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Hildeberto Barbosa Filho (Escritor Paraibano Constrói Panorama do Nordeste Literário)

Publicado em 5 de janeiro de 2006

Às voltas com a materialização simultânea de diversos projetos, o escritor paraibano Hildeberto Barbosa Filho fez uma rápida pausa na preparação de seus dois novos livros, para cumprir, na capital maranhense, mais uma etapa de sua peregrinação pelo Brasil. Ele esteve durante três dias em São Luís, no final do mês de maio passado, para vir apresentar, de corpo presente, a obra do poeta maranhense Nauro Machado. Além de autografar o livro Literatura na Ilha (poetas e prosadores maranhenses), Barbosa Filho acompanhou o lançamento do novo tomo da coleção Melhores Poemas, da Global Editora, dedicado à obra de Nauro Machado.

Aos 51 anos, Hildeberto Barbosa Filho vem saboreando uma experiência com a qual sonhava há muito tempo: compor um panorama da produção literária dos Estados do Nordeste brasileiro. Este mapeamento já resultou em vários títulos, entre os quais Letras Cearenses; Os Labirintos do Discurso, painel da literatura paraibana; e O galo da torre, sobre as expressões literárias do Rio Grande do Norte. O autor acaba de concluir Pelo Rio das Imagens, livro sobre a literatura pernambucana, a ser publicado no próximo mês de outubro, por ocasião da Bienal do Livro, em Recife. Estes livros são fruto de uma intensa atividade de crítica militante do autor, sobretudo em jornais e revistas, num período que já compreende mais de 20 anos. Com a seleção e a triagem dos artigos que considera mais sólidos, dentre os publicados na imprensa, Barbosa Filho vem reunindo em livros tudo o que já conseguiu garimpar com seus ensaios e suas pesquisas. Ele explica que sua pretensão é a de dar uma visibilidade à produção literária nordestina, não só entre os próprios nordestinos. 

Curiosamente, do ponto de vista sociológico, nós, nordestinos, nos desconhecemos muito, apesar de morarmos em Estados relativamente próximos, como Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. Da mesma forma, no Maranhão, no Piauí e no Pará existe um desconhecimento mútuo do que se faz nestas regiões. Então a minha preocupação é no sentido de tornar visível, para nós mesmos, o que fazemos, na medida em que lançamos estes livros nos diversos Estados, com isso criando uma espécie de intercâmbio, afirma Hildeberto Barbosa Filho.

Perseverante e abnegado, o escritor vem percorrendo o Brasil com esse propósito de dar visibilidade ao Nordeste literário também no eixo Rio-São Paulo. Tenho feito incursões nas regiões economicamente mais desenvolvidas do país, porque existe uma atitude preconcebida por parte da indústria editorial, com relação às regiões periféricas: o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste. É uma forma também de se dar a conhecer o que se faz aqui dentro desse plano mais amplo da nacionalidade. É uma forma de dizer que a literatura nordestina existe, é muito rica, muito sugestiva e não deve se envergonhar em relação ao que se faz no eixo Rio-São Paulo. Ao lançar em São Luís o livro A Literatura na Ilha (poetas e prosadores maranhenses), o autor explicou que a obra faz parte de uma arrojada iniciativa. É um projeto meu, particular, que visa mapear a produção literária nordestina mais contemporânea, dos anos 50 para cá. 

Literatura na Ilha enfoca alguns dos autores mais representativos da literatura maranhense contemporânea. Como venho realizando um trabalho de crítica de literatura no Nordeste, esse livro acabou nascendo. Ele não foi planejado. Reuni alguns ensaios, contemplando poema e prosa e isso acabou gerando o livro, assim como aconteceu nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Pernambuco, informou o professor. Os escolhidos, além de Nauro Machado, são Luís Augusto Cassas, José Chagas, Salgado Maranhão, Ferreira Gullar, Lago Burnett, Laura Amélia Damous, Sebastião Moreira Duarte, Weliton Carvalho, Arlete Nogueira da Cruz e Lino Raposo Moreira. A intenção do livro é também dar visibilidade à literatura produzida hoje no Nordeste. Quero mostrar também os trabalhos feitos fora do eixo Rio-São Paulo, onde há um monopólio editorial, voltado exclusivamente para o lucro econômico. Quero mostrar esses trabalhos realizados no Nordeste e que são menos conhecidos, destacou.

