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Epopéias da Índia Antiga (O Mahabharata) I – Origens

A epopéia intitulada Mahâbhârata contém a história de uma raça descendente do rei Bharata, filho de Dushyanta e Sakuntala.

A palavra sânscrita maha significa “grande” e bharata eqüivale a “descendentes de Bharata”. Daí tomou a Índia o nome de Bharata, donde Mahabharata significar literalmente: Grande Índia ou História dos Grandes Descendentes de Bharata.

O cenário dessa epopéia é o antigo reino dos Kurus, de curta extensão e o tema é a luta de duas famílias parentes e rivais: a dos Kuranas e a dos Pândavás, que disputavam o domínio da índia.

O Mahâbhârata é a epopéia mais popular na Índia e goza de análoga autoridade como a que envolveu os poemas homéricos na antiga Grécia.

Com o tempo, acrescentaram-se muitos versos à primitiva composição, até formar um volumoso livro de uns cem mil dísticos, com narrações, lendas, mitos, trechos históricos e ensinamentos filosóficos que envol\l,em acessoriamente o tema principal.

Para melhor compreender-se o argumento que mais adiante esboçaremos, convém frisar que os árias não foram os primeiros povoadores do território hoje conhecido como pelo nome geográfico de índia, mas sim invasores, cujas tribos numerosas, chegando periodicamente a pouco e pouco, estenderam seu domínio até governar a população aborígene com incontestável poder.

Dois ramos de uma só família, os já citados Kuravas e Pândavas se desavieram por ambicionar e hegemonia da índia e a sucessão ao trono de Hastinapura. .

A guerra entre as duas famílias é o tema principal da epopéia que se desenvolve, de acordo com o que sucintamente vimos expor.

Fonte:
Vivekananda, Swami. Epopéias da Índia Antiga.

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Epopéias da Índia Antiga (O Râmâyana) Parte II – O Argumento

II
O Argumento

Na província de Oudh, hoje unida administrativamente à de Agra, subsiste ainda, embora ruínas, a antiquíssima cidade de Ayodhya, outrora um dos mais poderosos centros religiosos da índia e lugar de peregrinação.

Há muitos séculos, reinava em Ayodhya um rei chamado Dasaratha que, de nenhuma de suas três esposas, havia obtido sucessão; por isso, como bons hinduistas, foram em peregrinação a vários santuários e jejuaram em fervorosa súplica para que Deus lhes concedesse sucessão.

Finalmente seus rogos foram ouvidos e obtiveram resposta em quatro filhos, dos quais o maior foi Rama.

Como convinha à sua estirpe, os quatro irmãos receberam completa educação em todos os ramos do saber. Para evitar futuras contendas, era costume na antiga índia associar o rei o seu filho maior ao governo do país, sob o título de Yuvaraja, que significa: “o rei jovem”

Em outra cidade havia um rei chamado Janaka, o qual tinha unia afilhada maravilhosamente formosa, cujo nome era Sita e que fora encontrada recém-nascida em um campo, como se tivesse surgido do seio da terra.

Em sânscrito antigo, a palavra “Sita” significa “sulco feito pelo arado”, e na mitologia Índiana vemos personagens que só têm pai ou mãe ou nascem sem pai nem mãe, do fogo do sacrifício, de um campo, como se caíssem das nuvens etc.

Todas essas classes de nascimentos são freqüentes na mitologia Índiana.

Sita, como filha da Terra, era pura e imaculada. O rei Janaka criou-a e desejou encontrar-lhe digno esposo, quando a mesma atingiu a idade núbil. Na antiga índia costumavam as princesas reais escolherem marido. A esse costume deva-se o nome de Swayamvara; segundo esse costume, o pai da princesa convidava a todos os príncipes das redondezas para se apresentarem à corte, onde a princesa, ricamente vestida, grinalda nas mãos e precedida por um arauto que ia enumerando as prendas, passava diante deles e colocava a grinalda no pescoço daquele que a donzela havia escolhido para esposo.

Muitos eram os príncipes que suspiravam pela mão de Sita, a qual havia exigido, como prova de merecimento, que o candidato quebrasse com suas mãos um enorme arco chamado Haradhana.

Todos os príncipes fracassaram na tentativa, apesar dos seus esforços, menos Rama, que com elegância e facilidade apanhou o forte arco e com suas mãos quebrou-o pelo meio.

Por isso Sita elegeu a Rama por marido e as bodas foram celebradas com grande esplendor.

