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Amosse Mucavele (A Lavoura do Tempo)

Luís Serguilha
A  Lavoura do Tempo: A Filosofia das Luzes Ontológicas do Distante Universo Poético Serguilhiano e a Renovação Estética do Futuro da Linguagem Gnósica do Futuro Contínuo  Ou o Conhecimento e a Experiência em KOA’E.  
                                                                                            Para Cláudia Carvalho Machado e   Aurelino Costa
                                                      
                                                      << O desconhecido é quase a nossa única tradição>>
                                                                                       José Lezama Lima, A partir de la poesia
Se tomarmos a “arte’’ segundo Jürgen Habermas como poder de reconciliação que aponta para o futuro, podemos dizer desde logo que estamos perante um vulcão de vozes a romperem paralelamente na sinfonia harmônica da linguagem “poética” e do “ objecto estético” universal na óptica de Mikel Dufrenne.
Em KOA’E a poesia assume-se desde o inicio ou desde o fim pois é difícil discernir onde ela começa e onde termina, mas tem algo que assumo com toda propriedade, que ela é eterna, nasce cresce e chega até aos nossos olhos como “o objecto estético no estado de um possivel aguardando a sua epifania”( op.cit. por  Carlos Nogueira da Silva – O objecto estético como mundo, la phénomenologie de l’experience esthétique l,de Mikel Dufrenne,in Phainomenon, Revista de fenomenologia, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Edicões colibri 2001), há uma notável pluralidade de “contextos” deste novo “texto” onde multiplicam-se vivências com o pensamento “pós-moderno” e o “ conflito com o tempo” “pós-utópico”.
Cláudio Daniel ( Protocolos Críticos-Itaú Cultural 2009) no ensaio “Geração 90: uma pluralidade de poéticas possíveis” ressalta que “ a poesia (…) manifesta essa tensão na linguagem, construção estética que dialoga com história, pessoal e colectiva, ao mesmo tempo que afirma a sua própria identidade com artefacto artístico”.
Segundo Ernesto Melo e Castro em resposta a eterna, conflituosa e conflituante questão: O que é poesia?  feita na Casa das Rosas do Centro Cultural de São Paulo, pelo poeta Edson Cruz:
– A poesia corporiza em textos contraditórios ondas energéticas, as que nos atacam e destroem mas também  as construtivas que nós (só nós os poetas) sabemos e podemos transformar, enviando para destinatários universais que as saberão, ou não, descodificar e entender…lá onde quer que se encontre e como quer que entendam  aquilo que esta escrito…
Caracteristica consideravelmente patente no poema a seguir:
A fantasmagoria dos grânulos fluviais inflama AS MANGAS

BIFURCADAS dos salmonetes antropológicos
                             como as asparas das povoações a desembaraçarem 
os circuitos      exaustos  das     estátuas  dos   bandos-insectos-
alienigenas
                         sobre os anzóis  dos equilíbrios  das portarias
mumificadas  que refractam   os veios extensos  das putrescências
das solenidades (…) pag. 374
Creio que a mesma “ fantasmagoria”que Luís Serguilha se refere é a mesma que “inflama” sobre a “antropologia das povoações” que habitaram a cidade de KOA’E degradada e levada abaixo por um vulcão, há aqui uma “arquitectura hieróglifica” que tenta (re)construir ou ressuscitar  a cidade no meio do escombros da “consciência do tempo” que a cada traço apresenta fragmentos 
(…) na musica poderosa dos utensílios-plasmas-dos-lances-fluorescentes
                      como as venialidades das esporas terrestres
                                      sobre os sigilos das tranqueias arbóreas    pag.374 e 375
                                      
A música tocada em KOA’E escuta-se no silêncio dos ouvidos da distância, onde cria um espaço de concordância ( Einverständnis- em alemão) entre a orquestra, o fisico, o matematico, o escritor, o cineasta, e outros, assim sendo “produz-se uma relação de reciprocidade consciente das pessoas (dos leitores-grifo meu) e, ao mesmo tempo, uma relação unitária das mesmas( dos mesmos-grifo meu) a um mundo circundante comum” disse Edmund Husserl. Nota-se a transposição (Übersetzen- em alemão) de sonoridades e ritmos para pinturas com fotos e nomes dos pensadores modernos, traz consigo a “poesia como fim último da humanidade” onde subjaz o retorno da nova “arqueologia do ser e estar” camuflada por um discurso renovado estéticamente pela consciência poético-pensante-totalizante que o passado almeja tê-lo no seu repertório, o presente estranha a gigantesca imagem, a forma como as mãos  de Serguilha (pro)criam o mundo e o futuro será que esta preparado para ver estes “reflexos coloridos”? Para assistir a celebração do “fim da arte” ?  O matrimônio quântico, sentimental, ingênuo entre a teologia, filosofia, artes, música, matemática, quimica e fisica?
Em suma existem  versos, conversas, encontros do pensamento universal em KOA’E tais como estes:
(…) a perspectiva-dos-fragmentos de Godard e as abreviaturas-das-armações-dos-nómadas de Kusturica (…) pag.25