A SAGA DE DOIS BRASIS

Autor de 32 obras, entre coletânea de poemas e livros de crítica e ensaios teóricos, o escritor paraibano constata que a literatura nordestina, em certos aspectos, chega a apresentar uma qualidade até mesmo mais robusta. Mas os críticos e os colunistas dos grandes jornais e das grandes revistas fazem questão, por um complexo de superioridade, que é tão grave quanto o complexo de inferioridade, de se manterem indiferentes e com isso quem perde na verdade são eles. Porque nós, como temos o complexo de inferioridade, também negativo, mas que termina sendo bom, nos obrigamos a conhecer tudo o que eles fazem. E acaba acontecendo muito o seguinte: nós conhecemos o que fazemos e o que eles fazem. Eles só conhecem o que fazem; não conhecem o que fazemos. Então eles perdem no debate. O escritor confessa que já teve a oportunidade de demonstrar várias vezes, em palestras e seminários e, recentemente, por ocasião do Prêmio Portugal Telecom, do qual integrou o júri nacional, que há uma ignorância nababesca em relação ao Nordeste literário. Eu pude perceber, nas discussões dos colegas do Sul, que são muito capazes e competentes, que eles desconhecem, de forma principesca, a nossa realidade literária, cultural e, às vezes, até a realidade política e econômica. Isto, a meu ver, é uma coisa secular, é uma reprodução do colonialismo por que passou o país ao longo da nossa História. 

Paraibano de Aroeiras, Hildeberto Barbosa Filho mora há mais de 30 anos em João Pessoa. Ele bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal da Paraíba; tem curso de Licenciatura em Letras Clássicas e Vernáculas (UFPB); Especialização em Direito Penal, pela USP e Mestrado em Literatura Brasileira, pela UFPB, com dissertação intitulada Sanhauá: poesia e modernidade. Logo cedo, iniciou sua vida de professor, lecionando Língua Portuguesa e Literatura Brasileira em colégios públicos e particulares. Ingressou no ensino superior, através de concurso público, sendo, atualmente, professor da Universidade Federal da Paraíba (Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa), no Curso de Letras, ministrando aulas, também, no Curso de Comunicação Social, e ao mesmo tempo prepara-se para concluir o curso de doutorado em Literatura Paraibana. 

Algumas das publicações de Barbosa Filho marcaram época como A Caligrafia das Léguas, O Ofertório dos bens naturais, A Ira de Viver, A geometria da paixão; O livro da agonia e outros poemas; São teus estes boleros; O exílio dos dias; Desolado lobo; A comarca das pedras;. Crítica literária e ensaios: Aspectos de Augusto dos Anjos; A convivência crítica: ensaios sobre a produção literária da Paraíba; Ascendino Leite: a paixão de ver e sentir; Osias Gomes: a plenitude humana e literária; Sanhauá: uma ponte para a modernidade; A impressão da palavra: literatura e jornalismo cultural; Os desenredos da criação: livros e autores paraibanos; e Namoro com a doce banalidade.

Além de professor universitário, Barbosa Filho é crítico literário, escritor, poeta e jornalista. Mantém uma coluna no jornal O Norte, escrevendo sobre literatura. Colabora nos jornais A União, Correio da Paraíba, O Momento, Correio das Artes; Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco (PE); O Galo (RN), O Pão (CE); D.O. Leitura (SP); Suplemento Literário de Minas Gerais (MG) e a Revista Cultura Vozes (RJ). Coordenou o Projeto LER e editou a revista Ler. Constantemente, é convidado para participar de simpósios, congressos e seminários como palestrante e conferencista. Assumiu a Cadeira nº 6 da Academia Paraibana de Letras, em 10 de setembro de 1999, recepcionado pelo acadêmico José Octávio de Arruda Mello.

