha…

Perguntou-me, à despedida:
– Quem sabe é melhor assim?…
E uma lágrima incontida
deu-lhe a resposta por mim!…

Posso jurar de mãos postas,
Pesando o que já passei,
Que as mais difíceis respostas
Foi em silêncio que eu dei.

Quando a vida, qual verdugo,
me trespassa de agonias,
minhas lágrimas enxugo
num lenço de Ave-Marias…

Quando Deus cobrar meu prazo,
hei de sempre aqui voltar,
ou numa sombra de ocaso,
ou num raio de luar !

Que momento abençoado
e que gesto redentor,
quando o orgulho, derrotado,
cai, humilde, aos pés do amor !…

Quem um filho vê feliz,
seguir por si, resoluto,
vive a glória da raiz
orgulhosa pelo fruto.

Que estranho mistério existe
no lamento da viola:
– queixume que me faz triste;
– tristeza que me consola!…

Quisera que Deus me desse,
acima de qualquer bem,
um orgulho que pusesse
bem abaixo o teu desdém.

Saudoso dos braços dela,
voltei, contrito e humilhado.
– Quando a saudade martela,
qualquer orgulho é quebrado!…

Saudade é gota caída,
é pranto que ninguém vê:
-É uma lágrima sentida
que leva sempre a você. …

Saudade é uma diligência
que nos leva, docemente,
com repetida freqüência,
ao velho oeste da gente!

Saudade!…Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!

Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!

Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…

Sonha sim, pobre, com festa!
Que a fantasia, afinal,
é tudo qu ainda te resta
neste mundo desigual!

Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!

Velho cultor de utopias
e de ambições sobranceiras,
sonho ver, ainda em meus dias,
um mundo igual, sem fronteiras!

Vista seda ou popeline,
seja Amélia ou seja Inês,
toda mulher se define
no dia em que diz: -“Talvez!…”

Zerando ofensas e afrontas,
o beijo é o mago auditor
que faz o ajuste de contas
depois das brigas de amor!

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Arquivado em livro de trovas, Rio de Janeiro

Osvaldo Reis (Livro de Trovas)

À pergunta “o que é um ovo?”,
respondeu a patricinha:
– Ora, ovo… diz o povo
que é caroço de galinha!…

A sereia canta e encanta;
isso eu não faço, mas deixe…
Embora sem graça tanta,
eu também vendo o meu peixe.

Candidato, atrás de voto,
em véspera de eleição,
faz-se contrito de-voto,
de missa e de procissão…

– Cê sabe de argo, seu moço,
pra curá quem cai do gaio?
– Sei de um remédio colosso:
passa pó-pa-tapá-taio.

Companheiro, estenda a mão,
que nem um bom cavalheiro,
ao colega, amigo, irmão…
porém lave a mão primeiro!

E’ dia sim, dia não…
Dia anão?… Ou dia assim?…
Sei lá… mas que confusão!
O jeito é rimar com “fim”…

Esta é uma sábia charada,
bem fácil de se entender:
– Um homem sozinho é nada…
nem chifre consegue ter!

Jequice não paga imposto,
e nem dá pra contestar.
O máximo, ante o mau gosto,
é a gente se lastimar…

Melão do papai, colhido
bem cedinho, antes das sete…
Ah que delícia, servido
na ponta do canivete!

Menininha no quintal,
tadinha, brincando só,
faz algo que lhe faz mal:
cata cocô de cocó…

Mostra o sábio o que destaca
do burro a paca, e sussurra:
– é que o burro sempre empaca,
e a paca jamais emburra…

Na minha dúvida atroz,
pra evitar vexame e enrosco,
não direi “arroz com noz”,
direi sempre “arroz conosco”…

Não por acaso, sou fã
deste casal fascinante:
– o meu galinho é um “galã”;
minha galinha, “chocante”…

Na perna uma pulseirinha
que maus instintos instiga.
– É assim que hoje a canarinha
chama o canário pra “briga”..

Nos extremos desta vida,
um contraste se percebe:
– A Terra chora a partida
daquele que o Céu recebe!

O galo, olhando a pombinha,
pecou por mau pensamento:
– “Que pena que essa baixinha
comeu tão pouco fermento!…”

Passei uma tarde inteira
ouvindo discursos, mas…
é melhor ouvir besteira
do que ser surdo, rapaz!…

Pedido de um sábio idoso
feito aos santos e que-tais:
– Que eu fique feio e rugoso;
metido a moço, jamais…

Se a fé em Deus te acompanha
na andança de déu em déu,
podem barrar-te na Espanha,
nunca na porta do céu!

“Tem quantas partes o crânio?”,
pergunta a mestra à piazada.
Responde unzinho, instantâneo:
“Depende da cacetada!”

Trai a esposa, vive em farra,
“galinha” de festa em festa…
Até que súbito esbarra
num baita “galo” na testa!…

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Arquivado em livro de trovas, Paraná

Carolina Ramos (Livro de Trovas)

O mar da vida parece
que às vezes quer me afogar,
mas, Deus, que nunca me esquece,
atira a bóia no mar!

