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Ialmar Pio Schneider (Versos Diversos)


SONETO à FLORBELA ESPANCA
*8.12.1894  – +8.12.1930

Foi amando teus versos que aprendi
a soluçar também o mal do amor,
nos desencontros e no frenesi
que envolveram meu estro sonhador…

 Soubeste extravasar todo o calor
que sentias, assim como senti,
das paixões que me fazem ser cantor
dos mesmos temas que provêm de ti.

 Ó divina poetisa, os teus tormentos
expressos na poesia e nos lamentos,
que soluçaste, fazem-te imortal…

 Ninguém foi tão sincera e tão brilhante,
fazendo versos de mulher e amante,
enaltecendo sempre Portugal !

SONETO A RAINER MARIA RILKE
Nascimento do poeta em 4.12.1875

Sonetos geniais vou lendo agora
de um primoroso vate que escreveu:
´´Cartas a um Jovem Poeta´´ e lhe deu
conselhos pra seguir a qualquer hora…

´´A obra de arte é boa quando nasceu
por necessidade…(…),´´; nada descora
a beleza natural de uma aurora
e o que criares sempre vai ser teu !

Rainer Maria Rilke, também busco
em teus escritos muito que preciso
pra poetizar meus versos de sozinho;

e te aprendendo sei que não ofusco
minha tarefa, às vezes, de indeciso,
sempre à procura de um melhor caminho !

SONETO PARA O ANO-NOVO

Há quanto tempo não escrevo um verso,
De amor ardente ou de filosofia…
Quem me dera, fazê-lo neste dia
De Ano-Novo no esplêndido Universo !

Vede a luz que dos céus tanto irradia
Raios difusos quando me disperso
Em pensamentos e me vejo imerso
No mar azul da linda fantasia !…

E quem sinto povoar-me a solidão,
nessas horas em que o sol vai se pôr ?!
– Posso dizer que é uma grande paixão !

E aquela que a causou não vou falar,
Talvez nem saiba compreender o ardor
De minh´alma… Terá que adivinhar !

A PORTA QUE SE ABRIR…

Ouvindo a música suave e mansa
eu passo as minhas horas solitárias…
Que difícil manter uma esperança
quando as próprias ideias são contrárias !

Como desejo ter uma mudança,
nestas ocasiões, tão necessárias;
penso na estrela que jamais se alcança
e na desgraça que recai nos párias…

Entretanto, procuro não cair,
porque os espíritos, enfim, reagem
mesmo perante a mais feroz tristeza…

Espero pela porta que se abrir
em meu destino e assim me dê passagem
p’ra conviver com a tua beleza…

SONETO A GONÇALVES DIAS
Falecimento do poeta em 3.11.1864- In Memoriam –

Poeta das palmeiras e também
dos indígenas, com força genial,
cantou grandes amores que ninguém
houvera feito assim sentimental…

Lendo seus versos a saudade vem
me visitar de modo especial,
da minha terra que palmeiras tem
onde o sabiá modula sem igual.

Gonçalves Dias, vate da natura,
és um astro que em nosso céu fulgura,
com tuas mais românticas poesias…

Soubeste transmitir a inspiração
que as Musas te trouxeram na solidão
do mundo ideal das alegorias !

SONETO A CARLOS MAGALHÃES DE AZEREDO
– Falecimento do poeta em 4.11.1963 aos 91 anos. – In Memoriam -.

Quando leio sonetos dos poetas,
velhos românticos de antigamente,
sinto quão suas musas são diletas
nos versos que escreveram docemente…

Poesias inspiradas e discretas,
mas também outras, de romance ardente,
que tudo dizem, atingindo as metas
que se propunham, na paixão ingente.

Leio Carlos Magalhães de Azeredo,
o seu ´´Verão e Outono´´, em que demoro,
curtindo um verso no final do enredo

em que ele escreve: ´´Doce e amargo encanto !
São tuas próprias lágrimas que choro !´´
E aprendo, então, como é tão forte o pranto…

SONETO A RUI BARBOSA
Nascimento do escritor Rui Barbosa em 5.11.1849 – In Memoriam –

Rui Barbosa
Literato
Foi de fato
Rei da Prosa.

Escritor
Mui correto
Tão dileto
Prosador.

Assombrou
C´o saber
Tão profundo…

Pois honrou
Seu dever
Neste mundo.

SONETO ALEXANDRINO A AMADEU AMARAL
Nascimento do poeta Amadeu Amaral em 6.11.1875 – In Memoriam –

“Rios”, “Sonhos de Amor”, e “A um Adolescente”,
são sonetos de escol que leio comovido,
porque me fazem bem neste dia envolvente
pela nublada luz do céu escurecido…

E fico a meditar, trazendo para a mente,
os poemas “A Estátua e a Rosa”, em sublime sentido;
“Prece da Tarde”, quando exsurge a voz do crente
como um sopro de amor no caminho escolhido…

Estou perante o mestre Amadeu Amaral,
cujos versos serão sempre muito admirados,
como régio cultor da nobre poesia…

Além do mais, ficou sendo vate Imortal,
pois eleito ele foi por membros consagrados
de nossa Brasileira Excelsa Academia !

SONETO PARA CECÍLIA MEIRELES
Nascimento da poeta em 7.11.1901 – In Memoriam –

Procuro viajar nestes poemas
que me emocionam tanto e permaneço
conhecendo em mais variados temas,
a vida alegre ou triste em que padeço…

Procurei fazer versos, de tropeço
em tropeço, p´ra resolver problemas
que enfrentei no viver, desde o começo,
quando me apareciam os dilemas.

Um dia encontrei doce poesia
melancólica, plena de ternura,
mas também sempre límpida e correta.

São horas de tristeza e nostalgia
que me suscitam a feliz candura,
de Cecília Meireles, a poeta !

SONETO A ARTHUR RIMBAUD
Falecimento do poeta francês em 10.11.1891 – In Memoriam –

Jovem poeta que parou bem cedo
de fazer versos plenos de emoção…
Soneto de “Vogais” em cujo enredo
cada uma tem a significação.

Sua obra não foi simples arremedo
de alguém que pensa apenas na ilusão;
não se sabe do enigma nem do medo
de a poesia dar continuação…

O certo é que depois, quando indagado
se era parente de Rimbaud, dizia:
“Eu nunca ouvi falar !” E assim calado

continuou pelo resta da vida, só,
com sua nova e vã filosofia
em que se sabe que seremos pó !

SONETO A AUGUSTO DOS ANJOS
Falecimento do poeta em 12.11.1914 – In Memoriam –

Leio seus versos de poeta ousado,
e me comovo com a verve forte,
que se deprime qual um condenado,
a cada instante lamentando a sorte.

Mas foi um grande, embora desgraçado,
sem ter um lenitivo que o conforte,
em cada verso um passo encaminhado
rumo ao destino que o esperava: a morte !

E sendo um vândalo destruidor,
andou por ´´templos claros e risonhos´´,
como num pesadelo com pavor…

Então, num ímpeto de iconoclastas,
´´quebrou a imagem dos seus próprios sonhos´´,
´´erguendo os gládios e brandindo as hastas´´!

SONETO A CRUZ E SOUSA
Nascimento do poeta em 24.11.1861 – In Memoriam –

Poeta das Visões e dos Mistérios,
Evocando outros mundos de Quimera
Onde devem viver seres etéreos
Que por aqui passaram n´outra Era…

São espíritos cuja Vida austera
Atravessaram cá momentos sérios,
Sem conhecer a eterna Primavera,
Hoje ouvindo dos Anjos os saltérios…

São as almas que o Vate Cruz e Sousa
Evocava em seus versos: “ais perdidos
Das primitivas legiões humanas?!”

Lembramos que sua alma ora repousa
Por Mundos para nós desconhecidos,
Mas plenos de canções… louvor… hosanas…

APÓS LER CRIME DO PADRE AMARO DE EÇA DE QUEIROZ
Nascimento do escritor em 25.11.1845 – In Memoriam –

Uma história de amor que nos surpreende,
libélulo ao celibato imposto,
lança no espírito feroz desgosto
que por maior esforço não se entende.

São os mistérios que jamais se aprende:
uma existência trágica ao sol-posto
penetra o cérebro e no próprio rosto
dá contrações de nervos e se estende.

O mundo estupefato ao Padre Amaro
lançará seu desprezo inconformado,
pois mesmo que procure achar amparo

na vã filosofia de um idílio,
surgirão tão fatal como o pecado
a pobre Amélia morta e morto o filho…

SONETO  A GREGÓRIO DE MATOS
Falecimento do poeta em 26-11-1696 – In Memoriam –

Gregório de Matos – Boca do Inferno,
assim o apelidou o poviléu,
apesar de às vezes ser mui terno
e descantar também bênçãos do céu…

Na Bahia causavam escarcéu,
suas notas satíricas e hodierno,
se despertou talvez algum labéu,
há de ficar seu estro sempiterno…

Vejo que a data do seu nascimento,
será sete de abril?! ou vinte e três,
ou vinte de dezembro?! Não é certa…

Mas sei que foi poeta de talento,
e tudo o que escreveu, e disse, e fez,
mostra a coragem de sua alma aberta…

VENTO DO MAR

 Vento que sopras furibundo
 e vens meus sonhos despertar,
 as tristezas de todo o mundo
 parece que trazes do mar…

 Ouvindo o lamento profundo
 sempre constante a marulhar,
 quedo-me triste, me confundo
 co’a voz misteriosa do mar…

 Altas horas, cada segundo
 teimas o meu corpo abraçar,
 quando em reflexões me aprofundo
 para obter segredos do mar…

SONETO
Comemora-se no Brasil, o Dia Nacional da Leitura (a partir de 2009 – Lei nº 11.899).

A distração do espírito é a leitura
e os grandes mestres nos ensinam tal;
nas obras-primas, vasto cabedal
a mente encanta e o pensamento apura…

A existência tem fases de amargura,
pois há um confronto assaz fenomenal:
de um lado luta o bem e de outro o mal
e o que vence por fim é o que perdura.

