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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Parte 3, final

Comédia Teatral
 
Ouve-se um barulho de queda de um corpo e o Capitão reentra no salão…

Capitão: Pouca sorte… Pouca sorte a minha… Não encontrei as calças e…

Sargento: Não me diga que o Capitão não encontrou nenhum Fantasma!

Capitão: Infelizmente acertou. Não encontrei nenhum Fantasma, nem sequer o espectro dele.

Coronel: Se não encontrou nenhum Fantasma, então o que é que fez ao martelo de orelhas? Sim, porque eu não o estou a ver…

Capitão: Pois claro que não o está ver… Nem o poderá ver… Pois os Fantasmas roubaram-mo!

Alferes: A situação cada vez está a tornar-se mais complicada e mais perigosa. Os Fantasmas já não se limitam a atacar a cozinha, como também já roubam martelos de orelhas, isto, acreditando naquilo que o Capitão nos conta e que eu, pessoalmente, acredito.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças, as minhas riquinhas calças novas! Não quero, e não posso, nem devo, passar a noite em cuecas. Ai, a minha reputação!

Coronel: Estou plenamente de acordo com aquilo que o Capitão diz, o que nem sempre acontece. Por isso, digamos que estou de acordo com ele, pelo menos, momentaneamente.

Sargento: Caro Capitão, conte-nos cá como é que os Fantasmas lhe tiraram o martelo de orelhas… Eles devem ser muito atrevidos, não são? Para lhe fazerem uma patifaria dessas.

Capitão: É simples. Subi as escadas que vão dar ao sótão e, quando já me encontrava lá em cima, empurraram-me e tiraram-me o martelo. Eu ainda resisti, e olhem, tenho esta mão toda esfolada…

Alferes: E com isto tudo, não conseguiu encontrar as suas riquinhas calças novas, como você diz!

Capitão: Pois é como diz, não as encontrei, não… Mas eu quero as minhas calças, as minhas riquinhas calças!… As minhas calcinhas!

Coronel: Meus caros amigos e convivas, escutem com muita atenção: esta estranha situação exige da nossa parte, uma acção activa e decidida, pois nesta casa, que por sinal é minha, estão a acontecer coisas muito estranhas. Assim, proponho que todos nós, homens valentes e destemidos, vamo-nos armar com unhas e dentes, para que possamos combater o nosso perigosíssimo e comum inimigo: os Fantasmas!

Augusta: Que horror, homem! Tu és um grande exagerado. Por favor, nem tentes matar nenhum Fantasma. Olha que eles são muito perigosos…

Coronel: Mulher! Lamento muito, mas o teu pedido não poderá ser aceite, pois, a partir deste momento, decreto aqui em casa, a Lei Marcial!

Capitão: Meu caro Coronel, decrete o que entender, mas por favor, não se esqueça que eu quero as minhas calças… As minhas riquinhas calças. Isto que fizeram comigo é uma grande indignidade!

Coronel: Meu caro Capitão, o desaparecimento das suas calças, pertencem já a um conjunto de circunstâncias. Não vamos, nem podemos, individualizar a questão!

Alferes: Muito bem, muito bem… Apoiado, apoiado… Uma grande salva de palmas ao nosso caro Coronel!

Sargento: Assim é que eu gosto de ouvir. Vamos já planear uma forte acção militar, contra todos os Fantasmas, Fantasmazinhos e seus similares!

Coronel: E assim, chegou a hora da ação, neste glorioso dia em que vamos libertar o Mundo de Fantasmas. Este bacamarte, do glorioso tempo das Invasões Francesas, carrega-se pela boca. E oxalá que o tiro não saia pela culatra… É para si, Alferes. Utilize bem esta nobre arma, nesta guerra sem quartel, contra todos os Fantasmas de todo o Mundo, e sobretudo, os cá de casa!

Alferes: Comovidamente, aceito esta nobre arma e quero agradecer a honra que me deu. Contra os Fantasmas, lutar, lutar até à morte!

Coronel: Esta pistola, das Campanhas Africanas do tempo de D. Carlos Iº, é aqui para o caro amigo e senhor Sargento. Para disparar, basta premir o gatilho. Não se esqueça de matar todos os Fantasmas possíveis e até os impossíveis!

Sargento: Caro Coronel, uma pistola nesta guerra implacável contra um inimigo tão perigoso e tão poderoso, como são os Fantasmas, será uma arma, quase insignificante. Praticamente obsoleta!

Coronel: Meu caro Sargento, faço-lhe notar que em tempo de guerra, não se olha a armas. Um bom soldado, quando é mesmo bom, nem precisa de armas, pois só a sua figura consegue atemorizar o inimigo! Esta nobre espada, ou melhor, esta gloriosa espada, será usada pelo comandante do pelotão, que neste caso serei eu. Se por acaso eu morrer nesta gloriosa missão, quero que esta espada me acompanhe na mortalha, bem junto ao meu frio e mutilado corpo!

Alferes: O que quer dizer que o Coronel, mesmo depois de morto, pensa continuar a combater os Fantasmas! É, e não me envergonho de o dizer, um verdadeiro herói do nosso tempo!

Coronel: Assim será, meu caro Alferes. Um soldado, mesmo depois de morto, deverá ainda valer por quatro… Vivos!

Capitão: E mais uma vez, os meus amigos estão a esquecer-se de mim. Eu quero as minhas calças – as minhas riquinhas calças… Isto é uma indignidade!

Coronel: Vamos já tratar de si, ou melhor, vamos dar-lhe uma arma. Caro Capitão, tome lá esta catana (grande facalhão) da Guerra Colonial. Mas tome bem atenção ao que vai fazer com ela: procure matar só Fantasmas.

Alferes: Sr. Coronel, o pelotão já está formado. Queira fazer o favor de passar revista às tropas.

Coronel: Agradeço, mas recuso tal honra, pois, em tempo de guerra, não se deve passar revista às tropas! Soldados, não se esqueçam que nós fazemos parte dos melhores soldados do Mundo. Por isso, a nossa missão terá de ser um enorme êxito. Soldados! Vamos a eles, aos Fantasmas, como “tarzões”, perdão, como comilões. Pelotão, em frente, marche… esquerdo…direito…opp…esquerdo…direito…opp…opp…

E o pelotão sai do salão a marchar. Passados poucos minutos…

Carmo: Dona Augusta, Dona Augusta, o Sr. Coronel e o seu pelotão, estão a regressar ao salão!

Augusta: Vamos a ver quantos Fantasmas conseguiram eles caçar…

Coronel: E assim, depois de uma grande sortida contra o inimigo, o nosso glorioso pelotão regressa à sua unidade. Alferes, o pelotão teve baixas?

Alferes: Saiba o meu Coronel que o pelotão não teve nenhuma baixa mortal nem sequer feridos.

Coronel: Soldados, direita volver – destroçar… Mas agora reparo: estamos às escuras, porque será? Ó Augusta, quem é que teve a infeliz ideia de tirar as lâmpadas dos candeeiros do salão?

Augusta: Não sei, homem, pois estou aqui no quarto, mas vou já sair.

Coronel: Sai depressa, e vem cá dizer-me quem é que se atreveu a tirar as lâmpadas dos candeeiros. Quando o pelotão saiu em missão, tive o cuidado de deixar as lâmpadas acesas para o nosso regresso, e agora está tudo às escuras!

Augusta: Olá, querido maridinho. Então os candeeiros não têm lâmpadas? Não sei, nem calculo quem as possa ter tirado… Não compreendo.

Coronel: Este candeeiro aqui ainda tem lâmpada. Também é o único…

Alferes: O que quer dizer que o inimigo atacou pela retaguarda. Cobardes!

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… As minhas riquinhas calças novas!… Isto é uma indignidade… eu sou um Capitão!

Sargento: Tenho a sensação que falta aqui qualquer coisa… Já sei o que falta: onde é que está o baralho de cartas, assim como as nossas carteiras e porta-moedas? As nossas canetas, etc., que ficaram em cima desta mesa?

Coronel: Tem toda a razão, meu caro Sargento: quem roubou todas estas coisas? Mistério…

Alferes: Isto é uma prova evidente que, enquanto andávamos em missão, o inimigo, traiçoeiramente, atacou e roubou os nossos pertences!

Capitão: Eu só gostava de saber quem é que se atreveu a roubar as minhas calças… As minhas queridinhas calças novas…

Coronel: O Alferes ainda tem dúvidas de quem foi? Ainda não compreendeu que foram os Fantasmas? Os malditos Fantasmas!

Capitão: Isto é inacreditável!… Além das minhas queridas calcinhas, também me roubaram a minha caneta de ouro! Aonde é que isto vai parar? E eu que tinha tantas e tão boas recordações daquela caneta de ouro…

Alferes: Lamento muito, pois a caneta devia ser muito valiosa e, pelo que me diz, também de muita estimação. Permite-me uma pergunta indiscreta, meu caro Capitão, por acaso, a caneta foi alguma oferta especial que lhe fizeram?

Capitão: Sim, uma recordação da minha querida sogra.

A criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Senhor Coronel!… Dona Augusta!… Ai que desgraça a minha… Acudam-me, acudam-me! Ai que vou desmaiar…

Augusta: Mas o que é que te aconteceu desta vez, Carmo?

Carmo: Fui roubada, minha senhora… Fui roubada… Que desgraça a minha!

Coronel: Mas… Foste roubada, como?

Carmo: Depois dos senhores terem descido do sótão, aproveitei e fui lá acima ao meu quarto. Qual o meu espanto quando vi que a minha mala tinha sido arrombada, e todos os valores que eu tinha dentro, roubados. Ai, ai que desgraça a minha, malditos Fantasmas!

Augusta: Carmo, diz-nos o que te roubaram.

Carmo: Ai, minha senhora, tiraram-me mais de setecentos euros que eu tinha no fundo da mala, assim como um fio e uma pulseira em ouro.

Augusta: Pois é, pois é… Então, mais de setecentos euros, mais o ouro… tudo somado, nem chega a metade para os dez mil e quinhentos euros…

Coronel: Olha lá, mulher, que conversa vem a ser essa de faltar “mais que metade”…

Augusta: Metade?! Eu disse metade? Ah! Já sei, mas não faças caso. Como deves calcular, ando muito nervosa com este caso dos Fantasmas cá em casa. É da minha cabeça!

Coronel: Mas tu falaste em “menos de metade”, e eu quero saber o que é “menos de metade” de quê. Confesso que já estou a achar isto muito estranho.

Augusta: Talvez eu quisesse referir-me a menos de metade… a cinquenta por cento… Do, do dinheiro e do ouro que roubaram à Carmo. Sei lá, quando uma pessoa está muito nervosa, não sabe muito bem o que faz e o que diz… Por favor, maridinho, tenta compreender.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… As minhas riquíssimas calças e a minha caneta… Isto é uma indignidade e uma desonra para quem se preze de ser Capitão.

Carmo: E eu quero de volta os meus ricos mais de setecentos euros, mais o fio e a pulseira em ouro!

Coronel: Camaradas de armas, temos de organizar outra expedição contra os Fantasmas. Pelotão, vamos formar na sala!

Alferes: Caros companheiros de armas, com certeza que ouviram o nosso comandante. Todos aos vossos lugares, todos em sentido, barrigas para dentro, peitos para fora, as orelhas e os olhos bem atentos, pois vamos partir novamente para outra importante missão de emergência, de capital importância para a nossa grande cruzada contra os Fantasmas!

Coronel: Como todos já verificámos, a situação terá de ser considerada de catastrófica e local. O inimigo não está a aceitar uma luta leal, uma luta frontal… Por isso, é um cobarde!

Sargento: O meu aplauso. Muito bem, muito bem! Queira continuar, meu Coronel.

Coronel: O nosso inimigo prefere a guerrilha, o que nos obriga a uma guerra total, sem quartel, sem local determinado e sem hora certa de atacar. O que deve merecer o nosso mais veemente repúdio.

Todos aplaudem e assobiam ao mesmo tempo …

Coronel: Eu, como vosso Comandante, estou disposto a aceitar todas as vossas sugestões. Quem quer começar? Mas, claro, só boas sugestões…

Carmo: Eu, por mim, vou para a cozinha fazer um delicioso bolo…

Alferes: E neste momento tão grave para a Humanidade, com ataques sucessivos, cruéis e cobardes dos Fantasmas, meus caros companheiros de armas, a Carmo, a criada, só pensa em ir para a cozinha fazer ou cozinhar, um delicioso bolo. Só por esta atitude, podemos imaginar o que são as mulheres!

Coronel: A sorte delas (mulheres) é a nossa Lei Marcial as poupar, senão…

Alferes: Depois deste gravíssimo incidente, vamos então ao que nos interessa mais. A minha sugestão é esta: dinamitar toda esta casa, para assim podermos acabar com estes Fantasmas!

Coronel: Alto lá, alto lá! O meu caro companheiro de armas quer dinamitar a minha casa?! Você não deve estar é bom da cabecinha!

Sargento: Eu também estou de acordo com o nosso caro Coronel. Devem existir outros processos, por ventura mais eficientes e menos violentos, como por exemplo: insecticidas em spray…

Coronel: Insecticidas?! Só se os Fantasmas fossem insectos, o que não acredito, sinceramente. Mas, em todo o caso, será um caso a considerar. Mas tudo será preferível ao dinamitar a minha casa. E você, meu caro Capitão, diga-nos também a sua opinião.

Capitão: Como sabem, eu sou uma pessoa muito ponderada, e como não tenho aqui o meu staff… Mas sou uma pessoa muito ponderada.

Sargento: Sim, muito ponderado e muito apreciador de whisky!

Capitão: Meu caro Sargento, aconselho-o que tenha boa educação e que se deixe de insinuações, impróprias de uma pessoa da sua categoria. Mas, voltando aos Fantasmas, em minha opinião, nem oito nem oitenta… O que quer dizer que não estou de acordo em dinamitar esta casa e, muito menos em utilizar insecticida, pois considero-o uma arma perigosíssima, pela sua química, e proibida pela Convenção de Genebra, pois, eventualmente, poderia causar efeitos devastadores nos próprios Fantasmas. Para mim, a situação mais viável ainda seria a de demolir este andar! Mas acima de tudo, o que mais me interessa são as minhas calças… As minhas riquíssimas calças. O que eu estou a passar, é uma situação indigna.

Coronel: Com todo o respeito, você deve de estar é maluco! O quê? Demolir o meu andar? Nem pensar!

Alferes: Pois é, se o Sr. Capitão não aceita as nossas sugestões, diga-nos então como é que podemos resolver este problema dos Fantasmas. Criticar é sempre mais fácil do que fazer.

Capitão: E, com isto tudo, estou a ver que ninguém pensa no meu problema, e eu não posso ficar toda a noite p’ra aqui em cuecas. Eu quero as minhas calças novas… As minhas riquíssimas calças, mais a minha caneta. Isto que me está a acontecer, é uma desonra para qualquer Capitão que se preze.

Carmo: E não se esqueçam que eu também quero o meu rico dinheiro e o ouro. A propósito, quando os senhores foram lá acima ao sótão, por acaso, não notaram nada de estranho no meu quarto? Como se devem recordar, vocês foram os últimos a entrar no meu quarto…

Coronel: Mulher! Cala-te, não estejas p’ra aí a insinuar nada – ouviste? Pelotão, vamos reunir mais uma vez. Formar…

Alferes: Companheiros de armas, mais uma vez, sentido… Barriguinhas p’ra dentro, assim estão bem… Agora, prestem muita atenção ao que o nosso comandante nos vai dizer. Comandante, assim que o entender, pode começar.

Coronel: A acusação que a criada, a Carmo, nos fez, é muito grave, pois o nosso glorioso pelotão, passou durante a sua última missão, por um local onde foi praticado um furto. A nossa honra exige um reparo!

Alferes: Agora, confesso que não compreendi nada do que foi aqui dito. Caro comandante, que conversa vem a ser essa?

Sargento: Eu também não estou a gostar nada disto, pois, segundo me lembro, nunca roubei nada a ninguém, ou, pelo menos, ainda ninguém se queixou.

Capitão: Eu, pelo menos descaradamente, também nunca roubei nada a ninguém. Ai a minha vida… Eu só quero as minhas calças e a caneta de ouro. Que indignidade eu estar p’ra aqui nesta lamentável figura. E eu, um Capitão!

Coronel: Silêncio! Vamos fazer uma revista ao nosso equipamento, para ver se encontramos do que a Carmo nos pretende acusar. Armas no chão… Camisas de fora… Bolsos para fora… Calças para baixo…

Capitão: Mas, caro Coronel, como é que eu posso tirar as calças? Está bem, só se for as cuecas…

Coronel: Se não tem calças, como é óbvio, não as pode deitar a baixo. Alto lá, alto lá, já lhe disse que não era preciso tirar as cuecas, para mais, hoje já vimos muita miséria!

Carmo: Senhor Coronel, que fique muito bem claro que eu não desconfio de ninguém em particular, nem sequer do seu pelotão.

Coronel: Sendo assim, dou o inquérito por concluído. A honra do nosso glorioso pelotão, mais uma vez, ficou imaculada! Pelotão, calças p’ra cima… bolsos para dentro… vestir camisas… apertar cintos… agarrar nas armas… descansar… Destroçar!

Alferes: Então, agora vamos trabalhar num plano de ataque aos famigerados Fantasmas?

Coronel: Pois vamos. Como já verificámos, precisamos de reforços, pois, embora a nossa acção até a este momento possa ser considerada de muito positiva, e até heróica, temos de admitir que não temos efectivos para controlar todas as zonas infestadas pelo nosso perigoso e traiçoeiro inimigo: os Fantasmas!

Sargento: Estou plenamente de acordo. Por mim, até pedia auxílio aos pára-quedistas…

Coronel: Pára-quedistas? Para quê?

Sargento: Então os Fantasmas não andam por cima de nós, no sótão?

Alferes: Eu antes pedia auxílio à aviação, mas pensando melhor, talvez optasse em pedir auxílio a uma escola de Karaté. Como eles treinam “sombra”, bem podiam acertar nos Fantasmas. Assim: zás… catrapás… zás…

Sargento: Olhe lá, cuidadinho com esses calcanhares no ar, meu caro Alferes!

Alferes: Sim, talvez o Karaté desse resultado…

A criada entra no salão toda eufórica …

Carmo: Meus senhores, quero dizer-vos que já terminei!

Coronel: Mas… mas o que é que já terminaste, Carmo?

Alferes: Não me digas que conseguiste apanhar algum Fantasma…

Sargento: Confesso que também estou muito curioso por saber o que é que a Carmo terminou.