No amor o tempo se gasta
com medidas desiguais:
se estás longe, ele se arrasta;
se perto, corre demais!

Nosso amor, quadras desfeitas,
de um poema sem achados…
Rimas tristes, imperfeitas,
fechando versos quebrados!…

Que o presente se reparta
com o passado, sem queixa…
– A memória não descarta
o que a saudade não deixa!

Há contraste em nossas vidas
mas, perfeito é o desempenho:
luz e sombra, quando unidas,
dão força e vida ao desenho…

Saltando apenas num pé,
negrinho, maroto e arteiro,
o saci, nada mais é,
que o capeta brasileiro…

É possível que aconteça:
Seja folclore ou novela,
tanta gente sem cabeça…
por que não mula… sem ela?

Teu amor… tal força tinha,
que a saudade me conduz
e esta penumbra só minha
ainda é cheia de luz!

A lua beija a favela…
A estrela no céu reluz…
– Meu bem, apaga essa vela,
o amor não quer tanta luz!…

A sós, na penumbra doce…
Neste agora sem depois,
é como se o mundo fosse
um mundo só de nós dois!…

Lembrando a ternura antiga,
minha saudade se exalta…
– Bendigo a penumbra amiga
que me esconde a tua falta!

Esta penumbra… Este frio,
este agora sem porquê…
Este silêncio vazio
é o meu mundo sem você!

Quando a penumbra descia,
a nossa emoção vibrava,
sonhando o que não dizia,
dizendo o que nem sonhava!…

A penumbra da saudade
torna os meus dias tristonhos
e eu bendigo a claridade
das estrelas dos meus sonhos!

No claro-escuro da vida,
fusão de alegria e dor,
a penumbra é colorida
se for penumbra de amor!

Se a ternura nos aquece
e um grande amor nos ampara,
é quando a penumbra desce
que a vida fica mais clara!

A verdadeira alforria
é aquela que estende as mãos,
unindo em plena harmonia
branco e negro, como irmãos.

Alforria… e a voz dos bravos
se erga, potente, entre as massas,
negando criar escravos
de um ódio cruel entre raças.

Esse que vive algemado
às paixões, odiando a esmo,
mesmo sendo alforriado,
segue escravo de si mesmo!

Preso ao tronco, em ais tristonhos,
geme o negro, sem alarde…
– para quem não tem mais sonhos,
a alforria chegou tarde…

Alforriada, ela passa
gingsando frente ao feitor
e o dengo de sua raça
faz dele escravo do amor!

A pele negra retrata
a dor de uma triste saga,
pois o estigma d chibata
nem mesmo a alforria apaga!

Sorrindo ao branco menino,
que o negro seio mordia,
mãe preta cumpre o destino,
alheia à própria alforria.

Choram as mães… Alforria!
e os negrinhos, assustados,
não sabem que uma alegria
também faz olhos molhados!

Alforria… ela desperta
tendo ao rosto um novo brilho,
não lhe importa estar liberta,
mas, ver liberto o seu filho!

Alforria… que mentira!
pensa o negro velho a rir…
– seu braço tanto servira,
que apenas crê no servir…
–––-

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Arquivado em Jose Ouverney, livro de trovas, São Paulo

Ademar Macedo (Livro de Trovas II)

Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca faz chover prantos
nos olhos dos nordestinos!

Aquela mão estendida
é Nau que ainda trafega
no mar revolto da vida
que a própria vida renega…

Com muita preponderância
mergulhei nesta verdade:
– Quem inventou a distância
não conhecia a SAUDADE…

Como quem faz sua escolha,
disfarçando o desatino,
arranquei folha por folha
do livro do meu destino!

Da Bebida fiquei farto,
bebendo, perdi quem amo;
hoje bebo no meu quarto
as lágrimas que eu derramo.

Envolto numa utopia,
num devaneio sem fim,
vivo hoje uma fantasia
que eu mesmo inventei pra mim.

Essas gotas maculadas,
itinerantes no rosto,
são as lágrimas magoadas
que dão vida ao meu desgosto.

Fiz minha casa de barro
ao lado de uma favela.
Lá fora, eu sei, não tem carro,
mas tem amor dentro dela!…

Lágrimas, fuga das águas
por um riacho inclemente
que numa enchente de mágoas
inunda o rosto da gente!

Mesmo em momentos tristonhos,
carregada de lamentos,
navega cheia de sonhos
a Nau dos meus pensamentos!…

Na transposição mais nobre,
podemos, sem qualquer risco,
matar a sede do pobre
com as águas do São Francisco!…

Nossa cultura se entende
nas lições que eu mesmo tive:
o saber a gente aprende,
a cultura a gente vive.

Num devaneio qualquer,
feito de sonho e de imagem,
no seu corpo de mulher
fiz a mais linda viagem.