Fonte:
Edição 108. 5 de janeiro de 2006
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Cássio Pantaleoni (Por que Precisamos de Poesia?)

A pergunta-título que ora se coloca não refere quem a reclama. Poderia ser formulada por quem se depara com a poesia e que, enfadado, desdenha-a. Por outro lado, poderia ser feita pelo próprio poeta, como tentativa de encontrar justificação para sua lida. Contudo, precisamos, sem pressa, preservá-la em sua condição ambivalente, para que possamos responder, tanto ao poeta quanto ao leitor mais refratário, algo que se avizinhe com o real sentido do que se investiga.
Primeiramente, é necessário dizer que se engana aquele que afirma encontrar o traço da premeditação na elaboração poética, como se houvesse alguma intenção prévia do poeta, pretendendo expor algo que já antes andava em convívio com sua alma. Ao contrário, a poesia é rastro de espontaneidade, algo que é deixado como evidência daquilo que é inaugurado no instante em que se manifesta, vazando desinteressada das fímbrias do espírito. É uma incontinência que se conforma em versos, redondilhas e lirismos. 
Ressalte-se que a elaboração poética é, sempre e de algum modo, uma distensão dos costumes, da cotidianidade, expressão que flerta com os sentidos que ainda não nos são de todo conhecidos. É fácil compreender isso. Se concordarmos que o espírito – a cultura – é uma justaposição das idéias do mundo na borda da história, então a poesia é referência, pois nos fala desde um ponto comum, formas e conteúdos legados pela cultura. Também é acedência, possibilitando o acesso para uma nova região do sentido. Ela consente que outros recursos possam colaborar para o entendimento dos tempos em que se vive e das possibilidades futuras, mostrando-se ainda como importante percurso para a invenção de novas acepções. Ela retira do discurso familiar o que é comum a todos para então projetar algo que estranha. A poesia é uma intemperança. 
Podemos perguntar se ela – a poesia – é algo presciente, ou se simplesmente se trata de uma irrupção, e assim investigar os fundamentos dessa disposição dos poetas. Mas talvez assim estaríamos desistindo daquilo que efetivamente está em jogo na poesia – o outro. 
É difícil imaginar que o poeta escreva para si mesmo, mesmo quando assim diz fazer, tal como um agente solitário diante de um mundo de descaso. Ele já sempre discorre diante de. Esse estar diante de é um estar junto com o outro de modo análogo, mas contraposto; conforme, mas independente. O poeta busca denunciar a familiaridade dos discursos. Ele avizinha representação e apresentação, sugerindo uma aventura, convidando à travessura. Assim, o poeta sempre é de algum modo diante de e adiante do outro, mas nunca sem antes encontrar conforto naquilo que aí está como legado das idéias do mundo. A poesia só existe no campo de uma certa inteligibilidade. É uma reconsideração do sentido que só pode ser realizada mediante o outro. Reconsiderar o sentido é especular, no imaginário coletivo, acerca das possíveis intenções perdidas na linguagem, contudo sem recorrer à intencionalidade. A espontaneidade é o destino da poesia e seu começo. Não poderia haver mediação intencional. Intencionalidade é imposição, é desconsideração do outro. 
Responde-se assim porque precisamos da poesia. Pois, poetas ou não, necessitamos crer na espontaneidade. Precisamos crer que ainda é possível se libertar desse condicionamento dos discursos, das idéias, dos rituais sociais. Precisamos recuperar a espontaneidade de modo arrebatador, precisamos ser tomados por ela de tal forma que cada gesto ou palavra seja uma manifestação verdadeiramente divina. Quando perdemos a espontaneidade deixamos a condição humana à deriva, pois aí, sem ela, o que visamos é apenas a autoconsideração. 
Como inspiração, vale lembrar Quintana: “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão…eu passarinho!” .
––––––––––
SOBRE O AUTOR
Cássio Pantaleoni é Mestre em Filosofia pela PUCRS no campo de especialização da Fenomenologia e da Hermenêutica. Escritor, finalista da edição de 2011 da Categoria Contos da AGES, finalista do concurso de Contos Machado de Assis do SESC-DF em 2011, Segundo Lugar no 21o. Concurso de Contos Paulo Leminski em 2010, fundador da editora 8INVERSO e profissional da área de Tecnologia da Informação. Autor de “Os Despertos” (2000), “Ninguém disse que era assim” (2002), “Desmascarando a incompetência” (2005), “Histórias para quem gosta de contar histórias” (2010) e “A Sede das Pedras” (2012).cassio@8inverso.com.br
Fontes:

