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Literatura na Escola (Plano de Aula – Narrativa de Dyonelio Machado)

OBJETIVOS

– Estimular o gosto pela leitura;
– desenvolver a competência leitora;
– desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico;
– estabelecer relações entre o lido/vivido ou conhecido (conhecimento de mundo);
– reconhecer e analisar os elementos da narrativa (narrador e seu ponto de vista, tempo);
– reconhecer e interpretar o discurso indireto livre.

CONTEÚDOS

Elementos da narrativa: narrador, tempo
discurso indireto livre

TEMPO ESTIMADO : Nove aulas

ANO : 9º ano

MATERIAL NECESSÁRIO

– Livro Os Ratos. Dyonelio Machado. São Paulo: Planeta, 2004.

DESENVOLVIMENTO

1ª etapa: Antecipação/Motivação/Sensibilização
.

LANCE A PERGUNTA À CLASSE:

Você já ouviu falar do escritor Dyonelio Machado? Conhece alguma obra que ele publicou?
Apresenta a biografia do autor.

Dyonelio Machado
Dyonelio Machado nasceu em Quarai, RS, em 21 de agosto de 1895. Além de escritor, Dyonelio foi médico psiquiatra. Aos 12 anos, já trabalhava no semanário O Quaraí, no qual teve seus primeiros contatos com a imprensa. Em 1929 formou-se médico e ingressou na psicanálise, constituindo-se num dos responsáveis pela sua divulgação no Rio Grande do Sul. Em 1934 traduziu a obra Elementos de Psicanálise, de Eduardo Weiss, livro fundamental na área. O interesse pela literatura surge por esta época, tendo seu primeiro livro de contos – Um pobre homem – publicado em 1927. Sua obra não é vasta, porém é bastante significativa: Os ratos, publicado em 1935, recebeu o prêmio Machado de Assis, depois veio O louco do Catí (1942), ambos considerados clássicos da literatura brasileira.
Faleceu em 19 de junho de 1985.
http://www.tirodeletra.com.br/biografia/DyonelioMachado.htm

Explique aos alunos que os dados biográficos interessam-nos só para conhecer um pouco da vida do autor, quantas obras escreveu, quais prêmios ganhou, a qual partido político pertencia. Deixe claro que uma análise literária que leva apenas em consideração a vida do autor tende ao equívoco, já que o escritor é decisivo só no momento da escritura. Depois de a obra estar pronta, ela fala por si só. O autor apenas cria, imagina a história, as personagens, o cenário e cria alguém responsável pelo ato de narrar: o narrador. Sendo assim, como afirma o contista Dalton Trevisan (Record, 1979), “nada tem a dizer fora dos livros. Só a obra interessa, o autor não vale o personagem. O conto é sempre melhor que o contista.”

PEÇA QUE OS ALUNOS RESPONDAM ORALMENTE:

A partir do título “Os Ratos”, o que você espera da história?

2º, 3º e 4º etapas:

Leitura compartilhada dos capítulos 1 e 2, seguida de troca de impressões gerais.

Pergunte à classe:
a- Qual é o drama vivido por Naziazeno e sua família?
b- Após o episódio do leiteiro, Naziazeno toma o bonde e segue em direção à repartição pública, da qual era funcionário. No caminho, trava conversa com um viajante, sentado ao seu lado. Veja:
” – Que horas serão?
— Sete horas passadas.
— Vou com atraso.
— A que horas você entra?
— Faltando um quarto pras oito.”

No bonde, perguntam ao viajante, companheiro de viagem de Naziazeno, o que ele levava consigo.

O moço responde: “ Leite. É o meu almoço”.

Naziazeno acha estranho e pensa:” — Como é que um homem pode se contentar apenas com um vidro de leite ao meio dia?”

– O que a fala do moço gera no íntimo de Naziazeno?

c- Ainda no bonde, Naziazeno escuta os viajantes conversando sobre os cavalos de corrida. A partir disso, Naziazeno parece sair do momento vivido e, via memória, é transportado para outro momento. Que momento é esse?

d- O narrador em 3ª pessoa parece conhecer Naziazeno a ponto de mencionar, logo após o episódio dos cavalos:“ Essa história agora lhe causou um mal-estar”. Que mal-estar é esse?