Num triste e cruel enredo,
escrito por poderosos,
a Terra treme com medo
das mãos dos gananciosos…

O Deus que fez lago e monte,
que fez céu, mar, noite e dia,
fez do poeta uma fonte
por onde jorra poesia…

O grande desmatamento,
por ganância ou esperteza,
põe rugas de sofrimento
no rosto da natureza…

Passam sempre em meu portão,
trazendo um fardo de dor,
crianças que não têm pão,
pedindo “um pão por favor”!…

Quando a inspiração lhe acena,
o bom Trovador se expande.
Numa Trova tão pequena,
faz um poema tão grande!

Quando de um amor me aparto,
em tristezas me esparramo:
bebo sozinho em meu quarto
as lágrimas que eu derramo!

Quando o amor se consolida,
mesmo que vire rotina;
termina tudo na vida…
Mas esse amor não termina!…

Quem se entrega a solidão
e dela se faz refém,
anda em meio à multidão
mas não enxerga ninguém!

Sem ter escolha, a criança,
pobre inquilina da rua,
na sua desesperança,
dorme sob a luz da lua!

Se o livre-arbítrio é uma escolha,
eu, não vendo outra saída,
alterei folha por folha
do livro da minha vida.

Tal qual um pequeno horto,
sem plantação, sem jardim,
sou Nau e procuro um porto
que ainda espera por mim.

Fonte:
Recanto das Letras.

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Arquivado em livro de trovas, Rio Grande do Norte

Vânia Maria Souza Ennes (Livro de Trovas)


Acalmar gesto impulsivo
num conflito sem razão:
Medicinal… curativo…
é a humildade e o perdão!

A Curitiba hibernosa.
aumenta a temperatura.
Se aquece com verso e prosa
a Capital da Cultura!

Amor, um santo remédio,
que revitaliza e cura.
Livra-nos de qualquer tédio,
também nos leva à loucura.

Afinal, eis a questão:
achei um rico alimento…
Somos gêmeos na emoção:
teu amor é o meu sustento.

Causador da minha insônia,
motivo do meu sorriso,
sem nenhuma cerimônia…
me transporta ao paraíso!

Dissipando a incerteza,
ânsia e conhecimento
o livro, vasta riqueza:
esclarece cem por cento!

Educação e cultura,
seriedade e competência
é alvo certo de ventura
que aguardamos com urgência!

Encantada olho os pinheiros,
formosos! Iguais? Não há.
Dos poetas são os parceiros
Que versam o Paraná!

Eu não mudo de país,
nem de cidade ou estado,
porque aqui sou bem feliz…
exatamente… ao teu lado!!!

Falar de amor é alegria
que conduz à inspiração.
Do poeta é a energia
e fonte de nutrição.

Fazer da vida uma festa
é atitude que fascina.
Vamos rir! A hora é esta!
O bom humor contamina.

Hoje órfã de seu afeto,
carente de seu carinho,
queria você por perto…
a iluminar meu caminho!

Mãos que orientam crianças,
seja na escrita ou leitura,
mostram sinais de alianças
de nobreza e de ventura!

Numa transfusão de afeto,
basta só abrir os braços
e o coração indiscreto,
se entrega sem embaraços!

Posso ver do meu terraço
na escuridão do infinito,
quando a lua abre espaço…
E dá seu show favorito!

Quero um planeta perfeito,
sem guerra, sem corrupção.
Povo justo e satisfeito,
respeitando seu irmão!

Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração…
perco o rumo e o raciocínio!

Romântico e apaixonado,
meu pensamento flutua,.
vai ao céu… volta zoado:
Vive no mundo da lua!

Se falta a luz ou calor,
para isso tem saída…
Só a falta do teu amor
me apaga e congela a vida!

Seu forte olhar, penetrante…
me acelera o coração.
O seu perfil estonteante
ofusca a minha visão.

Sob o feitiço do mar,
o poeta assim diria:
-É propício pra sonhar,
mas, sem você… que ironia!!!

Sou mulher, luto, decido,
sei de cor muitos poemas,
mas com seu beijo atrevido,
esqueço até dos problemas!

Surge atrevida a saudade,
sem alarme e sem aviso,
ataca qualquer idade…
Se acaba com teu sorriso!

Tendo um bom livro na mão,
alço vôo… crio asa.
Mando embora a solidão…
sem sair da minha casa!

Você que me anima a vida
e muda meu céu de cor,
numa ação bem resolvida:
-Confesso-lhe eterno amor!

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Arquivado em livro de trovas, Paraná

Miguel Angel Almada (Delegado Municipal da União Brasileira dos Trovadores, em Campo Largo/PR)

O poeta e trovador Miguel Angel Almada, foi nomeado para o cargo de Delegado Municipal da UBT em Campo Largo – PR, município com aproximadamente 120.000 mil habitantes. Situado a sudeste do estado paranaense, pertence à Região Metropolitana de Curitiba, estando a uma distância de 30 km da capital. Além disso o município se comunica por um bom sistema rodoviário. A cidade, fundada em 1870 é conhecida como a “Capital da Louça” devida à expressiva produção e exportação desse material. É sede de importantes empresas como a Incepa, Porcelana Schmidt, Germer, Lorenzetti cujos produtos são conhecidos internacionalmente. O município sedia, também, uma das fontes de água mineral mais conhecidas do País, a Ouro Fino. A cultura de Campo Largo é um conjunto de manifestações artístico-culturais, religiosas e desportivas relativas à sociedade campo-larguense.