Escrevam, romancistas, seus romances !
Cantem, poetas, salutar poesia !
Porquanto houver na vida tantos transes,

não vão morrer as páginas aflitas
e nem há de ficar a imagem fria
das criações pra todo sempre escritas.

DIA DA CRIANÇA

Julgavas que este amor não encontrasse
pedras e espinhos pela estrada afora,
mas são os sofrimentos e a demora
o que fazem eterno o que é fugace.

Repara-me nos olhos e na face
para ver quanta mágoa me devora,
por não ter alma cândida e sonora
a fim de ser o que teu sonho amasse.

Deixemos de torturas e cansaços,
reclina-te serena nos meus braços,
confia em mim na maior esperança…

Faz de conta que nada mais existe,
então verás alguém que foi tão triste
convertido na mais alegre criança…

SONETO   ÍNTIMO

 Enfrenta teu destino sem alarde;
 que ninguém saiba o que te vai na mente…
 Não te lastimes, murmurando: “É tarde !”
 Esquece o teu passado, indiferente…

 Também não fujas, como vil covarde,
 à luta que te espera, e simplesmente
 pede ao Senhor que te proteja e guarde
 em Sua bondade infinda, onipotente.

 Encontrarás, enfim, sabedoria
 para atingir a meta projetada,
 sem falso orgulho, mágoa ou rebeldia;

 porque tua fé com força redobrada
 renascerá com flores de alegria,
 enfeitando pra sempre tua estrada.

CATULLO DA PAIXÃO CEARENSE
Soneto em homenagem póstuma – In Memoriam

Faz-me lembrar o tempo de menino,
no lar paterno, lá na velha aldeia,
com minha mãe, irmãos e irmãs, na ceia,
de noitezinha, ao bimbalhar do sino…

Depois, eu contemplava a lua cheia
e perguntava aos céus: qual meu destino,
neste mundo que roda e cambaleia,
com momentos de luz e desatino?!…

E ouvia a minha voz na voz do vento,
dizendo que eu tivesse paciência,
estudasse, aprendesse e na paixão

de adquirir maior conhecimento,
ingressasse no reino da sapiência…
Que lindo era o Luar do meu Sertão !…

SONETO DE UM CAVALEIRO TRISTE

O sol descai… Montado no alazão
eu sigo pensativo pela estrada,
ouvindo o triste mugir da manada
que procura abrigar-se no capão.

Horas de amor… horas que o coração
modula calmamente uma toada;
que a tarde vai descendo para o nada
e cheio de poesia fica o rincão.

Morre a tardinha e nasce então o sonho
que anima, que cativa, que reluz,
embora seja às vezes tão tristonho.

A noite vai descendo, foge a luz,
por toda parte um reluzir tardonho
e eu prossigo levando a minha cruz !

SONETO DE UM ANDARILHO

Eu vivo solitário e maltrapilho,
a caminhar por este mundo afora,
e levo a vida por um triste trilho,
boêmio sem amor e sem aurora.

Da solidão sou sempre um pobre filho,
e com imensa dor minh´alma chora,
quando lembro sozinho o nosso idílio,
aquele louco amor que tive outrora.

Hoje, tristonho e maltrapilho vivo,
da sociedade sempre longe, esquivo…
Apenas nas tabernas acho paz.

E lá, quando me afogo na bebida,
olvido a desventura desta vida
e penso, doido, que me amando estás.

SONETO ARDENTE
Aos poucos vou contando minha história
nos poemas, nas crônicas, nos versos
dos sonetos, das trovas… – merencória
poesia – todos por aí dispersos…

Relembrando os amores mais diversos
que passaram, bem sei, longe da glória
de se concretizarem ou perversos,
magoando a minha triste trajetória…

Lendo as páginas de outros sonhadores
que enfrentaram fracassos, dissabores,
eu me ponho a pensar no céu da vida

que me pudesse dar felicidade
e chego a bendizer esta saudade
como se aos beijos da mulher querida…

SONETO TRISTONHO

Que lindo é o modular do passaredo
que canta desde a aurora vir chegando
até que a tarde triste vá tombando
e a noite desça cheia de segredo.

Ai! quem me dera que eu cantasse ledo
sem estes prantos que me vão cegando
e quando a noite vier se aproximando,
cantar contente sem nenhum degredo !

Como meu peito já não quer cantar
e minha vida sem amor definha,
no verso derradeiro a chorar

te peço encantadora moreninha,
que quando a morte me vier buscar,
reza uma prece pela alma minha !

MATE NO GALPÃO

O mate amargo passa de mão em
mão e a gente se lembra de tropeadas
do destino que leva por estradas
desconhecidas, tristes, sem ninguém.

A cuia prateada me entretém,
escutando os causos dos camaradas
que fizeram de suas gauchadas
por terras que se somem pelo além.

Ruivo fogo crepita no galpão,
nobre abrigo dos tauras soberanos
que saudosos se ajuntam no rincão

a fim de recordar passados anos.
E a cuia do gostoso chimarrão
me é tristezas, saudades, desenganos…

SONETO DO FIM DO DIA

A noite vem descendo vagamente,
as estrelas no céu vão apontando,
a lua começa sua jornada urgente,
de um lado para outro vai passeando…

Quem nestas horas, de um amor ausente,
não fica triste a imensidão mirando,
e embora tantas vezes queira e tente
modular, de tristor fica chorando?!

Nesses momentos sempre é que a saudade
me desanima, me tortura, ingrata…
E eu me recordo, olhando a imensidade,

dos felizes passeios pela mata;
e a feroz aflição que então me invade
irrompe dentro em mim como cascata !

SONETO À MULHER MORENA

Linda manhã radiosa me convida
a prosseguir nos passos rumo ao mundo,
porque sonhar amando é tão profundo,
que mais e mais, também prolonga a vida !

Mas se eu pudesse ser um vagabundo,
sem conhecer a estrada percorrida,
com certeza, conceberia a lida
de procurá-la até em um submundo…

Eu sei que vou lhe amar a todo o instante,
com seu sorriso límpido e brilhante,
qual se fosse de Alencar – ´´A Iracema´´!…

E para consagrar meu preito à bela
morena, que não sai da minha tela,
eis o soneto que ainda é o poema !

FARRAPO

Levantou-se o gaúcho sobranceiro
no alto da coxilha verdejante,
carregava uma carga no semblante
dum tristor que seria o derradeiro.

A glória de lutar e ser galante:
o sonho que conduz o aventureiro.
A glória de ser livre e ser gigante:
o lema que conduz o pegureiro.

Este lema e este sonho se fundiram
e assim surgiu o nobre Farroupilha
que lutou com ousada galhardia,

porque a honra e a justiça escapuliram
da canhada e do topo da coxilha,
do pago em que ele viu a luz do dia !

QUANDO MURCHAR A PRIMAVERA

Quando murcharem as flores dos caminhos
e o peito calar-me indiferente
como a serena mudez dos passarinhos
em noite senil e permanente…

Órfão de afetos, insaciado de carinhos
caminharei tristonho de dolente,
buscando outras sensações em novos ninhos
como a cura ao meu amor fervente.

E nada há de curar a viva chaga
que deixaste a sangrar em meu desejo
ao provar a doçura do teu beijo

naquela tardinha rubra e vaga
e onde estiveres chorarás baixinho
a mágoa de deixar-me tão sozinho.

CANSAÇO

No corpo sentírás a lassidão
de uma canseira incrível, de um torpor
que te virá só para em ti depor
as esperanças que te morrerão…

E numa palidez verás, então,
teus olhos magoados pela dor,
vidrados sem o brilho sonhador
que te deixava tão alegre são…

Desejarás dormir nestes instantes.
O sono não virá dar-te um abraço.
Irás cantar, mas inda que tu cantes

passarás amarguras como passo
e enxergarás que em risos deslumbrantes
te sorrirá flamívolo cansaço…


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Arquivado em Poemas, Rio Grande do Sul

Carolina Ramos (Ano Novo) e Agradecimentos

Aguarde para ler o poema inteiro desta grande poetisa santista 

 

CAROS LEITORES, ASSINANTES E SEGUIDORES DO BLOG
 
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Colaborações de literatos do Brasil, Moçambique, Angola, Estados Unidos, Espanha, Argentina, Chile, Portugal, Japão, Alemanha, Itália, Malta.
 
Enfim, finalizamos sempre em ascensão. Obrigado aos que colaboraram com seus textos, e a todos que participaram diretamente e indiretamente prestigiando estas páginas. Paro por agora, mas retorno dia 3 de janeiro de 2014., desejando uma ótima passagem de ano a todos. 
Ano que vem estaremos juntos novamente.
 
José Feldman
 
P.S.: Se beber, não dirija. Quero te ver com saúde e vivo em 2014

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Arquivado em agradecimento, Comunicado, Poemas

Jangada de Versos do Ceará (2)

NILTO MACIEL
Baturité (1945)
Se Me Chamares Fogo

Se me chamares fogo
eu te labaredas.

Se me quiseres água
eu te correntezas.

Se me julgares vento
eu te tempestades.

Se me disseres pedra
eu te porcelanas.

Se me chamares chão
eu te profundezas.

Se me quiseres noite
eu te estrela Vésper.

Se me julgares pássaro
eu te vendavais.

Se me disseres corvo
eu te Allan Poe.

Se me chamares serpe
eu te paraíso.

Se me quiseres corda
eu te Tiradentes.

Se me julgares diabo
eu te tentações.

Se me disseres anjo
eu te candelabros.

Se me chamares deus
eu te eternidade.

Se me quiseres louco
eu te poesia.

Se me julgares santo
eu te crucifixos.

Se me disseres vida
eu te funerais.

Se me chamares mito
eu te tecelões.

Se me quiseres pródigo
eu te ancestrais.

Se me julgares hoje
eu te amanhã.

Se me disseres sempre
eu te nunca mais.