Rama levou sua esposa à corte de seu pai Dasaratha, o qual julgou oportuno o momento para nomear juvaraja o seu filho maior e confiar-lhe o governo do país.

Para esse fim Dasaratha preparou as cerimonias da proclamação e o povo acolheu entusiasticamente a notícia, quando uma donzela de Kalkeyi, a mais jovem das três esposas de Dasaratha, lembrou à sua senhora que, havia muito tempo, o rei seu esposo havia prometido duas coisas, em reconhecimento ao muito que a ele Ihe fizera, dizendo-lhe:

– Pede duas coisas que eu possa dar-te e eu lhas darei.

A rainha Kaikeyi, na ocasião, nada pediu a seu marido e até já havia esquecido a promessa; porém a maliciosa donzela começou a aguilhoar a alma da rainha, fazendo-lhe ver a injustiça de colocar a Rama no trono, quando fazendo ao rei cumprir sua promessa, seu próprio filho poderia ocupar o trono; foi assim que a rainha Kaikeyi ficou louca de ciúmes.

A astuta donzela incitou então sua ama para que exigisse logo do rei a concessão das duas coisas prometidas, sendo uma delas a ocupação do trono pelo seu filho Bharata e a outra que fosse a condenação de Rama a catorze anos de desterro nos bosques.

Embora Rama fosse a alma e a vida para o rei Dasaratha, este, como rei, viu-se obrigado a não faltar à sua palavra, quando a rainha Kaikeyi exigiu dele o cumprimento de sua promessa; por isso não sabia o que fazer.

Rama, porém, dissipou a dúvida, oferecendo-se voluntariamente a renunciar ao trono e sair desterrado, a fim de que ninguém pudesse acusar sua mãe de falsidade.

Por isso, seguiu para o desterro, acompanhado de sua amorosa esposa Sita e de seu irmão predileto Lakshmana, que, de modo algum, quis separar-se dele. Os árias não sabiam quem eram os habitantes dos bosques e, por isso, naquele tempo os chamavam “monos” e aos mais robustos e corpulentos chamavam “demônios”.

Rama, Sita e Lakshmana foram cumprir seu desterro em um daqueles bosques, habitados por monos e demônios, como talvez denominavam os árias as tribos selvagens.

Quando Sita manifestou o desejo de acompanhar seu marido no desterro, Rama lhe disse:

-Como podes tu, unia princesa, enfrentar as torturas que me aguardam em um bosque cheio de perigos traiçoeiros?

Sita, porém, respondeu:

– Onde Rama for, Sita irá também. Como podes falar-me de origens reais ou de altas linhagens? Irei contigo!

Rama foi acompanhado de Sita e do jovem Lakshmana, irmão menor de Rama. Internaram-se no bosque, até que alcançaram as margens do rio Godavari, onde construíram uma choças e passaram a sustentar-se de frutos silvestres.

Havia já passado algum tempo que ali estavam, quando, um belo dia, surgiu uma gigantesca demonia, irmã do gigante rei Lanka (Ceilão).

Vagando pelos bosques, encontrou-se com Rama e, ao vê-lo tão varonilmente formoso, apaixonou-se loucamente por ele. Rama, porém, além de casado, era um varão castíssimo e não quis corresponder ao amor da intrusa. Esta, para vingar-se, procurou seu irmão, a quem descreveu com ênfase a dominadora beleza de Sita, esposa de Rama, dizendo-lhe que dela se apoderasse.

Rama superava em poder todos os mortais e não havia gigante nem demônio, nem mortal algum que fosse capaz de vencê-lo. Por isso o rei gigante de Lanka buscou na astucia aquilo que considerou impossível conseguir pela força.

Dês-se modo, às artes de outro gigante, que era mago, o qual transformou-o em formoso cervo de Pêlo dourado. Assim metamorfoseado, este foi ao bosque onde Rama vivia e começou a saltar ao redor da cabana, até que, fascinada pela extraordinária beleza do animal, Sita pediu a Rama que o capturasse para ela. Indo à caça do animal, Rama deixou Sita sob os cuidados do seu irmão – Lakhsmana; este, porém, acendeu um círculo de fogo ao redor da cabana e disse à irmã:

– Pressinto que te vai acontecer algo de mau; Portanto, peço-te que não transponhas o círculo mágico, do contrário, cairás no infortúnio.