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Eliezer Demenezes (Poemas Escolhidos)

Nasceu em Fortaleza, Ceará, a 11 de Março de 1910. Filho de Francisco Simões da Costa e Maria de Menezes Costa.


Residiu no Rio Grande do Sul desde os 17 anos de idade, onde fundou e dirigiu a revista “Clímax”, de feição tipicamente moderna. Pertenceu ao grupo chamado do Sul, ligado à Editora Globo, colaborando na “Revista do Globo” e “ Província de São Pedro”, e nas outras revistas e jornais daquele Estado. 

Em 1942 foi para o Rio de Janeiro.

Bibliografia
“Poemas da Hora Amarga”, 1943 – Porto Alegre.

—-

” CANTIGA DE AGORA E SEMPRE “
Veio o vento. Veio a chuva.
Foi-se a lava. Onde o céu.
Um chão riscado de mágoas.
Um mar revolto de sonhos.
Perdido alguém sem razão.
Caiu a estrela no fundo.
Fundiu-se o astro nas algas.
Luziu o fogo, – por quem.
Estradas de não sei onde
cruzando o destino meu.
Apelos de toda parte
– caindo em brasa nas almas,
torcendo as rotas do mundo.
Cantiga de agora e sempre.
A! Meu amigo sem face,
meu irmão que não tem nome,
– tão em mim e além eu, –
murchou a rosa dos ventos
no caule de tuas mãos!
” DULCE, – MAR, ESTRELA E SONHO “
Dulce, – mar, estrela, sonho.
Mar de estranhas águas e roteiros.
Estrela e sonho em minha mão.
Que primeiro barco te singrara.
Que primeiro gesto te colhera.
Estrela e sonho em minha mão.
Mar de aventuras e naufrágios,
longas vozes ressoam no teu corpo,
e há tesouro submerso e navios perdidos em ti.
De que longínquo céu caíste em chamas.
Estrela e sonho em minha mão.
Há em tuas margens enseadas e abrigos,
Há no teu seio, – ilhas.
E passeio neles como um peixe ou uma nuvem,
Mar que mergulho, e afloro, e navego.
Estrela e sonho em minha mão.
” ELEGIA À BRANCA IRMÃ “
É, inútil inscrever o teu nome
na pauta perdida do sonho.
Correm lágrimas na face das esfinges
e no rosto dos mortos.
Agora a desolação.
Talvez, algum dia,
possa se inscrever com a mão pesada e dolorida de séculos
o teu simples nome de três letras, ingênuo e promissor.
Agora o insossego.
Agora a devastação.
As fontes secaram na alma dos homens.
Agora é inútil o teu nome.
Estou triste e desolado
como o leito sem água de um rio, abrasado de sol.
” POEMA À AMADA CONSTANTE “
Teus olhos estão lânguidos.
E nascem cardos e urzes no meu pensamento.
Teus lábios falam promessas e pedem consolo.
E sou a árvore muda destroçada pela tempestade do mar.
Me convidas para a viagem da tua ternura.
E me obstino em ignorar a tua presença compassiva,
em comer os frutos maus e amargos da terra,
em procurar o teu oposto e a tua negação,
quando tudo em mim arde por ti, minha paz e meu bálsamo.
Minha vida e meu chão estão cheios de cinzas, –
não manches a tua túnica límpida
pois quero-te assim branca e pura.
Meus ouvidos transbordam de gritos.
Minha garganta sufoca-se de brados.
E no meu mar interior
andam barcos de velas negras,
e feios pássaros de bico recurvo,
e é noite, sempre noite sobre as águas…
Espera,
que voltarei com meu lado melhor, redimido e teu.
” POEMA A MINHA MÃE MORTA QUE NÃO CONHECI “
A tua mão pálida e ausente
tracejando bênçãos sobre meus sonhos aflitos.
Onde estas que apenas te suponho.
Na raiz dos meus pensamentos
Na força obscura dos meus desejos melhores
És talvez esse vôo desgarrado de esperanças,
que há em mim.
És talvez esse veleiro em mar alto à procura de náufragos,
que há em mim.
Na minha vida és como uma ficção ou a lenda de um milagre.
Algo que ficou intangível e suspenso.
Entretanto,
eu guardo na boca a impressão do teu seio
e o gosto do teu leite e do teu sangue.
As palavras, a ternura, os devaneios teus
que se fundiram no silêncio
repousaram na minha carne, certamente.
A tua face esta voltada para mim em mim mesmo,
e talvez só agora que a reconheci
eu possa me chamar de teu f ilho.
Fonte:
 Antologia da Nova Poesia Brasileira.  J.G . de  Araujo Jorge – 1a ed.   1948 . 