Se me chamares vem
eu te seguirei.
====================

RACHEL DE QUEIROZ
Fortaleza (1910 – 2003)
Telha de Vidro

Quando a moça da cidade chegou,
veio morar na fazenda
na casa velha…
tão velha…
quem fez aquela casa foi seu bisavô…
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha..a.
A moça não disse nada;
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro,
queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade…

Agora
o quarto onde ela mora
e o quarto mais alegre da fazenda.
Tão clara que, ao meio-dia, aparece uma renda
de arabescos de sol nos ladrilhos vermelhos
que, apesar de tão velhos,
só agora conhecem a luz do dia…

A lua branca e fria
também se mete às vezes pelo claro
da telha milagrosa…
ou alguma estrelinha audaciosa
carateia no espelho onde a moça se penteia…
Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria,
sem um luar, sem um clarão…
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida?
Ponha uma telha de vidro em sua vida!
==========================
SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu (1944)
Réquiem em Sol da Tarde

Grita, para ver se alguém te responde.
(Livro de Jó, 5, 1)

Sim,
a porteira do caminho do rio
ainda era a mesma.

A direção do rio também;
presumo não tenham mudado o rio.

O benjamim,
disseram, morrera na seca do 93;
arrancaram-no pelo tronco.

Não replantaram sombra,
nem pássaro.

O banco de aroeira,
racharam-no em lenha de fogo.
O curral das vacas,
também.

O chiqueiro das ovelhas,
À esquerda da casa,
e o dos bodes,
à esquerda do das ovelhas,
sumiram todos.

O batente da porta-da-frente,
e abaixo dele outro batente,
onde uma pedra,
com um caneco d’água
lavei os pés,
ainda estão lá,
os batentes;

e nos batentes também estavam
meus rastros em riscos de fogo,
que continuam.

Os canários amarelos,
os mofumbos florados,
não os vi;
nem flor…
que também não vi.

Os armadores da rede,
na sala-da-frente, sim,
estavam no logar,
parecem,
outra vez prontos para rangir.

E daquelas pessoas,
quando perguntei por elas,
fizeram-me um gesto distante.

Perguntei por mim;
ninguém sabia quem era.

Eu disse:
é um conhecido meu que gostava muito
daqui.

Perguntaram-me quem eu era.
Um amigo, disse,
e fiz um gesto
ao tempo.

Ficaram sentidos por não saberem
nem de mim, nem do “outro”.

Um menino pequeno começou a chorar,
lá dentro.

A mãe correu
para acudir.

Despedi-me
sem dizer palavra.
======================

VIRNA TEIXEIRA
Fortaleza (1971)
Visita

Criado-mudo:
Bíblia e
rosário de contas.

Na cama, ao lado
a nudez
sem nome.
=================

FLORIANO MARTINS
Fortaleza (1957)
I  Salas de reconhecimento

Sou eu o nome as letras
em que te arrastas
As perguntas que iniciam
a travessia de tua dor

Noite inquieta sob escombros
Delicado tambor das tormentas 
Tua sombra vem vindo
ao ninho de minhas sílabas errantes

Tua sombra erguida 
Intimidade de cinzas
onde a dor o lábio toca 
Formas ressurgidas do caos
Prolongas teu ser em tudo o que me falta

Noite submersa em tremores
Esplendor de infernos  devassados 
Pousa tua mão
na esfera crepitante de meus sentidos

Uma prova o livro que conduz
ao templo 
Missal de cinzas 
Teu corpo soprado mil vezes
a queimar mais e mais longe de ti

Sou eu morte as ruínas
de tua história 
Lugar onde ninguém mais te escuta
Onde as pedras de fogo são polidas

Tua sombra erguida 
Oculto fósforo
no desmaio dos sentidos 
Os delicados jogos da morte
Assim escavas sob os pilares do tempo

A treva em ti atingirá
a fonte de outra queda 
Tumulto que eleva
tua vida acima de toda ruína

Sou eu o livro 
As vozes
de tua memória agitando os segredos do silêncio
Tuas carnes devoradas pelo tempo

Noite cerimonial do abismo
Tuas ruínas respiram em meu canto 
Mil nomes segreda
o ar ao cruzar as entradas invisíveis

Aqui andei 
Entre as criaturas
dementes do mundo 
Peregrino dentro de um quadro
Escrituras folheando o vento

Ressurges em mim 
Ávida sentença de meus
dias nas trevas 
Alma inacabada a sorrir das formas
que engendro como portas ao absoluto

Uma prova as últimas chamas
evocadas 
Braseiro confirmando a pele de teus dias
e suportar  as figuras do vazio

Noite nascendo em outra noite
Por trás das colunas circulares o fogo abriga o livro
do invisível pranto de suas cinzas

Aqui andei 
Fomos um e todos
Mascar o tempo é rito de alucinados 
Os episódios
virão dar todos nesta escura sala

Fonte:

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Francisca Júlia (Cristais Poéticos 2)

ADAMAH
(a Júlia Lopes d’Almeida)

Homem, sábio produto, epítome fecundo
Do supremo saber, forma recém-nascida,
Pelos mandos do céu, divinos, impelida,
Para povoar a terra e dominar o mundo;

Homem, filho de Deus, imagem foragida,
Homem, ser inocente, incauto e vagabundo,
Da terrena substância, em que nasceu, oriundo,
Para ser o primeiro a conhecer a vida;

Em teu primeiro dia, olhando a vida em cada
Ser, seguindo com o olhar as barulhentas levas
De pássaros saudando a primeira alvorada,

Que ingênuo medo o teu, quando ao céu calmo elevas
O ingênuo olhar, e vês a terra mergulhada
No primeiro silêncio e nas primeiras trevas…

CARLOS GOMES

Essa que plange, que soluça e pensa,
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa,

Guarda nas cordas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora arrasta
Ora do mar as queixas, ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.

Ei-la muda; mas tal intensidade
Teve a música enorme do seu choro,
O dilúvio orquestral dos seus lamentos,

Que, muda assim, rotas as cordas, há de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que su’alma lançou aos quatro ventos.

NATUREZA

Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas…

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias,
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.

A FONTE DE JACÓ

Na velha Samaria era Sicar situada;
Ora, em Sicar, Jacó, filho de Isac, um dia,
Velho já, tarda a mão, à sua gente amada
Uma fonte rasgou d’água límpida e fria.

O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(No tempo de Jesus a fonte inda existia)
À hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
De dor, a ver passar gentes de Samaria.

Uma Samaritana, acaso, à fonte veio;
E ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
O alto busto ondulou numa graça lasciva…

— Água! pediu Jesus, mata-me a sede e a mágoa!
Do cântaro, que tens, dá-me uma pouca d’água
Que, em troca, eu te darei da fonte d’água viva.

A UMA SANTA

Foge, sem ódio, ao mal; o bem pratica;
Se a dor lhe dói, cuida-a gostosa e boa,
Ou faz então com que ela lhe não doa;
Na pobreza em que está julga-se rica;

O mal, sabe que passa, o bem, que fica;
Por isso o bem acolhe e o mal perdoa.
Quanto mais vive, mais se aperfeiçoa,
Quanto mais sofre, mais se glorifica.

Por essa alta moral os atos regra;
Em nenhum outro esforço em vão se cansa,
Por nenhum outro ideal se bate em vão.

E é feliz, mais feliz porque se alegra
Não com o muito que a sua mão alcança,
Porém com o pouco que já tem na mão.

A UM VELHO

Por suas próprias mãos armado cavaleiro,
Na cruzada em que entrou, com fé e mão segura,
Fez um cerco tenaz ao redor do Dinheiro,
E o colheu, a cuidar que colhia a Ventura.

Moço, no seu viver errante e aventureiro,
O peito abroquelou dentro de uma armadura;
Velho, a paz vê chegar do dia derradeiro
Entre a abundância do ouro e o tédio da fartura.

No amor, de que é rodeado, adivinha e pressente
O interesse que o move, o anima e o faz ardente;
Foge por isso ao mundo e busca a solidão.

O passado feliz o presente lhe invade,
E vive de gozar a pungente saudade
Das noites sem abrigo e dos dias sem pão.

DE VOLTA

Mais encanto que a mais populosa cidade,
Dentre tantas que viu, a sua aldeia encerra,
— Uma nesga de gleba e socalcos de serra
Sob um céu sempre azul, de ampla serenidade.

Por tudo o olhar derrama ungido de saudade,
E, evocando o passado, os tristes olhos cerra.
Neste instante feliz, nada há que mais lhe agrade
Que sentir-se entre os seus em sua própria terra.

Chega. O primeiro amigo a quem a mão aperta,
Quase à meiga pressão se esquiva, indiferente,
E de outras efusões mais vivas se liberta.

Nessa mão, que recua, outras, frias, pressente…
Antes exílio e dor, pão duro e vida incerta,
Que o desprezo arrostar da sua própria gente.

PÉRFIDA

Disse-lhe o poeta: “Aqui, sob estes ramos,
Sob estas verdes laçarias bravas,
Ah! quantos beijos, trêmula, me davas!
Ah! quantas horas de prazer passamos!

Foi aqui mesmo, — como tu me amavas!
Foi aqui, sob os úmidos recamos
Desta aragem, que uma rede alçamos
Em que teu corpo, mole, repousavas.

Horas passava junto a ti, bem perto
De ti. Que gozo então! Mas, pouco a pouco,
Todo esse amor calcaste sob os pés”.

“Mas, disse-lhe ela, quem és tu? De certo,
Essa mulher de quem tu falas, louco,
Não, não sou eu, porque não sei quem és…”

NO BAILE

Flores, damascos… é um sarau de gala.
Tudo reluz, tudo esplandece e brilha;
Riquíssimos bordados de escumilha
Envolvem toda a suntuosa sala.

Moços, moças levantam-se; a quadrilha
Rompe; um suave perfume o ar trescala;
E Flora, a um canto, envolta na mantilha,
Espera que o marquês venha tirá-la…

Finda a quadrilha. Rompe a valsa inglesa.
E ela não quer dançar! ela, a marquesa
Flora, a menina mais formosa e rica!

E ele não vem! Enquanto finda a valsa,
Ela, triste, a sonhar, calça e descalça
As finíssimas luvas de pelica!

