Arquivo da categoria: notas biográficas

Hildeberto Barbosa Filho (Escritor Paraibano Constrói Panorama do Nordeste Literário)

Publicado em 5 de janeiro de 2006

Às voltas com a materialização simultânea de diversos projetos, o escritor paraibano Hildeberto Barbosa Filho fez uma rápida pausa na preparação de seus dois novos livros, para cumprir, na capital maranhense, mais uma etapa de sua peregrinação pelo Brasil. Ele esteve durante três dias em São Luís, no final do mês de maio passado, para vir apresentar, de corpo presente, a obra do poeta maranhense Nauro Machado. Além de autografar o livro Literatura na Ilha (poetas e prosadores maranhenses), Barbosa Filho acompanhou o lançamento do novo tomo da coleção Melhores Poemas, da Global Editora, dedicado à obra de Nauro Machado.

Aos 51 anos, Hildeberto Barbosa Filho vem saboreando uma experiência com a qual sonhava há muito tempo: compor um panorama da produção literária dos Estados do Nordeste brasileiro. Este mapeamento já resultou em vários títulos, entre os quais Letras Cearenses; Os Labirintos do Discurso, painel da literatura paraibana; e O galo da torre, sobre as expressões literárias do Rio Grande do Norte. O autor acaba de concluir Pelo Rio das Imagens, livro sobre a literatura pernambucana, a ser publicado no próximo mês de outubro, por ocasião da Bienal do Livro, em Recife. Estes livros são fruto de uma intensa atividade de crítica militante do autor, sobretudo em jornais e revistas, num período que já compreende mais de 20 anos. Com a seleção e a triagem dos artigos que considera mais sólidos, dentre os publicados na imprensa, Barbosa Filho vem reunindo em livros tudo o que já conseguiu garimpar com seus ensaios e suas pesquisas. Ele explica que sua pretensão é a de dar uma visibilidade à produção literária nordestina, não só entre os próprios nordestinos. 

Curiosamente, do ponto de vista sociológico, nós, nordestinos, nos desconhecemos muito, apesar de morarmos em Estados relativamente próximos, como Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. Da mesma forma, no Maranhão, no Piauí e no Pará existe um desconhecimento mútuo do que se faz nestas regiões. Então a minha preocupação é no sentido de tornar visível, para nós mesmos, o que fazemos, na medida em que lançamos estes livros nos diversos Estados, com isso criando uma espécie de intercâmbio, afirma Hildeberto Barbosa Filho.

Perseverante e abnegado, o escritor vem percorrendo o Brasil com esse propósito de dar visibilidade ao Nordeste literário também no eixo Rio-São Paulo. Tenho feito incursões nas regiões economicamente mais desenvolvidas do país, porque existe uma atitude preconcebida por parte da indústria editorial, com relação às regiões periféricas: o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste. É uma forma também de se dar a conhecer o que se faz aqui dentro desse plano mais amplo da nacionalidade. É uma forma de dizer que a literatura nordestina existe, é muito rica, muito sugestiva e não deve se envergonhar em relação ao que se faz no eixo Rio-São Paulo. Ao lançar em São Luís o livro A Literatura na Ilha (poetas e prosadores maranhenses), o autor explicou que a obra faz parte de uma arrojada iniciativa. É um projeto meu, particular, que visa mapear a produção literária nordestina mais contemporânea, dos anos 50 para cá. 

Literatura na Ilha enfoca alguns dos autores mais representativos da literatura maranhense contemporânea. Como venho realizando um trabalho de crítica de literatura no Nordeste, esse livro acabou nascendo. Ele não foi planejado. Reuni alguns ensaios, contemplando poema e prosa e isso acabou gerando o livro, assim como aconteceu nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, informou o professor. Os escolhidos, além de Nauro Machado, são Luís Augusto Cassas, José Chagas, Salgado Maranhão, Ferreira Gullar, Lago Burnett, Laura Amélia Damous, Sebastião Moreira Duarte, Weliton Carvalho, Arlete Nogueira da Cruz e Lino Raposo Moreira. A intenção do livro é também dar visibilidade à literatura produzida hoje no Nordeste. Quero mostrar também os trabalhos feitos fora do eixo Rio-São Paulo, onde há um monopólio editorial, voltado exclusivamente para o lucro econômico. Quero mostrar esses trabalhos realizados no Nordeste e que são menos conhecidos, destacou.

A SAGA DE DOIS BRASIS

Autor de 32 obras, entre coletânea de poemas e livros de crítica e ensaios teóricos, o escritor paraibano constata que a literatura nordestina, em certos aspectos, chega a apresentar uma qualidade até mesmo mais robusta. Mas os críticos e os colunistas dos grandes jornais e das grandes revistas fazem questão, por um complexo de superioridade, que é tão grave quanto o complexo de inferioridade, de se manterem indiferentes e com isso quem perde na verdade são eles. Porque nós, como temos o complexo de inferioridade, também negativo, mas que termina sendo bom, nos obrigamos a conhecer tudo o que eles fazem. E acaba acontecendo muito o seguinte: nós conhecemos o que fazemos e o que eles fazem. Eles só conhecem o que fazem; não conhecem o que fazemos. Então eles perdem no debate. O escritor confessa que já teve a oportunidade de demonstrar várias vezes, em palestras e seminários e, recentemente, por ocasião do Prêmio Portugal Telecom, do qual integrou o júri nacional, que há uma ignorância nababesca em relação ao Nordeste literário. Eu pude perceber, nas discussões dos colegas do Sul, que são muito capazes e competentes, que eles desconhecem, de forma principesca, a nossa realidade literária, cultural e, às vezes, até a realidade política e econômica. Isto, a meu ver, é uma coisa secular, é uma reprodução do colonialismo por que passou o país ao longo da nossa História. 

Paraibano de Aroeiras, Hildeberto Barbosa Filho mora há mais de 30 anos em João Pessoa. Ele bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal da Paraíba; tem curso de Licenciatura em Letras Clássicas e Vernáculas (UFPB); Especialização em Direito Penal, pela USP e Mestrado em Literatura Brasileira, pela UFPB, com dissertação intitulada Sanhauá: poesia e modernidade. Logo cedo, iniciou sua vida de professor, lecionando Língua Portuguesa e Literatura Brasileira em colégios públicos e particulares. Ingressou no ensino superior, através de concurso público, sendo, atualmente, professor da Universidade Federal da Paraíba (Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa), no Curso de Letras, ministrando aulas, também, no Curso de Comunicação Social, e ao mesmo tempo prepara-se para concluir o curso de doutorado em Literatura Paraibana. 

Algumas das publicações de Barbosa Filho marcaram época como A Caligrafia das Léguas, O Ofertório dos bens naturais, A Ira de Viver, A geometria da paixão; O livro da agonia e outros poemas; São teus estes boleros; O exílio dos dias; Desolado lobo; A comarca das pedras;. Crítica literária e ensaios: Aspectos de Augusto dos Anjos; A convivência crítica: ensaios sobre a produção literária da Paraíba; Ascendino Leite: a paixão de ver e sentir; Osias Gomes: a plenitude humana e literária; Sanhauá: uma ponte para a modernidade; A impressão da palavra: literatura e jornalismo cultural; Os desenredos da criação: livros e autores paraibanos; e Namoro com a doce banalidade.

Além de professor universitário, Barbosa Filho é crítico literário, escritor, poeta e jornalista. Mantém uma coluna no jornal O Norte, escrevendo sobre literatura. Colabora nos jornais A União, Correio da Paraíba, O Momento, Correio das Artes; Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco (PE); O Galo (RN), O Pão (CE); D.O. Leitura (SP); Suplemento Literário de Minas Gerais (MG) e a Revista Cultura Vozes (RJ). Coordenou o Projeto LER e editou a revista Ler. Constantemente, é convidado para participar de simpósios, congressos e seminários como palestrante e conferencista. Assumiu a Cadeira nº 6 da Academia Paraibana de Letras, em 10 de setembro de 1999, recepcionado pelo acadêmico José Octávio de Arruda Mello.

Fonte:
Edição 108. 5 de janeiro de 2006

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Sopa de Letras

Cássio Pantaleoni (Por que Precisamos de Poesia?)

A pergunta-título que ora se coloca não refere quem a reclama. Poderia ser formulada por quem se depara com a poesia e que, enfadado, desdenha-a. Por outro lado, poderia ser feita pelo próprio poeta, como tentativa de encontrar justificação para sua lida. Contudo, precisamos, sem pressa, preservá-la em sua condição ambivalente, para que possamos responder, tanto ao poeta quanto ao leitor mais refratário, algo que se avizinhe com o real sentido do que se investiga.
Primeiramente, é necessário dizer que se engana aquele que afirma encontrar o traço da premeditação na elaboração poética, como se houvesse alguma intenção prévia do poeta, pretendendo expor algo que já antes andava em convívio com sua alma. Ao contrário, a poesia é rastro de espontaneidade, algo que é deixado como evidência daquilo que é inaugurado no instante em que se manifesta, vazando desinteressada das fímbrias do espírito. É uma incontinência que se conforma em versos, redondilhas e lirismos. 
Ressalte-se que a elaboração poética é, sempre e de algum modo, uma distensão dos costumes, da cotidianidade, expressão que flerta com os sentidos que ainda não nos são de todo conhecidos. É fácil compreender isso. Se concordarmos que o espírito – a cultura – é uma justaposição das idéias do mundo na borda da história, então a poesia é referência, pois nos fala desde um ponto comum, formas e conteúdos legados pela cultura. Também é acedência, possibilitando o acesso para uma nova região do sentido. Ela consente que outros recursos possam colaborar para o entendimento dos tempos em que se vive e das possibilidades futuras, mostrando-se ainda como importante percurso para a invenção de novas acepções. Ela retira do discurso familiar o que é comum a todos para então projetar algo que estranha. A poesia é uma intemperança. 
Podemos perguntar se ela – a poesia – é algo presciente, ou se simplesmente se trata de uma irrupção, e assim investigar os fundamentos dessa disposição dos poetas. Mas talvez assim estaríamos desistindo daquilo que efetivamente está em jogo na poesia – o outro. 
É difícil imaginar que o poeta escreva para si mesmo, mesmo quando assim diz fazer, tal como um agente solitário diante de um mundo de descaso. Ele já sempre discorre diante de. Esse estar diante de é um estar junto com o outro de modo análogo, mas contraposto; conforme, mas independente. O poeta busca denunciar a familiaridade dos discursos. Ele avizinha representação e apresentação, sugerindo uma aventura, convidando à travessura. Assim, o poeta sempre é de algum modo diante de e adiante do outro, mas nunca sem antes encontrar conforto naquilo que aí está como legado das idéias do mundo. A poesia só existe no campo de uma certa inteligibilidade. É uma reconsideração do sentido que só pode ser realizada mediante o outro. Reconsiderar o sentido é especular, no imaginário coletivo, acerca das possíveis intenções perdidas na linguagem, contudo sem recorrer à intencionalidade. A espontaneidade é o destino da poesia e seu começo. Não poderia haver mediação intencional. Intencionalidade é imposição, é desconsideração do outro. 
Responde-se assim porque precisamos da poesia. Pois, poetas ou não, necessitamos crer na espontaneidade. Precisamos crer que ainda é possível se libertar desse condicionamento dos discursos, das idéias, dos rituais sociais. Precisamos recuperar a espontaneidade de modo arrebatador, precisamos ser tomados por ela de tal forma que cada gesto ou palavra seja uma manifestação verdadeiramente divina. Quando perdemos a espontaneidade deixamos a condição humana à deriva, pois aí, sem ela, o que visamos é apenas a autoconsideração. 
Como inspiração, vale lembrar Quintana: “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão…eu passarinho!” .
––––––––––
SOBRE O AUTOR
Cássio Pantaleoni é Mestre em Filosofia pela PUCRS no campo de especialização da Fenomenologia e da Hermenêutica. Escritor, finalista da edição de 2011 da Categoria Contos da AGES, finalista do concurso de Contos Machado de Assis do SESC-DF em 2011, Segundo Lugar no 21o. Concurso de Contos Paulo Leminski em 2010, fundador da editora 8INVERSO e profissional da área de Tecnologia da Informação. Autor de “Os Despertos” (2000), “Ninguém disse que era assim” (2002), “Desmascarando a incompetência” (2005), “Histórias para quem gosta de contar histórias” (2010) e “A Sede das Pedras” (2012).cassio@8inverso.com.br
Fontes:

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Sopa de Letras

Eliezer Demenezes (Poemas Escolhidos)

Nasceu em Fortaleza, Ceará, a 11 de Março de 1910. Filho de Francisco Simões da Costa e Maria de Menezes Costa.


Residiu no Rio Grande do Sul desde os 17 anos de idade, onde fundou e dirigiu a revista “Clímax”, de feição tipicamente moderna. Pertenceu ao grupo chamado do Sul, ligado à Editora Globo, colaborando na “Revista do Globo” e “ Província de São Pedro”, e nas outras revistas e jornais daquele Estado. 

Em 1942 foi para o Rio de Janeiro.

Bibliografia
“Poemas da Hora Amarga”, 1943 – Porto Alegre.

—-

” CANTIGA DE AGORA E SEMPRE “
Veio o vento. Veio a chuva.
Foi-se a lava. Onde o céu.
Um chão riscado de mágoas.
Um mar revolto de sonhos.
Perdido alguém sem razão.
Caiu a estrela no fundo.
Fundiu-se o astro nas algas.
Luziu o fogo, – por quem.
Estradas de não sei onde
cruzando o destino meu.
Apelos de toda parte
– caindo em brasa nas almas,
torcendo as rotas do mundo.
Cantiga de agora e sempre.
A! Meu amigo sem face,
meu irmão que não tem nome,
– tão em mim e além eu, –
murchou a rosa dos ventos
no caule de tuas mãos!
” DULCE, – MAR, ESTRELA E SONHO “
Dulce, – mar, estrela, sonho.
Mar de estranhas águas e roteiros.
Estrela e sonho em minha mão.
Que primeiro barco te singrara.
Que primeiro gesto te colhera.
Estrela e sonho em minha mão.
Mar de aventuras e naufrágios,
longas vozes ressoam no teu corpo,
e há tesouro submerso e navios perdidos em ti.
De que longínquo céu caíste em chamas.
Estrela e sonho em minha mão.
Há em tuas margens enseadas e abrigos,
Há no teu seio, – ilhas.
E passeio neles como um peixe ou uma nuvem,
Mar que mergulho, e afloro, e navego.
Estrela e sonho em minha mão.
” ELEGIA À BRANCA IRMÃ “
É, inútil inscrever o teu nome
na pauta perdida do sonho.
Correm lágrimas na face das esfinges
e no rosto dos mortos.
Agora a desolação.
Talvez, algum dia,
possa se inscrever com a mão pesada e dolorida de séculos
o teu simples nome de três letras, ingênuo e promissor.
Agora o insossego.
Agora a devastação.
As fontes secaram na alma dos homens.
Agora é inútil o teu nome.
Estou triste e desolado
como o leito sem água de um rio, abrasado de sol.
” POEMA À AMADA CONSTANTE “
Teus olhos estão lânguidos.
E nascem cardos e urzes no meu pensamento.
Teus lábios falam promessas e pedem consolo.
E sou a árvore muda destroçada pela tempestade do mar.
Me convidas para a viagem da tua ternura.
E me obstino em ignorar a tua presença compassiva,
em comer os frutos maus e amargos da terra,
em procurar o teu oposto e a tua negação,
quando tudo em mim arde por ti, minha paz e meu bálsamo.
Minha vida e meu chão estão cheios de cinzas, –
não manches a tua túnica límpida
pois quero-te assim branca e pura.
Meus ouvidos transbordam de gritos.
Minha garganta sufoca-se de brados.
E no meu mar interior
andam barcos de velas negras,
e feios pássaros de bico recurvo,
e é noite, sempre noite sobre as águas…
Espera,
que voltarei com meu lado melhor, redimido e teu.
” POEMA A MINHA MÃE MORTA QUE NÃO CONHECI “
A tua mão pálida e ausente
tracejando bênçãos sobre meus sonhos aflitos.
Onde estas que apenas te suponho.
Na raiz dos meus pensamentos
Na força obscura dos meus desejos melhores
És talvez esse vôo desgarrado de esperanças,
que há em mim.
És talvez esse veleiro em mar alto à procura de náufragos,
que há em mim.
Na minha vida és como uma ficção ou a lenda de um milagre.
Algo que ficou intangível e suspenso.
Entretanto,
eu guardo na boca a impressão do teu seio
e o gosto do teu leite e do teu sangue.
As palavras, a ternura, os devaneios teus
que se fundiram no silêncio
repousaram na minha carne, certamente.
A tua face esta voltada para mim em mim mesmo,
e talvez só agora que a reconheci
eu possa me chamar de teu f ilho.
Fonte:
 Antologia da Nova Poesia Brasileira.  J.G . de  Araujo Jorge – 1a ed.   1948 . 

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Poemas

Artur de Carvalho (Tá Com Essa Cara Por Quê?)

Cientistas ingleses afirmaram que já é possível fazer transplantes de rosto.

É isso mesmo. Eu li a notícia numa dessas revistas de ciências, no consultório do meu médico A ideia dos cientistas é retirar a pele do semblante de um doador e reimplantá-la em outra pessoa. Afinal, eles dizem, a pele é apenas mais um órgão humano e, se já é possível fazer transplantes seguros até do coração, que é muito mais complicado, por que não da pele?

Eu fiquei abismado. Primeiro que eu nem sabia que a pele era considerada um órgão.Segundo que essa operação oferece possibilidades que beiram a ficção científica.

É, porque, embora os tais cientistas ingleses afirmem que a intenção deles é apenas recuperar pessoas desfiguradas por queimaduras, eu duvido muito que a coisa vá ficar por aí.

Você agora pode mudar de cara, entende? Quem sabe se, daqui alguns anos, a gente não vai poder escolher novas feições numa clínica ou até mesmo num supermercado ou num shopping?

A maioria das pessoas com quem comentei a notícia ficou entusiasmada. Afinal, quase ninguém é muito feliz com a cara que tem. Um reclama do nariz mais protuberante. A outra, de suas orelhas de abano. Um terceiro que tem muitas espinhas. Todo mundo quer mudar de cara.

Apenas um dos meus amigos não gostou muito da ideia. E com uma certa dose de razão.

— Eu é que não troco a minha cara. Apesar de feia, com essa pelo menos eu já estou acostumado.E, mesmo se fosse para trocar, eu ia querer a cara de quem? É uma pergunta interessante. A cara de quem você gostaria de ter? Do Silvester Stallone? Não. Acho que eu prefiro alguma coisa um pouco mais intelectual, Talvez do Woody Alien. Não, também não. Eu nunca fiquei bem de óculos. Do Tom Cruise? Não. As fãs não iam me deixar em paz. Do BilI Gates? Bem, só se, junto com a cara, viesse também seu saldo bancário. A verdade é que é muito difícil escolher uma nova cara.

— E tem outra— continuou meu amigo—, já imaginou ter a cara de outro homem ali, o tempo todo, encostadinha em você? Cai fora, sô…

Mas é claro que, apesar das dificuldades, muitas pessoas iam acabar aderindo aos transplantes de rosto. Umas por vaidade. Outras só porque é moda. E muitas por razões que a gente menos imagina.

— Mãe? Mas que cara é essa???

— Eu troquei de cara, filho.

— Mas… é a senhora mesmo?

— É claro que sou eu, meu filho.

— Mas essa cara, mãe, essa é a cara da… da…

— Joana Prado, filho, eu sei.

— Mas logo da Feiticeira, mãe! Não tinha outra cara pra você colocar?

— Pois é, filho. É que eu quis fazer uma surpresa pro seu pai. Pro meu pai?!

— É. Ele sempre vivia falando dessa Feiticeira pra cá, Feiticeira pra lá. E eu quis fazer uma surpresa pra ele e coloquei a cara dela.

— Puxa vida, mãe… Mas… e o pai gostou?

— Gostou nada. Quem é que disse que era da cara da Feiticeira que seu pai gostava?

==========
Artur de Carvalho colabora com o “Diário de Votuporanga”, interior de São Paulo, desde 1997. É autor dos livros “O Incrível Homem de Quatro Olhos”, edição do autor — Votuporanga, 2000, e “Pah!”, Vialettera Editora, 2003. Além de excelente escritor, Artur é um cartunista dos melhores, com um traço bem diferente, que você poderá ver em seu site, e lá comprar os livros.
http://www.arturdecarvalho.com.br

Fontes:
http://www.releituras.com.br/acarvalho_menu.asp
Imagem = http://www.todanoticia.com/15411/finaliza-exito-francia-primer-transplante/

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra, São Paulo

Sylvie Neeman (Sábado na Livraria)


artigo por Celso Sisto para o site http://www.artistasgauchos.com.br

NEEMAN, Sylvie. Sábado na livraria.
Ilustrações de Olivier Tallec.
Tradução de Cássia Silveira.
São Paulo, Cosac Naify, 2010. 32p.

Sempre se pode celebrar a vida com um livro. Com uma boa história. Para presentear a memória, para apaziguar os medos, para refazer a linha do nosso horizonte pessoal.

Pois este livro trata do amor aos livros. Um homem, freqüentador assíduo de uma livraria, é visto pelos olhos de uma menina. Ela acompanha suas ações, porque sempre está na livraria no mesmo dia em que ele está: aos sábados. Ele lê sempre o mesmo livro, sentado em uma poltrona, enquanto ela lê histórias em quadrinhos. O livro dele é pesado, o dela é divertido. O dele é grande, o dela acaba logo. Ele se emociona, ela repara. Até que um dia ele some. A menina se pergunta se ele estaria doente. O Natal se aproxima. Três dias antes, ele aparece novamente na livraria, e quando vai procurar o tal livro nas prateleiras, não o encontra. Estava certo de que ele finalmente havia sido vendido, sabia que esse dia chegaria, e prepara-se para voltar para casa, meio pesaroso, quando é surpreendido pela dona da livraria, com um pacote dourado.

A história é narrada pela menina, que presta atenção em tudo o que o velho faz na lojaa. Ela vai comparando-se a ele, a partir de suas atitudes, seus gostos, suas preferências, suas reações. O olho, como instrumento privilegiado da observação, vai costurando a história, fazendo de sua dona uma grande observadora da vida ao redor e de si mesma. O livro que cada um deles lê é um guardado de afetos: com o lugar (a livraria), com a leitura, com os leitores que se reconhecem na paixão do outro. E embutido nessa relação, estão as ideias de tempo, de constituição do leitor, de funções da leitura. Tudo de forma sutil, é claro.

O texto, bem distribuído nas páginas, é simples, direto, curto, e com lacunas que servem para reforçar um certo clima de mistério, de preservação das intimidades. Mas, também funciona como uma lente, e na medida em que vai se aproximando dos “retratados”, vai revelando, maiores detalhes.

As imagens do livro são grandes, de páginas duplas e com pinceladas fortes, com grande massa de tinta e cenas preparadas para provocar impressões! Predominam os azuis e os amarelos. O azul escuro reforça o tom invernal. O amarelo dá uma dimensão afetiva, uma humanidade para os personagens da história. O ilustrador não esconde os traços de grafite, o que confere ao livro uma atmosfera de intimidade, de participação em um segredo, coerente com o clima de aconchego suscitado por cada página.

A pergunta que fica ecoando por trás das observações da menina que olha o velho enquanto lê, poderia servir para todo e qualquer leitor: quem prazer se pode tirar disso? E vem ainda associada à sensibilidade decorrente do período natalino.

A autora nasceu na Suíça e estreou na literatura infantil com esse sensível livro. O ilustrador é francês e já fez mais de cinqüenta livros infantis. A sutileza da dupla, ao contar uma história tão recheada de emoções conduz o leitor do início ao fim. Não seria essa uma história de fins?
=======================
Celso Sisto
Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e crítico literário de várias colunas dedicadas à literatura infantil e juvenil, na mídia impressa e on line. http://www.celsosisto.com/

Fonte:
http://www.artistasgauchos.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, notas biográficas, Sopa de Letras

Maria Helena Bandeira (As Estrelas, As Galáxias, O Universo)

Quando a gente está sozinha em casa, todos os barulhos são importantes. 

Os móveis rangem, o tapete ganha vida, os pingentes do lustre estalam perversamente.

O silencio é povoado de sons e no momento que a campainha tocou foi como se uma bomba explodisse dentro do meu ouvido. Levantei-me num choque e fui atender ao seu chamado.

Antes, espiei pela janelinha:

Lá estava eu, do outro lado, aguardando que a porta se abrisse.

Procurei me acalmar e usei um ardil.

“Quem é?”

Mas eu não me intimidava e respondi que era Antonio, o porteiro.

Não tive remédio senão abrir a porta.

Continuando o plano anterior, fingi não ter me reconhecido.

O pretexto era banal: a água iria ser fechada por uma hora para consertos no prédio.

Desprezei a falta de imaginação e também representei meu papel. Agradeci e fechei a porta delicadamente.

Então era assim.

Corri até o banheiro e olhei minha imagem refletida no grande espelho sobre a pia. No cristal eu estava obediente e senhora de mim. Seguia meus movimentos com precisão. Ali fora capturada e permanecia tranqüilamente às minhas ordens.

Fiz mais alguns movimentos, todos repetidos simetricamente pelo meu inverso. Tranqüilizada, voltei ao trabalho e aos ruídos familiares do meu silêncio interior.

Na hora do almoço, a dúvida me assaltou: quando passasse pela portaria será que eu estaria lá, fingindo ser o porteiro-chefe?

Havia um meio de descobrir.

Desci e lá estava eu sentada no banquinho ao lado do portão.

Procurei não dar importância e saí calmamente para o restaurante onde fazia as refeições.

Quando o garçom chegou, foi preciso usar astúcia novamente: o garçom também era eu.

Disfarcei e olhei para os lados: os fregueses, sentados nas mesas ao redor, todos eram eu e fingiam não me reconhecer.

Resolvi agir como eles e continuei nossa comédia. Escolhi os pratos, almocei, paguei a conta e saí, como se nada de estranho tivesse acontecido.

Na calçada, entre um e outro transeunte, eu me avistava a andar apressado.

O jornaleiro era eu e nos cumprimentamos indiferentes.

Passeava pela rua e nos meninos que brincavam com a bola, na garota de bicicleta, na jovem de mini-saia, em muitos me reconhecia, mas já não importava.

Todas as pessoas, aos poucos, rapidamente, cada vez mais depressa, iam se tornando meu espelho.

E vagavam, separadas de mim, em corpos que eu não controlava.

As lojas eram eu.

Cada tijolo e pedra da calçada também eram meu outro.

E eu era as árvores e os telhados. O céu era eu e as estrelas que brilhavam sobre minha cabeça. E eu era o Sistema Solar, era a Galáxia e o Universo.

Eu era tudo e, então, finalmente, era Ninguém.
===============
Sobre a autora:
Maria Helena Bandeira é carioca, jornalista, artista plástica e escritora.
Menção especial do Prêmio Guararapes (União Brasileira dos Escritores) – livro de poesia inédito).
Conto brasileiro do mês da “Isaac Asimov Magazine”.
Colabora para o fanzine “Somnium” e em vários sites literários, como blocos Online,
onde se dedica a uma série literária.


Fonte:
Scarium

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, notas biográficas

Fábio Reynol (O Vendedor de Palavras)

Ele ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que quase não se iam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grave, “indigência lexical”.

Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica: pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado para cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia:

“Histriônico — apenas R$ 0,50!”.

Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse:

— O que o senhor está vendendo?

— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos, como diz a placa.

— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.

— O senhor sabe o significado de histriônico?

— Não.

— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.

— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.

— O senhor tem dicionário em casa?

— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.

— O senhor estava indo à biblioteca?

— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.

— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra

por apenas cinqüenta centavos de real!

— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?

— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.

— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?

— O senhor conhece Nélida Piñon?

— Não.

— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito

pouco lidos por aqui.

— E por que o senhor não vende livros?

— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.

— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.

— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos

pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os
relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho

maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.

— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um…

— Jactância.

— Pegar um livro velho…

— Alfarrábio.

— O senhor me interrompe!

— Profaço.

— Está me enrolando, não é?

— Tergiversando.

— Quanta lenga-lenga…

— Ambages.

— Ambages?

— Pode ser também evasivas.

— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!

— Pusilânime.

— O senhor é engraçadinho, não?

— Finalmente chegamos: histriônico!

— Adeus.

— Ei! Vai embora sem pagar?

— Tome seus cinqüenta centavos.

— São três reais e cinqüenta.

— Como é?

— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.

— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?

— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?

— Tem troco para cinco?

———————————-
Significado das palavras

Jactância.
1.Vaidade, ostentação. ; 2.Arrogância, orgulho.

Alfarrábio.
Livro antigo ou velho; cartapácio.

Profaço.
Estorvar, dificultar, impedir.

Tergiversando.
do verbo tergiversar
1. Procurar rodeios, evasivas. 2. Fugir do assunto principal. Enrolar.

Ambages
lenga-lenga

Pusilânime.
1.Fraco de ânimo, de energia.; 2.Falto de coragem; covarde.

Histriônico
1. Vil comediante, palhaço. 2. Fig. Charlatão. 3. Homem abjeto pelo seu procedimento.

——————

Fábio Reynol (Campinas/SP, 1973), é jornalista e cronista. Publica parte de sua produção literária em seu blogue, o Diário da Tribo (www.diariodatribo.com.br), e é autor da coletânea O vendedor de palavras — crônicas de um país de tanga na mão e corda no pescoço (São Paulo: Baraúna, 2008). Especialista em Ciência e Tecnologia, trabalha como repórter de revistas científicas e é mestrando em Divulgação Científica e Cultural na Universidade Estadual de Campinas.
Fontes:
Texto enviado por Francisco Pessoa Reis
Biografia obtida em Germinal Literatura
Significado das palavras obtido no Dicionário Aurélio e Dicionário Informal

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra, São Paulo

Carlos Nascimento Silva (Desconcerto)


— Papai Noel não existe — disse Ninico, baixinho, concentrado no fundo do copo de conhaque Napoleão.

Já eram onze horas da noite e os quatro, em volta da pequena mesa de tampo de mármore mal polido, terminavam a quinta rodada, um pouco sonolentos, meio nostálgicos pelo passamento da data, o bar vazio de fregueses, o Joaquim da Maria a cabecear cochilos sobre o alto banco de madeira, por trás do balcão.

— O quê que você disse? — assustou-se Feliciano, levantando a cabeça para olhar o amigo — Que Papai Noel não existe? O que você quer dizer com isso?

— Ele quer dizer que Papai Noel não existe — confirmou Mariano, tautológico, os olhos vidrados, mirando de esguelha a luz amarelada do poste, no outro lado da rua — Ora, você não sabe que o Ninico adora afirmações controvertidas? Ele sabe muito bem que não pode provar isso. E só provocação.

— Não… eu acho mesmo que não existe. Não é polêmica, não, só que ele não existe — confirmou Ninico mansamente, ainda olhando o fundo do copo.

— Deixa de bobagem, isso você sabe desde os cinco anos! Feliciano, terra a terra, evitando a armadilha da filosofia barata de Mariano.

— Tá bom, se vocês querem passar a noite de Natal dizendo coisas sem sentido, por que não? — Mariano, cansado. — Eu não tenho ninguém me esperando em casa; nem vocês. Só o João. Mas vocês têm que concordar comigo que não se pode provar isso: nem afirmar, nem negar. Não de forma consistente — concluiu exato, taxativo.

— Como você coloca, em termos puramente lógicos, é claro que não. Mas você também vai ter que concordar que, nesses termos, o que se pode discutir é muita pouca coisa. Afinal, se você descarta o que não é passível de prova, o que se pode discutir? O que está provado? Mas isso, por definição, não dá margem à opinião, portanto, à discussão — Feliciano, perdendo a paciência com Mariano. — De mais a mais, isso é uma conversa, só isso, uma discordância entre duas pessoas que têm diferentes opiniões.

Mariano ia responder à aporia absurda, mas emburrou, e caiu um silêncio incômodo sobre a mesa. Amigos antigos, aquilo não era anormal em sua convivência diária. Cada qual conhecia, demasiadamente bem, o pensamento do outro, havia mais de vinte anos, o que permitia um entendimento rápido entre eles. Os desacordos eram conhecidos, paredes intransponíveis de há muito reconhecidas, respeitadas, ou talvez, apenas toleradas, meras impossibilidades interpessoais: convicções vivenciais, definiria Feliciano.

E foi, com surpresa, que os três ouviram João Pedroso dizer:

— Não, Ninico, você está errado. Todos vocês estão errados. Não só ele existe como pode ser provado. Quero dizer, eu posso provar, e outros, talvez, também.

Ninico tirou os olhos do copo, lentamente, discordante, suspeitoso. Os dois outros olharam o amigo sorrindo, suspicazes. Não era discordância, mas incredulidade ou, talvez, a expectativa de uma brincadeira do João. Mas o rosto do amigo estava sério, vincado.

— Ah! Pára com isso, João! Você também? — exclamaram ambos, rindo, com pequenas variações de palavras, mas a mesma significação.

João Pedroso olhou cada um dos amigos com o rosto tenso, amargurado, e não se deu ao trabalho de responder a qualquer deles, o pensamento vagueando por um mundo antigo, perdido, passado.

— Eu nunca contei isso a vocês. Nunca falei disso a ninguém, aliás. Só de pensar, já me faz sentir mal, como uma nuvem escura de tempestade, um certo mal-estar, algo maligno.

O ambiente da mesa mudara. A descontração da conversa se fora, deixando uma tensão progressiva nos corpos, no ar. A própria iluminação no bar, na rua, mudara, como que enfraquecida por uma queda de voltagem tão comum naquela cidadezinha. Ninico contraiu os músculos dos ombros, os intercostais, sem se dar conta. Os demais, mexeram-se nas cadeiras, incomodados, sem saber com o quê.

— Eu devia ter uns sete anos, por aí, e o colégio já se tinha encarregado de tirar algumas ilusões que minha mãe alimentara por toda a meninice. Esta não foi, certamente — disse João Pedroso com o ar sonhador de quem relembra a primeira infância — a última delas.

Ele já não se lembrava mais das circunstâncias exatas, das causas ou do motivo que o levara a fazer o comentário com a mãe, mostrando a sabedoria que adquirira longe do ninho que, afinal, o enganara com aquela mentirinha.

— Eu estava me mostrando, para minha mãe, orgulhoso de como eu já estava crescido, virando homenzinho. Não era uma recriminação a meus pais, nem nada parecido, e fiquei muito assustado com sua reação violenta, seus gritos que só terminaram com minhas lágrimas, abraços, beijos e pedidos de desculpa.

João Pedroso virou o resto do conhaque e olhou os amigos buscando encorajamento.

— Em resumo, minha mãe disse que o Natal só existia para quem acreditava nele. Era pegar ou largar, simples assim. Quem era bom, obedecia aos mais velhos e acreditava no que o Natal significava era recompensado com os presentes, mimos e doces que eu sempre conhecera. Em caso contrário, nada feito: a escolha era de cada um. E esse era o motivo pelo qual muitos meninos não acreditavam em Papai Noel, ou o inverso, como queiram.

João Pedroso pediu mais uma rodada de bebida, nesta altura muito bem-vinda, e contou que relatara aos colegas de colégio o que ouvira da mãe.

— Vocês podem imaginar como fui alvo das mais cruéis caçoadas no grupo escolar. Foi uma experiência bastante dura, dada minha idade. Não só riam de mim, me apontavam, no pátio da escola, como aquele que acreditava em Papai Noel e isso resultou num forte isolamento dentro do grupo.

É claro que o menino havia procurado diminuir o atrito insuportável. Naquela altura, a apostasia de suas crenças era o que menos o preocupava, mesmo que ele desconhecesse a palavra. Além disso, sua confiança na mãe estava abalada.

