Arquivo da categoria: poemas escolhidos

Sheila Pavanelli (Poemas Escolhidos)

DESPEDAÇOS

foram tantos corações
sete agrados
onze fados
amores endiabrados

onze argolas de prata
nos braços errantes
acenos e despedidas
barcos já distantes

lenços muito brancos
tremulando na janela
vidros soltos e quebrados
onze destinos acabados

recolho os pedaços
os lençóis desarrumados
espero o esquecimento
neste porto abandonado

restou a esperança
alguns traços da paixão
leves despedaços
deste forte coração

FERA

sai… solta
macias patas
agudos olhos
fera de mim

feita em fogo
caminha… cresce
dança com o vento
doma o pensamento

rosna… inquieta
volteia o dorso
crava-me as unhas
rasga meu vestido
torna-me nua

mulher de mim mesma
tremo…
fera liberta
entrego-me ao fogo

OLHA-ME

Olha-me nos olhos

tece o veludo
da tua fala
olhando-me
nos olhos

assim quero conhecer-te

desfia as dobras
da mousseline
e desvela
meus segredos

deixa nossos corpos se entenderem
a alma não
a saciedade do nosso desejo
a alma não entenderia…

OLHOS DE GATO

se eu quiser…

te espio na noite
quando tu dormes,
rondo teu sono
com olhos de gato.

se eu quiser…

persigo em silêncio
todos teus passos
ouço teus suspiros
adivinho teus desejos
na noite…

se eu quiser,
com olhos de gato.

RIMAS E RAIOS

Não me peças versos
nem rimas
hoje não!
talvez amanhã

Tenho a boca em agulhas
os punhos cerrados
o peito em guerra
hoje firo
hoje mato

Tenho os raios
como pena
não queiras minha rima
hoje escrevo
as feridas dos punhais

Das flechas
desta vida
estou arqueira
hoje eu quero
desforrar

Tenho garras
em meus dedos
prendo,rasgo
tudo posso
tudo ataco
estou revolta

Quero o porre
a sorte
a morte
rimar? hoje não

Quero as tabernas
o vinho
as vadias
cafajestes
a ralé toda!

A vida nos porões
paixão detrás dos corpos
quero a vida nua
explodindo
em relâmpagos

rimar?
hoje não
talvez amanhã

SERPENTES

Domo feras e serpentes
numa luta íntima
de encanto
e fados

Meu corpo é coliseu
tua voz macia
incita as feras
à luta…

Bailam as serpentes
no meu corpo
quem vence
é tu…

PEDRAS

Vamos…
atire-me pedras !
me chame inconstante
eu sorrio
o riso distraído
das amantes

Enquanto lapidas pedras sem brilho
sou aquela abandonada
sem ternura
que rola na mão bruto diamante
dos amores perdidos

Aranha eu
teço minha teia
traço meu labirinto
com espinhos
e sobras do amor
porque sou em desatino

Suas pedras são para mim, estrelas
esferas sem lei
o sonho ou  sol
essência do que sou
a angústia com que te afogas

Atire-me pedras, companheiro
pois tem a alma dura
nunca caminhará comigo
porque nesta vida eu prossigo,
…Tu ficas!!!

Fontes:
1 – http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=2786&id_categoria=337&flag=nacional&tipo=c
2 – http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=1125

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Arquivado em Estado de São Paulo, poemas escolhidos, Ribeirão Preto

Lila Ripoll (Poemas Escolhidos)

Fita Verde

Prendi uma fita bem verde
nos meus cabelos escuros.
Fiquei quase uma menina
capaz de subir nos muros.

Troquei de alma e de idade
e brinquei entre as crianças.
Meus pesares voaram longe…
e as minhas desesperanças.

Na roda da “Cirandinha”
ninguém cantou como eu.
Cantei, cantei todo o dia
até que o sol se escondeu.

E veio a noite e o cansaço
e nós fomos descansar:
as crianças de verdade
e eu que brinquei de enganar.
(…)

Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).

Neve

A neve desce
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.

Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.

A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.

A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.

Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.

Publicado no livro Poemas e Canções (1957)

Retrato

Clara manhã de inverno.
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.

(…)

Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.

Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.

Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?

(…)

“É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?”