CARIDADE

A alma do homem se torna egoísta e má
Porque a impiedade de hoje é a sua escola.
Essa, que no Evangelho se acrisola,
Caridade cristã, onde é que está?

Capazes, hoje em dia, poucos há
Dessa piedade rara, que consola,
Que os olhos fecha para dar a esmola,
A fim de que não veja a quem a dá.

Sede piedosos. Bem-aventurados
Os que fazem o bem de olhos fechados.
Pois a esmola é só útil e eficaz,

Só tem justo valor, sem dano ou perda,
Se não chega a saber a mão esquerda
O benefício que a direita faz.

OUTRA VIDA

Se o dia de hoje é igual ao dia que me espera
Depois, resta-me, entanto, o consolo incessante
De sentir, sob os pés, a cada passo adiante,
Que se muda o meu chão para o chão de outra esfera.

Eu não me esquivo à dor nem maldigo a severa
Lei que me condenou à tortura constante;
Porque em tudo adivinho a morte a todo instante,
Abro o seio, risonha, à mão que o dilacera.

No ambiente que me envolve há trevas do seu luto;
Na minha solidão a sua voz escuto,
E sinto, contra o meu, o seu hálito frio.

Morte, curta é a jornada e o meu fim está perto!
Feliz, contigo irei, sem olhar o deserto
Que deixo atrás de mim, vago, imenso, vazio…

NOTURNO

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério…
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de um misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua…
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele, em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.

À NOITE

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra;
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois, a pensar… De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um “requiem” doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso…

Em noite escura assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor tão cheia de alma…

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

Fonte:

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Hernando Feitosa Bezerra Chagall (Cantares) VII

AGORA

A vida acontece
A todo o momento e em qualquer lugar
Estejamos ou deixemos de estar.
Atemporal escorre pelos dedos das mãos
Pegajosa lambuza-nos de gente
O coração.

ADOLESEMPRE
 
Meu coração inconsequente
Doce quente adolescente
Esquece o tempo que diz:

Tuas melenas brancas
Não fazem de ti criança
Então por que és tão feliz?

MERCADORES DA PALAVRA

Não aceito a palavra maldita
A palavra bendita rejeito
Prefiro a palavra não dita
Que faça abalar-me o peito
Porque
A palavra afiada
Eloquente e vazia
Não me diz nada
E
A palavra mansa
Mas cheia de hipocrisia
Simplesmente me cansa.

UÓ UÓ UÓ

Enquanto a ambulância
Desespera-se pela avenida
Trânsito e pessoas engarrafadas
Dizem não à vida.

SEMEADOR
 
Planto sementes, resoluto.
Sei nunca serei
Árvore ou flor
Sou fruto.

SEM CHANCE

Essa vida é uma escada
Apontada para o nada
Para aqueles que a vivem
Sem gozar a utopia
Das pessoas simples, vadias
Que amam e entregam-se amadas.

CICLOS

Nasço no verão
No outono frutifico
Morro no inverno
Na primavera ressuscito.

ALQUIMI$TA$

No princípio
Era o verbo
Um alquimista alegre
Cercado de crianças geniais.
Hoje
Alquimistas e crianças
$ão $eres $érios demai$.

CLOWN

Pintei um sorriso no rosto
Para disfarçar meu cansaço.
Hoje
Uns me chamam de louco
Outros exclamam, palhaço!!!

BEZERRAS

Tato frágil
Tito mais
Tita flor
Ambrózia
Pai…
Perdoem-me
Ser mais forte
Poeta
Sonho mais.

ADULTO

Vestido de feliz
Caminha o adulto triste
Enquanto a felicidade
Despida de maldade
Brinca de roda
Num coração
Infantil.

FLOR DO MEIO DIA

Eu nasci para ser feliz
Não lembro mais porque chorei
Também não sei porque sofri
O que sei é que amo demais
Do meu jeito meu mau jeito.
Importante!
É que ainda hoje consigo sorrir
Porque nasci neste lugar
E vim morar com a poesia
Menina flor
Musa do meio-dia.

FIO DE OURO

Num céu azul
De iluminadas núvens
Uma pipa dançando
Brinca de liberdade
Atrelada ao sonho que livra
Um garoto de sua dura realidade.

ESCREVER
 
Não jogues com palavras
Como quem joga dados
Nem com sentimentos
Como quem lê mãos…
Tuas sementes
Cultiva na mente
Com raízes fincadas
Em teu coração.

AVENIDA QUALQUER

Dos altos prédios impassíveis
Janelas olham, radares observam,

Antenas perfuram o céu
Da famosa cidade…
Êta ruazinha futriqueira, meu Deus!

OFÍCIO

Escrevo
Como quem acha um trevo
Escrevo
Como quem dá um beijo
Escrevo
Tudo o que desejo
Por muito desejar
Escrevo
Escrevo
Escrevo.

PRIMAVERA

A primavera talvez seja
Duas mãos cheias de cores
Que vêm silenciosamente
Abrir uma janela de fora pra dentro de nós
Movimentando de lá pra cá, daqui pra lá
Suavemente as coisas velhas
Sem nada quebrar.

BAILARINA
(Karina)

Ah, teus pés [rimas preciosas]
Bailam giram voam encantam
Como duas rosas.

Ai, teus pés [delicados artistas]
Quando finalmente no chão
Correm para as mãos do calista.

BALA PERDIDA
(No alvo)

Arma empunhada
Mirada no ser humano

Bala no alvo
Corpo no chão
Inocente ou não

Revólver do povo
Gatilho da lei
Ou vice-versa
Não sei

Sei que toda bala
Acerta sempre em cheio
O peito e o seio
De nossa frágil sociedade.

NEGRO

Negro jazz
Negro samba
Negro soul.

O branco canta e se encanta
Com o que a alma africana
Criou

Negro jazz
Negro samba
Negro soul
E Rock and roll!

OSCAR

Deus revela-se
Através das curvas
Leves, sinuosas e belas
Das monumentais mulheres
De Niemeyer.

LEITURA

Palavras dormem
No silêncio dos livros fechados
Cobertos pela poeira da ignorância…
Mas acordam
Em algazarra num livro aberto
Pela curiosidade de uma criança.

Fonte:
Hernando Feitosa Bezerra. Cantares.  Universidade da Amazônia – NEAD.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 15 – 20 de marco de 1887

“Câmara Municipal
Sem ter regimento interno!”
Exclamou, com ar paterno
Vereador pontual.

“Sem um acordo fraterno,
Um papel, um manual,
Certo, acabaremos mal,
Faremos disto um inferno.

“Digo-vos que é usual,
Em qualquer lugar externo
Haver regimento interno
Para evitar todo o mal.”

Em tom sossegado e terno
Diz outro municipal
Que o pau (físico ou moral)
É regime mais superno.

— “Há de haver algum sinal
Aqui, pelo lado interno,
Do efeito vivo e fraterno
Desse estatuto formal.

“Palavras (é dito eterno)
Às sopas não trazem sal;
Quero ação, ação real,
Venha do céu ou do averno.

“E que outra menos verbal
Que a ação do cacete alterno,
Não como um vento galerno,
Porém, como um vendaval?

Se, assim amparado, externo
Meu parecer cordial,
Para que me serve o tal
Regimento de caderno?

“Saiba a câmara atual
Que, se eu aqui não governo,
Tenho este dever paterno
De a não fazer trivial.

“Paterno disse? Materno;
Quero outro tom pessoal.
Fique-lhe o tom paternal
Ao colega mais moderno.

“Sim, o pau, é pau real
Venha do céu ou do averno,
E palavras (dito eterno)
Às sopas não trazem sal “.

Não sei que disse o paterno
Vereador pontual;
Eu, por mim, prefiro a tal
Um copo do meu falerno.

Não que seja um casual,
Ruim, triste e subalterno
Modo de encontrar em erno
O consoante final,

É falerno e bom falerno
Sorrir da municipal
Que vive tant bien que mal,
Sem ter regimento interno.

Ou esse escrito legal
Que o outro chamou caderno,
Para o bom viver paterno
Vale tudo ou nada val.

Se não, por que é que o superno
Parlamento nacional
Conserva um trambolho igual,
Quer de verão, quer de inverno?

Se sim, como é curial,
Que não tenha esse uso interno,
Corpo tal, que vive alterno,
Conservador, liberal?

Relevem se um subalterno
Entrou nesse cipoal…
Olha a taça de cristal,
Leitor, vamos ao falerno!

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Luiz Flávio do Prado Ribeiro (Poemas Avulsos)

Libreria Fogola Pisa (facebook)
Buarquianas n°1: No lugar

Ele já vai
e eu nem me despedi.
Vai resoluto,
ajeitando a gola
e eu aqui de camisola
de cor de luto.

Ele já foi
e eu nem me despedi.
Incontinenti,
bateu a porta,
assim como quem corta
o ar da gente.

Por quê assim,
se tantos anos se passaram em alegria,
e outros tantos, tantos dias,
tanta estrada,
entre prantos de esperança,
entre juras de mudança,
pra levar a nada …

Fica a vida tão pequena,
a cama grande demais,
a saudade vem sem pena,
a tristeza não fica atrás.

Homenagem à RPBA
Samba composto em Candeias (Disul), 1983

Jorrou
o primeiro poço em Lobato
e ali começou de fato
um grande movimento
que teve o seu momento
com a Lei 2004

Fruto das aspirações brasileiras
de salvaguardar o país
da intromissão estrangeira
essa lei nos garantiu o monopólio
para industrializarmos
o nosso petróleo

E após tantos anos a velha Bahia
que não tem mais a primazia
dos novos e grandes achados
ainda trabalha com valentia
pra produzir
o seu volume provado

Prestamos a nossa homenagem
a essa Região de Produção
e de tradição:
Água Grande, Taquipe, Araçás, Lamarão
Fazenda Bálsamo, Miranga, Remanso, Dom João
Candeias, Brejinho, Imbé, Conceição
Malombê, Buracica, Mata de São João

Jorrou …

Samba para o trabalhador do Recôncavo

Todos os Santos desceram do céu
com arco-íris, pincel e cinzel
e assim criaram, num lindo desenho
um monumento de arte e engenho …

Mas o Recôncavo
não é só a riqueza de seu solo encantado
não é só a beleza e o nome histórico
é também o suor de seus anônimos heróis
que pela vida
vão deixando a força e a voz

É também a viagem
passagem num mundo de fé e coragem
onde a nobreza é a nascente e a foz

Por isso navega …

Navega, navega
barcaça de cacau
nas ondas tão doces do canavial

Moinhos de sonho são dor e prazer
mão na massa, pé na estrada de massapê

Cavalga, cavalga
cavalo-de-pau
explora esses campos com alto ideal
que a luta, conduta de vida,
é força moral.