— Vocês entendem? Não era apenas uma questão de coragem moral, o que já é bem difícil para adultos quanto mais para uma criança pequena. Mas uma ruptura entre meu mundo primeiro, materno, e minhas crenças grupais, etárias, se vocês quiserem, enfim, do meu mundo, ou do mundo que se armava, não só à minha volta mas com minha participação, já que eu era parte integrante, ativa, dele.

A divisão era profunda, não pela questão em si, apenas, mas por tudo que significava. Afinal, aos sete anos não se tem senso crítico, e a cisão se tornou funda, sem termo médio que a diminuísse.

— De mais a mais — continuou João Pedroso — a forma como minha mãe colocara a questão, ou seja, em termos de crença, tornou impossível uma decisão. Claro, hoje eu posso ver isto com algum distanciamento. Mas naquela idade, eram pontos irreconciliáveis, um abismo de incerteza e indecisão que não podia ser aproximado. Enfim, uma polaridade insuportável que se estendia a toda matéria ética, estética, religiosa, abrangendo, mais tarde, todas minhas convicções sociais, políticas, econômicas. Em resumo, o mundo das idéias e das ações, como vocês mesmos colocavam o assunto, ainda há pouco.

— E então — perguntou Ninico, com seu jeito manso — como você saiu dessa?

— Não saí. Não havia como sair, e do meu ponto de vista infantil não só a questão não era nítida como seria a causa do mais completo desastre, dada a importância que o Natal tinha para mim, naquela época. Acho que minha aversão à data vem daí. Reparem nas implicações: ou me tornava um pária social, isto é, dentro da minha sociedade, a escola, meus amigos, ou minha mãe saberia de minha descrença, já que o Natal nada me reservaria, se ela tivesse razão. Mas o pior ainda não estava aí: não importava o que eu declarasse a uns e outros, a divisão permaneceria, interna, dentro de mim, mesmo que eu “quisesse” aceitar uma ou outra opinião, uma ou outra crença, já que era disto que se tratava. E então, a angústia foi excessiva e adoeci.

— Meu Deus, João, por que você não falou com sua mãe?

Obviamente não tinha sido esta a intenção dela — apartou Feliciano. — Ou mesmo seu pai, um tio, avô.

— A criança tem sua lógica própria. A reação dos dois lados, minha mãe e os amigos, foi tão oposta que o assunto se tornou, tabu, proibido, para mim. João Pedroso contou, então, como sua doença veio diminuir o conflito. Chegavam os primeiros dias de novembro e o médico o proibira de qualquer esforço, o que incluía sua ida à escola. Em casa, filho único, acamado nos primeiros dias pela febre nervosa, João Pedroso teve que enfrentar muitas horas de solidão e decorrente ensimesmamento. Filho obediente, ele queria muito acreditar no que a mãe lhe dissera, o que foi facilitado pela ausência dos colegas e amigos. Outra vez no ninho materno, a adequação ao movimento da casa, seus tempos, suas práticas, permitiram finalmente ao menino o retorno à cultura materna, matriarcal? E a doença se evaporou, como se jamais se houvesse instalado. A seqüência das férias consolidou seu melhor estado de saúde, e mesmo a aproximação do Natal não lhe trouxe maiores sobressaltos, uma vez que sua divisão interior quase desaparecera.
***
Cerca de meio século depois, João Pedroso saiu para o alpendre elevado, aonde raramente ia, tanto pelo vento cortante dos dias frios, como pela inclemência da luz, que galgava os céus, fronteira à fachada do sobrado nos dias de verão, e dirigiu-se à terceira coluna de tijolos ingleses envernizados. Contou sete blocos, de baixo para cima e, lentamente, sacou o pequeno tijolo, no silêncio da casa ainda adormecida. Apanhou algo que meteu no bolso da calça e voltou a encaixar o bloco em seu lugar, bem justo, sem deixar qualquer irregularidade que o diferenciasse dos demais.

A construção esquinada cavalgava um outeiro que lhe permitia sobrever, da rua em cotovelo que subia à esquerda, as casas menores, pouco acima do peitoril de suas janelas, enquanto à direita, telhados e beirais acompanhavam a íngreme descida. A quem passava, na rua, pouco mais lhe era permitido notar que a alta estante de livros, quase a atingir o teto de um dos cômodos, quando as pesadas cortinas não estavam corridas.

João Pedroso herdara do pai, na década de sessenta, o que a cidadezinha preguiçosa gostava de considerar sua mais bela construção, produto da corretora de café, então localizada no rés-do-chão do prédio, amanhada com proficiência e algum descortino comercial, desde os anos trinta.

Diferentemente do pai, João Pedroso nunca tivera a mesma capacidade, ou sua habilidade no jogo do comércio atacadista. Compras infelizes e vendas precipitadas tinham dilapidado o capital diligentemente acumulado, e a década de setenta viu a ruína do rendoso negócio paterno. Não que João Pedroso trabalhasse pouco ou mal. Ao contrário, a época adulta fora um nunca findar de trabalhos, esforços e preocupações cujos resultados, sempre negativos, haviam aportado no naufrágio mais completo.

“Quase como uma maldição”, repetia ao correr da vida, como um refrão ominoso, um dobre de finados. E então seu pensamento voltava ao pequeno pedaço de papel, cuidadosamente dobrado, metido sob o tijolo da sétima fileira da terceira coluna do alpendre.

Foi quando João Pedroso começou a jogar, na esperança de equilibrar o orçamento da casa, já que ao da firma não restava qualquer esperança. Da loteria estadual ao bingo, e deste ao bookmaker da cidade mais próxima, foi uma evolução tão rápida quanto danosa, desastrosa. A tentativa de sonegação fiscal da corretora de café, por um desses acasos improváveis, redundou numa multa que montava a quase dez vezes o valor do imposto, como uma pá de cal sobre a firma paterna.

A venda da parte inferior do prédio e suas instalações evitou mal maior, permitindo a João Pedroso manter a moradia no sobrado, embora o passadio fosse escasso e fortemente controlado. Móveis, roupas, enfim, qualquer despesa era eternamente, ou quase, protelada, ao custo de muito cuidado no uso de cada objeto, sentindo-se mesmo, na casa, a falta de qualquer comodidade que não viesse dos bons tempos. Ternos, gravatas, camisas sociais de colarinho engomado, o vinco das calças de tropical, os sapatos engraxados, tudo era alvo do trabalho cotidiano da mulher e duas pretas, retaguarda doméstica raramente entrevista entre o corredor e as áreas de serviço, partes da casa sem forro, construídas em telha-vã. O João Pedroso dos amigos era, por assim dizer uma ponta de iceberg, mostruário, vitrina da vida do sobrado e, por ele, a cidadezinha jamais saberia do real estado das finanças familiares. E assim ele arrastara os últimos anos, vivendo de pequenos expedientes, de despesas inexistentes.

Mas naquela manhã da véspera de Natal João Pedroso não estava preocupado com isto. Não dormira bem, rolando na vasta cama de casal que fora dos pais, ora puxando as cobertas até o pescoço, com arrepios de frio, ora empurrando-as para longe do corpo, em calores inusitados. E tão logo a luz cinzenta da manhã se filtrou pelas venezianas de madeira azul-claras, saltou do leito e, de camisolão e chinelas, dirigiu-se ao alpendre em silentes passos de gato. De posse do objeto demandado e, talvez porque o não tivesse tocado por mais de cinqüenta anos, meteu-o no vasto bolso sem lançar-lhe uma única mirada, dirigindo-se ao banheiro, para as abluções matinais.

Durante o café, enquanto passava uma vista ao jornal, João Pedroso sentia o pequeno papel — um bilhete? — como um objeto morno, no bolso do paletó, a pesar-lhe incomodamente o peito, e perguntou-se por que o pegara, após tantos anos, e com que finalidade.
***
— Bem, foi então que Alberto chegou — disse João Pedroso, baixinho, dando uma bicada no conhaque, sem mesmo se aperceber.

— Que Alberto, o Gaguinho da Maria Preta? — interrompeu Feliciano, mal contendo a curiosidade.

— Não, não é do tempo de vocês. O Alberto Monteiro era meu primo, por parte de pai. Moleque traquinas e malcriado, o Alberto era o terror de minha mãe e das criadas. Um ano mais velho que eu, era sempre quem inventava os malfeitos, as travessuras, quem começava as brigas e brincadeiras brutas, maldosas. Vocês sabem, cuspir, do sobrado, na cabeça dos passantes, prender barata viva entre a xícara e o pires da mamãe ou amarrar os cadarços dos sapatos da negrinha, por baixo da mesa. Toda a casa ficava em polvorosa, entre os malfeitos e as zangas e castigos. E, como não podia deixar de ser, em muitos eu embarcava, mesmo a contragosto.

Enfim, mesmo assustado com sua ousadia, eu admirava o Alberto e me divertia, como qualquer criança, com as traquinadas que ele inventava. Quando a Maria Preta correu como alma penada pelo meio da casa, embrulhada no lençol, por causa do calango que o Alberto colocara debaixo de seu travesseiro, a mamãe perdeu a paciência e nos decretou três dias de castigo, presos no quarto grande, sem revistas ou brinquedos. Saíamos só para as refeições, na sala de jantar, com papai e mamãe de cara feia e voltávamos para o “retiro espiritual”, como ela dizia, a fim de que “puséssemos a mão na consciência”, como “meninos de família” e não “bugres do mato”.

Faltavam poucos dias para o Natal, mas não foram dias muito amargos, mesmo com a liberdade perdida, já que Alberto não sossegava, nem mesmo preso num quarto. Arremedava a mamãe, imitava a Maria Preta, tecia planos mirabolantes para quando saíssemos da “prisão”, jurava vingança contra a negrinha que, segundo ele, fora a delatora, no episódio do lagarto.

— Enfim, apartou Mariano — uma criança normal.

— É claro, normal — sorriu João Pedroso pela primeira vez, desanuviado pela lembrança do primo — mas duvido que você ainda o classificasse dessa forma, caso ele passasse um dia em sua casa. Enfim, contei isso para vocês terem idéia de como era o Alberto, naquela época. E assim, ao final do segundo dia de castigo e como minha mãe mencionasse manhosamente o Natal a meu pai durante a refeição, quando voltamos ao nosso castigo contei ao Alberto o que ela me dissera sobre assunto tão palpitante. Alberto quase engasgou de tanto rir, de minha credulidade.

— Ô, João, Papai Noel são nossos pais! Ela te contou essa história pra você ser um bom menino, ficar quietinho e não encher a paciência dela. Ela me acha um bom menino? Eu acredito em Papai Noel? Então como você explica que eu ganhe presentes de Natal todo ano? A bola de futebol, a bicicleta, como você explica isso?

— Bem, é inútil dizer o quanto essa terceira guinada nas minhas crenças, em tão curto período de tempo, mexeu com a minha cabeça. Então ela tinha mesmo me enganado Pensei na vergonha que eu passara na escola, nas caçoadas, nos meus esforços para acreditar nela, nas minhas boas intenções e prometi, a mim mesmo, nunca mais ser tão crédulo, nem mesmo com meus pais. Prometi, também de mim para mim, sem nada dizer ao Alberto que, quando saíssemos do maldito quarto, ele não seria o único a inventar maldades. Só que eu teria mais cuidado, muito mais cuidado do que ele. Além de fazer as travessuras, eu cuidaria para não ser implicado nelas. E então meu prazer seria duplo, já que o castigo cairia sempre sobre outra pessoa. E por que não a negrinha que me fizera ficar trancado por três dias?

Assim, o último dia de castigo foi o mais prazeroso deles. Alberto, cansado de não fazer nada, se calara, emburrado, num canto, enquanto eu aproveitava para imaginar um monte de pequenas maldades com todos da casa mas, principalmente, como evitar que se pudesse saber a autoria do malfeito.

Aquela semana de Natal foi muito atribulada, lá em casa, para eles e para nós, e mamãe acabou telefonando ao tio para que fosse buscar o Alberto, pois que, com dois, ela já não estava agüentando. O primo se foi e, livre dele, eu pude armar meus álibis com mais facilidade. Ninguém entendeu como tanta coisa saía errado sem causa aparente. E foi um Natal realmente atabalhoado.

— E nunca te pegaram? — perguntou mansamente Ninico.

— Você quer dizer alguém lá de casa? Mamãe, papai, as empregadas? Não. Segundo eu pensava, eu já tinha sido apanhado, não é mesmo? E só podia me vingar não pagando pelo malfeito que viesse a cometer; esse era meu primeiro e último cuidado, ou não haveria vingança. Alguém mais, qualquer um, devia pagar o preço, desde que não fosse eu, ou as contas não seriam acertadas. Lembrem-se, eu me sentia credor de um mau pagador. O equilíbrio só viria no caso de, tendo sido mau, eu receber meu presente de Natal, como Alberto dissera que receberia.

— Em resumo, através de ações, não de palavras, você discutia ética com sua mãe — definiu Mariano.

— Não creio que tenha sido apenas isso — retrucou Feliciano. — Já não se tratava apenas de “provar” a existência ou não de Papai Noel, ou do espírito de Natal, como querem alguns, mas o valor prático do comportamento ético como fonte de justiça. A vingança, que equilibraria a balança, nos força a entrar no terreno da justiça, como compensação ao bem e ao mal, se entendi bem a sua reação infantil. E agora já não mais estamos no terreno da filosofia, mas da religião ou, como você disse no início da história, da crença.

— Mas eu creio que se tratou sempre disto, não? Quero dizer, a história de João. A discussão ética foi sempre uma ferramenta, não um fim em si mesmo — raciocinou Ninico em sua voz mansa — desde que eu disse que Papai Noel não existia. Só não entendo como você pretende provar aexistência dele.

— Bem, me deixem terminar a história e vocês vão entender — retrucou João Pedroso, com rosto amargurado.

As lembranças infantis das traquinadas já estavam longe, como ficou claro para todos, e o ambiente tenso voltou a tomar conta dos amigos, do bar, da noite.

— A noite de Natal chegou e eu fui me deitar cedo, cheio de expectativa, como vocês podem imaginar. Não sem antes, no entanto, realizar todos os ritos anuais ensinados por minha mãe. E deles fazia parte uma grande meia pendurada, símbolo da gratidão, a mão aberta à oferenda. Escolhi a maior de todas, a meia de futebol de que eu tanto gostava e prendi-a em um prego na parede da sala. Custei muito a pegar no sono em meio a tanta excitação. Afinal, tratava-se mais do que de um simples Natal.

Por trás daquilo, houvera muito sofrimento. Aos sete anos, porém, não há insônia que dure mais de cinco minutos, e eu dormi como um anjo até manhã alta, o sol entrando pelas venezianas, zangado por ter que se espremer tanto, como minha mãe dizia, me chamando de preguiçoso. Já acordei pulando da cama, desinsofrido, e corri descalço, de pijama, à sala, onde ficava a árvore de Natal. Não havia nada para mim sob a árvore enfeitada. Eu não pude acreditar e olhei, então, para onde deixara a minha meia de futebol. Mas tampouco ela estava lá. Ficou apenas um pedaço de papel, espetado no prego da parede, com um poema cujo texto é o seguinte:

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.

— O Desconcerto do Mundo — gritou Ninico — a mensagem de Camões é clara: não há justiça no mundo, exceto para ele. Como vocês vêem, eu estava certo. Papai Noel não existe — gargalhou triunfante.

— Neste caso — gritou Feliciano, acima da risada de Ninico — quem espetou o bilhete no prego e levou a meia? Você se ateve ao significado do bilhete, não à sua existência! Sua análise foi parcial, então Papai Noel existe! — concluiu vitorioso.

— Pronto, voltamos à discussão maluca! — Mariano, cada vez mais cético. — Que importa quem colocou o bilhete no prego? E se foi a mãe ou o pai de João, como castigo por seus atos? Ou seja quem for? Como deduzir daí a existência de Papai Noel?

— Pelo próprio bilhete, meu amigo. Ele está escrito num dialeto esquimó oriental que, segundo o lingüista da universidade, só é falado em determinada região do Pólo Norte — disse João Pedroso cansado, o rosto tenso, colocando o papel amarelado pelo tempo sobre o mal polido mármore do tampo da mesa do café.

=================================

Carlos Nascimento Silva, 64 anos, nasceu em Varginha — MG, e foi criado no Rio de Janeiro. É mestre em Literatura Brasileira e professor universitário aposentado. Começou a escrever — poemas, pequenos contos, crônicas — aos 14 anos. Admirador de Leon Tolstoi, Thomas Mann, Guimarães Rosa e Machado de Assis, chegou a perder um ano escolar porque, em vez de ir para o colégio, devorava livros, escondido, na biblioteca de sua avó.

A Casa da Palma (Relume Dumará, 1995), seu primeiro romance publicado, foi premiado pela União Brasileira de Escritores e pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Publicado na Alemanha (Das Palmenhaus, Europaverlag, 1998), obteve grande sucesso de crítica e de público. Em 2006, o escritor lançou novo romance, “Desengano”, pela Editora Agir.

Fonte:
Contos para um Natal brasileiro. RJ:Relume Dumará / Ibase, 1996.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra, Rio de Janeiro

Marcial Salaverry (Regresso à Casa do Lago)

Fotografia por Diana Pereira (Casa do Lago)

––––––––––-

Marcial Salaverry é de Santos/SP. Poeta, viveu três anos na África, o que originou a publicação de seu livro “Um Brasileiro Na África” , uma narrativa de 3 anos que passou, viajando a serviço pelo interior do Congo, entre 1969 a 1972. São lembranças de episódios realmente vividos nesses 3 anos de Congo.
––––––––––––––-
As recordações da infância sempre nos assaltam a memória.

Buscamos as origens, procurando explicações para os fatos que nos levaram a tomar determinados rumos em nossa vida.

Depois de longos anos afastado de minhas origens, ao saber que meu pai havia falecido, resolvi voltar ao passado, rever os fantasmas que me haviam afastado do convívio familiar.

Ao entrar no trem que me levaria àquela pequena cidade onde vivera na minha infância,

as imagens começaram a chegar à minha memória… aquela casa enorme, imponente, às margens do lago era o ponto marcante de tudo.

A obsessão com que meu pai fazia questão de marcar as origens de nossa família, sempre entrava em choque com minha maneira de pensar.

A mansão familiar ocupava um amplo terreno, dominando o lago. Considerava o ponto ideal para um hotel de luxo, aproveitando o visual, a topografia do terreno. Seria realmente um grande sucesso. Poderia fazer fortuna com esse empreendimento. Já havia uma incorporadora que desejava executar a obra.

Tentei convencer meu pai a fazê-lo. Negou-se peremptoriamente. Disse que jamais macularia as tradições familiares por causa de dinheiro.

Jamais me esquecerei da última discussão… Trocamos palavras amargas demais. Chamei-o de velho teimoso e retrógrado e coisas mais pesadas. Terminei dizendo que iria viver minha vida, e que não queria mais vê-lo… Mal sabia que não o veria mesmo.

Consegui relativo êxito em minhas tentativas, sempre tropeçando no que meu pai sempre me dizia… minha precipitação, minha urgência em querer conseguir tudo.

Muitas vezes me vi tentado a voltar, e reconhecer que ele estava certo. Mas a teimosia era hereditária. Recusava-me a admitir minha incapacidade para o enriquecimento que prometera a ele. Dissera que só voltaria após fazer fortuna. Rira quando ele disse que a fortuna estava ali, nas origens da família.

Ao desembarcar na estação, e pegar o táxi que me levaria à mansão, que agora poderia vender e fazer o hotel de meus sonhos, era só nisso que pensava.

Mas agora… sentado onde costumava ficar com meu pai… em um outeiro um pouco afastado da mansão, local que propicia uma visão fantástica da mansão, refletindo-a inteiramente nas mansas águas do lago.

Fiquei absorto contemplando aquela imagem que me levava à infância, às conversas que sempre tivera com ele… e que tanta falta me fizeram depois, nos tropeços que dei pela vida afora.

O casarão, imponente, lembrava as tradições que meu pai tão ferrenhamente defendera. Acontece que sua imagem, curiosamente refletia-se nas mansas águas do lago, como se estivesse de cabeça para baixo, ou seja, ao contrário.

Naquele instante, as águas como que pararam, ficaram totalmente imóveis… Vi então, o que fizera de minha vida… a deixara de pernas para o ar, tentando provar alguma coisa, que agora me parecia totalmente irrelevante.

Por causa disso, dessas minhas idéias, tinha perdido anos de convivência com minha família.

Essa imagem da mansão refletida no lago, fez-me ver o que fizera de minha vida, movido por uma ambição sem limites.

Tomei então a decisão. Iria voltar àquele vetusto casarão, trazer minha família e ensinar aos meus filhos toda a história familiar, procurando fazer com eles possam sentir o orgulho que eu sentia quando era criança, e que depois desprezei.

Espero que não tenham que sentir sua vida, como senti a minha, vendo a imagem da mansão refletida nas plácidas águas do lago…

Fontes:
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=696
http://marcialsalaverryemversoseprosas.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Francisco de Morais Mendes (O Homem que Recolhia o Tempo)


Numa velha sacola de feira, ele recolhia o tempo deixado pelos outros. Como fazia isso, não se sabe. Para ele, homem solitário, que vivia entre a casa e o serviço, a palavra “repartição” não designava apenas o local de trabalho. Cabia-lhe, como servidor público, cuidar das horas, repartir o tempo entre os colegas. Havia quinze anos executava com diligência a mesma tarefa: zelar pelo ponto, abonar as faltas justificadas, converter o excedente de horas em pagamento. O tempo era público.

Contudo, sofria de um mal sem remédio. Pressentia o correr dos dias, dos meses, dos anos, como uma subtração da vida. O tempo escapava-lhe enquanto acumulavam-se coisas por fazer. A perda do tempo é individual, lamentava.

À noite, em casa, recostado à velha poltrona de couro, sentia o peso de dois mil livros não lidos. E lia metodicamente. Olhando à esquerda, um infatigável atlas oferecia-lhe países por visitar. E ele mal saíra da cidade. À direita, centenas de obras aguardavam releitura.

Pensando constantemente no tempo, observava que boa parte do que se fala contém essa palavra vaga, sem peso, sem consistência. Certo dia, num corredor da repartição, ouviu de uma grávida que faltavam quatro meses para o bebê nascer. Então ocorreu-lhe que, durante a gravidez, ela deixava sem uso um outro tempo. O que primeiro pareceu-lhe uma brincadeira, uma anedota, tomou a forma de idéia. Depois de algumas noites em que se pegava pensando na grávida, supondo que estivesse assaltado por uma paixão em todos os sentidos inoportuna, o assunto passou de idéia a teoria. Não era a grávida que o atormentava. Era o tempo.

Formulou, então, a teoria dos tempos laterais, que correm simultaneamente na vida das pessoas. Pela última vez voltou a pensar na grávida, para explicar a si mesmo sua teoria. A vida segue num tempo que ele, como todo mundo, chamava de normal, mas qualquer alteração ou acidente põe em funcionamento um tempo dos que correm lateralmente àquele, que ele chamava de tempo outro. Durante o período da gravidez, tomado como uma alteração, o tempo normal continua a passar, mas em desuso, um cão sem dono vagando por aí.

Durante alguns dias, observou o que classificou de amostras da sua teoria. Há um tempo largado aqui fora pelas pessoas que baixam ao hospital. Há um tempo de ócio enquanto trabalham. Esse tempo ocioso fica com unhas e engrenagens à espreita, aguardando que a pessoa deixe o trabalho; acompanha-a até o ponto do ônibus, e enquanto, após um banho quente, a pessoa decide se liga a tevê ou coloca um disco para tocar, ele está pronto para seguir. Em outra circunstância, enquanto a pessoa mergulha a atenção no noticiário do rádio, fica desocupado o tempo da distração. Nenhum deles deixa de correr.

Certa noite, acomodado na poltrona, voltou a refletir. Era preciso recolher o cão sem dono. A outro, não iria fazer falta. A ele, o livraria da aflição.

Na manhã seguinte, mexendo no quarto de coisas abandonadas, encontrou a sacola que passou a carregar. Das grávidas, subtraía o tempo da não gravidez. Dos colegiais em algazarra à saída da escola, recolhia variadas espécies de tempo. Do sujeito que lia no ônibus, tomava o tempo de olhar pela janela. O mais surpreendente eram aquelas pessoas que parecem pensar em coisa alguma, absolutamente desligadas. Dessas, fluíam, ou melhor, jorravam tempos em profusão. E recolhia, recolhia, recolhia.

Voltara a ler sem ansiedade, sabendo que acumulava considerável reserva de tempo. Em pelo menos um momento, levantou os olhos do livro e pensou na imortalidade. Deu um breve sorriso, sem precisar recorrer ao espelho para encontrar o que supunha um rosto rejuvenescido. Voltou a concentrar-se na leitura. O tempo, agora, não passava; vinha até ele. O cão encontrara o dono.

Certa manhã, depois de ler no jornal sobre um sujeito condenado a muitos anos de prisão, foi tomado de grande ansiedade. Ocupado em juntar os tempos dispersos no presente, não lhe ocorrera tocar num tempo futuro. Nem sequer havia pensado nisso. No entanto, vislumbrava que aquele tempo podia ser recolhido de uma única vez. Tenho que capturar o tempo que ele deixa aqui fora, mas onde estará?, pensou, quase faltando-lhe o ar. Saindo às pressas com a sacola, sem saber exatamente onde buscar aquela fatia esplêndida de tempo, distraiu-se numa travessia e, atropelado por um caminhão de mudanças, teve morte instantânea.

Corroída pelo tempo e pelo uso, ficou a sacola jogada num canto da rua. Os que olhavam em seu interior, de algum modo sabiam que vazia não estava; era um engano dos olhos. Afastavam-se ao sentir uma espécie de sufocação. A que não sabiam nomear.
=====================

Francisco de Morais Mendes é jornalista e escritor. Publicou os livros de contos “Escreva, querida” (Mazza Edições, 1996) e “A razão selvagem” (Ciência do Acidente, 2003). Vencedor dos prêmios “Guimarães Rosa”, do governo do Estado de Minas Gerais, “Cidade de Belo Horizonte”, da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, e “Luiz Vilela”, da Fundação Cultural de Ituiutaba.

Fonte:
Letras e Ponto!

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Bruna Coletti (A Escritora em Xeque)


Bruna Luizi Coletti (1989) nasceu no interior do Paraná. Adepta à leitura desde muito cedo, começou a escrever poesia aos 10 anos de idade.
Na adolescência, passou a dedicar seus escritos a contos de ficção, terror e fantasia, fazendo muito sucesso no seu círculo de amigos e colegas da faculdade.
Autora de muitos contos, escritos, não tem, ainda, nenhum publicado. Atualmente vive no litoral catarinense, onde se dedica exclusivamente a escrever e melhorar suas histórias fantásticas.

===
Conte a sua relação com a escrita
Justificar
Bruna | Desde pequena meus pais sempre foram bons leitores e me incentivaram muito por esse caminho. Aos 10 anos comecei a escrever poesias no colégio, e percebi que gostava de escrever e ser apreciada por isso, porém deixei esse hobby de lado após alguns meses. Aos 17, impulsionada pelos livros que lia e pelas músicas de metal pesado, voltei ao papel e caneta com histórias fantásticas e sanguinárias que fluíam facilmente. Desde então, nunca mais consegui segurar essa torrente de palavras, apenas moldando e aperfeiçoando o estilo da escrita, mas não desviando do foco do terror e do fantástico.

A escrita tem relação com sua profissão?

Bruna | É o que eu espero! Passei alguns anos escuros tentando me adaptar aos números, quando cursei bacharel em química. Mas de nada adiantou eu tentar refrear meus impulsos, e agora em 2010 inicio o curso de letras-português, e espero passar o resto da minha vida entre letras e palavras.

Qual é a sua rotina para escrever: desde quando, em qual hora do dia, com que frequência, como, onde etc. escreve?

Bruna | Sou uma criatura de hábitos noturnos. Escrevo e penso melhor entre a hora que o sol de põe até alguns minutos antes do nascer do sol. A frequência e local são independentes, desde que os solos de guitarra e as passagens de bateria possam ser os únicos sons ao meu redor. A música é a minha melhor companheira de aventuras literárias.

Quais são seus escritores favoritos?

Bruna | Stephen King sempre será meu maior ídolo e fonte de inspiração. A versatilidade dele me impressiona, e as descrições de personagens e ambientes é fantástica. Cada passagem de suas histórias posso ver em minha mente com todas as cores.
Machado de Assis, na fase realista. É impressionante como alguém pode analisar e transpassar no papel tão bem o caráter (e a falta do mesmo).

Sobre esse seu conto: como foi o processo de escrita? (Como você escreve, se estrutura todo o conto antes de escrever, quanto tempo leva, se reescreve, se pede para amigos lerem etc.)

Bruna | Esse foi o primeiro conto que eu escrevi nessa linha de ficção/terror. Foi algo extremamente novo, e surgiu a partir da imagem da janela com a árvore seca. Essa tela se formou na minha mente, e aos poucos todo o quadro foi se pintando em torno disso, com o sangue, o canibalismo e a imagem translúcida e atormentada da órfã solitária. Só deu tempo de pensar “preciso escrever isso!”. Era no meio da tarde e eu trabalhava como operadora de caixa numa loja de confecção. Me apossei do Word 98 do computador do crediário e bati as duas folhas com uma fúria inimaginável. A história fluiu assim, do começo ao fim sem pausas. O título foi mudado inúmeras vezes, e até hoje não me contento com ele! Mas foi assim que ficou conhecida, e café da manhã no inferno foi o conto que abriu meus olhos pra esse novo hobby, que hoje é uma das minhas maiores fontes de prazer!

O que é mais importante: ter uma ideia inovadora ou um desenvolvimento bem trabalhado?

Bruna | É uma amálgama dessas duas coisas. Uma ideia ruim dificilmente pode valer a pena, mesmo muito bem trabalhada. E uma ideia boa perde o brilho quando não é bem elaborada.

Para você, o que é qualidade na obra literária? Como você avalia o que você escreve? Você relê e reescreve a primeira versão de seu texto?

Bruna | Antes de observar a estrutura da escrita, a primeira coisa que observo é o enredo. A história precisa prender, deixar aquele gostinho de “e agora?”. Os personagens devem ser marcantes, as frases precisam ter impacto. As ações devem correr naturalmente, e as coisas devem ser sentidas como uma bofetada na cara do leitor. Nada é mais pedante do que ler algumas linhas e já deduzir toda a história. A surpresa é o melhor tempero para um bom conto. Depois analiso a estrutura geral do texto.

De sua experiência com a escrita, qual foi a lição mais valiosa que aprendeu?

Bruna | Não existe nada melhor do que um leitor critico e anônimo. As maiores melhorias que eu tive na minha forma de escrever foi ouvindo atentamente as análises de pessoas desconhecidas que leram os meus contos na internet. Porque amigos e parentes sempre vão ver seus pequenos deslizes literários com olhos condescendente, mas o desconhecido não terá medo de te aplaudir com eloquência ou vaiar furiosamente. E é aí que você percebe vícios de escrita ou furos que, quando corrigidos, deixam a leitura muito mais agradável.

Acho que é isso pessoal! Muito obrigada pela oportunidade maravilhosa de poder divulgar um pouquinho o meu trabalho! Bons pesadelos a todos, e espero continuar fazendo meus leitores dormirem de luz acesa por muito tempo!
Bruna Coletti.

Fonte:
http://www.literal.com.br/artigos/entrevista-com-bruna-coletti

Deixe um comentário

Arquivado em Entrevista, notas biográficas, Paraná

Pedro Gontijo (Poesias Avulsas)

QUISERA EU ESTAR AO TEU LADO, DONA DE PALAVRAS

Quisera eu estar ao teu lado, dona de palavras
brincando com elas como se fizesse prosa
como se fizesse garoa
sobremesa de goiabada, vôo de pipa
passeio de metrô.

Dona? antes mestra
e serva das que não se deixam domar
só apreciar, poéticas
como é próprio de todas as palavras.

Palavras? antes musas
a suave mística de estar sem ser
fingir sem que seja preciso
errar sem ter ao menos necessidade
senão a de errar.

Errar? antes amar
que não é senão errar sem medo
servir sem senhorio
andar pela cidade (ou pelas minas, planaltos)
apenas pelo prazer de andar.

E nisso és mestra, poetisa
das palavras, das minas e das gentes
da liberdade, ainda que tardia
do que vês, do que pensas, do que sentes
da prosa fina, poesia arredia
e da vontade sem receio de aprender.

Brinca comigo, simples servo
das palavras, musas, erros, amores
todos pomposos, impávidos senhores
do meu escrever e prosear
com goiabada com queijo, garoa fina
passeio de metrô, vôo de pipa.

OXI, DIRÁ, CONTAR MUTRETAS

Oxi, dirá, contar mutretas
só de olhar do parapeito
da rodoviária.

Lá elas passam
feito formiga
de formigueiro pisado.

Andam de lado
sem disfarçar
a sem-vergonhice

E impressionado
contará as peias
pesteando o ar.

Calma, velho
não é só de arrombo
que se faz o dia.

AINDA QUE QUEIRA PERDER-ME

Ainda que queira perder-me
Faça com a clareza dum beijo
que não mente, atrasa ou faz-de-conta
e só compraz a que apronta a alma

Perca-me baixinho, melhor, em silêncio
De beijo calado
Não faça lampejo, não dê volta e meia
Tome o ensejo firme e perene
obstinada

A nada permita que não me faça perder
Decidida, fatalmente perca-me
Invariável, eternamente perca-me
Faça-me perder, num repente, sem que eu perceba
e me arrependa.

EU, RETIRO DOS QUE AMO

Eu, retiro dos que amo
De íntimo ansioso por acolher
Alma abrigo de almas.

Espero, se já não esperasse
A porta a bater, o suspiro a sussurrar
Os olhos, sinceros, a deitarem-se aos meus

Não movo contudo
e não busco e não penso
A mente distante, o coração alhures
e os olhos agora sem terem onde pousar

Eu, recanto de minha alma
pastor relapso e leviano.

SOLTEI O AMOR PARA CORRER LIVRE E ELE LARGOU-ME

Soltei o amor para correr livre e ele largou-me
Entretido com as sementes emplumadas que suspendiam no ar
Esqueceu-se de meus dedos entrelaçados, minha barba meio deixada
Da minha música de ninar
Dormir era a última coisa que se passava na cabeça do amor.

O amor rolava na grama, e molhava os tornozelos no regato
E subia na árvore, e comia jabuticaba
Feliz da vida
As pedras ele quicava no lago, com os caroços dava cusparadas
E mais cantava e mais ria sozinho

E eu, eu vi as plumas no céu qual estrelas
Constelação dançante, sem lua
E lembrei-me do amor

E cansei-me sem valer a pena
E compus melodias só aos meus ouvidos
E molhei os tornozelos na água.

PENSANDO BEM, SOZINHO

Pensando bem, sozinho
era tenramente livre
como se estivesse de braços abertos
sem fechar os olhos.

Liberdade tenra e pesada
como uma chuva a cair esquisito
lastro descompassado com cheiro de terra.

Dos braços soltava-se
como se solta dos livros ao fechá-los
da prosa ao contá-la
dos amigos ao abraçá-los
solto, sorvido em besteiras
feliz de tudo.

Via, e olhava, e via outra vez
a carranca da cidade
com os olhos de dentro
Porque não podia fechá-los
porque não conseguia fechá-los
de tanto que havia de ser visto.
Pensava bem, e mal se via
por todo lado, numa vontade imensa
de correr, docemente livre
abrindo arregaçadamente
os olhos do mundo.

–––––––––––––-

Pedro Gontijo Menezes nasceu em Brasília, em 1982. Desde pequeno é apaixonado pela história e geografia, e também pela música. As duas paixões, juntas em sua poesia, ainda o acompanham: formou-se em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, em 2005, e toca clarineta.

Conquistou o 1º lugar no Concurso Laís Aderne de Literatura, gênero poesia, em novembro de 2007, com a obra “O pastor leviano”.

Fonte:
Antonio Miranda

Deixe um comentário

Arquivado em Distrito Federal, notas biográficas, Poesias Avulsas

Denise Stucchi (No Caderno de Contar a Vida)


19 de setembro de 1999, Domingo, 11h00.