Carmo: Tenham calma. Não, não apanhei nenhum Fantasma. Só terminei de fazer um bolo. Um delicioso bolo de ananás.

Coronel: Oh, sua tolinha, então é com bolos que tu queres apanhar os Fantasmas! Tem mas é juizinho nessa cabeça, pois já tens idade para isso. E para já, ficas terminantemente proibida de interromperes reuniões, só para dizeres parvoíces, em que nós, os Homens, estamos a planear a melhor maneira de podermos salvar a Humanidade, dessa praga imunda que são os Fantasmas!

Capitão: Muito bem, muito bem, caro Coronel!

Coronel: Por favor, ninguém me interrompa. Mas, continuando: para que isso possa acontecer, será necessário derrotar todos os Fantasmas que existam na Terra e, principalmente, os que estão cá em casa!

Capitão: Com essa conversa toda, por favor, não se esqueçam das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da minha caneta de ouro. Isto é uma grande indignidade para um Capitão que se preze. Isto de ter que andar em cuecas…

Alferes: Companheiros de armas, temos de chegar a um consenso generalizado, para combinarmos qual será a estratégia ideal, que leve à completa e total destruição de todos os Fantasmas!

Sargento: Para já, proponho que não façamos prisioneiros.

Coronel: Como ficou amplamente demonstrado, para operarmos uma acção eficaz contra o inimigo, precisamos de mais efectivos.

Capitão: Então, não hesite, caro Coronel. Arranje efectivos, porque eu quero de volta as minhas calças, as minhas riquinhas calças novas e a caneta de ouro. Que indignação para um Capitão…

Coronel: Como devem calcular, estou a ponderar muito bem todas as vossas sugestões. A eventual vinda de reforços, poderá determinar a mudança de comando e, como devem calcular, não convém que a minha casa possa ser considerada zona militarizada.

Sargento: Estou a compreender perfeitamente o Coronel. Em nossas casas, quem deve mandar e comandar devemos ser sempre nós!

Capitão: Eu também compreendo muito bem os receios do Coronel. Mas eu quero, eu quero as minhas calças novas. Que indignação para um Capitão…

Alferes: Então, o que é que o caro Coronel sugere?

Coronel: Entre várias hipóteses, estou a pensar em dividir a casa em vários sectores, utilizando para o efeito, arame farpado.

Capitão: A ideia poderá não ser má de todo. Mas se os Fantasmas passarem por baixo do arame farpado, lá se vão as minhas ricas calcinhas!

Sargento: Temos de concordar que o Capitão não pode andar toda a noite em cuecas.

Coronel: Caros companheiros de armas, por favor, deixem-me continuar…

Alferes: Continue, continue caro Coronel, que nós até gostamos de o ouvir!

Coronel: Depois da colocação do arame farpado, podíamos acender várias fogueiras, na tentativa de que o fumo intoxique o inimigo.

Sargento: Mas antes de acenderem as fogueiras, aconselho-vos a apreciar este belo cheirinho que vem dos lados da cozinha.

Alferes: Tem razão, caro Sargento. O cheirinho do bolo que a Carmo está a fazer já chega aqui, e não engana ninguém: é um bolo de ananás!

Sargento: Estou cá a pensar numa coisa: e se os Fantasmas também roubassem este bolo?

Alferes: Tem toda a razão, pois até os Fantasmas podem gostar de bolo de ananás. Talvez fosse conveniente avisar a Carmo.

Coronel: Vou já avisá-la. – Carmo, estás a ouvir? Olha, desta vez toma o devido cuidado e não deixes que os Fantasmas roubem também esse bolo, que deve estar uma delícia!

Carmo: Os senhores estão a falar comigo? Eu já vou aí.

Coronel: Claro que estávamos a falar contigo. Olha lá, repito: desta vez não deixes que os Fantasmas roubem esse bolo!

Augusta: Tive uma ideia: talvez fosse melhor trazeres o bolo para a sala, pois se o deixares na cozinha, ainda o podem roubar, e assim nunca mais se vão embora.

A criada entra no salão e pede a todos os presentes que falem baixinho (chiuuuu)…

Carmo: Oxalá que os Fantasmas desta vez o roubem e o comam!
Augusta: Não te compreendo, Carmo. Deixa-te mas é de brincadeiras e traz o bolo para aqui.

Alferes: A Dona Augusta tem muita razão, o bolo deve vir para aqui. Talvez depois de o comermos, possamos pensar na melhor estratégia a seguir, para acabarmos de uma vez por todas com esses malfadados Fantasmas.

Sargento: Apoiado, apoiado. Venha lá depressa esse bolo para aqui.

Entretanto, a criada entra novamente no salão, e…

Carmo: Meus senhores, dão-me licença que entre e que fale?

Coronel: Olha, Carmo, tu estás a tornar-te muito chatinha. Mas… mas não nos venhas dizer que… que…

Carmo: Sim, venho solenemente comunicar-vos que o bolo de ananás DESAPARECEU!!!

Coronel: É impossível, impossível!… Desta vez não vou aceitar o facto como consumado. Desta vez, vou deitar tudo abaixo… Tudo abaixo!

Sargento: A Carmo deve estar enganada, ou então está a brincar…

Alferes: Isto é demais! Até parece um sonho mau, um pesadelo.

Carmo: Pois é, meus senhores, a partir deste momento, eu, a Carmo, criada às vossas ordens, é que vou resolver o caso dos Fantasmas cá em casa do Sr. Coronel!

Coronel: Tu não deves é estar boa da cabeça!

Alferes: Estou mesmo a ver que o teu nobre desejo era pertenceres ao nosso glorioso pelotão, mas…

Coronel: Protesto veementemente, pois o nosso pelotão não pode, de maneira nenhuma, ser constituído também por mulheres. O pelotão não é uma brigada mista… Mulheres, já p’ra cozinha… Mulheres, já p’ra a cozinha!

Carmo: Por favor, prestem muita atenção. Como já vos disse, sou eu quem vai resolver este problema dos Fantasmas, mesmo sem ter a honra de pertencer ao vosso glorioso pelotão.

Coronel: Nem posso acreditar no que estou a ouvir. Mas então, conta-nos lá como é que pensas que vais resolver este importante caso?

Carmo:  Para já, não vai ser preciso empreender nenhuma acção bélica.

Alferes: Pelos vistos, a Carmo quer dizer que a exterminação dos Fantasmas não passa por acções bélicas, mas sim, por acções políticas?

Carmo: De políticas é coisa que eu não percebo nada, mas também não importa.

Coronel: Carmo, já estou a perder a paciência. De uma vez por todas, diz-nos quais foram as acções que levaste a cabo.

Carmo: Digamos que fiz… uma acção de psicologia feminina.

Alferes: Atenção, atenção meus senhores! A Carmo descobriu uma nova fórmula para caçar Fantasmas. Imaginem só que para os caçar, basta aplicar um pouco de psicologia feminina!

Coronel: Esperem, não sei bem porquê, mas começo a estar quase de acordo com a Carmo. Sendo assim, o nosso glorioso pelotão poderá ficar ainda mais valorizado, se conseguirmos recrutar um elemento para a Psico. Por isso, vou convidar a Carmo.

Carmo: E eu terei muito prazer em aceitar essa missão!

Coronel: Sendo assim, companheiros de armas, a partir deste momento, tem a palavra a nossa novel, valente e destemida, Carmo!

Sargento: Apoiado, apoiado! Vivá  Carmo – a criada!

Carmo: Muito obrigado, muito obrigado a todos! Como é do conhecimento geral, e resumindo, eu fiz um bolo de ananás, que por acaso devia estar delicioso, mas que desapareceu…

Alferes: Ai que pena, até estou a ficar com água na boca.

Carmo: Mas, enfim, desapareceu…

Sargento: E, possivelmente, desapareceu nas bocas imundas de uns quaisquer Fantasmas!

Carmo: Mas… há sempre um “mas”. Ao amassar a massa do dito cujo bolo, adicionei uma certa porção de um produto que serve para exterminar ratos. Assim, os Fantasmas ao ingerirem o bolo, também ingeriram a tal porção de raticida. E agora, vamos esperar.

Coronel: Queres então dizer que…

Alferes: Os Fantasmas…

Capitão: Vão morrer…

Coronel: Envenenados?

Carmo: Mas, atenção… Desde já quero que fique muito bem esclarecido que eu não envenenei ninguém. Nem mesmo os Fantasmas. Limitei-me só a pôr uma certa porção de raticida num bolo de ananás. Nada mais…

Coronel: Podes estar descansada e em paz com a tua consciência, pois, somos todos testemunhas do que aconteceu. Se os Fantasmas estiverem envenenados, a culpa foi deles (só deles), pois não tinham o direito de comer o bolo de ananás, feito com todo o amor e competência, aqui pela Carmo… A nossa companheira de armas!

Alferes: Mas agora temos um grande problema: como é que vamos saber se os tais Fantasmas comeram ou não o bolo de ananás? Para mais, eles devem ser transparentes.

Capitão: Eu só quero saber das minhas calças, das minhas riquíssimas calças novas, e também da caneta de ouro. Que indignidades fizeram a um Capitão como eu!

Sargento: Se os Fantasmas morrerem, com certeza que devem começar a cheirar mal; mas como o Alferes diz, e com muita razão, eles devem ser transparentes. E sendo assim, como é que os podemos ver? Talvez através de uns óculos escuros. Bem, é só uma ideia…

Sargento: E depois, como é que os podemos deitar fora? Vocês ainda não pensaram nesse problema?

Capitão: E ninguém fala nas minhas queridas calcinhas, ninguém se importa de eu andar para aqui em cuecas; nunca, nunca hei-de perdoar aos Fantasmas, pois o que eles fizeram a um Capitão importante como eu, é indigno, é indigno. E se as calças também se tornaram transparentes? Ai, ai, que eu nem quero pensar nessa possibilidade; as minhas riquinhas calças!…

Carmo: Meus senhores, a título de curiosidade, vou ler-vos o que está aqui escrito na embalagem do raticida: “Perigo de Morte” – “Este produto é altamente tóxico. Em caso de ingestão, deve o acidentado ser transportado urgentemente à morgue mais próxima, pois o corpo começa logo a decompor-se”…

Coronel: Sendo assim, os Fantasmas já devem estar completamente mortos… E talvez, até bem mortos. Já me estou a arrepiar todo!

A porta do salão abre-se abruptamente e entra um homem e depois outro, ambos encapuzados, cambaleando, antes de caírem inimados no chão…

1º Encapuzado – Ai, ai… ai o meu rico estômago… Ai, que eu vou morrer… Mataram-me… Socorro… socor…

2º Encapuzado – Ai, ai, ai a minha barriguinha… Ai que vou rebentar… Socorro! Assassinos… assas…

Esta entrada e a posterior morte dos embuçados, deixou todos estupefactos. Valentes como eles eram, depressa reagiram…

Coronel: Mas … Mas quem são estes homens que invadiram a minha casa e estão mortos (pelo menos aparentemente)?

Alferes: Oh, caro Coronel, não me diga que não sabe quem são?

Sargento: O Sr. Coronel nem calcula quem são?!

Coronel: Não sei se me vou enganar, mas serão os Fantasmas?

Capitão: Fantasmas ou não, este aqui tem as minhas riquinhas calças novas. Vá, meu “menino” dá-me cá as calças; meu malandro, pois um Capitão como eu, nunca poderá andar p’ra aqui em cuecas. Dá cá as minhas calcinhas… upa… upa…upa… Custaram a sair, mas já cá estão nas minhas mãos! Estão muito sujas e amarrotadas, mas já são minhas novamente!

Augusta: Olha lá, Carmo, o que é que estás aí a procurar nesse sítio?

Carmo: Não se aflija, minha senhora, pois eu só estou a procurar o que é meu, ou seja, o dinheiro e o ouro. Para mais, eles já estão tão geladinhos…

Augusta: Ó Carmo, mas aí, nesse sítio?

Carmo: Sim, sim, minha senhora! Neste sítio é onde se encontram as minhas coisas. Olhe, está a ver, minha senhora? Neste saquinho de plástico estão os setecentos euros e naquele Fantasma ali ao lado já encontrei o meu fio e a minha pulseira. Como vê, Dona Augusta, eu fui logo ao sítio certo, enquanto a senhora só olhou…

Augusta: Carmo, como estás com a mão na massa, aproveita e vê se eles têm mais alguma coisa?

Carmo: Lá ter, têm, minha senhora, mas…

Augusta: Então, diz-me cá o que é que encontraste mais!

Carmo: O que os homens têm, ou melhor, deviam ter, mas estes já nem com uma lupa se pode ver qualquer coisa!

Augusta: Oh, oh, oh, que disparates estás para aí a dizer?

Carmo: Olhe, minha senhora, este aqui até tem umas fotografias, digamos, muito indecentes. A D. Augusta está interessada em vê-las?

Augusta: Estou sim, Carmo. Dá-mas cá, porque eu sempre gostei muito de ficar com velhas “recordações”.

Coronel: E onde está o baralho de cartas que também estava em cima da mesa?

Alferes – E também aonde estão a minha carteira, chaves do carro e o meu porta-moedas?

Sargento: E o meu bloco de notas, por acaso, também está por aí?

Carmo: Sim, sim, está tudo aqui. Os senhores também querem ver? Estejam à vontade.

Coronel: Não, não merece a pena, pois todos nós acreditamos em ti!

Alferes: A Carmo pode trazer tudo o que encontrou, para cima desta mesa.

Carmo: Tudo?! Ó companheiros de armas, o melhor é vocês virem cá buscar o que vos mais interessa, porque eu, mesmo sem querer, posso exagerar!

Coronel: Companheiros de armas! A nossa querida colega do “Psico”, que conseguiu resolver, e muito bem, este caso que derrotou completamente o inimigo comum, ou seja os Fantasmas, pelo facto e pelos relevantes serviços prestados à nossa comunidade, bem merece que lhe prestemos uma guarda de honra!

Alferes: Muito bem, muito bem. Como estamos todos completamente de acordo, vamos a isso: Pelotão!… Formar… Sentido!… Essas barriguinhas para dentro e peito para fora. Meu comandante, estamos às suas ordens!

Coronel: É p’ra já. Companheira de armas, queira fazer o favor de passar revista ao nosso glorioso pelotão!

Carmo: Muito bem… Muito bem… Muito… Olhe lá, senhor Capitão, pode dizer-me o que faz na formatura, com as calças na mão esquerda e a catana na mão direita?

Capitão: Perdão, perdão… É que perdi as calças e ainda não tive tempo de as voltar a vestir… Além disso, estão muito sujas…

Carmo – Ah, é isso? Então, saia imediatamente da formatura… Imediatamente, não ouviu? Depois de bem lavado e bem ataviado, apresente-se na cozinha. E p’ra já, conte com algumas guardas de castigo à porta deste salão. Senhor Comandante Ramalho, já passei revista ao nosso glorioso pelotão. Agora, vou para a cozinha  fazer o jantar: para os homens, vou fazer uma feijoada e para a sobremesa, um pudim de pinhões. Para mim e para a D. Augusta, vou fazer uma dobrada com uma sobremesa de torta de maçã!

Coronel: Carmo, nossa companheira de armas, antes de ir para a cozinha, queira fazer o favor de nos dizer o que é que vamos fazer aos corpos dos inimigos?

Carmo: O que é habitual fazer nestas situações: pô-los em vala comum, com a indicação “Desaparecido em combate”.

Coronel: Muito bem! As suas ordens serão rigorosamente cumpridas. Pelotão, em frente  marche… um… dois… esquerdo… direito… esquerdo… direito… opp… opp… opp …

Carmo: Pare, pare aí com essa marcha. Ordeno e mando publicar, na Ordem de Serviço do Dia, que de ora avante, não serei mais a Carmo.

Passarei a CARMINHO!!!

Siga a marcha…

F I M

Nota: Trabalho de ficção: qualquer situação ou personagem é pura invenção.

Texto de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

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Arquivado em Magia das Palavras, peça teatral

Qorpo Santo (Um Parto)

Comédia em 3 atos.

PERSONAGENS

Cario
Florberta
Melquíades
Guindaste
Galante
Ruibarbo
Uma mulher
Uma criada
Uma voz


ATO PRIMEIRO

CENA I


Cário — (assentado a uma mesa, provando algumas leves comidinhas) O sábio o beija, o néscio arqueja! Por que será que isto se dá!? Eu sei: Aquele viveu em Deus, com Deus, por Deus e para Deus; este, no diabo, com o diabo, pelo diabo e para o diabo! Eu me explico. Um é observador e cumpridor da Lei que por aquele lhe foi dada, e por Nosso Senhor Jesus Cristo — acrescentada. O outro, é cruel perseguidor de seus sectários… Ou daqueles que fiéis a observam, respeitam, veneram. Eis porque, repito — quando Deus fala, o sábio se ri e se cala; o néscio teme e se abala. Ou, aquele se enche de prazer; este de medo vê-se tremer! Passando, porém da religião a estas cousas que agora como, não sei o que me parecem estas comidinhas. Dão-se fatos a seu respeito; uns que me encantam, outros que me admiram; alguns que me enojam, muitos que aborrecem, diversos ou vários que me repugnam, milhares que me indignam; inúmeros para os quais não há explicação nem qualificação exata, possível… Quantas cousas me falaram hoje, ora pelo sono, ora pela forma, ora pelo gosto, ora pela espécie, ora pela cor, e também pelo sabor! Vejo que (pegando em uma estrelinha de massa) ninguém deve comer estrelas, mas estrelas de carne ou de fogo! Como, porém estas são de massa, é de crer que mal me não façam (Come uma. Pegando em outra, tira uma dentada, e a deixa quase pelo meio; olhando para ela:) Parece-me uma coroa! Não comerei. Guardarei (Põe no prato.) Pelo gosto (provando outra), cheiro e sabor, dir-se-á que — envenenada está.
Poremos também a um lado. Acho esta bebida (bebendo um cálix de vinho), com quanto espírito, assaz fraca, ou como amolecida. É cousa que também não me agrada. Não beberei mais deste liquido: veremos algum mais forte, e por isso mesmo para mim — melhor. Quê! (pegando em outro pedacinho de massa) Isto é imagem de um turíbulo! Não comerei. Esta, de uma naveta, (pegando outra) também não quero! Provarei esta fatia. (Corta dois ou três pedacinhos, e come.) Que tal? É sempre igual.