E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança

E a voz continuou serena e mansa:
“Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?”

(…)

Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:

nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.

(…)

Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.

Publicado no livro Novos Poemas (1951).

Ternura

Eu te amo com a ternura das mães
que embalam os filhos pequeninos.
E te amo sem desejos.

Perto de ti meus sentidos desaparecem.
Meu corpo tem castidades de santa e de menina.

Quando falas nenhuma sobra se interpõe entre nós dois
Fico presa à palavra de tua boca
e à palavra de teus olhos.
Nada existe fora de nós. Longe de nós…
Tu és o Princípio e o Fim. O Tempo e o Espaço
Cada palavra tua mais espiritualiza
o meu sentimento e a minha ternura.

Tenho vontade de que meus braços se transformem
num grande berço,
para embalar teu sono de homem triste.

Nenhuma estrela brilha mais clara que os teus olhos
na minha alma,
e que a tua palavra no meu coração.

Nenhum homem foi amado com tanta pureza sem pecado,
nem tanta adoração!

Nenhuma mulher vestiu de tanta castidade
seu corpo e sua alma,
para a tristeza de um amor que quer viver,
e quer morrer.

Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).

Fonte:
http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Lila+Ripoll

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Arquivado em poemas escolhidos, Rio Grande do Sul

Pedro DuBois /RS (Poemas Escolhidos)

MEMÓRIA

Pelo vão da porta
insiro a memória
cobro pela entrega
o gesto
desprendido do envelope
sob a porta
envelopo a série 
e na espera tenho
a sequência mnemônica
dos atrasos
a companhia alarma a casa
e sobre o assoalho 
repousa a prova na memória
avivada dos extremos.

SOBRAS

Prefiro as sobras do banquete
o vinho quente na garrafa
o azedo da salada
o restante da carne
junto ao osso

o guardanapo
usado com esforço

guardo a rolha
em confirmação: aguardo
o retorno
inserido
na minha vontade.

SURPRESA 

O elemento surpresa onde se escondem
as mudanças. O estertor com que fogo
queima o estrado e o preso se arrepende
em novo ano. Não reconheço a espera:
o esperto acreditar
no futuro: o inexplicável
alvoroço do cão: o amargo
da vida na ilusão passageira
do amigo. Folgo em me colocar
contra a janela: inocento o suspeito. Suspeito
de outras eras: chego sem ser anunciado.
Desdobro a canção dos horrores
consumidos em preitos
panelas
e tigelas. O elemento
e a presa na hora em que o circo 
pega fogo e o mundo se desmantela
no imitar do bandido ao espoucar
da pipoca: a chave em giro
mecânico na porta.

IMAGINAR 

Construo a imagem 
ao arrepio do espelho
a lâmina assusta 
o rosto que se desfaz
em gritos ante o dia
que se abre ao mito

minto cada leve dobra
do espírito: aumento
a expressão e o riso

o espelho desmente
a impostura do porte

em dinâmico gesto
destrói o sonho
onde me encontro

contruo outro corpo
e não me arrependo
na informação errônea
da identidade: quebro
o vidro e ao lado vejo 
que a estrutura mente.

CONFISSÃO 

Ao pássaro confesso minha incerteza
ao pé do ouvido grito meus pertences
e o preço pago em cada compra: vendo
a alma em desavenças. Calo
a inconsequência do canto.
Ao pássaro não ofendo o silêncio
em alardes frios de sofrimentos:
o ninho por manter
a cria por alimentar.
Incerto
encaminho a voz ao segredo
revelado em poucas palavras.

PRESENTE 

Sou visita e residente

passado aparente
em nova visita
e o de sempre

o mesmo: quem
conhece o caminho
entre o quarto
e a cozinha

vida renovada
na morte persistente

a oração em sofrimento
na brisa mensageira
da notícia

o de fora e o de dentro:

filho
pai
marido

esquento o trabalho e saio
passeio
troco de lado
e me escondo em periferias

quem vem de longe
para ver a família.

ANTES 

Saber da excelência
a véspera
antes o desdouro
nasça e se faça fonte
ao jazer na espuma ocidente
a lâmpada apagada dos ex-amantes

barcos aos cais anunciam
atracar em portos
desacostumados na avalanche
marítima das verdades

no dia anterior barulhos cessam
e na voz a surdez exala o poente.