Salve o trabalhador:
Herói nacional !

Nossa parte
Enchi do vaso
o espaço terra.

Plantei
adubei
reguei.

Hei de colher,
que a flor
não erra.

Árvore que se planta
e rega,
não nega
a seiva.

O fruto-futuro,
sem eiva.

Fonte:
Goulart Gomes (organizador). Antologia do Pórtico.

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Francisca Júlia (Cristais Poéticos)

DESEJO INÚTIL
(a Vicente de Carvalho)

Qualquer cousa afinal de belo escolher devo
Para em verso plasmar no esforço da obra-prima:
Flor que viceja à sombra, asa que paira em cima,
Aroma de um pomar ou de um campo de trevo.

Aroma, ou asa, ou flor… Tudo o que diga e exprima
Perde, ao moldar-se em verso, o seu próprio relevo,
Porque sinto, mau grado a glória com que escrevo,

Presa a imaginação no limite da rima.

Não val pois provocar, e sem que isto te praza,
Minh’alma, e por amor d’arte que se não doma,
A mágoa que te dói e a febre que te abrasa:

O aroma, sente! est’asa, admira! esta flor, toma!
Mas deixa continuar inexprimidas a asa,
A beleza da flor e a frescura do aroma.

A CAÇADA
(a Valentim Magalhães)

Ao mirante gentil de construção bizarra
Acabou de subir naquele mesmo instante
Em que o seu noivo foi à caça; e, palpitante,
Lá fora cuida ouvir os sons de uma fanfarra.

E, ao mesmo tempo ouvindo o selvagem descante
Que, entre as folhas, sibila a estrídula cigarra,
Ela vai ler a carta onde o seu noivo narra
A dor que há de sofrer quando estiver distante…

E dorme, vendo o sol que, através de uma escassa
Nuvem branca, ilumina as íngremes encostas
Onde aos saltos rabeia a matilha da caça;

E, bem perto, ao rumor de trompas e ladridos,
O seu noivo gentil que, de espingarda às costas,
Lhe oferta uma porção de pássaros feridos…

SONHO AFRICANO
(a João Ribeiro)

Ei-lo em sua choupana. A lâmpada, suspensa
Ao teto, oscila; a um canto, um velho e ervado fimbo;
Entrando, porta dentro, o sol forma-lhe um nimbo
Cor de cinábrio em torno à carapinha densa.

Estira-se no chão… Tanta fadiga e doença!
Espreguiça, boceja… O apagado cachimbo
Na boca, nessa meia escuridão de limbo,
Mole, semicerrando os dúbios olhos, pensa…

Pensa na pátria, além… As florestas gigantes
Se estendem sob o azul, onde, cheios de mágoa,
Vivem negros reptis e enormes elefantes…

Calma em tudo. Dardeja o sol raios tranqüilos…
Desce um rio, a cantar… Coalham-se à tona d’água,
Em compacto apertão, os velhos crocodilos…

RAINHA DAS ÁGUAS
(a Alberto de Oliveira)

Mar fora, a rir, da boca o fúlgido tesouro
Mostrando, e sacudindo a farta cabeleira,
Corta a planura ao mar, que se desdobra inteira,
Na esguia concha azul orladurada de ouro.

Rema, à popa, um tritão de escâmeo dorso louro;
Vão à frente os delfins; e, marchando em fileira,
Das ondas a seguir a luminosa esteira,
Vão cantando, a compasso, as piérides em coro.

Crespas, cantando em torno, as vagas, à porfia,
Lambem de popa à proa o casco à concha esguia,
Que prossegue, mar fora, a infinda rota, ufana;

E, no alto, o louro sol, que assoma, entre desmaios,
Saúda esse outro sol de coruscantes raios
Que orna a cabeça real da bela soberana.

A FLORISTA

Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranquila… O sol faísca…
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz… Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha…

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas… Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando…

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco…
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.

A UM ARTISTA

Mergulha o teu olhar de fino colarista
No azul: medita um pouco, e escreve; um nada quase:
Um trecho só de prosa, uma estrofe, uma frase
Que patenteie a mão de um requintado artista.

Escreve! Molha a pena, o leve estilo enrista!
Pinta um canto do céu, uma nuvem de gaze
Solta, brilhante ao sol; e que a alma se te vaze
Na cópia dessa luz que nos deslumbra a vista.

Escreve!… Um céu ostenta o matiz da celagem
Onde erra o sol, moroso, entre vapores brancos,
Irisando, ao de leve, o verde da paisagem…

Uma ave banha ao sol o esplêndido plumacho…
Num recanto de bosque, a lamber os barrancos,
Espumeja em cachões uma cachoeira embaixo…

OS ARGONAUTAS
 
Mar fora, ei-los que vão, cheios de ardor insano;
Os astros e o luar — amigas sentinelas —
Lançam bênçãos de cima às largas caravelas
Que rasgam fortemente a vastidão do oceano.

Ei-los que vão buscar noutras paragens belas
Infindos cabedais de algum tesouro arcano…
E o vento austral que passa, em cóleras, ufano,
Faz palpitar o bojo às retesadas velas.

Novos céus querem ver, miríficas belezas,
Querem também possuir tesouros e riquezas
Como essas naus, que têm galhardetes e mastros…

Ateiam-lhes a febre essas minas supostas…
E, olhos fitos no vácuo, imploram, de mãos postas,
A áurea bênção dos céus e a proteção dos astros…

DANÇA DE CENTAURAS

Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga…
A dança hípica pára e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece…

MAHABARATA

Abre esse grande poema onde a imaginativa
De Vyasa, num fragor ecoante de cascata,
Tantas façanhas conta, e dessa estrênua e diva
Progênie de Pandu tantas glórias relata!

Ora Kansa, a suprema encarnação do Siva,
Ora os suaves perfis de Krishna e de Virata
Perpassam, como heróis, numa onda reversiva,
Nas estrofes caudais do grande Mahabarata.

Olha este incêndio e pasma; aspecto belo e triste!
Caminha agora a passo este deserto areoso…
Por cima o céu imenso onde palpitam sóis…

Corre tudo, ofegante, e, finalmente, assiste
À ascensão de Iudhishthira ao suarga luminoso
E à apoteose final dos últimos heróis.

PAISAGEM

Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso,
Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato
Que evapora a verdura e que deleita o olfato,
Pelas alas sem fim das árvores avanço.

Ao fundo do pomar, entre as folhas, abstrato
Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso
Escorrega de manso, escorrega de manso
Pelo claro cristal do límpido regato.

Nenhuma ave sequer sobre a macia alfombra
Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece
A campina, a rechã sob a noturna sombra.

E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas
Selvas adentro entrando, a noite desce, desce…
E espalham-se no céu camândulas de estrelas…

EM SONDA

Quieta, enrolada a um tronco, ameaçadora e hedionda,
A “boa” espia… Em cima estende-se a folhagem
Que um vento manso faz oscilar, de onda em onda,
Com a sua noturna e amorosa bafagem.

Um luar mortiço banha a floresta de Sonda,
Desde a copa da faia à esplêndida pastagem;
O ofidiano, escondido, olhos abertos, sonda…
Vai passando, tranqüilo, um búfalo selvagem.

Segue o búfalo, só… mas suspende-lhe o passo
O ofidiano cruel que o ataca de repente,
E que o prende, a silvar, com suas roscas de aço.

Tenta o pobre lutar; os chavelhos enresta;
Mas tomba de cansaço e morre… Tristemente
No alto se esconde a lua, e cala-se a floresta…

A ONDINA

Rente ao mar, que soluça e lambe a praia, a ondina,
Solto, às brisas da noite, o áureo cabelo, nua,
Pela praia passeia. A alvacenta neblina
Tem reflexos de prata à refração da lua.

Uma velha goleta encalhada, a bolina
Rota, pompeia no ar a vela, que flutua.
E, de onda em onda, o mar, soluçando em surdina,
Empola-se espumante, à praia vem, recua…

E, surgindo da treva, um monstro negro, fito
O olhar na ondina, avança, embargando-lhe o passo…
Ela tenta fugir, sufoca o choro, o grito…

Mas o mar, que, espreitando-a, as ondas avoluma,
Roja-se aos pés da ondina e esconde-a no regaço,
Envolvendo-lhe o corpo em turbilhões de espuma.

CEGA

Trôpega, os braços nus, a fronte pensa, várias
Vezes, quando no céu o louro sol desponta,
Vejo-a, no seu andar de sonâmbula tonta,
Despertando a mudez das vielas solitárias.

Arrimada ao bordão, lá vai… Imaginárias
Cousas pensa… Verões e invernos maus afronta…
Dores que tem sofrido a todo mundo conta
Na linguagem senil das suas velhas árias.

Cega! que negra mão, entre os negros escolhos
Do caos, foi procurar a treva, que enegrece,
Para cegar-te a vista e escurecer-te os olhos?

Cega! quanta poesia existe, amargurada,
Nesses olhos que estão sempre abertos e nesse
Olhar, que se abre para o céu, e não vê nada!…

RÚSTICA

Da casinha em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora.
Além, o seu quintal; este, o seu aposento.

Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora,
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento…

E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno.

Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.