Acho que gosto dos domingos. Pode-se dormir até tarde, ler um jornal que não acrescenta nada à existência de ninguém, olhar com mais cuidado o grande cachorro negro que dorme sobre o tapete, beber devagar o café. Fumar um cigarro sinceramente. Depois, é o vazio. O telefone não toca, o banco não abre, o carteiro não vem, caminha-se pela casa, sem expectativas. Inventam-se problemas que não podem ser resolvidos, hoje é Domingo, afinal. Chove muito — o sol na cidade é para os dias úteis, como se sabe — e não existe perspectiva nenhuma do lado de fora desta janela.

Então, vem a inevitável introspecção, depois da madrugada com os amigos, muitos passaram pela casa hoje silenciosa. O cão, exausto de tanto movimento, fareja a marca dos pés sobre o assoalho antes encerado. Depois de tanta expansão, o corpo quer de novo a sua concha, conteúdo, não mais continente.

Deve ter sido a leitura do poema de Yeats, o fascínio daquilo que é difícil, chama-se. Perseguem-me os versos finais, juro que puxo a tranca da porteira antes que novo dia tenha início.

E nesse Domingo ainda com resíduos do inverno, o supermercado da semana já feito, nenhum ruído humano em volta — com a chuva nem a pelada dos meninos na rua aconteceu — fica-se assim, pensando em si mesmo sem a costumeira condescendência, aquela que na Sexta-feira nos embriagava absolutamente.

20 de setembro de 1999, Segunda-feira, 23h20.

Dia da consulta com F., o homeopata. Sentei-me à sua frente, escolhendo pela primeira vez a cadeira da esquerda. Como para lhe mostrar, com o meu corpo, que agora eu estava em outro lugar, diferente. Que daquela vez não vinha para me lamentar ou brigar, que ali estava porque dolorosamente as ilusões todas estavam me abandonando. Sentia-me como aquele homem que, no fim de semana, me falara tão triste e docemente sobre a sua finitude. A indignação, companheira de toda uma vida, fora substituída pelo sentimento que tão obstinadamente me recusou até que, sem mais propósito, se foi a indignação, deixando em seu lugar a verdade. Que acabou me colocando neste lugar diferente, num encontro quase insuportável com esse meu eu tão triste, impotente. Débil, dissera sobre mim o homem doce.

Hoje o médico e eu começamos a inventar uma nova língua, criando palavras que conectam reciprocamente o meu mundo ao mundo dele e os dois a uma imagem só: Staphygaria CH30, para celebrar a comunhão das almas que naquele momento se fez.

21 de setembro de 1999, Terça-feira, 0h00.

Veio o meu amigo músico, S.: pontualmente, para o café da hora do Ângelus.

Veio naquele seu carro muito velho, onde tudo é barulho, senti antes sua presença, escutando na rua o tremor do escapamento temerariamente suspenso.

No banco traseiro, o violino embrulhado em uma capa rota e suja e o saxofone — impressionante relíquia — fazendo companhia a uma edição bolsillo de Cortázar. El Perseguidor é a sua história predileta. Meu amigo in blue.

Mais tarde, sozinha, descubro repentinamente que estou pobre. Dentro de mim não repercute saudade por ninguém. Ou vai ver a pobreza se fez pela ausência prolongada de tantos queridos. Não sei mais quem sou gostando dessa que ainda não conheço. Não é tão ruim, afinal. Estando pobre, sempre posso enriquecer.

O poeta estava dizendo das coisas poderosas e permanentes, mas o poeta não falava de gente, falava da água e do vento.

22 de setembro de 1999, Quarta-feira, 16h00.

Dia de folga, hoje, de tomar café toda hora, só comer fruta, ligar e desligar a TV — um horror, uma delícia — conversar com o cão. Larguei num canto o tapete, não agüentava mais tecer tanto azul. Acabei, até que enfim, aquele mural enorme para a parede do escritório, forrei de preto. Coloquei fotos das crianças, afilhados e agregados, escolhendo aquelas de uma época em que não sofriam tanto como sofrem hoje. Tem reprodução do Portinari — O menino morto.

Tem um símbolo quântico que o meu filho leão fez no computador. Tem Clarice, Adélia Prado, Hilda Hilst, Cortázar, Otavio Paz, Calvino, Scorsese, Coppola…Tem Betinho, que nunca morre. Uma reprodução do Kieffer sobre o Holocausto — belíssima alegoria. Cenas no metrô. Um mapa do mundo segundo Carlos Magno e uma paisagem do Hopper. Um recorte do navegador, “o pior tipo de naufrágio é não partir”. Família, por Egon Schiele. “Un rifugio nascosto dove il tempo sembra essersi fermato”, inscrição gravada sobre uma casa de pedras no interior da Itália. Tem o meu amor na praia usando chapéu panamá…

23 de setembro de 1999, Quinta-feira, 7h00.

Jantei com M., ontem. Já faz quase meio século que nos conhecemos, primas-irmãs, com poucos meses de diferença de idade. Toda vez que nos encontramos — depois de tantos anos de separação — fico nostálgica. Se ela tivesse sido a irmã que nunca tive, talvez, talvez…teríamos ajudado a melhorar um pouco este mundo de merda…ou mandado de volta para o inferno esse ódio ancestral que escurece os corações das mulheres de nossa família…faríamos de nossas mães duas velhinhas orgulhosas de suas filhas, colos imensos e insaciáveis para os seus netos, nossos filhos…teríamos cuidado da imensa dor — esse legado que destruiu a alma da L. — convencendo-a de que, ao contrário do que ela imagina, essa dor veio para fazer dela uma deusa e não uma bruxa…teríamos trocado receitas, confidências sobre amantes e maridos, nos consolaríamos uma a outra pela nossa orfandade paterna…compartilharíamos amigos…eu ensinaria a ela o amor pelo conhecimento, a beleza de um museu, a devoção aos orixás…ela me ensinaria a rir, a beber, a dançar, a confiar sem medo. Quem foi mesmo que disse que a vida é uma série de tentativas fracassadas?

24 de setembro de 1999, Sexta-feira, 8h00.

Já é primavera, mas o dia amanheceu iluminado e frio, como “um perfeito dia de maio”. Não sei se tomo banho antes de começar, passo um sal grosso, acendo um incenso, sei lá.

14h30.

A tarde está cinza, de vento gelado, prometendo madrugada de insônia agasalhada por meias e cobertores. Vem a lembrança de um amigo aqui nesta sala lendo em voz alta Virginia Woolf e da palavra OBLÍQUA saindo de sua boca.

20h00.

Estava meio — bem, bastante — reticente, mas aí comecei a escavar, segura de que sobrou para mim um pouco da matéria imaginante, poética, da cota destinada à humanidade. Está tudo indo bem.

A água para o café começa a chiar sobre a chaleira do fogão: hoje, vou bebê-lo sozinha.

25 de setembro, Sábado, 23h20.

Cadê a alegria que estava aqui Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta? Cadê o amorosamente tocar a flor amarela, o rosto magro do homem, as cobertas sobre a cama, o corpo amaciado pelo creme? Quero dizer que o amor nunca acabou, não preciso, ele já sabe. Quero dizer que dói, ele sabe, mas não entende. É que ele o amor veio como uma onda imensa e quase me afogou e me deixou exausta. Ontem foi que eu senti a exaustão e perdi o controle sobre aquela coisa mansa e harmoniosa que construímos para viver a semana. Vai ver eu pensei que ele o amor fosse imenso demais para esse homem, vai ver eu me senti desnecessária como diz a Felipa, “mulher é desdobrável, eu sou.”. De tanto desdobrar fiquei um lixo, pedaço de papel sem serventia, mulher estranha e incomunicável, eu, a mulher de tantas palavras. Não desisto. Vou acender velas e mais velas, debaixo do chuveiro cantarei todos os mantras, o perfume do incenso entrando nas narinas sândalo jasmim canela derretendo as couraças de uma vida inteira?

26 de setembro, Domingo, 18h00.

Os pássaros já se recolheram. Os cachorros estão alimentados. Alguma coisa acaba para sempre aos domingos. Não sei o quê.
===========
Denise Stucchi
Paulista da Capital, hoje morando em Florianópolis, Santa Catarina. Escrevendo desde sempre, somente a partir da metade da sua vida veio a decisão de compartilhar seus manuscritos. Tem poema — “Memorial” — publicado no primeiro número da revista carioca POESIAS.
Recebeu a primeira colocação no concurso Escritores do Cone Sul da Editora Litteris, em 2000 com este “No caderno de contar a vida”.
Escreveu “De conversa com Felipa”, livro onde troca impressões com a personagem central da obra de Adélia Prado, “Manuscritos de Felipa”.

Fonte:
http://nocadernodecontarvida.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, notas biográficas

Raquel Amélia dos Santos (Experimente o Dia e seus Sabores – "CARPE DIEM!)


Raquel é nova colaboradora do blog.

Raquel Amélia dos Santos

Pedagoga e professora no municipio de Ribeirão das Neves em Minas Gerais. Produz textos, artigos sobre temas filosóficos, do viver diário, educacionais e outros.

Blog http://amolercomaalma.blogspot.com/

———————-

Carpe Diem” quer dizer “colha o dia”. Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.” Rubem Alves

Maravilhoso pensar o dia como um tempo a ser vivido, que traz consigo acontecimentos que se forem comparados à uma fruta, podem ter sabores variados.

Colha o dia, confia o mínimo no amanhã. Não pergunte, saber é proibido (…) É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho (…) seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças. Mesmo enquanto falamos, o tempo ciúmento está fugindo de nós. Colha o dia, confia o mínimo no amanhã.” É o que diz Horácio, poeta romano que viveu antes de Cristo.

Não se trata de um simples aproveitar o dia. É preciso vivenciar cada evento no decorrer do dia, percebendo seus cheiros, contemplando suas cores, sentindo seus sabores.

Os sabores!? Podem ser variados. Doces como o mel, amargos, azedos ou levemente adocicados.

Entre as situações que experimentamos diariamente há uma mistura de sabores. Esta mistura pode causar uma confusão no paladar, mas ao mesmo tempo proporcionar um prazer incomum e indefinido.

Nem sempre a indefinição é de todo ruim. O sabor que vai prevalecer vai depender a importância que se dá a cada um deles.

Concentrar-se no doce pode ser uma boa opção. No entanto, nem sempre é possível encontrar apenas o doce. “É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho (…)

É preciso sentir cada momento do dia como se fosse um fruto que nos é oferecido, que nos é dado.

Diariamente cada pessoa precisa exercer o poder da escolha. Vivenciar e sentir as emoções provocadas a cada instante, requer coragem, sabedoria e sensibilidade.

Sensibilidade e habilidade para utilizar os meios de sentir o ambiente e o mundo. Isso é possível, quando usamos não apenas os orgãos dos sentidos, mas as nossas emoções sem medo.

A cada novo dia que nos é ofertado, temos o privilégio de vivencia-lo, ganhamos uma nova chance para sermos diferentes ou melhores. E ao mesmo tempo, recebemos a incumbência de assumir a responsabilidade de escolher o como lidar com as novidades que se apresentam a cada minuto. Somos assim, convocados à exercer o poder da escolha diariamente.

Ser sábio nesse exercício não é tarefa fácil. Nem sempre o fazemos acertadamente.

Pode-se colher uma fruta qualquer após avaliar seu aspecto exterior, sua cor, seu tamanho ou até a altura em que ela se encontra na árvore. Pode ser que esteja em um galho bem acessível ou no galho mais alto.

O desejável é que ela esteja ao alcance da mão. Podemos nos deparar com o indesejavel, com o imprevisto e até com o abominável.

Pensar o dia, sabendo que nele moram a novidade e os limites do tempo, ajuda a entender que podemos encontrar o desejável, o indesejável, o previsto, o imprevisto e até o abominável.

Para curto prazo, reescale a suas esperanças”… diz Horácio.

Reescalar as esperanças” pressupoem uma escala inicial.

Reescalar a curto prazo, requer de nós assumir a responsabilidade do poder da escolha, conscientes de que o tempo não é confiável, pois “(…) o tempo ciúmento está fugindo de nós (…)”.

O dia a ser vivido, impõe que sejamos quase tão ageis como o tempo.

A esperança só ajuda quando compreendida como objetivo a ser alcançado. Nunca como algo pronto, dado por alguém. Esse tipo de esperança paralisa o ser.

O hoje é valioso demais para ser desperdiçado. Nele mora o que Fernando Pessoa afirma ser “o nascer para a eterna novidade do mundo”.

“Carpe Diem”! não significa simplesmente gastar ou aproveitar o dia. É preciso exprerimentar cada uma das emoções ofertadas por ele, sabendo discernir seus sabores.

Viver o dia confiando o mínimo nas horas vindouras ou no amanhã, lembrando que no hoje moram a novidade e o eterno. Realidades das quais não temos nenhum controle.

Neste caso, resta buscar o equilíbrio para eleger nossas ações no presente, de forma conscientes de que cada escolha tem suas consequências e que somos responsáveis por nós mesmos.

“Carpe Diem”!

Fonte:

Texto enviado pela autora

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, notas biográficas

Amosse Mucavele (Poegrafia o Ledo Ivo)*


Amosse Eugénio Mucavele é de Maputo, Moçambique e é o novo colaborador do blog. Hoje ele inicia com esta homenagem ao poeta alagoano Lêdo Ivo (foto ao lado)
————
Um homem vindo de um lugar pobre e distante das metrópoles, sonhou em um dia alavancar o nome da sua terra natal (Maceió – Alagoas).

Como os sonhos não envelhecem (R.Riso) continuou firme a trilhar o caminho dos seus sonhos, mas nunca compartilhou com alguém, guardava-os na gaveta da sua cachola.

Procurou tantos ofícios e aperfeiçoou-se no oficio de ourives da palavra, lapidou os seus sonhos e lançou-os em forma de IMAGINAÇÕES, e dai percebeu que ter uma ourivesaria precisa de mão-de-obra e material e a título individual não iria conseguir levar avante o projeto, o coletivismo veio à tona (nasceu a Geração 45).

Os sonhos deste homem continuaram fortes como a rocha, altos como o Everest

Colocou um desafio a si mesmo – de deliciar o mundo e mostrar o quão grande e a LINGUAGEM da palavra que ele fabrica.

Este homem nunca teve inspiração pois a poesia e o sol que brilha no seu dia – a – dia e os SONETOS acontecem A NOITE.

O Brasil tornou-se pequeno, atravessou os céus e foi a PARIS graças as MAGIAS das suas mãos REI da EUROPA reconheceu a grandeza da sua obra.

Neste momento eu estou aqui na ESTAÇÃO CENTRAL a espera do trem que traz O UNIVERSO POÉTICO deste homem.

*Ledo Ivo é natural de Maceió-Alagoas expoente da Geração 45, publicou numerosos livros de poesia- As Imaginações(1944), A linguagem(1951), Acontecimento do soneto e ode a noite(1951), um Brasileiro em Paris e o Rei da Europa(1955), Estação central(1964). Também é novelista, contista, cronista e critico literário autor do ensaio- O universo poético de Raul Pompeia (1963)
======================
Amosse Eugenio Mucavel nasceu em Maputo aos 8 de julho de 1987,e fez o curso agropecuário Instituto Agrário Boane. É membro do Movimento Literário Kuphaluxa, onde coordena o projeto literatura na escola. O blog é http://kuphaluxa.blogspot.com/.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O poeta no papel, Sopa de Letras

Edna Gallo (O Recado)



O expediente terminara. Os funcionários já haviam ido embora e João estava sozinho na sua empresa. Dirigiu-se à escrivaninha, apanhou uma pasta e começou a examinar alguns papéis importantes, referentes à parte que teria de pagar à esposa de seu sócio Felipe, falecido recentemente.

Maquinava uma maneira de trapacear com o dinheiro da viúva. Ela era completamente alheia aos negócios do marido. Sempre vivera para o lar, atenta as tarefas de dona de casa. Mulher simples, confiava totalmente na honestidade desse homem que fora companheiro de trabalho de seu esposo e, posteriormente, sócio nesse bem sucedido empreendimento.

Com a morte de Felipe, João ficara só na administração da firma e, sentindo-se senhor da situação pensou logo em ficar com tudo, propondo então à viúva a compra da parte dela. Sem ter condições ou prática para gerir os negócios e ainda com filhos adolescentes para educar, ela concordou com a venda. Empregaria o dinheiro na compra de imóveis e viveria da renda dos mesmos.

Já era tarde e ele permanecia ainda no escritório. Formado em contabilidade, ele estudava uma forma de pagar um valor bem menor que o real. Tinha que fazer tudo direito, usar a cabeça, de modo que ela jamais desconfiasse que a importância a receber era maior que aquela que ele ia lhe pagar. A viúva confiava nele a ponto de dispensar a assessoria de um bom advogado.

Começou a subtrair dados, escondeu documentos, e quando estava adulterando algumas somas ouviu um barulho no trinco da porta, como se alguém a estivesse abrindo…

De repente, sentiu um cheiro de perfume ao seu redor. Arrepiou-se todo. Aquela era a fragância que Felipe usava.

Largou tudo o que estava fazendo e saiu correndo com o coração descompassado.

Esperou passar alguns dias e voltou a fazer a contabilidade. Desta vez, porém, não ficou só. Aproveitou o horário de expediente e, cercado de pessoas à sua volta, na certa aquele fato estranho, talvez até fruto de sua imaginação, não aconteceria outra vez.

Sentou-se e começou a rever a papelada. A idéia de trapaça não fora afastada. As intenções eram as mesmas. De repente o barulho na porta e o perfume exala no ar.

Não era possível! Chamou a secretária. Ela entrou e foi logo dizendo: “Nossa, que sala perfumada.”João ficou ainda mais nervoso com o comentário. Então, não era impressão sua. Ela também sentira o perfume. Resolveu, então, ficar algum tempo sem tocar naquela documentação.

Um dia, resolveu levar os tais papéis para casa.

Quem sabe longe do ambiente de trabalho aquilo não voltasse a se manifestar, porém, mais uma vez escutou ruídos na porta, e sentiu aquele aroma tão seu conhecido. Chamou a esposa e contou-lhe o que estava acontecendo. Decidiu rasgar todas as anotações que fizera e jogou-as no lixo. Fez a contabilidade novamente. Não omitiu um centavo. As contas foram feitas com a maior honestidade.

A viúva recebeu a parte dela. Tudo o que lhe pertencia estava ali, tostão por tostão. João compreendera o recado.

———————

Sobre a autora

Edna Gallo é poetisa, trovadora, cronista e contista. Nasceu em Santos/SP – pertence ao grupo Encontro de Poetas e a União Brasileira de Trovadores (U.B.T) Seção Santos. Alguns de seus poemas foram musicados pela musicista Glorinha Veloso regente do coral ” Vozes da Esperança

“Livros publicados: “Alvoradas e Crepúsculos” e “Brisa de Outono”

Fonte:

CÁPUA, Cláudio de (editor). Revista Santos – Arte e Cultura. ano IV. vol.21 – maio de 2010.

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, notas biográficas

Jesy Barbosa (1902 – 1987)


(por Zálkind Piatigórsky)

Jesy de Oliveira Barbosa
15/11/1902, Campos RJ – 30/12/1987, Rio de Janeiro RJ

JESY BARBOSA, filha do jornalista e poeta Luiz Barbosa (ambos campistas), nasceu em Campos, Estado do Rio, em 15 de novembro de 1902. Espírito versátil e sensível, desde cêdo deixou patenteado seu temperamento artístico, tendo iniciado sua atuação em 1930, na Cidade Maravilhosa, onde também estudou. Dona de excepcional talento e de uma voz “diferente”, sua primeira expressão foi através do canto, tendo estreiado, sob os auspícios do saudoso Roquete Pinto, na Rádio Sociedade, no Rio, gravando a seguir inúmeros discos com canções brasileiras na R.C.A. Victor.

Paralelamente, iniciava-se na arte de escrever, fazendo-se presente em jornais e revistas de então.

Deixando mais tarde o canto, onde tanto se destacou, foi durante nove anos redatora e apresentadora de programas na Rádio Globo, da Guanabara; tendo sido uma das sócias fundadoras da Associação Brasileira de Rádio (A.B.R.).

Mas a plenitude de seu espírito criador só veio a amadurecer um pouco mais tarde, quando Jesy Barbosa, participando do movimento trovadoresco nacional, encontrou, nas quatro linhas da trova, o seu verdadeiro veículo de comunicação.

Mesmo assim, faltava-lhe um estímulo. Mas, predestinada para as cumieiras da arte do coração, êste não se fêz tardar. Apareceu sob a forma de um concurso de trovas. De um grande concurso de trovas – Os Primeiros Jogos Florais de Nova Friburgo – genial idéia de Luiz Otávio que os introduziu no Brasil, para isto contando coma cooperação e o dinamismo do consagrado poeta J. G. de Araújo Jorge. E Jesy apareceu. E apareceu ganhando, conseguindo, entre mais de 2.500 trovas concorrentes, o 4.° e 6.° lugares, pondo seu nome com letras de ouro entre os vinte vencedores. Era uma grande estrêla, luzindo no meio de uma constelação.

“Duvidas que numa trova
eu encerre o nosso amor?
Na hóstia tu tens a prova:
Não cabe Nosso Senhor?”

“Teu orgulho me parece
estranha contradição:
Nosso amor, que te engrandece,
é a minha humilhação.”

Excepcional em tudo que se refira ao que é de dentro, o seu amor filial conseguiu a ventura desta constatação:

“Surpreendente maravilha
A que agora me acontece!
­- Minha mãe é minha filha
a medida que envelhece!”

Nestas “Cantigas de Quem Perdoa” descobrimos que a meiga Jesy não perdoou o mundo. Na verdade, ama-o demais. E quem ama, não chegando a sentir a ofensa, desconhece a necessidade do perdão.

Rio, março de 1963.

Era o milagre da sensibilidade, o triunfo do talento, a consagração da beleza. Era fôrça do coração atingindo alturas sublimes nesta composição.

“És rico… Mas que tristeza!
Tens vazio o coração…
Não ter amor é pobreza
mais triste que não ter pão.”

Era a poetisa Jesy que se descobria. Uma fonte límpida e incontrolável de água pura que corria sob o sol, sorrindo à libertação.

Suave flor em festa em alto cume, em breve Jesy superou-se e repetiu-se. E, em 1962, nestes mesmos Jogos Florais de Nova Friburgo que evoluíram como a própria escritora, entre mais de 5.000 concorrentes, alcançou o 1.° lugar com magnifica trova sobre ciúme:

“Quanto mais teu corpo enlaço.
mais padeço o meu tormento
por saber que o meu abraço
não prende o teu pensamento.”

Não só por êsses triunfos em competições públicas, mas por todo o conjunto de sua obra, hoje, é indubitável ser Jesy Barbosa um dos mais admirados e autênticos nomes representativos da poesia trovadoresca da língua portuguêsa.

Extremamente feminina – a mais feminina de quantas poetisas exercitam-se no idioma – suas trovas são bem o claro-escuro incompreensível e meigo e doce da alma da mulher:

“A maior impiedade
daquele que me magoa
é mostrar que, em realidade,
não vale a pena ser boa.”

É uma queixa. Mas sua queixa é suave como pétalas que tombam. E na saudade, a saudade do vulto amado é mais que um milagre do coração:

“Tenho tua imagem tão viva
e tão dentro do meu ser
que, quando que rever-te,
fecho os olhos para ver”.

Poesia-conformação, poesia-ternura, Jesy Barbosa é sentimento, E, sobretudo, poesia-verdade, verdade clara e profunda, simples, sem contradição:

Fontes:
http://ubtsp.com.br/page3.aspx
Foto : acervo Rádio Club do Brasil.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Trovas

II Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea! (Finalistas da Fase I)


Sai a lista de finalistas da fase 1 do II Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea!

Após 1 mês de competição, com 622 obras inscritas – 50% a mais do que na primeira edição – e 5.147 votos confirmados, chega ao fim a primeira fase do II Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea!

Nesta fase, totalmente baseada em voto popular, 10 livros foram selecionados como finalistas e passarão agora para avaliação de um corpo de jurados do Clube de Autores, que deliberará sobre aspectos como capacidade de prender atenção, facilidade de entendimento, encadeamento de ideias e frases e originalidade.

Os finalistas são (em ordem alfabética):


– A Força das Tradições e Outras Histórias, de Sergílio da Uspecéia
Livro premiado- menção honrosa – no 16° Programa Nascente – USP em 2007. “A força das tradições e outras histórias reúne contos dispostos sob a ótica do humor. Diálogos ao telefone, os não-heróis da periferia, o bate-boca entre um escritor e seu texto, a visita de Deus a uma agência da previdência social, compõem o cardápio oferecido ao leitor… Em alguns momentos, o título desproporcional amplifica o sentido do conto diminuto. O autor já publicou poesia e contos em coletâneas e livretos de concursos literários É também blogueiro (http://trovasecia.blogspot.com) e trovador premiado em vários concursos nacionais.

Sergílio da Uspecéia
Sérgio Ferreira da Silva Bacharel em Direito – Graduando em Letras na USP.

Prêmios mais importantes:
Revelação em 1997 UBT/SP
– 1° lugar no Confr. de Trovadores Paulistas 2000 UBT-Santos/SP
– Magnífico Trovador (Título Honorífico) nas categorias Lír./Filos. e Humor 2002 Nova Friburgo/RJ
– 1° Lugar Concurso Intersedes (Trovas) R. de Janeiro/RJ 2003
– 1º lugar Conc. Nac. de Contos do SESC Santo Amaro/SP Adulto Jovem em 2003
– 1° lugar Concurso Ribeirão das Letras Rib. Preto/SP Trova (2004)

– PUBLICAÇÕES:
Coletânea
“RIO GRANDE TROVADOR” (Trovador convidado) em 2003 – Ame Nova Friburgo –
CELEBRIDADES – com Sérgio Madureira e Girlan Guilland (Convidado) Edições 2005 a 2008 –
Evangelho de Trovas 2, Segundo Trovadores da UBT em 2005 Coletânea (20 Trovadores do Brasil) –
Livretos de trovas publicados em todo o Brasil, desde 1997 –
Revista “Originais Reprovados” USP em 2006 –
Revista Áporo nºs. 1, 2 e 3 (2007 a 2009) Poema, Hist. em Quadrinhos e Conto –
Livro da Tribo Edições 2008/2009 e 2009/2010 (Trovas e Texto) –
Menção Honrosa no 16º Programa Nascente USP 2007 com “A força das tradições e Outras Histórias” –
Pão e Poesia 2009/2010 Minas Gerais (Trova e Soneto)


– Cabra Cega, de Sheila Ribeiro Mendonça
Clara e Gustavo se conhecem, em um Clube de Curitiba, quando ela estava pensando em viajar, antes de começar a fazer faculdade, e então se apaixonam e casam, assim, a vida de Clara muda rapidamente. E literalmente a mudança é radical, pois Gustavo se revela um homem agressivo, ciumento, possessivo, violento, ardiloso e perspicaz, com isso transformando a vida dela numa constante surpresa e esconde-esconde. Não somente de comportamentos como também de cidades. Com o intuito de não criar laços com ninguém e, principalmente, de não deixar que a família de Clara saiba onde ela está, você vai acompanhar Cabra Cega sem ter a certeza de até quando aquela cidade fará parte dos planos de Gustavo. Em Cabra Cega acompanhamos os escondidos.

Sheila Ribeiro Mendonça

Sou jornalista e escolhi esta profissão por conta da minha enorme paixão pela escrita. Tudo, desde pequena, me inspira, claro que com o passar dos anos fui evoluindo com as palavras e sensações.

E foi assim que no início da idade adulta escrevi o meu primeiro romance.

Cabra Cega é pura ficção, embora, algumas pessoas possam se ver na história, mas a intenção da obra é somente fictícia.

A escrita, definitivamente, é o ar que eu respiro. Algo que me move, e muitas vezes é até maior do que eu mesma, assim fazendo com que, em qualquer lugar e situação que eu me encontre, pegue um papel e caneta, e deixe a inspiração que chega fluir em palavras, e sem a pretensão de transformar num texto perfeito, apenas escrevo e sinto um enorme prazer com isso.

Escrevo simplesmente com o coração, e com a inspiração que Deus me dá, e é assim que escrevi este romance na certeza de que sigo no caminho da arte de escrever.

Cabra Cega ficou guardado na gaveta por muitos anos, mas será o primeiro de muitos outros que virão.


– Catholica Poetica, de Jessica Bittencourt

Presente para a humanidade

Seus olhos acinzentados
Com expressões variadas e fora do vulgar
Por ti ficamos encantados
Jesus, como é bom te amar
Cabelos cor de avelã, rosto rosado.
E alegre na seriedade
Tu és belo e iluminado
Presente de Deus para a humanidade
Toda honra e toda glória
É para ti Jesus
Contigo sempre alcançamos a vitória
Salvou-nos do mal para descobrirmos a luz
Queria te abraçar
Quando o coração doer
E quiser chorar
Sei que as lágrimas não iriam mais escorrer
Jesus, presente para a humanidade.
Possui grande sabedoria insubstituível amor
Pois através de ti Deus mostra a verdade
O remédio de toda dor

Jessica Bittencourt nasceu no dia 27 de setembro de 1991. Desde de pequena ama o teatro, mas começou em 2008 numa peça chamada Rei Ubu de Alfredy Jerry. Com 16 anos descobriu o amor pela poesia e com 18 anos terminou seu primeiro romance: Romance sob Poesias. Já participou de duas antologias: Antologia Páginas Vázias e Declaração de amor á poesia.

Acredita que para escrever é necessário aproveitar todos os sentimentos, fases e momentos, mas sua inspiração maior é nos moemntos de angústias e tristezas. “É necessário deixar as lágrimas caírem no papel como um desabafo poético”.


– Contoscionismo, de Osvaldo Magalhães
O livro, Contoscionismo: Contos, Crônicas e Poesias é uma coletânea de textos que vão de contos sobre um policial enfrentando traficantes na fronteira entre Brasil e Bolívia, passando por crônicas sobre um velório e poesias cômicas. A leitura é fácil e gostosa, sendo uma ótima opção para quem gosta de textos diversificados.

Osvaldo Magalhães nasceu e mora no Gama (DF) e é autor de contos, crônicas e poesias, com temas históricos e contemporâneos, sarcásticos, críticos e cômicos.


– Fogo Vermelho, de Drica Bitarello
Normandia, 1190

Um anjo do Senhor estendera a mão a al-Ahmar, o Demônio Vermelho. Curara suas feridas e agora, ameaçava roubar de vez seu coração.

Voltar para casa nem sempre é um bom negócio…

Radegund amaldiçoou o dia em que se deixou ser convencida por Mark a voltar para sua terra natal. Principalmente no momento em que teve uma flecha cravada em suas costas. Mas, ao acordar numa abadia e dar de cara com um anjo de olhos azuis da cor do céu, ela começou a pensar que realmente estivesse ficando louca. Afinal, mesmo que já tivesse uma extensa lista de pecados pesando sobre suas costas, se juntasse a eles a sedução de um monge cisterciense, nem mesmo o inferno a aceitaria.

É sempre difícil deixar o passado para trás…

Quando uma estranha dupla passou pelos portões da abadia, em busca de socorro, todas as convicções de frei Luc foram lançadas por terra. Seu olhar se perdeu nos olhos mais tristes que ele já vira, e seu coração foi definitivamente roubado pelo Demônio Vermelho.

Lar era algo perdido para sempre…

Para Mark, a vida fora mais do que generosa ao lhe dar a amizade de Radegund. E agora, por causa dela, a mesma vida lhe dava a chance de desvendar seu passado. Mas, para isso, ele teria que abrir mão de algo que jamais tivera. Amor.

Drica Bitarello
Escritora compulsiva, leitora voraz, geek, antenada, descolada, viciada em café extra-forte-extra-quente-extra-grande. Tem um fraco por Absolut Vanilla, é groupie do Marco Hietala, padece de uma estranha compulsão por sapatos (que provavelmente se deve a algum tipo de transmigração temporária de personalidade entre ela e Imelda Marcos) e sofre de crises de abstinência quando passa muito tempo sem entrar numa livraria. Seu maior desejo é de que a cirurgia que emagrece continuamente o Faustão um dia o faça sumir de vez.


– Memórias do Inferno Brasileiro, de Valdeck Almeida de Jesus
“Na casa de Dona Dete e seu Chico a gente morria de rir. A dona da casa e o marido, toda vez que viam os atores Tony Ramos e Elisabete Savala ficavam falando: “André Cajarana e Carina estão tão diferentes…”, se reportando aos personagens vividos na novela Pai Herói por aqueles atores. Dona Dete e Seu Chico não conseguiam separar a realidade da ficção e faziam a maior confusão entre a vida dos atores e os vários personagens vividos por eles durante as novelas”.
(Trecho do livro)

Biografia em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/06/valdeck-almeida-de-jesus-1966.html


– O Pastor, de Fernando de Abreu
O bem e o mal habitando o mesmo corpo. O pecador e o santo, a mesma pessoa. O líder espiritual de uma grande organização religiosa se vê envolvido em um escândalo sexual que pode afastá-lo do controle da sua congregação, precisamente no momento em que descobre uma gigantesca fraude nas contas da Igreja. Buscando manter-se no controle da situação acaba suspeito de uma série de assassinatos que vai eliminando, um a um, todos os envolvidos no desfalque milionário. Um policial obstinado, no entanto, resolve investigar a fundo não apenas aquelas mortes violentas e misteriosas, mas todo o passado daqueles homens santos e pecadores, descobrindo mais do que deveria, numa trama surpreendente. Quem tiver pecado leia a primeira página!

Fernando de Abreu Barreto

Advogado e escritor, nascido no Rio de Janeiro em 1976. Divide seu tempo entre os Tribunais e as páginas dos livros em que derrama suas expectativas e frustrações com o mundo do Direito, criando um universo particular de leis, crimes, investigações e Justiça onde tudo funciona mais ou menos da forma como não deveria ser. Publicou pelo Clube de Autores dois romances policiais.

Possui dois blogs: um para divulgação do seu primeiro romance, outro com dicas e críticas literárias.


– Princesa de Gelo, de Thayane Gaspar Jorge
Eu não tenho coração. Acredite, é verdade. Até mesmo em momentos em que a adrenalina prevaleceu em meu sangue fazendo com que ele trabalhasse mais rápido. Eu deveria ouvi-lo bater ou ao menos senti-lo, mas é como se ele não fizesse mais nada além de pulsar. Não pulsar vida, mas apenas sangue para que o meu corpo , ligado a minha alma sempre mórbida, continue respirando. Feitiço. Magia.Encanto. Poções. Bruxaria. Não, apenas meu coração e sua simplória e podre maldição.


– Rastreabilidade Aspectual, de Ivan Claus Magalhães Weudes de Lima
Esse livro aborda várias questões que se apresentam para a realização da rastreabilidade dos requisitos de software. É detalhado um modelo de rastreabilidade de requisitos de software que incorpora elementos de rastreabilidade aspectuais baseado na técnica de casos de uso. São apresentados o modelo e a estratégia de rastreamento dos requisitos de software em ambientes de desenvolvimento orientado a aspectos. Ainda são discutidas as transformações necessárias para a elaboração de um modelo de rastreabilidade aspectual, além da concepção de um modelo conceitual preliminar de um repositório dos elementos de rastreabilidade. Apresenta-se, também, como ilustração, um exemplo de uso do modelo proposto.