(…) a progressão paciente do ar escoa-se nos despojos da ferida dos teoremas ( de Pasolini e Pitágoras) (…) pag. 35

 (…) as celas dos exílios-de BRECHT-Pavese expandem a direcção profundissima do húmus-gestual(…) pag.73
Importa agora compreender que em KOA’E  estes encontros aqui me referi e o “texto” poema  acima lido mostra de forma clara e objectiva a ideia de “flecha de sentido” na feliz expressão de Pierre-Jean Labarriére “no que esta imagem denota de força e tensão, apontando e devotando o próprio  texto ao tempo”(Isabel Matos Dias, Tradução: palimpsestos e metamorfoses in Heidegger, Linguagem e Tradução, Colóquio Internacional, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2002)   que logo no primeiro olhar  ganha este duplo sentido “a produtividade e a intertextualidade” disse Julia Kristeva. Daí que “o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo”(Roland Barthes, o prazer de texto) e torna-se um espaço polivalente e polifónico ( Isabel Matos Dias, op.cit)  onde os polos ( a ciência, a teologia, a filosofia, arte,a literatura ) confluem na tonalidade desta “iluminação profana”( W. Benjamin) e na totalidade desta Einbildungskraft( força de formação em imaginação) tal como pedia Schelling.
A leitura e a visão do mundo em KOA’E transforma toda cadeia de conceitos sobre o estatuto da poesia e do poeta em um mecanismo de conhecimento metafisico ( no contexto Kantiano) e da experiência ontológica ( na visão do Aristoteles) do “objecto estético”.
Afinal qual é o papel do poeta na óptica de Serguilha?
(…) O poeta manifesta a sua origem na cegueira, no desassossego da luz que é projectada na metamorfose polimórfica-vibratória regenerando os ecrâs  da reciprocidade do animal-poema com o movimento da imersão fulgurante como a gênese da recomposição do abismo a centralizar-se na profundidade, na exteriorização da descoberta absoluta do mundo (…) pag 122

(…) A visão-outra do poeta emancipa-se no silêncio, liberta-se no conhecimento caótico, no anticonvencionalismo porque é selvagem, não aceita interpretações ou qualquer tipo de determinações sociais, politicas, religiosas porque a efervescência da sua linfa-linguagem é única e sagrada ao elevar/aprofundar a regeneração/purificação cristina do mundo, sacralizando-a como um mosaico-corpo-não-efêmero, formador de vertiginosos rizomas, de disseminações vulcânicas. (…) pag. 123
Assim em KOA’E  “o poeta é selvagem” e a sua poesia caminha no silêncio da distante (in)consciência poética do tempo e da (in)temporalidade profética do mundo, ele usa uma linguagem ciclica- magnética-digladiadora-destruitiva-construitiva-poderosa-rizómatica, sua “única e sagrada” “atitude para a mensagem enquanto tal”( Roman Jacobson, Linguística e Poética)
E o que é  poesia para Serguilha?
 (…) A poesia reconstitui-se na língua anterior ao conhecimento e esculpe as suas sismologias-tapeçarias no mundo-outro como uma partilha do desassossego, uma sanguinidade do poema-poeta-poesia-liberdade na exploração mutual do enigma, na germinalidade do deserto (…) pag.109

(…) A poesia fortalece a energia transmutadora, a expressão dos ecossistemas da não evidência, da eclipse, a multiplicabilidade das prespectivas que interrogam a busca da unidade perdida.(…) pag. 116
Se para K. Marx “a finalidade dos trabalhadores é de produzir para viver” e qual é/será a finalidade dos poetas?
Para  Luis Serguilha a finalidade dos poetas é de procurar “ a área primordial da metamorfose para se unir ao cântico transmissor  do livro natureza” .pag 109
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Amosse Mucavele nasceu em 1987 em Maputo onde vive, sonha em ser poeta, ensaísta, antologiador, tradutor, cronista, Director do projecto de divulgação Literária Esculpindo a Palvra com a Língua , é chefe da redacção da Revista Literatas-Revista de Literatura moçambicana e lusófona,membro do Conselho Editorial da Revista Mallarmagens-Brasil, membro da academia de Letras de Teófilo Otoni-Minas Gerais, membro da International Writer association (IWA-Ohio-USA) possui textos publicados em diversos jornais do mundo Lusófono, representou Moçambique na 1 Raias Poéticas- Vila Nova de Famalicão-Portugal
Email- amosse1987@yahoo.com.br,                arqueologiadapalavra@gmail.com 
Fonte:
O autor

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Mia Couto (Os Negros Olhos de Vivalma)

Há mulheres que procuram um homem que lhes abra o mundo. Outras buscam um que as tire do mundo. A maior parte, porém, acaba se unindo a alguém que lhes tira o mundo.

Este foi o destino de Vivalma, mulher entre as mulheres, cheia de desgraça, nem o Senhor punha oração nela. Mulher gorda, exibia os seios em cacho, carnes de muito volume e herança. Tanta redondeza, aliás, suprimia a curva. Vivalma era esposa do latoeiro Xidakwa, homem zangadiço e com nervo florindo na pele.