(Levantando-se um pouco.) Eis a barretinha de um soldado, que ofendido ou maltratado em seus brios ou dignidade, na Vila Nova do velho Triunfo, por um seu capitão, em princípios da infausta, nefanda, prejudicial e mais que indigna revolução de 1835, teve a precisa coragem para salvar sua honra e dignidade; para dar um imitável exemplo a seus camaradas; para meter um dedo do pé no pinguelo da espingarda, encostar a boca desta no peito em frente ao coração, e disparar assim estrondoso tiro, que o transportou instantaneamente à presença do Eterno. Feliz soldado, era de um batalhão cujo título ou número não me lembro; suponho que paraense, e em o qual havia um capitão com o nome — Chaguinhas, de péssima fama — que julgo muito pouco tempo durou, bem como a maior parte desse corpo de infantaria, destruída quase toda — poucos dias depois pelos generais Neto e Canabarro. Estes corações (pegando em um coração) enchem-me de benções; não os quero; estou deles assaz farto. A estes gozos preferiria a companhia, que traz alegria… (Olhando com atenção para um sinal em uma mesa.) Este sinal é feito por um pingo de espermacete; isto, porém não é o que admiro: uma cabeça perfeita, um nariz afilado, com uma cara completa, queixo, barbas, um boné igual ao de um oficial francês ou alemão que há tempos vi, e até com um penacho — é o que realmente para mim não direi mais que admirável, mas algum tanto espantoso… Enfim, paremos com isto: são horas de dormir; vamos deitar-nos. (Levanta-se, dá alguns passos e encosta-se a um sofá, cama, ou cadeira de balanço.)

CENA II

Cário — (levantando-se.) Estou satisfazendo o desejo, ou cumprindo o projeto que fiz de ir viajar à Europa, e de lá, cheio de ciência, voltar a derramar sobre Os meus comprovincianos, compatriotas, e mais habitantes do Império Brasileiro. Está se servindo Deus de mim para punição de uns e prêmio de outros. Não me convém, não devo escrever sobre os mortos, ou fazer nênias. Convém-me mais passear, que estar em casa; passeando, me entretenho; me divirto; e fortifico; em casa me enfraqueço, e sempre apeteço… Fora, não necessito trabalhar, mas apenas conversar: em casa não posso deixar de o fazer sem cessar… Ao homem convém caminhar, falar, pular, dançar, palrar e o exercício de mais de um milhão de verbos acabados em ar, ar, ar, ar, etc. etc. etc. etc. Como é difícil, e tantas vezes impossível, a conciliação de interesses opostos! Sente-se uma necessidade; é-se instado por um desejo; procura-se satisfazê-lo; encontra-se uma dificuldade…
Alguém geme, alguém chora, que nos dói, que nos estorva. Mas por que lamentar? Se necessário, vençamos; ou sigamos os impulsos de nossa inteligência; os conselhos de nosso coração; ou os conselhos daquela, e os impulsos deste.
Façamos algum sacrifício, visto que ninguém (é de conjecturar) há que viva sem os fazer. É preciso fortalecermo-nos; é preciso não fraquecermo-nos. Se eu atendesse, direi neste momento, aos desejos que tive (depois de haver passeado e meditado algum tempo zangado), teria escangalhado, talvez destruído ou inutilizado um baluarte, cujas forças já me não convém conservar. Se, porém lhe presto muito atenção, se me penalizo de seu sofrer, do que se me representa à imaginação, terei de viver qual preso em cadeia. Enquanto, pois não tenho emprego, mais que o de compositor, preciso me é buscar por toda a parte, onde houver melhor, ou mais me agradar — aquilo que me falta e de que mais careço. (Olhando para o ar.) O baluarte sibila! Não prestar-te-ei pois mais atenção, enquanto de longe me falar teu coração! Assim triunfou (triunfarei eu também de ti) um de meus amigos — de igual impertinência — só útil n’aparência! (Pega o chapéu e sai.).

CENA III

Florberta — Que força tem o destino! Umas vezes cruel e destruidor como o raio ou a tempestade; em outras vezes tão benigno como o amor ou a saudade!

(Canta:)

Às vezes é tão cruel
O bárbaro, feroz destino,
Como horrosa tempestade,
Ou o raio destruidor

Em outras mais que fiel,
Tão amigo, tão benino,
Nos enche de flicidade,
De gratidão, e de amor.

Os malvados (atravessando o cenário depois que profere cada um período) estão sempre condenados. Quem estará por ai se assoando, que tanto me está enjoando! A Ciência, o ouro e a água são cousas que quanto mais abundam, menos param ou mais velozes necessitam correr. Quando sinto-me menos forte, ou temos destruição, ou é morte. Quando o Estado carece para sustentar-se ou progressar — de uma parte de nossos serviços é justo que lhes prestamos, bem como que este, uma parte de seus benefícios a nós quando d’Ele carecemos. É com esta reciprocidade de atenções, de benefícios, de amparo — que os Estados e os súditos seus — conservam e prosperam. Se eu tivesse disposição de escrever sobre relações naturais, diria que ainda hoje o chá que tomei levou-me à presença de alguém, de quem ouvi a mais tremenda descompostura!… Servir-me-á, se pudermos continuar a escrever comédias, para uma bela cena de algum dos Atos; mesmo para começo, parece excelente. Não foi nada menos que o seguinte: Bati por duas vezes em uma porta, ouvi mandar a pessoa a quem buscava abrir a porta; como se demorava o criado, empurrei-a, e entrei; a pessoa era muito minha conhecida, e de baixa esfera.
Quereis saber o que ouvi dela? Eis: A Sra. é muito atrevida! Teve a audácia de entrar em minha casa sem que eu fosse abrir-lhe a porta! Pensa que esta casa é casa de prostitutos? Está muito enganada! Retire-se; e se está louca, vá para a Caridade! Quereis saber o que lhe respondi? Eu vô-lo digo. Eis: “Não se incomode, Sr. Bem sabe que não é a primeira vez que eu venho à sua casa. Foi-me necessário á vir hoje; desculpe portanto: se a minha presença não lhe agrada, eu me retiro. E retirei-me, sem mais cumprimentos. Fui, entretanto, opostamente, recebida por pessoas da mesma casa, que para tal não tinha dever com o maior afeto possível; notando em seus semblantes o maior desprazer pela grosseria estúpida daquele que devia-me prestar atenção. Há de entretanto servir para algum fim útil.

CENA IV

Casto — (entrando) Que mania de mil diabos! Querem por força que eu viva amigado — sem que isso possa ser! Sim! Irra, irra! (Sacudindo os braços.) O diabo que satisfaça semelhante gente! Hei de mandar à olaria fazer de propósito uma mulher para com ela me ligar sem o preenchimento das formalidades religiosas… E, pobre, — não me serve! Há de ser rica, formosa, e asseada; senão, nem assim combino, me combino… Ou… Concubino! Tri, tri, tri…

(Faz duas ou três piroletas,tocando castanholas, e sai aos pulinhos…

Cário — (depois que entra) Como se transtornam as cousas deste mundo! Quando  pensaria eu que indo à casa de um médico fazer uma ligeira visita, havia de transtornar uma comédia!? Quanto é preciso ao homem que se dedica a composições intelectuais, ter regime certo ou invariável! Uma visita transtornou uma comédia; qualquer ação obsta à conclusão do mais importante trabalho. Quão bem foi começada esta comédia, e quão mal acabada vai! Já nem posso chamar a isto mais comédia… Enfim, vereis se posso concertar minhas idéias, e prosseguir então.

(Sai.)

ATO SEGUNDO

Quarto de estudantes

CENA I
Melquíades, Guindaste, Galante e Ruibarbo.

Melquíades — (deitado) Fiu! fiu! (Assoviando.) Não está: tão cedo já sairia a passeio!? Quem sabe! Talvez; pode muito bem ser. (Torna a chamar:) — Maria! Joana! Teresa! Antônia! Joaquina! Michatas! (Pausa.) Que diabo! Não aparece nenhuma das criadas. Ainda estarão dormindo. Que judias! São (abrindo o relógio) nove horas do dia, cinco da tarde, duas da noite, seis da madrugada, e ainda dormem!

— É muito, muitíssimo grande, (figurando com as mãos o tamanho) grandíssimo dormir! — Manuel! Antônio! Mercúrio! Ninguém fala; está tudo em silêncio… Em silêncio profundo!… Profundíssimo! Pois — Résquiés d’impace nas catacumbas do cemitério do Corpo-santo na cidade do Porto, Portugal dos portugueses — para vocês todos! Que os levem 30.000 diabos e demônios para os mais fundos infernos lá do outro mundo: pois cá nos deste ainda vocês me poderiam incomodar!

Guindaste — (calçando as meias) Há três dias que ando incomodado; ora do estômago, ora dos intestinos, ora das barrigas… Ah! São duas, é plural — das pernas e da cabeça; e ainda esta noite passei uma noite horrível. Não sei que é isto! Até as águas-da-colônia que sempre me serviram de remédio para estes males, desgraçadamente hoje parece que hão produzido os efeitos contrários!…

Galante — Que diabo terei eu nestas cabeças (Tirando o barrete com que havia dormido.) Parece que tem espinhos! Ora picam-me as pernas, ora as coxas e até na cintura me importunam, ou me ferem. Safa! (Tirando a calça.) O que havia de ser? (Pegando em um carrapicho e mostrando.) Um carrapicho!… Malditas lavadeiras, que parece de propósito para o mais lanoso entretimento dos néscios fregueses — porem na roupa estes espinhos! (Atirando-o.) Lá vai, lavadeira de roupa, vê se o engoles pelo nariz.

Ruibarbo — (andando) Como as lavadeiras não te hão de fazer dessas, se tu não lhes pagas a lavagem e o engomado da roupa — como elas desejam!

Galante — Essa é boa! Essa é bem boa! Essa ainda é melhor!… Ainda ontem paguei seis mil e tantos réis, e dizes que eu não pago!?

Ruibarbo — Mas não é assim que elas querem!…

Galante — Pois de outro modo, não sei. Não o entendo. Eu sou inglês, e inglês de muito boas raças! Portanto não vivo… Vivo de mistérios.

Ruibarbo — Pois és um tolo. Estuda a lavadeira, faz- lhe elogios, mostra-te a ela afeiçoado, e verás como ela te trata, te lava, te goma admiravelmente!

Melquíades — (para Galante) Que hei de eu estudar hoje?

Galante — Estuda disciplina.

Melquíades — Assim eu sou tolo!

Ruibarbo — Pois ainda pensas em estudos, depois de velho, com a prática dos homens, e mesmo das mulheres!?

Melquíades — Que queres? Nasci mais para estudar que para vadiar!

Galante — És um pateta! Com as disciplinas escangalhavas tudo. Triunfavas dos amigos e dos inimigos! Sem elas, não sei como te haverás; quer com uns, quer com outros! Enfim tu lá sabes.

Melquíades — Estou me resolvendo um dia a atirar com os livros ás ventas dos mestres. Com os temas às dos lentes! E finalmente, com as botas às dos criados!
(Pega nestas, atira nos companheiros e sai.)

Guindaste — É bem atrevido este meu sogro!

Galante — (para Guindaste) Pois tu és casado!? Ainda agora é que sei! Pois o Melquíades já tinha filhas moças!? Ainda mais esta — estudante casado e com filhos!

Guindaste — Se o não sou, ainda hei de ser. Se as não tem, ainda há de ter. E por isso se ainda o não sou, em breve hei de ser, e posso, portanto desde já il~o tratando de sogro.

Galante — És o primeiro calculista do Mundo!

Ruibarbo — Vocês querem passar o dia de hoje em conversa!? Não querem estudar, pensar, meditar sobre o que há de extraordinário da Revolução Francesa, livro mais que todos apreciável pela grande exemplar lição que transmite à humanidade!

Melquíades — (chegando à porta do dormitório com boa porção de livras em baixo do braço esquerdo, muito apressado.) Vamos para as aulas! São horas! Se se demoram, perdem a lição de hoje! Andem! Andem! Saiam! Venham!

(Guindaste e Galante pegam em vários livros, dão duas voltas e saem.)

Guindaste — (arrumando a cama) Vão indo que eu já vou!

Galante — Não te demores, que eu preciso de ti!

Ruibarbo — Sim; sim. Vão indo; eu lá irei logo! (Saem.) Estes meus colegas são o diabo em figura de homens, ou de rapazes! Tudo desarrumam! É preciso uma… não: paciência de Jó, ou de algum outro Santo para aturá-los! Enfim, (depois de todo o quarto arrumado) é preciso aturá-los! É melhor que andar com eles aos tombos, puxões ou cabeçadas.
(Pega em um livro.) São horas, vou às minhas lições de Retórica! E logo continuarei a escrever a minha encantadora comédia — a Ilustríssima Senhora Dona Anália de Campos Leão Carolina dos Santos Beltrão Josefina Maria Leitão História das Dores Patão, ou Bulhão, etc. etc. Dizem os médicos, e confirmam os lógicos: As cousas que têm de trabalhar, apertadas, não poderão fazer tão bom serviço como — desembaraçadas; e eu o creio pia e firmemente. Exemplifiquemos com os próprios homens e seus órgãos. Suponha-se que estão a trabalhar em uma sala vinte pessoas, e que na mesma não o podem fazer livre ou desembaraçadamente mais que dez ou doze. Pergunto: seu serviço, obra, ou trabalho, sairá tão perfeito, como se trabalhassem aqueles que — bem — só o podiam fazer? É de crer que não. Outro: Temos órgãos — da vista, do ouvido, do olfato, que por certo oprimidos, ninguém dirá que — bem funcionam. Assim, pois devem ser os do nosso estômago, intestinos, etc. Apertados, não poderão funcionar, transformar ou digerir os alimentos ou cousas de que nos alimentamos, com aquela facilidade com que o fazem ou devem fazer não opressos ou desembaraçados. Se aperto os meus dedos, não posso escrever, nem com a mão cousa alguma fazer! Se, porém esta está desembaraçada, com ela faço o que quero, ou o que posso. Logo — não convém a opressão; se se quer trabalho abundante e perfeito!

CENA II

Melquíades — (entrando, atrás Guindaste, e após este, Galante. O primeiro com muito desembaraço, e atirando com os livros com estouvamento, quer de gesto, quer de palavras) Ó Ruibarbo, não foste hoje à lição!? És o diabo em figura de estudante! Pois sabe que eu fui, vim e estou aqui! Pus por terra todos os troianos! Foi o lado que hoje perdeu nas sabatinas o mais vergonhosamente que é possível. Nem a batalha que inutilizou Napoleão I; nem as melhores vencidas por Alexandre o Grande; nem finalmente a em que César destruiu Pompeu — se podem comparar à que hoje venci dos nossos amigos Paraguaios!

Ruibarbo — Pois eu declaro-vos que não fui à aula! E se quiserem saber o porquê, dir-vos-ei: — Primeiro, porque não quis. Segundo, porque estou ocupado com algumas lições de Medicina. Terceiro, porque vocês são pouco cuidadosos de nosso quarto, e eu não posso tolerar porcaria, desarrumação, etc. Quarto, porque…

Melquíades — (com muita desenvoltura, assentando-se em outro lugar, ou mudando de assunto) Já sei, já sei. Tu és um estudante privilegiado. Tens até um breve do Papa. Quando te apertam fora da Igreja, entras para a Igreja, e quando te aborreces muito desta, safas-te com a maior sem-cerimônia! (Batendo-lhe no ombro.) És muito feliz, felicíssimo mesmo. (Os outros: cada qual acomoda seus livros e senta-se).

Melquíades — (pegando em um papel, em que Ruibarbo havia escrito) Oh! Este Ruibarbo, quanto mais estuda, menos aprende! Pois ele ainda suprime letras quando escreve!

Ruibarbo — Doutor! Você não vê que quando assim procedo faço um grande bem ao Estado!?

Melquíades — Geral bem!?

Galante — São cousas do Ruibarbo! Tudo quanto ele faz diferente de outros homens, sempre protesta ser por fazer bem, ou por conveniência do Estado. Não é mau modo de se fazer o que se quer! É uma capa maior que a de Satanás! É uma espécie de Céu que ele tem, com que costuma abrir a terra!

Ruibarbo — Eu me explico: Quando escrevo, penso, e procuro conhecer o que é necessário, e o que não é; e assim como, quando me é necessário gastar cinco, por exemplo, não gasto seis, nem duas vezes cinco; assim também quando preciso escrever palavras em que usam letras dobradas, mas em que uma delas é inútil, suprimo uma e digo: diminua-se com esta letra um inimigo do Império do Brasil! Além disso, pergunto: que mulher veste dois vestidos, um por cima do outro!? Que homem, duas calças!? Quem põe dois chapéus para cobrir uma só cabeça!? Quem usará ou que militar trará à cinta duas espadas! Eis por que também muitas vezes eu deixo de escrever certas inutilidades! Bem sei que a razão é — assim se escreve no Grego; no Latim, e em outras línguas de que tais palavras se derivam; mas vocês que querem, se eu penso ser assim mais fácil e cômodo a todos!? Finalmente, fixemos a nossa Língua; e não nos importemos com as origens!

Melquíades — Enquanto passares bem assim, continua; mas logo que te deres mal, é melhor seguir a opinião geral. (Ouve-se tocar a sineta, que convida a jantar; aos saltos; pondo as mãos na cabeça; e outras extravagâncias.) São horas! São horas!
(Puxa Ruibarbo.) Vamos! (Este se deixa estar assentado. Puxa outro; convida; salta; pula; pega em um rebenque.) Ah! Vocês até para comer têm preguiça!? (Dá uma pancada com o chicote sobre urna mesa, os outros saltam ligeiramente à porta; e saem todos.).

Ruibarbo (atrás.) O Melquíades hoje está limpo, lavado, engomado, escovado, e penteado!

Galante — Ele triunfou dos Paraguaios! É preciso obedecê-lo!

Guindaste — Eu o faço para tal fim, com muito prazer!

ATO TERCEIRO

CENA I


Uma Mulher — (muito atenta, ouvindo alguns gemidos) Quem gemera? Quem estará doente? Será minha avó, ou meu avô!? Sabe-o Deus; eu apenas desconfio, e nada posso afirmar! Entretanto, convém indagar. (Aproxima-se de uma porta, escuta, e volta.) Ah! Quem há de ser? (Arrastando.) É a cabritinha de minha avó, tia, e irmã, que acaba de parir três cabritos. Ei-los (Atira-os ao cenário.)

Melquíades — (entrando.) Oh! Que espetáculo é este! Cabritos em meu quarto de dormir! Oh! Mulher, donde veio isto!?

A Mulher — Ora, de onde havia de vir! Boa pergunta! O Sr. não sabe que seus avós têm o luxo de criar cabras!? E que criando-as por força hão de parir!?

Melquíades — Que têm parido, e hão de parir, sei eu muito bem! Mas o que me espanta é que a parição, parto, ou como quiserem chamar, tivesse lugar em meu quarto de dormir! É isto o que assaz me admira!

