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Varal de Mini-Contos II

Paulo Gonçalves
ENFIM, PEDRO

Armando e Eleanor já estavam casados há muito tempo quando conceberam o primeiro filho. Esperavam ansiosos por um menino. Entediados com o casamento, animaram-se com a idéia de alguém mais pra dividir a relação. Queriam fazer novos planos, refazer os sonhos. Pedro nasceu em dezembro, próximo ao Natal.

Eleanor não suportava mais as manias do marido e acabou dedicando-se exclusivamente à maternidade. Embora se queixasse do acúmulo de tarefas domésticas e de cuidar sozinha do pequeno Pedro, dava graças a Deus por não ter que dividi-lo com ninguém. Sua dedicação garantiu que Pedro se tornasse um garoto saudável e vigoroso, um tanto mal-acostumado. Armando não se importava com as críticas da esposa e muito menos com o fato de não dormirem juntos como antes. À noite, quando chegava em casa, ocupava-se da educação do filho, ditando as regras que deveriam ser seguidas.

Pedro permaneceu em companhia dos pais até onde deu e depois foi morar sozinho. Alugou um apartamento próximo à Faculdade. Cursou psicologia até o terceiro ano, mas desistiu do sonho de sua mãe por motivos óbvios: tinha seus próprios sonhos. Acabou se formando em engenharia da computação, algo mais próximos de seus ideais. Queria conquistar o mundo.

Carlos Herculano Lopes
O PACTO

Pedro e Maria, recém-casados, fizeram um pacto: morreriam juntos. Quarenta anos mais tarde, já velhos e donos das mesmas desilusões, um assentou-se frente ao outro relembrando vivências comuns: filhos e netos, as viagens tão longas, outras que não fizeram, a juventude perdida. E miraram-se longamente enquanto o sol, mais belo naquela tarde, declinava sem pressa. Em seguida trocaram beijos, juras antigas, encheram os copos e fecharam os olhos, como haviam combinado… Muito abatida no outro dia, com um xale negro nas costas e rodeada pelos filhos, todos inconformados com o suicídio do pai, dona Maria, com sulcos profundos nas faces, recebia os cumprimentos.

Publicado em Coração aos Pulos, 2001

Pedro Silva
SERIA EU?

Um dia, pensei encontrar-me. Olhei no espelho. Seria eu? Seria mesmo eu? Olhei para baixo, mirando as mãos e os pés. Parecia eu, mas não tinha certeza. As fotos que poisavam nos móveis da minha casa eram similares à imagem obtida no espelho. Tinha na altura cinco anos. Hoje, meio século depois, continuo sem saber: seria mesmo eu?

Maria Luiza Forneck
E-MAIL

Mari,

A casa está de luto. Vieram buscar buscar a Liss. Choro, diarréia, fungo para tratar, uma ferida na pata que a veterinária não viu e que ela mordia cada vez mais. A Leila me orientou e eu dei leite com mel, que solta barriga. Talvez, mamando o leite da mãe, ela suportasse tal gororoba, mas aqui com o vermífugo que tomou, teve cólica e houve choradeira brava.

É um belo espécime, puro descendente de border collie, enfrentou-me. Eu batia com um papel do chão, mas passado susto, ela retomava os uivos, é claro, fazendo aquela “pose” típica dos border: sentava como um leão, com as patas arriadas para frente, mostrando os dentes, atitude destinada a intimidar ovelhas e gansos, que obedecem, igual a esta que vos escreve. Devido à diarréia, não me arrisquei a leva-la para meu quarto, o que era certo que ela estava pedindo. Inteligente, logo encontrou onde afiar as garras. Namorava a própria imagem refletida na fórmica da cozinha, passando a patinha… uma paixão de nenê!

Já soube do encontro emocionante com a mãe preta: mamou muito, grande festa no pedaço. Imagino o que não contou para a turma sobre a noite que passou aqui… Descobri, lenta que sou, pouco antes de ela partir, o porque de só ter aceitado um pano de lã preto para se recostar, ignorando um colchão colorido e um pano na cor gelo. A Lígia tem doze desses animais e me disse que a guardará até que ela complete noventa dias, caso eu mude de idéia.