A volumosa senhora saía de manhã para o serviço de sentar no bazar, em banca rente ao chão. Eram tão poucas e abreviadas as coisas que vendia que ela nunca fazia as contas. A vida é um por enquanto no que há-de vir. Vivalma se deixava no assento, mais vagarosa que orvalho. Até a mão dela poupava esforços, num mesmo gesto de ida e volta: para lá, enxotava mosca; para cá, chamava cliente. Seus braços eram tão curtos que nem era capaz de arregaçar as mangas.

Pois Vivalma se dava a conhecer pelo modo como zarolhava, olho deitado abaixo. Razão de que o marido lhe batia, por dádiva daquela palha. Nem carecia de motivo:  o murro era a língua dele, vingança de lhe fugirem desejos de sua vista. Todos se admiravam: Xidakwa até que parecia tranquilinho, sonolento, incapaz de violência. Mas os hematomas no rosto da mulher, o sangue pisado lhe enchendo a cotidiana pálpebra dela, eram provas indesmentíveis. Todos punham a devida pena na vendecora. Tão batidinha, coitada. E ainda por cima, sempre no mesmo olho. As colegas lhe sugeriam:

–  Você podia pedir a ele para variar-se: cada vez num lado, cada vez no outro- .

Ela sorria, parecia isenta de pensamento. A gordura era sua única resposta. Ela sabia: mais se engorda, menos se sofre. Com o volume a dor vai ficando mais e mais distante, perdida lá nas curvas das entranhas. As vendeiras lhe puxavam o brio:

–  Mas você Vivalma, nem viva nem alma?- 

Quem fala consente? E a mulher gorda suspirava:

–  Deus me reze, minhas amigas- .

Ela é que sabia. Xidakwa, seu marido, enganava era nas aparências. Ele era um mosca-viva, esgazelado, tratando-lhe a berro e fogo. Outros já lhe tinham chamado as atenções. Mas o latoeiro varria os reparos, explicando:

–  A vida é dura de mais para aceitar carícia: cabedal se cose é com dedal- .

As colegas do bazar insistiam:

–  Ora, Vivalminha, lhe deixe de vez, esse homem não vale uma vida. Você é como o nariz: toda a vida no meio, sem nunca fazer escolha- .

Em silêncio, Vivalma amealhava suas razões. Não que houvesse segredo: para ela, aquela era a ordem do mundo, estavam-se cumprindo destinos. Nem ela nem ele teriam tempo para uma outra ocasião. O mundo dele era de outra razão, um confim. Ele lhe queria à razão de pontapés? Que fosse. Ela não tinha querer nem ser. E quem não tem vontade, não tem lamento.

E era sem lamento que ela regressava a casa, tardes a fio, sempre última das vendedoras. Demorava os vinte  e quatro ponteiros no caminho. Perto de casa colhia uma flor mas, ao entrar no portão, a deitava no chão. No pátio se acumulavam pétalas brancas, secreto e perfumado lençol da noiva que nunca houve.

Até que, um dia, o olho negro de Vivalma se apresentou piorado, em feio e ampliado derrame. As vendeiras transbordaram-se. Não, aquilo era demais! E se conluiram para desafiar o marido violento. Sem que Vivalma suspeitasse, umas delas lá foram a casa de Xidakwa. Enquanto pisavam aquele mar de flores desfeitas souberam o espantável: que o dito marido, Xidakwa, há tempo que se fora, amanteado com outra. As vizinhas diziam e comprovavam. Os tais derrames que Vivalma exibia no rosto eram por ela mesma fabricados, sem infligência de mais ninguém.

As vendedores regressaram ao bazar, caladas, sob uma bategazinha de Verão. A chuva caía tristonha como um luto, cada gota uma mulher em Outono, chuviuvinha. Ingrata é a morte que não agradece a ninguém. Vivalma teatrava, para que ninguém suspeitasse de seu abandono? Pois as amigas se compustararam em igual disfarce. Na Natureza ninguém se perde, tudo inventa outra forma.

Sucedeu, por astúcia do acaso, o seguinte percalço: a nova mulher de Xidakwa ouviu dizer que Vivalma continuava a revalidar suas equimoças, olho da cor do chão. Se assim era, quem mais poderia ser o batedor senão o dito latoeiro? E a moça, mais nascida que a gorda vendeira, contraverteu caminho e foi agasalhar outra felicidade.

O homem, desconcertado, voltou a casa para afinar contas com Vivalma. Se admirou de ver o pátio varrido, limpo das habituais florinhas. Os vizinhos se surpreenderam, depois, a ouvir os gritos dele, batendo em sua original esposa.

Manhãzinha seguinte, viram Vivalma sair de casa, canteirando pelo jardim, a encher as mãos de petalazitas  brancas. Haveria quê nessas flores: alegria de quem se ilude vencer? Ou eram pequenitas raivas, desapercebidas como lágrimas em seu rosto molhado? Só ela, a matinal vendeira, sabe do valor dessas minusculinhas naturezas em seus dedos decepadas. Dizem, finalmente, que sob o véu de seus enegrecidos olhos havia, nessa manhã, uns fiapos de satisfação. Poderá ela, alguma vez, ser sabida? Se, como diz nenhuma canção, a água corre com saudade do que nunca teve: o total, imenso mar.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Porto: CPAC, 1998.