A Mulher — Não foi aqui; mas eu ouvi gemer, e cuidei que era sua avó ou seu avô; fui ver; encontrei-os; trouxe-os; e aqui estão!

Melquíades — Pois bem; agora vá preparar um para a ceia.

A Mulher — (cheia de nojo) Eu, fazer? Deus me livre! Isto tem um cheiro… Seria preciso, para se poder comer, pôr de molho três dias em alho, cebola, vinagre e cuentro.

Melquíades — Pois então, (muito zangado) tire-me daqui estas porcarias, que já me estão causando nojo! Anda! Anda! Tira isto daqui!

Uma Criada — (puxando a cabra pelos chifres) Vem, vem, vem cá, cabritinha, cabritinha!

Melquíades — Isto está demorando muito! (Dá um pontapé na cabra, que a atira; os cabritos esforçam-se por correr, ele pega em um, e esfrega na cara da criada.) Que tal, Sra. D. Nojenta! Cheira ou fede?

Criada — Nunca gostei destas graças! (Larga a cabra e sai.)

CENA II

(Entram Ruibarbo,Galante e Guindaste)

Ruibarbo — Isto é admirável! Gatos ensopados pelo soalho derramados!

Galante — Ensopados! (Reparando com muita atenção.) Só se o foram na barriga da mãe! Oh! E não me enganei; ei-la (Apontando para a cabra.)

Guindaste — Vocês são os mais extravagantes estudantes que eu tenho conhecido. Se fôssemos de Medicina, que bom estava para desenojar, mas somos de Direito, não nos pode aproveitar! O que é mais interessante é a lembrança de que estavam ensopados, achando-se em pé, e em estado de perfeição.

Ruibarbo — Não admira! Bem perfeitos são os animais, e as aves cheias, entretanto não estão vivas.

Guindaste — Mas não se diz que crê que foram ensopadas.

Ruibarbo — Sim, Sr… Mas quem não poderia dizer que estivessem assados?

Galante — Ainda vocês ignoram uma cousa: Sabem o que é? É que o nosso amigo Melquíades deu esta lição à criada, que tão pacificamente e bem sempre nos serve — esfregou-lhe com um destes cabritos: cara, boca, nariz, olhos, e não sei que mais — saiu daqui tão enjoada, que não corria; qual águia; voava; ou ia qual avestruz avoada!

Melquíades — Sabem o que mais?… Eu não quero estar vendo aqui estas imundícies! (Chamando.) Rigoleto! Rigoleto!

Uma Voz — Não está! Peguem vocês cada uma no seu, e os ponham longe daqui!

Guindaste — (para os outros) É mesmo, isto é muito enjoativo! Nem eu posso abrir um livro com eles diante de mim. Pega no teu, Galante! Ruibarbo, leva o outro!
(Pega cada um no seu e os põe fora de cena).

Ruibarbo — (para os outros) Não há remédio, senão aturá-los.

Melquíades — E eu que o diga! Mas, que faremos nós aqui metidos? Não era melhor que fôssemos passear, ver as moças, e também algumas velhas? Hem? Hem? Falem, que estou desesperado! Come-me hoje este corpo; sinto nele tal coisa… Certo prurido… E não sei que mais — que não posso estar parado um momento!

Ruibarbo — Cruzes! Contigo, Melquíades.

Melquíades — Comigo — não quero cruzes! Mas, se for algum cruzeiro, ainda poderei aceitar. Quanto a cruzes, bastam estas (apontando para os livros) que aqui vedes.

Galante — Pois eu quero tudo: cruzes, cruzeiros, cruzados, cruzinhas, cruzadas, e tudo o mais que me oferecem, e que eu posso gozar sem perder!

Guindaste — Sem perder, não, Galante. Sem padecer ou sofrer, sim! Por força que gozando…

Galante — Não sabes o que dizes: há homens que quanto mais gozam, mais ganham! Portanto, avancei uma proposição as mais das vezes verdadeira, inda que algumas vezes falível.

Melquíades — Sabem o que convém — e me entretém? Passear, conversar, ver as moças. (Pegando o chapéu.) Os que me quiserem acompanhar, sigam-me! Vamos, vamos todos! (Puxa um, puxa outro; nenhum quer sair; ele pega na bengala e sai.).

Guindaste (para Galante:) Este Melquíades mudou completamente! Passou de estudante ao mais extravagante do seu século. Cruzes! Abrenúncio! Está atrevido como o diabo!

Ruibarbo — Isto é porque ele fez anos hoje! Amanhã…

Guindaste — Então diga-me isso! Eu logo vi.

Melquíades — (entrando, passados alguns minutos) Já sabem, rapazes — que passeei, andei, virei, mexi, e revolvi. E que nada resolvi sobre o que buscava e o que vi! Pois é verdade, e tão certo como o Carneiro de Cão estar com os olhos abertos. (Aponta para Galante.) E apenas duas cousas aprendi, ou dois pensamentos colhi! Primeiro, que há dois modos de viver em sociedade; um de que só se freqüenta mulheres de certa classe, a casas de jogo, etc.; outro em que olha–se com grande indiferença para tudo isto, e até muitas vezes com repugnância e só se freqüenta casas de família, ou gente de classe mais alta, ou mais distinta! Há também esta diferença, e é que os que querem ser verdadeiros constitucionais, e não têm família, isto é — não são casados, ou sendo não vivem com suas mulheres, são forçados a freqüentar aquelas; e os que nenhum caso fazem da Constituição, e os que mais e melhor gozam! Já vêem, portanto que não perdi o tempo.

Guindaste — (para Galante e Ruibarbo:) Sempre o nosso Pai dá provas de que ainda é estudante! Sempre nos traz alguma cousa… Descobertas de cousas que ignorávamos colhidas de suas experiências filosóficas! E com isso faz também de Lente, pois leciona-nos.

Melquíades — A outra verdade, ou o outro fato, é que muitas vezes isto provém de comermos dos hotéis, ou de mandarmos fazer as comidas em nossas próprias casas! Aquelas nos conduzem às primeiras; ordinariamente estas as mais das vezes às segundas! Contudo, há nesta regra numerosas exceções, e é também conforme são os hotéis. Notai bem que muitas vezes se observa uma verdadeira confusão. O que, porém é indubitável, é que as comidas e as bebidas nos conduzem a este ou àquele trabalho, a esta ou àquela casa, a este ou àquele indivíduo, a este ou àquele negócio! Podem até conduzir-nos a um crime! Como o podem fazer, e muitas vezes o fazem, a um ato de virtude, a uma ação heróica, a uma ação vil ou indigna.
(Continuando.) Sinto às vezes certo estreitamento no canal que conduz ao estômago. Tenho querido atribuir à falta de certo ato… Mas ao mesmo tempo lembra-me que as crianças, os velhos, as velhas, os doentes, os que viajam pelas campanhas, os que estão em guerra — não praticam tais atos, entretanto sei de muitos que padecem igual incômodo. Consequentemente devemos crer que a razão principal não é essa. Talvez provenha das qualidades dos próprios líquidos e das carnes de que nos alimentamos, e até das casas em que moramos, e mesmo das pessoas que nos servem, ou a quem mais praticamos. Meninos! Quero contar-vos mais uma verdade médica por mim descoberta hoje; e é — que é sempre um mal que incomoda, sair por cima o que deve sair por baixo! Se soubésseis quanto me…
Que desagradável efeito me produz algumas vezes o cuspir! Se ao menos eqüivaler ao que escrevo, ou ser substituído pelos pensamentos! Mas quê! Tenho experimentado, e sempre acho desagrado. — Outra descoberta: Certa pessoa até certo tempo — não podia passar, quando comia ou bebia alguma cousa, sem procurar uma pessoa, que se parecesse com o objeto ou cousa, de que se servia; entretanto em um dia — o que havia de pensar, de que se havia de convencer: — que devia proceder de modo diametralmente oposto, isto é, que quando tomasse chá, por exemplo, não devia para isso como antes procurar pessoas que tivessem essa cor: e assim a outros preceitos! Acho, porém bonito que pratiquemos, ou procedamos — se isso nos não causar algum desgosto — conforme esta nos aconselham; ainda que só espiritualmente, o que se faz de milhares de modos.
Meninos! Vou descansar! (Deita-se; e enrola-se no cobertor. Para os companheiros
de quarto:) Se alguém me procurar, dizei-lhe que durmo!

Ruibarbo — Galante, que te parece o nosso Pai Melquíades!? É um homem divino! É o maior sábio do Universo! Valente como os mais valentes, ativo como o sol, amável como a mais amável Princesa, interessante como o firmamento, bom como o melhor dos Pais.

Galante — Tu não te enganas, mas esqueceste acrescentar — extravagante e desenvolto, às vezes, como uma provocadora cobrinha!

Guindaste — E para prova de tudo isto, vejam o que ele fez hoje: saltou; pulou; dançou; fez o diabo, como estudante! Depois aconselhou, ensinou, pregou, fez-se santo, como Filósofo! Ultimamente, relampagou, iluminou como rei! E agora, como acabam de ver, atirou-se naquela cama, como um cansado estudante; ou qualquer outro ente de vida pouco séria, e bruscamente no cobertor se enrolou.

Melquíades — (levantando-se rapidamente e atirando o cobertor à cara dos companheiros e discípulos) Nem todos os momentos podem ser agradáveis: deitei–me; procurou alguém por ventura por mim?… Estava em um tão agradável sonho… Quando de repente senti um movimento em meu cérebro que assaz me contristou. Levantem-se, rapazes! Vocês são a Quinta-essência dos preguiçosos!

Todos — (levantando-se) Que é isto, Melquíades!? Estás desassisado?

Melquíades — Ó diabo, pois vocês que faziam assentados!? (Gritando.) Vamos! São horas de escola! Caminhem, saiam! Saiam! (Os outros levantam-se, e ele os faz sair rapidamente caindo livros de uns; outros de chinelos; enfim, é uma desordem completa entre os quatro; como se um incêndio, ou alguma cobra venenosa se visse no quarto.)

(E assim parece dever terminar este Ato — com as seguintes palavras de Melquíades) Se eu não espanto estes madraços — nem para o chá ganhariam hoje!

Porto Alegre, Junho 16 de 1866.

FIM

Fonte:
Universidade da Amazônia
NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Belém – Pará
http://www.nead.unama.br

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Arquivado em peça teatral, Teatro

Gil Vicente (Auto da Feira)

A obra seguinte é chamada Auto da Feira. Foi representada ao mui excelente Príncipe El Rei Dom João, o terceiro em Portugal deste nome, na sua nobre e sempre leal cidade de Lisboa, às matinas do Natal, na era do Senhor de 1527.

Figuras:

Mercúrio, Tempo, Serafim, Diabo, Roma, Amâncio Vaz, Diniz Lourenço, Branca Anes, Marta Dias, Justina, Leonarda, Teodora, Moneca, Giralda, Juliana, Tesaura, Merenciana, Doroteia, Gilberto, Nabor, Dionísio, Vicente, Mateus.

Entra primeiramente Mercúrio, e posto em seu assento, diz:

MERCÚRIO

Pera que me conheçais, e entendais meus partidos, todos quantos aqui estais afinai bem os sentidos, mais que nunca, muito mais. Eu sou estrela do céu, e depois vos direi qual, e quem me cá descendeu e a quê, e todo o al que me a mi aconteceu.

E porque a astronomia anda agora mui maneira, mal sabida e lisonjeira, eu, à honra deste dia, vos direi a verdadeira. Muitos presumem saber as operações dos céus, e que morte hão-de morrer, e o que há-de acontecer aos anjos e a Deus,e ao mundo e ao diabo. E que o sabem têm por fé; e eles todos em cabo terão um cão polo rabo, e não sabem cujo é. E cada um sabe o que monta nas estrelas que olhou; e ao moço que mandou, não lhe sabe tomar conta d’ um vintém que lh’ entregou.

Porém, quero-vos pregar, sem mentiras nem cautelas, o que per curso d’ estrelas se poderá adivinhar, pois no céu nasci com elas. E se Francisco de Melo, que sabe ciência avondo, diz que o céu é redondo, e o sol sobre amarelo; diz verdade, não lh’ o escondo.

Que se o céu fora quadrado, não fora redondo, senhor. E se o sol fora azulado, d’ azul fora a sua cor e não fora assi dourado. E porque está governado per seus cursos naturais, neste mundo onde morais nenhum homem aleijado, se for manco e corcovado, não corre por isso mais.

E assi os corpos celestes vos trazem tão compassados, que todos quantos nascestes, se nascestes e crescestes, primeiro fostes gerados. E que fazem os poderes dos sinos resplandecentes? Que fazem que todalas gentes ou são homens ou mulheres, ou crianças inocentes.

E porque Saturno a nenhum influi vida contina, a morte de cada um é aquela de que se fina, e não d’ outro mal nenhum. Outrossim o terremoto, que às vezes causa perigo, faz fazer ao morto voto de não bulir mais consigo, cantá de seu próprio moto.

E a claridade encendida dos raios piramidais causa sempre nesta vida que quando a vista é perdida, os olhos são por demais.

E que mais quereis saber desses temporais e disso, senão que, se quer chover, está o céu pera isso, e a terra pera a receber? a lüa tem este jeito: vê que clérigos e frades já não têm ao Céu respeito, mingua-lhes as santidades, e cresce-lhes o proveito.

Et quantum ad stella Mars, speculum belli, et Venus, Regina musicae, secundum Joanes Monteregio:

Mars, planeta dos soldados, faz nas guerras conteúdas, em que os reis são ocupados, que morrem de homens barbados mais que mulheres barbudas. E quando Vénus declina, e retrogada em seu cargo, não se paga o desembargo no dia que s’ ele assina mas antes por tempo largo.

Et quantum ad Taurus et Aries, Cancer Capricornius positus in firmamento coeli:

E quanto ao Touro e Carneiro, são tão maus d’ haver agora que quando os põe no madeiro, chama o povo ao carniceiro Senhor, c’ os barretes fora. Depois do povo agravado, que já mais fazer não pode, invoca o signo do Bode, Capricórnio chamado, porque Libra não lhe acode.

E se este não hás tomado, nem Touro, Carneiro assi, vai-te ao sino do Pescado, chamado Piscis em latim, e serás remedeado: e se Piscis não tem ensejo, porque pode não no haver, vai-te ao signo do Cranguejo, Signum Cancer, Ribatejo, que está ali a quem no quer.

Sequuntur mirabilia Jupiter Rex regum, Dominus dominantium.

Júpiter, rei das estrelas, deus das pedras preciosas, mui mais precioso qu’ elas pintor de todalas rosas, rosa mais fermosa delas; é tão alto seu reinado , influência e senhoria, que faz percurso ordenado que tanto vale um cruzado de noite como de dia.

E faz que üa nau veleira mui forte, muito segura, que inda que o mar não queira, e seja de cedro a madeira, não preste sem pregadura.

Et quantum ad duodecim domus Zodiacus, sequitur declaratio operationem suam.

Ao Zodíaco acharão doze moradas palhaças, onde os sinos estão no Inverno e no Verão, dando a Deus infindas graças. Escutai bem, não durmais, sabereis por conjeituras que os corpos celestiais não são menos nem são mais que suas mesmas granduras.

E os que se desvelaram, se das estrelas souberam, foi que a estrela que olharam, está onde a puseram, e faz o que lhe mandaram. E cuidam que Ursa Maior, Ursa Menor e o Dragão, e Lepus, que têm paixão, porque um corregedor manda enforcar um ladrão.

Não, porque as constelações não alcançam mais poderes, que fazer que os ladrões sejam filhos de mulheres, e os mesmos pais varões. E aqui quero acabar. E pois vos disse atéqui o que se pode alcançar, quero-vos dizer de mi, e o que venho buscar.

Eu são Mercúrio, senhor de muitas sabedorias, e das moedas reitor, e deus das mercadorias: nestas tenho meu vigor. Todos tratos e contratos, valias, preços, avenças, carestias e baratos, ministro suas pertenças, até às compras dos sapatos.

E porquanto nunca vi na corte de Portugal feira em dia de Natal, ordeno üa feira aqui pera todos em geral. Faço mercador-mor ao Tempo, que aqui vem; e assi o hei por bem. E não falte comprador. Porque o tempo tudo tem.

Entra o Tempo, e arma üa tenda com muitas cousas e diz:

TEMPO

Em nome daquele que rege nas praças d’Anvers e Medina as feiras que têm, começa-se a feira chamada das Graças, à honra da Virgem parida em Belém. Quem quiser feirar, venha trocar, qu’ eu não hei-de vender; todas virtudes qu’ houverem mister nesta minha tenda as podem achar, a troco de cousas que hão-de trazer.

Todos remédios, especialmente contra fortunas ou adversidades aqui se vendem na tenda presente; conselhos maduros de sãs qualidades aqui se acharão. A mercadorias d’ amor a rezão justiça e verdade, a paz desejada, porque a Cristandade é toda gastada só em serviço da opinião.

Aqui achareis o temor de Deus, que é já perdido em todos Estados; aqui achareis as chaves dos Céus, muito bem guarnecidas em cordões dourados. E mais achareis soma de contas, todas de contar quão poucos e poucos haveis de lograr as feiras mundanas; e mais contareis as contas sem conto qu’ estão por contar. E porque as virtudes, Senhor Deus, que digo, se foram perdendo de dias em dias, com a vontade que deste ó Messias memoria o teu Anjo que ande comigo, Senhor, porque temo ser esta feira de maus compradores, porque agora os mais sabedores fazem as compras na feira do Demo, e os mesmos Diabos são seus corretores.

Entra um Serafim enviado por Deus a petição do Tempo, e diz:

SERAFIM 
À feira, a feira igrejas, mosteiros, pastores das almas, Papas adormidos; comprai aqui panos, mudai os vestidos, buscai as samarras dos outros primeiros, os antecessores. Feirai o carão que trazeis dourado; ó presidentes do crucificado, lembrai-vos da vida dos santos pastores do tempo passado.

Ó Príncipes altos, império facundo, guardai-vos da ira do Senhor dos Céus; comprai grande soma do temor de Deus na feira da Virgem, Senhora do Mundo, exemplo da paz, pastora dos anjos, luz das estrelas. À feira da Virgem, donas e donzelas, porque este mercador sabei que aqui traz as cousas mais belas.

Entra um Diabo com üa tendinha adiante de si, como bofalinheiro, e diz:

DIABO Eu bem me posso gavar, e cada vez que quiser, que na feira onde eu entrar sempre tenho que vender, e acho quem me comprar. E mais, vendo muito bem, porque sei bem o que entendo; e de tudo quanto vendo não pago siza a ninguém por tratos que ande fazendo.