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Artur de Carvalho (Tá Com Essa Cara Por Quê?)

Cientistas ingleses afirmaram que já é possível fazer transplantes de rosto.

É isso mesmo. Eu li a notícia numa dessas revistas de ciências, no consultório do meu médico A ideia dos cientistas é retirar a pele do semblante de um doador e reimplantá-la em outra pessoa. Afinal, eles dizem, a pele é apenas mais um órgão humano e, se já é possível fazer transplantes seguros até do coração, que é muito mais complicado, por que não da pele?

Eu fiquei abismado. Primeiro que eu nem sabia que a pele era considerada um órgão.Segundo que essa operação oferece possibilidades que beiram a ficção científica.

É, porque, embora os tais cientistas ingleses afirmem que a intenção deles é apenas recuperar pessoas desfiguradas por queimaduras, eu duvido muito que a coisa vá ficar por aí.

Você agora pode mudar de cara, entende? Quem sabe se, daqui alguns anos, a gente não vai poder escolher novas feições numa clínica ou até mesmo num supermercado ou num shopping?

A maioria das pessoas com quem comentei a notícia ficou entusiasmada. Afinal, quase ninguém é muito feliz com a cara que tem. Um reclama do nariz mais protuberante. A outra, de suas orelhas de abano. Um terceiro que tem muitas espinhas. Todo mundo quer mudar de cara.

Apenas um dos meus amigos não gostou muito da ideia. E com uma certa dose de razão.

— Eu é que não troco a minha cara. Apesar de feia, com essa pelo menos eu já estou acostumado.E, mesmo se fosse para trocar, eu ia querer a cara de quem? É uma pergunta interessante. A cara de quem você gostaria de ter? Do Silvester Stallone? Não. Acho que eu prefiro alguma coisa um pouco mais intelectual, Talvez do Woody Alien. Não, também não. Eu nunca fiquei bem de óculos. Do Tom Cruise? Não. As fãs não iam me deixar em paz. Do BilI Gates? Bem, só se, junto com a cara, viesse também seu saldo bancário. A verdade é que é muito difícil escolher uma nova cara.