Versos ao Vento, de Jessica Bittencourt
Uma coletânea de poesias, divididas em dois capítulos: Amor e sentimentos e Cotidiano com sentimentos, na qual retrata o cotidiano, pessoas, seus sentimentos, sociedade, exemplo disso é a poesia Compulsão Maligna envolvendo o assunto da bulimia:

(…) O organismo com o tempo é desgastado
Órgãos internos parando de funcionar
O que é consumido não é aproveitado
O corpo já não consegue se alimentar (…)

Sociedade opressora também diz sobre a situação do homem na sociedade moderna:

(…) Ainda há lágrimas escorrendo
Lágrimas de sangue e medo do mal
Da carne que está se desfazendo
Substituindo por parafusos e metal (…)

Sobre a questão dos transgênicos, na época em que algumas pessoas foram contra e outros não. O título Amizade é referente á participação de sua amiga Juliana Suguimoto com algumas poesias.
======================
Todos as obras da lista acima permanecerão no site com um selo nos seus livros, apontando-os como finalistas do Prêmio, mesmo após o seu término.

Gostaríamos de dar os mais sinceros parabéns tanto às 10 obras selecionadas quanto a todos os participantes – afinal, estar presente em prêmios literários como esse é um passo fundamental na carreira de todos os escritores independentes.

Quem quiser saber a sua colocação exata, basta entrar em contato com atendimento@clubedeautores.com.br

Agora, é esperar o resultado no dia 24 de junho!

Fontes:
Pedro Ornellas
http://clubedeautores.com.br/

1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, notas biográficas, Notícias Em Tempo

Sandra Santos (Livro de Haicais)

1
haicai é vício
no ábaco dos dedos
versos paridos

2
treme um haicai
na ponta da espada
de um Samurai

3
chão de outono
amarelo pêssego
deu pé de vento

4
vovó sentada
geada na cabeça
Já é inverno

5
se há o gosto
há o gozo, e afinal
já é agosto

6
barco de papel
perdeu-se das palavras
águas caladas

7
olhar vadio
sem a pressa das horas
pousa na rosa

8
foge um gato
pelo buraco negro
céu de Alice

9
plátanos mortos
sustentando videiras
vivem ainda

10
no chão voando
lá vai o leitor tão só
Leminskiando

11
como girassol
o sol se estende à leste
solenemente

12
bocal de poço
rendado de avencas
cortinas da rã

13
na primavera
gato furta cor passa
e se espreguiça

14
vaso de rosas
no orvalho do olhar
tristes memórias

Fonte:
A Autora

Deixe um comentário

Arquivado em haicais, notas biográficas

Hercílio Pinheiro (1918 – 1958)

artigo publicado por José Lucas de Barros

ERCÍLIO OU HERCÍLIO PINHEIRO(Francisco Ercílio Pinheiro de Oliveira) – Luiz Gomes-RN, 18-11-1918 – Tabuleiro do Norte – CE, 09-04-1958, morreu com apenas 40 anos incompletos, mas deixou um respeitável nome na história da cantoria nordestina. Boa voz, dom de repentista, estudioso, carismático, impressionou fortemente a quantos o ouviram e com ele cantaram. Dizem que o velho Pinto do Monteiro foi ao Ceará somente para cantar com ele, e, não o encontrando por lá, disse:

“Eu subi ao Ceará,
que chamam terra da luz,
mas não cantar com Hercílio
é cravar-me numa cruz,
é como subir ao céu
e não falar com Jesus!”

Conta-se que, na cantoria em que os dois geniais repentistas realmente se encontraram, Hercílio brindou o mestre Pinto com esta magistral sextilha:

“Canta, Severino Pinto,
massa dos quatro elementos,
catadupa do improviso,
montanha de pensamentos,
grandeza de céus e mares,
força da rosa-dos-ventos!”

(Informante: Raimundo Lourival de Lima(Lourinho), funcionário do Banco do Nordeste, Currais Novos – RN, gerente, em 1985). O poeta José de Sousa tem uma versão desse repente de Hercílio que apresenta diferenças em alguns versos, mas não demonstrou a devida segurança para contestar a informação de Raimundo Lourival. Esse tipo de dúvida para trabalho de improviso que não foi gravado ou anotado no momento de sua criação é muito comum, e o pesquisador muitas vezes não tem como solucionar, optando por apresentar a forma mais aceitável, para não deixar de registrar um repente de alta expressão, como é o caso analisado.

Numa cantoria, quando o assunto girava em torno da fé em Deus, Hercílio, reconhecendo que sem Ele nada somos, improvisou:

“Eu fui, eu sou e serei…
São três coisas de mister.
Se eu fui foi porque Deus quis,
se eu sou é porque Deus quer,
e para o tempo futuro
eu serei, se Deus quiser.”

Hercílio cantava numa casa sertaneja quando o companheiro chamou sua atenção para uma lagartixa que caía do teto:
“Caiu um bicho nojento,
feio e sujo sem parelha!”

Hercílio resumiu com arte e graça:

“Caiu um bicho da telha,
parece uma lagartixa:
é carne que não se come,
é couro que não se espicha.
Eu peço ao dono da casa:
pegue um pau, mate essa bicha!”

Hercílio cantava com Dimas Batista em mútuos elogios. Dimas findou assim uma sextilha:

“Não vejo quem pague os versos
do grande Hercílio Pinheiro.”

Hercílio, inspirado e elegante, respondeu:

“Enfrentar meu companheiro,
cantando, ninguém se atreve.
No momento em que ele canta
Parece que Deus escreve
Com tinta da cor do céu,
Em papel feito de neve

Numa cantoria em que os repentistas falavam da Escritura Sagrada, Hercílio improvisou:

“Na Escritura Sagrada,
me lembro que Jesus disse:
“Quem tivesse pra dar, desse,
quem não tivesse, pedisse;
quem fosse triste chorasse,
quem fosse alegre sorrisse.”

Dimas Batista, em dura peleja com Hercílio, assanhou a fera:

O que eu fizer num minuto
Você num ano não faz.

Hercílio foi fulminante na reprimenda:

Você tem razão demais,
Porque nasceu desumano,
Mesmo este é o costume
Do povo pernambucano:
Fala a verdade um minuto
E mente o resto do ano.

Por fim, minha homenagem ao inesquecível Hercílio Pinheiro:

-Perdemos há meio século
Nosso grande violeiro
E, por todos os recantos,
Lamenta o Nordeste inteiro
O silêncio da viola
Do grande Hercílio Pinheiro.

Seu nome virou legenda
No mundo da cantoria;
Morreu jovem, mas deixou
Um rastro de poesia
Que ilustra as mais lindas páginas
De sua biografia.

Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O poeta no papel, Sopa de Letras

Ana Célia Ellero (Olhos Vermelhos)

Depois de rolar várias vezes na cama tentando inutilmente dormir, Lúcia se levantou e foi à cozinha vasculhar o armário procurando encontrar biscoitos doces.

Sem sucesso em sua busca e sentindo seus olhos pesados, dirigiu-se ao banheiro e mirou-se no espelho na intenção de verificar como os mesmos estavam. Assim que a iluminação tomou conta do pequeno cômodo da casa que era composto por um vaso sanitário, um chuveiro exposto sem a proteção de um box e um pequeno jogo de pia e espelho, ela olhou para fora da janelinha que se abria deste banheiro para o telhado da casa vizinha.

Lá estava ele: branco, raquítico, alerta, olhos vermelhos — um gato albino.

O primeiro sentimento que a acometeu foi o de a mais profunda repulsa. A imagem daquele ser lhe era miserável, o resumo da inadaptação, do erro genético, do caminho oposto ao do comovente movimento harmonioso da Natureza.

Lúcia se esforçou para conseguir continuar a encará-lo e ambos permaneceram imobilizados por algum tempo. Depois desse momento de paralisia, o passo, enfim, foi dado pelo mais forte daquele encontro: saltando para o outro lado do telhado, o gato desapareceu.

Diante disso, ainda inebriada pela mescla da imagem bizarra do gato ao estado de insônia que sempre a deixava confusa, Lúcia voltou para seu quarto. Sentou-se na cama e passou supor, então: o gato albino deveria se esconder o dia todo para não ser agredido pela luminosidade do sol. Sairia somente à noite para se alimentar. Caminharia pela madrugada fuçando restos, sempre sozinho para que não tivesse que disputar o lixo com os outros animais fuçadores de lixo. Devido a sua compleição física, teria dificuldades em arranjar comida. Em uma disputa pelo alimento, a desvantagem sempre seria sua, já que não tinha forças para lutar. Difícil era receber a empatia de algum insone ou de um notívago disposto a lhe oferecer comida. Sempre expulso, carregaria pelas ruas escuras da cidade a sua imagem repugnante. Com sorte, após a batalha para adquirir pelo menos o mínimo que o permitiria estabelecer-se em pé, o herói da sobrevivência, voltaria para seu bueiro, com seu pequeno quinhão no estômago, sempre com suas costelas a se destacar, onde permaneceria até que a luz do dia não ferisse mais seus olhos.

Depois de se deixar envolver por essas breves, porém, intensas conjecturas, Lúcia sentiu-se impregnada de algo que lentamente se aproximava de uma manifestação emocional, cuja palavra mais próxima no sentido de descrevê-la seria “empatia”.

Esfregou seus olhos agressivamente, pois a falta de sono fazia com que os mesmos ficassem irritados. Sentiu-os como se os mesmos estivessem vermelhos e, com isso, uma comparação entre ela e o gato albino passou a configurar-se: também ela se considerava inapta diante da vida, também ela era a esquálida diante das pessoas que lhe cercavam. O cotidiano lhe era uma agressão: durante seu trabalho, concentrava-se apenas em realizar o que lhe era solicitado, buscando não se embrenhar em conversas que considerava tolas ou fazer parte da estrutura que exigia a competição selvagemente felina entre os seus.

Acostumara-se a essa sua condição e convivia com uma enorme comiseração por si mesma, todos os dias. Com a sensação de ser um grande blefe da vida, voltava para casa (bueiro?) com o alívio de mais um dia ter chegado ao fim.

Lúcia percebeu, porém, nesse momento que algo fundamental lhe diferenciava do gato albino. Este, em meio a sua luta para manter-se vivo, demonstrou uma solidez em seu ser não físico que pôde transmitir no olhar enviado a ela antes de saltar e ir embora. Olhar contrastante de um ser de pulsão forte em corpo frágil. Lúcia não tinha as estratégias de sobrevivência que pudessem torná-la também uma heroína em seu mundo, transformando sua inconsistência e seu desencanto em algo que a pudesse fortalecer diante da vida.

Ainda hoje, Lúcia busca todas as noites encontrar o gato albino no telhado ao lado de seu banheiro, com a expectativa de quem aguarda uma aparição divina. Pensa que se isso acontecer, ela poderá levá-lo para sua cama e oferecer-lhe leite morno. Poderá abraçá-lo, acariciá-lo, encará-lo em seus olhos vermelhos e aprender com ele.

Ela deseja intensamente que o gato albino volte, mas ele ainda não mais a visitou. Resta a Lúcia a fantasia de que, naquela noite em que se viram pela primeira e única vez, ela o acolheu para sempre como seu.
=========
Ana Célia Ellero é educadora com graduação e mestrado em Educação pela Unicamp. Já atuou em sala de aula e, trabalha como Assistente na Coordenadoria Setorial de Formação – Departamento Pedagógico, da Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Já publicou um conto na Revista da Associação de Leitura do Brasil – ALB, sediada na UNICAMP, denominado “Praga Urbana”.

Fontes:
Projeto Releituras
Webartigos.com
Imagem = Colivre

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, notas biográficas

Pedro Aparecido de Paulo (Poesias Avulsas)

MÃE, O MUNDO ENCANTADO

Sua doutrina Bendita
faz a vida mais bonita
mesmo na dificuldade.
Seu olhar tão meigo e puro
traz o seu filho seguro,
irradia felicidade.

Sua face tão serena,
de uma coisa tão pequena
faz transformação total.
A primeira frase do filho
faz-se seu nome estribilho
e o transforma em festival.

Suas mãos acariciam
seus afagos contagiam
trazendo tranquila paz.
Atrai a felicidade
amor e sinceridade
vejam, do que ela é capaz.

Seu coração envolvente
faz do seu filho inocente
um mar de sabedoria.
Ensina-o a cada passo
defendendo-o do fracasso
com prazer e alegria.

Pode ser uma rainha
ou uma mãe pobrezinha
não importa a diferença.
Se ela não tem riqueza
não sabe o que por na mesa
a Deus pede providência

TESTE DE PINCEL

Em você, o meu primeiro visual,
comecei a pintá-la, tornando-a imortal,
diante de seu corpo desnudo;
curvas e traços confundidos,
qual beleza inigualável em tudo.
Ao iniciar não revisei a tela,
não imaginei uma forma assim tão bela,
pois fora apenas um teste de pincel.
Riscos e cores traçados devagar,
não havia em mim razão para pintar,
pois seria somente em teste, o meu papel.
Aos primeiros traços que foram surgindo,
mudou tudo enfim, que quadro tão lindo,
arrumei a tela com profunda emoção!
Ao ver o seu corpo retratado ali
É indescritível tudo o que senti,
pois pintava alguém em meu próprio coração.
Vi com outros olhos pincéis e tela;
consertei os riscos, deixando-a mais bela.
No quadro, então, moldei-a, enfim.
Completei com júbilo seu corpo sem igual!
Tão rara imagem tornou-se imortal,
tenho essa musa, bem juntinho a mim!

DIÁLOGO DE UM FILHO

Mamãe, onde estará meu pai neste momento,
faz tanto tempo que ele partiu, não mais voltou.
Disse-me ainda que eu era forte e de talento,
enxugou minhas lágrimas e chorando me abraçou.

Foi um momento tão difícil e muito triste,
eu não podia imaginar que fosse assim,
meus cinco anos não me ensinaram ver que existem
coisas que marcam com lembrança tão ruim.

O tempo passa, eu pergunto à mãe querida,
será que papai se lembra ainda que eu existo?
Já completei meus quinze anos de vida,
este meu sonho um dia ainda conquisto.

Quantas vezes vejo minha mãe chorando,
mas ao me ver ela tenta disfarçar,
sei que ela passa também o que estou passando
meu pai querido, volte logo ao nosso lar.

Porém a nossa fé ainda é imensa
e o Pai do Céu vai nos dar essa vitória,
em todo sofrimento haverá a recompensa
um dia com papai, exaltaremos a sua glória.
––––––––––––

Pedro Aparecido de Paulo é técnico em elevadores. Nasceu em Sertanópolis – PR, no dia 21 de julho de 1946. Autor de Um pouquinho de Deus, de ti e de mim; Pedras e pétalas e Crepúsculo de saudade. Ocupa a Cadeira nº. 02 – Patrono: Alberto de Oliveira, da Academia de Letras de Maringá.

Fonte:
Academia de Letras de Maringá

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Paraná, Poesias Avulsas

Roberto Couto (A Ladeira e a Árvore)

Ladeira da Morte, por Bajzek

A ladeira era muito íngreme. Ele resfolegava após um conjunto de passos. Parava a cada dúzia de metros e se lembrava dos anos de menino. Como era grande para ele, agora! Agigantava-se, todavia, com serena altivez. Os passos antes lépidos e desafiadores daquele íngreme pico diariamente conquistado foram trocados por outros, prudentes, seguidos de excitada aceleração no coração. Lá em cima, dissipava-se o cansaço, substituído pelo prazer de um afago no tronco daquela árvore caprichosamente ali nascida. No meio da rua.

Por longos momentos ficava parado, olhando sua rua. A imagem aterradora das aulas de direção, com suas tensas trocas de marcha na subida interminável, dissipava-se, tornando a visão do passado um remansoso prazer. Gostava de ficar ali naquela espaçada área de contemplação e achego. Lá em cima, aquele acidente geográfico era sua cidadela contra os ataques da cidade grande. Abrigara sua inocência e agora reconfortava suas lembranças duramente curtidas por um corpo enrijecido pelo tempo.

Aquela árvore parecia vergar-se para o aconchego de seu corpo. Algo como um gozo, que umedecesse o tronco generoso e aflorasse os galhos de onde despencavam gotas adocicadas. O cheiro era de carmim. Majestosa, exalava sua sensualidade, mesmo no outono, a cruel estação que expunha com crueldade sua nudez. A nudez de alguém entrado em anos, muitos anos. O verão, cruento, não vencia sua altivez. Ali, exposta, resistia com invencível bravura `as intempéries do calor ou da chuva.

Ele não a decepcionava, acariciando seu tronco, soprando a poeira e fuligem de suas folhas, separando o lixo que a insensibilidade moral dos vizinhos insistia em depositar a seus pés. Foram anos e anos. Recostava-se nela, de frente, sua visão decrépita se alongava para a ladeira, agora sob a escura folhagem das árvores que a ladeavam com exuberantes copas.

A relação de amor dos dois, com o tempo ,tramou insondáveis desejos, como arrancar a árvore para um passeio pela ladeira. E tal se deu, escorregando pelas pedras úmidas e agarradas ao tronco forte e vigoroso que ainda vicejava e esparramava sua gosma. À surrealista cena não desapontou a natureza das coisas ao acolher a ladeira, em seu útero, por entre suas pedras, os pequeninos grãos caídos da árvore, enraizados, protegidos pelos galhos que maternalmente se fechavam, um a um, em harmônica coreografia, enquanto a árvore, agora deitada, dormia, embalada no choro daquele homem.
————–
Roberto Couto é bacharel em Direito, carioca da gema, um dos maiores conhecedores do Leblon, figura querida entre seus moradores. Fora dos tribunais, é praticante do sapateado e reconhecido pelos bambas como exímio executor do tamborim. Na arte de escrever, colabora com artigos sobre sua profissão no “Jornal do Commércio” do Rio de Janeiro. Seus contos e crônicas têm sido mantidos guardados, talvez nas caixinhas chinesas. Agora, vem à luz um novo desses trabalhos de rara beleza.

Fontes:
Projeto Releituras

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Beatriz Bracher (em Xeque no Paiol Literário)

“Ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados.”

Beatriz nasceu em São Paulo (SP), em 1961. Formada em Letras, foi uma das editoras da revista de literatura e filosofia 34 Letras e cofundadora da Editora 34, onde trabalhou por oito anos. Beatriz, que já esteve na Flip em 2005.
Publicou em 2002 seu primeiro romance, Azul e dura, seguido de Não falei (2004), Antonio (2007) e Meu amor, pelo qual recebeu, da Fundação Biblioteca Nacional, o Prêmio Clarice Lispector como melhor livro de contos de 2009.
Além de escritora, é roteirista de cinema. Em 1994, escreveu com Sérgio Bianchi o argumento do filme Cronicamente inviável e, com o mesmo diretor, o roteiro do longa-metragem Os inquilinos, com o qual conquistou o prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio 2009.

No dia 19 de outubro, o Paiol Literário – projeto promovido pelo Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná – recebeu a escritora BEATRIZ BRACHER.

Na conversa que teve com o escritor e jornalista Luís Henrique Pellanda no Teatro Paiol, em Curitiba, Beatriz Bracher falou sobre sua formação como leitora e a importância de haver trabalhado como editora durante quase uma década, explicou por que julga o conto um gênero “mais elevado” que o romance (embora não prefira um ao outro), analisou a violência contemporânea e a forma como (não) a absorvemos e previu uma longa vida ao livro de papel.

Leia abaixo os melhores momentos do bate-papo.

• Desordenar para reorganizar
A arte pode transformar o mundo ou não, como muitas outras coisas, como as idéias e a política. Mas não acho que ela tenha uma proeminência nesse aspecto. Ela pode transformar o mundo simplesmente por fazer parte dele. Ela está aí. Agora, essa crença de que a arte transformaria radicalmente o mundo, que criaria um novo homem, que nos traria uma espécie de iluminação – não acredito nisso. Por que é importante ler? Não sei. Acho que ler um livro é importante para você não estar aqui nem agora. Para você não ser você por um tempo. Para você ser os outros e habitar outros lugares durante o tempo em que estiver lendo. E, quando você voltar ao aqui e ao agora, a você mesmo, voltará com os olhos muito mais aguçados. Eu saio de um livro sempre muito comovida, ou tocada, ou agressiva. Sempre me transformo de alguma maneira. Fala-se muito que temos uma grande afeição ao caos, que o mundo é informe e que a arte daria forma às coisas. Na verdade, temos pânico do caos. Nós não conseguiríamos viver sem alguma ordem na nossa história. E o que a literatura faz é desordenar um pouco isso, mostrar outras maneiras de organizar nossa vida.

• Carga de honestidade
A literatura tem a ver com a solidão. É uma maneira que tenho de estar sozinha. Uma solidão que, de alguma maneira, compartilho com os personagens de um livro e o seu autor. Quer dizer, um livro sempre tem uma carga enorme de honestidade. Nele, você vê todos os personagens por dentro, tanto as suas coisas ruins como as boas. É um excesso de tudo. De amor, de ódio.

• Bicho arisco
Quando eu era pequena, naquela idade em que as crianças começam a ler Monteiro Lobato, com nove, dez anos, eu achava que ler livros era muito chato. Eu lia revistinhas, mas livros não. E teve uma época em que viajei para a Alemanha, numa espécie de intercâmbio. Morei lá uns dois meses, aos 11 anos, com uma família alemã amiga dos meus pais. Como senti muita falta deles, do Brasil e de tudo, me arrumaram um livro em português, O boi aruá, do Luís Jardim. E isso também teve a ver com a solidão. A primeira experiência forte de leitura, para muitas pessoas, teve a ver com algum momento difícil de suas vidas. Pois naquela hora, eu não só comecei a ler, como uma necessidade, mas comecei também a escrever. Eu escrevia cartas muito longas. Relatos, histórias, coisas assim.

• Histórias com matemática
Sempre gostei muito de contar histórias para os meus primos pequenos. E o gostar de contar histórias veio quase que antes do gostar de ler. Minha mãe sempre me contou muitas histórias, dela e da infância dela. Ela vem de uma família brasileira e libanesa de dez filhos, então sempre teve muitas histórias, e eu adorava ouvi-las. Já meu pai era de uma família suíço-alemã. Quanto às histórias que eu contava, acho que eu as inventava. Não me lembro bem. Quase sempre tinham a ver com algum menino que fugia de casa e levava na mochila três chocolates, não sei quantas balas. Sempre tinha alguma coisa de matemática, não sei por quê. Cinco camisas. Quatro cuecas. Eu gastava muito tempo nessa ordenação. E tudo sempre acabava bem.

• Adoração
Meus pais foram morar em Brasília quando eu tinha 14 anos. Lá, comecei a ler mais, comecei a ler Kafka e Borges, comecei a me interessar por literatura mesmo, e não só por histórias. E aí a literatura, para mim, passou a ser algo para se pensar o mundo. É engraçado: a partir de determinado ponto, passei a adorá-la. Ela me instigava. Abrir um livro novo era uma coisa muito boa. E comecei também a escrever, publiquei um conto na revista Escrita, aos 15 anos. O Luiz Ruffato, que estava fazendo um artigo grande sobre as revistas literárias da década de 70 (série publicada no Rascunho), até encontrou esse meu conto por lá (na época, Beatriz assinava como Bia Bracher). E também havia a revista José, o Suplemento do Estado de S. Paulo, que era ótimo, e depois o Folhetim, da Folha. Eu lia isso tudo, eram coisas que me atraíam. E comecei a escrever.

• A coisa mais importante do mundo
Fui mãe muito cedo. Com 18 anos. Acabei o ensino médio e fiquei oito anos só como mãe. Tive três filhos e só depois é que fui entrar na faculdade. Durante esse tempo todo fiquei escrevendo, mas eu tinha muito medo de mostrar minhas coisas. Talvez tivesse muito medo de querer ser escritora. Eu escrevia, mas admitir isso, para mim, era difícil. Fui fazer a faculdade de Letras porque achava que ser escritora era a coisa mais importante do mundo – e talvez por isso mesmo achasse que nunca seria uma escritora. Aí comecei a trabalhar na 34 Letras (revista de literatura da qual foi editora, de 1988 a 1991) e, mais tarde, na editora 34 (de 1992 a 2000). Depois, em 2000, com 39 anos, já tinha na cabeça a idéia de que, aos 40, eu estaria fazendo o melhor que podia dar de mim. Então me dei conta de que não era ser editora.

• Relato e criação
Quando saí da editora 34 e resolvi dar um tempo, também não sabia se era escrever o que eu queria. E propus, a mim mesma, tirar um ano fora e tentar escrever um livro. Evidentemente não consegui escrever um livro em um ano, mas consegui ver que era isso o que eu queria. Gostei muito de me dedicar a escrever. E vi que, quando escrevia para publicar, eu tinha um compromisso com a verdade muito maior do que quando escrevia para a gaveta. O que é curioso, porque, teoricamente, deveríamos ser mais espontâneos em trabalhos que os outros não vão ler. Mas espontaneidade, em relação à escrita, não tem nada a ver com verdade. Quando você é espontâneo – ou social, como aqui -, de alguma maneira você sempre vai falar o lugar-comum, até mesmo para conseguir se comunicar com os outros. Trata-se de um relato de suas experiências. E, quando você escreve para mostrar, trata-se da criação de uma experiência. Então, quando falo sobre a verdade, essa verdade não tem relação nenhuma com a realidade. Falo sobre a verdade que um texto será capaz de criar em quem o ler.

• Coragem para escrever
A experiência de ser editora me ajudou muito. Eu recebia muitos originais para ler. Tinha alguns bons. A maior parte era ruim. Algumas pessoas não eram escritoras, eram enroladoras; outras até eram escritoras, mas seus livros não eram bons. É engraçado, é diferente, você sente que ali tem algo forte, mas… Aí pensei: “Poxa, se eu fosse uma dessas pessoas já seria muito legal. Quem disse que serei uma boa escritora? Não sou eu quem vai decidir isso. Tenho que escrever. Tenho que tentar”. Então, aquilo me deu coragem, no sentido de que havia muita gente se arriscando, dando a cara a bater para ser escritor, e no sentido da modéstia também. Você não vai escrever o melhor livro do mundo, mas você pode escrever um livro bacana.

• 50 mil exemplares
Se o país está melhor ou pior, eu não sei. Tenho a impressão de que há mais gente lendo, e isso é muito bom. Sinto que ler já não é uma coisa tão pedante, como era antigamente. Sempre foi um problema muito grande, para quem gosta de ler, ser considerado meio chato. Era como se a gente lesse só para se mostrar, quando, na verdade, ler é um dos maiores divertimentos que existe, uma coisa muito viva, que não tem nada a ver com pedantismo. E na gestão do Fernando Henrique houve uma mudança no sistema de compra de livros pelo governo. Antigamente, o governo só comprava livros da Ática, da Moderna, dessas editoras que produziam para as escolas. Depois, passou a comprar livros de literatura para as bibliotecas das escolas, e se criaram sistemas em que muitas editoras pequenas puderam entrar. Essa política se manteve no governo atual, e ajudou muito as pequenas editoras. Porque, para o governo, você vende 5, 8, 12, 50 mil exemplares do mesmo livro. É claro que você o vende por um preço muito menor, mas é uma entrada de dinheiro muito importante para a sua editora.

• O bonito no romance
O romance é bacana exatamente porque é mais comezinho. Ele dura muito tempo, muitas páginas, e é aquela mesma história, com os mesmos personagens. Por mais burilado que seja, ele sempre tem uma largueza, é mais sujo, não tem muito jeito. Você demora alguns dias para lê-lo. Ou muitas horas. E ele vai te acompanhando. Você não tem como apreendê-lo de uma vez só, e nem o autor tem como escrevê-lo de uma só vez. Então, sempre que um autor está revisando um romance, ele lê 30 páginas e as revisa, e lê outras 30, e as revisa, mas nunca vai conseguir ler e revisar 200 páginas de uma vez. Isso é muito bonito no romance.

• O treino do conto
Às vezes, você lê, inteiro, um conto de 12, 20 ou 30 páginas. Quando o escreve, você começa e já tem a idéia de como será o seu final. Não é só questão de ser sintético. É que no conto acontecem menos coisas, mesmo. O tempo funciona de forma diferente para a ação. Por isso acho o conto mais elevado. É como se ele precisasse de uma eficácia maior. Ele tem que agir, ele tem que ser mais determinado, mais focado. Só me senti capaz de escrever contos quando senti que tinha um treino maior, quase muscular, de escrever ficção.

• Raquetada
Às vezes, você está há dias naquilo de escrever e apagar e, de repente, escreve algo bacana. Talvez um dia depois aquilo já não seja mais bacana, mas naquela hora pareceu ser. Quando isso acontece, me sinto como o Guga (Kuerten), quando ele faz aquele seu (Beatriz faz a mímica de uma raquetada e a acompanha com um grito) “aahnn!”. Porque é um esforço. Há muita coisa física quando estou lendo e escrevendo. É um prazer grande, físico mesmo.

• Bloco de pedra
Todo dia, escrevo das nove da manhã à uma da tarde. Fora de casa. Tenho um escritório. E, quando falo que escrevo, quero dizer que vou ao escritório; às vezes, não consigo escrever nada. Mas, fora as dispersões na internet, tento me policiar ao máximo. Não me permito fazer mais nada. Às vezes, vou ler outras coisas, relacionadas ao que estou escrevendo naquele momento. Leio e fico anotando. (…) Nunca sei onde um romance vai acabar, e mesmo o assunto de um romance: às vezes, começo com um e desenvolvo outro. Escrevo e limpo muito, gasto muito mais tempo limpando o texto do que com a sua primeira escrita. E sinto que sou mais artista quando limpo do que quando escrevo, porque a limpeza é uma reescrita, e aquele texto já está mais fora de mim, já é algo diferente. Escrever é separar um bloco de pedra. E revisar é limpar, é realmente começar a esculpir aquilo que já está determinado. Só vou poder esculpir aquele pedaço de pedra, não tenho mais muitas opções. É como se o trabalho intelectual, que é o forte para que uma história seja boa, só se iniciasse depois de eu haver escrito uma primeira mão. No conto, isso acontece mais rápido. Quando começo o trabalho de revisão de um conto, já tenho o conto inteiro. No romance, vou fazendo o trabalho de limpeza ao longo do livro. Então, ele vai mudando de caminho.

• Cruel
Não sou pessimista. Mas as pessoas acham que as coisas que escrevo são. Não acho. Meus contos e romances são muito cruéis, às vezes. Ou quase sempre. Mas não é uma coisa que eu sinta que sou. Percebo situações de opressão ou de dominação que outras pessoas não percebem. Sei lá. Eu me ofendo com facilidade. Não é que eu seja cruel. Eu sinto o mundo mais cruel do que as outras pessoas.

• O assassinato em si
Vi, na Bienal de São Paulo, um vídeo com a Clarice Lispector. Era a última entrevista que ela deu. E a Clarice, que escreveu um conto muito bonito sobre o Mineirinho, um assaltante que foi morto com 13 tiros, falava o seguinte: “Treze tiros, quando um bastava”. A revolta dela era com os 13 tiros. Na entrevista, ela contava mais ou menos como havia escrito aquele conto, quando o entrevistador perguntou: “Você acha que esse conto, da maneira como você o escreveu, pode alterar a realidade?“. E ela: “Não, não pode alterar nada“. Ela foi muito definitiva. E eu acho (Beatriz faz uma pausa muito longa)… que talvez possa. Do que é que estou falando naqueles contos (do livro Meu amor), sobre esses casos que envolvem principalmente crianças e velhos (Beatriz se refere a casos com os de Isabella Nardoni e o do menino João Hélio)? Você fica meio sem fôlego ao ver o que o ser humano é capaz de fazer. Como é que pode existir algo tão perverso dentro de você mesmo? E temos um certo prazer em comentar, em acompanhar casos assim. Quer dizer, os meus contos não são apenas uma crítica à mídia. Você também fica querendo ver o Jornal Nacional para saber o que vai sair sobre o caso Bruno, para saber se ele esquartejou a sua vítima ou não, se ele a deu para os cachorros ou não. Há pessoas como eu que ficam vendo televisão e lendo jornal para saber mais sobre essas coisas, e há também os comentários na padaria, e no táxi. E você vai ficando longe da tragédia que realmente aconteceu. Então, escrever esses contos foi quase como tentar recuperar o assassinato em si mesmo. Um pai que, parece, matou a filha. Os assaltantes que arrastaram o menino. Talvez seja uma coisa de reconstituir o crime no que ele tem de bárbaro.

• A ambição da crônica
Tem o caso daquela menina de 13 anos que ficou presa numa cadeia do Pará junto com vários homens (e que Beatriz aborda em Duas fotografias sobre o natural). Aí já não é ficção, é mais uma crônica mesmo. Os outros textos (do livro Meu amor) são de ficção porque mostram como os personagens vivem aqueles crimes. Não são sobre os crimes. E aí, na medida em que o texto é uma crônica, na medida em que ele tem a ver com jornalismo e tem um compromisso com a realidade, eu esperaria que ele pudesse mudar mais as coisas. Porque a arte muda a realidade de uma maneira diferente – se é que muda. E o jornalismo, a crônica, tem uma ambição mais imediata sobre o que está acontecendo. São duas expectativas diferentes.

• Bracher & Bueno
Nunca fui amiga do Wilson Bueno (1949-2010), nunca o conheci muito bem, mas, quando eu fazia a revista 34 Letras, ele, que editava o Nicolau, me ligou e pediu uma resenha sobre o Macunaíma. Daí, entre nós, houve uma troca de telefonemas e correspondências a respeito. Depois disso, às vezes, a gente ainda se falava, e um dia ele me contou uma história engraçada. Quando ele mandou para a editora 34 o seu romance Meu tio Roseno, a cavalo, eu li e amei aquele livro. Fizemos uma reunião entre os editores, todos decidimos publicá-lo e todo mundo ficou muito feliz. Teve só um negócio: a gente pediu uma orelha para o Benedito Nunes, que demorou muito para entregá-la – mas, pelo Benedito, valia a pena esperar o tempo que fosse, e o texto ficou incrível. Só que o Wilson dizia que a história não havia sido essa. Eu escrevera uma carta para ele falando que tinha adorado o seu livro, fazendo comentários bem minuciosos sobre todas as partes da obra, mas dizendo que, infelizmente, tínhamos muitos livros para aquele ano e para o outro, e que não poderíamos editá-lo. Enfim, eu dizia que não editaríamos o livro, mas que o tinha adorado e, na narração do Wilson, ele ainda estava com a carta na mão quando o telefone tocou, ele atendeu e era eu, eufórica, dizendo que tudo tinha mudado, e que a gente tinha dado um jeito, e que íamos publicar o livro, e logo! Acredito que deva ter acontecido isso mesmo. Se ele contou… (risos) Mas apaguei isso da minha cabeça.

• Editora culpada
Há um livro, não sei o nome do autor, que não me sai da cabeça, mais do que os livros que publicamos na 34. Era de um autor do Paraná, e se passava na cidade de Maringá, se não me engano. Não me lembro da história inteira, mas sei que havia muitas cenas ao longo de um rio, e que as pessoas estavam ocupando aquele território, começando a sua colonização. Tinha um episódio sobre um time de veteranos do qual o Garrincha fazia parte e que ia jogar com o time da cidade. Como o Garrincha já estava muito alquebrado, o beque do outro time, chocado com aquilo, começava a facilitar a vida para ele, mas o Garrincha ficava superbravo com o menino e dava um esculacho nele. É uma cena que me arrepia ainda agora. Era muito bem escrita, muito bacana. E, no final da história, lembro que ainda havia uns discos voadores. Era um livro que se passava em muitos lugares, e acho que devia ser muito bom para eu não me esquecer dele. Mas o fato é que achei que não era bom. Era um bom escritor, era uma boa história, mas era como se não estivesse pronta. E escrevi uma longa carta ao autor, dizendo o que eu achava que devia ser mudado. Alguns meses depois, recebi o livro de volta. O autor tinha realmente alterado algumas coisas, e não lembro, agora, se achei que ainda não estava bom, ou se os outros três editores é que não gostaram. Só sei que a gente não editou o livro, e senti muita culpa por causa disso. Aquele autor havia trabalhado em cima das minhas orientações. (…) Depois que aconteceu isso, eu respondia aos autores falando apenas “Nós não vamos editar o seu livro”. E só sugeria mudanças quando nós íamos editar o livro de qualquer maneira. Porque aquela foi uma experiência muito ruim para mim. E, para o autor, pior ainda. Provavelmente aquele livro, de primeira, já podia ter sido editado, porque era bom. Isto é o duro de ser editor: está na sua mão. Esse cara poderia ter uma carreira de escritor, poderia ter outros livros, e por causa do que aconteceu, pode ter se desviado, desistido, desanimado. Então, eu ouço muito os editores, é bom trabalhar com eles, mas quando você tem certeza de que a palavra final vai ser sua.