Entretanto, Rama havia ferido o cervo com uma flecha, tendo o animal morrido e se transformado em figura de homem. No mesmo instante, ouviu-se na cabana a voz de Rama que gritava:

– Ó Lakhsmana, vem socorrer-me.

Sita exclamou:

– Corre a ajudá-lo, ó Lakhsmana.

Lakhsmana replicou.

– Esta voz não é de Rama!

Entretanto, Sita de tal modo insistiu que Lakhsmana saiu a procurar Rama. Assim que ele se distanciou, apresentou-se junto ao círculo mágico, em frente à porta da cabana o rei gigante, disfarçado em monge mendicante, pedindo esmola.

Sita respondeu-lhe:

– Aguarda um pouco, pois logo meu marido voltará e te dará muita esmola.

O falso mendigo replicou:

– Não posso esperar, bondosa senhora, pois estou esfomeado. Dá-me o que tiveres.

Sita lançou mão de algumas frutas para atirá-las ao mendigo, mas este persuadiu-a a entregá-las pessoalmente, pois nada havia a temer de um santo varão.

Logo que Sita transpôs o círculo mágico para dar as frutas ao mendigo, este assumiu imediatamente sua fôrma gigantesca e arrebatou-a, colocando-a num carro encantado, que partiu velozmente com sua cobiçada presa.

A infeliz, desfeita em pranto, não teve quem a protegesse naquela solidão; lembrou-se porém, de assinalar o caminho percorrido com os adornos que trazia nos braços.

O rei gigante, raptor de Sita, chamava-se Râvana e levou-a a Lanka, seu reino, hoje denominado Ilha de Ceilão.

Chegado à corte, Râvana propôs a Sita que consentisse em ser sua esposa e rainha do país, ela, porém, que era a castidade personificada, não quis nem sequer ouvir as palavras de Râvana, que, para castigá-la, obrigou-a a permanecer dia e noite sob uma árvore, até que mudasse de atitude.

Quando Rama e Lakhsmana voltaram à cabana, não teve limites o desconsolo de ambos, quando notaram o desaparecimento de Sita, pois não podiam imaginar o que havia acontecido a ela. Saíram, pois, em busca da moça e explorando o bosque inteiro dela não acharam vestígios.

Já estavam cansados, quando encontraram um grupo de monos, chefiados por Hanumân, o “mono divino”, o melhor dos monos o qual, solicitamente, pôs-se a serviço de Rama. Inteirado do caso, disse-lhe que haviam visto atravessar os ares um carro em que ia sentado um demônio, ao lado de uma formosíssima mulher, toda em prantos, a qual ao voar o carro sobre eles, havia atirado um bracelete para chamar-lhes a atenção.

Quando lhe apresentaram o bracelete, Lakshmana não o reconheceu, porque na antiga Índia, a esposa do irmão mais velho era tão reverenciada pelos seus cunhados, que Lakhsmana nunca se havia atrevido a pousar o olhar nos braços de Sita, Rama, porém, reconheceu imediatamente o bracelete de sua esposa. Os monos então, disseram a Rama quem era e onde vivia aquele rei gigante. Isto feito, todos partiram para persegui-Io.

O rei dos monos chamava-se Bâli, porém, o trono lhe havia sido usurpado por seu irmão menor Sugriva. Houve luta, e Rama ajudou Bâli a recobrar a coroa. Este, agradecido, prometeu auxiliar Rama a libertar Sita. Entretanto, percorreram todo país sem encontrá-la.

Finalmente, o mono divino saltou das costas da Índia às do Ceilão, procurando Sita pela ilha inteira, sem lograr encontrá-la. Râvana havia vencido os deuses, os homens, o mundo inteiro e raptara todas as mulheres formosas. Por isso Hanumân refletiu e disse:

– Sita não pode estar com as concubinas no palácio. Teria preferido a morte à desonra.
Por essa razão, prosseguiu em suas pesquisas, encontrando, finalmente, Sita sob a árvore onde Râvana a aprisionara.

Estava pálida e delgada como a lua nova ao horizonte. Hanumân assumiu então a transpor o figura de um pequeno mono e, escondido na ramagem da árvore viu como a irmã gigante de Ravana vinha atemorizar Sita para forçá-la a submeter-se; a casta esposa, porém, nem queria ouvir falar do rei gigante.