— E tem outra— continuou meu amigo—, já imaginou ter a cara de outro homem ali, o tempo todo, encostadinha em você? Cai fora, sô…

Mas é claro que, apesar das dificuldades, muitas pessoas iam acabar aderindo aos transplantes de rosto. Umas por vaidade. Outras só porque é moda. E muitas por razões que a gente menos imagina.

— Mãe? Mas que cara é essa???

— Eu troquei de cara, filho.

— Mas… é a senhora mesmo?

— É claro que sou eu, meu filho.

— Mas essa cara, mãe, essa é a cara da… da…

— Joana Prado, filho, eu sei.

— Mas logo da Feiticeira, mãe! Não tinha outra cara pra você colocar?

— Pois é, filho. É que eu quis fazer uma surpresa pro seu pai. Pro meu pai?!

— É. Ele sempre vivia falando dessa Feiticeira pra cá, Feiticeira pra lá. E eu quis fazer uma surpresa pra ele e coloquei a cara dela.

— Puxa vida, mãe… Mas… e o pai gostou?

— Gostou nada. Quem é que disse que era da cara da Feiticeira que seu pai gostava?

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Artur de Carvalho colabora com o “Diário de Votuporanga”, interior de São Paulo, desde 1997. É autor dos livros “O Incrível Homem de Quatro Olhos”, edição do autor — Votuporanga, 2000, e “Pah!”, Vialettera Editora, 2003. Além de excelente escritor, Artur é um cartunista dos melhores, com um traço bem diferente, que você poderá ver em seu site, e lá comprar os livros.
http://www.arturdecarvalho.com.br

Fontes:
http://www.releituras.com.br/acarvalho_menu.asp
Imagem = http://www.todanoticia.com/15411/finaliza-exito-francia-primer-transplante/

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Sylvie Neeman (Sábado na Livraria)


artigo por Celso Sisto para o site http://www.artistasgauchos.com.br

NEEMAN, Sylvie. Sábado na livraria.
Ilustrações de Olivier Tallec.
Tradução de Cássia Silveira.
São Paulo, Cosac Naify, 2010. 32p.

Sempre se pode celebrar a vida com um livro. Com uma boa história. Para presentear a memória, para apaziguar os medos, para refazer a linha do nosso horizonte pessoal.

Pois este livro trata do amor aos livros. Um homem, freqüentador assíduo de uma livraria, é visto pelos olhos de uma menina. Ela acompanha suas ações, porque sempre está na livraria no mesmo dia em que ele está: aos sábados. Ele lê sempre o mesmo livro, sentado em uma poltrona, enquanto ela lê histórias em quadrinhos. O livro dele é pesado, o dela é divertido. O dele é grande, o dela acaba logo. Ele se emociona, ela repara. Até que um dia ele some. A menina se pergunta se ele estaria doente. O Natal se aproxima. Três dias antes, ele aparece novamente na livraria, e quando vai procurar o tal livro nas prateleiras, não o encontra. Estava certo de que ele finalmente havia sido vendido, sabia que esse dia chegaria, e prepara-se para voltar para casa, meio pesaroso, quando é surpreendido pela dona da livraria, com um pacote dourado.

A história é narrada pela menina, que presta atenção em tudo o que o velho faz na lojaa. Ela vai comparando-se a ele, a partir de suas atitudes, seus gostos, suas preferências, suas reações. O olho, como instrumento privilegiado da observação, vai costurando a história, fazendo de sua dona uma grande observadora da vida ao redor e de si mesma. O livro que cada um deles lê é um guardado de afetos: com o lugar (a livraria), com a leitura, com os leitores que se reconhecem na paixão do outro. E embutido nessa relação, estão as ideias de tempo, de constituição do leitor, de funções da leitura. Tudo de forma sutil, é claro.

