Arquivo da categoria: poemas avulsos

Ana Paula Lavado (Poemas Avulsos)

VOZES DO VENTO

Quando te disse
Que era da terra selvagem
Do vento azul
E das praias morenas…
Do arco-íris das mil cores
Do Sol com fruta madura
E das madrugadas serenas….

Das cubatas e musseques
Das palmeiras com dendém
Das picadas com poeira
Da mandioca e fuba também…

Das mangas e fruta pinha
Do vermelho do café
Dos maboques e tamarindos
Dos cocos, do ai u’é…

Das praças no chão estendidas
Com missangas de mil cores
Os panos do Congo e os kimonos
Os aromas, os odores…

Dos chinelos no chão quente
Do andar descontraído
Da cerveja ao fim da tarde
Com o Sol adormecido…

Dos merenges e do batuque
Dos muquixes e dos mupungos
Dos imbondeiros e das gajajas
Da macanha e dos maiungos.

Da cana doce e do mamão
Da papaia e do caju…

Tu sorriste e sussurraste
“Sou da mesma terra que tu!”

“NENHUM VERSO…”

Nenhum verso fala de mim
 nem do que eu penso
 nem do que eu sinto
 nem do que eu sou.

Na realidade,
 as palavras são apenas
 um jogo de letras
 mais ou menos cinzelado
 ao gosto de cada um.
 E poucos, muito poucos
 fazem delas seres vivos e humanos.

Eu não lhes dou vida.
 Trabalho-as com mais ou menos nexo
 ou talvez sem nexo,
 porque dele não sinto falta
 nem faz falta o que sou!

“CÁLICE DE PORTO”

Hoje já não pergunto porque não voltas.
 Apresso-me apenas para chegar a destino nenhum
 e apagar as luzes que te vestiram.
 Depois permaneço deste lado do palco. Este lado
 que se mantém inalterável e escuro, onde a vida
 não é mais que um reflexo isento de espelhos.
 Quisera ter-te… mas não passei de um adereço
 dispensável na representação.
 Resta-me apenas o cenário onde ainda te revejo
 e vou confundindo a realidade para que o sonho
 não se suicide.
 De alma nua, amo apenas o mar que nos uniu
 e odeio a mar que nos afastou.

Havíamos ficado, noites inteiras depois de um brinde
 onde juramos eternidade. Perdidos no riso
 ou exaustos na paixão, deixamos vazios, todos os cálices
 daquele Porto que escolhias por amor.
 As horas morriam no silêncio dos nossos corpos
 emudecidos de prazer, numa cama
 que ficou gravada pelas nossas mãos.

Se a morte chegasse, pediria apenas um cálice
 de Porto dourado. E morreria bebendo cada beijo teu!

À NOITE…PARA TI

Rendi-me ao encanto da noite e olhei-te.
Como se olha uma aguarela pintada nas cores do oceano,
deixei que a minha vontade se pintasse na mesma cor.
Esqueci os segredos,
troquei as memórias por um pedaço de mar
e sonhei-te. Sonhei-te nas palavras
de um sonho ainda por escrever,
e deixei que a dança me levasse, esquecendo
que quando a lua adormece
todos os sonhos podem acabar.
Desprendi os gestos, soltei a atitude
e reinventei cada pedaço de mim
para que as palavras não se esgotassem no tempo .
E aos primeiros raios de sol, fechei os olhos
e prolonguei o sonho,
sucumbindo a cada lembrança de um beijo teu.

MOMENTO

A cada momento a vida surpreende-me
e atraiçoa-me as forças.
Não é justo.
Até as palavras deixam de ter atitude
e o sentido passa a ser por conta de outrem.
Acendi a luz do candeeiro de pé
mas as paredes continuaram vazias.
Um silêncio ensurdecedor, arrepiante.
Quisera ouvir a tua voz…
mas até a memória me atraiçoa!

ALI O VERDE É MAIS VERDE

Ali o verde cheira a verde
Ali tudo é verde
O ar cheira a verde
O Arco-íris é verde
Em tantos tons de verde
Que até o Sol seria verde

Fontes:
http://www.minhaangola.org/#/ana-paula-lavado/4538290896
http://www.estudioraposa.com/index.php/category/poetas/ana-paula-lavado/
http://ferrao.org/2008/04/ana-paula-lavado-vozes-ao-vento.html

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Angola, poemas avulsos

Ernesto Coutinho Junior / PE (Poemas Avulsos)

VAQUEIRO ERRANTE

A vida de um vaqueiro
tem coisas para se contar
o patrão exige e grita
que ele deve cavalgar.

Surge um berro
chega um boi,
em galopada vibrante,
mensageiro da boiada
que ouviu o seu berrante.

A boiada assim entendendo
passo a passo caminhou,
para fazenda do patrão
que em pouco tempo chegou.

Reunido no curral,
nem um rés faltou,
o povo admirou,
o vaqueiro não chegou.

Cumprida a sua missão,
partiu para encontrar,
o amor que lhe foi roubado,
sem ter tempo de gritar.

Assim o vaqueiro foi
um dia ele há de voltar
pois na vida de um vaqueiro
tem coisas para se contar.

AS PEGADAS DA VIDA

Há momentos na vida
difíceis de se suportar
quando surge uma mão amiga
docilmente a nos acalantar.

O brilho que antes era raro
se faz presente ao acordar
descobrindo novos caminhos
fazendo-nos novamente triunfar.

Hoje a noite se tornou mais bela
o cérebro magnamente a criar
idéias, sonhos e anseios
no desejo nobre de reconquistar.

Permanecendo sempre humilde
deixando o exemplo de sempre servir
a todos com nobreza de alma
escrevendo o nome do verdadeiro amor.

LÁGRIMAS

Lágrimas que rolam de um rosto
Lágrimas que mexem sentimento
Lágrimas que se alegram por momentos
Lágrimas que expressam uma vida
Lágrimas derramadas em noites longas
Lágrimas que por horas se tornam pesadas
Lágriams doadas de um amor puro
Lágrimas sentidas de um homem criança
Lágrimas que falam de um alguém
Lágrimas que amam
Lágrimas que perdoam
Lágrimas que buscam
Mesmo com mágoas
Se alegram ao ver alguém
Quem? Você.
Fonte:
União Brasileira de Escritores

Deixe um comentário

Arquivado em Pernambuco, poemas avulsos

Ascenso Ferreira (Poemas Avulsos)

O GÊNIO DA RAÇA

 Eu vi o gênio da raça!!!
 (Aposto como vocês estão pensando que eu vou
 falar de Rui Barbosa).
 Qual!
 O Gênio da Raça que eu vi
 foi aquela mulatinha chocolate
 fazendo o passo de siricongado
 na terça-feira de carnaval!