• Outra coisa
Tecnicamente, não sei muito bem como vai ser. Sempre haverá o livro de papel. Acontece que o livro de papel é muito mais caro que o eletrônico. E, se você tiver que diminuir a tiragem do livro de papel, pois muita gente passará a comprar o eletrônico, o de papel vai ficar cada vez mais caro. As tiragens serão menores e o preço unitário será maior. O livro de papel passará a ser um fetiche. Tenho a impressão de que não estarei mais aqui quando chegar essa hora, acho que o processo será realmente lento. Gosto muito de ter livros, é a coisa da posse, o meu livro. Não gosto de emprestar dos outros, e nem de emprestar os meus. No meu livro eu mexo, o meu livro eu quebro, escrevo em cima dele. Agora, não acho que o suporte altere o texto ou a leitura. Principalmente essa tela opaca, que alguns amigos meus (eu nunca li) dizem que é confortável. Dizem que é gostoso ler nela. Então, não acho que vá ser uma grande revolução – só quando tivermos livros interativos, livros que poderemos “prolongar” para outros lugares, por outros caminhos. Mas daí o livro será outra coisa, e não a literatura que a gente conhece hoje.

• Além do suporte
Um texto de Shakespeare em papel-jornal ou papel cuchê, numa edição tal ou qual, é um texto de Shakespeare. É aquilo. Está além do seu suporte.

• Um crime
Hoje em dia, o número de brasileiros que têm acesso ao computador é enorme. A internet aumentou o nível de leitura das pessoas porque, diferentemente da televisão, muito de seu conteúdo é feito de letras. Tem muita imagem, mas você lê muito. E também escreve. No Twitter, no seu blog, em seus e-mails. Dei aula numa escola de jovens e adultos na periferia e, quando queria que as pessoas lessem um conto da Clarice Lispector, era só entrar na internet e imprimi-lo. É pirataria. Você não está pagando direito autoral para ninguém, temos que achar uma solução para o problema, claro, mas é um crime não aproveitar isso. Você dá uma dica muito pequenininha para os adolescentes e, de repente, eles já estão lendo Goethe e Camões. E são pessoas que não têm um livro em casa. Isso é de uma beleza – o que a internet está possibilitando de difusão da literatura.

• A persona e a obra
Da primeira vez em que fui chamada para falar em público (na Flip de 2005), fiquei muito aflita. A persona do autor é difícil. Isso aqui não é algo que estou inventando. Apesar de eu saber que, se a gente for sair agora, tomar um café ou uma cerveja, serei diferente do que estou sendo aqui, e talvez eu vá ser menos honesta do que estou sendo aqui. Porque, de alguma maneira, este é um momento especial, no sentido de que estamos aqui especificamente para vocês me ouvirem, para eu falar sobre o meu trabalho. Não é uma conversa. É um momento que se criou para algo bastante específico. Estou falando aqui porque é essa a idéia deste momento e deste lugar. Só que não tenho a capacidade de rever o que estou falando. Não tem revisão, não posso limpar. Então dá bastante medo, ainda mais que o que digo sairá escrito depois. É pior ainda. E tem coisas que falei aqui e que já falei antes. É esquisito ouvir-se de novo falando essas coisas, parece que elas vão perdendo a sua verdade. Apesar de não perderem. São coisas que aconteceram. Mas eu gosto disso. Tem coisas que eu só penso porque me perguntam. Eu gosto de discutir literatura, e este é o momento bom de discutir. E, se tenho que discutir a minha, isso me obriga a pensar mais. Também descobri que gosto de ver autores falando. Na Flip, eu achava que isso era meio que um fetiche, mas descobri que, ao ver um autor falando, principalmente se você já o leu, você o entende melhor. Apesar de ser muito perigoso tentar ler um livro com a chave da vida do autor – e isso está ficando muito recorrente. Há artigos sobre um autor, entrevistas com um autor, mas cada vez menos resenhas ou discussões sobre seus livros. Milton Hatoum, por exemplo, um superescritor, dá muito poucas entrevistas. Então você vê poucos comentários sobre os livros dele, a não ser quando esses livros saem. Acho isso um perigo. A persona do autor será necessariamente menos interessante que a sua obra.

O texto abaixo foi enviado por Beatriz Bracher ao Rascunho via e-mail, um dia depois de nosso encontro no Paiol Literário.

• P. S.: Por que é importante ler?
No nono e último círculo do Inferno, da Divina Comédia, estão os traidores de seus hóspedes. Dante conta que eles estão perpetuamente imersos no gelo apenas com a cabeça de fora e os rostos voltados para cima,impedidos de continuarem a chorar, pois as lágrimas do “primeiro pranto, qual viseira de cristal”, congelam-se depois de inundar “do olho a cava inteira”. Fiquei pensando se a literatura também não é a possibilidade de abaixar o rosto e chorar de olhos fechados. Desprender-se de uma só dor e poder chorar, inclusive, a dor de muitos outros.

Fonte:
Edição: Luís Henrique Pellanda. In Rascunho.

Deixe um comentário

Arquivado em A escritora em xeque, Contos, Entrevista, Entrevistas, notas biográficas, Trovas

Ana Vieira Pereira (Do Intraduzível)


Traduzir tem variadas utilidades. Mesmo que às vezes seja possível ligar uma espécie de piloto automático, na maioria é indispensável parar, absorver, ler de novo, apoiar-se quem sabe no dicionário de sinônimos abandonado na prateleira lá de cima. Nem sempre é fácil encontrar a palavra certa, a tradução exata. Quando o texto é técnico, vá lá, mas quando tende ao literário, ao fazer-se arte através da palavra, fica difícil passar adiante.

Há textos em que se aprendem coisas novas. As descobertas por vezes ocupam tanto espaço que é fácil esquecer o que era mesmo que se fazia – tentar ganhar a vida traduzindo. Usa-se o tempo para divagações sem fim, técnica da qual este texto é um bom exemplo, indiferente aos arquivos que se acumulam na caixa de “a traduzir”.

Alguns (muitos) anos atrás, fiz algumas traduções para a revista Casa & Jardim. Alguns artigos sobre paisagismo, algo sobre reciclagem já naquela época, linguagem coloquial fluente, fácil de entender e de traduzir. Numa das matérias, sobre flores (estava a primavera por perto), apareceu-me um “pensée sauvage” pela frente, que eu demorei um tempo a desenvolver dentro de mim. Digo desenvolver, porque algumas palavras desenvolvem-se, desenovelam-se, criam algo parecido com uma raiz dentro de nós antes de se lançarem na língua para a qual se pretendem traduzidas. Essa foi uma delas – gostei da sonoridade, da ideia de “pensamento selvagem” que com certeza não seria a tradução correta para os futuros leitores jardineiros… Fui à procura de quem entendia. Cheguei ao nosso “amor perfeito”, que é a tal flor, nomeada na nossa língua. Essa descoberta tomou-me é claro ainda mais tempo – fiquei encantada com a possibilidade de que o que para nós é um amor perfeito para um francês seja um pensamento selvagem. Pensem um segundo – é de ficar muito tempo pensando!

Há ainda aqueles textos em que as palavras são completamente e de fato intraduzíveis. Quando isso acontece, há duas possibilidades: ou o autor não soube mesmo se expressar direito (e você que dê seus pulos para entender o que ele mesmo parece não ter entendido que queria dizer), ou soube expressar-se tão bem que chega a se materializar ao seu lado e você imobilizado pelo terrível que soa qualquer escolha – querendo ou não, sempre se perde.

No fundo, no fundo, não há grandes diferenças entre traduzir e sentir. Há os sentimentos que entram no automático: não se pensa muito neles, fazem parte, aí estão. Há os que nos dão um susto – e ainda ocupam tempo, espaço, energia, dão-nos voltas e voltas e demoram a sair de nós com autonomia. São pensamentos selvagens vestidos com as roupas dos amores perfeitos.

E há os intraduzíveis, divididos também naquelas duas possibilidades: aqueles que não se explicaram e aqueles que, por meios incomuns, se explicaram tão bem que nos imobilizam. Esses, palpitam ao nosso lado, às vezes com força, outras apenas insistentemente. Somente roçam a nossa pele e deslizam os olhos pelos contornos da nossa sombra. Ainda não encontrei outra solução a não ser respirar e entrar num outro estado. Metros acima deste nosso, caracterizado pela força da gravidade, vibram com a leveza de um arco, entram e saem de nós sem portas e sem travessas, fluem por entre as nossas células como vento que nos atravessasse sem criar cadáveres. A esses intraduzíveis sentimentos, como com as palavras, imagino um dia encontrar-lhes a tradução perfeita, o espaço exato, e por isso esforço-me em guardá-los onde nada em mim os atinja, para que, quando possam, me atravessem com a simplicidade de um pássaro liberto.
====================
Sobre a Autora
Ana Vieira Pereira tem 45 anos, é portuguesa e vive há 25 anos no Brasil. Doutora em Literatura Comparada pela USP, é professora de literatura do Ensino Médio e coordena o espaço QuintAventura – oficina de processos criativos, na cidade paulista de Botucatu. Entre os títulos publicados estão “Mistache malabona – as crônicas do alobairrodemétria” e “O que sobrevive” (poesia).

Fontes:
Projeto Releituras.
Imagem = http://acertodecontas.blog.br/economia/mais-uma-dvida-sobre-financiamento-imobilirio/

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, notas biográficas

Jorge Facury (Lançamento do Livro “Assim me Contaram”)

Todos têm histórias para contar, seja elas tristes, alegres, que trazem uma lição de vida, seja simplesmente divertidas para quem as escuta. O que faz toda a diferença, no entanto, é se essas histórias são externadas para outras pessoas ou guardadas somente para si. Partilhar trajetórias de vida e com elas levar uma mensagem às pessoas é o objetivo do livro “Assim me contaram”, do professor Jorge Facury Ferreira. A obra, fruto de um trabalho de quase dois anos do autor, será lançada neste sábado (11), no Gabinete de Leitura de Sorocaba (Praça Coronel Fernando Prestes, 27, Centro), às 19h30, pela Editora Crearte.

“Assim me contaram” reúne as mais diversas histórias contadas por pessoas próximas de Facury, desde causos divertidos e criativos até histórias reais de gente que sofreu, lutou e venceu na vida. O livro é resultado de anos de escuta e registro do autor, que, com muita sensibilidade e atenção, passou a escrever ao longo dos anos as vivências que ouvia, muitas delas contadas ao acaso.

Segundo Jorge, tudo começou há alguns anos, quando um amigo muito próximo lhe confiou uma história particular e rica em detalhes, mas acabou morrendo dias depois para a surpresa do escritor. A morte repentina do amigo despertou em Facury a necessidade de ouvir mais as pessoas, e registrar aquilo que têm para contar. “Eu sou muito observador e presto atenção em tudo o que os outros dizem. Às vezes, de uma conversa despretensiosa nascem reflexões e lições para nossa vida.”

Para o professor, poder partilhar passagens de vida com os demais é motivo de muito orgulho e alegria. “As pessoas ficaram muito felizes ao confiar a mim suas narrações, e eu me realizei em poder eternizar nas letras um saber pessoal, algo essencial no mundo delas.”

O DIÁRIO de Sorocaba vai contar a você, leitor, em primeira mão, duas interessantes histórias do livro, que divertem e levam à reflexão acerca da vida e do quanto vale a pena lutar por um objetivo maior.

“COISA À TOA” –
A primeira memória que o jornal partilha foi contada ao autor por Humberto Jairo Rodrigues Pereira, construtor civil de Sorocaba.

Na pequena cidade de Palmatória (CE), dois amigos saíram cedo de bicicleta para buscar lenha a fim de suprir o forno e garantir a comida. Tudo muito fácil: acha-se os galhos, faz-se um bom feixe amarrado na traseira da bike e pé no pedal! Aconteceu, contudo, que um deles voltou logo e o outro não. As horas passavam e nada de o rapaz aparecer…

Quando enfim retornou, estava embriagado, e, esquecido da tarefa essencial, encostou-se numa vendinha de beira de estrada e relaxou a tomar cachaça e jogar conversa fora. Pior que isso, reapareceu sem a bicicleta, esbaforido e cambaleante, contando a todos ter sido alvo de um atentado. O jovem bêbado estava convencido de que algum desconhecido lhe teria disparado um tiro, sem atingi-lo, e, ao cair, levantou-se, largou a bicicleta e fugiu desesperado, rezando para não ser novamente mirado. Na queda ralou os braços e perdeu os óculos.

Familiares e amigos inflamaram-se pelo caso. Gente simples, acostumada ao trabalho na roça, logo se reuniram, munidos de espingardas e armas brancas para pegar o suposto agressor. Partiram, então, na direção do ocorrido, guiados pela vítima, trôpega da cachaça. “Onde se viu atacar um homem bêbado? Quem seria covarde o suficiente? Era hora de dar uma bela lição!”, eis a indignação que habitava o consciente coletivo.

Chegando ao local, a bicicleta ainda estava lá, abandonada no mesmo ponto da queda. Isso já adiantava alguma conclusão: não era caso de roubo… Ao recolherem-na, constataram, ainda, que um dos pneus havia estourado. A conclusão do caso, então, foi objetiva e inequívoca: o estampido não fora de tiro nenhum! O bêbado infeliz assustara-se à toa com um simples estouro do pneu…

Todos, então, cravaram-lhe olhares com expressões indescritíveis, e ele, vendo-se rodeado de pessoas indignadas e incrédulas, não se fez de rogado… Com certa graça, justificou-se e já foi logo dizendo: “’Bão’, já que foi um final feliz, que tal fazer um brinde na vendinha?”.

“LEMBRANÇA DO FUTURO” –
Outra história foi narrada por Amauri Brandi, dentista e marceneiro de Sorocaba. Esta é mais rica de detalhes e lições de vida que a anterior, mas não menos divertida.

Em algum tempo dos fins do século XIX, na esteira da fomentada imigração italiana, alguns membros da família Brandi chegaram à região da atual cidade de Presidente Bernardes, na região oeste do Estado de São Paulo. Como tantos, aqui chegaram em busca de melhores condições de vida e de trabalho. Aqueles que podiam, logo compravam terras baratas e tornavam-se pequenos proprietários – caso dos Brandi.

A primeira atividade foi a agricultura; viçosos, os pés de café erguiam-se do solo roxo e as matas caíam. A autossubsistência e o plantio ancoraram a nova vida, sempre com muito sacrifício. Do encontro com outros da mesma pátria, restavam largas conversações, fala estranha aos naturais da terra.

Antônio Brandi conheceu Luiza Magon e os dois se apaixonaram. Do encanto mútuo, surgiu uma fuga e depois um casamento. O tempo passou, veio a decadência do produto cultivado e outros fatores cruciais que a história traz, compondo tempos difíceis de viver. O chefe da família Brandi viu-se submetido a uma situação dramática.

Homem de fibra, afeito à disciplina do trabalho, sofria ao ter de presenciar a mísera refeição da mulher e três filhos: um panelão com farinha de milho batida e água. Nesse período, João Brandi, o mais velho, aventurou-se a pé pondo-se a explorar uma parte das terras adquiridas que nunca eram visitadas por causa das características naturais impróprias para a agricultura. Tratava-se de um brejão nada convidativo.

Nessa exploração, acabou encontrando uma apreciável mina de água e, entusiasmado, foi ter com os pais e contar a novidade. Tiveram, então, a idéia de engarrafar água. Puseram-se a vendê-la como puríssima que, de fato, o era. A ideia resultou bem, uma vez que compradores vagarosamente apareceram. Entretanto, é provável que num tempo de quase nenhum comércio do gênero, muitos que buscavam a água tinham, na verdade, somente intenção de ajudar a pobre família. Era, afinal, uma forma de contribuir sem parecer que se punham a acudir.

O brejo, para onde Antônio agora se dirigia buscar água, era um lugar feio, cheio de animais peçonhentos e perigosos. Por isso, orientava em tom de ordem para que nenhum dos filhos aparecesse por lá. O filho mais velho, João, tinha perfeita consciência disso, mas se deixou levar pela curiosidade numa certa manhã e se embrenhou no lugar. Avançando além do que já tinha visto, dez minutos depois se encontrou num apuro: fora picado por uma cobra.

Ao voltar para casa com a má notícia, a família já se prontificou a buscar tratamento para o adoentado. Para tanto, receberam ajuda de pessoas que ofereceram uma viagem a Sorocaba. Lá, uma senhora negra os esperaria para acudi-los. O mais breve partiram e, chegando ao destino, o rapazinho recebeu o tratamento adequado.

Premidos pela circunstância, aproveitaram para conhecer a cidade e constataram várias fábricas: o progresso aqui estava. Calcula-se que quando desse acontecimento já deveriam correr os anos 30.

Prepararam-se, então, para a volta às terras do oeste paulista, deixando a hospitaleira senhora e sua família, de quem restou boa amizade. Tudo seguiu como outrora, a penúria infelizmente continuou por longo tempo. Certa manhã, Antônio sentou-se a conversar com a esposa e contou o que lhe corria pela mente e o que ditava seu coração no silêncio das madrugadas: gostara de Sorocaba e estava com a intuição de que poderiam refazer a vida por lá. Conversaram e amadureceram bem a idéia de uma mudança.

Da vontade manifesta à prática não custou muito, ainda mais agora que tinham com quem contar por aquelas bandas. A picada de cobra fora, afinal de contas, motivo incidental para o inesperado rumo novo. Juntaram o que podiam levar na viagem, despediram-se dos mais chegados e, com mínimos recursos, tomaram a estrada.

Desde que finalmente chegados a Sorocaba, Antônio Brandi externou uma notável certeza que causou estranheza total e absoluta em Luiza e filhos… Estando na rua que ora se denomina Visconde do Rio Branco, no atual bairro do Cerrado, o homem avistou uma casa, relativamente boa, e disse à mulher: “Eis a nossa casa! É aqui que vamos morar!”

A esposa, cansada da penosa viagem, suspirou e nada disse. O que haveria com o homem para fazer tal afirmação? Não tinham o que comer e ele falando em comprar uma casa! Teria tomado sol em demasia na cabeça?

Recebidos com grande satisfação pela senhora amiga, esta lhes estendeu as mãos dizendo que poderiam ficar tranquilos e desfrutar de sua casa à vontade, até que o homem encontrasse um trabalho. Brandi agradeceu e fez saber que não seria preciso, que dentro de alguns dias estariam em uma nova casa.

No outro dia, passava ele mais uma vez pela Rua Visconde do Rio Branco a observar a casa mencionada, quando alguém se aproximou. Era um vendedor de bilhetes que ofereceu: “Olhe, senhor! Compre este bilhete que trago, é seu! Pode comprar que vai ganhar. Não é conversa de vendedor não, é coisa pro senhor mesmo!”

O italiano respondeu que não tinha trocado suficiente para o valor do bilhete, e tirou uma nota amassada do bolso… “É o que basta!”, disse o bilheteiro, arrematando: “Quando o senhor tiver o prêmio em mãos, aceito que me dê uma ‘quirerinha’”. De saída, deixou as referências do local onde poderia ser encontrado.

Ora, o valoroso e determinado Brandi, ao conferir o bilhete no dia seguinte, viu que tinha tirado o primeiro prêmio no jogo do bicho oficial! Aquela foi uma notícia tão feliz quanto inacreditável para todos. Ele comprou a casa assim que recebeu o dinheiro, depois procurou o bilheteiro, que era um homem simples, e com grande gosto deu-lhe generosa soma.

Tanto quanto o vendedor de bilhetes fora objetivo e verdadeiro em suas palavras, certo é que o italiano mostrara-se dono, desde o princípio, de uma rara Afirmação Superior!

A vida alargou-se em oportunidades jamais cogitadas, de modo que até aumentou a família, com a adoção de uma menina. Brandi, por sua vez, tornou-se marceneiro e fez do ofício uma herança profissional aos filhos e aos netos, que hoje o exercem.

E o mais curioso da história toda: a figura estampada no bilhete premiado era a COBRA!

SOBRE O AUTOR –
Jorge Facury Ferreira é natural de Tatuí – SP, e reside em Sorocaba há mais de 15 anos. É educador, escritor e pesquisador de ufologia desde os 16 anos de idade. Publicou os livros “Um Brilho no Céu de Outubro”, “Os viajantes” e “Rubião, o velho – contos de sonho acordado”. É Membro do Conselho Editorial da Revista Ufo. Cronista colaborador de diversos jornais. Foi membro ativo do MORHAN – Movimento de Reabilitação do Hanseniano – nos anos 90.

O autor lembra que esta é só a primeira parte da obra, pois mais histórias estão surgindo para ser contadas. Caso você tenha algum fato interessante que gostaria de manifestar, entre em contato com Jorge pelo e-mail assimmecontaram@hotmail.com. O lançamento é aberto a todos.

Fontes:
– Cintian Moraes
Diário de Sorocaba. 6 dez 2010.
Balaio de Gato

Deixe um comentário

Arquivado em Lançamento, notas biográficas, O Escritor com a Palavra, Sorocaba

Rafael Rodrigues (O Escritor Premiado)

Ilustração de Jairo Souza
No dia seguinte à chegada inesperada e retumbante, porém demorada, do sucesso, percebeu que suas roupas já não lhe serviam mais. Decidiu que iria imediatamente comprar calças, camisas, ternos e sapatos decentes, que fizessem jus a seu posto de mais talentoso e premiado escritor do ano.

Chegou a tirar o telefone do gancho, com intenção de ligar para a esposa e dizer “daqui a quinze minutos passo aí para te pegar”, mesmo que ainda fosse três da tarde e ela só estivesse livre do escritório às seis. O emprego dela não era mesmo grande coisa, seria até bom que abandonasse assim o expediente. Afinal, desde o dia anterior ela não era mais a esposa do escritor fracassado, de algumas centenas de livros vendidos e duas aparições na tevê (em matérias de cinco minutos cada, veiculadas no jornal local, nas quais deu declarações que, somadas, totalizam exatamente cento e setenta e sete segundos, de acordo com seu próprio cronômetro). Agora, ela seria a esposa de um dos expoentes da literatura contemporânea do país, que daria entrevistas a vários jornais, revistas e canais de televisão. Seria convidado da Flip, da Flap, do Flop e do Flup. Da Flep, não, porque esse evento é organizado por um de seus maiores desafetos. Mas quem precisa da Flep, afinal? Nem cachê eles pagam…

Abandonou o telefone porque lembrou-se da noite anterior. Depois de saber que seu livro inacreditavelmente fora eleito o melhor do ano por aquele bando de críticos que ele sempre julgou serem vendidos e, além disso, invejosos, idiotas, burros, analfabetos, safados, pilantras, mercenários e adjetivos outros que não cabem ser explicitados aqui, ele e sua esposa foram a um desses hipermercados que ficam abertos vinte e quatro horas comprar um vinho.

Mas não um vinho qualquer. A ocasião era por demais especial. Porque além de ter seu livro elogiadíssimo – os jurados do prêmio literário, na nota de divulgação do resultado final, diziam coisas como “um dos melhores romances da última década”, “com sua prosa arrojada, o autor entra para o seleto grupo de escritores que merecem o maior dos prêmios literários: a posteridade”, ou, ainda, “perturbador do início ao fim, este romance é uma obraprima” –, sua conta bancária em breve estaria recheada de centenas de mil dinheiros. Para ele, dinheiro não seria mais problema, e fazia questão de comprar o melhor vinho que estivesse à venda naquela espelunca.

Até então, nunca precisara comprar um bom vinho. Nem mesmo quando do casamento. Com tanta coisa para pagar – “e a casa, meu Deus, e a casa?”, ele pensava, na época, sempre desesperado para honrar o financiamento em 300 meses feito através da Caixa Econômica Federal –, o casamento foi simples – bem simples, mesmo – e o vinho, mais ainda. Mas isso não significa que ele não soubesse o que é um vinho decente. Em suas leituras – ele lia muito, afinal, é um escritor –, volta e meia apareciam personagens ricos, cultos – e esnobes –, apreciadores de bons vinhos. Geralmente literatura francesa, sendo que alguns escritores norte-americanos também faziam questão de explicitar seus conhecimentos vínicos. Tal característica em escritores que ele tanto admirava o deixou curioso e ele terminou por ler alguma coisa sobre vinhos.

Na seção de bebidas, perguntou à esposa que tipo de vinho ela preferia. Ouviu como resposta “Um bom, ué. Pode ser este aqui”. Estava segurando uma garrafa de Quinta do Morgado (tinto e suave). Há pouco mais de um mês um amigo lhes indicara aquela marca, da qual gostaram muito. Mas agora a situação era outra. Ele não poderia tomar um vinho daqueles, barato, que qualquer um pode comprar. Além disso, lembrou-se dos escritores cultos, esnobes – mas nem sempre ricos – e geralmente alcoólatras que lia. Decididamente, não compraria um vinho ridículo como aquele.

Disse à esposa, com todo o cuidado, que gostara muito do Quinta do Morgado, mas que a ocasião era especial e que deveriam comprar algo melhor e mais caro. Novamente pediu-lhe uma sugestão; ela disse-lhe que não entendia de vinhos, e que gostara bastante daquele que agora colocava de volta na prateleira.

Naquele momento, não lhe causou espanto ouvir sua esposa dizer que não entende de vinhos. Mas nos segundos que antecederam o abandono do telefone, notou que não poderia comprar roupas com uma mulher que nada entende de algo tão importante. Decidiu ir sozinho ao shopping.

O shopping. Ele odiava o shopping. Pessoas indo de um lado para o outro, subindo e descendo, olhando vitrines, tomando sorvetes, comendo sanduíches, pessoas berrando, bebendo, fumando, tropeçando nele, impedindo sua passagem, levando horas para sacar um maldito dinheiro num caixa eletrônico. Ia algumas vezes ao shopping apenas porque frequentava as duas livrarias que lá estavam abrigadas. Não fosse isso, jamais colocaria seus pés ali.

Mas, naquele dia, o shopping lhe pareceu muito agradável. Pessoas sorridentes, felizes, mães e pais andando de mãos dadas com seus filhos, casais de namorados abraçados, tudo na mais perfeita harmonia. Percorreu algumas lojas masculinas de grife e gastou o equivalente ao valor que ganhara em todo o mês anterior, com suas aulas de literatura num cursinho pré-vestibular e alguma coisa que pingava em sua conta bancária referente a direitos autorais. Entrou em uma das duas livrarias, mas não comprou nenhum livro. Sequer passeou seus olhos pelas estantes. Nem mesmo verificou se ainda estava lá o único exemplar do seu livro que restava na livraria, coisa que ele sempre fazia quando ia lá – naquela loja ele bateu seu recorde de vendas: 53 exemplares vendidos na noite de lançamento, há dois anos. Queria apenas tomar um capuccino e comer um cookie de chocolate.

Ao chegar em casa, pouco antes das seis horas da tarde, seus olhos ignoraram a foto que ele sempre mirava ao abrir a porta e que estava no mesmo lugar em que sempre esteve nos dois últimos anos: uma peça comprada por eles especificamente para aquele fim. Ela queria que uma fotografia dos dois, a que ela mais gostava, fosse uma espécie de cartão de visitas do casal a todo aquele que entrasse naquela casa.

Ela chegou pouco depois das seis e meia e ficou surpresa ao ver todas aquelas sacolas de compras ao lado da cama. Perguntou que novidade era essa, e ele respondeu dizendo que um escritor talentoso não podia mais vestir roupas comuns, de lojas de departamentos. Precisaria, a partir de agora, vestir-se bem, com elegância. Ela achou engraçado, disse que a esposa do escritor queria andar elegante também e foi tomar um banho. Ele chegou a pensar na possibilidade de irem comprar roupas novas para ela no dia seguinte, mas seus pensamentos se voltaram novamente para a noite anterior. Depois, pensou que uma mulher como ela, que trabalhava no setor administrativo de uma empresa de médio porte, não tinha motivos para andar elegante. Durante a maior parte do dia ela vestia a farda da empresa, e nos finais de semana eles pouco saíam juntos. Ela não gostava de ir a eventos literários e, enquanto ele estava em um lançamento de livro, assistindo a uma mesa redonda sobre literatura ou mesmo tomando um café com algum amigo escritor, ela aproveitava para visitar sua mãe ou receber a visita de alguma amiga. Para atividades como essas, estar elegante não era necessário.

Alguns minutos se passaram e ela foi à cozinha com intenção de tomar o café que ele sempre fazia antes de ela chegar. Mas não havia café. Ele não fizera. Perguntou sobre o café e ouviu-o dizer que esquecera. Ela acabou fazendo.

Enquanto ela comia – ele, não, “fiz um lanche no shopping”; “você, comendo no shopping?”; “é, um capuccino e um cookie, deu vontade” –, ele pensava que, dali em diante, sua vida jamais seria mais a mesma. Se aquele livro lhe rendera um prêmio tão importante, o que os próximos, que seriam melhores ainda, não poderiam conquistar? E os anteriores, que também eram bons, começariam a vender mais, ganhariam novas edições, finalmente seriam lidos pelos mesmos críticos que ele julgava serem vendidos e, além disso, invejosos, idiotas, burros, analfabetos, safados, pilantras, mercenários e adjetivos outros que não cabem ser explicitados aqui, e certamente esses mesmos críticos derramariam sobre suas obras elogios dos mais variados, como “um dos melhores livros de contos da última década”, “com sua prosa arrojada, o autor entra para o seleto grupo de escritores que merecem o maior dos prêmios literários: a posteridade”, ou, ainda, “perturbador do início ao fim, este volume de contos é uma obra-prima”. Editoras disputariam pra ter seu nome no catálogo, ele assinaria contratos de valores surreais e no máximo em três anos sua vida financeira estaria muito
bem, obrigado. Ele dava ênfase ao “muito bem”.

Sua esposa terminara o café e se aproximava para sentar-se ao seu lado. Com aquela voz doce que só as mulheres carinhosas têm, ela perguntou como estava o seu escritor favorito de todos os tempos. Ela sempre esteve ao seu lado. Foi uma das poucas pessoas que acreditaram no seu talento e, quando ele se permitia pensar em desistir da literatura, ela dizia que ele só faria isso se passasse por cima de seu cadáver. O corpo dele respondeu mecanicamente ao carinho, exceto seus lábios, que não
se moveram – nem para beijá-la, nem para dizer palavra.

Tão cedo ele não precisaria pensar em desistir da literatura, mas agora, enquanto forçosamente a abraçava, pensou que a ideia do cadáver não era de todo ruim.
–––––––––––––––––––-
O Autor
Baiano de Feira de Santana, Rafael Rodrigues colabora desde 2003 com sites literários, tendo textos (resenhas, contos, crônicas e alguma poesia) publicados internet afora. Colaborador da revista Conhecimento Prático Literatura, além de ser editor-assistente e colunista do site Digestivo Cultural. Música, literatura e cinema – temas deste blog – são suas paixões.

Fonte:
Suplemgnto Literário. N. 1330 – maio-junho 2010. Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Graça Graúna (Manifesto)

…fragmento que sou
da fúria no choque cultural,
aqui, manifesto o meu receio
de não conhecer mais de perto
o que ainda resta
do cheiro da mata
da água
do fogo
da terra e do ar

Torno a dizer:
manifesto o meu receio
de não conhecer mais de perto
o cheiro da minha aldeia
onde ainda cunhantã
aprendi a ler a terra
sangrando por dentro
––––––––––-

Graça Graúna é natural do Rio Grande do Norte e tem doutorado em letras pela (UFPE). Em uma apresentação sua ao universo indígena expõe com inequívoca propriedade: “A literatura indígena é um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas ao longo da história há mais de 500 anos. Enraizada nas origens, esse instrumento de luta e sobrevivência vem se preservando na autohistória de escritores (as) indígenas e descendentes e na recepção de um público diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones.” Graça participa ativamente do Overmundo e tem um blog próprio: http://ggrauna.blogspot.com/ onde apresenta suas ideias.
Membro do grupo de Escritores Indígenas, Educadora universitária na área de Literatura e Direitos Humanos.

Fonte:
Texto e imagem = http://ggrauna.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em A Poetisa no Papel, notas biográficas, Poesias

Alfredo Brasílio De Araújo (Livro de Trovas)

Do galho mirando a água
do riacho que desliza
um sabiá canta em mágoa
vendo um rio que agoniza…

O mar tem lá suas manhas,
faz saltos ornamentais
tenta galgar as montanhas
e beijar Minas Gerais…

Eu descobri contrafeito,
felicidade tardia…
eras o sol do meu peito
que se apagava…eu não via…

Amor é suave presença
que uma ausência não desfaz
quanto mais nele se pensa,
mais presente ele se faz…

Deixo a chave na cancela,
iludo meu coração…
sonhador à espera que ela
retornando a encontre à mão…

Uma boquinha sugando
o seio da mãe querida,
é uma vida festejando
com vinho branco outra vida…

Ela surgiu de repente
na minha vida vazia…
como estrela, lentamente,
fugiu à luz do meu dia…

Num dilúvio de paixão,
despreparados os dois,
vimos nossa embarcação
naufragar logo depois…

Para sempre tu serás
meu trigo, minha videira,
meu alimento de paz,
que colhi a vida inteira…

Tanta graça, santo Deus,
essa menina me passa,
que ao olhar nos olhos seus
os meus se cobrem de graça…

Fonte:
UBT Nacional

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Trovas

Héber Sales (Livro de Poesias)

A FELICIDADE

é tão delicado
quanto cuidar de um pedaço de céu

estar de acordo com o ar
o fogo
a água da estação

e não tocar a terra
com ambição

A COLHEITA

guardar a palavra
que apenas a brisa conhece

ser por montanhas apascentado

quando a fruta madura estiver
um vale
sem esforço algum
a recolherá

LIVRE

o céu e a terra
não riem
não choram
com a chegada e a partida
de cada estação:

ser triste ou feliz
é pequeno demais

BOA SORTE

Já é outono por aqui. O céu
está a todo tempo encoberto.
Tem chovido muito. A casa
a praia andam cheias de sono
e à noite há sempre as pessoas
que buscam em vão as estrelas.

Mas eu hoje cedo, bem de manhã
acordei com a algazarra dos cães.
Lá fora os jasmins floresciam
a lembrança de outra estação.

O SENTIDO

Há rastros do silêncio
nas palavras, eu sinto
o predador informe
que nos respira –

uma selvageria me percorre.

Eu adivinho o êxtase
da refrega, o verso
que me acomete de vertigens

o olhar imponderável
da mais antiga fera.

* Releitura do poema publicado na Diversos Afins de novembro/2007.

O VELHO LIMOEIRO

À chuva bastou apenas
cuidar de um verde para a manhã.
O dia está de ave desde o arrebol.

O palavrário eu pus no quarador
para ver se pega cor de riso.
As horas, para ensaiar felicidade.

Em dias assim, o velho limoeiro
se toma um pouco mais de azul
acaba arremedando estrelas.
———-

Deixe um comentário

Arquivado em Livro de Poesias, notas biográficas

Geraldo Lima (Zezão)

A figura atravessou a ponte e veio no rumo de casa. Menos que um homem visto assim mais de perto: um espantalho, um bicho.

Corremos pra dentro de casa. De lá, espiando pela greta da janela o ser desgrenhado especado ali no terreiro. Nosso pai veio lá do curral e se aproximou dele. Com certa alegria, a voz do nosso pai: Ora, mas se não é o Zezão de guerra! Quem é vivo sempre aparece… Abrimos então a janela: ali, à nossa frente, no ser maltrapilho, a lendária figura de Zezão. Com quantas festas acabara? Havia roubado a mulher de quem? Duas mortes nas costas, nenhum peso na consciência.