Quero-me fazer à vela nesta santa feira nova. Verei os que vêm a ela, e mais verei quem m’ estorva de ser eu o maior dela. TEMPO És tu também mercador, que a tal feira t’ ofereces? DIABO Eu não sei se me conheces. TEMPO Falando com salvanor, tu Diabo me pareces.

DIABO Falando com salvos rabos inda que me tens por vil, acharás homens cem mil honrados, que são Diabos, (que eu não tenho nem ceitil) e bem honrados te digo, e homens de muita renda, que têm dívida comigo. Pois não me tolhas a venda, que não hei nada contigo.

Tempo ao Serafim

TEMPO Senhor, em toda maneira acudi a este ladrão, que há-de danar a feira.

DIABO Ladrão? Pois haj’ eu perdão se vos meter em canseira. Olhai cá, Anjo de bem, eu, como cousa perdida, nunca me tolhe ninguém que não ganhe minha vida, como quem vida não tem.

Vendo dessa marmelada, e às vezes grãos torrados, isto não releva nada; e em todolos mercados entra a minha quintalada. SERAFIM Muito bem sabemos nós que vendes tu cousas vis. DIABO I há de homens ruins mais mil vezes que não bôs, como vós mui bem sentis.

E estes hão-de comprar disto que trago a vender, que são artes de enganar, e cousas pera esquecer o que deviam lembrar. Que o sages mercador há-de levar ao mercado o que lhe compram melhor; porque a ruim comprador levar-lhe ruim borcado.

E mais as boas pessoas são todas pobres a eito; e eu por este respeito nunca trato em cousas boas, porque não trazem proveito. Toda a glória de viver das gentes é ter dinheiro, e quem muito quiser ter cumpre-lhe de ser primeiro o mais ruim que puder.

E pois são desta maneira os contratos dos mortais, não me lanceis vós da feira onde eu hei-de vender mais que todos à derradeira. SERAFIM Venderás muito perigo, que tens nas trevas escuras. DIABO Eu vendo perfumaduras, que, pondo-as no embigo, se salvam as criaturas.

Às vezes vendo virotes, e trago d’ Andaluzia naipes com que os sacerdotes arreneguem cada dia, e joguem até os pelotes. SERAFIM Não venderás tu aqui isso, que esta feira é dos céus: vai lá vender ao abisso, logo, da parte de Deus! DIABO Senhor, apelo eu disso.

S’ eu fosse tão mau rapaz que fizesse força a alguém, era isso muito bem; mas cada um veja o que faz, porque eu não forço ninguém. Se me vem comprar qualquer clérigo, ou leigo, ou frade falsas manhas de viver, muito por sua vontade; senhor, que lh’ hei-de fazer?

E se o que quer bispar há mister hipocrisia e com ela quer caçar, tendo eu tanta em perfia, porque lh’ a hei-de negar? E se üa doce freira vem à feira por comprar um inguento, com que voe do convento, senhor, inda que eu não queira, lh’ hei-de dar aviamento.

MERCÚRIO Alto, Tempo, aparelhar, porque Roma vem à feira. DIABO Quero-me eu concertar, porque lhe sei a maneira de seu vender e comprar.

Entra Roma, cantando.

ROMA «Sobre mi armavam guerra; «ver quero eu quem a mi leva.

«Três amigos que eu havia, «sobre mi armam porfia; «ver quero eu quem a mi leva».

Fala:

Vejamos se nesta feira, que Mercúrio aqui faz, acharei a vender paz, que me livre da canseira em que a fortuna me traz. Se os meus me desbaratam, o meu socorro onde está Se os Cristãos mesmos me matam, a vida quem m’ a dará, que todos me desacatam?

Pois s’ eu aqui não achar a paz firme e de verdade na santa feira a comprar, cant’ a mi dá-me a vontade que mourisco hei-de falar. DIABO Senhora, se vos prouver, eu vos darei bom recado. ROMA Não pareces tu azado pera trazer a vender o que eu trago no cuidado.

Não julgueis vós pola cor, porque em al vai o engano; cá dizem que sob mau pano está o bom bebedor; nem vós digais mal do ano.

Eu venho à feira direita comprar paz, verdade e fé. DIABO A verdade pera quê? Cousa que não aproveita, e aborrece, pera que é? Não trazeis bons fundamentos pera o que haveis mister; e a segundo são os tempos, assim hão-de ser os tentos, pera saberdes viver.

E pois agora à verdade chamam Maria Peçonha, e parvoíce à vergonha, e aviso à ruindade, peitai a quem vo-la ponha, a ruindade digo eu: e aconselho-vos mui bem, porque quem bondade tem nunca o mundo será seu, e mil canseiras lhe vem.

Vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta três mil, todas de nova maneira, cada üa tão subtil, que não vivais em canseira: mentiras pera senhores, mentiras pera senhoras, mentiras pera os amores, mentiras, que a todas as horas vos nasçam delas favores.

E como formos avindos nos preços disto que digo, vender-vos-ei como amigo muitos enganos infindos, que aqui trago comigo. ROMA Tudo isso tu vendias, e tudo isso feirei tanto, que inda venderei, e outras sujas mercancias, que por meu mal te comprei.

Porque a troco do amor de Deus, te comprei mentira, e a troco do temor que tinha da sua ira, me deste o seu desamor; e a troco da fama minha e santas prosperidades, me deste mil torpidades; e quantas virtudes tinha te troquei polas maldades.

E pois já sei o teu jeito, quero ir ver que vai cá. DIABO As cousas que vendem lá são de bem pouco proveito a quem quer que as comprará.

Vai-se Roma ao Tempo e Mercúrio e diz Roma:

ROMA Tão honrados mercadores não podem leixar de ter cousas de grandes primores; e quant’ eu houver mister deveis vós de ter, senhores. SERAFIM Sinal é de boa feira virem a ela as donas tais, e pois vós sois a primeira, queremos ver que feirais segundo vossa maneira.

Cá, se vós a paz quereis senhora, sereis servida, e logo a levareis a troco de santa vida; mas não sei se a trazeis. Porque, senhora eu me fundo que quem tem guerra com Deus, não pode ter paz c ‘ o mundo ; porque tudo vem dos céus, daquele poder profundo.

ROMA A troco das estações não fareis algum partido, e a troco dos perdões, que é tesouro concedido pera quaisquer remissões? Oh, vendei-me a paz dos céus, pois tenho o poder na terra. SERAFIM Senhora, a quem Deus dá guerra, grande guerra faz a Deus, que é certo que Deus não erra.

Vede vós que lhe fazeis, vede como o estimais, vede bem se o temeis ; atentai com quem lidais, que temo que caireis. ROMA Assi que a paz não se dá a troco de jubileus? MERCÚRIO Ó Roma, sempre vi lá que matas pecados cá, e leixas viver os teus.

Tu não te corras de mi; mas com teu poder facundo assolves a todo o mundo, e não te lembras de ti, nem vês que te vás ao fundo. ROMA Ó Mercúrio, valei-me ora, que vejo maus aparelhos. MERCÚRIO Dá-lhe, Tempo, a essa senhora o cofre de meus conselhos: e podes-te ir muit’ embora.

Um espelho aí acharás, que foi da Virgem Sagrada, co’ ele te toucarás porque vives mal toucada, e não sentes como estás: e acharás a maneira como emendes a vida: e não digas mal da feira; porque tu serás perdida, se não mudas a carreira.

Não culpes aos reis do mundo, que tudo te vem de cima, pelo que fazes cá em fundo: que, ofendendo a causa prima, se resulta o mal segundo. E também o digo a vós e a qualquer meu amigo, quem não quer guerra consigo: tenha sempre paz com Deus, e não temerá perigo.

DIABO Prepósito Frei Sueiro, diz lá o exemplo velho: dá-me tu a mi dinheiro, e dá ao demo o conselho.

Depois de ida Roma, entram dous lavradores, um per nome Amâncio Vaz e outro Diniz Lourenço, e diz Amâncio Vaz:

AMÂNCIO VAZ Compadre, vás tu à feira? DINIZ LOURENÇO À feira, compadre. AMÂNCIO VAZ Assi, ora vamos eu e ti ó longo desta ribeira. DINIZ LOURENÇO Bofá, vamos. AMÂNCIO VAZ Folgo bem de te vir aqui achar. DINIZ LOURENÇO Vás tu lá buscar alguém, ou esperas de comprar?

AMÂNCIO VAZ Isso te quero contar, e iremos patorneando, e er também aguardando polas moças do lugar. Compadre, enha mulher é muito destemperada, e agora, se Deus quiser, faço conta de a vender, e dá-la-ei por quase nada.

Qu’eu quando casei com ela diziam-me, «Hétega é». E eu cuidei pola abofé que mais cedo morresse ela, e ela anda inda em pé. E porque era hétega assim foi o que m’ a mim danou: avonda qu’ela engordou e fez-me hétego a mim.

DINIZ LOURENÇO Tens boa mulher de teu: não sei que tu hás, amigo. AMÂNCIO VAZ S’ela casara contigo renegaras tu com’ eu e dixeras o que eu digo. DINIZ LOURENÇO Pois, compadre, cant’à minha, é tão mole e desatada, que nunca dá peneirada que não derrame a farinha.

E não põe cousa a guardar, que a tope quanda a cata; e por mais que homem se mata, de birra não quer falar. Trás d’ üa pulga andará três dias, e oito, e dez, sem lhe lembrar o que fez, nem tão pouco o que fará.

Pera que t’hei-de falar? Quando ontem cheguei do mato pôs üa enguia a assar, e crua a leixou levar, por não dizer sape a um gato. Quant’a mansa, mansa é ela; dei-m’ê logo conta disso. AMÂNCIO VAZ Juro-t’eu que mais vale isso cinquenta vezes qu’ela.

A minha te digo eu que se a visses assanhada, parece demoninhada, ante São Bertolameu. DINIZ LOURENÇO Já sequer terá esp’rito: mas renega da mulher que ó tempo do mister não é cabra nem cabrito.

AMÂNCIO VAZ A minha tinh’eu em guarda pera bem da minha prol, cuidando que era ourinol, e tornou-se-me bombarda. Folga tu que ess’outra tenhas, porque a minha é tal perigo, que por nada que lhe digo logo me salta nas grenhas.

Então tanto punho seco me chimpa nestes focinhos; eu chamo polos vizinhos, e ela nego dar-me em xeco. DINIZ LOURENÇO Isso é de coraçuda; não cures de a vender, que s’alguém te mal fizer, já sequer tens quem te acuda.

Mas a minha é tão cortês, que se viesse ora à mão que m’espancasse um rascão, não diria, «Mal fazês». Mas antes s’ assentaria a olhar como eu bradava. Todavia a mulher brava é, compadre, a qu’eu queria.

AMÂNCIO VAZ Pardeus! Tanto me farás que feire a minha contigo. DINIZ LOURENÇO Se queres feirar comigo, vejamos que me darás. AMÂNCIO VAZ Mas antes m’ hás-de tornar pois te dou mulher tão forte, que te castigue de sorte que não ouses de falar, nem no mato nem na corte.

Outro bem terás com ela: quando vieres da arada, comerás sardinha assada, porqu ‘ ela jenta a panela. Então geme, pardeus, si, diz que lhe dói a moleira. DINIZ LOURENÇO Eu faria per maneira que esperasse ela por mi. AMÂNCIO VAZ Que lh’havias de fazer?

DINIZ LOURENÇO Amâncio Vaz, eu o sei bem. AMÂNCIO VAZ Diniz Lourenço, ei-las cá vêm! Vamo-nos nós esconder, vejamos que vêm catar, qu’elas ambas vêm à feira. Mete-te nessa silveira, qu’eu daqui hei-d’ espreitar.

Vêm Branca Anes a brava, e Marta Dias a mansa, e vem dizendo a brava:

BRANCA ANES Pois casei má hora, e nela, e com tal marido, prima, comprarei cá üa gamela, para o ter debaixo dela, e um grão penedo em cima. Porque vai-se-me às figueiras, e come verde e maduro ; e quantas uvas penduro jeita nas gorgomileiras: parece negro monturo.

Vai-se-m’às ameixieiras antes que sejam maduras, ele quebra as cerejeiras, ele vindima as parreiras, e não sei que faz das uvas. Ele não vai à lavrada, ele todo o dia come, ele toda a noite dorme, ele não faz nunca nada, e sempre me diz que há fome.

Jesu! Jesu! Posso-te dizer e jurar e tresjurar, e provar e reprovar, e andar e revolver, qu’ é melhor pera beber, que não pera maridar. O demo que o fez marido, que assim seco como é beberá a torre da Sé! Então arma um arruído assi debaixo do pé.

MARTA DIAS Pois bom homem parece ele. DINIZ LOURENÇO Aquela é a minha frouxa. MARTA DIAS Deu-t’ele a fraldinha roxa? BRANCA ANES Melhor lh’esfole eu a pele. Que homem há i da puxa. Ó diabo que o eu dou, que o leve em fatiota, e o ladrão que m’o gabou; e o frade que me casou inda o veja na picota.

E rogo à Virgem da Estrela, e a santa Gerjalem, e ós choros de Madanela e à asninha de Belém, que o veja ir à vela pera donde nunca vem. DINIZ LOURENÇO Compadre, no mais sofrer: sai de lá desse silvado. AMÂNCIO VAZ Pera eu ser arrepelado. Não havi’eu mais mister.

DINIZ LOURENÇO E não n’hás tu de vender? AMÂNCIO VAZ Tu dizes que a qués feirar. DINIZ LOURENÇO Não qu’ela se me tomar leixar-m’á quando quiser. Mas demo-las à má estreia; e voto que nos tornemos, e er depois tornaremos com as cachopas d’aldeia: entonces concertaremos.

AMÂNCIO VAZ Isso me parece a rni muito melhor que eu ir lá. Oh, que couces que me dá, quando me colhe sob si! DINIZ LOURENÇO Cant’ àquela si dará. DIABO Mulheres, vós que quereis? Nesta feira que buscais? MARTA DIAS Queremo-la ver, no mais. Pera ver em que tratais, e as cousas que vendeis.

Tendes vós aqui anéis? DIABO Quejandos? De que feição? MARTA DIAS D’uns que fazem de latão. DIABO Pera as mãos, ou pera os pés? MARTA DIAS Não — Jesu, nome de Jesu, Deus e homem verdadeiro!

Foge o Diabo e Marta Dias diz:

MARTA DIAS Nunca eu vi bofalinheiro tão prestes tomar o mu. Branc’Anes mana, crê tu que, como Jesu é Jesu, era este o Diabo inteiro.

BRANCA ANES Não é ele pau de boa lenha, nem lenha de bom madeiro. MARTA DIAS Bofá, nunc’ele cá venha. BRANCA ANES Viagem de Jão Moleiro, que foi pola cal d’azenha. MARTA DIAS Pasmada estou eu de Deus fazer o Demo marchante! Mana, daqui por diante não caminhemos nós sós.

BRANCA ANES S’eu soubera quem ele era, fizera-lhe bom partido: que me levara o marido, e quanto tenho lhe dera, e o toucado e o vestido. Inda que mais não levara desta feira, em extremo. Me alegrara e descansara, se o vira levar o Demo, e que nunca mais tornara.

Porque, inda que era Diabo, fizera serviço a Deus, e a mi mercê em cabo; e viera-me dos céus, como vem a frol ao nabo.

Vão-se ao Tempo e diz Marta Dias:

MARTA DIAS Dizei, senhores de bem, nesta tenda, que vendeis? SERAFIM Esta tenda tudo tem; vede vós o que quereis, que tudo se fará bem. Consciência quereis comprar, de que vistais vossa alma?

MARTA DIAS Tendes sombreiros de palma muito bons pera segar, e tapados pera a calma? SERAFIM Consciência digo eu, que vos leve ao Paraíso. BRANCA ANES Não sabemos nós qu’é isso: dai-o ó decho por seu, que já não é tempo disso.

MARTA DIAS Tendes vós aqui burel, do pardo de lã meirinha? BRANCA ANES Eu queria üa pucarinha pequenina pera mel. SERAFIM Esta feira é chamada das virtudes em seus tratos. MARTA DIAS Das virtudes! E há aqui patos? BRANCA ANES Quereis feirar a cevada quatro pares de sapatos? SERAFIM Oh, piedoso Deus eterno! Não comprareis pera os céus um pouco d’amor de Deus que vos livre do Inferno? BRANCA ANES Isso é falar per pincéus.

SERAFIM Esta feira não se fez para as cousas que quereis. BRANCA ANES Pois cant’ a essas que vendeis, daqui afirmo outra vez que nunca as vendereis. Porque neste sigro em fundo todos somos negligentes: foi ar que deu polas gentes, foi ar que deu polo mundo, de que as almas são doentes.

E se hão-de correger quando for todo danado: muito cedo se há-de ver; que já ele não pode ser mais torto nem aleijado. Vamo-nos, Marta, à carreira, que as moças do lugar virão cá fazer a feira, que estes não sabem ganhar, nem têm cousa que homem queira.

MARTA DIAS Eu não vejo aqui cantar, nem gaita, nem tamboril, e outros folgares mil, que nas feiras soem d’estar: e mais feira de Natal, e mais de Nossa Senhora, e estar todo Portugal. BRANCA ALVES S’eu soubera que era tal, não estivera eu cá agora.

Vêm à feira nove moças dos montes, e três mancebos, todas com cestos nas cabeças, cobertos, cantando. E, como chegam, se assentam por ordem a vender; e diz-lhe o Serafim:

SERAFIM Pois vindes vender à feira, sabei que é feira dos céus; por tal, vendei de maneira que não ofendais a Deus, roubando a gente estrangeira. TESAURA Responde-lhe, Leonarda, tu Justina, ou Juliana. JULIANA Mas responda-lhe Giralda, Tesaura, ou Merenciana.

MERENCIANA Responde-lhe, Teodora, porque creio que a ti creia. TESAURA Responda-lhe Doroteia. pois que mora, junto c’o Juiz d’aldeia. DOROTEIA Moneca responderá que falou já com senhor. MONECA Responde-lhe tu, Nabor, contigo s’entenderá.

Ou Denísio, ou Gilberto, qualquer de vós outros três e não vos embaraceis ou torveis, porque é certo que bem vos entendereis. GILBERTO Estas cachopas não vêm à feira nego a folgar, e trazem de merendar nestes cestos que i têm.

Mas pois quanto ao que entendo, sois, samica, anjo de Deus; quando partistes dos céus, que ficava Ele fazendo? SERAFIM Ficava vendo o seu gado. GILBERTO Santa Maria! Gado há lá? Oh, Jesu! como o terá o Senhor gordo e guardado!