MINHA ESCOLA

 A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
 E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
 Complicado como as Matemáticas;
 Inacessível como Os Luzíadas de Camões!

 À sua porta eu estava sempre hesitante…
 De um lado a vida… – A minha adorável vida de criança:
 Pinhões…Papagaios…Carreiras ao sol…
 Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
 Saltos de ingazeira pra dentro do rio…
 Jogo de castanhas…
 – O meu engenho de barro de fazer mel!

 De outro lado, aquela tortura:
 “As armas e os barões assinalados!”
 – Quantas orações?
 – Qual é o maior rio da China?
 – A 2+2 AB = quanto?
 – Que é curvilíneo, convexo?
 – Menino, venha dar sua lição de retórica!
 – “Eu começo, atenienses, invocando
 a proteção dos deuses do Olimpo
 para os destinos da Grécia!”
 – Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
 – Agora, a de francês:
 – Quand le christianisme avait apparu sur la terre…
 – Basta
 – Hoje temos sabatina…
 – O argumento é o bolo!
 – Qual é a distância da Terra ao Sol?
 – !??
 – Não sabe? Passe a mão à palmatória!
 – Bem, amanhã quero isso de cor…

 Felizmente à boca da noite,
 eu tinha uma velha que me contava histórias…
 Lindas histórias do reino da Mãe-d’Água…
 E me ensinava a tomar a bênção à lua nova.

TREM DE ALAGOAS
 
O sino bate,
 o condutor apita o apito,
 Solta o trem de ferro um grito,
 põe-se logo a caminhar…
 – Vou danado pra Catende,
 vou danado pra Catende,
 vou danado pra Catende
 com vontade de chegar…
Mergulham mocambos,
 nos mangues molhados,
 moleques, mulatos,
 vêm vê-lo passar.
 Adeus !
 – Adeus !
Mangueiras, coqueiros,
 cajueiros em flor,
 cajueiros com frutos
 já bons de chupar…
 – Adeus morena do cabelo cacheado !
Mangabas maduras,
 mamões amarelos,
 mamões amarelos,
 que amostram molengos
 as mamas macias
 pra a gente mamar
 – Vou danado pra Catende,
 vou danado pra Catende,
 vou danado pra Catende
 com vontade de chegar…
Na boca da mata
 ha furnas incríveis
 que em coisas terríveis
 nos fazem pensar:
 – Ali dorme o Pai-da-Mata
 – Ali é a casa das caiporas
 – Vou danado pra Catende,
 vou danado pra Catende
 vou danado pra Catende
 com vontade de chegar…
Meu Deus ! Já deixamos
 a praia tão longe…
 No entanto avistamos
 bem perto outro mar…
Danou-se ! Se move,
 se arqueia, faz onda…
 Que nada ! É um partido
 já bom de cortar…
 – Vou danado pra Catende,
 vou danado pra Catende
 vou danado pra Catende
 com vontade de chegar…
Cana caiana,
 cana rôxa,
 cana fita,
 cada qual a mais bonita,
 todas boas de chupar…
 – Adeus morena do cabelo cacheado !
 – Ali dorme o Pai-da-Matta !
 – Ali é a casa das caiporas
 – Vou danado pra Catende,
 vou danado pra Catende
 vou danado pra Catende
 com vontade de chegar…

A MULA DE PADRE

Um dia no engenho,
Já tarde da noite
Que estava tão preta
Como carvão…
A gente falava de assombração:

— O avô de Zé Pinga-Fogo
Amanheceu morto na mata
Com o peito varado
Pela canela do Pé-de-Espeto!
— O cachorro de Brabo Manso
Levou, sexta-feira passada,
Uma surra das caiporas!
— A Mula de Padre quis beber o sangue
Da mulher de Chico Lolão…

Na noite preta como carvão
A gente falava de assombração!
Lá em baixo a almanjarra,
A rara almanjarra,
Gemia e rangia
Oue o Engenho Alegria
É bom moedor…

Eh Andorinha!
Eh Moça-Branca!
Eh Beija-Flor. . .

Pela bagaceira
Os bois ruminavam
E as éguas pastavam
Esperando a vez
De entrar no rojão…
Foi quando se deu
A coisa esquisita:
Mordendo, rinchando,
As pôpas e aos pulos
Se pondo de pé
Com artes do cão,
Surgiu uma besta sem ser dali não…

— Atallia a bicha, Baraúna!
— Sustenta o laço, Maracanã!
E a besta agarrada
Entrou na almanjarra,
Tocou-se-lhe a peia
Até de manhã …

E depois que ela foi solta
Entupiu no oco do mundo!
Num abrir e fechar d’olhos
A maldita se encantou…

De tardinha.
Gente vinda
Da cidade
Trouxe a nova
De que a ama
De seu padre
Serrador
Amanhecera tão surrada
Que causa compaixão!

……………………………….
Na noite tão preta como carvão
A gente falava de assombração.

CARNAVAL DO RECIFE

Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,
um clister de sebo quente em Pierrô!

E somente ficaram os máscaras da terra:
Parafusos, Mateus e Papangus…
e as Bestas-Feras impertinentes,
os Cabeções e as Burras-Calus…
realizando, contentes, o carnaval do Recife,
o carnaval mulato do Recife,
o carnaval melhor do mundo!

– Mulata danada, lá vem Quitandeira,
lá vem Quitandeira que tá de matá!

– Olha o passso do siricongado!
– Olha o passo da siriema!
– Olha o passo do jaburu!
E a Nação-de-Cambinda-Velha!
E a Nação-de-Cambinda Nova!
E a Nação-de-Leão-Coroado!

– Danou-se, mulata, que o queima é danado!
– Eu quero virá arcanfô!
Que imensa poesia nos blocos cantando:
“Todo mundo emprega
grande catatau,
pra ver se me pega
o teu olho mal!”
– Viva o Bloco das Flores! Os Batutas!
 Apois-fum!
(Como é brasileira a verve desse nome: Apois-fum!)
E o Clube do Pão Duro!
(É mesmo duro de roer o pão do pobre!)

– Lá vem o homem dos três cabaços na vara!
“Quem tirar a polícia prende!”

