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Ademar Lopes Pessoa / PB (Caderno de Sonetos)

A MEUS AMIGOS, OS LIVROS

A Deus aradeço a amizade de vocês,
Com que tão cedo na vida fui agraciado,
Pois sem ela, hoje eu seria um pobre coitado,
Sem compreender o bem ou o mal que a mim se fez.

Quantas vezes vocês receberam o meu pranto,
Enquanto eu lia o que vocês muito me diziam,
Que até suas páginas tanto se umedeciam
Me acalentando, se em mim desgosto era tanto !

Assim, a vocês serei sempre muito grato,
Pelos conselhos que vocês me cumularam
Que hoje, mais experiente e mais confortado,

Sigo minha vida sem me sentir um ingrato,
Sem ter ofensas para os que me maltrataram,
E continuar amando e me sentindo amado !

SAUDADES ETERNAS

Tua imagem querida dentro em mim é tão forte,
Pois sempre foste bom, amigo e inteligente,
Que a saudade será eterna daqui para a frente,
E a levarei comigo até a minha morte.

Se te faltei o amparo, perdão eu peço a ti,
Como peço a Deus tua eterna proteção;
E que me dê forças para os dias que virão,
Tão diferentes dos dias que contigo vivi.

Vai ser muito difícil suportar tua saudade,
Tão intensa porque eras bom e partiste cedo,
Quantas alegrias tu me destes desde criança,

Que hoje tanta tristeza meu coração invade,
E não creio que vou suportá-la, e tenho medo,
Pois não sei se com ela meu peito descansa.

DE REPENTE

De repente senti que o tempo passou.
– O tempo da felicidade e do amor.
E a vida, se não era, hoje é tão sem graça …
Pois sem eles nada fica, tudo passa.

Assim, quando já não há esperança,
Quando a vida se vai e sem tardança,
Tento rever o passado, dia a dia,
Para sentir como ele se exauria.

Enquanto eu esperava ser amado,
O tempo passava sem eu perceber,
Mas havia esperança nos atos meus,

De um dia viver feliz ao seu lado,
Mas hoje, já não há um alvorecer
Que me anime, nem mesmo Deus.

O ENTARDECER

Sinto no entardecer um certo encanto,
Uma promessa de encontros me ofusca,
No vôo suave dos pássaros em busca
De uma árvore onde repousem num canto.

No sol que no horizonte desaparece,
A mostrar que o Rei da Luz vai dormir,
No deslocar das pessoas por aí;
No lar, se a família reza uma prece.

Assim, há no entardecer um sinal
De que devemos viver em união,
Sempre em procura da paz e do amor,

Evitando assim a vida infernal,
Àqueles que sentem que não foi em vão
O entardecer do dia que passou.

LINDA MULHER

Linda mulher. Em meiguice, a primeira.
Sua imagem, que guardarei a vida inteira,
Deixou minha a alma por demais confusa,
E do meu estro se tornou eterna musa.

A alma é sofrida por sentir sua falta,
Enquanto o estro tanta beleza exalta.
Sentem os dois só por esta princesa
Tão puro amor e tamanha tristeza.

Pois sabem que ela é uma bela criatura,
Não só pelo que seu corpo irradia,
Seu caráter, sua bela formação

Levam minha alma e meu estro à sua procura,
Por toda a vida, na busca, dia a dia,
Pois sua imagem vive em meu coração.

O HOSPITAL

São gritos, correrias, tristezas e esperança,
As cenas de cada hospital no seu dia-a-dia,
Corações a esperar trazerem alegrias,
Médicos e enfermeiras – Luta que não cansa !

Se deles a dedicação e a competência
Confortam cada paciente e seus parentes,
O hospital se torna um templo. Não sentes,
Quando é salva uma vida que era só carência ?

O hospital se torna um lugar tão sagrado,
Que cada profissional seu, se refletir
Que suas ações, que já salvaram tantas vidas,

São um atributo que lhe foi por Deus legado,
Que nas suas ações Ele está dentro de si,
E lhe agradece com suas bénçãos repetidas.

