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Oscar Nakasato em Xeque (Entrevista com o Escritor Maringaense)

Entrevista realizada por Wilame Prado para o Jornal “O Diário”.

Oscar Fussato Nakasato, 49 anos, é o primeiro maringaense a vencer o Prêmio Jabuti em uma categoria de ficção. Na noite de quinta-feira (18), a Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou os vencedores das 29 categorias da 54ª edição de um dos prêmios literários mais tradicionais do País. Seu livro “Nihonjin” (Benvirá, 2011) foi considerado pelo júri o melhor livro na categoria Romance, desbancando Domingos Pellegrini, Wilson Bueno e outros nomes consagrados da literatura nacional.

Escritor maringaense Oscar Nakasato vence o Prêmio Jabuti de 2012 com “Nihonjin”

Quando soube que era um dos finalistas na categoria Romance, Nakasato, atenciosamente, concedeu uma longa entrevista para mim, que objetivava publicá-la no D+, caderno de cultura do Diário de Maringá. Por falta de espaço, precisei resumir a publicação da entrevista, mas agora o leitor pode ler na íntegra e conhecer um pouco mais sobre a vida desse grande escritor. Leia:

-Primeiramente, nome completo, idade, cidade de nascimento, cidade e bairro atual onde mora, formação acadêmica e profissão.

OSCAR NAKASATO – Meu nome é Oscar Fussato Nakasato, completei 49 anos este mês (setembro). Nasci em Maringá, mas meus pais tinham um sítio em Floresta – PR, onde morei até completar 8 anos. A partir de então, passei a residir em Maringá. Atualmente resido em Apucarana, na Vila Agari, e sou professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Graduei-me em Letras na Universidade Estadual de Maringá depois de uma dolorosa experiência de dois anos e meio no curso de Direito. Também sou mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista.

-Breve histórico da sua biografia ligada à literatura.

Em 1999 fui premiado com os contos “Olhos de Peri” e “Alô” no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul, que os publicou com outros três num volume que se chamou “Contos”. Em 2003, fui vencedor do Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, com o conto “Menino na árvore”, que também foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso. Em 2011, meu romance “Nihonjin” venceu o Prêmio Benvirá de Literatura e foi publicado pela Editora Saraiva. No mesmo ano, o romance dividiu o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Contos do Sol Nascente”, de André Kondo, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota.

-Conte em detalhes como é seu dia a dia. O que faz durante a manhã, tarde e noite. É casado, tem filhos? Quanto tempo trabalha?

Ano passado, logo após ser anunciado como vencedor do Prêmio Benvirá, eu disse que minha prioridade é a docência, e em entrevista recente, mais de um ano após o prêmio e com uma vendagem expressiva de “Nihonjin”, reiterei essa condição. Minha rotina inclui as atividades da universidade, onde trabalho em regime de dedicação exclusiva, e as obrigações como esposo de uma mulher tão bonita quanto exigente e pai de dois filhos adolescentes e modernos. Além disso, atualmente dedico grande parte do meu tempo e da minha disposição para construir a minha casa, tarefa muito árdua para alguém com pouco talento para lidar com questões práticas. Pretendo escrever outros livros, mas construir outra casa, jamais.

-Como é o seu processo de escrita? Quantas horas escreve por dia, de que jeito, no computador mesmo, no silêncio, com a luz apagada, bebendo, fumando, longe do barulho, com a janela aberta, atolado de papeis de pesquisa, atolado de anotações feitas num caderninho etc?

Já tentei estabelecer uma rotina para escrever, mas não deu certo, pois não tenho disciplina. Como nunca entendi o ato de escrever como trabalho, não me sinto responsável para cumprir horários e metas. Por isso, às vezes passo um mês sem escrever, o que, contraditoriamente, me enche de culpa. Então corro até o computador e procuro me redimir teclando algumas linhas ou páginas. Às vezes interrompo a escritura para ler um parágrafo de Clarice Lispector ou de Guimarães Rosa, é uma necessidade de me iluminar. Gosto de escrever em computador com internet, pois quando tenho alguma dúvida, mesmo em relação a um vocábulo, faço a pesquisa imediatamente.

 -O que te obriga a escrever? O que te incomoda ou surpreende a ponto de não resistir à feitura de um texto?

Às vezes o que me obriga a escrever é a sensação de culpa por estar há muito tempo sem escrever, outras vezes escrevo porque preciso logo traduzir uma sensação em palavras para de algum modo represá-la, pois tenho medo de perdê-la para sempre. Em geral escrevo porque tenho prazer no ato.

 -De onde tirou a ideia do romance ‘Nihonjin’ e quanto tempo demorou para escrevê-lo?

“Nihonjin” nasceu de uma decepção. Quando iniciei a minha pesquisa sobre personagens nipo-brasileiros na ficção para a minha tese de doutorado, já sabia que não encontraria muito material, mas não imaginava que esses personagens fossem tão escassos. Então, antes de terminar a minha tese, já comecei a esboçar o romance, aproveitando as pesquisas que havia feito sobre a imigração dos japoneses no Brasil e o seu processo de aculturação. Passei por períodos de intensa produção e outros de absoluto recesso, levando cerca de quatro anos para terminar o romance.

– Para compor o personagem Hideo Inabata, inspirou-se em algum amigo ou familiar?

Hideo é, antes de tudo, um personagem de ficção, fruto de pesquisa em livros de História, Sociologia e Antropologia, mas vejo nele traços de alguns tios.

– Como é sua relação com o Japão? Seus pais nasceram lá, já foi para lá, aprecia a cultura?

Sou sansei, ou seja, sou neto de japoneses. A minha relação com o Japão ou com a cultura japonesa foi conflituosa na adolescência, quando passei por uma fase de negação das minhas origens. Nesse período procurava fazer amizade com quem não tinha ascendência japonesa e me interessava pela cultura ocidental. Depois me dei conta de quão ignorante eu era em manter tal postura e do quanto eu perdia em me afastar da cultura japonesa, descobri que o grande barato era exatamente ser essa mescla, esse ser híbrido. Então estudei língua japonesa no Instituto de Língua Japonesa da Universidade Estadual de Maringá durante dois anos, depois escolhi a análise de personagens nipo-brasileiros para a minha tese de doutorado. Espero, um dia, como o narrador de “Nihonjin”, ir ao Japão e sentir essa “ida” como um “retorno”.

-Você foi o vencedor do 1º Prêmio Benvirá de Literatura, tendo um livro considerado melhor do que outros escritos por 1.932 concorrentes de todo o Brasil com obras inéditas. Espera vencer? Como ficou sabendo do prêmio? Antes disso, ‘Nihonjin’ foi rejeitado por editoras?

Sempre acreditei em “Nihonjin”, por isso o enviei somente para grandes editoras, pois sei que as pequenas têm dificuldades em dar visibilidade às obras que publicam. O romance foi rejeitado por todas, e também não ganhou o Prêmio Sesc de Literatura, do qual participei. Por isso, enviei os originais para o Prêmio Benvirá evitando criar grandes expectativas, mas ninguém participa de um concurso pensando que não tem nenhuma chance de ganhar. Um dia, ao chegar a Maringá após uma viagem a Goioerê, abri minha caixa postal e li duas mensagens, um do Thales Guaracy e outro do Luís Colombini, editores da Saraiva, ambos dizendo que tentaram entrar em contato comigo por telefone e que gostariam de falar sobre o Prêmio Benvirá. Meu coração começou a bater mais forte, disse à minha esposa que algo de bom estava acontecendo, que “Nihonjin” talvez tivesse sido premiado. Como era tarde, entrei em contato com eles por telefone no dia seguinte, e então anunciaram o prêmio. Abracei a minha esposa, senti uma paz muito grande, mas não pulei, não gritei. Fiquei feliz, simplesmente.

-Dentre seus concorrentes está ‘Herança de Maria’, de Domingos Pellegrini, que também foi vencido no Benvirá. Sabendo disso, acha que suas chances são maiores para vencer o Jabuti de melhor Romance?

De forma nenhuma. Após o anúncio do prêmio Benvirá, o Pellegrini entrou em contato comigo e humildemente me parabenizou. Mas veja, “Herança de Maria” também está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, do qual também participei, sem resultado positivo. Isso somente confirma que há um grau de subjetividade muito grande nos prêmios de literatura.

-Quais suas apostas, além da torcida para o próprio livro, tanto no romance como no conto e no infantil?

Há muitos autores que não conheço, mas os favoritos sempre são os nomes já consagrados. Espero que haja surpresas. Se fosse o “Oscar”, eu apostaria no meu concorrente Wilson Bueno, outro paranaense, pois seria uma forma de realizar uma homenagem póstuma, já que ele faleceu em 2010. Entre os contistas/cronistas, estou torcendo pelo Luís Henrique Pellanda, cujas crônicas acompanho no site “Vida Breve” (vale a pena conferir), mas o quase invisível Dalton Trevisan e a simpática senhora Lygia Fagundes Telles são grandes candidatos. Gosto do Fabrício Carpinejar (outro que escreve em “Vida Breve”), que concorre na categoria de Literatura Infantil, mas o Ziraldo também é candidato… De qualquer forma, cito esses nomes pelo conjunto da obra, pois ainda não li os livros que participam do prêmio.

-Ouvi uma história dizendo que você talvez pararia de escrever. Por que?

É uma estória, como diria o Guimarães Rosa. A Lygia Fagundes Telles, que está com 89 anos, diz que escreve todos os dias, e o Ignácio de Loyola Brandão, com 76, afirma que o ato de escrever o mantém vivo. Eu escrevo pouco, mas quero escrever até os cem anos.

 -Só escreve romance ou gosta de contos, crônicas?

Sempre escrevi contos, pois sou conciso. Imaginava que jamais escreveria um romance. “Nihonjin”, ainda que seja breve, foi uma grande conquista. Tomei gosto, preparo um novo.

 -Como é sua rotina dando aulas, o que sente, quais são os grandes desafios de se ensinar literatura?

Ensinar leitura e literatura em tempos de ditadura da imagem é um grande desafio. Recentemente li no jornal Rascunho a Márcia Tiburi dizendo: “As pessoas que lêem são mais interessantes, mais inteligentes, mais bonitas, mais bacanas, mais poderosas — são tudo. Quem não lê é um otário.” Achei espetacular o exagero! Mas logo me lembrei de várias pessoas que não leem e não são otárias. Ocorre que sempre julgamos sob um ponto de vista muito particular. De qualquer forma, tenho plena convicção de que a leitura, principalmente a boa ficção, torna as pessoas mais inteligentes, mais sensíveis e mais educadas. A leitura nos afasta da barbárie. E ter o texto, o romance, a poesia, como objetos de trabalho é um grande privilégio. Ser professor é um barato, um verdadeiro exercício de cidadania, pois, tendo concluído a Licenciatura em Letras e estudado tanto Literatura, é um dever partilhar o que penso que sei com os outros.

-Qual sua opinião a respeito dos prêmios literários?

Nunca houve no Brasil tantos prêmios, bienais, feiras e semanas dedicados à literatura. E os balanços das editoras demonstram que nunca o país vendeu tantos livros como agora. Faltam os leitores. É paradoxal, mas milhares de pessoas vão a esses eventos, milhões de livros são vendidos, e ainda há poucos leitores. Os prêmios literários, como essas outras atividades, promovem a visibilidade do produto livro, mas ainda se esforçam para promover a leitura. Não vejo, porém, que o caminho esteja errado. Aqui cabe o ditado: água mole em pedra dura bate tanto até que fura.

-Quais suas referências literárias? O que gosta de ler? Da sua leitura, o que te influencia na hora de escrever? Qual seu livro de cabeceira?

O meu livro de cabeceira é aquele que estou lendo, e ele está, agora, literalmente, sobre a mesinha de cabeceira, mas me acompanha aonde eu vou. É “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, uma leitura tardia de um romance que foi publicado em 1997. Não o escolhi, a Universidade Estadual de Maringá o elegeu como uma das obras do Vestibular, e me vi obrigado a lê-lo. É uma daquelas obrigações que se tornam prazer. Daqui a uma ou duas semanas, outro livro estará sobre a minha mesa de cabeceira, talvez um desses indicados para o Prêmio Jabuti. Leio muito, mas não somente ficção. Gosto muito de ler revistas e jornais, levo-os ao banheiro e me demoro mais que o necessário. A vida é mais que fazer necessidades. Gosto dos clássicos, de Machado de Assis a Guimarães Rosa, e de alguns mais novos, como o Luiz Rufatto, cujo romance (que não é romance) “Eles eram muitos cavalos” me deixou perplexo. É assim, as influências vêm de diversas páginas.

-Quem, ultimamente, no Brasil e no mundo, estão fazendo literatura de respeito?

Não tenho autoridade nem condições para fazer essa indicação. Seria uma leviandade, pois não tenho lido suficientemente os escritores da atualidade, principalmente os estrangeiros.

-Morar no interior do PR atrapalha no sucesso de um escritor, mesmo ele tendo feito um livro premiado como o seu?

Atores e cantores que querem fazer sucesso geralmente vão a São Paulo ou ao Rio de Janeiro para ficar sob os holofotes, mas os escritores não precisam se projetar dessa forma, embora o comentarista de literatura Afonso Borges tenha observado recentemente em seu boletim Mondolivro, na rádio CBN, que os escritores, ultimamente, não podem ficar reclusos, pois precisam participar de mesas redondas e seminários nos diversos eventos literários que ocorrem no país. Rubem Fonseca e Dalton Trevisan precisam ser avisados dessa nova “revolução na vida dos escritores brasileiros”, como qualifica Borges. Manuel de Barros, festejado pela crítica, pela academia e por leitores fieis, segue vivendo muito bem no Mato Grosso do Sul. Hoje há escritores que vivem, sim, sob holofotes, mas não creio que essa condição seja essencial. No meu caso, eu pude participar do Prêmio Benvirá e realizar toda a negociação da edição do livro, incluindo a revisão que antecedeu a publicação, sem sair de Apucarana. Fui a São Paulo somente para receber o prêmio. Se eu morasse lá, daria mais entrevistas, participaria de mais eventos e, assim, “Nihonjin” teria maior visibilidade, mas creio que eu e meu romance podemos viver bem em Apucarana ou Maringá.

-Já viajou para onde divulgando ‘Nihonjin’?

Lancei o romance somente em São Paulo, na ocasião da premiação, em Maringá e em Apucarana.

-O que sua família acha da sua ascensão como escritor?

Logo após receber o meu prêmio, um tio de São Paulo veio a Maringá e trouxe um recorte de jornal com uma entrevista e uma fotografia. Esse fato revela a relação que se estabeleceu entre a minha família e a repercussão do prêmio e da publicação de “Nihonjin”. Todos sentem esse orgulho ingênuo de ver o nome de um familiar impresso nas páginas dos jornais, e isso me emociona. A minha esposa, que acompanhou mais de perto a minha trajetória e sempre me incentivou, agora compartilha as alegrias que “Nihonjin” me trouxe.

 -O que espera para o futuro? O que ter feito uma boa história representou para sua vida? Acha que vai conseguir superar Nihonjin ou está com a síndrome de Raduan Nassar, que disse ter parado de escrever por achar não ter capacidade de escrever nada melhor do que Lavoura Arcaica?

Espero não ter o destino de Raduan Nassar, que, realmente, não escreveu nada de interessante após o belíssimo “Lavoura arcaica”. Há pouco tempo o Paulo Lins justificou os quinze anos que separam “Cidade de Deus” e “Desde que o samba é samba”, lançado este ano, dizendo que o seu primeiro romance lhe custou tanto tempo e causou tanta tensão e desequilíbrio emocional que ele precisava descansar. “Nihonjin” não me cansou e não me desequilibrou emocionalmente, pelo contrário, me estimulou a escrever mais. Espero não entrar na paranoia de ter a responsabilidade de escrever algo melhor que “Nihonjin”.

-Fique à vontade para comentar o que quiser.

Já “falei” demais. Obrigado.

Trecho do romance “Nihonjin”

“_ Haruo, não seja impertinente! O espírito não conhece distâncias! E o nosso espírito é japonês!

Era isso que ensinava naquela noite aos vinte e poucos alunos amontoados num velho galpão de madeira. Meninos e meninas reunidos ao redor de mesas improvisadas com tábuas e cavaletes, sentados em longos bancos, com os cadernos repletos de hiraganas, katakanas e ideogramas. Hideo propusera-se a ser professor voluntário porque aquelas crianças, impedidas pelo governo de ir ao nihongakkō, não poderiam crescer como se fossem gaijins.

Os policiais chegaram sorrateiramente e, antes de invadirem o galpão, espiaram pelas frestas e viram as crianças sentadas, em silêncio absoluto, atentas ao que dizia sensei.

_ Esses japoneses fazem lavagem cerebral”, comentou um deles. “Crianças não se comportam dessa maneira.

Quando os homens entraram, Hideo não ofereceu resistência. Disse somente para que deixassem as crianças em paz e quis saber quem havia feito a denúncia. Os policiais, obviamente, não responderam. Recolheram todos os cadernos e dois livros do professor. Um menino tentou resistir, segurou firme o seu caderno, na outra ponta o policial, e os dois mediram forças, e cada um tinha a sua, a do braço e a da alma, e esta alimentava aquele, por isso a criança era quase homem, olhava o adversário como um igual, e o homem, que tinha a malícia que o menino ainda não alcançara, soltou de repente o caderno, e o menino foi ao chão. Hideo, que assistia à luta e via, orgulhoso, a força do menino, aproximou-se, então, disse-lhe em voz baixa que era verdadeiramente um súdito do imperador, ajudou-o a se levantar, pegou o caderno e o entregou ao policial, pois não adiantava resistir. Os alunos se encolheram num canto do galpão, algumas meninas choravam, todos emudecidos pelo medo.”

Fonte:
Entrevista por Wilame Prado, 19 out 2012, para o Jornal O Diário, de Maringá. Disponível em http://blogs.odiario.com/wilameprado/2012/10/19/entrevista-na-integra-de-oscar-nakasato-vencedor-do-jabuti-com-nihonjin/

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Daniel Munduruku (A Literatura Indígena) (Entrevista para o Blog do Inst. Ecofuturo)

“O brasileiro precisa conhecer de verdade que o que ensinam para ele – sobre nossos povos e outros temas – é mentira”, afirma Daniel Munduruku em entrevista exclusiva ao Instituto Ecofuturo. Autor de mais de 40 livros e um dos mais respeitados autores indígenas do país, Munduruku fala da vitalidade dos saberes ancestrais e de como os brasileiros, que são também indígenas na sua essência, ignoram tradições fundadoras da nossa própria identidade. À frente do Instituto Uka – Casa dos Saberes Ancestrais, o escritor acredita na força da literatura como “grito consciente e consistente” de povos cujas vozes foram, durante séculos, silenciadas e luta para que se cumpra a lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira e História e Cultura Indígena nas escolas.

Como você descobriu a literatura, como leitor e escritor?

Nunca fui um exímio leitor. Descobri a leitura – e não a literatura – quando já era adolescente. Na escola religiosa em que eu estudava, tinha uma excelente biblioteca e isso me seduzia bastante. No entanto, os livros eram em sua maioria religiosos. Me peguei, assim, lendo biografias de santos; livros que tratavam de questões espirituais. Enfim, eram leituras que tinham a ver com minha formação dessa época de estudos. Um pouco depois passei a escrever alguns textos ligados à catequese e aos momentos de festejos religiosos. Lembro que o primeiro texto que escrevi e tive coragem de mostrar para meu professor de português foi sobre a páscoa. Ele achou tão bom que pediu que eu reproduzisse no mimeógrafo a tinta e distribuísse na paróquia no dia da páscoa. Para mim isso foi a glória. Eu tinha uns 16 anos. Depois disso, não lembro de nenhum outro texto que tenha escrito e se tornado público. Recordo-me, porém, que me tornei um leitor voraz de textos literários que me caíam nas mãos.

Como foi a sua experiência, ao se deparar com narrativas e representações tão diferentes das do imaginário indígena, que são aquelas veiculadas pelo cânone literário? Houve conflitos de alguma espécie?

Eu sempre fui muito curioso, desde criança. Nada me surpreendia no mundo imaginário de minha infância. Isso foi fundamental para que não tivesse problemas com as leituras posteriores. Eu entendia que a literatura era um devaneio de gente morta. Autor para mim era um ser distante, habitante de outro mundo. Algumas vezes achava que eles não eram humanos. O que me deixava furioso era como eles conseguiam “amarrar” tantos personagens numa história comovente e verdadeira. As histórias indígenas são muito bem elaboradas também, mas normalmente têm poucos personagens e não têm dramas tão elaborados. Lembro que chegava a perguntar para meus pais e avós sobre isso e eles diziam: “O homem branco não sabe ser simples”. Não entendia nada do que eles falavam naquela hora. Só entendi bem depois – o que me deixou bastante contente, pois era um pensamento muito coerente com a compreensão que tinham da vida.

A apropriação da escrita e da literatura, com todo o seu potencial transformador, pode aproximar diferentes etnias e funcionar como mediadora nos entrechoques de diferentes culturas? Como?

Tenho trabalho na perspectiva de que a literatura é um caminho de aproximação entre os diferentes povos indígenas. Mesmo sabendo que há uma grande diversidade de saberes e culturas, sinto que a literatura pode funcionar como elemento aglutinador, além de ser um instrumento para “soltar a voz” que tem ficado entalada na garganta de nossa gente ancestral. Nosso desafio é ajudar nossa gente a aprender a usar a escrita como porta-voz. Na medida em que isso for acontecendo, o que era apenas um murmúrio irá tornar-se um grito consciente e consistente.

De que forma os povos indígenas se apropriam da cultura escrita e como a utilizam em seu favor?

A escrita é uma técnica. A gente aprende a escrever. O que a gente tem é que fazer uma ligação entre o pensamento que domina a cultura e a escrita que congela este pensamento. Mas isso também é uma questão de tempo, de treino. Gosto de pensar que a gente indígena já tem a parte mais difícil introjetada no seu próprio ethos: o conteúdo a ser escrito. Temos trabalhado no sentido de ajudar nossos parentes indígenas a colocarem seus pensamentos no papel e dar a ele uma forma literária, acadêmica ou apenas como exercício de reflexão. Quando isso chega inteligível à sociedade brasileira, acreditamos que é nossa forma de contribuir para diminuir a exclusão social a que ainda estamos submetidos.

O que é literatura indígena e quais as abordagens narrativas que geralmente a caracterizam, se é que se trata disso?

Nós remamos contra a maré. Entendemos literatura indígena como o conjunto de manifestações culturais que são reproduzidas por nossa gente em seus rituais, desenhos, cantos, danças, rezas, etc. Fugimos um pouco da ideia de literatura como escrita. Queremos mostrar que este nosso jeito de comunicar é literário. Se pensarmos que no mundo literário é preciso que haja iniciados nele para compreendê-lo, podemos imaginar que nossa forma de fazer literatura é um código que a sociedade não indígena precisa aprender para poder nos compreender. Nosso esforço em compreender a sociedade brasileira passa pelo domínio das novas tecnologias (a escrita entre elas). É justo que a sociedade letrada pense no movimento de nossos corpos como literatura. Claro que estamos tentando aprender direito e adentrando no universo da literatura ocidental seguindo os cânones estilosos que nos propõem, mas queremos criar um jeito todo próprio de nos comunicar a partir desses instrumentos não indígenas.

Tributários que somos como brasileiros, de uma forte tradição indígena, que é parte constitutiva de nós mesmos, quais os estereótipos que ainda persistem na nossa “representação do índio” e como podemos superá-los, reconhecendo essa tradição como nossa ancestralidade?
A ancestralidade não é para ser pensada como algo atrasado e parado no tempo. Este é um dos estereótipos que estão presentes na mente brasileira. O mesmo se pode dizer da tradição. Este conceito está ligado a sociedades paradas no tempo. Não tem falácia mais imprópria. Isso tem que ser combatido com novos conceitos e vivências. É preciso que as pessoas entendam que não há nada de errado em respeitar o passado. O errado é negá-lo. Acontece que muita gente “olha para trás” para ver o passado. Os povos indígenas não fazem isso. O passado se une ao agora, ao presente. Não há nenhuma possibilidade de um indígena chorar o passado, pois ele sabe que este tempo é memorial. Ele não é real. Portanto, o brasileiro é um indígena essencialmente. O indígena é brasileiro apenas por acidente geopolítico. Por isso não entendo um país que não valoriza seus antepassados sem precisar chorar por eles, uma vez que eles estão no seu sangue. Por que isso acontece? Porque nunca ninguém disso isso ao brasileiro. A ele foi ensinado que índio é bicho, atrasado, incompetente no uso da terra, preguiçoso, desumano. Isso é ainda hoje ensinado – se não pelas escolas, em casa – ao inconsciente nacional. A mídia tem muita responsabilidade sobre isso, até mais que a escola. Aliás, a escola é sempre a última a receber notícias atualizadas sobre os povos indígenas; há muitas dezenas de anos que ensina a mesma coisa porque acredita que o que está estabelecido é a verdade absoluta. O brasileiro precisa conhecer de verdade que o que ensinam para ele – sobre nossos povos e outros temas – é mentira.

Em entrevista recente, você afirmou: “Um adulto, se quiser ler meus livros, terá que fazer um exercício para ouvir suas vozes ancestrais. Isso as crianças fazem sem esforço”. Por quê?
As crianças têm um canal aberto com sua ancestralidade. Elas são emotivas e conseguem chegar onde os adultos não chegam. Os adultos costumam ser bloqueados pelas vozes da escola, da economia ou da política. Isso os impede de “acordar” as memórias ancestrais que trazem em si. O adulto precisa se curvar a esta verdade, caso queira compreender a escrita indígena.

Se oferecermos, desde a primeira infância, a música dessa voz ancestral, teremos chance de formar adultos melhores, capazes de ouvir, respeitar e dialogar com essa voz?

Penso que crianças completas serão adultos completos. Ponto. Simples assim. A criança vem sem defeito de fábrica. Portanto, vem trazendo consigo todo o equipamento para viver bem. Acontece que ela cai num mundo que acha o contrário, pensa que ela vem sem nada e que precisa ser formada – colocada na forma – para ser “alguém” na vida. A solução do dilema é educar a criança para ser criança e nada mais. Qualquer outra tentativa de fazê-la ser o que ela não pode ser vai transformá-la em adulto frustrado.

Uma das frentes trabalhadas pelo Instituto Uka – Casa dos Saberes Ancestrais é a Caravana Mekukradjá, que visa difundir a literatura indígena. Entre as atividades oferecidas, há cursos e palestras para professores sobre como trabalhar a questão indígena em sala de aula. Em linhas gerais, quais as orientações repassadas aos docentes?

Procuramos mostrar aos educadores exatamente o que dissemos atrás: tá tudo errado na compreensão de nossos povos indígenas. A gente tem que desconstruir o paradigma que eles trazem dentro de si, fruto da educação familiar e escolar. Fruto da universidade que não o ajudou a colocar algo novo em sua mente. Dizemos aos educadores que é preciso tratar a criança como criança e não como um investimento futuro. Dizemos que é preciso que o educador saiba que tipo de ser humano ele acredita estar formando. Aí questionamos as suas crenças, seus dogmas. Às vezes temos êxito, outras não. Isso faz parte do processo.

O Concurso FNLIJ Curumim chega este ano à sua 10ª edição. O que há para comemorar e quais os desafios ainda encontrados?

Comemoramos muitas conquistas. Uma delas é termos chegado à 10ª edição com muitos bons resultados. Este concurso, assim como outras iniciativas que mantemos, tem valorizado o professor que trabalha a temática indígena em sala de aula utilizando a literatura como instrumento. Faz com que o educador procure conhecer a produção literária dos indígenas brasileiros; ele influencia seus alunos; ajuda-nos a “corromper” a cabeça das crianças e jovens para aquilo que consideramos um ganho futuro: teremos adultos mais conscientes de seu papel numa sociedade multicultural como a nossa. Ainda assim, temos desafios. Temos que fazer as escolas e os educadores conhecerem a lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira e História e Cultura Indígena nas escolas; temos que formar educadores para trabalharem a temática indígena de forma adequada; temos que organizar muitas caravanas para mostrar nossa produção literária. Daí a importância do Instituto Ecofuturo e do Instituto C&A, que são nossos parceiros nesta empreitada, porque, como nós, acreditam na possibilidade de formamos seres humanos mais compatíveis com a realidade multifacetada que hoje temos.

Além da literatura, quais outros instrumentos e expressões estéticas podem contribuir para a abordagem aprofundada da questão indígena?

Dizia mais acima que todas as manifestações da cultura indígena se prestam para a compreensão de nossa diversidade. Neste sentido é importante pensar estas manifestações como parte da cultura e não separada dela. A cultura é um conjunto. É bobagem tentar extrair dela elementos distintos. Uma cultura tem que ser compreendida em sua totalidade e não apenas através de suas manifestações. Quem faz isso é o ocidental, que aprende a dividir os conhecimentos em quadrados guardados a sete chaves. A nova escola tem que pensar no conjunto. O novo ser humano tem que ter isso claro. Caso contrário, ele não será novo.
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Escritor indígena com 43 livros publicados, Daniel Munduruku é graduado em Filosofia, com licenciatura em História e Psicologia. Doutor em Educação pela USP, é Diretor Presidente do Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais. Pelo seu trabalho, recebeu diversos prêmios, no Brasil e no exterior, como o Prêmio Jabuti, Prêmio da Academia Brasileira de Letras, Prêmio Érico Vanucci Mendes (CNPq) e Prêmio Tolerância (UNESCO). Muitos de seus livros receberam o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ.

Fonte:
http://danielmunduruku.blogspot.com/

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André Carneiro (O Peregrino das Dimensões Simbólicas em Xeque)


O escritor Luiz Bras entrevista o romancista e poeta André Carneiro, um dos precursores da da literatura de ficção científica no Brasil e que, há mais de uma década, está radicado em Curitiba 
 Os recém-nascidos são na verdade viajantes interdimensionais. É o que afirmam certas doutrinas místicas. Se verdadeiras ou falsas, não importa. Na obra multidimensional de André Carneiro elas fazem bastante sentido. André desembarcou neste planeta há noventa anos. Mais precisamente em 9 de maio de 1922. Veio em missão de paz. Desembarcou em Atibaia, no interior paulista, morou muitos anos em São Paulo e vive em Curitiba desde 1999.
 Como ocorre com todos os artistas e escritores deste mundo, o que mais fascinou o jovem visitante de outra dimensão, logo que aqui chegou, foi o drama humano. Para melhor entender esse drama, André rapidamente começou a escrever, fotografar, pintar e filmar, virando do avesso todas as pessoas que encontrava pela frente. A matéria-prima de sua arte e de sua literatura é o ser humano em estado sólido, líquido, gasoso e simbólico.
 “André Carneiro, antes de tudo, é um poeta”, escreveu o jornalista Dorva Rezende no prefácio da coletânea Confissões do inexplicável, de 2007. A substância poética, sempre radioativa, contamina todo o trabalho criativo de André, em prosa, verso ou imagem. Ângulo e face (1949), seu livro de estreia, é uma reunião de poemas sinuosos e comoventes, numa palavra: transfiguradores. Em seguida vieram Diário da nave perdida (1963), de contos, e Espaçopleno (1963), novamente de poemas, elogiado por Sérgio Milliet e Wilson Martins, entre outros.
 Os últimos cem anos foram tão fabulosos, que às vezes é difícil acreditar que realmente existiram. No começo do século XX não havia o plástico, a televisão, o avião, o antibiótico… No final do século, duas dúzias de pessoas já haviam visitado a lua. Por um lado, a arte e a literatura de André Carneiro examinam o presente e o futuro, mas, por outro, são uma tentativa de provar que os últimos cem anos não foram um sonho louco. Eles realmente existiram. Se não existiram, precisam ser inventados, e André já inventou uma boa parte.
 Nem mesmo a acentuada dificuldade de visão impede André de ler e escrever cada vez melhor, provando que a visão interior, mental, é muito mais potente do que a meramente orgânica.
Ao longo de sua vida criativa, você se expressou por meio da poesia, da prosa, da fotografia, da pintura, da colagem e do cinema. Sabendo que as artes visuais e a literatura estimulam nossa sensibilidade de modos diferentes, você procurou criar conexões entre elas? Ou preferiu trabalhar com as particularidades de cada meio de expressão?
 A sensibilidade e a visão crítica do entrevistador podem mostrar um retrato representativo do entrevistado. Quando criei as obras de arte e de literatura aqui citadas, sempre vivi a emoção por elas provocada. No momento da criação, não havia relação com quaisquer de minhas outras realizações. Entretanto, escrevendo tantos roteiros de cinema, senti a parecença de processos entre a descrição das imagens de cinema e as dos contos. Um bom crítico ajuda o autor a desvendar os processos da sua criação. Admito que sua proposição é correta, todas as minhas atividades têm um inegável parentesco intrínseco entre elas.
Sabemos que o vínculo afetivo entre o criador e sua obra é algo capaz de resistir a qualquer tentativa de autoanálise fria e objetiva. Mas, se você fosse convidado a fazer um balanço, o mais imparcial possível, de sua longa produção criativa, quais obras você salvaria e quais descartaria?
 Terrível pergunta que nunca me fizeram. Cheguei a sentir-me com duas asas e dois olhos de coruja, pensando: todos os meus filhos são tão bonitos… De toda a minha obra publicada, não sou capaz de separar uma que eu rejeite. Mesmo os contos antigos, publicados no meu jornal literário Tentativa, leio hoje com surpresa e nenhuma resistência crítica. Confio essa tarefa aos críticos.
 Você sobreviveu a duas ditaduras: a de Getúlio Vargas, na época do jornal Tentativa, e a dos militares que derrubaram o governo de João Goulart. Então, em 1985, a opressão e a censura foram substituídas pela liberdade e pela corrupção: Fernando Collor de Mello, escândalo dos anões do orçamento, escândalo do mensalão, caso Renan Calheiros, escândalo dos Correios etc. A espécie humana ainda tem jeito ou é um caso perdido?
 Todas as vezes que a espécie humana me causou grandes decepções, sempre me consolei com a máquina do tempo: se olharmos a História em uma visão panorâmica, é inevitável descobrirmos que agora, com todas as imperfeições do mundo contemporâneo, podemos encontrar nítidas melhoras. A horrorosa escravidão explícita de um ser humano, imposta por outro, está eliminada oficialmente. As leis trabalhistas em todo o mundo têm sido paulatinamente melhoradas. Eu ainda acredito no ser humano. Acredito até que a ciência chegará ao ponto de uma mutação que nos garanta um DNA mais favorecido.
No final do ano passado, numa votação informal promovida pelo blogue Cobra Norato, seu conto “A escuridão”, de 1963, foi eleito o melhor conto brasileiro de ficção científica. Na opinião dos leitores que conhecem bem a literatura brasileira, “A escuridão” merecia figurar em qualquer antologia do tipo Os cem melhores contos brasileiros do século 20, organizada por Ítalo Moriconi. Em sua opinião, o que está faltando para que nosso establishment perca o notório preconceito contra a ficção científica?
 Agradeço pela sua colocação. Aliás, talvez uma publicação com o mesmo peso, a maior editora do mundo, a G.P. Putnam’s Sons, em 1973 publicou uma antologia dos melhores contos mundiais daquele ano e o único representante brasileiro foi o meu “A escuridão”, traduzido para o inglês por Leo Barrow. É doloroso admitir, mas o establishment brasileiro segue o mesmo rumo das estatísticas da nossa ignorância literária em geral. Talvez por isso Fernando Henrique Cardoso tenha dito que somos um país caipira. Acrescente-se o tolo preconceito contra o gênero ficção científica, que os mal informados julgam pelos filmes B e pelas histórias em quadrinhos americanas, que o banalizam utilizando apenas temas como alienígenas, monstros e super-heróis.
 O desejo e o erotismo são a matriz de suas principais obras literárias. Estou pensando nos romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991), e na maioria dos contos de A máquina de Hyerônimus (1997), por exemplo. Em sua opinião, a chave de nossa transcendência não está na razão cartesiana, mas nos delírios do corpo sensível?
 Todos os delírios do erotismo e do corpo sensível, como você poeticamente afirmou, exigiriam um livro que fosse metade do entrevistador, metade do entrevistado. Nelson Rodrigues captou bem esse clima na sua dramaturgia. A mistura complexa das nossas etnias formadoras seria um ponto de partida. Sempre me impressionou nos Estados Unidos a diferença entre uma alegria ao estilo carioca, dos negros americanos quando reunidos em qualquer situação, contrastando com a sisudez dos brancos americanos, embora menos aguda que a dos britânicos.
Nelson Rodrigues é um dos teus dramaturgos prediletos? Qual a sua relação com o teatro? Você nunca se interessou em escrever também para o palco?
 Gosto muito de Nelson Rodrigues como retratista da realidade brasileira. Porém, prefiro peças mais arrojadas, como as de Arrabal, Sartre e Brecht. Escrevi uma vez uma peça que infelizmente não foi encenada. Chamava-se Azarada. A companhia que ia levá-la ao palco se dissolveu antes da estreia. E foi só essa experiência.
Muitos de seus personagens são publicitários ou ex-publicitários irritados com a profissão. Igual a outros escritores importantes, como Jamil Snege e Sebastião Nunes, você também trabalhou em agência de publicidade. Uns dizem que a publicidade também pode ser arte, outros dizem que isso é uma grande besteira…
 Acho impossível um bom publicitário que ignore a arte. É elogiável quando um comercial tem qualidades artísticas. Uma boa publicidade pode ser artística. É pena que nem sempre o produto tem as mesmas qualidades do anúncio. É pena também quando um bom artista gasta sua criatividade só na publicidade.
Outro de seus contos muito apreciado no Brasil e no exterior é “O homem que hipnotizava”, também de 1963, sobre um sujeito que aperfeiçoa a própria realidade por meio da auto-hipnose. Sobre esse assunto, a hipnose, você publicou dois livros teóricos. Em que circunstância aconteceu seu encontro com essa técnica de indução psicológica?
 O primeiro livro, O mundo misterioso do hipnotismo, foi publicado em 1963; o segundo, Manual de hipnose, em 1978. Descobertas e novidades cientificas sempre me fascinaram. A hipnose era algo revolucionário, mas pouco estudado no mundo e muito menos no Brasil. Comprei livros estrangeiros e cuidadosamente tentei com amigos algumas experiências de indução hipnótica. O sucesso que consegui rapidamente me impressionou e me motivou a seguir mais adiante. Naquele tempo eu estava mergulhado no estudo da psicologia e da psicanálise, e foi inevitável que eu utilizasse técnicas hipnóticas em alguns pacientes. À medida que minhas experiências avançavam em profundidade, eu me espantava que o assunto fosse ainda ignorado pela medicina brasileira. Escrevi os dois livros e posso dizer, através de uma só citação, que foram um grande sucesso. Carol Sonenreich, o grande cientista radicado no Brasil, classificou meus livros como os melhores até então publicados sobre o assunto. Acredito que pelo fato de eu ser escritor, minhas explicações técnicas são melhor absorvidas pelos leitores em meus contos. Tenho em meus arquivos um caso de processo criminal em que um indivíduo casado foi indiciado por ter usado a hipnose numa divisão de herança. Observei que, na literatura universal, a hipnose era explorada de maneira amadora, sem conhecimento científico. Me inspirou o fato de que a hipnose já estava sendo usada criminalmente na realidade, e usei então essa sugestão em textos ficcionais.
Amigos brincam que você é uma espécie de Leonardo da Vinci brasileiro. Além da produção artística e literária, seu apartamento está cheio de invenções, objetos e esculturas feitos de sucata…
 A pintura modernista foi para mim uma grande fascinação. De Chirico, Picasso, Pollock, não importa se abstratos ou concretos, todos que revolucionaram a visão do espectador, mostrando um mundo inventado pelo artista, me influenciaram. O uso do objeto tridimensional me permitia então experiências dentro da minha relatividade monetária. Comecei a explorar ferros-velhos por toda São Paulo, e quando visitei Manhattan foi como se descobrisse Shangri-la, nunca vi lixos tão ricos em toda espécie de objetos interessantes. Como herdei de meu pai uma loja de ferragens, sou até hoje um perito cortador de vidros usando diamante. Criei o que chamei de quadros dinâmicos, com diversos compartimentos de vidros com líquidos de cores variadas, além de mercúrio e outros materiais. Manuseado pelo espectador, podem-se formar milhares de combinações plásticas. Pesquisei também na escultura com materiais que, solidificados, pareciam cristais. E, em Murano, até no chão resgatei pedaços de cristais de cores variadas que fazem parte de esculturas minhas. Como sou muito jovem, ainda tenho intenção de dar vida a diversas criações.
E o que nos diz sobre as oficinas de criação literária? Você coordenou várias, numa época em que não havia muitas. Agora há centenas. Que benefícios uma atividade como essa costuma trazer aos participantes?
 Tenho a impressão que a minha oficina, iniciada com algumas outras na casa que foi do Mário de Andrade, foi uma das primeiras em São Paulo. Durante anos essas oficinas funcionaram com grande sucesso e eu fico espantado como uma realização tão pródiga na ampliação da nossa cultura não tenha sido ampliada ainda mais. Em Curitiba, coordeno uma oficina há muitos anos, eficientemente secretariada pelo escritor Mustafá Ali Kanso. A palavra oficina é extraordinariamente adequada a esta forma de cultura direta e prática. Contos ou poemas elaborados pelos oficinandos (não chamo de alunos, pois muitos já têm livros publicados) são analisados de um ponto de vista construtivo, com um toque final dado por mim. A crítica coletiva possibilita uma visão magnífica sobre o trabalho e infunde um conhecimento prático da técnica literária com mais eficiência do que qualquer outro método. Espero que continuem ampliando essa prática para que novos e excelentes autores surjam dessa iniciativa.
Antônio Abujamra, do programa Provocações (TV Cultura), termina seu programa de um jeito que eu gosto: ele olha para o entrevistado e diz: “Qual pergunta importante, na sua opinião, ficou faltando eu fazer?” No seu caso, André, qual pergunta ficou faltando eu fazer? Algo que você sempre julgou importante, mas nenhum entrevistador pensou em perguntar.
 Nenhuma. Você é um ótimo psicanalista, suas perguntas são aquelas que induzem à confissão das nossas verdades. Você foi gentil não pedindo detalhes do golpe militar. Eu não posso falar mesmo dele, perco a calma porque o assunto é sempre triste. Ainda bem que entre altos e baixos a nossa democracia tem melhorado visivelmente.
Fonte:
Revista Cândido n. 16 – nov 2012 – Curitiba

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Antônio Martins (Memória Viva de São Luís em Xeque)

 Antônio Martins de Araújo nasceu em São Luís do Maranhão, numa meia-morada situada na rua dos Afogados, esquina com a rua do Ribeirão, tendo em frente a Fonte do Ribeirão, no dia 1º de agosto de 1932. O escritor é Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, tendo se aposentado como professor de Língua Portuguesa por essa instituição. É considerado o maior expert, no Brasil, no que se refere à obra de Arthur Azevedo. Ocupa atualmente a presidência da Academia Brasileira de Filologia – ABF e é membro da Academia Maranhense de Letras – AML, trabalhando ainda como professor do Instituto de Língua Portuguesa do Liceu Literário Português. Entre suas principais obras é possível mencionar: Arthur Azevedo – a palavra e o riso, Noel Rosa – língua e estilo (em parceria com Castelar de Carvalho), A herança de João de Barros e outros estudos, Chão do Tempo, e O peito do Pelicano – ensaios maranhenses. Numa bela manhã do início de setembro deste ano, Antônio Martins de Araújo concedeu ao Guesa Errante a entrevista que publicamos abaixo. O intelectual maranhense mora no Rio de Janeiro.

Paulo Melo Sousa – Caro mestre Antônio Martins, quais as recordações mais antigas da sua infância, vividas em São Luís? 

Antônio Martins de Araújo – Eu me lembro bem da casa na qual nasci, local em que meu pai manteve um comércio durante a segunda guerra mundial. Em 1938 ele abriu falência, eu tinha seis anos de idade, foi quando ele perdeu a Mercearia Gaúcha. Ele vendia a crédito para os garis da prefeitura de São Luís e, na época, sofreu um calote de 30 contos de réis. As compras dos garis eram descontadas dos salários deles, por intermédio de meu padrinho, um maçon chamado seu Cruz. Aí o governo mudou em 1938, e o substituto de seu Cruz, Agenor Vieira, não honrou os compromissos assumidos com a mercearia. Então, meu pai foi obrigado a vender tudo e fomos embora para Viana, terra natal do meu pai. Lá eu estudei no Colégio Municipal entre os seis e os sete anos de idade. Tenho muitas saudades do lago de Viana, das mocorocas e das enchentes. Dessa época tenho uma recordação magnífica, lembro de histórias que conto no meu livro “Menino do Ribeirão”, que ainda não publiquei, já que existem dois capítulos da obra nos quais relato as minhas primeiras experiências sexuais, e como as meninas ainda estão vivas, uma delas casada, o livro só será publicado trinta anos depois da minha morte (risos).

Em seguida, a sua família retornou a São Luís… 

Sim, e aí eu estudei aqui no Colégio Justo Jansen, que funcionava num sobradão situado na rua da Cruz, esquina com a rua dos Afogados. Ali, tive uma experiência muito boa, pois estudava pela manhã e, na parte da tarde, quatro portas além da minha casa, tinha aula particular com a professora Maria de Lourdes Garrido. A ela devo a minha orientação para fazer o exame de admissão ao Colégio Marista, no qual fui aprovado de imediato, aos 11 anos de idade. Poucos anos depois, aos 15 anos, comecei a dar aulas de Português e História do Brasil na Escola Champagnat, uma espécie de escola supletiva, que funcionava à noite. No entanto, na minha formação, eu digo que a minha primeira universidade foi o Teatro Arthur Azevedo, o mundo recontado através da arte.

Como aconteceu esse seu contato com o teatro? 

Entre os meus 5 anos e os 15 anos de idade, a minha madrinha, Edith Barbosa Pinto, mãe de criação da minha mãe, Edith Raposo Martins Araújo, era quem me levava ao teatro. Ela vendia cafezinho e mingau de milho aos atores e para alguns outros fregueses. Dessa forma, eu assisti de graça aos espetáculos de todas as companhias de teatro que passaram por São Luís de 1937 a 1947. Quando digo que a minha primeira formação superior aconteceu no Arthur Azevedo é porque ali tive o privilégio de assistir às apresentações de nomes magistrais do teatro, tais como a Companhia dos Estudantes de Coimbra, as operetas dos irmãos Vicente Celestino, peças com Pascoal Carlos Magno, Eva Tudor, Iracema de Alencar, Henriette Morineau, Lenita Bruno. Em homenagem a essa atriz, que, entre 1937 e 1947, brilhou intensamente por mais de uma vez no Teatro Arthur Azevedo, e me dedicava, eu menino ainda, um carinho muito especial, sugeri à minha mãe que pusesse o nome de Lenita à minha segunda irmã, o que foi feito. Foi na nossa principal casa de espetáculos que, sob o prisma da arte cênica, o universo à minha volta se revelou a mim.

Esse seu interesse pelo teatro continuou quando você foi morar no Rio de Janeiro… 

É verdade. O ator Delorges Caminha, marido da atriz francesa Henriette Morineau, foi o meu primeiro diretor na Escola de Teatro Martins Pena. Tive também lá como meus diretores, entre outros, o brilhante ator José Wilker e o excelente bailarino Klaus Viana. As aulas de Impostação da Voz eu só ministrei duas ou três vezes, após fazer um curso intensivo, nos anos 60, com a professora cearense Glória Beutmuller, radicada no Rio, há muitos anos. Eu também lecionava sobre História do Espetáculo, mas, não recuava até 5 mil anos antes de Cristo quando, na ilha de Bali, praticamente nasceu o teatro. Ainda hoje os atores representam nessa ilha o espetáculo do embate entre o bem e o mal, e, quem faz o papel do demônio se deixa atravessar por uma espada e não sangra, já que o golpe desferido não atinge os órgãos vitais. Trata-se de uma cultura milenar, diante da qual devemos tirar o chapéu. Lá é que nasceu realmente o teatro. Isso pode não ter tido influência alguma sobre o teatro greco-romano, mas, é uma ilusão. Quando se diz que Monteiro Lobato foi um grande contador de estórias, isso é conversa fiada, já que ele recontou estórias que La Fontaine já contava. E aí quando se diz que La Fontaine era um grande contador de estórias, fábulas, isso também é conversa fiada, já que ele bebeu nas fábulas de Esopo…

 Isso nos lembra a ideia do eterno retorno, de Nietzsche, e ainda de Jorge Luís Borges, na obra “História da Eternidade”; ali, num pequeno ensaio intitulado “A doutrina dos ciclos”, ele escreve que “num tempo infinito, o número de permutações possíveis deve ser alcançado, e o universo deverá se repetir”… Sim. E então poderíamos pensar que a cultura greco-romana é o berço da nossa cultura. Nesse particular específico do fabulário, a história nos ensina que a literatura europeia ocidental, grosso modo, possui origem nas estórias de animais encontradas nos livros sagrados hindus do Mahabharata e do Rig Veda, que são muito anteriores à cultura helênica. Assim também, quando se fala de gíria, muita gente pensa que é criação tupiniquim, quando, na verdade, foi a tribo dos bazigares oriundos, creio, que da Hungria, que a teria criado. Procurei mostrar como chegou até nós esse gosto pela gíria em meu ensaio “Arthur Azevedo: a Palavra e o Riso”, co-editado em 1988 pela prestigiosa Editora Perspectiva e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Então, nós temos que tirar o nosso chapéu para a lei de Lavoisier, que diz que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. O Chacrinha tinha uma paráfrase do Lavoisier: “na vida nada se perde, nada se cria, tudo se copia”…(risos!).

Mestre Martins, fale-nos sobre a sua inserção no movimento cultural maranhense de então..

Muito me agrada a sua pergunta. Nós nos reuníamos no Centro Cultural Gonçalves Dias, cujas sessões eram realizadas no Grêmio Lítero Recreativo Português, ali em frente à praça João Lisboa, aonde assisti a declamações de poesia de Ferreira Gullar, que hoje tem ódio ao seu livro de estréia, “Luta Corporal”. No entanto, acho que esse livro marca a trajetória ascensional do Gullar. Nós nos reuníamos também no Café do Chico, em frente à João Lisboa, situado na esquina da rua de Nazaré, de onde se defrontava a Livraria Moderna. Ali nós líamos os nossos poemas uns para os outros e, quando um dizia que era para se rasgar o texto, que estava uma merda, nós rasgávamos o poema na mesma hora, respeitávamos a opinião dos amigos, todos bem informados. Ali se encontrava o Sarney, o Tobias Pinheiro, o Gullar. Também havia encontros na galeria do Paiva, na Movelaria Guanabara, situada na rua do Sol. Nós, um pouco mais jovens, nos reuníamos na casa de Zé Mário Santos, grande orador, que ficava no Campo de Ourique, perto da praça Deodoro. Eu era liderança da “Agremiação Liberal Acadêmica – ALA” e ele era líder do “Movimento Nacionalista Acadêmico – MNA”, e nessa casa eu me reunia com Manoel Lopes, Clóvis Sena, que faleceu recentemente.

No entanto, os encontros sempre estavam ligados a questões culturais… 

Sempre. Eu me lembro que nós tivemos a oportunidade de receber por lá a visita de Darcy Ribeiro e de um parente do famoso escritor Aldous Huxley, o antropólogo Francis Huxley, de procedência inglesa. Então, ele resolveu declamar um trecho de Shakespeare, que era muito onomatopaico. Na sua declamação, ele fazia ohhhhh, aliado a uns trejeitos meio estranhos e nós nos danamos a rir, foi um surto de riso vexaminoso (risos), que pegou muito mal. O rapaz estava querendo fazer uma homenagem a nós, declamando da melhor forma possível, mas, os trejeitos dele eram muito cômicos (risos). Um dia nós fomos almoçar num restaurante que ficava nos fundos da atual Academia Maranhense de Letras, e eu fiquei admirando o tamanho dos sapatos do Darcy. Então, ele me disse: “já sei, Antônio, você está achando o sapato exagerado, mas, é que eu e o Francis vamos pisar na tribo dos índios Urubus-Kaapor, e tenho que me proteger dos tocos do mato, né? Por isso os sapatões que usamos”. Então, essa geração nos deu muitas alegrias.

Até que idade você morou em São Luís, e qual a razão da sua partida? 

A minha partida daqui se deveu a uma experiência altamente frustrante, ao mesmo tempo em que foi altamente redentora. Eu acabara de fundar, quando tinha uns 27 anos de idade, um colégio chamado Ginásio Operário Getúlio Vargas, no âmbito da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos, no bairro do Lira. Dr. Elói Coelho Neto era o presidente dessa instituição, no Maranhão, da qual eu era Secretário Geral. Nós fundamos vários colégios pelo interior do Maranhão, em Codó, Coroatá e outros municípios. Quando eu estava prestes a me tornar diretor da instituição, o governador Newton Belo me convidou para ser diretor do Liceu Maranhense, eu tinha apenas 28 anos de idade. Nos quatro anos em que permaneci ali, com um grande amigo, meu compadre, padrinho de um filho meu, o saudoso Merval Lebre Santiago, eu tive experiências ‘magníficas’, já que grandes ‘amigos’ que eu ajudei a colocar no Liceu me traíram posteriormente, disputando a diretoria, como é o caso de um pernambucano mau caráter chamado Gildo Cordeiro Rosa, que reprovava os alunos para depois ensinar matemática aos mesmos alunos, de forma particular, para poder aprová-los. Eu vivia recebendo pauladas do Jornal Pequeno, do meu amigo Bogéa, e do Neiva Moreira, que era diretor do Jornal do Povo. Faltava energia e no outro dia surgia a manchete: ‘diretor irresponsável do Liceu suspende as aulas’… Como é que se poderia dar aulas com velas? Era na época do João Goulart, greve atrás de greve, jogavam bombas na porta da escola, então eu mandava os alunos para casa.

Período conturbado… 

Pois é, e aquilo me cansou a beleza, eu já tinha 32 anos. Então, resolvi fazer concurso para professor no Rio de Janeiro. Na ocasião, falei com o grande comandante, grande amigo meu, Renato Archer, que tinha grande trânsito junto à Panair. O Renato me ajudou com a passagem, eu era pobre, e fui fazer concurso na Escola Técnica Federal, na Universidade Gama Filho e na Escola Naval. Então, fui aprovado e me transferi para o Rio de Janeiro. Foi o início da minha redenção, pois eu dava 72 horas de aula no Maranhão, acumulava a direção do Liceu durante a manhã e à noite. Durante a tarde, funcionava a Escola Normal, sob o comando de Oceanira Galvão, descendente do grande poeta maranhense Trajano Galvão. Então, no Rio de Janeiro passei a trabalhar oito horas a menos e a ganhar seis vezes mais. Vivi durante dois anos na rua Maranhão, perto da escola Maranhão, da farmácia e da padaria Maranhão, para não fugir à tradição…(risos). Então, não cortei de uma vez o cordão umbilical com a minha terra, fui me despedindo do Maranhão aos poucos. Depois de dois anos comprei meu apartamento na rua do Copacabana Palace, onde moro até hoje.

Depois de tanto tempo fora do Maranhão, as suas vindas a São Luís são sempre marcantes… 

São Luís é sempre um encantamento. Essa prosápia, essa fidalguia, esse orgulho que o Maranhão tem de praticar o melhor português do Brasil, sem favor nenhum, porque o Maranhão já nasce com essa vocação para respeitar o idioma pátrio, que é uma prova de bom caráter, realmente me impressiona. Havia um sujeito pichando uma das paredes da cidade e quebraram o maior pau em cima dele não por causa da pichação, mas, em razão de ele ter escrito à bessa com dois esses em vez de à beça, desrespeitando a língua portuguesa; só mesmo no Maranhão existem essas coisas.

E seus planos futuros? 

Ano que vem vou fazer pela quarta vez 20 anos de idade…(risos)…não ria não porque a coisa é séria…(risos)…já estou descendo a ladeira…(risos)…mas vou descendo e também subindo, agora mesmo estou dando aulas para um curso de mestrado em Cruzeiro do Sul, perto de Rio Branco, formando uma turma de 50 mestrandos. Em maio ministrei aulas de Linguística Aplicada ao Ensino de Letras Neolatinas, área da minha formação, e tenho textos inéditos à espera de publicação; enfim, continuo escrevendo, produzindo sempre.

Fonte:
Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante. Ano X. Edição 238. 5 de outubro de 2011.

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Dalton Trevisan (O Escritor em Xeque, por Alexandre Gaioto)

Texto: Dois Encontros com Dalton Trevisan, autor de Cemitério dos Elefantes, publicada no Jornal do Brasil (20/02/2010)

Ele repudia o culto à celebridade. Apressa o passo de suas caminhadas matinais quando é perseguido por fotógrafos. Xinga os repórteres que, sedentos, se aproximam em busca de uma entrevista. E jamais, de forma alguma, comparece aos eventos nos quais é homenageado. Hoje aos 84 anos, o escritor Dalton Trevisan escolheu viver nas sombras, no silêncio que somente o anonimato pode propiciar.

O sonho de qualquer jornalista? Uma entrevista exclusiva. Quando isso vai acontecer? Nunca. Então, para arrancar algumas palavras do Vampiro de Curitiba – apelido devido ao seu livro homônimo, lançado em 1965 – traço a estratégia: encarar os 428 quilômetros que separam minha cidade, Maringá (PR), de Curitiba, omitir ser estudante de jornalismo e torcer para o contista sair de casa. Se chover, o plano vai por água abaixo: como armar a tocaia em frente à casa do enigmático Trevisan?

Às 8h entro, pontualmente, no táxi que me levará ao bairro Alto da Glória – um nome digno para acomodar o maior contista brasileiro vivo. No curto caminho que separa a casa de Dalton da rodoviária, pergunto ao taxista se é verdade que o famoso escritor reside por ali.

– Dizem que mora sim, mas ninguém nunca o viu – responde o curitibano, seco, sem tirar os olhos do volante.

Chamando à porta de casa

Uma leve garoa atinge os transeuntes que atravessam a movimentada esquina onde reside o escritor. Para quem escreve sobre violência, assassinatos, drogas, prostituição, pedofilia e fetiches sexuais, Dalton Trevisan escolheu um lar ideal: grande e antigo, totalmente cinza, cercado por árvores que funcionam como barreiras aos curiosos que se penduram no muro, a fim de tentar espiar o tão misterioso autor. Estranhices à parte, não há barulho algum dentro da casa. Uma única luz acesa, no corredor, indica que ela não está abandonada.

Com um olhar mais atento sobre o puxadinho de trás, é possível observar que as janelas estão, desde cedo, escancaradas. Em julho do ano passado, quando passava, descompromissadamente, perto da residência do escritor, resolvi mudar meu roteiro e chamar ao portão. Sem campainha, tive de bater palmas e gritar seu nome. Para minha surpresa, o Vampiro abriu uma fresta da porta, deixando o rosto parcialmente escondido, protegido de algum flash que eu, rapidamente, poderia disparar. Mostrei três livros para que ele viesse ao meu encontro: “Deixe na livraria do Chain!”, gritou, antes de bater a porta na cara do petulante.

Agora a situação é diferente. Permaneço em silêncio, atento a cada movimento. Sorte minha: não chove. Precisamente às 10h50, Dalton Trevisan abre a porta de sua casa. Debaixo do braço, ele carrega alguns livros. Com passos rápidos, o ágil senhor de 84 anos caminha em direção à Livraria do Chain, local em que troca mensagens com sua editora e autografa os livros deixados por seus leitores.

Cinco minutos é o tempo que o Vampiro permanece na livraria, observando os lançamentos e deixando as edições que trazia de sua casa. Ele sai, agora, sempre taciturno; caminha geralmente olhando para baixo, e nunca se distrai com as belas curitibanas que passam ao seu lado ou cruzam sua frente.

É assim que observa os detalhes de Curitiba, cidade mitificada em suas obras: quieto, sem gestos bruscos, imperceptível. Passa pelo Teatro Guaíra e dá uma volta e meia na praça em frente à Universidade Federal, num cenário em que namorados, mendigos, hippies, empresários e turistas convivem em harmonia.

Quando passa por alguma banca de revista, para por cerca de dois ou três minutos, contemplando as notícias dos exemplares à mostra. Misturado aos curitibanos, o Vampiro escuta camuflado as novelas nada exemplares da vida urbana, como um anônimo ladrão de histórias. E volta a caminhar. Cruza semáforos, em meio a um trânsito caótico, driblando barracas de camelôs, passando por botecos, padarias, pontos de ônibus, deficientes físicos, filas de aposentados e indivíduos suspeitos.

Estou preparado para ficar cara a cara com o Vampiro. O local da abordagem? Uma esquina bem no Centro da cidade. No meu primeiro encontro, em janeiro de 2009, identifiquei-me como aspirante a escritor e revelei estudar letras (omiti estudar também jornalismo). Se ele sente qualquer intenção jornalística, foge como se lhe exibissem uma cruz. Trevisan, há um ano, na esquina de sua residência, me convidou a ir até à livraria, pois compraria alguns livros para mim. Antes, porém, perguntei como ele gostaria de ser lembrado daqui a 40 anos. A resposta, que arrancou uma boa gargalhada minha, foi surpreendente:

– Daqui a 40 anos, ninguém se lembrará de mim.

Eu o contestei imediatamente. Não adiantou nada:

– Essa sua opinião é uma opinião isolada.

No rápido trajeto, o contista revelou uma listinha com seus livros prediletos e fez críticas concisas às obras.

O poeta alemão Rainer Maria Rilke, com Cartas a um jovem poeta, foi o primeiro a ser citado:

Nas cartas dedicadas ao jovem poeta, ali está tudo o que você pode aprender sobre inspiração, escrita e linguagem – afirma Trevisan.

A metamorfose, do também alemão Franz Kafka, foi considerada como “uma história incrível” e

A morte de Ivan Ilitch, do russo Liev Tolstói, “a melhor novela já feita”, na opinião do contista.Dentro da livraria, Trevisan elogiou outro contista:

Leia tudo o que puder do russo Anton Tchecov. Aliás, existem boas coletâneas de suas obras.

No campo da poesia, o Vampiro indicou o pernambucano Manuel Bandeira, um dos seus prediletos:

O estilo e a linguagem dele são maravilhosos. As crônicas também são boas. Leia Crônicas da província do Brasil e Os reis vagabundos.

E para o Vampiro, quem é o maior contista brasileiro?

– Machado de Assis. Além dos contos, leia Quincas Borba, Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.

Depois de Machado, indagou-me se eu gostava de Rubem Braga. A última obra citada , classificada como “maravilhosa”, foi Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

Em meio a tantos clássicos, o Vampiro seria capaz de reescrever as histórias melhor do que os próprios autores? A resposta é negativa:

– Ninguém pode reescrever A metamorfose melhor do que Kafka. Ninguém vai reescrever A morte de Ivan Ilitch melhor do que Tolstói.

Naquela manhã, ganhei dois presentes de Dalton Trevisan: duas edições pockets das obras citadas de Tolstói e Rilke. Outros livros, solicitados pelo contista, estavam fora do catálogo. Na frente do Vampiro, a atendente se comprometeu a conseguir os livros para eu buscá-los no dia seguinte. Ao encerrar o encontro, o contista estendeu a mão e abriu um sorriso. Semanas depois, entrei em contato com a livraria, passei meu endereço em Maringá e recebi, em minha casa, outras quatro edições de bolso enviadas pelo contista: Kafka, Tchecov, Machado e Dalton.

Jamais imaginaria que eu teria a chance de encontrá-lo novamente. Ele deve ter se irritado. A reportagem relatando nosso encontro foi publicada em um jornal do Paraná. Depois da publicação, enviei um outro livro para ele autografar, alguns contos de minha autoria e uma carta agradecendo pelas edições enviadas e também por sua produção literária. Todo o material foi reenviado para mim. No livro, nenhum autógrafo. Da mesma forma que foi, voltou. Era a primeira vez, em três décadas, que o contista concedia alguma declaração à imprensa.

Agora, quase um ano depois do primeiro encontro, eu me aproximo com três livros para serem assinados. Estamos em uma movimentada esquina. O sinal fecha.

– Dalton? – eu pergunto. Ele vira e me olha desconfiado. Peço um autógrafo nos três livros que retiro de dentro de uma sacola plástica.

Ao se deparar com uma rara primeira edição de Cemitério de elefantes, publicada em 1964, o contista reclama:

– Mas esta edição eu renego! Já reescrevi diversas vezes!

A curiosa cena protagonizada pelo autor, fanático por recompor suas obras em novas edições, extirpando uma ou outra conjunção, sempre reduzindo o tamanho dos contos, arranca uma risada minha. Peço que ele autografe mesmo assim. Dalton olha para trás, onde há uma pequena padaria, e indica o balcão:

– Vamos ali, para firmar os livros.

Na dedicatória, ele pede meu sobrenome, mas me recuso a dizer.

– Basta só Alexandre? – indaga o mestre da concisão e, diante da minha afirmativa, diz sorrindo:

– Então tá, só Alexandre.

Com o tempo, Trevisan padronizou seus autógrafos: “Ao (nome), cordialmente, D. Trevisan”. Agora, se há uma intimidade, o Vampiro muda: “Ao (nome), com um abraço do D. Trevisan”. E ele só rabisca a dedicatória em um dos livros. Nos seguintes, deixa apenas a assinatura. Na década de 60, quando iniciou sua trajetória literária, era diferente. Ele sempre era afetuoso na dedicatória e não assinava seu sobrenome, apenas Dalton.

Antes de encerrar o encontro, o contista indaga:

– Como você me achou aqui no Centro?

É claro que não digo que estou perseguindo-o há cerca de meia hora. Sem desviar o olhar, relembro um trecho de uma entrevista concedida nos anos 60, em que o próprio Trevisan contestava a fama de recluso. Cara a cara com o Vampiro, parafraseio sua declaração: “É possível encontrar Dalton Trevisan em cada esquina de Curitiba”. Ponto para mim. Arranco outro sorriso do autor, que observa:

– E você confirmou isso mesmo!.

Na padaria, ele estende a mão, compassadamente, e sorri:

– É sempre bom encontrar um leitor .

O escritor retoma a caminhada sem olhar para trás. Dalton Trevisan nunca olha para trás. Volto a segui-lo. Ele entra em um restaurante vegetariano. Sozinho. É muita ironia: um vampiro que se abstém de carne. Na volta para casa, meia hora depois, ele escolhe o mesmo trajeto e circula pelas mesmas praças, até enfrentar a íngreme rua que o leva à sua residência. Deixo o Alto da Glória com os livros assinados e algumas imagens do recluso contista. Curiosamente, não são as palavras do nosso encontro que ecoam na minha cabeça. Mas, sim, um excerto de sua nova obra, Violetas e pavões: “O senhor esconde o rosto desta cidade, mas não de mim”.

Fonte:
http://materiasdealexandregaioto.blogspot.com.br/2010/02/dois-encontros-com-dalton-trevisan.html

Imagem = montagem com fotos obtidas na internet, por JFeldman

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Alcy Cheuiche (O Escritor em Xeque)

Entrevista realizada para o site de Leandro Rodrigues (SC), Escritores do Sul (hoje desativado), em 2010

Gaúcho típico – nascido em Pelotas, criado em Alegrete – Alcy Cheuiche é um dos nomes mais importantes da literatura do Rio Grande do Sul. Autor de livros como “Sepé Tiarajú”, “Ana Sem Terra”, “O Mestiço de São Borja”, “Guerra dos Farrapos”, entre muitos outros, o escritor conversou com a revista Escritores do Sul e contou um pouco de sua bela e interessante história de vida. 

 Qual seu nome completo?
Alcy José de Vargas Cheuiche.

Onde e quando nasceu?
Em Pelotas, Rio Grande do Sul, no dia 21 de julho de 1940, o mesmo dia e mês de Hemingway, meu escritor predileto.

Como você se define?
Hoje? Sou um escritor e ponto.

Como foi a sua infância? Você era uma criança que já costumava ler? Se sim, do que você gostava?
Minha infância foi maravilhosa, em Alegrete, onde cheguei com 4 anos de idade. Meu pai era veterinário do Exército, no tempo da Cavalaria. Ele arrendou uma granja a poucos quilômetros da cidade para produção de leite, mas o que mais produziu foi a felicidade da minha mãe e de todos nós. Ali aprendi a andar a cavalo, a nadar, a subir em árvores, a respeitar a natureza em todas suas manifestações, formas e cores. Não por acaso, o meu livro “O Mestiço de São Borja”, de 1980, é considerado um dos primeiros romances ecológicos do Brasil.
Antes de ser alfabetizado no Instituto de Educação Oswaldo Aranha, ouvia extasiado as histórias contadas pelo meu pai, um fantástico narrador. Aliás, depois fique sabendo que a narrativa oral é uma característica comum dos árabes, em especial dos libaneses. E meu avô emigrou do Líbano, como narrei no romance “Jabal Lubnàn, as aventuras de um mascate libanês”.
Os primeiros livros que li foram de Monteiro Lobato e me acompanham até hoje. Eu tinha sete anos quando ele morreu e chorei como se fosse uma pessoa da minha família. Quando fui à Grécia, fiquei impressionado com o que aprendera em criança nos seus livros, em especial nos romances históricos infanto-juvenis “O Minotauro”e “Os Doze Trabalhos de Hércules”.

E a sua família? Como era?
Meu pai, Alcy Vargas Cheuiche, era um homem enérgico, disciplinador, mas paciente para tudo explicar aos filhos e aos amigos dos filhos. Inclusive, as razões porque participara das revoluções de 1930 e 1932. Era getulista, mas, embora fosse Vargas por parte de mãe, nunca se aproveitou disso em sua carreira. Fanático pela educação e cultura, diplomou-se em medicina veterinária e direito, numa época em que um só diploma era raro. Depois de aposentado, dedicou-se a tarefas comunitárias sem remuneração, tendo presidido a Fundação Educacional de Alegrete por cerca de vinte anos. Criou uma dezena de cursos superiores, entre outras façanhas.
Minha mãe, Zilah Tavares Cheuiche, era uma pessoa inteiramente dedicada à família. Muito inteligente, pouco falava, mas não tinha medo de nada. Aliás, pelo lado dela, sou descendente em linha reta do Coronel João da Silva Tavares, o Visconde do Cerro Alegre, que lutou contra os farroupilhas durante os dez anos da Guerra dos Farrapos, tema de outro romance meu. Eu adorava quando meu pai narrava essas histórias em que os Silva Tavares e os Vargas eram protagonistas, o que foi muito estimulante para a minha vocação de escritor.

O que lhe fez cursar medicina veterinária? Você já pensava em ser escritor nesta época?
Estive entre a medicina veterinária e o direito, porque eram as profissões do meu pai, a quem sempre admirei. Escolhi a primeira porque, aos dezoito anos, eu era um gaúcho de verdade e não queria me separar do campo. Nunca me arrependi dessa escolha. O veterinário me sustentou por muitos anos, até que me tornasse um escritor profissional. E isso impediu que eu enveredasse por caminhos errados na literatura, apenas para sobreviver.
Comecei a escrever na escola e ganhei o meu primeiro prêmio literário aos dez anos de idade. Foi um concurso de redações sobre o “Duque de Caxias” que mobilizou muitas crianças da cidade. O prêmio foi entregue na praça, antes do desfile do “Dia do Soldado”. Nunca deixei de lhe dar valor.
Sim, sempre pensei em ser escritor. Um dia, mal alfabetizado, peguei a máquina de escrever da minha mãe (com a qual ela batia os discursos do meu pai) e iniciei meu primeiro romance. Acho que não passou de quatro linhas.

Como foi a sua experiência na Europa com a bolsa conquistada na faculdade?
Foi na França, onde cheguei com 23 anos, que a minha vocação se firmou para a literatura. Hemingway dizia que “se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença o acompanhará pelo resto da sua vida”. Essa é uma grande verdade. Paris é muito mais do que a França, é uma encruzilhada universal. E a arte é uma só. Você se prepara para ser escritor, não só lendo bons livros, mas também apreciando pinturas, ouvindo música, indo ao cinema e ao teatro. Descobrir Brecht no Teatro Nacional Popular, onde os estudantes pagavam uma ninharia, foi uma revelação. O mesmo com Buñuel na Cinemateca do Palais de Chaillot. O mesmo com os pintores impressionistas, pois Hemingway já me ensinara que queria escrever como Cézanne pintava.
Durante dois anos, enviei crônicas semanais para o jornal “Correio do Povo”, de Porto Alegre, sob a rubrica: “Cartas de Paris”. Até hoje considero a crônica um exercício fundamental para o romancista. E me orgulho de ter dois livros de crônicas publicados.
Foi em Hannover, na Alemanha, onde também fiz pós-graduação em veterinária, que escrevi minha primeira novela “O Gato e a Revolução”. Naquele momento, tomei a decisão de dar prioridade à literatura, mesmo sacrificando a carreira científica. Não foi fácil, eu tinha 26 anos e já me iniciava na cirurgia experimental de transplantes de órgãos. Mas nunca me arrependi.

Você fez muitas viagens quando trabalhou na Johnson & Johnson. Alguma lhe marcou mais? O que lhe marcou mais neste período de sua vida?
Quando meu livro “O Gato e a Revolução” foi cassado, após o Ato Institucional de dezembro de 1968, comecei a sofrer perseguições na universidade e tive que buscar trabalho em São Paulo. O curioso é que eu era chamado de “comunista e subversivo” em Porto Alegre, o que não impediu uma empresa americana de me contratar. Pragmatas, eles confiaram mais no meu currículo de veterinário.
Além de viver em São Paulo, uma cidade muito profissional e culta, viajei por diversos países a serviço da Johnson&Johnson, tendo feito um estágio de três meses na Bélgica e de um mês na Austrália. Foi voltando da Austrália que visitei a Ilha da Páscoa, cuja descoberta narro no livro “Sepé Tiaraju, romance dos Sete Povos das Missões”, um dos mais conhecidos, com edições em Braille, quadrinhos, e em outros idiomas.

Seus livros já foram muito elogiados em espanhol e em alemão também, pois relatam um Brasil que os estrangeiros não estão acostumados a ver. Fale sobre isso.
Eu acredito, como Tolstoi, “que o universo começa no pátio da nossa casa”. Assim, os temas brasileiros podem agradar leitores de todo o mundo e, se não somos mais conhecidos, os escritores do Brasil, é porque dependemos de agentes literários com experiência internacional (temos pouquíssimos) e tradutores competentes (menos escassos, mas também em falta). Quando viajei pela Alemanha, em 1997, realizando conferências e lançando as versões em alemão dos livros “Sepé Tiaraju” e “Ana Sem Terra” fiquei impressionado com o interesse despertado nas quinze cidades visitadas, inclusive Berlim. A tônica da imprensa alemã foi a afirmativa de que livros como os meus abrem uma porta para a compreensão da literatura e da saga brasileira atual, uma vez que abordam temas históricos e sociais, inclusive com personagens que sofreram com a imigração. É a vantagem dos romances que popularizam esses temas.

Quando inicia um livro, sabe antecipadamente seu conteúdo, já o planejou na cabeça ou vai construindo-o aos poucos?
O roteiro está na minha cabeça e só começo quando termino o fundamental da pesquisa, o que, às vezes, pode levar até dois ou três anos. Mas nunca me coloco num trilho e sim numa trilha, o que me permite enriquecer o romance, a qualquer momento, com novas situações e personagens.

Você começou imitando alguém? Quem?
Sofri a influência de Erico Verissimo, como os escritores rio-grandenses da minha geração e ainda considero “O Tempo e o Vento” e “O Prisioneiro” como duas obras primas da nossa literatura. A Hemingway já me referi, sendo sua lição principal a necessidade de conhecer a fundo um tema antes de transformá-lo em livro, como é claro em toda sua obra, mas especialmente em “Por quem os sinos dobram?” e “O velho e o mar”. Aliás, Lobato, a quem já me referi, foi tradutor de Hemingway.
Durante o período francês, outros escritores me influenciaram, como Roger Martin du Gard, André Malraux, Exupéry, Sartre e Simone de Beauvoir, Sagan, Pagnol. Muitos, muitos deles, sem citar os mais modernos.

Há algum livro seu que você já amou e hoje não gosta mais, como acontece com alguns escritores? Por que?Acho que tive muita sorte, como expliquei acima, em poder me sustentar como veterinário. Assim, não aceitei escrever livros pornográficos, que eram muito bem pagos na década de setenta a oitenta, quando vivi em São Paulo. Também não me preocupei em publicar um livro por ano, o que é o erro de muitos, até por necessidade material. Livro é como a gente, tem período de gestação.

Qual o seu objetivo com a escrita?
Contar histórias, como meu pai fazia, só que por escrito. Criar personagesn e dar vida a outros que merecem ser conhecidos, como o índio Sepé Tiaraju, o negro João Cândido e o branco Alberto Santos Dumont, cuja história é mal contada nos livros e nas escolas, ou nem é narrada aos alunos, como no caso do “Almirante Negro”.
Acredito na literatura como caminho ético e estético. E o ato de escrever, como disse alguém, é tanto uma vocação como uma condenação.
Para mim, também, uma ótima maneira de manter o alto astral, o equilíbrio psíquico. Gosto tanto, que até pagaria para escrever. Se me pagam, é ainda melhor.

Quais são, na sua opinião, suas principais qualidades e seus principais defeitos como escritor?
As qualidades acho que são ligadas ao respeito com o tema e com o leitor. Como sempre digo aos meus alunos, é preciso preparar-se para escrever como um atleta olímpico se prepara para competir. Só o talento não basta.
Dos defeitos não vou falar. Os livros são como filhos, não é verdade?

E a sua rotina, como funciona? Você escreve todos os dias? Tem horários próprios para isso? Concilia com facilidade a vida profissional e a vida pessoal?Não sou escritor de fim de semana. Quando estou escrevendo um livro, reservo para ele todas as manhãs. Antes, quando tinha expediente de outro trabalho a cumprir, era comum começar a escrever de madrugada, acordando cada vez mais cedo. Lembro de um dia que acordei a uma e meia com um trecho do livro na cabeça, levantei e segui escrevendo até às sete da manhã. Tomei café e fui para o outro trabalho. Sou matinal para escrever. O sono me descansa e me inspira.
Hoje só escrevo, traduzo, participo de reuniões do Conselho Estadual de Cultura do RS, faço palestras e dou aulas de oficina literária. Posso organizar melhor o meu tempo, como fiz nos últimos seis meses, em que escrevi um romance e um livro para o público infantil.

E o seu fascínio por Santos Dumont, de onde veio? Sua pesquisa levou muito tempo para ser feita? Você prefere trabalhar com livros como esse ou com ficção?Meu fascínio nasceu quando li um livro de Santos Dumont, publicado em Paris, em 1904, e cujo original em francês só foi traduzido no Brasil 37 anos depois. Nesse livro, que achei na biblioteca do meu pai, descobri que o nosso inventor já era famoso muito antes do primeiro voo do 14-Bis, pois foi ele quem deu dirigibilidade aos balões. Assim, ao contrário dos irmãos Wright, que fabricavam bicicletas antes de seu pretenso voo com o Flyer, em 1903, Santos Dumont já era reconhecido como aeronauta no mundo todo, desde 1901, após seu famoso voo de balão dirigível em torno da Torre Eiffel.
Outro aspecto que me impressionou foi seu idealismo e sua coragem. Nunca vendeu nenhum dos seus inventos, doou-os todos para o patrimônio comum da humanidade. E nunca contratou pilotos de provas, ele próprio arriscava a vida para provar suas teorias revolucionárias.
Tenho dois livros sobre o “Pai da Aviação”, ambos em edição de bolso, pela L&PM. O primeiro é um romance “Nos céus de Paris” e o outro “Santos Dumont” uma biografia encomendada para a enciclopédia em fascículos, da editora. O romance foi muito mais difícil porque me exigiu uma pesquisa super cuidadosa sobre Paris da Belle Époque, e não se brinca com Paris. Quando Alberto voava em seus balões, o que via lá em baixo? Isso, sem contar que, num romance, é preciso criar diálogos. Para que fossem autênticos, tive que pesquisar nos jornais franceses da época, retirando frases pronunciadas por ele. Um romance histórico precisa recriar também outros detalhes sobre personagens coadjuvantes. Tive que estudar a vida da Princesa Isabel porque foi amiga de Santos Dumont. O mesmo com o jornalista Jean Jaurès, outro amigo dele, que foi assassinado às vésperas da Primeira Guerra Mundial, por ser pacifista. Tudo isso exige muito tempo e paciência. Felizmente eu domino o francês e meus amigos de Paris me ajudaram bastante.

E por Sepé Tiaraju?
Porque o meu primeiro livro, “O Gato e a Revolução”, uma sátira política, tinha sido cassado pela ditadura. Assim, eu queria escrever sobre um tema social que não fosse só meu, e sim, de respeitabilidade universal. Além disso, nunca aceitei as teses colonialistas sobre a incapacidade dos índios. E a “República Guarani” com sua estrutura econômica, social e política, com sua cultura expressa na pedra, na madeira, na música, é um desafio para os que ainda defendem o genocídio do povo guarani. Para os que não aceitam que somos uma sociedade gerada pelo caldeamento de muitas raças que os índios e negros representam a maioria da nossa herança.
Hoje, Sepé Tiaraju é reconhecido oficialmente como herói rio-grandense e brasileiro. As ruínas de São Miguel Arcanjo, cidade missioneira da qual foi prefeito, foram tombadas pelo UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Meu livro deu sua gota d’água para isso, o que me deixa feliz.

Para você, Espanha e Portugal devem desculpas ao povo Guarani? Fale um pouco sobre isso.
Não só desculpas. Na Alemanha existe uma lei chamada “Auschwitz Lüge” (Mentira de Auschwitz) que proíbe qualquer pessoa a mentir, dizendo que não houve o Holocausto dos judeus e outras minorias raciais, pessoas assassinadas aos milhões pelos nazistas. Além disso, a Alemanha investe ainda muito dinheiro para reparar uma pequena parte desse erro monstruoso. Acho que poderíamos ter uma lei semelhante, no Brasil, para os que negam o holocausto dos nossos índios, desde o descobrimento. E Portugal e Espanha deveriam investir para preservar a vida e a cultura dos guaranis e de outros povos indígenas sobreviventes.

Na história nacional e mundial da literatura, quais as personagens mais bem construídas que conhece e por quê?
Ana Terra, de Erico Veríssimo (que me inspirou Ana Sem Terra) continua viva, respirando, levando no ventre um filho do índio Pedro Missioneiro para iniciar uma nova família rio-grandense e brasileira.
Blau Nunes, o gaúcho pobre de Simões Lopes Neto, continua narrando histórias preciosas, exemplo de decência e honra.
O Jagunço Riobaldo de João Guimarães Rosa é um desafio para os que ainda consideram esses párias da história brasileira, Lampião, entre outros, como meros bandidos e assassinos.
Jean Valjean, de Victor Hugo, ainda continua sendo condenado, como todos os miseráveis do mundo, pelo crime famélico de roubar um pão.
A cigana Pilar, de Ernest Hemingway, continua representando toda a mística e personalidade autêntica da alma espanhola.
Muitos mais, muitos mais.

Você acha que para se tornar um grande escritor é necessário trabalho duro, como um “operário da escrita”, ou é uma questão de mero talento?
Acho que já respondi essa pergunta aí por cima. Como dizemos nas oficinas de criação literária: Ars sine scientia nihil est. Ou seja, a arte sem a ciência nada é. Talento é essencial, mas deve ser burilado, como as pedras preciosas.

Quais personagens que já criou que mais se identificam pelas ideias ou como ser humano? Criou-os já se tendo como modelo ou escreveu e se reconheceu apenas depois?
Oswaldo Winterfeldt é uma personagem de ficção, criada por mim, que me apaixona. Quando algum leitor de “O Mestiço de São Borja” pergunta se le é o meu alter ego, costumo responder que não, ele é muito melhor que eu. Não nasceu pronto. Foi evoluindo como ser humano através da vida. Chorei ao descrever a sua morte e me orgulho disso.
O velho Tiovô, do livro “A mulher do espelho” também me encanta. Dou boas risadas quando releio seus diálogos com o sobrinho neto, um engenheiro esquecido de apreciar a vida como ela é. Os nonagenários ainda são raros como personagens da nossa literatura. Inspirei-me, em parte, no meu tio Joaquim Tavares, que morreu com 93 anos, completamente lúcido, sem nunca deixar de amar a vida.
De pura ficção, tenho outros personagens que me tocam muito, como a menina Vavá, de “Lord Baccarat”, mas vamos ficar por aqui.

Você se sente mais à vontade escrevendo crônicas, contos, romances, ensaios. . .o quê?
Sou um romancista, no essencial. São as águas em que nado com maior desenvoltura.
A poesia é também minha companheira. Sempre que posso, digo um verso. Não necessariamente meu. O poeta predileto é Garcia Lorca.

O que o levou a escrever literatura infanto-juvenil?
Uma promessa que fiz a mim mesmo, que só o faria quando tivesse os cabelos grisalhos. Não deu para esperar mais. Experiência de vida e de literatura são essenciais nesse segmento. Escrever para crianças é muito mais difícil do que escrever para adultos, podem ter certeza.

E suas oficinas de literatura? Quando surgiu a idéia e como elas vem sendo? Já pode destacar alguns talentos que por lá passam ou passaram?
Pratico oficinas de criação literária desde 2002. Estou com vinte e um livros na estante dos meus alunos. Entre eles, alguns romances, em que dizem que sou o pioneiro, por ter iniciado em 2003.
A idéia consolidou-se depois de uma visita na PUC-RS ao meu amigo e colega Luiz Antônio de Assis Brasil, um dos introdutores das oficinas no Rio Grande do Sul e no Brasil. Ele foi generoso comigo, passando-me o essencial do método que, aos poucos, fui adaptando ao meu jeito de pensar e escrever.
Hoje tenho um prazer enorme em ser professor novamente, vocação antiga, da qual fui afastado durante a ditadura.
Alunos de talento tive e tenho muitos. Não vou destacar nenhum, porque são ciumentos, embora muito unidos em seus trabalhos.
Também destacaria alguns livros das oficinas que dirigi como muito bons. Mas, como maestro da orquestra, não posso nomear os que gosto mais.

Você é membro vitalício da Academia Rio-Grandense de Letras e sócio fundador da Associação Gaúcha de Escritores. Na sua opinião, o que essas tantas academias e associações de escritores hoje em dia representam? Qual a importância delas para a literatura e para a sociedade?
Entrei na Academia Rio-Grandense de Letras com 46 anos e na primeira reunião fui apresentado ao romancista Dyonélio Machado, cujo livro “Os ratos” morou muito tempo na minha cabeceira. Dyonélio faleceu naquele ano, mas ainda consegui conversar com ele, trocar algumas idéias.
Para mim o mais importante dessa Academia, a única que frequento, é o convívio que tenho tido. De início, apenas com os mais velhos. Agora, também, com os da mesma faixa etária e com os mais moços. Não sei como são as outras academias, mas a nossa tem poucos bens materiais, mas é honesta e digna. E uma curiosidade: nosso atual presidente, em pleno exercício de suas capacidades, tem 97 anos de idade. Francisco Pereira Rodrigues é o nome dele. Um escritor e uma figura humana admirável.
Quanto à AGEs, sou orgulhoso de ter assinado a ata de sua fundação, há 30 anos, porque ela se preocupa com o sucesso de cada um dos seus filiados.

Como você vê as universidades atualmente?
Como sempre vi: sou apaixonado por elas. Universidade significa preocupação com o conhecimento universal. São nossa plataforma de lançamento para a chegarmos a cidadãos do planeta Terra. Utopia? Adoro as utopias.
Existem muitas universidades que não prestam? É só investir nelas.

Defina em algumas palavras:

Amor: raro e genial.
Sexo: verdadeiro, só por amor.
Liberdade: essencial.
Religião: coisa íntima.
Deus: idem.
Inteligência: privilégio.
Burrice: uma praga.
Prosperidade: necessária, mas para todos.
Vida: nosso maior patrimônio.
Morte: sai prá lá.

Qual o sentido da vida para você?
Acordar cada manhã sorrindo e cheio de planos.

Já usou drogas, inclusive bebidas?
Se vinho e cerveja estão aí classificados, sim. E gosto muito, nos momentos que considero certos. Não bebo todos os dias e nunca sozinho.

Qual seu próximo lançamento?
O romance “João Cândido, o Almirante Negro”, dedicado ao centenário da Revolta da Chibata. Editora L&PM. Lançamento previsto para o dia 4 de novembro de 2010 na Feira do Livro de Porto Alegre, minha paixão.
O livro para crianças “O Ventríloquo”, dedicado a esse artista em extinção. Editora Libretos. Lançamento previsto para o dia 5 de novembro de 2010 na Feira do Livro de Porto Alegre, minha paixão.

Gostaria de dizer mais alguma coisa que não foi perguntado ou deixar uma mensagem para os leitores?
Para ler e escrever é preciso uma ferramenta essencial da espécie humana: a emoção.
Quem não é capaz disso, ou coloca em segundo plano esse sentimento, nunca será bom escritor, nem leitor.

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Altino Caixeta de Castro (entrevistado por Maria Esther Maciel)


A história de um poeta é também a de suas perplexidades. E se uso a palavra perplexidades é por pensar nos vários sentidos que ela deflagra, como espanto, assombro, emaranhamento das certezas, dúvida, enredamento, irresolução e sinuosidade de caminhos, todos eles configurando-se como elementos também intrínsecos ao processo de criação poética. Borges externou essa consciência da perplexidade em uma breve conferência que fez sobre “o enigma da poesia”, ao dizer que diante de cada página em branco que encontrava tinha de redescobrir a literatura para si mesmo. Drummond vislumbrou na clareza e na claridade o mesmo enigma. Já Pessoa converteu sua perplexidade em um processo intrincado de ficcionalização do eu e do próprio ato de criação, correspondendo, assim, aos sentidos da palavra latina “perplexio, onis” (perplexão), que apontam, curiosamente, para “fingimento, dissimulação, refolho, dobra.