Leia o fragmento a seguir, que servirá de discussão para as questões e, f e g

“Já pôs o pé na calçada do mercado. O “café do Duque” fica na outra esquina. Toda essa calçada é uma sombra fresca e alegre, cheia de passos, de vozes.[…] Não enxerga o duque nos lugares habituais…E, entretanto, é a “ hora dele”. Vai ficar por ali, pelas portas, alguns minutos.Ele não poderá tardar. Nunca deixa de ir a esse café. Só por doença. Naziazeno bem que sentaria. Quem sabe?…talvez haja um conhecido nalguma mesa…Olha!…lá no fundo!…o Carvalho …Mas desvia vivamente a cara, faz que não vê o Carvalho.”

e- O fragmento acima é narrado em qual pessoa? Que efeito de sentido a escolha desse ponto de vista gera na narrativa?

Professor, insista com o aluno que as formas verbais “pôr” e “ enxergar” indicam ao leitor que se trata de uma 3ª pessoa. Veja: Quem pôs o pé= ele; Quem não enxerga o duque nos lugares= ele. Sendo assim, quem nos conta a história é um narrador de fora dela, não um narrador personagem.

Feito isso, lance a seguinte pergunta:

f- No trecho acima, apesar de ser contado por um narrador fora da história, em 3ª pessoa, é possível conhecer os pensamentos e sentimentos do personagem principal, Naziazeno?

É o momento de explicar/ retomar com o aluno o discurso indireto livre. Diga a ele que quando lemos uma narrativa, há um narrador, que é quem conta o fato. Esse locutor ou narrador pode introduzir outras vozes no texto. Ao modo como as falas/ vozes são introduzidas na narrativa, damos o nome de discurso. Ele pode ser classificado em: direto, indireto e indireto livre. Se considerar necessário, entregue-lhe o quadro abaixo:

Discurso direto

Reproduz fiel e literalmente algo dito por alguém.
Exemplo: Não gosto disso” – disse a menina em tom zangado.

Discurso indireto

O narrador, usando suas próprias palavras, conta o que foi dito por outra pessoa.
Exemplo: A menina disse em tom zangado que não gostava daquilo

Discurso indireto livre

Este tipo de discurso envolve a combinação de diferentes pontos de vista. O narrador insere “falas- pensamentos” das personagens no seu próprio discurso, dificultando a identificação precisa de quem seria o responsável pelo que está sendo dito (narrador ou personagem). É necessário que se tenha atenção para não confundir a fala do narrador com a fala do personagem, pois esta surge de repente em meio a fala do narrador.

Exemplo: A menina perambulava pela sala irritada e zangada. Eu não gosto disso! E parecia que ninguém a ouvia.

Agora que já explicou os tipos de discurso, pergunte ao aluno:

g- A que tipo de discurso pertence o trecho selecionado?

Fixação: o discurso indireto livre

h- Após o mal-estar, Naziazeno lamenta ter como esposa uma mulher tímida. Veja:

“ Também a sua mulher com os outros é tímida, tímida demais. Fosse a mulher do amanuense, queria ver se as coisas não marchariam doutro modo. Ela se encolhe ao primeiro revés[…] Ele precisava dum ser forte a seu lado. Toda a sua decisão se dilui quando vê junto de si, como nessa manhã, a mulher atarentar-se, perder-se empalidecer[…] Sentir-se-ia fortificado, ou ao menos” justificado”, se visse a seu lado a mulher do amanuense franzindo a cara ao leiteiro, pedindo-lhe para repetir o que houvesse dito, perguntando-lhe o que é que estaria porventura pensando deles. A sua mulher encolhida e apavorada é uma confissão pública de miséria humilhada, sem dignidade_ da sua miséria.”

Sabemos da lamentação de Naziazeno via narrador ou pela personagem. Retire fragmentos que comprovem sua resposta.