Miguel Angel Almada, nasceu na Argentina. É filho e neto de Oficiais Superiores das Forças Armadas e escreve, fundamentalmente, poemas, prosas, ensaios, trovas e alguns contos, desde os 12 anos de idade.

Cursou o ensino médio, em diferentes Províncias de Argentina, em razão de seu pai ser transferido a cada três ou quatro anos para diferentes Comandos. Cursou o ensino médio no Colégio Nacional de Buenos Aires e graduou-se em Bacharelato em Ciências, com especialização em Historia. Também, na Universidade de Buenos Aires formou-se na Faculdade de Economia. E, na faculdade de Filosofia y Letras proferiu aulas de Historia Argentina. Trabalhou no Banco Intercâmbio Regional (Gerencia Exterior); Banco de Entre Rios (Gerencia Exterior); Cardio Roma Sociedade Anónima. (Vice Presidência); Dia – Veal Sociedade Anónima (Gerencia Financiera).

Há quatro anos, Miguel e sua esposa radicaram-se em Campo Largo e, hoje, ele faz parte do Centro de Letras de Campo Largo, o qual é Sócio Fundador nº 17 e Conselheiro Fiscal, é membro da Academia Paranaense de Poesia, da União Brasileira de Trovadores Seção de Curitiba e faz parte da Oficina Permanente de Literatura. Por sua inspiração e talento Miguel possui o poema “Romance de Homens Valentes” em exposição permanente no Museu Histórico de Campo Largo, em homenagem ao Tte. Mario Camargo e aos Pracinhas que lutaram valentemente na II Guerra Mundial.

Campo Largo tem história ! …
Em caminhos de tropeiros,
caminhos que abriram glória
e foram os verdadeiros !!

Velhos tropeiros passaram
e a vila virou cidade,
aqueles tempos deixaram
gosto bom da Liberdade !!…

O povo fez a Capela,
hoje, Igreja da Piedade !
Também, nasceu junto a ela,
uma bela Cristandade !!

Fonte:
Vânia Ennes

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Arquivado em Biografia, livro de trovas, Notícias Em Tempo, Paraná

Luiz Otávio (Aspectos da Trova Humorística)

Autor: Luiz Otávio (Editado pela U.B.T. – União Brasileira de Trovadores) designada para estudar alguns aspectos da Trova Humorística

1- A MALÍCIA:

Embora o conceito de malícia seja variável de pessoa para pessoa, há certo tipo de malícia que chova, de imediato, a quem a ouve. Assim, o leitor de alguma sensibilidade e cultura saberá distinguir a malícia fina, daquela que traz humorismo grosseiro.

A malícia, em nossa opinião, mesmo tendendo para o plano sexual, quando bem dosada, sutil, é perfeitamente aceitável em Trova.

Vejamos, por exemplo, esta trova de A. Bobela Mota, trovador português, em que há malícia com fundo sexual e que, entretanto, é plenamente aceitável:

“Graças a certo percalço,
Encontraste, enfim, marido…
Como vês, um passo em falso
Nem sempre é um passo perdido…”

Ou esta outra de Antônio Carlos Teixeira Pinto:

“Minha sogra é mesmo o fim,
eu digo e sinto vergonha:
dúvida tanto de mim,
que acredita na cegonha…”

De resto, até mesmo em trovas líricas, pode aparecer o erotismo explorado de maneira sutil e inteligente, emprestando força poética à mensagem, sem chocar a sensibilidade do ouvinte ou leitor.

2- A CRÍTICA, A SÁTIRA, A IRREVERÊNCIA

É inconveniente a trova que, de modo intencional, ofende, genericamente, um grupo, uma instituição, uma classe… Todavia, consideramos que é perfeitamente válida, aquela que toma, individualmente, um elemento pertencente a uma determinada profissão ou grupo, para desse indivíduo, assim isolado, fazer motivo de humor.

Como exemplo. Citaremos a conhecida trova de Antônio Salles, que satiriza, ao mesmo tempo, um militar e um médico, sem que, com esta sátira, ofenda a classe médica ou militar:

“ Eis um médico fardado
-que perfeito matador!-
quem escapar do soldado,
não escapa do doutor…”

Excepcionalmente, pode-se aceitar a trova, mesmo quando faz crítica a uma classe, porém sem premeditação de ofensa, isto é, com intenção, apenas, de fazer graça.