O poeta mineiro Altino Caixeta de Castro (Patos de Minas, 1916-1996), autor de Cidadela da rosa – confissão da flor (1980), Diário da Rosa Errância e Prosoemas (1989) e Sementes de sol (2004), ao também explorar as inquietudes do poeta perplexo diante de tudo, optou pela palavra espanto, construindo a partir dela toda uma poética. Não por acaso designou o poeta de “pastor do espanto” e forjou a partir dessa imagem sua própria persona poética. Mas não se ateve apenas à dimensão filosófica, existencial, da idéia de espanto – à qual associou todo um referencial ontológico de feição heideggeriana, mas redimensionou-a pela força da imaginação e nela imprimiu um traço lúdico, advindo do sentido de “maravilhamento” que a própria palavra espanto contém. Espantar-se é também maravilhar-se diante de algo. E esse algo para o “pastor” Altino Caixeta é a linguagem e todas as suas potencialidades de jogo. E o que é o maravilhar-se senão o deixar-se seduzir? Na poesia altiniana a sedução do poeta pelas palavras é explícita e se faz ver não apenas na forma como brinca com elas e delas se faz brinquedo, como também no processo de erotização do fazer poético. Uma espécie de libido scribendi perpassa o ato de criação do poeta, seduzido que sempre esteve pela força corporal, tátil, sonora, visual da escritura. Isso se dá a ver de maneira explícita no poema “A palavra ousada”, do livro Cidadela da rosa – com fissão da flor, onde se lê:

que coisa mais misteriosa é a palavra,
principalmente, o substantivo movido
pelo verbo. eu posso dizer: eu moro
nos subúrbios soberbos de uberaba. eu
moro nos subúrbios soberbos de teu
umbigo. eu moro nos subúrbios soberbos
de teus ombros. eu moro nos subúrbios
soberbos dos teus lábios. entretanto,
eu não moro, mas eu ouso dizer: que
coisa mais misteriosa é minha prosa
movida pelo moinho de vento soberbo de
teu verbo.

Altino sabe que as palavras podem deflagrar realidades imprevistas, fingir um mundo que não existe senão apenas dentro delas ou partir delas. Como Pessoa, sua perplexidade se “irresolve” na consciência de que é possível tanto sentir com a imaginação quanto escrever pelos sentidos o que a razão não entende. Mas seu pastoreio é menos o ato de conduzir e/ou vigiar a linguagem – como fazem os pastores de cabras e ovelhas – do que o ato de pastorejá-la, uma vez que o verbo “pastorejar”, relacionado ao pastorear, aponta sobretudo para a ação de fazer a corte, cortejar.

A entrevista que se segue, gravada no início de 1990, na casa do poeta em Patos de Minas, traz em viva voz esse espanto – transfigurado em “maravilhamento” – de Altino Caixeta de Castro diante da poesia. Nela, ele fala de sua descoberta do verso, do pastoreio das cabras e das palavras, da rosa como metáfora do poema, da beleza, da mulher, do artesanato da forma e do “transe” necessário ao fazer da escritura. Com humor e erudição, cita poetas, filósofos e críticos de vários tempos e tradições, declama versos seus e alheios, brinca e se deslumbra com suas próprias perplexidades de poeta. [M.E.M.]

MEM – Como se deu para você a descoberta da poesia?

ACC – Minha história de poeta é muito triste, pois descobri a poesia no pessimismo existencial de Augusto de Anjos. Quando eu era criança, de cabeça raspada e pés descalços, vivendo na fazenda Campo da Onça, decorei, pela primeira vez, um poema que vi em um almanaque. Era aquele soneto de Augusto dos Anjos, que diz assim: “…o homem que é triste/Para todos os séculos existe/ E nunca mais seu pesar se apaga!” Eu tinha entre 7 e 9 anos de idade. Ou melhor, não tinha idade. Creio que daí venham certos ressaibos – filosóficos, talvez – da poesia de Augusto dos Anjos em minha poesia.

MEM – Mas você continua sendo um poeta sem idade, por trazer todos os tempos possíveis (e impossíveis) em sua poesia…

ACC – Uma vez fiz para uma menina um verso de circunstância – isso, antes que o Manuel Bandeira colocasse em voga a idéia do poeta de circunstância – que dizia assim: “Eu não preciso do tempo / porque sou eterno / Necessito apenas / dos mínimos espaços / que demoram / entre mim e seus braços”. Meu destempos, meus dez tempos são minha eternidade provisória.

MEM – Sem dúvida, o signo mais recorrente em sua poesia é a palavra rosa. Como você explicaria esse signo?

ACC – Como dizia Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa. É bastante interessante esse poema, porque nele a poetisa toca uma questão da semiologia moderna. Ela antecipa o livro O sistema dos objetos, de Jean Baudrillard. Ela, sem querer, fez uma semiologia do objeto rosa. Aliás, a rosa é o arquétipo da coisa, como diz o Borges. Borges, na verdade, buscou essa imagem em Crátilo, personagem de Platão. Tanto é que tenho um poema em que rimo “rosa” com “coisa”. Uma semi-rima sutilíssima, nunca usada nem pela Cecília Meireles ou pelo Guilherme de Almeida, que era um mestre das semi-rimas.

MEM – A rosa seria, em sua obra, uma metáfora do poema e uma metonímia da prosa?

ACC – Pode ser. Mas quando a rosa me chegou, eu não pensei nisso. Só muitos anos depois é que soube dessa parolagem. Minha mãe plantava rosas em torno de nossa casa. E minha poética é muito ligada à minha mãe. Acho que por causa dela fiquei muito impregnado pelo sentido da rosa. A vida inteira. Mais tarde descobri que a rosa era um símbolo difícil, mesmo para a poética. Descobri, mais teimei no símbolo.

A rosa tem também uma dimensão filosófica, de feição heideggeriana, em seus poemas, apontando para a imagem da “morada do ser”. E mesmo mística, se pensarmos na idéia da mandala que se faz presente no livro Cidadela da Rosa: com fissão da flor.

Isso me lembra um poema que está no livro O diário da rosa errância: “Mandá-la para Vênus./ Mandá-la para Eros./ Mandá-la para Deus./Mandala do mistério.” Mas é verdade, a minha rosa é metafísica. Mas a imagem da “morada” eu debito a Gaston Bachelard, que escreveu aquele livro lindo, A poética do espaço. Coloquei muitas moradas em minha poética, metaforizei várias vezes a morada dentro de meus poemas. E a rosa ficou sendo a morada essencial. Já Heidegger foi o filósofo-poeta que mais influenciou minha concepção da poesia moderna. Para ele, o “poeta é o pastor do ser” e a poesia é “a realização do ser pela palavra”. Isso me chamou muito a atenção. Tanto é que meu primeiro livro ia se chamar Pastor de sonhos – isso, trinta ou quarenta anos atrás.

MEM – E por que você optou pela imagem do “pastor do espanto” para definir o trabalho do poeta?

ACC – É o mesmo pastoreio. Na minha poesia, como eu disse, minha mãe é sempre a presença essencial. Coisa que os críticos em geral não percebem. Aliás, em se tratando de crítica, prefiro aquela que é feita pelos poetas-críticos. Como Eliot e Pound. Eles são melhores do que os outros, pois conseguem surpreender muito mais a poesia dos poetas. Mas como eu estava dizendo, minha mãe tinha, na fazenda, um rebanho de carneiros que eram dela. E meu pastoralismo passou por minha mãe antes de chegar aos meus poemas e antes que eu descobrisse Heidegger e seu pastoreio do ser. Tenho uma “Coroa de sonetos para uma cabra”, ou seja, catorze sonetos sobre a cabra, que não era cabra na verdade, mas uma metáfora. Não sei se você sabe, mas nasci de 7 meses e minha mãe não tinha leite, ainda não estava ainda preparada “galacticamente” (risos). E assim tive que ser amamentado por uma bela cabrita – uma mulher morena-escura, quase negra. Sequei o leite da cabrita. (risos) Aí minha mãe arranjou uma cabra de verdade para mim. Mamei, literalmente, nessa cabra, aos 2 ou 3 anos de idade. Tudo isso ficou impregnado na minha lembrança, no meu sensorialismo: os carneiros de minha mãe, que ela mandava tosquiar para tecer a lã, a cabrita morena que me amamentou quando nasci e a cabra de verdade que veio depois.

MEM – Realmente, as imagens relacionadas a essas reminiscências sensoriais estão muito presentes na sua poética. As cabras, os carneiros, os pastos, o leite, os seios, a boca, o beijo, o ato de mamar são recorrências explícitas. Algo da ordem da oralidade, no sentido psicanalítico do termo, não? Se bem que a oralidade, do ponto de vista lingüístico, também é uma das linhas de força de sua poética.

ACC – Isso está no meu poema “Soneto em limbos”: Mamar na luz que vem das nebulosas,/Dar pojo no mistério das estrelas,/Depois lamber os úberes redondos/ Da ovelha fulva ou ser lambido em limbos. Aí eu já estava “adulterizado” e usei as leituras que eu tinha da psicanálise de Freud. Aliás, não sei se você já reparou, mas esse é um soneto branco, sem rimas. Só tem ressonâncias internas. Como fazem os ingleses. Os poetas ingleses quase não rimam nas pontas. E não rimar nas pontas torna, muitas vezes, o poema mais bonito, pela força das aliterações e sonoridades internas. E por falar em psicanálise, costumo citar com freqüência um fragmento de Lacan – “o inconsciente é o discurso do Outro” – que, de certa forma, influenciou o primeiro poema do Cidadela da Rosa, intitulado “Discurso”. Os críticos costumam elogiar esse poema. Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo, que é um bom poeta e escreveu um livro sobre Drummond, ficou surpreso porque eu dediquei o “Discurso” a Michel Foucault, Roland Barthes e Julia Kristeva. Um caipira do interior de Minas escrevendo uma dedicatória pedante aos grandes nomes da filosofia contemporânea! – ele deve ter pensado. Na verdade, escrevi esse poema em um espaço em branco de um livro de Foucault. Os críticos gostaram, ficaram impressionados.

MEM – O que você pensa sobre esses críticos e filósofos franceses?

ACC – Já li muito da literatura francesa. Sobretudo Sartre, Baudelaire e Camus. Acho inclusive que o pessimismo artificial que tenho, que não é o de Augusto dos Anjos, ao contrário do que pensam, foi muito influenciado pela filosofia de Sartre, mais do que pela obra de Camus. Tenho um poema no livro A cidadela da rosa, mais ou menos inspirado no pessimismo sartreano. Aliás, nessa minha sonetilha houve um erro tipográfico e o verso ficou melhor. Mas não foi o erro de Malherbe. Você sabe qual foi o erro de Malherbe? Minha filha chama-se Roselle. Malherbe, poeta francês do século XVI, escreveu mais ou menos isto: “rosa, ela viveu o que vivem as rosas… o espaço de uma manhã”. Mas o tipógrafo errou na grafia. Ao invés de “Et Rose, elle”, colocou “Et Rosaelle. Ficou mais bonito. Esse foi o nome que dei à minha filha, Roselle. No dia de batizar minha filha, consultei o Grand Larousse e vi que “roselle” era um pássaro canoro existente na França. E minha filha gosta muito do nome. Mas voltando à sua pergunta, fiquei muito deslumbrado com a escritura de Barthes, quando li pela primeira vez o livro Fragmentos de um discurso amoroso. Muito do Diário da rosa errância está ali. Bebi no prazer do texto. Barthes era um poeta, um grande poeta da escritura. Você sabia que ele morreu atropelado porque atravessava a rua distraído, lendo o Cidadela da rosa? (risos). Já o Foucault não era poeta, mas escrevia muito bem. Li As palavras e as coisas umas três vezes quando morava em Brasília.

MEM – Você tem uma habilidade impressionante para lidar com as palavras. Ou melhor, uma volúpia pelas palavras e suas múltiplas possibilidades sonoras, visuais e semânticas…

ACC – Eu tenho e sempre tive uma volúpia pela palavra. Geralmente, ela me seduz primeiro pela sonoridade. O som de uma palavra sempre me leva a outras palavras que me levam a outras pela força dos ecos, das paronomásias, das assonâncias, das ressonâncias. E muitas vezes ou mais de uma vez, uma palavra me desviou da métrica. No meu livro deve ter no máximo uns cinco versos alexandrinos, porque eu sempre me dediquei mais aos decassílabos. E meus decassílabos são – perdoe a modéstia – muito bem feitos, com cesura e tudo mais. Só tenho um verso decassílabo feito para minha mãe que não pude corrigir. É um endecassílabo: Única mulher que quero ver no céu. Tudo por causa da palavra única. Eu poderia ter colocado “Prima mulher”, mas não encaixava. E eu queria mesmo era “única”, não apenas porque era o vocábulo que dizia mais precisamente o que eu queria dizer, mas pela beleza do proparoxítono.

MEM – Você é um poeta que ama a beleza e que faz dela o tema privilegiado de vários poemas. O que é o belo para você?

ACC – O que sempre me encanta na vida e na poesia é a mulher. Nela está a beleza que me sensibiliza. A beleza que me estremece. Veja o “Soneto do Belo”, que dediquei a um amigo meu que é cirurgião plástico em Belo Horizonte e a quem chamei de “o esteta da plástica impossível”, pois ele tenta construir artificialmente a beleza que já existe na mulher. O poema diz assim: Da essência da beleza me alimento, / De seu mistério sempre me estremeço, / como poeta, às vezes, reconheço / que a beleza é maior que o pensamento. Nesse soneto eu roubei um pouquinho de Schiller. Penso que a paródia é grosseira, mas paráfrase é aceitável, é boa. E todos os poetas parafraseiam. Os poetas não criam, nós imitamos no inventado. Quem cria é Deus, que tira do nada.

MEM – É exatamente isso que atravessa aquele seu poema “Por que vim”, no qual você afirma: “Não vim para dizer. Se cheguei tarde / não vim para dizer./ Cheguei tarde porque tudo está falado.” A consciência de que cabe ao poeta inventar no inventado.

ACC – É, e você replicou esse poema em um poema muito bonito que dedicou a mim em seu livro Dos haveres do corpo. Mas eu nunca estive de acordo com você, poetisa. Aliás, prefiro chamar as mulheres de poetisas. Acho machismo chamar uma mulher de poeta….

MEM – Hoje eu talvez não fizesse mais aquela réplica, por entender melhor agora o seu poema… Mas continuemos nossa conversa: você já incursionou alguma vez no romance? O exercício da narrativa o atrai?

ACC – Nunca gostei de romance. Gosto de fazer o anti-romance. Quando eu morava em Brasília escrevi umas 70 páginas de um anti-romance que intitulei Cibernéias, uma parafernália da prosa, tudo empolado. Eu empolo a linguagem, as personagens, as minhas referências culturais, tudo. Um texto completamente barroco. Outro dia eu li o romance O nome da rosa, de Umberto Eco. Também uma parafernália, só que uma parafernália semiótica. Fiquei interessado no livro por causa da minha temática da rosa e por já conhecer Umberto Eco como crítico. E foi uma surpresa ver que ele é também um grande romancista. Tanto o é que as primeiras páginas de O nome da rosa – e isso foi observado no mundo inteiro – não agradam aos leitores de romance. Isso acontece com Os sertões de Euclides da Cunha. Umas quinze páginas que são uma beleza e uma prova de fogo para o leitor. No caso do livro do Umberto Eco, as primeiras páginas são melhores que o romance inteiro, porque nelas o romance ainda não começou (risos).

MEM – Voltando à poesia, qual é a sua concepção do fazer poético? Para você, a criação poética é um trabalho de transpiração, de inspiração, de respiração ou de transe? Ou é tudo isso ao mesmo tempo?

ACC – Acho que poesia é fazer. A própria etimologia da palavra diz isso. Mas o fazer poético tem também essa coisa grande, misteriosa, que é o transe. Que está lá no Fedro de Platão: o daimon. O poeta é um “daimoniado”. Um diabo no meio do redemoinho, como diz o Guimarães Rosa. Aliás, o Guimarães Rosa é também um grande poeta. O Grande Sertão Veredas, para mim, não é só um romance. É também um poema épico magnífico. Nele o daimon não está separado do fazer, do artesanato. Penso que todo poeta deve superar o artesão. Mas o artesanato é sempre importante. João Cabral, por exemplo, o poeta da “Educação pela pedra”, lavra o poema. Eu o comparo a Francis Ponge. Ele lavra o poema-objeto. Ele vai além da semiótica de Peirce. E ele consegue ultrapassar o artesão, mesmo que não admita isso. O poeta que não supera o artesão não é poeta. Existe aquela história do sujeito que estava lavrando tanto a pedra para construir uma estátua, usando com tanto vigor o camartelo e o cinzel, que a pedra virou pó. O poeta que acredita no artesanato puro e continua enxugando o poema corre o risco de transformar em pó a poesia. Alguns poetas de hoje, que fazem o culto do poema enxuto, concreto, têm, a meu ver, um quê de parnasianos. Por outro lado, acho que eles têm o lado lúdico do trocadilho, do desmembramento do vocábulo, que me agrada muito. Mas a filosofia deles está um pouco para aquilo que o Bilac coloca naquele soneto, que diz: “Quero que a estrofe cristalina, /Dobrada ao jeito/ Do ourives, saia da oficina/ Sem um defeito.” São versos de uma grande modernidade, não acha? Um culto da forma, tal como se vê hoje. Mas antes dele, Álvares de Azevedo, poeta romântico que morreu muito moço, já escrevera: “Se a estátua não saiu como pretendo/Quebro-a mas nunca seu metal emendo.” Mentira dele, pois ele emendava sim. Mas foi um grande poeta.

MEM – E a idéia de que o silêncio seria o espaço por excelência da poesia?

ACC – É, essa idéia é boa. É o que chamei de “zero absurdo”. Mas você não pode eliminar o som da poesia, a letra, a forma. O silêncio faz parte das palavras.

MEM – Qual é, para você, o papel da crítica de poesia?

ACC – Sempre fui desconfiado dos críticos. Tanto, que eu não quis para meu livro uma apresentação. E poderia ter pedido um prefácio ao Oswaldino Marques, aquele poeta que mora em Brasília e que escreveu um estudo sobre a poesia de Cassiano Ricardo. Mas preferi escrever o meu próprio exórdio, o “Topos exordial do inédito”. Prefiro eu mesmo fazer minha autocrítica. Como eu já disse, em se tratando de crítica, prefiro a crítica feita pelos poetas. Foi o T.S. Eliot que deu o grande golpe na crítica acadêmica com o seu New Criticism.

MEM – Você acredita, como Octavio Paz, que a poesia moderna está sob o signo da “paixão crítica”?

ACC – Um poeta invejável, o Octavio Paz. Eu o conheci pessoalmente, fazendo uma conferência sobre poesia em Brasília. Mas sabe o que aconteceu comigo? Não tolerei a conferência dele, pois ele só falava coisas que eu já sabia. (risos) Saí no meio. Isso aconteceu também com uma conferência do Hernâni Cidade, sobre Fernando Pessoa. Ele começou a falar da vida particular do Pessoa. Eu, que estava esperando uma conferência sobre os aspectos filosóficos de Pessoa, sobretudo o seu existencialismo, preferi ir embora. Mas acho que o que realmente marca a poesia moderna é a estranheza, não a crítica. O poeta moderno é um estranho na e à sociedade. Octavio Paz tratou disso melhor do que ninguém.

MEM – Vamos falar um pouco sobre o Diário da rosa errância e prosoemas? O que o levou a escrever um livro de prosa poética?

ACC – Nada me levou ao livro. Foi tudo circunstancial. Eu nem sabia que tinha escrito esse livro, sinceramente. Acho que eu o escrevi em uma semana, em Belo Horizonte, em 1985. Do jeito que eu sempre gostei de escrever: nas páginas brancas de um livro. No caso, um livro de Roland Barthes. Depois passei a limpo. Minha mulher, Alfa, e Roselle, minha filha jornalista, que adoram adular os meus neurônios, me estimularam a publicar o livro. Resolvi entregar também para minha filha a série de 200 prosoemas intitulada “A minha deslumbrada”, para ela selecionar alguns. Ela selecionou 93. E engraçado você ter dito, um dia, que esses textos tinham algo do surrealismo. Eu já tinha, naturalmente, lido André Breton nessa época. Mas meu surrealismo no livro foi inconsciente. O que me inspirou mesmo – e aqui me refiro aos Prosoemas, que estão no final do livro – foi o trabalho dos pintores italianos, em especial de Fra Angelico, Leonardo da Vinci e Michelangelo. El Greco também me influenciou. Já no Diário da rosa errância, retomo a temática da rosa. Mas fiz aí uma coisa que nunca tinha feito antes: escrevi textos em prosa com frases curtas, concisas, nas quais a palavra vai puxando a palavra. Lembro que minha filha me falou: pai, esse livro está muito erótico! E respondi que não tinha importância, porque meu erotismo não tem “pornéia” (risos).

MEM – Mas a sua poesia é essencialmente erótica, mesmo em Cidadela da Rosa. É uma poesia que, além de ter uma volúpia pela palavra e de explorar as múltiplas possibilidades sensoriais, corporais da linguagem, aborda, com freqüência, uma temática voltada para o amor, o corpo, a mulher.

ACC – Pois é. Tenho um soneto em versos alexandrinos, chamado “Perpétua”. Todo simbolista. E o que me levou a escrever o poema foi exatamente a palavra “Perpétua”, que me seduziu. Sou um seduzido pelas palavras. São elas que me erotizam no poema.

MEM – Como você vê a poesia contemporânea no Brasil?

ACC – Não vejo nada. Além de João Cabral, não existe nenhum grande poeta no Brasil hoje.

MEM – Você poderia falar um pouco sobre sua formação? É realmente impressionante a sua erudição, a sua história de leituras nos mais variados campos do saber.

ACC – Sou um autodidata no campo das Letras. Cursei Farmácia e Bioquímica, mas não fiz nenhum curso na área de Humanidades. No meu tempo, tudo era mais limitado. Não havia as escolas de Filosofia que existem hoje. Talvez eu devesse ter escolhido o Direito, que é mais próximo da Literatura. Mas eu sempre li de tudo. Só não li muitos romances. Apenas alguns clássicos. Li muita Geografia, Filosofia, Química, História, Biologia. Os livros de ciências são tão importantes para a poesia quanto os de literatura. Goethe, por exemplo, era um cientista. Ele escreveu uma tese sobre as cores e pôs muito da sabedoria científica dentro dos seus versos. Eu não quero me comparar a Goethe, pois é impossível fazer uma comparação dessas, mas eu coloquei muito de minha sabedoria esparsa, vinda do campo das ciências, dentro de meus poemas. Sem querer, sem saber. Inconscientemente. Aquele poema mesmo, o “Discurso”, que está na Cidadela, foi escrito dentro do livro Arqueologia do Saber, do Michel Foucault. A arqueologia me atrai até hoje.

MEM – Mas você é um arqueólogo das palavras, que sabe “escavar o palimpsesto do que te resta”…

ACC – Pode ser. Mas para meter a pá no entulho do sexo para desenterrar ninhos… (risos)

MEM – Você é também um poeta que ama as mulheres, que elege musas para seus poemas. O que tem a dizer sobre isso?

ACC – Vinícius de Moraes dizia: As feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental. Mas não é bem assim. Às vezes basta que uma mulher tenha um belo nome. Ou uma pinta no nariz. Ou olhos de cabrita assustada, no espanto de ser. Ou mágoas de Flor-Bela. A mulher é necessária ao poeta. Ela é – vou usar aqui um neologismo – uma “ademarragem” para o poema. Mas a química, a filosofia, a física, a arte também são. A mulher não é a única musa do poeta. Uma vez fiz uns versos inspirados na poesia surrealista de Murilo Mendes, que dizem mais ou menos assim: os carneiros esgrimam o enigma dos chifres / as mulheres esgrimam o enigma das lágrimas. Aliás, tenho em um caderno várias frases surrealistas que fui anotando aos poucos. Uma delas é: A tua simpatia (de pathos) passeia primaveras em meu rosto. A outra: Atingido de azul, trapaceio com as palavras a claridade de um anjo. E tem uma outra, que fiz para uma menina de 17 anos, que me mostrou uns poemas que havia escrito: Anjo isósceles, com inspiração para agarrar o azul. Foi daí que tirei para o meu futuro livro o título Inspiração para agarrar o azul. Um livro que talvez eu nunca escreva, mas que já existe.
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Maria Esther Maciel (Brasil, 1963). Poeta, ensaísta. Autora de livros como A lição do fogo (1998), A memória das coisas (2004) e O livro de Zenóbia (2004). Entrevista originalmente publicada na revista Alpha (Patos de Minas, UNIPAM, 2002).

Fonte:
in
Altino Caixeta de Castro: do espanto da palavra e outras perplexidades
Agulha Revista de Cultura Nº 46 – Fortaleza/São paulo – julho de 2005
Entrevista obtida em Do Próprio Bolso

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Arquivado em Entrevista, Minas Gerais, O Escritor em Xeque

Antonio Brás Constante (O Homem Atrás do Escritor, o Escritor Atrás do Homem)

O que são estas entrevistas?
Visando um meio de aproximar o público do escritor, de modo a que não enxerguem como tal , mas o homem que existe atrás dos livros, estou criando entrevistas selecionadas, enviadas a diversos escritores, que mostrará ao público leitor que atrás de seus livros, é um ser humano com sentimentos, opiniões, lutas, vitórias e derrotas.

São perguntas exclusivamente de cultura literária, não havendo envolvimento político, futebolistico, e qualquer outro ico. Caso tenha “bronca” de alguém em alguma pergunta, por favor, dê um nome geral, sem mencionar nomes. Por exemplo: O Lula está “ferrando” com a literatura. Então usemos, o Governo Federal não tem aplicado nenhum recurso a favor da literatura.

As perguntas procuram seguir uma ordem conforme os tópicos maiúsculos negritados. A intenção é que o colega escritor se sinta a vontade em responder aquelas que se sinta a vontade para falar. As de importância para nossa entrevista virtual estão negritadas, em itálico e sublinhadas.

Não há uma data para envio, deixando para que respondam dentro de seu tempo disponível.

NOTA DO AUTOR ENTREVISTADO: Antes de iniciar, gostaria de frisar aos que forem continuar lendo esta singela entrevista, que sou um escritor meio fora dos padrões convencionais ao termo (por isso mesmo definido como eterno aprendiz de escritor), por isso lhes peço, não me desejem mal…

INFANCIA E PRIMEIROS LIVROS

• Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

Parafraseando o Analista de Bagé, posso dizer que minha infância foi normal, o que não aprendi no galpão, aprendi atrás do galpão. Nasci em Porto Alegre e me perdi por Canoas, onde cresci. Me formei em Ciência da Computação, mas daí me apaixonei perdidamente pela escrita, e passei a ser seu escravo, transcrevendo os delirios que esta Diva sussura em minha mente.

Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?

Não existiam computadores, algo que pode parecer meio pré-histórico para essa gurizada hi-tech, mas não vejo tanta diferença para os dias de hoje (também não sou tão velho assim), no fim tudo se resume a querer aprender, pois no nosso mundo ou você aprende enquanto é novo ou alguém te prende depois.

Recebeu estímulo na casa da sua infância?

Sim, meu maior estímulo foi ser péssimo em futebol, algo que me deu bastante tempo livre para me dedicar aos livros.

Qual o seu primeiro livro e do que falava?

Meu primeiro e único livro chama-se: “Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE” e trata-se de um livro de crônicas que considero genérico aos livros do L.F. Verissímo, pois dispõe do mesmo princípio ativo: O Humor.

P.S: se a pergunta foi qual o primeiro livro que eu li, sinceramente não lembro…

Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever.

Foram muitos, mas a série “para gostar de ler” foi bem importante para mim nessa época.

O ESCRITOR

• Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?

Minha vida literária se dividiu em duas partes. Na primeira etapa (fase adolescente) escrevi alguns textos na época do segundo grau (era assim chamado naqueles tempos), buscando melhorar minhas notas nas aulas de português, acabei gostando muito de escrever, mas tão logo concluí os estudos parei, adormecendo o escritor que dentro de mim existia. Somente ao final da faculdade voltei a escrever (quase quinze anos depois), graças ao empurrão de um grande amigo chamado Zé Gadis, que era chargista. A coisa começou como uma brincadeira, ele desenhava caricaturas dos colegas de empresa e eu fazia as mensagens para os cartões de aniversário. Aos poucos fui me viciando no ato de escrever, e não parei mais.

• Como foi dar esse salto de leitor pra escritor?

Foi estranho, tanto que até hoje me defino como um eterno aprendiz de escritor. Não me intitulo como escritor profissional, porque acho que isso acarreta uma responsabilidade muito grande, e não gosto de sentir este tipo de obrigação nas costas, como um fardo. Por isso prefiro ser um aprendiz, poder ousar, errar, viajar, tratando a arte de escrever como uma deliciosa brincadeira.

• Teve a influência de alguém para começar a escrever?

Além do meu amigo Gadis, do qual já citei antes, também tive as influências literárias de escritores como: L. F. Verissímo, Barão de Itararé e Douglas Adams.

• Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)?

Sim, todos os meus textos publicados estão disponíveis no site: recantodasletras.uol.com.br/autores/abrasc

• Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

Viver de literatura?? Rsrsrs… isso existe?? Rsrss. Falando sério, na verdade eu tento dar vida a literatura, mas não sobrevivo dela. Algo que me chama a atenção neste País é que muitos leitores tem preconceito com a literatura nacional. São pessoas que consomem tudo que vem de fora, mas torcem o nariz para o que é produzido aqui.

Como foi que você chegou à poesia?

Para mim a poesia é como um arrepio de frio, um bocejo, um tropeção em uma pedra, chega sem aviso e se vai sem explicação. Para não perder a viagem acabo escrevendo o que senti naquele momento, mas não sou exatamente um poeta.

SEUS LIVROS E PREMIOS

• Como começou a tomar gosto pela escrita?

Quando comecei a rir do que escrevia, acho que o primeiro ponto para alguém se tornar escritor é gostar daquilo que escreve.

• Em que você se inspirou em seus livros?

No cotidiano, temperando situações do dia-a-dia com pitadas de humor.

Como definiria seu estilo literário?

Posso dizer que meu estilo literário ainda encontra-se em construção…

• Dentre os livros escritos por você, qual te chamou mais atenção? E por quê?

Foi o livro “Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE” que por ter sido o único até o momento, me chamou a atenção por total falta de opções.

• Que acha de sua obra?

Fiz um livro que eu gostaria de ler se fosse outra pessoa, e olhando a obra desta forma posso dizer que considero este livro, como um filho textual. É um livro que apesar de não seguir o mesmo estilo literário dos livros da Bruna Surfistinha, também é cheio de gozação.

• Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

Posso dizer sem sombra de dúvidas, que se não fosse a internet, meu trabalho como escritor praticamente não existiria.

• Tem prêmios literários?

Sim, fui vencedor do oitavo concurso de poesias, contos e crônicas, na categoria crônicas. Prêmio oferecido pela fundação cultural de Canoas. Também ganhei uma mochila cheia de chocolates BIS em uma promoção de frases da Nestlé.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

• Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?

Na realidade, para me inspirar a situação ideal seria poder relaxar em uma sauna com aproximadamente umas cinco beldades seminuas ao meu redor, mas como minha esposa desencoraja este tipo de “ambiente” para mim, argumentando silenciosamente com seu rolo de macarrão em punho, venho me contentando com um tempinho livre em qualquer lugar mesmo, onde possa rabiscar ideias para depois colocá-las no micro.

• Você projeta os seus romances? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os romances?

Não escrevo romances, mas as ideias sobre novos textos vem em golfadas dentro da minha cabeça, depois coloco tudo no papel (entenda-se “papel” o editor de texto) e vou aprimorando o texto até ficar de um jeito que acho interessante.

• Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

Acho que sem vocação, não haveria prazer em escrever e consequentemente a pessoa não seguiria por este caminho, ou se seguisse, não seria por muito tempo.

• Como surge o momento de escrever um livro?

O momento certo para se escrever um livro é quando uma editora cai do céu e se propõe a publica-lo. Se isto não acontecer, tente conseguir alguma verba para pagar a editora, e o resultado será o mesmo.

• Quanto tempo você leva escrevendo um livro?

Deixe-me ver… Escrevo um novo texto a cada semana, meus livros tem em média 28 textos, ou seja, levo em torno de sete meses para ter material suficiente para um novo livro.

• Como foi o processo de pesquisa para a escrita de seus livros?

Alguns textos realmente precisam de pesquisa, algo que poderia ser feito em várias bibliotecas ou utilizando o Google. Considero a pesquisa essencial para dar profundidade ao texto e para não escrever minhas “pérolas textuais” de forma equivocada.

• No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

Tudo depende do que a pessoa vai querer escrever. Eu, por exemplo, adoro ler gibis (considerados por muitos como porcarias), sou fã de tirinhas de jornal, e sempre que tenho tempo dou uma olhadinha no Big Brother Brasil.

O ESCRITOR E A LITERATURA

• Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir?

Sou um curioso nato, gosto de sempre que possível experimentar coisas novas, comidas diferentes, autores diferentes, lugares diferentes. Vou aproveitar este espaço para divulgar o trabalho de um mestre-poeta que conheci ao acaso no mundo virtual, o Dário Banas (http://estranhamobilia.blogspot.com). Suas poesias são fantásticas.

• Na sua opinião, que livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

É dificil opinar sobre o que seriam livros “obrigatórios”, já que sou adepto da leitura espontanea. Acho que se um autor consegue cativar um leitor, sua leitura já deveria ser desejada e incentivada, pois teria o seu mérito.

• Qual o papel do escritor na sociedade?

Com certeza seria um papel escrito. Rsrsrs. O escritor é aquele sujeito que cutuca o outro, chamando sua atenção para uma outra realidade. É função do escritor abrir as janelas da imaginação para que as pessoas possam olhar o mundo e viajar por ele.

• Há lugar para a poesia em nossos tempos?

Claro que há, sempre tem alguma gaveta vazia em algum lugar. Mas o melhor lugar para se guardar a boa poesia é dentro dos compartimentos de nossas mentes. A poesia não é um almoço que se come religiosamente todo santo dia, mas uma fruta suculenta que é sorvida, e escorre seu néctar pela boca, deliciosamente, saciando nossa fome poética.

A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR

• O que o choca hoje em dia?

Quando percebo que a insensibilidade anda tomando conta do mundo, de tal forma que nada mais parece chocar, confesso que fico chocado.

• O que lê hoje?

Além das tradicionais bulas de remédio, cuja leitura é indispensável para uma vida saudável, leio o que me cai nas mãos, terminei há pouco de ler o livro “Ensaio sobre a cegueira” do Saramago. Por enquanto, estou apenas na companhia das revistas e suas reportagens criativas.

• Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

Atualmente ando respondendo um questionário sobre literatura da melhor forma possível, e confesso que estou adorando. Fico na torcida para que meu amigo virtual, José Feldman, publique estas minhas respostas espontâneas em seu portal. Não possuo outros projetos.

• De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?

Toda raiz cultural começou através de uma veia popular, a cultura nasce no seio da população, enriquece e muitas vezes acaba elitista. Acho que a globalização é um bom instrumento de fomentar e divulgar a cultura, de termos contato com outras culturas.

CONSELHOS PARA OS ESCRITORES

• Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

Querer se consagrar como escritor é o mesmo que se lançar ao oceano buscando chegar a uma ilha repleta de tesouros, voce nada, nada e muitas vezes não acontece nada. Se desistir, ou se afoga, ou a maré te leva de volta para o anonimato de onde saiu. Por isso quero dizer para quem quiser começar a escrever, que escreva por prazer, sem querer visualizar um horizonte. Escreva pelo mesmo motivo que respira, para viver. A melhor recompensa para quem escreve é gravar para eternidade seus pensamentos, suas ideias, suas loucuras. O resto é pura consequencia.

• O que é preciso para ser um bom poeta?

Entendo que a poesia é uma forma de dança onde as frases ocupam o lugar dos movimentos. Não se escreve uma poesia para que ela seja “bonitinha”, a poesia é a essência dos sentimentos, derramados no papel de um jeito ritmado.

Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais, opiniões, crítica, etc.

Estou distribuindo meu livro em PDF gratuitamente para quem quiser conhecer a obra, basta me enviar um e-mail para : abrasc@terra.com.br e pedir uma cópia.

E para encerrar a entrevista

Quero agradecer a iniciativa do Feldman em ceder este espaço para que os escritores possam falar um pouco sobre suas obras e divulgá-las. Deixo aqui registrado meu muito obrigado.

• Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?

PRIMEIRO pediria que ele aumentasse a dose de humanidade nos seres que se definem como humanos.

SEGUNDO Pediria a ele que largasse este bico de gênio realizador de desejos e voltasse a trabalhar em prol do mundo, já que depois do sexto dia (ele parou para descansar no sétimo) as coisas andaram piorando bastante por aqui.

TERCEIRO pediria para ele sair um pouco para o lado (já que ele estaria parado na minha frente) para que eu pudesse terminar de ver na televisão a sua maior obra, o seriado de “Os Simpsons”.


Gostaria de agradecer este momento em que você divide o escritor e a pessoa atrás do escritor com os leitores do blog. Cada escritor segue um caminho diferente, tem pensamentos diferentes, mas uma coisa eles tem em comum, dividir seus textos com o público. Já são lguns anos que Constante é colaborador do blog, enviando mensalmente seus textos. Mas, paremos por aqui, afinal Hoje é seu aniversário? Prepare-se.

Fonte:
José Feldman por e-mail com Antonio Brás Constante

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque, Rio Grande do Sul

Ney Gastal entrevista Mário Quintana (“Incomoda quando ninguém se preocupa comigo”)


Entrevista realizada por Ney Gastal para o Caderno de Sábado, do Correio do Povo

Podem achar engraçado, mas não vale rir. Em minha coleção de recortes, esta entrevista com Mário Quintana ficou sem data. Talvez haja explicações: o poeta sentava de frente para mim, na antiga redação do Correio. Eu o via todo dia, aguentava suas caretas, ranzinice, mau humor. Aquela imagem de santo barroco que ele cultivava, com a ajuda de todo o pessoal da redação, não era assim, uma verdade. Mas, também, ele tinha lá seus motivos para ser ranzinza. Ninguém, em toda a redação, era tão atazanado por chatos quanto ele.

Certa manhã, jamais vou esquecer, entrou apressado na redação, veio até minha mesa, me empurrou pedindo licença e foi avisando: “Diz que não estou”. E enfiou-se debaixo da mesa de aço. Logo atrás, surgiu redação adentro um dos maiores poetas e chatos que este país já teve. Quintana até era seu amigo e admirador de sua poesia, mas, como a maioria, não aguentava sua chatice pessoal e sempre que podia dava um jeito de sumir. Nem que fosse escorregando para baixo da mesa. Era assim, uma figura tão próxima e íntima (quem já teve um grande poeta escondido debaixo da mesa?) que esqueci de datar sua entrevista. Mas prometo pesquisar, descobrir e – assim que puder – colar aqui o devido registro. Por enquanto, basta dizer que foi publicada no “Caderno de Sábado” do “Correio do Povo”, relativo ao 70º aniversário do poeta. (Ney Gastal)

Entrevistar o poeta é como um duelo daqueles de filme antigo, em branco e preto, onde o bandido acaba inapelavelmente encurralado. Entrevistar o poeta é como um duelo, onde ele é o mocinho e nós, sem chance, o bandido. Raros são seus momentos de calma. Na semana de seu aniversário sempre há alguém querendo arrancar dele uma ou outra palavra. Por vezes apenas recusa; outras, lança um olhar desolado em torno, dá de ombros e sujeita-se; outras, ainda, levanta-se e traz o potencial entrevistador até o armário atrás de minha mesa, onde está colocada uma cópia da “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, e aponta o Artigo XII. Apenas isto, e poucos são os que continuam a insistir. Diz o artigo: “Ninguém será sujeito a interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência nem a ataques a sua honra ou reputação. Todo homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques”. Sinto, poeta, mas era preciso que o ‘Caderno de Sábado” tivesse uma entrevista. E, afinal, alguém que é nada mais, nada menos, que a identidade secreta do Anjo Malaquias, deve ter um pouco de paciência, não?

MQ: O Anjo Malaquias é uma figura mitológica que criei como símbolo da frustração. Portanto, não se trata do seu autor.

A esta altura da vida, continuas teimando que te deixem em paz, que deixem de lado tua pessoa em função de tua obra. Mas por de trás desta modéstia deve haver uma grande vaidade por tudo que já foi feito. Não é?

MQ: Não se trata de modéstia. É que eu sou muito orgulhoso para ter vaidades, tão próprias dos satisfeitos. Um poeta, mesmo, nunca é um auto-satisfeito.

– Dizem que “os verdadeiros poetas não lêem outros poetas; os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais”. Tu, além disto, vives muito tempo dentro da redação do jornal. Ajuda a poetar?

MQ: Tudo ajuda poetar, tudo atrapalha poetar. Mas, nos momentos de criação, onde quer que se esteja, as injunções de ambiente desaparecem na alegria da criação. Poesia é alegria, porque, por mais infeliz que esteja acaso o poeta, se ele consegue expressar isso com toda a felicidade – cadê tristeza?

– Escreveram que terias dito que “Porto Alegre era uma pequena cidade grande; hoje é uma grande cidade pequena”. Foi isso? Pelo que ela era é que nunca saíste daqui?

MQ: O que eu disse, ou pretendia dizer, era que Porto Alegre era uma grande cidade pequena e hoje é uma pequena cidade grande. Será que bolei as trocas sem querer? Ou.serão permutáveis os termos da proposição? Mas até as cidades do interior se estão padronizando: lanchonetes, etc. onde estão aqueles antigos cafés e bares espaçados como um salão de dança?

– Como vive o poeta dentro da estrutura desumanizada que é este nosso planeta?

MQ: Há uma infinidade de gente que julga desumanizado o meio em que vive. Mas convém não esquecer que todos os grandes movimentos começaram com pequenas minorias.

– E a Academia Brasileira de Letras, aceitarias participar dela?

MQ: A Academia não convida. A gente é que tem de candidatar-se, solicitar votos pessoalmente, arranjar pistolões. Há gente que não dá para isso. Eu também não.

– O poeta simples é assunto para críticas complexas. Como vês a crítica e como encaras os críticos?

MQ: Gosto da crítica interpretativa. Só não gosto da que condena um poeta pelo que ele não é.

– A tua poesia tem sido efetivamente compreendida pela crítica?

MQ: Augusto Meyer, Carlos Dante de Morais, Fausto Cunha, Guilhermino César e alguns outros não oficialmente críticos antes de tudo “sentiram” a minha poesia e por isso mesmo a compreenderam.

– Quais os poetas que influíram na tua formação? Há entre eles algum gaúcho?

MQ: Primeiro o “Tico-Tico”, depois Antônio Nobre, que foi meu companheiro de infância. Ah, e Camões, o velho bruxo!

– Tuas leituras de moço abrangeram a poesia inglesa ou toda tua formação foi através de francesa?

MQ: Apenas através da língua francesa: vim da “Belle Époque”…

– A pergunta clássica: como conceituas tu mesmo a tua poesia?

MQ: Uma poesia profundamente emotiva. Daí, a ter ela atravessado três gerações.

– Voltando um pouco atrás: conta um pouco de tua vivência aqui na redução do “Correio”.

MQ: A minha vivência no “Correio” é ótima para a minha saúde espiritual, devido ao bem com que me tratam..

– Pergunta sugerida por um diretor teatral: és um poeta solteiro ou um poeta sem mulher?

MQ: Agora, aos setenta, sou um solteiro viúvo.

– Do cinema de todas as semanas, o que mais te marcou? Há muito e há pouco tempo.

MQ: Há muito tempo “O Cidadão Kane”. Recentemente, “Um Estranho no Ninho” e “Cabaret”.

– Do cinema para a televisão. É que seguido estás olhando para o aparelho aqui da redação. Gostas ou é porque ele está tão perto de tua mesa?

MQ: Aquelas figuram que se movem na TV causam o efeito sedativo de quando a gente olha a dança das chamas na lareira. Sedativo, desde que não se preste atenção ao que dizem.

– Recebes melhor estudantes que vêm te entrevistar do que jornalistas. Por que a discriminação?

MQ: Os estudantes e as estudantes me fazem voltar à idade deles. Tenho o dom de sempre me achar com a mesma idade das criaturas com quem estou falando. Se há alguma discriminação, deve ser esse o inconsciente motivo.

– O “Caderno H” é composto de frases sobre vários assuntos. Que tal uma frase sobre o “Caderno H”?

MQ: Hummm… Uma coisa inominável?

– Falam de tua solidão, muita gente diz preocupar-se com ela. Mas não me parece que o poeta seja um ser só. Talvez os outros projetem nele suas próprias solidões. Não é?

MQ: O único problema da solidão é saber como preservá-la. Não poder estar só é o que acontece a um indivíduo (?) do rebanho. Tens razão ao dizer que um poeta não te parece um ser só. Tive amigos, sim. Morreram. É difícil estabelecer novas amizades porque uma amizade se baseia em velhas recordações comuns.

– No futuro os estudiosos da literatura brasileira vão esbarrar num muro de silêncio, ao estudarem Mário Quintana. Por que não falas sobre ti, sobre teu passado. Por que este recato tão grande com tuas recordações ?

MQ: A minha biografia está implícita nos meus poemas. Toda confissão não transfigurada pela arte é uma falta de linha, uma presunção. O que é que os outros tem a ver com isso?

– Três poetas da nova geração e do teu agrado?

MQ: Daqui dos pagos ? Ayala, Duclós, Nejar, Trevisan, em ordem alfabética.

– Pretendes repetir Goethe e ser um velho prolífero ou achas que há um momento para silenciar?

MQ: Às vezes tenho momentos de “Lama, lama, sabáctani” e penso que a lagoa secou e só ficou o jacaré. Mas de repente me dá uma coisa, um treco, e sai um poema, uma observação. Isto me alegra por causa de meus leitores, dos meus fregueses de Caderno.

– Projetos?

MQ: Viver.

– Ressentimentos?

MQ: São passageiros.

– Por que respostas tão curtas?

MQ: O laconismo é a essência do estilo.

– Além de dar e suportar entrevistas, o que mais te incomoda?

MQ: É quando ninguém se preocupa comigo.

Fonte:
http://www.artistasgauchos.com.br/

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Guido Wilmar Sassi (O Escritor em Xeque)


entrevista publicada no jornal da Fundação Catarinense de Cultura de setembro de 2002

Como apresentaria sociológica e culturalmente seu núcleo familiar de origem e seu meio ambiente? (Onde e quando nasceu, a família, os pais, a infância, as primeiras experiências, os brinquedos, etc.)

– Guido Wilmar Sassi – Nasci em 1922, em Lages, interior de Santa Catarina. Família pobre. Lages era, então, uma cidadezinha. Quando eu tinha sete anos, a família mudou-se para Campos Novos, muito mais cidadezinha do que Lages. Dos sete aos dezoito anos, morei em Campos Novos – lá passei a época mais feliz da minha vida.

O mar sempre foi uma das minhas maiores paixões. Então, como as cidades da minha infância e juventude situavam-se a uns novecentos e tantos metros de altitude, e muito longe do litoral, eu inventava setenta e sete vezes sete mares para meu uso próprio e prazer particular. Isso graças aos filmes e livros de aventuras marítimas e principalmente a minha imaginação e fantasia, que nunca respeitaram limites, fronteiras ou acidentes geográficos. As árvores eram os meus navios. Eu era tudo: grumete, marinheiro, pirata, imediato, capitão e armador – enfim, o criador, o dono absoluto, pois, não raro, em batalhas memoráveis, eu costumava pôr todos os meus navios a pique. Desses meus barcos, um eucalipto enorme eu transformei em pinheiro (araucária) e contei sua história (mais ou menos real) no conto “O naufrágio do Black Ship”, publicado em “Este Mar Catarina”, antologia de autores catarinenses.

Hoje eu moro literalmente a dois passos do mar, meus filhos são mergulhadores profissionais, escrevei contos e romances marinhistas, mas ainda sinto uma baita saudade do meu mar de outrora, o oceano de mentirinha da minha infância.

Meus avós paternos, os Sassi, eram italianos, agricultores e analfabetos. Foi pequena minha convivência com eles. Lembro que Nonno Velho fumava cachimbo enorme e fedorento, cujo sarro ele costumava receitar para dores de dente e de ouvido!!! Clemente Sassi ignorava o dia, o mês e até mesmo o ano do seu nascimento; sabia apenas que nascera na época do plantio de milho… na Itália. Ah! Ele também não sabia dizer o nome da aldeia onde se dera o nascimento.

Apesar da paralisia infantil (poliomielite) que me atacou aos dois anos de idade, e da pobreza relativa, minha infância foi muito feliz. Superei as restrições impostas pela doença e consegui dançar (danço até o rock e a lambada – é só haver ocasião, inspiração e provocação), praticar esportes e espantar os fantasmas do complexo de inferioridade.

Hoje, vistos à distância, e analisados friamente, chego à conclusão de que meu pai e minha mãe foram as pessoas mais maravilhosas do mundo. Minha mãe, principalmente, devia ter algum parentesco com as fadas: ela transformava tecidos feios e sem graça em roupas lindas; em suas mãos e com o seu tempero o alimento mais trivial logo virava comida saborosa ou delicioso doce.

Quase todas as consoantes da língua alemã foram usadas no sobrenome do meu avô materno: Clemente Hamitzsch. Náo o conheci. Ele sempre me pareceu uma pessoa misteriosa, figura de ficção de romance. Pelo que me contaram, dele herdei o gënio violento e o gosto de admirar as artes plásticas. Meu avô alemão era escultor, mais propriamente um imaginário. Tempos atrás, andei procurando em Lages as suas esculturas. Encontrei um São José feito por encomenda e alguns trabalhos de cantaria no cemitério da cidade. Clemente Hamitzsch morreu no início do século – dizem que se matou. Faço dele a imagem de um aventureiro, uma espécie de cavaleiro andante beberrão e fora do seu ambiente e do seu tempo.

-Lembra de algum episódio gostoso ou dramático do primeiro período de sua vida?

Guido Wilmar Sassi – Aconteceu na minha infância um fato muito importante que iria decidir minhas leituras futuras e influenciar minha vocação literária. Encontrei o objeto dessa influência na mesa de leitura de minha avó: um velho dicionário. O livro, de tão velho, já estava sem capas e sem as páginas iniciais e finais. Fui buscá-lo agora mesmo na minha estante para confirmar. Meu Deus, como ele é velho! – somente comigo já está há mais de setenta anos. Meu dicionário começa na página 17 e não tem as letras “w”, “x”, “y” e “z”, cabendo registrar, ainda, que a letra “v” está incompleta. Creio que esse dicionário foi minha primeira leitura. Nunca soube quem foi o seu autor, e agora não quero mais ficar sabendo: é um mistério gostoso ignorar quem elaborou um livro que me ensinou tanto.

Existem várias histórias envolvendo o meu velho dicionário. Vou contar uma. No curso primário, quando minhas aulas eram a tarde, emprestei o dicionário a um amigo que freqüentava o mesmo curso, porém na parte da manhã. Passaram-se alguns meses e eu cheguei a esquecer o amigo, o empréstimo e também o dicionário. Certa vez, quando coloquei meus pertences escolares na carteira, lá encontrei o meu querido livro – o amigo descuidado ali o esquecera. Não pensei duas vezes: levei o dicionário para casa e solicitei ao amigo a sua devolução. Que drama! Até Santo Antonio foi convocado para reencontrar o livro. A mãe do rapaz levou o caso ao conhecimento de uma velha que deitava as cartas, via a sorte das pessoas e descobria o paradeiro das coisas. Tudo inútil. Então, para saldar a dívida, meu amigo pagou-me o preço de um livro novo: cinco mil réis. Uma boa quantia, na moeda da época. Foi a primeira vez que ganhei alguma coisa com os livros. Se eu me envergonho da safadeza? Não, absolutamente não.

– Qual o tipo de educação recebida?

– Guido Wilmar Sassi – Cursei o primário e parte do ginásio, enquanto meu pai era vivo. Deixei os estudos, sem concluir a quarta série ginasial. Tornei-me autodidata.

-Qual a “biblioteca”, as leituras de seus verdes anos?

– Guido Wilmar Sassi – Minha primeira leitura foi, sem dúvida, o velho dicionário de minha avó. Ele despertou meu gosto pela literatura e mito contribuiu para o nascimento de minha vocação de escritor. Somente depois de muitas viagens através do maravilhoso léxico foid que descobri os livros infantis, os policiais, os romances de aventuras e de ficção científica.
Quando recordo minhas primeiras leituras, não posso deixar de mencionar a grande biblioteca oral que se chamava

Gertrudes Hamitzsch, minha avó. Eu era ainda bem criança quando ela me apresentou a um certo Shakespeare – isso muitos anos antes que eu aprendesse a ler. Naquele tempo havia umas litogravuras que reproduziam cenas das peças mais famosas do célebre dramaturgo inglês. Vó jamais entendeu direito o que o amalucado Hamlet fazia com uma caveira nas mãos. E, como nas litogravuras não havia nenhum texto, nunca nos importamos com o tão conhecido dilema “to be or not to be”. D. Gertrudes se emocionava sempre que se referia aos trágicos amores de Romeu e Julieta, mas eram as estampas de Otelo que a apaixonavam mais. No conceito de vovó o Doge de Veneza era apenas o “coitado do pai”; Desdêmona se transformava em “a pobre da moça”; e ao mouro Otelo minha avó reservava uma apreciação nada elogiosa: “não passa de um caco sujo”. Vovó er ameio racista. Com o tempo, descobri que o velho William Shakespeare dera apenas o chute inicial; a mais das histórias, na maioria das vezes, era tudo invenção de minha avó.

Quando eu tinha mais ou menos doze anos, mudamo-nos para uma casa na qual havia um sótão enorme. Ah, o sótão da minha infância! Era o país dos mistérios, dos milagres, das coisas fabulosas, dos segredos apaixonantes, da fantasia e do encantamento. No sótão o antigo dono da casa deixara um caixoto cheio de livros. Pirata algum jamais se apossara de butim maior – nem tão precioso. Um dos livros, sem as capas e sem as primeiras e derradeiras páginas, tratava das andanças de um povo errante e brigalhão, que morria e matava por causa de um Deus Único, e cujos herós estraçalhavam leões, dizimavam exércitos, decapitavam gigantes, faziam parar o sol, abriam caminho nas águas dos mares e atormentavam e venciam o poderoso Pharaó, rei de um país de nome Egypto. Esse livro fazia menção a um verbo de poderes mágicos: homens lutavam por causa desse verbo, crianças nasciam pelos seus efeitos. Na época eu descobri o significado do termo conhecer, mas somente alguns anos mais tarde fiquei sabendo que estivera lendo a Bíblia.

Mais tesouros havia no caixote: gramáticas de línguas estrangeiras (alemão, inglês e francês), compêndios de Física e Química, de História Natural e História Universal, manuais de Medicina. Tudo isso eu li, ao mesmo tempo em que fazia outras descobertas: Monteiro Lobato, nosso grande autor de livros para crianças, Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro, A Ilha do Tesouro. Ah, maravilha! Eu fui Jim Hawkins uma centena de vezes), Sherlock Homes, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Cervantes, Emílio Salgari, Tarzan, Júlio Verne e o universo encantando da ficção científica.

Daí, quando o conteúdo do caixote acabou, eu passei a vender garrafas e vidros para comprar livros. Os vidros tinham que ser lavados primeiro; era ssim: a gente pegava os vidros, enchia-os com água, sabão e grãos de milho ou bolinhas de chumbo, e chacoalhava até cansar o braço. Então a farmácia de Campos Novos comprava os vidros para enchê-los com remédios.
Eu levava uma eternidade inteira lavando os vidros e farrafas para juntar o necessário a compra de dois ou três livros; de depois, eu tinha que esperar mais toda uma eternidade até que os volumes chegassem a cidadezinha. Mas era compensador – eu conquistava séculos, milênios de entretenimento e cultura.

– Repassando na memória esse período de formação, encontra a figura de um “mestre” de vida que o marcou?

– Guido Wilmar Sassi – Mamãe e vovó foram as minhas verdadeiras mestras, na vida e na literatura. Meu pai, o velho Chico, ensinou-me a ser homem, a ser gente.
Houve também um irmão franciscano, Frei Sebastião da Silva Neiva, cujas lições foram de grande proveito para a minha formação literária. O querido e saudoso Teacher (ele era professor de português e de inglês) dirigia em Lages um pequeno semanário; foi ele quem publicou meus primeiros escritos.

– Como, quando e por que começou a escrever? Como nasceu a vocação de escritor?

– Guido Wilmar Sassi – Minha vocação de escritor deve ter sido herança de minhas duas mestras: Mamãe e vovó. O ambiente em que passei a minha infância e a juventude, apesar de todos os percalços e limitações, era notadamente literário. Depois de algumas gerações de escritores frustrados, sem livros, a minha geração teria que, forçosamente, dar um escritor.
Não sei exatamente quando comecei a escrever. Deve ter sido quando comecei a ler pelo prazer da leitura e, assim, creio que as minhas primeiras experiências literárias se iniciaram aos doze anos de idade.

Eu sempre quis ser ficcionista: contos, novelas e romances. Outros gêneros não me tentaram. Queira ou não queira, tenho que voltar o meu velho dicionário, tenho que responsabilizá-lo, em grande parte, pelo nascimento da minha vocação. Toda a vida eu considerei o dicionário um livro de viagens, de aventuras, e o meu primeiro dicionário, sem capas, sem título e sem autor, foi o meu primeiro barco no mar das palavras. Hoje, quando sou verbete de dicionários e trechos dos meus livros são citados para abonar vocábulos (Aurélio – Novo Dicionário da Língua Portuguesa), ainda consulto o meu amado léxico. Abro suas páginas (são as velas de um navio amigo, seu porão está repleto de lembranças, de saudades) e viajo nele… e com ele.
É antiqüíssima a ortografia do meu dicionário. Não sei mais quantas reformas ortográficas o português do Brasil sofreu depois que me tornei seu dono. Farmácia, fósforo e tísica estão grafadas assim: pharmamcia, phosphoro e phtisica. Uma delícia.

Volto sempre ao dicionário e também volto à Bíblia despedaçada que encontrei no sótão, a velha Bíblia cuja ortografia é a mesma do dicionário; foi nela que pela primeira vez deparei com os vocábulos “amphora” e “drachma”. Ânfora e dracma, conforme se escreve atualmente, não possuem o mesmo encanto, a mesma dose de mistério.

Ah, o mistério e a beleza das palavras na sua forma física, visual. Sempre fui apaixonado pelos vocábulos em si, no seu aspecto gráfico. E depois, mais apaixonado e fascinado ainda, gosto de sair, feito um detetive, à cata de seu significado. Com o auxílio de um dicionário, é claro.
A matéria prima de qualquer gênero literário é a palavra. Grande descoberta! Dicionários são depósitos de palavras. E assim, apaixonado pelos dicionários como sempre fui, e amando tanto os dicionários, eu teria que – por bem e por mal – tornar-me um escritor, mais especialmene um ficcionista.

– Considera seu primeiro livro publicado um sucesso, um insucesso, um marco determinante em sua vida?

– Guido Wilmar Sassi – Estreei em 1953, com um livro intitulado PIÁ, coletânea de contos que têm a criança (em todas as camadas sociais) como figura principal.

Foi um grande sucesso, consideradas as circunstâncias. O livro, escrito nas então pacatas cidades de Lages e Rio do Sul, interior de Santa Catarina, foi publicado em Florianópolis, capital do Estado. Edição de quinhentos exemplares. Isso mesmo: quinhentos exemplares! Distribição não houve. Eu e alguns familiares nos encarregamos de vender ou dar alguns volumes. Regular número de exemplares foi vendido em Florianópolis na Livraria Anita Garibaldi, então de propriedade do meu amigo e editor Salim Miguel, que mais tarde, em 1964, foi criminosamente incendiada. A vendagem foi suficiente para custear as despesas da edição. Um verdadeiro sucesso.

Com a publicação do meu primeiro livro quase ganhei um prêmio, o Fábio Prado, naquele tempo um dos mais importantes certames literários do país.

Graças ao volumezinho fio, de capa modesta e folhas grampeadas, consegui intercâmbio cultural com muitos escritores e publicações nacionais e estrangeiros, e tornei-me conhecido em todo o Brasil e no exterior. A estréia me proporcionou uma visão nova das coisas editoriais, da literatura e da vida.

A estréia foi um marco determinante em minha vida, pois veio confirmar minha vocação de escritor.

Um detalhe: PIÁ jamais foi reeditado, e lá se vão quase quarenta anos. Meu livro de estréia continua desconhecido até mesmo (e principalmente!) em minha cidade natal.

– Acontecimentos que o marcaram determinantemente, a nível literário:

– Guido Wilmar Sassi – 1949 – Publico um conto na Revista do Globo, uma das mais importantes do país. Contato com o Grupo Sul, de Florianópolis – é o início de minha carreira literária.
1953 – Sucesso: publico meu primeiro livro, uma coletânea de contos – PIÁ.
1957 – Grande sucesso: publico meu segundo livro de contos, AMIGO VELHO, coletânea que tem como personagem principal o pinheiro (araucária). O livro é comentado, louvado, elogiado, criticado, atacado e ripado. Ganho um prêmio instituído pelo Instituto Nacional do Livro. A edição, porém, não se paga.
1960 – Termino de escrever meu primeiro romance, SÃO MIGUEL, destinado a concorrer a um concurso literário em São Paulo. Minha filhla de doze anos morre afogada no rio Uruguai – cenário do romance. Morre o amiguinho que tentou salvá-la. Quase morro também, na tentativa de socorrer as duas crianças. Um dos seus irmãos consegue salvar-me, praticamente por acaso. Tenho a impressão de que o mundo vai acabar de vez. Suicida-se o meu melhor amigo. É o fim: o mundo vai acabar mesmo.
1962 – Transfiro-me para São Paulo. SÃO MIGUEL é publicado, após vencer o concurso. Vida literária intensa. Mudamos para o Rio.
1964 – Publico novo romance – GERAÇÃO DO DESERTO e uma coletânea de contos de ficção científica: TESTEMUNHA DO TEMPO. Golpe militar: a ditadura está de volta. Muitos amigos meus, escsritores ou não, foram presos. Abandono a literatura. Não quero mais saber de livros nem de escritores. A crise iria durar dezesseis anos.
1979 – Proposta para a reedição de São Miguel. Recuso. Editores, autores e leitores que se pitem! Dois escritores amigos meus, Salim Miguel e Hélio Pólvora, deram-me dois homéricos porres para que eu concordasse na reedição. Assinei o contrato ainda meio bêbado.
1980 – Reconciliação com as letras. Escrevo um romance cuja ação de passa nas plataformas petrolíferas; os heróis são os mergulhadores profissionais. Fico entre os dez finalistas do Prêmio Cruz e Sousa, certame realizado em Florianópolis. Publico o romance O CALENDÁRIO DA ETERNIDADE.
1989 – Escrevo um romance em três meses e o publico: OS 7 MISTÉRIOS DA CASA QUEIMADA. Vencido o problema de ter perdido um olho – em desastre de automóvel, em 84 – tenho um namoro muito sério com a informática, com os microcomputadores.
2004 – Alguns dos acontecimentos marcantes da minha vida, pelo menos os ligados à literatura, são os que acabei de citar. Espero que nenhum evento de importância ocorra até o ano de 2004. O motivo? É o ano que escolhi para morrer. Vai ser de morte natural e na cama, durante o sono, depois que eu completar oitenta e dois anos de idade; será na segunda metade de setembro, em plena primavera.

Nota: Guido faleceu em 05 de maio de 2002.

– Hoje é um escritor. Pode viver só do trabalho da escrita? Precisa de outra profissão? Qual é? Como vive as duas carreiras?

– Guido Wilmar Sassi – São raros no Brasil os escritores que vivem exclusivamente da escrita. Na atualidade está surgindo uma categoria que vem conseguindo esse milagre: os autores de telenovelas. Ainda não tive nenhuma tentação de experimentar o gênero. Dizem que é um trabalho pesado, de estivador, de galé, de escravo.

Quando eu comecei a dedicar-me às letras, eu era funcionário do público e conseguia conciliar as duas carreiras. No Banco do Brasil tornou-se difícil a conciliação. Minha preocupação maior foi sempre evitar que o banco me chamasse para exercer cargos de grande responsabilidade, que me nomeasse gerente ou coisa parecida. Se isso acontecesse, adeus literatura. Hoje, aposentado, eu poderia dedicar-me inteiramente à literatura, pois disponho de todo o tempo do mundo, de todo o tempo da vida: faltam-me, porém, disposição e saúde.

– O processo criativo de seus livros passa por muitas fases de elaboração? Pode dizer como escreveu um de seus livros ou um de seus contos? Como surge, como se origina um livro ou um texto?

-Guido Wilmar Sassi – Não creio muito em inspiração. O processo criativo é uma tarefa árdua, penosa. E solitária, angustiosamente solitária. A inspiração vem num instante muito fugaz, feito um relâmpago, e imediatamente vai-se embora, some, porém mais rápida do que o próprio relâmpago. E em cima do pouco-nada que fica o escritor põe-se a escrever seu texto, a reescrever, a elaborar, elaborar e elaborar, a fazer cortes e acréscimos, emendas e podas, até que os personagens ganhem vida, até que o texto fique limpo, até que se ultime o trabalho de recriação.

Muitas vezes tenho tentado surpreender a criação em seu nascimento, em sua própria fecundação. É difícil, muito difícil. No meu caso, as idéias ou embriões chegam das maneiras mais inesperadas e das mais diversas formas. Por exemplo:

a) – um gesto, uma frase, uma observação dos amigos ou parentes, o jeito de alguém rir, os cacoetes, as manias, o modo de falar – a gente pega tudo isso e aproveita para compor os personagens;
b) – uma conversa entre desconhecidos, ouvida quase sem querer;
c) – um sonho;
d) – um desafio;
e) – uma preocupação, um trauma;
f) – a tentativa de exorcizar nossos fantasmas – obrigado, mestre Dostoievski;
g) – a visão fugidia de um seio (dois é melhor); nádegas, pernas coxas: os acessórios todos do sexo feminino;
h) – um trecho de filme, uma peça de teatro;
i) – um conto, um romance ou novela; (o escritor pensa: a idéia é boa, mas eu faria diferente e talvez melhor; e começa, pois, a inversão papéis – bandido vira herói, mocinho se torna bandido, criminoso e vítima permutam os lugares, mulher vira homem, etc, etc.);
j) – um quadro, um verso, uma flor, uma canção, um espetáculo de circo.

Reminiscências, lembranças, vultos que se foram, cenas de um passado próximo ou longínquo, arquivos da memória, poeira das alegrias e das dores… ah, tanta coisa! Sobras de sentimentos, de ações e reações; resquícios, lixo, sucata – tudo o ficcionista aproveita, fazendo misturas das mais heterogêneas com os cacos do cotidiano, as vivências atual e antiga, as antevisões nebulosas do futuro.

O escritor – eu acho – tem muito ou quase tudo em comum com Frankenstein. De pedaços, pedaços e pedaços construímos as nossas criaturas. Não é plágio, não. Também não é influência. É algo de muito mais sério. Costuramos retalhos, remendamos, reinventamos invenções. Mas ninguém cria nada, ninguém cria coisa alguma; recriamos, apenas.
Ás vezes a centelha da inspiração é uma paisagem, a saudade de um lugar onde eu nunca estive e que talvez nem sequer exista. Disseram-me que o espiritismo explica essa lembrança, esse tipo de saudade. Tudo bem, mas eu não acredito no espiritismo. Comentaram que a tal saudade vem de paisagens que eu criei no subconsciente, no inconsciente, sei lá onde. Produtos do id, essas coisas. E a gora… Freud! Freud talvez explique… ou complique. O fazer literário tem muito a ver com psicanálise, mas não vamos cair no exagero. A humanidade passou milênios e milênios sem Freud, e agora não pode ficar cinco minutos sem ele. Além do mais, o Professor Freud entrou no texto de gaiato e à minha revelia. Vamos expulsá-lo. Cai, fora! Xô, xô!

De posse dos elementos essenciais, chega a vez da imaginação e da fantasia, da linguagem e do estilo. E também a vez da estiva, do suor, do cansaço, do trabalho bruto, pois o amontoado de material amorfo de que disponho não cria vida assim de repente, graças ao efeito de uma fórmula cabalística ou de uma palavra magia. O maravilhoso e divino fiat!

Deu certo com o Criador, no Gênesis, mas somente Ele sabia a receita. Na literatura não tem abracadabra! que funcione.

Difícil dizer como escrevi um dos meus livros ou contos, difícil individualizar. Prefiro falar do método geral que uso, válido para os gêneros conto, novela e romance.

Uma vez surgida a idéia central e feitas as pesquisas indispensáveis, organizo um fichário, um arquivo o mais completo possível, para ser consultado a todo instante.

Os personagens são cadastrados como se fosse no Registro Civil (nome, prenome, sobrenome, filiação, idade, etc.), mas o meu cadastro é bem mais completo, pois inclui ainda: cor da pele, dos olhos e dos cabelos; peso e altura; profissão e alcunha; tiques e manias; doenças e defeitos físicos ou morais; virtudes e qualidades; vícios ou taras; modos de agir ou de pensar; preferências, ojerizas e idiossincrasias; gostos e desgostos; enfim, tudo quanto possa interessar à história que pretendo escrever.

Também constam do cadastro as mais variadas relações de dependência entre os personagens: pai, mãe, tio, avô, irmão, compadre, afilhada, marido ou amante, namorada ou noiva, amigo, patrão, assassino, etc, etc e etc.

Presentes essas anotações, evita-se que os personagens cometam incestos não programados e que, por uma simples troca de nomes, datas, hábitos ou aparência física, o amante seja passado para trás pelo próprio marido da heroína.

O fichário diminui muito o número de incoerências e improbidades. Devido a sua falta ou as suas falhas já me aconteceram alguns fatos desagradáveis na produção de um romance: havia três mulheres com nomes diferentes, quando se tratava de uma só; um maneta foi surpreendido batendo palmas; mudos se tornaram mais falantes do que oradores em comício.
Costumo organizar tábuas cronológicas, a fim de fiscalizar a idade dos personagens e a ordem de sua entrada em cena. Tal providência evita que um fulano qualquer, morto e sepultado logo nos primeiros capítulos, apareça vivinho da silva, forte e feliz na metade do livro; e também não permite que uma pessoa seja pai de alguém com o dobro da sua idade. A consulta ao fichário e à tabela do tempo torna mais fácil e seguro o uso da técnica do flashback.

Costumo, se necessário, elaborar mapas, quadros, croquis, tabelas, esquemas, resumos e plantas. Em meu romance mais recente, OS 7 MISTÉRIOS DA CASA QUEIMADA, as edificações eram tantas e de tamanho tal que até eu mesmo, quando nelas entrava, me sentia desorientado. Não sei o que seria dos homens e mulheres que figuram no livro, se não dispusessem dos mapas e plantas que lhes arranjei! Um detalhe: a capa do livro teve por base a planta do Reduto, o conjunto das sete construções em que acontecem os mistérios.
A memória é um instrumento nobre que deve ocupar-se apenas de assuntos importantes e não sobrecarregar-se com questiúnculas de pequeno porte – esta a função do fichário.
Nem eu mesmo consigo entender a primeira versão dos meus contos ou romances. Vou escrevendo a torto e a direito (mais a torto do que a direito), sem a menor preocupação com a gramática e a estética, sem ligar a mínima para a ortografia e a coerência.

Do início de um capítulo salto para o final, escrevo pedaços no meio, retorno ao início. Se as dificuldades surgem em algum trecho, pulo para os seguintes, apronto diálogos, volto às pesquisas, tomo novas anotações ou desfaço-me de outras, aponto lápis, espano a mesa e a máquina, tomo um cafezinho, profiro uns palavrões, xingo o povo do livro, releio as páginas já escritas. No regresso aos pontos difíceis, descubro que eles são mais fáceis de solucionar do que eu imaginava.

Sou um cineasta que não se realizou, um cineasta sem filme e sem câmera. Quando escrevo (principalmente no caso do romance), parece-me que estou fazendo cinema. Como se estivesse usando a claquete, numero e classifico as tomadas: folhas esparsas, capítulos ou porções de capítulos, anotações, resumos, lembretes e observações. E depois, com o auxílio do cadastro, dos mapas e tabelas, ponho-me a editar o que chamo de copião. Nesse momento, começo a preocupar-me com a limpeza do texto, a escoimar os senões, a trabalhar a linguagem. É o preparo inicial para o trabalho datilográfico da segunda versão.
A segunda versão já é legível, tem alguma semelhança com os originais de um livro. Não cessam, porém, as reformas, as emendas, os cortes, os acréscimos, as constantes e cansativas consultas ao dicionário.

Gosto de datilografar meus livros. Sou um ótimo datilógrafo. Tenho muita paciência e sou difícil de satisfazer. Exijo de mim mesmo um trabalho ordenado, metódico, limpo e de boa apresentação estética.

E agora, aqui estou eu datilografando a terceira versão do romance, e uma vez mais efetuando podas, modificações e correções, e de novo consultando mapas, arquivos e dicionários.
Geralmente a quarta versão é a definitiva, a que se destina a agradar (ou não) o meu primeiro leitor, o mais exigente de todos os meus leitores: eu mesmo.

– Qual é a sua relação com a escrita, com a palavra, com o estilo?

– Guido Wilmar Sassi – Não sei se entendi direito a pergunta. Em todo o caso, vamos às respostas. No que se refere à palavra, penso já ter esgotado o assunto nas respostas anteriores. Eu amo a palavra, mais especialmente a palavra escrita. Minha relação com a palavra é uma relação de amor, de entrega e posse, de sedução, de fascínio, de adoração. Foi por muito amor às palavras – e pesquisá-las muito – que me tornei escritor.
Quanto ao estilo, já abordei o assunto anteriormente: Foi por intermédio de muita leitura, mediante muitas viagens realizadas pelos estilos alheios que conquistei o meu próprio estilo. Todo o mundo faz assim, não é mesmo?

Alguém já disse que o estilo é o homem. Foi Buffon, se não me engano. Também disseram que todo escritor deve ter estilo e nariz próprios, e salientaram a semelhança entre ambos. Fui buscar um espelho e comparar esta página com o meu apêndice nasal. Pois não é que é verdade mesmo? Meu estilo é de fato igual ao meu nariz – escritinho.

– Por que escreve?

– Guido Wilmar Sassi – Por que escrevo?Sei lá! Por burrice e teimosia, talvez. Afinal, existem muitas outras coisas melhores e gratificantes para se fazer neste mundo. Por que escrevo? Já me fiz essa pergunta vezes sem conta, e jamais encontrei respostas satisfatória. O principal motivo, eu acho, foi o desejo muito humano de sair do anonimato, de projetar-me acima da média, de “ser alguém na vida” . E daí, ao descobrir que não sabia jogar futebol, nem cantar ou representar, nem compor música ou pintar quadros; e que tampouco possuía vocação para a indústria ou o comércio, e nem para assaltar banco: e que também não tinha a safadeza dos políticos, nem talento de inventor; e nem mesmo a coragem de traficante, bicheiro ou ladrão – resolvi dedicar-me à literatura. Para poder sobressair, aparecer, escolhi as letras; para ganhar a vida, porém, tive que ser balconista, padeiro, comerciante, funcionário público e bancário.
Consegui meu lugar ao sol? É… consegui. Mas esse lugar tem sombra pra caramba! Apesr de tudo, apesar da penumbra, mesmo apesar das trevas… acendo a luz e continuo escrevendo.
Amigos falaram-me do prazer da escrita, do prazer de escrever. Será que esse prazer existe mesmo? Muitos escritores consideram a literatura uma arte, um esporte. Não posso fazer o mesmo, pois se não tomar cuidado, se não tomar as minhas precauções, meu esporte se tornará deficitário.

Há escritores que pretendem ganhar dinheiro com a profissão de escritor. Bem poucos o conseguem. Affonso Romano de Sant´Anna, poeta e cronista, acaba de confessar: “se dependesse da renda dos meus livros (e já publiquei várias dezenas), não poderia pagar nem a empregada e a faxineira.” Romano transcreve um desalentador diálogo (- O que faz você na vida? / – Sou escritor. / – Ah, ótimo! Maravilha! Mas de que vive?) e, com uma pergunta melancólica, termina a crônica: “Afinal, de que vive e como vive o escritor brasileiro?”
Não fossem alguns prêmios em dinheiro, de concursos vencidos, eu poderia dizer que não ganhei praticamente nada com a literatura. O produto dos direitos autorais sai em conta-gotas do bolso do escritor. Quando sai. A culpa é do sistema, eu si. Mas os escritores, a maioria, são os maiores culpados, pois sentem-se pagos e satisfeitos apenas com a publicação do livro. Mas a publicação não é tudo. Há que se dignificar a profissão de escritor. Afinal de contas, a criação literária não cai do céu por descuido, o trabalho de escrever é tão digno quanto outro qualquer.

Por que escrevo? Não sei. Tempos atrás, em uma entrevista, um dos colegas escritores respondeu: Escrever é compulsão. Todos aplaudiram – resposta genial. Ao chegar a minha vez vaiaram-me, humilharam-me quando eu disse: Escrever é praga de mãe.

– Em seu específico trabalho criador prevalece a interrupção ou a continuidade? Há crises? Com que as identifica?

– Guido Wilmar Sassi – Em meu trabalho de escritor intercalam-se períodos de intensa continuidade e períodos de interrupção – também intensa. Em 1954 veio-me a idéia central de um romance. Um tema e tanto. Não o trabalhei, contudo. Doze anos depois, quando morava em São Paulo, iniciei a escrita, abandonada, porém, logo a seguir. Passaram-se o anos. Em 1988, retornei ao livro interrompido, disposto a terminá-lo. Mas adoeci de outro romance e de novo abandonei o projeto. Certamente irei retoma-lo algum dia, se outra crise não motivar nova interrupção.

Por sua vez, ocorrem períodos de vertiginosa continuidade. Escrevi o romance OS 7 MISTÉRIOS DA CASA QUEIMADA em três meses e SÃO MIGUEL , também romance, em cinqüenta e um dias.

O romance, pelas suas dimensões e características, exige que sejamos escritor vinte e quatro horas diárias, não raro quarenta e oito ou mais. Exigência enorme, pois sentimos necessidade também de sermos apenas gente, meros homens (com todo o bem o todo o mal), simples seres humanos e nada mais.

Com os meus contos o mesmo acontece: uns são escritos a jato; outros se arrastam, se arrastam e se arrastam, quase eternamente.

Lutei contra muitas crises, da mais variada importância, duração e ordem. As crises afetivas, quando agente se julga só no mundo, são difíceis de vencer. As piores de todas são as crises político-financeiras, pois elas concorrem para o agravamento de todas as outras. Em 1964, data do último golpe militar no país, quando o trabalho e a liberdade passaram a ser considerados mais insignificantes do que as latas de lixo, eu resolvi deixar de escrever e de fumar. Foi a maior crise que enfrentei: durou quase dezesseis anos. Enquanto ela durou eu não quis saber de escritores ou leitores, nem de livros, idéias ou personagens, nem de nada que se ligasse à arte e à literatura. Essa crise teve seu lado bom: abandonei por completo o cigarro e o meu sono era fácil, profundo e gostoso.

Costumamos justificar as crises atribuindo-as à falta de condições, de tempo, de tranqüilidade, de saúde, etc. Geralmente é apenas falta de coragem.

– Há momentos felizes ou ideais para escrever?

– Guido Wilmar Sassi – Há, sim. É nos momentos em que se consegue uma espécie de estado de graça, uma beatitude ativa e produtiva. Sou capaz de escrever de qualquer jeito (sentado, deitado, caminhando, ou a bordo de toda sorte de veículos), com e em qualquer objeto ou instrumento (lápis, esferográfica, papel, cartolina, papelão, taquigrafia, máquina de escrever, gravador, microcomputador, etc.), e a qualquer hora e em qualquer lugar. Sinto, no entanto, a necessidade de uma certa paz, de um pouco de tranqüilidade e conforto para obter o estado de espírito ideal para a criação.

Não gosto da solidão. Temo e detesto a solidão. E o trabalho do escritor é solitário, horrorosamente solitário. Quando escrevo, quando encontro o momento ideal, preciso de uma presença humana, de alguém que veinha interromper-me de quando em quando, a fim de provar que eu não estou só. Se não há ninguém de carne e osso por perto (pode ser um animal: peixes ornamentais, por exemplo, constituem presença alegre e fazem barulho silencioso), costumo cantarolar e ligo todos os aparelhos de som existentes em casa. Tudo para afugentar a solidão. Não sei se consigo explicar direito: gosto de um silêncio meio barulhento, de paz e ordem um tanto bagunçadas. O Bolero de Ravel costuma proporcionar-me momentos muito felizes e produtivos. Mas também sou capaz de escrever ao som de uma batucada ou de um rock-pauleira.

– Quando escreve é a vontade que puxa a escrita ou é a neurose, o prazer da inteligência e da fantasia?

– Guido Wilmar Sassi – Escrever é um trabalho como qualquer outro. Penoso e solitário. Mesmo assim, e mesmo dizendo que não acredito na inspiração, procuro conseguir que o prazer da inteligência e da fantasia puxem a escrita. Do contrário, se deixo que a vontade se sobreponha, parece-me que estou enfrentando uma espécie de violentação. E essa violentação costuma impor-se cada vez que escrevo.

– Onde encontra estímulo e pretextos para escrever? Poderia exemplificar concretamente com os seus escritos?

– Guido Wilmar Sassi – Já esgotei praticamente o assunto. Estímulo valioso tem partido dos meus parentes mais chegados: esposa, filhos, mãe, vó Gertrudes. Minha mulher foi colaboradora importante quando da escrita dos meus primeiros contos e romances. Meus filhos também têm sido colaboradores ativos, e muito vêm estimulando minha carreira de escritor. O estímulo maior, porém, bem assim os pretextos, vieram da parte de Vovó e Mamãe, pelo muito que me ensinaram e pelos causos inesquecíveis que me contaram.

– Escreve regularmente ou é possuído por raptus improviso?

– Guido Wilmar Sassi – Só escrevi regularmente quando morava em Lages SC, e mantive uma crônica diária na rádio local. Ah, e pagavam-me relativamente bem. Mas o que é bom dura pouco: minha temporada radiofônica foi bem rápida, quase meteórica.
Sempre detestei horários: bastaram-me os que fui obrigado a cumprir nos empregos por mim exercidos.

– Qual é o papel que o “imprevisto” desempenha em seu trabalho criador?

– Guido Wilmar Sassi – Muitas vezes o imprevisto domina por completo o trabalho de criação. Algumas espécies de imprevistos: personagem feminino vira homem, herói se transforma em vilão, nascimentos ocorrem em vez das mortes, a inocente vítima em potencial acaba se tornando um assassino desalmado.
Há personagens que fogem totalmente ao controle do autor e adquirem gostos, hábitos e manias que nos obrigam a trabalheiras danadas. Uma vez, estava eu escrevendo um conto policial para uma revista especializada, quando o imprevisto entrou em ação e não deu outra: a pessoa que estava para ser assassinada transformou-se no mais frio dos criminosos.

Em outra circunstância, eu estava trabalhando em um romance que se passava no rio Uruguai e que se intitularia Balsa ou talvez A Grande Viagem, pois descreveria uma jornada rio abaixo. O cenário de um dos capítulos era o cemitério do vilarejo de nome São Miguel, onde jaziam sepultados muitos personagens de Balsa. Foi daí, no dia 29 de setembro de 58, dia de São Miguel, padroeiro do vilarejo, minha esposa fez uma observação relativa à data. O estímulo para a criação literária funcionou e o imprevisto surgiu. Então, resolvi fazer um romance passado antes, no tempo em que o pessoal do cemitério ainda vivia. Eu já dispunha inclusive do título: SÃO MIGUEL. Escrevi o livro a jato e ganhei um prêmio com ele. Ignoro se Balsa virá a ser escrito algum dia.

Já me aconteceu de ter tudo planejado para um determinado livro: fichário, pesquisas, resumos, relação de personagens, etc. E daí, por causa de um imprevisto, eu deixo tudo de lado e escrevo outro livro.

– Existe, analogamente ao ‘ prazer do texto ‘ um prazer de escrever?

– Guido Wilmar Sassi – Existe, realmente, um certo prazer no exercício da literatura. Não sei descrevê-lo, não sei classificá-lo. Parece-me que o gozo do fazer literário tem muito de masoquismo, ou melhor, de sado-masoquismo. Um ato sexual em que a posse e a entrega se completassem intimamente, em que o criador se tornasse uma espécie de andrógino. No sentido figurado, é claro. Ora, ora..

No princípio, quando estamos em lua-de-mel com a literatura, escrever é simplesmente maravilhoso. Com o passar do tempo, o ato que deveria ser de amor se torna obrigação, e as coisas mudam muito e muito se transformam. E daí, a criação literária passa a exigir muito vigor físico e mental; passa-se a requisitar uma ereção enorme, e por vezes difícil, para um orgasmo fugaz e quase insignificante.

Costumo comparar o trabalho de escrever com trabalho da gestação, mormente quando se trata do romance. É que, tendo-se em vista as dimensões deste gênero (maior número de páginas, de personagens, de cenários, de ações, etc), os nove meses de escrita e criação se prolongam muito mais. Publicação e parto se assemelham – ambos possuem o seu lado feliz e gratificante, mas ambos também são dolorosos e trabalhosos.

Em suma, o prazer de fato existe, não importa a sua qualidade e intensidade. Se não me engano, já contei que, a medida em que um trabalho de criação progride, vou destruindo e jogando fora os papéis com a s anotações, os planos, projetos e rascunhos Atualmente, minha satisfação maior tem sido encher cestas e cestas de papéis rasgados ou amassados.

– Qual o livro de outro escritor que gostaria de ter escrito?

– Guido Wilmar Sassi – Eu gostaria de ter escrito O TEMPO E O VENTO. São perto de 2.250 páginas distribuídas entre as três partes do romance, e que se constituem, elas próprias, três romances praticamente estanques: O CONTINENTE, O RETRATO e O ARQUIPÉLAGO.
Romanção de fôlego, obra de mestre, lições da arte e da técnica de escreve ficção, de romancear. Reli O TEMPO E O VENTO algumas vezes, cinco ou seis, e todas com renovado prazer, fazendo novas descobertas e aprendendo coisas novas. Poucos repararam que o livro começa e termina pelo mesmo grupo de frases: ” Era uma noite fria de lua nova. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta parecia um cemitério abandonado.”

– Como se sente dentro da literatura brasileira hoje?

– Guido Wilmar Sassi – Sinto-me um tanto marginalizado dentro da atual literatura brasileira. Desde minha estréia em 53, passei a ocupar posição de relativo destaque nas letras nacionais. O termo relativo tem aí o sentido de médio, sem falsa modéstia e conforme os meus padrões de julgamento honesto. É preciso respeitar o julgamento do público e da crítica.

– O que pensa da literatura brasileira?

– Guido Wilmar Sassi – Nossa literatura é, sem favor algum, uma grande literatura. Sem xenofobia e mesmo considerando minha preferência pelo romance, gosto mais de reler um mau conto de Machado de Assis (e ele fazia maus contos, por acaso?), ou comprar a coletânea de estréia de um novato qualquer, do que aventurar-me pelos sedutores, primorosos e recentes best-sellers estrangeiros.

Conheço em primeira mão apenas a literatura brasileira; as demais, somente através de traduções. Claro que entre nós existem autores geniais, ótimos, bons, regulares, maus e péssimos.

É chegado o momento de falar um pouco das mulheres que fazem parte da nossa literatura.
Em outros tempos eu dizia: lugar de mulher é na cozinha. Pois elas provaram que sabiam também escrever. E muito bem, por sinal. Por causa das mulheres escritoras, vejo-me obrigado a mencionar a Academia Brasileira de Letras, antigamente limitada a quarenta ilustres desconhecidos do sexo macho. A Academia, um autêntico reduto do machismo, não permitia a entrada de mulheres. Isso mudou. Ainda existem desconhecidos (nem tão ilustres) na Academia, mas o seu número diminuiu sensivelmente. Na atualidade, entre os quarenta varões imortais figuram mulheres como Raquel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon.
Ao falar em autores, quase sempre me refiro aos ficcionistas, mas é claro que uma literatura compreende todos os gêneros.

A literatura dever ser compreendida uma vez que se complete o ciclo autor-editor-leitor. Inadmissível que o mundo das letras se componha apenas de autores, uns escrevendo para o exclusivo gáudio dos outros. Inadmissível a arte pela arte. Sem a parte comercial, tudo o mais não existiria. Igual a outros bens de consumo, o livro precisa de quem o consuma e de quem o venda. Por isso, o ciclo somente se completa com a presença do livreiro; assim: autor-editor-livreiro-leitor. Seria o ideal. E ideal seria se as próprias editoras se encarregassem da distribuição dos seus livros, o que, bem ou mal, era feito em outros tempos. Surgiu, porém, tal e qual um quisto, um câncer do ciclo, um novo personagem: o distribuidor. Inteiramente alheio às letras, encravado entre o editor e o livreiro, é o distribuidor quem leva a parte do leão.

Por sua vez, o editor quase nunca é santinho de auréola e camisolão. Alguns deles, em vez de vender os encalhes a preços baixos, ou distribuí-los entre escolas e bibliotecas, costumam transforma-los em material de embalagem ou papel higiênico.

E o leitor? Pobre leitor brasileiro. Ele se esforça e luta para não submergir no mar de analfabetismo que inunda o país.

Paralelamente a este ciclo havia, nos tempos de outrora, outro elemento ligado ao livro: o crítico literário. Ele desapareceu. Ainda não descobri se faz falta ou não.

– Qual o futuro dessa literatura?

– Guido Wilmar Sassi – O futuro da nossa literatura infelizmente não dos mais promissores. Falta-nos divulgação maior. Quem não anuncia se esconde, afirma com toda a competência o pessoal da mídia. A literatura brasileira vive escondida, desconhecida. Motivo? Falta de distribuição e divulgação maiores, falta de mais propaganda, falta de intercâmbio de mais eficiente circulação no estrangeiro. Provas? Eis uma: nenhum escritor brasileiro foi, até hoje, agraciado com o Prêmio Nobel. E países de literatura menor, no entanto…

Não sei o que ocorre nas outras partes do mundo com referência à ajuda oficial às letras. No Brasil esse auxílio sempre foi mesquinho. Além de ser um país de muitos escritores e poucos leitores, tem sido fraca, muito fraca, a contribuição governamental. E quando falo contribuição, quero dizer dinheiro, mesmo. Sempre tivemos presidentes-poetas ou poetas-presidentes, os quais se esmeram em perpetrar maus versos e realizar péssimos governos. Ah, sim – no governo passado surgiu a Lei Sarney, com o propósito de incentivar letras e artes. Era um quase nada, mas até esse pequeno estímulo foi cortado pelo atual governante, que, diga-se de passagem, parece odiar teatro e cinema, artistas, escritores, livros e povo.

Não sei, não. Do jeito que vamos, corremos o risco de voltar muito logo às cavernas.

– Entre as palavras seguintes, escolha três e diga alguma coisa sobre elas: amor, cidade, poder, povo, solidão, solidariedade, prazer, violência, amizade, noite e silêncio.