– Eh, garajuba!
Carnavá, meu carnavá,
tua alegria me consome…
Chegô o tempo das muié largá os home!
Chegô o tempo das muié largá os home!
Chegou lá nada…

Chegou foi o tempo delas pegarem os homens,
porque chegou o carnaval do Recife,
o carnaval mulato do Recife,
o carnaval melhor do mundo!

– Pega o pirão, esmorecido!

“OROPA, FRANÇA E BAHIA”

Num sobradão arruinado,
Tristonho, mal-assombrado,

Que dava fundos prá terra.
( “para ver marujos,
Ttituliluliu!
ao desembarcar”).

…Morava Manuel Furtado,
português apatacado,
com Maria de Alencar!

Maria, era uma cafuza,
cheia de grandes feitiços.
Ah! os seus braços roliços!
Ah! os seus peitos maciços!
Faziam Manuel babar…

A vida de Manuel,
que louco alguém o dizia,
era vigiar das janelas
toda noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de “Oropa, França e Bahia”!

— Me dá uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria.
— Estás idiota , Maria.
Essas naus foram vintena
Que eu herdei da minha tia!
Por todo o ouro do mundo
eu jamais a trocaria!

Dou-te tudo que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim…

Nada.
A mulata só queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
prá ela ir ver essas terras
“De Oropa, França e Bahia”…

— Ó Maria, hoje nós temos
vinhos da quinta do Aguirre,
uma queijadas de Sintra,
só prá tu te distraire
desse pensamento ruim…
— Seu Manuel, isso é besteira!
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim!

“Ó lua que alumias
esse mundo de meu Deus,
alumia a mim também
que ando fora dos meus…”
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus.

“Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas não são”…
Cantava forte Maria,
pisando fubá de milho,
lentamente no pilão…

Uma noite de luar,
que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul…
— Ah! Seu Manuel, isso chega…
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul.

— “Onde vais mulhé?”
— Vou me daná no carrosé!
— Tu não vais, mulhé,
— mulhé, você não vai lá…”

Maria atirou-se n’água,
Seu Manuel seguiu atrás…
— Quero a mais pichititinha!
— Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido da minha tia !
Vêm dos confins do mundo…
De “Oropa, França e Bahia”!

Nadavam de mar em fora…
(Manuel atrás de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia…
Faz-se um silêncio nas águas,
cadê Manuel e Maria?!

De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia…
Seu Manuel era um “Boi Morto”,
Maria, uma “Cotovia”!

E as naus de Manuel Furtado,
herança de sua tia?

— continuam mar em fora,
navegando noite e dia…
Caminham para “Pasárgada”,
para o reino da Poesia!
Herdou-as Manuel Bandeira,
que, ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

— As eternas naus do Sonho,
de “Oropa, França e Bahia”…

MARACATU

Zabumba de bombos,
Estouro de bombas,
Batuques de ingonos,
Cantigas de banzo,
Rangir de ganzás…

– Luanda, Luanda, onde estás?
Luanda, Luanda, onde estás?

As luas crescentes
De espelhos luzentes,
Colares e pentes,
Queijares e dentes
De maracajás…

– Luanda, Luanda, onde estás?
Luanda, Luanda, onde estás?

A balsa do rio
Cai no corrupio
Faz passo macio,
Mas toma desvio
Que nunca sonhou…

– Luanda, Luanda, onde estou?
Luanda, Luanda, onde estou?

FILOSOFIA

Hora de comer – comer!
 Hora de dormir – dormir!
Hora de vadiar – vadiar!

Hora de trabalhar?
– Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

Deixe um comentário

Arquivado em Pernambuco, poemas avulsos

Alberto Caeiro (Poemas Avulsos)

Alberto Caeiro da Silva foi uma personagem ficcional (heterónimo) criada por Fernando Pessoa, sendo considerado o Mestre Ingénuo dos restantes heterónimos (Álvaro de Campos e Ricardo Reis) e do seu próprio autor, apesar da apenas ter tido instrução primária.

“A ESPANTOSA…”
A espantosa realidade das coisas
 É a minha descoberta de todos os dias.
 Cada coisa é o que é,
 E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
 E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
 Hei de escrever muitos mais, naturalmente.
 Cada poema meu diz isto,
 E todos os meus poemas são diferentes,
 Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
 Não me ponho a pensar se ela sente.
 Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
 Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
 Gosto dela porque ela não sente nada.
 Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
 E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
 Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
 Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
 Porque o penso sem pensamentos
 Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
 E eu admirei-me, porque não julgava
 Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
 Eu nem sequer sou poeta: vejo.
 Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
 O valor está ali, nos meus versos.
 Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

“BOLAS DE SABÃO”

As bolas de sabão que esta criança
 Se entretém a largar de uma palhinha
 São translucidamente uma filosofia toda.
 Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
 Amigas dos olhos como as coisas,
 São aquilo que são
 Com uma precisão redondinha e aérea,
 E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
 Pretende aue elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
 São como a brisa que passa e mal toca nas flores
 E que só sabemos que passa
 Porque qualquer coisa se aligeira em nós
 E aceita tudo mais nitidamente.

“MENINO JESUS”