VOCÊ

Você vive sempre nos sonhos meus,
E, no entanto, mal sabe quem eu sou.
Por você nutro o mais profundo amor,
E, comovido, sou tão grato a Deus.

Quero expressar a você meu sentimento,
Mas eu tenho receio da sua recusa,
E, minha alma, já por demais confusa,
Ainda me pergunta até quando aguento

Guardar só comigo este amor platônico,
Já que necessito do seu carinho,
Neste momento de tanto sofrer.

Mas perto de você fico afônico,
E até me afasto e penso no caminho :
– Que em novo sonho venha aparecer !

A PROFESSORA

Das primeiras letras, a professora
É para nós imagem tão querida,
Como da santa que por toda a vida
Foi sempre amiga, terna e acolhedora.

Na verdade, milagres operou,
Apesar de viver de um vil salário,
E desconhecida do noticiário,
Até quando um presidente falou

Que, aquele que nada sabe fazer
Termina por ser professor.
Ele é que não sabe a nobre missão

De quem, com amor, nos ensina a ler,
A dar passos em busca do valor,
Do conhecimento e da profissão !

NUM GRANDE AMOR …

Não … Num grande amor não há adeus,
Num grande amor não há despedida,
Pois ele transcende além da nossa vida,
E só é um grande amor graças a Deus.

Num grande amor há renúncia e há perdão,
Num grande amor há pura sinceridade,
Num grande amor há até a ingenuidade
Da pureza manifesta de cada coração.

Num grande amor não há vencido,
Num grande amor só há vencedor,
Se há lágrima, se há até gemido,

São manifestações que, com fervor,
Duas almas se entrelaçam no sentido
Da vida, da felicidade e do amor !

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=96&x=18&y=5

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Augusto dos Anjos (Livro de Poesias)


CONTRASTES

A antítese do novo e do absoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!…

DEBAIXO DO TAMARINDO

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilissimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

DECADÊNCIA

Iguais ás linhas perpendiculares
Caíram, como cruéis e hórridas hastas,
Nas suas 33 vértebras gastas
Quase todas as pedras tumulares!

A frialdade dos círculos polares,
Em sucessivas atuações nefastas,
Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,
Estragara-lhe os centros medulares!

Como quem quebra o objeto mais querido
E começa a apanhar piedosamente
Todas as microscópicas partículas,

Ele hoje vê que, após tudo perdido,
Só lhe restam agora o ultimo dente
E a armação funerária das clavículas!

IDEALISMO

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
– Alavanca desviada do seu fulcro –

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

IDEALIZAÇÃO

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
– Homens que a herança de ímpetos impuros
Tomara etnicamente irracionais!

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão…

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

O LÁZARO DA PÁTRIA

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de úlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefantíase dos dedos…
Há um cansaço no Cosmos… Anoitece.

Riem as meretrizes no Cassino,
E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

O MARTÍRIO

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
E como o paralítico que, á mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem á boca uma palavra!

PSICOLOGIA

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Fonte:
ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. Editora Martin Claret, 2001.

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Francisco Córdula (Poesias Avulsos)

TALVEZ UM DIA

Marca, que fica no destino, sem futuro
Obscuro murmúrio, do medo intacto
Tácito cálice de veneno mortífero
Esperando que mais sangue, seja derramado.

Marca, força reprimida, estopim do latifúndio
Vidas exauridas sem dor, nem prantos
Na carnificina que se tornou o campo
Quantas Margaridas serão necessárias?
Para acabar as sucessivas batalhas?

Marca, facultada, na ponta da navalha e nos tiros da doze.
Grilhões da covardia descambada
Quantos Chico Mendes, serão necessários?
Para dar um basta a estas Chacinas?

PEDAÇOS DE MIM

Quero chegar ao infinito!
Driblar os aflitos,
Tropeçar nos obstáculos
Cair, me levantar
E tentar tudo de novo.
Equilibrar-me como um trapezista
No picadeiro da vida.

Desfrutar da energia
Que sempre carrego comigo, em algum lugar de mim
Encontrar meu espaço no universo
Sempre sendo eclético
Para não definhar e morrer..