– Guido Wilmar Sassi – Solidão é uma das palavras mais horríveis do mundo. Detesto-ª Aliás, no decorrer deste questionário, deixei bem clara minha aversão por esse vocábulo e suas acepções – qualquer delas.

Em pequeno eu sentia muito medo da noite. Durante a noite as coisas ruins acontecem: assassinatos, desastres, incêndios, agravamento de doenças, velórios e mortes. Eu temia que o mundo se acabasse durante a noite.

Ah, os segredos, os mistérios, os temores e horrores da noite! É marcante a presença e a importância da noite em minha literatura. Em um dos meus contos, um casal de miseráveis aguarda que a noite venha. Os dois estão em um local deserto e sem recursos, um verdadeiro fim de mundo. A mulher, já no final da gravidez, teme dar à luz a qualquer momento. O homem, doente, aflito, meio enlouquecido, é prisioneiro de uma árvore na qual subiu e não pôde mais descer. Ambos estão em desespero. E cheios de frio, de fome, de sede e de medo. A palavra noite é citada apenas duas vezes em todo conto, que termina justamente quando ela chega. O título da história não poderia ser outro: Noite.

Com o tempo, eu deixei de temer a noite. Descobri os seus encantos. Hoje eu adoro a noite; ela é ideal para se fazer literatura e se fazer amor. A propósito da palavra amor, acho que nada se pode escrever a seu respeito… apesar de tudo quanto já foi escrito. Amor é para ser vivido e sentido. Em todos os seus aspectos e em todas as suas formas.

– Como conseguiu publicar seu primeiro livro?

– Guido Wilmar Sassi – Enviar originais às editoras e aguardar aprovação pode funcionar muito bem na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil não dá certo. O que pode acontecer (e aconteceu com um dos meus romances, SÃO MIGUEL) é uma editora promover concurso e publicar o livro vencedor. Isso quando publica… e quando paga o valor do prêmio.

No caso do meu primeiro livro, PIÁ, coletânea de contos tendo por figura central a criança ou o adolescente, eu era e ainda sou amigo do editor. Foi assim: no final dos anos 40, em Florianópolis, uma turma de jovem fundou o Grupo Sul, o qual teve, durante alguns anos, grande importância no panorama artístico e literário do país. Os mais diversos aspectos e ramos da arte e da cultura foram objetivo do grupo: ente eles, publicação de revistas, cinema, clube de cinema, encenação de peças teatrais, intercâmbio cultural com outros grupos e edição de livros. Passei a participar ativamente do grupo Sul e tornei-me amigo de Salim Miguel, um dos fundadores. Ele interessou-se pelos meus contos e foi pelas Edições Sul que saíram meus dois primeiros livros.

– Algum editor propôs-lhe alguma vez escrever exclusivamente e com salário fixo?

– Guido Wilmar Sassi – Uma editora propor a um escritor que escreva com exclusividade e com salário fixo – aqui no Brasil? Difícil, muito difícil, quase impossível. No meu caso, jamais me fizeram tal proposta. Não sei seu aceitaria.

– Quando escreve, pensa nos críticos, nos leitores, no editor?

– Guido Wilmar Sassi – Quando escrevo não penso em ninguém, seja editor, crítico ou leitor. Meu objetivo é transformar uma idéia em conto, crônica, novela ou romance. No entanto, costumo pensar em um determinado leitor: o primeiro leitor: eu mesmo. Também sou o primeiro crítico. Se eu ficar satisfeito é porque o livro é bom; se o contrário acontece é porque o livro não presta mesmo.

Somente depois de terminado o livro é que me lembro da existência do editor, e que esse editor precisa ser abordado, conquistado, convencido e, quem sabe, vencido.

– Discute com o editor, aceita conselho, cortes, etc?

– Guido Wilmar Sassi – O editor no Brasil, salvo as ditas raras exceções, parece odiar o escritor nacional. Claro, o escritor brasileiro não dá lucro. Não dá lucro porque não é editado e não é editado porque não dá lucro. Entenda! Em regra, o nosso editor costuma reservar ao autor patrício alguns epítetos nada elogiosos: chato de galochas, peso morto, edição de obrigação, etc. Às vezes, por julgar a atividade meio amadorística, o editor não conhece o métier, e às vezes, por falta de assessoria ou má assessoria, ele não conhece sequer o próprio livro, objeto do seu mercado.

Já aceitei conselhos e sugestões de cortes, assim como deixei de aceitá-los.

– Acredita que a publicidade seja importante para o lançamento e o sucesso de um livro ou pensa que um bom livro não precise?

– Guido Wilmar Sassi – Um bom livro nem sempre tem o lançamento e o sucesso comercial que merece. A publicidade é, indiscutivelmente, essencial. O diabo é que existem vários tipos de publicidade, sendo a escandalosa e/ou compulsória a mais comum.

Vendem bem os títulos chamativos: “Minha prima foi amante de Ramsés II” e ” Eu testemunhei meu avô estrangular o tataravô de Hitler”.

Os políticos (presidentes ou não, imortais ou mesmo sem participação em qualquer academia) e seus assemelhados e congêneres, quase sempre por conta do erário público, acham-se na obrigação de enriquecer a literatura com as suas esplêndidas obras em prosa e verso: “Lagartixas Ígneas”, “Banquetes e sonetos palustres”, “Por que fui eleito ditador vitalício da Pornolândia”.

Gente ligada ao governo, economistas, estrategistas, porta-vozes, líderes na Câmara, etc. também fazem suas incursões pelo País das Belas Letras. Assim, o datilógrafo do auxiliar do ajudante do subsecretário do terceiro assessor de um ministro qualquer também comparece com o seu best-seller: “Como acabar com a inflação em 10 lições – método seguro, eficaz e eficiente”.

– Participa do lançamento de seus livros?

– Guido Wilmar Sassi – Já participei do lançamento de alguns dos meus livros. Acho muito importante para o escritor autopromover-se, visando à divulgação de sua obra e ao sucesso de público e de crítica. Noite de autógrafos é uma boa pedida, mas eu jamais consigo atrair leitores badaladores ou compradores, pois ainda não assassinei ninguém, nem celebridade alguma, não tenho planos miraculosos para salvar a economia do país, não descobri a pólvora, etc.

– Quando escreve, percebe autocensuras, temores em se revelar, laços, impedimentos?

– Guido Wilmar Sassi – Quando escrevo, percebo autocensuras, laços, temores e impedimentos de toda ordem e tamanho. Não sei explicá-los.

Minha luta principal é contra a preguiça, e esta acaba vencendo a maioria das vezes. Sou muito preguiçoso, graças a Deus. Suspeito de que isso se deve a um esforço do subonsciente no sentido de preservar minha saúde.

Começo o dia com o firme propósito de escrever. E saio à cata de mil pretextos para não fazê-lo. Caminho para cá e para lá. Evito sentar-me à máquina. Não me aproximo do gravador nem do micro. Faço a ponta de todos os lápis que encontro, sabendo que jamais precisarei deles. Largo tudo de mão e leio um trecho de poema de poetas meus de cabeceira: Pablo Neruda, Fernando Pessoa, García Lorca, Vinícius, Drummond. Geralmente consigo dominar a imperativa e incoercível vontade de escrever.

Tudo é pretexto para não começar a escrever, pois sei muito bem que, se começar mesmo, nada nem ninguém me fará parar.

– O sucesso de uma obra depende de que? De quem?

– Guido Wilmar Sassi – Vou dar a resposta mais curta de todo este questionário: Francamente, eu não sei.

Faça de conta nada ter dito até agora. Poderia traçar o seu perfil humano e profissional (enquanto escritor) para os leitores?

– Guido Wilmar Sassi – É difícil esquecer tudo quanto já disse. Eu estou, de corpo e alma, nas respostas do questionário. O meu auto-retrato? No princípio, eu era um só, indivisível. Depois apareceu a dualidade, quando comecei a brincar com os espelhos. Daí, o UNO se bipartiu: o direito e o avesso. Dr. Jekil e Mr. Hyde surgiram de mãos dadas, xipófagos inseparáveis. Na tentativa de novamente fundir as duas imagens o espelho se quebrou: cacos e mais cacos. Os fragmentos se transformaram numa porção de espelhos. E eu, usando os versos de Cecília Meireles, fiz a pergunta crucial: – Em que espelho ficou perdida a minha face? Não encontrei resposta. Mas ainda resta uma esperança nos versos de outro poeta, Mário de Andrade: Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta. / Mas um dia afinal me encontrei comigo…

Fui lógico? Não, não fui! Nunca serei lógico. Não entendo coisa alguma de lucidez nem de lógica. Se entendesse, mesmo que fosse um pouquinho só, jamais me importaria com a literatura.

Fonte:
http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br/guidoautores.htm

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

José Lemos Monteiro em Xeque


Entrevista realizada por Artaxerxes Modesto para o site http://www.letramagna.com

1 -Professor José Lemos Monteiro, conte um pouco de você, de sua vida, de sua trajetória acadêmica…

Sou paraense radicado em Fortaleza. Dedico minha vida à pesquisa e ensino da língua portuguesa, como Professor Titular da UNIFOR e Professor Adjunto (aposentado) da UFC e UECE. Já lecionei as mais diversas disciplinas, às vezes tendo mesmo que improvisar programas de assuntos totalmente desconhecidos para mim. No começo, isso acontecia porque eu não tinha realmente poder de escolha. Depois, porque percebi que era uma forma de tornar-me menos limitado e ser capaz de analisar um tema sob vários enfoques.
Aliás, essa tem sido uma de minhas características: nunca me conformei em ensinar durante anos seguidos o mesmo conteúdo. Quis sempre descobrir novas perspectivas e, talvez por isso, minha produção acadêmica se diversifica em três áreas: a literatura (a ficção e o ensaio crítico), os estudos educacionais e a pesquisa lingüística. Como ficcionista, sem contar com alguns contos esparsos em jornais e antologias, publiquei os romances A valsa de Hiroxima (1980), A serra do arco-íris (1982) e O silêncio dos sinos (1986). Como crítico, além de artigos publicados em revistas, escrevi O universo mí(s)tico de José Alcides Pinto (1979), O discurso literário de Moreira Campos (1980) e O compromisso literário de Eduardo Campos (1981). Quanto aos estudos educacionais, além de minha dissertação de Mestrado, uma série de reflexões sobre o ensino brasileiro e sobre as estratégias para o desenvolvimento da criatividade deu margem à publicação de vários pequenos ensaios, destacando-se “O ensino do português após a Lei 5.692”, pelo tom polêmico da análise crítica que apresenta.
Mas foi e continua sendo no estudo da língua o campo em que tenho desenvolvido o trabalho mais intenso e, de certa forma, mais compensador. Destaco os livros Morfologia portuguesa (Campinas: Pontes), A estilística (São Paulo: Ática) e Para compreender Labov (Petrópolis: Vozes).

2 – No momento o senhor está desenvolvendo alguma pesquisa, ou engajado em alguma obra?

Sempre estou trabalhando em alguma pesquisa. No momento, além de ocupar-me em dois projetos institucionalizados na Universidade de Fortaleza, estou reformulando inteiramente o meu livro A estilística, com vistas à publicação de uma futura nova edição, revista e ampliada.

3 – Qual o momento acadêmico mais marcante em sua vida?

O momento, se não o mais marcante, o mais dramático de minha vida acadêmica ocorreu na época do governo Geisel, face às constantes pressões contra os professores que, como eu, ainda não eram portadores do título de Mestre. De repente, o concurso que fiz para Auxiliar de Ensino e o tempo de serviço prestado já nada valiam e instaurou-se um clima de verdadeira perseguição: ou o Mestrado ou a rua. E o pior: questões de ordem familiar me impediam de viajar para alguma capital onde houvesse pós-graduação em Letras, de forma que eu aparentemente não tinha outra saída, a não ser resignar-me. E já estava realmente num beco sem saída, na iminência de ser demitido, quando em Fortaleza se criou o Mestrado em Educação.
Recordo, ainda ressentido, que solicitei aos colegas do Departamento a indicação de meu nome, para que eu pudesse concorrer a uma das vagas na seleção do referido curso. Foi uma reunião tensa, em que me senti réu e vítima. Afirmavam que, se eu me negava a viajar para o sul, quando outros já o haviam feito, era porque eu queria mesmo perder o emprego. Eu tentava explicar, meus olhos se enchiam de lágrimas, porém não abrandavam os olhos secos que me fitavam. Graças a Deus, ao fim da sessão, tudo isso teve uma recompensa: para surpresa geral, um dos professores tomou a minha defesa, lamentando a falta de solidariedade dos colegas e ressaltando que a demissão seria um absurdo, principalmente porque eu sempre havia sido responsável e eficiente. Não posso deixar de registrar esse fato aqui, menos pela lembrança dos instantes de angústia do que pelo gesto de amizade do Prof. Hamílton Andrade. Valeu a pena!

4 – Sobre sua tese de doutoramento na UERJ, sobre os pronomes: o senhor acha realmente que nosso quadro pronominal está diferente; podemos dizer que está mesmo alterado?

Disso não tenho a menor dúvida: o sistema dos pronomes pessoais no português do Brasil sofreu e ainda está sofrendo profundas mudanças, seguindo um longo processo que remonta aos primórdios de nossa língua.

5- E a forma “tu”? É mesmo um “dinossauro lingüístico” como o “vós”?

O pronome tu, embora tenha sido substituído por você em diversas regiões brasileiras, continua muito vivo em diversos estados (por exemplo: Pará, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Sul). O curioso é que, mesmo nas localidades em que a forma você conseguiu praticamente tirá-lo de circulação, persiste o clítico te nos tratamentos informais.

6 – Tenho percebido que sua produção é vasta, e vai desde os estudos sociolingüísticos até a literatura. Qual a área que mais lhe dá prazer?

É evidente que a Literatura, por suas funções catártica e lúdica, me envolve muito. Infelizmente, porém, sempre tenho que deixá-la em segundo plano, em razão de meu trabalho como professor na área de Lingüística. Eu seria falso se dissesse que os estudos nessa área só me dão prazer: com freqüência, quase que por obrigação intelectual, sou levado a ler textos extremamente áridos e alguns até mal redigidos.

7 -Hoje em dia vemos centenas de dezenas de cursos de Letras serem oferecidos pelo Brasil afora, muitos deles sem o mínimo necessário para que o aluno saia com uma boa formação. Quem perde com isso? Como o senhor vê essa questão? Há salvação?

Não gosto nem de pensar nesse absurdo que está ocorrendo no Brasil. Não se trata, porém, apenas da desmoralização dos cursos de Letras: a irresponsabilidade é tamanha que até cursos de Medicina estão sendo criados sem a mínima condição, o que põe em risco a própria saúde da população brasileira, já entregue a profissionais sem nenhum preparo. Quase todo mundo perde com isso. Mas os poucos que ganham, ganham muito: o ensino no Brasil é uma das indústrias mais rentáveis.

8- Como o senhor vê o ensino nas escolas públicas brasileiras?

Já ensinei em escolas públicas, numa época em que havia alguma preocupação com a aprendizagem. Em nome da democratização ou proletarização do ensino, aumentou-se significativamente o número de vagas sem que se levasse em conta a exigência de um mínimo de qualidade. O resultado é esta tragédia. Toda a propaganda governamental vai no sentido de divulgar números, mas, em muitos casos, é como se não se ensinasse absolutamente nada: uma quantidade expressiva de alunos conclui o curso fundamental sem saber ler nem escrever. Existe coisa pior?

9 -Qual o caminho para preparar o professor para os desafios da nova sociedade?

O caminho se inicia com um ato de vontade. Se, por exemplo, o governo quisesse levar a sério a educação brasileira, começaria por aparelhar bem suas instituições e a fazer que os professores, com um salário digno, voltassem a ter estímulo. Daí é só pôr em prática a criatividade que todo brasileiro tem.

10 -Qual a sua posição a respeito dos resultados de nossos alunos no PISA?

Pelo que já comentei nas respostas anteriores, no quadro em que se encontra o ensino brasileiro não se pode esperar por melhores resultados. Quem conhece a realidade de sala de aula tem percebido que, a cada ano que passa, o nível dos alunos é mais assustador. Hoje, por incrível que pareça, grande parte de nossos estudantes universitários não conseguem entender o que mal conseguem ler.

11- O que podemos falar da Lingüística – enquanto ciência – em seu estado atual? E no Brasil? Temos uma “Lingüística Brasileira”?

A Lingüística tem tido um desenvolvimento fantástico, com repercussões em outras áreas do conhecimento humano. Apesar do radicalismo de certas correntes, pode-se afirmar que, desde o seu surgimento, as questões levantadas e as soluções propostas evidenciam que a investigação sobre a linguagem humana já avançou muito. No Brasil, o campo tem sido extremamente fértil e, se já há algum tempo tivemos um lingüista do porte de Mattoso Câmara Jr., é porque não nos encontramos numa fase tão incipiente.

12 -Quais seus planos para o futuro?

Adoto uma filosofia de não planejar ou idealizar o futuro. Tento viver o presente, o aqui-e-agora, como ele se manifesta para mim, procurando aceitar tudo o que a vida me oferece. As práticas de meditação me levaram a adotar essa atitude existencial, embora o peso dos condicionamentos culturais de vez em quando me faça pensar no dia de amanhã.

13 – O que o senhor tem a dizer sobre a Revista Letra Magna?

Iniciativas como essa nos fazem manter viva a esperança no ensino e na divulgação do que se faz em termos de estudo da linguagem. Quando conhecemos um jovem que demonstra o maior interesse pela causa da ciência, passamos a ter a certeza de que nem tudo está perdido e o caminho para uma nova mudança de perspectivas já está sendo trilhado. É só uma questão de (pouco) tempo.

14 – A Revista Letra Magna e seus leitores agradecem sua entrevista e juntos desejamos a você sucesso e muitas felicidades.

Eu é que agradeço e retribuo em dobro os votos de sucesso e felicidades.

Fonte:
Letra Magna

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Carlos Nóbrega (Entrevistado pelo poeta Nilto Maciel)

Como a maioria dos escritores brasileiros, Carlos Nóbrega é um desconhecido. Mora em Fortaleza (como outras dezenas de bons poetas, contistas e romancistas), não aparece nos jornais (e quem aparece?), publicou cinco “livrinhos” (por pequenas editoras, é claro) e, vez por outra, sai de casa ou da empresa onde trabalha, para tomar um chope e conversar com os poucos amigos, também escritores. Um deles sou eu, que gosto de ser jornalista (do tipo antigo, sem formação em curso de jornalismo) e de ouvir quem tem muito a dizer. Conversei com ele (via correio eletrônico) durante alguns dias do final do ano passado. Só então fiquei sabendo de seu nome completo: Carlos Alberto Medeiros Nóbrega, descendente de paraibanos. “Nasci no Henrique Jorge (bairro popular da capital cearense), poucos anos depois da inauguração do Conjunto Residencial Casa Popular. Foi uma infância bárbara, selvagem, no mato. Tão maravilhosa que ainda hoje, 45 anos depois (tenho 55) me fornece alumbramento. Depois cresci, fiquei careca, fiz um curso de Gerência Financeira na UFC, casei, descasei, recasei, extraí cinco filhos daí, e escrevi uns versinhos bobos que ficaram enfeixados nos livrinhos A sono solto, Outros poemas, Breviário, Árvore de manivelas, O quanto sou e 8verbetes. Mais nada que mereça ser relatado, lembrado ou registrado, a biografia é magrela mesmo”.

ENTREVISTA
Nilto Maciel – Saiba que não quero história. Evito isto. Talvez para os pesquisadores do futuro, quando você for morto e famoso, para os biógrafos sua história vá interessar. Quero falar de hoje. Onde você se insere, em que nicho da poesia brasileira você se sente (ou se senta)? Você se sentaria ao lado de quem (sem constrangimento, para você)? Ou não há cadeiras vazias para você?

CN – No joguinho de palavras sente/senta, vou dizer primeiro o que sinto sobre o assunto poesia. Nós, os milhões de poetas soltos por aí como poeira no vento, compreendemos muito bem que fazemos uma arte menor, uma arte pobre, uma arte coitadinha… sempre achei que poetas como eu não passam de músicos que não deram certo, contistas preguiçosos, romancistas frustrados… ou poetas pela metade. Mas fazer o que, não é?, a não ser ficar se (me) repetindo em tudo quando é texto só por causa de um vício que eu peguei quando conheci Manoel Bandeira. Que me levou a João Cabral, que me levou a Lorca, e por aí vai. Depois disso curti cada cara em seu tempo: Francisco Alvim, outro tempo com Leminski, etc. Mas os três primeiros ainda me perseguem. E como eles já estão muito longe de mim no espaço, no tempo e na glória, eu me sentaria, sim, e ficaria muito à vontade e muito honrado, ao lado do nosso conterrâneo Horácio Dídimo. Gosto muito dele, me ensinou muita coisa. Quanto às cadeiras vazias, talvez eu responda melhor assim: leio e repercuto tudo, e aqui e ali até livro didático de matemática que não consigo entender. Hoje estou lendo o Corão. Sei que se eu não dormisse, nem comesse, nem trepasse, nem trabalhasse na Caixa Econômica há três décadas (e confesso, para estranheza de muita gente que eu adoro esse trabalho), se eu não fizesse outra coisa a não ser ler, não daria para conhecer um décimo por cento do que eu desejo, parece que a falta e a ânsia de ler o que não leu vão aumentando à medida que você vai lendo cada vez mais, isto é uma constatação, até Pascal já disse uma vez. Para a minha resposta ser mais clara sobre as cadeiras vazias: para mim não há cadeiras vazias, de todo livro e autor com quem me deparo eu aprendo um pouco ou muito, tenho medo até de um dia ser apanhado em flagrante delito, este pequeno texto, por exemplo, eu botei o nome dele de plágio por medo de ele ter existido realmente antes:
O PLÁGIO

teu braço me lembra
Vênus

Pelo muito que teu braço
me falta

Por que não és
pelo menos
apenas uma simples
estátua?

Pode perfeitamente ter sido roubado de Ferreira Gular, ou de Waly Salomão ou de Nilto Maciel ou sei lá mais de quem.

NM – Você prefere papas na língua ou línguas na papa?

CN – Dependendo da pressão sanguínea, do momento, eu uso três, quatro, sei lá mais quantas formas de papa. Agora, por exemplo, estou respondendo com as cujas na língua. Do contrário eu diria: ô perguntinha escrota! Mas é isso mesmo. Às vezes digo o que me vem na telha, às vezes me policio e refaço o pensamento nas palavras. Não se trata de ficar em cima do muro, é que, quando dá tempo, eu temo mesmo as consequências. Afinal, como dizem por aí, quem fala o que quer ouve o que não quer. Muitas vezes eu falei ou escrevi (e ainda falo ou escrevo) o que quis e depois quebrei a cara por calcular quanta energia gastei naquilo e que foi inútil, pois eu estava errado. Mas infelizmente ainda não consigo me controlar e lá vai prejuízo. Afinal, por falar em papas, eu não sou o papa nem o dalai lama, – então: ô perguntinha escrota!

NM – Foi uma brincadeira, mas consegui arrancar de você alguma preciosidade. Agora vai outra casca de banana. Poeta (escritor, de maneira geral) deve “falar” muito ou só precisa escrever? Entrevista, memória, depoimento e outros gêneros extraliterários têm alguma importância? Você se sente à vontade ao desnudar-se assim ou prefere se esconder ou se revelar no poema?
CN – Nilto, estou bêbado, e quero responder bêbado (corrigi a palavra bêbado três vezes). Se o cara estiver bêbado do que escreve, se fizer com gozo, então faça o que lhe der na telha. Eu não faço nada além do que uns versinhos bestas porque não tenho força pra fazer alguma coisa grande. Quem puder tentar isso de outro jeito que tente. Que jogue flechas do ar. Que arrisque. Alguns atingem o alvo na mosca. Pelo que me consta Baú de ossos é um livro de memórias, e é um monumento. O Diário de Anne Frank é um caderno de adolescente (abstraiamos a situação em que foi escrito), e é mais lido no mundo do que Machado de Assis e do que Ezra Pound juntos. E eu não me desnudo nas besteiras que escrevo: nunca o que escrevi tem a ver com o que vivo. A verdade está na cerveja, como não diziam os gregos. Não estou pensando em nada, não estou calculado nada, mas estou super inspirado. Escreverei alguma coisa. Se passar pelo controle de qualidade de quando eu sóbrio, eu te mostro. Ich! Tin-tin.

NM – Escrever é prazer, dor ou nada disso? Se for prazer, é muito natural, humano. Se for dor, é masoquismo (que também é um prazer). Pode ser também sadismo. Fazer o leitor sofrer. Sim, o leitor sofre quando lê, tanto quanto o escritor. Isso não o enche de culpa?

CN – Ao contrário da música, da dança, que muitas vezes expressam felicidade, o fato é que a literatura é o muro das lamentações da arte. Não foi à toa que Vinícius disse numa canção que o poeta só é grande se sofrer. Mesmo nos contos infantis, que têm final feliz, o assunto central é o sofrimento, a humilhação ou a impotência. Quando rimos dos devaneios de D. Quixote nem imaginamos que estamos rindo de nós mesmos, de quando temos esperança. Por isso não me coloco de uma forma pessoal no centro da pergunta. Todo autor explora o lado escuro das pessoas, isto é, o lado escondido (pode ver: rimos em público, mas choramos às escondidas). Não é, portanto, uma questão de se ser masoquista, é lidar com a matéria prima da literatura.

NM – Poesia e livro, poesia e internet. Você tem medo de se perder no universo virtual e prefere ser visto nos livros? De qualquer forma, você (e muitos outros) é apenas uma fagulha? Ou acredita ser uma galáxia, uma estrela, um brilho perpétuo no firmamento? Ter cinco leitores é o suficiente?

CN – 1) Não faço restrição nenhuma ao computador, a ter um blog, a ter um site com textos literários, é um meio de publicar barato e prático e que tende, inevitavelmente a ter prevalência sobre os meios tradicionais; mas o fato de passar 6, 8 horas no escritório onde trabalho lidando exclusivamente com a máquina, me daria a impressão de que meus poemas seriam mais uma de minhas atividades burocráticas, então por enquanto fujo disso, a poesia me é uma atividade lúdica, e eu não quero absolutamente confundi-la com o lado árduo de meu outro trabalho. Por isso ainda prefiro publicar em papel. Portanto, não é uma questão de temor, é uma opção justificável pelas circunstâncias da minha relação constante com a máquina. Um dia, quando eu me aposentar, certamente tratarei disso.
2) Responderei ao tamanho sideral desta pergunta com bem pouquinho. Nunca serei um ser espaçoso nem no tempo nem no ar (noir?), não sou porque primeiro não sou mesmo e depois não faço questão, ou seja, não sofro chiliques pelo fato de não ser, jamais irei ao Saara buscar a água rara da glória. Faço sincera autocrítica das coisinhas que eu escrevo: são umas tolices que a mim me divertem e a poucos interessam, nada mais do que isto. Então talvez eu chegue apenas a um pouco além da fagulha, para ficar na metáfora que você está usando, digamos que se trate de no máximo o tempo do palito de fósforo se queimar. E não ria o riso dos irônicos por achar que estou usando de falsa modéstia ou que seja o reconhecimento da minha santa mediocridade, esse é um sentimento sincero que possuo a respeito dos meus livros, e acrescento que não sou absolutamente infeliz ou incomodado ou injustiçado por causa de me sentir mero fogo fátuo, sou comum mesmo e trivial, gosto de futebol, de tomar umas, de ouvir piadas infames (só de ouvir, porque não sei contar)… – você acha que alguém assim poderia entrar no reino da imortalidade? Nunquinha. Quero a mortalidade e me belisco todo dia para saber se está tudo bem.
3) Ter somente cinco leitores realmente não é uma coisa boa, mas fazer o que? Há algo que dói mais do que isto quando a gente publica um livro: é a sobra. Minha primeira publicação foi de 1000 exemplares. Quanta inexperiência, quanta ilusão neste número! Consegui me desfazer (sic, sic – mas é este o termo) de uns duzentos e poucos, e aquela imagem, aquela coluna negra (a capa era preta) que, em vez de diminuir, cada vez mais crescia aos meus olhos, me aborrecia de verdade, me torturou durante uns quatro anos seguidos, quando finalmente resolvi juntar todinhos e fragmentá-los, queimá-los ou vender para o papel velho, nem sei mesmo o que foi que eu fiz, sei que tirei da minha frente aquele pesadelo, aquele abandono. Hoje publico 300, 500 exemplares no máximo, e ainda sobra… quem sabe não chegue o dia de eu publicar os tais cinco exemplares para sentir o prazer de lançar (que glória!) uma 2ª edição?

NM – Falamos de você e de quem é poeta (os outros), do poema, do prazer e da dor de escrever, do livro de poemas e dos poemas em computador, dos leitores (esses outros que somos também nós). Você pode falar do que é poema? O que você quer, quando escreve? Poema é para ser lido/ouvido/visto? Quem lê, ouve e vê, precisa ser bom leitor e bom ouvinte? Ler com (ou por) avidez/paixão.

CN – Poesia é uma manifestação dos espíritos (no plural), por isso se mostra de formas absolutamente diferentes. Alguns se confessam poetas cerebrais, outros intuitivos, há quem construa textos como se estivessem fazendo desenhos, outros compõem coisas herméticas, tudo igualmente bom ou igualmente ruim. Mas eu não acredito que exista a criação puramente cerebral nem puramente intuitiva, vejo nessas classificações apenas estágios do fazer. Quando esses impulsos (sentimentos, insights, ou seja, o que for) se materializam, aí os textos refletem um pouco (e às vezes apenas um mínimo) da idéia ou do sentimento original do criador; partindo de mim, portanto, não acredito em sinceridade absoluta, em fidelidade absoluta, entre o produto final e a embrião imaterial do poema. É algo totalmente transformado. Veja bem, quantas coisas foram iniciadas a partir de um impulso, e o cara ao tentar melhorá-las sob o aspecto estético, terminou dizendo o contrário ou algo muito distante de seu sentido original? Acho que esse “desvio-padrão” acontece com todo escritor e em qualquer gênero. O que eu acabei de dizer significa exatamente minha vivência com a poesia, ou seja, é uma coisa desmistificada, embora que eu jamais me definiria cerebral… Na verdade, nunca penso muito sobre o modo de fazer, eu a faço de maneira selvagem, primitiva, sem estilo. O que eu posso dizer com segurança é que:
1) algo sem nome acontece quando eu percebo que surgirá na minha frente uma fileira de palavras que me farão arrepiar, e aí se dá uma fuga da realidade que dura alguns segundos (chamam isto de inspiração, mas eu considero pejorativa essa denominação);
2) Repito quase sempre as mesmas temáticas; são recorrentes, por exemplo, o tempo e o destino; e sempre busco ser simples para ser compreendido (ainda assim, uma tia minha – e também muitas pessoas cultas falam que não compreendem bulhufas); e
3) finalizado o texto, o que eu sinto é: ora uma sensação de prazer parecido com o fato de ter comido uma coisa boa, ora a de alívio por me desfazer de um peso que estava carregando. Por fim, eu não chamaria de paixão o sentimento que tenho pela poesia, chamaria de alegria, pois paixão nos chega sem ser chamada e depois se acaba, e alegria a gente busca.

NM – Para finalizar, você está contente com o que escreveu? Pretende escrever mais? Ou escrever não é pretensão? É sina?

CN – Não estou contente de jeito nenhum. Noventa e tanto por cento é ruim. Um por cento talvez seja bom. Mas eu vou continuar tentando, um dia, quem sabe, eu termine alguma coisa que considere o resto excessivo. Por enquanto, não. Embora eu já me veja como um veterano das tentativas e perceba as possibilidades se escasseando, vou continuar caçando esmeraldas, (por si só isso me diverte pra caramba), e um dia, quem sabe, eu encontre uma pedrinha comum, mas bem bonita. Se isto acontecer, e quando acontecer, eu te digo, você vai ser o primeiro a saber. Combinado? Obrigado pelas oportunidades que você me deu aqui no seu blog.
Fortaleza, janeiro de 2011.

Fonte:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/carlosnobrega.html

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Nilto Maciel (O Escritor em Xeque)

Entrevista publicada, em 30/4/2011, na revista cultural eletrônica Diversos Afins (www.diversos-afins.blogspot.com), dirigida por Fabrício Brandão e Leila Andrade)
Para definir um bom prosador, são necessárias palavras que se proponham a extrapolar os limites meramente expositivos de qualquer cenário narrativo. Contentemo-nos, pois, numa análise que sabe ir além de um simples artifício de contar histórias. Numa acepção densamente significativa, um contista, mais do que apresentar situações e tramas, deve ser capaz de dissecar o âmago dos seres apresentados. A partir daí, ganha corpo vigoroso uma noção de interioridade que sabe ser ingrediente fundamental de uma proposta textual rica e consistente. E tal perspectiva encontra abrigo no modo de pensar e agir do escritor cearense Nilto Maciel. Detentor de uma trajetória que contempla incursões predominantes na seara da prosa, o autor, natural de Baturité, revela-se um alguém peculiarmente envolvido de modo especial no fazer literário, qual seja o de se apropriar de modo pungente dos elementos presentes em seu espaço íntimo de abstração para depois transformá-los em matéria viva vertida em palavras e outros tantos signos. Nesse processo, Nilto mergulha no universo de sua catarse pessoal, convivendo de frente com a necessidade primeira de isolar-se do mundo até que o produto de sua viagem ao centro de si mesmo seja expelido sob a forma de texto. Alguns de seus livros renderam-lhe premiações de destaque em concursos nacionais e regionais. Sua obra contempla, dentre outros, Itinerário (contos, 1974, Scortecci Editora), Tempos de Mula Preta (contos, 1981, Papel Virtual Editora), Punhalzinho Cravado de Ódio (contos, 1986, Secretaria da Cultura do Ceará), A Última Noite de Helena (romance, 2003, Editora Komedi) e Carnavalha (romance, 2007, Bestiário). Durante o diálogo do escritor com a Diversos Afins, foi possível compreender certas razões capazes de justificar as imagens que cercam o engenhoso ofício da escrita. Em Nilto Maciel, temos o exemplo vivo e atinente de que escrever, acima de tudo, envolve um criterioso ritual de entrega humana, tudo compreendido num lapso que sabe a desvãos da alma.

A entrevista

DA – Muita gente acredita que a única função do conto é a de relatar uma história, aspecto que negligencia a capacidade de transcendência de um texto. Enquanto autor, como você percebe tal discussão?

NILTO MACIEL – É verdade: tanto leitores (é só ver na Internet o número de leitores de sítios de contos lineares, de formato tradicional) como escritores ainda veem na história com começo, meio e fim, enredo claro, narração e diálogo (os velhos travessões e verbos dicendi a torto e a direito), personagens bem delineados, etc, o único ou o verdadeiro modelo de conto. Não sei se se discute isso. Não conheço artigos ou ensaios que tratem desse assunto. Para mim, o conto pode ser elaborado a partir de um modelo. E os modelos são muitos: o de Tchekhov, o de Poe, o de Maupassant, o de Joyce, o de Cortázar. No Brasil temos novo modelo (não tão novo, vem de Rubem Fonseca), que é o conto que tem como assunto a violência urbana. Transposto para o cinema, virou febre. É um filme atrás de outro, com a mesma receita e os mesmos ingredientes: muita bala, muita matança, muito morro, muito bandido, muito policial, muito ódio. Na literatura significa cópia de reportagens. Por isso, os escritores dessas histórias não se preocupam com literariedade. Para eles, literatura é arte de escrever. Se assim é, nem precisa estudar, ler, pesquisar. O computador se encarrega de registrar a fala e corrigir o óbvio. Só isso. Basta ter coragem de expor as mazelas do homem e da sociedade. O resto que se dane.

DA – Subjetivamente falando, é possível conceber o contista como sendo um verdadeiro engenheiro de ilusões?

NILTO MACIEL – O contista, como o romancista, é, sim, um engenheiro de ilusões. Não apenas das ilusões contidas nos enredos, nas tramas. Mas das ilusões escondidas nas entrelinhas, atrás de véus, debaixo de panos ou papéis. Não a ilusão palpável da vida, do viver, mas a ilusão diáfana da poesia. Sim, sem poesia o conto não se faz arte; amolda-se ao método da reportagem, da informação, do jornalismo. Falo de aparência e exterioridade. Sem ambiguidade e interioridade não há arte, não há conto. Contar, apenas, é fácil. Compor um conto é outra história (desculpe o trocadilho).

DA – Talvez não seja tarefa fácil absorver os excessos contidos na pós-modernidade, algo que poderia até mesmo escamotear sentidos essenciais. Nesse aspecto, como o torvelinho de imagens de mundo movimenta seu processo criativo?

NILTO MACIEL – Tenho falado muito de memória. Não sei se estou certo, mas acredito que obra de arte nasce na memória. Sendo assim, pergunta-se: Como teria sido nos primórdios? Ora, a memória literária não vem apenas dos livros, das inscrições rupestres, dos papiros, dos palimpsestos. Há também a memória oral. Tenho certeza de que só escrevo o que vi, ouvi, li, senti. Nada invento. A criatividade não vem de geração espontânea. Por isso, é preciso ter tido infância. Dirão: todos tivemos infância. Sim, mas nem todos conseguem abrir o baú e dele retirar quinquilharias, pedacinhos de pano, pó invisível. E é preciso ter lido muito. Borges recomendava a leitura de apenas cem livros essenciais. Não se referia, porém, à memória. Porque a cartilha é tão essencial como um tratado de filosofia. A imagem no cinema, na televisão, no computador é apenas estopim para mostrar imagens apagadas, soterradas, esquecidas. Não sou teórico, sou apenas escritor. E escritor é aquele que não conseguiu ser cientista, pesquisador, inventor. O que não sabe explicar porque a aranha tece a teia. Alguns não se aceitam tão pequenos e escrevem ficção científica. Acham que são, sim, cientistas.

DA – Acredita que para um autor há limites na utilização dos recursos da memória afetiva?

NILTO MACIEL – Os limites existem, porque somos limitados. Se pudéssemos utilizar todos os recursos da memória afetiva, a obra de arte seria muito mais vertical. Escritores verticais são Dostoievski, Machado, Kafka, Virginia Woolf, Clarice Lispector. Outros, os que se esmeram na horizontalidade da fala e dos atos, são meros descritores de paisagens e narradores de movimentos sempre repetidos dos seres que povoam as paisagens. São apenas cronistas de seu tempo. Pois cronistas todos o são. Machado é o cronista vertical do Rio de Janeiro do século XIX.

DA – No romance Carnavalha, você explora com densidade traços que ajudam a mostrar um painel de nossa contraditória brasilidade. Como surgiu a ideia de construir uma narrativa que, mesclando elementos trágicos e cômicos, provoca-nos a todo instante?

NILTO MACIEL – Todo escritor acalenta o sonho de erigir uma obra monumental. Alguns não perdem tempo com acalantos e desde cedo iniciam a construção de suas pirâmides de Gizé. Faraós da palavra, chamam-se Cervantes, Dante, Shakespeare e outros. Eu bem que tentei, sonhei, fiz escavações. Não consegui, como a maioria. Carnavalha foi uma das últimas tentativas de levantar pequenas tumbas para meus pequeninos personagens, saídos do fundo da memória. Palma já existia e está em quase todas as minhas narrativas, principalmente as mais longas. Os seres que a habitaram são mortos sem tumbas. Carnavalha (carnaval em Palma) é também um pouco de tragédia, um pouco de comédia. Um pouco do Brasil, um pouco de mim.

DA – Mas será que é realmente importante construir uma obra monumental?

NILTO MACIEL – Na pergunta, dois adjetivos equivalentes. Ser importante é ser fundamental, básico, necessário. Acho que é nesse sentido a questão. Dizem alguns teóricos que tudo é importante, toda obra literária é necessária, mesmo a mais rudimentar, a mais medíocre. Porque é dela que surgirá a obra maior. Sem as novelas de cavalaria não existiria Dom Quixote. No entanto, vem mais uma pergunta: Não estariam os autores daquelas histórias também imbuídos da vontade de erigir castelos monumentais? João de Lobeira (ou quem quer que tenha sido o autor do Amadis de Gaula) certamente se sentia um criador de mundos. E o foi, em certo sentido. Quem sabe, um dia surgirá o Cervantes que irá recriar Palma e escrever um romance monumental.

DA – Ao mesmo tempo em que trouxeram facilidades, as mídias eletrônicas externaram também uma verdadeira obsessão de muitos autores em serem reconhecidos, lidos, comentados a qualquer custo. Essa dinâmica frenética não acaba criando um relativismo conceitual e estético um tanto perigoso no que tange às criações?

NILTO MACIEL – É muito natural a vontade (mesmo que obsessiva) de ser lido, comentado e reverenciado. Quem não quer? Até aqueles que se fazem reclusos em casa e se dizem avessos a entrevistas, “badalações”, festinhas literárias como lançamento de livro, feira, simpósio, seminário, etc, até esses, no fundo, querem mesmo é fama. Ocorre que quem vive em salões (bares, clubes sociais, academias, redações de jornais) termina se esquecendo de ler e escrever. Se já não é tão talentoso (usarei este adjetivo para não estender demais minha opinião), vivendo essa vida de cortesã ou cortesão, sua literatura será como a bolha que escapa do chope. Em alguns, essa neurose os torna até perigosos. São como aqueles loucos das piadas que se dizem Napoleão Bonaparte.

DA – Com o advento da internet, o seu fazer literário mudou bastante ou ainda preserva hábitos marcantes de outrora?

NILTO MACIEL – Sim, meu fazer literário mudou muito desde os anos 80, quando adquiri um computador doméstico. Quase nada restou do meu modo de ser leitor/escritor. Antigamente (parece que faz tanto tempo!), eu escrevia em folhas de papel e cadernos. Uma loucura. Sobre a mesa, tudo espalhado. Anotava ideias separadamente. Uma frase aqui, uma ideia ali, um nome de personagem acolá. Porque o pensamento é lépido demais. E temos apenas duas mãos (só uso a esquerda). Agora está melhor, porque digito com as duas. Mas a memória ainda é o baú principal. Costumo escrever quando me deito para dormir. Porque não me deito para repousar ou descansar. Isto é para cavalos, jumentos, cachorros, gatos, leões. Deito-me para pensar e, em seguida, dormir. Às vezes, não consigo dormir. Passo a noite a pensar (escrever mentalmente). Quando acordo, imagino que sonhei. Mas não foi sonho, foi elaboração mental consciente. Acordado, relembro tudo (ou quase tudo) o que imaginei (escrevi) e digito sob um título provisório: “Conto do homem que olhava formigas”. São dois tipos de anotações: o como será o conto (na primeira ou na terceira pessoa, dois ou três personagens, com ou sem diálogos, etc) e a própria história. Muitas vezes não consigo me libertar daquele conto e passo o dia a elaborá-lo. Em dias assim, não me alimento, não me banho, não atendo chamados, não saio de casa, não ligo televisão. Quando cuido, estou caído no meio da sala, morto de fome, sujo, completamente envolto na loucura, a delirar. Por isso, preciso viver só. Quando vivia com mulher e filhos, precisava me controlar, me policiar, ser normal. Agora posso assumir minha anormalidade, sem medo.

DA – E como andam as perspectivas atuais? Está trabalhando em alguma obra nova?

NILTO MACIEL – Quem escreve só deixa de escrever quando morre. Alguns continuam escrevendo até depois da morte (dizia Chico Xavier). Se algum médium puder copiar meus ditados, prometo ditar com paciência. Há um ano, mais ou menos, rabisco um romance. Está todo arquitetado, mas poderá se modificar. Como dizem, alguns personagens costumam crescer; outros, minguar. Voltei à primeira pessoa. Os leitores poderão até dizer: O narrador é o próprio autor. Não deixa de ser.

DA – Afinal, o que se busca com o ato de escrever?

NILTO MACIEL – Uns buscam fama, dinheiro, reconhecimento. Outros querem dizer: eis-me, existo, existi. E tudo passa, passará. A fama poderá resistir ao tempo, até depois da morte. Para quê? O dinheiro virará fumaça. Os escritores morrem, seus nomes viram verbete. Algumas obras ficaram e ficarão. Até quando? Depois a humanidade desaparecerá e a Terra será habitada apenas pelos “seres inferiores” que não leem e não lerão. Portanto, o que se busca não passa de pó. E, quando Deus der o sopro final, todo o pó voará pelos ares e se perderá na imensidão das galáxias. Na verdade, não acredito na existência de Deus. Se existe, existirá para sempre. Sem literatura, porém.

Fonte: Colaboração do autor em Artigo Pequena sabatina ao artista (Nilto Maciel e Fabrício Brandão), obtida em Literatura sem Fronteiras

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Fabio Rocha em Xeque

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão em 2002. Revista Eletrônica Balacobaco (http://intermega.globo.com/seomario/index.htm)

1. Em Drummond você diz: “Ser Pedra/Ou ser poeta”. Por que escolheu ser poeta?
(OBS: O nome do poema é “Escolha”, dedicado a Drummond, e é “Ser pedra ou poeta” num só verso – o último)

Na verdade, não sinto que um belo dia decidi ser poeta… Foi algo que começou meio por acidente, depois eu insisti no erro e gradualmente cheguei a isso que sou hoje: nada, uma pedra no caminho. Sempre gostei de fazer as pessoas tropeçarem em suas certezas.

2.Qual influência tem de Quintana?

Acho que o que mais aprendi com Quintana é que podia escrever de modo simples, sem hermetismos, na linguagem e no conteúdo… E que um pouco de ironia e humor não vão mal na poesia. Para mim, a obra-prima dele é o “Poeminha do contra” (Todos estes que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão. / Eu passarinho!). É belo, conciso, simples e com uma mensagem forte.

3.Como foi ganhar o prêmio do site POEMAS AZUIS?

Sem dúvida foi o meu prêmio mais importante, porque além de eu ter conseguido o primeiro lugar, foi julgado por um poeta consagrado, a quem aprecio muito, o Affonso Romano de Sant’Anna. Foi uma satisfação dupla.

4.Quem é o poenauta brasileiro?

É o poeta vivo e atuante, que consegue ser lido sem gastar um dinheirão. E, geralmente, não se perde no hermetismo, que é quase a regra da poesia não virtual contemporânea.

5.Qual poema seu personifica melhor a sua obra? Fale sobre.

Realmente não sei responder a essa pergunta. Eu escrevo muito, quase um poema por dia, e mudo muito também, juntamente com o que escrevo… Hoje adoro um poema, amanhã acho horrível. Aí fica difícil ter um poema único que consiga personificar tudo o que escrevo.

6.Como é manter o site A MAGIA DA POESIA?

É um prazer tão grande que vicia… É muito bom ter alguém me lendo,mandando comentários e trocando idéias… Saber que é possível emocionar pessoas, mesmo as muito distantes, é algo precioso. A net é o melhor instrumento que conheço para isso. Um livro editado custa muito caro, com público reduzido e, pra completar, a distribuição em livrarias é uma droga. Por isso acho que a internet é a mídia mais eficiente para divulgar trabalhos escritos para autores novos. Pensando nisso é que lancei o concurso de poesias do site, onde o primeiro prêmio ganha uma página sob medida para divulgar seus trabalhos, feita por mim mesmo.

7.Qual é a magia da poesia?

Misturar palavras, rimas, imagens, lógica e emoção de modo diferente em cada um que lê. O poema se transformar de leitor para leitor é o que acho mais mágico na poesia.

8.Tem algum mote?

“Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.” Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) – 14/2/1933

9.Qual o aspecto mais importante dentro de um poema? Fale-me de um aspecto teórico e um aspecto teórico ou não que faça ou seja característica da sua poesia?

Para mim ainda é o conteúdo o mais importante. Minha poesia não tem uma base teórica, vai saindo. Às vezes dou uma aparada aqui e ali, às vezes deixo como vem originalmente. Quem sabe, se eu tiver sorte, anos após a minha morte, não haverá teses de mestrado ou doutorado nas faculdades de Letras do país explicando detalhadamente os porquês do que escrevo hoje? 🙂

10.Qual o papel do escritor na sociedade?

Escrever de modo a fazer o leitor sentir algo novo ou velho de modo diferente. Emocioná-lo, chocá-lo, desafiá-lo, fazê-lo duvidar de si mesmo e do mundo, inspirá-lo.

Fonte:
A Magia da Poesia.

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André Carneiro em Xeque

entrevista realizada por Arthur Dantas

Quase todo mundo já ouviu falar do Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago ou pelo menos da adaptação light de Fernando Meirelles. Dá pra falar a mesma coisa do livro I Am a Legend, de Richard Matheson, adaptado em três ocasiões diferentes por Hollywood, sendo que a última, Eu Sou a Lenda, foi um desses blockbusters de verão estrelado por Will Smith e pela gostosa da Alice Braga. Agora, duvido que a maioria dessas pessoas conheça e/ou estabeleça a relação entre as obras acima e a do escritor André Carneiro, 87 anos, o maior escritor brasileiro de ficção científica e poeta renomado.

O pioneirismo e espírito curioso e vivaz de Carneiro se manifestaram publicamente na criação do jornal literário Tentativa — que ganhou recente edição fac-símile. Feito em sua cidade natal, Atibaia, no interior de São Paulo a partir de 1949, reuniu autores como José Lins do Rego, Murilo Mendes, Otto Maria Carpeaux, Vinícius de Moraes e Hilda Hilst (publicada lá pela primeira vez), para citarmos apenas alguns medalhões.

Apresentou ainda grandes artistas como Goeldi e Aldemir Martins. Seu amigo pessoal, o dândi libertário do modernismo Oswald de Andrade, assinou o editorial do primeiro número e ressaltou o espírito plural da empreitada. Em tudo, Tentativa era inovador e destoava do emaranhado de publicações literárias do período, que se agarravam a posições mais ou menos cristalizadas: luxo de jovens curiosos e empreendedores que podiam manter certa distância das estéreis pelejas intelectuais tão típicas dos meios ilustrados desde sempre.

Incentivado como poeta da terceira geração modernista por figuras notáveis como Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar, Carneiro também é ensaísta, fotógrafo, pintor, cineasta e escultor—tudo isso antes do termo multimídia virar muleta pra nego abastado e sem talento.

Ângulo e Face, sua estreia como poeta, foi editado por Cassiano Ricardo em 1949 e o colocou no rol dos grandes poetas do momento (o crítico francês Bertrand Lorraine afirmou que “Carneiro é um dos maiores poetas vivos do Brasil”).

Fez roteiros para filmes de Roberto Santos e Walter Hugo Cury. Seu conto O Mudo foi transformado no filme Alguém, de Júlio Xavier da Silveira. Sua fotografia Trilhos, de 1951, é considerada um dos marcos do modernismo fotográfico no Brasil e está presente no recém-lançado Fotografias Achadas, Perdidas e Construídas.

Suas obras de ficção científica foram publicadas nos Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, Espanha, Argentina, Chile, Suécia, Bulgária, na antiga União Soviética e no Japão. Participou, ao lado de outro grande nome esquecido da sci-fi nacional, Jerônymo Monteiro, em histórico simpósio do gênero, organizado pelo tradutor José Sanz no Rio de Janeiro em 1969, com convidados como Robert Heinlein, J.G. Ballard, Arthur C. Clarke e Phillip José Farmer, entre outros. E, desse contato com mestres estrangeiros, passou a angariar elogios de Arthur C. Clark e do notável A. E. Van Vogt, que afirmou que Carneiro merecia a mesma audiência de um Franz Kafka ou Albert Camus. Apesar de todo peso de seu histórico literário e reconhecimento internacional.

Carneiro nunca pleiteou vaga na Academia Brasileira de Letras, como explicou em um site na net: “Tem-se de visitar todos os acadêmicos e pedir um voto a eles. Eu não seria capaz, acho provinciano.” Mais um motivo para quem não suporta o beija-mão usual para admirá-lo. É simples explicar seu ostracismo como ficcionista. Primeiro que sci-fi sofreu lapsos de continuidade no Brasil e acabou ficando restrita a círculos nerds conhecidos como fandom, e convenhamos, jogadores de RPGs, de jogos on-line e trekkies não despertam muito respeito por aí, e sua imaginação cheia de lirismo fértil e transgressora é muita treta pra Vinícius de Morais, por assim dizer.

Se é possível notar influências de Aldous Huxley e Ray Bradbury em sua obra, é em certo parentesco com Henry Miller, quando decide colocar as relações sociais mediadas sobretudo pelo sexo em evidência, que sua obra ganha vulto e complexidade. “Intimidade não se revela na pele, mora no labirinto”, verso de seu recém-lançado livro de poesia Quânticos da Incerteza, dá a medida exata de como encara o sexo—mantendo a chama de estudiosos pós-freudianos, como Erich Fromm e Willhelm Reich, acesa.

Sua obra Piscina Livre é seu primeiro experimento mais consistente nesse sentido, que ganhou ar de temática definitiva em seu maior romance, Amorquia, de 1991. Neste livro, em futuro distante, o amor exclusivo é visto como doença, a maternidade é um detalhe irrelevante, o sexo é ensinado e praticado nas escolas. Além disso, a noção de tempo foi abolida, já que a morte não existe mais. O molho da trama azeda quando começam a morrer pessoas repentinamente. Paradigmas são postos à prova, um novo sentido de comunidade é necessário e o medo reaparece no vocabulário corrente. Em certo sentido, o enredo complementa e arromba a já terrível visão de Lars Von Trier sobre a guerra de sexos exposta em O Anticristo.

Sua obra inspirada e furiosamente selvagem guarda para si a vanguarda e o verdadeiro sentido de uma literatura de ideias vigorosas e perigosas.

Acabei de ler o fac-símile do Tentativa, e fiquei muito curioso. Vocês estavam na “periferia dos acontecimentos da rota do mundo”, como diria Oswald de Andrade. O texto de abertura é do Oswald, e vocês conseguiram vários colaboradores conhecidos.

O meu jornal foi considerado o melhor do Brasil naquela época.

Sim. Eu sei que vocês movimentaram muito, fizeram a primeira exposição de arte moderna em Atibaia. O que vocês estavam acompa-nhando naquele momento que motivou o grupo que era você, sua irmã, o César…

Olha, na verdade era eu porque o outro rapaz e minha irmã tinham dez anos menos que eu—eu tinha 26. O mais velho, responsável lá, era eu mesmo.

Queria saber da sua história. Sua família é tradicional de Atibaia?

Ah, sim, claro! Meu pai tinha uma loja lá de material de construção que eu herdei e toquei pra frente durante algum tempo. Depois eu vendi e me mudei para São Paulo.

Você teve uma educação clássica, literata?

Eu não tive influência nenhuma. Me apaixonei pela literatura e pela cultura de modo geral sem influência de ninguém. Eu admirava as pessoas que saíam no jornal, as pessoas e artistas, tanto que eu fiz várias formas de artes. Fiz pintura, fotografia… É interessante que fiz fotografia durante 50 anos sem muita difusão. Agora me consideraram um pioneiro do modernismo brasileiro. Acabei de fazer uma exposição de pintura na Galeria Dan em São Paulo.

E qual era a sua relação com a primeira geração dos modernistas?

Eu frequentava mais o Sérgio Milliet, o Aurélio Buarque de Holanda—que vinha às vezes do Rio—e o Oswald de Andrade que era meu amigo. Ele me visitava em Atibaia. Era um grupo pequeno de intelectuais. Aliás, sempre foi pequeno. Mas eram pessoas de alto nível cultural. O Sérgio era um continuador do Mário de Andrade excelente, ele dirigiu a Biblioteca Municipal com grandes eventos culturais que nem existem mais. Eu fiz conferências na Biblioteca Municipal com 300 pessoas, hoje em dia não existe mais isso.

Você estava envolvido nesse caldeirão. O que te levou a escrever ficção científica?

Eu lia literatura contemporânea. Sei lá, Huxley. Talvez seja o próprio desenvolvimento da tecnologia que nos leve a esse ponto, porque, se a gente for pensar no que usamos de tecnologia hoje em dia, estamos mergulhados na ficção científica. Há poucos dias um amigo meu, que também é escritor e faz parte de uma oficina que eu tenho aqui em Curitiba, tira um telefone do bolso e faz uma entrevista comigo. E você vê, o telefone hoje em dia é uma câmera. Ele faz a entrevista com ele e depois transmite as imagens perfeitas e nítidas pro jornalista no Rio, que tinha pedido a entrevista. E olha, isso é uma coisa que até a ficção científica esqueceu de inventar.

Como foi a recepção dos seus contemporâneos como, por exemplo, o Oswald ou o próprio Otto Maria Carpeaux, quando você decidiu fazer ficção científica?

Quando comecei a fazer ficção científica, esse pessoal mais acadêmico nem percebeu. Não sabiam o que era aquilo. Depois, quando eles tomaram conhecimento do preconceito etc., me sabotaram. Isso eu não tenho a menor dúvida. Falavam que eu tinha me prostituído. Faziam isso de maneira muito sutil, porque, quando eu faço poesia, minha poesia não tem nada de ficção científica. Quer dizer, não é que não tem nada, mas tem pouca coisa. Então a minha poesia é absorvida por todos de maneira pacífica. Mas contos e etc., aqueles que são de ficção científica, não são nem lidos pelos acadêmicos.

Você acha que sua obra é melhor compreendida fora do que aqui?

Ah, disso eu não tenho a menor dúvida. Eu sou o escritor brasileiro de ficção científica mais conhecido no exterior. Mas, vamos falar a verdade, não chego aos pés do Paulo Coelho.

Isso te incomoda de alguma maneira?

Não, não me incomoda. Fico muito satisfeito. Não quero deixar de ser erudito, não. Quero ser mais erudito ainda. Não sou mais porque não consigo, mas quero ser cada vez mais profundo. Para mim, cada conto é um trabalho de tremenda paixão literária. Não faço concessão nenhuma. Essa é a grande vantagem. Como a gente não ganha dinheiro nenhum no Brasil com literatura, então pelo menos quero ganhar qualidade, pelo menos ficar marcado.

A que você acha que se deve essa dificuldade, tanto de público quanto dos intelectuais e dos formadores de opinião no Brasil em relação à ficção científica?

Acho que é um tipo de burrice brasileira, um tipo de recurso assim, barato e eficiente, de afastar concorrentes dentro da literatura. Porque se eles percebem que dentro da ficção científica estão aparecendo pessoas boas, dizem: “Não, ficção científica. Nem leia, nem leia”. E então só sobra o espaço pra eles. E como os editores brasileiros, de modo geral, são bastante atrasados, eles não percebem nada disso. Aceitam que não é pra publicar ficção científica, porque é uma coisa maldita.

Você acha que aquela ideia do Nelson Rodrigues de “complexo de vira-lata” do Brasil…

É uma das observações mais inteligentes que já se fez do Brasil.

Você acha que essa história de que o Brasil está se inserindo no mundo, virando uma grande potência, também reflete nessa abertura maior que está acontecendo, inclusive, para a ficção científica? Você acha que vamos abandonar o “complexo de vira-lata” e virar gente grande?

Eu considero um grande aperfeiçoamento. O fato de enxergarem o cachorro vira-lata já é uma grande coisa. Se vai funcionar ou não, eu não sei, mas antes ninguém enxergava nada. Agora estão até defendendo pontos de vista diferentes, de que tem gente fazendo uma literatura mais profunda, mais interessada numa evolução de temática e de qualidade na ficção científica do que no mainstream, do que na literatura geral.

Sim, eu acompanhava algumas listas de discussão de ficção científica no Brasil—que em geral são muito conservadoras, de um jeito muito, eu diria, antiquado e anglo-saxão de pensar a questão da ficção científica—e lembro que causou polêmica. Era meio que um assunto tabu, eu imagino. Mas o que eu acho importante é, seguindo esse raciocínio, que a ficção científica seria hoje o gênero por excelência de divulgação de ideias da literatura.

Eu acho que sim, porque é impossível a gente manobrar uma ideia hoje em dia sem que a gente não coloque um futuro explodindo aí na frente, porque o futuro antigamente era uma coisa bastante distante, mas hoje em dia a gente dança com o futuro todos os dias. A gente tá casado com o futuro.

Eu estava comentando com um amigo meu que o conto A Espingarda tem o mesmo enredo que um filme protagonizado recentemente pelo Will Smith. Tem passagens inteiras que são exatamente iguais. Só que no filme americano, o desfecho, ao contrário do seu que é niilista, tem um final feliz.

O Saramago fez a minha A Escuridão. Muita gente acredita que ele se inspirou no meu conto. Meu conto foi publicado em 12 línguas. Eu escrevi dez anos antes dele [na verdade o livro de Saramago é de 1995 e o conto de Carneiro, incluído no livro Diário da Nave Perdida, é de 1963]. O meu conto saiu na Espanha, saiu em inglês, em francês, saiu em todas as línguas. Ele deve ter lido.

E você teve a oportunidade de ler o livro do Saramago ou de ver o filme?

Eu não assisti, sabe? Pra não ficar com raiva. Parece que a interpretação que ele fez do comportamento dos cegos é negativa. Os cegos ficaram mal. No meu conto não. Os cegos é que salvam aqueles outros. É uma atitude muito mais humana, muito mais razoável.

Como foi sua experiência com cinema?

Eu fiz cinema com o Abílio Pereira de Almeida, que era importante na Vera Cruz, e depois se suicidou não se sabe bem por quê. Ele fez algumas peças de teatro muito boas. Os filmes que ele fez são mais ou menos ruins. Ele fez alguns filmes com o Mazzaropi. Na verdade não trabalhei com ninguém que valesse a pena, que me ajudasse a ir pra frente, sabe? O cinema brasileiro é muito duro, o sujeito primeiro tem que arrumar dinheiro e depois fazer o filme. Eu primeiro faço o filme. Primeiro imagino a história. Não penso em dinheiro, não tenho capacidade de arranjar dinheiro. Sou um pobre, assim, bem situado.

E como você entrou para a fotografia?

Ah, o cinema e a fotografia para mim estavam misturados. Eu fazia filme com aquelas maquininhas pequenas, com 8, 9.5, 16 mm. Era uma loucura.

Você se define como poeta, escritor, fotógrafo, artista plástico…

Olha, sempre me perguntam isso. Sou aquilo que faço no momento. Faço escultura e também faço pintura. E quando estou fazendo qualquer arte eu sou aquilo que estou fazendo no momento. Depois, quando estou fazendo a outra, eu mudo. É uma questão de paixão total, ampliada em todos os sentidos. Escrevo todo dia. É que eu estou com uma namorada nos EUA que me escreve todos os dias, então todo dia eu respondo pra ela.

Você disse numa entrevista que usa a internet desde sempre.

Ah, sim, uso a internet desde o [computador] 256.

E você faz pesquisa em internet para poder escrever?

Olha, muito pouca. Às vezes vou lá no Google pra esclarecer qualquer coisa, mas pesquisa assim de ficar dançando lá dentro não, porque o salão é muito grande e a gente perde muito tempo. Prefiro eu mesmo criar alguma coisa que os outros pesquisem.

Como você foi se interessar por hipnose?

Ah, isso é uma história muito comprida. Me interessei por hipnose e fiz experiências com duas ou três pessoas. Hipnotizei e aí virei até uma espécie de médico. Cheguei a ter consultório. Fiz psicologia e tratamento de neurose com hipnose. Até cheguei a inventar um método, mas não podia fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Fiz uma experiência científica de hipnose junto com um grande médico brasileiro, porque precisava ter um médico no meio. Sou um grande entendido de hipnose, mas fica só nisso.

Mas ainda pratica hoje em dia?

De vez em quando sim, em casos excepcionais. Mas não estou mais atendendo clientes.

Você mora em Curitiba há quanto tempo?

Faz pouco. Tive um problema de visão, então enxergo pouco. Enxergo 10%. Vou lá no computador, aumento as letras etc. Moro aqui porque tenho dois filhos. Um deles é professor da USP e o outro é músico, toca clarineta e é professor também aqui da Orquestra Sinfônica. Então vim pra cá pela companhia agradável. E é uma cidade interessante, apesar de o povo não ser interessante; o povo é muito frio.

E quais são seus próximos projetos?

Olha, tenho dez contos inéditos que eu tenho vontade de publicar. São contos muito bons. À medida que vou escrevendo, escrevo cada vez melhor. É muita prática, e é uma prática de um sujeito que está interessado em qualidade. E a qualidade puxa todo o resto.

Fonte:
Excerto da entrevista de
http://www.viceland.com/br/v2n1/htdocs/andre-carneiro-257.php?page=2

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Ademar Macedo (O Homem atrás do Escritor, o Escritor atrás do Homem)

Dando sequência as entrevistas virtuais realizadas com escritores do Brasil, revelando o homem que há por trás do escritor e o escritor que há por trás do homem, o convidado de hoje é um colaborador do blog e um grande divulgador da literatura brasileira, trovador, poeta, cordelista, o potiguar (pessoas nascidas no RN), Ademar Macedo.
José Feldman

INFANCIA E PRIMEIROS LIVROS

JF: Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.
AM: Nasci em Santana do Matos/RN, no dia 10 de setembro de 1951, aos oito anos fui morar em Zabelê, município de Touros também no Rio Grande do Norte, onde fiquei até 1963, quando mudamos para Natal, onde terminei o primário e através de uma seleção (concurso), em 1965 fui para o Ginásio Agrícola de Ceará-Mirim/RN; terminando o ginásio voltei para Natal onde fiz o Científico (naquela época) que era o 2º Grau. Em 1971 entrei Para o Corpo de Fuzileiros Navais, passei no 1º concurso para Cabo, fui cursar no Rio de Janeiro e nunca mais estudei. Voltei para Natal em 1980 e em 81 perdi uma perna num acidente.

JF: Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?
AM: No Ginásio agrícola (que era um Internato) Sob o duro comando de Paulo Mesquita, o Diretor, um Oficial Reformado da Aeronáutica, eu tive a melhor aprendizagem da minha vida, lá era um verdadeiro quartel, mas até hoje eu agradeço pelos seus ensinamentos, principalmente no que tange a moral, dignidade, honestidade que me acompanham até Hoje!

JF: Recebeu estímulo na casa da sua infância?
AM: Perdi meu Pai muito cedo, aos 7 anos, minha infância foi um tanto difícil, mas minha Mãe e meu irmão mais velho nunca deixaram faltar nada, Inclusive o estímulo.

JF: Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever?
AM: Confesso que nunca fui muito de ler…Lembro bem de “O Pequeno Príncipe” e alguns pouco mais.

JF: Como foi que você chegou à poesia e às trovas?
AM: Tudo começou após o meu acidente. Numa maneira de passar melhor o tempo, comecei a frequentar cantorias de viola, festivais de Violeiros, tudo o que dizia respeito a Poesia Popular, e por meu Pai ter sido Poeta, eu sentia correr nas minhas veias o sangue da Poesia e comecei a fazer algumas estrofes; e meus irmãos Francisco Macedo e Augusto Macedo (falecido) que já eram poetas, me disseram que eu levava jeito pra coisa! Eu, já poeta popular, conhecido em todo estado devido as minhas declamações nas rádios: (Rural de Natal, Rádio Poti e 98FM), fui convidado por José Lucas de Barros, que assistia as minhas declamações nas cantorias e nos festivais e por Joamir Medeiros, que me ouvia nas Rádios, para ingressar na ATRN (Academia de Trovas do R.G.do Norte), fui sabatinado e após uma comissão analisar as trovas feitas por mim, fui aprovado e lá estou desde 2004.

SEUS TEXTOS E PREMIOS:

JF: Você possui livros? Se sim, em que você se inspirou em seus livros?
AM: Lancei o meu primeiro Livro em 1993: “…E DA DOR SE FEZ POESIA.” E tenho ainda os seguintes Livros (Em Parceria): “POESIAS EM QUATRO VERSOS”, “DOIS POETAS EM SETILHAS”, “UM DEBATE EM SETILHA AGALOPADA”, “NOS ARPEJOS DAS SETILHAS” e “UM ROJÃO EM SEXTILHA AGALOPADA”. Já prontos tenho: “SEXTETO EM SEXTILHAS”, “SEXTETO POTIGUAR”, “SEXTILHAS A QUATRO VOZES”, “TRÊS À MESA DA POESIA”, E em andamento: “NO COMPASSO DAS SETILHAS”.

Editei um Cordel que intitulei: “DIVAGAÇÕES POÉTICAS”
E tenho dois CDs declamando Poesias: “NA CADÊNCIA DA POESIA” e “O POETA E A RAPOSA”(Com minhas declamações ao vivo, na 98 FM)
E tenho um Livro pronto esperando ajuda para publicação, que se chama: “…E DA POESIA SE FEZ O ABSURSO”, é um livro inspirado em ZÉ LIMEIRA, o Poeta do Absurdo.
A inspiração para tudo isso veio, com certeza, da Natureza e do Sertão!

JF: Como definiria seu estilo literário?
AM: Como escrevo poesia popular nordestina, o estilo predominante é o Cordel.

JF: Dentre os livros escritos por você, qual te chamou mais atenção? E por quê?
AM: É muito difícil um Pai amar os seus Filhos de maneira diferente, assim é com os Livros; no entanto, para mim, o Livro onde mais eu me inspirei, onde estão as melhores poesias É: “UM DEBATE EM SETILHA AGALOPADA”.

JF: Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?
AM: Basta dizer que os livros em parceria (DEZ) foram todos feitos pela Internet, Por exemplo: “TRÊS À MESA DA POESIA”, Zé Lucas me mandou a sua estrofe, eu respondi e enviei as duas para o Professor Garcia, que por sua vez, me respondeu e as enviou para Zé Lucas e assim sucessivamente até chegar 150 estrofes. VEJAM AS TRÊS PRIMEIRAS:
.

01 – Zé Lucas
Com Ademar e Garcia
vou pelejar desta vez,
enchendo a taça dos versos
com carinho e lucidez,
para que o vinho sagrado
das musas dê para os três.

02 – Ademar
Vou beber com honradez
uma taça todo dia,
e eu peço a Deus neste verso
talento e sabedoria,
e que este vinho sagrado
me embriague de poesia.

03 – Prof. Garcia
Eu vou beber todo dia
para afastar o meu pranto,
deste vinho que embriaga
e nunca me causa espanto,
porque o vinho do verso
tanto é puro quanto é santo.

JF: Tem prêmios literários?
AM: Eu já fui premiado em 21 Cidades de diferentes estados da nossa federação; mas estas premiações foram todas em Concursos Nacionais de Trovas. Tive também alguns Prêmios em “Poesia” apenas aqui no meu Estado.

CRIAÇÃO LITERÁRIA :

JF: Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?
AM: Esta eu vou responder com uma Trova e uma estrofe apenas:

Vi à luz de lamparina,
em inspirações imerso
que a musa se faz menina
para brincar no meu verso.”

“Na inspiração do poeta
sinto um pouco de magia,
porque toda estrofe minha
me fascina e me extasia;
e em cada verso que faço
vou mastigando um pedaço
do pão da minha poesia.”

JF: Você projeta os seus textos? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os textos?
AM: Não projeto nada, os versos nascem assim…de repente.

JF: Você acredita que para ser poeta ou trovador basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?
AM: A poesia é um dom divino, nenhuma escola ensina você se tornar Poeta…O Poeta já nasce feito!

A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR :

JF: O que o choca hoje em dia?
AM: A violência. (que é a falta de Deus no coração das pessoa…)

JF: O que lê hoje?
AM: Livros de Poesias…

JF: Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?
AM: Divulgar a poesia nas escolas…

JF: De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?
AM: Com a mesma visão de sempre…Falta de apoio para a edição de Livros e Etc…

CONSELHOS PARA OS ESCRITORES :

JF: Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?
AM: Que tenha muito amor pelo que faz e muita Fé. Quem sabe, um dia você encontre uma porta aberta!

JF: O que é preciso para ser um bom poeta ou/e trovador?
AM: …Apenas Inspiração.

JF: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais, opiniões, crítica, etc.
AM: Queria apenas agradecer esta oportunidade que me foi dada, para que eu pudesse aqui, da forma mais sincera, me desnudar poeticamente perante todos vocês…

JF: Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?
AM: Seriam apenas de agradecimentos por tudo o que Ele tem feito na minha vida… Resumindo:

Nunca quis ganhar fama nem cartaz,
sou feliz no papel que desempenho,
sou um homem de fé, temente a Deus,
não reclamo do peso do meu lenho
nem de tudo na vida que padeço…
Eu já tenho até mais do que mereço
e me sinto feliz com o que tenho!

JF: Para finalizar, um poema e trovas de sua autoria que possui um carinho especial.

POESIA

Há sorriso que fere e que magoa
e há pranto que comove e traz alento,
e os que trazem a dor e o sofrimento
deixam marcas no rosto da pessoa;
e por mais que este pranto não lhe doa
deixará para sempre uma seqüela,
que se faz cicatriz no rosto dela
maculando esta dor que não termina;
se tiver que chorar feche a cortina,
quando for pra sorrir, abra a janela.

TROVAS:
Fiz minha casa de barro
ao lado de uma favela.
Lá fora, eu sei, não tem carro,
mas tem amor dentro dela!…

Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca faz chover prantos
nos olhos dos nordestinos!

O grande desmatamento,
por ganância ou esperteza,
põe rugas de sofrimento
no rosto da natureza…

Quando a inspiração lhe acena,
o bom Trovador se expande.
Numa Trova tão pequena,
faz um poema tão grande!

Quem se entrega a solidão
e dela se faz refém,
anda em meio à multidão
mas não enxerga ninguém!

Numa combatividade,
cheia de brilho e de glória,
saber perder, na verdade,
é também uma Vitória!

Na Floresta, a “derrubada”
deixa em minha alma seqüela,
pois a dor da machadada
dói mais em mim do que nela.

Ademar Macedo ainda complementa mais sobre ele:

UM POUCO MAIS DE MIM:
Como eu relatei no início, Eu Sou um Fuzileiro Naval (Reformado) perdi uma perna num acidente no ano de 1981, desde então me entreguei de corpo e alma a Poesia. Em 2006 tive um câncer no intestino, me operei no dia 09/05/2006, no Rio de Janeiro; fiz 52 Quimioterapias e 25 Radioterapias, terminei o tratamento no dia 20 de Outubro do mesmo ano, e como DEUS é Maravilhoso acredito que eu já esteja Curado, pois eu Estou sendo acompanhado aqui em Natal pela Liga contra o Câncer através de exames feitos de 6 em 6 meses, e agora em Setembro último fiz uma Colonoscopia e havia um pólipo que foi retirado para fazer a biópsia e deu o seguinte resultado: “ausência de malignidade no material Examinado” E Deus, na sua misericórdia, além do dom da Poesia deu-me também a Cura. E hoje a minha vida é regida pelo AMOR, pela ALEGRIA e pela FÉ, e são baseados nesses temas que nascem a inspiração para as minhas poesias e Graças ao nosso bom DEUS e a minha FÉ, é que estou hoje aqui contando a minha história…

Em Versos:

Guardei todos momentos que passei
de ternura, de carinho e de amor,
momentos que na vida mais gozei
e os momentos que mais eu senti dor.
O momento feliz da minha vida,
quando Deus curou em mim uma ferida,
que os médicos diziam não ter jeito,
e apesar de hoje eu ser um mutilado,
guardo sempre as lembranças do passado
pra curar as feridas do meu peito!…

A minha poesia é Santa
porque é Deus quem a projeta,
pois ele mesmo é quem planta
no coração do poeta;
pois todos os versos meus
vêm lá da mansão de Deus
como se fosse uma luz;
são escritos com emoção
pela minha própria mão,
mas seu autor, é Jesus!…

Quero então quando eu morrer,
feito em letras garrafais,
aquela minha poesia
que me deu nome e cartaz;
e escrito, seja onde for:
– Eis aqui um trovador
que morreu feliz demais!

Abraços Fraternos:
Ademar Macedo.
(poetaademar@yahoo.com.br)

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Ialmar Pio Schneider (O Homem Atrás do Escritor, o Escritor Atrás do Homem)

Dando continuidade à série O Homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem, o entrevistado é o poeta e trovador gaúcho, o Menestrel dos Pampas, Ialmar Pio Schneider, grande colaborador deste blog.

O HOMEM IALMAR PIO SCHNEIDER: AUTOBIOGRAFIA

JF: Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou, sua trajetória literária.
Nasci no município de Sertão/RS em 26-08-1942. Filho de Henrique Schneider Filho e dona Amábile Tressino Schneider, ambos falecidos.

Cursei o primário em minha terra natal na Escola Pio XII das Irmãs Franciscanas onde diplomei-me inclusive em datilografia com 13 anos de idade. Ingressei no Ginásio Cristo Rei dos Irmãos Maristas em Getúlio Vargas/RS que conclui após 4 anos, em 1959, período em que iniciei a compor poesias.
Daí transferi-me para Passo Fundo/RS onde ingressei no Colégio N. Sra. da Conceição dos Irmãos Maristas cursando então simultaneamente o Curso Científico e a Escola Técnica de Contabilidade por um ano e meio, continuando a escrever poesias inclusive gauchescas, algumas das quais foram publicadas no Jornal do Dia, de Porto Alegre, até que um concurso público para o Banco do Brasil S.A. me levou a Cruz Alta/RS, onde assumi em 1961, poucos dias antes de completar 19 anos de idade.
Posteriormente integrei o corpo de funcionários da agência de Soledade/RS, que estava em Instalação, o que ocorreu em 1962. Completei o curso em Técnico de Contabilidade em 1962, permanecendo por 5 anos na cidade, onde exerci o cargo de Fiscal da Carteira Agrícola do Banco até ser transferido para a Metr. Tiradentes do Rio onde não cheguei a tomar posse, tendo feito uma permuta tríplice com outros dois colegas, vindo a assumir em Canoas/RS, em 1967, para logo após um ano se transferir para São Leopoldo/RS em nova permuta com outro colega, onde tencionava tirar o Curso de Direito da Unissinos, o que não se concretizou.
Casei-me em 1968 com Helena Dias Hilário, de Soledade/RS e transferi-me para a Agência Centro do Banco do Brasil S.A de Porto Alegre, em 1969. Residindo em Canoas, nasceu minha filha Ana Cristina Hilário Schneider. Permaneceu por 3 ou 4 anos compondo poesias diversas inclusive a maior parte de seus poemas gauchescos ainda inéditos bem como muitos sonetos então com 30 anos de idade. Resolvi novamente transferir-me de cidade a fim de ficar mais próximo dos meus parentes e os de minha esposa e pleiteei uma permuta, que consegui para a cidade de Passo Fundo, tendo lá permanecido por cerca de 3 anos, ocasião na qual requeri e fui transferido para a agência do Banco em Palmas/ PR, onde residiam minha mãe e irmãos, de cuja remoção desisti pelo motivo de minha esposa ser professora estadual e não ter conseguido aproveitamento naquela cidade. Com dificuldade em adquirir casa de moradia retornei a Canoas voltando a residir e a trabalhar no Banco até que em uma concorrência nacional para fiscal da Carteira Agrícola do Banco fui nomeado para a cidade de Antônio Prado/RS, onde permaneci por 2 anos e meio aproximadamente.
Em 1980, regressei a Canoas onde adquiri um apartamento em que resido até hoje, na rua que leva o nome do grande pintor Pedro Weingartner tendo feito vestibular para a Faculdade de Direito do Instituto Ritter dos Reis, classificado em segundo lugar de que também participou o ilustre jogador de futebol do Internacional Paulo Roberto Falcão, que logo depois transferiu-se para a Itália.
Trabalhando no Banco do Brasil- agência de Canoas e estudando, só consegui formar-me em Direito nas Faculdades Integradas do Instituto Ritter dos Reis em 1990, após 10 anos de curso superior. Enfim, antes tarde do que nunca.
Transferi-me para o CESEC do Banco do Brasil Sete de Setembro em Porto Alegre, onde trabalhei até 1991, tendo completado 30 anos e alguns dias de serviço no Banco quando me aposentei por tempo de serviço.
Por enquanto, resido na cidade de Porto Alegre/RS, no Bairro Tristeza, com uma vista maravilhosa para o Rio Guaíba, em uma janela do qual até um joão-de-barro já fez um ninho há uns dois anos. Como diz o inigualável poeta gauchescoo saudoso Jayme Caetano Braun: “Eu até fiquei contente/ Dizem que dás muita sorte !”em seu poema “João Barreiro”.
Atualmente minha filha é casada, ambos advogados, com escritório.
Durante os meses de verão, dezembro até fevereiro, permaneço em Capão da Canoa/ RS, cidade praiana, onde produzo diversas poesias: poemas, sonetos e trovas. Nos últimos dois anos desloquei-me com a família por uns dez dias em final de temporada para a praia de Canasvieiras, precisamente Cachoeira do Bom Jesus, em Florianópolis/SC.
Eis em rápidas pinceladas a sucinta biografia rotineira de um poeta menor.

JF: Ialmar, se é poeta menor, então eu nem existo, precisaria um ultra microscópio para me encontrar (risos). Recebeu estímulo na casa da sua infância?
Total estímulo e incentivo inclusive éramos 6 filhos, 4 irmãos e 2 irmãs e nossos pais só tinham como meta o nosso estudo.

JF: Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever.
Muitos livros de poesias: Fagundes Varela, Casemiro de Abreu, romances de Paulo Setúbal, os grandes romances do Cristianismo, trovas de Adelmar Tavares e diversos outros. Mas o romancista que mais me agradou foi Lima Barreto, antes Dostoiewski, Érico Veríssimo, Dyonélio Machado, Cronin, uma infinidade de autores, enfim. Desculpe se não cito todos, nem um por cento talvez.

JF: Teve a influência de alguém para começar a escrever?
Foi naturalmente através das leituras escolares.

JF: Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)?
Tenho diversos blogs que podem ser encontrados procurando por IALMAR PIO SCHNEIDER no Google, como http://ialmar.pio.schneider.zip.net/ ; http://ialmarpioschneider.blogspot.com/ ; http://ial123.blog.terra.com.br/

JF: Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?
Nunca pensei nisto. No Brasil acho que só meia dúzia o consegue.

SEUS TEXTOS E PREMIOS

JF: Como começou a tomar gosto pela escrita?
Para conhecer e aprender, pois acho que todo o livro é de auto-ajuda.

JF: Você possui livros? Se sim em que você se inspirou em seus livros?
Fiz a estréia editorial na obra TROVADORES DO RIO GRANDE DO SUL, org. por Nelson Fachinelli, em 1982. Publiquei a obra poética SONETOS E CÂNTICOS DISPERSOS, em 1987. Figuro em outras coletâneas. A última obra, POESIAS ESPARSAS DIVERSAS, de 2000.

JF: Como definiria seu estilo literário?
Eclético para poesia e crônicas também.

JF: Que acha de seus textos: O que representam para si? E para os leitores?
Acho que são a expressão do meu pensamento. A maioria dos leitores dizem gostar.

JF: Qual a sua opinião a respeito da Internet? Tem contribuído para a difusão do seu trabalho?
Tem contribuído muito e eu considero o mais valioso meio de publicação atual, ainda mais para quem não tem a grande mídia ao seu dispor.

JF: Tem prêmios literários?
Alguns.

JF: Participa de Concursos Literários? Qual sua visão sobre eles? Acha que eles tem “marmelada”?
Participo às vezes. Tenho visto trovas sem nenhum fundamento serem premiadas.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

JF: Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamenteprecisa de algum ambiente especial ?
Surge de repente, não sei de onde nem quando.

JF: Você acredita que para ser poeta ou trovador basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?
Tudo é essencial, principalmente muita leitura.

JF: No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?
É preciso distinguir.

O ESCRITOR E A LITERATURA

JF: Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós chega apenas o que a mídia divulga. Na sua opinião que livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?
Os clássicos: Machado de Assis, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Rui Barbosa. Paulo Setúbal, Érico Veríssimo, Dyonélio Machado, Lya Luft e outros. Os bons escritores. A lista é infindável. Poesias de Vinicius de Moraes, Guilherme de Almeida e os clássicos também Castro Alves, Fagundes Varela, Alvares de Azevedo, Olavo Bilac, tantos e tantos.

JF: Qual o papel do escritor na sociedade?
Ensinar e divertir também.

JF: Há lugar para a poesia em nossos tempos?
Há sim. Aqui no sul principalmente a poesia gauchesca, os sonetos românticos. Basta declamar uma poesia atraente todos gostam.

A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR
Um bancário aposentado, um advogado não militante e um diletante em literatura.

JF: O que o choca hoje em dia?
A violência e a falta de saúde pública.

JF: O que lê hoje?
Romances e poesias. Estou curtindo um ócio criativo. Nada de muito profundo.

JF: Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?
Continuar escrevendo nos blogs e talvez preparar um livro de poemas e poesias gauchescas.

JF: De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?
Vai andando aos trancos e barrancos, mas com o andar da carroça as abóboras se ajeitam na caixa.

CONSELHOS PARA OS ESCRITORES

JF: Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?
Ler bastante e escrever mesmo errando.

JF: O que é preciso para ser um bom poeta ou/e trovador?
Muita leitura e perspicácia.

JF: Finalmente, se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos quais seriam?
Boa saúde, meios para continuar vivendo e a felicidade da Humanidade inteira.

TROVAS DE IALMAR

Cada paixão que me invade
surge do amor que não tive;
e representa a saudade
de quem neste mundo vive.

Eu não sou navegador,
mas enfrento o mar da vida,
por causa do nosso amor
que não teve despedida.

Foste a morena brejeira
que surgiu em meu amor
como o botão da roseira
que agora não dá mais flor.

Não foram horas perdidas
as que passei junto a ti;
são lembranças bem vividas
que nunca mais esqueci…

Perambulando sozinho
pelas ruas da cidade,
procuro achar o caminho
que leva à felicidade.

Fonte:
Entrevista realizada virtualmente (por e-mail) por José Feldman (PR) com o poeta e trovador Ialmar Pio Schneider (RS).

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Apollo Taborda França em Xeque

Entrevista realizada pela Revista virtual “Falando de Trovas e de Trovadores” com o ilustre escritor Apollo Taborda França, que já conquistou lugar de destaque na galeria dos grandes poetas e trovadores do Brasil.

Apollo Taborda França, nasceu em Curitiba, capital do estado do Paraná, onde reside. Filho de Heitor Stockler de França e Brasília Taborda Ribas de França. Fez cursos primário e ginasial no Instituto Santa Maria, dos Irmãos Maristas. Posteriormente em Direito pela Universidade Federal do Paraná, em Jornalismo pela Universidade Católica (hoje PUCPR), ainda em Curso Técnico de Construção de Máquinas e Motores, pela Escola Técnica Federal do Paraná que agora está transformada em Universidade; e se formou em Ciências Econômicas.

Possui 17 livros publicados, em prosa e em verso. Inclusive cinco de Trovas. Passou a fazer versos naturalmente, talvez por influência sangüínea, uma vez que seu pai Heitor Stockler de França era escritor, poeta, jornalista e advogado e seus irmão também fazem poesias e trovas. Suas composições literárias foram publicadas em jornais, especialmente em livros e coletâneas impressas em São Paulo e Rio de Janeiro, etc.

– Cadeira n.36 da Academia Paranaense de Letras
– Cadeira n.38 da Academia de Letras José de Alencar
– Membro do Centro de Letras do Paraná
– Membro do Círculo de Estudos Bandeirantes
– Presidente da UBT/Curitiba 1984/86 e 1990/92.
– Membro do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense

Lairton: Dr. Apollo, queira nos dizer onde nasceu e reside.
Apollo: Nasci em Curitiba, capital do estado do Paraná, onde resido.

Lairton: Como foi a sua infância e adolescência?
Apollo: Tanto minha infância quanto adolescência foram excelentes, em companhia de meus pais, irmãos, parentes e amigos.

Lairton: Fale-nos sobre sua vida escolar.
Apollo: Fiz cursos primário e ginasial no Instituto Santa Maria, dos Irmãos Maristas. Posteriormente me formei em Direito pela Universidade Federal do Paraná, em Jornalismo pela Universidade Católica (hoje PUCPR), ainda em Curso Técnico de Construção de Máquinas e Motores, pela Escola Técnica Federal do Paraná que agora está transformada em Universidade; e mais ainda me formei em Ciências Econômicas.

Lairton: O Senhor é autor de importantes obras literárias. Quando começou e que razões o levaram a escrever? Quantos livros de trovas editou?
Apollo: Efetivamente tenho 17 livros publicados, em prosa e em verso. Inclusive cinco de Trovas. Passei a fazer versos naturalmente, talvez por influência sangüínea, uma vez que meu pai Heitor Stockler de França era escritor, poeta, jornalista e advogado e meus irmão também fazem poesias e trovas. Quanto aos títulos dos meus livros, vou enviar ao amigo o último que publiquei, Ano 2001 dC., “Vento Forte” que contam nas orelhas as devidas informações.

Lairton: De que maneira suas obras literárias foram divulgadas?
Apollo: Minhas composições literárias foram publicadas em jornais, especialmente em livros e coletâneas impressas em São Paulo e Rio de Janeiro, etc.

Lairton: Sabemos que o Senhor é renomado trovador e fez história nas páginas da Literatura Paranaense. Participou da criação da UBT-União Brasileira de Trovadores – no Estado do Paraná?
Apollo: Não participei da criação da UBT em Curitiba, que foi feita por outros trovadores sob a presidência do médico e trovador pernambucano Barreto Coutinho, ladeado por outros aqui da Capital. De todos um dos remanescentes vivos é o muito admirado: Prof. Orlando Woczikoski que está sempre junto às reuniões da UBT-Curitiba. Posteriormente tive o prazer de presidir a UBT/Curitiba 1984/86 e 1990/92.

Lairton: Em sua opinião, o que faz a trova ser tão apreciada entre os brasileiros?
Apollo: A TROVA é admirada por pessoas letradas ou não, face sua singela facilidade de compor especialmente com o conhecimento das leis do verso; o setissílabo é muito espontâneo no linguajar erudito e popular, é só conferir.

Lairton: Podemos afirmar que, no Brasil, o movimento trovadoresco constitui uma escola Literária? Explique-nos.
Apollo: Diz-se Escola Literária porque demanda o melhor conhecimento e prática permanente. Hoje há aulas de “trovas” em diversas escolas primárias no elevado sentido cultural e educativo e maneiras de as fazer e de expressar (recitar) em público. Então, trata-se de um movimento em ascensão, com muito brilho e persistência.

Lairton: O Senhor pertence à diversas entidades literárias do País. O que o levou à Cadeira nº 36 da Academia Paranaense de Letras?
Apollo: A minha já consolidada representatividade literária como escritor, poeta e jornalista, inclusive, com livros já editados e com a melhor aceitação pública.

Lairton: Qual a razão de existir das academias literárias, além de ser, por si só, merecido galardão de ilustres escritores?
Apollo: É o sentido de unir, congregar e incentivar todos os que usam a cultura como meio e fim, instrumento de comunicação entre os diversos setores das comunidades física e espiritualmente falando.