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Mia Couto (O Homem da Rua)

Ainda o dia andava à procura do céu, vinha eu em vagaroso carro que mais a mim me conduzia. De repente, um homem atravessou a calçada, desavultado vulto avulso. Uma garrafa o empunhava. E ele, todo súbito e poentio, se embateu frentalmente na viatura. Saltou pelos ares, se aplacando lá mais adiante, onde se iniciava o passeio. Saí do susto para inspeccionar sua sobrevivência.

Me debrucei sobre o restante dele, seu rolado enrodilhado. Não havia sangue nem quebradura de osso. O maltrapalhado estava a salvo, salvo erro. Todavia, me meteu pena: suas vestes eram a sujidade. Havia quase nenhuma roupa em seu sarro. Mesmo o corpo era o que menos lhe pesava. Os olhos estavam parados, na grade do rosto. Me pareciam pedir, o quê nem sei.

De inesperado, o vagabundo se ergueu e apressou umas passadas para encalçar o longe. Se entrecruzou com sua sombra, assustado de haver escuro e luz. Em muito zig e pouco zag ele acabou por se devolver ao chão. Voltei a acudir, cheio dessa culpa que não cabe na razão. Apanhei o vulto, desarranjado, sem estrutura. Pareceu tontolinho, sempre agarrado ao arregalado gargalo. Me deitou olhos muito espantados e pediu desculpa por incómodos. Apalpou o lugar onde se deitava, e disse:

– Um de nós está morrendo- .

Entreolhei-me a mim e ao restante mundo. Ele se precisou:

– Estou falando da terra, parece ela está moribundando- .

Lhe disse que o levaria dali para um sítio que fosse dele. Ajudei-lhe a entrar no meu carro. Ele recusou com terminância:

– Não entro em coisa que serve para levar morto- .

Amparei o desandrajoso. Se sustentou em meu ombro e me foi levando pelo passeio sombrio, através dessa desvastidão onde o negro escurece a preto.

– Agora o senhor me entorne aqui…

– Aqui?-

Esfregando-se no pescoço como se as mãos fossem de outrem, acrescentou:

– Aqui, sim. Quero acordar com dormência de lua- .

Dali ele passou a esbanjar conversa. Quem sabe o homem desjejuava palavra? E dizia sem aparência nenhuma:

– Bem hajam as folhas, minha cama!-

E explicava-se enquanto alisava as folhagens mortas: quando se deitava lhe doía a curva da terra, a costela quebrada do próprio universo. Assim deitadinho, todo simetrado com o planeta, um subterrâneo rio falava com suas veias.

– Até foi bom me aleijar um bocado. Ri-se? Nem sabe como é bom haver um chão para a gente ter onde cair- .

E nos trocamos nessa conversa com vontade de ser corpo, encosto, adormecimento. Ficámos a ver as luzinhas da cidade, lá em baixo, a lembrar que o homem sofre de incurável medo de ser noite. O país daquele homem seria a noite. Meu território era o dia, com sua luminesciência tanta que serve mais é para deixarmos de ver.

E pensei: o primeiro alimento é a luz. Nos invade logo quando nascemos. Depois, a luminosidade, com suas infinitas cascatas, nos fica a engordar a alma. Em mim, pelo menos, a primeira saudade é da luz. Direi, então: me falta a minha luz natal? Quem sabe a alma deste homem, sempre ninhado no escuro, emagrecera assim a olhos não-vistos? O homem é bicho diurno. O dia é bicho humano?

Me foi descendo, espesso, o sono. Avancei despedida não sem retirar do bolso algumas notas que estendi em direcção ao desastrado:

– Deixo o senhor com algum dinheiro. Quem sabe lhe virão, mais tarde, as dores do acidente?-

Para meu espanto ele recusou. Sem veemência, sem nenhum ênfase. Era recusa verdadeira.

– Posso pedir uma qualquer coisa?

– Peça.

– Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Só isso: acompanhia- .

Ainda hesitei, inesperando aquele pedido. O homem nem me fitava, estivesse envergonhado. E assim, de cabeça baixa, insistiu:

– É que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes ainda tinha quem me dispensasse migalha de conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um medo de me sozinhar por esses aís- .

Quase que falava para dentro, eu devia baixar orelha para o entender. Assim, cabismudo, prosseguiu:

– Sabe o que faço? Vou dizer… mas o senhor me prometa que não zanga…

– Prometo.

– O que eu faço, agora, é me deixar atropelar. É. Ser embatido num resvalo de quase nada. Indemnização que peço é só esta: companhia de uma noite- .

Fiquei quieto sem me achar conveniência. Nem gesto nem palavra me defendiam. O atropelado centrou esforço em se erguer, mão sobre o joelho. Já de pé me segurou o cotovelo:

– Pode ir, à vontade. _nem imagina como senhor me faz bem, me bater e, depois, me falar. Agora já nem sinto dor nem dentro nem fora- .