Tomemos, para exemplo, a Trova de Elton Carvalho que, por coincidência, é militar:

“ A mulher do militar
deve pagar mais imposto,
só pelo fato de usar
sempre um marido… com…posto…”

Ora, ainda que seja uma graça extensiva a toda uma classe – a mulher do militar – não há absolutamente , ofensa ou crítica, mas tão somente, o humorismo ingênuo de um trocadilho.

3- EMPREGO DE NOMES PRÓPRIOS

Os nomes próprios vêm sendo usados, sem discriminação, em vários gêneros literários. Na prosa, Machado de nomes adequados, para dar maior ênfase àquilo que escreviam. O sofrimento ou o riso, não raro se estampavam no nome que era dado ao personagem, principalmente o riso, pois Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e outros, escolhiam os temas humorísticos facilitam enormemente a escolha do nome, vamos dizer, engraçado. Na poesia desde os clássicos, quantas vezes os nomes inventados ou verdadeiros passaram a ficar indissoluvelmente ligados aos autores, Quem não se recorda de Marília de Dirceu, de Laura de Petrarca, de Beatriz de Dante? Na música popular, vemos uma infinidade de nomes que se tornaram celebres, através de valsas, polcas, canções, no passado,e, em outros gêneros musicais, no presente. Branca, Gilca, Maria, Neusa, Nanci, Amélia, Dora, Aurora, Marina, e, Bem recentemente, Carolina, Luciana, Ana Maria, Isabela, etc… etc… São alguns dos nomes focalizados pela música popular. Nos anúncios de rádio e da televisão, anúncios muitas vezes estudados por equipes compostas de elementos formados em faculdades de comunicação, quantas vezes, o nome próprio aparece para facilitar a memorização daquilo que se pretende anunciar. Então aí os Apolônios, Jeremias, os Sugismundos…

Na própria trova lírica ou filosófica, quantas premiadas em concursos, ou consagradas pelo gosto popular, trazem nomes próprios!

Exemplo:
“ Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia:
Dentro da casa a saudade,
E na saudade, -Maria!”

Esta trova, de Anis Murad, é uma das muitas que poderíamos citar e que foi classificada em 1º lugar, nos II Jogos Florais de Nova Friburgo. E quantas mais, não só em Nova Friburgo. Como em outras cidades, têm aparecido, principalmente, com o nome de Maria, quase um símbolo dos trovadores…

Há, além dos argumentos acima, outros que poderemos lembrar, em favor do aproveitamento de nomes próprios na trova humorística, tais como:

a- O nome próprio, em alguns casos, dá mais autenticidade ao assunto;

b- Há nomes próprios que, por si sós, pelo grotesco que apresentam, trazem mais humor à trova;

c- Em alguns casos, a trova gira, essencialmente, em torno do nome próprio usado;

d- Se encontramos, muitas vezes, trovas de rimas forçadas – humorísticas ou não – por que não usar o nome próprio que, além de facilitar a rima, pode trazer mais graça e fluência à trova?

Portanto, em nosso entender, é perfeitamente válido o uso de nomes próprios nas trovas, principalmente, humorísticas.

4- USO DE GÍRIA

No capítulo da gíria, cabem as mesmas considerações que fizemos com relação aos nomes impróprios. Tanto na poesia humorística, como na prosa e, principalmente, no teatro, a gíria está presente.

Não esqueçamos, também, que a gíria de hoje, amanhã poderá estar incorporada ao vernáculo. Assim tem acontecido em várias épocas, no processo evolutivo das línguas.

Chega-nos, agora, através do rádio, a notícia que o DNER do Ceará, numa experiência inusitada, está, em alguns lugares, substituindo as clássicas advertências de “cuidado”, “devagar”, por outras, bem modernas, onde a gíria é o principal ingridientes: ”manera aí, bicho!”, ou “vá em marcha de paquera”, etc…

Portanto, achamos perfeitamente natural o uso da gíria em trova humorística, por sua característica eminentemente popular.

5- PORNOGRAFIA

Muito embora o teatro moderno venha usando, ostensiva e abusivamente, a pornografia, quer parecer-nos que quase tudo isto é feito com fins comerciais ou sensacionalistas. Devemos, ainda, considerar que ao Teatro, comparecem aqueles que, com conhecimento de causa, estão dispostos a ver de perto tudo aquilo. Devemos frisar ainda que, muitas vezes, a censura faz imposições, limita a entrada a pessoas de determinadas idades. Isto acontece, também, em livros do mesmo estilo, em que se exige sejam os mesmos colocados em envelopes lacrados, com etiquetas proibitivas de venda a menores, Tal porém, não acontece com a trova pornográfica que, se declamada em público ou colocada em livro, poderá surpreender, desagradavelmente, o ouvinte ou o leitor.

Embora nos itens anteriores, tenhamos demonstrado nossa compreensão quanto ao uso da malícia, irreverência, do emprego de nomes próprios, da gíria, achamos que a trova nada lucraria com o uso de palavras obscenas, ainda que veladas.

