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Ana Rita Martins (Para ler poesia)

Atividades de oralidade com poemas auxiliam turmas de 4º e 5º anos a descobrir a beleza da linguagem e a recitar com fluência e entonação

“A poesia tende a chamar a atenção da criança para as surpresas escondidas na língua.” A frase, do poeta José Paulo Paes (1926-1998), ilustra o potencial do gênero para despertar o gosto pelo uso da linguagem com fins estéticos. Por isso, nada mais natural do que explorar as brincadeiras sonoras desse tipo de texto, certo? Pode ser natural, mas não é usual. “Na maioria das vezes, as escolas lêem poemas apenas para buscar informações“, afirma Cláudio Bazzoni, selecionador do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. Muitas esquecem que incentivar a turma a ler poemas em voz alta é uma ótima estratégia para trabalhar conteúdos da oralidade, como sonoridade, rimas e ritmo (leia mais no quadro ao lado).

Por onde começar? Do 1º ao 3º ano, a sugestão é apresentar poemas divertidos que explorem o som das palavras, com onomatopéias (vocábulos que imitam barulhos) ou trava-línguas (versos difíceis de pronunciar). A partir do 4º ano, é possível usar textos mais complexos, aprofundando a relação entre o escrito e o falado e entre a forma e o conteúdo.

O que ensinar

Rondó dos Cavalinhos
Manuel Bandeira

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo
Tua beleza, Esmeralda
Acabou me enlouquecendo

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O sol tão claro lá fora
E em minhalma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo
E nós, cavalões comendo…
Alfonso Reys partindo
E tanta gente ficando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo…
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minhalma— anoitecendo!

– PONTUAÇÃO Cada sinal indica um tipo de pausa na leitura e uma intenção de quem escreveu
– RIMA Quando a repetição é terminal, a leitura precisa enfatizar as rimas para que elas apareçam.
– RITMO Marcar a leitura com palmas ajuda o aluno a manter a velocidade
– VOCABULÁRIO Entender o que se lê é essencial para encontrar o tom. Tire dúvidas antes de ler em voz alta (ex: avacalhando)
– LICENÇA POÉTICA Recursos como a contração conferem musicalidade aos versos, elemento típico da poesia (ex: minhalma)

A fala exprime sentimentos

A intervenção do professor deve ressaltar que a interpretação oral é essencial para transmitir o sentido adequado do poema. “Para que a leitura seja objeto de reflexão, o aluno precisa saber o porquê de estar lendo de determinada forma“, diz Ana Flávia Alonço Castanho, também selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. A entonação, a pontuação e o ritmo podem indicar tristeza, alegria, questionamento ou indignação. Para que a garotada perceba essas escolhas, duas ações são importantes. A primeira, prévia à leitura em voz alta, é explorar o sentido do poema: o entendimento do texto é essencial para a interpretação oral. A segunda é ressaltar as especificidades da poesia, como as licenças poéticas e as falsas terminações (versos que encerram a idéia no verso seguinte e não devem ser lidos com pausa no final).

Outra recomendação é relacionar a compreensão do texto pelos alunos com a possível intenção do autor. Embora não seja uma questão de certo ou errado – a interpretação de um poema é, em grande medida, subjetiva -, é interessante comparar a leitura da turma com a do próprio poeta (leia à direita uma seqüência didática que utiliza essa estratégia). Além disso, levar os alunos a confrontar as próprias estratégias de leitura (pedindo para lerem mais de uma vez) e as dos colegas ilumina semelhanças e diferenças sobre qual tipo de sentimento cada um quis transmitir com seu tom de voz, por exemplo.

Ler e entender: forte ligação

O professor também pode alterar elementos na leitura. Experimente ler para a classe sem enfatizar as rimas – isso fará as repetições “sumirem”, deixando claro que o jeito como se fala é essencial na poesia. De resto, é permitir que as crianças apreciem a beleza do gênero, atendendo ao apelo de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “O que eu pediria à escola era considerar a poesia primeiro como visão direta das coisas e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo que se identifica basicamente com a sensibilidade poética“.

Seqüência Didática
Do poeta ao aluno

Objetivos

Perceber as especificidades da linguagem poética.
Ler poemas ajustando a leitura ao texto escrito.

Conteúdos

Leitura.
Elementos da oralização das poesias: ritmo, rimas, entonação, falsas terminações etc.

Anos

4º e 5º.

Tempo estimado

Seis aulas.