Lairton: O que é a MPPr, qual a sua função e que ligação tem o seu nome com este Movimento?
Apollo: Movimento Poético Paranaense-MPPr.; tem objetivos e finalidades de publicar e difundir a literatura, especialmente poética entre seus leitores, poetas e escritores, em seus diversos níveis observando e respeitando as individualidades e suas criações eruditas, clássicas, modernas e que, por si só, ajudam a estabelecer os parâmetros funcionais de nossa literatura, frente a do país.

Lairton: Valeu a pena ter sido poeta e trovador? Sente-se realizado como pessoa e como escritor?
Apollo: Valeu! Mas, continuo me realizando nos meus seguidos trabalhos em prosa e verso.

Lairton: O Senhor tem usufruído das vantagens da Internet? Possui algum site?
Apollo: Relativamente, conforme as necessidades imediatas e mediatas. Os “e-mail” que me estão ligados são: apolloversos@bol.com.br ; mp-pr@ig.com.br ; e também o ordemdosapo@yahoo.com.br

Lairton: Que opinião tem sobre as atividades literárias do Portal CEN?
Apollo: Portal CEN? Desejo que o mesmo alcance seus objetivos de difusão literária.

Lairton: Quem é Apollo para Apollo, como pessoa e como poeta?
Apollo: Apollo para Apollo: Somo um! Com os mesmo ideais, caráter e personalidade.

Lairton: O que diria aos principiantes da “arte de fazer trovas”?
Apollo: Aos principiantes insisto que aprendam as regras da versificação, especialmente sobre tônicas, ritmo, censura e aplicação das rimas.

Lairton: Agradecemos sua importante participação na Revista “Falando de Trovas e de Trovadores” e solicitamos seis trovas de sua autoria, para coroamento desta preciosa entrevista.

TROVAS DE APOLLO TABORDA FRANÇA

Com garra de trovador,
Vou seguindo meus caminhos…
Venturoso e com amor,
Num roseiral sem espinhos!

Cai a tarde, fico triste,
Pressuroso como o quê…
O coração não resiste
A saudade de você!

Poeta diz sempre o que quer,
Na verdade ou de impulsão…
Tenho certeza e assim penso,
Com você e sem vaidade!

Disse adeus à virgindade,
Optou, em seus dilemas…
Quis amar com pouca idade:
– Está cheia de problemas!

Pelas ruas da cidade,
Encontrei com Jesus Cristo…
– Faze e prega a caridade,
Para o Céu bem chega isto!

Fonte:
Falando de Trovas e de Trovadores. Nº 03 – Outubro de 2006. Editor: Lairton Trovão de Andrade. Portal CEN.

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Arquivado em Entrevista, Jose Ouverney, O Escritor em Xeque

Gustavo Felicíssimo em Xeque

artigo Pequena Sabatina ao Artista, por Fabrício Brandão

No vasto panorama da literatura brasileira há sempre pessoas impulsionando o motor das criações. Nesse vão, apenas ter vontade soa como algo por demais reducionista, sendo necessário abarcar uma visão capaz de abreviar as distâncias entre as projeções e a realidade que urge cada vez mais complexa. Hoje, não são poucos os que se propõem a capitanear movimentos em prol do fazer literário. Apoiados sobretudo nos recursos trazidos pelas mídias digitais, editores e autores travam verdadeira cruzada por aquilo que consideram um caminho viável a seguir. Na compressão tempo-espaço, nos foi dado conhecer e acompanhar as articulações de pessoas das mais diversas orientações, todas elas elegendo gêneros a percorrer. Gente como o paulista Gustavo Felicíssimo, poeta que hoje se afigura verdadeiro militante em defesa das palavras.

Residindo na Bahia desde 1993, Gustavo é exemplo vivo de uma vida dedicada à literatura. Além de poeta, é pesquisador e ensaísta. Em Salvador, juntamente com outros escritores, fundou o tablóide literário SOPA, do qual foi seu editor. Venceu o Prêmio Bahia de Todas as Letras, edição 2009, em duas categorias: Poesia e Literatura de Cordel. Organizou e fez publicar Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna, hoje em sua segunda edição. Tem fomentado diversos eventos literários e conduz com valiosa obstinação um trabalho fundamentado na pesquisa, sobretudo poética. Fruto de seus estudos e de sua investida apaixonada, nasce seu livro de estreia, Silêncios (Editora Via Litterarum), publicação voltada para o haikai e que será lançada no dia 9 de outubro, em Salvador. Nessa entrevista, Gustavo discorre sobre a importância do haikai na cena literária nacional, além de pontuar aspectos sobre sua trajetória enquanto resignado ativista cultural.

DA – Mesmo tendo uma longa trajetória voltada para os versos, digamos assim, mais tradicionais, você está em vias de lançar seu primeiro livro, Silêncios, obra dedicada inteiramente ao haikai. O que determinou essa sua escolha?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Nesse trabalho, publico poemas imersos em formas originárias do Japão. Além do haikai, há capítulos com tankas, haibuns, senryus, haikais encadeados e, como posfácio, um estudo sobre os mais relevantes aspectos do haikai no Brasil. Trata-se da primeira vez que se publica uma obra com essas características na Bahia. A possibilidade do pioneirismo e a qualidade, apontada por especialistas, que a obra traz fizeram-me optar por sua publicação agora.

DA – Há, de fato, um hiato muito grande entre o haikai japonês e o poema ocidental?

GF – Essa resposta pode ser dada de muitas maneiras. Dependendo da visão do poeta, sim e não são justificativas plausíveis. O haikaísta que segue o cânone do tradicional haikai japonês dirá que sim, embora as transformações havidas no Japão e no mundo tenham ampliado o seu horizonte. O haikai foi utilizado à maneira que melhor se adequou à necessidade de cada autor e lugar.

Parece-me coerente e apropriado fazermos uma síntese de como o haikai se desenvolveu em língua portuguesa no Brasil, pois nossas primeiras referências, curiosamente, têm como base autores franceses, não japoneses, como podem pensar.

O baiano Afrânio Peixoto introduziu o haikai no Brasil do mesmo modo como era feito na França: com título, métrica de 5/7/5 e sem rima, como esse que é de sua autoria:

A BELEZA ETERNA

O sabiá canta,
Sempre uma mesma canção:
O belo não cansa.

Após, Guilherme de Almeida trouxe uma proposta que até hoje chamam de parnasiana. Ele introduz rimas no haikai; uma entre o primeiro e o terceiro verso, outra que acontece entre a segunda e a sétima sílaba do segundo verso, veja:

VENTO DE MAIO

Risco branco e teso
que eu traço a giz, quando passo.
Meu cigarro aceso.

Somente após esses momentos, o haikai tradicional, oriundo da lavra de japoneses radicados no Brasil, veio à tona, sem título ou rima, mas mantendo a métrica. Podemos defini-lo como aquele que melhor valoriza os elementos da natureza procurando captar um instante, uma paisagem, referindo-se ao agora, de forma simples e com sentido completo, como esse do mestre Oldegar Vieira:

Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.

Mas quando falamos de haikai no Brasil, o nome de Paulo Leminski surge invariavelmente em primeiro plano. Alinhado aos valores contraculturais e libertários dos anos sessenta, Leminski produziu uma obra tensa, densa e provocadora como a sua própria personalidade. Ele produziu um haikai livre de amarras, cheio de sacadas, clicks, como dizia. É de sua lavra o seguinte haikai:

passa e volta
a cada gole
uma revolta

DA – Percebe-se que o haikai ainda não é um gênero tão difundido no Brasil. A que possíveis razões você atribui isso?

GF – Não vejo assim. Hoje há até experiências de haikai na sala de aula em alguns lugares do país e dois grupos de estudo e discussão sobre o tema na internet, ambos capitaneados por grandes mestres, onde aprendi muito. Ademais, o haikai influencia a poesia brasileira desde o modernismo. Em Oku – Viajando com Bashô, obra fundamental de Carlos Verçosa, há uma passagem de uma carta de Drummond para Oldegar Vieira, onde ele afirma que “o gênero sempre me atraiu pela graça, leveza e poder de síntese, alcançando mesmo, às vezes, profundidade conceitual”. Em Alguma Poesia (1930) Drummond publicou um poema que, não raras vezes, é identificado como um haikai:

Stop.
A vida parou
ou foi um automóvel?

DA – Silêncios possui uma condução que remonta à pesquisa poética, quiçá um verdadeiro estudo sobre as ramificações do haikai. Qual o maior desafio na concepção de uma obra como esta?

GF – Parece-me que talento, conhecimento e prática estão na base de tudo. As paredes de uma casa, por exemplo, não devem ser levantadas sem que haja o alicerce. A mesma coisa se dá na poesia.

DA – Você é um militante literário incansável e, frequentemente, garimpa e descobre poetas e outros tantos autores. O que considera mais árduo nesse tipo de jornada?

GF – Faço o que está ao meu alcance e, às vezes, além dele, participando como membro do Comitê do Proler aqui na região sul da Bahia, promovendo saraus, debates, colóquios, seminários e até organizando a publicação de algumas obras, como é o caso de Diálogos, já em segunda edição. Mais árduo nesse tipo de jornada é se perceber, muitas vezes, gritando para surdos e acenando para cegos.

DA – Em sua opinião, qual é o principal impacto trazido pela literatura digital?

GF – Eu não saberia dizer ao certo. Parece ainda muito cedo para conclusões. Observo o fato de que a mídia impressa está mais voltada para os vestibulares, por isso a considero superficial. Já os cadernos literários dos jornais que ainda sustentam esse tipo de publicação, cada vez mais são lidos apenas por escritores e alguns apaixonados. Por sua vez, a internet está cumprindo importante função ao democratizar o acesso a autores que, não fosse por ela, certamente jamais seriam lidos por nós. Em oposição, a facilidade de se publicar em meio virtual esconde um sem fim de coisas que sequer merecem serem lidas.

DA – Entre seus planos para o futuro, está o desejo de fundar um portal sobre a literatura baiana. Há algum projeto definido para isso?

GF – Certamente. Em pouco tempo colocaremos no ar um site à altura da literatura baiana e também uma editora voltada exclusivamente para o meio virtual.

DA – Muitos são os que escrevem, mas poucos são os afeitos à escuta, ao aprendizado pautado em referências clássicas, formais ou fundamentadas. Acredita que tal conduta seja um sério desvio de nossos tempos de então?

GF – Essa é uma particularidade que faz parte da literatura de todos os lugares em todos os tempos e não nos estranha. Seria bizarro se a mediocridade imperasse sobre o conjunto literário da nação. Os estelionatários intelectuais estão condenados desde sempre, pois sempre haverá um facho de luz brilhando na escuridão.

DA – Afinal, o que buscam os poetas?

GF – Cada poeta busca, ao seu modo, a chave para esse enigma. As descobertas são muitas, por isso o sentido de Ser e Estar no mundo possui significantes que se perdem nas profundezas da palavra. Daí a assertiva de Gullar, para quem o poeta deve buscar o indizível sabendo o que quer dizer.

Fontes:
http://diversos-afins.blogspot.com/
Montagem utilizando a Foto de Gustavo por Pedro Augusto

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Arquivado em O Escritor em Xeque

Wilson Bueno (O Escritor em Xeque)

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão

Como construiu o escritor que é hoje?

Posso dizer que foi uma lenta e meticulosa procura de um “sentido” para viver, pra existir cá neste mundo insensato. Não que tenha havido um propósito deliberado, digamos assim, de “construir” o escritor, como você coloca na sua pergunta. O escritor foi surgindo na exata medida em que a vida foi solicitando de mim um “sentido”. E junto com esta busca, a cada vez, o gosto, o prazer do texto, a epifania da escrita. Difícil escavar a pedra bruta, muita vez só com as unhas das mãos, para dali extrair quem sabe uma esmeralda viva. Há textos que são esmeraldas vivas e não que eu tenha chegado a alguma, mas sei que isto é possível. É da natureza da velha ars literaria esta e outras amplas possibilidades. É preciso amor ao texto como se ama a um homem ou a uma mulher…

Há muita diferença entre escrever para o público infantil e para o adulto?

Olha, eu só tenho um livro destinado exclusivamente para as crianças, embora muitos de meus textos, sobretudo a parte zoofílica, as fábulas principalmente, possam ser lidos por pessoas de 0 a 100. Mas o meu único livro digamos “infantil”, estrito senso, se chama “Os Chuvosos” e acaba de ser publicado, em edição artesanal-luxo, pela Tigre do Espelho, da poeta e designer gráfica Jussara Salazar. Mas, acredite, não escrevi “Os Chuvosos” pensando especificamente nas crianças, pelo contrário – era até, em princípio, para integrar o meu livro mais recente, “Jardim Zoológico” ( Iluminuras, 1999) que não é propriamente um livro infantil, não é? Mas aí deliberamos, eu e Jussara, que o livro seria destinado às crianças e como eu o tinha escrito para uma menina, Kaira, então com 5 anos, e tinha a ela dedicado o texto, “Os Chuvosos” ficou sendo mesmo um título de literatura infantil… Não sei se respondi sua pergunta, mas, em síntese, tudo para mim é o prazer do texto. Divirto- me tanto com “Finnegans Wake” quanto com as estórias dos Irmãos Grimm, e decididamente não penso, quando de minha fatura literária, pessoal, para quem eles, os textos, se destinam…

Seu mais recente livro é “Jardim Zoológico”, que acaba de ser publicado pela Iluminuras. O que há de novo em seu trabalho?

Dentro de uma linha evolutiva, se assim podemos dizer, de minhas zoolatrias, que começa lá atrás, em 1991, com “Manual de Zoofilia” ( Noa Noa) onde discuto a mito-poética do amor erótico humano a partir de bichos como cadelas ou corvos, elefantes ou polvos, moscas ou colibris, “Jardim Zoológico” é um momento agudizado daquela vertente. Não fiz por menos – decidi inventar e/ou inventariar novos bichos para, a partir de sua forma e conteúdo, refletir sobre a pobre condição humana. Ali onde havia um pardal, digamos, instaure-se, por exemplo, os giromas; ali onde, arisca, cheia de nosso presto amor com raiva, se atocaiava uma raposa, coloque-se em seu lugar, os guapés, micro-cães menores que um dedo humano e seus filhotes inverossímeis. Penso que o Jardim é mais filosófico que o Manual, mais maduro também, embora, alguns exagerados, considerem o livrinho editado pela Noa Noa e que mereceu recente uma segunda edição pela editora da UFPG, a melhor coisa que fiz até hoje, chegando ao cúmulo de classificá-lo como obra-prima, – esta palavra perigosa – , o que é, evidente, uma inverdade…

Quem assina o prefácio de “Jardim Zoológico” é Arnaldo Antunes. A letra de música é poesia?

No meu entender, a poesia está em tudo o que se queira como poesia. Nos filmes publicitários, nas bulas de remédio, nos out-doors, nos muros da cidade aflita, na prosa de Goethe ou nos sonetos de Machado de Assis. Como não estaria nas letras de música, com nossos poetas-compositores, nós que somos um país musical e que acrescentamos ao mundo insuspeitadas essências nesta área – do samba à bossa-nova, do tropicalismo ao frevo? Agora, há letras de música e letras de música; como há sonetos de Machado de Assis e sonetos de J.G. de Araújo Jorge…

Com quantas metáfora se faz um poema?

Responderia a esta pergunta com uma utopia e novas perguntas – haverá a vez de um poema sem metáfora? Como seria um poema destituído de toda metaforização? Será possível um poema assim esquizofrenicamente colado ao real feito uma segunda pele? E que poesia é esta que não trans-figura? Tal poema seria, para não fugir da metáfora, só a sina de ser, rude como um coice…

Borges dizia que se há um telefone sobre a mesa e ele não tem função, a sua presença num romance é dispensável. Concorda?

Em gênero, número e grau. Este telefone exemplificado por Borges pode até não tocar, ninguém usá-lo para fazer uma ligação, mas a sua função visceral tem que ser dada. Este telefone recortado na ambiência do texto terá que dizer algo e desde já deduzimos que não será qualquer coisa, e que mesmo que seja qualquer coisa isto tem que estar conectado ao corpus do texto feito uma fatalidade.

Como você vê 18 páginas de “Mar Paraguayo” ( Iluminuras, 1992) ter sido incluídas numa das mais importantes antologias latino-americanas dos últimos tempos que é “Medusario” ( México, Fondo de Cultura Económica), organizada por Roberto Echavarren e José Kozer?

É preciso lembrar que lá também estão fragmentos de “Galáxias”, de Haroldo de Campos, e também fragmentos do “Catatau”, de Paulo Leminski – igualmente como representantes do Brasil na antologia. Acho que está mais do que na hora de a literatura brasileira, uma das literaturas mais ricas do mundo, ser ao menos conhecida pelos nossos vizinhos de língua hispânica. É incompreensível que não nos conheçam ou nos conheçam muito pouco. E quando travam contato com as nossas coisas, veja-se o exagero e o deslumbre – vão logo nos antologizando de um modo generoso e inteiro, como agora, com Medusario. A se destacar, o grande pequeno ensaio que introduz “Mar Paraguayo” na antologia, uma visada aguda e inteligente sobre o texto, realizada pelo crítico Roberto Echavarren. Estar ali, ao lado das mais importantes expressões da nova literatura latino-americana, além da honra, tem me dado grandes alegrias.

Como encara a Internet? Como utiliza a web? O livro corre perigo?

O livro só tem ganhado com a Internet. Nunca a literatura encontrou um meio tão pródigo em propagandeá-la, em multiplicá-la. Não é difícil hoje você ter acesso à poesia, digamos, servo-croata, bastando para tanto um endereço eletrônico e um movimento de “enter” em seu teclado. E, depois, tem o inglês, este esperanto vitorioso, que nos leva aos quatro cantos da Terra, pelas teias da web. Não viveria hoje sem a Internet – ela passou a se construir numa coisa essencial em minha vida. É nela que pesquiso, converso, bordo e danço… E, sobretudo, é companhia, quando, tarde da noite, a prática de urrar, cá no meu estúdio do arrabalde curitibano, leva-me a muitas modulações de uivos – longos, stacattos, curtos e agudos, ou graves e solenes feito o balir de um cervo em agonia…

Tem alguma epígrafe?

Tenho muitas, mas gosto particularmente da que inscrevi ao pórtico de “Manual de Zoofilia” e que é atribuída a Shakespeare – “A planta chamada mandrágora é afim com o reino animal porque grita quando é arrancada e esse grito pode enlouquecer quem o escuta.”

Qual o papel do escritor na sociedade?

Nossa função, penso, é não deixar nunca que a superfície chapada das coisas vigore, ou se revigore. O compromisso do escritor é com o lúdico, com o in-útil essencial da vida. Brincantes e mágicos, feiticeiros e inventores, os escritores temos que estar atentos para que a linguagem não congele em fórmulas exitosas. Necessário o gosto e o gozo do texto sempre novo, o ar, a nova aragem. Numa sociedade que tende à estagnação da linguagem, o escritor é aquele demônio capaz de revirar o tempo todo, revirar esta mesma linguagem para que ela não pereça nem morra de preguiça ou pelo uso congelado de sua repetência. O olhar do escritor tem que estar sempre e invariavelmente na direção do horizonte… Quem se dedica a buscar, está sempre encontrando.

Fonte:
A Garganta da Serpente. http://www.gargantadaserpente.com/

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Raduan Nassar (O escritor em Xeque)

Entrevista concedida à Revista Veja, em 30 de julho de 1997.

É um caso curioso, o do escritor paulista Raduan Nassar. Há 21 anos ele tenta fugir da literatura, mas de tempo em tempo acaba enrolado em relançamentos, homenagens e leituras públicas de obras suas. Foi o que aconteceu nos últimos meses. Autor de apenas dois livros, o romance Lavoura Arcaica e a novela Um Copo de Cólera, além de alguns contos publicados aqui e acolá, Nassar, fazendeiro de profissão, é venerado pela crítica literária como um dos melhores escritores brasileiros. A unanimidade a favor é tanta que ninguém percebeu que a ligeira recaída do autor, o conto “Mãozinhas de seda”, escrito no ano passado, não é nada mais do que uma “molecagem”, como ele próprio o define. Antes de viajar para o Oriente Médio, em companhia do diretor Luiz Fernando Carvalho, que prepara um filme baseado em Lavoura Arcaica, Nassar concordou em falar a VEJA, superando a sua aversão a entrevistas. Ele reafirma que não pretende voltar à literatura e aproveita para verter seu copo de cólera sobre essa tal modernidade.

Veja — O brasileiro é essencialmente caipira, como acredita o presidente Fernando Henrique Cardoso?

Nassar — O brasileiro em geral não sei, que não sou sociólogo, mas posso falar de mim. Me sinto caipira se acontece de eu entrar num shopping. Me sinto caipira diante da parafernália eletrônica. Me sinto caipira diante da desenvoltura urbana de certos cidadãos, uma desenvoltura que literalmente me faz mal. Me sinto caipira diante da progressiva impessoalidade nas relações humanas. Me sinto caipira porque sou contra o desperdício e contra essa nova mania do usa-e-joga-fora. Tenho um amigo que vive me dizendo que, se é para ter rádio, eu deveria trocar o meu. Então, também sou caipira por ainda gostar de rádio e por ter o rádio que sempre tive. Agora, se eu disser que não dispenso logo cedo uma boa horinha de música caipira, aí já vão dizer que, se não sou o Jararaca, sou então o Ratinho. Pensando bem, acho que sou o Jararaca. Seja quem eu for, que fique bem claro que me lixo para essa entidade que se identifica com o que está aí e que porta o elegante nome de “homem moderno”, que mais parece griffe de moda. Mesmo quando se tranca no banheiro, esse homem está sempre de celular no ouvido, o que é o fim da picada. Aproveito para repetir o que o Carlos Drummond de Andrade disse há uns quinze anos nestas mesmas páginas amarelas: isso não é civilização, isso é uma porcaria!

Veja — Por que o senhor voltou a publicar e está aparecendo em público?

Nassar — Meu nome vem circulando nos últimos meses, mas isso não quer dizer que eu tenha voltado a escrever. Literatura para mim é coisa do passado. Não acredito que se possa recuperar aquele impulso vital que leva alguém a mergulhar de cabeça numa atividade. Depois que se perde isso, a gente tem mais é que cair fora. Não se faz literatura para valer com paixão requentada. Mesmo a literatura mais pessimista, aquela que afirma que o nosso mundo é o pior dos mundos, acaba até se desmentindo pelo entusiasmo com que se expressa. Já disseram que a voz sem entusiasmo jamais será ouvida.

Veja — Mas o seu conto “Mãozinhas de seda” foi escrito no ano passado.

Nassar — Aquilo foi uma molecagem.

Veja — Por quê?

Nassar — Uma molecagem contra mim mesmo, pois dá seqüência à minha inequívoca vocação para o suicídio autoral, como já disseram. No momento em que o seu trabalho está sendo divulgado como nunca, publicar um texto como esse é o mesmo que fazer um esparramo com o ventilador. A hipocrisia de intelectuais, a troca de favores entre eles, o comércio de prestígio, tudo isso não acontece só no Brasil. Não revelei nada de novo em “Mãozinhas de seda”, só registrei o que é consenso entre os próprios intelectuais. Os mais inseguros e suscetíveis ficaram ouriçados, começaram a achar que a coisa é com eles, mas o texto não tem endereço certo, não tem CEP, nem nada.

Veja — Mas não há notícia de crítica ruim a um livro seu. É bom ser unanimidade?

Nassar — Duvido dessa suposta unanimidade dos críticos. Devem existir inúmeros leitores que não gostam dos meus livros.

Veja — O que o senhor acha da crítica literária brasileira atual?

Nassar — Não sei se as gerações de críticos anteriores foram tão melhores, como dizem. Às vezes penso que a crítica literária seria dispensável. Já aconteceu de eu ler autores incensados por críticos de peso e me sentir um completo débil mental por não conseguir enxergar tudo aquilo que eles viram. Acho impressionante essa capacidade de construir edifícios teóricos sobre o nada. Devemos tirar o chapéu para tanta imaginação. A crítica talvez seja importante para divulgar obras que poderiam passar despercebidas, embora a duração de certos livros dependa muito mais do boca-a-boca de leitores anônimos qualificados.

Veja — As panelinhas literárias fazem parte do jogo ou dá para evitá-las?

Nassar — Nunca participei de panelinhas, e prefiro não falar nada sobre o seu comportamento. Me limito a lembrar que a Rua Aurora dos velhos tempos em São Paulo, clássica por seus bordéis, seria um templo em comparação a elas.

Veja — O fato de ter abandonado a literatura não o teria transformado em um personagem fascinante?

Nassar — Abandonei o curso científico e pulei para o clássico, abandonei um curso de letras na universidade, o curso de direito no último ano, a empresa familiar assim que meu pai faleceu. Abandonei ainda uma criação de coelhos, o jornalismo e outras coisas mais. Tudo somado, só levei a pecha de inconstante. Por que só quando abandonei a literatura eu teria me transformado em personagem fascinante? Não é esquisito?

Veja — O senhor se sente mitificado pelos críticos?

Nassar — Quem sabe? O que posso dizer com certeza é que exercício crítico e mitificação não deveriam andar juntos, embora boa parte dos críticos empregue toda sua vida e energia na construção de mitos. É um processo que vem de longe e termina nas escolas. Os autores que constam dos currículos escolares acabam desumanizados, são transformados em pequenos deuses. O resultado disso é que o próprio ato de escrever é sacralizado, quando escrever é uma atividade como qualquer outra. Pessoalmente, fui vítima desse ensino da literatura nas escolas. Tanto que fiz segredo para minha família até as vésperas de eu ser publicado — tinha receio de que me tomassem por pretensioso. Isso sem falar do massacre que a gente sofria nas livrarias. Era eu entrar numa livraria para achar que não teria nada a acrescentar à montanha de coisas que já tinham sido ditas, o que chegava a me levar a pensar em desistir dos meus objetivos literários. Eu não me dava conta então de que escrever tem muito a ver com história pessoal, muito a ver com exorcizar condicionamentos, fantasmas, demônios e sabe-se lá mais o quê. Nesse sentido, escrever é uma atividade incomparavelmente mais acessível e eficiente do que um divã de psicanalista. Acho até que parei de escrever porque me dei alta na auto-análise que fazia.

Veja — Como a literatura deveria ser ensinada nas escolas?

Nassar — Não sei, só desconfio de que ela não deveria ser ensinada como vem sendo. De um modo geral, acho que os professores transferem para os alunos gostos e critérios pessoais, o que acaba formando um rebanho destinado a adorar certos nomes. Talvez se devesse treinar o aluno a pensar com a própria cabeça, a ser ele mesmo na sua relação com as leituras — supondo-se, é claro, que o professor também conseguisse pensar com sua própria cabeça.

Veja — Qual a função da literatura hoje, se é que ela tem alguma?

Nassar — Para quem faz, seria se ocupar em fazer. Para quem lê, se ocupar em ler. As duas ocupações seriam bons recursos para ludibriar a existência, o que não é pouco, sobretudo se se tratar de uma literatura portadora de reflexão sobre a vida. Escritores e leitores de uma literatura assim corresponderiam à parte da espécie que não consegue se ajustar a esse mundo. Uns e outros sairiam da sua solidão na medida em que a leitura promoveria um encontro entre eles. Agora, do ponto de vista de uma função social mais ampla, não consigo enxergar nada com clareza. Pode até ser uma grande inutilidade.

Veja — O senhor vai ao cinema e ao teatro?

Nassar — Há muitos anos não vou ao cinema e nem me lembro da última vez que fui ao teatro. Em parte por preguiça, mas sobretudo porque perdi o interesse. Não me faz falta. Acontece de eu ver um filminho em vídeo, mas é raro, e gosto quando vejo. Acho que existe uma oferta exagerada do que chamam de bens culturais. Como as informações passam por produto de maior valor no mercado, isso explica por que existe tanta gente de língua de fora atrás de um grande número delas. Me pergunto se as pessoas são mais felizes assim. Torço para que sejam.

Veja — E televisão?

Nassar — Vejo um bocado de TV, talvez por comodismo. Assisto a telejornais e acompanho novelas. No momento, estou começando a engatar em A Indomada. Vi Renascer, por exemplo, com muito interesse. Seu autor, Benedito Ruy Barbosa, se não estivesse na televisão, suponho que estaria escrevendo romances. Boa parte dos bons ficcionistas está hoje na televisão. Curto muito o trabalho de atores, e o Brasil tem alguns excelentes. Falar do Raul Cortez, como Berdinazi em O Rei do Gado, é incorrer num lugar-comum. Gosto também do trabalho daquele jovem, o Selton Mello, que teve seu melhor desempenho em Tropicaliente, com momentos antológicos. Agora, como televisão, o que mais me pegou nesses últimos tempos foi o Brasil Legal, da Regina Casé. A zorra das suas reportagens acaba em um milagre incrivelmente saboroso.

Veja — Qual foi o último livro que o senhor leu?

Nassar — Ficou difícil ler alguma coisa nos últimos anos por causa da diarréia antidiscursiva que acabou atacando também a prosa. É uma palavra solta aqui, é outra sem qualquer nexo lá, uma poesia que uma hora é pintura, aí não já não é mais pintura, é música, é eletrônica, é o escambau. Confesso que não tenho recursos e nem paciência. Fico até me perguntando se esses poetas imaginam que o leitor deve se debruçar a vida toda sobre o que eles fazem, para poder sacar alguma coisa. Me pergunto também se não existiria algo de comum entre essa moda antidiscursiva e subnutrição mental. Continuo pensando que as palavras, como os indivíduos, só ganham força quando se organizam ao lado de outras. Mas o desmanche não vem acontecendo só na literatura e nas oficinas de carros roubados.

Veja — Onde mais?

Nassar — De uns anos para cá, o mundo perdeu a graça. Depois do desmanche do Leste Europeu, andaram inclusive espalhando por aí que a História também foi desmanchada. Parece que literatura e contexto político nunca andaram tão sintonizados, é desmanche para tudo quanto é lado. Desmanche de estatais, desmanche de amizades, de linguagem. Por sinal, tem poeta vestido com macacão e mecânico de oficina lendo Joyce. Ficou difícil apostar em utopias, acho mesmo que no mundo todo só se pode falar em geléia geral. Mas desconfio de que o motor da História vai se acelerar logo mais com convulsões pela sobrevivência. Afinal, este mundo não foi criado por um deus bondoso, o deus bondoso só reina de fachada — um mundo como o nosso só pode ser obra exclusiva do capeta.

Veja — O senhor é um produtor rural insatisfeito?

Nassar — Não há como não me sentir insatisfeito. Fala-se muito na falta de uma política agrícola, mas tudo não passou de papo-furado até agora. Na minha opinião, a questão agrícola brasileira só será encaminhada quando for alterada a relação entre setor urbano e setor rural. O setor urbano está montado no setor rural, e de nada adiantaria uma reforma agrária sem corrigir essa distorção. Um exemplo: para beber em poucos minutos uma Coca-Cola, o produtor rural precisaria desembolsar o equivalente a 10 metros quadrados de terra. É isso mesmo: na região da minha fazenda, 1 metro quadrado de terra sai por 10 centavos. Passei a converter também em sacos de milho os valores de produtos e serviços urbanos. Você precisa de trinta sacos de milho de 60 quilos para pagar uma consulta médica de meia hora. A conversão que venho fazendo na minha vida pessoal se tornou tão obsessiva que, se vou ao dentista, logo vejo nele um pé de milho. Para não falar das margens de lucro da grande indústria e da atuação do setor financeiro. Mas vamos parar por aqui que acabo saindo do sério.

Veja — O que o senhor gosta de fazer nas horas vagas?

Nassar — Gostar, gostar para valer, eu gosto mesmo é de dormir. Dormir é a melhor coisa deste mundo. Nem leitura, nem diversão, nem uma boa mesa, nada se compara. Sexo então é fichinha perto. É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o seu corpo e a sua cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono. É o nirvana!

Veja — E entre um nirvana e outro, o que haveria para fazer?

Nassar — Há duas velhas sugestões. “Cultivar o seu próprio jardim”, que é a do Voltaire, cínica e pessimista. E a sugestão do poeta Jorge de Lima, fervorosa e otimista: “Há sempre um copo de mar para um homem navegar”. No fundo, são dois trapaceiros, pois as alternativas são ilusórias, em qualquer dos casos a gente acaba entrando pelo cano. Bom mesmo é dormir.

Fonte:
Revista Veja. Editora Abril. 30 de julho de 1997.

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Roberto Piva (O Escritor em Xeque)

Entrevista realizada por Fábio Weintraub, para a Revista Cult.

A provocação é de Roberto Piva, autor de Ciclones e Paranóia, que está sendo relançado pelo Instituto Moreira Salles. Estudioso das técnicas arcaicas do êxtase, passageiro do inframundo e amigo dos “orixás travessos da sombra”, Piva nos fala do nexo entre arte e loucura, poesia e marginalidade; alerta-nos contra a monstruosidade do “Homo normalis”, comenta a obra de Mário de Andrade e rende tributo à onça pintada, convertida por ele em totem da nacionalidade.

FW – Em entrevista recente, você declara ter utilizado o método paranóico-crítico de Salvador Dali para escrever os poemas que compõem o livro Paranóia. Avesso à sistematização de tipo cartesiano, contra os “pinicos estreitos da lógica” e “torniquetes da consciência”, para usar expressões suas, tal método, intuitivo por definição, se detém nos detalhes de uma composição para deles derivar…

RP – … o Dali criou esse método a partir do delírio do paranóico. Você, que é psicólogo, sabe que o paranóico se fixa num detalhe e constrói um mundo alucinatório, imaginário, a partir daquele detalhe. Um poema como “Praça da República dos meus Sonhos”, por exemplo, foi construído a partir dos detalhes da praça, num delírio semelhante ao do paranóico. Só que não é um poema de alucinação persecutória. Apesar de eu também me sentir um pouco perseguido dentro desta cidade, onde você precisa ser passarinho para atravessar a rua, para não ser atropelado. Não é isso? O poeta Allen Ginsberg dizia que a realidade é que era paranóica, não ele.

FW – Em poemas e manifestos, você sempre insistiu no parentesco profundo entre arte e loucura. Para o artista romântico, esse parentesco significa que o eu autêntico é o eu não-socializado, não sufocado pelas convenções civilizadas ou universalizado “pelo senso comum”; como está no seu poema “A Piedade”. Você não acha que tal compreensão deriva freqüentemente para uma crítica não-dialética aos constrangimentos sociais, entendidos como fachadas que encobrem o verdadeiro eu?

RP – Eu, como o Pasolini, não acredito na dialética. O que existe são oposições irreconciliáveis. Acredito naquilo que o Freud afirma em O mal-estar na Cultura: existe um movimento cada vez mais restritivo, não só da vida sexual, mas da subjetividade de modo geral. É também, de certa forma, um texto paranóico em relação à Cultura, que é entendida como repressão. Quanto ao parentesco entre arte e loucura, acho que o “desregramento de todos os sentidos”, de que falava o Rimbaud, refere-se não propriamente à loucura, mas a um estado de transe. Um estado de transe xamânico, porque Rimbaud era um alquimista, um xamã avant la lettre, que propõe mesmo a “alucinação das palavras”; o termo é dele. Os artistas, como afirma o Joseph Campbell, são os xamãs da sociedade contemporânea. A loucura propriamente dita é uma coisa muito triste, horrível. Quando Huizinga fala que o louco, o poeta e a criança têm coisas em comum, ele está pensando na criação artística, na imaginação fértil, propiciatória. A esquizofrenia em si é uma coisa muito triste. Às vezes tomamos por loucura não a “doença mental” especificamente, mas as manifestações do irracional. Aquele impulso para o irracional que, conforme Pasolini, acabou fazendo do Ocidente, que tanto se empenhou em negá-lo, a vítima mais fatal. E temos aí a história que não nos desmente, não é mesmo?

FW – Você vive afirmando que não acredita em poeta experimental sem vida experimental, que faz os poemas com “o que sobra da orgia” propondo uma identificação entre sujeito poético e sujeito empírico. Não obstante, há vários leitores seus, como o poeta Felipe Fortuna, para quem o bom resultado alcançado por você deve-se menos à radicalidade de experiências tematizadas por você (homoerotismo, drogas etc.) que ao “bom arremate literário” dado àquelas experiências. Como você encara tal tipo de leitura?

RP – É aquilo que diz o Octavio Paz: há uma única forma de se ler os jornais e várias formas de se ler um poema. Cada pessoa enxerga uma coisa diferente na minha poesia, pois, no fundo, ela é muito rica e permite uma enorme variedade de interpretações. A qualidade do arremate literário não exclui a radicalidade das experiências que estão na origem do poema. Mas acho que essa valorização excessiva da fatura pode revelar um certo preconceito contra o dionisismo, a idéia de que o dionisismo é algo superficial. Está errado. O dionisismo é uma das religiões mais profundas que já existiram. Basta ver que uma das suas manifestações produziu o teatro. Quer mais do que isso? Dionísio é o deus do teatro. As artes da aparência empalideceram diante de uma arte que proclamava a sabedoria na sua própria embriaguez. Donde a estética cabaço, atuando nas mais diferentes escolas literárias pelo Brasil afora. Vivemos num país profundamente dionisíaco, onde os intelectuais têm preconceito contra as manifestações espontâneas, criativas. Mesmo o fato de me enquadrarem na poesia marginal, dos anos 70, tem a ver com isso. Eu não sou dos anos 70 e não sou marginal; sou marginalizado. E por não ter pactuado com a universidade, com uma certa esquerda, por não participar das rodas literárias, nem dos “chás-da-cinco”, aos poucos fui sendo excluído.

FW – Eu queria aproveitar um pouco sua menção à poesia marginal. “Desde que foi expulso da República de Platão, todo poeta é marginal.” “O Brasil precisa de poetas perseguidos pela polícia, o resto é literatura.” Como ficam hoje tais declarações, feitas por você no princípio dos anos 80? A institucionalização da bandidagem não inviabilizou esse tipo de slogan? Você não acha que a poesia marginal, buscando aproximar a sensibilidade do poeta da do marginal, do bandido, descambou para um tipo de idealização, de estilização, que esvazia a experiência social, concreta, da marginalidade?

RP – Os bandidos naquela época eram românticos e possuíam uma ética. Pasolini foi o primeiro a notar isso. Numa sociedade de massas, o banditismo e a criminalidade também estão massificados. Há uma indiferenciação muito grande. Hoje se mata porque o cara não gostou dos óculos que o outro está usando. Ou porque alguém sentou no paralama do seu carro. Eles dizem: “Roubei o tênis que eu vi na televisão porque quem usa esse tênis é bacana”. Sabemos, pela experiência de Ivan Illitch, que uma cidade com mais de duzentos mil habitantes será inviável, diz ele, a partir do ano 2000. O que estamos testemunhando nos hospitais não é o simples desleixo, mas a crise da Medicina. Como estamos assistindo à crise da Economia. Não é uma crise econômica, mas uma crise da Economia. E tudo se liga a uma crise do urbano. Não importa mais checar índices de criminalidade. O ser urbano não é um centauro, mas um ser sem horizontes; só enxerga o tênis que ele não tem. Então ele mata, às vezes, por um tênis; não pelo benefício econômico que aquilo vai lhe trazer, mas pelo prestígio. Nos anos 60 eu conheci muitos adolescentes marginais, o equivalente dos que hoje estariam na FEBEM. Um deles sabia Baudelaire de cor, “As litanias de Satã”, e andava com o Zaratustra do Nietzsche debaixo do braço. Era ladrão, assaltante, mas nunca matou ninguém. Havia um princípio ético que ainda regia a vida daqueles bandidos. Eles também eram de extração rural. Agora são todos urbanóides, pálidos criminalóides de periferia.

FW – Então o lema do Oiticica, “seja herói, seja bandido”, não…

RP – … mas ele estava falando do “Cara-de-Cavalo”, o último romântico do banditismo. Atualmente o que existe é uma criminalidade de massa perigosíssima, porque o homem normal se transformou em criminoso. O homem normal, diz o Pasolini, é um monstro. Está aí a Hannah Arendt, com o Eichmann em Jerusalém, que não me deixa mentir. Quem é o Eichmann? Um cara pavorosamente normal, absolutamente medíocre, que fala por clichês e que mandaria matar o próprio pai, se recebesse uma ordem superior nesse sentido. Um burocrata sinistro, enfim.

FW – Muitos consideram o Paranóia como a Paulicéia Desvairada dos anos 60. Você concorda? Como foi a sua relação com a obra de Mário de Andrade?

RP – Acho que o que há em comum entre os dois livros é uma experiência alquímico-futurística da cidade. Só que eu inverto tudo isso. O que eu tive foi uma relação de pesadelo… e de coisas boas, porque, no fundo, a gente só vive o momento. Há o fio-condutor da explosão, a paisagem que se racha de encontro as almas, o cérebro que se racha de encontro a uma calota…, a idéia da ruína. É mais ou menos aquilo que diz o Brecht: “Da cidade sobrará apenas o vento que passa sobre ela”. É claro que, além disso, há diálogos mais explícitos, por exemplo, com a “Meditação sobre o Tietê” e com o “Girassol da Madrugada”. Aliás, já da primeira vez que li o Mário, percebi que era um poeta com forte sensibilidade homossexual. Repare bem: “Tudo o que há de melhor e de mais raro / Vive em teu corpo nu de adolescente / A perna assim jogada e o braço, o claro / Olhar preso no meu, perdidamente”. No “Girassol da Madrugada”, isso aparece de modo muito nítido. O que não quer dizer que eu desconsidere os outros modernistas, mas o Mário foi uma descoberta que me interessou pelo lado homoerótico. Como o Sosígenes Costa. Bati o olho e disse: “êpa!”. Depois, consultando um especialista na obra do Sosígenes, obtive a confirmação.

FW – Alguns críticos chamam a atenção para o caráter moralista da sua obra. Um moralismo às avessas, radical, que também atravessa a obra de autores como Sade. Algo como um “catecismo da devassidão” que, fazendo a apologia do mal, chama a atenção para um bem supremo, utópico…

RP – … mas esses corpos de que eu falava não existem mais. Eram garotos dourados do subúrbio, da periferia. Hoje, sem a gíria criativa do subúrbio, eles só querem uma moto para colocar na garupa a indefectível garota ornamental. E apenas grunhem. Agora, é preciso também entender a orgia de que eu falo de um jeito largo. A orgia admite muitas interpretações. O Breton, por exemplo, diz que a poesia é a mais fascinante orgia ao alcance do homem. Eu fiz muitas orgias, mas não proponho isso para ninguém, porque muitas vezes as pessoas não estão interessadas. Quando escrevo, não estou propondo nada, estou relatando experiências. Meus textos não possuem caráter prescritivo, muito pelo contrário. Quero que cada vez menos gente se interesse pela orgia sexual, para sobrar mais para mim (risos).

FW – Ainda com relação a isso, queria pensar um pouco no caráter transgressivo da sua poesia, o impulso para épater le bourgeois. A gente sabe que o burguês adquire o gosto de ser chocado e passa a manipular a insurreição dos artistas em benefício próprio. Você não acha que o Paranóia seduz hoje menos pelo furor iconoclasta que pela qualidade das imagens? Hoje ninguém se choca com “anjos de Rilke dando o cu nos mictórios”…

RP – … mas é uma imagem bonita. Fiz o seguinte: tirei os anjos de Rilke daquele pedestal metafísico e os coloquei no mictório, quase numa interpretação shivaísta do anjo do Rilke. O anjo como uma categoria de orgia, de tantrismo. Quanto à burguesia, ela se transformou em classe universal. Não acredito na burguesia em caráter genérico. O marido da Anaïs Nin, por exemplo, era um banqueiro que, sabendo que o Henry Miller transava com a Anaïs Nin, dava dinheiro para ele, que era um escritor pobre, um americano que estava em Paris e tal. Esse sujeito financiou artistas plásticos, escritores… e era um banqueiro. O valor do Henry Miller, para aquele banqueiro anarquista, estava acima do fato de ele ser amante da mulher. Aliás, formavam um trio e se davam muito bem, de acordo com a própria Anaïs Nin. O Henry Miller escreveu sobre isso. Veja você quantos anos ele ficou sem publicar nos Estados Unidos. Foi publicado primeiro na França, porque nos Estados Unidos sua obra estava censurada. Mas ele não escreveu para épater ninguém. O Henry Miller escreveu sobre aquilo que ele viveu. Se isso é chocante, não é culpa dele.

FW – Então aproveite e fale da sua proposta de transformar a onça em totem da nacionalidade.

RP – Ah, claro. Parece que, para os índios Ianomami, no dia em que matarem o último xamã e a última onça pintada, o céu cairá. Acredito piamente nisso. O céu já caiu uma vez. Vai cair pela segunda vez se os xamãs e as onças desaparecerem. Proponho também que se façam experências telepáticas com onças para conhecermos suas reais necessidades.

FW – … você diz até que elas ajudariam a guiar crianças cegas (risos).

RP – … ajudariam de uma certa forma (risos), devorando-as como guloseimas, não é? Porque, para os grandes predadores, crianças e mulheres são presas fáceis. Ainda nessa linha da telepatia com as onças, um experimento que deu certo foi o do Guimarães Rosa em “Meu tio, o Iauaretê”. É uma obra- prima esse conto. É um conto xamânico, pois o tio se transforma no jaguar, se oncifica. Maiakóvski dizia: eu me ursifico. Esse personagem do Rosa parece dizer: eu me oncifico.

FW – Queria que você falasse um pouco da sua relação com a universidade. Em Paranóia, você escreveu que professores “são máquinas de fezes”. Noutro poema, sobre a batalha de Campaldino, onde aparece a dúvida quanto ao fato de os guerreiros terem comido carne humana, você diz que os “universotários”, com sua “antropofagia vegetariana, apavorados, peidam no escuro”. Fale um pouco sobre isso.

RP – A universidade é o túmulo da poesia. Eu só fiz curso superior para poder dar aula. Não podia lecionar com dois livros publicados. Lecionei por quinze anos. Tudo o que me deram para ler na universidade ou era sucata ou eu já havia lido. Insisto em que as universidades devem ser transformadas numa coisa viva, isso é, num terreiro de candomblé. Com pais-de-santo, ou xamãs, no lugar dos professores, de modo a propiciar aos alunos uma verdadeira iniciação. As universidades precisam de um corpo docente e um corpo indecente (risos).

FW – Você também é um advogado veemente das “idéias biodegradáveis”. Como você as concilia com as suas obsessões?

RP – As idéias biodegradáveis são aquelas convicções, como propunha Álvaro de Campos, que não duram mais do que um estado de espírito. Nunca mais do que um dia. Nós vemos por aí pessoas enraizadas em ideologias fascistas e comunistas, cheias de dores-de-corpo, malentendidos, enxaquecas… Por isso o Nelson Rodrigues dizia: “Tem que morrer até o último idiota”. Mas todo dia, “nos cabides de vento das maternidades”, nasce “um batalhão de novos idiotas”, como eu escrevi no poema “Visão 1961”, incluído em Paranóia. Mas há muitas pessoas que não têm essas idéias fixas, essas ideologias cimentadas em espaços mortos, esse passadismo que procura deter o dinamismo do pensamento.

FW – “Eu preciso cortar os cabelos da minha alma”, diz um verso seu. Em que barbeiro? E como prevenir a calvície da alma?

RP – (risos) É uma imagem louca, não é? Acho que, na época, pensava em cortar os cabelos como meio de desfazer a confusão que me atingia. Às vezes, não basta pentear os cabelos da alma. A gente tem que cortar mesmo, para enxergar melhor. Quanto a prevenir a calvície da alma, o melhor remédio, na minha opinião, é o ritual xamânico dos quatro ventos.

FW – Num dos últimos poemas do Paranóia, você diz: “eu quero a destruição de tudo o que é frágil”…

RP – Mas sabemos que não é nada frágil aquilo cuja destruição eu desejo. A poesia é que é frágil, é uma forma de abrir brechas na realidade; como o Baudelaire, o Artaud, o Gottfried Benn e o Georg Trakl abriram. Mas não impediram Auschwitz. O poeta não existe para impedir essas coisas. O poeta existe para impedir que as pessoas parem de sonhar.

Fonte:
Revista Cult numero 34, maio de 2000.

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Carlos Felipe Moisés (O Escritor em Xeque)

Carlos Felipe Moisés concede entrevista a Álvaro Alves de Faria

À clássica pergunta “a poesia morreu?”, Carlos Felipe Moisés costuma dizer que a poesia morreu muitas vezes e sempre renasceu. Não é à toa que já imaginou escrever um livro com o título Poesia: crônica de uma morte anunciada. Desistiu. Como diz, seria insistir no óbvio:

– A morte da poesia vem sendo periodicamente propalada, e desmentida (diz Carlos Felipe), pelo menos desde a segunda metade do século XIX. É que, desde então, a poesia tem estado permanentemente em crise de transformação e evolução, determinada pela falência dos padrões clássicos, ou de qualquer padrão fixo e definitivo. A poesia passou a ser, a partir de Baudelaire, digamos, o reduto privilegiado da mudança. Daí a “crise”, interpretada por muitos como indício de esgotamento ou morte. Nada disso. Com a poesia acontece um pouco do que Marshall Berman (Tudo o que é sólido desmancha no ar) detectou na sociedade burguesa: “Afirmar que está caindo aos pedaços é dizer que está viva e em boa forma”.

Mas, afinal, para que serve a poesia num mundo mutilado, sem valores definidos, e mergulhado numa violência incompatível com a vida? Carlos Felipe Moisés assegura que a poesia serve para que nos tornemos melhores do que somos, enquanto indivíduos, não enquanto poetas. Serve para nos ajudar a extrair, desta breve passagem pela superfície do planeta, o melhor proveito espiritual possível.

– É uma visão romântica? – pergunta o poeta Carlos Felipe Moisés. E ele mesmo responde: – Sem dúvida. Mas é preciso entender que o romantismo não é apenas uma “escola” literária ultrapassada, circunscrita a determinado momento histórico, mas um estado de espírito que continua em curso, incorporando em sucessivas metamorfoses o que veio depois, atualizando-se. Cabe dizer, também, que servir, propriamente, a poesia não serve para nada: é a mais perfeita das inutilidades em que o homo ludens que somos pode empenhar-se. Mas por isso mesmo a poesia tem sido, vem sendo uma forma de resistência ao utilitarismo mesquinho.

Carlos Felipe não acredita que a poesia deva ser levada a sério. Acha que a poesia deve ser encarada como divertissement, jogo lúdico, despremeditado, com as palavras e com a essência da vida. O poeta se aborrece com a possibilidade de a poesia ser levada a sério, como algo que exigisse uma atitude mais formal, diferente daquela assumida no trivial da existência:

– Acho que a poesia deve fazer parte do nosso dia-a-dia – afirma Carlos Felipe. – A sério ou não, isso vai depender do temperamento de cada um. Para o meu, não. Para mim, poesia é sinônimo de divertimento. A sério. Mas sei que quando alguém indaga se a poesia deve ser levada a sério, a pergunta tem outro endereço: aquela mentalidade rigidamente utilitarista, para a qual poesia é bobagem, ocupação de desocupados e inadaptados. Ainda assim, minaha resposta continua sendo a mesma: a poesia não deve ser levada a sério.

Em que o poeta difere de outros poetas?

– Sem pensar muito, eu diria que não difere. Pensando um pouco, acrescentaria o óbvio: ninguém confunde um livro de poemas com um romance. E isso tem a ver com a preocupação classificatória de críticos e professores. É a questão dos gêneros, que sem dúvida diferem entre si, mas, neste século, muitas vezes manifestam-se sob formas híbridas, indiferenciadas. Há muitos textos modernos, dentre os mais marcantes e significativos, diante dos quais hesitamos. Poesia? Prosa? Prosa poética? E por aí vai. Então, insisto na resposta irrefletida: o poeta não se distingue de outros escritores.

Carlos Felipe Moisés observa que a poesia brasileira, hoje, felizmente, está em crise: “a poesia está morta mas juro que não fui eu”, como declarou José Paulo Paes. O poeta esclarece que essa crise significa pujança, dinamismo e, sobretudo, diversidade:

– Nossos grandes poetas se foram: Bandeira, Cecília, Drummond, Vinícius, Murilo… João Cabral silenciou, há tempos. Mas suas vozes continuam vivas e atuantes, muito mais do que a de muitos jovens recém-guindados ao panteão lírico da Pátria. A poesia brasileira hoje (um “hoje” que se arrasta há três ou quatro décadas) se caracteriza pela variedade dos ingredientes e caminhos em que aposta – da prolixidade à concisão, da ousadia experimentalista ao tradicionalismo conservador. E todos esses caminhos são válidos e legítimos, para desespero desta ou daquela minoria que insiste em nos impingir seu sectarismo.

E a crítica literária?

– Os arautos da morte da poesia diriam que nossa crítica, há décadas, vai bem melhor. Nos últimos 30 anos, a imprensa perdeu o charme dos grandes suplementos literários (noto, nos anos recentes, um tímido esboço no sentido de ressuscitá-los), o charme dos rodapés semanais. Perdeu-se com isso o critério subentendido da “autoridade” tacitamente atribuída a uns e outros. No mesmo período, cresceu o prestígio da chamada crítica universitária, modalidade que levou a “autoridade” a migrar das mãos do amador para as do especialista e a se divorciar do grande público. A crítica literária carece hoje de autoridade referendada. Eu diria que, entre o referendum da mídia e o prestígio da academia, nossa crítica procura cumprir com sua finalidade primordial, qual seja assinalar a maturidade da literatura em que se insere. Uma literatura amadurecida não se limita a existir, nem se restringe a alguns autores “de nível internacional”, como se costuma dizer, mas deve mostrar-se também capaz de discorrer sobre a consciência de sua própria existência. Acredito que aí resida a função maior da crítica literária. E acredito que a nossa caminha nessa direção.

Carlos Felipe Moisés pertence à Geração 60 de poetas de São Paulo. Mas ele não acredita na existência da geração. Ele observa que, se afirmar que acredita, dirão que é suspeito, pois se trata da sua geração; se negá-la, dirão que é mais suspeito ainda:

– Em nome da geração à qual pertenço (pertencemos, não é mesmo, Álvaro?), peço permissão para afirmar que a Geração 60 não existe, nem deixa de existir. Em primeiro lugar, quem somos, meu caro e fraterno Álvaro Alves de Faria? Resposta: Roberto Piva, Cláudio Willer, Lindolf Bell, Eduardo Alves da Costa, Celso Luís Paulini, Eunice Arruda, Rubens Rodrigues Torres Filho, Sérgio Lima, Neide Archanjo, Carlos Soulié do Amaral, você, eu próprio, e vários outros poetas que se reuniram, adolescentes, no início dos anos 60, em torno da editora Massao Ohno, em São Paulo. Nós erguemos nosso ideário ou nossa plataforma de combate? Produzimos nosso ismo? Transmitimos a alguém, como diria Brás Cubas, o legado da nossa miséria? Fomos e continuamos até hoje a geração da dispersão. E é isso, exatamente, que afirma a nossa existência e a nossa inexistência. Por outro lado, estamos falando de alguma coisa muito local, muito regional, quando poderíamos (deveríamos?) buscar um âmbito mais abrangente. Pedro Lyra – que é da mesma geração, em termos cronológicos, mas só viemos a nos cruzar muitos anos depois – nos ajuda a ver a coisa de outro prisma, com sua recolha ecumênica Sincretismo: a poesia da Geração 60. Naqueles idos de 60, no mesmo instante em que nos agrupávamos, circunstancialmente, em São Paulo, dezenas de outros jovens poetas faziam mais ou menos o mesmo, em vários pontos do país. Somos todos da mesma Geração, com G maiúsculo? Sugiro confiar essa pergunta à argúcia dos historiadores, que um dia saberão colocar esses e outros nomes em seu devido lugar.

Fonte:
Opção Cultural, Goiânia, 28 de junho de 1997, ano III, no 144.

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Ronald Augusto em Xeque

Miscelânea de entrevistas realizadas pelo Jornalista Douglas Resende do diário O Tempo, de Belo Horizonte e entrevista para a Revista Algaravaria

Porque poeta?

Lá pelos meus 12 ou 13 anos, minha mãe me escolheu como o ouvinte primeiro de seus poemas. Aquilo para mim foi uma tortura. Ela lia entusiasmada os seus versos. Meu jeito quieto e reflexivo ou minha condição de filho mais velho, talvez tenham lhe sugerido a idéia de que eu seria o leitor adequado. Fiquei sem palavras. Era tudo muito chato. Uns três anos depois, escrevi meus primeiros versos. Que lição tiro disso? Nenhuma.

Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E do primeiro para o último?

Duas perguntas que suscitam respostas intermináveis. Mas, não vou dar essa alegria ao divino internauta. Escrevi muito e li, durante algum tempo, só Manuel Bandeira. Depois dos poemas motivados pelas paixões da adolescência, resolvi sondar a real qualidade do que eu vinha escrevendo. Entrei em concursos literários. Em 1979, um poema meu mereceu menção de “destaque” num certame que envolvia várias etapas ao longo de um ano. Fiquei feliz porque o júri era composto, aos meus olhos, pelos melhores poetas da época: Mário Quintana, Heitor Saldanha e Carlos Nejar. Ao final do concurso uma antologia foi publicada e lá estava o meu poema. Minha estréia em livro. Meu primeiro livro não foi o primeiro, é que antes dele (1980, 1981), “pirado” com a poesia marginal, editei livrinhos em xerox bem vagabundos e participei de intervenções-bomba de autores independentes na Feira do Livro. O leão de chácara da Feira aparecia para expulsar a patota. Numa dessas, o Heitor Saldanha foi visitar os poetas marginais para prestar sua solidariedade, e folheando os precários livretos, abriu o meu e elogiou com entusiasmo as imagens e metáforas que encontrara. Isto para mim serviu como o empurrão definitivo: pronto, eu era um poeta, meio hippie, mas poeta. Mas, Homem ao Rubro, de 1983, é que foi, de fato, o meu livro inaugural. Eu tinha 22 anos. De lá até agora, é como diz Borges, a cada novo livro, acho que tento reescrevê-lo.

Quais livros fizeram parte de sua formação? Há uma obra com a qual tenha descoberto a poesia de um modo mais contundente?

A obra capital para a minha formação é a de Manuel Bandeira. Sua poesia é tanto mallarmeana, quanto antropofágica, isto é, Bandeira consegue dosar anti-poesia e poesia pura em seu percurso textual; suas traduções, que vão desde o barroco da poeta mexicana Sor Juana Ines de la Cruz (séc. 17), passando pelo poeta e ativista negro Langston Hughes (1902-1967) e chegando até os “poemas à maneira de…”, que gosto de interpretar como exemplos de traduções heterodoxas, onde o velho Manu (como o chamava Mário de Andrade) inventa, por exemplo, um poema afivelando a máscara de E. E. cummings. Também adoro sua prosa voltada às questões da poesia, isto é, sua metalinguagem. Itinerário de Pasárgada é um livro incomparável. Outros livros: A Commedia de Dante, Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, Museu de Tudo de João Cabral de Melo Neto, etc. Nada de especial.

Teve algum incentivador?

Que eu saiba, não. Sempre associei a imagem do chato à do incentivador. Hoje em dia há a figura do motivador, pior ainda. O incentivador esconde um moralista. Prefiro os opostos e complementares: o admirador e o crítico.

Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores? Como foi e é o diálogo com outros escritores?

Escritor que dá conselhos não merece crédito. O diálogo com os outros escritores não difere muito daquilo que acontece com qualquer pessoa que vive em sociedade, é preciso que haja afinidades eletivas. A expressão parece pernóstica, mas é isso. E é comum acontecer que o seu melhor amigo seja um torcedor obtuso do time adversário. E tem aquele para quem a gente dá “bom dia” não se sabe porquê, o sujeito não fede nem cheira. Vá de retro.

Tentou vários gêneros literários? Ainda os pratica em segredo?

Quando fiz curso de interpretação teatral (fiz e, por enquanto, não nego), escrevi textos dramáticos. Passou. Na mesma época, década de 80, também escrevi alguns contos. Passou também.

Com que se inspira para escrever? O que é matéria para a poesia? Com quantas metáforas se faz um poema? Quando escreve, qual o efeito estético visado?

Geralmente aquilo que me “inspira” é alguma solução de linguagem que hesita, como diz Valéry, entre som e sentido, uma paronomásia, para usar um conceito de Roman Jakobson. Qualquer coisa pode se tornar matéria para um poema. Do contrário, eu estaria jogando as minhas fichas no anacronismo da “poesia pura”. Um poema se faz com metáforas boas. Dependendo da situação, nenhuma metáfora é a melhor saída. Aliás, na minha opinião, a metáfora representa o kitsch da função poética. Qualquer resposta criativa no trato com a linguagem que ponha em cheque a sua naturalização (da metáfora) e os medianeiros da metaforização indecorosa, seráválida. Eu viso um poema que suscite muitas e contraditórias leituras.

Tem obsessão em reescrever o mesmo texto? Ou a emenda é pior do que o soneto? E mais: guarda tudo o que escreve? Ou elimina sumariamente?

Homem ao Rubro foi um livro escrito a partir desta perspectiva, da reescritura em abismo. Hoje em dia, sou mais atraído pelos poemas “errados e estropiados”, como diz o poeta Mauro Faccioni, da Ilha do Desterro. Não guardo, não. Também não tenho livros engavetados. Minha produção é mirrada. Atualmente, considero que tenho dois livros in progress, só. Livro pronto, na gaveta, nenhum.

Para escrever, precisa conhecer muitas cidades e ler todos os livros?

Algumas cidades e alguns livros. Passei minha infância no Rio de Janeiro, mais exatamente em Niterói. Depois, durante a crise dos meus 30 anos, morei em Salvador/BA. Ambas são cidades fundamentais para mim. Mas, éclaro que tudo depende da leitura, do nosso ponto de vista de forasteiro. E as cidades estão na base das mitologias da modernidade. Baudelaire, T. S. Eliot, Oswald de Andrade, etc., todos os grandes poetas do cânone ocidental leram o livro das cidades.

Há idéias ou imagens que lhe perseguem no fio dos anos e das obras?

Não, acho que não. Talvez porque me assuste um pouco a questão da repetição ou da auto-imitação, estou sempre tentando experimentar lances novos. Não chega a ser uma idéia, mas a minha divisa é: experimentação.

Como define a sua poesia? Como caracterizaria suas ambições estéticas principais?

Isso é trabalho para os críticos interessados. Mas, para não deixar o divino internauta sem resposta, indico o texto do poeta Cândido Rolim a respeito da minha poesia, que apareceu recentemente em http://www.cronópios.com.br . Este mesmo texto foi re-trabalhado e ampliado e será publicado oportunamente por Edimilson de Almeida Pereira (MG), que organiza um livro de ensaios onde diversos autores escrevem sobre questões poéticas.

Qual a relação entre seu trabalho e sua escrita?

Nenhuma.

Qual a relação entre sua poesia e as artes plásticas?

Quanto a esta questão, ainda sou poundiano, “a poesia está mais perto da música e das artes plásticas ou visuais do que da literatura”, cito de memória. Hoje em dia poderíamos ampliar o parentesco incluindo o cinema. Muita gente se opõe a esta proposição de Pound. Com efeito, ela causa algum desconforto, principalmente para quem vê na literatura este arco generoso a abrigar todas as manifestações verbais marcadas por uma desenvoltura de imaginação. Mas, para Ezra Pound, literatura não é senão a forma refinada desta instituição pernóstica conhecida como sistema literário. Acho que esta proximidade, intuída por ele, entre a poesia e tudo o que não fosse “lixeratura”, só confirma a sua devoção a esta arte que é, toda, apenas “cernes e medulas”. E há um esforço violento por detrás deste apenasque, agora sim, a literatura é incapaz de experimentar.

Qual a relação entre sua poesia e a música?

Pode parecer estranho, já que também sou músico, mas acho que não há nenhuma relação notável. Gosto muito de música, de fazer e de ouvir. Assim como gosto de cinema. A música na minha poesia representa um estímulo como qualquer outro. Quando faço um poema, deixo o músico no banco de reservas.

Em que geração literária você se concebe? Ela tem um projeto definido?

Minha formação se deu durante a década de 80 e meus primeiros livros também foram publicados neste momento. Os teóricos de estética acomodam este trecho histórico dentro do período pós-moderno. Um traço desta geração parece ser o de uma construção poética que se espoja num pastiche tanto do passado como de um futuro algo cínico.

Como vê a pontuação na (sua) poesia?

Não vejo, porque não a utilizo. Exceto quando busco algum efeito icônico, por exemplo: um parêntese aberto sugerindo um “crescente”, uma “vírgulágrima”, etc.

Como percebe suas principais qualidades como escritor? Há algum defeito de que não abra mão?

Não sei se é uma qualidade, mas só começo a escrever quando acho que esbarrei em alguma coisa que escapa à convenção. Um defeito de que não abro mão: os parênteses.

Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?

Os poetas contemporâneos não se envergonham de um certo virtuosismo técnico a que se submetem ludicamente. Transitam com leveza pelo círculo vicioso da competência. Sua erudição é um banquete após uma expedição de conquista. O refinamento é tudo. Numa espécie de réplica soft ao politicamente correto, re-instauram o poeticamente correto.

O que mais lhe agrada em um poema, dado o variegado múltiplo da poesia atual?

A beleza do difícil que ele possa conter. E a coragem da anti-poesia, que pode ser uma tradução para a beleza já referida.

A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?

Não, acho inclusive que a condição marginal da poesia, relativamente ao prestígio gozado por outras formas de linguagem no âmbito do embate cultural e malgrado o risco de desaparição que tal marginalidade pressupõe , é interessante porque obriga o poeta a assumir uma postura de maior autonomia crítica. E jáque nada se espera dele, talvez desde aí possa surgir alguma coisa.

Qual a função social da poesia?

Propor formas estéticas ao indecidível e ao equívoco que marcam o privado e o individual, de modo que eles disponham de forças para a deglutição meditativa/corrosiva dos signos do espaço público.

A poesia se esgotou como gênero literário? Se não, que caminhos podem evitar um futuro esgotamento?

Se eu soubesse como identificar os sinais de um tal esgotamento a rondar a arte da poesia, eu não os revelaria. Injetaria o contraveneno só na minha poesia. Você pensa que é mole ser um novo Homero?

Há obras meramente comerciais de poesia? O que pensa delas?

Alguém já disse que a expressão “poesia formalista” é uma redundância, pois poesia é forma, mesmo. Então, “poesia comercial” para mim, é uma contradição entre termos. Tem poesia ruim, isto é uma coisa. Mas, se é comercial, não é poesia. Portanto, a indignação de Augusto de Campos dizendo, num seu poema, que não se vende, tem algo de moralismo teatral. Faltou aprender a lição de Pessoa/Ricardo Reis: “Cala e finge./ Mas finge sem fingimento”.

Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que, nos jornais e revistas, ela está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?

O tempo que dedico à leitura de textos críticos é mesmo que dedico à leitura de poesia, isto é, o tempo que dura o prazer textual. Meu desejo de linguagem dita as regras. O jornalismo literário tende cada vez mais a tornar-se um mero relações-públicas do mercado editorial.

Políticas literárias: faz qualquer negócio para sua obra ser editada? é justa a percentagem que fica para o editor e para as livrarias? É justo que o escritor seja a causa produtora de um sistema literário que não o beneficia corretamente? O que se pode fazer?

Não. Não. Não. Aproximar a poesia da música e das artes não-verbais. Afastá-la da literatura do sistema literário.

Quais são os vícios e as virtudes da poesia brasileira moderna e contemporânea?

Só um: o verso livre. Embora seja um exagero insistir em dizer que o “ciclo histórico do verso está encerrado”, parece ficar cada vez mais claro que o verso livre modernista que, diga-se de passagem, a maioria pratica ainda imperitamente, sem fazer vacilar suas contradições e possibilidades constitutivas experimenta um momento de estagnação. Nem mesmo as vanguardas, que inventaram a “música sem-versista”: o poema como uma constelação suspensa na página; nem mesmo elas conseguiram mudar o quadro. Talvez isso se deva, em parte, a precoce canonização do versolibrismo. Aliás, sua defesa, em alguns casos, foi tão dogmática quanto a dos que o repudiavam. O verso livre ainda tem alguma coisa a ver com o verso metrificado que pretendeu substituir.

“Escrever sobre escrever é o futuro do escrever”? (Haroldo de Campos)

Escrever sobre escrever sempre fez parte do nosso repertório, desde Homero, passando pelos griots africanos, pelos cantores provençais, pelos simbolistas, etc., e chegando até aqui. A metalinguagem está no passado da tradição e no presente que põe em cheque ou em movimento este passado. Escrever sobre escrever é um dos quesitos do escrever. Se isso tem futuro? É cedo para saber.

Alguma epígrafe que o acompanha sempre? Algum epitáfio lhe contém?

Invejo o poeta peruano Mirko Lauer que colocou como epígrafe ao seu livro Os poetas en la republica del poder, esta maravilha de José Lezama Lima : “…el encapotado odio de siempre de los poetas tejedores de la gran resistencia en contra de los asquerosos y progéricos, porcinos y tarados protectores de las letras”. Como epitáfio, um poema-verso do Ricardio Silvestrin: “quero ser cromado”.

Como você se vê frente ao recebimento de originais? Comenta tudo o que recebe?

Hoje em dia considero um trabalho. Quando me pedem para ler, eu cobro pela leitura e escrevo um comentário crítico. É claro que leio, “na faixa”, os originais dos poetas de minha predileção e geração. Neste caso, não estou na posição de orientador, volto a minha condição de fruidor. Ultimamente ando lendo, entre outros, os originais do Ademir Demarchi e do Paulo de Toledo, estou adorando. Ambos grandes poetas que conheci de uns anos para cá. Outro poeta de quem espero e recebo sempre poemas perturbadores, é o Cândido Rolim, autor do livro Pedra Habitada.

Que livro prepara? Qual seu eixo principal?

Os editores da Ameopoema, Alexandre Brito e Ricardo Silvestrin, querem lançar um livro reunindo todos os meus livros anteriores ao Confissões Aplicadas, editado pela mesma editora em 2004. Acho uma bela idéia, jáque estes livros remotos tiveram edições bastante reduzidas. O Homem ao Rubro, por exemplo, foi o de maior tiragem, teve 300 exemplares.

Além de poeta que tem seus versos publicados no papel, você é músico e letrista. Uma coisa influencia a outra? Ou são produções separadas?

Tenho uma vida dupla. Mas a vivo sem grandes traumas. Não misturo as duas formas de arte. Entretanto, não obstante a conjunção entre poesia e música seja uma realidade estética possível, decidi não enveredar por esse caminho. Para mim, o poema tem uma música toda peculiar que pode eventualmente prescindir de sua presença digamos assim audível no mundo; o poema pode ser fruído no silêncio do pensamento do leitor. Não se trata de recusar sua performance oral, isto é, a enunciação à viva voz do verbal para além da sua visualidade na página impressa. Já a canção é “palavra voando” (como escreve James Joyce), um lance de linguagem cujas regras se ligam à respiração vital do corpo. Em resumo: minha poesia está nos livros e minha música (compósito inextrincável de letra e melodia) nos CDs que lancei individualmente ou com a minha banda Os poETs.

Você acaba de participar do “ECO: Performances poéticas”, na cidade de Juiz de Fora. Como você vê a performance como meio de expressão da poesia? Você escreve poemas para serem lidos em voz alta ou em algum tipo específico de performance?

Escrevo poemas para serem fruídos, não importa a maneira encontrada pelo leitor-executante-intérprete para alcançar esse ponto de re-invenção. Sempre gostei de simplesmente ler o poema, sem quase nada de intensidade teatral que, não raro, resulta em retórica altissonante típica de um gosto retrô, que ratifica a imagem da poesia como essa coisa caipira, esse vociferar maneirista do coração. A performance é um meio de expressão possível da palavra poética. Cada poema, potencialmente, inaugura e exaure uma chance de linguagem. Assim, cada performance deve se lançar desde a específica solução estética constitutiva do poema.

Quais são suas principais referências na poesia? Numa resenha do seu Confissões Aplicadas (Ameopoema), Ricardo Aleixo fala de um “mixer” que inclui a poesia concreta, que inclusive tem a ver com a idéia contemporânea da “materialidade” do poema.

Manuel Bandeira é o maior, a vida inteira. Para mim, dentro da tradição brasileira, o poema “Organismo”, de Décio Pignatari, é o mais importante do século XX: a conquista para a poesia de uma visualidade cuja precisão opera sobre a imprecisão do icônico transformado em simbólico, ou do verbal em trânsito para o não-verbal. Uma poesia (a visual) que nunca resta no lugar onde há pouco a deixamos.

Qual o último livro de poesia que você leu? E qual o último que você releu?

Estou finalizando a leitura de A Lógica do Erro, de Affonso Ávila (é verdade, não faço média com a tradição poética mineira, não!). Sou um admirador do Affonso, o sábio da poesia do escárnio. O poeta sabe dar ao erro, ao defectivo da linguagem, o assentamento de um quatro que se contenta de seu pé quebrado, porque foi arduamente conquistado, cito um pequeno trecho: “o infenso à inferência do lobby/ de palavras astutas artísticas…”. Estou relendo os contos de Kafka enfeixados no livro Um Médico Rural (tradução de Modesto Carone). Mais do que com a lógica do sonho, o autor de O Processo lida com a lógica do pesadelo. Kafka reinventa o humor numa perspectiva exasperante.

Além das questões formais, é possível falar de um universo representado por seus poemas? Quero dizer, se o lírico seria a manifestação de um “eu interior”, que eu é esse nos seus poemas? E no caso de No Assoalho Duro (Éblis), seu último livro? Ronaldo Machado menciona suas leituras de Nietzsche como fator relevante em seus poemas…

Mas além das questões formais não há mais nada. Poesia é forma, mesmo. Forma: estrutura significante de controle do acaso, plasticidade do pensamento-arte. Gostaria de lembrar uma máxima mallarmeana, diz assim: quem fala no poema não é o poeta, mas a linguagem, ela mesma. A poesia contida nesse livro é a que me foi possível conquistar durante os três anos em que vivi em Salvador, Bahia. Em Nietzsche, vontade de poder se resolve criticamente em vontade de engano. A alegria do engano e a poesia como essa viagem empreendida pelo leitor ao (seu) desconhecido.

Qual a história de No Assoalho Duro? São poemas escritos entre 1988 e 2006, o que é um longo intervalo de tempo. Trata-se de uma reunião de poemas aleatórios ou existia uma consciência de um livro sendo gerado ou nada disso?

É um livro-resto, livro-refugo. Um álbum de formulações de linguagem expurgadas, colocadas de lado, deslocadas, postas à prova da margem, do derrisório. Quando comecei a organizar o livro, resolvi partir do seguinte ponto: configurar um livro não-virtuoso, isto é, que não ratificasse essa “costumização” que o poeticamente correto impõe ao discurso de muitos dos meus pares.

Você trabalha também na veiculação de poemas, como editor (além de exercer a crítica literária). É uma coisa cada vez mais comum essa pulverização dos mercados, conteúdos veiculados pela internet, selos independentes de pequenas turmas de escritores, em locais específicos, talvez atingindo públicos também mais localizados, ao contrário da lógica globalizante da indústria de massa. Como você percebe e vive isso?

Sinto-me confortável, por enquanto, dentro da figura do poeta-crítico, ou seja, acho importante pensar sobre os limites, as singularidades e as imposturas do gênero, tentando escrever, inclusive, poemas que inventem outros problemas. O poema não tem que resolver nada. De resto, um bom poema não admite solução. A veiculação a que você se refere é mais ao trabalho da editora Éblis que conduzo em parceria com Ronaldo Machado. Mantemos diálogo com muitos poetas e realizações estéticas. Vivemos um nutrimento mútuo. Hoje, o atrito vertiginoso entre diversas ações relacionadas à poesia é uma experiência valiosa. Relações transversais abertas no espaço-tempo virtual.

A internet se tornou um lugar de encontros, disseminação, uma espécie de mercado independente e paralelo. Você possui o blog Poesia-pau. Como você atua na internet, no blog e de outras formas? Você acha que o potencial da internet está sendo bem usado no caso da crítica e difusão da poesia? Do lado da crítica, às vezes não é tão fácil encontrar fontes e escritos consistentes…

A internet permanece em movimento, para o bem e para o mal. Ainda está por ser feita uma análise mais abrangente acerca de suas simulações, desdobramentos e invenção de uma nova ordem sócio-cultural que esse meio, quem sabe, estaria apto a nos oferecer. O que é interessante de observar na dinâmica sígnica da rede mundial é que é possível fazer conviver de forma mais rente o pensamento refinado com a intervenção cultural prática. Há uma agilidade saudável na tensão entre esses dois pólos tradicionalmente cindidos. Do lado de cá do não-internético também há muito texto crítico de segunda categoria. É apenas uma questão de intensidades.

Fontes:
http://www.artistasgauchos.com.br/
http://algaravaria.blogspot.com/

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Airton Monte (O Escritor em Xeque)

entrevista realizada em janeiro de 2007

O Jornal cearense O Povo, em uma conversa franca e bem humorada com Airton Monte, cronista de uma Fortaleza boêmia, solidária e fraterna que propõe o hedonismo e o anarquismo educado como utopia para a humanidade

O mundo é grande e cabe no breve instante da crônica de Airton Monte. Espelho de si mesmo, o cronista contempla sua própria persona e espreita a humanidade pelo prisma de sua aldeia. Traduz para o espírito de Fortaleza as paixões, os desejos e os abismos da alma humana. O fascínio pelo inconsciente lhe levou à psiquiatria, onde o profissional austero toma a frente do poeta galhofeiro, arrebatado e espirituoso que se deita no divã da literatura. Pela cidade (real ou rememorada), Airton circula desvendando o universal nos bares mais simples da Gentilândia e fazendo explodir o particular de cada flagrante em arroubos universais de inspiração poética.

Em uma manhã de conversa franca e bem humorada com quatro repórteres do O POVO, regada a muita cerveja e a uma dezena de cigarros, o cronista se revela. É o torcedor fiel, o teórico da literatura, o marido apaixonado, o amigo saudoso e o cidadão desolado com a cidade que “enselvageceu”. Sem amarras, sem pautas específicas, a conversa segue fluida por mais de duas horas. Do riso generoso aos dramas mais tocantes e deles à piada mais escatológica. Literatura, Praia de Iracema, Clube do Bode, drogas, anarquismo e gentileza. O mundo é grande e cabe no breve trago que acende o fio da inspiração e da memória.

O medo que eu tenho da palavra tempo é o de me tornar obsoleto em relação ao tempo presente”, revela o artista que, cronista, agarrado às amenidades e às urgências do dia-a-dia, soube se inscrever na posteridade pelo talento da palavra. O mundo é grande e cabe na breve (e encantadora) Fortaleza de Airton Monte.

O POVO – Quando a gente ligou pra você para convidá-lo para a entrevista, você ficou feliz mas brincou com a história do tempo, brincou com o agouro ou o mau agouro de dar uma entrevista como essa nessa altura da vida. Você tem medo do tempo?

Airton Monte – Se eu disser que não tenho medo do tempo eu estaria mentindo. O meu medo do tempo não é o medo de morrer, não é o medo de envelhecer. O medo da palavra tempo é o de me tornar obsoleto em relação ao presente. A minha briga toda é essa. Não posso me desligar das raízes do meu passado. Aquilo que eu aprendi está aprendido. Mas tanto na medicina quanto na literatura, meu medo é o de ficar obsoleto. De ficar um velho gagá. Aqueles antigões, parados no tempo, sem diálogo com ninguém, que passam a vida num tempo ilusório, um tempo passado.

OP – E como você tenta superar isso?

Airton Monte – Estudando, lendo. Tanto de um lado quanto de outro, eu tenho de estar antenado. Na medicina, minha vantagem é que não preciso gastar rios de dinheiro para ir aos congressos. Eu ligo o computador e recebo os anais, entro nos sites da Sociedade Médica Brasileira, da Associação de Psiquiatria. Estou o tempo todo atualizado.

OP – Você tem livros que estão sendo utilizados no vestibular. Quando você conversa com esse público do vestibular, esse público mais novo, esse medo da obsolescência aumenta?

Airton Monte – Eu nunca tive dificuldade de me relacionar com esse público mais jovem do que eu. Nem muito mais jovem nem muito mais velho. Eu tenho vários grupos de convivência. Eu tenho a turma da Gentilândia, que é a turma da minha infância, da minha idade. Tenho a turma do papai, que é uma turma mais velha, da idade do papai, de 80 anos, 90. Tem a turma do Clube do Bode. E nesse vestibular, a partir de 2004, 2005, o que me deu mais surpresa foi que de repente aquela garotada chegou e disse: “olha, a gente está te lendo porque a gente está gostando”. E eu conseguia me comunicar com eles no mesmo nível. Brincando, rindo. Não me sinto deslocado entre os jovens. Eu sou como aquele velho jogador, o Romário, que ainda está ali rondando a área, sobrou a bola pedindo para eu chutar, eu chuto.

OP – E fisicamente, você se cuida?

Airton Monte – Decididamente, eu nunca fui exemplo para ninguém. Não vou a médico, não sei a quantas vai meu colesterol, minha glicemia. A única coisa que me incomoda, fisicamente, de vez em quando, é a asma, que o cigarrinho corrige, não tem problema. Eu bebo do mesmo jeito que bebia quando era jovem. Como as mesmas coisas que comia. Eu quero ficar velho. Se puder até ver meus netos crescerem eu queria. Agora, do meu jeito. Não me interessa viver uma vida sem poder sair, sem poder fazer as coisas de que gosto. De clínico geral eu tenho pavor porque você entra lá saudável e sai doente (risos). Tenho muitos amigos médicos, sou da máfia, mas reconheço que não sou exemplo pra ninguém. Se alguém quer viver muito, não siga meu exemplo. Comigo está dando certo. Estou praticamente com 58 anos, com corpo de bailarino espanhol e um fígado de 20 que nunca me deu problema.

OP – A Fortaleza que você começou a descrever em tuas crônicas era uma cidade bem menor, mais pacata. Nossa cidade hoje é um monstrengo que cresce desordenadamente, sem respeito pelo passado e sem respeito pelo próprio fortalezense. Como você se relaciona com essa Fortaleza mais jovem?

Airton Monte – Eu cresci em Fortaleza. Nasci aqui. Tenho 57 anos, nunca saí daqui. Nasci na Rua Dom Jerônimo, de parto normal, filho do primeiro amor, do primeiro “descuido”, como dizia a minha mãe. E fui criado naquele território mágico ali da Gentilândia, do Benfica, do Jardim América. Mas Fortaleza foi mudando de uma maneira que me fez ter que mudar também. E a mudança foi brutal. Hoje eu caminho em alguns lugares – com exceção da Gentilândia, por exemplo, que permanece mais ou menos como era antes -, e perco as referências que tinha. A Praia de Iracema morreu. Eu tive de aprender a conviver com essa Fortaleza. Uma cidade em que vivo com medo, medo por mim, por meus filhos; uma cidade em que não posso me arriscar muito e ir numa esquina, a caminhar pela cidade, coisa que adorava fazer. De dez anos pra cá, passei a viver nessa Fortaleza que ensandeceu, enselvageceu, onde nós perdemos aquilo que era a democracia da gentileza, a democracia do lirismo. Hoje não somos mais próximos, nós somos ilhas. Ilhas de solidão, de desconfiança.

OP – E o que a nossa cidade ainda tem de positivo? O que ainda te inspira na Cidade?

Airton Monte – As coisas boas de Fortaleza. O subúrbio. Alguns subúrbios. O domingo no subúrbio, ainda tem isso. Eu vejo na rua do meu pai, na Dom Jerônimo; vejo na Gentilândia também. Ano Novo e Natal as pessoas entram nas casas umas das outras e uma leva uma torta, outra leva não sei o quê.

OP – Mas você ainda circula?

Airton Monte – Circulo na Gentilândia, nos bairros do Benfica. Na Praia de Iracema jamais. Todos os sábados vou ao Clube do Bode, que é a livraria do Sérgio Braga. E nós bebemos no Florida Bar, que é o braço armado do Clube do Bode (risos). É o Hezbollah do Clube do Bode, tem aquele tira-gosto letal, só come quem está acostumado. Depois de 25 anos de tira-gosto de botequim você fica imunizado contra qualquer vírus. O Clube do Bode é esculhambação, é uma instituição anárquica, lírica, etílica, musical. Lá, o Nonato Luis dá um show num violão velho daquele do Falcão. Lá só quem não pode cantar é o Falcão. Apesar de ser o cantor oficial do grupo. Mas ele é proibido de cantar, por uma questão de higiene pública (risos).

OP – Há assuntos que você considera proibidos nessas rodas? Assuntos que, quando vêm à tona, você se retira?

Airton Monte – A única coisa que eu me retiro é quando começam a falar mal de amigo meu. Porque dos meus amigos só quem pode falar mal sou eu. E em tom de galhofa. Então, nós temos essa certa fidelidade. Quando está todo mundo junto, a gente fala mal mesmo. Mas não há coisas proibidas. Onde ando, há católicos, crentes, ateus, políticos de esquerda, de direita. Eu não sei mais nem se existe isso de esquerda ou de direita. Eu mesmo, esse ser anárquico, sou ateu e está aqui (pegando no escapulário pendurado no pescoço) o escapulário do meu beque central contra os maus olhados que é São Francisco, o “Chiquinho”. Ele é o sujeito que eu mais admiro, que foi revolucionário e mais cristão do que Cristo. Um sujeito que ia dar muito trabalho para a Igreja Católica hoje se fosse vivo.

OP – Que histórias engraçadas ou curiosas você recorda do convívio com essas turmas do Clube do Bode, da Gentilândia, etc?

Airton Monte – São várias. Eu andava muito com o Rogaciano (Leite Filho, jornalista) e o Paulo Mamede (jornalista). Tem uma história que é uma sacanagem que não se deve fazer com ninguém. Estávamos os três no Cais Bar. Uma noite, entra um mulherão daqueles de arrasar. Todo mundo dando em cima. A mulher acha de se engraçar do Paulo Mamede, um sujeito altamente periculoso (risos). E a gente só com inveja, aquela inveja mortal. Aí o Paulo Mamede começou bem com a menina, já começou com os beijos, etc. Lá pelas tantas, ele teve uma espécie de incômodo intestinal (risos) e teve de ir ao banheiro. E lá demorou-se. Quando ele demorou a gente inventou a seguinte história, de improviso. O Rogaciano se apresentou, eu disse quem era e a moça disse: “ai, você é psiquiatra?”. Eu disse: “sou’. “Inclusive, ele é primo do Paulo Mamede, esse rapaz aqui”, eu apontando para o Rogaciano. “E eu sou médico do Paulo Mamede”. “Ai, o senhor é médico dele?”. “Sou, sou psiquiatra, mas ele está bem” (risos). “Ele sai aos fins de semana e eu estou aqui acompanhando ele. Minha única preocupação é que ele está tomando um remédio forte e está misturando com bebida como você está vendo. As reações ninguém pode prever. Geralmente, ele fica muito violento” (risos). O Paulo Mamede chega feliz da vida do banheiro e ela já estava meio esquisita. O Paulo Mamede não entendia nada. Eu disse: “rapaz, tu não tem papo pra segurar a mulher”. Nós só fomos confessar isso pra ele, lá pelas quatro da manhã, no Estoril. E ele em vez de ficar com raiva começou foi a rir. E assim tem várias. O Augusto Pontes, tem umas frases que são terríveis. Ele diz assim: “Eu tenho uma boa e uma má notícia pra vocês. Qual vocês querem ouvir primeiro?”. “A notícia boa”. E ele: “O Fausto Nilo vem pra cá”. “E a notícia ruim?”. E o Augusto: “Ele vai cantar” (risos).

OP – O João Cabral de Melo Neto costumava dizer que não acreditava em inspiração, que o ofício de poeta era um ofício que exigia muito trabalho. Você acredita em inspiração?

Airton Monte – Aí tem uma diferença. O texto de ficção eu não tenho nenhum prazo para entregar. Então, é uma coisa que eu vou maturando, posso passar três anos refazendo, cortando. Já a crônica é diária. E é um gênero literário – apesar de alguns babacas dizerem que não é, eu digo que depende do cronista. Uma crônica do Rubem Braga é um texto literário, já um texto do Paulo Coelho não é nada, é uma mágica (risos). É um feitiço. Ele faz até chover e levita (risos). Mas a crônica, eu tenho que entregar o texto. O POVO já me paga pouco, se eu não entregar… (risos). Apesar de toda essa anarquia, eu sou muito profissional nas coisas. Então, eu tenho que chegar e escrever. Em termos de inspiração, os textos que você escreve ou saem de parto natural, quando você escreve um conto em dois minutos, ou saem de parto a fórceps, quando você tem que dar uma forçada. E tem dia que só sai na porrada, só vai na cesariana (risos).

OP – Você sempre escreve seus textos à mão?

Airton Monte – Porque à mão eu escrevo mais rápido. Mesmo se eu tivesse um notebook, eu não levaria um notebook, que custa uma fortuna, para a beira da praia, para o pessoal entupir de farofa… (risos). Se você leva para o bar ou para a praia, vão derramar cerveja em cima. O cabra vai dar palpite, outro quer mexer. Escrever, então, é um ato muito solitário. Não é como o cinema, que é uma arte coletiva.

OP – Algumas vezes, você coloca algumas coisas bem pessoais em suas crônicas. Você chega a se arrepender de alguma maneira das coisas que você expôs ao público?

Airton Monte – Nunca me arrependi. Não dá para me arrepender porque tudo foi consciente. Eu não sou aquele sujeito que escreve com raiva. O texto que me deu mais polêmica foi o Tratado Geral da Maconha, que quase vou em cana porque o Moroni (Bing Torgan) me acusou de incentivo e apologia ao uso e ao tráfico de drogas. Mas se você vai ler, você vai ver que era um tratado geral da maconha mesmo, baseado em toda a literatura que eu tinha sobre drogas, toda a minha experiência pessoal e clínica. Isso foi publicado no tablóide de literatura do jornal O POVO. Nos anos 80. O Moroni era diretor ou era delegado da Polícia Federal. Eu tive que ir depor, dei um depoimento farmacológico e o pobre do escrivão quase fica louco lá (risos). Mas o Moroni deu azar porque uma semana depois eu peguei ele num debate na UFC sobre drogas. Acho que, só de sacanagem, me botaram lá. E o Moroni disse: “meu sonho é viver num país que não precisasse de polícia”. Eu disse: “comunista, o senhor é um comunista radical” (risos). Aí ele ficou maluco. E eu disse: “O senhor é um comunista radical. O senhor é mais comunista que o Karl Marx e o Engels juntos. O senhor é um revolucionário maior que o Che Guevara. O senhor quer a guerrilha”. E ele não entendeu e eu fui explicar. “O senhor quer viver numa sociedade sem crime. Isto é, só há crime porque há a propriedade privada. Então, para não haver mais crime tem que abolir a propriedade privada. O senhor está pregando a abolição da propriedade privada, isso é comunismo do brabo”. Rapaz, esse homem ficou louco, engasgou-se, foi se embora. Acho que ele não me prendeu de novo porque não podia. Então, essa coisa de você escrever com raiva eu aprendi. Quando eu tenho alguma raiva, eu espero uma semana a coisa amornar para me tornar racional porque depois desse tempo todo de jornal a gente começa a ter noção da responsabilidade que a gente tem diante do leitor.