Após garantir o entendimento dos tipos de discurso, releia o fragmento da lamentação de Naziazeno sobre a mulher. Diga aos alunos que apesar de a narrativa não ser em 1ª pessoa, nós, como leitores, conhecemos os pensamentos e sentimentos de Naziazeno pelo narrador que, empregando o discurso indireto livre, dá a impressão de a fala, carregada de subjetividade, ser da personagem.

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 3, 4 e 5.

5º etapa: Retome os capítulos lidos em casa. Peça que os alunos respondam às questões a seguir, por escrito:

a- Qual é o único interesse de Naziazeno?

b- Ao descer do bonde, Naziazeno entra em um café. Via narrador, sabemos que o fato de ele ter saído do bonde lhe proporciona uma sensação mais agradável. Leia o fragmento a seguir:

“ Sente-se outro, tem coragem, quer lutar. Longe do bonde não tem mais a ‘morrinha’ daquelas ideias…”

Interprete o fragmento. Por que sair do bonde causa bem-estar em Naziazeno?

c- Após o café, devido às horas, sente-se obrigado a se dirigir à repartição, visando por em prática o seu primeiro plano. Que plano é esse?

d- Do momento em que Naziazeno saiu de casa até a sua chegada à repartição, percebemos o transcorrer das horas, que no romance são bem marcadas. Veja:

“- Faltando um quarto pras oito”
“O relógio da Prefeitura marca pouco mais de oito horas.”
“– Este relógio ainda está marcando oito e dez”
“Os relógios não andam certos. Mas já há de ser umas oito e vinte ou oito e meia. Às nove ele se encaminhará pra repartição”
“São oito e meia quase no relógio do café.”
“9 horas! Já está arrependido daquela longa ‘folga’”
[…]

É importante retomar com o aluno o conceito de tempo narrativo. Predomina em Os ratos o tempo cronológico, mensurado precisamente pelo relógio.

Chame a atenção do aluno pelas horas bem definidas.

Depois lance a seguinte pergunta. Peça que os alunos respondam oralmente:

a- Por qual motivo há no romance a obsessão pela hora marcada? O que o passar das horas representa para Naziazeno?

Às 9 horas, Naziazeno pretende falar com o diretor, porém antes de o fazê-lo, fica imaginando o que lhe dizer e o que receberá como resposta. Veja:

“— Doutor, vejo-me outra vez forçado a recorrer…” — Não ! isto é vago, geral. Deve dizer o fato, o que se passa. “— Doutor, imagine a minha situação, o meu leiteiro…” — Não ! Não! Trivialidade…uma trivialidade… “— O meu filho, doutor…” — Outra vez o teu filho, Naziazeno…sempre o teu filho…”

b- Após refletir sobre isso, como se sente Naziazeno? Sua postura é de alguém diferente do perfil tímido e humilde da mulher?

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 6 a 10.

6º etapa: Retome os capítulos lidos em casa. Depois, inicie uma conversa sobre a cidade.

É na cidade, locus por excelência do consumo, do aumento do nervosismo e da tensão, do domínio do exterior, das aparências e da indiferença que os indivíduos estabelecem uma relação com o dinheiro, único meio de sobrevivência. Em Os ratos, Naziazeno precisa de cinquenta e três mil réis para pagar a dívida que contraíra com o leiteiro e, por isso, sai pela cidade em busca de dinheiro. A narração segue, ao longo de 24 horas, as andanças desse funcionário público, movido por uma das mais básicas necessidades — a garantia de alimento. Ao tentar emprestar o dinheiro, Naziazeno sente a angústia de estar preso à condição urbana e sob o regime de terror imposto pelo dinheiro. Em decorrência do estado de tensão do protagonista, tudo ao seu redor lhe faz lembrar do problema que o atormenta.

Feito os comentários, pergunte aos alunos. Pode ser uma atividade escrita.

a – Como Naziazeno era recebido pelos possíveis credores?

b- Você considera Os Ratos uma crítica à maneira como o dinheiro acabou se tornando a mola propulsora das relações sociais?