Material necessário

Livro Manuel Bandeira – 50 Poemas Escolhidos pelo Autor e cópias xerocadas dos poemas que você escolher. Sugestões: Berimbau, Irene no Céu, Rondó dos Cavalinhos, Boca de Forno e Vou-me Embora pra Pasárgada.

Desenvolvimento

1ª ETAPA

Pergunte aos alunos se eles já viram alguém recitando poesias. O que uma pessoa precisa fazer para tornar esse texto bonito de ouvir? Estimule-os a refletir sobre essa questão distribuindo cópias das poesias de Manuel Bandeira e tocando o CD que vem com o livro. Deixe a turma ouvir algumas vezes, levantando idéias sobre os recursos da leitura. Registre as mais pertinentes em um cartaz, que servirá como material de consulta para o restante do trabalho.

2ª ETAPA

Explique aos alunos que agora você fará a leitura dos poemas. Peça que eles observem sua forma de interpretar. Chame a atenção para a cadência pedindo que a classe acompanhe o poema com palmas em diversos ritmos. Em qual velocidade a leitura ficou melhor? Por quê? Em seguida, varie a entonação e pergunte: que tipo de voz transmite melhor as emoções presentes no texto? Discuta as sensações que cada interpretação despertou, enfatizando que o poema é um dos gêneros literários que melhor exprimem sentimentos – e que a leitura pode reforçar ou diminuir o efeito pretendido.

3ª ETAPA

Organize as crianças em grupos de quatro alunos e entregue cópias de uma das poesias escolhidas. Explique que, enquanto um aluno lê a poesia para o seu grupo, os outros observam se a leitura segue as observações registradas no cartaz. Ao fim, o grupo deve discutir o que cada um deve melhorar para tornar a leitura mais envolvente.

Avaliação

Observe o desempenho da turma em relação a algumas questões. O aluno lê com fluência? Lê alto? Lê com entonação? Posiciona o texto adequadamente (sem cobrir o rosto) ao ler? Controla o ritmo da fala (nem muito rápido nem muito devagar)? Com base nos problemas encontrados, auxilie cada um nos aspectos que devem ser melhorados com a análise de boas referências (colegas ou CDs de poesias recitadas).

Fonte:
Revista Nova Escola. ano XXIII. n. 217. novembro de 2008. p.64-65.

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Fanny Abramovich por Fanny Abramovich

Nasci, cresci, estudei, namorei, badalei, trabalhei em São Paulo. Aqui me formei no curso de Pedagogia na Faculdade de Letras da USP. Comecei dando aulas particulares, quando tinha catorze anos. Depois, foram anos como professora de crianças, de jovens, de adultos, de professores. Lecionei pelo Brasil todo, mexendo mais com teatro-educação e criatividade-educação. Mexi com as cabeças, com os corpos, com o autoconhecimento. Curti.

Trabalhei anos como jornalista. Fazendo crítica de livros para crianças, falando do que se produzia para elas usufruírem. Mexi com os monstros sagrados, fiz ver coisas que passavam despercebidas. Adorei. Fiz o mesmo tipo de trabalho na televisão: na Globo e na Cultura. Falava sobre brinquedos, discos, teatro, livros infantis. Foi um barato! Colaborei com vários jornais e revistas.

Dei muita consultoria. Para projectos especialmente bolados para crianças e jovens. Na área do teatro, da literatura, da educação. Palpitei em coleções de livros para crianças e adolescentes. Amei de paixão!

Me iniciei nos mistérios do fazer livros infantis trabalhando, por uns dois anos, como consultora pedagógica da Editora Giroflé.

Circulei por este Brasil inteiro. Fazendo conferências, participando de mesas-redondas, dando cursos. Em grandes capitais ou em cidadezinhas escondidas. Em algumas ficando um dia, em outras três semanas. Foi ótimo!

Escrevi livros para professores. O mais conhecido deles é o Quem educa quem? Fiz antologias que discutiam questões da infância e da adolescência. Cutuquei. O último deles é O professor não duvida? Duvida!. Escrevi um montão de livros para jovens. Os mais conhecidos são Quem manda em mim sou eu, As voltas do meu coração e Que raio de professora sou eu?. Quem leu, curtiu. Maravilha! Tenho também vários livros para crianças publicados. Entre eles Também quero pra mim, Sai para lá dedo-duro e Olhos vermelhos. Adorei escrever cada um deles.

Sempre gostei do que fiz. Também, se não gostava, não fazia. Por isso curti tanto aquilo em que me joguei. E tem valido a pena.

Fonte:
http://www.vidaslusofonas.pt/fanny_abramovitch.htm

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