INVERNO

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
O ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
Mexiam-se, de manso, ao resfolego brando
Da brisa que passava em tudo derramando
O perfume sutil dos cravos e das rosas…

Mas veio o inverno; a vida e amor foram-se em breve…
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados…
As árvores do campo, enroupadas de neve,

Sob o látego atroz da invernia que corta,
São esqueletos que, de braços levantados,
Vão pedindo socorro à primavera morta.

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Gonçalves Crespo (Poemas Escolhidos)

QUIMERAS

O mar já me tentou: aspirações fogosas
Fizeram-me idear fantásticas viagens;
Eu sonhava trazer de incógnitas paragens
Notícias imortais às gentes curiosas.

Mais tarde desejei riquezas fabulosas,
Um palácio escondido em múrmuras folhagens,
Onde eu fosse ocultar as cândidas imagens
Das virgens que evoquei por noites silenciosas.

Mas, tudo isso passou: agora só me resta
Das quimeras que tive, uma visão modesta,
Um sonho encantador, de paz e de ventura.

É simples: uma alcova, um berço, um inocente,
E uma esposa adorada, envolta, a negligente!
De um longo penteador na imaculada alvura…

SONETO DO OCASO

Sara, quando me vês, suave e brando,
Repelir os teus beijos amorosos,
Talvez julgues, mulher, ir declinando
O alegre sol dos dias teus formosos.

Como te enganas, flor! choro pensando
Que foste irmã dos lírios cetinosos,
E que talvez o céu fulgiu brilhando
De teus olhos nos raios luminosos…

Quem te colheu o beijo primitivo?
Que Fausto ou Mefistófeles altivo
Te enodoou as vestes, Margarida?

Escuta: enquanto dormes, impudente,
Talvez nalguma estrela resplendente
Chore tua alma triste e arrependida.

FERVET AMOR
(ao Dr. Antônio Cândido)

Dá para a cerca a estreita e humilde cela
Dessa que os seus abandonou, trocando
O calor da família ameno e brando
Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos florões manuelinos da janela
Papeiam aves o seu ninho armando,
Vêem-se ao longe os trigos ondulando…
Maio sorri na pradaria bela.

Zumbe o inseto na flor do rosmaninho;
Nas giestas pousa a abelha ébria de gozo;
Zunem besouros e palpita o ninho.

E a freira cisma e cora, ao ver, ansioso,
Do seu catre virgíneo sobre o linho
Um par de borboletas amoroso.

NA ALDEIA
(a Cristóvão Aires)
 
Duas horas da tarde. Um sol ardente
Nos colmos dardejando, e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
O grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
Treme o loureiro nos umbrais pintados;
Zumbem à porta insetos variegados,
Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia à soleira uma velhinha: o filho
No céu mal acordou da aurora o brilho
Saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
Ao longe correm seminus, inquietos,
No mar ondeante da seara loura.

MODESTA
(a minha irmã)

Se lembro esse momento
Mais belo d’esta vida!
Voava desprendida
A tua coma ao vento…

O teu olhar, querida,
Desceu ao meu tormento,
E após enternecida
Disseste em brando acento:

“Tua alma sofre e chora,
Quando o porvir se inflora,
Quando a teu lado estou!…”

Doce te olhei tremendo;
A noite ia descendo,
Um beijo se escutou.

MODESTA (II)

Um beijo se escutou,
E eu via mal seguro
A luz que ele traçou
No azul do meu futuro.

Um beijo se escutou.
Depois… teu lábio puro
Mais brando suspirou
Que a pomba em ermo escuro.

Voz doce e piedosa!
Não fujas, mariposa,
Não tremas, Galatéia!

Gwinplaine, extasiado,
De um ósculo sagrado
Os pés ungia a Déia…

O CAMARIM

A luz do Sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha,
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a “Norma”, ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.

MIMI

Recreia-se a minh’alma se à tardinha
Na janela diviso essa inocente;
Que nunca vi olhar mais transparente,
Nem figura gentil como a vizinha!

Desce às vezes a tímida avezinha
Ao seu jardim, e afaga docemente
Da Cochinchina um galo refulgente,
Que em seu regaço lânguido se aninha.

Ajeita, ao ver-me, o seu vestido curto,
E, as longas tranças concertando a furto,
Fita os olhos no azul toda tristeza.

E nesse tempo acode-me à lembrança
O já ter visto assim uma criança
Numa gravura ideal da escola inglesa.

NA ROÇA

Cercada de mestiças no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco a pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.

Brilham insetos no capim rasteiro
E vêm das matas os negros colhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.

Atrás das grades, pardas borboletas
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.

Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 14 – 7 de marco de 1887.

Se eu fosse aquele Custódio
Gomes ou Bíblia chamado,
Que não deu esmola ou bródio,
Nem mimos por batizado,

Pela luz que me alumia,
Juro, e mais que nunca, juro,
Que pesaroso olharia
Para este processo escuro.

Daria grandes palmadas,
Ao ler tantas testemunhas,
Tantas cousas encontradas,
Tantas mãos e tantas unhas.

Pesquisas de parte a parte,
E um testamento que é tudo:
Ora forjado com arte,
Para uso e para estudo,

Ora verdadeiro e filho
Do próprio autor sepultado,
Que ajuntara tanto milho
Para não vê-lo espalhado.

Audiências e audiências,
Nomes, nomes, nomes, nomes,
Pendências sobre pendências;
Fosse eu o Custodio Gomes,

Suspiraria: —”Bem tolo
Que fui eu em prepará-lo,
Esse rico e imenso bolo,
Se não tinha de papá-lo.

“Que ajuntei, dia por dia,
Vintém a vintém suado,
Para deixar tal quantia
De dinheiro amontoado;

“Que, quando havia desmancho
Na casa de um inquilino,
Em vez de dar esse gancho;
Sabia intrépido e fino,

“Armado de cal, tijolo,
Colher e as cousas restantes,
E lograva recompô-lo,
Melhor do que estava dantes.

“Que, se vagava algum prédio
Dos meus, ia ver se tinha
Uma taboa p’ra remédio,
Talha ou taco de cozinha,

“Qualquer cousa que algum dia
Valesse às necessidades…
Com pouco e pouco (dizia)
Fazem-se as grandes cidades.

“Comi o pão que o Diabo
Amassou; fui parco e ativo,
Trazia as botas no cabo,
Mas a mão firme, o olho vivo.

“E no fim de tanta lida,
Não sei se boa ou má sorte,
Saí do rumor da vida,
Sem olhar a paz da morte.

“Todos os dias cá leio
Impresso o meu triste nome;
Vejo escrito que fui meio
Maluco e unhas de fome.

“A minha vida sem ócios,
Gente de casa e costumes,
E todos os meus negócios…
Já dá para encher volumes!

“Ah! se em vez de andar c’o a sela
Na barriga a vida inteira,
Vida de meio tigela,
De poupança e de canseira,

“Vivesse à larga, comesse
Deliciosas viandas,
E cauteloso bebesse
Vinho de todas as bandas;

“Roupa fina, o meu teatro,
Uma ou outra vez berlinda;
Moças, o diabo a quatro
Até a existência finda;

“Quem se lembraria agora
De mim? Dormia esquecido,
Sem chegar a voz sonora
Dos prelos ao meu ouvido.

“Convivas e devedores,
Pode ser que se lembrassem
Das ceias e dos favores,
E alguma vez me louvassem;

“Mas tão baixinho e tão pouco
Que a voz não me chegaria,
E eu, que acabei meio louco,
Surdo e mudo acabaria”.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Javier Di Mar-y-abá (Poemas Avulsos)

Libreria Fogola Pisa (facebook)
CASTANHEIRAS

Esperei-te séculos!
Ergui-me viçosa e bela
Até que apareceste
Com ares senhoriais.
Eu sempre pensei
Nosso sexo
Assim mesmo:
Sem nexo.

Mas essa motosserra
Foi demais.

GAMELEIRA

A casta refletirá verdades
Que a selva não denuncia;

Braços embalar-se-ão
Ao sabor de brisas
Que tuas raízes jamais saberão.
Há um sonho escondido ali,
Amores e calumbis
Debaixo da gameleira.
O sol brinca de esconder
Por detrás da gameleira.

Jaz um pedaço do mundo
Debaixo da gameleira.

INFÂNCIAS

O mundo fez piruetas
Com o pé de manga-rosa
Pintou as bolas-de-gude
Com as sobras do arco-íris.
Brincavam de amarelinhas
Felizes muricizeiros.
Curiós, xexéus e sanhaços
Faziam o maior furdunço
Nas frutas, nos arvoredos.

Os anos de todos eles
A gente contava nos dedos.

Com argamassa dos sonhos
A terra forjava os homens:
Era Bruno, Erick, Carol e Rafa
Brincando de lobisomem.


Fonte:

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Fernando Pessoa e Antonio Manoel Abreu Sardenberg (O Amor)

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Hernando Feitosa Bezerra Chagall (Cantares) VI

SERTANEJO

Pés de alpercatas
Marcam a terra vermelha
Desdenhoso o vento apaga
Cada passo a seu tempo
Seguindo andarilho
Caminhos de lugar
Nenhum.

PÍER

Todos atracados
Neste imenso porto
Por um fio amarrados
Caminhamos soltos
Olhando pra quem sabe
Na vastidão do céu
Do ser poder achando
Que a verdade encontra se aqui.

SUTIL
 
A palavra é um empecilho
Diante do que você quer tocar:
O sentimento.
Use-a
De maneira suave.
Algo como
Mergulhar olhos n’água
Ver o peixe
E sentir-se pescador.

CANTO ZEN

Gosto do cantinho
Das escadas estradas clareiras
Gosto do cantinho
De mim mesmo
E gosto muito
Deste planeta
Cantinho do universo.

ANDARILHO

Lá vinha ele
Lento sujo sebento
Pés no chão…
Aos que fingiam não vê-lo
Dançava o balé
Do ser humano.

PARTO

O poeta pare
Com imenso prazer
A dor que sugere vida
E nessa tentativa de alegria
Gera poesia.