6- ANEDOTAS

Embora seja aceitável a publicação em livros, jornais, revistas, etc, as trovas humorísticas calcadas em anedotas, julgamos que, em concursos e jogos florais, há outros aspectos importantes a considerar, além da graça, como seja a criatividade, a originalidade, enfim. Nessa ordem de idéias, é desaconselhável a classificação de trovas com aproveitamento de anedotas.

Acontece porém, que as comissões julgadoras poderão não conhecer as anedotas aproveitadas pelas trovas, o que torna interessante, portanto, o apelo que, ultimamente, os organizadores de concursos vêm fazendo, durante a classificação preliminar, no sentido de que, concorrentes ou leitores cooperem com as comissões, indicando as trovas que apresentem idéias já conhecidas (como anedotas), desde que, devidamente comprovadas, a fim de serem eliminadas do concurso.

7- USO DO “PRA”

Sabemos que a União Brasileira de Trovadores pretende criar Comissão para, entre outros assuntos, examinar o discutido emprego, em trovas, da palavra “pra”. Entrementes, julgamos essa “síncope” perfeitamente aceitável, principalmente nas trovas humorísticas, por ser expressão essencialmente popular.

Comissão de estudos: Luiz Otávio, Carlos Guimarães, Elton Carvalho, Joubert de Araújo Silva, Maria Nascimento Santos, P. de Petrus, Colbert Rangel Coelho. O relatório foi aprovado pelo Conselho Nacional da UBT- União Brasileira de Trovadores

Fonte:
Nilton Manoel

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Arquivado em livro de trovas

Nei Garcez (Livro de Trovas)

Abarcar a transcendência
entre Deus e a Criação,
mesmo com toda ciência,
foge à nossa compreensão.

Amizades que são boas,
e atitudes tão singelas,
é gostarmos das pessoas
bem assim como são elas.

A nossa fisionomia
revelada no facial,
de tristeza ou de alegria,
é um idioma universal!

As pessoas nunca morrem,
simplesmente elas encantam,
vivem sempre, e nos socorrem
com as obras que aqui plantam.

Borboletas não persigo,
eu cuido do meu jardim.
Só assim delas consigo
que venham atrás de mim.

Cantagalo se enaltece
pelo filho que nos deu,
cuja história até enriquece
“Os Sertões” que ele escreveu.
(TEMA: EUCLIDES DA CUNHA)

Com a trova se diz tudo
em fração de oito segundos,
e seus temas, sobretudo,
são precisos e fecundos.

Desta vida eu devo o brilho
por você ter me ensinado.
Hoje, pai, com o meu filho,
sou você no meu passado.

Escrever é um simples conto,
que não é grande epopéia:
maiúscula, mais o ponto,
e no meio, só a idéia!

Luiz Otavio, no infinito,
em sua estrada já traçada,
nos ensina quão bonito
é uma trova declamada!

Na escalada de um edifício,
num mergulho mais profundo,
seu trabalho é um sacrifício
pra salvar vidas no mundo.
(DIA DO BOMBEIRO)

Neste mundo, eu vivo aqui,
é meu pai, meu grande amigo;
das lições que eu aprendi
tua imagem vem comigo!

No calor do ensinamento
você sempre esteve certo.
Hoje, o arrependimento…
Você não está por perto!

Nossas feridas externas
curam-se rapidamente,
mas as da alma, internas,
demoram dentro da gente.

O arquiteto e o engenheiro
vivem guerra contumaz,
pois quem cria é o primeiro,
e o segundo é quem faz.

O direito nos ensina
o equilíbrio que ele deu:
o teu direito termina
bem onde começa o meu.

O melhor amigo, em tudo,
de atitude sempre pronta,
nos quer bem, e não é mudo:
nossos erros nos aponta.

O namoro é uma viagem
que nos leva ao paraíso;
mas quem for comprar passagem…
na bagagem leve juízo.

O trabalho que é um ofício
de uma nobre profissão
já revela o benefício
no progresso da nação.

Parabéns, ó trovador,
deste solo e céu anil,
que com trova e muito amor
abençoa este Brasil!

Quando eu vejo, nesta vida,
tanta briga, com vingança,
a saudade me convida
pra voltar a ser criança.

Quem recorda os trovadores
com suas trovas de então,
oferece aos seus autores
a prova de gratidão!

Quem trabalha com grandeza
gera emprego no país;
põe comida em cada mesa…
Faz um povo mais feliz!

Sempre ao ver que a bola rola
guie o carro em segurança,
porque sempre atrás da bola
vem correndo uma criança.

Todo dia eu digo adeus
para a minha mocidade.
São felizes dias meus
que eu conservo na saudade.

Uma dor que me angustia,
e que eu guardo na lembrança,
é saber que um certo dia
eu deixei de ser criança.

Um país bem planejado,
com trabalho construído,
tem seu povo já educado
e um poder fortalecido.

Vejo sempre uma faceta
no processo que estimulo:
ora sou uma borboleta,
ora volto a ser casulo.

Você sempre foi meu guia
nos abismos desta vida,
e eu jamais o percebia,
ó meu pai… Que linda lida!