OS LADOS DA VIDA

Que elevem a mentira ao quadrado!
E deixem, a vida se tornar um teatro
Teatro mascarado e mentiroso em cada ato
Usando maquiagem exagerada e sem graça
Para uma platéia, com expectativa de gargalhada
Mas será uma comédia ou tragédia?

Nem o autor sabe, vai escrevendo de improviso
Um roteiro patético e cínico
Levando ao ódio e ao riso
Mas sempre na falsidade, sem medo
Ou receio de atropelar alguns atos
Nem receber nenhum ultimato
Que o faça parar, em seu triste espetáculo.

O que o encheria de orgulho?
As palmas ou as vaias?
Isto ninguém sabe.
Constatado apenas o mergulho no delírio
Onde a mentira se torna fato aceitável
E ainda que após, baixada a cortina.
Sem estrelato, ou brilho em cada ato
A realidade se mistura ao teatro
Fazendo de fatos, um grande espetáculo
Sem separação do teatro ou do real
Tudo surrealista, entre sonho e abismo.

Mas num repente cai o pano
Mostrando a nua e crua realidade
Sem volta para lugar algum
Com apenas um caminho a ser seguido
Sempre em frente, sem volta, pra sempre
Entre a loucura e a morte.

O AVESSO

Por trás de cada gesto
Se apresenta uma intenção
Gesto que pode ser leve ou brusco.

Por trás de cada intenção
Existe um dilema
Intenção que pode ser boa ou má.

Por trás de todo dilema
Existe uma sombra
Dilema que pode ter muitas faces.

Por trás de toda sombra
Existe possibilidade de dor
Sombra produzida por pequenos fragmentos.

Por trás de toda dor
Existe a esperança
Dor que se dilui com o tempo.

Por trás de toda esperança
Existe uma vida
Esperança, que nunca deve se esvair.

Por trás de toda vida
Existe um espírito.
Vida, significado maior de todo ser!

NOUTROS TEMPOS

Horizonte revelado, elevando a existência
Do ser, que deplorável, sobreviveu a sua sina
No inexorável final dos tempos
Sem mais lembrar, a profundidade da vida.

Quais não serão as descobertas de tal época
Ou revelações, alarmantes no futuro
Num furo de reportagem de um matutino
Levando o desespero, ao que resta do mundo.

O eclipse ocular, a cegar visões, menos realistas
E as previsões, assim se confirmando
Como num filme, velho e mofado
Passado em um projetor de igual teor e valor.

Restarão, filósofos e visionários
Num sofrimento vislumbrando, o que restou do mundo
Como se tudo acabasse na véspera
Deixando a surpresa e a perplexidade…

CÁLICE DE SANGUE

Entrando em transe a cada instante
Rompante de loucura assola sua alma
Transloucada, livre e solta em sua jornada.
Sem noção do estrago permanente (evidente)
Sente a demência como sua companhia
Já não se importa em ser mais que indecente
Pouco se recorda de sua antiga vida
Se entregando aos delírios viciantes normalmente.

Em seu corpo jovem padece, esmorece.
O pouco da dignidade que ainda lhe resta
Com a capa de ódio que agora se reveste
Investe apenas em sua perversão (se ilude)
E não se envergonha em ser corrompida
E prostituida sem qualquer barganha
Morando na rua ou em qualquer beco
De sentimento “seco”, não se emociona.

Fantoche, fantasma ou zumbi humano.
Farrapo em trapos sem qualquer barreira
Vivendo a beira de um precipício (vicio)
Consumindo, cheirando a sua maneira.
Sem chances de albergue até porque negue
Ou qualquer suplicio indicio de final inglório
Sem noção, tácito “acido” que lhe consome.
Cambaleando e se arrastando para seu velório.

ROTA DO ADEUS

Seguindo o nominado nas placas percorridas
Emplacando uma viagem terrestre solitária
Destino ignorado solo a ser seguido
Instinto do que a vida ainda lhe prepara.

Fatos não vividos e que serão lembrados
Por certo repassado cada sentido em vida
Eufórica alegria de momentos aguardados
Castrada com a depressão atroz em outros dias.