E há lá boas ladeiras, como na serra d’Estrela? SERAFIM Si. GILBERTO E a Virgem que faz ela? SERAFIM A Virgem olha as cordeiras, e as cordeiras a ela. GILBERTO E os Santos de saúde todos, a Deus louvores? SERAFIM Si. GILBERTO E que léguas haverá daqui à porta do Paraíso, onde São Pedro está?

NABOR Lá vêm ó redor das vinhas compradores a comprar samica ovos e galinhas. DOROTEIA Não lhe hei-de vender as minhas, que as trago pera dar.

Vêm dous compradores, um per nome Vicente e outro Mateus, e diz Mateus a Justina:

MATEUS Vós rosa do amarelo, mana, tendes i queijadas. JUSTINA Tenho vosso avô marmelo! Conhecei-lo? MATEUS Aqui estão emborilhadas. JUSTINA Estade má ora quedo, pela vossa negra vida. MATEUS Menina, não hajais medo: vós sois mais engrandecida que Branca de Figueiredo.

Se trazeis ovos, meus olhos, não m’os vendais a ninguém. JUSTINA Andar em burra e ter bem: ouvide ora o rasca-piolhos (azeite no micho!) em que vem! VICENTE Minha vida, Leonarda, traz caça pera vender? LEONARDA Vossa vida negra e parda não lhe abastará comer da vaca com da mostarda?

VICENTE E a mesa de meu senhor irá sem ave de pena? LEONARDA Quem? E vós sois comprador? Pois nem grande nem pequena não matou o caçador. VICENTE Matais-me vós logo bem com dous olhinhos qu’eu digo. LEONARDA Mais vos mata a vós o trigo, porque não vale a vintém, e traz mau micho consigo.

VICENTE Vós fazeis de mi rascão. LEONARDA Pação vos fizestes vós; porém bem nos vimos nós guardar bois no Alqueidão. MATEUS Que vindes vender à feira, Teodora, alma minha? minha alma, minha canseira? Trazei algüa galinha? TEODORA São vossa alma galinheira.

Que má ora cá viestes pera quem vos pôs no paço! MATEUS Senhora, eu vos faço, que vos agastais tão prestes? Dizei-me vós, Teodora, trazeis vós tal cousa e tal deste jeito, muito embora? Mas lá dessoutro metal não falam à lavradora.

VICENTE Senhora Moneca, trazeis algum cabrito recente? MONECA Não bofé, Senhor Vicente: quisera ora trazer três, de que vós foreis contente. VICENTE Juro à Santa Cruz de palha qu’ hei-de ver o que aqui está. MONECA Não revolvais aramá, que não trago nemigalha.

VICENTE Não me façais descortês, nem queirais ser tão garrida. MONECA Pola vossa negra vida! Olhade como é cortês ! Oh, que lhe saia má saída. MATEUS Giralda, eu achar-vos-ei dous pares de passarinhos? GIRALDA Irei por eles aos ninhos, entonces os venderei. Comereis vós estorninhos? MATEUS Respondeis como mulher muito de sua vontade. GIRALDA Pois digo-vo-la verdade: pássaros hei-de vender? Olhai aquela piedade!

VICENTE Senhora minha Juliana peço-vos que me faleis discreta palenciana, e dizei-me que vendeis. JULIANA Vendo favas de Viana. VICENTE Tendes alguns laparinhos? JULIANA Sim, de porca. VICENTE Nem coelhos? JULIANA Quereis comprar dous francelhos, pera caçardes ratinhos? JULIANA Quero, polos Evangelhos!

MATEUS Vós, Tesaura, minha estrela, não viríeis cá em vão. TESAURA Pois si, vossa estrela vos er’ela: como aquilo é de rascão! MATEUS Mas como isso é de donzela! Porém vá já como vai, e casemo-nos, senhora. TESAURA Pois casai co’ele, casai, Casar, ma ora, meu ai, casar, má hora.

MATEUS Porém trazeis algum pato? TESAURA E quanto dareis por ele? Hui, e ele revolve o fato: olho mau se meta nele. MATEUS Não trazeis vós o qu’eu cato. VICENTE Merenciana deve ter neste cesto algum cabrito. Não m’haveis de revolver MERENCIANA senão, pardeus, que dê grito tamanho, que haveis de ver.

VICENTE Eu hei-de ver que trazeis. MERENCIANA se vós no cesto bulis. . . VICENTE Senhora, que me fareis? MERENCIANA Um aqui-d’el-rei, ouvis? Não sejais vós descortês. VICENTE Não quero senão amores, pois vosso, senhora, sou. MERENCIANA Amores de vosso avô, o da ilha dos Açores. Andar aramá vós só.

MATEUS Vamo-nos daqui, Vicente. VICENTE Bofá vamos. MATEUS Nunca vi tal feira. VICENTE Vamos comprar à Ribeira, que anda lá cousa mais quente.

Vão-se os compradores, e diz o Serafim às moças:

SERAFIM Vós outras quereis comprar das virtudes? Senhor, não. SERAFIM Saibamos por que rezão. DOROTEIA Porque no nosso lugar não dão por virtudes pão. Nem casar não vejo eu por virtudes a ninguém. Quem tiver muito de seu, e tão bons olhos com’eu sem isso casará bem.

SERAFIM Pois porque viestes ora cansar à feira de pé?

TEODORA Porque nos dizem que é feira de Nossa Senhora: e vedes aqui porquê. E as graças que dizeis que tendes aqui na praça, se vós outros as vendeis, a Virgem as dá de graça aos bons, como sabeis.

E porque a graça e alegria, a madre da consolação deu ao mundo neste dia, nós vimos com devação a cantar-lhe úa folia. E pois que já descansámos assi em boa maneira, moças, assi como estamos, demos fim a esta feira, primeiro que nos partamos.

Alevantam-se todas, e ordenadas em folia cantaram a cantiga seguinte, com que se despediram.

Cantiga.

I CORO «Blanca estais colorada, «Virgem sagrada. «Em Belém vila do amor «da rosa nasceu a flor: «Virgem sagrada.»

II CORO «Em Belém vila do amor «nasceu a rosa do rosal: «Virgem sagrada.»

I CORO «Da rosa nasceu a flor: «pera nosso Salvador: «Virgem sagrada.»

II CORO «Nasceu a rosa do rosal, «Deus e homem natural: «Virgem sagrada.»

Gratias agamus Domino Deo nostro

Fonte: 

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Artur Azevedo (À Porta da Botica)

Esta é a segunda peça de Artur Azevedo, escrita aos 16 anos. 

PERSONAGENS

ANICETO – tipo da atualidade
DIOGO
OLIVEIRA
Um rapaz de 12 anos
PASSANTES

CENA ÚNICA
Vista de rua escura. À direita uma botica, à porta da qual vêem-se algumas cadeiras.

ANICETO, depois TODOS (por seu turno.)

ANICETO
(Velho jarreta, entra fumando e observando as cadeiras.)

— E esta! ainda ninguém!

(Vê o relógio.)
Pois já lá vão sete e meia!
E os meus colegas não vêm
Pra falar da vida alheia!
Já as cadeiras estão
No seu lugar competente…

(Senta-se.)
Como corre a viração
Às portas de uma botica!
Se o juízo não me mente,
Quem está doente, bom fica,
Fica bom quem ‘stá doente…
Temos bem que dar à língua
Aujord’hui, meus colegas,
Esta gentinha anda à míngua
De meia dúzia d’sfregas…
Isto de andar a falar
Da vida do semelhante
É gosto bem singular,
Mas não será doravante:
É uma necessidade
Pra dar que falar ao povo,
Mentira seja ou verdade,
Só se quer – assunto novo! –

(Levanta-se.)
Os senhores já adivinham
O que lhes conto? por Cristo?
Ora, senhores, não tinham
mais do que olhar:

(Indica.)
Esta casa é uma botica
Que vende sempre a quem passa:
Pastilhas de mel d’angica
Cataplasmas de linhaça…
O lugar é solitário.
Nem mesmo tem lampião…

(Confidencialmente.)
— Cuidado com o boticário
Que não passa dum… boticário,
E o seu caixeiro, o Senhor Mário,
Maluco como o patrão
Eu não falo da vida alheia.
Isto é só fazer idéia…

(Mostra as cadeiras.)
Nas cadeiras que aqui ‘stão
Com muita constância tem,
As noites, uma reunião,
Um dia sim, outro também…
Aqui se fala de tudo.
Tudo por aqui contado é:
Sofrendo o pai do cascudo,
Sofre o avô do jacaré…
Se um sujeitinho lá bifa
Ao patrão certa quantia,
Se aquele faz uma rifa,
Se um outro não anda em dia,
Se um quebra, foge aos credores,
Se outro ajunta depressa,
Se aquele já tem amores,
Mal o avô-torto começa
Há que ser analisado
Na porta do boticário:
O pobre, o remediado,
O econômico perdulário!
Eu não falo da vida alheia,
Isto é só fazer idéia!
Falamos todas as noites
No que é no que fora,
Todos aqui chucham açoites,
Em todos os meto a tesoura!
E no que me der o cavaco,
Nele mais se mete a faca,
Hei de levar pro tabaco,
Hei de cortar na casaca!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Entra Diogo.)

DIOGO (Com um charuto apagado.)

— Seu Aniceto, dá-me o seu fogo?

ANICETO

— Por que não, Senhor Diogo?…

(Diogo, depois de acender o charuto, restitui o de Aniceto sem agradecer-lhe. Sai.)

ANICETO (Só)

— É impolítico o Senhor Diogo!
Impolítico… malcriado!
Eu servi-lhe com meu fogo,
E não me disse obrigado!…
Este sujeito é um tratante,
Cautela, muita cautela,
Fala dos outros bastante,
E furta sem mais aquela!
Ainda há três dias
Queixou-se um negociante
Que vendeu mercadorias
A ele, qu’é um bom tratante!
Ouvi dizer numa venda
Que pediu a uma loureira
O anel – Deus me defenda –
Pra pagar a lavadeira:
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Passa pelo fundo um passante.)
Viram aquele sujeito?
Cuidado, muito cuidado,
Diz que pra cousa tem jeito,
É um tratante refinado,
Ou refinado tratante,
Eu cá não faço questão
De vogal ou consoante,
De ser cachorro ou ser cão,
De ser tratante ou ladrão!
Me disseram qu’outro dia
A firma imitou do Sousa
Com uma tal maestria,
Que ninguém deu pela cousa!
E qu’anda co’uma donzela
E um constante derriço,
Subindo pela janela
Sem que ninguém dê por isso!
Enfim ‘stou capacitado
Qu’é um tratante de mão cheia;
Mas olhem: este seu criado
Não fala da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Passa outro tipo.)
Aquele é o tio do homem
Que há pouco pediu-m’o fogo,
Dizem que os cobres lhe somem
Sempre na banca do jogo;
Mulher e filhos não comem:
A panela está no fogo,
Ou – está no fogo a panela,
Sem nada ter dentro dela!
A filha já tem morgados
E o pai inda a tem por casta:
– O velho é maluco e basta!…
(Entre parêntesis – não gosto
Da história do tal tijolo,
Por causa dele eu aposto:
Se perde muito o miolo! –
Mas pensem agora os senhores,
Que apesar da circunstância,
Não tenho também amores
Com a Senhora Dona Amância! -)
Mas voltemos à questão,
Ia dar uma opinião:
Enquanto o velho se abrasa,
No voltarete se pega,
A menina fica em casa,
Pra jogar a cabra-cega!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Passa o rapaz de 12 anos largando gordas fumaças de um charuto.)
Olhem pr’aquele fedelho
Como gosta da fumaça!
Decerto toma em conselho
Como aí qualquer chalaça!
Parece filho do Neves,
Nada há que mais pareça…
O Neves Ramos? que deve
Os cabelos da cabeça?

(Aponta para um sobrado.)
Olhem: nesta casa moram
Três ou quatro sujeitinhos:
O primeiro sei que namora
Uma viúva e já agora…
Etcoetera e tal… pontinhos…
Mas como tem bons cobrinhos,
Como essa viúva é rica,
Não se importa cos vizinhos.
Nem com a porta da botica!
O segundo é um soldado:
O terceiro é um agiota,
Que apesar d’haver quebrado,
Não deixa d’andar janota!
O quarto não sei quem é:
Mas eu hei de me informar.
(Isso é mais velho que a Sé.)
Pra vir dele aqui falar!
Sei que se chama Fernando,
E trabalha, … vadiando;
Se lhe pergunto a razão
Por que sempr’anda na pândega,
Responde: Que admiração!
Sou empregado na Alfândega!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…
Mora naquele sobrado
Uma moça que fabrica
Tijolo com o namorado;
E o pai não se certifica,
Nem pergunta a Dona Anica
O que aquilo significa,
Quem é aquele rapaz,
Não teme a língua dos dois,
Nem a… porta da botica!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…
Na outra – pegado – mora
Um médico muito excelente,
Da carreira inda na aurora,
Já tem morto muita gente!
Dizem que a cura prolonga
Co’algumas drogas fatais,
Para a moléstia ser longa,
E os cobres renderem mais!
Tem no convento um irmão
De aventuras muito farto,
Roubou a filha ao patrão
Abandonou-a num quarto

(Comovido.)

Coitada! morreu de parto!
Eu não falo da vida alheia
Isto é só fazer idéia…

(Aparece Oliveira vestido para o baile. Ao passar pelo fundo, cai-lhe alguma coisa e abaixa-se para apanhá-la.)

Quem é aquele sujeito
Que abaixou-se na rua?…
Inda não o vi bem de jeito,
E agora… escondeu-se a Lua!
(Vai para junto de Oliveira e, sem que ele dê por isso, corta-lhe a aba da casaca com uma tesoura.)

OLIVEIRA (Consigo.)

— E esta! perdi um botão…
Quem achar seja feliz…
Escapuliu-me da mão…

ANICETO (À parte.)

— Eu não ouço o que ele diz.

OLIVEIRA (À parte.)

— Também o que pode valer?
Custa só meia pataca
O que acabo de perder!

(Sai)

ANICETO (À parte.)

— Já lhe cortei a casaca

(Desce à cena com a aba na mão.)

Este sujeito é o Oliveira
Ignoro o comportamento…
Vejamos se na algibeira
Tomo algum apontamento!

(Tira um lenço da algibeira da aba.)

Um lenço fino de Irlanda;
Não ‘stá inda pago. Uma aposta.
A marca está doutra banda…
Vejamos: José da Costa!
Um lenço do Zé da Costa
Na algibeira d’Oliveira!
Ah! já vejo que ele gosta
Como eu da ladroeira!
Oh! descaramento imenso!
Que ação negra e medonha!
Roubar… roubar um lenço!
É muito pouca vergonha!
Conto hoje na botica
O miserável atentado,
Amanhã o povo fica
Ciente…

(Tirando dez tostões da algibeira da aba.)

Muito obrigado.
(Remexendo)

Ah! inda um papel se pilha!
Vejamos o que ele diz!
(Vendo.)

Subscritado a minha filha
(Lendo.)

“Joana, sou mui infeliz
Como o nosso amor puro e santo;
Te espero amanhã no canto,
Daremos uma fugida;
Joaninha, minha vida,
Meu querubim, meu amor,
Nem mais aqui voltaremos,
Teu pai esquecer devemos,
Não passa de um falador!
Manda dizer por escrito,
Se o pequeno, que nasceu,
Está feio ou ‘tá bonito
Está vivo ou já morreu!”

(Desespera.)
Minha filha ter um filho!
Minha filha desonrada!
Ai, meus amigos, se os pilho…
Não me faltava mais nada!
Em vez de estar a vigiá-la,
Pois não tem nada de feia,
Eu vinha cá pra senzala
Falar da vida alheia!
Vou abandoná-la! um capricho:
Estas cousas não consomem…
Porque um gato é um bicho,
E um homem foi sempr’um homem!

(Saindo arrebatadamente.)
Vou casá-los, vou casá-los…

[Cai o pano]
Fonte:
AZEVEDO, Artur. Teatro de Artur Azevedo. [Rio de Janeiro] : Instituto Nacional de Artes Cênicas – INACEN, [198?]. v. 1. (Coleção clássicos do teatro brasileiro, v.7).
Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo. Texto-base digitalizado por Sérgio Simonato – Campinas/SP

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Domingos Pellegrini (Família Composta)

Prefácio

Família composta é um livro que fala um pouco da nossa vida e a das pessoas que nós conhecemos. Um texto que trata de afetividade, problemas de relacionamento, família, amor, valores sociais, poesia, meios de comunicação, enfim, coisas do dia-a-dia dos brasileiros.

Existem diferentes maneiras de escrever um texto. Este livro, Família composta, pertence ao que nós chamamos de dramaturgia, ou seja, um texto que pode ser lido e ao mesmo tempo encenado no teatro ou transformado em filme. O leitor vai observar desde o início que ninguém conta nada sobre as personagens, não há um narrador. Das cinco personagens, quatro – pai, filha, poeta e mãe – dialogam entre si e mostram o que são, sentem e querem diretamente ao leitor. Já a fala do homem da tevê está mais próxima do monólogo, uma maneira crítica que o autor encontrou para refletir sobre a vida moderna e suas transformações.

Nesse tipo de texto há um recurso que é fundamental: o uso das rubricas, as indicações que aparecem entre parênteses e definem o comportamento das personagens, estados de espírito e dicas de cenário.

Outra característica de Família composta é a utilização de elementos da comédia de costumes lado a lado com os da dramaturgia de vanguarda, misturando o diálogo do cotidiano familiar com a linguagem empregada pelos meios de comunicação, em particular a televisão.

A trama deste livro é muito bem costurada.

O autor constrói, a partir de duas situações dramáticas, a maternidade da filha e a separação do pai, uma história cotidiana e familiar com muita sensibilidade, crítica e humor.

Destaque para a entrada em cena do poeta e da mãe, personagens que mudam o rumo dos fatos. Em relação ao homem da tevê, bem, fica para os comentários de vocês, leitores. Aproveitem! Boa leitura porque o livro vale a pena.


Personagens

Família Composta


Pai
Filha
Poeta
Homem da tevê
Mãe
Ratinho
Sombra

PAI ESTÁ NA SALA, EMBALANDO NENÊ (BONECO ENROLADO EM PANOS QUE NÃO PRECISA APARECER PARA O PÚBLICO) NOS BRAÇOS, E FALA ALTO PARA FILHA QUE SE ARRUMA E SE MAQUIA EM OUTRO APOSENTO.