JARDIM DOS POETAS

No jardim dos poetas
As flores são azuis e amarelas
Pequeninas libélulas
flutuando sobre a relva
Sob uma fina chuva de sol
Onde o dia alegre explode
Perenemente
Van Gogh.

OUTONO

Na amarelada
Árvore da vida
Colho alguns frutos
Do outono que chegou
De mansinho
Provando neles
Um enjoado sabor de mim.

SIMPLES ASSIM

Sou passo
O mundo espaço
A vida caminho.

O objetivo que traço
Cabe num simples abraço
Num olhar ou num carinho.

FLOR DE LÓTUS

Lá fora brilha o sol
Enquanto me escondo
Nas sombras e sobras do ego
Tentando colher
Do lodo que envolve minh’alma
A mais bela pura e alva
Flor de mim.

FENIX
 
O mundo explode à minha volta
Entre os escombros
Procuro-me
No que brota.

SONS DO SILÊNCIO

A palavra às vezes encanta
Quando embargada na garganta

A palavra às vezes enternece
No silêncio de uma prece

A palavra às vezes extrapola
Num doce acalanto de viola

A palavra às vezes atrapalha
Uma atitude ou coisa que o valha

A palavra calada ou escrita
Quando fala à alma, grita.

CAMPO SANTO

Oh, Babilônia cinzenta!
Teus caminhos violentos nos conduzem
A este jardim suspenso
Cujas flores de plástico
Regamos anualmente
Com meia dúzia
De lágrimas sinceras.

FRÁGIL LIBERDADE

Para cada pobre preso
Um verso livre
Para cada liberdade
Uma rosa
Ainda que frágil
E despretensiosa.

SUNSHINE
 
A cada manhã
Sem pressa palavra ou esquema
Nasce no horizonte
O mais belo quente e espetacular
Poema.

SILÊNCIO

Sabendo que o olhar é mira
Que a boca é cano
Que a língua é gatilho
E as palavras, balas…
Escolhi o silêncio e o sonho
Como armas.

P.A.L.A.V.R.A
 
Minhas palavras
São tijolos
Que edificam pessoas
E tijoladas
Que derrubam máscaras.

SCHOOL

Muitas vezes
Andando por seus corredores silenciosos
Sinto-me como quem caminha
Por uma catedral vazia
Entretanto
É na algazarra de suas crianças
Que ouço os mais belos hinos
Da esperança.

LIVRE DOCENTE
 
Sou um livre pensador
Que caminha por aí
Disfarçando a própria dor
Ensinando o que não aprendi
Pois o que aprendi
A escola não ensina
Vida se apreende
De esquina em esquina.

CAMINHANDO CONTRA O VENTO

Não tenho pressa pra nada
Caminho mais lento a estrada
Correndo não curto a paisagem
Parado atrapalho a passagem
Tranquilo consigo galgar
Um lance a mais dessa escada.

CREPÚSCULO

Guardou a lua no bolso
Caminhou sob uma fina garoa de sombras
Chegou em casa tranquilo…
Pendurou o cabelo no prego
Jogou os olhos sobre a cômoda
Colocou o sorriso no copo
E perenemente
Adormeceu.

Fonte:
Hernando Feitosa Bezerra. Cantares.  Universidade da Amazônia – NEAD.

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Loreta Valadares (Poemas Avulsos)

Fonte: Espaço Das (facebook)
Não te esqueças
de mim
minha memória…
a vida que levei
as lutas que ganhei
e as sem vitória.

Não te esqueças
de meu sonho
a gargalhada
e de minh’alma
apaixonada
que te fique
a lembrança
enlouquecida
de viver
intensamente
aos arrancos
sem prantos
totalmente
sem fôlego
Paixão
descabida
de revirar tudo
tudo
tudo…

Não te esqueças
de mim
minha angústia
o tempo
que perdi
as portas
que bati
a tormenta
o fracasso…
Que de mim
te recordes
a ânsia
de ultrapassar
limites
e arrancar
raízes

Maldita
teimosia
de não desistir
nunca
nunca…
==========================================

Vértices
conexos
ângulos
inversos
caminhos
díspares
delicada
flor
(recém)
desabrochada
em terreno
árido.
Para onde vai
o que não foi feito?
Ah! Se eu soubesse…
Ah! Se eu soubesse…

Sei tudo
e não sei nada.
Vida transpassada
alma inquieta
sonho sem limite
estreita passagem
perfeita miragem…

E
não sei nada
de tudo.

Não posso ter perdido
o que nunca tive
nem ter vivido
onde não estive
não posso ter chorado
a lágrima não vertida
e sequer ter aplacado
essa paixão ensandecida
de revolver a vida
tão completamente
e me tornar cativa
dos caminhos
sinuosos
da liberdade
(re)nascente.
================================

Mar
maresia
maremoto
mar morto
marulhar
maravilha.
Mar de rosas
mar alto
encapelado.
Mar aberto
maré cheia
longe mar
beira-mar
Marejar
Lacrimar
……………..
Navegar…
navegar
onde-mais
em-que-mar….
========================

Coração,
para quê?
Eixo
do corpo
qual
eixo
do mundo
a executar
a rota
da esfera celeste.

Coração,
para quê?
Viver?
Sentir?
Ou, simplesmente,
com Fernando Pessoa,
“sentir com a imaginação
e não usar o coração”?

Coração,
para quê?
===============================

Tento
não ficar
triste
mas a dor
existe
e a espera
fere
como faca
em ponta
apontando
o instante
que pisca,
pisca
e não brilha…

(e onde é
que está
meu livro
de inglês?)
Não achei…
Não achei…

(enquanto esperava na fila do banco)
=================================

Sono
esquisito
infinito
sonho
espera
de tempos
encantados
de desejos
impossíveis
de trilhas
invisíveis.

Abro
os olhos
e espio
pela janela:
nenhum sinal
da noite.
==================================

Flor
Floreio
Florada
Flor-de-lis
Flor-da-noite
Floral
Floresta

Florete.
Ferino
Corte
============================

Humanas vozes
em gritos
de silêncio
clamam
da vida
uma resposta

Vazados olhos
em visões
sinistras
espreitam
no mundo
a loucura

Paira
sobre ondas
revoltas
(a) tormenta
do tempo
presente

Feixe
de luz
e sombras
atravessado.
Punhal
cravado
no peito
da humanidade

Fonte:
Goulart Gomes (organizador). Antologia do Pórtico.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 13 – 24 de fevereiro de 1887.

Há tanto tempo calado…
E sabem por quê? Por isto:
Pelo número fadado
Da ceia de Jesus Cristo.

Número treze. Com esta
São treze as minhas Gazetas.
Numeração mui funesta,
Cheira a cova e a calças pretas.

Há, porém, quem afiance
Que treze é dúzia de frade.
É opinião de alcance,
Que anima e que persuade.

Contudo, em uma pessoa
Sendo supersticiosa,
Antes que na cousa boa,
Crê na cousa perigosa.

Daí veio esta comprida
Vadiação; era medo,
Medo de perder a vida
Cedo, mais que nunca cedo.

Lembra-me inda certo dia,
Quando eu tinha treze anos;
Jantamos em companhia
Treze rapazes maganos.

Um acabou reprovado
Na Escola de medicina;
Outro está bem mal casado;
Outro teve pior sina.

Pior, digo, e em muitos pontos;
Geria a casa dos Bentos;
Fugiu, levando dez contos,
Em vez de levar quinhentos.

Outro é político, e anda,
Ora triste, ora sinistro;
Dizem-me que ele tresanda
Vontade de ser ministro.

Em dia de crise, voa
A meter-se em casa, à espera
De alguma notícia boa;
Espera que desespera.

Só sai quando o gabinete
Fica de todo formado,
E jura pelo cacete
Que há de pô-lo derreado.

Bufa, espuma. Abrem-se as câmaras,
E o meu companheiro e amigo
Aguarda o tempo das tâmaras,
E torna ao seu voto antigo.

Outro daqueles rapazes
Procura sinceramente
Entre os meios mais capazes
De encher a barriga à gente.

Um que seja imediato
E de graúdas prebendas,
Ou testamento, ou barato…
Já não há pr’as encomendas!

Cá por mim, tive um inchaço
Na perna esquerda; diziam
Que essa doença era andaço,
E até que muitos morriam.

Sarei; mas foi sobre queda
Couce. A morte tão sombria.
Que tantas casas depreda,
Poupou-me para este dia.

Pois, minha dona, aqui fico,
Já daqui me não arranco,
Achei um recurso rico:
Deixo este número em branco.

Não dou Gazeta nem nada;
Não falo em cousa nenhuma,
Gouvea, moção, espada;
Em suma, de nada, em suma.

E tanto mais ganho nisto
Que, como se fala em rolo,
Podia um lance imprevisto
Tirar-me o melhor consolo.

Que é este: olhar para a rua
Cheia de cousas chibantes,
E dizer — Feliz a lua…
Se é que não tem habitantes.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Jangada de Versos do Ceará (1)

LEONTINO FILHO
(Aracati,1961)
DENTRO DA NOITE, PENSO EM TI


Volta e meia
sigo rumo à ilha do amor
coisas antigas que ficaram
nau perdida no porto abandonado
barco sem vela
que persiste no desenho
formado pelas águas dos rios.

Volta e meia
o fluxo de imagens paira sobre as águas
e sigo devorando
a cauda dos sonhos
retornando ao chão descontínuo da ilusória
estrada do bem querer:
uma outra história.