Bom seria se tudo fosse mais afável
Retórica que se esgota e não faz sentido,
Somente assim justificaria o fato, ato.
De ser a vida tão trágica como um tango
Ou tão sofrida como um fado vai saber!

Mas seria de tudo um pouco validado
Se tivesse de fato algo de sensitivo no destino
Ao menos uma chegada
Talvez menos amarga
Embalada de certo alivio momentâneo
Esboçado em um ultimo suspiro titânico
Pra tudo terminar em cinzas
Numa quarta feira de carnaval.

MOSAICO

Um dia,
Somente talvez um dia
Viverei novamente aquela alegria
Que conhecestes comigo
Em um passado recente.

Releve cada momento infeliz
Afinal, muitas vezes por um triz, fomos felizes.
Revivamos aquele matiz de lampejos
E tentaremos num sacolejo
Colocarmos os pingos nos is.

Tudo muito natural
Nada mais do que normal
Em se tratando de nós e nossos nós
Mesmo tentando outra vida
Continuamos “palafitas”
Em nossos sonhos ao largo
Na completa rabeira desta estreita vivencia.

Mas ainda há com que se encante
Nem que seja num rompante
De um otimismo desigual
Ou atitude irrefletida, te colocando.
Em outra vida, não seria nada mal!

Temos ainda outra opção
De enganarmos os infortúnios
E quem sabe a lua em saturno
Poderá nos ajudar
E numa atitude surpreendente
Muito menos exigentes
Voltaremos a nos encontrar.

AINDA TEMOS O AMANHÃ!

Que lenda se pode buscar
Em uma noite a divagar
Com bruma em poucas fadigas
Escutando-se umas cantigas
E exibindo visões dissonantes
E figuras arrogantes
Tentando nos hipnotizar.

Será inicio de pesadelo?
Em se buscando um segredo
Este bem escondido, não se pode achar
Estamos sofrendo um bocado
Sortilégio este danado, não faz o tempo passar
Esperança reduzida dos primeiros raios a brilhar.

Escuridão, paralelo de medo
Escola de bocejos tentando nos dominar
Será esta tortura o bastante?
Para nossa moral rastejante
Em tudo e todos nos derrotar?

Talvez quando tudo pareça perdido
Renasçamos por algum motivo
E voltemos à outra batalha travar.
Já sem medos ou fobias desgastantes
Enfrentando um novo dia radiante
Ai sim, poderemos festejar.

MADRIGAL, VINHO E PAIXÃO

As velas ainda não se apagaram
Duas taças de vinho caídas ao lado
Espalhando líquidos avermelhados
Encharcando o tapete da sala.

Dois corpos nele esparramados
Igualmente encharcados pelo vinho
Inertes enquanto o relógio na parede badala
Anunciando o avançar da madrugada.

Um madrigal no ambiente ainda entoado
Num ritmo para lá de funesto
Que decerto testemunhou tudo em volta
Acontecimento intimista onde restou o sossego.

Que depois de muitos goles, muitas taças viradas
Juras de amor, entremeadas de promessas
Beijos e carícias apaixonadas
Restando somente os dois seres em todo o universo.

E a cada minuto deste momento vivido
Intensamente, insanamente descortinado
A cada peça de roupa ao chão jogado
Novas promessas ambas as bocas murmuravam.

E num erudito de um erotismo exacerbado
Já não havia mais o que dizer ou prometer
Apenas a luxuria como forma de linguagem
E o bailado dos corpos sem palavras, só entrega.

E no “gran finale” a explosão em paixão momentânea
De tão eterna enquanto dure porque não?
E finalmente, após tudo isto o que resta?
Aqueles corpos abandonados, inertes, ao chão.

E O PALHAÇO DISSE ADEUS

Quando o palhaço pisou no picadeiro
para seu espetáculo derradeiro
uma torrente de emoções e visões
invadiu-lhe a mente e a alma.

Transportando-lhe na máquina do tempo
para outros momentos, vasculhados no passado
e o velho palhaço então emocionado
debruçou-se em lagrimas e fincou silencio.