Anda fiz menção de ficar, perdido entre garganta e coração. Mas o andrajoso levantou o braço, em serena sentença:

– Vá, meu amigo, vá na sua vida- .

Regressei ao carro. Arranquei-me dali, devagar. Olhei no espelho para retrover o vagabundo. Me lembrei então que nem o nome dele eu anotara. Lhe chamo agora: o homem da rua. Seu nome ficará assim, inominável, simplesmente: homem da rua. Lembrando este tempo em que deixou de haver a rua do homem.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

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Mia Couto (Gaiola de Moscas)

Zuzé Bisgate. Logo na entrada do mercado, bem por baixo da grande pahama se erguia sua banca. Quando a manhã já estava em cima, Zuzé Bisgate assentava os negócios. O que ele fazia? Alugava bisga, vendia o cuspo dele. A saliva de Zuzé tinha propriedades de lustrar sapatos.

–  É melhor que graxa, enquanto graxa nem há- .

Além disso, o preço dele era mais favorável. Cada cuspidela saía a trezentos, incluindo o lustro. Maneira como ele procedia era seguinte: o cliente tirava o sapato e colocava o pé empeugado do cliente sobre uma fogueirita. O pé ficava ali apanhando uns fumos para purificar dos insectos infecciosos. Zuzé Bisgate pegava no sapato e cuspia umas tantas vezes sobre ele. Cada cuspidela contava na conta. Passava o lustro com um pano amarrado no próprio cotovelo. Raz+o do pano, motivo de esfregar com o cotovelo:

–  Dessa maneira a minha saliva me volta no corpo. É que este não é um cuspe qualquer, um produto industrioso desses. Não, isto é uma saliva bastantíssima especial, foi-me emprestada por Deus, digamos foi um pequeno projecto de apoio ao sector informal. É que  Deus conhece-me bem, pá. Eu sou um gajo com bons contactos lá em cima- .

Os clientes não se faziam enrugados. Às vezes até abichavam frente à banca dele. Fosse da saliva, fosse da conversa que ele lustrava. Verdade era que o negócio de Zuzé corria em bom caudal.

Quem não se dava bem com os cuspes era sua mulher Armantinha. – _Não se pode beijar aquela boca engraxadora dele- , se lamentava. – _Prefiro beijar uma bota velha- , concluía.
– _Ou lamber uma caixa de graxa- .

Armantinha sonhava para saltar frustração. Um dia, qualquer dia, haveria de beijar e ser beijada. Sonhava e resonhava. Lhe apetecia um beijo, água fazendo crescer outra água na boca. Lhe apetecia como um cacto sonha a nuvem. Como a ostra ela morria em segredo, como a pérola seu sonho se fabricava nos recônditos.

Avisaram o marido. Armantinha estava sonhando longe de mais. O homem respondeu em variações. – _Beijo é coisa de branco, quem se importa. E depois, minha boca cheira a coisa falecida. Quem se aflije com matéria morta? Só os da cidade. Nós, daqui, sabemos bem: é do podre que a terra se alimenta- .

Acontece que Zuzé Bisgate se foi metendo nos copos, garrafas, garrafões. Tudo servia de líquido, Zuzé destilava até pedra. De toda a substância se pode espremer um alcoolzinho, dizia. Mais e mais ele desleixava a caixa de cuspos e lustros. Até que os clientes reclamaram: a saliva de Zuzé está ganhando ácidos, aquilo é bom é para de entupir as pias. E temendo pelos sapatos os demais se evitavam de frequentar a tenda banhada pela grande pahama.

Até Chico Médio, homem sempre calado, reclamou que a saliva dele lhe fez murchar os atacadores, pareciam agora cobras sem esqueleto vertebral. Pouco a pouco Zuzé perdeu toda a clientela e o negócio das salivas fechou.

Se decidiu então a mudar de ramo. Recordou, de seu pai, a máxima: a alma é o segredo de um negócio.  Alma, era isso que se necessitava. E assim ele imaginou um outro negócio. E agora quem o vê, nos actuais dias, constata a banca com sua nova aparência. E Zuzé mais seu novo posto. Seu labor é um quase nada, coisa para inglês não ver.

Ali, na fachada, arregaça as calças, com cuidado para não as desvincar. Sempre com desvelo de burocrata, desembrulha um volume retirado das entranhas de sua banca: uma gaiola forrada a rede fina. Dentro voam moscas. Pois é o que ele vende: moscardos. Matéria viva e mais que viva — vital para o mortal cidadão. Pois, diz o Bisgate, cada um deve tratar as moscas que, depois de mortos, nos visitarão o túmulo.

– São os nossos últimos acompanhantes …

A pessoa passa por ali, se debruça sobre o vendedor e escolhem as voadoras bastas, as mais coloridas que engalanarão o funeral:

–  Esta há-de ficar mesmo bem na sua cerimónia.

Ele convida o hesitante cliente a ir à banca ao lado, a banca da Dona Cantarinha. Para lavar as moscas, explica.

–  Lavar as moscas?

– Sim, é lavagem a seco.

Armantinha cada vez mais se distancia daquela loucura. O marido se apronta é para grandes descansaços.

–  Ai nosso Senhor Jesus Cristo! Você, homem, você vende alguma coisa?