Num meio-dia de fim de Primavera
 Tive um sonho como uma fotografia.
 Vi Jesus Cristo descer à terra.
 Veio pela encosta de um monte
 Tornado outra vez menino,
 A correr e a rolar-se pela erva
 E a arrancar flores para as deitar fora
 E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
 Era nosso demais para fingir
 De segunda pessoa da Trindade.
 No céu tudo era falso, tudo em desacordo
 Com flores e árvores e pedras.
 No céu tinha que estar sempre sério
 E de vez em quando de se tornar outra vez homem
 E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
 Com uma coroa toda à roda de espinhos
 E os pés espetados por um prego com cabeça,
 E até com um trapo à roda da cintura
 Como os pretos nas ilustrações.
 Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
 Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas –
 Um velho chamado José, que era carpinteiro,
 E que não era pai dele;
 E o outro pai era uma pomba estúpida,
 A única pomba feia do mundo
 Porque nem era do mundo nem era pomba.
 E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
 Não era mulher: era uma mala
 Em que ele tinha vindo do céu.
 E queriam que ele, que só nascera da mãe,
 E que nunca tivera pai para amar com respeito,
 Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
 E o Espírito Santo andava a voar,
 Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
 Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
 Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
 Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
 E deixou-o pregado na cruz que há no céu
 E serve de modelo às outras.
 Depois fugiu para o Sol
 E desceu no primeiro raio que apanhou.
 Hoje vive na minha aldeia comigo.
 É uma criança bonita de riso e natural.
 Limpa o nariz ao braço direito,
 Chapinha nas poças de água,
 Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
 Atira pedras aos burros,
 Rouba a fruta dos pomares
 E foge a chorar e a gritar dos cães.
 E, porque sabe que elas não gostam
 E que toda a gente acha graça,
 Corre atrás das raparigas
 Que vão em ranchos pelas estradas
 Com as bilhas às cabeças
 E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
 Ensinou-me a olhar para as coisas.
 Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
 Mostra-me como as pedras são engraçadas
 Quando a gente as tem na mão
 E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
 Diz que ele é um velho estúpido e doente,
 Sempre a escarrar para o chão
 E a dizer indecências.
 A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
 E o Espírito Santo coça-se com o bico
 E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
 Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada
 Das coisas que criou –
 “Se é que ele as criou, do que duvido.” –
 “Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
 Mas os seres não cantam nada.
 Se cantassem seriam cantores.
 Os seres existem e mais nada,
 E por isso se chamam seres.”
 E depois, cansado de dizer mal de Deus,
 O Menino Jesus adormece nos meus braços
 E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
 Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
 Ele é o humano que é natural.
 Ele é o divino que sorri e que brinca.
 E por isso é que eu sei com toda a certeza
 Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
 É esta minha quotidiana vida de poeta,
 E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
 E que o meu mínimo olhar
 Me enche de sensação,
 E o mais pequeno som, seja do que for,
 Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
 Dá-me uma mão a mim
 E outra a tudo que existe
 E assim vamos os três pelo caminho que houver,
 Saltando e cantando e rindo
 E gozando o nosso segredo comum
 Que é saber por toda a parte
 Que não há mistério no mundo
 E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
 A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
 O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
 São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
 Na companhia de tudo
 Que nunca pensamos um no outro,
 Mas vivemos juntos e dois
 Com um acordo íntimo
 Como a mão direita e a esquerda.

QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando vier a Primavera,
 Se eu já estiver morto,
 As flores florirão da mesma maneira
 E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
 A realidade não precisa de mim.
 Sinto uma alegria enorme
 Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
 Se soubesse que amanhã morria
 E a Primavera era depois de amanhã,
 Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
 Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
 Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
 E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
 Por isso, se morrer agora, morro contente,
 Porque tudo é real e tudo está certo.
 Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
 Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
 Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
 O que for, quando for, é que será o que é.

“ASSIM COMO FALHAM AS PALAVRAS”
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
 Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer
 realidade.
 Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
 Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
 Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
 O resto é uma espécie de sono que temos,
 Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

“GUARDADOR DE REBANHOS”

Eu nunca guardei rebanhos,
 Mas é como se os guardasse.
 Minha alma é como um pastor,
 Conhece o vento e o sol
 E anda pela mão das Estações
 A seguir e a olhar.
 Toda a paz da Natureza sem gente
 Vem sentar-se a meu lado.
 Mas eu fico triste como um pôr de sol
 Para a nossa imaginação,
 Quando esfria no fundo da planície
 E se sente a noite entrada
 Como uma borboleta pela janela.
 Mas a minha tristeza é sossego
 Porque é natural e justa
 E é o que deve estar na alma
 Quando já pensa que existe
 E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
 Como um ruído de chocalhos
 Para além da curva da estrada,
 Os meus pensamentos são contentes.
 Só tenho pena de saber que eles são contentes,
 Porque, se o não soubesse,
 Em vez de serem contentes e tristes,
 Seriam alegres e contentes.
 Pensar incomoda como andar à chuva
 Quando o vento cresce e parece que chove mais.
 Não tenho ambições nem desejos.
 Ser poeta não é uma ambição minha,
 É a minha maneira de estar sozinho.
 E se desejo às vezes
 Por imaginar, ser cordeirinho
 (Ou ser o rebanho todo
 Para andar espalhado por toda a encosta
 A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
 É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
 Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
 E corre um silêncio pela erva fora.
 Quando me sento a escrever versos
 Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
 Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
 Sinto um cajado nas mãos
 E vejo um recorte de mim
 No cimo dum outeiro,
 Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
 Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
 E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se
 diz E quer fingir que compreende.
 Saúdo todos os que me lerem,
 Tirando-lhes o chapéu largo
 Quando me vêem à minha porta
 Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
 Saúdo-os e desejo-lhes sol,
 E chuva, quando a chuva é precisa,
 E que as suas casas tenham
 Ao pé duma janela aberta
 Uma cadeira predileta
 Onde se sentem, lendo os meus versos.
 E ao lerem os meus versos pensem
 Que sou qualquer coisa natural –
 Por exemplo, a árvore antiga
 A sombra da qual quando crianças
 Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
 E limpavam o suor da testa quente
 Com a manga do bibe riscado.

“É NOITE”
É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
 Brilha a luz duma janela.
 Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
 É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
 Atrai-me só por essa luz vista de longe.
 Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.
 Mas agora só me importa a luz da janela dele.
 Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
 A luz é a realidade imediata para mim.
 Eu nunca passo para além da realidade imediata.
 Para além da realidade imediata não há nada.
 Se eu, de onde estou, só vejo aquela luz,
 Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
 O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
 Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
 A luz apagou-se.
 Que me importa que o homem continue a existir?

Fonte:
Alberto Caeiro in Poemas Inconjuntos, Vol. I , Obras Completas, de Fernando Pessoa.

Deixe um comentário

Arquivado em poemas avulsos, Portugal

Carmen Cardin (Poemas Avulsos)

CANTO DO CORAÇÃO

Confesso que adoro um Serafim, O Amado!
Versos serão eficazes ao tentar descrevê-lo?
Suplício do meu ser, arroubo extremado…
Martírio: A Paixão e o seu pesadelo.

Que mescla fanática é esta que fazem
os deuses lascivos às leis da Fantasia
que só desejos aos espíritos trazem
castigando-os com o Amor, covardia!

Revelai-me que fórmula misteriosa e secreta
ingrata, invencível, é esta, oh Imortais!?
Como amortecer, do furor do Amor, a seta?
Como livre viver sem sofrê-lo mais?

O veneno condenou a alma da minh’alma
Que antídoto livrar-me-ia de tal ferida ?
Se é o Amor que me aflige, mas me acalma;
Se é este Amor, o grande amor, da minha vida?

EM PRETO E BRANCO

Eu aposto nas emoções praticadas
Da Ternura, ela atravessa fronteiras!
Amo o sabor das coisas delicadas,
Amo o valor das coisas verdadeiras.