Como que orando neste particular cenário
revivendo tantos espetáculos e movimentos
de uma trajetória que marcou seu tempo
e que a memória, insiste em homenagear.

E dentre tantas agruras relembradas
tantos arroubos e eletrizantes palhaçadas
veio a imagem de sua companheira,
sua paixão da vida inteira, trapezista faceira.

Que um dia ganhou seu coração,
e sua predileção em forma de amor
mas enfim, numa destas incompreensões da vida
ainda na flor da juventude, a trapezista partiu
chamada que foi por Deus para sua companhia.

Mas, a vida prosseguiu apesar da dor dilacerante
e o palhaço continuou naquele picadeiro
não como antes em seu intimo,
pois já não sentia-se completo.

Porém, o espetáculo não pode parar,
e como nas brumas de Brunel, revivendo o papel
que um dia Deus lhe concedeu:
o de palhaço de circo, continuou seu picadeiro.

Na tradução mais altruísta que um artista pode ter
tal qual um Chaplin em grandes filões
de “Grande Ditador” a Vagabundo
o palhaço reacendeu em segundos,
tantas lembranças, tão intensas,
tão verdadeiras e densas,
que o velho coração não resistiu.

E do centro daquele picadeiro
o palhaço embarcou inteiro
para seu espetáculo definitivo
o encontro com a sua trapezista,
seu amor, da vida inteira.

BAILE NEGRO

O Pierrô em um canto do salão cabisbaixo
Enquanto uma lagrima em sua face desliza
E o baile em câmera lenta passa avivado
Cada cena quadro a quadro repassa em sua vista
A Colombina deixando o salão acompanhada
Do Arlequim que a corteja, sua sombra incontinenti
E um clima sombrio contrasta com a alegre musica vigente

O Arlequim tentando soturno consolar a Colombina
Que desolada em um canto soluça amarga
E a cada investida o Arlequim se aguça exalta
Em sua ânsia obsessiva de conquistar a Colombina
E na insistência indecência que lhe embute e nutre
Num rompante de abutre um beijo ele lhe rouba
Desencadeando um abraço envolvendo-a pétrea

O Pierrô em meio à multidão tudo acompanha
E se determina em sua ira de vingança desforra
Surge uma adaga de onde ninguém alcança
E o Pierrô mais que depressa avança destemido
Com o sangue a explodir-lhe as veias artérias
Na intenção de golpear o Arlequim bandido
Avança golpeia em cheio num lance errante
A Colombina sua amada de toda a vida

A Colombina ensangüentada vai ao solo no salão
O Pierrô percebendo em sua mão a adaga indigna
Barbariza-se com o burburinho a sua volta comoção
E não nota o Arlequim em fuga covarde desatina
O Pierrô desaba em choro compulsivo inconformado
E repulsivo se joga no corpo de sua amada morta
O desamparo e o destempero nele são visíveis
E a adaga espetada no próprio peito sofrido
Invoca seu ultimo ato nesta vida sem sentido.

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W. J. Solha (1941)


Waldemar José Solha nasceu em Sorocaba, São Paulo, em 1941. Radicou-se na Paraíba desde 1962.

Escreveu os romances:
“Israel Rêmora”, Prêmio Fernando Chinaglia 1974, editado pela Record em 1975;
“A Canga”, 2º prêmio Caixa Econômica de Goiás, 1975, editado pela Moderna, de São Paulo, em 1978, e pela Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1984
“A Verdadeira História de Jesus”, editado pela Ática, de São Paulo, em 1979
“Zé Américo Foi Princeso no Trono da Monarquia”, lançado pela Codecri em 1984
“A Batalha de Oliveiros”, Prêmio INL 1988,publicado pela Itatiaia, de Belo Horizonte, em 1989
“Shake-up”, publicado pela editora da UFPb em 1997

E ainda o poema longo “Trigal com Corvos”, publicado pela Palimage, de Portugal, em 2004, Prêmio João Cabral de Melo Neto 2005 como melhor livro de poesia do ano anterior e “História Universal da Angústia”, Prêmio Graciliano Ramos 2006 e finalista do Prêmio Jabuti 2006.