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Renata Paccola (Livro de Trovas e Haicais)

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Teve um chilique tão forte
que logo tomou vacina,
e se mandou para o Norte
temendo a gripe sulina…

Deu chilique no garoto
ao saborear seu prato,
e o tempero “Ajinomoto”
bem depressa “agiu no mato”

Solteira por convicção
só quero um “galho” inconstante:
quem gosta de amarração
é corda, fita e barbante!

Para o furacão filmar,
a TV saiu-se bem:
a matéria foi ao ar
e o repórter foi também!

Ao chegar em Portugal depois
da grande conquista, vendo a
sogra em seu quintal, diz
Cabral: – Encrenca à vista!

Não há bicho que não deixe
suas marcas na Julinha:
no pé, tem olho de peixe;
no olho, tem pé de galinha!

Esqueço o redemoinho
de frases soltas ao vento
quando, em silêncio, sozinho,
falo com meu pensamento…

No meio da escuridão,
um facho de luz me invade,
quando um velho lampião
acende minha saudade…

Quanta beleza irradia
um sorriso verdadeiro,
onde, com luz e magia,
os olhos riem primeiro!

HAICAIS

O clarão da lua
por uma fresta ilumina
a casa sem luz.

Bucha pendurada
no espelho retrovisor —
carro de fazenda

Entre os pratos frios
do restaurante por quilo,
couve-flor reluz.

Cozinheiro espalha
pedaços de couve-flor
sobre o yakissoba
—–

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Ademar Macedo (Livro de Trovas)

A mais triste Solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração…
olhar… e não ver ninguém!

Almoço e janto poesia.
E neste meu universo,
mastigo um pão todo dia
amanteigado de verso.

Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca fez chover prantos
nos olhos dos nordestinos!

A vida escreve-me enredos
com finais que eu abomino.
Meus sonhos viram brinquedos
nas mãos cruéis do destino…

Com os temas mais dispersos,
eu mesmo me fiz enchente
numa enxurrada de versos
jorrando da minha mente…

Da Bebida fiquei farto,
bebendo perdi quem amo;
hoje bebo no meu quarto
as lágrimas que eu derramo.

Da fonte que jorra o amor,
Deus, na sua imensidão,
faz jorrar com todo ardor
as carícias do perdão.

Debruçado sobre a mata,
o Luar, tal qual pintor,
pinta as folhas cor de prata
e pinta o chão de outra cor.

Depois que chove na mata,
a lua, de luz acesa;
pinta as folhas cor de prata
com tintas da Natureza.

Descobri no envelhecer,
em meus momentos tristonhos,
que eu não tive, em meu viver,
nada mais além de sonhos!…

Descobri no envelhecer
que a musa que me enaltece
não deixa o verso morrer,
pois musa nunca envelhece!

Do fogo no matagal,
na fumaça que irradia,
vejo um câncer terminal
no pulmão da ecologia!…

Entre os atos de bonança
e meus pecados mortais,
quando eu botar na balança,
Deus sabe quais pesam mais!…

Envolto numa utopia,
num devaneio sem fim,
vivo hoje uma fantasia
que eu mesmo inventei pra mim.

Fiz minha casa de barro
ao lado de uma favela.
Lá fora, eu sei, não tem carro,
mas tem amor dentro dela!…

Mesmo em momentos tristonhos,
carregada de lamentos,
navega cheia de sonhos
a Nau dos meus pensamentos!…

Mesmo na dor, pus de pé,
com esperanças sem fim,
a Fortaleza de fé
que existe dentro de mim.

Muda-se a cor preferida;
troca-se a corda do sino;
muda-se tudo na vida;
mas não se muda o destino…

Não se estresse nem me agrida,
ouça a voz do coração.
Deixe que o Tempo decida
quem de nós dois tem razão!…

Na transposição mais nobre,
podemos, sem qualquer risco,
matar a sede do pobre
com as águas do São Francisco!…

Nossa cultura se entende
nas lições que eu mesmo tive:
o saber a gente aprende,
a cultura a gente vive.

Numa caminhada inglória,
com minha alma enternecida;
pude ver a minha história
no retrovisor da vida.

Numa combatividade,
cheia de brilho e de glória,
saber perder, na verdade,
é também uma Vitória!

Num afago em seus cabelos,
num carinho em sua face,
vi que, através de desvelos,
um grande amor também nasce…

Num devaneio qualquer,
feito de sonho e de imagem,
no seu corpo de mulher
fiz a mais linda viagem.

Num triste e cruel enredo
escrito por poderosos,
a Terra treme com medo
das mãos dos gananciosos…

O Deus que fez lago e monte,
que fez céu, mar, noite e dia,
fez do poeta uma fonte
por onde jorra poesia…

O grande desmatamento,
por ganância ou esperteza,
põe rugas de sofrimento
no rosto da natureza…

O meu primo se reveza
entre beber e rezar.
Ás sete ele está na reza
e as oito e meia no bar!!!