Em cada muito, do pouco que faço,
Em cada tudo, do nada que sinto,
A surpresa do viver trái o meu traço:
Dizendo a verdade, eu minto!

No rubor da minha face me afugento
(Às vezes tem-se o nada e este é tanto!)
O carmim dos meus lábios é sedento
A maquiagem dos meus olhos é o pranto.

Não faço planos, desconheço o que é promessa.
Nada tenho. Nada sou. Nada sei.
Nada peço, tudo quero, tenho pressa!
O artifício do amor é a minha lei!

“ LOUCURA “

Acariciei, suavemente, os teus cabelos
Beijei os teus pés, oh criatura!
Teus gemidos? Passei a tê-los
Iludi-me com a tua jura!

Da tua imagem tão amada
Fiz uma obra, uma escultura.
De ouro, de brilhantes, dourada
A arte heróica da minha bravura.

Para satisfazer os desejos teus
Percorri toda senda escura:
Fui ao céu falar com Deus:
Fui ao inferno, quanta loucura!

Eu te desejei de toda a minh’alma
Eu te amei com a maior ternura!
Teu ser até perturbou-me a calma
Eu que tinha a mente segura!

Mas agora (maldição!) tudo se acabou
Foi tempestade forte, que não dura
A doença do amor que me vitimou
Será, no mundo, minha única cura!

” FRUTO VERDE”

Desejável é o fruto, adorável é o sabor
(Romance esse eu queria ter vivido!)
Mais vale não se manifestar o amor
Que ser ele um desejo proibido.

Como um anelo filosófico, profundo
Tal uma ânsia pungente e vital
Assim é o querer, sentimento oriundo
Do Bem, o fôlego da vida, do mal!

Eu seria a primorosa companheira,
Tu serias a inspiração altaneira,
Se o nosso utópico sonho fosse verdade…

Entretanto, a realidade é diferente:
Ainda em nosso mundo não se fez presente
O esplendoroso alvorecer da Felicidade!

“TESE”

Não ouse pensar que O Poeta
É um bêbado, andarilho sem rumo
Ele é, do vernáculo, o atleta
A fantasia de uso e consumo.

O Poeta tem o compromisso sério
De profetizar em tom etéreo
De filosofar além do erudito.
O Poeta é a chave do cofre. O servo
À mercê da paixão. O indecifrável verbo,
Que encarnou-se e está escrito.

O Cavalheiro que conduz, extraordinário,
As rédeas do Sonho, o lendário,
Adorado e odiado ser trovador.
O Poeta é aquele que, alheio a tudo,
Grita com o coração n’um canto mudo,
Sofre com a emoção do mundo, a dor!

Não ouse pensar que O Poeta
Imagina, pretensioso, ser Deus…
Ele é, apenas, a certeira seta
Que atinge o alvo dos sonhos seus!

INSPIRAÇÃO

Não troco esse momento
Por nada deste mundo,
Um planeta meu e profundo,
O asteróide do sentimento.

Eu me rendo e me faço
Prisioneira desse instante
Alucinada e delirante
Suor, coração e bagaço.

É minha droga, é meu vício,
Essa essência que inspiro,
Entre um e outro suspiro,
Entre o prazer e o suplício!

É minha deusa, a poderosa,
Que me concede e me inventa,
Nos braços do sonho me sustenta,
Sou tua, Inspiração Preciosa!

TRUNFO

Se fervilha o sangue de um escritor,
Se, de um escritor, o sangue fervilha
Este transforma os rochedos da ilha
Em rosas púrpuras de um doce amor.

Se, frenéticos deslizam os seus dedos,
Se os seus dedos, frenéticos deslizam,
Em papéis, letras áureas magnetizam,
Hipnotizando os assombrosos medos.

Mas, até mesmo esse padecer horrível,
É artística invenção, que ser incrível!
Imagina e destrói seus próprios fatos.

O escritor embriaga-se do seu vinho
Mas não faz nada liberto ou sozinho:
A Inspiração ilumina os retratos!

INSTINTO

Poderá o tempo
Apagar a chama
E o desejo sucumbir
Em tão longa espera?
Por que o meu corpo te ama
E o meu espírito te venera!

Não conheço eu
Tão sofrida trama…
A saudade é cruel
A medonha fera.
Por que o meu corpo te ama
E o meu espírito te venera!

À noite não tenho
Sossego na cama…
Meu coração travando
Angustiante guerra
Por que o meu corpo
Faminto… te ama!
E o meu espírito
Sedento… te venera!

TEMPO DO NADA

Recordar, para que, os momentos felizes,
Se momentos são, lembranças e mais nada?
Como falsa tatuagem, pelo tempo apagada,
Deixam rastros somente e não cicatrizes.

Esquecer. Esquecer. Esquecer, isso é tudo!
Sepultar os destroços, dar a volta por cima,
Espantar os fantasmas da saudade, contudo,
A saudade é como a dor: a dor nos ensina!

Curioso como o tempo lança seus espinhos
Farpas do passado que insiste em assombrar
Alma penada, renegada, insepulta e sombria.

Por mais que o tempo passe, certas coisas não modifica
Resta a fantasia do desejo, o sabor do amor também fica
E o gosto do que não se viverá mais, enganosa alegria!

Fontes:
1 – http://antologiamomentoliterocultural.blogspot.com.br/2012/02/carmen-cardin-entrevista-n-387.html
2- http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2012/02/carmen-cardin-poeta-e-professora.html

Deixe um comentário

Arquivado em poemas avulsos, Rio de Janeiro

Ladyce West/ RJ (Teia de Poemas)

PRESENÇA INVISÍVEL                

                                      Ao contemplar a obra  de João Bez Batti no Instituto Moreira Sales, RJ,  Novembro de 2006

Senti a presença invisível
De mãos grossas, calejadas,
Que acariciaram a pedra,
O basalto negro
Ou vermelho,
Ou até mesmo o mármore.

 Constatei mesmerizada
Que trouxeram à superfície
A essência;
Que libertaram, a Michelangelo,
A forma presa no seixo,
O orgânico escondido,
Inerte,
Meio-solto,
Quase-aprisionado.

 Mãos que revelaram os escravos encapsulados,
Seres encarcerados no mesozóico,
Como se, conhecendo o desastre de Pompéia
Depois do escarro fulminante do Vesúvio,
Soubessem encontrar:
O cactos florescente, o cágado,
A abóbora moranga. 
Caracóis.
E bólidos petrificados.