Quanto à arte terapia, conversaremos na quarta-feira.

Beijos

Mariana

Mário-Henrique Leiria
CASAMENTO

“Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe.”
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto estrangulei-a e fui-me embora.

In “Contos do Gin-Tonic” (1974)

Regina Starosta
PONTO DE REFERÊNCIA

1

Dirijindo, por ruas desconhecidas, me perdi.
Seguindo o ônibus, acabei na margem de um rio.

2

Todo o dia dobrava a esquina da casa azul.
Pintaram a casa de amarelo.
Não achei mais a rua.

Vera Ione Molina
BUSCA

O coração atropelado acordou a mulher, os soluços convulsivos a levaram para a cozinha. Preparou um chá de erva-doce para digerir as tristezas e, nessa digestão, se fortalecer, acrescentou gengibre para ganhar coragem; coisas aprendidas na leitura do romance indiano A Senhora das Especiarias.

O pranto não cedeu e ela correu para a Internet para buscar Jesus. O modem estava com problema de configuração, não poderia receber o Messias.

Ela digitou salvação e se abriram possibilidades fulgurantes, construídas com substantivos abstratos.

Fonte:
http://www.artistasgauchos.com.br/veredas/?x=1&lk=1

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Varal de Minicontos I

Alice Daniel
FUGA

Olhou pela janela. A lua estava lá.
Olhou para a sua cama. Ele estava lá.
E diziam que a lua pertencia aos amantes…
Por muitos anos continuaria assim: olhando ora para um ora para o outro.
Um dia, pulou a janela…

Flávio Ilha
MUNDO ANIMAL

Os bois

Urros agoniados ecoavam pelo galpão envolto em gotículas carmim. Pernas abertas, marreta entre os dedos, o negro tinha as bombachas encharcadas de sangue. Um depois do outro, os bois se metiam pelo brete; aos resvalões, lutavam pelo pasto úmido da coxilha. Um depois do outro, eram golpeados pela mão firme do negro, olhos congestionados, as mãos roxas, o tórax nu encarnado. Cumpria mecanicamente sua liturgia de horror. No catre, dormia enrodilhado à cadela Polaca.

Marrecos

Vento: lá embaixo a costa ocupada. Via apenas minúsculas erupções de fumaça, como acnes cinzentas. No rosto de Stella havia dessas hecatombes vivas, que se mexiam, nasciam e morriam como qualquer um de nós. Lembrou dela porque saltaria em instantes e provavelmente nunca. Interrompeu o devaneio com uma interjeição imperativa do chefe. Quase sem ar, viu um a um os garotos lançaram-se ao vácuo. Marrecos. Marrecos negros voando em cunha, para a lagoa. Um verão no mar. A estrada. O pai, guiando. Os marrecos. O vento. O horror do mar.

Leonardo Brasiliense
O MORALISTA

– Tem quantos anos?
– Doze.
– Bonitinha!
– Tá.
– Mas se fosse minha filha, eu endireitava a tapa.
– Vai dar sermão, é?
– Não, mas se fosse filha minha…
– Então acaba duma vez, tio, que se eu não voltar logo pra casa, e com dinheiro, aí sim, o pai me cobre de pancada.

Luis Dill
RASTRO

A gota é perfeita, tem até uma coroa como ornamento, o vermelho vivo, bem no centro da lajota branca. O piso do Supermercado imaculado até então, sete e meia da manhã. Um palmo adiante, a repetição da mesma gota, só que, agora, acompanhada por outra, levemente repuxada. A seguir, uma porção delas, inclinadas e mais próximas uma das outras, em linha quase reta. Alguns metros depois uma poça significativa e um esfregão tentando dissolvê-la. Tu não tem jeito mesmo, né?, a faxineira reclamando. Não enche o saco, tia, rosna o rapaz do açougue, a pesada perna do boi às costas.