OP – Há um texto seu que foi muito marcante que foi publicado na época em que sua mãe faleceu…

Airton Monte – Não foi só um texto, foram uns três textos. Eu acompanhei a agonia da minha mãe na UTI, me envolvi muito. Minha mãe estava na UTI pela vigésima vez, não era mais gente. E aquilo me dava uma dor imensa. Eu ia lá desligar os aparelhos na marra, não queria saber o que é que ia acontecer. Médico sabe fazer isso. Eu até já tenho meus planos traçados com dois ou três amigos que é para ter uma margem de segurança. Se um de nós cair nessa situação de vegetal, o outro vai lá e dá um jeito. O ser humano tem direito. Já que ele não pode escolher como nascer, ele tem o direito de escolher como morrer. Na hora em que souber que estou com uma pereba dessas grandes, e que não puder mais fazer o que faço e que vou ficar numa cama feito abestado e tal, ou na cadeira de roda naquela base de bota o velho no sol, tira o velho do sol pro velho não mofar… (risos). Ah, a boca do véi tem mosca entrando (risos). É de lascar, bicho. Então, escrevi na emoção. Eu tava no consultório, ela (dona Sônia) me telefonou dizendo “tua mãe morreu”. Atendi todos os pacientes com a mesma calma que podia aparentar e fui para o velório. Fiquei lá até meia noite, pedi para me deixarem em casa, escrevi a crônica numa máquina de escrever, avisei para a empregada que de manhã o motoqueiro vinha pegar. Nem dormi. Enchi a cara de uísque, fui para o funeral e fiquei lá até minha mãe se enterrar. Só não assisti à missa. E voltei para escrever, escrevi umas três vezes. Então, esses textos mais pessoais, escritos, como dizem os advogados de bandido, sob forte emoção, esses saem. Mas mesmo assim eu tenho que ter cuidado.

OP – Você falou que não anda mais em estádio, mas é um torcedor apaixonado do Fortaleza. Como é a tua relação com o futebol hoje?

Airton Monte – Eu sou essencialmente torcedor de três times. Fortaleza, Seleção Brasileira e o Botafogo, que é minha paixão realmente. Eu fui torcedor que nunca fui de brigar, eu sou de chorar, de assistir aos jogos da seleção de camisa amarela, de ter o time do Botafogo na minha parede, de ser fã do Garrincha mais do que do Pelé. Eu amo o futebol, então gosto do futebol bem jogado. Torcia Botafogo, mas vibrava com o time do Santos, com o time do Palmeiras. Eu vibrava com o Fortaleza que tinha Mozarzinho, Croinha. Como é que não ia vibrar? Ou com o Ceará que tinha Gildo, Lucena, Zé Eduardo. Então, o futebol para mim é expressão artística. O futebol continua sendo uma das paixões da minha vida. Não consigo viver sem futebol, eu gosto da bola bem jogada. Eu não quero ver malabarismo, o cara colocar a bola no ombro e sair fazendo que nem o Ronaldo. Eu quero ver é jogar que nem o Zidane, dar um passe de 40 metros, isso é o futebol que estou acostumado a ver.

OP – O Estoril foi um lugar importante para tua geração. Como é para você ter se afastado da Praia de Iracema? Como você entende o fato de Fortaleza ter perdido o Estoril, a Praia de Iracema?

Airton Monte – Praticamente o Estoril caiu na minha cabeça. A gente sabia que mais cedo ou mais tarde ia cair porque toda vida que chovia havia um problema. Eu estava em casa, com uma ressaca lascada, mas a rapaziada ligou dizendo que o Estoril tinha caído. Quando cheguei lá, eu vi o Estoril demolido e aquela mesa fúnebre ao lado, umas cinco ou seis pessoas. E aquilo foi terrível pra gente. Todo mundo ficou revoltado, triste. Ali, eu comecei a perceber que a Praia de Iracema começava a morrer, definitivamente. A Praia de Iracema perdeu a alma dela, deixou de ser um território lírico, poético e engraçado. Na nossa geração, não era de bom tom, diziam os colunistas sociais, ir a Praia de Iracema porque eram onde os maus moços das boas famílias se encontravam com as meninas boas das más famílias. O Estoril era um valhacouto de comunistas, maconheiros e desocupados. Ser poeta naquele tempo era meio complicado. Ninguém queria ser poeta, nem os médicos. Era meio complicado, ser músico, ser poeta, se dizer boêmio. Eu sofri muito na minha carreira, eu e outros colegas. A gente era malhado, “porra o cara é médico e vive no Estoril, bebendo cerveja”. De vez em quando a polícia federal batia lá atrás da maconha. Cansei de ficar em pé na parede, todos nós, sendo revistados, a polícia atrás da maconha, só que a maconha a negada já tinha escondido há muito tempo que ninguém era besta (risos). Outras vezes, eles fechavam a Ponte Metálica. A gente ia para ver o pôr do sol e de repente nos avisavam que tinham uns policiais lá embaixo para cheirar as mãos de quem descia pra ver se tinha maresia. Eu disse: “não tem problema, todo mundo mete a mão no fundo, remexe um pouquinho”. E a negada sentia o nosso fiofó (risos). Nunca mais ficaram lá.

OP – Você falou que já não sabe dizer o que é esquerda ou direita em nossos dias. Ainda há alguma utopia, algum horizonte político que você persegue, que você imagina que a gente possa alcançar?

Airton Monte – Eu fui católico fiel até os 15 anos, depois me tornei ateu, fui comunista, com todos os defeitos que a gente teve. Mas a gente fez uma coisa legal em nossa geração. Hoje, posso me definir como um anarquista utópico. Anarquismo no sentido filosófico da palavra. O homem bem educado ou suficientemente bem educado, conhecendo seus limites, não precisa de leis para dizer o que se pode ou não fazer. Sabendo muito bem onde termina minha liberdade e onde começa a do outro, não precisa de nenhuma lei do silêncio para me dizer que não posso levantar o som alto depois das onze para não incomodar meu vizinho. O importante, o caminho para o Brasil e para o mundo seria primeiro a educação. É formando inteligência que a gente vive. Democracia é você dar oportunidades iguais. Tanto faz ser um filho de carroceiro ou de um milionário. O importante é você dar oportunidades iguais, o mesmo nível de estudo, os mesmos professores. Eu sei que isso nunca vai acontecer. Mas o estudo público já foi bom no tempo do Liceu do Ceará. Educação é fundamental.

OP – A tua geração sempre lutou por muitas dessas bandeiras. Em que você acha que a tua geração errou para que nós chegássemos aos problemas que estamos vivendo hoje?

Airton Monte – Nós erramos pelo simples fato de querer fazer a revolução sem o povo. Nós não vimos que o segredo da revolução não estava no campo, nós não éramos uma ilha. Depois de tanto tempo pensando, eu vejo que nosso caminho tinha de ser diferente. Não era o interior, eram as favelas. E achávamos que o povo era burro. Ou infantilizamos o povo, sendo o pai dele, ou imbecilizamos ou glorificamos. Essa entidade mágica que eu não sei quem é, o povo. Porque eu também sou o povo. O povo também é sem vergonha. É vilão e vítima.

Fonte:
Jornal de Poesia. janeiro de 2007

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Moacir Costa Lopes (O homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem)

Desvendando o homem atrás do escritor e o escritor atrás do homem, hoje, em nossa quinta entrevista, o escritor cearense, radicado no Rio de Janeiro, Moacir Costa Lopes, que nasceu em 11 de junho de 1927, em Quixadá, Ceará. Criou seu próprio método de criação literária, do que resultou seu livro de ensaio/didático Guia prático de criação literária, editado em 2001. Marinheiro, na Segunda Guerra Mundial, Escreve sobre a vida dos marinheiros, sugestão do folclorista Luís da Câmara Cascudo , estreando com o romance Maria de Cada Porto. Colaborador de diversos jornais, obteve diversos premios. Vinte e um livros já editados, incluindo ensaios e literatura infantil.

Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

Nasci em Quixadá, Ceará, em 11 de junho de 1927, perdi meu pai aos 2 anos de idade, minha mãe aos 11, indo morar com um tio, fugi de casa no início de 1942 por maus tratos. Localizado por meu tio, regressei, mas logo tratei de entrar para a Marinha do Brasil, o que realizei em final de 1942, participando de inúmeras viagens em diversos navios durante toda a Segunda Guerra Mundial. Dei baixa da Marinha em 1950. Meus estudos foram muitas vezes interrompidos, e resolvi que não me interessavam estudos formais, passando a um autodidatismo focado exclusivamente nos estudos de literatura e da cultura geral. Assim, nenhum estímulo eu tive na minha infância. Desde criança tornei-me leitor compulsivo de literatura de cordel, com sua cultura medieval e de personagens típicos como cangaceiros, figuras messiânicas e folclore. Já como marinheiro foi que vim a ler o primeiro romance, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, e não parei mais de ler os mestres da literatura universal, com o objetivo de estudar a visão-de-mundo de cada um e seu estilo literário, concluindo que se um dia pretendesse me tornar escritor, deveria começar por ser um grande leitor, decifrando a carpintaria literária dos mestres.

Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever.

Foi um longo aprendizado literário, através da leitura, começando com os fran-ceses, Balzac, Gustave Flaubert, Stendhal, Anatole France, Guy de Maupassant, Victor Hugo, Marcel Proust, além de clássicos como Montesquieu, passando à literatura russa, tendo Dostoievski e Tolstoi, Gogol como os principais, depois a inglesa, com William Shakespeare, Charles Morgan, Charles Dickens, Emily Brontë, James Joyce, passando aos portugueses, em que pude destacar Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano e Eça de Queiroz. Além de obras imprescindíveis como as de Homero, Idíada e Odisséia, A Divina Comédia, de Dante Alighieri, Dom Quixote, de Cervantes. Finalmente, chegando à literatura brasileira, quando passei a estudar com mais afinco o estilo de cada autor, já lidando com nosso idioma. Foram muitos, sendo os principais Machado de Assis, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Dalcídio Jurandir, Érico Veríssimo, Jorge Amado, e, finalmente, Graciliano Ramos, que passei a considerar o mais importante ficcionista brasileiro, dono de estilo impecável.

Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?

Ainda marinheiro, depois de muita leitura resolvi tornar-me escritor, organizan-do meu próprio método de criação literária, na busca de um estilo próprio. Como trabalhava na secretaria dos navios em que servia, tinha máquina de escrever a meu dispor, que utilizava durante os dias e noites de alto-mar . A par de obras literárias, lia muito sobre cultura geral, antropologia, filosofia, história das religi-ões, mitologia, história geral e do Brasil, folclore, enfim o de que necessitaria para suporte de minha literatura, inclusive lia dicionário, sobre concordância e regência, com exercícios de retenção de palavras essenciais.

Teve a influência de alguém para começar a escrever?

Começar a escrever foi opção sem influência de ninguém, a não ser das obras que lia. Hoje, depois de 21 livros publicados, com várias reedições, traduções em vários países e muitos estudos sobre eles, no Brasil e no estrangeiro, tenho minha home page – http://www.moacirclopes.com.br/ , e-mail – http.moacirclopes@gmail.com e uma comunidade de orkut, aberta por Marcos Vinícius Teixeira, professor mineiro, ficcionista e poeta. Viver de literatura é muito difícil no Brasil e por falta de consumidor de livros, com ínfima percentagem de leitores de ficção e poesia, que preferem na maioria obras de autoajuda, e não possuímos hoje um serviço mais atuante de informações sobre a verdadeira cultura brasileira, seus escritores, seus pintores, seus escultores, seus músicos de primeira linha, seus artistas em geral.

Como começou a tomar gosto pela escrita?

Desde minha juventude tive tendência para as fábulas, a literatura, a começar pelos livros de cordel e os folhetins com histórias em capítulos impressos, de escritores brasileiros e estrangeiros (semelhantes às novelas de Tv atuais), que chegavam a Quixadá. Comecei a tomar gosto mesmo pela escrita, como disse, em contato com os clássicos da literatura universal.

Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

A Internet é um instrumento poderoso para a divulgação de cultura, mas apenas em escala mínima, mais para pesquisa limitada de temas, com a vantagem de remeter seus pesquisadores a obras mais substanciais, para pesquisa mais aprofundada, porque o livro é que é o instrumento essencial da cultura. Mas a Inter-net começou recentemente a contribuir na difusão de meu trabalho literário.

Tem prêmios literários? Quais e quantos?

Sim, tenho prêmios literários, sendo os principais o “Coelho Neto”, da Academia Brasileira de Letras, e o “Fábio Prado”, da União Brasileira de Escritores, São Paulo, por iniciativa de meus editores. Mas não acredito em prêmios literários, eles não alteram o valor intrínseco da obra literária, apenas ajudam na sua divulgação. No Brasil, entretanto, a concessão de grande parte dos prêmios literários é suspeita pelo notório apadrinhamento.

Livros publicados. Quais?

Como afirmei acima, publiquei até agora 21 obras, sendo 11 romances, outros de contos, infanto-juvenis e de ensaios, com várias reedições e traduções em vários países, com teses de mestrado e doutorado de professores brasileiros e estrangeiros, além de muitos estudos menores, sobre toda minha obra. Haveria que destacar o romance de estréia, Maria de cada porto, hoje em nona edição, e A ostra e o vento, em oitava edição, adaptado para o cinema em 1997, sob o mesmo título, que obteve muitos prêmios. Entre os livros de ensaio, destacaria Guia prático de criação literária, fruto de minhas pesquisas, e concentrando nele aulas que ministrei sobre criação literária, na UFRJ e na Faculdade Hélio Alonso, do Rio de Janeiro, e continuo utilizando em aulas, palestras e conferências, e A situação do escritor e do livro no Brasil, no qual apresento os principais problemas do escritor. Estou preparando outras obras, entre elas um romance e um livro de memórias, em dois volumes.

Seu romance que escreveu em 1944, mas não concluiu. Fale sobre ele. Sobre o que era? Porque iniciou e porque não concluiu?

O romance que escrevi em 1944, aos 17 anos, não possuía ainda as qualidades literárias que eu esperava. Nem recordo o assunto, mas não possuía a temática de mar, nem teve título e nem cheguei a concluir por não saber como terminá-lo. A solução foi destruí-lo.

Maria de Cada Porto, em 1959, foi então o seu primeiro romance concluido. que obteve premios na Academia Brasileira de Letras e União Brasileira de Escritores. Como foi este processo de criação deste livro? O senhor pretendia se lançar no mercado com ele, ou era apenas o prazer de escrever, não importando o que poderia obter depois?

Em 1946, em visita ao folclorista Luís da Câmara Cascudo, em Natal, RN, comecei a escrever o romance que viria a receber o título de Maria de cada porto, sobre a vida dos marinheiros, a bordo e em terra, suas aventuras, seus amores, e as operações da Marinha do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, usando como espinha dorsal o caso do naufrágio do cruzador Bahia, poucos dias depois de terminada a guerra, com tripulação de 380, da qual foram salvos com vida apenas 27 marinheiros, após 4 dias de sede, fome e loucura em 16 balsas. Só vim a publicá-lo em 1959, com grande repercussão de crítica e de público. Eu não contava com essa repercussão, a literatura era meu grande desafio, enfim me senti um pouco realizado, quando várias editoras me procuraram para a publicação de obras futuras, abrindo-me suas portas. Na verdade, eu pretendia construir uma obra literária.

Quem considera entre vivos e falecidos os maiores escritores do Brasil?

O Brasil já possui uma das melhores literaturas do mundo, embora pouco difun-dida aqui e lá fora. Um professor norte-americano, Leo Barrow, meu amigo, me afirmou que Machado de Assis poderia ser comparado a Shakespeare em valor literário. Eu destacaria, além dele, José de Alencar, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Jorge Amado, Lima Barreto, Euclides da Cunha, que, não sendo ficcionista, seu livro Os Sertões, influenciaria nossos ficcionistas, como também influenciaria o livro Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Aluísio de Azevedo, Domingos Olímpio, Lúcio Cardoso, Cornélio Pena, Dalcídio Jurandir, Herberto Sales, Campos de Carvalho, Rui Mourão, e alguns de minha geração para cá, que não menciono para não cometer injustiça a outros porventura não mencionados. E nossos importantes poetas, como Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Olavo Bilac, Jorge de Lima, Ma-nuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana.

Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?

Não existe essa situação psicologicamente definida. Cada obra a escrever exige muito trabalho, muita pesquisa sobre o tema a ser abordado, a linguagem a ser usada, o tempo, os personagens, mesmo porque cada livro exige uma linguagem diferente, um estilo apropriado a essa história. E tudo é fruto de planejamento, de organicidade, não desprezando, contudo, a espontaneidade. Até a escolha dos nomes dos personagens é um desafio, se vou levar a história em narrativa feita na primeira pessoa ou na terceira, se no passado ou no presente. A inspiração surgirá no desenvolvimento do livro. Não tenho ambiente especial para criar, mas necessito de isolamento, embora muitas vezes eu escreva até com a televisão ligada ou com o barulho vindo da rua.

Como é que você concebe suas obras?

Para tornar-se escritor, não é apenas exercitar a escrita. Antes de mais nada, a vocação é essencial. Depois, vem a fase do aprendizado, da leitura dos mestres da literatura universal, a busca de um estilo próprio. O essencial não é apenas contar uma história, porque os meios de comunicação o fazem diariamente, nos jornais, em revistas, na rádio, na televisão, mas a forma como contar essa histó-ria, ou seja, o uso da linguagem, do estilo, das simbologias, das metáforas. Como disse anteriormente, gasto muito tempo planejando o livro a escrever. Levo uns dois anos até concluí-lo, depois de várias vezes que o reescrevo até encontrar a linguagem apropriada.

Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, chega apenas o que a mídia divulga?

Há uma constelação de escritores desconhecidos da maioria dos leitores. Se formos nos basear no que a mídia divulga diariamente, não passaremos de uma dúzia de best-sellers estrangeiros, a maioria deles sem importância literária. Existem conforme citado anteriormente vários nomes de escritores brasileiros pouco lembrados pelos leitores, e que não podem ser negligenciados pelos jovens candidatos a escritor.

Na sua opinião, que livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

De escritores da língua portuguesa, eu destacaria os clássicos, como Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Júlio Dantas, Bernardim Ribeiro, e os clássicos brasileiros citados acima. Além de importantes poetas portugueses, destacando-se Luís de Camões, Guerra Junqueira, Fernando Pessoa, Miguel Torga.

Qual o papel do escritor na sociedade?

O papel do escritor na sociedade é o que ele expõe nos textos que escreve. Há que se levar em conta que o livro é o mais fidedigno intérprete da cultura nacional, o escritor é esse mensageiro, individual e soberanamente, porque não se curva a injunções políticas, mesmo em períodos de ditadura. Ele não precisa ser engajado, e não deve, porque o engajamento restringe o valor da obra, sendo que sua mensagem é a permanência da sua obra.

O que lê hoje?

Hoje, sinto-me chocado com qualquer ato que fuja aos padrões da ética. Continuo sendo leitor compulsivo. Leio autores novos e releio os clássicos, não apenas obras de ficção e de poesia, como qualquer obra de cultura geral.

Qual é a sensação ao se conseguir um prêmio na Academia Brasileira de Letras?

Apesar de haver obtido um prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo meu primeiro livro, enviado por editores a acadêmicos dos anos 60 do século passa-do, sou muito descrente de prêmios literários, qualquer seja a sua origem, inclu-sive os concedidos pela ABL.

E por ser convidado para ao lado de nomes do quilate de Machado de Assis, ser considerado Escritor Imortal?

A ABL possui métodos estranhos para a indicação de futuros membros, e não são os mais justos. Como exemplo, não poderia explicar como importantes escritores e poetas não conseguiram dela fazer parte, como Luís da Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, bem mais importantes do que a maioria dos que por lá passaram ou permanecem.

Fale algum fato engraçado relativo a algum momento literário, ou sua criação.

Um dos fatos engraçados foi quando eu estava sozinho em casa, à noite, escrevendo uma parte do meu livro A ostra e o vento, focando o personagem Saulo, que não existe como pessoa física, mas é uma entidade criada pela mente da personagem Marcela e fica circulando a ilha, passageiro do vento. A cena que eu escrevia era a que ele, Saulo, vai penetrando na casa do farol para possuir Marcela. No auge da cena, começo a sentir que Saulo está atrás de mim. Parei de escrever, assustado, fechei o apartamento e corri para a rua.

Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

Tenho vários projetos, que ultrapassarão meu tempo de vida. A morte é mero detalhe de uma vida longa, que não deixa de ser uma longa viagem, e enquanto houver luz no mundo estarei acordado. A cultura popular é muito da alma de um povo e tem que ser preservada. A globalização veio como instrumento colonizador de países de cultura mais sólida contra países menos desenvolvidos culturalmente. Se não mantivermos vivos nosso folclore, nossos mitos, heróis e costumes, outros países quererão penetrar no vácuo cultural com seus heróis, folclore, mitos e costumes que nada têm a ver com nossa cultura.

No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

O aprendiz de escritor deve ler o que lhe caia às mãos. A “porcaria” literária é também útil para nos ensinar o quê e como não devemos escrever. Eu tenho na minha biblioteca uma pequena coleção desses livros, considerando que, como editor durante mais de 20 anos, fui obrigado a ler muitos livros que me chegavam, sem nenhuma qualidade literária, mas sempre úteis. Em verdade, não existe livro ruim, existe um grau de evolução de leitor, o livro “porcaria” pode ser o mais admirado por um leitor iniciante, de pouca cultura como leitor.

Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever?

Meu único conselho a pessoas que começassem agora a escrever seria o de apenas ler os mestres da literatura para conhecer o que foi feito antes dele, e procurar a originalidade. Muitos analistas afirmam que não existe mais a possibilidade de se ser original, porque tudo já foi escrito. Têm razão em termos, mas cada escritor é um universo individual, daí sua originalidade.

O que é preciso para ser um bom escritor?

Para ser um bom escritor, é preciso lembrar que o talento não pode ser passado adiante, não é hereditário nem parte do inconsciente coletivo ou da memória genética, é uma qualidade individual.

Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais, opiniões, crítica, etc.

Nada a acrescentar, porque as perguntas foram abrangentes e me permitiram respostas abrangentes.

Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?

Deus é uma figura emblemática. Digamos que fosse um gênio aprisionado nu-ma garrafa como aparece em um filme de As mil e uma noites: o primeiro desejo seria ensinar o brasileiro a escolher melhor seus governantes para evitar incompetentes na direção do país. O segundo seria varrer da política nacional esses corruptos que já ocupam os postos principais. O terceiro seria disseminar a cultura entre todos os habitantes, para que cada um passasse a entender de moral, ética, estética, com possibilidade de plena escolha das necessidades básicas, evitando a massificação da mediocridade, dominando as noções de nacionalismo, a prática da cidadania.

Rio de Janeiro, 13 de fevereiro, 2010.

Fonte:
Entrevista virtual concedida a José Feldman para o Pavilhão Literário Singrando Horizontes

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Alberto Paco (O Homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem)

Em prosseguimento à série de entrevistas com os escritores, com o intuito de mostrar que atrás do escritor existe um ser humano, assim como o escritor que existe atrás do homem, o entrevistado de hoje é:

Alberto Paco, contabilista, empresário e escritor. Nasceu em Vilarinho dos Galegos – Portugal. Com vinte e dois anos chegou no Brasil para ficar residindo em caráter permanente. Em 2001 lançou seu primeiro romance que foi escrito entre 1958 e 1959, logo após sua chegada ao Brasil. Assumiu a cadeira de número 23 da Academia de Letras de Maringá ocupando o cargo de tesoureiro. Desde a posse escreveu mais oito livros sendo um de contos, um de poesias e seis romances. Além de membro da ALM é membro da UBT-Maringá, e do Elos Clube Maringá. Escritor imortal ocupando a Cadeira n. 25 da Academia de Letras do Brasil, cujo patrono é Jorge Amado.

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INFÂNCIA
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Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

Nasci no pequeno vilarejo de Vilarinho dos Galegos, distrito de Mogadouro, na Província de Trás-os-Montes. Ali vivi meus primeiros onze anos. Completei o quarto ano primário, único estudo existente naqueles lugares longínquos. Com essa idade mudei com a família para Lagoaça, uma aldeia um pouco maior que a primeira, mas com as mesmas necessidades. Com doze anos fui morar na cidade do Porto onde me formei em Contabilidade enquanto trabalhava. Com vinte e dois vim morar no Brasil em caráter permanente.

Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?

Meu pai era militar. Impunha aos filhos o regime do quartel, mas nos ensinou a respeitar os outros e principalmente a ler. Não admitia erros de português.

Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever?

O ano que passei na aldeia de Lagoaça, entre os onze e doze anos, recebi diversos livros de presente. Eram obras famosas de diversos autores. Acredito que aí começou minha ligação com a escrita. Lia esses livros e viajava com os personagens pelo mundo da fantasia.

Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?

Ao chegar em São Paulo no ano de 1958 entrei a serviço de grande empresa multinacional no setor de contabilidade. Lá publicavam um jornal mensal com a tiragem de trinta mil unidades distribuídas pelos funcionários das diversas filiais espalhadas pelo Brasil. Um dos editores, vendo que eu gostava de leitura porque nas horas vagas estava sempre com algum livro em mãos, me convidou a participar do jornal com algum artigo. Escrevi uma poesia que foi publicada e daí por diante, durante os dois anos que permaneci na empresa sempre era publicado algum trabalho de minha autoria. Foi nessa época que escrevi o meu primeiro romance.

Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

São muitos os apreciadores de livros no Brasil, porém poucos têm acesso ao preço que custam. Por isso são raros os que vivem de literatura. Somente alguns privilegiados pela mídia ou então autores estrangeiros, priorizados pelas editoras nacionais.

Como começou a tomar gosto pela escrita?

Como disse quando falei de minha infância, comecei a ler obras famosas de aventuras, de amores intensos e policiais. Continuei sempre preferindo esses estilos e daí surgiu minha tendência por esse tipo de literatura.

Como definiria seu estilo literário?

Meu estilo literário é simples e objetivo. Evito fazer “rodeios” para não cansar o leitor nem desviar sua atenção da história. Meus romances são do estilo que sempre gostei de ler, mas com meu próprio estilo sem imitar ninguém. Digamos uma mistura de todos.

Quais foram os seus livros escritos ?

Entre mil novecentos e cinquenta e oito e cinquenta e nove escrevi meu primeiro romance. Somente quarenta anos depois voltei a escrever. Em todo esse período que fiquei afastado da escrita continuei lendo muito, mas os afazeres eram tantos, envolvido com diversas atividades, principalmente a monetária para dar um futuro digno aos familiares que foram surgindo ao longo do caminho, que não houve tempo para continuar escrevendo.

Finalmente no ano de dois mil e um publiquei aquele livro de quarenta anos atrás. Com essa publicação fui convidado a entrar para a Academia de Letras de Maringá e daí por diante recomecei minha trajetória literária.

Meus livros publicados são

“O homem do rio” romance (escrito em 1958) publicado em 2001“
“No coração do vulcão” Romance de aventuras publicado em 2002
“Caminhos…” Poesias Publicado em 2002
“Presídio feminino” Romance policial Publicado em 2003
“Conjugando o verbo trair” Romance publicado em 2007
“As amantes de Carolino” Romance publicado em 2007
“ Focos de fogo” Contos Publicado em 2007

A publicar:

“Mãe solteira” Romance
“Estupradores violentos” Romance policial
“Quinário – Traição consentida” Romance
“Atalhos…” Poesias
“Lendo e escrevendo” Contos.

Dentre os seus livros escritos , qual te chamou mais atenção? E por quê?

O livro de minha autoria que mais gosto é o romance “Mãe solteira” porque é extraído de um caso real. Mostra a incompreensão de alguns pais com esse tabu que dá nome ao livro. Felizmente esse preconceito aos poucos vai sendo anulado.

Que acha de sua obra?

Sou suspeito de falar de minha obra. Deixo isso para meus leitores. No entanto, digo que gosto muito de tudo que escrevo.

Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

Em minha opinião, a internet é um meio rápido e eficiente de se tomar conhecimento de tudo (bom e ruim), mas como divulgação de livros de tamanho razoável, deixa um pouco a desejar. Acho que os reais adeptos da leitura gostam mais de manusear as páginas do livro do que acionar o mouse. É mais prazeroso.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?

A criação literária existe dentro da minha mente. Simplesmente aflora sem muito esforço. Gosto de escrever de noite, quando reina o silêncio. Costumo rascunhar meus escritos durante a madrugada. Os personagens e os acontecimentos vão surgindo e passo-os rapidamente para o papel. Quando a obra termina é que passo a corrigir tudo, mas a história já esta delineada.

Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

Acredito que a vocação é essencial, mas é necessário ler muito porque vocação sem conhecimento não leva a lugar nenhum.

Como é que você concebe suas obras?

O momento de escrever um livro às vezes surge de uma conversa com alguém que nos conta uma história. A partir daí, modela-se o que nos foi contado, acrescentam-se fatos e personagens e a obra surge.

Quanto tempo você leva para escrever um livro?

Alguns livros são escritos em dois meses, mas para lhe dar forma aceitável demoram mais quatro ou cinco. È necessário uma revisão perfeita tanto nos textos quanto na gramática, então leio e reviso cinco ou seis vezes.

Como foi o processo de pesquisa para a escrita de seus livros?

Minhas histórias são fictícias. Entretanto pesquiso com muito cuidado os lugares a que me refiro para evitar que algum leitor que porventura conheça esses lugares me conteste. As pesquisas são feitas geralmente na internet ou em enciclopédias em que as informações são mais antigas.

No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

Acredito que devemos ler de tudo um pouco. O que não devemos é seguir o exemplo dos que escrevem porcarias. Em minha opinião, porcaria é uma história insípida com começo incompreensível, meio que nada diz e fim sem final definido.

A LITERATURA E O ESCRITOR

Existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir?

Na época atual acredito que há quase tantos escritores quanto leitores. Existem pessoas que juntam algumas receitas caseiras, formam um livro e publicam. Porque essas pessoas são famosas em outra atividade, a mídia já as considera escritores. Outras, que escrevem obras interessantes, mas não têm acesso aos meios midiáticos, suas obras, muitas vezes verdadeiras pérolas literárias, ficam para sempre escondidas no fundo do baú.

Na sua opinião, livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

A leitura obrigatória não deveria existir, mas ser mais abrangente. Deveriam dar mais opções de escolha aos jovens, para que cada um seguisse suas tendências.

Qual o papel do escritor na sociedade?

O papel do escritor é marcante na sociedade porque apesar da pouca divulgação da literatura, ainda consegue prender atenção de muita gente que sente prazer na leitura.

Há lugar para a poesia em nossos tempos?

A poesia é e será sempre uma peça importante na literatura mundial. Muitos leitores têm pouco tempo disponível para ler um romance, que deve ser lido com o menor tempo de interrupção para se assimilar a história. No livro de poesias podem ser lidas uma ou duas páginas, colocá-lo de lado e retomar a leitura muito tempo depois, sem ter perdido nenhuma sequência.

PRÊMIOS

Tem prêmios literários?

Algumas trovas premiadas em diversos setores da União Brasileira de Trovadores da qual faço parte. Por opção, não costumo concorrer a prêmios literários.

A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR

O que te choca ?

O que me abala profundamente é ver jovens alunos serem aprovados e passar de ano sem os mínimos conhecimentos de escrita ou leitura. É uma falha dos dirigentes que vai refletir mais adiante. O ensino está decadente.

O que lê hoje em dia?

Leio muito e sempre. Acabei de ler “O caçador de pipas”, um romance que fala sobre as vidas de pessoas espezinhadas por regimes autoritários e desumanos.

Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

Meu projeto maior é continuar escrevendo, tentando sempre melhorar. Existem outros projetos que por enquanto não vejo necessidade de divulgar.

De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?

A globalização é muito importante para a cultura popular porque aumenta a possibilidade de todos expandirem seus conhecimentos. Tudo se torna mais acessível.

CONSELHOS A NOVOS ESCRITORES

Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

Diria para ler muito e analisar bem o que escreve antes de mostrar seus escritos ao público leitor, mas não pare nunca de escrever seja o que for. Escrever é um dom de Deus que não pode ser desperdiçado.

O que é preciso para ser um bom poeta?

Bom poeta é todo aquele que escreve poesia. Cada um tem seu gênero e cada leitor gosta de um tipo. O campo é vasto, porém deve existir certa coerência para não escrever patacoadas.

E para encerrar a entrevista

Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?

Meu primeiro desejo seria que a paz reinasse entre os homens.
O segundo que a fome e a miséria fossem erradicadas da face da terra.
Finalmente que a Literatura fosse mais divulgada com incentivos para que os menos favorecidos tivessem acesso constante e garantido aos livros de sua preferência.

Fonte:
Entrevista virtual concedida a José Feldman para o Pavilhão Literário Singrando Horizontes

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Antonio Brás Constante (O Homem atrás do escritor. O escritor atrás do homem)

Em sua terceira entrevista da série O homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem. A mulher atrás da escritora, a escritora atrás da mulher, o Singrando Horizontes entrevistou o escritor Antonio Brás Constante, natural de Porto Alegre. Residente em Canoas/RS. Bacharel em computação, bancário e cronista de coração, escreve com naturalidade, descontraída e espontaneamente, sobre suas idéias, seus pontos-de-vista, sobre o panorama que se descortina diferente a cada instante, a nossa frente: a vida. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores).

A.B. Constante: Antes de iniciar, gostaria de frisar aos que forem continuar lendo esta singela entrevista, que sou um escritor meio fora dos padrões convencionais ao termo (por isso mesmo definido como eterno aprendiz de escritor), por isso lhes peço, não me desejem mal…

INFANCIA E PRIMEIROS LIVROS

Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

Parafraseando o Analista de Bagé, posso dizer que minha infância foi normal, o que não aprendi no galpão, aprendi atrás do galpão. Nasci em Porto Alegre e me perdi por Canoas, onde cresci. Me formei em Ciência da Computação, mas daí me apaixonei perdidamente pela escrita, e passei a ser seu escravo, transcrevendo os delirios que esta Diva sussura em minha mente.

Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?

Não existiam computadores, algo que pode parecer meio pré-histórico para essa gurizada hi-tech, mas não vejo tanta diferença para os dias de hoje (também não sou tão velho assim), no fim tudo se resume a querer aprender, pois no nosso mundo ou você aprende enquanto é novo ou alguém te prende depois.

Recebeu estímulo na casa da sua infância?

Sim, meu maior estímulo foi ser péssimo em futebol, algo que me deu bastante tempo livre para me dedicar aos livros.

Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever.

Foram muitos, mas a série “para gostar de ler” foi bem importante para mim nessa época.

Antonio Bras Constante, Escritor

Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?

Minha vida literária se dividiu em duas partes. Na primeira etapa (fase adolescente) escrevi alguns textos na época do segundo grau (era assim chamado naqueles tempos), buscando melhorar minhas notas nas aulas de português, acabei gostando muito de escrever, mas tão logo concluí os estudos parei, adormecendo o escritor que dentro de mim existia. Somente ao final da faculdade voltei a escrever (quase quinze anos depois), graças ao empurrão de um grande amigo chamado Zé Gadis, que era chargista. A coisa começou como uma brincadeira, ele desenhava caricaturas dos colegas de empresa e eu fazia as mensagens para os cartões de aniversário. Aos poucos fui me viciando no ato de escrever, e não parei mais.

Como foi dar esse salto de leitor pra escritor?

Foi estranho, tanto que até hoje me defino como um eterno aprendiz de escritor. Não me intitulo como escritor profissional, porque acho que isso acarreta uma responsabilidade muito grande, e não gosto de sentir este tipo de obrigação nas costas, como um fardo. Por isso prefiro ser um aprendiz, poder ousar, errar, viajar, tratando a arte de escrever como uma deliciosa brincadeira.

Teve a influência de alguém para começar a escrever?

Além do meu amigo Gadis, do qual já citei antes, também tive as influências literárias de escritores como: L. V. Verissímo, Barão de Itararé e Douglas Adams.

Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)?

Sim, todos os meus textos publicados estão disponíveis no site: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/abrasc

Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

Viver de literatura?? Rsrsrs… isso existe?? Rsrss. Falando sério, na verdade eu tento dar vida a literatura, mas não sobrevivo dela. Algo que me chama a atenção neste País é que muitos leitores tem preconceito com a literatura nacional. São pessoas que consomem tudo que vem de fora, mas torcem o nariz para o que é produzido aqui.

Como foi que você chegou à poesia?

Para mim a poesia é como um arrepio de frio, um bocejo, um tropeção em uma pedra, chega sem aviso e se vai sem explicação. Para não perder a viagem acabo escrevendo o que senti naquele momento, mas não sou exatamente um poeta.

SEUS LIVROS E PREMIOS

Como começou a tomar gosto pela escrita?

Quando comecei a rir do que escrevia, acho que o primeiro ponto para alguém se tornar escritor é gostar daquilo que escreve.

Em que você se inspirou em seus livros?

No cotidiano, temperando situações do dia-a-dia com pitadas de humor.

Como definiria seu estilo literário?

Posso dizer que meu estilo literário ainda encontra-se em construção…

Dentre os livros escritos por você, qual te chamou mais atenção? E por quê?

Foi o livro “Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE” que por ter sido o único até o momento, me chamou a atenção por total falta de opções.

Que acha de sua obra?

Fiz um livro que eu gostaria de ler se fosse outra pessoa, e olhando a obra desta forma posso dizer que considero este livro, como um filho textual. É um livro que apesar de não seguir o mesmo estilo literário dos livros da Bruna Surfistinha, também é cheio de gozação.

Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

Posso dizer sem sombra de dúvidas, que se não fosse a internet, meu trabalho como escritor praticamente não existiria.

Tem prêmios literários?

Sim, fui vencedor do oitavo concurso de poesias, contos e crônicas, na categoria crônicas. Prêmio oferecido pela fundação cultural de Canoas. Também ganhei uma mochila cheia de chocolates BIS em uma promoção de frases da Nestlé.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?

Na realidade, para me inspirar a situação ideal seria poder relaxar em uma sauna com aproximadamente umas cinco beldades seminuas ao meu redor, mas como minha esposa desencoraja este tipo de “ambiente” para mim, argumentando silenciosamente com seu rolo de macarrão em punho, venho me contentando com um tempinho livre em qualquer lugar mesmo, onde possa rabiscar ideias para depois colocá-las no micro.

Você projeta os seus livros? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os livros?

Não escrevo romances, mas as ideias sobre novos textos vem em golfadas dentro da minha cabeça, depois coloco tudo no papel (entenda-se “papel” o editor de texto) e vou aprimorando o texto até ficar de um jeito que acho interessante.

Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

Acho que sem vocação, não haveria prazer em escrever e consequentemente a pessoa não seguiria por este caminho, ou se seguisse, não seria por muito tempo.

Como surge o momento de escrever um livro?

O momento certo para se escrever um livro é quando uma editora cai do céu e se propõe a publica-lo. Se isto não acontecer, tente conseguir alguma verba para pagar a editora, e o resultado será o mesmo.

Quanto tempo você leva escrevendo um livro?

Deixe-me ver… Escrevo um novo texto a cada semana, meus livros tem em média 28 textos, ou seja, levo em torno de sete meses para ter material suficiente para um novo livro.

Como foi o processo de pesquisa para a escrita de seus livros?

Alguns textos realmente precisam de pesquisa, algo que poderia ser feito em várias bibliotecas ou utilizando o Google. Considero a pesquisa essencial para dar profundidade ao texto e para não escrever minhas “pérolas textuais” de forma equivocada.

No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

Tudo depende do que a pessoa vai querer escrever. Eu, por exemplo, adoro ler gibis (considerados por muitos como porcarias), sou fã de tirinhas de jornal, e sempre que tenho tempo dou uma olhadinha no Big Brother Brasil.

O ESCRITOR E A LITERATURA

Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir?

Sou um curioso nato, gosto de sempre que possível experimentar coisas novas, comidas diferentes, autores diferentes, lugares diferentes. Vou aproveitar este espaço para divulgar o trabalho de um mestre-poeta que conheci ao acaso no mundo virtual, o Dário Banas (http://estranhamobilia.blogspot.com/ ). Suas poesias são fantásticas.

Na sua opinião, o livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

É dificil opinar sobre o que seriam livros “obrigatórios”, já que sou adepto da leitura espontanea. Acho que se um autor consegue cativar um leitor, sua leitura já deveria ser desejada e incentivada, pois teria o seu mérito.

Qual o papel do escritor na sociedade?

Com certeza seria um papel escrito. Rsrsrs. O escritor é aquele sujeito que cutuca o outro, chamando sua atenção para uma outra realidade. É função do escritor abrir as janelas da imaginação para que as pessoas possam olhar o mundo e viajar por ele.

Há lugar para a poesia em nossos tempos?

Claro que há, sempre tem alguma gaveta vazia em algum lugar. Mas o melhor lugar para se guardar a boa poesia é dentro dos compartimentos de nossas mentes. A poesia não é um almoço que se come religiosamente todo santo dia, mas uma fruta suculenta que é sorvida, e escorre seu néctar pela boca, deliciosamente, saciando nossa fome poética.

A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR

O que o choca hoje em dia?

Quando percebo que a insensibilidade anda tomando conta do mundo, de tal forma que nada mais parece chocar, confesso que fico chocado.

O que lê hoje?

Além das tradicionais bulas de remédio, cuja leitura é indispensável para uma vida saudável, leio o que me cai nas mãos, terminei há pouco de ler o livro “Ensaio sobre a cegueira” do Saramago. Por enquanto estou apenas na companhia das revistas e suas reportagens criativas.

Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

Atualmente ando respondendo um questionário sobre literatura da melhor forma possível, e confesso que estou adorando. Fico na torcida para que meu amigo virtual, José Feldman, publique estas minhas respostas espontâneas em seu portal. Não possuo outros projetos.

De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?

Toda raiz cultural começou através de uma veia popular, a cultura nasce no seio da população, enriquece e muitas vezes acaba elitista. Acho que a globalização é um bom instrumento de fomentar e divulgar a cultura, de termos contato com outras culturas.

CONSELHOS PARA OS ESCRITORES

Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

Querer se consagrar como escritor é o mesmo que se lançar ao oceano buscando chegar a uma ilha repleta de tesouros, voce nada, nada e muitas vezes não acontece nada. Se desistir, ou se afoga, ou a maré te leva de volta para o anonimato de onde saiu. Por isso quero dizer para quem quiser começar a escrever, que escreva por prazer, sem querer visualizar um horizonte. Escreva pelo mesmo motivo que respira, para viver. A melhor recompensa para quem escreve é gravar para eternidade seus pensamentos, suas ideias, suas loucuras. O resto é pura consequencia.

O que é preciso para ser um bom poeta?

Entendo que a poesia é uma forma de dança onde as frases ocupam o lugar dos movimentos. Não se escreve uma poesia para que ela seja “bonitinha”, a poesia é a essência dos sentimentos, derramados no papel de um jeito ritmado.

Gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Outros trabalhos culturais, opiniões, crítica, etc.

Estou distribuindo meu livro em PDF gratuitamente para quem quiser conhecer a obra, basta me enviar um e-mail para : abrasc@terra.com.br e pedir uma cópia.

E para encerrar a entrevista

Quero agradecer a iniciativa do Feldman em ceder este espaço para que os escritores possam falar um pouco sobre suas obras e divulgá-las. Deixo aqui registrado meu muito obrigado.

Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?

PRIMEIRO pediria que ele aumentasse a dose de humanidade nos seres que se definem como humanos.

SEGUNDO Pediria a ele que largasse este bico de gênio realizador de desejos e voltasse a trabalhar em prol do mundo, já que depois do sexto dia (ele parou para descansar no sétimo) as coisas andaram piorando bastante por aqui.

TERCEIRO pediria para ele sair um pouco para o lado (já que ele estaria parado na minha frente) para que eu pudesse terminar de ver na televisão a sua maior obra, o seriado de “Os Simpsons”.

Fonte:
Entrevista Virtual realizada por José Feldman para o Singrando Horizontes.

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Alex Giostri (O Homem Atrás do Escritor. O Escritor Atrás do Homem)

Dando prosseguimento à série de entrevistas O homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem. A mulher atrás da escritora, a escritora atrás da mulher, nesta segunda entrevista o Singrando Horizontes conversou com o escritor, editor, roteirista, dramaturgo Alex Giostri

Alex é paranaense, mudou-se muito cedo para São Paulo, viveu por doze anos no Rio de Janeiro (1996-2008) e voltou à São Paulo, onde vive até hoje. Formou-se em Cinema, algumas pós-graduações, inúmeros cursos profissionalizantes e ingressou profissionalmente na literatura. Colaborador de jornais como Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa, trabalhou como diretor de filmes publicitários. Idealizou e coordenou o Projeto Novo Autor (2004). Criou seu próprio selo editorial Giostri Editor. Com o início do marca, logo ampliou os trabalhos e apresentou ao mercado o RAG Editor e o selo infantil Giostrinho, os três selos da Giostri Editora Ltda. Tem 5 livros publicados, obras teatrais, roteirista de cinema. Mais detalhes de sua biografia podem ser encontrados em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/12/alex-giostri.html

INFANCIA E PRIMEIROS LIVROS

Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

Nasci em Umuarama, Paraná. Cresci em São Paulo e fui ao Rio de Janeiro aos 22 anos. Estudei Cinema na graduação e fiz algumas pós-graduações, uma de roteiro de cinema e dramaturgia. Também pesquisei sobre psicanálise e até hoje fuço sobre os mais inusitados assuntos. Minha trajetória foi um tanto confusa. Tive muitos problemas de ordem pessoal, passei pela coisa da droga, da criminalidade, da prisão. Isso no final da adolescência, começo da vida adulta.

Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?

Peguei os anos 90, final dos anos 80. Uma geração rock/punk. Vim de família tradicional, com os problemas também tradicionais. Pai alcoólatra, mãe ressentida. Fui criado nas regras e nos limites. O prato cheio para quem quer ousar. Quebrei todos os limites e infringi todas as regras. Mas olhando hoje, noto que nada é à toa nessa vida. Tanto, que eu ter passado por tudo que passei foi imprescindível. Mexendo no baú da memória percebo que se eu não tivesse sido o que fui não seria quem sou hoje e não teria essa bagagem humana que carrego por conta das tantas pauladas que levei dessa vida.

Recebeu estímulo na casa da sua infância?

Sim. Tive uma mãe que desde pequeno me deu livros. Na época lia por ler. Não sabia que preferia o universo da ficção à realidade. Lia porque lia. Só descobri a importância dos livros da infância aos 22 anos. Entre 14 anos e 21 anos e não li quase nada. Vivi a vida da melhor e da pior maneira. Depois voltei à leitura e ao silêncio.
E não foi apenas esse estímulo. Foram muitos outros. Fui muito amado. Ainda sou. Só não sei afirmar se o amor ofertado a mim foi o que deveria ser – da maneira que deveria ser – como deve ser, mas foi amor.

Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever.

Li muito. Comecei a escrever por necessidade. Por desilusão. Descobri um mundo mais sadio nos livros, um mundo mais interessante. Dos que me lembro, os romances de Dostoievski me fizeram muito bem. Os clássicos em geral me deram muito de beber. Sou um escritor que é fruto do que leu. Não escrevo porque escrevo. Escrevo porque li, porque leio, porque adoro criar universos a partir do que vejo ou sinto.

ALEX GIOSTRI, O ESCRITOR

Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?

Vim da leitura. Depois vim da desilusão. Passei a escrever versos para me salvar da dor, da angústia do dia a dia. Escrevia porque amava e não sabia amar. Dos versos passei à prosa, da prosa passei às crônicas e das crônicas passei às críticas em jornal, depois aos roteiros de cinema, de TV, depois passei aos textos de teatro e no meio disso tudo, passei a escrever livros. Sou um autor que acredita na palavra, no universo da ficção. Estudei e estudo as linguagens, as maneiras de dizer o que quero dizer e também as possibilidades de dizer o que quero dizer nesse ou naquele veículo. Mudam-se as formas, mas o conteúdo é o mesmo. O que importa é aquilo que eu quero dizer e a maneira que eu quero dizer. Se for para o teatro, eu adapto no cenário, na boca do ator, no gestual, na luz. Se for cinema, eu passo às imagens e aos jogos de cena. Se for TV, eu priorizo os núcleos, novamente os atores, mas desta vez a fala por si só. E se for livro, que é a que eu mais gosto, eu buscarei a voz do narrador. Hoje tenho 36 anos. Portanto, um autor jovem. Tenho muito a aprender da vida e de mim. Tenho muito a ler. Ainda não escrevi um livro que eu possa dizer: maravilha!

Como foi dar esse salto de leitor pra escritor?

Um acaso que estava escrito e eu não sabia. Olho para trás e analiso quem sou eu e não me vejo fazendo outra coisa, sendo um outro tipo de homem. Sou do universo da ficção, tenho uma pré-disposição a essa “vida dupla”, ser eu e não ser eu. Quando vi, eu estava escrevendo, quando notei um pouco mais, eu estava debruçado na teoria, quando me olhei mais a fundo haviam passado doze anos e eu estava vivendo do meu trabalho e fazendo a mesma coisa, com a mesma rotina, sem mudar nada. E, para minha surpresa, gostando e feliz.

Teve a influência de alguém para começar a escrever?

Que eu me lembre não. Tive dos autores que li. Talvez da vida e do meu inconformismo em relação a ela. Talvez da minha inabilidade em viver em sociedade e fazer parte de coisas que eu não acredito e não acreditarei nunca, pelo visto. Escrever para mim é como me salvar de algo que não me interessa. Não gosto mesmo da vida do dia a dia. Gosto da rotina, da minha rotina. E não é um paradoxo ou uma contradição, é o que é. O dia a dia inclui gente, gente e gente. A minha rotina inclui eu, o silêncio, o computador e a música. Muito mais divertido.

Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)?

Tenho. Optei por ter após ter a minha vida fuçada por leitores e jornalistas. Tudo sobre minha vida está no site. Não tenho nada escondido por aí. http://www.alexgiostri.com.br

Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

Não encontro, mas não posso esbanjar. Vendo os meus textos, os meus roteiros, as minhas críticas. Dou aula, sou sócio de uma editora de livros. Editora que só existe porque eu quis publicar as minhas obras por mim mesmo. Sou o tipo de homem que arregaça a manga e vai trabalhar. Faço livros e vendo custe o que custar. Não tem jogo ruim comigo. Distribuo em todas as livrarias do país, cobro, vendo pra vizinha da esquina, troco nisso, naquilo, faço o que aparecer. Livro e texto são a minha maneira de ganhar a vida.

Como foi que você chegou à poesia?

Não sou um poeta. Embora eu tenha poemas escritos. Acredito no poeta de alma. Aí talvez até possa me colocar lá no final da fila, sem demagogia. Mas o poema pra mim é o desabafo. Não escrevo profissionalmente poesia. É a hora do lanche, digamos assim. E muito lento. Em 2009 eu fiz uma apenas. Sou um homem da prosa, eu acho. Risos.

SEUS LIVROS E PREMIOS

Como começou a tomar gosto pela escrita?

Escrevo para me salvar do mundo e das pessoas. Escrever livros me toma tempo, estudo, pesquisa. E isso me tira da circulação. E eu adoro e sou um adepto da reclusão, ainda que ultimamente esteja vivendo em São Paulo e adoecido de corpo e alma pelo tumulto dia e noite.

Em que se inspirou em seus livros?

Tenho cinco livros publicados. Dois voltados para autores, sob a ótica da filosofia e da psicanálise, um voltado para atores, sob a ótica da identidade e da sua construção, um de contos, que é gênero fantástico, surreal, onde trato muito do universo da perversão e um sobre relação, sob a ótica da psicanálise também, esse com uma estrutura dramatúrgica entrelaçando a obra em prosa.

Como definiria seu estilo literário?

Ainda o procuro. Mas espero que eu vá para o campo da ficção, da novela, da estrutura formal clássica e talvez com um pouco dessa modernidade dita contemporânea. Acredito nos diálogos, creio que facilita a vida do leitor. Mas não acredito no leitor burro, acredito no leitor despreparado. Mas quem é despreparado pode se preparar, se quiser, ou for bem orientado.

Quais foram os livros que escreveu?

Componentes fundamentais para um texto ficcional.
Do pensamento para o papel
A/C do Ator – tratado sobre a profissão
Meninos
Afeto Amor e Fantasia

Dentre os seus livros escritos, qual te chamou mais atenção? E por quê?

Cada livro tem a sua história. O meu gozo é momentâneo. Gosto do livro que escrevo no ato da escrita e no processo de revisão. Ao publicá-lo, ele se transforma num produto de compra e venda e passa a ser de interesse público, ou não. O que eu não gosto mais é o do Ator. Preciso revê-lo urgentemente. Mas dos outros, gosto de todos.

Que acha de sua obra?

Acho-a respeitável. Aceitável.

Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

Creio que sim. A internet facilita tudo.

Tem prêmios literários?

Tenho um de dramaturgia no ano de 2005. Um texto teatral chamado QUASE. Num concurso nacional.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?

Preciso da melancolia para criar. Preciso do silêncio, da solidão. Tenho uma necessidade de me sentir esquecido, abandonado. Talvez algum conflito mal resolvido. Mas essa solidão, esse esquecimento me fazem muito bem, me deixam à mercê da vida e assim eu parto pra um novo universo no papel. Escrevo por encomenda também. E não sinto a menor dificuldade. O que digo é o ideal, mas nem sempre podemos ter o ideal.

Você projeta os seus livros? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os livros?

Nunca escrevi um romance, nem mesmo uma novela literária. Do livro de contos, todos partiram de uma situação, de um telefonema, de alguém que eu vi na rua. Eu pego a situação e imediatamente a transformo e a escrevo dentro de mim, depois vomito no papel e passo à construção. Os textos teatrais são mais pensados. Penso o que eu quero falar e como quero apresentar isso ao espectador. Feito isso, defino o tempo que quero contar a trama, tempo cronológico e desenho a estrutura no papel e na cabeça.

Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

Há de se ter uma pré-disposição à coisa. O exercício é fundamental. Mas penso que não é tão simples assim. Penso que se tudo vai bem, que se a vida é linda e maravilhosa, se tudo que eu quero está ali, aos meus pés, se o meu mundo é idêntico ao mundo da novela das 21h, não há porque eu escrever nada. O autor, geralmente, tem essa inconformidade em alguma parte. E é dela que partem as ideias e as histórias. O autor nasce do leitor, do bom leitor, do leitor esfomeado não pela história, mas pelas palavras da história, pelas frases da história, pelos parágrafos da história, pelos capítulos.

Como surge o momento de escrever um livro?

Eu venho desenhando sempre novas ideias, mas não tenho conseguido levá-las adiante por conta da editora. Mas o momento ideal é aquele que você para tudo e se dedica à obra. Meu desejo é escrever uma obra anualmente. Em 2009 eu não consegui. Vamos ver esse ano.

Quanto tempo você leva escrevendo um livro?

Em 2008 eu escrevi AFETO AMOR E FANTASIA. Desenhei os capítulos e os tópicos de cada capítulo em março e passei às pesquisas. Em setembro, com tudo pronto, iniciei a obra com cronograma. Só trabalho com cronograma. Tantas páginas por dia. Nem mais nem menos. Em 28 dias o livro estava pronto para revisão. Depois mais vinte dias ele estava revisado e aprovado. Depois mais 20 dias ele estava diagramado e em seguida publicado.

Como foi o processo de pesquisa para a escrita de seus livros?

A cada tema eu tenho um processo de pesquisa. Mas sou um autor que acredita na pesquisa. Não acredito no genial. Creio no trabalho de pesquisa de campo mesmo. Existe o tempo da definição do tema, o tempo da pesquisa e o tempo da escrita.

No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

Fundamental que leiam textos ruins. Para minha formação de dramaturgo, eu idealizei um projeto no Rio de Janeiro em 2003 onde recebia textos teatrais de autores para leituras públicas. Recebi pra lá de 300 textos. E resenhei todos. Muitos bons, mas muita porcaria. O meu tradicional é ler duas ou três bombas e uma obra genuína. Com isso vou aprimorando o olho para as ciladas. Na editora leio muita bomba, mas recebo muitas obras interessantes. E, quando quero lavar a alma e os olhos, vou à livraria e compro uma obra genuína, um clássico, um autor brasileiro que admiro, alguma obra que eu possa ler e dizer: nossa, mas que maravilha!

ESCRITORES E LITERATURA

Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir?

Por trabalhar diretamente com autores há muitos anos, conheço os nomes que nunca foram publicados. É uma resposta dolorosa, mas falta que esses autores acreditem em si e ponham a mão na massa. Ora, se é uma necessidade, um sonho, se é muito importante para o autor e ele acredita em si próprio é fundamental que ele não espere de ninguém, que ele encare isso como um desafio mesmo. E dizer que é difícil. Pergunto: o que é fácil? Nada. E fracassar é melhor do que não tentar. Digo por mim. Ninguém me deu nada. Não sou tão bom assim. Sou apenas um cara que correu e corre atrás do que quer. Não meço esforços. E, ainda não estou lá onde quero estar: num sítio sossegado escrevendo um livro por ano. Trabalho e luto hoje para isso. Apenas para isso. Preciso se segurança e tranquilidade financeira. Por este motivo estou na luta do pão nosso de cada dia.

Na sua opinião, livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

Ler não deve ser obrigatório. Ler é prazer. E o grande mal da educação é acreditar que obrigar a ler fará do pequeno cidadão um leitor. Pergunta a todos: por que um jovem deve ler em casa se ao chegar lá a mãe não lê e o pai também não? Por que ele deve ler se o professor que o obriga a ler o livro também não leu?

Qual o papel do escritor na sociedade?

O papel utópico do escritor na sociedade é tentar melhorá-la, transformá-la. Mas o papel real do escritor na vida de hoje é tentar com as suas crenças e com a sua literatura apresentar uma nova maneira de viver ou vir a vida. Está na hora de alguns escritores descerem do salto alto e compreenderem quem são os leitores, quem deve ler e para quem de fato se deve escrever. O que adianta frufruzar nas palavras, nas organizações das frases, na sintaxe do todo? As pessoas não leem, não podem comprar livros, não são educadas a lerem; ao pegarem uma obra de um autor desses, não entenderá nada e dirá: não gostei. Ninguém diz: não entendi. Vai logo para o não gostei.
O papel do escritor, portanto, é resgatar o leitor a qualquer custo. É deixar de fazer caras e bocas. O escritor é um homem como outro qualquer. É um funcionário da sociedade e de si mesmo.

Há lugar para a poesia em nossos tempos?

Há lugar para tudo e todos. Mas quero saber onde estão os verdadeiros poetas. Os poetas de alma, aqueles que se importam com as palavras e nada mais.

O ESCRITOR, PESSOA HUMANA

O que te choca hoje em dia?

O mundo me choca. As pessoas me chocam.

O que você lê hoje?

Leio textos de autores a serem publicados diariamente. Leio obras que me interessam na medida em que consigo um tempo. Ouço notícias. E não leio mais jornal impresso. Não me interesso mais pelas notícias ruins.

Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

Sim, muitos.

De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?

Somos ferramentas da sociedade. Cada um na sua, fazendo a sua parte. Atingimos a minoria, mas estamos aqui e não iremos parar de fazer o que gostamos – pelo menos eu.

CONSELHOS AO NOVO ESCRITOR

Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

Leia. Mas leia mesmo. Esqueça o computador. Vá ler livro. Não tem dinheiro para comprar livros? Vá às bibliotecas. Assista aos filmes clássicos, veja peças de teatro. Estude a sua língua, a língua portuguesa. Compreenda o significado das palavras. E, sobretudo, se interesse mais pelo outro, pelo seu vizinho, pelo seu amigo, saiba mais um pouco da visão de mundo das pessoas que te rodeiam.

E para encerrar a entrevista

Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?

Se parasse aqui, agora, nesse instante, terça-feira, dia 19 de janeiro de 2010, eu pediria que me desse uma paz interior eterna, que retirasse definitivamente alguns defeitos de estimação que me incomodam e que não consigo me livrar e por fim que me deixasse ganhar numa dessas mega-sena acumuladas para eu ir para o fim do mundo me dedicar apenas ao silêncio e às palavras novamente.

Fonte:
Entrevista virtual realizada por José Feldman para o Singrando Horizontes.

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Andrey do Amaral (O Homem atrás do escritor, O Escritor atrás do homem)

Visando um meio de aproximar o público do escritor ou escritora, de modo a que não enxerguem apenas assim, mas o homem ou mulher que existe atrás dos livros, estou iniciando hoje entrevistas selecionadas, enviadas a diversos escritores/as, que mostrará ao público leitor que atrás de seus livros, é um ser humano com sentimentos, opiniões, lutas, vitórias e derrotas.

O homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem.
A mulher atrás da escritora, a escritora atrás da mulher.

São perguntas que abrange basicamente a literatura, não havendo envolvimento político, futebolistico, e qualquer outro ico, um pouco mais extensas que as normais, para dar uma visão mais geral do escritor desde sua infância até os projetos futuros, passando por dicas aos novos escritores, questionamentos sobre literatura, etc., divididos em tópicos para uma melhor orientação do leitor.

Nessa primeira série, o Singrando Horizontes entrevista o escritor, professor e agente literário Andrey do Amaral, 33, do Distrito Federal.

Andrey do Amaral (1976) é graduado em Letras, com especialização em Língua Portuguesa e em Gestão Cultural. Teve seus livros publicados pelas editoras Best Seller, Autodidata, Ao Livro Técnico e Ciência Moderna. Dedica-se à pesquisa da vida/obra do poeta paraibano Augusto dos Anjos e ao estudo de direitos autorais. É professor de literatura brasileira e agente literário filiado à Câmara Brasileira do Livro (CBL/SP). Dá consultoria a autores, principalmente aos novos que pretendem entrar no mercado editorial. Entre outros, são seus autores agenciados Moacir C Lopes (A Ostra e o Vento), Marcos Kleine e Roger (Ultraje a Rigor), Carlos Maltz (ex-Engenheiros do Hawaii).

INFÂNCIA E PRIMEIRAS LEITURAS

• Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.

Nasci, cresci e vivo na Capital Federal. Como aqui há muito militar e professor, o ensino em Brasília se destaca um pouco em relação aos outros Estados. Mesmo no sistema público, a qualidade era bem parecida com as escolas particulares. Lembro-me que haviam muitos projetos literários na escola. O incentivo à leitura era grande. Assim, os alunos tomavam gosto pelos livros.

• Recebeu estímulo na casa da sua infância?

Meus pais são leitores, e acredito que isso me ajudou. Foi um espelho que tive. Dizem que criança copia. Eu copiei o hábito de leitura dos meus pais.

• Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever.

Na sexta série, me lembro de uns livros de contos e crônicas divertidas, dos melhores autores da nossa literatura, com o Drummond e Fernando Sabino. Os alunos gostavam muito. Nossa alegria era fazer teatrinho dos contos. Na oitava série, lemos Memórias Póstumas de Brás Cubas. Quando a professora nos disse que era um morto que escreveu aquelas memórias fiquei bastante curioso. Achei o livro difícil, mas o entendi no todo.

ANDREY DO AMARAL, ESCRITOR

• Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?

Quando entregava meus textos para os professores de redação, era sempre um problema. Ou eles me elogiavam na frente de todos os outros alunos (e eu morria de vergonha) ou não acreditavam que eu tivesse escrito. Alguns me perguntavam se tinha sido minha mãe que escrevera as redações. Eu negava, mas alguns ainda duvidavam.

• Como foi dar esse salto de leitor pra escritor?

Parece que escrever é uma necessidade para quem lê, independentemente se vai publicar ou não. Como sempre lia as crônicas de humor na escola, escrevi uma proposta de livro para uma editora paulista. Em 1999, publicamos Como Enlouquecer Sua Sogra. O livro foi um sucesso e vende até hoje.

• Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)?

Acho que todo autor tem que se profissionalizar e tratar sua carreira como se fosse uma empresa, e seus livros como produtos comerciais. Quem não tem dinheiro para fazer um site, que faça um blog ou similares, mas o autor deve estar na rede. Minha página é http://www.andreydoamaral.com/

• Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

Poucos são os autores hoje que vivem de literatura. Nosso consumo ainda é baixo se compararmos a autores americanos, por exemplo.

LIVROS E PRÊMIOS

• Quais foram os livros escritos pelo senhor?

Mercado Editorial – Guia para Autores (2009)
Novo (e Divertido) Acordo Ortográfico (2009)
O Máximo e as Máximas de Machado de Assis (2008)
Cuidado eu te amo – Desautoajuda do Amor (2002)
Como Enlouquecer Sua Sogra (1999)

• Dentre os livros escritos pelo senhor, qual te chamou mais atenção? E por quê?

Estou no mercado desde 1999 como autor. Meus livros foram todos publicados por editoras comerciais e todos, graças a Deus, tiveram ótima vendagem. Em 2009, lançamos o livro Mercado Editorial – Guia para Autores, relatando um pouco o nosso trabalho como agente literário e a maneira correta de o escritor enviar seu original para as editoras. Esse trabalho é um agradecimento por tudo aquilo que conquistei com o livro.

• Que acha de sua obra?

Minha obra é eclética. Escrevo humor e ensaio. Também tenho contos e desenvolvo um romance sobre a vida do poeta paraibano Augusto dos Anjos. Na hora certa publicarei ficção.

• Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?

• A internet é uma excelente forma de divulgação. Encurta distâncias. Encontramos novos leitores e os leitores nos encontram. Os autores devem aprender a usar mais a internet a favor de suas obras.

• Tem prêmios literários?

Prêmio Biblioteca Nacional (2002) por meu ensaio sobre Augusto dos Anjos e o Pontos de Leitura (2008) pelo Ministério da Cultura, entre outros mais regionais.

CRIAÇÃO LITERÁRIA

• Você projeta os seus livros? Como é que você os concebe?

Seja para mim ou para meus autores agenciados, eu penso no livro como um produto que tem que dar lucro, sem perder a qualidade. E qualidade não é só aquele romance profundo e psicológico. Há qualidade em livros de humor, livros engraçados.

• Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?

Acredito na vocação. Não sou muito fã de escolas para escritores. De qualquer forma, exercício ajuda sim a melhorar o texto.

• Como surge o momento de escrever um livro?

Penso num projeto e depois desenvolvo cada parte desse projeto. Ofereço o projeto às editoras, vislumbrando o lucro que aquela obra pode dar, além do interesse que o leitor terá com o livro.

• Quanto tempo você leva escrevendo um livro?

Não penso no tempo. Penso que o livro deve estar simplesmente pronto quando tem que estar. Já terminei livros com seis meses e ainda não terminei meu ensaio-biográfico sobre Augusto dos Anjos, o qual está me tomando anos (anos prazerosos).

• No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

O que é porcaria? Há críticos que já julgaram de “porcaria” livros de Machado de Assis, de Júlio Ribeiro. Por isso, é que eu penso que o escritor deve ter uma intimidade muito grande com seu texto, e não ter pressa para publicar. Já chamaram meu livro Cuidado Eu Te Amo de porcaria, mas o público-alvo dele adora. Escrevi o Cuidado Eu Te Amo para adolescentes. É claro que se um doutor em literatura começar a ler este livro não vai gostar. São públicos diferentes.

O ESCRITOR E A LITERATURA

• Mas existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir?

É por isso que eu digo que o autor deve tratar o seu trabalho como se fosse uma empresa, detalhando o público-alvo e as estratégias de venda. Imagine montar uma loja de sapatos finos num bairro onde ainda não há pavimentação. Quem vai querer sujar os sapatos novos na lama? Ninguém. O escritor deve focar sua obra no público-alvo. Até hoje tem romancista que envia seu original para editora que só publica livro técnico! O autor deve pensar para se tornar conhecido, ou relativamente conhecido. Quem quer fama vai para o Big Brother; quem quer ser conhecido pelos seus leitores que foque no seu público-alvo.

• Na sua opinião, que livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?

Quando eu dava aula de literatura, discutia muito esse termo com meus colegas professores. A leitura não pode ser obrigatória, deve ser sugerida. Obrigatório de ser o empenho estatal em dar condições aos professores para que desenvolvam bons projetos de leitura em sala de aula.

• Qual o papel do escritor na sociedade?

Entretenimento e informação. Provocar reflexão nas pessoas, ajudar a pensar, provocar riso, emocionar. Quem lê o romance Maria de Cada Porto, de Moacir C. Lopes não tem como não chorar. Quem não se emociona com o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa?

• Há lugar para a poesia em nossos tempos?

Só a poesia é que nos alivia desse mundo cruel. Eu amo os poetas.

A PESSOA POR TRÁS DO ESCRITOR

• O que choca o senhor hoje em dia?

Como ser humano está cada vez mais violento. Só a poesia salva!

• 14) O que o senhor lê hoje?

• Como faço agenciamento literário, leio de tudo: romance, conto, poesia, crônica, livros técnicos… Particularmente, gosto de uma boa história. Sempre releio os clássicos realistas e naturalistas.

• Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?

Quero fazer alguma coisa em comunidades carentes ou cujo acesso ao livro ainda seja difícil.

CONSELHOS AO ESCRITOR

• Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

De tanto me perguntarem isso escrevi o Mercado Editorial – Guia para Autores. Os melhores conselhos estão lá, inclusive com os contatos dos melhores agentes literários do mundo.

• O que é preciso para ser um bom escritor?

O bom romancista deve ler muitos e muitos romances. O cronista deve ler muitas e muitas crônicas. O poeta deve sempre ler poesia. O autor técnico deve esgotar a leitura em todas as obras do seu ramo. É isso. A leitura é que faz um bom autor.

E para encerrar a entrevista

Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?

1) Que as pessoas já nascessem com a vontade de ler;
2) Que houvesse mais livrarias nas ruas e
3) Que os livros tivessem um custo menos para que todos lessem.

Fonte:
Entrevista Virtual realizada por José Feldman, para o Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes.

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Moacyr Scliar (O Escritor em Xeque)

Entrevista dada ao Jornal Estado de Minas

1) Então você leu muitos livros sobre a história de Minas para escrever na noite do ventre, o diamante? Como se deu este processo?

Li, sim, muitos livros. Mas é importante notar que a pesquisa para fins de um trabalho científico (coisa que, como médico, também escrevo) é diferente da pesquisa para um trabalho ficcional. No primeiro caso trata-se de transmitir informações, com referência bibliográfica inclusive; mas, se o escritor de ficção fizer isso, será uma chateação. Portanto, na hora de escrever, trato de “esquecer” tudo o que li. A informação histórica deve estar diluída no romance, como um pano de fundo. A prioridade cabe à ficção.

2) Quando você recebeu o convite para participar da Coleção Cinco Dedos de Prosa, a história do diamante, que o “perseguia”, já estava mais ou menos delineada na sua cabeça?

Já estava bem delineada. Eu havia partido de um episódio histórico; quando os hebreus estavam cercados pelos romanos muitas vezes engoliam moedas para evitar que o dinheiro caísse nas mãos do inimigo. Daí veio a idéia de um diamante que é engolido por um menino, membro de uma família judia que está fugindo da Rússia para o Brasil. Àquela altura veio o convite da Editora Objetiva. Meu primeiro impulso foi de recusá-lo, mas, antes de desligar, resolvi perguntar qual era o dedo que faltava. Era o anular. Instantaneamente o diamante “instalou-se” num anel e ali estava a história, praticamente pronta.

3) Você tem participado de várias iniciativas que mostram a profissionalização do mercado para a literatura no Brasil (coletâneas, coleções, contos para livros teóricos como A história da cidadania). Existe um mercado sustentável para a literatura no País?

Existe um mercado em expansão que cresce sobretudo graças ao público juvenil. As escolas hoje estão trabalhando, e com muita criatividade, autores contemporâneos e isto aumentou substancialmente o número de leitores. Mas ainda é difícil viver exclusivamente só de literatura no país. É mais fácil viver de escrever – livros, e também artigos, crônicas, roteiros… Porém não creio que seja decisivo para um escritor viver só de literatura. Kafka, por exemplo, tinha um emprego de tempo integral, mas isso não impedia que à noite e nos horários de folga produzisse grande literatura.

4) É possível perceber, de uns anos para cá, o fortalecimento dos mercados regionais, sobretudo do Sul do País. Pode-se falar em “literatura gaúcha” como um capítulo específico da moderna literatura brasileira?

Certamente, mas dentro de literatura gaúcha temos de diferenciar a literatura regionalista (aquela de um Simões Lopes Neto, por exemplo) que utiliza sobretudo o linguajar da fronteira e a literatura histórica, como a feita por Érico Veríssimo em “O Tempo e o vento”. É uma literatura de grande vitalidade, porque a história do Rio Grande não raro passa por momentos dramáticos e também porque o gaúcho é um personagem muito característico. Por último, mas não menos importante, é um Estado de gente culta, que lê bastante, o que ajuda a formar um público leitor.

5) Em alguns dos seus romances há a mescla de personagens históricos como fictícios (Oswaldo Cruz, Noel Nutels, Espinosa).A História ainda reserva boas histórias?

E como! É um filão inesgotável. Agora: é importante visitar a História com o olhar ficcional de hoje. Não se trata de “recuperar” o passado – isto é coisa para historiadores; trata-se de recria-lo ficcionalmente. Não é a História que foi, é a História que poderia ter sido. São as emoções do passado transpostas para o presente.

6) A tradição da literatura judaica está presente em muitos países, em alguns, como os EUA, de forma significativa. Como vê a situação no Brasil, que outros autores podem ser alinhados no que se convencionou chamar de literatura judaica (Samuel Rawet, Clarice Lispector?)

No Brasil, a literatura inspirada na tradição judaica é menos presente nos Estados Unidos, pela simples razão de que naquele país o número de judeus é várias vezes maior. Mas nós também tivemos a experiência da emigração. E esta experiência, nos dois países, é muito parecida. A propósito, lembro um encontro que tive com o Saul Bellow, recentemente falecido, na Universidade de Chicago, onde ele lecionava. A conversa, que começou difícil, por causa do meu embaraço, acabou tomando um rumo inesperado. Bellow, um homem elegante, amável, quis saber de onde eu era, de onde vinham meus pais. Ficou encantado ao saber que eu era filho de imigrantes judeus vindos da Rússia; era essa também sua origem. Só que os pais dele tinham se dirigido para o Canadá, onde nascera, na cidade de Lachine, em 1915, radicando-se depois nos Estados Unidos.

Claramente era um escritor que, sendo profundamente americano (um escritor de Chicago, para ser mais preciso), valia-se de sua herança cultural para entender melhor a realidade do país. Não era um caso isolado; o mesmo acontecia com outros escritores, Norman Mailer, Bernard Malamud, Philip Roth, que inauguraram, nas palavras do crítico Irving Howe, um novo tipo de regionalismo, não geografico, como aquele através do qual William Faulkner retratou o sul dos Estados Unidos, mas sim étnico. A verdade é que o imigrante recebe uma espécie de compensação por sua condição de marginal da cultura; ele é dono de um olhar privilegiado, um olhar que lhe permite enxergar a realidade do país de maneira diferente. Muitos descobrem assim novas oportunidades de ascensão econômica e social: o caso dos imigrantes que criaram a indústria cinematográfica; outros tornam-se revolucionários e outros ainda enveredam pelo caminho da literatura e da arte. De qualquer modo é uma situação original, que serve como fonte de inspiração. A isto deve-se juntar a tradicional veneração judaica pela palavra escrita e o peculiar humor – aquele humor melancólico, filosófico, que serviu, para um grupo perseguido e amaeaçado, como defesa contra o desespero.

7) Você é um dos escritores brasileiros que mais andam por aí participando de palestras, seminários, congressos, etc. Como faz para administrar tantos compromissos e ainda continuar com o mesmo ritmo de produção?

Organização é fundamental. Na ficção a imaginação pode, e deve, voar solta; mas a vida real tem calendário, tem horários. Compatibilizar essas coisas às vezes dá muito trabalho, mas eu o faço com prazer, mesmo porque escrever é um ato eminentemente solitário. O teclado do computador é diferente do teclado do piano: não dá uma resposta imediata sob a forma de música. Com os leitores um diálogo é possível. Eles tem uma curiosidade que se traduz em numerosas perguntas: de onde surgem as idéias para os textos? Como se escreve um romance, planejando a história, ou deixando que os personagens tomam as rédeas da ação? Você tem horário para escrever?

Para os escritores, por outro lado, o contato com leitores, sobretudo jovens, pode ser muito gratificante. Não é, claro, essencial para o ofício da literatura, ainda que desses encontros possam nascer idéias para textos. É outra coisa. Sobretudo em países como o nome o escritor desempenha papel importante como intelectual, como pessoa que procura entender o seu tempo e transmitir o resultado desse entendimento a seus contemporâneos. Mas o contato com o público não deve ser visto só como uma tarefa intelectual. É antes de mais nada um encontro agradável; e exatamente por ser agradável desmistifica o escritor, mostra que este é um ser humano igual a todos os outros, com as mesmas preocupações e as mesma emoções. O papo leitor-escritor é uma troca emocional. A pergunta fundamental a um jovem que leu um texto não é: “O que quis o autor dizer?”, mas sim: “O que sentiste lendo esse texto?”. A emoção abre caminho para o entendimento. E emoção, ao menos em minha experiência, é o que não falta nos encontros com o público.

Leia sobre Na noite do Ventre, o Diamante, em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2010/01/moacyr-scliar-na-noite-do-ventre-o.html

Fonte:
http://scliar.org/moacyr/

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Ivan Jaf (O Escritor em Xeque)

Entrevista exclusiva para o Prof. Wagner Lemos.

Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou, dentre outras coisas.

Nasci e estudei aqui na cidade do Rio de Janeiro. Fiz duas faculdades (jornalismo e filosofia) mas não completei nenhuma delas. Aos 19 anos fui para a Europa e vivi por lá uns 3 anos, até voltar e começar a escrever, e não parar mais.

Como você se tornou escritor?

Me apaixonando por uma máquina de escrever usada que vi numa feira de antiguidades, em Londres.

Qual o seu primeiro livro e do que falava?

Eu precisava fazer alguma coisa com a máquina, e comecei a escrever poemas. Meu primeiro livro foi uma seleção desses poemas, que vendi nos bares e calçadas. Eram poemas filosóficos, existenciais.

Sua obra abrange também quadrinhos, fale um pouco desse lado da sua carreira.

Como eu precisava ganhar dinheiro, comecei a escrever roteiros para histórias em quadrinhos, de terror. Descobri que tinha muita facilidade em visualizar e descrever cenas. Escrevi muitas histórias, por vários anos. Além do terror, ficção científica, em revista do Brasil e da Itália.

Como surgiu a história de “O Vampiro que Descobriu o Brasil”? Em que você se inspirou?

O Vampiro surgiu da necessidade de contar os 500 anos do Brasil visto por um único personagem. Ele precisava ser imortal. Acho que me inspirei em tudo que já li e assisti sobre os vampiros.

Atualmente está a se rever o papel de Tiradentes na Inconfidência Mineira, pois segundo dizem, ele não foi líder mas um bode expiatório para livrar outros. Por que você optou, neste caso, acompanhar uma versão mais tradicional da história?

Tenho para mim que Tiradentes acreditava no que estava fazendo, e era um ativo e carismático agitador. O que não o impediu de se tornar um bode expiatório no final, quando seus companheiros da elite optaram por fazer “acordos”. Como um lado precisava fazer uma vítima, como exemplo, e o outro queria um mártir…

Você teve receios ao citar por nominalmente ou nas entrelinhas personagens da história recente do Brasil, tais como Tancredo Neves, José Sarney e Marco Maciel? Pensou em possíveis represálias da família (no caso de Tancredo) ou dos próprios políticos?

Por um lado tive receio, sim, pois citar nomes daria condições aos envolvidos de moverem processos. Mas também pesou o fato de que, como acredito que a Arte dura mais do que a Política, não queria dar aos citados a chance de serem lembrados no futuro através de um livro meu.

Deixe uma mensagem para os estudantes sergipanos que estudarão “O Vampiro que Descobriu o Brasil” no vestibular.

Eu quis passar em revista a história do Brasil nesses últimos 500 anos, de uma maneira crítica e, espero, divertida, como um incentivo a que os leitores se aprofundem mais no assunto. Eu acredito que saber sobre a História do homem branco nestas terras faz a pessoa querer mudar as coisas, tentar impedir que elas não se repitam. Enfim, forma revoltados. E é com revolta que se progride.

Fonte:
Professor Wagner Lemos.

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Augusto de Campos em Xeque

Augusto de Campos é poeta, tradutor e ensaísta. Foi um dos criadores, junto com Haroldo de Campos e Décio Pignatari, do movimento de poesia concreta brasileira. Traduziu poetas como Cummings, Pound, Maiakóvsky, Mallarmé, Blake, Rimbaud, Valéry, Keats, Hopkins, dentre outros. Traduziu, com Haroldo de Campos, trechos do livro Finnegans Wake, do escritor irlandês James Joyce. Publicou um livro onde reúne ensaios sobre a música erudita contemporânea e lançou o CD Poesia é risco. Os dados acima são apenas um pequeno resumo de uma vida dedicada à poesia, cujo início data do final dos anos 40.

Em todas as atividades que exerce (poesia, tradução e ensaio) Augusto é um exemplo do criador e pensador extremamente apaixonado pelo que faz. Amante da poesia e da música inovadora, não se espanta com a radicalidade dos criadores que ousam experimentar para além do já criado. Ao contrário, comunga em sua poesia e em suas reflexões com esse universo. É ele também alguém que busca a inovação constante.

De Paul Valéry adota a máxima que diz que o trabalho de um escritor deve ser mensurado pelo rigor de suas recusas. Por isso, trabalha pacientemente cada poema e cada tradução; como um joalheiro, busca a perfeição e o brilho que surgem da forma bem acabada. Esse trabalho é notável para aqueles que mergulham nos seus livros. Como uma criança que, descontente com os universos estabelecidos, constrói, desconstrói e reconstrói o mundo a cada nova brincadeira, o poeta Augusto não envelhece nunca: suas invenções estão aí para provar.

Na entrevista que o poeta gentilmente nos concedeu por e-mail, comenta os rumos da nova poesia brasileira, alguns aspectos de antigas polêmicas contra o Concretismo, fala de seu trabalho como tradutor e sobre o seqüestro que a música erudita contemporânea sofre em nossos meios culturais.

1 – Do Concretismo ao Neoconcretismo e ao Poema-Processo a teoria era uma das bases sobre a qual se assentava a poesia que se praticava. O Sr. poderia falar de alguns conceitos que acha importantes para a prática da poesia atualmente? Dentro desta mesma questão, por que os novos poetas não teorizam mais sobre a poesia que fazem?

AUGUSTO DE CAMPOS: Manifestos não são decretos. São projetos. A teoria surge em determinados momentos, como decorrência de um projeto coletivo de grandes transformações. Nasce da prática e vai sendo alterada por ela. Quanto aos conceitos que acho importantes para a poesia, hoje, penso que, entre outros, são relevantes os temas da autonomia da linguagem poética, da liberdade e simultaneamente do rigor de construção poética, da curiosidade formal, da experimentação permanente e da consciência contextual da modernidade e das novas tecnologias, que repotencializaram as propostas das vanguardas do século XX. Mas não é necessário teorizar para fazer poesia. Se os jovens não teorizam é porque não têm o que teorizar. Por outro lado, há uma grande indefinição nesta época de desencantos utópicos, no vácuo do “pós-tudo”. Estamos, talvez, numa fase de transição.

2 – O Sr. acredita na possibilidade da criação de uma obra de arte totalmente abstrata, que se constitua como uma linguagem fora da história (esse “pesadelo” joyceano)? A poesia concreta (e a poesia que o Sr. pratica hoje) tentou alcançar, em sua base e em suas buscas, esse abandono à referência histórica?

AUGUSTO DE CAMPOS: Sim, é possível criar uma obra totalmente abstrata. Khrutchônikh, Iliazd e os adeptos do “zaum” (linguagem transmental) da vanguarda russa o fizeram, em maior ou menor grau, com palavras inventadas, assim como Kurt Schwitters, com a sua “ur-sonate” (sonata pré-silábica), ou ainda Gertrude Stein com a linguagem “não-referencial” (empregando palavras comuns dessemantizadas pelo contexto) dos seus “Tender Buttons” (Botões Suaves), De um modo mais geral, a poesia se situa mesmo “fora da história”. “É uma viagem ao desconhecido”, como escreveu Maiakóvski, poeta mais do que engajado. “O poeta é um fingidor”, de Pessoa, poderia ser escrito por qualquer poeta de qualquer tempo ou lugar. Essa é a natureza intrínseca da poesia, que acima de tudo fala do homem e ao homem de todos os tempos e de todas as latitudes. Isso não quer dizer que a poesia não possa abranger a história ou ser referenciada a ela, caso dos CANTOS de Pound, em nossa época. A poesia concreta, embora tendo a autonomia da linguagem poética como um dos seus postulados, e a sua independência do fato histórico como um corolário, não foi infensa aos eventos significativos do seu tempo e do seu país. A produção dos anos 60 é particularmente rica de exemplos de poemas referenciados ao momento histórico.

3 – Segundo Ferreira Gullar, “João Cabral é um poeta que se refugiou na linguagem, mas reinicia a cada momento a tarefa de reaver o mundo perdido; já os concretistas se refugiaram na palavra, mas a tomaram como a ‘verdadeira realidade’, como fetiche.” (In: “Indagações de Hoje”. p. 180). O Sr. concorda com essa observação que o Gullar faz do Concretismo?

AUGUSTO DE CAMPOS: É evidente que não concordo. A observação não faz justiça sequer à poesia de João Cabral, que nem se refugiou na linguagem nem perdeu mundo algum, mas simplesmente compreendeu a natureza da linguagem poética e a desvelou em poemas metalinguísticos como “Anti-Ode”, a par de enfocar temas sociais, amorosos ou outros em outras obras, sempre com alta densidade vocabular e notável rigor compositivo. Ao contrário de Gullar, ele entendeu perfeitamente os propósitos da poesia concreta, que sempre valorizou, chegando a colocá-la acima até da poesia do Modernismo, em vários depoimentos, de conhecimento público. Ora, qualquer um pode ver que uma das características diferenciais da poesia concreta, relativamente a outros movimentos poéticos de vanguarda, é o fato de ela não renunciar à dimensão semântica. VERBIVOCOVISUAL, ela se afirmou desde o início, com isso significando a ênfase simultânea no verbal, no sonoro e no visual, em pé de igualdade, e não apenas nos dois últimos níveis ou só no primeiro. Não fora assim, como explicar poemas como TERRA, BEBA COCA COLA, SERVIDÃO DE PASSAGEM, ESTELA CUBANA, PORTÕES ABREM, LUXO, os “popcretos”, para só citar alguns dos mais ostensivamente referenciais e ideológicos? Mesmo poemas de semântica mais abstrata, como TENSÃO, polarizando som e silêncio, não deixam de configurar arquétipos vivenciais. Outros ainda, de natureza metalinguística, perscrutam a linguagem poética e tratam de expandi-la em novas articulações, até o limite. Mas sempre mantendo o significado. De linhagem poundiana (“precise definition”), a poesia concreta nunca foi “não-referencial”. O que propusemos, a par de reivindicar a autonomia da linguagem poética em relação à linguagem contratual, foi uma nova abordagem da poesia, uma sintaxe tempo-espacial, não-discursiva, mais consentânea com os desenvolvimentos da ciência e da tecnologia do nosso tempo, e uma nova configuração formal, ao mesmo tempo rigorosa e livre, capaz de projetá-la em dimensões interdisciplinares além-verso e além- livro. O que recusamos sempre, como João Cabral, foi a demagogia sentimental e a retórica panfletária em busca de aplauso fácil. Nosso lema foi o maiakovskiano “não há poesia revolucionária sem forma revolucionária.” Como eu digo no meu poema NÃO: “humano autêntico sincero mas ainda não é poesia”. O resto é ressentimento.

4 – Embora já incorporado aos livros didáticos de literatura brasileira, não existe movimento literário no Brasil que conheça tanta crítica quanto o concretismo. O modernismo de 22, embora atacado no seu surgimento, ao contrário, é agora muito bem aceito (e assimilado) pela cultura brasileira. Que razões o Sr. atribui a essa rejeição e, mesmo, perseguição, ao Concretismo?

AUGUSTO DE CAMPOS: A poesia concreta foi o mais radical dos movimentos poéticos brasileiros, tornou mais difícil escrever poesia, pôs em circulação um repertório sem precedente de linguagens poéticas não visitadas entre nós, traduzidas criativamente do original, da antiga poesia hebraica, chinesa e japonesa às vanguardas – trovadores provençais, Dante e Guido Cavalcanti, poetas “metafísicos” ingleses, Mallarmé, Corbière, Hopkins, Pound, Joyce, Cummings, Gertrude Stein, August Stramm e Kurt Schwitters, Kkliébnikov, Maiakóvski e a nova poética russa, entre outros. Nunca se fez isso antes entre nós. Revimos o percurso literário brasileiro, desmontando preconceitos e promovendo os marginalizados pelas histórias e “formações da literatura” oficiais, como Gregório de Matos, Sousândrade, Qorpo Santo, Kilkerry, Ernani Rosas, Oswald, Luis Aranha, Pagu. E a poesia concreta já está nos livros didáticos, como você mesmo acentua. Quer dizer, até as crianças começam a entender. Ainda há pouco minhas netas, de 9 e 15 anos, vieram me mostrar, em seus livros de estudo, os poemas LUXO e PÓS-TUDO, precisamente os que a crítica universitária sociologóide tentou denegrir há quase 20 anos atrás. Relato isso não pare me vangloriar, mas para pôr em evidência o abismo que separa grande parte da crítica do trabalho criativo. É claro que tudo isso provocou e ainda provoca muita inveja, irritação e medo. A renitente perseguição de alguns poetas sem “fair play”, de certa parte da crônica jornalística e dos redutos mais conservadores universitários é lamentável, mas é compreensível e é sinal de vitalidade da poesia concreta. Que continua a provocar e a despertar reações apaixonadas, pró e contra.

5 – O que leva o Sr. a traduzir mais do que a escrever e publicar sua própria poesia?