Tarefa: Peça que os alunos leiam os capítulos 10 a 25. Estabeleça um cronograma de leitura, de modo a deixar para cada dia dois capítulos.

7º etapa: Retome os capítulos lidos em casa.

Peça que, oralmente, os alunos recuperem a saga de Naziazeno. O intuito é fazê-los perceber o sofrimento de um homem fadado à condição urbana: a máquina inescrupulosa das grades cidades.

Feito isso, peça que respondam por escrito:

Apesar de a trama passar em Porto Alegre, por nenhum momento o narrador afirma tratar-se desta cidade. Arrisque uma interpretação: por qual motivo não foram mencionados detalhes pelos quais pudéssemos reconhecer Porto Alegre?

8º e 9º etapas- leitura compartilhada dos capítulos 26 a 28

Lance a seguinte pergunta à classe. Pode ser uma atividade escrita:

O desfecho dado à narrativa é garantia de resolução dos problemas de Naziazeno?

AVALIAÇÃO

Com o livro em mãos, peça uma atividade escrita e individual.

1- Agora que já conhece a obra, analise o título “Os ratos”. Leve em consideração as suas inferências no início do projeto, o significado do título: suas expectativas para a história se mantiveram ou foram alteradas? Por quê?

2- O título Os Ratos é uma referência ao drama psicológico de Naziazeno Barbosa, protagonista da história, depois de ter conseguido o dinheiro para saldar a dívida com o leiteiro. Naziazeno, meio dormindo, tem o seguinte pesadelo: os ratos estão roendo o dinheiro que ele deixara à disposição do leiteiro sobre a mesa da cozinha.

Arrisque uma interpretação: qual o significado do sonho de Naziazeno?

Fonte:
Revista Nova Escola, disponível em
http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/literatura-escola-9o-ano-narrativa-dyonelio-machado-578513.shtml

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Como trabalhar a poesia em sala de aula (Luciana Cláudia de Castro Olímpio)

“A poesia sensibiliza qualquer ser humano. É a fala da alma, do sentimento. E precisa ser cultivada.” Afonso Romano de Sant’Anna

Mesmo sabendo da importância da poesia na vida dos seres humanos como mostra acima Afonso Romano, muitas escolas esqueceram-na, principalmente nas séries iniciais, dando mais espaços, entre aspas, para coisas mais importantes e mais sérias, como também para textos em prosa, privando os alunos dessa “experiência inigualável”, conforme caracteriza Maria Helena Zancan Frantz (1998, p. 80)

Neste artigo, enfatiza-se a necessidade de educadores, principalmente nas séries inicias, pois o aluno só cria hábito se for iniciada desde muito cedo, trabalharem com poesia na sala de aula ou fora dela.

O objetivo não é transformar os discentes em grandes escritores de poemas, até porque se precisa ter dom para esta arte, mas sim transformá-los em leitores aptos a interpretar e compreender o que o poeta quis transmitir em meio aos versos, além de propor que os educandos não percam a poesia que nasce neles desde quando as mães cantavam cantigas de ninar para que dormissem e depois quando brincavam de cantigas de roda, adivinhas, trava línguas etc.

Com esse objetivo, proponho alternativas de trabalhos com poesia e didáticas para implantação tanto no Ensino Fundamental como para o Ensino Médio baseadas nas idéias dos escritores relacionados no parágrafo abaixo.

Vários autores vêm pesquisando as questões da leitura e de trabalhos de poesias em sala de aula como Pinheiro (2002), Micheletti (2001), Frantz (1997), Cunha (1986) e investigam as dificuldades que os alunos possuem de interpretar estes textos, não só pela falta do conhecimento prévio, mas também pelo pouco contato que eles têm com a poesia.

Metodologia
Atualmente, a prática da leitura de poesia está um pouco esquecida nas escolas. Isso ocorre devido ao pouco contato, desde os primórdios de sua formação, dos educadores de Língua Materna.