PAI: Eu já te falei que se este nenê urinar em mim mais uma vez, eu deixo ali no sofá e não quero nem saber! E você nem me apareça arrumadinha e pintadinha, prontinha pra sair, que só se for levando o filho que você pariu; quem pariu que embale!

(BAIXO, EMBALANDO O NENÊ E SORRINDO): Mas nem precisa embalar, que você dorme tão fácil, né, meninão lindo, minha mãe dizia que eu também era um nenê tão dorminhoco que um dia ela me levou na roça, pra ajudar meu pai a colher café, e eu fiquei tão quietinho no cesto que esqueceram de mim, voltaram pra casa e me deixaram lá!

(GRITANDO PARA A FILHA): E o jogo vai começar, o jogo vai começar, faça-me o favor!!

Família Composta

FILHA: Ai, pai, pára de fazer drama, de tudo você faz drama!

PAI: Ah, é? Que nem quando você saía pra festinha e eu te avisava, “olha, cuidado com essa rapaziada, que homem é tudo semvergonha, cuidado”, e você dizia que eu fazia drama e que a vida é mais comédia que drama, mas agora, olha só se eu não estava certo, eu aqui com o resultado da comédia e não é nada engraçado, não, e até fede, de vez em quando enche a fralda e eu tenho de trocar que a mãe tá batendo perna atrás de emprego!

(BAIXINHO AO NENÊ): Né, seu cagão, enche a fralda, né, mas o vô limpa legal, né?

FILHA: Ah, pai, você devia agradecer por ter um neto lindo, isso sim, agradecer em vez de reclamar! Você não dizia que eu era uma avoada, que só pensava em festa e diversão, mas hoje, veja só, eu amadureci com esse nenê, procuro emprego e ainda vou cuidar de você na velhice! Vou comprar guardanapo de pacote pra limpar sua baba, pai, pode confiar! E, se um dia você ficar que não puder nem limpar depois de fazer cocô, eu vou limpar você, te prometo, pode confiar, você vai ter de troco tudo que está fazendo por meu filho, ou melhor, seu neto, né…

PAI: Muito engraçadinha… Mas vê se anda logo que eu quero ver o jogo, já falei, eu deixo esse guri no chão e vou ver meu jogo!

(AO NENÊ): Mentirinha, viu, meninão?!

(À FILHA): E não precisa se preocupar com minha velhice que eu não fumo nem bebo, viu, que nem o pai do teu filho que te deixou na mão com a barriga cheia, eu não bebo nem fumo, não vou ter derrame pra ficar babando, viu?! Muito menos vou ficar sem poder me limpar depois de fazer cocô!

FILHA: Não sei, foi você mesmo que me ensinou a nunca dizer “desta água não beberei”, ou melhor, “desta sujeira não me sujarei”, né…

PAI: Para de brincadeirinha que eu não estou brincando, vem logo que vai começar o jogo, e eu não consigo ver jogo com este nenê no colo!

FILHA (PASSANDO PARA A SALA): Você não consegue é tomar cerveja com o nenê no colo, né pai, porque precisa ir pra geladeira a cada cinco minutos! E depois diz que não bebe…

PAI: Duas latinhas no primeiro tempo, mais duas no segundo tempo, isso não é beber, é hidratar!… E peraí, onde é que você pensa que vai toda produzida assim?! Parece uma árvore de natal de tanto brilho! Eu já falei que…

FILHA: Acalme-se, não vou sair não, pai, vamos receber uma visita.

PAI: Na hora do jogo?! Ah, não, você me avisasse antes! Esse jogo é decisivo e… Antes de tudo, toma teu filho!

(PASSA O NENÊ PARA ELA, QUE O DEIXA NO BERÇO) Quando é pra me dar o nenê, você diz que ele detesta ficar no berço. Quando te dou, você bota no berço!

FILHA: Ele tá dormindo, você já podia ter deixado no berço. Eu acho é que você gosta de embalar ele, pai… Embala, embala, aí ele dorme, depois fica acordando de noite pra me infernizar.

PAI: Ah, claro, eu sou o culpado de tudo.

FILHA (DANDO-LHE UM BEIJO NA BOCHECHA): Não, você é o melhor pai do mundo e o melhor avô do mundo também, pelo menos para mim e para o meu filho.

PAI: Não me venha com conversa doce, não, que alguma coisa você tá armando, te conheço! Quem é essa tal visita?!

PAI LIGA A TEVÊ (O HOMEM DA TEVÊ APARECE EM VÍDEO GRAVADO, QUE CONGELARÁ E VOLTARÁ SEMPRE QUE O PAI ACIONAR O CONTROLE REMOTO).

HOMEM DA TEVÊ: Na Alemanha, um agricultor processou o governo porque o caminhão do correio passa em frente a seu estábulo, buzinando para alertar os moradores da aldeia de que a correspondência está chegando à agência postal. O agricultor alega que a buzina afeta a produtividade de leite das vacas! E não perca no próximo bloco: continua aumentando o número de mães adolescentes, um novo fenômeno social que desafia pais e educadores! Os últimos dados revelam que…

PAI (AO HOMEM DA TEVÊ): É, eu sei, eu sei!

(DESLIGA A TEVÊ) Ainda não acabou o noticiário, mas já já começa o jogo, então você leva essa tua visita lá pra cozinha e…

TOCA A CAMPAINHA. PAI OLHA PELA JANELA.

PAI: Mas… mas é o filho duma égua daquele poetinha de meia tigela que te engravidou! Cadê o pau do pilão?

FILHA: Pai, escuta, pai!

PAI (PEGA PAU DO PILÃO): Esse pilão é tudo que tua avó me deixou, e nunca usei, mas agora ao menos o pau do pilão eu vou usar! Vamos ver se sai muita poesia ou o que sai daquela cabeça!

(INDO PARA A PORTA, É DETIDO PELA FILHA).

FILHA: Pai, ele vai me pedir em casamento!

PAI: O que?! FILHA: Ele vai me pedir em casamento pai, e reconhecer nosso filho!

PAI: E vai morar aqui?! E eu vou sustentar mais um?! Porque aquele traste não tem um gato pra puxar pelo rabo e mora num quartinho da casa da mãe com mais sete irmãos! Se você acha que eu vou sustentar mais um, pra viver aqui encostado que nem cipó em peroba, ah, não vou não! Eu jogo no meio da rua e soco que nem minha mãe socava paçoca no pilão!

FILHA: Pai, pelo amor de Deus, se quer a minha felicidade, escuta ele, pai!

PAI: Escutar ele? Eu escutei bem quando fui falar pra ele que você estava grávida dele e perguntar o que ele ia fazer, e ele me falou “pois é, eu acho que o que tinha de ser feito já tá feito, né”… Eu esgano o desgraçado se abrir a boca pra dizer que quer casar com você pra virar morar aqui!

FILHA: Pai, alguma vez eu te menti?!

PAI: Não, só me escondeu a verdade!

TOCA A CAMPAINHA.

PAI (GRITANDO PARA FORA): Já vai, filho duma égua, tá com pressa por quê? Muita poesia urgente pra fazer?!

FILHA: Pai, nunca te menti e garanto que ele não vem te pedir pra morar aqui! Então te peço que atenda, pai, com o mesmo respeito com que você atende mendigo e catador de lata. Será que o pai do teu neto não merece ao menos um mínimo de respeito?

PAI: Ah, sim, eu tenho de respeitar quem encheu o bucho da minha filha, me botou um neto no colo e não quis nem saber de fazer nada porque tudo “já estava feito”, que beleza, pra rei dos trouxas só me falta a coroa, né? Será que ele tá me trazendo a coroa? Será que é de prata, de lata ou de cocô de barata?!

PAI: Pai, pelo amor de Deus, pela memória da mamãe…!

TOCA A CAMPAINHA.
PAI RESPIRA FUNDO, LARGA O PAU DO PILÃO E VAI PARA A PORTA.

PAI: Filho duma égua sarnenta…

(RESPIRA FUNDO, ABRE A PORTA SORRINDO FORÇADO) Boa noite…

POETA: Boa noite, querido sogro! A vida imita a arte quando nos dá um malogro, mas também, por outra parte, é como uma viagem com a graça inesperada de poética paisagem depois da curva da estrada! PAI: Poética paisagem… Cadê o pau do pilão?!

FILHA: Pai! (AO POETA): Entra, entra, veja quem está ali no berço!

POETA (ENTRA, OLHA O NENÊ NO BERÇO, DECLAMA ENQUANTO O PAI SE EXPRESSA POR CARETAS E CONTORSÕES):

Eis o sangue do meu sangue poema do meu desejo e fruto dos nossos beijos! Caro sogro, não se zangue se eu disser que se parece com meu pai, cantor famoso de cabarés e quermesses Ah, como fico orgulhoso…

PAI: Deixa eu ficar aqui perto do pilão… Cidadão, depois do que o senhor fez com minha filha, espero que se explique logo e…

POETA: Antes de tudo, deixemos bem claro que nada fiz: entre nós dois houve apenas o que sua filha quis! Primeiro fui seduzido por ela – Não é, mainha? – e depois fui convencido a transar sem camisinha!

FILHA: É verdade, pai!

PAI: Você… É verdade? Você é que quis ter um filho com ele?!

FILHA: É verdade, pai. Eu vi ele declamando numa festa, eu me apresentei, eu procurei ele depois, várias vezes, eu trouxe ele aqui em casa quando você estava trabalhando…

PAI: Você trouxe ele aqui em casa?! Vocês fizeram esse filho aqui? Só falta dizer que foi no meu colchão!

POETA: Eu falei: meu bem, não vamos usar a cama do sogro pois vai que ele volta logo…

e, além disso, quem ama ama em qualquer lugar então que tal namorar ali no velho sofá?

FILHA: Não, pai, eu queria um filho! Desde que a mãe morreu eu sinto que você sente a casa vazia, a vida vazia, eu via você morrendo dia a dia, pai, de tristeza, de desconsolo, e ouvindo o meu amor falar poesia eu vi a luz, eu vi que um neto ia iluminar a sua vida!

PAI: Você está brincando? Só falta me dizer que eu estou em dívida com vocês, que eu preciso pagar a vocês por terem me dado um neto!

POETA: Fique tranqüilo, a mim o senhor nada deve, mas reconheça o quanto traz de alegria um neto assim!

PAI: Você não pensou que podia ter um filho com alguém que não fosse um saco de rimas?! Você nem parou pra pensar que ele não tem um gato pra puxar pelo rabo e… Não, eu não quero saber, vocês façam o que quiserem, eu vou ver meu jogo que deve estar começando! Eu não entendo mais nada, eu sou do tempo do namoro, quando a gente começava pegando na mão, demorava um mês pra beijar, casava virgem e tinha filhos só depois de nove meses no mínimo! Hoje, não, ninguém namora mais, todo mundo só fica, né. Fica um dia com um, um dia com outro, então vocês fiquem como quiserem, que eu vou ver meu jogo, com licença! (LIGA A TEVÊ).

HOMEM DA TEVÊ: O IBGE divulga pesquisa revelando que a família composta tornouse maioria no país, ou seja, aquela família formada por pais já descasados e casados novamente, o casal morando com filhos de casamentos anteriores…

FILHA (DESLIGA A TEVÊ): Tá vendo, pai? Tudo mudou! PAI: E você também pode mudar na hora que quiser! É só pegar seu filho…

FILHA: Seu neto, pai! Seu sangue! POETA (AGACHADO AO LADO DO BERÇO): Sangue seu, sim, de fato dá para ver nas canelas tão finas, e pés tão chatos como os das suas chinelas!

PAI (FALANDO PARA O PILÃO): Minha mãe, que tanta paçoca fez nesse pilão, me ilumina, me diga por que é que não pego esse pau e…

FILHA: Escuta, pai, a nossa proposta!

PAI: Ah, eles têm uma proposta! E proposta rima com que?!… Eles têm uma proposta!…

FILHA: Escuta, pai, por favor, como a mãe dizia: escutar não custa nada, muito mais custa falar demais!

PAI: Tô escutando, tô escutando, pode falar, senhor poeta, só não me peça pra aplaudir depois, né, como aplaudem o senhor aí nos botecos da vila e lhe pagam cerveja, não me peça aplauso não, viu, e se quiser tomar cerveja…

FILHA (AJOELHANDO): Escuta, pai, quer que eu implore? Eu imploro, escuta nossa proposta!

PAI (LARGA O PAU DE PILÃO, SENTA): Vossa proposta…
Tô escutando.

POETA (PIGARREIA, OLHA O PAPEL QUE DEVOLVE AO BOLSO): Meu sogro, esta sociedade à poesia só dá valor se o poeta for ator e tiver notoriedade! Meus livros só venderei se for parado na rua por gente que diga “a tua cara já vi na tevê”!

FILHA: Fala logo, amor, a proposta!

PAI: E proposta rima com isso que o nenê faz toda hora…

POETA: É a era do espetáculo! E a telinha é o oráculo das massas, o rei é o Jô a Hebe é sacerdotisa o Sílvio é o santo maior e a poesia só dá camisa a quem na tela se expor!

FILHA: Eu falo, pronto! Pai, a gente quer que você vá ao Programa do Ratinho junto com a gente!

PAI: Eu?! No Programa do Ra-ti-nho?! Pra que?!

FILHA: Pro teste de DNA, pai!

PAI: Mas o filho não é meu, é dele!! O pé chato pode ser meu, mas o filho é dele, não é?!

POETA: Não é só questão genética: é o teatro da ética da donzela e do vilão que pode virar mocinho se assumir o nenezinho ganhando a galera então!

PAI: Pois boa sorte, podem ir! E já vai de mala e cuia, viu, filha? Leva o nenê, vão já, peçam lá pro Ratinho ser padrinho, que o menino decerto vai ganhar o nome do pai, né, então vão registrar de novo, né, podem fazer uma festa, com padrinhos e tudo, que nem você queria que eu fizesse, então agora façam, façam o que quiserem, que eu vou é ver meu jogo!

(LIGA A TEVÊ) HOMEM DA TEVÊ:
A ONU divulga relatório sobre o trabalho infantil, que vem diminuindo, mas ainda flagela centenas de milhões de crianças em todo o mundo, além de outras formas de exploração infantil!

PAI (DESLIGANDO A TEVÊ E LEVANTANDO BRAVO): Taí, ó, exploração infantil! E querem saber duma coisa? Meu avô dizia que se o coador não côa, a dentadura tem que coar! Se os pais não cuidam, avô tem que cuidar! Última forma! Não vão levar o nenê coisa nenhuma, expor o meu neto ao vexame público, ainda mais no Programa do Ratinho, o coitadinho é até capaz de apanhar!

FILHA: Pai, pára de prejulgar! Como dizia a mãe, você só prejulga e vive vendo tudo errado!

PAI: E você pare de me jogar contra sua mãe que ela não está aqui pra te desmentir! Quem apela pros mortos tá sem rumo na vida! Eu não prejulgo nada, eu vejo com os olhos o que tá batendo na vista!

FILHA: Então saiba, pai, que ninguém pensou em levar o nenê, queremos levar é o senhor!

PAI: Eu?! E-u?! No Programa do Ratinho? No quadro do DNA do Programa do Ratinho, eee-uuu?!!!?

POETA (QUE ANDOU FAZENDO CARETAS E CONTAS MÉTRICAS NOS DEDOS A VERSEJAR): Sogro, creia no poeta: a peça só é completa com todos os personagens! A donzela com seu filho o poeta com seu brilho o avô chato e ranheta e a avó cheia de coragem!

PAI: Me belisca, pilão, que deve ser um pesadelo! Minha filha, você está pensando em levar sua mãe no Programa do Ratinho?!

FILHA: Pai, você diz que ela morreu, mas você sabe que ela está muito viva! O Dalvo acha que assim vai funcionar melhor, pai, porque todo mundo vai lá e briga e xinga, aquela pancadaria toda, e nós podemos fazer diferente, a mãe dando a maior força e convencendo você de que…

PAI: Peraí, “a avó cheia de coragem” convencendo “o avô chato e ranheta” de que a família combosta, ou composta, é melhor, certo? E a sua mãe vai posar de bondosa e corajosa depois de ter me chifrado e me abandonado vergonhosamente enquanto eu viajava a trabalho!?

POETA (CONSULTANDO ANOTAÇÕES): Meu sogro, esses adornos que a vida às vezes nos dá e que chamamos de cornos na verdade são medalhas que só vem valorizar quem assim tanto trabalha pois é trabalho chorar e sofrer por quem se ama! O público saberá reconhecer vossa alma compreensiva, e dará aquele aplauso que acalma a mais profunda amargura e terás enfim a cura que o teu coração reclama!

PAI: Escuta aqui, seu bostoeta, e você, sua irresponsável que eu tanto preveni, mas não me escutou, se quiserem ir ao Ratinho ou se quiserem ir pro meio do inferno, vão, mas não contem comigo! Nada nem ninguém vai me convencer a participar daquela baixaria, nem se for pro meu neto ter um pai, ninguém vai me convencer!!!

FILHA: Nem a mãe, pai?

(PEGA O NENÊ NO BERÇO) TOCA A CAMPAINHA.

PAI: Tua mãe?! Não vai me dizer que você convidou tua mãe para…

FILHA SAI COM O NENÊ.

POETA: Meu sogro, a vida logra nos envolver em tais peças que o melhor é esquecer logo para esfriar a cabeça aceitando as cicatrizes e jogando enfim o jogo se quisermos ser felizes!

TOCA A CAMPAINHA, POETA ABRE A PORTA E SAI. ENTRA A MÃE (MESMA ATRIZ QUE INTER34 PRETOU A FILHA, COM PERUCA GRISALHA E OUTRAS ROUPAS E POSTURAS).

MÃE: Boa noite. (OLHAM-SE LONGAMENTE)

ELA VAI AO BERÇO, AGACHA) Que lindo! É a tua cara!

PAI: Não, são só os meus pés! E será que eu estou ficando louco? Vou me beliscar pra ver se é verdade! Quem sabe eu deva bater com o pau do pilão na cabeça pra acordar!

MÃE (RI): Você continua engraçado! Foi por isso que me apaixonei por você, sabia? Tanto moço mais bonito, mais forte, até moço rico tinha afim de mim, mas eu me interessei por você porque você me fazia rir, sabia?

PAI: Ah, eu devo mesmo ser um palhaço, pra ficar aqui olhando pra tua cara enquanto você ri de mim! Como é que você tem coragem de, depois de anos, chegar aqui de repente, dizendo boa noite como se nada tivesse acontecido?!

MÃE (LEVANTANDO-SE E ENCARANDO): Mas nada aconteceu mesmo, meu ex-marido.