AUGUSTO DE CAMPOS: O que me interessa acima de tudo não é a “minha” poesia, mas a poesia, “tout court”. Gosto do convívio com os outros poetas, os poetas que admiro, e traduzi-los, converter os seus poemas originais, de outros idiomas, em poemas de língua portuguesa, é uma forma de dialogar e aprender, celularmente, com eles. A minha própria poesia passa por um crivo muito severo de auto-crítica e não sinto nem compulsão para criá-la nem pressa em publicá-la. Entre VIVA VAIA (1979) e DESPOESIA (1994) passaram-se 15 anos, e agora mesmo, quando preparo o meu novo livro, vejo que já transcorreram 9 anos. Acho inútil contribuir para inflacionar o mundo dos livros, acreditando com Fernando Pessoa, que “cada homem tem pouquíssimo que exprimir e a soma de toda uma vida de sentimento e pensamento pode, por vezes, inserir-se no total de um poema de oito linhas.” Contento-me com a elaboração de alguns poucos poemas por ano. Não forço a barra. Sou muito exigente. E mesmo assim, a minha produção, talvez porque eu tenha atingido idade avançada, já ultrapassa quantitativamente, de muito, a de maravilhosos poetas como Arnaut Daniel, Mallarmé, Rimbaud, Cesário Verde, Sá-Carneiro e tantos outros, mestres e inventores, cujo pequeno acervo de obras poéticas vale mais do que centenas de grossos tomos de poesia.

6 – O Sr. tem um grande apreço pela música erudita contemporânea (da Escola de Viena até compositores recentes como Berio e John Cage, dentre outros). De que forma a frequentação a essa música interfere no seu fazer poético ou na sua reflexão sobre a poesia?

AUGUSTO DE CAMPOS: É evidente que a música, e a música erudita contemporânea em particular, exercem grande influência sobre a minha poesia. POETAMENOS não teria existido, como tal, sem a minha paixão pela música de Webern, para mim o maior compositor de todos os tempos. As aventuras exploratórias dessa produção musical, de grande teor inventivo – marginalizada pelos meios de comunicação – estimulam a minha curiosidade e me instigam às vezes tanto ou mais do que a própria poesia.

7- Existe hoje nas salas de concerto brasileiras o que se poderia chamar de sequestro da música erudita do século XX. Não existe um projeto de tornar pública (ou visível) essa música. Continuamos anos a fio ouvindo o mesmo repertório musical. Por que o Sr. acha que essa música ainda não é executada sistematicamente como, por exemplo, o repertório dos séculos XVIII e XIX?

AUGUSTO DE CAMPOS: A culpa é em grande parte dos meios de comunicação, que não cumprem, como seria desejável, o seu papel de mediação e de informação. Dão um destaque desproporcional à moda ou a música popular de consumo, mas não noticiam e não apresentam com destaque e com glamour as propostas da música do nosso tempo. Também os patrocínios culturais continuam a privilegiar a música de consumo, justamente a que não necessita de apoio financeiro para sobreviver. Dessensibiliza-se e desestimula-se a curiosidade do ouvinte. Acuados diante do distanciamento do público, produtores culturais, orquestras, maestros e concertistas se apavoram e atuam com uma timidez excessiva, autolimitando-se ao repertório mais surrado dos séculos XVIII e XIX, na expectativa de satisfazerem a platéia fugidia e os financiadores gananciosos. Uma triste história de desinformação e acovardamento, que colocou lamentavelmente entre parênteses e entre paredes a música contemporânea – afinal, a do nosso tempo – assim como a de outros tempos, como a grande música de Machaut, dos polifonistas da Renascença ou dos madrigalistas dos séculos XVI e XVII.

8 – Antes da tradução de trechos de Finnegans Wake feita pelo Sr. e por Haroldo de Campos não havia outra versão desta obra de Joyce. O que o Sr. está achando da nova tradução que está sendo por feita por Donaldo Schüler? Qual a importância do aparecimento desta tradução para as letras brasileiras?

AUGUSTO DE CAMPOS: Acho louvável e meritório o empreendimento de Donaldo Schüler. Certamente há de contribuir muito para o entendimento e a divulgação da obra de Joyce entre nós. Trata-se, porém, a meu ver, de uma tradução extensiva, menos exigente ou mais informal do ponto de vista estético, um projeto diferente do nosso, que é mais seletivo -tradução intensiva, onde alguns dos fragmentos mais belos do FINNEGANS WAKE são burilados microesteticamente em termos de ritmo, achados verbais e equilíbrio sonoro, de modo a produzir equivalentes criativos da linguagem joyceana em língua portuguesa, com máximo grau de poeticidade.

9 – A publicação de poesia no Brasil parece ter aumentado e uma nova geração de poetas tem surgido. O sr. acompanha essa produção? Percebe alguma característica marcante nesses poetas?

AUGUSTO DE CAMPOS: Sempre foi grande a publicação de poesia entre nós, ainda que em pequenas tiragens e por pequenas editoras, muitas vezes financiada pelos próprios poetas. Não tenho como acompanhar em detalhe toda essa produção. Mas, no meio de muitas tentativas menos felizes, surge sempre alguma coisa interessante. Deixando de lado, por desprezíveis, alguns xiítas do verso, que querem voltar a poéticas conservadoras, prémodernistas, com pés quebrados e insultos dobrados, o que vejo é uma produção majoritária, mais conformista ou conformada, que tenta encontrar uma pós-voz sob os parâmetros da dicção drummond-cabralina, e uma corrente minoritária, mais experimentalista, que vai dos poetas pós-concretos, de linha verbal, “logopaicos” – como diria Pound -, aos poucos, “melo” e “fanopaicos”, que começam a desbravar a terra semi-incógnita da linguagem digital. Tenho naturalmente simpatia especial pelos mais inquietos, aqueles que experimentam novos caminhos, dando continuidade à “revolução permanante” das vanguardas, os que se aventuram por criações interdisciplinares e os que tentam responder, no livro ou fora dele, à provocação das novas tecnologias. Mas longe de mim querer ditar normas. Que cada um faça a sua mágica. Com os meus melhores votos.

Fonte:
Entrevista realizada em 24/3/2003 por Jardel Dias Cavalcanti. Disponível em http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=993

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Fabio Wentraub em Xeque

Fabio Weintraub nasceu em 1967, em São Paulo. Além de poeta, é editor, produtor cultural e psicólogo. Seu recente livro de poemas “Novo endereço” (Nankin, 2002) recebeu o prêmio Cidade de Juiz de Fora, promovido pela Fundação Cultural Alfredo Ferreira (FUNALFA). É um dos fundadores do grupo Cálamo, que desde 1990 se reúne para discutir, estudar e produzir poesia. Nesta entrevista exclusiva, Fabio fala de sua intenção em realizar um trabalho poético que contenha um lirismo civil, voltado para os dilemas da pólis, e de sua opinião sobre a crítica literária, entre outros assuntos. Abrindo a subjetividade para a crise da realidade urbana contemporânea, Fabio experimenta as cenas e situações das ruas como quem vive um exílio doloroso. Também é autor de “Toda mudez será conquistada” (1992) e “Sistema de erros” (1996). Colabora regularmente com a revista Cult e integra a comissão executiva da revista Rodapé.

WEBLIVROS: Alardeia-se que o discurso da poesia vive um momento de crise, mais especificamente que o discurso lírico estaria condenado à extinção, não apenas pelo choque do século das vanguardas, mas também pelo contexto multimidiático e massificante em que vivemos, que tende justamente para a despersonalização. No entanto, seus poemas são insistentemente líricos, incorporando de modo intenso os estilhaços desse cenário triste e desencantado. A retomada do lirismo, nesse momento, seria uma atitude ousada, mais que um retrocesso? E que proposta de lirismo é essa?

FABIO WEINTRAUB: Penso que é preciso desconfiar um pouco desse alarde sobre a crise da expressão lírica, “ameaçada de extinção” nas condições históricas contemporâneas. Juízos apocalípticos – da mesma forma que os surtos maníacos de otimismo – são o que não falta: basta um pouco de memória e encontraremos desmentidos sucessivos para tão fatais profecias.

Além disso, é bom também lembrar que a exaltação da individualidade e da natureza, que está no cerne da expressão lírica, costuma ser justamente uma forma de reação contra fraturas sociais que colocam em xeque os processos de individuação.

O que você identifica no meu trabalho como uma “retomada do lirismo” parece-me, salvo engano, corresponder a um movimento mais coletivo de alargamento do nosso horizonte expressional pela relativização (quebra de hegemonia) do discurso racional-construtivista herdado de João Cabral e das vanguardas dos anos 50-60. Tal discurso dominou, para o bem e para o mal, a cena poética contemporânea até, digamos, o fim da década de 80. Em nome do rigor e do experimentalismo, catequizaram-nos dentro de uma ideologia da competência artesanal que desqualificava como frouxas, verborrágicas, sem “domínio da linguagem” as poéticas afeitas à expansão da subjetividade. O preço pago pela conquista da exatidão foi, no pior dos casos, uma poesia ascética, desfibrada.

É claro que o fundo autoritário dos slogans de vanguarda ainda subsiste, a julgar pela fé arrogante de alguns epígonos e pelo recurso reiterado às excomunhões. Porém, de uma maneira geral, vivemos um momento de distensão de que dá testemunho a diversidade de procedimentos, temas e preocupações presentes entre os poetas deste começo de século.

No que se refere mais especificamente ao tipo de lirismo por mim “proposto” (a palavra é ruim, pois a intencionalidade em questão não é de tipo programático), sirvo-me desavergonhadamente do que disse a poeta e crítica Priscila Figueiredo na apresentação ao meu mais recente livro, Novo endereço. Ali, ela faz ver de que maneira a intensidade lírica associa-se à reflexão social sob o signo do fracasso, isto é, a subjetividade enlaça a vida popular, abre portas e janelas ao vento do espaço público nutrida pelo “forte sentimento de exclusão e desagregação”.

Ver exatamente como ocorre essa associação em cada poema demandaria um tempo de que não dispomos. De qualquer modo, como já declarei em outra ocasião, meu lirismo, que não é só meu, tem ambição civil: busco uma poesia cada vez mais transitiva, porosa às contradições do processo de modernização conservadora tal como se deu no Brasil. Trata-se de um caminho, ao que tudo indica, palmilhado por muitos neste momento. E não me refiro apenas a poetas, mas também a uma certa vertente da nossa prosa de ficção dedicada ao retrato mais brutal das nossas mazelas, por meio de uma escrita muito rente à realidade, aos efeitos da violência globalitária (autores como Marçal Aquino, Fernando Bonassi. Marcelo Mirisola, entre outros). O risco aqui prende-se ao hipermimetismo (Bosi), isto é, a um tipo de figuração que é mais reflexo que reflexão, que imita sem compreender, ou seja, sem a “distância” necessária para a inteligência dos conflitos subjacentes à matéria retratada. Na distância entre a forma conciliada e a realidade não-conciliada, reside o potencial crítico da arte, que é mimese e contradição a um só tempo (Adorno).

Mas tal risco, que talvez apareça com mais nitidez na prosa, também vale para esta poesia em que os espaços público e privado da vida contemporânea se tocam e interpenetram. O risco de concessão superficial ao pitoresco, ou de subestimação dos conflitos – por ímpeto estetizador, pieguismo populista, engessamento de perspectiva, formalização precária – é enorme. Chico Alvim, por exemplo, é um poeta que enfrenta esse risco com maestria porque se abre à fala alheia com uma “simpatia” que não apaga as divisões sociais. Isto é possível graças ao apuro formal, à combinatória de perspectivas, ao minimalismo das elipses de Alvim que, seguindo de certa forma a lição concretista (cabralina, oswaldiana…), lhe deu lastro histórico (Schwarz).

No entanto, outras soluções são possíveis (e necessárias).

WEBLIVROS: Seu novo livro traz algumas vertentes marcantes: há poemas nitidamente autobiográficos; outros que fazem uma apreensão crítica de cenas urbanas; e uma terceira, em que predominam os poemas com forte transfiguração imagética, muito próximos de uma dicção surrealista. Trata-se de caminhos explícitos de sua poética hoje, ou não existe um planejamento em seu trabalho?

FW: É difícil falar em “planejamento” na medida em que as forças em jogo em qualquer trabalho artístico (pulsões infantis, modelos de desempenho formal, variáveis ideológicas etc) sempre operam para muito além dos limites estreitos da consciência.

Quanto às três vertentes que você identifica no livro, aceito a classificação com alguma reserva, mas explico o porquê. Muitos dos poemas que você chama de “nitidamente biográficos” (poemas como “Mãe”, “Pombos” e “Pai”) são construídos a partir de uma “apreensão crítica de cenas urbanas” (a cidade entendida não apenas como cenário, mas como campo de relação, foco de um certo tipo de sociabilidade).

Igualmente, no grupo de poemas com dicção mais “surrealista”, entram alguns elementos biográficos/domésticos bem como o sentimento de exílio, gerado a partir de uma relação agônica com a cidade.

Esse sentimento de perda do “direito à cidade” se impõe de várias maneiras, já desde a epígrafe, extraída do livro A gravidade e a graça, de Simone Weil. Weil nos ensina que entre uma cidade regida por mecanismos de exclusão social e uma cidade totalmente destruída há pouca diferença, pois é difícil sustentar no pensamento a existência autônoma e independente do que não nos pertence. Nesse sentido, uma cidade como Jenin – Ariel Sharon certamente nunca leu nem sequer uma linha de Simone Weil – pode não estar muito longe de São Paulo, ainda que a violência aqui assuma uma forma talvez menos ostensiva e indignante.

Veja que a imagem do exílio retorna na hipógrafe de Martin Buber (como Simone Weil, um autor judeu da primeira metade do século passado), ligando o livro, quem sabe, ao velho tema do judeu errante.

A internação descrita no poema “Mãe” também pode ser lida como a repetição da mesma perda, assim como o poema “Óvni” e todos os poemas com referências ao pé moído na errância pela cidade inviável (“Calcanhar de Vênus”, “Tigre”, “Montepio”, “Pai”).

Assim, penso que as diferentes vertentes mencionadas por você se articulam a partir desse núcleo comum.

WEBLIVROS: “Novo endereço” representa uma continuidade em relação a seus livros anteriores – “Todo mudez será conquistada” e “Sistema de erros” – ou você acredita que houve uma ruptura? Como você o relaciona com seus trabalhos anteriores, incluindo as experiências com o grupo Cálamo?

FW: Para mim há uma ruptura muito clara, uma mudança de projeto. Em relação aos livros anteriores houve um rebaixamento considerável no tom, o abandono de certo preciosismo vocabular, de certos jogos imagéticos, de certa dedicação à metalinguagem. Novo endereço é um livro mais machucado, nutrido pela linguagem coloquial e repleto de vários poemas com teor fortemente narrativo.

Mas é também evidente que, se você for pesquisar, encontrará algo nos livros anteriores que de alguma forma prenunciava o que pude alcançar agora, bem como, no livro atual, resíduos de obsessões anteriores. Em Sistema de Erros, por exemplo, um poema como “A rosa púrpura do Cairo”, devido ao tom narrativo e à tematização da violência mutiladora contra a mulher, antecipa à sua maneira algumas questões de Novo Endereço. Já o poema “E vice-versa”, de Novo endereço, retoma a vertente metalingüística em nova chave, o que só foi possível pela prevalência do erro sobre o sistema; da mobilidade do que é precário sobre a necessidade de organização.

WEBLIVROS: Percebe-se um diálogo cerrado com Manuel Bandeira, crítico-criativo e não meramente reverencial, nos poemas de “Novo endereço”, mais até que com Drummond, autores que você admira e estuda. Como você enfrenta suas angústias de influência e como tais angústias se refletem nos seus textos? Como você lida com a tradição?

FW: Influência, angústia, diálogo com a tradição, herança. Eis um terreno verdadeiramente minado, no qual a própria forma de designar possíveis filiações entre autores suscita uma série de problemas.

Vejamos. A lição presente em um texto como “Tradição e talento individual” escrito por Eliot em 1917, encontra-se hoje, ao menos entre os poetas minimamente informados, bastante difundida. A idéia de que devemos ter consciência “não apenas da caducidade do passado, mas de sua presença” (a insistência quanto ao fato de que a obra original não é aquela que volta as costas à tradição, mas a que incorporando-a, reordena o conjunto das obras existentes), tornou-se, por assim dizer, quase um consenso entre os escritores de senso. Poucos são os que, ainda hoje, sentem romanticamente o “borbulhar do gênio”, supondo que farão uma obra-prima apenas com o que lhes vai na cachola, sem tomar nada de empréstimo a outrem.

O que há talvez de novo na consciência de débito com a tradição é a metamorfose da idéia de filiação numa espécie de grife ou selo de que os poetas se servem para se autolegitimar. Ou seja, dependendo da maneira como se insira, real ou imaginariamente, na tradição, o poeta alcançará maior ou menor elevação na bolsa de valores literários. Curiosamente, nesses casos, a “angústia de influência” (Bloom), a idéia de que sempre se escreve contra um texto-modelo que nos oprime, transforma-se em “euforia da influência”, isto é, em meio para alcançar prestígio e exercer (mais que sofrer) influência.

Assim é comum ver poetas declarando-se herdeiros deste ou daquele autor conforme a conveniência. “Fulano é herdeiro de Drummond…” Mas herdeiro de que forma? De que parte do espólio?

Mesmo a idéia de “diálogo”, que não possui a ressonância patrimonial de “herança”, é problemática também. Primeiro, porque supõe reciprocidade entre os interlocutores, o que raramente ocorre. Em segundo lugar, porque designa situações muito diversas que vão desde a citação avulsa (a intertextualidade, o pastiche pós-moderno, o servilismo de estilo) até a discussão mais consistente de procedimentos e temas a partir de um conjunto de preocupações comuns.

Da mesma forma, não deixa de ser curioso que, no terreno da crítica, o exame das influências e filiações tenha sido, de certa forma, “inflacionado”. Hoje em dia já não nos surpreendemos com resenhas que praticamente se limitam a mapear o campo de interlocução de um autor ou de uma obra, não se aventurando pela análise mais concreta dos poemas nem pela emissão de juízos valorativos.

Outro equívoco usual é incorrer numa concepção meio evolucionista de literatura, ligada à idéia de progressão linear, de certa continuidade entre autores.

Como se a literatura fosse uma corrida de revezamento em que um poeta passa o bastão a outro, que o levará mais longe. Em matéria de arte, situar as transformações em termos de “progresso” e “retrocesso” será mesmo proveitoso? (Octavio Paz: “Técnica y creación, útil y poema son realidades distintas. La técnica es procedimiento y vale en la medida en que es un procedimiento susceptible de aplicación repetida: sua valor dura hasta que surge un novo procedimiento. La técnica es repetición que se perfecciona o se degrada; es herencia y cambio: el fusil reemplaza al arco. La Eneida no substituye a la Odisea”).

Bem, voltando ao livro, você tem razão, sim, ao rastrear sinais da humildade terna e do lirismo bandeiriano em Novo endereço, evidente sobretudo, penso eu, nos poemas de família. Mas acho que a melancolia e o gauchismo drummondiano também ecoam de modo muito nítido, assim como a poesia andarilha de Mário de Andrade (veja-se o topos do calcante pede, tão bem destacado na já citada apresentação de Priscila Figueiredo) e, em menor grau, a estrutura dramática à Chico Alvim (em poemas como “Barrabás” e “Por trás”).

No entanto, uma coisa que faço sempre questão de lembrar é que, embora os escritores normalmente se sintam mais à vontade para falar de influências literárias, a literatura desempenha um papel limitado no campo de influências a que um poeta está submetido. Às vezes, a posição da janela do quarto em relação à luz, um quadro prolongado de doença na família, sapatos apertados, uma mudança efetiva de endereço desempenham um papel da maior importância na construção de uma obra.

WEBLIVROS: Em que medida uma experiência de pesquisa poética coletiva como a do grupo Cálamo pode contribuir não apenas para o amadurecimento poético dos participantes, mas também para uma reflexão mais ampla sobre a presença da poesia no cenário contemporâneo?

FW: A participação de um grupo de trabalho sistemático com poesia, como é o caso do Cálamo, certamente alimenta a reflexão de seus membros sobre a situação da poesia no mundo contemporâneo, as complexas relações entre literatura e processo social, o exame detido do perfil estilístico de determinado autor ou período etc. No entanto, faço questão de frisar duas coisas. O grupo, apesar de contar com algumas pessoas ligadas à universidade, não se dedica à pesquisa em sentido acadêmico. Trata-se de um grupo no qual a pesquisa serve para instigar os participantes no sentido da criação, ou para fornecer-lhes parâmetros a fim de melhor equacionar os problemas com que se deparam ao longo dessa prática criativa. De modo que o lucro teórico de nossas discussões carece da isenção necessária a um diagnóstico abrangente da “presença da poesia no mundo”.

Outro ponto diz respeito ao caráter individual, pessoal e intransferível das “descobertas”, pois não se trata de um grupo com plataforma ou atuação programática. Trata-se, mais simplesmente, de um espaço de troca e discussão no qual são desenvolvidos trabalhos de feição muito variada, sem unidade estilística ou ideológica.

WEBLIVROS: Não seria ingênuo, como muitos poetas parecem ainda fazer hoje, reivindicar para a poesia uma atenção igual ou maior que a dispensada para produtos culturais de entretenimento e de fácil consumo?

FW: Minha opinião quanto a isso costuma variar: em alguns poetas vejo ingenuidade, noutros, arrivismo, noutros ainda, uma combinação das duas coisas, tudo temperado por doses cavalares de ressentimento.

Com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e da indústria do entretenimento, a literatura foi empurrada para uma posição bastante marginal em nossas vidas, desempenhando um papel muito menos relevante na formação da sensibilidade contemporânea. Esse processo é, ao que tudo indica, irreversível: uma leitura pública de poesia jamais contará com um público do mesmo tamanho do que encontramos nas salas de cinema ou num espetáculo de rock.

Muitos dirão que conformar-se com tal situação é adotar uma postura elitista e impedir a formação de leitores de poesia (o que, por seu turno, agrava a situação dos poetas, sem editoras que os publiquem e jornais que divulguem seu trabalho). Seguindo tal linha de raciocínio, entra-se num círculo vicioso: já que poesia não vende, não se investe na circulação (publicação, divulgação, distribuição) dos textos, fazendo com que o público leitor se reduza e o mercado se retraia.

Acho que não é o caso de verificar aqui a validade do argumento, nem de apurar quem são os verdadeiros responsáveis pela situação acima descrita (falar, por exemplo, das políticas públicas com baixíssimo investimento em educação; do despreparo da imprensa; do conservadorismo das editoras etc).

Mas não deixa de ser engraçado, nos poetas que reclamam da pouca visibilidade midiática, a ilusão de que a eventual conquista de mais visibilidade não afetará a “liberdade” de que gozam como “outsiders”. Querem ser, ao mesmo tempo, apocalípticos e integrados, para lembrar a feliz expressão de Umberto Eco.

WEBLIVROS: Tornou-se lugar-comum ouvir escritores brasileiros reclamarem da crítica, tanto a acadêmica quanto a jornalística, tidas como conservadora e elitista, a primeira, e superficial e tendenciosa, a segunda. Você edita uma revista dedicada exclusivamente à crítica literária – a Rodapé – cujos autores, em sua maioria, estão ligados ao universo acadêmico. Há mesmo um hiato entre criadores e crítica? Não haveria também uma certa indisposição dos escritores para com a crítica? Como uma revista nos moldes da Rodapé pode interferir nesse processo?

FW: O hiato realmente existe e deveria ser motivo de apreensão, uma vez que “toda crítica que se preza tem a ambição de estar à altura do que lhe é rigorosamente contemporâneo, o que é uma forma de estar à altura do que sucede às nossas vidas” (trecho da enquete com o prof. José Antonio Pasta Jr., parte integrante do próximo número da revista Rodapé).

Mas, com toda sinceridade, acho que, se tal ambição não puder ser satisfeita dentro da universidade, dificilmente o será fora dela. As resenhas de jornal se aproximam cada vez mais dos releases (os jornalistas desempenhando o mero papel de “relações públicas” das editoras), pois o compromisso da imprensa é de outra ordem, não pretende propriamente estar “à altura da vida”. Até porque o ritmo de produção que nela vigora impede o estudo contínuo e a aprendizagem renovada, bem como as análises minuciosas, com maior fôlego interpretativo, necessárias para dar conta daquilo que nos é “rigorosamente contemporâneo”.

Aos escritores, em contrapartida, falta muita vez isenção para avaliar o trabalho dos pares sem sucumbir ao coorporativismo, ao proselitismo ou ao polemismo estéril. Para não falar da militância anti-intelectual dos que atacam a universidade e pontificam sobre o pretenso conservadorismo da crítica acadêmica sem de fato conhecer (ou conhecendo muito pouco) o que se faz hoje sob essa chancela.

De modo geral, queixam-se os autores novos da instrumentalia inadequada com que os críticos recebem o vinho novo por eles preparado. Os críticos, por seu turno, tacham como inautêntica a novidade, questionam a procedência das uvas e se eximem de limpar o limo das barricas. Considerando a caturrice das partes, o tal vinho, velho ou novo, se converterá no vinagre com que compensaremos a falta de sal do debate.

Uma revista como a Rodapé quer interferir nesse processo, entre outras coisas, mapeando, de modo extensivo, sistemático, a produção literária contemporânea (poesia, prosa de ficção, dramaturgia), entendendo por contemporâneo “um tempo um pouco mais largo que o da indústria cultural”; conforme se lê na apresentação ao primeiro número da revista.

WEBLIVROS: Além de poeta, você também é editor de livros do selo Janela do Caos, da editora Nankin. Qual o prazer de editar poesia, esse projeto editorial inviável economicamente?

FW: O prazer de editar poesia, que você também tem, capitaneando a Weblivros, é correlato ao prazer de ler. Levar adiante a palavra alheia é, de alguma forma, estender e renovar a alegria que tivemos anteriormente, no confronto solitário com o texto.

Além disso, todas as decisões sobre a materialização física do trabalho de outros poetas (a concepção da capa, a escolha do papel, da tipologia, o objeto gráfico como fetiche) costumam ser estimulantes e exigem do editor a capacidade de conciliar (o que nem sempre é fácil), o desejo (às vezes capricho) do autor com o conhecimento das condições objetivas de produção e circulação do livro.

O contato com os autores – que, em muitos casos, tornam-se grandes amigos – também ajuda muitas vezes a iluminar a obra de que nos acercamos, não tanto pelo que eles nos dizem diretamente, mas pelo que observamos em sua maneira de agir: propondo uma diagramação diferente, sugerindo uma imagem para a capa ou comentando o texto escrito para a orelha.

A despeito da “inviabilidade econômica” do gênero, é um trabalho gostoso, viciante. Se pudesse, me dedicaria exclusivamente a isso. Faria passar pela “Janela do caos” – essa pequena fresta, fenda (atente para o logotipo, inspirado nos “rasgos” de Lucio Fontana) – todo o vento da poesia brasileira contemporânea.

Fonte:
Entrevista Por Reynaldo Damazio, para Weblivros. Disponível em http://www.weblivros.com.br/entrevista/fabio-wentraub-7.html

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Mário Pontes em Xeque

A história de Mario Pontes dava para escrever um romance. Ele nasceu, há 74 anos, numa pequena cidade no Ceará chamada Nova Russas, e conta que houve um período na história recente do Brasil em que era necessário cautela quando tinha de dizer o nome daquela cidade: “Muita gente confundia Russas com Rússia”, lembra.

Filho de um carpinteiro interessado em livros, aprendeu a ler nos jornais que o pai levava para casa. Os grandes assuntos da ocasião, a Guerra Civil Espanhola e, depois, a Segunda Guerra Mundial, despertaram nele o sonho do jornalismo. Ainda adolescente, quando se mudou de sua cidade para outra maior, onde havia uma daquelas pequenas porém selecionadas bibliotecas do Instituto Nacional do Livro, extinto no governo Collor, passou a ler dezenas de volumes por ano, o que também ajudou a introduzir a literatura em sua corrente sangüínea.

Nesta entrevista a Associação Brasileira de Imprensa (ABI Online), Mario — que, algumas vezes, de longe em longe, também pinta aquarelas relacionadas com seus contos — revela, entre outras coisas, que sua preocupação com as mudanças climáticas vêm de longe. No Caderno Especial do Jornal do Brasil publicou muitos textos sobre assuntos como o fracasso da chamada Revolução Verde, que destruiu muitas terras nos países pobres, graças aos seus experimentos de produção acelerada. Nos anos 90, seu livro de ficção “Andante com morte” (publicado pela Bertrand), continha uma pequena novela sobre sangrentas guerras entre pedestres e motoristas, que aconteceriam neste século XXI, o fim do petróleo e a elevação dos mares. O título da novela era “A nova rota da seda”.

ABI Online — Antes de mais nada, por que esse nome, Nova Russas?

Mario Pontes — No Leste do Ceará há uma cidade muita antiga chamada Russas, do tempo das guerras holandesas. E no Oeste, então, tem Nova Russas, quase na divisa com o Piauí, em pleno sertão, sertãozão daqueles. Nasci ali, em 32.

ABI Online — Sertão muito pobre…

Mario — Sim. Lá, o progresso era representado unicamente pela a estrada de ferro (hoje dedicada somente ao transporte de cargas) que nos assegurava o contato com o mundo. Aprendi a ler com meu pai. Ele gostava de ler os jornais que, três vezes na semana, o trem trazia de Fortaleza. Aprendi a ler, lendo as notícias das guerras. Em 38, já lia muito bem. Foi bom, porque muito cedo comecei a adquirir uma consciência da História e do que se passava ao redor. Durante muito tempo os jornais foram, praticamente, minha única fonte de leitura. A cidade não tinha biblioteca, não tinha livraria.

ABI Online — Vivia longe dos livros e da escola?

Mario — De fato. Mas em 39, um jovem intelectual do Crato — uma cidade antiga, aristocrática, situada no Sul do Ceará — foi parar em Nova Russas e criou ali um colégio que, segundo seu plano, ensinaria até o segundo grau. O nome dele era Pedro Teles. Ele havia estudado no célebre seminário de sua cidade, pelo qual passaram rebeldes de 1817, mas na última hora desistiu da batina. Um tio meu, que estava em situação bem melhor do que nós, ofereceu-se para pagar meus estudos. E foi assim por dois anos. Mas em 41 houve uma grande seca e meu tio disse que não poderia mais pagar o colégio. Como meu pai também não tinha dinheiro, eu ia ficar sem escola. A essa altura, Pedro Telles resolvera mudar-se para Fortaleza, e tinha trazido do Crato um rapaz que já havia concluído seus estudos pré-universitários. Alderico Damasceno e eu descobrimos imediatamente que havia várias pontes entre nós: eu, como já disse, era filho de um carpinteiro e ele, de um telegrafista de estrada de ferro. Naquele tempo havia uma forte associação entre o telégrafo e a ferrovia. Alderico foi à minha casa e disse a meu pai que por falta de dinheiro eu não deixaria de estudar. Em troca, sempre que pudesse, meu pai devia fazer umas carteiras para os alunos do colégio.

ABI Online — São esses pequenos milagres que acontecem…

Mario — Pois é. E foi assim que completei o primário. O Alderico revelou-se, pelo menos para mim, uma figura notável, um mestre e não um mero professor. Ele me ensinou o francês — que acabei de aprender, mais tarde, lendo os romances e as peças de Sartre — e um pouco de inglês. Ele me emprestava livros de sua estante. O primeiro foi um volume sobre Viriato, o herói português na luta contra os romanos. Depois, passou a me emprestar biografias de grandes filósofos.

ABI Online — A família toda se mudou para Crateús?

Mario — Lá, nossa situação financeira continuou precária. Meu pai era muito pobre e tive de ajudá-lo de alguma forma. Mas havia uma biblioteca maravilhosa, daquelas distribuídas, naquela época, pelo Instituto Nacional do Livro. Foram criadas pelo poeta gaúcho Augusto Meyer, que tinha vindo para o Rio de Janeiro, no fim do Governo Vargas, para dirigir a Biblioteca Nacional. O Instituto tinha um sistema de distribuição de livros e criação de bibliotecas no interior, numa época em que o livro era uma coisa muito rara. Foi uma das grandes iniciativas em favor da leitura neste País. Augusto Meyer deveria ter um monumento que o lembrasse por isso.

ABI Online — Então leu muito em Crateús?

Mario — Em pouco mais de quatro anos, li quase todos os 400 livros da biblioteca, começando por “O mandarim”, de Eça, e terminando por “Sagarana”, de Guimarães Rosa. Aquela biblioteca foi minha universidade. Os livros — de história, literatura brasileira e estrangeira — eram muito bem selecionados pelo INL. Um dia, voltando a Nova Russas, fui visitar o professor Alderico. Ele quis saber o que eu estava lendo. Citei vários títulos. Ele me perguntou: “Já leu ’Dom Quixote’?” Respondi que não. “Então venha cá.” Tirou da prateleira o livro de Miguel de Cervantes, e disse: “Sente aí. Leia o que puder. Depois procura ler o resto.” Logo depois, de volta a Crateús, aconteceu uma coisa importante: me tornei tipógrafo. Trabalhava com uma caixa de tipos móveis e um prelo manual.

ABI Online — Nessa caixa, os tipos não são distribuídos conforme uma ordem lógica.

Mario — De fato. Era uma “caixa” francesa, e nela a distribuição é mais ou menos a seguinte: no alto à esquerda as maiúsculas, à direita às letras acentuadas, embaixo as minúsculas. Nas caixas inglesa e alemã a distribuição é diferente. Graças a estes conhecimentos, pude ir para Fortaleza, onde trabalhei, primeiramente, na tipografia do jornal O Democrata. Seis meses depois, já estava no linotipo.

ABI Online — Onde aspirou aqueles “saudáveis” gases de chumbo.

Mario — E onde levei um choque elétrico violento, quase morri. Logo depois me levaram para a redação e me tornei repórter. O Democrata circulava com seis páginas diárias. Era um pequeno jornal de esquerda e de oposição ao Governo do estado. De vez em quando, o Governador não gostava do que o jornal dizia e mandava empastelar as páginas já enramadas e dar umas cacetadas em que estivesse na redação e nas oficinas. Nesses dias o jornal não saía. Isso aconteceu várias vezes. Mas a editora tinha outros títulos registrados e, no dia seguinte, lá estava o jornal na banca, com outro nome. Meus começos foram por aí.

ABI Online — Um começo com choque elétrico e sopapos.

Mario — Cheguei a secretário de redação e fiquei naquele jornal de 49 a 56, o ano do levante dos húngaros contra a União Soviética. Em Fortaleza, fui para O Estado, que não existe mais; depois trabalhei em dois jornais dos Diários Associados — o matutino Unitário (fundado no século XIX por João Brígido, figura lendária e pioneira no jornalismo cearense, um homem de coragem que trabalhava com o bacamarte em cima da mesa) e no vespertino Correio do Ceará. Por ter passado pelos Diários Associados, também fiz um pouco de rádio, na Verdes Mares, sempre nos noticiários. Em 59 vim para o Rio.

ABI Online — Aqui, estreou onde?

Mario — No Diário Carioca, como copidesque. Trabalhei algum tempo na Petrobras, editando revistas, livros e outras publicações. Comecei a experimentar a tradução em O Detetive, uma revista do grupo O Cruzeiro. Em 69, fui para a Editora Vozes, onde me tornei editor de livros leigos,por vários anos. Uma grande experiência. Lá editei e traduzi livros sobre vários assuntos. Trabalhei também com os Bloch, para quem também traduzi dois livros, um deles de natureza filosófica. Em 69 fui para o Jornal do Brasil. Me tornei redator do Departamento de Pesquisa, formado por um grupo que tinha de ser necessariamente de bom nível intelectual. Quando saí do JB, traduzi muitos livros, principalmente para as editoras Zahar e Bertrand.

ABI Online — Como se faz tradução?

Mario — Hoje há cursos que ensinam como traduzir. Alguns, pelo que se publica sobre eles, me parecem muito teóricos. Traduzo com base nos meus conhecimentos, meu gosto pela literatura e a filosofia e minha curiosidades pelas línguas. Como sei que nunca é possível se saber de tudo, tenho muitos dicionários, perto de 300. Uns 20 de inglês, o mesmo de francês e de espanhol, e um monte de dicionários de línguas que não sei. Afora os temáticos.

ABI Online — Para evitar surpresas?

Mario — Posso estar traduzindo um livro sobre história dos gregos e topar, de repente, com um termo turco ou sânscrito. Como traduzir corretamente esses termos se não tiver um dicionário de turco e pelo menos um de sânscrito? Tenho dicionários muito específicos. Por exemplo, vários de expressões próprias de regiões da América Latina. Um dicionário de expressões usadas em Honduras…

ABI Online — Os hondurenhos têm um linguajar muito característico. A capital, por exemplo, eles chamam de “Teguz”.

Mario — Pois é, eles chamam Tegucigalpa desta forma mais curta e têm uma linguagem interiorana, do campo, muito diferente daquela que se fala nas cidades. Mesmo na Espanha isso acontece. Traduzi alguns livros do Camilo José Cela, que morreu em 2002; mesmo sendo membro da Real Academia Espanhola, nunca deixou de ser um galego. Quando escrevia, ele misturava as línguas e enchia o texto com palavras e expressões galegas, que eu não conhecia. Tive de aprender o essencial da língua galega para traduzir corretamente. Comprei gramática de galego, dicionários de galego…

ABI Online — E quanto tempo se gasta numa tradução?

Mario — Depende. Eu sempre gasto muito tempo, porque sou metódico. Apesar de os computadores informarem quantos milhares de letras ou palavras acabei de escrever, minha referência continua sendo a lauda de 30 linhas com média de 72 batidas cada. É com ela que meço meu trabalho.

ABI Online — Mas, digamos, um livro de 200 páginas…

Mario — Depende do livro.

ABI Online — Um mês?

Mario — Não, eu não seria capaz de fazer em um mês. Levo mais tempo, sou perfeccionista. Tenho amigos que traduzem em um mês. Eu não consigo.

ABI Online — Qual é a sua rotina? Vai de manhã para o escritório e…

Mario — Dedico umas seis horas por dia ao meu trabalho. Mais que isso não agüento. A exigência intelectual é muito grande. Há um livro que fiquei mais de um ano e meio traduzindo. Foi um dos últimos que traduzi, e ainda não está publicado, deve sair este ano, para a Bienal. Intitula-se “O saber grego”. Deverá sair pela Editora Bertrand, com a qual me dou muito bem. É uma obra de 1.200 páginas, dividida em três partes. A primeira dedicada aos filósofos gregos, dos primeiros até os do fim da Antigüidade. A segunda parte é dedicada aos outros saberes gregos. Medicina, matemática, cosmologia. Traduzir o capítulo sobre cosmologia foi de enlouquecer, porque, para os gregos, a Terra era o centro do Universo. A ginástica mental que eles fizeram para provar isso…

ABI Online — A teoria geocêntrica…

Mario — Os artifícios criados pela inteligência grega para comprovar essa tese são de deixar a gente tonta. Já a parte final do livro é dedicada às escolas que se desenvolveram a partir do pensamento dos filósofos abordados no início. Tivemos na primeira parte um grande capítulo sobre Aristóteles; agora, na última, outro sobre o aristotelismo. O mesmo no caso de Platão, Várias pessoas tinham olhado para aquele “tijolo” e desistido. Para mim era um desafio. Queria testar a que ponto havia chegado, provar a mim mesmo que havia adquirido cultura suficiente para encarar uma tarefa como aquela.

ABI Online — Quantos livros já traduziu?

Mario — Exatamente 30. Conheço colegas que já traduziram mais de 500. Mas nós, que trabalhávamos na pesquisa do Jornal do Brasil, estávamos sempre traduzindo textos estrangeiros, às vezes bem difíceis. Não sei quantos traduzi lá.

ABI Online — Dizem que um livro traduzido pelo senhor é tão bom quanto o original.

Mario — Não é verdade. Veja, ali está um livro que traduzi (aponta para a prateleira): “Verdade ao amanhecer”, do (Ernest) Hemingway, um original que a família publicou 50 anos depois de sua morte. Como tudo de Hemingway, tem passagens muito boas. E outras nada boas. Por causa da pressa. Porque Hemingway estava descontente com a vida, com tudo. Neste caso, claro, uma ou outra passagem da tradução pode ser melhor que o original. Mas isso é único na minha lista de traduções.

ABI Online — E os livros que o senhor escreveu?

Mario — Durante muitos anos não pude escrever os livros que tinha em mente, porque, no meu caso. sempre foram muito difíceis as condições de trabalho no JB. E foram 25 anos! Durante muito tempo, editei sozinho o caderno Livro. Não tinha ninguém para ajudar e por isso fiquei quatro anos sem tirar férias. Somente em 77, quando eu já tinha 40 e tantos anos, lancei meu primeiro livro, “Milagre na Salina”, um conjunto de contos. Publiquei pouco depois, pela Codecri, um volume de estudos sobre a poesia popular do Nordeste: “Doce como diabo”. Em 99, a Bertrand editou o volume “Andante com morte”, composto de quatro ficções mais ou menos curtas: “A morte infinita”, “Sentinelas da noite” e “A engrenagem universal” e “A nova rota da seda”. As três primeiras histórias dizem respeito ao sertão e as mudanças que lá vêm ocorrendo. Um resenhador de São Paulo disse que eu era conservador, só escrevia sobre coisas antigas… A última história — que, literariamente, considero um pouco fraca — prevê que, em algum momento desta primeira metade do século XXI, o excesso de automóveis fará explodir uma guerra violenta e sem fim, entre pedestres e motoristas, provocando milhares de mortes em cada grande cidade do mundo. A indústria automobilística cria, então, para os que têm mais dinheiro, uma gigantesca rodovia, que sai do centro da Europa, passa pela Turquia e chega até a China, com muitas pistas para o motorista reprimido e desesperado com os eternos engarrafamentos, correr a 300, 400 quilômetros por hora e morrer do jeito que quiser.

ABI Online — A rota da seda de Marco Pólo…

Mario — Só que, quando ela começa a alegrar a morte dos gloriosos suicidas da gasolina, o petróleo se acaba e as grandes potências, ou melhor, a grande potência vai lá e toma tudo ou o restinho que sobrou. A essa altura, as calotas polares já derreteram e os oceanos inundaram quase tudo. Um brasileiro da Baixada Fluminense, que vai para a Europa num navio velho, é quem conta como se chega à Nova Rota da Seda, a rota do embuste. Ele se associa a um grupo de vagabundos, liderados por um filósofo. Aquele mesmo resenhador, que disse que os três primeiros contos refletiam um pensamento atrasado, classificou este último de um devaneio do meu futurismo apocalíptico de nordestino…

ABI Online — Os três primeiros eram muito atrasados e este era muito moderno…

Mario — Tudo o que eu disse ali está agora em todas as manchetes do mundo. O petróleo vai acabar logo e estão aí o efeito estufa, o derretimento das calotas… Os mares vão subir exatamente como se descreve no meu conto. Ninguém mais tem dúvida de que este será o século de radicais mudanças climáticas. Este é, hoje, o maior problema da humanidade. Todos os estudos apontam nesse sentido. Até o Arnold Schwarzenegger — apesar de pertencer ao partido republicano — já tenta controlar as emissões de carbono na Califórnia, contra a vontade do Bush. Ele se opõe à política ambiental da Casa Branca. É um absurdo meter a cabeça na areia, tentar ignorar o problema. Tenho a impressão de que, em termos de ficção, fui o primeiro a escrever, no Brasil, sobre esses desastres que nos esperam. Parece que muitas pessoas têm medo de tocar certos assuntos como o do ambiente, encarar certas verdades. Parece que têm medo dos poderoso, sei lá.

ABI Online — Vamos falar agora sobre o JB.

Mario — Trabalhei dez anos na Editora Vozes. Um ano em Petrópolis, os outros nove no Rio, dividindo o dia com o JB. Na editora dos franciscanos, meu trabalho mais constante era o de participante da editoria da Revista de Cultura Vozes, dirigida por frei Clarêncio Neotti e editada por Moacy Cirne. Para mim foram anos de muita liberdade, muita criatividade. Como não podíamos falar sobre as coisas óbvias que aconteciam embaixo do nariz da gente, recorríamos à antropologia, à sociologia, à lingüística, para dizer pelo menos um pouco daquilo que nos era vetado. Em 69 fui para o Departamento de Pesquisa do JB, quando aquela editoria estava em um bom momento. Éramos oito redatores. Tínhamos de escrever bons textos sobre os mais diferentes assuntos. Era um trabalho que exigia muito, muito mesmo. Numa segunda-feira, ao chegar no jornal, mandaram que me apresentasse ao editor, Alberto Dines. Ele me disse: “Está vendo este livro? Quero que você vá pra casa e o leia. Sexta-feira você volta e me escreve uma página dupla do Caderno Especial.” Era um livro de umas 300 páginas, intitulado “The american way of war”, uma variação do conhecido american way of life. O livro tratava da idéia norte-americana de estratégia, das guerras da Independência até o Vietnã, a guerra deles naquele momento

ABI Online — Não era um assunto dos mais simples…

Mario — Não. Li tudo e, na sexta, voltei para o jornal com as páginas prontas. A gente trabalhava muito, mas tinha orgulho de pertencer ao grupo. Nem assinávamos as matérias. Saía só o crédito “Pesquisa JB”. Éramos anônimos, mas gostávamos do que fazíamos. Cada dia era um desafio intelectual para cada um de nós. Quando o Dines saiu, o Departamento — tal como existia — acabou. Fui para o Caderno B, onde fiquei vários anos como subeditor. O jornal publicava o suplemento Livro, criado em 72 e editado pelo Remy Gorga Filho. Sempre achei muito bom o trabalho do Remy, que, para variar, fazia aquilo sozinho, não tinha redator. Em 77, ele saiu do jornal e eu fui escolhido para editar o caderno, só que com várias restrições: na prática, ele passava a publicar unicamente resenhas, pequenas resenhas, conforme o modelo de The New York Times. E, como todos sabem, era uma época de censura e auto-censura. Muitos professores, escritores, pessoas que tinham o que dizer, não queriam ou não podiam escrever para o suplemento. Então, pensei: vou procurar jovens escritores e mexer com o orgulho deles. Eu lhes dizia mais ou menos o seguinte: “Dou a você uma oportunidade de aparecer; mas, como você não tem experiência de escrever para jornal, me autoriza a ‘mexer’ em sua resenha, não para mudar suas idéias, mas para torná-las mais legíveis. Uns 99% deles aceitaram.

ABI Online — Foi até quando isso?

Mario — Acho que até meados de 86. Creio que foi naquele ano que o Zuenir Ventura foi para lá, editar a Revista de Domingo e, em seguida, o Caderno B. Nesse meio tempo, fui cooptado para escrever editoriais, tarefa que não consegui desempenhar por muito tempo. Não é fácil tentar convencer todo o dia o leitor a aceitar como sua uma idéia que não é sua.

ABI Online — É a do jornal.

Mario — Pois é… Voltei para a editoria do B. Nesse meio tempo, Zuenir tinha transformado o Livro em Idéias — um tablóide com linha menos estrita. E que tinha, pelo menos, dois redatores para editá-lo: o Luciano Trigo e a Vivian Wiler. Com a saída do Zuenir e do Trigo, lá fui eu, de novo, para os livros e a literatura. Fiquei uns tempos fazendo o caderno, mais uma vez sozinho. Mas a certa altura adoeci gravemente, e então a editoria do caderno passou para outras mãos. Permaneci apenas como redator. Depois, a editoria do Idéias dividiu-se: na quinta editava-se um Idéias dedicado aos livros (publicado aos sábados), e na sexta, outro Idéias, que era o Caderno Especial de cara nova (publicado no domingo). Nessa época, trabalhei com três bons editores, Zé Castello, uma pessoa muito culta, Wilson Coutinho, um companheiro estimulante, com excelentes conhecimentos de filosofia, e o Cláudio Bojunga, que além de culto e experiente, sempre foi uma pessoa finíssima e de temperamento muito estável. Mas, para mim, essa junção de editorias significou, antes de tudo, um pouco mais de trabalho…

ABI Online — E quando o senhor deixou o JB?

Mario — Saí em meados dos anos 90 e me aposentei.

ABI Online — Vamos falar sobre meio ambiente, um tema que lhe interessa muito.

Mario — É um sinalzinho que apareceu muito cedo em minha consciência. Nasci num lugar muito seco. E, por causa da devastação secular, mais pobre de vegetação do que naturalmente era. Aprendi a valorizar a água, a árvore, o lagarto, a coruja. Foi uma coisa natural. E esse homem (aponta para a foto de Alderico Damasceno) também tinha essa consciência e se esforçava para que cada um de nós a adquirisse em alguma medida. Estive no ano passado em minha cidade. Fui lá para o aniversário do último tio que me resta, um homem muito inteligente que teve apenas 15 dias de escola. Foi lavrador, comerciante, e conseguiu juntar algumas propriedades. Agora, depois de velho, resolveu escrever. No primeiro livro, suas memórias. Ele me mandou os textos e eu tive de “traduzi-los” para o português, porque ele escreve em “outra coisa”… Mas fiz aquilo com o maior prazer, pois tenho muita admiração por ele, é um grande homem e uma boa pessoa. Mesmo sem ser muito religioso, sem ser beato, está sempre preocupado com o próximo. No segundo livro revela suas preocupações com a cidade e elogia aqueles que a construíram, os carreteiros, os sapateiros… O lançamento foi no clube da cidade. Estavam lá o vice-prefeito e o Secretário de Educação; teve sermão do padre, projeção de um pequeno documentário etc. Pelo programa, eu tinha de dizer algumas palavras sobre o meu tio e acabei pedindo desculpas para falar também algumas verdades que estavam entaladas na minha garganta.

ABI Online — Não podia perder a chance…

Mario — Pedi licença para falar, primeiro, do pequeno rio da cidade, que era bonito e hoje é um banco de areia com um filete d’água; da mata ciliar — com suas grandes árvores, como a oiticica, e arbustos, alguns deles aromáticos — que destruíram pelo simples prazer de destruir. A 200 metros da Prefeitura, eu tinha visto uma pirâmide de lixo, com milhares de garrafas “pet”. “Não sei como se consegue conviver com tanta sujeira”, disse. Se eu pudesse, teria procurado os estudantes da cidade a fim de convencê-los a replantar o que foi devastado. Porque isso — eu também disse na solenidade – deve ser feito pelo povo, pelos cidadãos. A experiência diz que não se deve esperar por nenhum dos governos, seja federal, estadual ou municipal.” Bem antes desse episódio, eu havia começado a pesquisar nos jornais e revistas do Rio e São Paulo, tudo que encontro sobre ecologia e meio ambiente. Recorto e envio para uma senhora, Dona Terezinha, que distribui esse material nas escolas.

ABI Online — E a garotada já adquiriu alguma consciência?

Mario — Olha, diz ela que algumas escolas estão conseguindo progressos com seus alunos. Mas isso não se consegue de uma vez. Nossa família — eu, meus cinco irmãos que vivem em Brasília e mais alguns parentes — criou em Nova Russas uma escola de música para tirar os meninos das ruas e lhes ensinar uma profissão. A escola funciona em um salãozinho da Sociedade São Vicente de Paula. Durante a semana, os meninos têm aulas regulares. No sábado e domingo, aprendem música. Antes, os instrumentos eram da própria Prefeitura. Mas eram muito ruins, mal conservados. Eu me lembro da primeira vez que fui vê-los. Fiquei absolutamente pasmo com o progresso dos meninos. Em dois anos de aprendizado, eles estavam tocando Pixinguinha, que compôs uma música supercomplexa. Um estava tocando o clarinete quando, de repente, metade do instrumento caiu no chão. As duas partes estavam ligadas com cera de abelha. Tirei o dinheiro que tinha no bolso e disse para os outros: bem, completem e comprem um clarinete para aquele menino. Nem que seja de segunda mão. Eu estava muito emocionado.

ABI Online — Em breve será uma orquestra.

Mario — Já conseguimos, aqui e ali, quase todos os instrumentos. O importante, porém, é que vários adolescentes já foram admitidos em orquestras populares de cidades vizinhas. Ou seja: estão empregados Também tirei 2.300 livros das minhas estantes e doei à prefeitura, para que criasse uma biblioteca. Tem uma área na cidade, onde funciona a Secretaria da Educação, que foi transformada em campus avançado de uma universidade regional, com sede em Sobral. Soube que agora temos uma faculdade nesse campus avançado. As coisas estão melhorando.

ABI Online — Hoje o senhor se considera mais tradutor, mais jornalista ou mais ambientalista?

Mario — Não sei o que sou. Traduzo, mas não penso só em tradução. E escrevo também. Às vezes me pedem colaboração para o Idéias, mas, em termos de jornalismo, a única coisa que estou fazendo com regularidade é escrever para um pequeno jornal de Minas, chamado O Cometa Itabirano. Uma folha que o Drummond prezava muito. Soube até que ele deixou uma cláusula no testamento, segundo a qual o Cometa pode sempre utilizar qualquer coisa dele sem ter de pagar direitos autorais. Mas como eles lá são muito sóbrios, raramente se valem desse direito. O jornalzinho estava no fim, mas alguns amigos, jornalistas e publicitários de Belo Horizonte, se juntaram e resolveram salvá-lo, editando-o gratuitamente, conseguindo alguns anúncios para garantir, pelo menos, a compra do papel. Eles me convidaram para colaborar gratuitamente e me deram um espaço para escrever com toda a liberdade. É claro que, aos 74 anos, já não sinto necessidade daquela ênfase juvenil. Digo mais com a razão.

ABI Online — O senhor também foi professor de Jornalismo?

Mario — Puro acaso. Nos anos 70, Moacy Cirne, Muniz Sodré e Antonio Sérgio Mendonça deram a partida ao Curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). A Nadiá, mulher do Antonio, o Samuel Katz e o Nelson Pereira dos Santos eram professores da faculdade de Comunicação. Havia lá uma cadeira de Desenho Jornalístico, que tem a ver com a história e uso dos tipos, a criação da página, a programação visual de um livro, uma revista, um jornal etc. Eles me chamaram para substituir um professor que morrera de repente. Ponderei que não tinha curso nenhum — apenas o primário. Apelaram lá para a brecha do “notório saber” e acabei contratado. Subia na barca com aqueles livros debaixo do braço, e na sala de aula tudo o que eu tinha era giz e um quadro-negro. Se houvesse algo que eu quisesse mostrar à turma, tinha de passar o volume de mão em mão. Disse ao Antonio Sérgio e ao Muniz que ficaria somente um ano. Quando fui legalizar minha situação, tive que ir ao Departamento de Ordem Política e Social.

ABI Online — Para ter o famigerado atestado ideológico…

Mario — Exato. O Dops se recusou a me dar o tal atestado. Eu tinha trabalhado no Ceará naquele jornal de oposição em que comecei a vida. E me demitiram da Petrobras sem dizer porquê. Resultado: trabalhei um ano inteiro na UFF e não recebi um centavo. Seis anos depois, já no processo da “abertura democrática”, conseguiram me pagar. Mas o dinheiro recebido só deu para convidar o Muniz e o Antonio Sérgio e pagar um almoço. A inflação tinha comido os meus salários.

ABI Online — Como nasceu “Milagre na Salina” e em que se baseia este seu primeiro livro?

Mario — Num dos momentos mais difíceis da vida de nossa família, lá em Nova Russas, fomos parar numa pequena rua de casas de taipa. A rua se chamava da Salina, porque, originariamente, aquelas casinhas tinham sido utilizadas por um rico comerciante como armazéns de sal grosso. O sal é um produto precioso no sertão. Como quase não há agricultura, a pequena pecuária é o mais comum. O fazendeiro mata o boi, e o preparo da carne-de-sol requer muito sal. A vaca também precisa de sal na sua alimentação, para melhorar a qualidade do leite. Enfim, o sal é importante, e aquela rua passou a ser conhecida como da Salina. Para todos nós era muito humilhante morar ali, até porque, antes do sal, algumas casinhas tinham sido habitadas por mulheres de “vida fácil”. Agora, a maioria dos habitantes era formada por carreteiros, homens fortes que carregavam os vagões dos trens de carga, principalmente com sacos de oiticica. Os americanos tinham perdido a China para os japoneses, o com ela o óleo de tungue, importante na produção de tintas. Mas logo descobriram que a oiticica, árvore do Nordeste brasileiro, produzia um óleo semelhante. Imediatamente criaram companhias para a exploração dos pequenos frutos da oiticica… Aquelas pessoas da Salina se tornaram importantes na minha vida. Mesmo quando saí de lá, eu me recordava de cada uma delas, de sua grandeza, da solidariedade, de como sabiam dividir o pouco que obtinham. O livro fala dessa gente.

ABI Online — Por que o senhor, que circula tão bem nos meios acadêmicos, nunca sonhou com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras?

Mario — Várias vezes estive na ABL, até palestrei lá sobre “O conto em tempo de febre”, uma abordagem jornalística e sociológica do que aconteceu nos anos 70, quando milhares de jovens se transformaram em contistas da noite para o dia, porque necessitavam de um canal para se expressar. Acho que a Academia está em um bom momento, levou muita gente boa para lá nos últimos anos. Quanto a mim. Bem… não consigo me imaginar acadêmico. Pertenço a uma sociedade de cearenses no Rio, que, como outras do mesmo porte, embora seja bem informal, dá a si mesma o nome de “Academia”. Me convidaram muitas vezes para ser um deles. Como eu sempre escapava, puseram-se a dizer que eu esnobava o Ceará. Isso, sim, me incomodava. Assim, acabei por aceitar o convite. Mas, ao contrário de muitos amigos, não me sinto atraído pela vida realmente acadêmica.

Fonte:
Associação Brasileira de Imprensa. Entrevista realizada por Claudio Carneiro, em 12/01/2007. Disponível em http://www.abi.org.br/paginaindividual.asp?id=1814

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Luiz Antonio de Assis Brasil em Xeque

O terceiro encontro do projeto Paiol Literário – realizado em parceria entre o Rascunho, o Sesi Paraná e a Fundação Cultural de Curitiba – trouxe a Curitiba o escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil.

O prazer da leitura

Eu não sou uma pessoa brilhante. Vocês vão sair muito decepcionados. Estou antecipando isso. Minha vida não tem muita importância. Sou um pouco assim como a República de Andorra. Não tenho história. Mas vou procurar, com a minha ficção, ajudar um pouco isso aí. Essa pergunta, sempre fazem. Principalmente meus alunos, e quando não fazem, eu provoco. E eu penso um pouco sobre aquilo do [Wolfgang] Iser, o teórico. Ele fala das três funções da literatura, que eu acho que, no final, são funções reais.

Que são o prazer da leitura, o prazer que dá ler um romance, um poema, um conto; o conhecimento que a literatura dá, ela aumenta o nosso universo de conhecimento do mundo; e a catarse, a transformação que pode realizar em nós. Então, parece que essas três funções explicam bastante o que é a literatura dentro de uma perspectiva que eu sei que é teórica, mas que também pode ser vista no plano prático. A gente insiste muito na questão do prazer da leitura, e eu vejo muitos professores amargurados porque me dizem:
“Eu não consigo fazer meus alunos terem prazer na leitura”.
Eu digo:
“Bom, o que tu dá para eles?”
“Bom, eu estou estudando A pata da gazela.”
E eu digo:
“Bom, eu acho que o caminho aí não é tanto do prazer da leitura, mas pode se pensar assim: Vocês lendo esse livro vão conhecer o Rio de Janeiro do Segundo Império”.

E quando eu penso no lado transformação, penso em duas obras. Uma do século 18, que é do Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther, e penso numa obra atual, que é O código Da Vinci. Até estou estudando com meus alunos essas duas obras sob o aspecto da recepção. Porque o Werther foi o primeiro best-seller da história. Foram vendidos milhares de exemplares quando foi lançado, no século 18, e eles transformaram pessoas.

Agora, eu me tornei numa espécie de especialista n’O código Da Vinci. Isso me lembra um pouco a história do homem que sabia javanês, o conto clássico do Lima Barreto. Os meus superiores na minha universidade me pediram para fazer uma conferência sobre o Código. Numa das palestras, eu terminei de falar – e falei sobre isso da transformação que a literatura opera – e um jovem me pediu a palavra e disse:
“Olha eu terminei o Código e fui internado num hospício”.
Como assim?, eu perguntei.
“É, eu fiquei louco e meus pais me internaram.”

E disse o nome da instituição, tradicional em Porto Alegre. Eu disse:
“Como foi isso?”
Ele respondeu:
“Sim, porque me disseram que tudo o que eu pensava sobre a vida, sobre a minha religião, tudo veio por água abaixo, não senti mais apoio em nada e enlouqueci”.

Então penso isso: a função catártica da literatura, de transformação, e o prazer da leitura, que vocês conhecem. É aquela coisa de querer voltar para casa, porque aquele livro está lá, nos esperando e estamos loucos de vontade de saber como ele continua, ou nos deliciarmos com um poema.

A descoberta do prazer da leitura

As coisas no meu tempo de infância e adolescência eram um pouco diferentes. Naturalmente. Como só poderiam ser. Os veraneios eram intermináveis. Começavam em dezembro e iam até março. Hoje são 20 dias. Íamos para uma praia, meu pai optou por uma praia onde não havia água, luz, nada. Fora da civilização. Bom, o que eu fazia? Ia à biblioteca do meu colégio, dos jesuítas, no Colégio Anchieta. Naquela época, o Eça de Queirós ainda estava no índice dos livros proibidos pela igreja católica. Mas havia um jesuíta lá, meu professor, que tinha o Eça. E fui pegar uns livros e ele disse:
“Vou te dar o Eça”.
E eu, bobo, bom aluno de religião, disse:
“Não é proibido?”
E ele:
“Mas ninguém fica sabendo, põe dentro da tua pasta”.

E aí me deu A relíquia, do Eça. Eu tinha 14 anos. Foi realmente espantoso. O prazer da leitura eu nunca vou esquecer. Então, armei uma tenda no meu quarto e ali passei lendo A relíquia. Depois fui ampliando. A literatura realista. Logo pulei para o Machado, e por aí foi. Fundamentalmente romance. Meu pai lia muito conto. Mas tinha uma visão de conto daqueles finais surpreendentes, que viravam tudo e tal. E achava graça naquilo e lia e curtia muito. Mas eu não achava muita graça, não. Aqueles finais eram um pouco, enfim, despropositados e tudo o mais. E vieram os russos. Realmente começou pelo prazer. Depois, a leitura me ampliou o conhecimento do mundo.

Livros marcantes

Acho que foi o Madame Bovary. De uma outra realidade, completamente diferente. E Os irmãos Karamázov. Esses dois livros, como conhecimento, foram espantosos. Depois serviram como conhecimento para escrever romances. Quando comecei a escrever, não existiam oficinas literárias. Por outro lado, os escritores estabelecidos da geração anterior à minha – o Erico Verissimo, o Dyonélio Machado, esse pessoal – tinham muita dificuldade de entender essas coisas. Eu disse:
“Eu tenho de aprender”.

Lia muito o Autran Dourado, um belo escritor. E telefonei para o Autran, consegui o telefone dele, miraculosamente, e disse:
“Olha, eu gostaria de fazer uma visita”.
E ele:
“Por quê, meu filho?”
“Para discutir alguns romances seus.”
“Que curioso”, ele disse. “Pode vir hoje de tarde.”
“Não, estou em Porto Alegre.”

Marcou para uma semana depois. Eu fui de ônibus até o Rio, era um jovem estudante. E o Autran me recebeu muito bem. E fui com os livros dele todos, todos anotados. Muitas coisas ali que eu queria esclarecer com ele. Por que ele usava só o verbo dizer? Perguntei para ele. Fulano disse, disse Fulano, disse a personagem.
“Por que é que o senhor usa só o verbo dizer?”
E ele:
“Ah, você se deu conta disso? Até agora ninguém se deu conta. O que é muito bom. Só uso o verbo dizer porque ninguém o lê. Se eu escrever ‘respondeu, resmungou, exclamou’, aparece o meu truque”.

O início como leitor

Aos 17 anos, estava fazendo o curso clássico. E no terceiro clássico, nós líamos Lamartine, Victor Hugo, tudo no original. Não se estudava mais a língua portuguesa porque já sabíamos a língua portuguesa. Estudávamos literatura francesa, literatura inglesa. Lemos todo o Paradise lost, do Milton. Foram sete anos de latim, quatro anos do ginásio e três do clássico, com três horas semanais. Então, isso foi realmente decisivo para mim. Minha mãe era musicista; meu pai, veterinário.

O livro não era uma presença muito forte na minha casa, mas na escola sim. Foi lá que tudo começou. Aí comecei a fazer redações e todo mundo gostava. E também, mesmo no curso mais elementar, no curso primário, também eu fazia umas redações boas e havia muito incentivo. Interessante é que em 1956, quando se comemorou o cinqüentenário da aviação, em todas as escolas da rede pública do Rio Grande do Sul, houve um concurso de redação. Todos os estudantes da rede deveriam fazer uma redação no mesmo dia. Ganhei o primeiro lugar. Eu tinha 11 anos. E foi realmente a escola que me levou a isso. Aí veio esse concurso e abandonei a literatura aos 11 anos. Porque eu não tinha mais nada para dizer.

A carreira de músico

Eu era músico da Sinfônica e era músico de estante. Quer dizer, de estante. Então eu tocava ali, na segunda estante, não estava tão longe, mas nem tão perto do maestro. Sinfônicas têm hierarquias muito fortes, os músicos que tocam mais próximos do maestro são teoricamente os que tocam melhor e, portanto, ganham mais. E aí a coisa vai se tornando mais rarefeita. Eu estava ali na segunda estante dos violoncelos. Mas aquilo me incomodava muito. Claro, eu estudava muito, procurava desempenhar bem, mas tinha consciência de que nunca seria um solista, não tinha talento para isso. Os verdadeiros artistas são o compositor e o maestro. O músico é o executante. Aquilo me deixava insatisfeito, porque eu ficava ali entre a criação do compositor e a interpretação do maestro. Onde é que eu fico?, eu perguntava. Aí a literatura voltou. E assumiu uma proporção maior. De modo que eu posso dizer mais com a literatura do que com os meus modestos recursos de músico.

Espaço na literatura

Eu parto do princípio de que na literatura há espaço para todos. Quem gosta de conto, romance, crônica, poesia terá o seu autor preferido. E mais: esse autor preferido é sempre rotativo. Por exemplo, o meu preferido agora é o Pascal Quignard. E chegará um momento em que direi que ele não me diz mais nada.

Na literatura, há mais espaço para todos. E eu noto, ultimamente, especialmente entre jovens escritores, um pouco dessa competição que, às vezes, é até um pouco desleal, mas sinto neles uma determinação que a minha geração não tinha. Eles querem ser escritores. E entram para a oficina e dizem:
“Assis, estou aqui porque quero ser escritor, vou abrir mão de tudo para ser escritor”.

Isso não havia. Não. Era: O que vou fazer? Primeiro, achar um emprego para mim. Foi um pouco do que eu fiz. Fiz um curso de Direito. Depois, dar aulas na universidade. Foi uma coisa certa. Mas o fato é que era assim. O Moacyr Scliar é médico. Então todos têm uma profissão decente, têm que ter. De modo que os jovens escritores não pensam assim. Não vou ter um emprego que vai me tirar cinco ou seis horas de prática da minha escrita. Acho interessante, mas é uma opção arriscada.

O ritmo da escrita

Tem uma passagem do Confissões em que Santo Agostinho diz assim:
“Eu estranhava muito porque, quando chegava para ter aulas com Mestre Ambrósio, ele estava olhando para um texto, mas lia com seu coração, porque sua boca não se movimentava”.

Então, muitos atribuem a Santo Ambrósio esse aperfeiçoamento que a gente adquiriu, essa conquista da leitura silenciosa. Aliás, isso no desenvolvimento da própria existência humana também é assim. A criança, quando começa a ler, lê sempre em voz alta. Depois lentamente adquire a leitura silenciosa. Então, nós lemos, guardamos dentro de nós resquícios dessa leitura em voz alta. Eu estou por vezes acompanhando com a respiração, e pensando em finais de livro, quando penso: o compositor Rachmaninov assinava seus finais de música sempre com pan-pan-pan-ran-ran.

Eu também tenho procurado isso, especialmente nas últimas frases dos meus livros, gosto de dar uma cadência. Pena que eu não tenha de cor os meus livros, mas, me lembro de O pintor de retratos, por exemplo, em que eu mais trabalhei. Fiquei uma semana com aquela frase final no computador, sozinha, e eu ia e voltava, e mexia, colocava uma palavra, tirava outra e cheguei numa coisa assim:
“E com olhos que tanto viram e tanto amaram, percebeu a solidez terrestre dos campos e a placidez eterna das luzes”.

Aí, achei. E tem aquela passagem, tem uma passagem clássica que é uma carta que o Flaubert escreveu para aquela sua apaixonada eterna. Ele estava publicando em folhetim Madame Bovary, antes de publicá-lo em livro, e na carta ele diz assim:
“Imagine que recebi aqui aquele diretor de jornal que veio me pedir humildemente que eu tirasse o nome do seu jornal do meu livro, quando fosse publicá-lo. Eu fiquei indignado com aquele homem. Isso é coisa que se faça?”

Bom, tudo bem. Flaubert está se queixando do cara interferir na criação dele, a gente pensa. Mas aí ele termina assim:
“E as minhas frases, como é que vão ficar?”

Ele estava pensando no ritmo daquelas palavras! Ele construiu frases a que esse ritmo pertencia. Há gente que pensa que o ritmo é só da poesia. Não é. Isso eu vejo com meus alunos.

O escritor e o teórico

Eu vivo literatura 24 horas por dia. Ou dando aula de literatura ou escrevendo. É uma coisa boa. Mas na hora de escrever, procuro fazer com que isso [a teoria literária] não atrapalhe. Mas às vezes, se eu me descuido, realmente me atrapalha. E vou me dando conta. De onde é que surgiu aquilo? Aí vêm aquelas categorias teóricas e tal. Mas tem um dado aí que eu acho muito importante.

Hoje, os escritores estão saindo das universidades. Saem, não se retiram das universidades. Pertencem à universidade, são oriundos da universidade, são acadêmicos. É uma tendência mundial. Veja os escritores americanos, pode pegar qualquer um desses aí, são professores da universidade não sei o quê. Mesmo que seja professor de escrita criativa. Então, os escritores hoje são pessoas ligadas à universidade, que podem refletir sobre o seu próprio trabalho. Há uma maior sofisticação, no mau sentido, do texto, e talvez uma diminuição no número de leitores. Quando a gente vê a chamada literatura pós-moderna, que é sem personagem, sem intriga, sem conflito, sem nada… E depois se queixam de que não têm leitores. É quase sem literatura também! Então não dizem nada, mas nada, rigorosamente nada. Então, normalmente vamos encontrar o acadêmico. Tem essa dupla face da coisa. Ela é boa por um lado, mas é má por outro. Porque esses escritores muitas vezes perdem a vitalidade literária. Aquele componente de certa perversidade, que o escritor tem de ter. Desaparece um pouco. Vira uma coisa meio anódina. E a gente não sabe bem o que está acontecendo, qual é o ponto, o problema, o que está sendo discutido. E muitas vezes não está sendo discutido nada. E eu não penso como Benjamin, quando ele dizia que mesmo a literatura intimista é social na medida em que revela um desconforto do criador. Não acredito nisso.

A morte

A morte é um dos pratos preferidos da literatura. O que aconteceu comigo foi isto: fiquei muito doente. E isso foi há muitos anos. Há mais de três décadas. E eu estava muito mal, precisei ir para o hospital, e estava com um diagnóstico errado, foi uma coisa horrorosa. Um amigo meu, médico, fez umas radiografias, e disse:
“Olha vou ter de fazer uma cirurgia agora”.
Eu disse:
“Bom, mas o que tu pensas sobre isso?”
Ele disse:
“Não sei. Estou confuso. Vou ter que intervir”.

É duro ouvir isso. Foi uma coisa terrível. Quando acordei, tive aquela sensação: morri, estou no céu, tudo branco em cima, luzes diretamente nos olhos, uma coisa horrorosa. Aí me dei conta de que havia sobrevivido. Naquele tempo, a recuperação cirúrgica era uma coisa lenta. A gente ia para casa e ficava três meses ali, era um horror. E eu estava na orquestra. Via minha mulher sair para trabalhar, minha filha sair para a escola e eu sozinho em casa. Bom, pensei, vou enlouquecer. Tem aquela coisa: depressão pós-cirúrgica. Eu tinha algumas idéias e resolvi pô-las no papel. E aquilo me reacendeu o gosto pela vida. E terminei aquilo e pronto. Nem sabia o que era. E achava uma coisa ruim. Possivelmente era. Até que minha mulher disse:
“E aí, terminaste o livro, e o que tu vai fazer?”
E eu disse:
“Nada, é muito ruim”.

Aí ela leu. Ela é uma mulher muito veraz, uma pessoa rara, cruelmente veraz, e ao mesmo tempo é uma leitora excelente. Leu e disse:

“É, realmente não é uma obra-prima. Mas pode ser publicada. É um primeiro livro”.
“É, mas mesmo assim, não vou publicar”, respondi.

E deixei numa gaveta. E aconteceu. Passados uns três ou quatro meses, recebi uma carta do Instituto Estadual do Livro. Abri e estava escrito assim:
“Caro escritor. Viemos comunicar que seu livro foi aprovado para publicação”.

Foi uma traição da minha mulher. Ela tirou uma fotocópia do livro, escondida, e o mandou. Então não é o que eu vejo nos meus jovens alunos. Eu quero ser escritor. Quando penso nos escritores da minha geração, o Sérgio Faraco, o Luis Fernando Verissimo, o João Gilberto Noll, nenhum de nós teve a intenção de ser escritor.

Método de criação

Meu terceiro livro, Bacia das almas, cheguei a escrever 22 páginas num dia. É uma estupidez, uma irresponsabilidade total. Hoje, escrevo cada vez mais lentamente. Cada palavra, eu penso muito antes de pôr no papel. É possível que com isso se perca muito da vitalidade da obra. Acho que ela ganha esteticamente. A partir dessa minha preocupação, que eu acho que começou com O pintor de retratos, é que passei a ter premiações que não tinha antes. O Portugal Telecom, o Jabuti… Ocorreram depois de uma alteração estética bastante forte que eu tive com O pintor de retratos.

Eu estava insatisfeito com o que escrevia. Eram períodos gramaticais muito longos. Muita utilização de ordem inversa. Um certo barroco de que muitos gostavam. Meus leitores antigos gostavam daquilo. Mas eu estava insatisfeito. Mas eu tinha de mudar. E por uma razão acadêmica, eu tive que reler um livro que eu havia lido no Colégio Anchieta, Cantares Del Mio Cid. Abri o livro e disse:
“Mas era isso que eu procurava”.

É uma linguagem medieval, um dos romances mais importantes desse período medieval. Então El Cid andou durante toda a tarde. Ponto. Trouxeram-lhe dois cavalos. Ponto. Eles escreviam pouco porque o material de escrita era muito caro, então tinham de comprimir muito. O pergaminho era muito caro. Não só as palavras eram abreviadas. O próprio texto ficava enxuto. Os capítulos são pequenos. Vinte linhas. Eu disse:
“Claro, ele já descobriu isso há 800 anos”.

Aí é que está. E me lembrei das histórias da Bíblia. São modelos de contenção, de encarceramento da palavra, de essencialidade, fundamentalmente. Se tirar uma palavra da frase, ela não existe mais. Então, eu disse:
“É isso. Eu preciso recuperar essa essencialidade original da literatura”.

Não minha, mas da literatura. Porque a Bíblia consegue transformar o mundo dessa forma. Os Cantares se tornam uma obra de referência do cânone do ocidente. Conseguem emocionar. É muito simples. Eu estava escrevendo demais. Então passei a escrever menos. Meus romances se tornaram menores. Meus períodos gramaticais se tornaram menores. Não há excessos. Exceto excessos deliberados. Posso fazer um capítulo inteiro sobre um movimento de uma pluma, sobre a cabeça de um cavalo. Excessos deliberados. Porque um livro pode ter 80 páginas e ser excessivo. Pode ter 600 e ser essencial. Então, a coisa passa pela linguagem. E depois eu assumi essa alteração, digamos, lingüística, frasal, que também é uma alteração de conteúdo. Mas isso me leva a escrever muito mais lentamente, pensar muito, cada palavra é muito importante, então eu penso nos sinônimos… Aí não são só sinônimos, como a gente sabe. Achar a palavra que diz exatamente a coisa que se quer dizer.

Procuro trabalhar com substantivos concretos, adjetivos concretos. Se for tratar com abstrato, coloco um adjetivo abstrato junto com um substantivo concreto. Cria-se uma realidade nova. Pronto. Transforma-se uma coisa banal em algo original. Eu proponho muito isso aos meus alunos. […] Vejo colegas meus que pegam os livros e retocam, em edições. O Josué Montello retocou e retocou e retocou seus livros. Se desfiguraram. Eu nunca poderia fazer isso. Não consigo. E quando abro um livro há sempre uma barbaridade. Coisas que me incomodam e tal. Então, até nem os tenho na minha estante. Estão num armário. Claro que isso deve ter uma explicação mais profunda. Onde eu não quero chegar. Mas, na verdade, o livro que estou escrevendo sempre é o melhor. Aliás, vou dar um conselho: quando forem elogiar um livro de um escritor, nunca digam que o primeiro livro dele é o melhor, nunca. Nem que o do meio é o melhor. Vocês têm de mentir. Têm que dizer:
“O último livro é o melhor de todos, é o seu melhor livro”.
Mas se quiserem aperfeiçoar isso, digam:
“O melhor é o que você está escrevendo agora, esse será melhor ainda”.

Adaptação para o cinema

Nos três casos quiseram que eu lesse o roteiro. Não li. Em primeiro lugar, porque não vão me pagar por isso. Já começa por aí. Segundo, que eu não entendo. E em terceiro, eu tenho preguiça e quero ter a surpresa de assistir e ver como é. E também me convidaram para assistir a um dia de filmagem.

O Luiz Carlos Barreto tanto insistiu que eu assisti a um dia de gravações. E não deveria ter feito isso. Até porque o que eu assisti não foi posto no filme [A paixão de Jacobina]. O diretor tem todo o direito de fazer o que bem entender. Ele tem de ter uma fidelidade só, que é a fidelidade a si mesmo. Realizar um bom filme. Antes de mais nada, o filme tem de ser bom. Se é fiel ou não ao livro, é uma questão secundária. Eu não me considero o proprietário. O título do filme mudou de Videiras de cristal para A paixão de Jacobina. Eu achei interessante, até melhor que o meu título. Aí o meu editor me telefonou. Me disse:
“Assis, é o seguinte…”
E estava cheio de onda para falar.
“O que é? Não tem dinheiro para me pagar?”
“Não, a gente está pensando sobre Videiras de cristal, em função do filme…”
“Qual é o problema?”
“Não é que a gente… Não te importarias se a gente pusesse assim A paixão de Jacobina e, embaixo, Videiras de cristal?”

Aí eu estava assim, no telefone, e minha mulher, no computador. Eu relatei isso, isso e isso a ela, o que tu acha? Ela ergueu os ombros e continuou escrevendo.
“Vai ser bom para a editora?”, perguntei.
“Sim! Vai vender mais”, disse o editor. E o editor se animou. “E, aí, vai ter mais direitos autorais para você ganhar.”
E eu:
“Mas não vai ficar chato depois?”

E me lembrei de uma coisa ridícula: a ficha catalográfica nas bibliotecas. E ele:
“Isso não é problema. Não é mesmo”.
Mas daí, um pouco de pudor da minha parte… Disse:
“Então fica uma edição assim. Depois a gente volta para o título antigo”.

A crítica

Na maioria das vezes, o leitor tem razão. Tem razão mesmo. Crítica desfavorável faz parte da trajetória de todo escritor. Alguns ex-alunos meus começam a publicar, sai um negócio, querem morrer. Eu vou lá, meio paternal. Cito exemplos históricos. Claro, não ajuda nada. Aí eu digo:
“Crítica não se responde. Não se responde. A gente se manifesta, diz que agradece a atenção, ótimo”.

A melhor resposta, a meu ver, foi dada pelo Eça ao Machado quando este escreveu uma crítica pavorosa numa revista literária, O Cruzeiro, do século 19. Machado fez uma crítica pavorosa ao Primo Basílio. Não sobrou nada do livro. Machado começa dizendo que ele é o maior estilista da língua, tudo o mais… E depois vem um pau que não sobra nada. O Eça escreveu uma carta para ele, e disse que agradecia muito o interesse que ele teve em ler a obra, e enfim considerava interessante, tinha muitos pontos de vista interessantes. Porque a meu ver foi algo saudável. E não se conhece a resposta do Machado, se é que ele respondeu. Me parece muito saudável. Temos que ver isso com muita naturalidade. E não pensar assim: Não, escreveu mal e agora? Está sem razão. Não é isso. Eu já tive críticas desfavoráveis, como todo escritor. Com algumas delas, eu aprendi.

Incentivo à leitura

Eu acho que há um elemento absolutamente fundamental: o nível de vida das pessoas. No momento em que houver uma distribuição maior de renda vai se ler mais. Isso é natural. Todo país rico lê muito. A leitura ensina. Então isso tudo é um processo que deriva da condição de vida das pessoas.

Claro, aqui no Paraná, no Rio Grande, em Santa Catarina, temos uma distribuição razoável de renda, temos a maior classe média do país, a que lê. Então me parece que esse dado é muito relevante. Mas há os atalhos. Eu acho que o caso do Rascunho é um exemplo típico do que forma o leitor. Isso claramente. Suplementos literários em jornais, tudo isso é muito importante. E nesse sentido as oficinas literárias constituem um dos mecanismos a mais na formação do leitor. Em 21 anos, passaram pela minha oficina 680 alunos.

Eu fiz uma pesquisa, mas uma pesquisa realmente científica, tinha dois auxiliares de pesquisa. Dos alunos, 17% continuam escrevendo depois da oficina. Mesmo que não publiquem. E se a gente pensar que eu tenho, digamos, um número em torno de 60, 70, de ex-alunos que já publicaram livros, então são 10% que publicaram livros. Então a gente pensa assim: Bom, eu acho que é razoável. Acho bom, um nível muito bom. E os outros 90% se tornaram muito bons leitores. Então me parece que essas experiências de oficina de criação literária têm essa dupla face. Por um lado, podem formar escritores, mas sem dúvida, todos eles saem melhores leitores.

Literatura de entretenimento

O que eu penso sobre literatura de massa? Quem primeiro levantou essa questão no Brasil, a meu ver, salvo erro, foi José Paulo Paes. Um artigo que deve ter uns 30 anos, mais ou menos. E o centro da coisa era o seguinte, ele dizia:
“Nos faltam no Brasil escritores de entretenimento. Nós não temos. E por que não temos? Por que não tê-los?”

Dizia ele que os escritores brasileiros queriam ser muito artistas. E acabavam não tendo leitores. Então, nesse artigo ele dizia:
“Por que não o escritor brasileiro fazer um livro que a pessoa leve para ler na praia e depois jogue fora?”

Na época, eu ainda não tinha visto alguém falar isso, alguém daquela representatividade. Aquilo me impressionou. Tenho amigos que pensam de maneira diferente. Meu argumento, entre outros, é: normalmente essa literatura de massa vai dar origem a leitores mais exigentes. Eu penso isso. Eu tenho exemplos muito próximos a mim em que isso aconteceu. Essa literatura de massa acaba dando reforço de caixa para editoras poderem publicar outros autores, não tão vendidos. Isso é relevante. Acho muito relevante. Para a indústria cultural é importante. Então é assim: é preferível que a gente veja um livro desses na mão de um leitor, do que livro nenhum. Não sou contra. Não é o que me satisfaz realmente. Já sei o que vai acontecer dali a 20 páginas. Depois já sei. Pronto. Tudo construído em cima de clichês narrativos, não é? Mas são eficientes. Os americanos já descobriram isso. Eles usam muito esse conhecimento que a literatura produz. Eu vejo isso com muita naturalidade. Não sou contra. Não leio, ou leio quando sou obrigado.

Agente literário

No sistema literário brasileiro, só agora estão começando a trabalhar os agentes literários. É algo extremamente novo e necessário. É o agente literário que vai procurar o editor. O agente vai mandar fazer uma tradução para o inglês de um capítulo do livro, mandar para as editoras, que não lêem em língua portuguesa. Lêem em espanhol ou em inglês.

O agente literário é muito importante. Nós vivemos numa situação, no nosso país, que foi bastante prejudicada pela Semana de Arte Moderna. O escritor brasileiro, se a gente pensar aí no Machado, mesmo no José de Alencar, se pensar no Monteiro Lobato, se pensar numa geração um pouco posterior, vamos ver que eles já estavam desenvolvendo uma relação profissional com suas editoras. Na Semana de Arte Moderna, como aqueles meninos eram todos milionários, eles acabaram criando uma coisa promíscua em relação ao escritor, não estavam interessados em profissionalismo. Isso contaminou a vida literária brasileira. Agora é que estamos saindo disso. Com agentes literários. Por acaso, no Brasil, são mulheres. São todas mulheres. Aliás, uma das maiores agências literárias do mundo é de uma mulher, da Carmen Balcells. Mas enfim, eu acho que a entrada do agente literário no sistema literário brasileiro está sendo muito benéfica. Agora mesmo vim lá da Flip, de Paraty, e pude perceber o trabalho dos agentes literários. Vão atrás do editor, oferecem um jantar, oferecem, negociam, discutem contratos. Coisa que o escritor sempre teve pudor de fazer.

Fonte:
Jornal Rascunho. http://rascunho.rpc.com.br/

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Anthony Leahy (O Escritor em Xeque)

Anthony Leahy é Diretor do Instituto Memória, Editor da Revista Pedra da Gazeta
Pesquisador membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná,
Membro da Academia de Cultura de Curitiba e da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História, Medalha de Mérito Cultural 2007 da Câmara Municipal de Curitiba, Comenda Rui Barbosa (2007 – SP) e Comenda Dom Pedro I (2008 – SP). Já foi livreiro e desde 2003 atua como editor de livros e revistas. Palestrante atuante sobre a formação da identidade Brasileira onde defende a cultura regional e a diversidade cultural nacional. Autor do livro “Curitiba Nas Curvas Do Tempo” e do Projeto “Piá Bom De História”.
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Entrevista realizada pela correspondente ETUR Curitiba, Vanessa Wosniak

Fale-nos um pouco sobre o Instituto Memória.

Eu era Diretor da Revista Where Curitiba, uma revista especializada em roteiros de entretenimento, mas eu queria dedicar-me, exclusivamente, ao resgate da história do Paraná. Eu sou de Salvador-BA e meu pai sempre gostou muito de Curitiba, viajava para a cidade todos os anos visando “pegar o frio” e quando voltava ele contava as histórias da cidade para os filhos, sempre falando que se fosse mais jovem ele se mudaria para Curitiba devido a profunda identificação com a cidade e com a sua cultura.

Quando eu me casei e tive minhas duas filhas, decidimos, eu e minha esposa Maritza, que queria criá-las em Curitiba, que aprendi a amar pelas histórias que ouvia. Porém, quando cheguei aqui, não encontrei mais a Curitiba de meu pai. As pessoas não conheciam Curitiba. A cidade teve uma grande “invasão”, cresceu muito rapidamente e não deu tempo de consolidar uma identidade própria a partir de seu passado. Então, às vezes, eu, vindo de fora, conhecia mais a cidade do que a maioria do curitibanos com a minha faixa etária (35 anos à época). Ás vezes, eu saía como mentiroso quando contava as histórias da cidade, a exemplo da “guerra do pente” que quase ninguém conhece.

Não era raro as pessoas falarem: “Não, isso nunca aconteceu aqui”. Isso acontece porque houve uma quebra de vínculo com o passado. As pessoas não param mais para aprender com os mais velhos, passando a adotar os valores e costumes exóticos transmitidos pela televisão. O que é péssimo, pois perdemos a diversidade cultural brasileira, extremamente rica. Como sempre fui muito apaixonado por Curitiba, decidi promover o resgate da história da cidade e, após ouvir muitos curitibanos com mais de 70 anos, em 2002, abri o Instituto Memória, lançando o livro “Curitiba Nas Curvas Do Tempo”. Eu comecei como Curitibano (ou “curitibaiano”), para mim não existia o Paraná.

Posteriormente, eu fui me envolvendo com o resto do Estado, consolidando a minha paixão e o meu paranismo. Hoje faço parte, com muito orgulho, do Conselho Deliberativo da ONG Lapa Mundi, que visa resgatar a importância da nossa Lapa no cenário paranaense e nacional, porque me envolvi com a história do heróico Cerco da Lapa que salvou a república brasileira a custa de muito sangue e dor. Percebi que o Paraná foi construído por grandes paranaenses e grandes paranistas, a exemplo do 1º presidente e instalador da província o baiano Zacarias de Góes e Vasconcellos e do instalador da Santa Casa da Misericórdia, o também baiano Dr. Murici, que foram pessoas que amaram e lutaram pelo Paraná. Ninguém escolhe onde nascer! É um imperativo do destino. Agora, podemos escolher o que amar e ao que defender! Tem que ter compromisso com a terra e suas tradições.

De que adianta ter a sorte de nascer aqui se não sabe nada da historia? Só amamos e valorizamos o que conhecemos. São os vínculos emocionais que fazem uma identidade, e não um local de nascimento ou um sotaque. Hoje o Instituto Memória tem como proposta atuar como editora especializada em Pesquisa Histórica e Projetos Culturais, focados no resgate e convalidação da identidade paranaense a partir da democratização do saber histórico que permite a consolidação da cidadania consciente, sempre tendo como meta a dignificação do Ser Humano em todas as suas dimensões.

Como surgiu a idéia do projeto “Piá Bom de História”?

Sou membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, o que me permite continuar aprendendo, ou pelo menos, ter mais dúvidas, pois quanto mais se busca, mas reflexões são necessárias para entender o processo histórico e não apenas decorar datas e fatos. Cada vez que eu compro mais livros (hoje eu tenho um acervo relativamente pequeno para o que eu quero, porém extremamente precioso, pois são cerca de 250 livros só sobre o Paraná) mais dúvidas eu tenho! Não tenho respostas, mas já estou conseguindo formular as perguntas corretamente, o que já é o principio das respostas. Lançamos um livro sobre a história de Curitiba, que é denominado “Curitiba nas curvas do tempo”, privilegiando as histórias que são contadas de pai para filho, de avó para neto, sobre o cotidiano dos fatos e das pessoas.