Louco. Andara pelas estradas e pelos ermos. Nos campos, entre o gado, roendo coco e chupando ingá — João Batista, no deserto, sobrevivendo com quase nada. Noção nenhuma de vida e morte. De cócoras, quase nu diante da nossa casa. Por pudor, as mulheres lá na cozinha. Em troca da roupa limpa, a mão suja estendida cheia de coco indaiá. Um quase sorriso em meio à barba cerrada. Ruína de dentes. Tudo o que lhe restara: o silêncio e uma generosidade insana.
––––––––––––––––
Sobre o Autor
Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO. Professor e escritor, é autor dos livros A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Cultural, FCDF), Baque (contos, LGE Editora/FAC), Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora) e UM (romance, LGE Editora/FAC). É um dos colunistas do site O Bule

Fonte:
http://diversos-afins.blogspot.com/

1 comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Clarice Lispector (Menino a Bico de Pena)

Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim, olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual. O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro. Enquanto isso – lá está ele sentado no chão, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente iniciar. Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu auto-sacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco – pela bondade necessária com que nos salvamos – ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível, também sacrificaram a verdade que seria uma loucura.

Mas por enquanto ei-lo sentado no chão, imerso num vazio profundo.

Da cozinha a mãe se certifica: você está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer provocou. Pois levantar-se teve conseqüências e conseqüências: o chão move-se incerto, uma cadeira o supera, a parede o delimita. E na parede tem o retrato de O Menino. É difícil olhar para o retrato alto sem apoiar-se num móvel, isso ele ainda não treinou. Mas eis que sua própria dificuldade lhe serve de apoio: o que o mantém de pé é exatamente prender a atenção ao retrato alto, olhar para cima lhe serve de guindaste. Mas ele comete um erro: pestaneja. Ter pestanejado desliga-o por uma fração de segundo do retrato que o sustentava. O equilíbrio se desfaz – num único gesto total, ele cai sentado. Da boca entreaberta pelo esforço de vida a baba clara escorre e pinga no chão. Olha o pingo bem de perto, como a uma formiga. O braço ergue-se, avança em árduo mecanismo de etapas. E de súbito, como para prender um inefável, com inesperada violência ele achata a baba com a palma da mão. Pestaneja, espera. Finalmente, passado o tempo necessário que se tem de esperar pelas coisas, ele destampa cuidadosamente a mão e olha no assoalho o fruto da experiência. O chão está vazio. Em nova brusca etapa, olha a mão: o pingo de baba está, pois, colado na palma. Agora ele sabe disso também. Então, de olhos bem abertos, lambe a baba que pertence ao menino. Ele pensa bem alto: menino.

– Quem é que você está chamando? pergunta a mãe lá da cozinha.

Com esforço e gentileza ele olha pela sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas lágrimas, o volume branco cresce até ele – mãe! absorve-o com braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no quente e no bom. O teto está mais perto, agora; a mesa, embaixo. E, como ele não pode mais de cansaço, começa a revirar as pupilas até que estas vão mergulhando na linha de horizonte dos olhos. Fecha-os sobre a última imagem, as grades da cama. Adormece esgotado e sereno.

A água secou na boca. A mosca bate no vidro. O sono do menino é raiado de claridade e calor, o sono vibra no ar. Até que, em pesadelo súbito, uma das palavras que ele aprendeu lhe ocorre: ele estremece violentamente, abre os olhos. E para o seu terror vê apenas isto: o vazio quente e claro do ar, sem mãe. O que ele pensa estoura em choro pela casa toda. Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe.

Até que o ruído familiar entra pela porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino provoca, pára de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá.

É mãe, sim é mãe com fralda na mão. A partir de ver a fralda, ele recomeça a chorar.

– Pois se você está todo molhado!

A notícia o espanta, sua curiosidade recomeça, mas agora uma curiosidade confortável e garantida. Olha com cegueira o próprio molhado, em nova etapa olha a mãe. Mas de repente se retesa e escuta com o corpo todo, o coração batendo pesado na barriga: fonfom!, reconhece ele de repente num grito de vitória e terror – o menino acaba de reconhecer!

– Isso mesmo! diz a mãe com orgulho, isso mesmo, meu amor, é fonfom que passou agora pela rua, vou contar para o papai que você já aprendeu, é assim mesmo que se diz: fonfom, meu amor! diz a mãe puxando-o de baixo para cima e depois de cima para baixo, levantando-o pelas pernas, inclinando-o para trás, puxando-o de novo de baixo para cima. Em todas as posições o menino conserva os olhos bem abertos. Secos como a fralda nova.

Fonte:
LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. RJ: Rocco, 1998.

Imagem = montagem de José Feldman

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, notas biográficas

Robert Silverberg (O Homem que Jamais Esquecia)

Ele a viu na fila de um grande cinema de Los Angeles, na manhã de uma terça-feira ligeiramente nevoenta. Era delgada e pálida, de finos e compridos cabelos de trigo, mal teria quinze anos, e estava só. Lembrava-se dela, naturalmente.

Podia ser engano, mas, atravessando a rua, caminhou ao longo da fila até o lugar onde ela se encontrava.
– Alô! – disse.

Ela voltou-se, encarou-o impassível, passou rapidamente nos lábios a pontinha da língua…
– Creio que… creio que não…
– Sou Tom Niles – disse ele. – Pasadena, ano-novo de 1955. Sentou-se junto de mim no Estado de Ohio 20 versus Califórnia do Sul. Não se lembra?
– Num jogo de futebol? Mas eu raramente… isto é… sinto muito… eu…

Alguém na fila avançou para ele com aspecto ameaçador. Niles sabia quando estava vencido. Sorriu desculpando-se e disse:
– Sinto muito, senhorita. Acho que me enganei. Confundi-a com alguém que conhecia, uma certa Miss Bete Torrance. Desculpe!

E afastou-se rapidamente. Não andou mais de dez pés, quando ouviu um pequeno ofego e as palavras “Mas eu sou Bete Torrance!”… Ele, porém, continuou andando.
“Eu devia ter mais juízo aos vinte e oito anos”, pensou amargamente. “É que me esqueço do fato básico: de que, embora eu me lembre das pessoas, estas necessariamente não se lembram de mim…”

Abatido, caminhou até a esquina, virou à direita, pôs-se a descer uma nova rua – rua cujas lojas lhe eram completamente estranhas, e que, por isso mesmo, nunca antes visitara. Sua mente, como boa máquina que era, estimulada pelo incidente da fila de cinema, vomitou, até alcançar o diapasão normal de atividade, um exército de lembranças tangenciais.

1º de janeiro de 1955, no Rose Bowl de Pasadena, Califórnia, número do assento, G126; dia quente, muito úmido, cheguei ao estádio às doze e três, horário padrão do Pacífico. Fui sozinho. A moça ao lado trazia um vestido azul de algodão e tênis branco, carregava uma fâmula do Califórnia do Sul. Falei com ela. Nome, Bete Torrance, aluna adiantada do Califórnia do Sul, curso especializado. Tinha companheiro para o jogo, mas o rapaz adoecera com sintomas de gripe no dia anterior e insistiu para que ela fosse assistir à disputa futebolística mesmo sozinha. O assento ao lado dela, vazio. Comprei-lhe um cachorro-quente, vinte cents (sem mostarda…).”

Havia mais, muito mais. Porém Niles recalcou as lembranças. Havia entretanto o relatório virtualmente estenográfico da sua conversação durante todo aquele dia:

(“…Espero que ganhemos. Assisti ao último Rose Bowl que ganhamos, faz dois anos…)
(“…Sim, foi em 1953. Califórnia do Sul 7, Wisconsin 0… e duas vitórias completas sobre Washington e Tennessee…)
(“…Puxa, conhece futebol a fundo! Costuma decorar o livro de scores? “)

E as antigas lembranças… O berro escarnecedor de Joe Merrit, o Sardento, naquele caloroso dia de abril de 1937: “Quem você pensa que é, Einstein?” E Buddy Call dizendo acerbamente a 8 de novembro de 1939: “Aí vem Tommy Niles, a máquina humana de somar. Agarrem-no!” Depois, a dor aguda de uma bola de neve acertando logo abaixo da sua clavícula esquerda – dor que ele podia evocar com a mesma facilidade com que evocava quaisquer outras lembranças de dor que trazia consigo. Piscou e fechou repentinamente os olhos, como que golpeado pela gélida pelota, ali, numa rua de Los Angeles, numa manhã nevoenta de terça-feira…

Já não mais o chamavam de “máquina humana de somar”, mas de “gravador humano”: os termos irônicos tinham de emparelhar-se com as décadas que passavam. Só o próprio Niles permaneceu inalterado. O Menino de Cérebro de Esponja virou Homem de Cérebro de Esponja, sempre condenado ao mesmo dom terrível. Sua mente coalhada de dados lhe doía. Viu um minúsculo carro esporte estacionar no outro lado da rua, e pelo feitio, modelo, cor e número da licença, reconheceu-o como pertencente a Leslie F. Marshall, de vinte e seis anos, cabelos louros, olhos azuis, ator de televisão com as seguintes habilitações…

Estremecendo, Niles desligou o circuito e apagou os dados que se avolumavam. Estivera uma vez com Marshall, fazia seis meses, numa festa oferecida por um amigo comum – um amigo de outrora; Niles achava difícil continuar amigo de alguém por muito tempo. Conversara talvez dez minutos com o ator e acrescentara mais isso à sua bagagem mental.

Era tempo de seguir adiante, pensou Niles. Residira dez meses em Los Angeles. O fardo de lembranças acumuladas se lhe tornara excessivamente pesado; cumprimentava um número demasiado de pessoas que já o haviam esquecido. “Ao diabo com o meu quociente, John. Tamanho normal, cinco pés e nove polegadas, cento e sessenta e três libras; cabelos castanhos, olhos castanhos, nenhum traço fisionômico indevidamente saliente, nenhuma cicatriz visível, exceto as de dentro”, pensou. Tencionava voltar para San Francisco, mas desistiu. Fazia apenas um ano que lá estivera; em Pasadena, fazia dois. Percebeu que chegara o dia de uma outra excursão para o leste…

“Para a frente e para trás na superfície da América, lá vai Thomas Richard Niles, o Holandês Voador, o Judeu Errante, o Espírito do Natal Passado, o Gravador Humano…” Sorriu para um jornaleiro que lhe vendera um exemplar do Examiner do último dia 13, recebeu de volta o costumeiro olhar inexpressivo, e dirigiu-se para o terminal de ônibus mais próximo.

Para Niles, a longa viagem começara a 11 de outubro de 1929, na pequena cidade de Lowry Bridge, Ohio. Era o terceiro de três filhos, nascido de pais aparentemente normais, Henry Niles (nascido em 1896), Mary Niles (nascida em 1899). Seus irmãos mais velhos não tinham revelado qualquer manifestação extraordinária; ao contrário de Tom, que revelara…

Tudo começou quando ele principiou a soletrar; uma vizinha, espiando do alpendre para dentro da casa dele, viu-o brincando e observou a Mary Niles:
– Veja como ele está crescendo!

Nessa ocasião, Tom contava menos de um ano, e respondera, virtualmente, no mesmo tom de voz: “Veja como ele está crescendo!”

Foi uma sensação, embora se tratasse de pura mímica, não de discurso. Passou seus primeiros doze anos em Lowry Bridge, Ohio. Tempos depois cismava frequentemente em como fora capaz de ali permanecer tanto tempo. Entrou para a escola aos quatro anos, pois não havia como retê-lo; seus colegas de classe tinham cinco ou seis anos, eram vastamente superiores a ele em coordenação física, vastamente inferiores em tudo o mais. De certo modo, Tom sabia ler, podia até mesmo escrever, embora seus músculos infantis logo se cansassem de segurar a caneta. E podia… lembrar.

Lembrava-se de tudo. Lembrava-se das rixas de seus pais e repetia exatamente suas palavras a quem quisesse ouvir, até que seu pai lhe deu uma surra e ameaçou matá-lo se ele viesse a repeti-las. Também se lembrava disso. Lembrava-se das mentiras contadas por seu irmão e sua irmã, e se esforçava em repeti-las com exatidão. Finalmente, aprendeu a não fazer mais isso. Lembrava-se das coisas ditas por pessoas, e até mesmo as corrigia quando mais tarde elas contrariavam as suas primeiras declarações.

Lembrava tudo.

Certa vez leu um manual, e absorveu-o todo. Quando o professor fazia uma pergunta baseada na lição do dia, o braço magricela de Tommy Niles era o primeiro a se levantar, antes mesmo que os outros a tivessem ao menos assimilado. Passado algum tempo, o professor lhe explicou que ele não podia responder a todas as perguntas, tivesse ou não resposta para elas; havia na escola mais vinte alunos, os quais lhe ensinaram isso fartamente… depois da aula.

Ganhou na Escola Dominical o Concurso de Memorização de Versículos Bíblicos. Barry Harman estudara muitas semanas esperando ganhar a luva de boxe que seu pai lhe prometera se tirasse o primeiro lugar; mas quando chegou a vez de Tommy Niles, assim começou ele: “No princípio Deus criou o céu e a terra”, continuando com “Estas são as origens do céu e da terra, quando foram criados: no dia em que o Senhor Deus fez a terra e o céu”, descambando para “Ora, a serpente era a mais astuta de todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito”; era de presumir que tivesse recitado todo o Gênese, o Êxodo e o Livro de Josué, não tivesse o aturdido professor mandado que ele se calasse, declarando-o vencedor.

Barry Harman não ganhou a luva; em vez disso, Tommy Niles ganhou um olho preto. Começava a perceber que era diferente dos outros. Levou tempo para descobrir que os outros estavam sempre a esquecer coisas, e que, em vez de admirá-lo por lembrá-las, ao contrário, odiavam-no. Era difícil para um menino de oito anos, embora este fosse Tommy Niles, compreender por que o detestavam; mas ele o descobriu finalmente, de modo que começou a aprender como ocultar seu talento.

No decorrer do nono e décimo anos, exercitou-se na normalidade, e foi quase bem sucedido; as surras de após as aulas cessaram, e ele conseguiu obter alguns “B” nos boletins, ao invés de renques de “A”. Crescia; aprendia a fingir Os vizinhos soltavam suspiros de alívio, agora que o terrível diabrete dos Niles já não mais fazia aquelas coisas malucas…

Mas por dentro ele era o mesmo de sempre, e percebia que em breve teria de sair de Lowry Bridge. Conhecia demais a todos e a cada um. Dez vezes por semana apanhava-os mentindo; até mesmo Mr. Lawrence, o ministro, que certa vez rejeitou um convite dos Niles para uma função social, dizendo: “Na verdade tenho de aprontar meu sermão de domingo”, quando, havia apenas três dias, Tommy o ouvira dizer a Miss Emery, secretária da igreja, que ele experimentara um repentino estro de inspiração e escrevera três sermões de uma assentada, de modo que agora teria tempo livre para o resto do mês…

Como veem, até Mr. Lawrence mentia… E era o melhor dos homens. Quanto aos outros…

Tommy esperou até completar doze anos. Era grande demais para a idade e pensou poder agir por si mesmo. Tomou vinte dólares de empréstimo da pseudo-secreta caixinha do fundo da prateleira da cozinha (fazia cinco anos que sua mãe mencionara sua existência e ele ouvira), e saiu às escondidas de casa, às três da madrugada. Tomou o trem de carga para Chillicothe e pôs-se a caminho. Havia umas trinta pessoas no ônibus que deixou Los Angeles. Niles sentou-se sozinho na parte traseira, junto ao banco situado logo em cima da roda de trás. Conhecia de nome três pessoas que viajavam no ônibus – mas confiava em que elas já o houvessem esquecido e não se mexeu.

Negócio incômodo. Se dissesse “alô” a alguém que o esquecera, pensariam que ele era um criador de casos ou um achacador. E se passasse por alguém, pensando que ele o esquecera, quando, ao contrário, isso não acontecia, então, que tipinho mais esnobe que ele era! Niles balançava-se entre esses dois polos cinco vezes por dia. Via alguém, por exemplo a moça Bete Torrance, e recebia de volta um olhar gelado, impassível; ou passava por outra pessoa, acreditando que esta não se lembrava dele mas andando depressa para escapar a um possível reconhecimento, e ouvia um irado “Bem! Que diacho você pensa que é?” acompanhando-lhe a retirada.

Agora estava só, sacolejando para cima e para baixo a cada revolução da roda, com a sua única maleta contendo seus pertences a pular constantemente no compartimento de bagagens sobre a sua cabeça. Uma vantagem do seu talento: poder viajar sem bagagem. Não precisava conservar os livros depois que os lia, e não era proveitoso entesourar pertences de qualquer espécie; estes se tornavam demasiado conhecidos, para não dizer cacetes.

Niles olhava as tabuletas da estrada. Já estavam bem entrados em Nevada. A antiga e cansativa retirada prosseguia. Não podia permanecer demais numa só cidade. Era-lhe preciso dirigir-se a um novo território, a algum lugar desconhecido, do qual não tivesse lembranças, onde ninguém o conhecesse, onde não conhecesse ninguém. Nos dezesseis anos que se passaram desde que saíra de casa, cobrira muito terreno.

Lembrava-se dos empregos que tivera.

Fora revisor de uma casa editora de Chicago. Fazia o trabalho de dois homens. Segundo o costume, um homem lia o manuscrito enquanto o outro conferia as provas. Niles tinha um método mais simples: lendo o manuscrito, decorava-o, depois apenas conferia as provas em busca de discrepâncias. Ganhou por algum tempo cinquenta dólares semanais, antes que chegasse a hora de seguir adiante. Certa vez fora trabalhar como atração num parque de diversões ambulante que fazia o circuito regular de Alabama-Mississípi-Geórgia. Nessa época estava realmente a nenhum. Lembrava-se de como arranjara esse emprego: agarrando o dono do parque pela lapela e pedindo-lhe um teste:

– Leia-me qualquer coisa… qualquer coisa… e eu me lembrarei!

O sujeito estava meio cético e não via nenhuma utilidade num ato desses, mas finalmente cedeu quando Niles praticamente desmaiou de fome no escritório dele. O homem leu para ele o editorial de um semanário do interior do Mississípi, e, quando acabou, Niles recitou-o inteirinho, palavra por palavra. Obteve o emprego de quinze dólares por semana mais as refeições, e ficava sentado numa tenda sob a tabuleta que dizia: “O Gravador Humano”. As pessoas liam-lhe ou diziam-lhe coisas e ele as repetia. Era um trabalho monótono. Às vezes lhe diziam coisas sórdidas, e na maior parte dos casos, daí a minutos nem ao menos se lembravam do que haviam dito. Ficou no parque quatro semanas, e quando se despediu ninguém lhe achou falta.

O ônibus rodava na noite que o nevoeiro bloqueava. Mas ainda houve outros empregos: bons empregos, maus empregos… Nenhum durou muito tempo. Também houve algumas garotas, porém nenhuma delas durara muito. Todas elas descobriram-lhe o talento especial – mesmo aquelas das quais tentara escondê-lo – e o abandonaram. Não era possível ficar junto de um homem que jamais esquecia, um homem que sempre podia catar fraquezas de ontem no reservatório que era a sua mente e lançá-las inopinadamente em público. Um homem de memória perfeita jamais poderia viver muito tempo entre seres humanos imperfeitos.

“Perdoar é esquecer”, pensava ele. A lembrança de velhos insultos e discussões se dissipa, e as relações se refazem. Mas para ele não podia existir esquecimento, e, em consequência, só poderia haver pouco perdão.

Niles fechou os olhos após algum tempo e encostou-se na dura almofada de couro da poltrona. A cadência ritmada do ônibus deu-lhe sono. Durante o sono, sua mente descansava; ele podia enfim repousar a memória. Nunca sonhava. Em Salt Lake City pagou a passagem, desceu do ônibus com a mala na mão e partiu na primeira direção à sua frente. Não queria se afastar muito a leste naquele ônibus.

Sua reserva monetária era agora de sessenta e três dólares, e tinha de fazê-la durar. Descobriu um emprego de lava-pratos num restaurante do centro da cidade, conservou–o o bastante para acumular uma centena de dólares e tornou a partir, desta vez viajando de carona para Cheyenne. Ficou um mês ali, depois tomou um ônibus noturno para Denver, e quando deixou Denver foi para dirigir-se a Wichita.

De Wichita para Des Moines, de Des Moines para Minneapolis, de Minneapolis para Milwaukee, depois através de Illinois, cuidadosamente evitando Chicago, e daí para Indianápolis. Essa viagem era para ele história antiga. Celebrou melancolicamente o seu vigésimo nono aniversário sozinho, numa casa de cômodos de Indianápolis, num dia garoento de outubro, e com o propósito de alegrar a ocasião evocou as velhas lembranças da festa do seu quarto aniversário, em 1933 – uma das poucas datas perfeitamente felizes de sua vida.

Todos estavam lá – seus amigos e seus pais, e seu irmão Hank com um ar muito importante para os seus oito anos, e sua irmã Marian, e havia velas e lembranças festivas, ponche, bolos. Mrs. Heinsohn, vizinha do lado, entrara dizendo: “Ele parece um homenzinho!”, e seu pais ficaram radiantes, todos cantaram e divertiram-se. Depois, jogado o último jogo, aberto o derradeiro presente, quando os meninos e as meninas acenaram um boa-noite e desapareceram rua acima, os adultos sentaram-se em roda e falaram do novo presidente e das muitas coisas estranhas que aconteciam no país, e o pequeno Tom sentou-se no meio do assoalho, ouvindo e gravando tudo e cordialmente satisfeito, pois durante toda a tarde ninguém lhe fizera ou dissera algo cruel. Dia feliz, aquele, e, ao deitar-se, ele ainda se sentia cheio de felicidade.

Niles relembrou a festa duas vezes, como um velho filme ao qual amasse; a imagem nunca aparecia defeituosa e o som continuava tão claro e distinto como nunca. Niles podia provar o doce travo do ponche, podia reviver o calor daquele dia no qual, mercê de algum acidente, os outros lhe haviam permitido um pouco de felicidade. Finalmente deixou se dissipar o brilho da festa, e novamente achou-se em Indianápolis, numa tarde cinzenta e sombria, sozinho num quarto mobiliado, de oito dólares por semana.

“Desejo-me feliz aniversário”, pensou amargamente. “Feliz aniversário.”

Fitou a parede verde cheia de manchas com uma gravura barata de Corot dependurada um pouco de viés. “Bem que eu podia ser algo especial”, cismava ele, “uma dessas maravilhas do mundo. Em vez disso, não passo de um sorrateiro excêntrico que mora nos fundos de um terceiro andar, e não me atrevo a deixar que o mundo saiba o que sei fazer.”

Fez um esforço e conseguiu se lembrar da execução, por Toscanini, da Nona sinfonia de Beethoven, que ouvira no Carnegie Hall certa vez em que estivera em Nova Iorque Estava infinitamente melhor do que a última execução que o mesmo Toscanini aprovara para gravação, todavia nenhum microfone a registrou; exceto na mente de um homem, a fulgurante execução era tão impossível de captar como uma chama soprada há cinco minutos. Mas Niles captara-a: a majestosa entrada dos tímpanos, o ressoante contrabaixo produzindo a grande melodia do finale, até mesmo o balanço do oboé que devia enfurecer o maestro, a tosse exasperadora dos ouvintes no momento mais suave do adágio, o dolorido apertão dos sapatos de Niles, que se inclinava para a frente na poltrona…

Ele gravara tudo, com a mais alta fidelidade.

Três meses depois, numa noite sem lua chegou a uma cidadezinha. Era uma noite de janeiro, fria e cortante, quando o vento de inverno soprava do norte, penetrando-lhe os ossos através da roupa fina e tornando quase insuportável o peso da mala para suas mãos dormentes e sem luvas. Não tivera a intenção de ir para lá, mas em Kentucky ficara sem dinheiro e não tivera escolha. Estava a caminho de Nova Iorque, onde poderia viver anonimamente durante meses sem amolação e onde sabia não ser notada a sua grosseria caso lhe acontecesse esbarrar em alguém ou cumprimentar alguma pessoa que o houvesse esquecido.

Mas Nova Iorque ainda se encontrava a centenas de milhas de distância – bem poderiam ser milhões naquela noite de janeiro. Viu um letreiro: “BAR”. Avançou para a luz pisca-pisca de neon. Ordinariamente não bebia, mas agora precisava do calor do álcool, e talvez o dono do bar precisasse de alguém para ajudar, ou talvez pudesse lhe alugar um quarto em troca do pouco dinheiro que tinha nos bolsos.

Havia cinco homens lá dentro. Pareciam choferes de caminhão. Niles deixou cair a mala à esquerda da porta, esfregou as mãos endurecidas, exalou uma nuvem branca pela boca… O dono do bar arreganhou-lhe um sorriso.
– Frio que baste lá fora, hein?

Niles conseguiu sorrir.
– Não estava suando muito… Dê-me algo quente. Uma dose dupla de uísque, talvez.

Isso custava noventa cents: ele tinha apenas sete dólares e trinta e quatro cents. Niles acalentou a bebida quando ela veio, bebericou devagar, deixou-a escorrer pela garganta… Lembrava-se do verão em que fora parar em Washington, uma semana inteira de noventa e sete graus de temperatura e noventa e sete por cento de umidade, e a vívida memória concorreu para lhe acalmar alguns dos efeitos psicológicos do frio. Logo distendia os nervos, cobrava calor… Atrás dele, o rumor penetrante de uma discussão.
-…digo-lhe que Joe Louis fez de Schmeling uma massa na segunda vez! Nocauteou-o no primeiro round!
– Está maluco! Louis simplesmente o derrubou numa luta de quinze rounds: por pontos, no segundo…
– Parece que…
– Aposto dinheiro. Dez dólares numa decisão por pontos em quinze rounds, Mac.

Risadas confiantes se fizeram ouvir.
– Não quero ganhar tão fácil seu dinheiro, companheiro. Todos sabem que foi nocaute.
– Ofereci dez dólares.

Niles voltou-se para ver o que estava acontecendo. Dois dos choferes de caminhão, homens atarracados, de jaqueta cor de ervilha, encostavam um no outro os respectivos narizes. A ideia lhe veio automaticamente: “Louis pôs Schmeling nocaute no primeiro round, no Yankee Stadium, Nova Iorque, 22 de junho de 1938”. Niles nunca fora grande esportista, e especialmente aborrecia-lhe o boxe, mas certa vez dera uma vista d’olhos na página de um almanaque que catalogava as lutas pelo título, e os dados, naturalmente, lhe ficaram gravados no cérebro.

Olhava indiferente enquanto o maior dos choferes batia na mesa uma nota de dez dólares; o outro imitou-o. Então o primeiro, olhando para o dono do bar, disse o seguinte:
– Certo, mano. Você é um sujeito esperto. Quem acertou nessa segunda luta de Louis e Schmeling?

O dono do bar era um homem de rosto inexpressivo, de meia-idade, já meio careca, com olhos mansos e vazios. Mordeu o lábio um instante, encolheu os ombros, hesitou, finalmente disse:
– Difícil lembrar. Foi há vinte e cinco anos essa luta.
“Vinte”, pensou Niles.
– Vejamos – prosseguiu o dono do bar. – Parece que me lembro… sim, é isso mesmo.

Foram quinze rounds e os juizes deram a vitória a Louis. Houve um grande protesto; os jornais disseram que Joe devia tê-lo matado muito antes disso.

Um sorriso triunfante se esboçou na cara do motorista maior, que destramente empolgou ambas as notas.

O outro homem fez uma careta e soltou um berro:
– Ei! Vocês dois combinaram a coisa de antemão. Sei perfeitamente que Louis nocauteou o alemão em um!
– Ouviu o que o homem disse: o dinheiro é meu.
– Não – disse Niles repentinamente numa voz tranquila, que se diria ecoar até a metade do bar.

“Fique calado”, disse freneticamente com seus botões. “Isso não lhe diz respeito. Fique de fora.”
Mas era demasiadamente tarde.

– O que está dizendo? – perguntou o tal que pusera os dez dólares na mesa.
– Digo que está sendo logrado. Louis venceu a luta em um round, conforme você diz, a 22 de junho de 1938, no Yankee Stadium. O dono do bar está pensando na luta de Arturo Godoy. Essa foi de quinze rounds, completos, a 9 de fevereiro de 1940.
– Está vendo? Eu bem disse! Devolva-me o dinheiro!

Mas o outro chofer não fez caso do grito e voltou-se para encarar Niles. Era um homem de expressão fria, atarracado, e seus punhos começavam a se crispar…
– Espertinho, hein? Especialista em boxe?
– Eu só não queria ver alguém logrado – disse Niles obstinadamente. Mas já previa o que vinha em seguida. O chofer, embriagado, ia trocando as pernas em sua direção; o dono do bar berrava, os outros campeões recuavam…

O primeiro soco acertou Niles nas costelas; ele gemeu, recuou cambaleando para ser agarrado pela garganta e esbofeteado três vezes. Ouviu vagamente uma voz que dizia:
– Olhe aí, solte o rapaz! Ele não queria nada! E você quer matá-lo?

Uma rajada de golpes fizeram-no curvar-se; um soco inchou-lhe a pálpebra direita, outro golpeou-lhe o ombro esquerdo, adormecendo-o. Niles rodou a esmo, sabendo que sua mente se recordaria permanentemente de cada momento dessa agonia. De olhos semicerrados viu os outros arrancando o chofer enfurecido de cima dele; o homem contorcia-se nas garras de três outros, mas desferiu um último pontapé desesperado no estômago de Niles, atingindo uma costela, e finalmente foi subjugado.

Niles ficou sozinho no meio da sala, esforçando-se para ficar de pé, tentando suportar as súbitas pontadas que o incomodavam numa dúzia de lugares.
– Você está bem? – perguntou uma voz solícita. – Diacho! Esses caras jogam duro. Não devia se meter com eles.
– Estou bem – disse Niles numa voz cavernosa. – Mas espere um pouco… deixe-me recuperar o fôlego.
– Isso. Sente-se. Tome um trago. Isso lhe dará ânimo.
– Não – disse Niles. – Não posso ficar aqui. Tenho de ir andando. Logo estarei bom – murmurou sem convencer ninguém. Apanhou a mala, enrolou-se no sobretudo e saiu do bar, passo a passo…

Andou quinze pés antes que a dor se lhe fizesse insuportável. De repente amontoou-se no chão e caiu de bruços no escuro, sentindo de encontro às faces a terra enregelada e dura como aço. Em vão tentou levantar-se. E ali ficou, lembrando-se das muitas dores que sofrera na vida, as surras, a crueldade… Mas quando o peso da memória se lhe tornou demasiado, perdeu os sentidos.

A cama era tépida, os lençóis limpos, frescos e macios. Niles despertou lentamente, sentindo uma momentânea sensação de tontura, mas a sua infalível memória supriu os dados do seu desmaio na neve e ele percebeu que se encontrava num hospital. Tentou abrir os olhos; um se fechara, de tão inchado que estava, mas conseguiu descerrar as pálpebras do outro. Achava-se no quarto de um pequeno hospital – nada de um lustroso pavilhão metropolitano, mas de uma pequena clínica de condado com vistosos objetos moldados nas paredes e cortinas de renda caseira, através das quais penetrava o sol da tarde.

Fora encontrado e conduzido ao hospital. Isso era bom. Podia facilmente ter morrido lá fora, na neve; mas alguém tropeçara nele e o recolhera. Era uma novidade alguém ter-se incomodado em socorrê-lo; o tratamento que recebera na véspera naquele bar – fora mesmo na véspera? – era mais condizente com o que até então o mundo lhe havia dado. Em dezenove anos, ele de algum modo fracassara em aprender a se esconder e se disfarçar adequadamente, por via do que sofria, diariamente, terríveis consequências. Era-lhe tão difícil lembrar (ele, que de tudo se lembrava) que as outras pessoas não eram como ele, e que além disso o odiavam por ele ser o que era.

Apalpou cautelosamente o flanco. Parecia não haver nenhuma costela quebrada – apenas machucaduras. Um dia ou dois de repouso e decerto lhe dariam alta, deixando–o continuar a viagem.

Nisto, uma voz animada lhe falou:
– Oh, já acordou, Mr. Niles? Está melhor? Vou trazer-lhe um pouco de chá.

Ele ergueu a vista e sentiu uma súbita pontada muito aguda. Era uma enfermeira – vinte e dois, vinte e três anos, talvez nova no emprego, com uma ondulante massa de louros cachos e grandes olhos azuis, límpidos e redondos… Sorria, e pareceu a Niles que o sorriso não era meramente profissional.
– Sou Miss Carroll, enfermeira diurna. Tudo vai bem?
– Otimamente – disse Niles com certa hesitação. – Onde estou?
– No Hospital Central Geral do Condado. Trouxeram-no ontem à noite – pelo visto tinha sido espancado e largado na Rodovia 32. Foi uma sorte Mr. Mark McKenzie estar passeando com seu cão, Mr. Niles. – E fitou-o gravemente. – Lembra-se de ontem à noite, não se lembra? Quero dizer… o choque… a amnésia…

Niles riu para si mesmo.
– Essa é a última indisposição no mundo que hei de recear – disse. – Sou Thomas Richard Niles, e me lembro muito bem do que sucedeu. Até que ponto me avariaram?
– Ferimentos superficiais, um pequeno choque, um leve caso de queimadura pelo frio – resumiu ela. – Vai viver. Daqui a pouco o Dr. Hammond lhe fará um exame geral; depois que o senhor comer. Vou buscar-lhe um pouco de chá.

Niles observou a esbelta figura que desaparecia no corredor.

Era certamente uma moça muito bonita, pensou: olhos límpidos… alerta… viva. “O clichê é antigo: o paciente se apaixonando pela enfermeira. Porém ela não é para mim. Receio que não.”

A porta abriu-se abruptamente e a enfermeira tornou a entrar, carregando uma bandejinha esmaltada com o serviço de chá.
– Não adivinha? Tenho uma surpresa para o senhor, Mr. Niles. Uma visita. Sua mãe.
– Minha mãe…
– Ela leu a notícia no jornal do condado. Está esperando lá fora; disse-me que não o vê há uns dezessete anos. Quer que eu a mande entrar?
– Acho que sim – disse Niles com voz seca e frágil. A enfermeira saiu pela segunda vez.

“Meu Deus”, pensou Niles. “Se eu soubesse que estava tão perto de casa, teria ficado fora de Ohio de uma vez!”

A última pessoa que desejaria ver no mundo era sua mãe. Pôs-se a tremer debaixo das cobertas. As mais antigas e as mais terríveis lembranças irrompiam do escuro compartimento de sua mente, onde as julgava para sempre aprisionadas. A súbita emergência do calor para o frio, da treva para a luz, a vibrante pancada contra o seu traseiro, a dor cruciante ao saber que se acabara a sua segurança, e que, de agora em diante, viveria, e que, por isso, seria infeliz…

A lembrança do grito agônico do seu nascimento ressoou-lhe na mente. Nunca se esqueceria de que nascera. E entre todas, sua mãe era a única pessoa que ele jamais perdoaria, uma vez que ela o pusera no mundo que ele odiava. Tinha horror às mulheres, mas…
– Olá, Tom. Faz tanto tempo…

Dezessete anos haviam-na murchado, marcado de rugas o seu rosto e tornado suas faces mais balofas, os cerúleos olhos menos brilhantes, os cabelos castanhos de um cinzento de camundongo. Ela sorria. E para seu próprio espanto, Niles conseguiu retribuir-lhe o sorriso.
– Mãe.
– Li a notícia no jornal. Dizia que um homem de aproximadamente trinta anos fora encontrado nas cercanias da cidade com papéis que traziam o nome de Thomas R. Niles, e fora conduzido ao Hospital Central Geral do Condado. Por isso vim, apenas para me certificar de que era você mesmo!

Uma mentira aforou à superfície de sua mente, uma mentira piedosa… e ele a disse:
– Eu voltava para visitá-la, mãe. Vim de carona. Mas sofri um pequeno acidente na estrada.
– Folgo em saber que você resolveu voltar, Tom. Fiquei tão só depois da morte de seu pai, e, naturalmente, Hank se casou, Marian também… é bom tornar a vê-lo. Pensei que nunca mais o veria.