“Está claro que a personalidade do professor e particularmente, seus hábitos de leitura são importantíssimos para desenvolver os interesses e hábitos de leitura nas crianças, sua própria educação também contribui de forma essencial para a influência que ele exerce.” (Banberger, 1986)

Sem trair o escritor estudado, posso afirmar que se o professor não tiver um hábito de ler poemas e não se sensibilizar ao ler uma poesia, dificilmente conseguirá despertar esse interesse em seus alunos como afirma Cunha (1986, p. 95):

“… se o professor não se sensibilizar com o poema, dificilmente conseguirá emocionar seus alunos.”

Sabidos de que a poesia é um dos gêneros literários mais distantes da sala de aula, é preciso descobrir formas de familiarizar e de aproximar as crianças e os jovens da poesia. E essa forma de familiarização e aproximação deve ser feita com parcimônia e através de um planejamento para evitar as várias afirmações de que os poemas são de difíceis interpretações e entendimento.

Pinheiro (2002, p.23) afirma que “… a leitura do texto poético tem peculiaridades e carece, portanto, de mais cuidados do que o texto me prosa.”

Assim a poesia não é de difícil interpretação, apenas necessita de mais cuidado e atenção para que ocorra um entendimento da mesma. A aprendizagem da interpretação da poesia compreende o desenvolvimento de coordenar conhecimentos dos vários sentidos que um texto poético proporciona.

Uma forma para melhorar a aprendizagem é a aproximação constante da poesia, como também a utilização do conhecimento prévio. O conhecimento prévio engloba o conhecimento lingüístico, que abrange desde o conhecimento sobre pronunciar o português, passando pelo conhecimento de vocabulário e regras da língua, chegando até o conhecimento sobre o uso da língua. O conhecimento do texto, que se refere às noções e conceitos sobre o texto, e, por último, o conhecimento de mundo, que é adquirido informalmente através das experiências, do convívio numa sociedade, cuja ativação, no momento oportuno, é também essencial à compreensão de um poema.

Se estes conhecimentos não forem respeitados, o entendimento e a compreensão do poema podem ficar prejudicados, e assim, como foi dito anteriormente, de difícil interpretação.

Como exemplo do que foi exposto no parágrafo anterior, coloco excerto do poema “Balada do amor através das idades”, de Carlos Drummond de Andrade (Cinco Estrelas, 2001, p. 26).

“Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana
Troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
Para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

(…)

Mas depois de mil peripécias,
Eu, herói da Paramount,
Te abraço, beijo e casamos.

A compreensão do poema acima pode ficar comprometida se o leitor não tiver um dos conhecimentos acima citado. A poesia de Drummond exige do discente um bom conhecimento de mundo e da história para que ele entenda a poesia, pois nela é citado, de certa forma, a Guerra de Tróia, os costumes romanos como também expõe o nome de um dos mais poderosos estúdios de Hollywood, dando referência aos finais felizes dos filmes.

Para amenizar os problemas do distanciamento, de interpretação e de compreensão poética, é necessário que o professor compreenda que o ato de interpretar um poesia não pode ficar restrito a sua forma de apresentação sobre uma página, ou seja, como ocorre a disposição das palavras, dos versos, das rimas e das estrofes, e nem somente pelos questionamentos apresentados nas atividades de interpretação propostas pelos livros didáticos, pois as perguntas são impressionistas. Assim afirma Micheletti (2001, p. 22):

Freqüentemente a interpretação textual dadas nos livros e materiais afins tem um caráter ‘impressionista’, ou seja, o autor das questões propostas ou dos comentários, registram as suas intuições, as suas impressões sobre o texto.”

É necessário ressaltar que o professor deve partir de uma leitura poética do mundo, fazendo da poesia motivo de apreciação lúdica e de motivação para a produção de intertextualidade ( relação existente entre textos diversos, da mesma natureza ou de naturezas diferentes e entre o texto e contexto) e de muitas outras formas de criar com seriedade, mas brincando com palavras.

Segundo Elias José (2003, p. 11) , “vivemos rodeados de poesia”, ou seja, poesia é tudo que nos cerca e que nos emociona quando tocamos, ouvimos ou provamos, poesia é a nossa inspiração para viver a vida.