–  Faça as contas, mulher.

–  Que contas? Que contas se pode fazer sem números?

— Ainda hoje vendi uma manada de moscas a esse tipo novo que chegou à aldeia.

–  Qual que chegou?

–  Esse gajo que montou banca lá nas traseiras do bazar. Uma banca que até mete as graças, chama-se “Pinta-_Boca”.

–  O homem se chama Pinta-_Boca?

–  Qual o homem! A banca se chama- .

Armantinha se inflama logo de sonho. Já a boca dela se liquidesfaz. Sua boca pedia pintura como a cabeça lhe requeria sonho. E, logo nessa manhã, ela ronda a nova tenda, se apresenta ao novo vendedor. Ele se declina:

–  Sou Julbernardo, venho de lá, da cidade- .

Banca Pinta-_Boca. O nome faz jus. Na prateleira ele tem uma meia dúzia de bâtons com outras tantas cores. As mulheres se chegam e estendem os lábios. Julbernardo pede que escolham a coloração. Moda as brancas, vermelhudas das beiças. Uma pintadela 250 meticais.

Armantinha, já devidamente apresentada, ganha coragem e encomenda uma coloradela.

–  Aqui, se paga em adiantado- .

Ela retirou as notas encarquilhadas do soutien. Vasculhou as largas mamas à procura dos papéis. Tinha seios tão grandes que nem conseguia cruzar os braços.

–  Está aqui seu dinheiro.

–  Não chega nem basta. Essa tabuleta do preço era na semana passada. Agora é 250 um lábio.

–  Um lábio?

–  Se for o de cima, o de baixo custa mais caro. Por causa que é maior.

–  Estou fracassada com você, Julbernardo. Vá, pinte o de cima, amanhã venho pintar o de baixo.

–  Está certo, eu vou pintar- .

Julbernardo pegou no bâton com habilidade de artista. Aquilo era obra para ser vista. Metade do povoado vinha assistir às pinturas. A gente seguia caladinha, aquilo era cena à prova de fala. Julbernardo metia um avental, ordenava à cliente que sentasse no tronco cortado do canhoeiro.

Armantinha obedecia ao ritual. Sentada, ergueu o rosto. Fechou os olhos, compenentrada em si. O pintador limpou as mãos no avental. Se debruçou sobre a tela viva e fez rodar o bâton no ar antes de riscar a carne da cliente. Sentada no improvisado banco Armantinha  deu largas ao sonho. O bâton acariciava o lábio e tornava seu corpo misteriosamente leve, como se naquele toque se anulasse todo o peso dela.

Sonhava Armantinha e o sonho dela se apoderava. Nesse devaneio o bâton se convertia em corpo e já Julbernardo se inclinava todo sobre ela e os lábios dele pousavam sobre a boca dela, trocando húmidas ternuras. Mundo e sonho se misturavam, os gritos da multidão ecoavam na gruta que era sua boca e, de repente, a voz raivosa de Zuzé também lhe esvoaça na cabeça.

E eis que Armantinha abre os olhos e ali, bem à sua frente, o seu marido se engalfinhava com Julbernardo. E murro e grito, com a gentalha rodopiando em volta. De repente, já um deles se apresenta de desbotar vermelhos. Os dois se misturam e uma faca rebrilha na mão de Zuzé. Depois, num sacão, se separam os dois corpos. Estão ambos ensanguentados. Julbernardo com o avental ensopado de vermelho dá dois passos e cai redondo. Num instante, uma multidão de moscas se avizinha. Zuzé, vitorioso, aponta a mulher:

–  Vê? Vê as moscas que vendi a esse cabrão?-

Mas as moscas, em lugar de escolherem o tombado Julbernardo, circundam a cabeça de Zuzé. Alarmado, ele enxota-as. Em vão: já a moscardaria lhe pousa, vira e revira. Então, Zuzé Bisgate desce dos seus próprios joelhos e se derrama em pleno chão. O sangue se vê brotar de seu peito. Julbernardo desperta e se ergue, ante o espanto geral. Com mão corrige a mancha vermelha com que o bâton esmagado enchera o seu branco avental.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

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Mia Couto (Poemas Recolhidos)

É VITALÍCIO

 É vitalício: comer a Vida
 deitando-a entontecida
 sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
 dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.

IDENTIDADE

 Preciso ser um outro
 para ser eu mesmo

 Sou grão de rocha
 Sou o vento que a desgasta

 Sou pólen sem insecto

 Sou areia sustentando
 o sexo das árvores

 Existo onde me desconheço
 aguardando pelo meu passado
 ansiando a esperança do futuro

 No mundo que combato morro
 no mundo por que luto nasço

A ADIADA ENCHENTE

 Velho, não.
 Entartecido, talvez.
 Antigo, sim.

 Me tornei antigo
 porque  a vida,
 tantas vezes, se demorou
 E eu a esperei
 como um rio aguarda a cheia.