O Pantanal se engalana,
mas eu mesmo desconfio;
que até a própria chalana
sente ciúmes do rio.

Para alcançar a pujança,
basta-me ter, sem fadigas,
a força e a perseverança
do Trabalho das formigas!…

Passam sempre em meu portão,
trazendo um fardo de dor,
crianças que não têm pão,
pedindo “um pão por favor”!…

Pela insensatez da idade
e pelo que o amor requer,
choro, às vezes, de saudade
fingindo outra dor qualquer!

Perdido, pois, nas rotinas,
nos labirintos da dor,
encontrei entre as ruínas
pedaços do nosso amor…

Por minha fé ser tamanha,
pude remover enfim,
pedaços de uma montanha
que tinha dentro de mim…

Por ter a lingua de trapo,
disse, ao ser mandado embora:
– É moleza engolir sapo…
o duro é botar pra fora!

Quando a inspiração lhe acena,
o bom Trovador se expande.
Numa Trova tão pequena,
faz um poema tão grande!

Quando de um amor me aparto,
em tristezas me esparramo:
bebo sozinho em meu quarto
as lágrimas que eu derramo!

Quem se entrega a solidão
e dela se faz refém,
anda em meio à multidão
mas não enxerga ninguém!

Queria ao fim da jornada,
na manhã do meu adeus,
ver o brilho da alvorada
na luz dos olhos de Deus!

Que venham chuva e calor,
que os ventos desçam ou subam,
pois ninhos feitos de amor
tempestades não derrubam…

Se a vida é apenas passagem
quero que me façam jus;
na minha última viagem
deixem que eu veja Jesus!

Sem galinha cabidela,
sem ter arroz nem feijão,
hoje eu botei na panela
meu sapo de estimação!…

Sou matuto em alto astral
e um velho muito ranzinza.
Só festejo o Carnaval
na quarta-feira de cinza!

Tem cão que mora no morro,
outro morando em mansão;
porque nem todo cachorro
leva uma vida de cão.

Traz alentos, novas vidas,
muda a cor da plantação;
a chuva sara as feridas
que a seca faz no sertão.

Vejo sentadas no chão,
trajadas de desamor,
crianças comendo pão
amanteigado de dor!

Versos já fiz – não sei quantos –
relembrando a mocidade.
Hoje servem de acalantos
para ninar a saudade.

Vi à luz de lamparina,
em inspirações imerso
que a musa se faz menina
para brincar no meu verso.

Visita pra meter medo,
que nem vassoura adianta,
É aquela que chega cedo
e só sai depois que janta!

Vou vender meus poemetos
na feira, seja onde for,
e comprar alguns espetos
para espetar “julgador”!

––––––––––––––––––––––

Fontes:
Colaboração do Autor

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Therezinha Dieguez Brisolla (Livro de Trovas)

Nosso encontro tem magia
e a nenhum outro se iguala.
A lua, indiscreta, espia…
Que importa? … A lua não fala !

Suas vindas são surpresas!…
Faz juras… se contradiz!…
E é esse amor, sem certezas,
que há muito me faz feliz!

É noite!… A cama arrumada…
O rádio de pilha mudo…
Sua foto… e, nesse “nada”,
a sua presença… em tudo!

Um cumprimento lacônico
e as nossas mãos se entrelaçam.
No amor proibido… platônico…
somente as almas se abraçam.

Ah! coração, tem cautela
e deixa de brincadeira!
Tens sonhos de Cinderela
e eu sou Gata Borralheira!

Deus cria a lua e as estrelas
e uma pergunta o inquieta:
– Quem poderá descrevê-las ?
Então, Deus … cria o poeta!

Que o Brasil sirva de exemplo
e possa ao mundo, mostrar
que a Amazônia é como um templo…
Não se pode profanar!

Sente, a justiça, o desgosto
do injustiçado a chorar
e tira a venda do rosto,
para o pranto enxugar.

Chega tarde, o companheiro
e ao ver tanta grana, exclama:
– Como ganhaste o dinheiro ?!
Passas o dia na cama!!!

Foi o bebum “muito esperto”,
como eremita… e está crente
que, no calor do deserto,
o oásis é de água… ardente!!!
–––––––––––-

Therezinha Dieguez Brisolla natural de São Carlos, SP, nascida em 12 de julho de 1932.
Professora aposentada.
Ingressou no universo trovadoresco em 1984, tendo como mestre o Magnífico Trovador Helvécio Barros.
Membro Fundadora da Academia Bauruense de Letras, Membro correspondente da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto, SP.
Magnífica Trovadora em Humorismo em Nova Friburgo (única mulher).
Notável Trovadora em Pouso Alegre e Prêmio “Lilinha Fernandes”, em Porto Alegre.
Poetisa, contista, cronista e trovadora, com trabalhos em Antologias e em livros com resultados de concursos, inclusive em Portugal.
Possui mais de 600 prêmios. Pertence à UBT – SP, sendo Vice-Presidente de Cultura

Fonte:
União Brasileira dos Trovadores

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