 Estas mãos, que brincam
Sedutoramente
Com o poder divino,
Conhecem o conteúdo,
A alma invisível da pedra.
Descobrem o cascalho gaúcho,
Chocam os grandes ovos de rio,
E parem os seres cativos nas  pedras,
Como Eva o tinha sido na costela de Adão.

 E o que surpreende: estas mãos,
Que revelam o coração do basalto
Regurgitado  pela Terra,
Lixado pelas águas,
Rolado, burilado e aveludado pelo tempo,
São humanas.
Mãos peãs.
Agraciadas pela arte da divinação,
Que brincando de Deus,
Mostram o divino em todos nós.

A BORBOLETA AMARELA

A borboleta amarela
pousou no beiral da janela.
Abriu suas asas listradas
cansadas de muitas estradas
e dormiu.

 Ficou um bom tempo parada
até se sentir renovada.
Limpando as patinhas da frente,
jogou-se pelo muro bem rente
e seguiu.

 Lá foi ela pelos ares
saltitando em ziguezagues.
Pousou na flor do caqui,
pulou daqui para ali
e partiu.

 Por entre a grade de ferro, passou.
Por trás dos ramos floridos, voou.
Parou no banco da praça,
eis que um gato lhe ameaça…
e fugiu.

TUPI

Hoje acordei bem cedo.
Vou pra casa da vovó!
Vou feliz e vou sem medo,
Vou levando o meu totó.

Tupi é meu melhor amigo.
Um vira-lata legal!
Quando o peguei no abrigo,
Chamava-se Tiquinho de tal.

Este nome não lhe cabia,
Já que era bem grandão!
Musculoso, ele se fazia
Respeitar na multidão.

Tupi, um nome guerreiro.
De índio, bem brasileiro!
Foi assim que o batizei,
No dia em que o adotei.

Com Tupi vou a todo lado,
De minha casa para escola,
Da pracinha pro gramado
Onde sempre jogo bola.

Vovó gosta das visitas
Que eu e Tupi lhe fazemos.
Prepara uma mesa bonita,
Com quitutes que comemos.

Tupi gosta do passeio.
Grunhe e corre, late e pula.
Nem um pingo de receio,
Vovó lhe incentiva a gula.

Truques e truques ele faz:
Pára e senta, deita e rola.
Quer bolachas da sacola
Que vovó sempre lhe traz.

O GAÚCHO

A minha caixinha mágica
Tem oito lápis de cor,
Folhas de papel branco
E um bom apontador.

E só levantar a tampa:
Vejo um homem a cavalo.
Parece trotar no pampa
Ouvindo o canto do galo.

Com o lápis azul eu faço
A grande parte do céu;
Com o castanho eu traço
Cavalo, bota e chapéu.

O verde fica pra grama,
Capim alto que nem cana.
No canto amarelo o sol
Brilhando que nem farol.

O vermelho é do lenço
Que ele usa no pescoço;
A calça é de pano preto;
Na garupa leva o almoço.

Por fim no canto direito
Do desenho que surgiu
Assino meu nome bem feito
Com data de vinte de abril.

A CHUVA FEZ AZUL NOSSO HORIZONTE

A chuva fez azul nosso horizonte.
Pintou no vale a cor da esperança.
Encheu de anêmonas, miosótis, margaridas,
Do campo aberto, ao sopé do monte.
Brotaram pintassilgos e abelhas.
No rio, a cada curva um jatobá.
No cheiro do capim ao sol ardente
Paravam insetos, lagartos e até o ar.
Na sombra escura o gado se perfila,
Debaixo de mangueiras generosas,
E espera em silêncio sonolento
O alívio do calor.  Passam-se as horas.
Ao sinal distante da capela na aldeia,
Quando o sol se apaga atrás da serra,
As nuvens, uma a uma,  se enfileiram.
Primeiro, brancas, alegres, arredondadas,
Depois cinzas, sem forma e pesadas.
Acomodam-se, ao sul,  entre montanhas.
E qual ninhada de cachorros desmamada,
Que luta, reclama e se aquieta ’inda faminta
Com roncos e rugidos passam a noite.
O vento as nina… Mas ao brilho de relâmpago
Fugaz,  recomeça o murmúrio no horizonte.
Qual relógio mecânico e em tempo,
As nuvens acordam o sol sem cerimônia,
E em prantos limpam bem o firmamento,
Para de novo azularem o horizonte.

BANDEJA DE MADEIRA

Comprei uma bandeja de madeira,
No mercado de usados da cidade.
O preço alto, verdadeiro assalto,
Testava a minha vontade…
Invocada reclamei:
Preço muito apimentado!
O feirante desfiou, então,
A ladainha da ocasião:
Uma cascata de palavras
E de muitas abobrinhas.
Listadas de um modo simples,
Em fileira memorizada,
Uma tabuada de dados,
Sem nexo e sem sentido,
Qual jovem guia turístico
Treinado para repetir,
Sem nenhuma compreensão,
História de monumentos,
Batalhas, guerra ou ação.
Um rol de características,
Uma lista de preciosismos,
Que turistas escutam em vão.
No caso do comerciante,
Era manobra astuta,
Artimanha obstrucionista,
Inspirada na política
Do partido oposicionista,
Com intenção de impedir
Barganhas, regateio, pechincha.
Mas não me dei por vencida
E esbocei, na medida,
Uma ensaiada choradeira
De compradora matreira,
Desconfiada confessa.
Mas para meu desagrado,
A manobra desta vez
Não deu nenhum resultado.
E o vendedor perturbado,
Não se fazendo de rogado,
Disse em português claro:
O preço é este e está acabado!
Era esperteza, eu sabia.
Manha de ressabiado
Recalque de gato escaldado.
Experiente e esperta,
Também lhe disse umas tantas,
Questionei ainda uma vez
Os dados da tal bandeja
Que sabia muito bem
Não ser uma antigüidade.
Mas minha senhora veja,
Já não se faz trabalho
Detalhado como este.
Marqueteria finíssima,
Olhe a delicadeza
Deste desenho aqui em cima!
Mantive meu ar incrédulo
De pessoa que conhece:
Reclamei do acabamento,
Das alças, das bordas, do centro,
Do verniz barato – opaco.
Não sou caloteiro!
Nem tampouco pirateio.
A Sra. pode confirmar
Nos antiquários da cidade!
Vai ver que é coisa boa,
Que tem uma certa idade!
Pus-me a andar, dando o fora,
No velho ardil de negócios
Fazendo-lhe acreditar
Que era fácil ir embora.
Ele veio correndo atrás,
É vintage, minha senhora,
É vintage, repetia!
Como se a palavra,
A denominação,
A expressão estrangeira,
Respondesse às perguntas
Corriqueiras que lhe fiz.
Mas parei.  E voltei.
Queria muito a bandeja
Rica em marqueteria.
Não pode ser, eu dizia,
Eu me lembro dessas bandejas,
Dessas lembranças para turistas,
Vendidas nas barraquinhas
Da Quinta da Boa Vista…
De súbito ele parou.
De cima abaixo me olhou.
E puxando lá do fundo
De sua sabedoria, perguntou:
– Mas quantos anos a senhora tem?
Num breve momento de pausa,
Disse para mim mesma:
Que história!  Traída pela memória!
Olhei para a bandeja de novo
E ainda uma vez mais…