Nada aconteceu quando eu te pedi para trabalhar menos e ficar mais comigo, falei que não era preciso a gente ganhar mais, mas viver mais. Nada aconteceu quando eu te procurava na cama e você se encolhia suspirando de cansaço. Nada aconteceu quando te falei que você podia usar melhor as tardes de domingo em vez de ficar vendo televisão e se enchendo de cerveja. Nada aconteceu quando eu te convidei pra passear de bicicleta, fazer jardinagem, fazer ginástica, fazer caminhada, ir dançar no baile do bairro, nada aconteceu! Ou melhor, aconteceu que você foi ficando barrigudo e eu ficando cheia de você! E aí aconteceu que te convidei pro curso de dança de salão e você falou que já sabia dançar, e lá fui eu parar nos braços de alguém que viu em mim a mulher que você não via mais. Aí, aconteceu!…

PAI (HUMILDE): É, acho que eu até mereço ouvir tudo que você falou aí… (ELEVANDO A VOZ) O que não posso aceitar é que, depois de tantos anos sem eu deixar faltar nada em casa, você foi embora sem falar nada…

MÃE: Mas queria que eu falasse o quê? E você ia aceitar alguma coisa que eu dissesse? Você sempre se achou cheio de razão, nada do que eu dizia você ouvia, sempre dizendo que você é que tinha razão, eu falando que a vida não é só comida na mesa e você dizendo que comida na mesa é que é o mais importante, até que eu vi que você queria mais ter razão do que ser feliz…

PAI (HUMILDE): Hoje posso até reconhecer que você tinha razão em achar que eu queria ter razão demais, mas… (ELEVANDO A VOZ) agora o que não posso aceitar é você voltando pra me convencer a ir pra televisão participar de baixaria pro teu genro acontecer como poeta, que maravilha! Eu devia era estar vendo meu jogo, com licença! (LIGA A TEVÊ).

HOMEM DA TEVÊ: Pesquisa da Unicef revela que, além da alimentação incorreta e do estresse, uma das principais causas de enfarte são as chamadas emoções reprimidas, como o remorso, o ódio, a inveja, a amargura ou rancor, que podem também levar à depressão! A pesquisa…

PAI (DESLIGA A TEVÊ): Pois saiba que eu não tenho rancor nenhum, depressão muito menos, levo uma vida ótima e… Ai! (CURVASE COM A MÃO NO PEITO) Ai!

MÃE: Que foi?!

PAI: Nada, uma pontada, só uma pontada, ai!

(DEITA NO SOFÁ) MÃE (GRITANDO): Dalvo, Dalvo!

PAI: E, além de poeta, se chama Dalvo! Eu mereço, devo ter feito muito mal a algum poeta em alguma outra vida… Ai!

MÃE: Fica quieto, não fale! Daaaalvooooo!

PAI: Lembra quando a gente casou e fazia amor neste sofá, lembra?

MÃE: Lembro, antes de você ficar vendo tevê e tomando cerveja até dormir aqui mesmo!

PAI: Me perdoa! Ai, parece que estão me enfiando uma faca! MÃE: Faca vão te enfiar é na mesa de operação se for o que estou pensando. Fica quieto!

POETA ENTRA, DEPARANDO COM PAI DEITADO NO SOFÁ E MÃE SENTADA DEBRUÇADA SOBRE ELE: Que cena linda, a vitória do amor e do perdão mostrando que o coração é quem manda em nossa história!

MÃE: Manda vir o Siate, isto sim! Acho que ele tá tendo um enfarte!

POETA: Meu celular é pré-pago e está momentaneamente sem crédito, acredite!

PAI: Me faz, meu bem, um afago…

Lembra o tempo em que a gente se amava até no tapete?…

POETA (DISCANDO TELEFONE FIXO): Rimou! Acredite com tapete, é rima tonante, mas é rima! Só pode ser sinal de Deus, ele vai se salvar! E vai ao Ratinho com a gente, contar que o perdão e a poesia lhe salvaram a vida! Alô? É do Siate? Venham já, por favor, à Rua dos Abacates esquina com Melancia! Meu sogro tá com enfarte!

DESLIGA O TELEFONE.

Não morra, sogro, ainda! Te farei uma poesia Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma e Emergência; serviço de ambulâncias do Governo do Paraná.

Com toda a minha arte pra recitar muito linda no Programa do Ratinho!

PAI: Estou vendo só pontinhos girando na escuridão…!

POETA: São os pontos da audiência do nosso sucesso imenso, sogro, na televisão! MÃE: Se ele morrer, vou sentir muito remorso! PAI: Não estou vendo mais nada!…

POETA (ENQUANTO SE OUVE SIRENE DO SIATE): Mas verá seu genro alçado ao céu das celebridades e superadas as mágoas minha poesia afinal vendendo mais do que água mineral ou pão de sal!

MÃE: Ele tá ficando roxo!

POETA: Se morrer, fazer o quê?

A gente diz pro Ratinho que a felicidade é um tortuoso caminho que alguns não vencem não e outros conseguem vencer com perdão no coração!

PAI: Cadê o pau do pilão?! Aaaaaaaaaaaai!!!

CORTE DE LUZ. NA ESCURIDÃO, FAMÍLIA CANTA PARABÉNS PRA VOCÊ. LUZ: EM CENA, DIANTE DE BOLO CUJA VELINHA A FILHA ACENDE, ESTÃO ELA, O PAI E O POETA.

FILHA: Pena que o nenê está dormindo, senão ia ver seu primeiro bolo de aniversário! POETA: Primeiro ano de vida: a página de um caderno que depois de cada inverno tem primavera florida!

PAI: E depois de quase morto a gente enxerga tudo com outros olhos, e muda endireita o que era torto ajeita o que era sem jeito aceita o inaceitável e só com o preconceito se mantém intolerável!

FILHA: Ai, pai, quem te viu e quem te vê! Até agora não entendo como é que você acordou da cirurgia só falando em forma de poesia!

PAI: Já te contei, minha filha quando eu era rapazote cantava lá os meus motes fazia os meus estribilhos, mas por medo ou por vergonha engavetei o talento e a chave então joguei fora até ver que cada sonho faz parte do esqueleto das carnes da nossa história!

POETA: Meu sogro, você me orgulha e jamais me esquecerei dos versos que você fez calando até o barulho do Programa do Ratinho! Verso repetido no fi m de cada estrofe de uma composição.

Diante do teu soneto eu me senti um poeta até bem pequenininho…

Como era mesmo o soneto?

PAI: Senhor Ratinho, não existe gato capaz de amedrontar a decisão de quem depois de ouvir o coração só quer obedecer ao seu mandato!

POETA: Nem é preciso comparar retratos ou apelar para a ciência, não: basta olhar nos olhos ou então reconhecer os nossos pés de pato!

PAI: É neto meu, é sangue de poeta que sangue de poeta procurou usando o coração de minha filha!

POETA: Teste de DNA só nos atesta que é o perdão a poesia do amor e a maior arte é fazer família!

PAI: Retificando, retificando: fazer família não é nada comparado com manter família…

POETA: Me lembrou, meu sogro amado que a cerveja e o guaraná foram comprados fiado na sua conta no bar onde fui até cobrado de forma impertinente, mas deixei adiantado que pagarás brevemente

PAI: Mas eu não autorizei fiado em bar algum!

POETA: Meu sogro, a vida é repleta de surpresas e imprevistos, mas relaxe: haja visto teu próprio neto, que foi uma surpresa e agora é a alegria do avô! E veja aí, noves fora, a conta do mês que passou!

(ENTREGA PAPEL AO PAI) PAI (LENDO PAPEL): Mas… mas… Ai meu coração! É uma pequena fortuna! POETA: Calma que tudo se arruma!

FILHA: Pai, tá fixando roxo, não!

POETA: É só dar três pré-datados, meu sogro, não tem problema! Não vá ficar estressado por coisinha tão pequena!

PAI: Coisinha?! É o que eu levo quinze dias pra ganhar dando duro no trabalho, seu…!

CAI NO SOFÁ, SOCORRIDO PELA FILHA E PELO POETA, ENQUANTO A TEVÊ LIGA.

HOMEM DA TEVÊ: Estudo da Federação dos Bancos indica que o Brasil é o país que criou um sistema único de crédito informal, por meio dos cheques pré-datados.

(ENQUANTO A FILHA E O POETA FALAM A SEGUIR): Esse tipo de microcrédito cresce muito mais que o sistema de crédito formal!

FILHA: Desliga isso!

POETA: Não fui eu que liguei, acho que ele caiu em cima do controle remoto!

HOMEM DA TEVÊ: Calcula-se que 70% da população usam sempre ou regularmente os cheques pré-datados para, como dizem os economistas, “ir vivendo na frente” e driblando assim os juros altos nos créditos convencionais. E, por falar em driblar, em seguida vem aí o grande clássico do nosso futebol…

FILHA DESLIGA A TEVÊ, EM SINCRONIA COM CORTE DE LUZ. NA ESCURIDÃO, OUVE-SE CHORO DE NENÊ E PREFIXO MUSICAL DO PROGRAMA DO RATINHO, SEGUIDO DE SIRENE DO SIATE, QUE CESSA PARA SE OUVIR A VOZ DE RATINHO:

RATINHO: Fala, Sombra!

SOMBRA: Pois não, Ratinho! Livro de poesia de poeta que esteve aqui no seu programa está vendendo mais que água mineral ou pão de sal! Os poemas tratam de amor familiar, Ratinho!

RATINHO: Então vamos para os nossos comerciais com produtos de grande valia para toda a família!

ACENDEM-SE AS LUZES. PAI ESTÁ DEITADO EM CAMA COM PEDESTAL DE SORO INJETANDO NA VEIA. POETA ENTRA PÉ ANTE PÉ COM A MÃE.

POETA: Ah, coitado do meu sogro! O que não faz o estresse quando a pessoa não vê que mais vale viver bem que se matar trabalhando pra ganhar o que não tem! A vida é pra ir levando…

MÃE: É, você leva a vida, e a minha filha leva dinheiro pra casa, trabalhando fora e levando o filho pra creche enquanto você fica fazendo poesia, que beleza!…

POETA: É, minha sogra, a beleza é a razão da minha vida! Vejo a beleza até mesmo numa formiga ou lesma no arroz servido na mesa erva daninha florida tudo é belo nesta vida! MÃE: Coitada da minha filha, agora com o pai assim, largado numa cama sem saber quando vai ou mesmo se vai melhorar…! E ela chega em casa, ainda tem de cozinhar pra botar a comida na mesa, pra quem só come é uma beleza mesmo!…

POETA: Beleza é a minha sogra mesmo quando assim zangada…

Parece fruta madura cheirosa e bem encarnada uma dessas criaturas que o tempo só embeleza e que parece mistura de pecado e de nobreza…

MÃE: Mas o que é isso agora?! Tá querendo me cantar, é? E na beira da cama do meu ex-marido agonizante?!

PAI: Eu não tô agonizante!

MÃE: Ele falou! Saiu do estado de coma!

POETA: A poesia tem o dom de fazer ressuscitar reviver tudo que é bom a beleza eternizar! Eu sabia que provocando meu sogro muito querido teria de dar ouvidos a quem está esperando que levante enfim da cama para viver com quem ama!

PAI: Cadê o pau do pilão?!…

MÃE: Que é que ele está dizendo?

POETA: Está pedindo o pilão! Querendo fazer paçoca pra festejar a vitória desse grande coração! Meu Deus, que coisa mais louca!

PAI: Eu quero é dar uma coça nesse pilantra, querida! E começar nova vida caminhando todo dia dançando bolero e tango samba, baião e até mambo e fazendo academia!

MÃE: Bem dizem que a pessoa muda muito depois do coma, ganha outra visão da vida…

POETA: E por falar em visão que tal ver televisão? LIGA A TEVÊ.

HOMEM DA TEVÊ (FALA ENQUANTO PAI VAI SENTANDO NA CAMA): A média de vida dos brasileiros continua a aumentar, passando agora dos 70 anos, quando era de apenas 45 anos no começo do século passado! Além de melhorar a alimentação, as pessoas de terceira idade dedicam-se mais a atividades saudáveis, como por exemplo…

PAI (PEGANDO O CONTROLE REMOTO, DESLIGA A TEVÊ): Andar de bicicleta, querida, ir até a zona rural fazer piquenique!

(BOTA AS PERNAS PARA FORA DA CAMA, FICA EM PÉ)

Levar meu neto pra passear! Ir pescar! Não quer ir junto? Só pescamos uma vez na vida!…

MÃE: …e você ficou reclamando do sol, do calor, dos mosquitos! PAI: Aquele homem reclamão morreu, querida.

Por falar em homem, como vai seu atual marido? MÃE: Não sei. Acabamos.

POETA: Isso merece um poema! A vida é caleidoscópio…

PAI: Cale a boca! Se rimar caleidoscópio com copo, eu te esgano, seu sacana! Vai cuidar do teu filho enquanto tua mulher trabalha pra sustentar a casa, vai! Vai!!

(POETA SAI)

Família composta…! MÃE: Calma, meu bem, não se exalte, lembre que o seu coração…

PAI: O que você disse?

MÃE: Que o seu coração…

PAI: Não, antes. Me chamou de meu bem?

MÃE: É, afinal fomos casados quantos anos?

PAI: Fomos não, somos! Eu não pedi divórcio, nem você! Talvez a gente já pressentisse que, com o tempo…

(DÃO-SE AS MÃOS)

MÃE: Pois é, o tempo… Será que ainda temos tempo?

PAI: Meu bem, como dizem os Stones…

MÃE: Quem?

PAI: Os Rolling Stones, meu bem, dizem que o tempo está do nosso lado e é nosso amigo quando a gente sabe viver a vida!

MÃE: Mas quem são esses Rolestones aí?

PAI: Um conjunto de rock, querida, vou te mostrar. Eu não andei morto enquanto você Os Rolling Stones é um grupo de rock em atividade desde 1962. A música Time is on my side é uma das mais antigas gravações da banda.

Esteve fora, ouvi coisas novas, li novas coisas, pensei em me renovar! Vamos namorar?

MÃE: O que?!

PAI: Namorar. Como outrora se namorava pra ver se você gosta de mim e eu também de você! Talvez começar agora uma nova vida enfim!

MÃE: Eu… eu nem sei o que dizer!

PAI: Querida, não diga nada é até melhor que assim seja porque a boca que beija já está demais ocupada…

BEIJAM-SE ENQUANTO ESCURECE EM RESISTÊNCIA E OUVE-SE A VOZ DE RATINHO:

RATINHO: Fala, Sombra!

SOMBRA: Pois não, Ratinho! Sogro de poeta monta site na internet chamado Velho Namoro, pregando a volta ao velho costume de namorar firme, em vez de ficar fácil! E recomenda o namoro especialmente para as pessoas da terceira idade! E para os jovens recomenda namorar mais e ficar menos!

RATINHO: E nós ficamos com nossos comerciais, Sombra!

ACENDEM-SE AS LUZES E A TEVÊ.

HOMEM DA TEVÊ: Isto foi uma peça de teatro.

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é para nos fazer pensar que também podemos mudar a nossa vida.

Tudo está em mudança rápida. Há apenas um século, mulheres não podiam votar.

Meio século atrás, a maioria da população morava no campo, hoje 90% moram na cidade.

Eram raras as mulheres que trabalhavam fora de casa, ao contrário de hoje.

A educação superior era para poucos. Os serviços de saúde eram muito pouco usados, até porque existiam poucos serviços públicos de saúde. A população ainda não sabia que paga impostos embutidos no preço de tudo que compra. De lá para cá, tudo mudou muito, a família também. As famílias compostas hoje são maioria na população brasileira. Quem não muda, fica per dido. Eu mesmo não sei mais o que dizer diante disso. Podem se retirar, por favor.

Isto foi uma peça de teatro. Não sei mais o que dizer. Vão viver. Podem se retirar, por favor. Isto foi uma peça de teatro e isto é uma gravação. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é apenas para nos fazer pensar que também podemos mudar a nossa vida. Tudo está em mudança rápida.

Há apenas um século… (CONTINUA REPETINDO A MENSAGEM ATÉ O PÚBLICO SE RETIRAR).

Fonte:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/domingos-pellegrini/familia-composta.php

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Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, SP/SP (Teatro Infantil: Apresentação de "Lado de Lá")


Com Cia Luarnoar

O infantil relata um pouco das histórias africanas contadas a partir das curiosidades e das observações que este povo faz na natureza. Como, por exemplo: Por que a girafa não fala, por que o morcego só sai à noite, por que o cachorro se tornou um fiel amigo do homem…

Esses questionamentos e inquietações viraram lendas, que revelam a riqueza do povo africano.

Livre.

50 min.

2 de maio (qua) – 14h30

Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato

Fonte:
Secretaria Municipal de Cultura de SP

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Teatro da Terra (O Ciclista, de Karl Valentin) 1 a 11 de Março


Maria João Luís encena e encarna Karl Valentin, autor maior da dramaturgia alemã.

Valentin, artista dos sete ofícios cria, fotografa, representa, filma, escreve, enquanto a sua Alemanha atravessa duas guerras mundiais, sempre atento ás dificuldades que um pais em guerra impõe, sem se conformar com a tendência que a propaganda nazi alinhava com a superioridade da raça ariana, foi por isso censurado e esquecido. Só a partir dos anos 70, com traduções francesas, é redescoberto e reconhecido como um dos maiores autores cômicos de sempre.

O Teatro da Terra leva à cena o seu humor corrosivo e irreverente para que não caia outra vez no esquecimento, este talento gigante, muitas vezes apelidado como o Charles Chaplin dos dadaístas de Munique.

de 1 a 11 de Março

4ª a Sábado às 21h30 | Domingos às 16h00

Teatro Cinema de Ponte de Sor

Info e reservas
967 710 598 | 242 292 073
teatrodaterra@gmail.com

bilhetes preço único: 7€

texto Karl Valentin
tradução Maria Adélia Silva Melo e Jorge Silva Melo
encenação Maria João Luís
com Inês Pereira, Maria João Luís, Pedro Mendes, Joaquim Rocha, João Fernandes
cenografia Maria João Luís
figurinos Maria João Castelo
dir. produção e luz Pedro Domingos

Com os melhores cumprimentos
Pedro Domingos
(Direcção de Produção)

TEATRO DA TERRA
CENTRO DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA DE PONTE DE SOR, CRL
Herdade do Colmeal, Ribeira das Vinhas
7400-070 Galveias
+351 967 710 598
teatrodaterra@gmail.com | https://teatrodaterra.wordpress.com

Escritório de Produção
Av. da Liberdade, 64
7400-218 Ponte de Sor
+351 242 292 073

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