Conforme Elias José (2003, p. 101), “ser poeta é um dom que exige talento especial. Brincar de poesia é uma possibilidade aberta a todos.”. Então, se todos podemos brincar de poesia, por que não trabalharmos a poesia de forma lúdica? Assim proponho atividades que oportunizem momentos lúdicos aos alunos, tendo em vista exercícios de imaginação, de fantasia e de criatividade e ao mesmo tempo mostrar a vida de uma forma mais poética, com maior liberdade para construir seu conhecimento.

Todas as estratégias capazes de aguçar a sensibilidade da criança e do adolescente para a poesia são válidas. É interessante para isso, que a poesia seja freqüentemente trabalhada para que ocorra um interesse por ela.

Um dos processos para o educador iniciar este trabalho, é ele fazer uma sondagem para descobrir os temas de maior interesse dos alunos, proporcionando uma maior participação. Este levantamento pode ser de forma direta, através de pequenas fichas ou ouvindo e anotando as temáticas preferidas dos alunos. Outro método é descobrir os filmes, os programas de rádios e de televisão que mais gostam. Isso é necessário para o professor saber que tipo de poesia pode levar para a sala de aula. Vale ressaltar que cada sala tem um gosto diferente. No entanto não se pode prender-se somente aos temas escolhidos pelos discentes. A variedade e a novidade também são métodos eficazes para a aprendizagem.

Faz-se necessário, antes de iniciar as atividades poéticas, preparar um ambiente adequado, principalmente nas séries iniciais, para que os alunos sintam-se a vontade para recitar e interpretar os textos poéticos. Além de uma biblioteca agradável, ventilada, espaçosa e com um acervo bem variado para que os estudantes possam escolher livremente na prateleira o livro que quiser.

Trabalhar com poesia em pares é muito interessante. Este trabalho é realizado de duas maneiras: primeiro, através da leitura da poesia, depois são propostas as atividades interpretativas, nada de questões objetivas, já que cada pessoa interpreta um texto de forma diferente, mas de maneira coerente.As duplas conversam sobre o texto, analisam as possibilidades possíveis e escrevem o que foi apreendido.

É através das diferenças individuais que a troca de experiências vai sendo edificada, como também a partir da reflexão e da construção social do conhecimento sustentada pela interação dos indivíduos envolvidos. Essa interação entre os sujeitos é fundamental para o desenvolvimento pessoal e social, pois ela busca transformar a realidade de cada sujeito, mediante um sistema de trocas.

É proveitoso ressaltar também que construir um cantinho para fixar vários tipos de poesia é um método eficaz para o incentivo da leitura e interpretação poética, pois quanto mais se lê, mais se aprende e cria o hábito da leitura não só de poesia como de outros tipos de textos. Pinheiro (2002, p. 26) afirma que:

Improvisar um mural, onde os alunos, durante uma semana, um mês, ou o ano todo colocam os versos de que mais gostam (…) de qualquer época ou autor, são procedimentos que vão criando um ambiente (…) em que o prazer de lê-la passa a tomar forma.”

Não satisfeita ainda com as metodologias apresentadas, proponho mais alguns métodos que são incentivadores para a prática da leitura de poesia, como o momento poético, a poesia e as datas comemorativas e a apresentação da poesia em forma de dança, desenho ou interpretação teatral.

O primeiro, momento poético, é um artifício aplicado em sala de aula, em que os estudantes, dispostos de forma bem a vontade, sentados no chão ou em almofadões, se a escola possuir, uma música suave ao fundo, recitam poesias de preferência pessoal, ligadas, de preferência ao momento literário estudado, buscando, junto aos colegas, descobrir a mensagem transmitida pelo autor da poesia. O segundo, a poesia e as datas comemorativas, apesar de ser bastante criticada, também é uma forma proveitosa de aprender a gostar e interpretar a poesia. Como é o caso do dia 07 de Setembro em que os brasileiros mostram seu patriotismo comemorando a independência do Brasil. O mestre pode trabalhar a poesia de Gonçalves Dias, “Canção do Exílio” , fazendo primeiramente uma leitura crítica, levando os discentes a observar a poesia e fazer um paralelo da época em que a canção foi feita e se a terra natal (Brasil) hoje é tão perfeita como apresenta Gonçalves Dias em sua poesia.