Quando a irmão de Râvana partiu, Hanumân aproximou-se de Sita mostrando-lhe o bracelete que Rama lhe havia dado para atestar sua identidade, relatando-lhe como seu marido o havia incumbido de procurá-la; que seu marido, logo que soubesse onde ela estava, viria com um poderoso exército para vencer o gigante e libertá-la. Acrescentou, entretanto, que, se ela quisesse, poderia tomá-la nos braços e com um salto atravessar o oceano e devolvê-la a Rama; porém, como Sita era a castidade em pessoa, recusou aquela insinuação, porque deliberadamente não admitia ao seu lado outro homem senão seu marido. Assim, permaneceu onde estava e deu a Hanumân uma jóia desprendida de seus cabelos, para que a entregasse a Rama. O mono divino despediu-se dela e voltou para seu país.

Inteirado do que havia sucedido a Sita, segundo o relato de Hanumân, Rama reuniu um exército de monos, chegando ao ponto mais meridional da ilha, onde construíram uma ponte chamada Setu-Bandha, entre a índia e o Ceilão. Atualmente, com a maré baixa é possível passar a pé enxuto de um ponto a outro. Para construir a ponte, os monos arrancaram radicalmente várias colinas, assentaram-nas no mar e cobriram-nas com pedras e troncos de árvores. Um esquilo revolvia-se na areia para encher com ela o corpo e depois, ao passar no trecho da ponte em construção, sacudia-se todo para espalhar a areia, contribuindo assim com muitos grãos para o levantamento da obra colossal, dirigida e projetada por Rama.

Os monos riam e zombavam do esquilo ao vê-lo espadanar-se na areia e sacudi-la depois na ponte, pois seu trabalho era insignificante, comparado ao deles que carregavam colinas inteiras, enormes bosques e grandes cargas de areia.

Rama, porém, disse-lhes:

– Bem-aventurado é este esquilo, porque faz seu trabalho com toda a habilidade de que é capaz e, portanto, é tão grande como o maior de vós.

Em seguida, acariciou suavemente as costas do esquilo e é por isso que se vê até hoje nas costas desse animal a marca longitudinal dos dedos de Rama.

Terminada a ponte, o exército de monos, sob o comando de Rama e Lakshmana, invadiu a ilha do Ceilão. Durante alguns meses guerrearam encarniçadamente contra as hostes de Râvana que, finalmente, foi vencido e morto. Os vencedores se apoderam de todos os seus palácios, que eram de ouro maciço. Rama cedeu-os a Vibhishana, irmão menor de Râvana e levou-o ao trono, como recompensa dos valiosos serviços que havia prestado durante a guerra.

Rama e Sita resolveram sair de Ceilão com seu séquito e regressar à índia; o povo porém, quis que Sita demonstrasse haver permanecido pura, enquanto esteve em poder de Râvana.

Rama, respondeu-lhes:

– Que prova ou testemunho quereis, se minha esposa é a castidade personificada?
– Não importa! Queremos a prova.

Assim, acenderam uma fogueira sacrificial, cujas chamas não queimariam a Sita, se houvesse permanecido pura e ali a arrojaram.

Rama ficou angustiado, temendo pela vida de Sita, porém, no mesmo instante, surgiu o deus do fogo, trazendo em sua cabeça um trono, no qual a jovem estava assentada.

Todos ficaram satisfeitos pelo feliz resultado da prova.

Regressando ao bosque, Rama recebeu a visita de seu irmão Bharata, que o notificou da morte do velho rei Dasaratha, dizendo-lhe que não se atrevera a ocupar um trono ao qual não tinha direito e, portanto, como sinal de respeito, nele havia colocado os sapatos de Rama.

Este, então, voltou à capital e com o beneplácito do povo foi aclamado rei de Ayodhya, tendo prestado os juramentos de estilo que, nos tempos antigos faziam os reis em benefício do seu povo, pois o rei era escravo do povo e devia inclinar-se ante a opinião pública.

Depois que Rama passou alguns anos na feliz companhia de Sita, alguns começaram a espalhar a notícia de que a rainha havia sido outrora raptada por um demônio, que a levou além do oceano. O povo não se conformou com a prova do fogo e exigiu outra mais convincente, sob pena de ser a rainha desterrada.

Para satisfazer os pedidos do povo, Rama desterrou sua esposa, que foi viver no mesmo bosque em que estava a ermida do sábio e poeta Valmiki. Este encontrando a infeliz Sita chorosa e abatida, ficou sabendo o que havia ocorrido e abrigou-a em sua ermida, onde a rainha, pouco tempo depois, deu à luz dois gêmeos.