A historiografia é apenas um referencial. Necessário, porém frio e distante, não servindo para criar vínculos emocionais. E as histórias que meu pai me contou e que outros “avós curitibanos” (visto que fui literalmente adotado aqui em Curitiba) eu coloquei nesse livro. E para fazer chegar estas informações para quem mais precisa, de forma gratuita, desenvolvemos um projeto de distribuição nas escolas que é denominado “Piá Bom de História”, em que empresas “adotam” uma escola e patrocinam a distribuição para os seus alunos e professores. O por quê desse projeto?

Conhecer para preservar e preservar. Se você passar por diversos monumentos públicos da cidade vai encontrá-los pixados. Por que? Porque para maioria da população aquilo ali é só pedra fria. As pessoas precisam entender o que é que aquilo representa para tomarem mais cuidado. E não me refiro só à comunidade mais carente, mas toda sociedade que precisa estar comprometida com a história da cidade, totalmente. Quem está à margem da sociedade danifica para compensar suas frustrações e o descaso das autoridades, e as classes média e alta não estão se preocupando com isso, estão apáticas.

Se nós não tomarmos cuidado com nosso passado nós não seremos nada no futuro. Nascer em Curitiba não significa nada, poderia ser em São Paulo, Rio, mas as pessoas têm que optar por querer ser Curitibano mesmo. E para isso precisam se identificar com a cidade, lutar pelo futuro dela, ser grato a ela e colocar a sua vida a disposição dela, enquanto local que você nasceu ou que te acolheu. E é isso que tenho procurado fazer, tentando resgatar essa identidade, esse orgulho de ser curitibano, não só nas palavras, mas, principalmente nas atitudes. Afinal, como já foi dito por alguém, uma cidade é a vontade do seu povo e nossas atitudes nos define.

De que maneira o livro pode ser adquirido pelas empresas interessadas em patrocinar o projeto?

O livro nós bancamos e passamos praticamente a preço de custo. Nós temos vários nichos de patrocínio, desde as grandes empresas as pequenas. Existe a empresa que adota uma escola, ou quantas desejar, ao custo de R$ 3,00 por aluno, e nós promovemos a distribuição, e fomentando a democratização do saber histórico de Curitiba para aquela comunidade. A empresa pode, também, comprar para os seus próprios funcionários fazendo deles multiplicadores do conhecimento histórico da cidade. Essas são possibilidades para as grandes empresas.

As empresas menores podem adquirir um lote de cem livros pelo custo de R$ 500,00. Esses livros são doados para os clientes da empresa, para também promover a democratização do saber histórico sobre a cidade. Nós trabalhamos no macro, em ações grandes, mas também no micro, em ações menores para que todas as ações somadas nos levem ao objetivo de resgatar a identidade curitibana e a partir da curitibana a paranaense.

Como está a participação das empresas no projeto, muitas tem aderido?

Hoje temos mais empresas pequenas do que grandes como parceiras. A grande empresa é sempre mais burocrática.

Na pequena empresa você tem acesso direto ao dono, que, inclusive, está muito mais comprometido com a comunidade e tem poder de decisão imediata. Ele compra e distribui o livro e ainda acaba fazendo uma promoção de marketing cultural, por exemplo, a cada cinco cafezinhos ou almoço você ganha um livro, então o retorno é para a própria empresa. É a relação ganha-ganha, bom para todos os envolvidos. Já nas grandes empresas a dificuldade de acesso é maior, pois tem a agência de publicidade, assessor de imprensa, marketing etc, e o processo de decisão é muito demorado.

Porém já temos algumas empresas de grande porte que estão bem adiantadas na negociação. O nosso grande parceiro hoje é o Instituto Pró Cidadania de Curitiba – IPCC, eles compram nossos livros, revendem nas lojas Leve Curitiba e o lucro que eles tem é voltado para os projetos sociais do próprio IPCC. A FNAC também é exemplo de uma grande empresa parceira, uma rede francesa que promove e valoriza as ações que elevem a cultura local. É uma empresa muito mais paranista do que outras que são paranaenses. O projeto está indo muito bem, nós já vendemos 8.000 livros desde o inicio em maio de 2004.

O projeto é lincado a outro: o Prêmio de Responsabilidade Cultural, que certifica o patrocinador como “Empresa Culturalmente Responsável”. Em agosto de 2004, certificamos algumas empresas que foram parceiras, a exemplo do IPCC, do CCVB – Curitiba Convention & Visitors Bureau, o Colégio Maristas Santa Maria, o Provedor Onda, a Advel imóveis, a Web Veritas entre outras. Nós certificamos o compromisso que eles tiveram com o resgate da história da cidade. São exemplos de entidades comprometidas com a cidade e receberam a certificação de Responsabilidade Cultural. Em novembro deste ano, teremos uma nova fase de certificação. Esse prêmio começa em função do livro, mas a perspectiva futura dele é não se ater apenas a esse projeto. Pretendemos identificar empresas culturalmente responsáveis em várias áreas e premia-las.

E existe um acompanhamento das escolas após a distribuição dos livros?

Sim, nós fazemos um acompanhamento, fazemos palestras, convocamos a direção das escolas para realizar algum evento com os alunos e comprometemos principalmente os professores para que eles sejam incentivadores da importância da história. Se nós conseguirmos entre 1000 comprometer 10 alunos já estaremos conseguindo 10 formadores de opinião. Eles vão dividir com os amigos e familiares. Sabemos que apenas ler o livro e ouvir uma palestra não vai resgatar toda a cultura histórica que está sendo perdida, mas é um começo, uma primeira ação.

O aniversário da cidade passou (29 de março) e ninguém falou nada, se nós não falarmos da nossa cidade quem vai falar? Não sabemos nem cantar o nosso hino! A construção da identidade é por recepção, é por “ouvir falar”, mas não se fala! Nem na escola, pois os próprios professores não sabem a história, pois não a aprenderam.

É importante massificar o orgulho de ser curitibano a partir da democratização do acesso ao saber histórico da cidade. Essa é a missão do Instituto Memória, falar da história, promover a discussão, não pretendemos promover verdades históricas, mas sim promover a busca das verdades. Rafael Greca (ex prefeito da cidade) me disse um coisa muito interessante: “A História é como um estilingue, quanto mais para trás você puxa mais para frente ele acerta”.

Então a Curitiba e o Paraná que nós queremos, para podermos delinear muito claramente, é preciso puxar para trás, identificando quem é o curitibano, quem é o paranaense, qual é a evolução que houve e qual a necessária? Só assim poderemos evoluir com consciência de identidade. E não é a juventude que vai saber se não tiver ninguém estimulando sistematicamente, continuamente o interesse pela história. A juventude por natureza não é tradicionalista ela vive para o futuro, cabe aos mais velhos estimular o culto as tradições e a identidade, porque aí tem-se o processo de dinâmica social mas se resguarda a identidade. Inserir o novo, sem, contudo, descuidar do antigo, das tradições.

O Instituto já tentou buscar apoio nas Secretarias de Turismo e/ou Cultura de Curitiba uma vez que o projeto divulga a cidade e resgata sua cultura?

As Secretarias e os órgãos governamentais por forças burocráticas aprovam projetos através das leis de incentivo a cultura e este processo é muito demorado, aproximadamente 2 anos. E como eu não tenho muita paciência para esperar preferi correr atrás sem a lei. Mas eu estou tentando através da Secretaria da Cultura ver quem são as pessoas que poderiam me atender para nós discutirmos possibilidades, pois é consolidar a imagem de Curitiba para Curitiba e para quem vem de fora. E, por incrível que pareça, quem vem de fora tem mostrado grande interesse pelo livro, e não tem nada de turismo nele! Eu mudei uma visão estereotipada que tinha que turista só quer ver os bibelôs. Não, ele quer conhecê-los também, a história, pois quando ele conhece o processo histórico da cidade, a viagem ganha outro significado.

E sobre o projeto da revista eletrônica “Pedra da Gazeta”?

Na década de 1940 a Gazeta do Povo (jornal paranaense) era na Rua XV (das flores) e a comunicação não era como hoje, celular, Internet. Então, para atualizar a população sobre as notícias de última hora, a Gazeta mantinha uma pedra de mármore negro ao lado da entrada principal onde os jornalistas iam colocando as notícias de última hora, inclusive as mortes, as pessoas se reuniam em torno da “Pedra da Gazeta”, como ficou conhecida, para saber das últimas notícias. Ficavam tomando café no Alvoradinha e discutindo as soluções para o mundo. Este espaço ficou conhecido como Senadinho. Quando eu tive a idéia de lançar uma revista eletrônica eu disse: “É a Pedra da Gazeta!”.

Ou seja, resgatamos um momento, já esquecido, da história cotidiana da cidade e criarmos um veículo ágil e atualizado que congregue as pessoas para discutir a cidade e o estado. A Pedra da Gazeta no meio eletrônico é onde o século XX e XXI se encontram. Aquela Pedra da Gazeta da década de 1940 que era o meio de comunicação mais ágil da época agora está na Internet mas continua com a mesma proposta. Dizia-se que quem morria e não saía na Pedra da Gazeta é porque não tinha morrido direito, tinha algo de errado, porque era o local de maior interesse público, de credibilidade.

Na revista eletrônica não temos lista de mortes, mas teremos de crianças desaparecidas. A idéia de agilidade, de informação, de congregar pessoas para discutir rumos, contar casos e, às vezes, até contar vantagem, é a mesma. É um grande centro de informações paranistas, onde serão disponibilizados documentos históricos, entrevistas, culinária, notícias, curiosidades, além da biblioteca e videoteca histórica. As famílias que tiverem interesse em contar como chegaram ao Paraná e como viveram terão espaço aberto, pois aquilo que você conta, divide você perpetua para toda vida.

Dizem que o curitibano é um povo “frio”. O Senhor sentiu essa frieza quando mudou-se para a cidade?

Dizem…eu sou suspeito para te responder isso pois fui tão bem recebido aqui em Curitiba, que posso lhe dizer que sou melhor recebido aqui do que em Salvador, onde eu nasci.

Talvez pelo meu processo de identificação com a cidade, ou seja, eu já gostava tanto de Curitiba que não tive tempo a perder com quem queria me julgar. Sei que existe um certo preconceito, algumas pessoas que não sabem nada da cidade, mas se acham no direito de julgar, pois eu não poderia saber mais da cidade do que ele, nascido aqui! Agora quando se fala da relação entre curitibanos acredito que haja sim um processo autofágico e isso vem das descendências imigratórias: o alemão, o italiano, o polonês.

Na Europa eles tinham tradições de guerra e conflitos e quando chegaram aqui eles se cristalizaram dentro de suas colônias, mantendo um certo preconceito entre eles. O tempo passou, a miscigenação aconteceu, mas ainda existe esse sentimento atávico de autofagia entre a população curitibana. Mas eu, particularmente fui muito bem acolhido aqui, talvez devido a minha paixão pela cidade, se teve alguém com má vontade comigo eu não notei. Não tenho tempo a perder com os pobres de espírito.

Minha preocupação é com o futuro, pois aqui passarei o resto da minha vida, sempre amando e lutando pela cidade, e para aqui trouxe o que tenho de mais importante: Minas filhas Letícia e Érika Leahy. Para elas, se depender da minha vontade, deixarei um Paraná ainda maior. E, também, deixarei uma tradição de amar e respeitar esta terra que me acolheu e tantos outros, migrantes ou imigrantes, para que juntos façamos que ela ocupe o lugar de destaque de direito dentro os estados brasileiros.

O Senhor poderia nos deixar uma mensagem final?

Não estou aqui para ensinar a ninguém, mas, para aprender juntos. Minha condição de filho adotivo desta terra obriga-me, moralmente, a uma gratidão eterna. E para a reflexão final, deixo o seguinte poema:

“Orgulha-te de ser filho desta terra,
Deste solo de encantos feiticeiros,
Onde há o verde ouro que a erva mate encerra,
E ergue-se a majestade do pinheiro”.
–––––––––––––––––––––––––––––––-

Fonte:
Resgatando a História de Curitiba. Entrevista realizada pela correspondente ETUR Curitiba, Vanessa Wosniak, em 27/7/2005. Disponível em http://www.etur.com.br/conteudocompleto.asp?idconteudo=7621

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Arquivado em Biografia, Curitiba, Entrevista, O Escritor em Xeque, Paraná

Jorge Linhaça (O Escritor em Xeque)

Entrevista cedida ao Portal CEN (Cá Estamos Nós), de Carlos Leite Ribeiro.

Jorge Linhaça
Profissão: Pedagogo

Quer falar um pouco da terra onde mora?

Resido atualmente em Arandú, pequeno município no interior do Estado de São Paulo. É uma cidade predominantemente agrícola e diria até mesmo bucólica.

Quando começou a escrever?

Comecei a escrever meus primeiros rascunhos poéticos na sétima série escolar, incentivado por um professor de Língua Portuguesa, mas foram coisas esporádicas, alguns anos depois meti-me em um concurso que acabou por levar-me á Academia Juvenil de Letras, mas na época minha paixão pelo teatro falou mais forte e abandonei a cadeira. Situar o momento em que comecei uma produção mais constante leva-me ao ano de 2003 quando timidamente comecei a escrever e divulgar na internet em 2004/2005 cheguei aos grupos e as coisas foram num crescendo constante até os dias de hoje.

Teve a influência de alguém para começar a escrever?

Sempre fui incentivado pelos meus pais a ler o que me levou a arriscar escrever. No decorrer dessa caminhada literária encontrei nos grupos da internet de depois nos sites muitas pessoas que me estimularam a continuar.

Lembra-se do seu 1º trabalho literário?

Creio que meu primeiro trabalho literário em prosa, digno de nota foi uma peça teatral chamada “Solitárius Discoteque” que nunca cheguei a montar, o primeiro trabalho poético, coincidentemente chamava-se “Discoteque” e foi o que le levou à Academia Juvenil de Letras no ano de 1978.

Foi divulgado (como)?

Segundo o prometido quando de meu ingresso na Academia, deve ter sido divulgado em uma coletânea. A peça está esquecida em algum lugar de meus alfarrábios.

Tem livro (s) impresso (s) (editora e ano)?

Tenho meus textos em algumas coletâneas poéticas
Letras Catarinenses/ Gigantes 2006- Editora Odorizzi
Poesia do Brasil- Vol VI – Proyecto Cultural Sur-Brasil – 2007
Nas Asas da Paz – Editora Alternativa- 2007

Tem livro(s) eletrônico(s) (e-books), editora e ano.
Nas Asas da Poesia ( solo ) 2007

Projetos literários para este ano de 2008/09?

Publicação do meu romance “A Grande Jornada” – em processo de revisão
Publicação de alguns Volumes de Poesias – em processo de seleção dos textos

Como vão ser editados ?

Por uma editora no exterior que está à espera apenas do envio do material.

Fale-nos um pouco de si, como pessoa humana?

Sou uma pessoa simples e complicada de ser entendida. Simples por ser absolutamente transparente naquilo que penso, complicada por que isso causa espanto às pessoas que acham que eu deveria ser mais politicamente correto e fingir não ver certas coisas que acontecem.
Tenho agora centrado minha energia no Movimento dos Incansáveis Amantes da Paz (INCAPAZ-http://incapaz.mywebcommunity.org/index.htm), o que tem-nos dado muitas alegrias, tanto no Brasil quanto no exterior.

Como Escritor (a)?

Como escritor sou o que se pode chamar de eclético e inquieto, faço desde poesia didática a contos de terror, desde poesias líricas às Góticas.
Em relação às formas poéticas vou desde o versolibrismo aos sonetos, passando pro rondéis, rondós, triolés, gazal, cordel e o que mais me caia no gosto.
Na prosa gosto de escrever crônicas de costumes, contos, ensaios e reflexões.
Possuo uma coluna semanal no hebdomadário “Jornal Democrata” , da cidade de São José do Rio Pardo e lá tenho a liberdade de publicar o que queira em prosa ou verso.

Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?

Não necessito de nenhum ambiente especial, a poesia ou prosa me vem nos lugares mais inusitados, como por exemplo o “Soneto ao Trono” ( a lá Bocage) que escrevi no sanitário de uma pizzaria.

Tem prêmios literários?

Alguns pequenos prêmios em concursos na internet;
Comenda Letras Catarinenses;
Destaque Cultural 29ª Expoesia em Porto Alegre;
Premiações como “Melhor Peça” em alguns festivais amadores de teatro

Tem Home Page própria (não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus)?

http://naasadapoesia.blogspot.com

Conhece as vantagens que os Autores do CEN têm em ter sua Home Page ou (e) Livro (s) eletrônicos, nos nossos sites?

Dizer que conheço a fundo seria faltar com a verdade, mas devido ao prestigio que possui o Portal CEN, creio que é uma maneira de divulgar o trabalho em segmentos importantes da literatura lusófona.

Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ?

Começar… esse é o primeiro passo, é o conselho que tenho dado a muitos novos poetas, dos quais, tenho tido a sorte de ser o primeiro a ler os textos e lançar nesse mundão virtual.
Não existe um caminho, o caminho se faz ao caminhar, como dizia um antigo poeta inglês.
O importante é perserverar e não deixar o talento perder-se nas encruzilhadas da vida.
Estudar, pesquisar e aperfeiçoar também é muito importante.

Para terminar este trabalho, queira fazer o favor de mandar um pequeno (e original) trabalho seu (em prosa ou em verso).

A Graça de Fazer Graça

Fazer graça em verso ou em prosa
É uma graça à nos ofertada
Transformar os espinhos numa rosa
Transformar a dor em doce risada

Feliz é o que de si mesmo goza
Ou faz graça do que lhe entristece
vem de graça, a graça numa prece
Como alvorada no céu majestosa

Que graça há, se não fizermos graça?
Se é prá chorar, que seja de rir!
De graça nos vem , já tantas desgraças…

E se a dor passa, num simples sorrir
Levemos, então, à todos, a graça
E a vida passa, sem dores sentir.

Fonte:
http://www.caestamosnos.org/Autores/Jorge_Linhaca.htm

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Arquivado em Arandú, O Escritor em Xeque, São Paulo

O homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem.

Visando um meio de aproximar o público do escritor, de modo a que não enxerguem apenas o escritor, mas o homem que existe atrás dos livros, estou criando entrevistas selecionadas, enviadas a diversos escritores, que mostrará ao público leitor que atrás de seus livros, o escritor é um ser humano com sentimentos, opiniões, lutas, vitórias e derrotas.

O homem atrás do escritor, o escritor atrás do homem.

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José Feldman

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Arquivado em O Escritor em Xeque

Ricardo Corona (O Escritor em Xeque)

Wilmar Silva – Ricardo Corona: como descobriu a poesia em sua vida?
Ricardo Corona – É difícil saber como a poesia entrou na minha vida. Talvez tenha chegado pelo som das páginas sendo viradas dos livros que a minha mãe lia. Ela sempre foi (e ainda é) uma leitora contumaz. O hábito táctil dos livros eu aprendi com ela e, penso agora, a partir da sua pergunta, sobre a repercussão desse som dentro de mim. Organicamente, acabou se misturando aos meus primeiros sentimentos, então, creio que minha descoberta da poesia veio desse som de livros em mãos maternas.

WS – Mais que hesitar entre som e sentido, ser poeta é hesitar entre substantivos e adjetivos?

RC – Os adjetivos têm que ser usados com cautela e sem hesitação. Não titubeio em eliminar adjetivos. Quanto à definição de Paul Valéry (“Poesia é a permanente hesitação entre som e sentido”), é a que mais me significa e desde sempre foi a que mais me interessou e me estimulou como poeta. Hesito sempre.

WS – É possível ao poeta de hoje produzir uma linguagem de invenção quando as vanguardas históricas habitam um abismo?

RC – Não sei exatamente o que quer dizer com “habitam um abismo”. Mas levando ao pé da letra, não vejo nenhum abismo. Conforme o adjetivo da sua pergunta, as vanguardas se transformaram em movimentos históricos. Eu reconheço essas experiências como das mais importantes para o ambiente poético universal. No caso do Brasil, os poetas concretos (Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Pedro Xisto) nos deram régua e compasso… Mesmo que alguns neguem e outros odeiem, a verdade é que ainda usufruímos desse legado. Isto posto, o significado da palavra invenção deixa obrigatoriamente de estar ligado ao momento histórico das vanguardas. A experiência poética de hoje é outra. Acho uma experiência radical, por exemplo, operar cruzamentos de linguagens e épocas num trabalho contemporâneo. Um ritual Tungu está muito próximo de um happening dadaísta. E sabe qual a distância de tempo dessas manifestações? Mais de mil anos. Sabe qual a conexão? Ambas as manifestações trabalhavam poéticas sem sentido. Porém, apenas uma delas é conhecida como uma manifestação de vanguarda, que é a dadaísta. O que estou dizendo é que mesmo sem a necessidade da ruptura, a experiência continua, porque ela sempre esteve presente.

WS – Escrever poemas é o mesmo que remeter cartas para ninguém, ou escrever poemas é o mesmo que plantar as próprias sombras?

RC – Escrever poemas é o mesmo que rabiscar na própria pele. É dar ao mundo uma coisa que é sua. E dar, no meu repertório léxico, é feminino de dor.

WS – Sendo também performer, que pontos de mutação, a exemplo da obra em si como aquele Salto no Vazio de Yves Klein, entre o poeta léxico e o poeta físico?

RC – Acho que artistas como Yves Klein ou mesmo Carole Schneemann são agentes de performance. Claro que há muita similaridade entre a performance e a poesia que vai para o ar. Mas são linguagens autônomas. Eu trabalho com a cena e não me julgo um performer. Acredito piamente quando um texto é lido em voz alta pelo próprio autor. Eu gosto de começar nessa fronteira, nessa dimensão física do texto autoral, nesse lugar em que também se encontra a idéia nietzscheniana de acreditar somente nas coisas escritas com o próprio sangue. Neste sentido, sou um agente de poesia.

WS – A exemplos de tantos nomes que produzem e se publicam, há entrechoques nas poéticas de agora ou o mundo é uma pirâmide de repetição?

RC – Acho que as poéticas de várias épocas e culturas mantêm um diálogo intenso desde sempre. Os cantadores medievais com os poetas de cordel; a poesia de Glauco Mattoso e Gregório de Matos…; o grafite anônimo de hoje com o grafite também anônimo da cidade de Pompéia, do século I d. C. … Mas não acho que isso seja uma pirâmide de repetição. Nossa época carrega nas costas milhões anos de cultura. Acho que temos que aprender que a idéia do “novo” não existe e que o desafio de se criar qualquer coisa mediante um repertório desses, é enorme. Talvez a sensação de impasse esteja mais na dificuldade de se classificar o que se faz hoje. Está difícil aplicar um adjetivo, um rótulo, uma única definição para a produção de agora. E isso é bom, é uma conquista, apesar da dificuldade da leitura crítica, do mapeamento. Mas aí já é um problema dos críticos. A nós cabe escrever sobre o que quisermos e pesquisar nas mais variadas fontes…

WS – Considerando o paradoxo entre a poesia concreta e a poesia marginal, e uma poesia de filigranas que você faz, falando em línguas, que língua Ricardo Corona escreve?

RC – Não existe mais essa dicotomia ou esse paradoxo na poesia brasileira. Não é mais possível pensar a partir desse paradigma. Uma premissa: eu gosto de lembrar o que Ferlinghetti dizia sobre poesia e público leitor, ou seja, que o poeta deve resguardar uma superfície de comunicação. Sem o ledo engano de querer “sentir o hálito das multidões” (Leminski), eu procuro evitar o hermetismo, até porque já penso o poema em voz alta e isso me exige comunicabilidade.

WS – A começar pelo nome que nasce puxando imagens, que imaginações iluminam seu livro de estréia solo Cinemaginário (Editora Iluminuras, SP, 1999)?

RC – A imaginação e as imagens de um cinema mental. Coloquei meus delírios e visões de mundo num fluxo poético. Cinemaginário é um livro enganador, pois parece se prestar mais à arte da visibilidade (da paisagem), mas o que importa nele é o invisível.

WS – Como foi realizada a poética híbrida de sons que comparece no CD Ladrão de Fogo (Editora Medusa, Curitiba, PR, 2001)?

RC – Muitos poemas que estão no CD Ladrão de fogo foram antes estampados no livro Cinemaginário. Porém, antes ainda do livro e do CD, eles compunham um repertório para várias récitas que apresentei pelo Paraná afora. Isso no início dos anos 1990. Então, gravar o CD foi uma conseqüência, um registro do trabalho que eu vinha fazendo. É um trabalho que incorpora processos criativos das vanguardas, mas sem dar as costas para o rico legado de referências que tem a poesia brasileira que está associada ao som, que vai desde as letras de música até a literatura oral.

WS – E Corpo Sutil (Editora Iluminuras, SP, 2005), que carreia para a matéria o adjetivo “sutil”, que materiais foram usados para construir o enfeixe de papel?

RC – A dobra de Corpo sutil está numa poesia “líquida”. Este elemento, a água, aparece no livro como um rio subterrâneo. Esse é o meu diálogo com o mundo, pois este livro, mais do que Cinemaginário, é um livro que está no mundo, que está dentro dele, embrenhado dele, sempre através de questões que me afligem. O meu mundo, digamos, mais individual, também aparece em cada poema, mas é como se fosse uma parte, um gomo de um todo.

WS – Como foi organizar a antologia Outras praias – 13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores – 13 Emerging Brazilian Poets (edição bilíngüe – SP, ed. Iluminuras, 1998)?

RC – Em 1995, quando comecei a cogitar a idéia dessa antologia, lembro que havia muita necessidade de projetos assim. Não tinham revistas como se têm hoje. Os espaços eram bastante escassos e disputados. Dois ou três poetas que circundavam os segundos cadernos dos grandes jornais, alguns por competência e outros por mera relação de amizade com o editor, dominavam o espaço nacional dedicado à poesia. Num ambiente assim, sem internet, sem nada, antologias e revistas eram instrumentos político-culturais que serviam para romper com o dique. O time de poetas que está em Outras praias, com raríssima exceção, ainda está em atividade. E naquela época a maioria estava no seu primeiro ou segundo livro… Pra mim, como organizador, esse é o saldo principal. Fora isso, foi uma antologia bastante discutida, para o bom e para o ruim, e isso é sempre positivo, pois antologias não têm que indicar nada e, aliás, nem se deve acreditar nelas. Como disse, são instrumentos político-culturais.

WS – Que pode dizer sobre as linhas editoriais que divisam as revistas Medusa e Oroboro?

RC – São duas revistas de poesia e arte contemporâneas. Nesse ponto, são idênticas. Ou seja, nas duas publicamos as mesmas coisas. Porém, a Medusa também foi um projeto “guerrilheiro”, igual a antologia. Nós publicávamos sempre aquilo que acreditávamos ser de qualidade, esse era o critério-mor. Mas procurávamos também pautas que provocassem o status-quo. Um exemplo: o dossiê do Sebastião Nunes. Lembro que delirei ao saber que ele havia reproduzido um caderno “Mais!” inteiro sobre o próprio trabalho. Supostos críticos escrevendo sobre seu trabalho e supostos jornalistas o entrevistando. Isso foi genial. Quer dizer, enquanto se travava a maior disputa para publicar um poema na “Folha de S. Paulo”, a Medusa apareceu com um cara que esculhambou com esse “espaço de poder”. Nessas horas é um prazer ser editor de revista. Já a Oroboro iniciou em outro ambiente cultural, com mais revistas, internet, pequenas editoras, etc., além de os grandes jornais estarem mais abertos, um pouco mais, então, a revista acaba apostando mais na rebeldia puramente artística.

WS – Como pratica também ensaios, o que pensa sobre o silêncio da imprensa e da academia frente a muitos autores que produzem uma poesia de invenção?

RC – Não posso dizer que escrevo ensaios. Escrevi alguns aqui e acolá e mantive num jornal daqui de Curitiba, por uns tempos, uma coluna dedicada à poesia contemporânea, na qual escrevi sobre alguns livros de poesia publicados de 2000 pra cá. Mas não dei conta. Acho que o Manoel Ricardo de Lima e também o Manuel da Costa Pinto estão fazendo melhor. E são dois críticos com visões diferentes e sempre escrevem sobre poesia contemporânea. Acho que o tempo mostrará um belo apanhado crítico dessas duas figuras.

WS – Fosse a um bosque curitibano paradisíaco, com que livros viajaria para ler durante as vindimas?

RC – E olha que tenho ido a parques e bosques curitibanos…. Tenho levado comigo livros de Arturo Carrera, poeta argentino, que traduzo com Joca Wolff há uns dois anos. Lembro de ter levado um livro dele chamado El vespertillo de las parcas.

WS – Hoje o poeta vive um exercício em dobras, em todos os sentidos a poesia é algo vivo entre as pessoas, mas o livro ainda é um objeto inacessível ao cotidiano, além de representar a ordem capital das elites —, que paralelos você pode fazer entre cultura e educação?

RC – Os livros deveriam ser mais baratos para se tornarem mais acessíveis. Recentemente, estive em Buenos Aires e uma das coisas que me encantou foi a variedade de formatos que o livro argentino tem. Eles pensam o livro como objeto de consumo, ou seja, o formato de uma publicação é pensado para atender também as diferenças de poder aquisitivo da sociedade, assim como acontece com qualquer produto. Além de medidas assim, que são práticas, por outro lado, e principalmente, deveriam existir mais ações governamentais, políticas de incentivo à leitura, de distribuição de livros, mas seria preciso investir maciçamente nisso, e em educação de modo geral, em formação de leitores, em práticas de envolvimento de todas as faixas etárias com o livro. O livro é um veículo de pensamento e de cultura que nunca será extinto. O homem poderá inventar maneiras telepáticas de se comunicar, mas o livro estará presente, tenho certeza disso. Então, o melhor é inseri-lo no coração das pessoas, como forma de nos elevarmos, crescermos.

WS – Ao contrário do que muitos dizem, eu penso que a poesia é uma arte que nasce da experiência de viver em forma de linguagem e penso que a poesia deveria ser um utensílio doméstico como a panela, por exemplo. O que pensa sobre a importância da poesia no cotidiano das pessoas?

RC – Há uma disposição de se dizer que poesia é inútil. E, de fato, ela parece ser. Mas se pensarmos novamente, desdobrarmos isso, talvez essa pretensa inutilidade venha justamente de uma íntima certeza de sua necessidade. Como se buscássemos preservá-la como última instância de nossa humanidade.

WS – Como vive hoje Ricardo Corona, sabendo que a miséria política porque passamos é uma política que oferece comida para comprar a miséria humana do dia seguinte?

RC – O problema é que isto se transforma num ciclo sem fim, em que a miséria humana comprada ontem pela política miserável fatalmente subtrairá violentamente nossas vidas amanhã.

WS – Falando por políticas de geografia, para reabitar um só exemplo fora do Brasil: Gary Snyder, consegue ver as diferenças de vida e linguagem entre os poetas que atuam hoje em nosso Brasil?

RC – Gary Snyder foi viver a poesia dele em corpo e alma. Existem bem poucos poetas que radicalizaram dessa forma. No Brasil de agora, não vejo ninguém. Acho que o Roberto Piva é um poeta desse naipe. Mas não se pode menosprezar a poesia pelo modo de vida do poeta. Veja o exemplo de Glauco Mattoso, que foi bancário a vida toda…

WS – Se a performance é um poema vivo, a realização de desejos na arte em si, o corpo do artista com o tempo do corpo no espaço, que diferenças realmente acontecem quando Ricardo Corona escreve um poema e quando esse mesmo poema se torna um poema vivo em sinergia com o criador?

RC – É possível criar um poema e se manter distanciado dele. Fernando Pessoa dizia que o poeta é um fingidor, no sentido que, mesmo vivendo aquela dor, é possível fingi-la. Mas a incorporação do poema no corpo do poeta é uma das maneiras de vivê-lo. E o mais perto possível.

WS – Afinal, Ricardo Corona, “Tá viva a letra”?

RC – Nunca se leu tanta poesia em voz alta e em público. Acho que estamos saindo das “amarras” de um pensamento pseudo-livresco e pouco livre para a criação de diferentes poéticas. Estamos nos livrando de fronteiras desnecessárias. A poesia está no ar e continua não estando na moda, o que é muito saudável.

WS – Como será a sua apresentação no projeto Terças Poéticas?

RC – Mesclarei poemas do Ladrão de fogo com outros que estarão no meu novo disco que se chamará justamente TÁVIVAALETRA. Dos poemas novos, um que apresentarei pela primeira vez, que se chama “Recall”, que é meio esquisito, mas excelente para ser desbocado. Do Ladrão de fogo, farei poemas como “Pessoa ruim”, que faz referência ao “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa, mas ao vivo, tenho feito juntamente com outro chamado “Manifesto II”, de autoria de Celso Borges. Juntos criam um “clima”, próximo da performance, em que tiro um sarro dos poetas carreiristas. Farei uma homenagem a Jardelina da Silva, minha musa da oralidade. Entre outras coisas…

Fonte:
Entrevista realizada por Wilmar Silva, em Germina Revista de Literatura e Arte – janeiro de 2007. http://www.germinaliteratura.com.br/pcruzadas_triptico_rc_jan07.htm

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Arquivado em Entrevista, O Escritor em Xeque

Uelington Farias Alves (Cruz e Souza: O Dante Negro)

Uelington Farias Alves é um dos mais famosos críticos literários do mundo afro-brasileiro e importante resenhista do “Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro. Autor de autor quatro livros sobre Cruz e Souza, o mais importante representante da simbolismo no poesia brasileira, Uelington, ao que tudo indica, resolveu imprimir mais força ao seu ciclo Cruz e Souza. Ele lançou, em dezembro passado, pela Pallas Editora, seu quinto livro sobre o poeta: ” Cruz e Souza: Dante negro do Brasil”, de 410 páginas, editora Pallas, do Rio de Janeiro, em comemoração aos 110 anos da morte do poeta catarinense, trazendo como sempre documentos e poemas inéditos sobre o festejado poeta, cuja obra é comparada ao trabalho dos representantes da poesia simbólica francesa como Mallarmé. Com este novo trabalho, Uelington se consagra como o maior estudioso da obra do maior poeta do simbolismo brasileiro.

No novo trabalho, o crítico literário negro mexe em alguns mitos. Por exemplo: quem pensa que Cruz e Souza foi um poeta negro que sabia seu lugar entre os literatos da época, está enganado. Segundo o estudioso, Cruz e Souza, filho de escravos, educado por uma família branca catarinense em fins do século XIX, militou a favor da universalização da educação para os brasileiros. Como o jornalista José do Patrocínio, ele foi um abolicionista de mão cheia.

Segundo o autor de ” Cruz e Souza: Dante negro do Brasil”, Cruz e Souza é um poeta mal compreendido e pouco aceito pelas elites literárias brasileiras. Existe até uma má vontade pelo fato de um negro ser o maior poeta simbolista de todos os tempos e não os literatos brancos.

Cruz e Souza nasceu em Desterro, atual Santa Catarina, em 1861, filho de escravos. Estudou graças ao empenho dos seus pais, que, embora analfabetos, não desejavam o mesmo destino para os filhos. Poeta e tuberculoso, Cruz e Souza faleceu aos 36 anos, em 1898, no Rio de Janeiro, deixando uma grande obra poética.

Seu grande biógrafo, Uelington Farias Alves, é carioca, jornalista, escritor e crítico literário. Publicou cinco livros, entre os quais se destacam ” Poemas inéditos com Cruz e Souza” (Prêmio da Academia Brasileira de Letras, de 1991) e “Poemas inéditos de Cruz e Souza”(Destaque da Bienal do Livro de São Paulo, de 1996, segundo a revista “Veja”).

No cinema, Uelington foi consultor do longa-metragem “Cruz e Souza: poeta do Desterro”, de Sylvio Back. O crítico tem ainda a Medalha de Honra ao Mérito concedida pelo Governo de Santa Catarina pelos seus estudos sobre Cruz e Souza.
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Acompanhe, agora, a entrevista que Uelington concedeu ao site Questões Negras

QN – Você pode nos dar um perfil de sua atuação profissional como crítico literário?

UELINGTON – Sou jornalista profissional e professor de literatura brasileira. Faz algum tempo que me dedico à pesquisa histórico-literária e à crítica de livros, trabalho que venho desenvolvendo desde o final dos anos de 1980, mas que se firmou quando passei a escrever para o “Diário Catarinense”, no ano de 1990. Ganhei alguns prêmios importantes em minha carreira de escritor: o Silvio Romero de pesquisa história literária da Academia Brasileira de Letras, em 1991, e duas medalhas de Honra ao Mérito, pelo Governo do Estado de Santa Catarina e pela Câmara Catarinense do Livro.

QN – Você tinha quatro livros sobre Cruz e Souza . Porque resolveu fazer o quinto?

UELINGTON – Os meus livros anteriores, hoje esgotados e encontrados apenas em alguns sebos, sobretudo pelo internet, foram livros construídos com base nos meus primeiros anos de pesquisa histórica. Não me furto a dizer que, no geral, são livros incompletos. Ao escrever este novo livro procurei completar o meu trabalho de pesquisa, dando uma dimensão maior ao trabalho que venho realizando durante tantos anos, buscando sempre fontes ignoradas por estudiosos e biógrafos do poeta negro. Ora, isto me levou a percorrer caminhos novos, trazendo surpresas agradáveis, como revelações sobre sua descendência, o encontro de inéditos, tanto em prosa, quanto em versos, bem como a aproximação do poeta com seu mundo familiar e as questões do seu tempo, como o abolicionismo e a república.

QN – Que novidade traz neste novo livro?

UELINGTON – Algumas importantes do ponto de vista racial e histórico-literário. Primeiro: o relacionamento do poeta com seus pais. Numa determinada passagem, vamos descobrir que Cruz e Sousa foi educado em função da dedicação dos pais, não dos seus senhores, como a história gosta de contar. Um documento da época demonstra perfeitamente o esforço de Mestre Guilherme pela educação dos filhos (Cruz e Sousa tinha um irmão), buscando na brecha da lei meios para dar educação aos seus, embora “pobre jornaleiro, que tudo sacrifica” pela educação dos meninos (como está textualmente num documento datado da década de 1870). Outra descoberta importante é referente à comunidade negra do Desterro, que ele freqüentava e junto a ela fazia ouvir ao piano. Músico e poeta, Cruz e Sousa também foi autor teatral, algo ignorado pelos biógrafos, igualmente o fato de ter deixado um romance inicialmente publicado na imprensa, do qual se conhece apenas, e infelizmente, três capítulos. Tudo isso está detalhado no meu trabalho.

QN – Você acha que a obra de Cruz e Souza é mal divulgada no Brasil?

UELINGTON – Não só de Cruz e Sousa, mas especialmente as obras dos poetas. Cruz e Sousa é, como os demais, mais uma vítima do preconceito com os poetas e os sonhadores. Eu diria que, apesar de tudo, Cruz e Sousa foi alvo de quatro biografias ou perfis biográficos: a de Nestor Vítor, escrita em 1896, ainda em vida do homenageado, a de Aberlado F. Montenegro, “Cruz e Sousa e o movimento simbolista brasileira”, (de 1954, cuja terceira edição é de 1998), a de Raimundo Magalhães Júnior, “Poesia e Vida de Cruz e Sousa”, (de 1961, cuja terceira edição é de 1975), e a minha, “Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil”, (Pallas Editora, 2008). Existem ainda centenas de artigos, ensaios, teses e dissertações de mestrados a respeito do poeta, além do que se produziu sobre ele no exterior. Portanto, eu não diria que ele é tão mal divulgado; é talvez, por ser negro, é mal compreendido e pessimamente aceito pela elite branca, que é a que domina os estudos acadêmicos, que são, de longa data, os mais divulgados no Brasil.

QN – Como ocorreu seu interesse pela obra de Cruz e Souza?

UELINGTON – Vem, talvez, da infância, quando vi uma poesia e uma foto ou imagem dele numa dessas enciclopédias que meu pai, Enes de Oliveira Alves, comprava na porta de casa. Numa visita às páginas de uma dessas enciclopédias (eram muitas, ele comprava todas as que apareciam, o vendedor era esperto), li sobre a história daquele poeta, filho de escravos, com uma vida triste e um poema melancólico, que era o soneto “Alma ferida”. Perguntei a minha mãe se tinha um poeta negro, e ela, com aquela simplicidade exemplar, que só a Dona Flora tem até hoje, me disse: Meu filho, se tá aí no livro é porque tem. E ponto final. Mas tarde, na escola secundária, aprofundei meus contatos sobre literatura, e o Cruz e Sousa foi uma chave que me ligou indelevelmente ao mundo.

QN – Cite poemas dele que você mais gosta.

UELINGTON – São vários os poemas e textos em prosa que admiro em Cruz e Sousa, publicados em livros como “Tropos e fantasias”, “Broqueis”, “Faróis”, “Últimos sonetos”, “Missal” e “Evocações”. Têm os poemas “Crianças negras”, “25 de Março”, “Vida interior”, “Ser livre”, “Violões que choram…,” “Assim seja”, “Caminho da glória”, “Sorriso interior”, “Assinalado”, “Cavador do infinito”, “Ironia das lágrimas”, “Ressureição”, “Esquecimento”, “Foederis Arca”, “Consciência tranqüila”, “Emparedado”, entre muitos outros.

QN – Cruz e Souza teve algum desempenho social-militante em sua vida?

UELINGTON – Cruz e Sousa, como mostro no meu novo livro, foi um homem de avançadas idéias socialistas, preocupadas, sobretudo, com a educação do povo. Descobri um artigo seu inédito em livro onde ele prega a universalização da educação. Outra bandeira importante foi sobre o abolicionismo. Textos inéditos demonstram que ele combateu com todas as suas forças o regime escravista, o que resultou no início do processo de forte discriminação contra ele e sua família, como há relatos de sua mãe, Carolina de Sousa.

QN – Você poderia fazer uma comparação entre as trajetórias de José do Patrocínio, Cruz e Souza e Machado de Assis?

UELINGTON – São trajetórias de negros bastante diferentes. José do Patrocínio foi um negro que ascendeu na sociedade dos brancos, chegou a casar com uma mulher branca, sua ex-aluna, cuja família tinha posições na sociedade da época. Foi, sobretudo, dono de jornal, chegou a ser remedianamente rico, mas, no fundo, foi um jornalista e intelectual. Sua obra de ficção está por ser estudada. Machado de Assis foi essencialmente um romancista e poeta. Seu propalado distanciamento da questão racial é uma estratégia de sobrevivência num meio hostil a homens mulatos que professavam tais pensamentos. Mesmo assim não foi indiferente, e o professor Eduardo de Assis já provou isso em obra importante que foi o seu ” Machado de Assis afrodescendente” (Pallas Editora). Cruz e Sousa sofreu por estar no lugar errado na hora errada. Sem meios e com um orgulho bastante elevado, se distanciou de todos, assim que passou a sofrer os primeiros reveses dos literatos da época. Os enfrentou a seu modo e perdeu: a pobreza e a doença os fez ver isso.

QN – Você vai fazer o lançamento do livro em Santa Catarina?

UELINGTON – Provavelmente a Pallas Editora, através da Cristina Warth, deve organizar um lançamento na terra natal do poeta biografado. Já há solicitações das academias de letras locais, de professores ligados as universidades, nesse sentido. Penso que não seria justo não haver lançamento lá, mas fica a critério da editora resolver e decidir sobre esta questão, indo não só a Santa Catarina, mas em outros estados, como em Pernambuco, Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Minas Gerais, que têm um histórico de aceitação sobre o que o poeta produziu.

QN – Existe ainda parentes de Cruz e Souza vivos ? Como eles vêm seu trabalho?

UELINGTON – Parte da descendência de Cruz e Sousa mora no Realengo, outra parte em outros bairros da Zona Oeste. Já tive muito contato com a família, ao tempo que a matriarca Erci Cruz e Sousa era viva. Depois, este contato se perdeu um pouco. Não sei como eles hoje vêem o meu trabalho, mas espero que vejam.

QN – Além de você, existem mais críticos literários negros no Brasil? Se existem, quais? São ligados à causa negra?

UELINGTON – Não tenho conhecimento se existem outros críticos literários negros no Brasil. É bom que se diga que a crítica literária é um atividade regular, que requer dedicação e necessita de seriedade e desprendimento. Penso mesmo que a crítica não é um trabalho de aventura, de quem escreve algo sobre um livro e se acha crítico da noite para o dia. A crítica carrega em si uma metodologia de concepção, que vai muito mais além da leitura de um livro; chega a ser a abordagem de uma obra num aspecto que, muitas vezes, nem o seu autor chegou a perceber.

QN – Como você analisa seu papel de crítico literário do “Jornal do Brasil”?

UELINGTON – Penso que não chego a ter um papel de crítico literário no “Jornal do Brasil”, quando escrevo para o caderno ” Idéias”. O “JB” me permite um espaço onde tenho liberdade de expressar o que quero, sem o comprometimento com livrarias, editoras e autores tais. Certa vez, fiz a crítica tão dura de um livro de um determinado autor e pensei comigo: esse cara vai me matar. O caso é que o autor, que era baiano e estava de passagem pelo Rio quando leu o meu texto, teve uma atitude completamente diferente. Ele achou que fui sincero; e gostou da crítica.

Fonte:
Questões Negras

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Arquivado em Entrevista, notas biográficas, O Escritor em Xeque

Rodrigo de Souza Leão (O Escritor em Xeque)

Com um texto atraente e incômodo, Rodrigo de Souza Leão afirma sua condição: poeta. Sua prosa está contaminada de poesia.

No livro Todos os cachorros são azuis, o autor narra, através de uma experiência autobiográfica, a trajetória de um homem internado no hospício. E destaca três momentos da vida do personagem – infância, adolescência e fase adulta – para costurar uma narrativa marcada pela fragmentação do ser humano, característica que dialoga com a produção de alguns autores contemporâneos.

Não leia o livro à espera de linearidade, pois é justamente a ausência dela que prende o leitor. A escrita de Rodrigo torna-se mais valorosa quando lembramos que trata-se de uma autor esquizofrênico – como ele gosta de deixar claro. O escritor tem a generosidade de mergulhar no seu rico inconsciente e nos apresentar personagens que não conseguimos enxergar em nosso cotidiano.

Personagens delirantes apresentam momentos de lucidez. Rodrigo durante a entrevista concedida em sua casa, na Lagoa, apresentou o avesso de sua criação: lúcido com emocionantes instantes de delírio.

Ler esta entrevista e os livros do autor é abrir uma janela a inúmeros estados de consciência, mergulhar no desconhecido, enxergar através de uma lente azul – como propõe o narrador. Desejo que Rodrigo Souza Leão tenha sempre facilidade para publicar seus escritos; os leitores agradecem.

Por que o título do seu livro é Todos os cachorros são azuis?

Rodrigo Souza Leão – Na minha primeira infância eu tive um cachorro de pelúcia azul. Depois esse cachorro sumiu e nunca mais eu vi. É forte lembrança desse tempo. Como o livro fala de três fases da minha vida, resolvi fazer o link com minha infância. Mas nenhum cachorro é azul, é bom deixar claro. Só os cachorros de pelúcia são azuis.

Você tem alguma cor predileta?

Rodrigo – Eu gosto de azul e preto.

Você escreve prosa e poesia. Como surgiu seu interesse pela Literatura?

Rodrigo – É uma história longa. Você tem tempo?

Sim, pode falar.

Rodrigo – Eu comecei escrevendo poesia. A Suzana Vargas foi minha professora na Estação das Letras. No meu primeiro dia de aula, ela pediu que os alunos escrevessem um texto para ser comentado. Mas meu texto não foi escolhido para ser lido. Fiquei muito triste. O texto era assim:

a bomba é a solução / pra essa situação / pra crise geral / pro imposto territorial

Fala dos problemas políticos do país. Depois virou um hino punk através do grupo Eutanásia, onde meu irmão tocava bateria. Meu irmão me roubou essa parte da letra e colocou na música dele. Eu nunca quis ser escritor, meu plano era ser vocalista. Na década de 80, tive uma banda chamada Pátria Armada. Fizemos show no Circo Voador, na Metrópolis, no Made in Brazil – casas de shows da época. Minha meta de vida era ser músico.

Você toca algum instrumento?

Rodrigo – Eu toco um pouco de violão, mas só para compor. Minha voz fica boa impostada, perdi muito poder vocal por causa dos remédios que eu tomo.

Porque você toma os remédios?

Rodrigo – Para controlar o meu distúrbio delirante, minha esquizofrenia. Aos 23 anos tive um sério problema, identificaram a esquizofrenia. Hoje em dia usam muitos eufemismos para essa doença.

A Dra. Nise da Silveira batizou a esquizofrenia de ‘inúmeros estados do ser’…

Rodrigo – Nise da Silveira é maravilhosa, uma mãe. Mas voltando aos 23 anos: Tive um problema sério quando trabalhava na assessoria de imprensa da seguradora da Caixa Econômica. Foi uma crise de estresse muito elevado. Eu já era esquizofrênico, mas nunca havia manifestado a doença. Aos 15 anos, eu achei que tinha engolido um grilo – esse episódio está no meu livro. Aos 23 anos, no dia 03 de setembro de 1989, eu fui internado pela primeira vez, se não me falha a memória. Fui internado numa clínica, que não vou dizer o nome para não ser processado. Me colocaram camisa de força, me jogaram num cubículo e me deram um ‘sossega leão’. Mas o hospício em si não é a pior coisa do mundo. Porque, geralmente, não se sabe lidar com a loucura. Para família é muito complicado, ela se ver impelida a internar. O louco quebra a casa toda, faz um monte de merda, como aconteceu comigo na segunda internação. E pra onde você vai mandar esse cara? Eu sou a favor da luta antimanicomial. Acho que manicômio não resolve o problema de ninguém, só piora. Aqui está meu irmão, que é bipolar de humor, para comprovar. Na minha casa há histórico familiar de problemas mentais. Ele teve duas internações, na segunda vez ele ficou totalmente fora de si.

Se pudesse caracterizar o estado mental em que se encontra, o que diria?

Rodrigo – Eu falaria que eu sou esquizofrênico. Isso quer dizer que sou uma pessoa que necessita de certos cuidados: preciso tomar remédios específicos, viver uma vida diferente das outras pessoas e conseguir viver dentro das minhas ‘nóias’. Tenho que saber que a minha paranóia é paranóia e aprender a conviver com ela. A palavra-chave é convivência. É a convivência com a diferença. O meu ser é diferente dos outros. O esquizofrênico tem que ter uma sensibilidade para entender que é diferente. E sobre os eufemismos, isso é besteira. Falam “clínica” ao invés de “hospício”.

Não é difícil falar e escrever sobre doença?

Rodrigo – Hoje em dia é tranqüilo. Mas teve um tempo em que eu nem tocava no assunto. Até começar a minha relação com a internet eu não falava da doença. Escrevo mais poesia do que prosa. O meu primeiro livro chama-se Há Flores na Pele, só há um poema que fala de loucura. Eu falo da doença porque nunca gostei de psicólogos. Psicologia não resolve nada. Você fica batendo papo, conversando e nada. Fiz análise dos 12 aos 18 anos e não resolveu nada. Eu já tomei eletrochoque, mas com sedação. E esse eletrochoque é muito bom porque melhora muito o doente. Sério! Não é aquele eletrochoque tenebroso que era aplicado no tempo da Dra. Nise. Aquilo era um absurdo. Quem tirou o meu irmão da fase ‘abobalhado’, durante a crise psicótica, foi esse eletrochoque.

A arte tem um papel importante na sua vida. Certo?

Rodrigo – Justamente. Eu comecei a pintar há pouco. Mas escrever é uma coisa que vem. Eu só comecei a falar após a minha segunda internação. Fui internado duas vezes em 1989 e 2001, acho. Sou péssimo com datas e números, não sei nem meu telefone decorado. Essa segunda internação foi difícil, traumática, mas foi muito boa pra mim. Eu conheci lá dentro um cara chamado Gilberto Sabá, que foi guitarrista do Serguei, e gente tocava o terror. Ele que fez aquela música: ‘Toca um, toca dois, toca três. Toca, toca, toca rock and roll…’ A gente arrumava um violão e tocava para maluco dançar. (RISOS) Eu e ele éramos as pessoas mais lúcidas. Essa clínica onde fiquei era muito bonita, cheia de flores e árvores. Costumo dizer que hospícios são lugares tão bonitos que lembram cemitério. Eu ficava muito tempo fora do quarto vendo a paisagem, vendo a copa das árvores e escrevendo algumas coisas.

Sua prosa me lembra a poesia da Stella do Patrocínio. Conhece?

Rodrigo – Sim. Uma louca, lançaram um livro pela editora Azougue. Isso acontece porque a loucura é igual para todos. O bipolar de humor tem momentos de euforia e depressão, com momentos tristes e maravilhosos. Se o bipolar tomar remedinhos, como Lithium e Haldol, ele consegue se curar em longo prazo. A cura não é imediata porque precisa da conscientização da doença. A pessoa que tem distúrbio delirante acha que está sendo perseguida por agentes e policiais. Você acha mesmo que está sendo perseguido! Eu nunca tive visões. Ou melhor, tive visões quando fiquei uns cinco meses sem comer em casa porque achava que estava sendo envenenado pela minha família. Eu só comprava comida fora, fiquei muito tempo sem dormir.

(BRUNO, IRMÃO DE RODRIGO, SE APROXIMA E COMEÇA A PARTICIPAR DA ENTREVISTA)

Você tem uma lucidez muito forte em relação a isso.

Rodrigo – Não sei se é lucidez ou excesso de sofrimento. Eu sofri muito com minha doença, só eu sei o quanto eu sofri. Meu irmão também sabe.

Bruno – Sou assessor dele.

Rodrigo – Ele é meu assessor para assuntos estratégicos. (PAUSA) O sofrimento fez com que eu tivesse um insight. Mas minha vida tem muitas limitações, por exemplo, não saio de casa, sou recluso. Tenho medo de ser perseguido por agentes. É uma coisa absurda. Você está vendo um cara lúcido dizer que tem medo de ser perseguido por agentes. Mas essa é a minha doença. O que eu posso fazer?

Bruno – Quando arranja uma namorada ele sai. Pra ir ao motel…

Rodrigo – Só saio um pouco quando arranjo uma namorada.

Você namora muito?

Rodrigo – Namorei muito até os 23 anos. Eu era muito bonito, mas não sou mais por causa dos remédios. E não vejo no relacionamento a solução para os meus problemas. Se eu quiser ficar com uma garota, ela vai ter de se adequar muito a mim. Porque o problemático da relação sou eu. É difícil conciliar uma relação com alguém que não pode sair. Gosto de ficar na minha casa vendo filme e jogos de futebol. Sou ‘flamenguista doente’. Hoje em dia as pessoas só querem ir para festas e barzinhos. Eu não posso beber porque tomo remédio tarja-preta, tomo Haldol.

Bruno – Mas faz sexo…

Rodrigo – Mas isso não tem contra-indicação. Eu já tomei muitos remédios. Mas me dei bem com esse remédio, embora dê tremor, mão fria e salivação.

Você é formado em Jornalismo.

Rodrigo – Sim. Me formei em Jornalismo pela Faculdade da Cidade (atual UniverCidade). Eu não consegui me formar por uma faculdade federal, mas tive bons professores: Fernando Muniz, Lúcia Padilha, Ítalo Moriconi… Tive uma formação muito interessante. Meu lance nunca foi jornalismo, eu queria ser locutor de rádio. Ouvi muito a Rádio Cidade e a Rádio Fluminense com Maurício Valladares. Mas o que restou na minha vida foi escrever. O que sobrou? Escrever. Eu já fazia letra de música, depois passei a escrever poemas. Acredito que algumas letras de música são poemas.

Há letristas que são poetas.

Rodrigo – Sim. Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil e Chico Buarque são maravilhosos.

Você sempre gostou de ler?

Rodrigo – Não. A leitura foi um hábito que adquiri após minha primeira internação. Eu fiquei muito tempo em casa e devorei Proust e James Joyce. Li muito o Rubem Fonseca, gosto muito dele.

Você tem um livro de poesia chamado Carbono Pautado – memórias de uma auxiliar de escritório.

Rodrigo – Sim. Mas esse livro só foi importante para que eu pudesse ver como foi a minha vida.

Sua escrita é muito fragmentada, uma característica muito presente no texto dos autores contemporâneos…

Rodrigo – Nós vivemos em tempos esquizofrênicos. Muita gente tem depressão ou síndrome do pânico. É uma sociedade que está doente porque dá valor ao que não se deve: o dinheiro. O ser humano viveria muito mais se parasse com essa babaquice de querer dominar o outro.

No seu livro, Rimbaud e Baudelaire são influências?

Rodrigo – Mais Rimbaud do que o Baudelaire. Li a obra completa do Rimbaud, que é bem curta. Gosto muito da “Canção da Torre Mais Alta”:

Juventude preza / A tudo oprimida / Por delicadeza /Perdi minha vida.

Acho essa poesia sensacional! O Rimbaud é muito presente na minha vida. Eu tive muitos livros. Mas teve uma época em que eu achei que ia morrer, então fiz uma grande liquidação de livros. Peguei todos os meus livros, separei, dei os que eu queria dar e vendi todo o resto. Dei um disco incrível do Roberto Carlos, Nas Curvas da Estrada de Santos, para um cara que estava num sebo.

Bruno – Meus discos do Iron Maiden foram juntos…

Rodrigo – É, os discos do meu irmão, que gosta de heavy metal. Eu só fiz essa grande liquidação porque eu achava que fosse morrer. Mas eu sobrevivi. A minha condição de vida é a seguinte: vivo o presente. Como estou vivo, faço um melhor dia pra mim. Eu não faço projeto a longo prazo. No edital da Petrobras eu deixei claro que o meu livro estava quase todo pronto e eles aceitaram assim mesmo. Mas o meu livro foi rejeitado pela Casa do Psicólogo. Eu pensei: Nem os psicólogos estão do meu lado? Logo na Casa do Psicólogo? Num lugar em que eu deveria ser tratado a pão de ló.

Mas você conseguiu aprovação na Petrobras.

Rodrigo – Esse projeto foi muito importante. Eu não tinha dinheiro para bancar meu livro. Apesar de viver nesse apartamento na Lagoa e parecer rico, não tenho muita grana. O dinheiro vai para serviços, remédios e outras despesas. Fui aposentado por invalidez aos 23 anos, não recebo muito. Eu consegui publicar graças à Petrobras e à 7 Letras. Mas no início a Petrobras não acreditou muito, mandaram duas psicólogas para me avaliarem. Elas diziam: ‘Ele tem problemas cognitivos, problemas X, problemas Y’. Foi ótimo porque depois dessa avaliação “não preciso” ter mais problemas.

Você é otimista em relação a sua carreira de escritor?

Rodrigo – Não. Mas acho que fiz um livro bom, intenso e mágico. Estou escrevendo outro livro: Tripolar, um livro de mais confronto com a linguagem. São três novelas que não se comunicam. Tenho uma postura positiva, mas não sou ufanista em relação a vida. Não acho que vou viver de literatura. Mas acredito no que eu faço. Vou ganhar prêmio? Isso é imponderável.

Bruno – Vai ganhar o Jabuti.

Rodrigo – Não vou ganhar.

O que é mais importante na sua vida?

Rodrigo – O mais importante, no momento, é eu não saber o que é a coisa mais importante na minha vida. É saber colocar importâncias variadas. É importante que eu continue estável e consiga viver o máximo de tempo possível.

Você quer viver muito?

Rodrigo – Não. Eu espero viver pouco. Se eu conseguir viver até 50 anos ficarei contente. Porque viver muito é para quem não tem problemas. Quando a pessoa tem muito problema é até melhor morrer cedo porque se livra um pouco dos traumas e angústias. Sou uma pessoa muito traumatizada. Mas feliz! Eu sou feliz. Posso dizer que sou muito feliz, mais feliz que a grande maioria das pessoas. Eu sou feliz. Eu não estou realizado porque ainda estou no meu primeiro livro. Estou na batalha para publicar um livro há muito tempo, desde os 27 anos.

Você acredita em Deus?

Rodrigo – Por muito tempo eu li Nietzsche: Assim falou Zaratustra. Li todos os livros de Nietzsche quando eu tinha vinte e poucos anos, eu adorava filosofia. Então a minha relação com a religião é mais calma. Eu rezo três orações antes de dormir, minha avó que ensinou: Oração a São Miguel de Arcanjo, Pai Nosso e Oração a Nossa Senhora da Cabeça.

Salve Imaculada, Rainha da Glória, Virgem Santíssima da Cabeça, em cujo admirável título fundam-se nossas esperanças, por sedes…

Agora está me faltando, não estou conseguindo lembrar.

Sem problemas.

Bruno – E ele vê a Igreja Universal do Reino de Deus, todos os dias comigo no quarto.

Rodrigo – Só vejo porque ele vê. Isso não tem nada a ver. Não vejo Igreja Universal.

O que é a morte?

Rodrigo – Eu torço para que exista algo além. Gostaria de ver o que as pessoas acham de mim quando eu estivesse morto. Sabe? A reação das pessoas. Para saber se meu melhor amigo iria chorar, se alguma namorada ia lembrar de mim, se meu livro ia vender depois de morto… Por que depois que morre todo escritor vende.

O que é loucura?

Rodrigo – Isso é engraçado. Porque quando se é um louco folclórico, cheio de indumentária e adereços – tipo Bispo do Rosário, Plínio Marcos, Gentileza –, aí ele é bem-vindo. Eu quero acabar com esse folclore porque eu me visto como uma pessoa normal. Não tem como definir loucura. Loucura é uma coisa perigosa de ser definida, por isso as pessoas falam tão pouco. As pessoas têm uma idéia mitificada da loucura, o Michel Foucault falava disso. Definir loucura é não saber como se está no mundo. Não posso crer que só existam loucos como eu, que têm noção do que é a doença. Têm loucos como o Bruno, que são menos capacitados a isso. E também têm os agressivos. Acho que os hospícios não deveriam misturar os loucos. Assim as clínicas se tornam um depósito de gente. Os oligofrênicos deveriam estar separados dos outros loucos. Eu não vou ser mais internado, eu acho. Vou ser internado só no cemitério do Caju. (RISOS).

O que é a vida?

Rodrigo – A vida é excepcional. É o lugar onde tentamos construir sonhos. Vida é algo que foi dado e só você pode tirar, se você se suicidar. Ou Deus, que também pode tirar. Mas nem sei se Deus existe. Eu sou meio revoltado com Deus. Por que eu fui nascer esquizofrênico? Por que eu não nasci mais alto como o fotógrafo (Tomás Rangel). Eu nasci com 1,70. Eu queria 1.85. (RISOS) Ramon também faz parte da família dos ‘gnomídios’. Você deve se achar um anão. (RISOS).

Por que escrever?

Rodrigo – Escrever foi o que me sobrou. De tudo que tive, foi o que me restou a fazer.

A escrita trouxe vida?

Rodrigo – A leitura me trouxe vida. Eu lia o Proust, anotava umas palavras num papelzinho e no final do dia fazia um poema. Saía uma coisa sem pé nem cabeça. Na prosa eu trabalho o psicológico dos personagens.

O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?

Rodrigo – Primeiro: Viva ao máximo! O que importa são os momentos. Se o livro for rejeitado, não desista! Se você gosta de escrever, então escreva para você mesmo. Eu só fui publicado quando escrevi para mim mesmo.

Fonte:
Entrevista concedida a Ramon Mello no Portal Literal

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Paulo Bentancur em Xeque

Entrevista realizada por Danilo Corci, da Revista Speculum.

Crítico literário, poeta, contista, autor de romances e escritor infanto-juvenil, Bentancur conseguiu um feito hercúleo: transformar seu romance num dos grandes momentos culturais de 2006, ano que trouxe ao Brasil inúmeras bandas, exposições monstras, como a Bienal, e outros lançamentos literários relevantes. Óbvio que comparar suportes criativos diferentes é uma bobagem, mas ao extrair o sumo do que fica, “A Solidão do Diabo” é o ponto alto das novidades. Melhor ainda. Perene, pois mesmo agora, em 2007, sua leitura é mais do que recomendada.

Em 59 histórias, o livro faz uma inteligente incursão à cadência cínica e melancólica que, talvez, o suposto “homem contemporâneo” tem cultivado com tanta vontade. O “se segura malandro” brasileiro é implodido sob uma óptica muito mais afiada sobre o que nós mesmos estamos acostumados a encontrar na literatura brasileira. Menos Macunaíma, mais Constantine (mas esqueça o ícone pop), os anti-heróis brasileiros agora sentem frio e febre. Entretanto, melhor do que falar de um livro que já vem com a “Bíblia II” e com a história do homem que quer ser mágico e milagreiro só para ser muito mais cínico do que qualquer um poderia imaginar, é deixar o próprio autor falar sobre sua obra – ainda que, de fato, nem isso seria necessário já que o livro fala por si próprio.

Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?

Paulo Bentancur: Começou sem que eu mesmo percebesse. Era menino, 9, 10 anos, e já escrevia todos os dias. Quando fui ver, era tarde demais. Aos 16 já publicava em tudo que era jornal (contos, poemas, crônicas, resenhas). Demorei para lançar o primeiro livro apenas por excesso de zelo (o que nunca é demais). Mas o batismo das letras foi cedo. Ah, e minha formação, até mesmo por suas características de precocidade, foi de autodidata.

Existe algum escritor que exerce uma influência marcante no seu trabalho? Ou algum ícone não-literário

Vários escritores me influenciaram. O segredo é saber conduzir essa influência sem que ela cale a sua própria voz de escritor. Kafka, Cortázar, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Dalton Trevisan Rubem Fonseca, Bernardo Carvalho, Paul Auster. Isso na prosa. Na crítica, Paulo Hecker Filho, David Arrigucci Jr., José Paulo Paes. Na poesia, Manuel Bandeira, Drummond, Miguel Hernández, Federico García Lorca, João Cabral de Melo Neto e, mais recentemente, Paulo Henriques Britto.

Você também escreve para crianças. Qual é a diferença entre escrever um infanto-juvenil e um livro “adulto”? O que é mais complexo?

Para adultos, naturalmente, é mais complexo. Porque nos exige vir à tona, inteiramente. E o público adulto já está irremediavelmente sedado por uma série de vícios literários (entre os quais, a preguiça mental, mortal). O público infanto-juvenil é mais receptivo e dá mais prazer ao escritor, discutindo a obra em aula, em feiras de livro, em eventos ao ar livre.

“A Solidão do Diabo” não é seu primeiro livro, e notei que ele é bem consistente. Isso é resultado da tarimba, da experiência?

Isso é resultado de muuuuuito trabalho. O conto mais antigo foi escrito em 1997. O mais recente, em 2006. Logo, dez anos se passaram até o livro ficar pronto. A tarimba, a experiência, ajudam; porém, quando o escritor as usa para apressar seus resultados, dá com os burros n’água.

Como você separa todos estas multifunções que exerce: crítico, poeta, contista, romancista infanto-juvenil? Há muita interferência de estilos na hora de escrever?

Há todo o tipo de interferência, não só de estilos. De prazos, de estrutura, de público-alvo, de envolvimento do autor com o projeto. O crítico, na medida em que (por enquanto) se resume a resenhas e artigos em jornais, revistas e sites culturais do País, corre mais solto. Porém não custa lembrar que o perigo de cometer uma leviandade ao criticar a obra alheia é enorme. Então, muito cuidado, sr. crítico… O poeta vive quase ao acaso. O poema o assalta: ele, o poeta, é puramente uma vítima – que fica com o produto do assalto. Já o ficcionista, seja conto ou romance, pode ir se planejando melhor. O mesmo acontece (e com menos dificuldade) para o autor infanto-juvenil, ainda que escrever para crianças seja um delicado desafio: o de lidar com o tempo que é delas e não é nosso (o nosso, o da infância, já não serve como referência).

Voltando à “Solidão do Diabo”: O Diabo realmente está só?

Sim. O Diabo é o homem, em última instância. E, mesmo pensando na metafórica figura do demônio-mor, em quem ele poderia confiar como um parceiro à altura de sua ambição e necessidades? O Diabo é um pobre-diabo…

Seus contos, mesmo que não sejam necessariamente existencialistas, parecem embebidos num existencialismo desencantado, meio “blasé”, meio cínico. Você concorda com esta afirmação?

Concordo. Menos com o “blasé”. O desencanto não esconde (filtra) sua amargura. E não pode existir amargura “blasé”. Ela se dá ares (daí um certo cinismo), à procura de forças para resistir. Como disse Clarice Lispector, desistir de si mesmo é o único ato imoral. Meus personagens desistem de tudo menos da consciência crítica, esse crime radical, essa ação salvadora e, simultaneamente, condenadora. Meu “pós-existencialismo” repõe o “existir” como ser-tão-somente, e não como uma possibilidade de vida, o que seria um luxo. Já nem a morte assusta. Passamos desse ponto. Aí reside o escândalo.

Logo de saída, em “O Mágico do Azar”, você já brinca com o caráter dúbio de um homem. É mais ou menos assim que você enxerga o homem contemporâneo?

Menos. O homem contemporâneo protege-se numa outra espécie de ambigüidade, em que o único papel que exerce é aquele que lhe abre as portas mais facilmente, e não papéis que ele tenha prazer em criar. Ou morbidez em criar. O homem contemporâneo não cria, não arrisca. Nunca a mesquinhez esteve a serviço de um sistema tão tacanho como agora. E a razão, hoje, é cínica por demais. Qualquer risco é chamado de loucura. Daí sermos uma fábrica de doentes mentais; no mínimo, de neuróticos.

Seus contos tem um magnetismo desfragmentador de idéias, comportamento, uma melancolia embutida, mesmo quando busca uma mão mais leve, como no conto do duelo de futebol na cidadezinha. A melancolia é um dos seus assuntos preferidos?

A melancolia é um estado natural de homens submetidos. Submetidos, simplesmente. A tudo. Que lhes resta senão a melancolia, quando os prazeres estão numa espécie de índex moral e a maioria é julgada e sentenciada sem direito a um mínimo de privacidade? O mundo exige que se passeie nu no canteiro central da avenida. E riem da nossa nudez. Então a escondemos com artefatos ridículos que desenham o imaginário de péssimo gosto da época. A melancolia, em suma, é a música calada que faz bater um coração cansado e lento.

Aliás, o futebol está bem presente nas histórias. Você é um torcedor daqueles sofredores ou apenas gosta de um jogo?

Sofredor. Meu time, o Internacional, acabou de sagrar-se campeão mundial interclubes. Acham que assisti ao jogo? Enfartaria se o fizesse. Fiquei paralisado, esperando a hora de terminar o que eu imaginava um massacre do Barcelona. Quando soube do resultado, nem acreditei. Até agora não acredito. Choro mais nas derrotas do que vibro nas vitórias. Mas é temperamento, não dêem bola.

“A Solidão do Diabo” vem com um grande destaque para “A Bíblia II”. De onde surgiu a idéia de uma história como essa?

De um livro que sonho escrever, OS LIVROS IMPOSSÍVEIS. Idéia meio borgeana. Livros que nunca existiram: tipo SANCHO PANÇA SEM QUIXOTE, OS ESQUECIDOS (História sobre escritores de segunda categoria dos séculos XVIII, XIX e XX, totalmente esquecidos), e por aí vai…

Ainda sobre “Bíblia II”. Seria este seu conto favorito? Apesar de todo o destaque dado na capa, por exemplo, acredito que outros, como “O mesmo ônibus” sejam ainda mais impactantes. Você concorda com isso ou não faz distinção?

Faço, claro. Há contos que prefiro mais a outros. “A Bíblia II” foi uma jogada editorial, para chamar o público. mas me parece um conto honesto, inventivo. Para meu gosto, prefiro “Como um Anjo”, “Diante do túmulo de meu pai”, “Ruínas”, e, sim, o humor surpreendente de “O Mesmo Ônibus”.

Moacyr Scliar escreveu o prefácio. De onde vem sua relação com ele? Parceiros literários?

Sempre gostei da literatura do Scliar. Natural que mostrasse a ele meus primeiros escritos. Ele me acompanha há uns 30 anos. Sabe bem das minhas possibilidades e, me parece, escreveu sobre elas.

Febre e frio. Por que da divisão? Como você organizou esta seleção de contos para cada um deles?

A seção “Frio” já estava pronta desde 2001, quando fiz uma ediçãozinha em separado, de circulação apenas regional. Como conseqüência inevitável, me parece, surgiu “Febre”, o outro e o mesmo lado da questão, dependendo da ótica do leitor. A febre aí pode ser fria, e o frio, um arrepio na espinha, de quem sente o espírito e a carne queimarem.

Em “O Crítico” estaria você dialogando consigo mesmo?

Não. Foi uma homenagem que fiz a um grande crítico, generoso, corajoso, que metia medo nos carreiristas de sempre. O escritor que o evita é que fica mal aos olhos do leitor, acredito.

Qual sua história favorita de “A Solidão do Diabo”, aquela que você mandaria para alguém como amostra de seu trabalho?

“Como um Anjo”.

Por quê? Qual o segredo contido ali?

Acho que o livro é tão porrada, tão punk, dark, down, etc., que o anticlímax contido ao longo de “Como um Anjo”, a opção por uma vida de omissões, a paz da paz (essa antítese do êxtase, essa escolha pela não-escolha, essa morte em vida sem a sombra insuportável da tragédia), francamente, considero a idéia um achado. O conto TRAI o livro, pega o conjunto no contrapé. E, creio, vai deixar o leitor desnorteado. Daí eu gostar tanto dele. Bem, e o ritmo, cuidadoso, musical – literatura para mim é ritmo, antes de enredo. Ah, e criar um personagem sem trama alguma, pô, isso é que é desafio. Bom, e o “Crusoé”. Tem tuuuudo a ver com a atmosfera que o meu espírito respira.

Como você definiria seu estilo literário?

À queima-roupa com uma (ou várias) músicas ao fundo, tocando sem parar. Realismo perturbado de poesia.

Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?

Muitas. O mercado quer é exotismo (lá fora compram o Brasil da Amazônia, da Bahia, da MPB; aqui compram o Islã, que está na moda). Literatura de qualidade, ainda mais de autor nacional, vende muito pouco, quase nada. Mal conseguimos driblar o prejuízo. E a resposta está na pergunta que você fez: “um país que está bem longe de ser um apreciador de livros”. Eu completaria “de bons livros”, já que bobagem, como ficções para se matar o tempo (quando deveríamos ganhá-lo, com coisas reveladoras, transformadoras) são o que mais vende. Os besta-sellers.

Por fim, como você vê a literatura brasileira contemporânea? Quais são os escritores que você indicaria para uma leitura atenta?

Vejo muito bem em produção, não em consumo. Eu indicaria W. J. Solha e seu incrível “História Universal da Angústia”, várias histórias de crimes hediondos da humanidade recontadas de forma brilhante; Rubem Mauro Machado e um livro que interessa a todo jovem e adulto, uma história de formação, moral, emocional, amorosa: “A Idade da Paixão”; Vicente Franz Cecim e seu inclassificável “Ó Serdespanto” (assim mesmo, sem espaço), um livro que mistura filosofia, narrativa, lendas, poesia – e que acho que vai além da literatura que conhecemos. Coisa inovadora de fato! Além disso, é bom conferir Bernardo de Carvalho, Chico Buarque (o cara escreve bem mesmo), Daniel Galera (“Mãos de Cavalo”), Paulo Scott (“Senhor da Escuridão”), Luiz Ruffato (“Vista Parcial da Noite”), Flávio Braga (‘O Que Eu Contei A Zveiter Sobre Sexo”). Bom, a lista vai ficar grande demais. Porque a literatura brasileira está se mostrando grande.

Fonte:
Revista Speculum. http://www.speculum.art.br/ , em 16/03/2007.

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Affonso Romano de Sant’Anna em Xeque

Affonso Romano de Sant’Anna conversa sobre os universos paralelos da mente do escritor, em entrevista para André Azevedo da Fonseca

Com tanta informação circulando no planeta nos veículos de comunicação, por que ainda precisamos de literatura para pensar sobre a condição humana?

Por uma razão muito simples: a literatura é uma espécie de parábola da realidade e da condição humana, e através das parábolas você espelha muito mais a realidade do que através de análises objetivas e científicas. Mesmo porque um dos efeitos da parábola — ou seja, da ficção e da poesia — é solicitar da cabeça do leitor que ela se ponha também em movimento para articular o imaginário. Então é uma obra a muitas mãos, uma leitura a muitas mãos.

Mas através das notícias a mídia também parece capaz de oferecer essas parábolas. Por exemplo, a cobertura jornalística sobre o maníaco do parque ofereceu ao imaginário da cultura de massa um personagem quase literário, pronto para encarnar um novo mito, ou uma atualização de um mito. Não há uma conversa entre real e imaginário na imprensa?

Sim, a mídia hoje é o grande romance de folhetim. A novela é apenas uma parte de um grande romance de folhetim que começa no jornal de manhã, continua nos programas infantis, nos desenhos animados, nos esporte e nas mesas redondas, no Jornal Nacional, no Fantástico. É um mundo como espetáculo, como representação. E isso provoca até situações muito intrigantes, porque o indivíduo que não está equipado para decompor esses elementos que são atabalhoadamente jogados na telinha, ou que se amontoam no jornal, ele tem uma visão das coisas muito surrealista. Eu tenho a impressão que grande parte do povo brasileiro mistura o Fantástico com Jornal Nacional, com a Bíblia, e faz um “melê” que é difícil deslindar exatamente.

Às vezes, quando penso em livros, me vem a idéia que o leitor e o escritor não passam de sujeitos covardes que, por não ter coragem de experimentar a vida de forma carnal e se entregar às aventuras reais, se contentam em ser voyeurs de personagens fictícios. Paulo Freire ensinava que nos alfabetizamos não apenas na leitura das palavras, mas na leitura do mundo. Será que um dia conseguiremos nos livrar da mediação dos livros e aprender a ler o mundo diretamente, sem esse intermédio simbólico?

Eu colocaria de outra maneira. A escritura e a leitura são modos de extensão da vida, de complementação da vida. Eu não posso ir à Lua. Julio Verne também não podia. Mas ele descreveu a viagem à Lua. Julio Verne não podia fazer uma viagem submarina. Mas ele imaginou como seriam as 20 mil léguas submarinas. José de Alencar, ou um dos autores românticos, não viveram na Idade Média mas viajaram lá através da imaginação. Mesmo o romancista que narra histórias fantásticas está dilatando o seu universo e dilatando o universo dos outros. As pessoas não cabem dentro do seu próprio corpo. Por isso elas sonham de noite. Como elas não cabem dentro do próprio corpo elas têm que ler livros e ver novelas. E têm que amar os outros.

O que têm a ver o amor e a idéia de extensão da vida?

O amor é um ato de transferência de você para o outro. Você se muda para dentro do ser alheio. E no caso dos místicos, eles tentam imigrar de vez para a humanidade inteira se fundir com a figura de Deus.

Lembro-me de Schopenhauer quando ele diz que nós, antes de nos materializarmos enquanto animais biológicos, na verdade já começamos a existir quando ainda somos um mero desejo expresso na troca de olhares de nossos pais. Na verdade ele diz que as idéias e pensamentos se esforçam para apoderar-se da matéria para se transformar em algo físico, pois no instante mesmo do desejo o real já está sendo construído. A literatura faz isso, não?

É. O real é uma construção. Assim como em um teatro de arena, onde cada espectador está vendo a cena de um ângulo diferente, o real é algo sempre construído e desconstruído. O que a arte faz sistematicamente é destruir e reconstruir a realidade. Veja as peças de Shakespeare: de repente, como tem no Rio agora, e ocorre de vez em quando em várias partes do mundo, vem um diretor e apresenta um Hamlet, um McBeth totalmente diferente e às vezes até oposto e contraditório ao que seria o Shakespeare original. Não existe um Shakespeare original, assim como a realidade em si é uma coisa que nós temos que aprender a construir e ler diariamente.

Gostaria que você falasse um pouco das diferenças que no livro A sedução da palavra (Letraviva, 2000) você estabelece entre o autor e o escritor.

Todo mundo pode ser autor. Qualquer pessoa pode dizer: ah, vou escrever a vida no meu sítio, ou escrever a história da minha tia, ou a história da minha cidade, do meu cachorro; um médico pode fazer um livro de medicina… todos são autores. Agora, o escritor é alguém que, além de ser autor, se dá ao luxo de ter heterônimos, pseudônimos, pode multiplicar a sua personalidade. O escritor é alguém que tem um trato com a linguagem muito especial. Ele constrói as coisas a partir da linguagem. Ele sabe que as coisas não existem antes da linguagem dar consistência a elas. Ou seja, a diferença entre um escritor e uma pessoa comum é que a pessoa comum diz: minha vida daria um romance; e o escritor faz um romance. Porque vida de ninguém é um romance. A vida das pessoas é interessantíssima, mas só viram romance não se forem simplesmente escritas, mas se forem muito bem escritas. E para isso tem que ser escritor.

No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?

O escritor lê porcaria até sem querer, né? Assim como a gente assiste a filme ruim propositalmente, e há alguns filmes ruins que são ótimos, como há romances e poemas kitsch que são ótimos, volta e meia você se surpreende cantando tangos e boleros, né? O kitsch e o mau gosto fazem parte da realidade. E a formação nossa, tanto na hora de colocar um vestido, escolher um sapato, quanto na hora de escolher um bom livro, um bom concerto, é saber distinguir o que é a coisa kitsch e o que é a coisa mais bem elaborada, o que é o chamado mau gosto e o que é um gosto mais sofisticado. Então essa questão passa por tudo. Da escolha do que se vai comer no restaurante ao livro de poemas que vamos ler.

Metade do autor é o leitor?

Metade. E às vezes há casos até curiosíssimos de autor que é um leitor voraz, um leitor insaciável, como é o caso do Borges, que vivia dizendo: enquanto outros se orgulham dos livros que escreveram, eu me orgulho dos livros que eu li. Porque para ele escrever é uma forma de ler e reler.

Nas obras deles, Marquês de Sade arreganhava elogios à depravação total; Thomas de Quincey defendia que assassinatos eram obras de arte; os poetas da beat generation faziam apologia ao uso desenfreado de drogas. A literatura pode ser perigosa como dizem que é a TV? Ou, pelo contrário, num outro extremo, não há perigo algum nesses atrevimentos literários?

Tudo pode ser perigoso ou não. A palavra farmácia vem do grego farmakon, que significa ao mesmo tempo veneno e remédio. Então quando você entra na farmácia, você acha veneno e remédio. Se tomar alguma coisa errada você pode morrer, se tomar a coisa certa você pode se curar. Nesse sentido a literatura, como a música, não é em si nem boa nem má. Pode potencializar nas pessoas aquilo que elas têm numa ou noutra direção. Por exemplo, na música você pode pensar assim: Mozart é uma coisa sublime, rock é coisa pesada; uma é angelical, outra é diabólica. Isso é um estereótipo, porque se algumas pessoas já cometeram violência e crime “por causa” do rock, nem todas as pessoas cometem crime e violência por causa do rock. E ao contrário, muitos dos carrascos nazistas gostavam de Bach, de Mozart. Então… é o farmakon.

Essa do farmakon foi boa! Vamos a próxima. Livro é muito caro. Hoje a média é R$30, ou seja, uns 10% do salário mínimo — isso se o Lula passasse o mínimo para R$300. Você defende o direito de que quem não tem grana possa “xerocar” os seus livros?

Realmente, o livro dentro dos padrões brasileiros é muito caro. Até na China, que tem 400 milhões de leitores, o livro custa entre R$2 e R$3. A questão do xerox tem sido debatida no mundo inteiro. Eu participei de vários seminários internacionais, sobretudo quando dirigi a Biblioteca Nacional. Cada país tenta defender uma estratégia determinada: alguns colocam uma taxa na produção da máquina que vai reverter como direito autoral para os autores, outros têm outras estratégias. No caso brasileiro especificamente, não há como impedir, por mais que se aconselhe. O professor quer dar um livro, ainda que ele recomende a compra, mas o livro está esgotado. Como fazer? O professor não vai dar aula sobre aquele livro? Por outro lado, em muitos livros você precisa só de um capítulo. Não precisa do livro inteiro. Então é uma questão muito complexa. Não de trata de proibir. Trata-se de estabelecer uma política mais ampla disso.

Você deu aulas nas Universidades da Califórnia e do Texas, nos EUA; na Universidade de Colônia, na Alemanha; e na Universidade Aix-en-Provence, na França. Como essas coisas são discutidas por lá?

Você entra numa universidade americana e em cada andar da biblioteca tem máquinas de xerox. Você compra um cartãozinho na entrada e copia quantos livros quiser, quantas páginas quiser. É só comprar e renovar o cartão. Eu já saí de bibliotecas americanas com “toneladas” de xerox.

Mas como eles lidam com a questão dos direitos autorais neste caso?

Eles têm um processo. Aquele dinheiro cobrado pelo xerox vai reverter de alguma maneira para uma política do livro, para o autor.

É uma boa idéia.

É necessário rever isso tudo. Por exemplo, em alguns países da Europa o autor ganha pelo fato de em uma biblioteca pública alguém tirar o livro dele para ler. Cada leitor da biblioteca pública é computado e o autor ganha uma comissão. É uma coisa interessante.

Você conhece um conceito que se chama copyleft?

[Sant’Anna me olhou meio de lado e vi surgir uma interrogação sobre sua cabeça.]

Esse termo inventado por um hacker americano é uma inversão da idéia de copyright.

[O escritor percebe imediatamente a idéia e se diverte com o trocadilho, soltando uma risadinha. Mesmo assim prefiro explicar melhor]

É um tipo especial de licença que ao mesmo tempo em que garante a propriedade intelectual, autoriza expressamente que os leitores reproduzam a obra à vontade, desde que não seja para fins comerciais. Se uma editora quer comercializar a obra, paga os direitos autorais. Se é para uso pessoal você pode comprar o livro ou então copiá-lo gratuitamente. A idéia é que, na verdade, quanto mais a obra circula, mesmo que seja através de cópias, mais ela vende. De cada vinte leitores que copiam, seguramente uns três ou quatro vão acabar comprando, porque ao gostar do texto não vão querer guardar as folhas grampeadas do xerox, mas sim a cópia durável e de bom acabamento do livro.

Claro.

O que acha dessa idéia?

É uma proposta interessante. Agora, embutida nessa questão tem um outro problema que acho riquíssimo e que foi exposto implicitamente num filme que se chama “O Homem que copiava”. Eu até escrevi duas crônicas sobre isso, dentro de um conjunto de análise que eu estava fazendo da arte contemporânea, sobre a questão da cópia. O problema da cópia é interessantíssimo, porque a sociedade em que vivemos, que é chamada de pós-moderna, instituiu perversamente a idéia de que o autor não existe. Qualquer um pode se apoderar de qualquer coisa. O sujeito não existe. Isso, filosoficamente, redunda em uma tragédia epistemológica, porque se o sujeito não existe somos todos objetos. Eu não gosto de uma cultura onde todos são objetos. O esforço é para que as pessoas se transformem em sujeitos.

Conheço outra linha de discussão: o autor não existe porque o que ele faz é pouco mais do que copiar e cruzar vários outros autores que estão dentro de seu universo mental. Tom Zé chama isso de estética do plágio, ou estética do arrastão. Para ele, nós somos o nosso contexto, somos a nossa circunstância. [a observação ia ficando longa, e o entrevistado já ficava inquieto para falar]. Não será por mero acidente que conseguimos escrever algo novo?

Aí tem várias coisas interessantíssimas. Tem um lado que é verdade: na natureza nada se cria, tudo se transforma. É uma lei da Química. Por outro lado, dentro do folclore, da literatura, as histórias são recriadas. Você encontra pedaços da lenda do Rei Arthur em Mil e Uma Noites, em Decameron e em vários lugares. Agora, isso é uma coisa, é um fato real — o processo de metamorfose, de transformação que existe na natureza, na cultura. Outra coisa é a cultura da leviandade que a pós-modernidade cultiva. Ou então certas coisas que são veiculadas através da chamada estética do falso.

O que é isso?

Autores que fazem romance jogando com a idéia da falsidade, levantando uma questão que em última instância é a seguinte: alegam que numa sociedade se mente muito, numa sociedade tudo é falso, tudo é fake. Então a pessoa produz uma obra falsa, uma obra fake. Então eu digo: é juntando mentira a mentira que vamos combater a mentira? É juntando falsidade a falsidade que nós vamos combater a falsidade? Em termos de arte e escatologia, é juntando merda a merda que nós vamos sair da merda?

O que é uma obra falsa?

Pois é. O que é uma obra falsa?

Ou o que seria a estética do falso?

A estética do falso pretende que não há autoria. Há um deslizamento constante através do qual todos participam, que tem seu lado verdadeiro. Quando entra na moda usar um tipo de calça, de camisa, todo mundo se apropria daquilo. Mas estou desenvolvendo já há algum tempo um raciocínio que, ao lado de reconhecer o que há de natural nisso, há um outro lado perverso: a questão da apropriação. Em arte se usa muita técnica de apropriação, mas os bandidos também usam. Como um caso de um artista na França que resolveu fazer uma exposição chamada “Tudo Aquilo que Roubei de Vocês”. Ele roubou vários objetos dos amigos e fez uma exposição. Os amigos não gostaram e chamaram a polícia.

Aí surgiu uma discussão, que envolveu Ministro da Cultura e Ministro da Justiça na França, se roubar é um ato artístico, um gesto estético. Até que ponto é apropriação, ou quem sabe, que é a minha ótica, a gente não deve analisar isso tudo dentro de um contexto? Analisando dentro de um contexto gestaltiano mais amplo, você entende Fernandinho Beira-Mar, o narcotráfico, a violência da nossa sociedade e a falta de caráter geral.

Entende ou justifica?

Entende. Justificar jamais. A grande ansiedade do ser humano é entender as coisas, pelo menos. Chega alguém e mata outra pessoa, você fica horrorizado, você quer entender por que matou, tem que ter uma causa, tem que ter uma razão! Não vai justificar, mas tem que entender.

Patrick Grainville, em entrevista a Betty Milan, diz que é muito importante que o escritor tenha um ofício qualquer fora da literatura, porque senão ele fica maluco, fica muito distante do mundo e se perde. O que você acha disso?

Isso é um problema dele.

Perguntei isso consciente desse contexto em que vivemos, no qual o escritor, com as raras exceções, não consegue viver de sua obra. Então…

Eu adoraria ficar só escrevendo poesia, se me financiassem por aí. Adoraria enlouquecer escrevendo poesia. Não teria nenhum medo. [nesse momento ele fez uma pausa retórica]

Você tem uma sugestão para…

Ao contrário. Quando eu trabalhava em banco, e era estudante de letras, ficava possesso porque estava jogando meu tempo fora em vez de estar escrevendo literatura. Esse Patrick pode voltar a trabalhar no banco porque eu já passei por essa experiência.