Marcelo Spalding
ÚLTIMO CAPÍTULO

Helena, Nazaré, Maria e Jade saem do trabalho com pressa, carregam pesadas ancas por calçadas quentes, atravessam ruas e gentes, sobem morros. Ligam a televisão, oito e meia. Último capítulo. O sofá é sujo, os gritos são altos, as paredes, poucas e a vila, grande. O trabalho é trabalho, o mundo é assim. Crucifixos tortos, mandamentos decorados. Mas é o último capítulo e calam as crianças num tapa. Torcem. Gritam. Choram. Enfim, sorriem, emocionadas, corações leves. O final foi feliz. O resto, é ficção.

Fausto Wolff
687ª NOITE

Como eu já disse, morreram vinte e dois prisioneiros de guerra americanos em Hiroshima. O vigésimo terceiro, que sobreviveu, foi linchado pela multidão enfurecida. Os japoneses caminhavam como zumbis procurando seus entes queridos entre as ruínas e nuvens de fumaça cancerígena. Surpreendentemente, os sobreviventes sentiram pouca dor. Um escritor disse que foi como se o grande terror do desconhecido houvesse cancelado o terror do sofrimento. Nus ou com roupas em frangalhos, não sabiam para onde se dirigir, pois todas as placas haviam desaparecido. Era impossível dizer quem era homem e quem era mulher. Os que saíram de casa vestindo roupas brancas apresentavam menos ferimentos do que os demais, uma vez que as cores escuras tendem a absorver a luz termonuclear. Amigos não se reconheciam, pois muitos haviam perdido seus rostos. Outros tinham gravada nas faces as impressões de suas mãos ou de seus narizes. Algumas pessoas perdiam as mãos ao acenarem pedindo ajuda. Saía fumaça dos ferimentos quando imersos em água. Outros cem mil japoneses morreriam graças aos ferimentos e à radiação. Até hoje crianças nascem cancerosas em Hiroshima e Nagazaki. Os filhos das mulheres grávidas durante o ataque nasceram deformados.

In WOLFF, Fausto. A milésima segunda noite. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

Luiz Rufatto
O VELHO CONTÍNUO

O velho contínuo, amarelo o branco dos olhos, abriu a torneira, encharcou as mãos grossas, ensaboou-as, e, esfregando-as vagarosamente, desatou a falar, não com o conhecido da pia ao lado, não com o motoboy que se equilibrava no mictório, mas para quem, de todos os que se espremiam no banheiro fétido, se dispusesse a ouvi-lo

a patroa ligou há pouco… está um tiroteio danado lá na rua de casa… ela estava falando encolhidinha atrás do sofá que encostou na parede pra não ficar zumbindo bala perdida na cabeça dela… ligou preocupada, coitada… falou pra eu não aparecer lá hoje de terno-e-gravata… alguém pode me confundir… achar que sou delegado… eu pensei cá com meus botões, que besteira! eu tenho lá cara de delegado? mas, coitada, eu entendo! eu lá tenho cara de delegado? mas, coitada, eu entendo… ela está certa… que que eu vou fazer? vou pendurar o paletó na cadeira… enfio a gravata no bolso… largo aí… que mal faz? não vai sumir… amanhã torno a vestir… não custa nada agradar à patroa… ela está velha, coitada… e a gente…

Então o velho contínuo percebeu o desperdício de água, enxaguou as mãos, fechou constrangido a torneira, enxugou-se com a toalha de papel, saiu do banheiro, olhou chãos, o rio morto, os carros indiferentes, os prédios futuristas, a cortina escura do horizonte, a velha, coitada.

In RUFATTO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001

Raduan Nassar
AÍ PELAS TRÊS DA TARDE

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom-senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo ‘ciao’ ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobram a boca com a mãe enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidade e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa com que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

De 1972. In NASSAR, Raduan. Menina a Caminho. São Paulo: Cia das Letras, 1997.