O texto, bem distribuído nas páginas, é simples, direto, curto, e com lacunas que servem para reforçar um certo clima de mistério, de preservação das intimidades. Mas, também funciona como uma lente, e na medida em que vai se aproximando dos “retratados”, vai revelando, maiores detalhes.

As imagens do livro são grandes, de páginas duplas e com pinceladas fortes, com grande massa de tinta e cenas preparadas para provocar impressões! Predominam os azuis e os amarelos. O azul escuro reforça o tom invernal. O amarelo dá uma dimensão afetiva, uma humanidade para os personagens da história. O ilustrador não esconde os traços de grafite, o que confere ao livro uma atmosfera de intimidade, de participação em um segredo, coerente com o clima de aconchego suscitado por cada página.

A pergunta que fica ecoando por trás das observações da menina que olha o velho enquanto lê, poderia servir para todo e qualquer leitor: quem prazer se pode tirar disso? E vem ainda associada à sensibilidade decorrente do período natalino.

A autora nasceu na Suíça e estreou na literatura infantil com esse sensível livro. O ilustrador é francês e já fez mais de cinqüenta livros infantis. A sutileza da dupla, ao contar uma história tão recheada de emoções conduz o leitor do início ao fim. Não seria essa uma história de fins?
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Celso Sisto
Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e crítico literário de várias colunas dedicadas à literatura infantil e juvenil, na mídia impressa e on line. http://www.celsosisto.com/

Fonte:
http://www.artistasgauchos.com.br/

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Maria Helena Bandeira (As Estrelas, As Galáxias, O Universo)

Quando a gente está sozinha em casa, todos os barulhos são importantes. 

Os móveis rangem, o tapete ganha vida, os pingentes do lustre estalam perversamente.

O silencio é povoado de sons e no momento que a campainha tocou foi como se uma bomba explodisse dentro do meu ouvido. Levantei-me num choque e fui atender ao seu chamado.

Antes, espiei pela janelinha:

Lá estava eu, do outro lado, aguardando que a porta se abrisse.

Procurei me acalmar e usei um ardil.

“Quem é?”

Mas eu não me intimidava e respondi que era Antonio, o porteiro.

Não tive remédio senão abrir a porta.

Continuando o plano anterior, fingi não ter me reconhecido.

O pretexto era banal: a água iria ser fechada por uma hora para consertos no prédio.

Desprezei a falta de imaginação e também representei meu papel. Agradeci e fechei a porta delicadamente.

Então era assim.

Corri até o banheiro e olhei minha imagem refletida no grande espelho sobre a pia. No cristal eu estava obediente e senhora de mim. Seguia meus movimentos com precisão. Ali fora capturada e permanecia tranqüilamente às minhas ordens.

Fiz mais alguns movimentos, todos repetidos simetricamente pelo meu inverso. Tranqüilizada, voltei ao trabalho e aos ruídos familiares do meu silêncio interior.

Na hora do almoço, a dúvida me assaltou: quando passasse pela portaria será que eu estaria lá, fingindo ser o porteiro-chefe?

Havia um meio de descobrir.

Desci e lá estava eu sentada no banquinho ao lado do portão.

Procurei não dar importância e saí calmamente para o restaurante onde fazia as refeições.

Quando o garçom chegou, foi preciso usar astúcia novamente: o garçom também era eu.

Disfarcei e olhei para os lados: os fregueses, sentados nas mesas ao redor, todos eram eu e fingiam não me reconhecer.

Resolvi agir como eles e continuei nossa comédia. Escolhi os pratos, almocei, paguei a conta e saí, como se nada de estranho tivesse acontecido.

Na calçada, entre um e outro transeunte, eu me avistava a andar apressado.

O jornaleiro era eu e nos cumprimentamos indiferentes.

Passeava pela rua e nos meninos que brincavam com a bola, na garota de bicicleta, na jovem de mini-saia, em muitos me reconhecia, mas já não importava.