Trabalhar a poesia ligada as datas comemorativas só se torna enfadonho, pouco proveitoso, sem criatividade e método empobrecido, quando a poesia só é lembrada nestas datas.

O último método citado neste artigo, é a apresentação da poesia em forma de dança, desenho ou interpretação teatral. Um exemplo do primeiro, a dança pode ser representada pela poesia “A Bailarina”, de Cecília Meireles, em que as crianças ou adolescentes podem formar um grupo de dança, todas vestidas de bailarina, para interpretar corporalmente a poesia abaixo que deve ser recitada por um outro estudante. Não é obrigatório o professor trabalhar com esta poesia, ela pode ser substituída por outra, tudo depende do docente ou dos alunos.

“Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
Mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si
Mas fecha os olhos e sorrir.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
E nem fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
E diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
E também quer dormir como as outras crianças.

No caso do desenho, ótimo método para se trabalhar tanto nas aulas de Língua Portuguesa como nas de Artes. Os alunos em grupo tentam interpretar a poesia lida através do desenho, para depois apresentar aos colegas de sala para também ser analisada por eles. Depois os desenhos podem ser colocados ao lado da poesia referente a cada um e exposto em um mural em toda a escola ou só na sala de aula.

O “Soneto”, de Álvares de Azevedo, pode ser um exemplo para ser apresentado em forma de teatro lido. O narrador representa o eu lírico, lendo a poesia enquanto uma aluna representa a mulher recitada nos versos.

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria.
Pela maré das águas embaladas,
Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se balançava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando…
Negros olhos as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando;
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!”

Estas aulas anteriormente citadas são bem lúdicas. Os alunos aprendem em grupo, de forma bem participativa, a interpretar e compreender as poesias tendo contato com as idéias dos amigos de sala.

As poesias também podem ser trabalhadas como ajuda para produções de textos, como é o caso das poesias de Manuel Bandeira, grande escritor do Modernismo brasileiro, “O Bicho” ( retrata a desigualdade social), “O Poema tirado de uma notícia de jornal (incentiva a produção de uma narração relatando o cotidiano humilde das pessoas desprestigiadas socialmente) e para finalizar, tem-se “Irene Preta” (retrata o preconceito racial).

Este trabalho exige que o aluno descubra qual o tema apresentado na poesia, para depois escrever, de acordo com o gênero exigido, o texto.

A poesia pode ser trabalhada não só nas aulas de Língua Portuguesa, mas também nas aulas de História, Geografia e outras como é o caso da poesia “A Rosa de Hiroxima”, de Vinícius de Moraes, que retrata o triste acontecimento da explosão da bomba atômica em Hiroxima.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa sem nada

Esta poesia, como foi dito acima, pode ser trabalhada numa aula de história, que o professor, através dos versos, pode explicar todo o conteúdo desse aterrorizante acontecimento. Pode explicar, por exemplo, por que o poema se chama A Rosa de Hiroxima, como também explicar que os escritores modernistas transplantavam o momento vivido para as poesias, como é o caso de Vinícius.

Conclusão

Os professores devem trabalhar poesias e textos poéticos com seus alunos pois estes vêm sendo indicados como um dos meios mais eficazes para o desenvolvimento das habilidades de percepção sensorial da criança e do adolescente, do senso estético e de suas competências leitoras e, conseqüentemente, simbólicas.

A interação com a poesia é uma das responsáveis pelo desenvolvimento pleno da capacidade lingüística da criança e do adolescente, através do acesso e da familiaridade com a linguagem conotativa, e refinamento da sensibilidade para a compreensão de si própria e do mundo, o que faz deste tipo de linguagem uma ponte imprescindível entre o indivíduo e a vida.

Fonte:
Luciana Cláudia de Castro Olímpio – Publicado em 19.02.2008
http://www.duplipensar.net/

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