João Gilberto Noll
LÍNGUAS

Sua voz não parece mais legível. Ontem pediu um copo d’água à filha. Ela lhe trouxe a foto de uma mulher meio esquiva. Tirada quando ele trabalhava de garçom na Califórnia. Vieram-lhe fiapos de mexicana. Ainda conseguia se lembrar da noite em que, entre o inglês, o espanhol e o português, as palavras começaram a lhe faltar. A mexicana disse que o mesmo ocorria com um irmão. Que eram tantas as palavras, de tão diferentes fontes e sabores, que concentravam em si tamanha quantidade de matizes e sentidos, que alguns como eles dois já não conseguiam guardá-las. Que estes, ao chegaram numa idade, só sabiam apresentar um arrazoado de sons impenetráveis à volúpia comum do entendimento. “E assim é”, ela suspirou mirando os pés descalços.

In NOLL, João Gilberto. Mínimos, Múltiplos, Comuns. Rio de Janeiro: Francis, 2003.

Laís Chaffe
SAIA JUSTA

O casal passeia com o bebê.
– É a cara do pai – bajula a vizinha.
– A senhora o conhece? – pergunta o homem.

Daniel Rocha
CONTOS BÊBADOS

1

Não conseguiu juntar as palavras, não conseguiu juntar os pedaços de sua vida, o que fez? Tomou mais um gole.

2

Tudo bem que a caneta não parasse na mão bêbada, mas precisavam roubar sua melhor frase?

Ana Mello
FUGA

Ônibus rápido.
Na janela tudo passa – árvores, rio, nuvens.
Não passa a saudade, não volta a cidade.
Nem o amor da Maria.

Fonte:
http://www.artistasgauchos.com.br/veredas/?x=1&lk=1

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Marcelo Spalding (A Revista Veredas e os Mil Minicontos)


Os leitores que me acompanham há tantos anos aqui no Digestivo sabem que não gosto de falar de mim, de meus livros, etc, mas me permitam nesta coluna contar a história da Revista Veredas, um site hoje dedicado ao miniconto que surgiu no longínquo ano de 1998 e dura até hoje, sendo uma referência no gênero.

O surgimento remonta ao tempo em que eu ainda estava na escola, Ensino Médio, e ao lado de um amigo, Rodrigo Link, resolvemos editar uma revista de literatura para publicar os textos de nossos colegas de escola. O primeiro texto inédito, feito a quatro mãos, se chamava “100 coisas para fazer antes que o mundo acabe”, ironizando aquela histeria do fim do mundo na virada 99/2000. Bem, aquelas primeiras edições eram feitas em HTML no Bloco de Notas, depois em Front Page com seus inconfundíveis frames, hoje tão grosseiros.

Daí em diante, terminamos a escola, eu fui fazer Jornalismo, ele seguiu para a Física, mantive a newsletter primeiro semanal, depois mensal (um pouco inspirado no sucesso do Cardoso Online), e quando entrei no mestrado e comecei a estudar o miniconto resolvi mudar a cara da revista, convidando a querida Ana Mello para ser editora.

Certo, e por que lembrar disso agora? Acontece que nesse mês de agosto aconteceram dois fatos marcantes para a Veredas e para nós: primeiro, chegamos a 1000 minicontos publicados, textos dos mais variados autores, das mais variadas cidades, do Brasil e de Portugal. Todos os textos são enviados pelos próprios autores e, na grande maioria, são inéditos. Segundo: a revista Veredas foi parar nas páginas de um livro didático como referência de minicontos. Sim, foi no “Viva Português”, de Elizabeth Campos, Paula Marques Cardoso e Sílvia Letícia de Andrade, da Editora Ática.

Episódios como esse são interessante porque evidenciam como, aos poucos, aquela geração que conheceu fascinada a internet discada e montou os primeiros sites de cada assunto vai se tornando parte da história (são pessoas que navegavam no Netscape e faziam buscas no Altavista, participavam de chats no ZAZ e trocavam mensagem com amigos no ICQ). E como aqueles sites, antes marginalizados num sistema de comunicação de massa, têm se institucionalizado.