Com o passar do tempo, o rei Rama teve de celebrar um solene sacrifício, segundo os costumes reais; porém, como na Índia não permitem os Shastras que um homem casado celebre uma cerimonia religiosa, sem a companhia da esposa, de sua sahadharmini ou correligionária e Sita estava no desterro, o povo pediu a Rama que se casasse novamente. Ele, porém, pela primeira vez em sua vida, opôs-se à vontade do povo e disse: Isto não pode ser. Sita é minha vida!

Em vista disso, para que a cerimonia fosse realizada, o rei mandou construir uma áurea estátua de Sita e ordenou que se ornamentasse um palco no lugar do sacrifício, para intensificar o sentimento religioso, por meio de uma representação dramática.

Por esse tempo, os gêmeos de Sita, chamados Lava e Kusha, eram dois garbosos mancebos que Valmiki havia educado na vida de bramacharin (Noviço que faz voto de castidade, pobreza e obediência nos mosteiros hindus), sem revelar-lhes sua origem.

Durante aquele longo período, Valmiki havia composto a epopéia da vida de Rama, acompanhada de música apropriada para ser cantada em rapsódias. Sabedor do festival que ia realizar-se em Ayodhya, dirigiu-se à cidade com os desconhecidos filhos de Rama e Sita, os quais, sob a discrição de seu mestre, cantaram no palco a vida de Rama, com tão surpreendente habilidade que fascinaram os espectadores, presididos pelo rei, seus irmãos e os magnatas da corte.

Quando os cantores chegaram à passagem em que o poema descreveu o desterro de Sita, Rama ficou profundamente comovido. Valmiki, porém, disse-lhe:

Não te aflijas porque verás tua esposa.

Sita, então, surgiu no cenário, enchendo de alegria o coração de seu fiel e amoroso Rama.

O povo, porém, exigiu em altas vozes:

A prova! A prova!

Tão profundamente abalada ficou Sita por aquele reiterado receio do povo, a respeito de sua reputação, que implorou aos deuses um incontestável testemunho de sua inocência.

Naquele momento, a terra abriu-se e Sita desapareceu em sem seio, exclamando:

Eis a prova!

Ante tão trágico desfecho, o povo arrependeu-se. Rama estava inconsolável, curtindo imensa dor, quando, poucos dias depois, chegou um mensageiro dos deuses para dizer-lhes que estava terminada sua missão na terra e deveria voltar ao céu.

Aquela mensagem levou Rama ao reconhecimento do seu verdadeiro ser. Então, atirando-se às águas do rio Savayu (atualmente Gogra) que banhava a Capital, reuniu-se com sua amada Sita no outro mundo.

Fonte:
Vivekananda, Swami. Epopéias da Índia Antiga.

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Epopéias da Índia Antiga (O Râmâyana) Parte I

I
O Poeta

Entre os inúmeros poemas épicos ou epopéias que enriquecem a literatura sânscrita, sobressaem por seus méritos o Râmâyana e o Mahâbhârata, anteriores e superiores, em originalidade e beleza, à Ilíada e à Odisséia.

A língua sânscrita, com sua literatura, continua interessando aos orientalistas do Ocidente e aos eruditos do Oriente, embora há mais de dois mil anos não seja o sânscrito língua viva e não tenha perdido o seu caráter de sagrada.

O Râmâyana e o Mahâbhârata descrevem subalternamente os usos, costumes, crenças e cultura dos antigos monumentos da poesia sânscrita, embora anteriormente tenham sido escritos os Vedas, cuja maior parte está em forma métrica; todavia, na Índia o Râmâyana é considerado como a primeira e mais antiga produção poética.

O autor do Râmâyana foi Valmiki, sobre cuja vida teceram-se muitas conjeturas, do mesmo modo que a respeito de Homero e Shaskespeare no Ocidente, conquanto não caiba dúvida referente à autenticidade de sua existência. Se bem que muitos versos do poema não sejam seus, “mas interpolações, realçam entretanto a poética magnificência dessa obra sem par na literatura mundial.

Havia na Índia um jovem casado que, apesar de possuir compleição robusta, não encontrava trabalho para manter sua família, e que se tomara salteador de estradas, levado por aquele extremo desespero.

Atacava os viajantes, roubando-lhes tudo que levavam e com o fruto dos roubos mantinha seus velhos pais, sua mulher e filhos, sem que nenhum deles suspeitasse a sinistra procedência do dinheiro.