[Enquanto ria, lembrei sofregamente que, sobretudo quando entrevistamos escritores, é uma peleja para discernir quando eles já disseram tudo, quando querem deixar a coisa ambígua, ou quando o momento de silêncio é apenas uma pausa retórica na exposição do raciocínio.]

Qual a sua sugestão para pensar esse problema de o autor não conseguir viver de sua obra?

Olha, aí tem duas coisas. Uma: em qualquer profissão é complicado. Jovem arquiteto, jovem médico, jovem advogado, jornalista, costureiro, estilista, todo mundo tem uma certa dificuldade. A quantidade de pessoas que abrem lojas e fecham é muito grande. Então há uma dificuldade que no caso brasileiro se agrava porque estamos em recessão há trinta anos. Agora, nos países que têm uma estrutura econômica e social mais estável é possível viver de literatura, não só através do livro, mas de uma série de estímulos que governo, fundações e instituições culturais e fornecem — como bolsas e auxílios de pesquisa. Eu mesmo estive em uma meia dúzia de bolsas dadas por fundações estrangeiras. A última foi em Bellagio, na Itália. Eles tinham pago umas vinte pessoas no mundo inteiro para ficarem um mês, sem nenhuma preocupação, para executar um projeto, seja um livro, uma pesquisa etc. Tudo pago. Tinha escritores lá, e eu fui para terminar um livro que eu estava fazendo. E isso é muito comum na Europa e nos Estados Unidos.

Dá para adaptar essas idéias no Brasil?

Quando eu dirigi a Biblioteca Nacional eu criei um sistema de bolsas de escritores dando umas dez ou quinze bolsas por ano para o escritor terminar o trabalho dele. Criei o sistema de financiamento de tradução de autores brasileiros no exterior. Umas trinta ou cinqüenta obras traduzidas no exterior por ano. Então há mecanismos. Se você ganhar da prefeitura daqui, ou de uma fundação, uma bolsa durante um ano ou dois anos para uma pesquisa ou um livro, você estaria vivendo de literatura.

Mmmmmm, seria um sonho! Há escritores que só escrevem sob pressão, e há mesmo quem diga que a calmaria e a estabilidade não é criativa. Orson Wells tem disse aquela famosa frase, dizendo que enquanto a Itália cheia de guerras gerou a Renascença, a pacata Suíça produziu apenas o relógio cuco. O que acha disso?

A questão, outra vez, é diversificada, é complexa. Há pessoas que só conseguem funcionar, para tudo, sob pressão. Eu conheço donas-de-casa que resolvem experimentar em um jantar — onde vêm convidados! — pratos que nunca fizeram, sem saber se vai dar certo. A Marina [Colasanti] é assim.

Muito bom isso.

A tensão de fazer um negócio que nunca fez, que é desafiador, mobiliza. Como o ladrão que está correndo da polícia, ou correndo de um pitbull, ele pula um muro de cinco metros de altura. Se não tiver o pitbull, ele não pula nem um metro. Então há pessoas que precisam dessa adrenalina, outros não. Tive até duas experiências curiosas com isso. Uma vez eu estava em um programa de jovens escritores em Iowa, nos Estados Unidos, em uma dessas bolsas. Eram quarenta escritores do mundo inteiro. Dois terços diziam que não conseguiam escrever porque tinham saído exatamente de seus países onde viviam sob pressão, tendo que trabalhar, cuidar da família, não sei o quê. Ficaram num lugar só para escrever e não conseguiram escrever. Eu levei um projeto para escrever, que era a minha tese sobre Drummond, e fiz a tese normalmente; enquanto um dramaturgo turco, quinze dias antes de terminar esse período de nove meses, não tinha conseguido escrever uma linha. Já em Bellagio, onde fui mais recentemente, eu tinha levado um projeto de ensaio; mas aquele clima de paz, de beleza, de encantamento era de tal ordem que eu joguei aquilo pra lá e fiquei um mês só transando poesia.

Em Canibalismo Amoroso você desenvolve um conceito muito interessante ao considerar o texto como uma “manifestação onírica social”. Você poderia falar um pouco sobre isso?

A idéia básica desse livro — na verdade é uma idéia básica para se entender a literatura — é que o escritor é uma espécie de sonhador de utilidade pública. Ele fantasia coisas que não são apenas fantasias pessoais, mas fantasias comunitárias. Ele é apenas, como propunha Ezra Pound, uma antena que está captando algumas coisas. Daí certos livros terríveis, O médico e o monstro, os livros policiais, etc. Por que as pessoas lêem isso? Você pode pensar: o autor devia ser um neurótico. Mas por que milhões de pessoas lêem Agatha Christie? Porque através do crime e do mistério elas estão elaborando os seus fantasmas. Então a literatura e a arte em geral é o lugar de elaboração de grandes fantasmas de fantasias.

Ops, eu pulei uma pergunta. Antes de falar de Canibalismo Amoroso eu queria ter conversado sobre o movimento antropofágico. Depois da minissérie da Globo, todo mundo comemora a aventura de Oswald e Mário de Andrade. Apesar de reconhecer a importância da Semana de 22, sei que você tem críticas ao modernismo. Você pode falar sobre isso?

Eu tenho várias considerações. Primeiro, o modernismo foi muito importante mas cometeu vários equívocos, várias injustiças. Ensinou uma geração a ter preconceito contra o século 19, contra certos poetas parnasianos, simbolistas, contra a literatura romântica, e isso por um vezo futurista de querer ser diferente do outro. Entende-se perfeitamente que isso tenha ocorrido num primeiro momento. Agora, além disso eu tenho uma outra colocação sobre a Semana de Arte Moderna. É que à rigor ela não aconteceu em fevereiro de 1922. Ela não só começou a acontecer muito antes disso, com Brás Cubas, com Sertões de 1902, com Lima Barreto e por aí a fora, como em 1922 aconteceu uma certa coisa da qual o país não tomou o menor conhecimento na ocasião. Mas aquela coisa tinha uma força original que foi captada por outras pessoas. Então, a Semana da Arte Moderna começou a acontecer, sistematicamente, depois. Ou seja, todo autor que estudou um autor modernista é um modernista, ajudou a fazer o modernismo. Quando alguém analisa Oswald de Andrade, dá interpretação nova, analisa Drummond, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano, é como se estivesse batendo esse bolo que está fermentando, que está crescendo, como se estivesse sendo um acionista de uma grande empresa. E isso chegou a um ponto tal que virou essa novela da Globo. Essa novela foi a apoteose popular de uma semana que continua sendo inventada. O que aparece ali não tem nada a ver com o que foi em 1922. Ou seja, a idéia da Semana é uma idéia em construção. Ela não acontece em 22.

Antropofágica pra valer!

É. Então estou devorando a Semana, fazendo uma “meta-antropofagia” com a Semana. Estou reduzindo ao meu estômago aquela semana que aconteceu.

Em seu livro você defende que o canibalismo é um traço fundamental de nossa cultura. Por quê?

Eu comecei a colecionar notícias policiais envolvendo canibalismo. Que é impressionante. Não é apenas essa coisa imaginária que existe na literatura, ou um ato episódico dos jogadores uruguaios que caíram na neve e começaram a comer os companheiros e tal. Isso existe como um impulso neurótico e Freud consegue explicar de certa maneira essa perversidade oral. E é muito comum. Ainda agora aquele programa Linha Direta vai mostrar um criminoso de São Paulo chamado Chico Picadinha, que pegava as mulheres, sobretudo prostitutas, retalhava, picava e comia; como aquele canibal alemão que pôs um anúncio na Internet porque queria comer uma pessoa e, entre vários candidatos, um se ofereceu realmente e foi devorado por ele. Existe uma coisa, um desvio, uma perversão que no lado mais ameno e mais normal se dá numa relação amorosa, que são grandes “entredevorações”.

Sua pesquisa mostra como que na poesia, do parnasianismo ao romantismo, a mulher passou a ser representada de flor a fruta, ou seja, de algo para ser visto a algo a ser comido, do jardim ao pomar. Depois as metáforas passaram a comparar a mulher a animais que o homem deveria caçar se quisesse comer. Essa ligação da culinária e do amor é um traço evidente do canibalismo amoroso.

Sim, faz parte desse canibalismo masculino, como existe um canibalismo feminino. Em alguns animais, alguns insetos, a fêmea é a devoradora; assim como existe um grande mito no imaginário masculino, sobre o qual eu falo no Canibalismo: o mito da Vagina Dentada, o grande medo da grande mãe castradora, como os folclores todos trabalham isso, e como é que até a ficção moderna trabalha isso. O José Rubem Fonseca, por exemplo.

Freud disse assim: “A grande questão para a qual não encontrei nenhuma resposta durante trinta anos de pesquisas sobre a natureza da mulher é a seguinte: o que elas querem enfim?” Você, marido da Marina Colasanti, já tentou esboçar alguma resposta para esses enigmas? Por que tememos tanto as mulheres? O que elsas querem afinal?

Primeiro porque elas são seres superiores. São adoráveis, mais inteligentes. Em segundo lugar, existe uma resposta para essa pergunta do Freud, eu até fiz uma crônica sobre isso, que é uma parábola sensacional que não vai dar pra você contar, porque é muito grande, que remete à lenda do Rei Arthur.

Ah, pode contar!

Ela começa quando o Rei Arthur, ainda jovem, invadiu o terreno de um rei e como punição foi condenado à morte. E o rei falou que ele só poderia escapar da morte se conseguisse resolver a seguinte questão: o que querem as mulheres? Há todo um desenvolvimento disso e a solução que se encontra é uma coisa maravilhosa. O Arthur contou isso para um colega, um dos cavaleiros, que disse: — Eu vou resolver esse problema pra você. Eu soube que tem uma bruxa na montanha que tem a resposta. Esse cavaleiro era belíssimo, inteligente, e então foi lá no lugar do Arthur e falou com a bruxa. — Escuta aqui, tenho um problema e preciso saber: o que querem as mulheres? A bruxa falou assim: — Olha, eu posso te contar, mas tem o seguinte: você tem que casar comigo. Só se você casar comigo eu respondo. E para salvar o amigo, casou com a bruxa. — Vou te contar na noite de núpcias. No banquete a bruxa estava comendo, toda desgrenhada, sem dente, vesga, jogando comida no chão e o pessoal se perguntando: pô ele vai casar com essa mulher? Aí quando ele entrou no quarto nupcial, perguntou: Bom, então me diz agora, finalmente! Estamos casados! A bruxa disse o seguinte: — Eu vou te fazer uma revelação. Eu sou bruxa de dia, mas de noite eu sou outra pessoa. E se transformou numa mulher deslumbrante, a mulher mais deslumbrante que qualquer homem pode imaginar, nem precisa descrever, cada um descreve a sua. E apareceu aquela mulher! Na alcova do cavaleiro! E aí a bruxa transformada na bela mulher disse: — Mas você vai ter que decidir com qual de nós duas você quer ficar, a bruxa ou essa deusa. Aí o cavaleiro, como era um cavaleiro mítico, um herói, de caráter sem jaça, um sábio, disse para ela: — Você decide. Você é que decide quem você quer ser. Então o resultado dessa melódia é: o que querem as mulheres? As mulheres querem ser o que elas querem ser, e não o que os homens querem que elas sejam.

Fale um pouco sobre as estratégias compensatórias pelas quais driblamos nossas frustrações, um assunto que explora bem em sua obra.

O imaginário humano é muito rico, ele desliza muito. Há um princípio básico da psicanálise que continua válido até hoje porque na verdade corresponde até a uma lei da Física e da Química: assim como Lavoisier disse que tudo se transforma, em termos de psicanálise e inconsciente Freud mostrou, entre outras coisas, que nós não suportamos nenhuma frustração. Nós não abrimos mão das coisas; nós substituímos. Então o nosso imaginário vive fazendo substituições. Se você não pode ter uma coisa, troca por outra, consciente ou inconscientemente, dentro de um jogo que a psicologia chama de redução da dissonância cognitiva. Você quer casar com uma mulher, ela não gosta de você, mas você casa com outra, em outras circunstâncias. Mas você tem que “justificar” aquele casamento. Então você diz: casei mas ela é rica né? Ela me dá tudo, e tal, eu não preciso trabalhar… Tem que ter alguma vantagem! Eu trabalho naquela empresa ali, eu não gosto muito não, mas me pagam muito bem. E assim por diante. Então isso existe em relação a tudo. A parte erótica, a parte amorosa, social, econômica…

Proust dizia que muitas vezes o escritor só encontra a sua verdadeira personalidade no texto. Será que isso explica o fato, por exemplo, de uma pessoa escrever coisas maravilhosas, humanistas, mas na vida real ser um crápula, um monstro?

Nós temos várias pessoas dentro de nós. Fernando Pessoa não inventou nada de extraordinário. Ele apenas contextualizou uma esquizofrenia que todos nós temos. Balzac criou tantos personagens que diziam que ele estava fazendo concorrência com os cartórios, de tanta gente que ele tinha criado. Ele era todas aquelas pessoas e também não era. Então o escritor é isso. Aliás isso é até terapêutico. Inclusive no teatro eu acho que isso é mais terapêutico ainda. Quando você faz psicanálise, às vezes você pode entrar para a terapia de grupo. Você vê nos seus colegas uma série de reflexos seus que te ajudam. Então você pode tratar-se através do psicodrama, cada um representa uma série de obsessões, de fobias, de fantasias e põe aquilo para fora em termos de catarses que exorcizam. Um ator um dia representa um amante, um dia um assassino, um dia um pai, um dia um filho, empregado, patrão, ele está exercendo um universo dentro dele terapêutico incrível. E o leitor é isso também. O leitor vai encarnando. O espectador de celebridades é a mesma coisa. A pessoa que está vendo Darlene queria ser também célebre, condena a Darlene por uma série de ações, mas também fica meio siderada com a fama. Há uma transferência.

Você que é um pensador do amor, responda aí essa última pergunta, inspirada em Saint-Exupery: somos responsáveis por aqueles que nós cativamos?

De alguma maneira sim. Mas a sua relação com alguém nessa troca de emoções, de afetos, de conhecimento, deve também fazer com que o outro cresça, que o outro não seja um dependente, de tal maneira que haja uma relação de maturidade, uma relação adulta. O outro não deve ser tratado nunca como uma criança, mas com respeito. E vice-versa.

Affonso Romano de Sant‘Anna, muito obrigado pela entrevista. Foi um grande diálogo e certamente vai inspirar muitas idéias nos leitores.

Fontes:
Portfólio André Azevedo da Fonseca
Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 284, em 4 de maio de 2004
Fotomontagem – José Feldman

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Entrevista com o Príncipe dos Poetas de Piracicaba, Lino Vitti

A Academia Piracicabana de Letras outorgou a este nobre escritor da terra o título honorífico de “Príncipe dos Poetas de Piracicaba“. Sua obra contempla mais de quatro décadas dedicadas à poesia, especialmente os sonetos. Bafejado pelos ensinamentos de sábios sacerdotes em colégio de formação religiosa, recebeu extraordinária formação literária que lhe propiciou enveredar pelo caminho da poesia, da crônica, dos contos, do jornalismo, havendo editado de 1959 até 2001 sete livros de poesia.

Aos 86 anos, Lino Vitti tem orgulho do título. Saudosista assumido, vive num amplo sobrado com Doratirtes, companheira de 57 anos que lhe deu sete filhos. Mas não despreza as novas tecnologias e usa o computador. Nessa entrevista, ele abre o coração e conta o que o emociona e o que o choca no mundo de hoje.

A PROVINCIA – Vale a pena ser poeta?

Lino Vitti – Penso que vale a pena, e muito. A prova são os sete livros de minha lavra. O prim eiro, “Abre-te Sésamo”, publiquei quando ainda era moço. Depois vieram “Alma Desnuda”, “Sinfonia Poética”, “Piracicaba, minha terra”, “Sonetos mais amados”, “Plantando contos e colhendo rimas” e “Antes que as estrelas brilhem”, esse último de 2001.

O que representa o título “Príncipe dos poetas piracicabanos”?

Ah, isso é uma coisa que me dá o maior orgulho! Recebi da Academia Piracicabana de Letras, em 1978, e para mim representa uma compensação aos meus longos anos dedicados à poesia.

Quando o senhor começou com a poesia?

Aos 15 anos, quando era seminarista, no Seminário Santa Cruz, em Rio Claro. Lá era proibido praticar poesia, redigir ou pensar tudo o que estivesse relacionado a ela. Mas em certa ocasião apareceu um clérigo de outra congregação, chamado Antonio dos Santos, e que era poeta. Ficou para mim essa divisão entre teologia e poesia. Escondido de outros padres, aprendi todas as técnicas da poesia.

Por isso o senhor desistiu do seminário?

Na verdade eles me mandaram embora. No pátio havia uma fiquiera e uma folha despencou do alto. Comentei com meu colega que estava me sentindo assim. Mas na hora passou um padre que tomava conta da gente e foi o que bastou para chamar meu pai. Ele pediu para que eu saísse pois não tinha certeza da minha vocação.

O senhor se arrepende de ter desistido ou de ter passado um tempo lá?

Nem uma coisa nem outra. Eu realmente não tinha vocação para sacerdote, mas devo aos padres tudo o que aprendi, tudo relacionado à cultura. Eles formam homens.

Como era a formação de um jovem naquele tempo?

Era a mais ampla possível. Eu aprendi latim, francês, italiano, e tive noções de grego.

E a disciplina, como era?

Era rígida a ponto de um seminarista não pode tocar outro colega com as mãos.

Tanta rigidez tem um lado positivo e um negativo?

De forma nenhuma. A rigidez só tem lado positivo, você tem de ser rígido em tudo.

Essa rigidez estaria em falta na educação de hoje?

Penso que sim. Acho que a educação está muito liberada, acho que no fundo os jovens sentem falta de mais rigidez.

O que o senhor acha da Igreja Católica atual?

Ela acompanhou muita coisa, mas em algumas se manteve, o que tem de ser. As pessoas que se dizem mais liberais não querem aceitar que existem certas coisas que são imutáveis na alma humana. A Igreja não pode aceitar o pecado, o divórcio, o homossexualismo.

Mas a Igreja não precisa se modernizar?

Pra que? Ela não tem obrigação de fazer isso. Sua obrigação é com a crença, com o sagrado. Quem tem de se adaaptar a ela é o fiel, ele é quem tem de seguir o que a Igreja determina.

Mas a Igreja não está perdendo fiéis por ser imutável?

A Igreja não visa coisas materiais, ela visa o lado espiritual. Ela não tem de aceitar o divórcio, ela tem de manter o casamento.

Há quantos anos o senhor mantém seu casamento?

Estou casado com Dorairtes, que é professora aposentada, há 57 anos. Temos sete filhos, seis moças e um rapaz, 15 netos e uma bisneta. Realmente é um vínculo indissolúvel.

O que é preciso para ser um bom poeta?

Em princípio, a poesia é um dom natural. Mas eu penso que escrever poesia não é só fazer quadrinhas ou estrofes que tenham métrica, rimadas ou em versos livres. A poesia é uma maneira de transmitir o que está dentro da pessoa de uma maneira elevada, de uma forma incomum. O bom poeta deve ser, acima de tudo, um observador profundo da natureza humana.

O que a modernidade trouxe de bom para o homem?

Trouxe coisas ótimas como as inovações científicas, as novas manifestações culturais. Esse é seu lado bom. Por outro lado, tem seu lado negativo quando se entrega ao abuso do sexo, do crime, da moral, da justiça, e até do abuso do amor.

O que choca o senhor hoje em dia?

Essas coisas que acabei de falar me entristecem. O que me choca é a política. Porque, em vez de cumprir aquilo para o qual foram eleitos, os ilustres representantes da política nacional aproveitam-se de seu mandato para abusar do povo.

O que Piracicaba representa para o senhor?

É meu berço e berço a gente não discute, a gente ama. sei que hoje a cidade tem muitos problemas como violência e falta de policiamento, mas isso existe em todo o lugar.

Santana deve ter um lugar reservado nesse ano, não é?

Claro. Nasci em Santana em 16 de janeiro de 1920 e lá aprendi tudo o que sei. Vivi uma vida campestre, no meio da mata virgem, no meio das lavouras de milho e dos cafezais. Aramva arapuca para passarinho, pegava peixe na beira do rio, colhia maracujá na capoeira. Tudo isso desapareceu e em seu lugar colocaram canaviais que acabaram com a mata, os pássaros, os bichos, as frutas, os peixes. É triste para mim, que sou poeta, ver como santana perdeu a poesia!

Fonte:
A Província.

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…E o Sertão Virou (Bel)Mar (entrevista com Cícero Belmar)

Entrevista realizada em outubro de 2008 por Raimundo de Moraes

Cícero Belmar é escritor e jornalista. Natural de Bodocó (PE), filho de Adrina e Cícero (Bé), nasceu a 20 de janeiro de 1963. Ele acabou de lançar o romance “Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom”, que recebeu os prêmios de ficção Vânia Souto Carvalho, da Academia Pernambucana de Letras, e o Lucilo Varejão do Conselho Municipal de Politica Cultural, da Fundação de Cultura do Recife.

Este é o segundo romance de Cícero. Em 2001, ele lançou “Umbilina e Sua Grande Rival”, que também recebeu o mesmo prêmio da Fundação de Cultura. Além desses dois romances, ele tem também um livro de contos, “Tudo na Primeira Pessoa” e duas biografias: “POla” e “O homem que arrastou rochedos”.

Ele também é autor de teatro, com três peças de sua autoria encenadas no Recife: “A Flor e o Sol”, “A Floresta Encntada” e “Coração de Mel”. Além de escritor, Cícero Belmar tem uma larga experiência como jornalista, já tendo recebido duas vezes o prêmio Cristina Tavares de Reportagem. Ele trabalhou em Redações de vários jornais e televisões em Pernambuco.
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Há tempos que eu queria entrevistar Cícero Belmar. Uma das primeiras lembranças que tenho da sua gentil pessoa é quando, entre uma aula e outra, nos encontramos por acaso num dos jardins da Universidade Católica de Pernambuco (à época ele terminava Jornalismo e eu era calouro de Direito). Eu disse, com certo espanto: seu nome ao contrário significa mar belo. E ele riu. Ora, não é que desse mar saíram muitos tesouros? Competente na profissão que resolveu seguir e um dos melhores escritores de Pernambuco na atualidade, entrevistar Belmar na verdade foi um presente para mim. Quando o nosso bate-papo virtual ia se desenrolando, eu me deliciava com o seu Acabou-se o que era doce! – o livro, por si só, valeria uma outra entrevista. Mas fica o gostinho de quero mais. Com vocês, um sertanejo com alma universal e que faz iluminar ainda mais este Recife de muitas histórias e de muita poesia.

Raimundo de Moraes: Como surgiu a idéia de escrever Rossellini Amou a Pensão de Dona Bombom?

Cícero Belmar: Minha intenção era fazer uma espécie de trilogia pernambucana. Não uma trilogia no sentido mais tradicional, de uma história ter uma seqüência na outra. Ou de um personagem se repetir na outra história. Não. Eu queria fazer uma trilogia mais geográfica, mais de costumes, de formas de expressão, de culinária. Então eu lancei primeiro Umbilina. É uma história sertaneja. Não gosto de dizer que é regionalista. É uma história de realismo mágico (expressão que também tá demodè). Eu usei o catolicismo popular para mostrar que se vive na prática o realismo mágico no Sertão de Pernambuco. Pode perguntar à Cida, que ela não me deixa mentir. É puro realismo mágico. Cida mesma conheceu dona Maria Nenen, dona Ermínia dos Paus Pretos. Pois bem. Fiz Umbilina, que era sobre Bodocó, a terra onde nasci. Fiz uma pesquisa de linguagem, de termos, etc. Depois, queria escrever uma história sobre o Recife. Comecei a pesquisar e vi que era melhor falar sobre o Recife dos anos 50. O glamour das noites do Bairro do Recife. Passei a ler sobre a prostituição, sobre o cais do porto. E me envolvi demais, entrevistei velhas putas. Resgatei umas histórias e vi que todas as mulheres dali tinham uma forte ligação com São Jorge, com Xangô, com Oxum. E os fatos foram se juntando na cabeça. À parte isso, tem aquele lance de dizer que havia casas mal-assombradas no Recife. E eu fui juntando o glamour com o sobrenatural. Até que um dia, conversando com Liêdo Maranhão, ele me mostrou umas fotos pornográficas (bem artísticas) do Recife Antigo. E eu entrei naquele clima mesmo: havia sacanagem, mas era um tempo artístico, entende? Foi quando ele me disse que Rossellini esteve na zona. Eu disse: caramba! É a minha história. Então, eu juntei verdades e mentiras. E deu no que deu. Quanto ao terceiro livro da “trilogia”, lancei no dia 31 de agosto deste ano Acabou-se o que era doce!, que fala da politização do pernambucano. A história começa no Recife e vai até o Sertão. Desta vez não mais Bodocó, mas Floresta do Navio.

Em Rossellini você usa preâmbulos que antecedem os capítulos – recurso muito utilizado, por sinal, por grandes nomes como Cervantes, Dickens, Jonathan Swift etc – só que você deu um toque pessoal: uma frase ora filosófica, ora metafísica arrematando o preâmbulo. Como foi a concepção estética do livro? Ao fazer suas pesquisas você já sabia que formato final ele teria?

Antes de começar a escrever a história, eu fiz uma espécie de roteiro, uma divisão dos capítulos, e defini o que diria em cada um. Fiz um resumo com frases-chaves para eu não me perder a idéia original durante a narração. Podia até mudar a idéia, mas não perdê-la. Morro de medo de esquecer a lógica do que estou escrevendo. E no caso de “Rossellini…” consumi seis meses. As frases que fui anotando para não perder o fio da meada eram do tipo: capítulo X “Dora trai o amante americano…”; capítulo Y “A cartomante prevê a chegada de um homem muito importante…”. Depois eu me perguntei: já que essas frases foram escritas, por que não usá-las nos preâmbulos? Não houve uma intenção de copiar, mas terminei copiando os clássicos. Quando resolvi usar essas, pensei em dar a elas um marketing. Eu queria “vender” o capítulo para o leitor. Oferecer o produto escrito, mas oferecer de uma forma que seduzisse o leitor. Então, as frases precisavam ser mais que informativas. Elas deveriam ter uma adjetivação. E eu encontrei isso quando comecei a pesquisa sobre o neo-realismo. Isso que você fala de metafísico ou filosófico está no neo-realismo, que é uma corrente artística que mistura realidade e ficção. A proposta do livro era exatamente essa, misturar esses dois eixos. E os preâmbulos surgiram, finalmente.

E o seu envolvimento com o teatro? Nesta área você também é um autor premiado…

Eu comecei lendo peças, ainda na adolescência. A primeira foi uma desconhecida, de Jorge Amado, O Amor do Soldado. Depois, li O Santo Inquérito, de Dias Gomes e essa mexeu comigo. Eu fiquei muito reflexivo com aquela força que vinha do texto. Então eu fiquei pensando: como é que se faz isso? Li o texto e posteriormente tive a oportunidade de ver o texto montado por um grupo local de teatro do Recife, no Valdemar de Oliveira, cuja atriz principal era Marilena Breda. Ela fazia Branca Dias. Foi outra surpresa pra mim. No texto escrito e no texto montado, vi claramente que eram duas coisas iguais e diferentes ao mesmo tempo. Aí eu descobri a possibilidade. Teatro me encanta pela possibilidade, pelos mil caminhos que ele te indica E me empolguei. Aí continuei lendo. Li Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues, os textos de Maria Clara Machado, li Ibsen, Brecht, Federico García Lorca. Um dos textos que mais que marcou foi As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, de Rainer Werner Fassbinder. Já que estava no embalo, também li todas as teorias de teatro, até que um dia eu pensei: não vou ler teoria, não quero ser diretor de teatro. O que eu sou mesmo é um curioso que escreve. E fui me envolvendo com a proposta de literatura para teatro. Como eu tenho uma facilidade muito grande de fazer diálogos, então os textos brotaram com mais facilidade. Teatro exige muito cuidado, exige que a palavra usada seja muito medida, pois a palavra é a jóia do império. Através do diálogo, sem o artifício de descrever as cenas, você tem que estabelecer um pacto, de fazer o jogo acontecer. Ou seja, é preciso usar a palavra certa e forte. Teatro e literatura é um casamento perfeito, como a pintura e a escultura; como a música e a dança.

Escrever peça infantil é mais difícil que escrever para adulto? Você tem “na gaveta” alguma peça que ainda não foi encenada?

Em geral, as pessoas acham que escrever para criança é difícil porque se trata de uma relação de desiguais. E é. No caso, escritor adulto escreve para um leitor infantil. São dois mundos diferentes. A pessoa que escreve para criança precisa fazer um exercício de humildade, desfazer-se das carapaças que a vida adulta vai colocando ao longo do tempo. Precisa também entender de poesia, saber da importância dos detalhes, sem nunca ser piegas. Caso contrário, ele nunca chegará à criança da platéia. Realmente não é simples escrever peça de teatro infantil, pois além desse desafio de captar o interesse da criança, é também preciso emocionar a pessoa adulta que acompanha a criança ao teatro. Criança nenhuma vai sozinha para o teatro, por isso é preciso lançar mão de uns temas “adultos”, entende? É um desafio para qualquer escritor. Mas, apesar disso, os autores de peças infantis não são reconhecidos pelas suas obras. E quando eu falo desse não-reconhecimento estou falando da crítica, das instituições que controlam as políticas culturais e até mesmo da classe artística. Você não encontra o reconhecimento que merece. O nobre é fazer teatro adulto. Quem faz teatro infantil o reconhecimento acaba quando a temporada acaba. Então eu me pergunto: o gênero dramático (teatro infantil) está enfraquecido? Ou as pessoas é que são preconceituosas com o teatro infantil? Eu posso questionar, pois tenho cinco peças infantis, sendo uma delas ainda inédita, cujo título é Os Vaga-lumes. Das quatro que já foram montadas no Recife, três ganharam prêmios. Uma, de melhor texto pela Apacepe (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco) e as outras duas receberam o Miriam Muniz.

Agora um pouco de jornalismo. Na época dos nossos pais e avós a profissão de jornalista era até mal vista, aquela coisa: vai morrer de fome! Hoje, nos vestibulares, as vagas para os cursos da área de comunicação social são concorridíssimas. Parece que todo mundo quer ser jornalista e publicitário. É modismo ou é a glamourização do Quarto Poder?

É tudo isso e mais o desconhecimento sobre o mercado de trabalho. Eu fico impressionado como é que, nos dias de hoje, com tanta informação disponível, as pessoas insistem em tomar decisões sem levar em conta sobre o futuro, sobre o que a profissão pode garantir. Hoje, em cada esquina você encontra uma pessoa formada em jornalismo, mas grande parte não sabe escrever uma notícia. Aliás, não sabe juntar duas frases com objetividade e clareza. Qual o destino desse profissional, num mundo cada vez mais exigente, num mercado que está pedindo multifunções? E então eu me pergunto se as faculdades estão de fato cumprindo o seu papel, voltando à discussão dos anos 90, de que fazer um curso superior de jornalismo era inócuo, dispensável.

Em 2005, quando você era editor executivo do Jornal do Commercio, foi demitido sumariamente por autorizar a publicação de uma matéria que ia de encontro aos interesses da diretoria do Sistema JC de Comunicação. Sua demissão causou protestos de jornalistas daqui e de outros Estados – houve até um abaixo-assinado com apoio de várias entidades: Instituto Paulo Freire, Movimento Nacional de Direitos Humanos, Sindicato dos Jornalistas etc. Hoje, em 2008 – e se ainda fosse funcionário do JC – você tomaria a mesma decisão de 2005?

Mais do que nunca, hoje eu tenho clareza de que mandaria publicar. Sou contra o trabalho escravo, como qualquer pessoa de bom senso. O Jornal do Commercio não me demitiu por causa da matéria em si, mas porque a publicação da matéria poderia ferir a amizade do dono da Folha de Pernambuco (proprietário da destilaria que estaria mantendo os trabalhadores em regime de semi-escravidão) com o dono do Jornal do Commercio. Agora veja que ironia: meses depois da demissão eu fui procurado por uma pessoa da Folha de Pernambuco que me trazia um recado dos diretores da empresa, mandando dizer que jamais, em tempo algum, pediram minha cabeça ao Jornal do Commercio. Ou seja: O JC foi mais real que o rei. Mas, eu digo e repito: um editor executivo tem cargo de confiança do jornal e deve fazer o que for determinado a um editor executivo. No meu caso, eu mandei publicar porque sempre arquei com o ônus e o bônus da função. Nunca me arrependi de ter publicado.

Existe imprensa livre?

Não. E vou dizer mais: a imprensa não é livre nem mesmo para o dono. Um jornal, por exemplo, nem sempre publica só o que o dono quer. O poder público manda nos jornais (ou o jornal publica a notícia favorável ou o poder público não manda publicar os milhares de editais). O poder econômico manda nos jornais (ou o jornal pega leve ou os empresários não publicam os anúncios). A religião tem influência num jornal. Os amigos do dono do jornal e os familiares têm influência, sim, no que o jornal publica. Sabendo disso, o leitor precisa ter senso crítico para formar sua opinião sobre o que vê, lê e escuta. Já conheci uma pessoa que declamava, na mesa do bar, tudo o que lia nas páginas da Veja. E jurava que era uma pessoa bem informada. Convém ler mais de um jornal ou mais de uma revista, ver mais de um canal de televisão, ouvir mais de uma emissora de rádio. Mas, é bom a gente fazer uma reflexão: quando um leitor compra um jornal ou uma revista faz isso de livre e espontânea vontade. Ele compra sabendo exatamente o tipo de informação que vai encontrar ali. É uma opção dele. Ou seja: ele tem o poder de comprar ou deixar de comprar, caso não goste daquele produto.

Estou lendo o seu último livro publicado, o Acabou-se o que era doce!, cuja história se passa no município de Floresta, Sertão pernambucano. Aproveitando o mote e para finalizarmos esta entrevista gostaria de saber como você se relaciona com as suas raízes interioranas. Muitas pessoas que migram para a cidade grande vivem um misto de nostalgia-mágoa, nostalgia-alegria, nostalgia-repulsa ou outros preferem esquecer de vez que nasceram no interior. E com você? Como Bodocó situa-se no âmbito afetivo?

Sem Bodocó eu jamais seria isso que aprendi a ser. Tudo o que escrevo tem a ver com o que sou, com o que fui, com o que quero ser. E eu sou apenas uma pessoa modesta que, se tiver chance, dispara no cavalo magro de Dom Quixote e ganha o mundo. E ganho.
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Raimundo de Moraes é poeta, cronista, jornalista e colunista da INTERPOÉTICA
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Fonte:
http://www.interpoetica.com

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Henrique Oliveira (André Carneiro: O Mago das Palavras)

André Carneiro, o homem que divide textos com os maiores escritores do planeta e é pouco conhecido no Brasil.

O primeiro encontro

Maio de 1922, nasce em Atibaia, interior paulista, André Carneiro. 85 anos se passam e vou à casa do escritor, cineasta, artista plástico, fotógrafo, inventor e pensador. Busco suas obras e sua história, mais conhecidas fora do Brasil. Chego de táxi ao conjunto de prédios, em um bairro de classe média de Curitiba. Nosso encontro estava agendado para as 19 horas. Atraso-me apenas cinco minutos. Horas depois iria me orgulhar do feito responsável.

O simpático porteiro abre a porta e pelas escadas, chego ao segundo andar do pequeno edifício. Na porta, sorridente, espera-me o homem, que mora só. “Como vai? Entre e sente-se onde você quiser”, recebe-me o anfitrião.

Atento, observo a casa do poeta. O modesto e pequeno apartamento é decorado com inúmeros quadros e retratos, todos produzidos por ele. Nas paredes têm ainda poemas moldurados e cartazes das suas obras literárias. As três estantes são cobertas por livros, arranjos e esculturas, também feitas pelo artista. “Gosto de arte, independente de qual seja”.

Nos sentamos. Ele no sofá, eu numa cadeira de madeira preta. O começo do papo é tímido. Falo um pouco sobre mim e comento sobre uma amiga que temos em comum.

Então, conversei com a Carmem hoje pela internet e ela mandou um beijo para você.

– Está bem.

Noto, que o homem, escritor de quinze livros de poesias, novelas, contos, romances, críticas literárias e teorias de hipnose, publicados no Brasil e em doze países; roteirista e diretor de seis filmes-artes; autor de gravuras, esculturas, fotografias e quadros, expostos e vendidos nos Estados Unidos e na Europa; está arisco. Desconfiado sobre minha real intenção, questiona-me sobre minha cidade de origem, meu trabalho e minhas opiniões. Nosso encontro não tinha a proposta de ser uma entrevista. Intermediada por nossa amiga Carmem, era apenas para ser uma conversa sobre literatura.

– Eu vim aqui para te conhecer, pois li sobre seu trabalho e algumas pessoas que admiro falaram de você.

– Esse é um motivo muito bom.

Após conversarmos superficialmente sobre a decoração de sua casa, mulheres, vinhos, cinema, viagens e obviamente literatura, lhe proponho uma entrevista para uma reportagem. Já mais “chegados”, André topa e agendamos um outro encontro, para oficialmente realizarmos a entrevista. Minha missão estava cumprida.

O poeta me mostra alguns dos seus livros. O último, “Confissões do Inexplicável”, foi lançado em maio de 2007. Reunindo 27 contos, a obra tem na capa um invejável elogio: “André Carneiro merece a mesma audiência de um Kafka”. A comparação com o autor tcheco, um dos mais admirado e respeitados escritores do século XX, é assinada pelo romancista americano A. E. van Vogt. “Depois dessa descrição não preciso de mais nada, não é mesmo?”, indaga André, que ainda me mostra outros livros seus. Tudo o que o poeta pega, com cuidado devolve no mesmo lugar. “Não sou sistemático, mas tenho que ser organizado para achar minhas coisas, pois eu quase não enxergo”. Vítima da trombose, André tem apenas 10% da visão. “Vejo apenas um vulto”. Dificuldade que não o impede de ler e escrever incansavelmente.

Para suas leituras, adaptou uma câmera de vídeo de segurança em um copo de plástico, onde a imagem captada é exibida em uma TV. “Isso foi criado por um amigo meu, eu apenas adaptei. Essa invenção facilita muito minha vida”.

O poeta me convida para conhecer seu escritório. Uma sala apertada, também cheia de livros e papéis. Neles, o poeta anota seus compromissos e seus comentários sobre o que lê, ouve e vê. Seis, talvez sete lâmpadas estão instaladas no quarto adaptado. O fio de uma delas passa sobre a mesa, formando um varal. Pendurado ali, tem uma folha com meu nome, meus telefones e o horário que havíamos combinado. Foi nesta hora que senti orgulho da minha pontualidade. “Não gosto de pessoas que se atrasam. E se for para furar comigo que me avise e que seja por um bom motivo. Aceito ser trocado apenas por mulher. Outros compromissos eu não admito, é mais importante conversar comigo“, resmunga o poeta com um tom de irritação e ironia.

Para suas escritas, André usa um computador, cuja tela é configurada com a resolução máxima. As letras ficam enormes. O poeta senta-se em uma cadeira toda cheia de espuma, que ele mesmo adaptou, coloca uns óculos com lentes extremamente grossas e com o rosto quase encostando no monitor, digita. Por dia, escreve em média quatro horas. “É, mas tem dia que nem durmo e passo a noite toda escrevendo. Também escrevo nos finais de semana e nos feriados”.

Já são quase 22h, quando ensaio minha despedida. Agendo com André nosso próximo encontro para a semana seguinte. Despeço-me do poeta e parto.

No dia seguinte começo a escrever a reportagem e pesquiso na internet mais informações sobre o poeta, que é citado em inúmeros sites. Seus textos estão publicados em importantes antologias da literatura nacional e mundial. O premiado poeta divide textos com consagrados autores, como Machado de Assis, Oswaldo de Andrade, de quem se tornara amigo pessoal e Carlos Drummond de Andrade, que escreveu: “A poesia de André Carneiro transfigura as coisas cotidianas”.

O segundo encontro

Exatamente uma semana se passa e volto à casa do poeta. Chego no meio da noite e desta vez levo comigo um câmera de vídeo, pois a reportagem ganhara uma nova dimensão. Mais uma vez o homem só, me recebe com atenção. Fica feliz ao saber que seria também personagem de uma videoreportagem. Vaidoso, vai fazer a barba. Termina e senta-se em frente ao provavelmente seu maior amigo do momento, o computador. Enquanto o poeta vasculha e-mails, gravo imagens da situação.

Em seguida partimos para a sala, onde escolhemos a maior estante para ser o cenário do depoimento. Antes de por o microfone, André troca de camisa, põe o lenço que sempre o acompanha no pescoço e ajeita o cabelo. Sem nenhum roteiro preparado, começamos a entrevista, que é mais justo defini-la como um papo informal. O poeta conta que começou a escrever por acaso para um jornal de Atibaia.

Anos mais tarde, em 1949, é lançado “Ângulo e Face”. Seu primeiro livro é uma coletânea de poesias. No mesmo ano, junto com sua irmã e um amigo, o poeta cria “Tentativa”, um jornal literário que possuiu correspondentes em Portugal, na França e na Argentina. Apresentado ao público por Oswald de Andrade, “Tentativa” foi distribuído por três anos e teve textos de Vinicius de Moraes, Graciliano Ramos, Sérgio Milliet e tantos outros escritores conceituados.
A noite se afunda. São 22h30, hora de André pingar colírio. O homem interrompe a entrevista e com a ajuda de uns óculos com um furo na lente, coloca seu remédio com precisão.

A gravação continua.

– Você tem dois livros que tratam de hipnose. Como aprendeu essa técnica?

– Eu sou um grande interessado em ciência evidentemente, e a hipnose é uma coisa fascinante, pois tem esse aspecto misterioso. Um dia eu comprei alguns livros sobre o assunto, experimentei as técnicas com uma pessoa e percebi que eu tinha a hipnotizada. Daí eu comecei a analisar o nascimento das crianças e criei a hipótese de que era possível uma mãe programar o dia e a hora do nascimento do seu filho através da hipnose. Para eu levar adiante essa experiência, tive que receber a ajuda de um médico. Daí então, fizemos a experiência com uma mulher. Com a hipnose, tentamos provocar o nascimento do bebê em um determinado horário.

E deu certa a experiência?

– (Risos) Não. O bebê nasceu na hora desejada, mas no dia seguinte.

Os conhecimentos científicos e as habilidades artísticas de André são frutos apenas da sua curiosidade, das suas experiências e da sua vocação. O poeta não tem nenhuma formação acadêmica, porém é um assíduo estudioso. Lê tudo e todos. Fluente em francês e capenga inglês, já ministrou palestras e cursos sobre literatura em diversas universidades do mundo. Sua obra é objeto de estudos, além de ser analisada em teses de doutorados da Universidade Estadual Paulista e da University of Arizona.

Você fica triste em não ter seu trabalho reconhecido pelos brasileiros?

– Olha, de certa forma eu aceito, pois o Brasil é um país onde se lê muito pouco. Têm pouquíssimas livrarias, a cultura é essa. Você vai na Europa, nos Estados Unidos, na Argentina, têm bibliotecas e livrarias espalhadas em todos os cantos, e todas sempre lotadas. Até em Cuba é diferente. Certa vez, estava em Havana e não consegui comprar um livro porque ela estava completamente cheia. Essa falta de leitura e de incentivo à leitura que existe no Brasil é lamentável. É uma coisa dolorosa.

– A indústria editorial brasileira não é profissional. Como é para um escritor depender dela para sobreviver?

– Com a idade que eu tenho, fazendo tanta arte e ganhando dinheiro com obras que eu fiz há quase 60 anos são situações interessantes. Pouquíssimos escritores ganham dinheiro com literatura em nosso país. Veja minha casa, eu não sou rico. Nunca ganhei muito dinheiro escrevendo, mas é o que eu gosto de fazer. Escrevo por prazer, por ideal. Não me incomoda ser pobre, sou feliz. Se não já tinha parado com tudo.

Encerramos a entrevista e eu peço a André para ler uma de suas poesias. Ele escolhe “A Edênica Tarefa”.

Ao encerrar, pede que eu fique um pouco mais para continuarmos com nossa boa prosa. Enquanto guardo o equipamento, ele pinga mais uma vez o colírio, com a ajuda de sua invenção ocular. O poeta me oferece um livro de presente e na contra capa, escreve uma dedicatória. Ganho “Quânticos da Incerteza”, uma coletânea de poemas, lançada também em 2007.

Reparo que os olhos do velho homem já pedem o descanso. Passa da meia-noite quando me levanto para partir. Combinamos manter contato, nos despedimos e eu vou. Apesar de André ter escrito contos, críticas, novelas e romances, na reportagem sempre o chamei de poeta, porque ele sabe como ninguém a essência desse ofício. Entende que poeta não é apenas quem cria poemas. É a pessoa que através de atos, artísticos ou não, transforma, constrói e principalmente emociona. Essa sensibilidade é privilégio para poucos. André Carneiro é um desses, um privilegiado.

Livros publicados por André Carneiro
Ângulo e Face, 1949. Poesia.
Diário da Nave Perdida, 1963. Contos.
O Mundo Misterioso do Hipnotismo, 1963. Ensaio científico.
Espaçopleno, 1963. Poesia.
O Homem que Adivinhava, 1966. Contos.
Introdução ao Estudo da “Science Fiction”, 1967. Crítica Literária.
Manual de Hipnose, 1968. Ensaio Científico.
Piscina Livre, 1980. Romance.
Pássaros Florescem, 1988. Poesia.
Amorquia, 1997. Romance.
Lês Ténèbres, 1992. Novela
A Máquina de Hyerónimus e outras Histórias, 1997. Contos.
Birds Flower, 1998. Poesia.
Confissões do Inexplicável, 2007. Contos.
Quânticos da Incerteza, 2007. Poesia.
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Vídeos do escritor podem ser encontrados no blog abaixo.
Biografia detalhada e poesias podem ser encontradas na postagem de 25/12/2007
Conto “Do outro lado da Janela” em 31/01/08 e Artigo “Ficção Científica, Evolução Genética e o Cinema, em 03/01/08.
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Fonte:
http://oliveirando.blogspot.com/2007/10/teste-de-udio.html

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Entrevista com Isaque de Borba Corrêa

Membro da Academia Desterrense de Letras (Florianópolis) e Academia de Letras de Balneário Camboriú. Escritor, natural de Balneário Camboriú (1960), autor de mais de uma dezena de livros em diversas ciências.

Camboriú Virtual – Como você começou a tomar gosto pela história?

Isaque de Borba Corrêa – Em 1974 o prefeito Gilberto Meirinho propôs aos alunos da rede escolar uma pesquisa sobre a História da cidade. O tema era “Balneário Camboriú – 10 anos de construção” Não consegui terminar em tempo hábil de tanta coisa que arrumei em termos de história oral. Depois descobri os arquivos públicos. Me encantei com a história e pra falar bem a verdade até hoje já vai para 35 anos e ainda não terminei aquela história. Também pela identificação. Sou descendente do primeiro morador da Praia de Camboriú, naquele tempo apenas Camboriú, e recebi de herança documentos, bens que me remetem a história o tempo todo.

Camboriú Virtual – Como está a relação das prefeituras da região com a história de suas cidades? Há uma preocupação no sentido de preservar esses documentos?

Isaque de Borba Corrêa – Muito pouco. Aqui em Balneário Camboriú em termos de arquivo estamos razoavelmente bem, falta inventariar a documentação lá existente. Faltam recursos humanos especializados e um pouco de vontade política de realizar isso. Ainda não existe uma política cultural voltada ao resgate da história como existe em cidades como Joinville, Blumenau, Florianópolis e até Itajaí. Nas demais cidades é uma pena, o que existe são apenas alguns abnegados como eu que solitariamente fazem alguma coisa. E é bom que se frise que a história é fundamental nas cidades turísticas.

Camboriú Virtual – A iniciativa privada tem apoiado projetos voltados para história de nossa cidade?

Isaque de Borba Corrêa – Quando você diz nossa cidade, não sei exatamente qual pois milito nas duas cidades Camboriú e Balneário, e vamos figurar em portais de três cidades, mas posso te garantir que pra história nenhuma empresa até hoje investiu qualquer coisa. Falta uma lei de incentivo, que Itajaí tem faz tempo.

Camboriú Virtual – Quais foram os livros escritos pelo senhor?

Isaque de Borba Corrêa – 1º: HISTÓRIA DE DUAS CIDADES BALNEÁRIO CAMBORIÚ E CAMBORIÚ.
Preparo a 2ª edição. Um best-seller. O livro mais vendido e mais lido em Balneário Camboriú.

2º- DICIONÁRIO PAPA-SIRI. – Acho que foi o primeiro dicionário sociolingüístico do país, não conheço outro mais antigo. Acho que foi eu quem inventou essa história de dicionário (aloletário) regional.

3º A ESCRAVATURA EM CAMBORIÚ. –. Nenhuma cidade do país, tem a sua história demográfica escravagística mais bem documentada que a nossa ( Camboriú e Balneário)

4º DICIONÁRIO CATARINENSE. Um tratado de lingüística, dialetologia, falares e sub-falares de SC.; Fiz em parceria com a RBS e o DC. Possivelmente o mais vendido de santa Catarina. Só num final de semana foram quase 5 mil, no lançamento.

5º JANGA- O PIONEIRO DA FÉ. Biografia encomendada de João Boaventura Caetano – Janga – o Primeiro crente em BC.

6º PORANDUBA PAPA-SIRI – Folclore inédito das duas cidades.
7º SOLILÓQUIO – Memória de um papa-siri com sardade da bera da Praia. Um romance histórico, escrito em linguagem vulgar, memórias póstumas de Manoel Germano Corrêa, o primeiro pesacdor de BC.

8º – COLÓQUIO – Um romance em linguagem vulgar, sugerindo a convivência de uma família dos anos 50 da Praia de Camboriú

9ª PIRÃO COM MILONGAS – Livro é que nem filho, não se sabe qual o melhor, mas acho que esse é o que eu mais gosto. Antropologia social e cultural – do centro do litoral catarinense.

10º-LELA – PRAIANO HERÓI. Biografia encomendada do Lela, o maior contador de histórias que conheço.

11º – UMA TRAMA NO ALTO VALE. Biografia encomendada por Ivo Vanderlind.

12º O ESPATÁRIO – Biografia de Dom Paio Peres Corrêa, herói europeu da Idade Média. Nasceu em 1210 e morreu em 1270. Foi grão-mestre da maior ordem militar da Idade Média, a Ordem de Santiago da Espada, por isso se chama “O Espatário”. Foi ele quem expulsou os mouros do Algarve e Andaluzia, fundou inúmeras cidades cristãs, comandou a 7ª cruzada para resgatar o rei santo Luis IX. Destituiu o rei Sancho II, empossou seu irmão, fez casar reis e rainhas, matou muita gente, nunca perdeu uma guerra, sua naturalidade é disputada por duas cidades e seus restos mortais pelo dois países. Portugal de nascimento e a Espanha onde fez fama. Mesmo sendo português, foi nomeado pelo rei espanhol para representar a Espanha no conflito pela disputa de território entre os dois países. É considerado o homem mais poderoso do mundo, não sendo rei nem papa. Mesmo sendo um dos homens mais conhecidos da Europa, foi biografado por reis e até Luis de Camões, mas eu aqui nesse fim de mundo sou seu maior biógrafo. Consegui isso comprando a história de todas as cidades por onde ele passou. É tido como o 1º Corrêa e o mais famoso deles. Está na iminência de virar filme.

13 º – SÃO TOMÉ – Provas da passagem desse apóstolo de Cristo no continente americano.

14 º – OS ZELOTES – História desse povo religioso muito antes de Cristo. Teve seu auge na era Macabeus e seu trágico fim no governo do General Romano Tito.

Camboriú Virtual – Dentre os livros escritos pelo senhor, qual te chamou mais atenção? E por quê?

Isaque de Borba Corrêa – Diria que o “SÃO TOMÉ – A SAGA DO APÓSTOLO DE CRISTO NA AMÉRICA” uma pesquisa extraordinária que mais de 20 jesuítas contaram durante 100 anos, até que o Papa Urbano VIII proibiu de se falar nessa heresia no continente. Com medo de um processo no Tribunal do Santo Ofício, eles pararam de escrever sobra a passagem do Santo em terras americanas. Em virtude da proibição o mais fanático defensor dessa história o jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, encerra sua pesquisa rogando a Deus que um dia alguém encontrasse os seus rascunhos e desse continuidade à sua história com mais fundamente. Mais de 400 anos depois, Deus ouviu o pedido do jesuíta e colocou em minhas mãos o seus rascunhos e eu fiz a continuidade da pesquisa, conforme o desejo daquele jesuíta tão abnegado. É a maior pesquisa já feita na América Latina, uma coisa muito maior que eu. Gastei tudo que tive, entrei em depressão, mas valeu a pena. Hoje o país inteiro está falando nisso, conjuntamente com o elemento principal dessa história que o Caminho do Peabiru, que já foi até tema de carnaval, filmes, documentários etc.

Camboriú Virtual – O senhor está escrevendo um novo livro? Conte-nos sobre este projeto.

Isaque de Borba Corrêa – Estou sempre escrevendo. Agora estou dissertando sobre os zelotes. Lembra que Jesus tinha um discípulo chamado “Simão – o zelote”? Pois é o Zelotismo era um facção da religião dos essênios. Eles começaram lá no princípio com Moisés. Era levitas encarregados de zelar pelo tabernáculo. Com o desenvolvimento e a modernidade eles evoluíram e criaram outras religiões. O auge do sofrimento deles foi durante o domínio selêucida, durante o governo de Antíoco – seleuco, na época dos irmãos Macabeus. Eles se extinguiram no governo de Tito quando houve a grande diáspora no ano 70. Logo em seguida a Igreja Católica os incorporou a todos; e, fariseus, saduceus, essênios, zelotes, sicários, nazirenos, viraram cristãos. Os escribas viram os bispos da Igreja Católica e ali foi o fim desse sofrido povo.

Camboriú Virtual – Como a população poderá ter acesso aos livros do escritor Isaque Borba?

Isaque de Borba Corrêa – Não poderá. Não tenho nenhum livro disponível. Todos foram esgotados por força da miséria. Sempre fiz pequenas tiragens. O único que disponho é sobre a escravatura, daí tem que ligar pra mim, no meu trabalho – GRÁFICA DIGITAL COPYARTE – Rua 300 nº 179 – 33631394 ou no meu imeio – isaqueborba@gmail.com

Camboriú Virtual – O senhor é membro da Academia Desterrense de Letras em Florianópolis e de Balneário Camboriú. Como está sendo esta experiência?

Isaque de Borba Corrêa – É talvez o fato mais positivo na carreira de um escritor. É o sonho de todo escritor fazer parte de alguma academia de letras, receber o titulo de imortal. O fato de eu me eleger em Florianópolis é ainda mais significativo, uma vez que lá as disputas são sempre muito acirradas, sempre tem mais candidatos que vagas e dificilmente se elege alguém do interior. O que me levou à eleição lá, foi o fato de meu excelente relacionamento com os demais escritores da capital e o respeito que eles têm pelo meu trabalho.

Camboriú Virtual – Em seus textos sobre a cultura papa-siri observamos uma forma divertida e única de abordar os fatos. Isso é uma marca pessoal do escritor Isaque Borba?

Isaque de Borba Corrêa – Sim, eu tenho por missão propagar a nossa língua, da mesma forma que os portugueses lutam para ter o idioma português em evidência no mundo. Isso é uma coisa muito valiosa. É só comparar com o inglês, quem não fala essa língua não tem o valor que tem quem a fala. Falar ou escrever nessa linguagem é sempre meio engraçado. Colocamos uma pitada de humor para que seja mais atraente, senão você não atrai as pessoas para essa leitura. Muitos pensam que escrever numa linguagem regional é escrever errado.

Camboriú Virtual – Deixe um recado para os leitores que acompanham os portais virtuais e o trabalho do escritor Isaque de Borba Corrêa.

Isaque de Borba Corrêa – Curtam a cultura da terra que vivam. Eu sempre adotei a cultura dos povos por onde vivi. Isso é uma demonstração de inteligência. Não se repudia a cultura onde se vive. Por isso convoco a todos para colaborar com a nossa cultura, estimular, promover. Precisamos de uma casa de cultura boa, um museu principalmente, pois isso no mínimo aumenta a permanência do turista e eleva a auto-estima do seu povo.

Fonte:
http://www.balneariovirtual.com.br/portal/diaadia_entrevista.php

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Entrevista com José Saramago

Saramago conversa sobre o ofício do escritor

O escritor português José Saramago esteve na Folha de São Paulo dia 27 de abril para uma conversa informal sobre o trabalho do escritor. Como um escritor escreve? Por que escreve? Há vocação, não há vocação, há livros mais ou menos fortes, os autores projetam seus livros? Saramago, um homem afável e elegante de 65 anos respondeu a todas as perguntas, “sem fintas”. Estavam presentes também a escritora Lygia Fagundes Telles, o poeta e tradutor Horácio Costa, o escritor José Silvério Trevisan e as professoras Maria Aparecida Santilli e Wilma Arêas. Falou-se de livros, máquinas de escrever, transverberação e enfartes, da crítica e da relação entre os comunistas e os escritores. A reunião durou duas horas.

Folha — Como o sr. escreve? Começa o livro escrevendo à caneta e passa à máquina de escrever, usa o computador direto, dita em um gravador?

José Saramago — Eu escrevia numa máquina de escrever. Depois de ter começado numa caneta, há muitos e muitos anos, quando não havia sequer esferográficas – nunca usei esferográfica, porque é um tipo de escrita que nunca me agradou, uma escrita sempre igual – passei a escrever diretamente à máquina, a partir de uma experiência jornalística que tive em 72/73. Por circunstâncias alheias à minha vontade eu estava a trabalhar numa editora e tive de ir trabalhar para um jornal. Evidentemente eu nunca tive uma formação jornalística, nem uma vocação jornalística, digamos; foi alguma coisa que tive de fazer contra vontade. E aí a regra mandava que se tinha de escrever à máquina. Devo algumas coisas ao jornalismo. Com certeza, do ponto de vista tecnológico devo isso. Como estava obrigado a escrever à máquina, habituei-me de tal forma a isso que depois e até hoje, seria completamente incapaz de escrever, enfim, com a velha caneta a tinta permanente, e tampouco com a esferográfica, porque me dá a idéia de que tudo escreve mais depressa – ou que tudo escreve mais devagar do que aquilo que eu necessito. A minha máquina era uma máquina velhíssima, que tinha pelo menos 30 anos, uma Hermes Média, toda ela metálica, que já não se fabrica mais, evidentemente. Chegou a um tal estado de depauperamento físico, que quando se avariava, o mecânico, por duas ou três vezes, teve de fabricar peças para que ela pudesse continuar a funcionar. Essa máquina de escrever deu o último suspiro com o final da história do cerco de Lisboa.

Folha — E agora?

José Saramago — Neste momento tenho um processador de texto, atualizei-me tecnologicamente e estou diante duma inquietante dúvida: do que serei capaz de escrever com essa figura nova, que já não tem aquele ar familiar da minha máquina de escrever e é uma coisa que tem umas luzes que acendem e apagam e tudo o mais? Enfim, eu já me habituei e penso que vou continuar com ele. Eu sempre tive a preocupação de folha limpa, sem correções. Agora com as novas tecnologias isto já não é assim, porque o texto está sempre limpo. Eu levava tão longe esta preocupação, que se me enganava, por exemplo com um erro de digitação – em vez de pôr um “m” metia o “o”, por exemplo, na primeira, segunda ou terceira linhas -, minha dificuldade em aguentar o texto sujo ia ao ponto de arrancar a folha e tirá-la fora. A partir da décima linha ou coisa que o valha, já admitia que me pudesse enganar, mas normalmente, e isso verificou-se muito neste último livro. Se ao fim de um dia de trabalho escrevia três ou quatro páginas, por exemplo, vinha um segundo tempo, digamos, desse mesmo trabalho: corrigir essas três ou quatro páginas e limpá-las de forma que quando fossem juntar-se às outras já estivessem limpas. Isto significa que quando eu cheguei ao fim do livro tinha praticamente o livro escrito e revisto, apenas com algumas emendas que eram necessárias. Tanto assim que nem foi preciso passar outra vez a limpo para o entregar ao editor. Tenho, de fato, a mania da página higiênica, embora ache perfeitamente fascinante olhar para uma prova vista pelo Eça de Queiroz, por exemplo, ou por Balzac, que são coisas perfeitamente alucinantes. Há provas do Eça de Queiroz, e são já as provas tipográficas, em que aquilo que ficou de 20 linhas, por exemplo, é uma linha e meia, porque o resto foi todo destruído, modificado. Eram tempos em que a mão-de-obra era barata e o compositor tipográfico podia fazer e desfazer e tornar a fazer, que o livro nunca saía caro.

Folha — Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro?

José Saramago — Eu penso que sofro apenas de um tipo de condicionamento: sou incapaz de escrever fora de casa. Escrever num hotel ou coisa assim. Há, realmente, colegas meus que vão acabar um livro em um hotel. Sou um homem que tem uma rotina, sou muito rotineiro a trabalhar. Não atuo por impulso, tenho consciência de que a primeira coisa necessária para escrever é sentar-se uma pessoa na cadeira e esperar. Eu não vou sentar porque tenho o impulso de escrever, eu sento-me para que esse impulso venha. É como quem tem que se pôr a jeito para que as coisas sucedam. Provavelmente isto desilude, vai decepcionar aquelas pessoas que têm do ofício do escritor uma visão romântica, arrebatada, byroniana, se quisermos. Eu não sou, quer dizer, não me vejo como um funcionário da escrita.

Folha — Você projeta os seus romances? Ou seja, você projeta a ação, você projeta o esquema narrativo antes? Como é que você concebe os romances? Eu sei, por exemplo, que essa história do cerco de Lisboa já vem de alguns anos.

José Saramago — A idéia inicial da “História do Cerco de Lisboa” é de 72 ou 73. Já é uma idéia, mas não é mais que uma idéia, um cerco de Lisboa. Naquela altura nem sequer tinha algo a ver com um cerco histórico. Era uma situação de cerco um pouco fantástica. Depois deste tempo todo nem sou capaz de ter uma idéia já muito definida disso. Essa idéia foi de 72 ou 73. Desde então eu escrevi sete ou oito livros com esse tema sempre vivendo cá dentro. Já se vê que há um tempo para ter as idéias e há um tempo para que elas possam ser realizadas. Mas como é que as idéias surgem? É um bocado difícil. Eu não tenho um plano, eu não fiz como, digamos, o grande mestre Balzac, que fez um plano, numa certa altura de sua vida e depois resolveu arregaçar as mangas e dizer agora vou fazer isto, realizar este plano. Um livro nasce-me porque tem que nascer e não porque eu tenha decidido antes.

Folha — Na entrevista que o sr. deu à Folha há quinze dias, o sr. comentou a questão da força de dois livros, a Bíblia e o Alcorão. Como escritor, essa força que os livros têm sempre esteve na sua consciência ou de repente foi uma surpresa?

José Saramago — Eu acho que os livros não têm essa força. Os livros não têm força alguma. O que acontece é que um ou dois ou três tenham uma força, que não lhes vêm do fato de ser um livro, mas do fato de serem códigos. De serem códigos, de serem leis, porque no fundo o Alcorão não é outra coisa se não isso, a Bíblia não é outra coisa se não isso e a Torá não é outra coisa se não isso. Representa uma lei que tem duas faces, uma lei que é lei humana, porque a Bíblia sabemos muito bem que no Antigo Testamento é feita por uma sociedade concreta, de homens concretos, que estão ali e que vão ser regidos por aquelas leis. E há o lado que é o da suposta revelação, a face divina. Dois livros ou três tomaram realmente uma força exorbitante. Não há nenhuma razão para que esses livros tenham mais força do que qualquer outro livro. Objetivamente não há, porque foram escritos pelas mãos de homens, não com processadores de textos, nem com máquinas de escrever, mas foram as mesmas mãos de homens que os escreveram. O que pode ser assustador – porque o é de fato – é como é que em nome dum livro se faz o que se faz. Se nós pensarmos, tudo isto é assustador. É evidente que esta súbita revelação, esta revelação do escândalo, eu a chamo assim, é muito recente.

Folha — Você considera escrever um ato de que? Você classificaria como o quê esse gesto extremo, coragem?

José Saramago — Eu diria assim, desta maneira muito simples, um ato de escrever é só um ato. Não é nada mais do que isto. Não lhe chamo ato de coragem. Eu sou provavelmente, escandalosamente, prosaico. Não acredito em vocação. Só se pode ter – imaginando que a vocação exista – vocação para as profissões que já existem. Na verdade é a própria necessidade social que vai criando as atividades e as profissões e depois nós vamos para elas. Às vezes, dizemos que fomos para elas porque não tivemos outra solução. Mas, também podemos, somos capazes de dizer, ah, eu fui para isto pela minha vocação. Mas qual vocação? Ninguém pode ter a vocação para a informática antes de a informática existir. Eu vou dizer uma coisa terrível. A transverberação de santa Teresa de Jesus, santa Teresa D´Ávila, o êxtase dela, e peço desculpas se ofendo os crentes, acho que ela teve simplesmente um enfarte do miocárdio. Quer dizer, a agudíssima dor no coração que ela atribuía a Jesus, que a estava transpassando com o raio fulminante do seu amor, não era mais que um enfarte do miocárdio, porque eu presumo que naquele século já havia enfartes de miocárdio.

Folha — Como você concilia o escritor e o comunista? Como é que a coisa se processa agora no seu cotidiano?

José Saramago — Eu acho extremamente interessante essa pergunta, que é fatal, é uma pergunta que vem sempre: como é que você sendo comunista e escritor, como é sua relação com o partido e tudo isso e tal. Mas, é lamento, uma pergunta feita como se um comunista fosse um caso particular da humanidade. Essa pergunta nunca é feita a um escritor de direita. Nunca. Não há memória de que a um escritor de direita, mesmo que seja um reacionário completo, de alguém perguntar-lhe que relação você tem, sendo escritor, com o partido onde você está, que é a coisa pior que há no mundo, de reacionarismo, fascista e tudo o mais. A esse nunca se pergunta. Mas ao escritor que caiu em comunista ou comunista que caiu em escritor, sempre a pergunta vem. Então, eu direi que, tal como no conjunto dessas coisas já ficou claro que tenho uma relação pacífica com as coisas do meu trabalho e na relação que o meu trabalho tem com os outros, que não há relação mais pacífica que aquela que eu tenho com as minhas convicções, em primeiro lugar, com o partido que consubstancia, digamos, assim, essas mesmas convicções. Sou dentro e fora desse partido – fora quando não estou em relação direta com ele, dentro quando há o momento, quando estou em seu nome -, digamos assim, há uma relação de perfeita lealdade, de perfeita responsabilidade e de perfeita liberdade. Quer dizer, eu escrevo exatamente o que quero, exatamente como quero, sem nenhuma prévia determinação, orientação, conselho, aviso, prevenção, arranjo todas as palavras que quiserem, vindas direta ou indiretamente do meu partido. E por uma razão imediata e simplicissima, é que eu sendo convictamente aquilo que sou, também convictamente acho que o meu partido não é competente em matéria literária.

Folha — Como é o seu diálogo com a crítica, se é que existe ou lhe interessa?

José Saramago — Há, realmente, uma certa crítica, que se comporta, digamos, atravessando os passos às escuras, onde se pode pensar porque não se vê o que lá está, está vazio. Esse tipo de crítica leva archote e escolhe um caminho, vai às escuras. Só vê aquilo que o seu próprio archote vai iluminando. Essa é a crítica que, no fundo, só vê o que está no seu caminho, o que significa que só vê o que está no caminho que escolheu. Se escolheu ignorar o resto, o archote não chega lá. Não vai usar archote. Só falará daquilo que o seu próprio archote iluminará. Bom, isso aplica-se a qualquer país do mundo porque, infelizmente, há muita crítica que se comporta desta maneira. A relação com a crítica em Portugal, neste momento, é bastante boa, provavelmente porque praticamente não existe crítica. Há um outro jornal que faz recensões. Quer dizer, algo que não é o que estamos a falar, da crítica, crítica, crítica. Às vezes, recensões feitas com inteligência, com sensibilidade, feitas por pessoas que, enfim, tem alguma capacidade, mas que não significa, de modo geral uma preparação clara, enfim, quer acadêmica, quer não, mas que justifique exatamente essa espécie de missão, de intermediários entre o autor e o público. Já que, realmente, a grande função da crítica é essa. Não é dar lições ao autor, porque o autor não as quer. Não as quer e ainda que quisesse recebê-las, não pode. Não pode, o autor tem o seu caminho próprio e ficará muito aborrecido se lhe disserem que seu livro é mau. Ele, aliás, vai escrever outro livro mau pelas mesmas suas próprias razões. Enfim, não há que fugir disto. Agora, para o público é indispensável. Então, digamos, o que está a acontecer hoje numa relação, a relação entre o público e o autor em Portugal está a fazer-se diretamente. Não passa pela mediação da crítica. A crítica, enfim, vai falando. Os críticos que há, que —repito— não são muitos, vão, enfim, falando dos livros e tudo o mais, mas é realmente uma relação direta entre público e autor.

Folha — Que é o ideal.

José Saramago — Eu não diria que é o ideal, porque, na verdade, embora eu tenha dito aqui algumas palavras, enfim, não muito lisonjeiras para um certo tipo de crítica, a verdade é que eu considero a crítica necessária. Eu considero a crítica indispensável.

Fonte:
Publicado na Folha de São Paulo, São Paulo, sábado, 6 de maio de 1989.
http://almanaque.folha.uol.com.br/entsaramago.htm

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Nicodemos Sena (1958)

Nasceu no dia 8 de julho de 1958, em Santarém, Pará, Amazônia brasileira. Passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira entre os estados do Pará e Amazonas, experiência que para sempre o marcaria. Em 1977, veio para São Paulo, onde se formou em Jornalismo, pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), e em Direito, pela USP (Universidade de São Paulo).

Em 1999, estreou com o romance “A espera do nunca mais – uma saga amazônica” (Editora Cejup, Belém, PA, 876 páginas).

Em 2000, “A espera do nunca mais” conquistou o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).

Seu segundo romance, “A noite é dos pássaros” (Editora Cejup, 136 pág., 2003), foi primeiramente publicado em forma de folhetim, no jornal “O Estado do Tapajós” (Pará, Brasil) e na revista eletrônica portuguesa “TriploV”.

Foi publicado no Dossier Amazónico, na revista literária portuguesa “Construções Portuárias” (nº01, 2002), no qual um trecho de “A noite é dos pássaros” foi incluído, ao lado de importantes escritores da Amazônia, como Max Martins, João de Jesus Paes Loureiro, Vicente Franz Cecim, Age de Carvalho, Benedicto Monteiro e Benedito Nunes.

Fragmentos de “A noite é dos pássaros” foram publicados nas revistas “Palavra em Mutação” (nº 02, 2003) e “Storm-Magazine”, ambas de Portugal. Em 2003, “A noite é dos pássaros” conquistou o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).

Seus romances mereceram comentários em grandes jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Brasília e Belém do Pará (“O Globo”, “O Estado de São Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Estado de Minas”, “Hoje em Dia”, “A Tarde”, “O Liberal”, “Jornal Opção”, “Caderno Brasília”) e da Cidade do Porto, em Portugal (“O Primeiro de Janeiro”).

Sobre sua ficção já se manifestaram importantes críticos e escritores brasileiros, entre os quais Antonio Olinto, Nelly Novaes Coelho, Olga Savary, Fábio Lucas, Oscar D’Ambrosio, Antonio Carlos Secchin, Dirce Lorimier Fernandes, Ronaldo Cagiano, Acyr Castro, Manoel Hygino dos Santos, Nelson Hoffmann, Carlos Nejar, Caio Porfírio Carneiro, Tanussi Cardoso e Adelto Gonçalves.

O escritor vem sendo considerado a revelação da literatura amazônica nos últimos anos, tornando-se verbete na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001). A obra ficcional de Nicodemos Sena expressa o conflito étnico — cultural entre dois mundos — o do colonizador europeu e o do índio autóctone. Por seu estilo vigoroso e a temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (índios e caboclos), a crítica já comparou esse romancista da Amazônia a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico Verissimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos e o peruano José María Arguedas. O escritor reside atualmente em Caraguatatuba, São Paulo, Brasil, onde, durante o ano de 2004, finalizou o seu terceiro romance, “A mulher, o homem e o cão”.
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Entrevista com Nicodemos Sena
Por Maria João Cantinho

Maria João CantinhoEm 1999, o panorama da literatura brasileira ficou marcado pela sua saga amazónica “A Espera do Nunca Mais”. Como romance de estreia, como guarda a experiência da sua escrita?

Nicodemos Sena – Eu tinha 41 anos quando foi publicado o meu primeiro romance. Um livro de 876 páginas! Muitas pessoas ainda me perguntam como pude, já na estréia, aparecer com um livro desse tamanho, e que logo de cara conquistou um prêmio nacional de literatura, o Lima Barreto, da UBE-União Brasileira de Escritores? Poucos sabem que escrevo desde pequeno. Aos 13 anos de idade, ainda morando na Amazônia, escrevi um romance que, sete anos depois, joguei fora por absoluta impossibilidade de revisá-lo, já que apresentava muitos defeitos. Eu era uma criança cheia de imaginação, mas ainda não tinha cultura literária para escrever um romance. Como quase todo adolescente, “cometi” também poemas românticos, que até foram publicados em “A Província do Pará”, então o maior jornal da Amazônia. Mas o meu veio “poético” logo secou. Nos quinze anos seguintes, já em São Paulo, enquanto estudava e trabalhava (e criava filhos, que cedo vieram), só me sobrava tempo para escrever histórias curtas, chegando até a ganhar um concurso de contos entre universitários, mas nunca me preocupei em reuni-los em livro. Como contista, eu tinha um sério problema: a história queria sempre continuar; era com certa relutância que eu concluía o relato. Por isso, talvez, apenas três contos sobreviveram; apesar dos protestos de minha mulher, a primeira leitora do que escrevo, joguei mais de trinta contos no lixo. Depois de passar pela poesia e pelo conto, voltei ao romance, à história longa. Era como se eu quisesse refazer o romance que eu escrevera aos 13 anos. Aos 34, formado em Jornalismo e Direito, larguei praticamente tudo para me dedicar à literatura. Num país como o Brasil, de relativamente poucos leitores e milhões de analfabetos, a opção pela literatura parecia uma loucura – foi o que acharam alguns amigos. Pois foi como um louco que me lancei na aventura de escrever o romance que veio a se chamar “A Espera do Nunca Mais”. Até saí de São Paulo e fui morar em São José dos Campos, uma cidade menor, onde, sem que nenhum editor soubesse que Nicodemos Sena estava escrevendo um romance, lancei-me ao trabalho, que me consumiu sete anos: um e meio em pesquisa, quatro escrevendo e mais um ano revisando. Foi como meter-me num túnel escuro e profundo sem saber se teria fôlego para sair do outro lado.

M.J.C. – Foi um longo exercício de maratonista. Poderia descrever a caminhada?

N.S. – Busquei inspiração estética na própria geografia amazônica, com seus labirintos de rios, a selva intrincada, os cipoais, a lentidão que a tudo rege. Nessa geografia, não só os rios, mas também as idéias, os desejos, os projetos de vir a ser, tramam labirintos. Alguém já me disse que meus livros são “barrocos”. Sim, são barrocos, como barroca é a região em que se ambientam as histórias. Barroca, aberta e canibal. O tempo na cultura amazônica é algo bem particular, suave. As horas são medidas pelas luas, pelos dias de canoa ou de barco para chegar a tal lugar. Pela época da piracema, a época da desova. O homem amazônico, o homem dos rios, é fruto daquilo que o cerca. Na Amazônia, “o rio comanda a vida”. “A Espera do Nunca Mais” reflete bem isso; é um livro líquido, com grandes remansos. Como nas lendas e mitos indígenas, a linearidade da trama é apenas aparente, pois a história, ou as histórias, vão e voltam, e o narrador não tem pressa em acabar o que está contando.

M.J.C. – Não falámos nisso, mas será que Graciliano Ramos teve algo a ver com a sua aventura?

N.S. – Como leitor, iniciei-me com os românticos brasileiros e portugueses – José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Bernardo Guimarães, Camilo Castelo Branco, o “primeiro” Machado de Assis – de forma que a leitura de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, quando eu tinha 15 anos de idade, foi uma verdadeira “paulada”. Até hoje, quando releio este pequeno grande livro, emociono-me. “Vidas Secas” (1938) conta a triste história de um casal de sertanejos, aviltados pelas mesquinhas condições de vida do campo, que procuram inutilmente cultivar. Fabiano, alma elementar, é subjugado pelo “soldado amarelo”, em cena de covardia. Quando sente que pode vingar-se, recua: “Governo é governo”. Mas, dentro daquela pobreza extrema, abre-se uma esperança para o casal infeliz, movido pela iniciativa da mulher, Sinhá Vitória – procurar região mais próspera: “E andavam para o sul metidos naquele sonho”.
Depois de Machado de Assis, Graciliano Ramos é, na minha opinião, o maior romancista brasileiro. Nele, a obra de arte cumpre sua função social, de não apenas entreter, mas principalmente “esclarecer as consciências e elevar a alma” acima de tudo o que é mesquinho. Mesmo num romance “psicológico” como “Angústia” (1936), ele não perdeu de vista o ambiente social. E nisso somos parecidos. Também mostro o homem simples engolido pela complexa trama social. Aprendi com Graciliano que um texto longo pode ser conciso, pode ser “líquido” sem ser aguado, amplo mas não esparramado, extenso mas não frouxo. Afora isso, somos bem diferentes. O texto de Graciliano é seco e sólido, quase pétreo, pois expressa a magreza gerada pela seca nordestina, enquanto o meu estilo é como a água que se amolda no espaço vasto e no tempo infinito da planície amazônica. Nos livros de Graciliano, as personagens expressam a aspereza do sertão, numa economia extrema; parece que o homem economiza até mesmo as lágrimas. Já as minhas personagens deixam-se levar, sem nenhuma pressa, pelas águas abundantes que brotam das cordilheiras e descem pelo Grande Vale; vou desfiando histórias que se cruzam, depois se bifurcam, e de novo se cruzam num lento e angustiante entrelaçar de pontas que terminam se juntando na mesma direção, como a labiríntica malha dos rios que vão desaguar no mar.

M.J.C. – Pode-se dizer que “A Espera do Nunca Mais” se situa em contra-corrente, relativamente ao que se faz no Brasil? O que o levou à escrita deste romance?

N.S. – Fernando Pessoa escreveu que a finalidade da arte não é agradar, mas elevar o homem por meio da beleza, erguer a alma acima de tudo quanto é estreito, acima dos instintos. Cervantes afirmou que o romance deve divertir e ensinar juntamente. Venho da Amazônia, um lugar de terríveis contradições. Ao lado da Amazônia paradisíaca, dos grandes rios e das florestas catedralescas, que desperta fascínio (e medo) em pessoas de todo o mundo, existe uma outra Amazônia – do genocídio do índio pelo branco, da exploração criminosa dos recursos naturais, do servilismo e escravidão, da destruição do antigo modo de vida nativo, sob o patrocínio do grande capital que invadiu a região nas últimas quatro décadas. A verdadeira face da tragédia que se chama Amazônia não é revelada ao mundo. Mostra-se apenas a terra exótica, de ninguém, espaço vazio e acéfalo a ser ocupado segundo planos elaborados pelos tecnocratas de Brasília ou do estrangeiro acumpliciados pelas corruptas elites locais.
Desde pequeno, convivi com a injustiça na região. Vi de perto a luta do pobre para sustentar a família, debaixo das piores humilhações; a guerra que é sobreviver nesse mundo, sem perder a dignidade. Dessa experiência de vida no paraíso/inferno amazônico extraí a matéria-prima usada no “A Espera do Nunca Mais”. Não escrevo apenas para divertir; também quero provocar uma reflexão sobre a “realidade”. Assumo, portanto, um compromisso ético. Não pode ser outro o comportamento do escritor numa sociedade que converte tudo (inclusive o imaginário) em mercadoria, uma sociedade que gera, em todos os setores da vida, inclusive nas artes, um certo “esplendor do vazio”; uma sociedade que avançou materialmente mas vai retrocedendo à barbárie; uma sociedade que cria consumidores de produtos descartáveis e não homens que valorizem as perenes coisas do espírito; uma sociedade da imagem, do espetáculo e do corpo, que valoriza o egoísmo e o sucesso a qualquer custo; uma sociedade urbana onde a palavra, que antes era sagrada e plena de sentido, chegou ao nível mais alto de estafa e esvaziamento; uma sociedade do “vale tudo” (tudo pelo mercado, tudo pelo sucesso, tudo pelo público), cuja lógica também tem condicionado a poesia e o romance. Infelizmente, muitos artistas acabam adotando os valores dessa sociedade. E a arte, que nasceu para questionar as aparências, revelar o oculto, esclarecer as consciências e elevar a alma, é convertida em mera diversão que aos homens imbeciliza. Diversão do “público”, que espera sempre coisas palatáveis. Ou diversão do autor, quando este se contenta com a “arte-pela-arte” ou se alheia “na linguagem”, esquecendo-se de que o artista, a arte e a vida precisam andar juntos.

M.J.C – Então não achas lícito desejar ser lido pelo maior número de leitores?

N.S. – Como artista, busco alcançar o “outro”, mas, quando me ponho a escrever, não penso no “leitor” ou no “público”, personagens imaginárias, que “não têm mais tempo para longas leituras”. Acho que um autor tem que correr riscos: não pode deixar-se escravizar pelos temas, ou pela exigência editorial, na esperança de agradar a quem o lê e obter sucesso de venda. O escritor precisa ser honesto naquilo que escreve e transparente consigo mesmo, obedecendo somente à sua própria consciência. No Brasil, país que possui um rico imaginário herdado dos índios nativos e dos africanos que foram trazidos como escravos, vem acontecendo uma sinistra “assepcia da imaginação”. Os escritores brasileiros precisam voltar a interessar-se pelo mítico e o antigo que estão na raiz da nossa cultura. Muitos romancistas, como mariposas atraídas pela lâmpada, na ânsia de agradarem ao público, deixam-se seduzir pelos temas mais explosivos, escrevendo textos que pouco diferem do relato jornalístico. No afã de integrar-se ao mundo civilizado, dito “moderno”, o escritor brasileiro, com poucas exceções, se esquece de que, faça o que fizer, será sempre um brasileiro.

M.J.C. – A globalização, em todo o mundo, tem sido o pior dos flagelos para a identidade cultural de cada país, não te parece?

N.S. – Sim. A perda da identidade nacional é uma das conseqüências funestas da globalização, uma verdadeira catástrofe. No mundo “globalizado” em que vivemos, podem até desaparecer as fronteiras visíveis da política e da economia, mas as diferenças do mundo invisível da cultura não se eliminam impunemente. Fica cada vez mais claro que o desprestígio da expressão local, das marcas do tempo, do vento e da terra, a pretexto de alcançar-se um elevado universal, não passa de imposição totalitária de culturas velhas, esgotadas, agonizantes. O mundo de cada um de nós é o mundo de todos os homens. O homem é o mesmo em qualquer parte do mundo. Podemos ser universais sem deixarmos de ser brasileiros (ou portugueses, ou italianos, espanhóis ou japoneses…), desde que o façamos com engenho e arte. Ouso afirmar que o “regional” e o “universal”, assim como a “humanidade”, em arte, não passam de abstrações vazias. Não existem. O que há é o ser humano concreto, que nasce, cresce e morre nalgum lugar. Captar esse homem, esse “outro”, que o próprio escritor traz dentro de si, com suas alegrias e tristezas, esperanças e decepções, heroísmos e vilanias, deve ser o objetivo do artista.

M.J.C. – A propósito dessa transformação do regional em universal, relembro aqui a obra de Vicente Franz Cecim, que é igualmente um caso de transfiguração da Amazónia e que, justamente, se transformou numa obra universal, considerando o seu universo mítico de Andara. Cecim é o único autor da Amazónia que chegou a Portugal, publicando “Ó Serdespanto” (Íman Edições, 2001). Mas existe uma constelação de escritores da Amazónia que nos é desconhecida, não é? Para nós, a quem apenas nos chega a literatura do Rio de Janeiro e de S. Paulo, que autores são importantes descobrir?

N.S. – Antes de falar dos escritores nativos, é bom lembrar que, até o século XIX, praticamente apenas europeus haviam escrito sobre a Amazônia – Gaspar de Carvajal, Cristóbal de Acuña, João Felipe Bettendorff, Luiz e Elizabeth Agassiz, Frederick Hartt, Alfred Russel Wallace, Carl Friedrich Philipp von Martius, Charles-Marie de La Condamine e tantos outros. Mais do que inventariar ou noticiar as maravilhas da nova terra, alguns estrangeiros pretenderam contar de forma “artística” as coisas do paraíso/inferno amazônico. Conan Doyle, Júlio Verne e Le Carré ambientaram histórias na Amazônia, produzindo páginas das quais não se pode afirmar que sejam o ponto alto de suas obras. O alemão Von Martius, com o material colhido em andanças pela Amazônia na primeira metade do século XIX, num momento de folga do seu trabalho de naturalista, escreveu “Frey Apolônio”, o primeiro romance ambientado no Norte do Brasil. A despeito dos defeitos de composição literária, o livro, ainda hoje, pode ser lido com interesse, pois Martius, que amava a Amazônia, era um excelente pintor de paisagens e costumes. Todavia, tais peças literárias fracassaram em seu intento de revelar ao velho mundo a fantástica realidade da nova terra, abrindo-se um abismo entre a imagem e a sua expressão. É que, nessas obras, o contexto invadiu o texto; a portentosa natureza amazônica fez o alienígena perder o ritmo e o fio da narrativa – talvez a única exceção à mediocridade dos textos escritos por europeus sobre a Amazônia seja a “Carta sobre o Tocantins” (1654), do padre Antônio Vieira.
“A Muhraida”, escrita em 1785 pelo tenente português João Wilkens, epopéia dos índios Muras do alto Amazonas, forjada nos moldes de “Uraguai” de Basílio da Gama e “Caramuru” de Santa Rita Durão, e publicada na mesma época, apresentando mais ou menos as mesmas virtudes e defeitos, não obteve, ao contrário das duas últimas obras, sucesso ou “fortuna crítica”. Mais sorte teve Ferreira de Castro, outro português, que escreveu, a partir de sua experiência de seringueiro no rio Madeira, o romance “A Selva” (1930), que se tornou repentinamente um “clássico”.
Depois dos estrangeiros, a Amazônia foi descrita por brasileiros de fora da região. O pernambucano Alberto Rangel escreveu o célebre “Inferno Verde” (1908, contos), com prefácio de Euclides da Cunha. O próprio Euclides, carioca, a exemplo do que já fizera com o Nordeste ao escrever “Os Sertões” (1902), legou-nos páginas inesquecíveis sobre a Amazônia, em “À Margem da História” (1909). O potiguar Peregrino Júnior escreveu “Matupá” (1933, contos), “Histórias da Amazônia” (1936, contos) e “Puçanga” (1930, contos). O carioca Gastão Cruls escreveu “A Amazônia Misteriosa” (1925, romance). O mineiro Oswaldo França Júnior – “De Ouro e de Amazônia” (1989, romance). Outro mineiro, Antonio Olinto – “Sangue na Floresta” (1992, romance). Partindo do mito amazônico de Macunaíma, referido por Koch-Grünberg num dos 5 volumes da obra “De Roraima a Orinoco”, o paulista Mário de Andrade escreveu a rapsódia de mesmo nome, onde fixa, de modo impressionante (embora questionável), a índole do homem Brasileiro, na face do “herói sem nenhum caráter”. Mais recentemente, o mineiro Aricy Curvello deixou-se enfeitiçar pelas coisas do Grande Vale; quando trabalhava para a Mineração Rio do Norte, que explora bauxita no rio Trombetas, escreveu o magnífico “O Acampamento” (1975), um dos melhores poemas do livro “Mais que os Nomes do Nada”.
A Amazônia, todavia, já pode se orgulhar dos seus próprios escritores, desde que Tenreiro Aranha (1769-1811), o mais antigo poeta autóctone, escreveu seus versos, a maioria extraviados no tempo. Alguns alcançaram até projeção nacional, como José Veríssimo, com “Cenas da Vida Amazônica” (1886), primeiro livro de contos amazônicos de que se tem notícia; Inglez de Souza, autor do clássico romance “O Missionário” (1891); Dalcídio Jurandir – “Chove nos Campos de Cachoeira” (1940); Benedicto Monteiro – “Verde Vagomundo” (1972, romance); Haroldo Maranhão – “Rios de Raiva” (1987, romance); Ildefonso Guimarães – “Senda Bruta” (1965, contos); Sant’Ana Pereira – “Invenção de Onira” (1988, romance) e Alfredo Garcia – “O Livro de Eros” (1998, contos). Mas é “Cobra Norato” (1931), do gaúcho Raul Bopp, o poema “amazônico” por excelência, a ele se ombreando apenas o “Repertório Selvagem” (1998, poemas) e “Berço Esplêndido” (2001, poemas), ambos de Olga Savary, e “Viagem a Andara, o Livro Invisível”, monumental obra ficcional e poética que Vicente Franz Cecim vem edificando há 23 anos.

M.J.C. – Achas que a política cultural dos dois países caminha no sentido de favorecer o intercâmbio cultural?

N.S. – Noto uma distância muito grande entre os dois países. A literatura portuguesa contemporânea é quase completamente desconhecida dos leitores brasileiros. No Brasil se fala muito de Fernando Pessoa e José Saramago, não apenas pela grandeza de suas obras, mas também porque outros, do mesmo porte, aqui não são editados. A distribuição das edições portuguesas é bem limitada. Desconfio que o governo português não tem desempenhado um grande papel no campo da divulgação da cultura e das artes portuguesas no Brasil. Os governos brasileiros, até onde eu sei, também pouco ou nada têm feito para levar a cultura e as artes brasileiras aos portugueses. Tem-se a impressão de que os dois países viraram de costas um para o outro. Ou será que estou enganado? Se pensarmos nos outros países de língua portuguesa, a coisa fica ainda mais complicada. Não contentes em não promover o necessário intercâmbio cultural, obstáculos absurdos à integração são criados, como, por exemplo, a recíproca cobrança de impostos sobre a entrada de livros em seus territórios, o que eleva o preço final do livro e inviabiliza a sua comercialização. A conseqüência principal dessa situação é o enfraquecimento da língua portuguesa, o nosso instrumento cultural mais importante.

Fontes:
http://www.releituras.com
http://www.storm-magazine.com

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