Voltemos ao Veredas de hoje e seus mil minicontos. O miniconto, como se sabe, é um gênero que encontrou grande aceitação na internet, onde tudo é muito rápido e as pessoas não têm tempo (ou paciência) para ler textos longos. Muitos perguntam qual o limite de tamanho do miniconto, mas prefiro não falar em limites, e sim pensar na necessidade do texto: se um texto pode ser completo e ainda causar um efeito no leitor com dez linhas, duas linhas, duas palavras, ótimo! Senão, sem problemas, vá adiante e faça um conto, o importante é não forçar, cortar, espremer uma história em determinado número de linhas apenas por questões formais.

Entre os mínis do Veredas há alguns bem curtos, como um dos destacados pelo livro:

NÃO FICAREI SOZINHA, de Eduardo Oliveira Freire

A boneca escondeu-se na mala onde estava guardado o enxoval de casamento da amiga.

CLIMA, de Tamara Rosa

Ela chuva, ele sol.

Este último, aliás, foi produzido por uma aluna da escola Ruben Darío, de Sapucaia do Sul, o que nos deixa muito satisfeito, pois além de editar a Revista, a Ana Mello e eu (além da Laís Chaffe) participamos de diversas oficinas de minicontos, inclusive uma inesquecível no SESC Copacabana (Rio de Janeiro) de onde saiu essa pérola:

DEPOIS, de Fábia Schnoor

Gostava que mexessem em seus cabelos.
Lembrava que estava vivo e de como a infância e o câncer tinham ficado para trás.

Gosto muito desses mínis curtos, certeiros. Cortázar dizia que enquanto o romance vence por pontos, o conto vence por nocaute. Pois o miniconto deve vencer por nocaute no primeiro soco do primeiro round.

CONSOLO, de Valesca de Assis

Às vezes a mãe fica nervosa e me põe de castigo e me chama de menino malvado. Então, antes de chorar, tiro do bolso um papelzinho onde ela limpou o batom e beijo o beijo dela.

ALÍVIO, de Marli Fiorentin

Ana acordou num sobressalto de madrugada. Ainda meio adormecida, custou a entender, em meio a vozes alteradas e choros: “Pedro morreu”. Escorregou devagar para baixo das cobertas. Imóvel, respiração presa, temia ouvir que tinha sido engano. Era bom demais para ser verdade.

Esse primeiro soco pode demorar um pouco mais, exigir alguma atenção para fisgar o leitor, até porque fazer rir é mais fácil do que emocionar. Vejamos esse exemplo de Leonardo Brasiliense, um premiado minicontista e frequente colaborar da Veredas:

SOLIDARIEDADE, de Leonardo Brasiliense

Numa esquina da avenida mais movimentada, às sete da noite, o sinal fica verde, entretanto a carroça do papeleiro não se mexe. Os motoristas começam a buzinar. O papeleiro agita as rédeas, faz um som esquisito com a boca, e nada adianta. O cavalo empacou. Os motoristas, já numa fila de incontáveis faróis e buzinas, com o que lhes resta de forças depois de mais um dia cansativo e estressante em seus escritórios e repartições, gritam, xingam, amaldiçoam. O papeleiro, por sua vez, com o que lhe resta de fôlego depois de mais um dia de sol pelas ruas da cidade, os braços fracos de abrir lixeiras desde as seis da manhã, desce da carroça empunhando um cabo de vassoura e grita, bate, espanca. E o cavalo, com o que lhe resta de si depois de mais um dia que ele nem sabe que passou, com a fome de hoje somada à de ontem e anteontem que o deixam lerdo e confuso, ajoelha-se, de olhos fechados, como quem reza para morrer.

Ou este, de Wilson Gorj, outro contumaz escritor de minicontos, colaborador do Veredas e autor de diversos livros:

INFLÁVEL, de Wilson Gorj
Só transava com prostitutas. Na milésima transa, algo espantoso aconteceu. De repente, sentiu o corpo esfriar, mas de tal maneira que sua parceira acreditou tê-lo matado de prazer. O homem não se mexia mais: boca e olhos abertos para o nada.
Acabara de sofrer uma transmutação. Sua pele mudara de textura. Parecia borracha.
No lugar de músculos, apenas ar.