PARA TI

 Foi para ti
 que desfolhei a chuva
 para ti soltei o perfume da terra
 toquei no nada
 e para ti foi tudo
 Para ti criei todas as palavras
 e todas me faltaram
 no minuto em que talhei
 o sabor do sempre
 Para ti dei voz
 às minhas mãos
 abri os gomos do tempo
 assaltei o mundo
 e pensei que tudo estava em nós
 nesse doce engano
 de tudo sermos donos
 sem nada termos
 simplesmente porque era de noite
 e não dormíamos
 eu descia em teu peito
 para me procurar
 e antes que a escuridão
 nos cingisse a cintura
 ficávamos nos olhos
 vivendo de um só
 amando de uma só vida

DESTINO

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

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Mia Couto (Os Negros Olhos de Vivalma)

Há mulheres que procuram um homem que lhes abra o mundo. Outras buscam um que as tire do mundo. A maior parte, porém, acaba se unindo a alguém que lhes tira o mundo.

Este foi o destino de Vivalma, mulher entre as mulheres, cheia de desgraça, nem o Senhor punha oração nela. Mulher gorda, exibia os seios em cacho, carnes de muito volume e herança. Tanta redondeza, aliás, suprimia a curva. Vivalma era esposa do latoeiro Xidakwa, homem zangadiço e com nervo florindo na pele.

A volumosa senhora saía de manhã para o serviço de sentar no bazar, em banca rente ao chão. Eram tão poucas e abreviadas as coisas que vendia que ela nunca fazia as contas. A vida é um por enquanto no que há-de vir. Vivalma se deixava no assento, mais vagarosa que orvalho. Até a mão dela poupava esforços, num mesmo gesto de ida e volta: para lá, enxotava mosca; para cá, chamava cliente. Seus braços eram tão curtos que nem era capaz de arregaçar as mangas.

Pois Vivalma se dava a conhecer pelo modo como zarolhava, olho deitado abaixo. Razão de que o marido lhe batia, por dádiva daquela palha. Nem carecia de motivo:  o murro era a língua dele, vingança de lhe fugirem desejos de sua vista. Todos se admiravam: Xidakwa até que parecia tranquilinho, sonholento, incapaz de violência. Mas os hematombos no rosto da mulher, o sangue pisado lhe enchendo a quotidiana pálpebra dela, eram provas indesmentíveis. Todos punham a devida pena na vendecora. Tão batidinha, coitada. E ainda por cima, sempre no mesmo olho. As colegas lhe sugeriam:

–  Você podia pedir a ele para variar-se: cada vez num lado, cada vez no outro- .

Ela sorria, parecia isenta de pensamento. A gordura era sua única resposta. Ela sabia: mais se engorda, menos se sofre. Com o volume a dor vai ficando mais e mais distante, perdida lá nas curvas das entranhas. As vendedeiras lhe puxavam o brio:

–  Mas você Vivalma, nem viva nem alma?-

Quem fala consente? E a mulher gorda suspirava:

–  Deus me reze, minhas amigas- .

Ela é que sabia. Xidakwa, seu marido, enganava era nas aparências. Ele era um mosca-viva, esgazelado, tratando-lhe a berro e fogo. Outros já lhe tinham chamado as atenções. Mas o latoeiro varria os reparos, explicando:

–  A vida é dura de mais para aceitar carícia: cabedal se cose é com dedal- .
As colegas do bazar insistiam:

–  Ora, Vivalminha, lhe deixe de vez, esse homem não vale uma vida. Você é como o nariz: toda a vida no meio, sem nunca fazer escolha- .

Em silêncio, Vivalma amealhava suas razões. Não que houvesse segredo: para ela, aquela era a ordem do mundo, estavam-se cumprindo destinos. Nem ela nem ele teriam tempo para uma outra ocasião. O mundo dele era de outra razão, um confim. Ele lhe queria à razão de pontapés? Que fosse. Ela não tinha querer nem ser. E quem não tem vontade, não tem lamento.

E era sem lamento que ela regressava a casa, tardes a fio, sempre última das vendedoras. Demorava os vinte  e quatro ponteiros no caminho. Perto de casa colhia uma flor mas, ao entrar no portão, a deitava no chão. No pátio se acumulavam pétalas brancas, secreto e perfumado lençol da noiva que nunca houve.

Até que, um dia, o olho negro de Vivalma se apresentou piorado, em feio e ampliado derrame. As vendeiras transbordaram-se. Não, aquilo era de mais! E se conluiaram para desafiar o marido violento. Sem que Vivalma suspeitasse, umas delas lá foram a casa de Xidakwa. Enquanto pisavam aquele mar de flores desfeitas souberam o espantável: que o dito marido, Xidakwa, há tempo que se fora, amanteado com outra. As vizinhas diziam e comprovavam. Os tais derrames que Vivalma exibia no rosto eram por ela mesma fabricados, sem infligência de mais ninguém.

As vendedores regressaram ao bazar, caladas, sob uma bategazinha de Verão. A chuva caía tristonha como um luto, cada gota uma mulher em Outono, chuviuvinha. Ingrata é a morte que não agradece a ninguém. Vivalma teatrava, para que ninguém suspeitasse de seu abandono? Pois as amigas se compustararam em igual disfarce. Na Natureza ninguém se perde, tudo inventa outra forma.