Fontes:
O Autor

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Arquivado em poemas escolhidos, Rio Grande do Sul

Augusto Frederico Schmidt (Poemas Escolhidos)


CARAS SUJAS

Ao longo destas avenidas,
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.

Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.

Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.

mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.

OS PEQUENOS VARREDORES

Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada…

Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.

De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.

Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.

Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.

E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa…

O POEMA DA CASA QUE NÃO EXISTE

Onde a cidade acaba em chácaras quietas
e a campina se alarga em sulcados caminhos
achei a solidão amiga dos poetas
numa casa que é ninho, entre todos os ninhos.

Térrea, branquinha, com portadas muito largas,
desse azul português das antiquadas vilas
e uma decoração de laranjas amargas
que perfumam da tarde as aragens tranqüilas.

Ergue-se no pendor suave da colina,
escondida por trás dos eucaliptos calmos;
tem jardim, tem pomar, tem horta pequenina,
solar de Liliput que a gente mede aos palmos …

Neste ponto, a ilusão, a miragem, se some;
olho para você, eu triste, você triste.
Enganei uma boba! O bairro não tem nome,
a estrada não tem sombra, a casa não existe!

QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer o mundo continuará o mesmo,
A doçura das tardes continuará a envolver as coisas todas.
Como as envolve agora neste instante.
O vento fresco dobrará as árvores esguias
E levantará as nuvens de poesia nas estradas…

Quando eu morrer as águas claras dos rios rolarão ainda,
Rolarão sempre, alvas de espuma
Quando eu morrer as estrelas não cessarão de acender-se
no lindo céu noturno,
E nos vergéis onde os pássaros cantam as frutas
continuarão a ser doces e boas.

Quando eu morrer os homens continuarão sempre os mesmos.
E hão de esquecer-se do meu caminho silencioso entre eles,
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer os prantos e as alegrias permanecerão.
Todas as ânsias e inquietudes do mundo não se modificarão.
Quando eu morrer a humanidade continuará a mesma.
Porque nada sou, nada conto e nada tenho.
Porque sou um grão de poeira perdido no infinito.

Sinto porém, agora, que o mundo sou eu mesmo
E que a sombra descerá por sobre o universo vazio de mim
Quando eu morrer…”

SONETO A CAMÕES

As tuas mágoas de amor, teus sentimentos
Diante das leis que regem nossas vidas,
Desses fados que dão e logo tiram,
E a que estamos escravos e sujeitos.

As tuas dores de amar sem ser amado,
De procurar um bem que não se alcança,
E no canto clamar desesperado
Pelo que nunca vem quando se busca.

Poeta de enamoradas impossíveis
E que num negro amor desalteraste
Essa sede de amar dura e terrível,

As tuas mágoas de amor, tuas fundas queixas,
Como uma fonte ficarão chorando
Dentro da língua que tornaste eterna

OUÇO UMA FONTE

Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.

É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.

É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.

É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.

É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!

SONETO CIGANO

Lembra-me sempre a viagem, a grande, a estranha viagem.
As mulheres brincavam e riam ao pé das enormes fogueiras.
Rostos da cor do bronze, olhares misteriosos,
E mãos escuras para todos os misteres.

Lembra-me sempre a viagem, as estradas perdidas
Por onde seguíamos atrás das auroras ingênuas
Que corriam cantando, e atrás das horas fugidias
— Horas que pareciam dançar ao ruído de pandeiros.

Era tudo uma grande inocência e descuido.
O futuro sombrio, as ambições, os medos,
Não me lembro de os ter sentido nesses tempos.

Colhíamos, então, flores e frutos nos caminhos,
Amávamos o amor nas morenas mulheres,
E adormecíamos à mercê dos ventos e das chuvas.

V (SONETOS)

Noites, estranhas noites, doces noites!
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.

Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.

A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.

Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda: não mudei!

VEJO A AURORA SURGIR

Vejo a aurora surgir nesses teus olhos
Ainda há pouco tão tristes e sombrios.
Vejo as primeiras luzes matutinas
Nascendo, aos poucos, nos teus grandes olhos!