Todas as pessoas, aos poucos, rapidamente, cada vez mais depressa, iam se tornando meu espelho.

E vagavam, separadas de mim, em corpos que eu não controlava.

As lojas eram eu.

Cada tijolo e pedra da calçada também eram meu outro.

E eu era as árvores e os telhados. O céu era eu e as estrelas que brilhavam sobre minha cabeça. E eu era o Sistema Solar, era a Galáxia e o Universo.

Eu era tudo e, então, finalmente, era Ninguém.
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Sobre a autora:
Maria Helena Bandeira é carioca, jornalista, artista plástica e escritora.
Menção especial do Prêmio Guararapes (União Brasileira dos Escritores) – livro de poesia inédito).
Conto brasileiro do mês da “Isaac Asimov Magazine”.
Colabora para o fanzine “Somnium” e em vários sites literários, como blocos Online,
onde se dedica a uma série literária.


Fonte:
Scarium

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Fábio Reynol (O Vendedor de Palavras)

Ele ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que quase não se iam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grave, “indigência lexical”.

Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica: pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado para cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua: uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia:

“Histriônico — apenas R$ 0,50!”.

Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse:

— O que o senhor está vendendo?

— Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos, como diz a placa.

— O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.

— O senhor sabe o significado de histriônico?

— Não.

— Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.

— Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.

— O senhor tem dicionário em casa?

— Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.

— O senhor estava indo à biblioteca?

— Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.

— Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra

por apenas cinqüenta centavos de real!

— Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?

— Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.

— O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?

— O senhor conhece Nélida Piñon?

— Não.

— É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito

pouco lidos por aqui.

— E por que o senhor não vende livros?

— Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.

— E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.

— A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos

pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os
relógios do meu colega aqui do lado. Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira. Olhou minha placa e deu um sorrisinho

maroto se mordendo de curiosidade. Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga. Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.

— O senhor não acha muita pretensão? Pegar um…

— Jactância.

— Pegar um livro velho…

— Alfarrábio.

— O senhor me interrompe!

— Profaço.

— Está me enrolando, não é?

— Tergiversando.

— Quanta lenga-lenga…

— Ambages.

— Ambages?

— Pode ser também evasivas.

— Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!

— Pusilânime.

— O senhor é engraçadinho, não?

— Finalmente chegamos: histriônico!

— Adeus.

— Ei! Vai embora sem pagar?

— Tome seus cinqüenta centavos.

— São três reais e cinqüenta.

— Como é?

— Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.

— Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?

— É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?

— Tem troco para cinco?

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Significado das palavras

Jactância.
1.Vaidade, ostentação. ; 2.Arrogância, orgulho.

Alfarrábio.
Livro antigo ou velho; cartapácio.

Profaço.
Estorvar, dificultar, impedir.

Tergiversando.
do verbo tergiversar
1. Procurar rodeios, evasivas. 2. Fugir do assunto principal. Enrolar.

Ambages
lenga-lenga

Pusilânime.
1.Fraco de ânimo, de energia.; 2.Falto de coragem; covarde.

Histriônico
1. Vil comediante, palhaço. 2. Fig. Charlatão. 3. Homem abjeto pelo seu procedimento.

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Fábio Reynol (Campinas/SP, 1973), é jornalista e cronista. Publica parte de sua produção literária em seu blogue, o Diário da Tribo (www.diariodatribo.com.br), e é autor da coletânea O vendedor de palavras — crônicas de um país de tanga na mão e corda no pescoço (São Paulo: Baraúna, 2008). Especialista em Ciência e Tecnologia, trabalha como repórter de revistas científicas e é mestrando em Divulgação Científica e Cultural na Universidade Estadual de Campinas.
Fontes:
Texto enviado por Francisco Pessoa Reis
Biografia obtida em Germinal Literatura
Significado das palavras obtido no Dicionário Aurélio e Dicionário Informal

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Arquivado em notas biográficas, O Escritor com a Palavra, São Paulo