Sucedeu, por astúcia do acaso, o seguinte percalço: a nova mulher de Xidakwa ouviu dizer que Vivalma continuava a revalidar suas equimoças, olho da cor do chão. Se assim era, quem mais poderia ser o batedor senão o dito latoeiro? E a moça, mais nascida que a gorda vendedeira, contraverteu caminho e foi agasalhar outra felicidade.

O homem, desconcertado, voltou a casa para afinar contas com Vivalma. Se admirou de ver o pátio varrido, limpo das habituais florinhas. Os vizinhos se surpreenderam, depois, a ouvir os gritos dele, batendo em sua original esposa.

Manhãzinha seguinte, viram Vivalma sair de casa, canteirando pelo jardim, a encher as mãos de petalazinhas  brancas. Haveria quê nessas flores: alegria de quem se ilude vencer? Ou eram pequeninas raivas, desapercebidas como lágrimas em seu rosto molhado? Só ela, a matinal vendedeira, sabe do valor dessas minusculinhas naturezas em seus dedos decepadas. Dizem, finalmente, que sob o véu de seus enegrecidos olhos havia, nessa manhã, uns fiapos de satisfação. Poderá ela, alguma vez, ser sabida? Se, como diz nenhuma canção, a água corre com saudade do que nunca teve: o total, imenso mar.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

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Mia Couto (Governados pelos mortos)

(- fala com um descamponês- )

–  Estamos aqui sentados debaixo da árvore sagrada da sua família. Pode-me dizer qual o nome dessa árvore?

– Porquê?

–  Porque gosto de conhecer os nomes das árvores.

– O senhor devia saber era o nome que a árvore lhe dá a si.

–  Depois de tanta guerra: como vos sobreviveu a esperança?

– Mastigámo-la. Foi da fome. Veja os pássaros: foram comidos pela paisagem.

–  E o que aconteceu com as casas?

– As casas foram fumadas pela terra. Falta de tabaco, falta de suruma. Agora só me entristonho de lembrança prematura. A memória do cajueiro me faz crescer cheiros nos olhos.

–  Como interpreta tanta sofrência?

– Maldição. Muita e muito má maldição. Faltava só a cobra ser canhota.

–  E porquê?

— Não aceitamos a mandança dos mortos. Mas são eles que nos governam.

– E eles se zangaram?

— Os mortos perderam acesso a Deus. Porque eles mesmos se tornaram deuses. E têm medo de admitir isso. Querem voltar a ser vivos. Só para poderem pedir a alguém.

–  E estes campos, tradicionalmente vossos, foram-vos retirados?

– Foram. Nós só ficámos com o descampado.

–  E agora?

– Agora somos descamponeses.

–  E bichos, ainda há aqui bichos?

– Agora, aqui só há inorganismos. Só mais lá, no mato, é que ainda abundam.

–  Nós ainda ontem vimos flamingos…

– Esses se inflamam no crepúsculo: são os inflamingos.

–  E outras aves da região. Pode falar delas?

– Antes de haver deserto, a avestruz pousava em árvore, voava de galho em flor. Se chamava de arvorestruz. Agora, há nomes que eu acho que estão desencostados. . .

–  Por exemplo?

– Caso do beija-flor. É um nome que deveria ser consertado. A flor é que levaria o título de beija-pássaros.

–  Mas outros animais não há?

– A bichagem vai acabando. O mabeco, dito o cão-selvagem, vai sofrendo as humanas selvajarias. Antes de acabar a lição, ele já terá aprendido a não existir.

–  Parece desiludido com os homens.

– O vaticínio da toupeira é que tem razão: um dia, os restantes bichos lhe farão companhia em suas subterraneidades. Eu acredito é na sabedoria do que não existe. Afinal, nem tudo que luz é besouro. É o caso do pirilampo. Pirilampo morre? Ou funde? Suas réstias mortais aumentam o escuro.

–  Tanta certeza na bicharada…

– Você não olhou bem esse mundo de cá. Já viu pássaro canhoto? Camaleão vesgo? Papagaio gago?

–  Acredita em ensinamento de bichos?

– Todo o caranguejo é um engenheiro de buracos. Ele sabe tudo de nada. Há outros, demais. O mais idoso é o escaravelhinho. Mas, de todos, quem anda sempre de janela é o cágado.

–  Você não sofre de um certo isolamento?

– Sou homem abastecido de solidões. Uns me chamam de bicho-do-mato. Em vez de me diminuir eu me incho com tal distinção. Como antedisse: a gente aprende do bicho a não desperdiçar. Como a vespa que do cuspe faz a casa.

–  Mas a sua mulher não lhe faz companhia?

– Ela é minha patrã. De vez em quando a gente dedilha uma conversa. É uma acompanhia, faz conta uma estação das chuvas. Mas a tradição nos manda: com mulher a gente não pode intimizar. Caso senão acabamos enfeitiçados.

–  Uma última mensagem.

– Não sei. Feliz é a vaca que não pressente que, um dia, vai ser sapato. Mais feliz é ainda o sapato que trabalha deitado na terra. Tão rasteiro que nem dá conta quando morre.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

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