Vejo a deusa triunfal chegar serena,
Vejo o seu corpo nu, radioso e claro,
Vir crescendo em beleza e suavidade
Nas longínquas paragens dos teus olhos.

E estendo as minhas mãos tristes e pobres
Para tocar a imagem misteriosa
Desse dia que vem, em ti, raiando;

E sinto as minhas mãos, ó doce amada,
Molhadas pelo orvalho que roreja
Do teu olhar de estranhas claridades!

ESTRELA MORTA

Morta a Estrela que um dia, solitária,
Nasceu em céu sem termo.
Morta a Estrela que floriu nos meus olhos.
Morta a Estrela que olhei na noite erma.
Morta a Estrela que dançou diante dos nossos olhos,
A Estrela que descendo acendeu este amor
Morta a Estrela que foi para o meu coração,
Como a neve para os ninhos
Como o pecado para os santos
Como a ausência de Deus para os condenados.

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Arquivado em poemas escolhidos, Rio de Janeiro

Amália Grimaldi/BA (Poemas Escolhidos)


A FRAGILIDADE DA COERÊNCIA

Teço a minha trama
E a do meu companheiro
As linhas são muito finas
Escanteada é a luz suspeita
Fios necessários por separar
Até percebo a agonia
Da sombra fugidia
E na clareza na certeza
Vejo que linhas tênues se partem fácil.

CANTOS DE CISNE

Pálida lembrança paterna
Engomado uniforme branco
Em noites de Lua Cheia
Cantarolava “Oh, cisne branco…”
Na verdade
Nunca escutara Argentina
Os verdadeiros acordes
Do tango de Gardel .

AGULHAS POR ENFIAR

Enfie esta agulha, Argentina
E ela prontamente
Desempenhava com facilidade
O que os olhos maternos cansados
Já não mais poderiam executar
A bem da verdade
Crescera ao pé da máquina
A ouvir trechos de melodia binária
Assim feliz supria contente
A incompetência adulta
O não enxergar conveniente
Agulhas necessárias por enfiar
Em fundos tão estreitos
Que a sua vista poderia alcançar.

O OUTRO LADO DO PRAZER

Misericórdia Senhor…
Escassez de homens nobres
Misericórdia, Senhor…
Escorregadia é a certeza
Aflita acena ao cais da tentação
O outro lado do prazer
Atravessa o mar da loucura contagiosa
Entrega-se ao algoz de face beijada.

UM CISCO NO OLHO

Caminhante silente
Gesto cuidado
Desvio do olhar
Incômoda atenção
Bela canção à esquina
Mas ninguém ali o conhecia
Desconfia-se
De cigano vagante.

BLOCO DE JUDAS

Dançariam seus ódios mútuos
A mulher dos cabelos ruivos e a serviçal judiada
Eis que o dia final havia chegado
Era tão somente um bloco engraçado
De fêmeas e machos tolos
E os importantes seriam então judiados
E ela, pretensiosa pecadora
Ao som de bumbo e tambor
Em seus vermelhos estonteantes
Retornaria à perversidade escura de antes
Ao socavão dos seus desejos malvados
Arderia no fogo do seu juízo final
Regozijo inútil.

UM QUASE NADA

À loja da esquina
Alegria de panos
Meus suspiros aí deixados
Seu Salim e seu riso de marfim
Armazém das cores
Quantas vezes aí voltei
Em meus ecos suspirados
Hoje perdidas tramas
Quase um fiapo
Um fio de pouca coisa
Alegria de quase nada
Em seu riso de marfim
Subiu aos céus suspirado.

DESORDENADA LUZ ORIENTAL

Os mais ricos pigmentos
Despeja o céu ao poente
Cores damascenas
Desordenada luz oriental
Seda persa de outrora
Cavalos do espectro
Em asas de luz ao rapto
Fio da trama por desatar
Sobre o aparador da sala de jantar
O suspiro esquecido
O vestido reinado da estátua
Desordenada luz oriental
Fantasma do Bairro Judeu.