W. J. Solha tem passagens também pelo teatro. Escreveu e montou “A Batalha de OL contra o Gígante Ferr” em 1986, e “A Verdadeira História de Jesus” em 1988. Escreveu também “Os Gracos” (inédito), “A Bagaceira” e “Papa-Rabo”(montadas por Fernando Teixeira em 1982 e 1984), “Burgueses ou Meliantes” (montada por Ubiratan de Assis em 1988), “A Batalha de Oliveiros contra o Gigante Ferrabrás”, Montada por Ricardo Torres em 1991.

Fez os textos para “Cantata Pra Alagamar”, música de José Alberto Kaplan, gravação Discos Marcus Pereira 1980, “Os Indispensáveis”, para música de Eli-Eri Moura, apresentada em João Pessoa em 1992.

Trabalhou como ator nos filmes “O Salário da Morte”, dirigido por Linduarte Noronha em 1969, “Fogo Morto”, dirigido por Marcus Farias, “Soledade”, dirigido por Paulo Thiago (ambos de 1975), “A Canga”, de Marcus Vilar, em 2001 e “Lua Cambará”, dirigida por Rosemberg Cariry em 2002

É autor dos painéis “Homenagem a Shakespeare”, de 1997, em exposição permanente no auditório da reitoria da UFPb, e “A Ceia”, de 1989, no Sindicato dos Bancários da Paraíba.

Fonte:
Wikipedia

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Sonia Sobreira (Livro de Trovas)

O encanto do teu olhar,
tão azul, provocador,
faz daquele que o fitar,
escravo do teu amor!

De estrelas toda bordada,
sem telhado a lhe abrigar,
a tapera abandonada,
no chão, abriga o luar.

AH! Saudade do passado,
tão presente e tão intensa,
que chego a ouvir teu chamado
buscando a minha presença!

A pérola é jóia rara,
de inestimável valor,
mas nem assim se compara,
ao preço do nosso amor!

Mesmo que a felicidade
destile prazer na vida,
resta sempre uma saudade,
dentro do peito escondida!

Foi difícil minha escolha,
mas tomei a decisão:
Deixo que o tempo recolha,
as mágoas do coração!

As gotas caem ao léu,
sem ninguém poder detê-las.
Será chuva lá do céu?
ou são lágrimas de estrelas?

Uma idéia, a mais ousada,
que em meu peito se escondeu,
deixou minha alma marcada
e mais um sonho morreu!

Um lenço acena do cais
em gestos leves, tristonhos,
trazendo a dor dos meus ais,
nas lembranças dos meus sonhos!

Um lenço acena do cais
em gestos leves, tristonhos,
trazendo a dor dos meus ais,
nas lembranças dos meus sonhos!

Se eu sorrir do meu fracasso,
nos tropeços da existência,
talvez me faça um palhaço,
mas ganhei mais resistência!

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Sonia Sobreira da Silva

Paraibana. Casada com o poeta Josa Jásper, mãe de duas meninas. Estuda Letras na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Participa de concursos literários obtendo algumas vitórias. Ocupa a cadeira nº 3, patronímica de Aluisio Azevedo, no Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes, sediado no Rio de Janeiro. Também faz parte do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio Janeiro, da União Brasileira de Trovadores /RJ e outras entidades literárias.

Fonte:
Recanto das Letras

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Flávia Nascimento, Professora da UFPB Concorre ao Prêmio Jabuti de Literatura

Flávia Nascimento, doutora em Literatura Francesa pela Universidade de Paris, está entre as 10 finalistas do Prêmio de Literatura, na categoria da Tradução.

A professora adjunta da Universidade Federal da Paraíba (DLEM/PPGL), pesquisadora do CNPq e tradutora literária e de humanidades, Flávia Nascimento, é uma das dez finalistas do Prêmio Jabuti de Literatura, concorrendo na categoria ‘Tradução de Obra Literária Francês-Português’ com o trabalho “Topografia ideal para uma agressão caracterizada”, publicado pela Editora Estação Liberdade Ltda.

Em entrevista à Agência de Notícias da UFPB, a doutora em Literatura Francesa pela Universidade de Paris falou sobre seu trabalho e a importância do prêmio a que está concorrendo.