Assim levava a vida, quando certo dia passou pelo caminho em que estava um grande santo chamado Nârada, a quem o salteador deteve para roubar.

Porém Nârada perguntou-lhe:

– Por que queres roubar-me? Gravíssimo pecado é roubar e assassinar o próximo. Por que cometes tão grande pecado?

O salteador respondeu:

– Peco porque preciso manter minha família com o dinheiro que roubo.

O santo replicou:
– Crês que tua família participa do teu pecado?
– Sim certamente.
– Pois bem; prenda-me, ata-me os pés e as mãos e deixa-me aqui, enquanto vais à tua casa e perguntas a todos se querem participar do teu pecado, como participam do teu dinheiro.

O salteador concordou com a proposta, atou o santo foi à casa e perguntou a seu pai:
– Sabes como te sustento?
– Não sei.
– Sou um salteador de estradas, que roubo os viandantes e os mato se não se deixam roubar.
– Como fazes isto, meu filho? Afasta-te de mim! És um pária!

O salteador perguntou depois à sua mãe:
– Sabes como te sustento?
– Não sei.
– É com o produto dos meus roubos e assassinatos.
– Que coisa triste!
– Queres compartilhar de meu pecado?
– Por que haveria de fazê-lo? Nunca roubei a ninguém.

O salteador perguntou depois à sua esposa:
– Sabes como te mantenho?
– Não sei.
– Pois sou um salteador, de estradas e quero saber se estás disposta a compartilhar do meu pecado.
– Absolutamente. És meu marido e tens o dever de manter-me honradamente.

Então o salteador percebeu a maldade de sua conduta, ao ver que seus mais íntimos parentes negavam-se resolutamente a compartilhar a responsabilidade de suas más ações e volvendo ao sitio em que havia deixado o santo Nârada, desamarrou-o, relatou-lhe tudo quanto até então havia feito e caindo de joelhos a seus pés, exclamou compungido:

– Salva-me! Que devo fazer?

O santo respondeu-lhe:

– Abandona para sempre este gênero de vida, pois já viste que nenhum dos teus aprova o que fazes e te desprezam ao saber quem és. Participam de tua prosperidade, porém, quando nada tiveres para dar-lhes, hão de abandonar-te. Não querem compartilhar do teu mal, mas aproveitar-se dos teus bens. Portanto, adora Aquele que sempre está ao nosso lado, no mal e no bem; que nunca nos abandona porque o amor não conhece nem o engano, nem o egoísmo.

Depois Nârada ensinou-lhe a adorar a Deus; e aquele homem, renunciando por completo ao mundo, retirou-se para as selvas e entregou-se à meditação, esquecendo-se inteiramente de sua personalidade, de sorte que nem percebeu os formigueiros que surgiam em torno dele.

No fim de alguns anos ouviu uma voz que lhe dizia:

– Levanta-te, ó sábio!

Ele, porém, respondeu:
Sábio? Sou um ladrão …

A voz replicou:
– Já não és salteador de estradas. És um sábio purificado. Esquece teu antigo nome. Agora, já que tua meditação foi tão profunda que nem notaste os formigueiros que se formavam ao teu redor, chamar-te-ás Valmiki, que significa: “O que nasceu entre os formigueiros.”

Aquele que outrora era salteador de estradas converteu-se em um sábio. Um dia, quando foi banhar-se no sagrado rio Ganges, viu um casal de pombos que cirandavam, beijando-se com carinho; Valmiki contemplava enternecido tão formoso espetáculo, quando de súbito silvou uma flecha ao seu ouvido, indo matar o pombo.

A pomba, ao ver seu companheiro caído sem vida, deu voltas ao redor do cadáver, com mostra de profundo pesar.

Valmiki revoltou-se e ao alongar a vista descobriu o caçador, a quem, possuído de nobre indignação apostrofou:

– És um miserável sem noção de piedade. Nem o amor pôde deter tua mão assassina?

Porém, Valmiki refletiu:

– Que é isto? Que estou dizendo? Nunca falei assim até agora!

Então ouviu uma voz que disse:

– Não temas, porque de teus lábios brota a poesia. Escreve a vida de Rama em linguagem poética, para benefício do mundo.

Assim começou a epopéia. O primeiro verso é uma torrente de piedade brotando do coração de Valmiki.

Fonte:
Vivekananda, Swami. Epopéias da Índia Antiga.

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