ESTE LAGO SERENO

Este lago sereno exerce uma atração,
Uma obsessão misteriosa,
Alucinante em mim.
Um desejo de mergulhar na sua profundeza,
De me perder em seu mistério,
De desaparecer na paisagem tranqüila,
Pintada em suas águas sombrias,
Sossegadas, calmas e imóveis. 
Seu silêncio me hipnotiza e seduz.

Este lago manso me mesmeriza
No tratar invertido da natureza:
A dupla imagem, a ambigüidade.
Céu e água. Água e céu.
O reflexo do vôo de um pássaro no ar…
Um  peixe fugidio a nadar?
Verso e reverso.  Corpo e alma.
Inferno e paraíso.
Meu mundo unido num só horizonte.

O FLAMBOYANT DA CASA AO LADO

Morreu o flamboyant da casa ao lado.
Foi-se o calor de verão da minha infância.
Apagaram-se suas flores alaranjadas,
Fogosos anúncios do início da estação.
Doente e velho, tombou calado e emagrecido.
Sóbrio e distinto, evaporou-se nos cupins.
Deixou em seu lugar espaço raro,
Um ar aberto, um nada enorme, que me espanta.
Um espaço devassado diariamente,
Onde antes, a sombra clara era presente.
O vácuo preencheu meu horizonte.
Galhos partidos, quebrados sobre a ponte.
O tronco doente jogado num instante.
Vergou molhado, encharcado pela chuva.
Mostrando a todos o que só a terra conhecia:
Suas raízes, engrossadas pelo tempo,
Eram agora desvendadas pelo vento.
Tombou sozinho com um único gemido
Doloroso, aceitando o seu destino.
Pernas pra cima em impudico descaso.
Meu companheiro de verões ardentes,
Guardião de minha infância e adolescência.
Exuberante, florescia ano após ano
Desabrochando incandescente em dezembro.
Entre nós havia um rio bem estreito,
Que nascia lá no alto da Rocinha,
Cascateava da nascente até a Gávea,
De onde então serpenteava rumo ao mar.
Era aqui, que deslizava sob as pontes
E atravessava minha rua de mansinho.
De um lado, o flamboyant enraizado;
Do outro, o edifício com meu ninho.
Crescemos juntos, eu e ele aqueles anos.
Nossa distância era pouca e amenizada,
Pois reservava uma flor para meu gozo,
Que escondida pelo batente da janela,
Aos poucos, foi-se chegando espevitada.
E me espreitava, esticando o seu florão.
Curiosa, assim passava os dias quentes.
A cada ano parecia mais chegada.
Era de casa.  Sem receio se hospedava.
Com jeitinho, batia na vidraça,
E enrubescendo se apoiava ao janelão.
Esta flama de verão me viu crescer,
Chorar amores, estudar, adormecer.
Custa-me vê-lo cair, velho soldado!
Quem irá agora anunciar-me o verão?

O PRAZER DE VIVER

Quem primeiro decidiu comer um caracol?
Quem descobriu a trufa e a carne no siri?
Quem na lufa-lufa abriu uma ostra,
Encontrou uma  pérola à mostra?
Que antecessor nosso, faminto, esquálido,
Descobriu quais cogumelos comer?
Teria morrido ou só desfalecido?
Quantos de nossos avós: nossa linhagem,
Humanos de diferentes origens,
Se envenenaram?  Com desespero ou coragem?
À cata da janta, para manter, fortalecer
Seus corpos minguados, doentes, arados.
Quem sobreviveu, como aprendeu?
Caracóis são venenosos: têm que regurgitar
E evacuar antes que possamos comê-los.
Um décimo dos caranguejos são comestíveis.
Quem achou estes crustáceos irresistíveis,
Saboreou-os sem medo?
São todas iguarias refinadas.  Caras.  Sofisticadas.
Não são encontradas em qualquer caserna ou taberna.
Graças ao sacrifício do homem das cavernas?

Verdadeira iguaria é o bisão,
Principal figura das pinturas nas grutas.
Verdadeira iguaria é o mamão, 
A maçã, o figo, a uva, qualquer das frutas.
Não aparecem todas no Jardim do Éden?
Elas vêm no tamanho certo de consumo,
Em embalagens de fácil manuseio,
As frutas foram os primeiros insumos,
Produtos com design perfeito. 
Só a maçã pegou grande má fama,
Já pela manhã, complicou toda trama,
Expulsando o primeiro casal do Paraíso
Depois de lhes ter  dado o primeiro sorriso.
E levou-os a ter que plantar para comer…
Mas trouxe com ela o prazer de viver!

Fontes:
Peregrina Cultural
À Meia Voz

Deixe um comentário

Arquivado em poemas avulsos, Rio de Janeiro

Beki Bassan Warowitz / RJ (Poemas Avulsos)

ASSIM ENTENDO A ALMA

Algumas vezes não temos explicação
Para que almas afins se conectem.
Assim ocorre, também, na poesia.
Dando a fusão de poetar através da harmonia.
Não existe tempo nem espaço.
Acredito que nossas almas podem vir de vidas passadas.
Quanto encontram-se os verbos saem normalmente
Sem querer saber de mais nada.
Para que saber a procedência
O coração por si só já faz o elo.
O que importa é aprender e captar nossa emoção.
Pois a alma controla nosso coração.
Assim aprendemos a amar e deixamos as reações fluírem. 