FLORES MORRIDAS

Parei. Em esquina contente
Conjunção imaginária
A jogar bola de satisfação
Avistei meninos folgados
Sem dengos. Contudo plenos
Voltei. À Rua das Flores
Pálida lembrança de meus encantos
Avistei para desgosto meu
Mulheres sem alegrias
A carpir evidências
Mulheres antes meninas. Como eu
Nas mãos, suadas e mornas
Flores sozinhas traziam. Só Angélicas
Murchas outrora perfumadas.

Fonte:
http://www.ube.org.br/

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Lucia Constantino/PR (Poemas Escolhidos)


CHEGADA

Este dia que te chega
mais veloz que ontem,
quando havia um prato à mesa
e o teu nome.

Ah, escolha entre as rosas
a única que te cabe na alma,
a única que é canto e salmo
para que não tenhas mais medo
de caminhar.

De noite as estrelas te falam
do cantar dos galos
à chegada
dessa presença na alma,
quando até os deuses
vão acordar.

TENHO SAUDADES

Tenho saudades do meu amor que te amava
vestido de silêncios e conflitos tão sinceros.
Um amor que era sol – um amor tão belo
que até aos anjos a sonhar ele ensinava.

Tenho saudades do amor que eu sentia,
momentos manuscritos dentro do coração.
Tinha linhagem aquele sonho que eu vivia.
Era uma luz passando a limpo a escuridão.

E onde estás? Não te encontro mais
e nesses meus sonhos, o que buscais
ó anjos? – a esperança já vencida?

Não entendo mais essa linguagem.
Sei que a dor muda toda paisagem
do livro interior, onde se escreve a vida.

QUANDO AINDA ERA DIA…

(a minha mãe Hilda, in memoriam)

Quando ainda era dia
e as nuvens passeavam no céu,
eu ouvia tua palavra,
por mais cansada que estivesses.
Estavas ali com teu coração,
então minha angústia se calava
porque a tua palavra era prece.

Quando ainda era dia
mas a chuva desmanchava meus sonhos
sempre estavas ali
carregando em teu colo não os teus,
mas os meus abandonos.

Quando ainda era dia
e meu olhar parava nas distâncias
fitando o nada do horizonte
inocentemente me perguntavas
– O que estás vendo tão longe?

Depois a noite desceu
sobre os nossos jardins,
sobre os teus canteiros,
as tuas hortaliças.
O galo não mais cantou.
Os espinhos sorriram pra mim.
A alegria me perdeu de vista.

Aninhou-se no mais alto da árvore
um pássaro chorando na tarde.
E os anjos te envolveram no ocaso
de tua própria luz
como Verônica envolveu em seu braços
o lenço que roçou o rosto de Jesus.

IRÁS LONGE

Sete céus apascentam teus pés,
como as cores do arco-íris.
Irás longe carregando o manto de tua alma
para os querubins descalços
que contigo fizeram essa aliança de luz.
Na senda que percorres
tuas palavras hoje soam como fábulas.
Mas sob a chuva das quimeras humanas,
destilarás tua seiva para nutrir
as raízes dos desencontrados,
quando as noites transformam em pó
toda palavra que não foi pronunciada
dentro de nós.

TEU OLHAR

Talvez a estrela mais bonita
não seja essa que tu vês.
É a que brilha dentro dos teus olhos
em cada anoitecer.

Esse teu olhar faz as horas
caírem pelo ocaso desmaiadas.
O luar pensa que a aurora
já está pelos teus olhos humilhada.

Talvez um pirilampo já te tome
por outro pirilampo, seu amado.
Até o amor muda de nome
quando há dois céus, lado a lado.

... ME ENCONTRAR EM TI

Tenho de Ti me esquecido
ao longo do caminho.
Às vezes tranco todas as portas
e nem ao menos espio pelas janelas
para ver se estás ao portão.
Quando dormem as estrelas
e a chuva cai dentro de minha alma,
anseio pelo ninho que criaste um dia
para me receber.

Sei que Teu verso reconhece o meu
ainda tão inútil no Teu templo da Palavra.
Mas o acolhes mesmo assim,
porque sabes que a relva também poder ser boa
para Tua incognoscível seara.

E quero tanto me encontrar em Ti…
Mas,à noite, quando pauso o coração
para ouvir minha alma
tenho a impressão de nela Te ouvir
…soluçar.

Fonte:
http://www.luciaconstantino.prosaeverso.net

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