A relação com a poesia também está sempre presente, seja pela forma, seja pela subjetividade. Mas o miniconto, diferente do poema curto, requer uma narrativa, uma sucessividade e, acima de tudo, deve causar um efeito no leitor.

OLHAR ANIMAL, de Luiz Eduardo Amaro
Observou-a com olhos de lobo.
Aproximou-se com olhos de lince.
Atacou-a com olhos de águia.
Suplicou-lhe com olhos de poodle.
Retirou-se com olhos de burro.
Ela nunca assistia ao Animal Planet.

Evidentemente nem todos os mil e tantos minicontos da Veredas figurariam numa edição em livro, digamos assim, da própria revista. Mas talvez esse seja outro mérito da internet, a diversidade: há estilos, formas e conteúdos dos mais variados. O editor de uma revista web não é como o editor de um livro: o editor de um livro seleciona poucos entre muitos, enquanto o editor web filtra muitos entre muitos, ampliando e incentivando a participação do leitor, mas garantindo credibilidade para a revista que edita.

Enfim, escrevo este texto e repito aqui o endereço da Veredas não para pedir mais leitores, mas para pedir que você envie seu texto para nós e ajude a formar esse mosaico minimalista e plural: http://www.veredas.art.br.

Fonte:
Digestivo Cultural . 23/09/2011

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Eno Teodoro Wanke (Miniconto: Fome)

Estava aquele senhor no restaurante ainda com tanta fome depois de jantar, que, quando o garçom trouxe a conta no pires, ele a comeu julgando ser mais um prato.

Fonte:
WANKE, Eno Teodoro. Caminhos: minicontos. RJ: Ed. Plaquette, 1992.
Imagem = http://just-dream-forever.blogspot.com/

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Eliana Palma (Micro contos)

1- Era inteligente e bela e queria mais: dinheiro e fama! Fundou uma igreja, virou “bispa” e é rigorosa na distribuição de suas franquias…

2- Dois filhos em casa. Duas dúzias fora. Processos de reconhecimento, advogados…
Quando o dinheiro acabou, viu sua real família: os companheiros do asilo público!

3- Os cabelos teimavam em encaracolar. Anti-frizz, chapinha, progressiva, definitiva!

Nada! Rendeu-se ao biotipo. Hoje, única diferente num desfile de longos lisos, é a garota mais cobiçada da balada!

4- Viu o mar de corpos se comprimindo para ver o show. Gelou. O organismo devolvendo a nutrição. Suor! Introdução: um empurrão nas costas e o enfrentamento inevitável. Agarrou o microfone em pânico, abriu a boca…e a voz melodiosa confirmou a vocação. Ocupou o destaque merecido.

5- Tinha pressa… sempre! Cadê tempo para revisões no carro? Colocar cinto? Atrasava! Celular? Não podia largar… eram tantas questões a resolver… Um som! Um peso…a falta dele, a sua falta na empresa, na família …e o mundo continuou girando!

6- Deu na TV. Era, então, verdade! Comprou as ações cotadas! Era boato, como tantos! Lembrou-se do professor de literatura: “…pensar com a própria cabeça! Analisar, verificar fontes, usar o espírito crítico antes de engolir”! Tarde demais para lamentar a reprovação na matéria!

7- Daria uma festa. Queria ser a anfitriã! Contratou um chef francês e decidiu-se por escargots … Pagou uma fortuna para a empresa de lavagem de tapetes. Os estomagos rudes dos amigos simples não suportaram a escolha!

8- Desprezava seus alunos. Jogava duro com eles! No final da vida fez um balanço do sucesso de cada um: nenhum! Todos haviam seguido os seus passos = fracasso!

9- Era linda como uma sinfonia! Criou para ela a mais bela das músicas e ela partiu num carro esporte. O único som que apreciava era o tilintar de moedas!

10- Vendia ovo cozido para pagar os estudos sob o gargalhar dos riquinhos da escola. Hoje, dono da granja e do abatedouro de aves, emprega alguns deles por pura pirraça!

Fonte:
Colaboração da escritora.

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