ENTREVISTA:

Agência de Notícias – Qual a importância no mundo literário do prêmio Jabuti?

Flávia Nascimento – O prêmio Jabuti é o prêmio literário mais relevante do país. Mas sua importância deve ser entendida mais propriamente no âmbito do mundo editorial brasileiro, e não apenas no do mundo literário. Isso porque o Jabuti não contempla somente textos literários (romance, conto, poesia), mas também outras categorias textuais importantes, entre as quais “tradução”, “biografia”, “ciências humanas”, e etc. Ao todo, são vinte categorias, que premiam, inclusive, aspectos artísticos do processo de fabricação do objeto estético a que chamamos livro; assim, por exemplo, as categorias “projeto gráfico” e “ilustração de livro infantil ou juvenil”. O prêmio é anual. Todos os anos, há uma premiação para a melhor tradução de língua estrangeira. Agora, em 2009, foi criada excepcionalmente a categoria “melhor tradução francês-português” (21ª categoria), no âmbito das comemorações do ano da França no Brasil. Meu trabalho está concorrendo como finalista nesta última categoria.
O Jabuti, que está em sua 51ª edição, foi criado por iniciativa da CBL (Câmara Brasileira do Livro). A escolha do pequeno quelônio para simbolizar a premiação ocorreu num contexto de valorização da cultura popular brasileira, na esteira do pensamento de Sílvio Romero, Mário de Andrade, Câmara Cascudo e Monteiro Lobato (um dos personagens de Lobato é precisamente um jabuti).

Agência de Notícias – De que trata o seu trabalho?

Flávia Nascimento – Topografia ideal para uma agressão caracterizada (1ª edição francesa: 1975), que traduzi para a editora paulista Estação Liberdade, é de autoria do escritor argelino de expressão francesa Rachid Boudjedra (nascido em 1941), um dos mais importantes, hoje, de seu país (Boudjedra escreve também em árabe). Essa é a primeira tradução de uma obra sua em língua portuguesa. Nesse texto, ele narra as desventuras de um herói anônimo – um imigrante argelino – pelos corredores do metropolitano parisiense, labirinto urbano subterrâneo em que ele se perde por algumas horas e do qual não sairá vivo. A intriga é minimalista, como se vê, mas seu poder de impacto sobre o leitor é desconcertante, graças à sofisticada arte do narrador de Boudjedra. O tema do imigrante pobre em busca de melhores condições de vida, do imigrante vitimado pelo ódio racista, é universal, e já originou obras em línguas diversas. Creio que ele encontra um eco longínquo, por exemplo, tanto em certos versos de João Cabral de Melo Neto quanto na letra da canção “Construção”, de Chico Buarque. A atualidade desse tema é desesperadoramente real: quer sejam eles nordestinos ou “hermanos” em São Paulo, indianos em Londres, haitianos em Nova Iorque, turcos em Berlim, angolanos em Lisboa ou argelinos em Paris, nosso mundo está repleto de migrantes e imigrantes em busca de trabalho. Escrevi para minha tradução um posfácio que intitulei precisamente “Morte e vida magrebina”, lembrando-me dos terríveis versos de João Cabral em “Morte e vida severina”.

Agência de Notícias – Qual a classificação de sua obra nessa disputa, até agora?

Flávia Nascimento – Meu trabalho ficou entre os dez finalistas, depois de ter concorrido com dezenas de outras traduções de obras literárias originalmente escritas em francês. Ao todo, nas 21 categorias, foram mais de 2.000 inscrições (uma média de quase 100 inscritos para cada uma). A próxima etapa, agora, é a escolha dos três primeiros colocados. Sinto-me profissionalmente muito gratificada por já estar entre as dez melhores traduções do francês para o português selecionadas pelo júri do Jabuti.

Agência de Notícias – Quando sairá o resultado final do concurso?

Flávia Nascimento – Os nomes dos três vencedores serão anunciados em São Paulo, no final de setembro.

Fonte:
Douglas Lara (http://www.sorocaba.com.br/acontece)

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