COMO SINTO O AMOR

 O amor é um sentimento
 que traz felicidade.
 Nosso coração clama de alegria
 e um simples toque nos emociona.
 Amar não pode ser aos poucos,
 deve-se entregar por inteiro.

 As vezes ele nos preocupa,
 quando o ser amado não te entende,
 e com isto nascem desavenças.
 E eu te pergunto quando isto ocorre
 devemos esquecer ou acabar com o romance?

 O amor não foi feito para sofrer,
 e sim para ter prazer com o companheiro. 
 Mas a realidade mostra certas pedras
 atrapalham o caminho.

 Na opinião errar é humano,
 podemos nos dar outra chance,
 mas se ocorrer com frequência,
 aí creio que tem algo errado.

 Talvez merece uma reflexão,
 mesmo que isto possa causar dor,
 para saber se não está na hora de terminar
 e recomeçar uma nova vida.

MINHA ALMA QUER VOAR

 Hoje minha alma quer voar…
 Esta semana inteira fiquei só nas lembranças…
 Voe minha alma…
 Encontre o caminho certo,
 e traga de volta meus amigos,
 que hoje não encontro mais.
 Preciso saber por onde eles andam,
 porque a saudade é imensa.
 Conte a eles meu segredo e meu carinho,
 diga francamente sei que irão gostar.
 Quem sabe retornarão ao meu convívio.
 Só você minha doce alma,
 sabe o que sinto neste momento,
 então não tenha medo,
 siga qualquer caminho,
 sei que as estrelas irão te guiar,
 e retorne com uma notícia boa.
 Ficarei aqui na espera de sua resposta.

 SONHOS

 Se pudessemos comandar o sonho,
 certamente ia querer sonhar,
 todos os dias com você.
 No entanto você está longe,
 então sonho acordada,
 lindos momentos juntos,
 que o coração não esquece.
 Quem sabe um dia
 de tanto sonhar não vira realidade.

 VIDA

 Eu lhe agradeço por me ensinar
 a viver a vida sob um angulo diferente.
 Você me devolveu a vontade de viver,
 soube aguardar com paciencia,
 que eu aprendesse o conceito de vida.

 Hoje sinto-me uma pessoa
 livre de medo e angústia, 
 e sei suportar uma dor
 com o equilíbrio necessário.

 Hoje entendo porque existem
 tanta inveja e certas mágoas
 que anteriormente desconhecia.
 Tudo isto foi você quem me ensinou.

 Hoje sou uma pessoa feliz,
 aprendi a viver a vida,
 e poucas coisas me afetam.
 Através da espiritualidade,
 aprendi a dosar o tempo e esperar 
 sem tumulto e nem pressa.

 Aprendi que tudo tem seu tempo,
 e que não adianta correr, 
 eis que as coisas acontecem no momento certo.
 E foi assim que lhe conheci.
 Só uma coisa lhe peço,
 vamos juntos praticar o bem,
 amando-nos primeiro,
 pois só assim poderemos
 amar e ajudar ao próximo.

UM DIA ATÍPICO

 De repente, um dia você acorda,
 e sente dores ao se levantar.
 Você se pergunta: mas o que é isto?
 Levanta, a dor melhora e você segue em frente.

 Ao sair para fazer compras…
 Você percebe que nada do que você quer tem.
 Paro, penso e digo “isto não é normal”.
 Mas o que fazer? Nada por enquanto.

 À noite você recebe um telefonema,
 dizendo que seu filho não está bem. 
 Agora, ultrapassou qualquer limite.
 A brincadeira acabou.

 Não consigo entender aquele dia,
 mas também agora não quero saber mais.
 Apego-me a minha Fé em D´us e rezo.

 Nada foi resolvido ainda mas sei que esta nuvem,
 voltará para quem mandou para cá.
 Isto não tenho dúvidas.
 Então o melhor a fazer é dar um tempo,
 que a bonança retornará logo logo.

AMAR ACIMA DE TUDO

 O amor é uno.
 Não importa se está perto ou distante.
 Neste momento estamos longe,
 mas sei que nossos corações estão juntos.

 Existem ocasiões que impede,
 as pessoas de estarem fisicamente juntos,
 mas isto só aumenta a vontade,
 de esperar o seu retorno.

 Eu te amo muito
 e sinto um vazio no coração,
 pois quero estar contigo,
 acariciando seu corpo.

 Não demore tanto,
 estou aqui a sua espera,
 sonhando as delícias do amor,
 que será concretizada quando você retornar.

UMA REFLEXÃO

 Hoje acordei alegre,
 com vontade de receber carinho
 da pessoa amada.
 Mas ao acordar percebi,
 que ele não estava.
 Que sensação chata eu senti.
 Fui em frente e pensei:
 quando ele retornar
 irá me dar pelo menos um beijo.
 Qual não foi minha surpresa,
 ao vê-lo chegar e me dar um simples bom dia.
 Não…não era isto que eu queria.
 Comecei então a fazer uma reflexão.
 O que será que está ocorrendo?,
 Dou tudo que tenho,
 e nem sempre a reciprocidade é igual.
 Será que nosso tempo acabou?
 Quem sabe, as vezes acordamos tarde demais.
 Agora eu também não sei se o quero mais
 mas falta-me coragem para tomar a iniciativa.
 Acredito que é a melhor solução
 ao invés de procurar razões,
 o melhor é agir.
 Certamente este é o caminho da vida.

OLHOS DO CORAÇÃO

 Você partiu de repente
 e nem um até logo pude te dar,
 mas sei que através de seus lindos olhos,
 você consegue me enxergar.
 Um pouco de minha alma você levou,
 e assim vamos nos imaginando,
 até eu chegar na morada final.
 Enquanto isto eu me contento,
 em conversar contigo em sonhos,
 ou quando você aparece na estrela guia.
 Sei que você tem me protegido,
 e contigo sempre estarei tranquila,
 seja de que forma for.
 O amor não tem tempo,
 então, por enquanto,
 vamos continuar vivendo
 neste mundo de faz de conta

A ESPERA

 Se você está esperando alguém,
 porque ao invés desta ansiedade,
 você não dá o primeiro passo.

 Vá de encontro ao seu amor.
 Ficar de braços cruzados,
 só fará passar o tempo
 e a vida é curta.

 Aproveite e siga seu instinto,
 seu coração pede isto,
 agonia só atrapalha,
 sinta como é gostoso,
 abraçar, tocar e sentir o bem amado.

Fontes:

Deixe um comentário

Arquivado em poemas avulsos, Rio de Janeiro