Ele continuou deitado, perplexo, pensando por que não lhe vinha a costumeira maré de ódio. Só sentia ternura por ela; estava contente em revê-la.
– E como foram todos esses anos, Tom? Não foram fáceis, não? Estou vendo. Percebo em sua cara…
– Sim, não foram fáceis – respondeu. – Sabe por que fugi?

Ela fez com a cabeça um aceno afirmativo:
– Por causa do jeito que você tem. Aquela história de jamais esquecer seja lá o que for… Eu sabia. Sabe que seu avô tinha o mesmo dom…
– Meu avô… mas…
– Você puxou a ele. Eu nunca lhe contei. Ele não se dava bem com nenhum de nós. Abandonou minha mãe quando eu era menina e nunca se soube para onde foi. Por isso sempre pensei que você se fora do mesmo modo que ele. Mas você voltou. Está casado?

Ele sacudiu a cabeça.
– Então já é tempo de decidir, Tom. Tem quase trinta anos!

A porta do quarto abriu-se e entrou um médico de aspecto eficiente.
– Receio que a sua hora já se tenha esgotado, senhora. Mais tarde poderá voltar a vê-lo. Vou examiná-lo, agora que está acordado.
– Naturalmente, doutor. – E sorriu para ele, depois para Niles. – Voltarei mais tarde, Tom.
– Decerto, mãe.

Niles recostou-se, fazendo carrancas à medida que o médico o cutucava aqui e acolá. “Eu não a odiava.” Um crescente maravilhamento o invadia, e ele pensava que havia muito já devia ter voltado. Mudara interiormente, mesmo sem perceber. Fugir foi sua primeira fase de crescimento – fase necessária. Porém querer voltar aconteceu mais tarde e era sinal de maturidade. Voltara. E repentinamente viu que fora terrivelmente idiota durante toda a sua amarga vida de adulto. Possuía um dom, um grande dom, um dom terrífico. Até agora lhe fora demasiado pesado. Condoendo-se de si próprio, atormentando-se, até então se recusara a perdoar as faltas das pessoas que esqueciam, e pagara o preço do ódio delas. Mas não podia andar fugindo a vida inteira. Tempo viria em que teria de crescer o suficiente para dominar o dom, para aprender a viver com ele ao invés de gemer na dramática angústia que a si próprio se infligia. E esse tempo era agora. Já de há muito devia ter chegado.

Seu avô possuíra o dom – nunca lhe haviam dito isso. De modo que a coisa era geneticamente transmissível. Podia casar, ter filhos… e também estes jamais se esqueceriam. Era seu dever não consentir que o dom morresse com ele. Outros de sua espécie, menos sensíveis, de pele menos fina, viriam após ele, e também estes saberiam como evocar uma sinfonia de Beethoven ou um fiapo de conversa, depois de uma década. Pela primeira vez desde aquele quarto aniversário, Tom sentiu um hesitante lampejo de felicidade. Os dias de correria tinham findado; estava de novo em casa.

“Se eu aprender a viver com os outros, decerto também eles aprenderão a viver comigo.” Viu então as coisas de que precisava: uma mulher, um lar, filhos…
-… Alguns dias de repouso, muita bebida quente, e ficará bom como novo, Mr. Niles – disse o médico. – Gostaria que agora eu lhe trouxesse alguma coisa?
– Sim – disse Niles. – Mande-me a enfermeira, sim? Quero dizer, Miss Carroll.

O médico esboçou um sorrisinho e saiu. Niles aguardou cheio de expectativa, exultando no seu novo eu. Ligou a mente para o terceiro ato dos Mestres cantores – jubilosa música de fundo – e deixou que a ternura o invadisse. Quando ela entrou no quarto ele sorria, pensando em como diria o que tinha para lhe dizer.

Fonte:
SILVERBERG, Robert. Outros tempos, outros mundos. SP: Círculo do Livro, 1990.

Imagem = montagem por José Feldman

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Christiana Nóvoa (Haicais)

ÁGUA NA BOCA
garoa pinga
gotas da sua sede
na minha língua

CALENDÁRIO
mês morto, mês posto:
a césar o que é de julho,
agosto pra tudo.

CLARABÓIA
a lua clara
bóia como abertura
no teto do mundo

COMO MANDA O FIGURINO
traje de chuva:
roupa de cama me cai
como uma luva.

MOSKTUB
estava escrito:
se tudo está tudo perfeito,
vai ter mosquito.

PLASTICISMO
gotas na folha…
cada instante uma estoura:
plástico bolha.
==============

Christiana Nóvoa é arteterapeuta e poeta.
Formada em Psicologia pela PUC-Rio (2000) e em Artes Cênicas pela Faculdade da Cidade – RJ (1989).
Escritora premiada com a Bolsa para Autores com Obras em Fase de Conclusão da Fundação Biblioteca Nacional (2007).
Trabalha como redatora e webwriter.
Publica seus poemas no blog Nóvoa em Folha.

Fonte:
http://www.novoaemfolha.com/

Deixe um comentário

Arquivado em haicais, notas biográficas

Ialmar Pio Schneider (1942)

Nasceu no município de Sertão, RS, em 26/8/1942.

Residiu por mais de 20 anos em Canoas, e atualmente reside em Porto Alegre.

Poeta, advogado, cronista e bancário aposentado,

Entidades a que pertence:
Casa do Poeta Rio-Grandense,
União Brasileira de Trovadores – Sede de Porto Alegre,
Grêmio Literário Castro Alves,
Agei – Associação Gaúcha dos Escritores Independentes,
Casa do Poeta de Canoas,
entre outras.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas

Rodolpho Abbud (Baú de Trovas)

Nasceu em Nova Friburgo/RJ, em 21 de outubro de 1926; filho de Dona Ana Jankowsky Abbud e de Ralim Abbud. Radialista, Locutor Esportivo, Poeta e Trovador, foi sempre muito bom em tudo aquilo que fez ou faz.

Contam até que, certa vez, transmitindo um jogo do Friburguense, teve a sua visão do campo totalmente coberta pelos torcedores. Sem perder a calma, e com sua habitual presença de espirito, continuou a transmissão assim: – “Se o Friburguense mantém a sua formação habitual, a bola deve estar com o zagueiro central, no bico esquerdo da área grande…”

Tem um livro de Trovas intitulado: “Cantigas que vêm da Montanha”, e, recebeu, com inteira justiça e por voto unânime de todos os Trovadores que ostentam essa honra, o titulo de “Magnífico Trovador”.

Na vida, lutar, correr,
não me cansa tanto assim…
O que me cansa é saber
que estás cansada de mim!

Naquele hotel de terceira,
que a policia já fechou,
a Maria arrumadeira
muitas vezes se arrumou!

Enquanto um velho comenta
sobre a vida: -“Ah! Se eu soubesse…”
um outro vem e acrescenta
já descrente: -“Ah! Se eu pudesse…”

Foram tais os meus pesares
quando, em silêncio partiste,
que, afinal, se tu voltares,
talvez me tornes mais triste…

Depois do sonho desfeito,
louvo o porvir que, risonho,
não me recusa o direito
de escolher um novo sonho!

Soube o marido da Aurora,
ela não sabe por quem,
que o vizinho dorme fora,
quando ele dorme também…

Seja doce a minha sina
e, num porvir de esplendor,
nunca transforme em rotina
os nossos beijos de amor…

-“Dê carona ao seu vizinho!”
E a Zezé, colaborando,
vai seguindo o meu caminho
e me dá de vez em quando!…

Na vida, em toscos degraus,
entre tropeços a sustos,
mais que a revolta dos maus,
temo a revolta dos justos!

Minha magoa e desencanto
foi ver, no adeus, indeciso:
– Eu disfarçando o meu pranto…
– Tu disfarçando um sorriso…

Em seus comícios, nas praças,
o casal cria alvoroços:
– Vai ele inflamando as massas!
– Vai ela inflamando os moços…

Vamos brincar de mãos dadas,
crianças pretas e brancas!…
O sol de nossas calçadas
não tem porteiras nem trancas!

Um Deputado ao rogar
ao Senhor, em suas preces,
pede que o verbo “caçar”
não se escreva com dois esses!…

À noite, ao passar das horas,
esqueço os dias tristonhos,
pois tuas longas demoras
dão-me folga para os sonhos!

Chegaste a sorrir, brejeira,
depois da tarde sem fim…
E, nunca uma noite inteira
foi tão curta para mim!…

Ao se banhar num riacho,
distraída, minha prima
lembrou da peça de baixo
quando tirava a de cima ….

Vejo em minhas fantasias,
em Friburgo, pelas ruas,
mil sois enfeitando os dias
e, à noite, a luz de mil luas.

Na ansiedade das demoras,
quando chegas e me encantas,
mesmo sendo às tantas horas,
as horas já não são tantas…

Nessa paixão que me assalta,
misto de encanto e de dor,
quanto mais você me falta
mais aumenta o meu amor!…

Hei de vencer esta sina
que num capricho qualquer,
me fez amar-te menina
depois negou-me a mulher!…

Vem amor, vem por quem és!
Pois já tens, em sonhos vãos,
minhas noites a teus pés,
meus dias em tuas mãos!…

Toda noite sai “na marra”,
Dizendo à mulher: -“Não Torra!”
Se na rua vai a farra,
em casa ela vai à forra!…

Um longo teste ela fez
de cantora, com requinte…
Cantou somente uma vez,
mas foi cantada umas vinte!…

Vendo a viuva a chorar,
muito linda, em seu cantinho,
todos queriam levar
a “coroa” do vizinho…

Não sei como não soubeste
mas o amor veio, infeliz…
Eu te quis, tu me quiseste,
mas o Destino não quis…

Provando em definitivo
que o Brasil é de outros mundos,
há muito “fantasma” vivo
passando cheques sem fundos…

Nosso encontro …O beijo a medo…
A caricia fugidia…
Nosso amor era segredo,
mas todo mundo sabia…

Aproveita, criançada,
o tempo, alegre, ligeiro,
que da a uma simples calçada,
dimensões do mundo inteiro!

Cama nova, ele sem pressa
ante a noivinha assustada,
quer examinar a peça
julgando já ser usada!…

Em tudo o que já vivi,
nessa passagem terrena,
se um pecado eu cometi
com ela, valeu a pena!…

Fonte:
UBT Juiz de Fora.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Nova Friburgo em Trovas, Rio de Janeiro

Astolfo Lima Sandy (1948)

Astolfo Lima Sandy, natural de Sobral (1948), fez sua estréia em 1998 com o livro Mão de Martelo e Outros Contos, pela UFC.

Em 2002 ganhou o Prêmio da Biblioteca Nacional para escritores com obra em fase de conclusão, com o livro A Grande Fábrica de Brinquedos.

Participou do JORNAL de Contos Cearenses (Ed. Bagaço, Recife); da Antologia do Conto Nordestino – Ano 2000 (Ed. Micro, Recife);

Ganhou alguns Prêmios Literários; tem inéditos dois livros de contos, um de novelas.

Fonte:
Nilto Maciel e Soares Feitosa. Jornal do Conto.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas

Alex André Sorel (Antologia Poética)

ENFIM UM POEMA DE AMOR

Gostaria de estender os meus sonhos sob seus pés,
E oferecer o céu embrulhado com cores de fim de tarde,
Gostaria eu, de te dar a verdade do universo
em doses pequenas de deslumbramento,
Gostaria de te dar tudo que tenho de humanidade, filosofia e amor,
Mas sou um pobre de espírito,
E só lhe posso dar meus sonhos, e estendê-los grato a seus pés.
Só peço que caminhe suave e leve, pois pisas sobre tudo que sou.

RASTROS COLORIDOS

A borboleta bateu violentamente no vidro do carro,
Deixou uma marca amarela e vermelha,
Não vi a borboleta,
Não sei se está morta,
Deixou para mim dois segundos de pena e um vidro pintado com sua marca,
Pobre borboleta!!! Bonita e passageira,
logo esquecida ,
deixou rastros coloridos.
A rua onde o menino foi morto segue seu ritmo normal como se nada houvesse acontecido.
A tarde lavei o vidro do carro.

COISAS QUE TEM NOMES

Luzia na cidade enquanto luzia o dia,
Luzia à cidade enquanto luzia dormia,
Luzia à noite,
A noite luzia para luzia,
Luzia mulher,
Luzia a cruz,
Luzia o verbo,
Luzia a luz,
Luzia também os sonhos de luzia,
Enquanto dormia,
Luzia luzia na noite fria.

ÓTICA SEMIÓTICA

Idéia estranha na mente,
Lóbulo esquerdo vagaroso,
Cérebro viscoso,
Cabeça grande e oca,
Cama barulhenta e suja,
Quarto quente,
Casa minúscula,
Rua esburacada,
Vila nova,
Cidade velha,
Estado bruto,
País da esperança,
Continente da pobreza,
Planeta azul cinzento,
Sistema solar moribundo,
Via láctea leitosa,
Universo crescente,
Deus no trono,
Além deus impensado,
Ventre do desconhecido,
Idéia estranha no ventre…
E tudo acaba onde começou…
================

Sobre o Autor

Seu nome verdadeiro é Alex Mendes. Usa o sobrenome “SOREL ” em homenagem ao livro “O vermelho e o negro” de Stendhal , cujo personagem principal tem esse sobrenome . Trabalha em Piracicaba como gerente de lojas mas sempre viveu em Votorantim e hoje mora em Sorocaba. Formou-se pela Escola Técnica Rubens de Faria e estudou Administração e Jornalismo na Uniso (embora não tenha concluído nenhum dos dois cursos). Gosta de ler e de escrever. Gosta muito de literatura e seus textos seguem um estilo livre. Já morou na Irlanda, o que lhe deu ampla bagagem de experiências nos mais diferentes setores. Solteiro, noivo, pretende se casar em breve com Carla.

Fonte:
Sorocult.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O poeta no papel

Lecy Pereira (Infinitivos)

Você me amar, perguntar.

Até o limite do assombro, responder.

Desaparecer, algo inimaginável. Ele, ela, eles, elas, nós, vós.

Há uma cidade correndo inteira por cabos telefônicos em postes. Correm as vozes num fluxo verbal congestionante.

Esperar que ela me entendesse quando atendesse a chamada. Ontem foi difícil, talvez não menos que agora. Aquelas fotografias congelaram um beijo que recebi numa festa tecno, dizer numa “rave”. Esse é o terrível terreno da subjetividade. Suposições. Que último romance Dulcinéia ler? Que último filme assistir? Há de ser a adaptação de “Ensaio sobre a cegueira” por Walter Sales Jr. ou “Meu nome não é Johny”. Que música ouvir ou quadro a reparar: cena rural, soberbia urbana, abstrações, viagens oníricas? Há na rua da selva, onde os homens não têm nome, mas números, um leopardo a nos espreitar com seu olhar agridoce numa busca elegante, imponente, por presas que afiem mais suas presas que dariam curiosos souvenires pendurados no pescoço da modelo desfilando a moda praia na passarela anoréxica.

Amar sob o filtro das luzes desse teatro de arena. Que entrem os leões! Espere, há um erro de texto. Que entrem as ninfas! Ele vive num rio de incertezas urbanas a questão em sua mente é por que alguém procura alguém para ser senhor ou senhora. A perpétua cumplicidade de um cão e seu dono feito um par de olhos cegados sendo guiado por outro par de olhos sãos. Ele tem dúvidas de amor na sórdida mitologia contemporânea. A estranha necessidade da certeza.

Se ela não amar, desaparecer.

Culpar eles que mais sabem impedir a consumação de um amor. Eles que povoam a noite de assombro. Eles que não suportam ver amar ao sabor das ondas calmas. Eles da turma dos filhos de Caim, esses que vivem a vagar sem um riso no rosto e não suportam o triunfo das belas artes.

Você me amar, ela perguntar.

Iludir, indefinir, ele responder, amar o fluir, o amanhecer. Só a essência permanecer, entender?

Será que algum dia eu caber em sua beleza, ela perguntar.

Você caber em meu fazer, ele responder.

Tudo afirmar. Medo de ver o tempo correr. Cada dia ela passar ao som do reggae, do samba, da bossa nova.

Quem eu amar, muito querer me fazer sofrer, ferir, ignorar, humilhar, ele dizer. Parecer que amar se sustentar de antônimos.

A gente se encontrar numa danceteria, ela falar, muito dançar, muito girar, globo, câmera lenta. Nossa história de desenredo começar. Beijar, beijar, lembrar disso?

Isso. Hoje só lembrar, fotos, filmes, objetos, uma lua logo ali, o sol ao sabor do ventar do nosso amor de férias.

Você me amar de verdade, ela perguntar.

Sim, sim, sim, te amar, até aprender a deixar de ser, ele responder.
===================
Sobre o autor
Lecy Pereira Sousa
Nascido em Almenara – MG, 39, Auxiliar de Biblioteca, alterna moradias em Belo Horizonte e Contagem. Participou da fundação da Academia Contagense de Letras – ACL. Escreve contos, crônicas, poemas e outros rascunhos no meio da noite. É entusiasta dos blogs, mas não dispensa um caderno e uma caneta.
Escreve para o site Gosto de Ler, participa do projeto “A tela e o texto” idealizado pela Universidade Federal de Minas Gerais. Participa do Projeto Pão e Poesia, idealizado pelo poeta Diovvani Mendonça. Um dos seus vários endereços na Internet é http://www.lecypereira.blogspot.com. Publicou em 2008 o livro de poemas “Primeirapessoaplural” pelo selo Arvore dos Poemas.
Uma de suas frases prediletas é : “segure a onda!”

Fonte:
Portal Gosto de Ler.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Rodrigo Leste (Quero Estar em Suas Mãos)

Já faz uns cinco ou seis anos que não saio desta estante; às vezes perco a conta. Ou seriam seis ou sete anos?… Você que começa a ler esta minha pequena história talvez nunca tenha parado para pensar na dura realidade dos livros sem leitor. Não quero aborrecê-lo com queixas inócuas, mas é da natureza dos seres da minha espécie, os livros, a vontade, o incontido desejo de servir a vocês, os humanos. Esta é a nossa razão de ser, de existir. Ser esquecido em uma estante por anos a fio é a maior frustração que pode ocorrer na vida de um livro. E olhe que não devia estar me lamentando tanto: meu vizinho, “O Corcunda de Notre Dame”, comentou outro dia que já deve ter bem uns quinze anos que ninguém o retira da estante. Melhor sorte tem outro vizinho, o Senhor Brás Cubas: suas Memórias Póstumas foram solicitadas nas listas de leituras obrigatórias de alguns vestibulares e ele não para mais no lugar, sempre é retirado por jovens leitores.

— As traças me apavoram! É terrível, à noite, quando as luzes são apagadas e ouvimos, aterrorizados, o monótono e contínuo ruído do movimento de suas mandíbulas mastigando indefesas páginas. A monotonia de viver confinado às estantes produz melancolia, enfado. Não poucas vezes, quando consigo mergulhar em um sono mais profundo, sonho que fui tomado por empréstimo por algum leitor e saio outra vez para o mundo exterior, vendo-me livre dos muros desta masmorra em que se converte a biblioteca para os que são abandonados nas estantes. Que alegria ver de novo a luz do sol! Que prazer compartilhar a vida, o intenso e caloroso pulsar do mundo nas mãos de um leitor ou de uma leitora. Que delícia percorrer ruas, praças, parques, entrar na casa dele, ir aos lugares aonde vai e ser manuseado por ele ou por ela. Nada é melhor para um livro do que a sensação de ter na pele de suas páginas os olhos atentos de uma leitora. Nestes mágicos momentos, desfruto da grata satisfação de sentir que me torno um manancial de sonhos e desejos, indagações e dúvidas, divagações e certezas. Delicio-me quando cismo com ele à beira do abismo da existência e depois voamos juntos com as asas da imaginação das histórias que carrego no meu corpo.

Mas pior ainda do que as traças (posso afirmar que este medo aflige também aos meus semelhantes) é ser degradado à condição de um reles xerox ou ser aviltado pelos nefastos resumos que pululam na internet e se arvoram a traduzir em umas poucas e mal construídas linhas toda a complexidade de uma obra que algum escritor levou, às vezes, anos para elaborar. Estes dois sujeitos, xerox e resumo, são inimigos mortais nossos, os livros. É a danação da nossa espécie, é a traição maior que pode ser cometida contra os livros verdadeiros que devem ser lidos de forma integral em suas versões originais. Não quero me meter a herói, mas em nome de todos os livros, declaro guerra aos clones! E creio poder falar também em nome de todos os escritores, poetas, ilustradores e por que não, dos leitores conscientes que sabem que é preciso preservar os livros originais! Para encerrar, gostaria de pensar que em um futuro próximo não venha ser só um sonho voltar a ter leitores em profusão. Quero acreditar que voltaremos a fazer parte da vida de pessoas de todos os tipos e idades que vão encontrar neste “admirável mundo novo” dos dias de hoje, com toda a sua complicada modernagem, a paz, o sossego, na simples companhia de um bom livro.

— Humanos: somos seus cúmplices eternos, sempre solidários; nossa missão é estar prontos e dispostos para ser abertos e nos oferecer inteiramente aos que nos queiram. Nossa entrega é completa, sem restrições. Querida amiga, querido amigo, quero estar em suas mãos!
==================
RODRIGO LESTE foi co-editor de jornais alternativos que na década de 70 fizeram história em Minas como “Gol-a-Gol”, “Vapor” e “Circus” e é poeta, ator e produtor cultural, atuando no teatro desde 1974.

Fonte:
Suplemento Literário de Minas Gerais. Novembro de 2009. n. 1326.

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Mário Carneiro Junior (O Lençol)

Aviso aos leitores desavisados: Este é um conto de terror.
––––––––––––––––––––––
Boa noite, minha querida. Já está confortável debaixo de suas cobertas? Bom, então vou contar a história que prometi.

Aconteceu quando eu tinha mais ou menos sua idade, uns doze anos, quase treze. Eu dormia exatamente como você, sabia? De barriga pra cima e coberto da cabeça aos pés. Meu pai dizia que eu ficava parecendo um morto no necrotério. Ah, papai… Foi por causa dele que tivemos que sair de Curitiba e nos mudar pro interior. Motivos profissionais.

Bom, a cidadezinha era legal até, muito bonita e arborizada, tinha bastante espaço pra andar de bicicleta e tudo mais. Mas também tinha lá seus problemas, tipo, no começo as pessoas olhavam pra mim como se eu fosse um alienígena. Nada pessoal, qualquer um que vinha de fora recebia o mesmo tratamento caloroso. Demorei pra fazer amigos e… Ah, eu já contei isso antes, né? Esquece, vamos voltar ao principal.

O maior problema daquele lugar era o clima, muito mais quente do que eu estava acostumado. As noites abafadas não traziam alívio. Eu queria deixar o ventilador ligado no máximo em minha direção, mas mamãe não deixava. Dizia que eu ficaria doente, então me obrigava a mantê-lo virado pro outro lado, apenas para circular o ar. Estávamos sem dinheiro para comprar um ar condicionado, e ficar com a janela aberta estava fora de questão. Mania de cidade grande, deixar tudo fechado.

Continuei dormindo do mesmo jeito, todo encoberto. Eu já não acreditava que algo agarraria meu tornozelo se ele ficasse para fora, porém o hábito de infância estava enraizado. Pra não morrer cozido, tive que substituir os cobertores por um lençol. Mesmo assim ainda esquentava bastante, eu dormia mal e acordava encharcado de suor.

Então, numa noite que fazia a gente acreditar em coisas como combustão humana espontânea, resolvi largar aquele hábito idiota de uma vez por todas. Porém, ficar com o corpo inteiro descoberto seria um passo muito grande, então deixei apenas a cabeça e os braços para fora. Aliviou o calor um pouquinho. Já era alguma coisa, mas por outro lado, comecei a me sentir incomodado, vulnerável. Como não precisaria acordar cedo na manhã seguinte – era noite de sábado pra domingo – resolvi insistir naquilo, até que finalmente consegui.

Consegui perder o sono.

Fiquei deitado de olhos abertos, pensando em como a vida podia ser um chute no saco de vez em quando. E assim fiquei durante um tempão, até perceber um movimento vindo do armário. Parecia que uma das portas estava se abrindo.

De início, achei que era um vento mais forte passando entre as frestas da janela, mas as cortinas estavam paradas. Fiquei olhando na direção da porta como se estivesse hipnotizado, a abertura ficando cada vez maior. Comecei a ficar com medo, e me cobri inteiro com o lençol.

Não é nada, pensei, isso acontece de vez em quando. Portas que não estão bem fechadas acabam se movimentando sozinhas. Sim, eu repetia esse pensamento sem parar, mas não conseguia afastar aquela impressão cada vez mais forte.

A sensação de que alguém havia saído de dentro do guarda-roupa, e agora estava parado ao meu lado.

Fiquei imóvel, tentando não respirar ou emitir qualquer som, o coração batendo tão forte que chegava a ser doloroso. Assim permaneci durante um bom tempo, até a sensação acabar.

Não tive coragem de conferir se aquilo havia ido embora. Só quando a luz da manhã atravessou as fissuras da janela, consegui adormecer.

Acordei com minha mãe chamando para almoçar. Tirei o lençol do rosto e olhei pra porta que havia visto se abrir durante a noite. Estava fechada. Puxei-a após um momento de hesitação, e como você deve imaginar, não havia nada ali dentro. Minto, havia camisetas e calças penduradas, nada que me deixasse propenso a fugir gritando. À luz do dia, foi muito fácil concluir que havia imaginado tudo.

Quando a noite chegou, eu já não tinha tanta certeza.

Mas não podia falar nada pros meus pais. Papai me daria uma bronca, afinal eu estava velho demais pra ter medo do bicho-papão, e mamãe confiscaria todos os meus gibis de terror. Aqueles antigos, sabe, tipo “Histórias Reais de Drácula” ou “de Lobisomem”… Mais uma vez revistei o armário inteiro, à procura de qualquer coisa estranha. Não encontrei nada, e pra mim estava ok.

Apaguei a luz e fui pra cama, me cobrindo todo. Tá, não havia nada para me preocupar, mas já havia perdido a vontade de abandonar o costume. Além disso, aquela noite estava menos quente, dava pra dormir numa boa. Dormi mesmo, só que acordei com sede durante a madrugada. Sempre deixava um copo de água no criado mudo, mas agora estava meio receoso de estender o braço para pegar. Fiquei nessa dúvida até a secura em minha garganta se tornar insuportável, então tirei o lençol do rosto e olhei pro armário, só pra me certificar que estaria fechado.

Não estava.

Fiquei imóvel, olhando para a porta até meus olhos se acostumarem com a escuridão. Sim, não havia dúvida, estava entreaberta, mas e daí? Dessa vez eu não estava assustado! Bom, não muito. Sentei na beirada da cama e fiquei parado por alguns momentos, tomando coragem para ficar em pé e fechar aquele maldito guarda-roupa. Isso acabaria com meu medo de uma vez por todas. Respirei fundo e levantei, caminhando rápido até o móvel aberto.

Quando comecei a empurrar a porta, uma mão pálida saiu lá de dentro e tentou agarrar meu pulso.

O que aconteceu no instante seguinte eu não lembro. Lembro apenas de estar novamente em minha cama, escondido embaixo do lençol. Sim, teria sido mais inteligente correr até o quarto dos meus pais, mas naquela hora não pensei em mais nada, estava aterrorizado. De maneira frenética, testei com os pés se o lençol ainda estava bem preso embaixo do colchão, e cerrei os punhos sobre a beirada que cobria minha cabeça. Antes que tivesse tempo de negar o que havia visto, senti que o fantasma vinha em minha direção. Não, não estava vendo ele, mas sua presença era tão intensa que dava no mesmo. Eu queria gritar, mas estava paralisado.

Aquilo estava chegando cada vez mais perto, com os braços estendidos.

Minha bexiga se soltou, acrescentando vergonha ao terror absoluto. Cerrei os dentes, esperando o momento em que aquelas mãos de cadáver iriam me arrastar pra fora da cama. Elas já estavam a centímetros do meu pescoço…

E então pararam.

A coisa ficou imóvel durante um longo tempo, depois afastou os braços e começou a caminhar ao redor da minha cama.

Procurava alguma coisa, talvez uma parte desprotegida.

Isso me deu esperanças, achei que se estivesse totalmente coberto, a assombração não conseguiria me pegar. E assim esperei, na expectativa, a garganta tão seca que chegava a doer. Eu tremia e soluçava baixinho, rezando para aquilo ir embora. Se funcionou eu não sei, pois em algum momento perdi os sentidos.

Acordei na manhã seguinte, com meu pai chamando para ir à escola. Pulei da cama e o abracei, chorando, sem me importar se levaria bronca ou não. Criança é tão boba… É óbvio que meu pai não brigou comigo, apenas me abraçou bem forte e perguntou o que havia acontecido. Mamãe também despertou e fomos todos pra cozinha, onde contei tudo. Nossa, eles foram tão legais, me acalmaram e disseram que havia sido um pesadelo, essa coisa básica, mas em compensação não me trataram como aqueles pais idiotas dos filmes de terror, que negam tudo até ser tarde demais. Deus, como sinto saudades deles…

Revistaram o quarto junto comigo, e nem falaram nada sobre o cheiro de urina em minha cama e pijama. Claro, não encontramos nada de anormal, mas eu ainda estava alarmado. Mamãe disse que eu poderia dormir com eles até meu medo passar. Adivinha se não aceitei?

Como não compartilhavam da minha mania de dormir coberto, tive que me enrolar inteiro no meu lençol. Papai disse que eu já não era mais um morto no necrotério, e sim uma múmia. Bom, você pode achar que tudo ficou bem, agora que eu estava no meio de dois adultos, certo? Quem me dera.

Naquela mesma noite, o fantasma retornou.

Saiu do guarda-roupa dos meus pais, provocando um rangido abafado na dobradiça, depois ficou me rondando com avidez. Aterrorizado, comecei a dar cotoveladas na minha mãe, tomando cuidado para não sair do meu casulo. No momento que ela acordou, senti aquilo indo embora. Mamãe acendeu o abajur, olhou pelo quarto – o armário estava fechado de novo – e me garantiu que não havia nada ali.

Assim que ela voltou a dormir, escutei aquele rangido de novo. Acordei-a de novo e tudo se repetiu, com a diferença de que agora havia uma leve impaciência em sua voz. Tentei despertar meu pai na outra vez, mas ele tinha um sono pesado demais. Resignei-me e esperei quietinho, até a aparição desistir.

Aquilo se repetiu por muitas noites. Meus pais insistiam que eu estava sonhando, ou então era o medo me fazendo ver coisas que não existiam. O medo podia fazer a manga de uma camisa ficar parecida com um braço, que tentava puxar a gente para um lugar escuro. Fazia sentido pra eles, e eu me desesperava por não poder provar que estavam errados.

Comecei a sofrer de insônia, queria que a luz ficasse acesa, me recusava a voltar ao meu quarto. Meus pais foram ficando cada vez mais preocupados, achando que aquela fase não era tão passageira quanto supunham. Fizeram minha vontade e tiraram o guarda-roupa do quarto deles. Eu lembro bem dessa noite, porque fiquei mais relaxado e até me arrisquei a dar uma espiada fora do lençol. O abajur estava aceso e fiquei passando os olhos por todo o recinto, na expectativa. Estava quase me cobrindo de novo, quando percebi alguém escondido atrás da cortina.

Ah, dessa vez eu consegui gritar. E como.

É óbvio que não havia nada lá quando meus pais acordaram, e no dia seguinte, me levaram a um psicólogo. Ele disse umas coisas interessantes, que eu estava estressado com a mudança de ambiente e com a solidão, além disso era normal ter medo naquela idade. À medida que fosse crescendo, meu temor iria diminuir de forma gradativa. Nisso ele estava certo, mas demorou algum tempo.

Todas as noites antes de deitar, eu precisava conferir obsessivamente se meu cobertor estava bem preso embaixo do colchão, com medo que se soltasse durante a noite. Nos mudamos de casa e eu ganhei um quarto sem móveis ou cortina, apenas minha cama. Desolado, descobri que o visitante noturno não precisava de nada disso para me encontrar, embora tivesse uma estranha preferência por guarda-roupas.

As noites de terror só acabaram quando comecei a tomar remédios para dormir. Coisa forte mesmo, tarja preta. Logo que eu engolia os comprimidos, corria pra cama e me enrolava em meu escudo de tecido, então esperava aquele doce torpor me envolver.

Os meses foram passando e arranjei alguns amigos. Aquela história de “medo pregando peças” parecia cada vez mais verossímil. Os anos vieram sem eu perceber, minha voz engrossou e comecei a me interessar pelas garotas.

O fantasma era apenas uma lembrança distante quando comecei a diminuir a medicação.

Ainda acordei algumas madrugadas com a impressão de não estar sozinho, porém era bem mais tênue dessa vez. Bastava pensar em outra coisa, e aquilo acabava. Meu temor foi enfraquecendo aos poucos, então um dia, sem mais nem menos, a sensação acabou para sempre.

Eu havia crescido.

Continuei dormindo todo encoberto, mas isso era novamente um hábito, não uma compulsão. Entrei na faculdade e fui morar numa república de estudantes. Agora, eu só lembrava das minhas aventuras de infância quando alguém da roda começava a contar histórias de terror. Eu contava minhas experiências – sempre omitindo o fato de ter mijado na cama – e meus relatos faziam bastante sucesso. Mas eu acho que a Carol nem prestou atenção. Ela era minha namorada na época, e foi ela que levantou meu lençol na primeira noite que passávamos juntos. Lembro de acordar meio sonolento com ela perguntando “por que está dormindo desse jeito, seu bobo?”.

O fantasma agarrou meu pescoço antes que eu tivesse tempo de responder.

Puxou-me pra fora da cama e começou a me arrastar em direção à porta do armário, num pesadelo cego de luzes apagadas. Minha namorada berrava de forma histérica, sem entender o que estava acontecendo. Eu esperneava e lutava em pânico, sem conseguir me livrar dos dedos gelados que esmagavam minha traquéia. Ainda tentei me segurar na beirada do guarda-roupa. Farpas entraram na minha mão e duas ou três unhas se quebraram, sendo arrancadas da minha carne. Nem me importei com a dor, só queria escapar.

Não adiantou.

Quando senti o tecido das roupas deslizando por meu rosto, desmaiei.

Desmaiei ou morri.

Não sei quanto tempo fiquei inconsciente, só lembro que quando abri os olhos, havia apenas escuridão. No instante seguinte, escutei o grito da assombração que me trouxera até ali. Estava me procurando. Fugi para bem longe, até os urros de frustração se tornarem meros sussurros ecoando nas trevas.

Vaguei durante muito tempo sozinho, gritando por socorro. Muitas vezes ouvi outros pedidos de ajuda, na maioria com vozes de crianças. Em outras ocasiões, escutei apenas berros insanos. Nunca encontrei ninguém. A solidão se tornou desesperadora e já estava quase enlouquecendo, quando bati em algo. Parecia a porta de um guarda-roupa.

Empurrei e cheguei aqui, no seu quarto.

Desde então, volto todas as noites. Sei que não pode me escutar, mesmo assim eu converso com você para espantar minha própria solidão. Vejo pelas fotos que está crescendo rápido. Não cometi o erro de ser visto, então logo você não sentirá mais minha presença. Vai concluir que eu não existo, aí será só questão de tempo para que abaixe o cobertor, deixando seu pescoço ou braço desprotegido.

Serei mais inteligente do que a coisa que me raptou.

Quando eu te puxar para dentro do armário, nunca mais vou te soltar.
================
Sobre o Autor
Nascido em Curitiba, já publicou contos nos livros Draculea, Invasão, Alterego e Galeria do Sobrenatural, na revista Scarium Megazine, em fanzines impressos (Astaroth e Juvenatrix antigos), fanzines eletrônicos (Astaroth e Juvenatrix novos, no TerrorZine) e diversos sites (como o Boca do Inferno). Acredita que a publicação de seu livro solo não demora muito. Tomara
.

Fonte:
A Lua Mortal. /

1 comentário

Arquivado em Conto, notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Aparecido Raimundo de Souza (Estranho num Lugar Esquisito)

Durante meses, Panetôncio freqüentou um consultório psiquiátrico com a reclamação de que havia um imenso jacaré debaixo de sua cama.

— E toda noite ele me mostra uma boca cheia de dentes…

— Não são dentes, são presas. E não se diz “boca”. Jacarés não têm boca, e sim mandíbulas.

— Não importa, doutor, o caso é que não agüento mais.

O médico tentava persuadir o paciente de todas as formas possíveis:

— Panetôncio, você não reside num prédio de apartamentos em plena Barra da Tijuca com segurança, circuito interno de televisão e alarmes por todas os cantos?

— Perfeito, mas o jacaré me amedronta apesar de toda essa tecnologia de ponta.

— Não existe nenhum jacaré.

— Claro que existe, doutor. E a cada dia parece mais furioso.

— Só na sua imaginação.

— Não é imaginação, doutor, é real.

— Sua esposa viu esse suposto jacaré?

— Não.

— Nem seus filhos?…

— É verdade!

— Seu sogro chegou a dormir uma noite no quarto e também nada viu, ou ouviu?

— Meu sogro dorme mais que a cama. É só recostar a cabeça e no minuto seguinte está contando carneirinhos.

— Sua sogra?

— Uma besta quadrada. Não enxerga um palmo adiante do nariz. A única coisa que sabe fazer, e cá entre nós, muito bem, é ver defeitos em mim e maquinar intrigas do arco da velha com minha mulher.

— Seu irmão dormiu lá com a esposa dele, na semana passada, não dormiu?

— Dormiu.

— E não viu nem ouviu absolutamente nada?

— Meu irmão, doutor, só pensa naquilo 24 horas por dia. Não tem uma noite que deixe a mulher descansar em paz. Esteja em casa ou na casa dos outros, o negócio dele é furunfar. Nem os dias sagrados da companheira -, o senhor compreende -, aqueles do famoso “lacinho vermelho”, ele respeita.

— Fazer amor faz um bem danado à saúde, Panetôncio. Alivia o estresse do dia-a-dia. A alma se liberta das tensões e fica mais leve e solta. Concorda?

— Concordo, doutor, concordo plenamente. Mas o senhor precisa entender o seguinte: balançando o esqueleto, ele não vai ver nada, como, aliás, não viu. E o jacaré continua embaixo da minha cama, tranqüilo, sem problemas, me enchendo o raio do saco.

— Insisto, Panetôncio, que não há nenhum jacaré debaixo da sua cama. Volte para seu quarto e procure ficar em paz. Sua esposa, da última vez que falou comigo, reclamou que, por causa desse bendito jacaré, você não só mudou de quarto, como abandonou a cama. Esse negócio está me cheirando a outra coisa…

— Que outra coisa, doutor?

— Amante. Você arranjou uma namoradinha e está engabelando dona Líliam com essa história sem pé nem cabeça.

— Não trairia minha cara metade por nada deste mundo. Ainda que encontrasse a Bruna Lombardi peladinha, dos pés a cabeça.

— Escute o que vou dizer: sua esposa, com essa conversa toda, está abalada. Muito abalada. Sem contar que também está necessitada. Mulher necessitada é perigosa. Começa a subir pelas paredes. Se você não dá conta, não comparece…

— Sei disso tudo doutor. Mas como posso me concentrar?

— Você pode. Você é um homem ou é um rato?

— Depois que o jacaré apareceu comecei a ter dúvidas sobre minha masculinidade. Acho que sou um coelho assustado. E coelho tem medo de jacaré. Li algo a respeito numa revista especializada em animais. O doutor seguia na sua linha de conduta e perseverava com acirrada veemência na ânsia de demover a idéia fixa da cabeça de seu paciente.

— O jacaré -, Panetôncio, ou melhor, esse famigerado jacaré é apenas uma alucinação passageira -, fruto da sua estafa, da sua debilidade. Resumindo, meu amigo, coisa provocada pelo excesso de trabalho e pela fadiga. Você tem se desgastado muito, ultimamente. Sua ocupação, na Bolsa de Valores -, compreendo -, é muito pesada e irritante. Deixa os nervos a flor da pele, a cabeça a mil, os neurônios em frangalhos. Sei que não é fácil passar o dia inteiro com três telefones no ouvido…

— Quatro, doutor, quatro.

— Que seja! Três, quatro ou apenas um, não importa. O que conta, o que faz diferença, é você estar o tempo todo gritando, berrando e gesticulando feito um desmiolado e despirocado das idéias. Preste atenção no conselho que vou lhe dar, e vou fazê-lo como seu amigo, não como médico. Tire uns dias e saia com a família em férias. Coloquei, inclusive, meu sítio, em Pedra de Guaratiba, à sua disposição. Está lembrado?

— Estou, doutor. Mas o jacaré está cada vez mais esfomeado. Se o senhor, que é um especialista, que estudou anos a fio para procurar dar uma solução plausível para o meu caso e, no final das contas, não puder, ou não conseguir me ajudar, quem poderá me levar à cura dessa merda, ou à merda dessa cura?

O rapaz continuou a freqüentar, ainda por um bom tempo, as seções no consultório, como sempre fazia, todas as quartas-feiras, na parte da tarde. Com isso, o médico estava quase convencendo a criatura de que tudo não passava, realmente, de fantasias e devaneios oriundos de um desgaste físico e mental acima da linha do ponderável, e que, em decorrência disso, se levasse os próximos encontros mais a sério, logo sairia completamente restabelecido.

Entretanto, por três quartas-feiras seguidas, Panetôncio não compareceu ao consultório, nem comunicou à secretária o motivo de sua ausência. Apreensivo e visivelmente preocupado, o psiquiatra ligou para a residência de seu cliente.

— Gostaria de falar com seu Panetôncio — disse o doutor à mulher com a voz chorosa que o atendeu.

— O Pane morreu… Quero dizer, o Panetôncio faleceu… — respondeu a pessoa, em soluços.

— Com quem falo?

— Líliam, a esposa.

— Dona Líliam, sou eu, o médico psiquiatra do seu marido.

— Doutor, desculpe não tê-lo avisado antes. Sabe como são essas coisas. Uma correria: liberar corpo no IML, correr atrás de funerária, avisar todos os parentes e amigos, cuidar do enterro, fretar ônibus, comprar flores, coroas, escolher cemitério, ver jazigo, colocar anuncio em obituário de jornal, marcar com antecedência a missa de sétimo dia, uma loucura!

— Estou pasmo, dona Líliam. Fiquei realmente sem saber o que lhe dizer…

— Pois é. O senhor que é médico ficou assim, assombrado, praticamente sem saída. Imagina como estamos nós que convivíamos diariamente com ele. E todo o resto da família. Completam sete dias, amanhã. A propósito, gostaria que o senhor viesse para a missa. Vai ser na Igreja de Nossa Senhora das Cabeças, na Rua Belizário Pena, ali na Penha.

— Farei o possível. De qualquer forma, minhas sinceras condolências.

— Obrigada, doutor.

— Por favor, esclareça uma dúvida, dona Líliam. Panetôncio morreu… Morreu de quê?

— Foi devorado por um jacaré que estava escondido debaixo da cama dentro do nosso próprio quarto.
–––––––––––––––––-
Sobre o Autor
Aparecido Raimundo de Souza, 56 anos, jornalista. Natural de Andirá, Paraná. Free-lancer das revistas “Textos Inteligentes” e “Isto é gente”. Publicou: Quem Se Abilita? (prefácio de Paulo Coelho); Com Os Chifres À Flor Da Cabeça (25 cronicas); Tudo o que eu Gostaria de Ter Dito (livro com 365 frases dos mais diversos autores, frases essas publicadas durante três anos numa coluna que manteve na Revista Class, em Vitória, no Espírito Santo); As Mentiras Que As Mulheres Gostam De Ouvir (25 cronicas); A Outra Perna Do Saci, Refúgio para Cornos Avariados (25 cronicas), Mulheres em Estado de Coma; Travessuras de Mindinho e Fura Bolos; Talvez Eu Volte para Casa na Primavera.
Os textos de Aparecido Raimundo de Souza retratam o cotidiano das pessoas. São escritos leves e soltos, alguns cheios de intransigências, outros salpicados de ironia e muita picardia e irreverência. Seu estilo lembra o escritor gaúcho Luiz Fernando Veríssimo, embora tenha criado uma grafia própria e inconfundível.

Fontes:
Colaboração do autor
wikipedia

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Adalgimar Gomes Gonçalves (1974)

SER (?)

Ser princesa e morrer na torre
Porque nenhum guerreiro ousou lutar por ti.

Escrever mil e um livros, de temas vários,
E não ser lido por ninguém.

Ter duas asas e o pensamento
E ser impedido de sair do lugar comum.

Lutar pela liberdade de seu povo
E ser condenado por ele.

Saber que tem a força do maior exército
E ser abatido por uma folha seca.

Pensar que poderíamos ser um pouco de tudo
E somos, verdadeiramente, um muito de nada.

(In: Mar de Minas, 2006)
————————

Sobre o Autor

Adalgimar nasceu em Bocaiúva, Minas Gerais, em 19 de janeiro de 1974. Concluiu, na sua cidade, o curso de Magistério na Escola Estadual Professor Gastão Valle.

A sua primeira obra, Uma Noite De Recordações, escrita aos seus quinze anos, após muito empenho, foi publicada em 1996, pela editora Questão De Opinião, de Curitiba e, em 1999, pela Imprensa da UFV.

Na primavera de 1997, em homenagem a Castro Alves e Antônio Conselheiro, publicou a coletânea poética Sonhos E Outras Poesias pela editora Por Ora de Belo Horizonte.

O Refúgio da Liberdade, publicado em 2001 pela editora UFV, é um romance que rememora a luta dos guerreiros negros no Quilombo de Palmares, a partir de uma paixão proibida entre um escravo e uma filha de senhor de engenho.

Mar de Minas, sua quarta obra, reúne poesias de temática múltipla escritas desde 1998.

Adalgimar é Graduado em Letras e Especialista em Lingüística e Literatura Comparada pela UFV; Mestre em Teoria da Literatura pela UFMG. Ocupa o cargo de Técnico em Assuntos Educacionais – UFOP; Ex-Diretor da E.E. Benjamim Guimarães, em Passagem de Mariana e Professor de Literatura Brasileira e de Língua Portuguesa.

Fonte:
Academia de Letras do Brasil – Mariana – MG

Deixe um comentário

Arquivado em Minas Gerais, notas biográficas, Poesia

Dylan Thomas (Em Meu Ofício ou Arte Taciturna)

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

(tradução: Ivan Junqueira)
========================

Dylan Thomas (1914 – 1953)

Em 09/11/1953, Dylan Thomas, autor e poeta morre aos 39 anos de idade. Suas influências seriam ainda mais conhecidas na década de sessenta, através do compositor de canções de protestos Robert Zimmerman, natural de Minnesota, mais conhecido por Bob Dylan, a quem tomou o nome emprestado do falecido poeta. Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, no País de Gales, a 27 de outubro de 1914. Considerado um dos maiores poetas do século XX em língua inglesa, juntamente com W.Carlos Williams, Wallace Stevens, T.S. Eliot e W.B. Yeats e outros mais. Dylan Thomas teve uma vida muito curta, devido a exagerada boemia que o levou ao fim assim tão jovem. Ainda assim influenciaria toda uma geração de grandes escritores.
—————-
Fonte:
http://literaturareal.blogspot.com/

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, Poesia

Charles Bukowski (Conversa às 3h30 da madrugada)

às 3h30 da madrugada
uma porta se abre
e há passos na entrada
movendo um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e responde.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com rolos no cabelo
e num robe de seda
estampado de coelhos e passarinhos

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e de canções românticas,
e depois de alguns copos
ela não se preocupa em cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

(Tradução de Roberto Schmitt-Prym)
__________________________

Charles Bukowski nasceu na Alemanha, filho de um soldado americano, ainda criança foi para os EUA. Teve problemas com alcoolismo e, apesar de ter realizado estudos superiores em literatura e jornalismo, trabalhou como frentista, ascensorista e motorista de caminhão. Começou a escrever poesias aos 15 anos, em 1935, mas seu primeiro livro saiu apenas 20 anos depois. Em 1962, estreou na prosa, caracterizada pela mistura de vida pessoal na literatura. Apenas em 1970 Bukowski deixou seu último emprego “comum”, o de funcionário do correio, para se dedicar exclusivamente à escrita. Moreu em 1994 aos 73 anos.
________________________

Fontes:
Máquina do Mundo – Revista de Poesia.
Imagem = http://www.simplesmentepoeta.hpg.ig.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O poeta no papel

Francisco J.C. Dantas (Os Desvalidos)

Irremediáveis são as mazelas e infortúnios vividos pelos personagens de os esvalidos, segundo romance de Francisco Dantas (Companhia das Letras, 222 páginas, 1993). Eles cumprem uma sina que os iguala, “conforme o quilate de cada um.” O título já contém o prefixo de negação de uma vida digna, pois “desvalidos” são aqueles que não têm valimento, ou que não têm valia: uns pobres desgraçados.

Assim é Coriolano, que tem no nome a metáfora de sua condição miserável de vida, condição esta animalizada – lembrando o couro do animal que fornece a matéria-prima para o seu mísero sustento na confecção de tamancos. Ele sempre se perguntava quem fora o culpado do trompaço que entortava sua vida tão bem encaminhada. Sina talvez seja a palavra-chave do romance. Pois não cumprem um destino melhor outros desvalidos. O caso de tio Filipe é exemplar. O nome revela sua vocação para “amigos de cavalos”. Sempre vitoriosos em suas andanças, acaba também sendo arrastado para o infortúnio, cumprindo um destino rumo à anulação. Ele é casado com Maria Melona, uma espécie de Diadorim que se traveste em homem para entrar no bando de Lampião e, com isso, tentar encontrar também sua identificação feminina.

Até mesmo os personagens históricos despencam desse precipício, como é o caso de Lampião. Quando um personagem anuncia: “Lampiãããão Morreeeeeu!…”, no início do romance, anuncia também o fim de uma época marcada pela violência e desatinos. Para esta galeria de pobres diabos, o autor oferece uma “vidinha caipora”. Para cada um a vida revela um punhado de desgraça sem a possibilidade de um futuro promissor. “É a Sina que iguala todos nós”. Ou “Pose, minha gente, quem tira e bota é o Zinabre do dinheiro! O resto é conversa fiada”, no dizer angustiado do próprio Coriolano.

Regionalismo

Francisco Dantas estreou na literatura em 1991 com o romance “Coivara de Memória”. Dois anos depois surpreendeu com estes Os Desvalidos, em que retoma a tradição do romance regional do Nordeste. Optou por uma literatura realista, pretendendo testemunhar o mundo cotidiano, informar sobre hábitos e tradições populares da região nordestina e principalmente falar dos problemas humanos sociais mais agudos. Como diz Alfredo Bosi, na orelha do livro “esculpir a figura da dignidade na matéria do sertanejo nordestino” é o objetivo do narrador. Nos rastros de Guimarães Rosa, “a sua prosa alcança o equilíbrio árduo entre a oralidade da tradição, cujos veios não cessam perseguir, e uma dicção empenhadamente literária que modula o fraseado clássico até os confins da maneira”. O romance, escrito com os termos próprios da região do Nordeste vai se desenvolvendo com cenas fortes, mostrando a vida trágica e miserável da região.

É pertinente associar Os desvalidos com Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Como este, apresenta uma estrutura moderna, dominada pela força da estória fascinante. O trabalho apurado com a linguagem, o uso do discurso indireto livre, a queda da linearidade do enredo e a capacidade de entrar na psicologia do rústico são algumas das peculiaridades que aprisionam o leitor que, sem escolha, também cumpre uma sina: se embevecer, exercitar sua reflexão e apurar sua sensibilidade, o que resulta numa tarefa agradável.

FRANCISCO J. C. DANTAS

Francisco J. C. Dantas é de origem rural; nasceu no engenho do avô em Riachão do Dantas e só entrou na Universidade aos 30 anos, quando já era casado e pai de uma menina. É arredio e reservado. Escritor do seu chão, sempre conviveu indiscriminadamente com bichos e livros. Autodidata, foi menino de bagaceira, diretor de escola, cavaleiro de pastos solitários, tabelião, foleador de formiga pelas madrugadas, caçador de alguns viventes noturnos e diurnos – fotógrafo. Montou laboratório apenas para reter a memória dos tempos que findavam; daí que tentasse evitar que amarelassem, agarrando-os na palavra. É árvore de raiz funda e só deixou o Sergipe para mestrado e doutoramento; de uma feita voltou com tese sobre Osman Lins e, de outra, sobre Eça de Queiroz. É professor na Universidade mas peleja mais com animais que com gente; na roça tem criatório de bichos miúdos e graúdos, para os quais ouvido e faro são sempre apurados. Tem publicado contos e ensaios em revistas especializadas. Lançou ainda dois romances pela Companhia das Letras, “Cartilha do Silêncio” (1997) e “Os Desvalidos” (1993). Recebeu em 2000 o Prêmio Internacional União Latina de Literaturas Românicas.

Fonte:
Professor Wagner Lemos

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, notas biográficas

Camilo Leal (Gananzama Chuá)

Na cozinha da Fazenda Troncão a escrava Mãe Bárbara conversa com sua sobrinha, a escrava mucama Lane Congo:

– Escute o que eu to dizeno pra ocê. O Leopoldo, meu marido, morreu acidentado na Fazenda do Vale. Foi um grande choque. Ele era tão bão pra mim. Agora nóis aqui longe, aprisionada, sem liberdade… Quando ele tava do nosso lado era tão bão. E agora morreu meu fio com um meis de idade. Tenho bastante leite que inté ta doloreno meus peito. Inda mais agora. O Sinhô me alugo pra sua cunhada que tem um fio e ela não tem leite pra amamenta. É! Eu vô tê qui fica quagi dois anos dano mamá pr’ele. Peço pr’ocê, mucana Lane, pra Elpídia e pr’ocê Maud Lumba, minhas treis subrinha que estimo iguá a minima dos meus óio, tenha juízo, molecas. Faça tudo o que fô mandado, pra não sê castigada na minha ausência.

– Tenha cuidado, minha tia! Vá e não se preocupe. Vamos faze o possive pra não sê castigada.

– Então, eu vô. Cuide dos moleques. Inté lá. E nada de choro, minhas moleca.

O feitor Raimundo Caiolá dá ordens aos escravos.

– O tempo ta carrancudo; pelo jeito vai caí chuva e temo muito fejão no carriadô. Não importa si bamo coiê quagi dois mir saco. O que importa é que bamo coiê tudo e que não bamo perde nada. Todo escravo passe logo na pia de saco, sem recramá, ponha na cabeça um ou dois saco e leve inté a tuia. Precisamo guarda tudo e os carro num vai dá cont. Bamo ajuda os carro, por mode que os boi tão cansado. Depois que entrega o saco de feijão pro feitô, na tuia daí pode í pra senzala. Quem não quisé leva, fica essa noite sem comida. Bamo, negada, se encarreia que nem furmiga. E vancê, Magoado, por que não qué carrega seu saco de feijão?

– Meu Sinhô, me perdoe. Não güento com um saco de feijão dois arquere e meio. Carreguei muito tempo que era moço. Hoje não dá mais. Já tenho guagi cem amo; to cansado.

– Você é vagabundo! Como é que o Boieiro bate no cocho e vancê não pode…? É o primeiro que aparece. Se não leva o saco de fejão, vancê vai fica sem comê essa noite.

– Meu Sinhô, não levo; meu corpo não güenta…

– Logo com isso, negada! E vancê ta me respondendo, negro safado! Sabe o que vô fazê, negro… ah? Vô lhe amarra nesse laço e vô leva cincha do meu cavalo e entrega pro feito do viramundo. E se não corre, meu cavalo arrasta.

– Pelo amo de São Jorge que ta dentro da luma, lá inriba da nossa cabeça no céu, veno o que ta aconteceno aqui na terra, me sorte desse laço.

– Não sorto, não negro! Ah-rã! Vancê vai pro viramundo pra aprende, negro…

O escravo Magoado, lançado, é entregue ao feitor do viramundo nestes termos:

– Castigue o Magoado, Feitor. Não tenha presa pra pará, não. Quero que ele aprenda a não desobedecê a disciplina da Fazenda.

– Deixe por minha conta, feitor Raimundo Caiolá. Ele bem sabe que nosso viramundo tem mó. E ele vai te que moê um saco de mio inté amanhã cedo e faze fubá… deixe comigo.

O feitor Raimundo Caiolá voltou para cuidar dos escravos que carregavam feijão, enquanto o velho negro Magoado gritava à sorte:

– Gente, me sorte desse viramundo. Oh! Meu São Jorge! Tiraram minha tanga e o tango, ataram-me as mãos como um ladrão, crueldade sem amor. Eu sô véio cativo que muito trabaiei pro coroné. Por que tanto me judia? Sinhá Moça na janela, venha e mande pará de me judiá.

– Negro, seu nome é Magoado e muito mais magoado você vai ficá se não moê esse saco de mio inté amanhã cedo e fazê fubá. Não pare de girá o viramundo pra não sê mais castigado.

E o velho mal conseguia fazer mover o viramundo.

A escrava Mãe Maria, que ia buscar fubá, ao ver tal acontecimento, corre escondida e chama Sinhazinha Marlene, a quem os escravos colocaram o nome de Gananzama Chuá, como agradecimento à proteção que ela dá a eles. A Sinhazinha, perplexa com tal barbaridade, vai até o viramundo e repreende com veemência o feitor.

– Liberdade imediatamente ao Véio Magoado. Ele não merece esse castigo. De hoje em diante o Véio Magoado não vai ter mais que trabalhar no pesado. Eu quero que ele apenas fique para contar estórias para os moleques. Acho que o Véio tem muito o que contar. Sirva farofa pra ele, Mãe Maria. Ele deve de estar com fome.

Ela saiu rumo a casa carregando Gustavo, que apareceu ali correndo, o seu gato de estimação.

A escrava Mãe Maria ao cuidar do velho escravo lembra a ele os ensinamentos de Mãe Bárbara e comenta saudosa da escrava amiga, alugada há poucos dias:

– Enquanto existi descendente de escravo da Fazenda Troncão nessa terra, vai te roda pra louva Gananzama Chuá, fia do Coroné Bento de Prado, por sê bondosa, faze caridade, livrá os escravo quando são castigados injustamente. É! Mãe Bárbara tem razão… Nóis tudo daqui da Fazenda Troncão do Itu Rio Paranapanema sempre bamo cantá Gananzama Chuá.
========================
Camilo Francisco Leal (1922- 2004) artista plástico, escultor, compositor, contista e poeta, nasceu em Bica da Pedra, SP. Foi um dos pioneiros do Norte do Paraná, que em 1952 trabalhou na fundação e administração da Fazenda Rio da Prata em São João do Caiuá. Em 1963 mudou-se para Maringá, onde viveu até seu falecimento.

Camilo deixou uma obra vasta – 04 livros de contos e poesia, 137 músicas, 10 esculturas em papel e centenas de pinturas, entre óleo, acrílico e desenhos a lápis e esferográfica. A obra completa de Camilo, tematizada em torno da história da vida do negro liberto, mas sem perspectivas, e da vida rural, está sendo catalogada e organizada para publicação.

Patrono da Cadeira n.2 da Academia de Letras do Brasil/ Mariana/MG.

Fontes:
Jornal Aldrava
Pintura

Deixe um comentário

Arquivado em Contos, notas biográficas, O Escritor com a Palavra

Francisco Sinke Pimpão (O Dia em que a Muiraquitã virou Gente)

Quando um escritor escreve um romance, ele faz um ofício de fé, pois uma vez lançada a idéia, por meio de enredo há muito tempo engendrado, não a segura mais, pois a palavra é mais forte do que um tiro de canhão ou o ferimento de um punhal, fere aqui, ali, acolá e continua ferindo sempre. Por isso, ao se tomar uma iniciativa de tal ordem, há que se ter o cuidado para que ela seja o portador da paz, concórdia e harmonia, levando a mensagem diretamente aos corações dos leitores. Em outras palavras, o autor deve ter em mente que lançar um livro é como mandar um filho para a guerra, através do mar proceloso.

A trama está bem ordenada, de forma a prender a atenção e o interesse do leitor. No conteúdo, o livro transmite preciosas lições de vida, úteis a todos, acima de tudo pelo poder dos exemplos.
O novel romancista, possuidor de notáveis atributos intelectuais, oferece aos leitores uma agradável e profícua leitura. Oxalá seja esta a primeira de muitas obras literárias. Parabéns ao autor, pela qualidade de seu trabalho.
(Valter Martins de Toledo)

O livro conta a história de João Batista Souza Lino Sotto Maior, filho de imigrantes portugueses estabelecidos no Brasil em fins do século XIX, tradicional família ligada ao ramo da tecelagem. Inteligente, bem educado e culto, João decide ser médico a tomar a frente dos negócios da família. A princípio contrariado, seu pai vê com orgulho o sucesso e o reconhecimento do filho, no Brasil e no exterior, como um grande cirurgião. Uma tragédia pessoal vai mudar de maneira drástica o destino desse homem apaixonado pela vida e pela profissão. Abandonando tudo que construíra e deixando de lado tudo aquilo em que acreditava, João vai se embrenhar e buscar refúgio nos confins da Amazônia, muito distante daquilo que comumente chamamos civilização. É nesse cenário, povoado por lendas e histórias que o povo da região ribeirinha acredita que João vai viver sua maior aventura. Da resistência ao passado, que o transformara num homem rude e cético, ao reencontro com a vida e com o amor, João verá, mais uma vez , seu destino ser mudado pela presença de uma mulher; menina-moça inocente e pura, que irá confrontá-lo com suas dores, pecados e mazelas.

Francisco Sinke Pimpão

Francisco José Sinke Pimpão, nascido em Curitiba no ano de 1953, é Bacharel em Administração e sócio de uma empresa de consultoria. Nos últimos anos tem-se dedicado ao estudo e aplicabilidade da Gestão de Processos nas Organizações, fruto de 27 anos de atuação no mercado. Com pós-graduação em Marketing e tendo concluído diversos cursos no Brasil e exterior, escreveu diversos artigos publicados em livros e revistas especializadas. Atualmente é redator e coordenador de web sites.

Fontes:
– Francisco Sinke Pimpão .O Dia em que a Muiraquitã virou Gente. Curitiba: Pro Infanti, 2009.
http://www.proinfantieditora.com.br/produto.php?id=131

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, notas biográficas

Claudia Lage (Porque é)

Andou com pressa sem hora marcada para nada. Virou as esquinas pensando em como era bom virar alguma coisa. Tropeçou num treco qualquer no meio do caminho e só depois viu não se tratar de uma pedra. Os jornais que embrulhavam a pessoa deitada anunciavam uma liquidação imperdível. Ótimo. Tinha mesmo que comprar presentes. Corra, corra, não perca! Imediatamente, correu, embora não soubesse o endereço. Passou por uma mulher linda, um homem lindo, uma criança linda. Pensou: o mundo é bom. E a cidade cintilava com as luzes extras sem nenhuma beleza nem economia.

No meio da multidão, esbarrou em alguém que conhecia. Rapidamente, não se cumprimentaram. Na esquina, desejou felicidades à mocinha que lhe vendeu um sanduíche. Depois, sentiu, de repente, uma alegria. Mal podia esperar a noite. Gostava da comilança, da família reunida. Nessa hora, cresceu um buraco em seu peito que o fez logo pensar em doenças. Em seguida, imaginou curas. É o susto do tempo. De tudo parecer a mesma coisa. E é também a dor desse susto. São as horas corridas que se adiantam tanto, e para quê? Para todos os anos caírem sempre no mesmo dia. Era o que pensava. Só esperava que, se alguma vez morresse, fosse quando estivesse muito, mas muito doente, pois achava morrer saudável um verdadeiro desperdício. Calculava, no futuro, que seria capaz de saborear cada instante. Em pequenas ambições, vislumbrava roçar a carne vida.

Olhando assim, é uma pessoa como outra qualquer. Carregando um desejo como qualquer outro. Arrastando e alimentando o desejo. Deixando ele crescer. Invadir o peito, arrepiar os pêlos, subir à cabeça, desfiar os cabelos. É um perigo querer tanto assim. Talvez seja a época do ano. Você sabe. Aquela que nos faz gastar o dobro do dinheiro que temos. Aquela que nos faz pensar neles. No homem que morreu na cruz e no que anda pelo mundo inteiro, por incrível que pareça, de trenó. Um teve, no peso de sua dor, a dor de todos. O outro, velhinho, vive até hoje num lugar muito longe e frio. Coitados. E ainda têm que aguentar os teus pedidos. Esses desejos que vocês carregam, arrastam, alimentam. Vejam só:

Carregar – Ato de levar ou conduzir uma carga. Tornar sombrio, triste. Tornar mais intenso, mais forte. Exercer pressão sobre.
Arrastar – Ato de levar à força. Mover com dificuldade. Rastejar. Falar morosamente. Atrair, trazer atrás de si.
Alimentar – Dar alimento a. Nutrir, sustentar, conservar. Incitar, incrementar. Manter, prover.

Então o homem carregou os presentes até em casa, a mulher deixou mais forte o tempero da comida, o avô moveu com dificuldade a própria perna, a avó alimentou as crianças, e a menina comeu tudo, nutrindo a expectativa de enfim, naquele dia, ganhar um presente impossível porque era Natal.

Então o avô conseguiu sustentar com o próprio corpo o peso dos anos, a mulher falou morosamente com o marido, o homem exerceu pressão sobre a esposa, trazendo-a atrás de si até o quarto, a avó rastejou a história mais comprida para as crianças, e o menino deu alimento a cada palavra, achando que naquele dia tudo em casa estava mais calmo e bonito porque era Natal.

Então a menina sustentou que Papai Noel não existia, o menino incrementou achando que aquela barba de algodão era mesmo patética e ridícula, o avô tornou-se sombrio porque perguntava e ninguém respondia, a avó incitou a filha a cuidar dos filhos e da cozinha, a mulher entristeceu, pois ela e o marido às vezes não se entendiam, o homem carregou o medo de perder tudo aquilo que nem tinha tanta certeza assim de que tinha, e todos prometeram evitar discussões naquele dia porque era Natal.

A pele brilhava. Perfeita. Se a levantasse apenas um pouquinho, encontraria a carne branca e macia. Igualmente perfeita. Nesse momento, a boca certamente já estaria transbordando de água. Água de fome e vontade. Uma faca grande e bem afiada faria o corte preciso. Com muita calma, penetraria nela o garfo de enormes dentes e a deitaria languidamente no prato. Ao seu lado, para breve companhia, um pouco de arroz, farofa e maionese. Pronto, perfeito. Agora, a boca aberta já estaria à espera, assim como todas as glândulas e todos os dentes. Se houver sorte e dinheiro, 32 inteiros ou consertados. Mas, antes, outro corte. Menor, mais delicado, mais sensível. Enfim, o garfo, o pequeno, espetaria a sua pressa na carne. E a boca ávida, como em nenhum outro dia, engoliria tudo. Ao seu lado, em silêncio, a sua mulher fazia o mesmo. Ao lado dela, fazia o mesmo a sua filha. E o filho. Na outra ponta, o seu pai, mãe, e pai e mãe dela. Na casa vizinha, dava para ouvir o mesmo. E o mesmo, o mesmo. Alguém riu, todos riram. Alguém disse Feliz Natal, todos repetiram. Alguém estendeu um presente, todos estenderam. Alguém anunciou que ia dormir, dormiram. E o céu deste mundo brilhava, sem reluzir nenhuma estrela.
======================
Sobre a Autora

Claudia Lage é carioca, se formou em Literatura e dedicou muito tempo ao teatro, como autora e atriz. Mas sua verdadeira vocação se manifestou repentinamente, num domingo, quando em apenas um dia ela escreveu o conto A hora do galo que ganhou o concurso Stanislaw Ponte Preta de contos, da Rio Arte, em 1996. Este e outros doze contos formam seu livro de estreia, que publicou em 2000, pela Editora Record – A pequena morte e outras naturezas.

Claudia também tem contos em algumas antologias:
– Recontando Machado (Editora Record)
– 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Editora Record), organizado por Luiz Ruffato
– Todos os sentidos – contos eróticos de mulheres (CL Edições Autorais), organizado por Cyana Leahy
– Ficções Fraternas (Editora Record), organizado por Livia Garcia-Roza

Em 2009, a autora se lança como romancista, trabalhando ficcionalmente a biografia de Eufrásia Teixeira Leite, com o livro Mundos de Eufrásia.

Claudia Lage mantém o blog A pequena morte e é colunista do Jornal Rascunho.

Fontes:
http://www.paralerepensar.com.br/
http://sobrecapa.wordpress.com/autores/claudia-lage/
Imagem = http://oescunchador.wordpress.com/

Deixe um comentário

Arquivado em A Escritora com a Palavra, Cronicas - Contos, Magia das Palavras, notas biográficas

Mauro José de Morais (Album de Poesias Poetas del Mundo)

CÁ DENTRO DE MIM

Cá dentro de mim
Existe uma música bonita
Uma paisagem colorida
Um riacho límpido
A sombra de uma árvore
Inúmeros verdes
e um sol brilhante.

Cá dentro de mim
Existe uma noite estrelada
Muitos livros de poesia
Um mar de alegria
Um brilho na alma
E uma canção de ninar!

Cá dentro de mim
Existe um amor bonito pelas artes
Por muitos seres humanos
Uma paixão pela vida
E muito respeito
Por tudo que Deus criou.

Cá dentro de mim
Existe uma esperança viva
Uma busca de felicidade
Cujo colorido
É você!

CARÍCIAS

Vejo a aurora
Na menina dos seus olhos
Tomo o orvalho da manhã
Num copo de cristal
Aqueço suas mãos
Em painas de capim.

Enxugo seu corpo
Em uma toalha de cetim
Beijo seus lábios
E oferto-lhe o meu amor
Percebo que seus olhos
São como vales
Que me deixam
Sereno.

Sinto
Que a beleza da vida
está no ar…

Nos nossos olhos
E no nosso jeito
Lindo de amar.

ENCANTAMENTO

O ipê amarelo encantou-me
Naquela tarde azul
Percebendo-o
Presenciei toda sua beleza
Que me refez
Do cansaço da vida.

O amarelo contagiou-me
O belo penetrou em minhas entranhas
Minha mente multiplicou-se em cores
De uma tonalidade de amor.

No esplendor do encanto
A natureza sorriu
E ofertou-me
A essência da razão de ser
Na magistral primavera que veio
Embelezar a minha vida.

E o poeta encantado amou
Os raios de sol
As flores do ipê
Que entraram em minha memória
E em meu substancial coração.

Ipê amarelo
Razão de se compreender
Que um dos segredos da vida
Seja a singeleza
A beleza
E todo este encantamento.

–––––––––––––––––––

Sobre o Escritor

Mauro José de Morais
Filho de Dona Márcia e Antenor. Professor de Português, Bacharel em Turismo, Poeta, contista, trovador.
– Presidente da Academia Nevense de Letras, Ciências e Artes – ANELCA desde 1.999, cadeira n.1, em Ribeirão das Neves (MG).
– membro da IWA (International Writer’s Association),
– Sócio Honorário do Clube Brasileiro da Língua Portuguesa,
– Membro da organização Poetas del Mundo,
– Autor de seis obras literárias, tendo lançado em 2.008 os livros: O Colecionador de Lápis e Alma Nevense. Mineiro, nascido em Ilicínea[MG].

Possui cerca de 1650 Poemas, 80 Crônicas, e outros cem Contos, setenta Trovas.

Fontes:
http://recantodasletras.uol.com.br/acrosticos/75036
http://www.poetasdelmundo.com/verInfo_america.asp?ID=6117

Deixe um comentário

Arquivado em notas biográficas, O poeta no papel, Poesias