Volta e meia
o amor perturba o sono descontente das estrelas
e o luar embaraçado
por tantos murmúrios
arma a provisória tenda da paixão:
o meu olhar de neblina
costurado na memória
tece a infância medieval
do teu corpo.
=============================

JOSÉ LINHARES FILHO
(Lavras da Mangabeira , 1939)
A MINHA MAE, HABITANTE DA MORTE


Tua branca rede já não se arma
para a sesta. Todavia guardo,
com o ranger longínquo dos armadores,
a placidez do teu sono
a entreter o meu sonho.
No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave.
A mesa posta, entre o apetite e a lembrança,
há uma cadeira sem dono.
Falta ao alimento o tempero
que de tuas mãos ninguém pode aprender.
Mas junto a mim esta um cântaro
que se encheu de lágrimas que libertam.
As dálias do jardim continuam a florescer,
cada ano, tão brancas, tão viçosas! Contudo
parecem reclamar a sutileza
de um carinho que o meu sono não esquece…
Teus pincéis dormem
com a resignação de pincéis.
Minha alma imperfeita, a despeito de teres sido
artista perfeita, pede, todo dia,
os últimos retoques.
Santa e elmo,
no navio em que eu encontrar borrasca,
os teus olhos serão santelmo…
No silêncio noturno não se ouvem mais
os passos cautelosos com que fechavas
a janela que dá para a rua,
no entanto percebo,
na lã escura da noite,
o abrigo do teu xale.
=====================================

MYRIA DO EGITO
(Fortaleza)
PINCELADAS TORTURADAS


esparramando cores
na tela apática,
embebe-se e nasce,
da mão torturada
do pintor.

Feridas jorrando tons,
amarelos desesperados,
vermelhos sangrantes.
E azuis
todas as nuances
mar, noite, água, céu.

Angústia borbulhante
em criação incansável
como se soubesse
que o tempo esvaía-se
como os que partiam
como os que morriam.

Desespero explode
vulcão em erupção.
Alma atormentada
amputando-se.
Faca, orelha, dor,
tela, campo, cor.
Olhar perdido,
sem saber de si.

Perdendo-se
no torturante
pesadelo de criar.

Carente
de um olhar por dentro
da carcaça infame.

Banido.
Tingido de cores
em tela de sombras.

 Teu legado.
que o mundo rejeitou.
espraia-se por
galerias e museus.
Inatingível
e eterno.
Impassível
como as cabeças de cervos
em paredes anónimas,
Conheço tua tortura,
parceiro na loucura,
na busca do ponto final.
==================================

EDUARDO PRAGMACIO DE LAVOR TELLES FILHO
(Foratleza, 1969)
INVASÃO


Essas imagens perdidas na noite
antes me despertavam encanto,
agora me trazem tormento.

E quando me tocam,
a rosa arranca o espinho,
a taça rejeita o vinho
e o tempo se cobre,
rapidamente,
com um lençol branco de linho.

A imagem
escorrega até a ponta
dos meus dedos,
no íntimo da palavra,
invade o papel.
==============================
HORÁCIO DÍDIMO PEREIRA BARBOSA VIEIRA
(Fortaleza, 1935)
A PALAVRA CHAVE


 a palavra chave
 já não fecha
 nem abre

 a palavra amor
 muda de cor

 a palavra verde
amadurece

a palavra ave
voa no papel
==========================

CARLYLE DE FIGUEIREDO MARTINS
(Fortaleza, 1899 – 1986)

E S T Ó I C O     

 Pelo caminho estreito em que ora sigo,
Pisando em cardos, sob um céu escuro,
Não vejo a paz serena de um abrigo,
Nem sol que aclare as trevas do futuro.

Encontrar leve alfombra não consigo,
Em toda parte o solo é áspero e duro,
Mas, no árduo impulso do vigor antigo,
Em seguir a jornada me aventuro.

Viva eu a dores infernais sujeito,
Pedradas rudes batam no meu peito,
Pervague à toa, esquálido e sozinho,

Sei que a mágoa da vida é transitória,
E hei de um dia cantar, de amor e glória,
Vendo estrelas e sóis no meu caminho.

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Clevane Pessoa (Outros Versos)

HAICAIS
( em Haicais, Clevane utiliza o pseudônimo Hana Haruko)

Os risos das crianças:
No cristal, bolas de gude
— luzes trepidantes ­

Pássaros canoros
Energia em expansão
Almas projetadas…

Gestação do arco-íris
Leveza atestando o efêmero
— Bolha de sabão.

Reflexo de prata:
Luar despeja-se no mar
— Espelho do céu

Leve borboleta
Vitória sobre a crisálida:
Pétalas aladas…

Sons de flauta doce:
Murmúrios edulcorantes
– Vento no bambual…

Órgãos musicais
De sonata progressiva:
Cigarra insistente

Armadilha bela:
Luz atraindo mariposa
– Destinação cruel

Força dos opostos
Espirais de eternidade
Yin e yang: você e eu

Pescoços de cisne
Transformam em corações
O espaço vazio…

Mini-borboletas
Orquídeas papilonáceas
– Só não podem voar

Violinista freme
Libélula com o arco
Vibrações no espaço…

Pássaros nos fios
Como notas musicais:
Celestiais canções…

A chuva pingando
Devassa o botão da flor
De / flora antes da hora…

Pele contra pele
Proximidade de cheiros:
Mistura de humores

POESIAS

De Anjos e de Pássaros

Ergo olhar deslumbramento
vejo anjos sobre cabeças humanas
dentro da catedral;
Anjos de ferro negro,
esculturas na arquitetura
de formas quase profanas
a romper tradição.

Não desabe ó figura
milenar, tu que estás
bem sobre mim ,
que não rezo orações prontas
e somente sei usar
o verbo molhado em pranto
ou a metáfora cheia de luar.

(…)
Que desabem
sobre as cabeças dos poetas
os passarinhos em alarido
dentro de um mercado,
a parecer kamikaze,
suicida em massa,
ao jogar-se do teto ao chão
apenas para bicar migalhas.

São nosso retrato:
livres, sem sermos canalhas,
videntes com olhos cheios de palhas
a pre/dizer os tempos,
cada fato envolvido
no pacote dos tesouros,
crianças e sábios a um mesmo tempo,
a chamar atenção pelos voos inusitados.

(…)

Prefiro os pássaros vagabundos
das ruas e das igrejas,
mercados e sinais.
Não são artes singulares e belas
nem enfeites de catedrais:
os anjos passarinhos
de Brasília
estão presos a cabos
e suspensos
sobre nossas cabeças
a lembrar talvez pecados ,
talento, criatividade embora.
Já os pássaros – anjos
desde o Egito antigo
têm a missão de carregar almas
entre a vida terrena
e a morada dos deuses.

ALEGORIA DAS PALAVRAS SOLTAS

Que as mãos dos poetas
libertem as palavras de conceitos e preconceitos antigos.
Que a voz dos poetas entoe cantos inusitados
e muitas vezes inaudíveis aos demais.
Mas que sejam sempre palavras oloROSAS,
a perfumar os poros dos amados e dos amigos.
O que vier a mais, será benesse e lucro, e dividendo
mais importante que a glória
e a libertação do proprio menestrel.
Que os versos sejam livres, com palavras soltas,
a resignificar todas as im/possíveis metáforas!

PALMEIRA SOLITÁRIA
para Luiz Lyrio, in memoriam

Do alto, para onde cresce
em busca do azul absoluto,
a palmeira (quase) antiga,
bela e conformada,
vê passar o tempo.
Suporta intempéries e poeira
rebrilha rocio ao sol,
na terra das gemas.
Um dia, voltará ao pó
e renascerá no ciclo da vida.

A ESSÊNCIA DOS POETAS

De metáforas alimenta-se o poeta
mas também dos olores mais fragrantes.
faz das eternidades,
meros instantes,
quando voa nas asas das alegorias…

Mas de denúncia também vivem os seus versos
pois sensível qual bolha de murano
destinada á beleza singular,
aquecido pelo fogo da justiça,
consome-se em seu próprio Gilbratar,
divino e humano,
mero e avatar.

O poeta tem nas mãos,
os segredos da sacra escrita,
consagrada aos deuses da Beleza,
mas também ergue o dedo acusatório:
brilha de indignação seu anular,
pois é humanista, artista, esteta
e sabe colocar-se no lugar
de seu semelhante…

O poeta escreve sobre seus sentires
e sobre os sentimentos alheios.
Sussurra ou brada, conforme a acontecência,
mas é sempre emissário da quintessência
que muitas vezes
nessa Terra não encontra lugar…

IMPRESSÃO

A terra é mais que amante-amada:
sem ela o tudo cotidiano
vira um quase nada…
Com ela, um mínimo amplia-se
parecendo a maior riqueza do universo
na transmutação dos ciclos…

DE UM SONHO

Do sonho entressonhado
entreaberta flor
de mil pétalas
holopetalar
traduz-me as sutilezas
e multiplicações
da Palavra…
Cheiro os cheiros,
coloro as cores,
abro o entreaberto
e chego ao self
das revelação.
Ao poeta é permitido sonhar
e sonhando desvendar
o segredo

CANÇÃO PARA ELIANE POTIGUARA

Sinringe canora,
avis rara,
Eliane Potiguara.

Maracá e pena,
“mejopotara”
cocar e urucum
caneta e papel
diploma e renome:
Eliane Potiguara.

Aluá,beiju,
mani-oca
ocara,
dança e canta
voz baixa e clara,
Eliane Portiguara.

Peixe boi e boto.
uirapuru e boitatá,
igarapé, igara,
o avô rio
peixes oferece,
no livro a letra
aparece, imagina/ação
floresce,
Eliane Potiguara.

Pacifista e guerreira,
um pé no atavismo,
outro no modernismo,
mas sempre fiel às raízes.
Defenda úteros
sagrados à terra
e ás lições de continuidade.
Quer a mata, mora na cidade,
no asfalto não de ara,
mas sua sabedoria dispara
lendas e crenças,
cerimoniais,
fitoterapia ancestral,
sempre atual.
Eliane Potiguara.

Mulher
que sabe o quer
e busca, sobe montanhas
ou busca clareiras
para ela nada ocorre à toa
tudo é vestido
de muito sentido.
Atenta, ouve, fala,
cheira, sente
vê.

Na natureza,
a verdade é muito simples,
nada no mundo para,
tudo é beleza e partilha.
Eliane Poti, Potiguara,
da floresta filha,
da cidade adotada,
adapta-se, jamais é uma ilha
defende as outras mulheres…

Eli, Eliane, Eliane Potiguara,
potiguar, potiguara, poti:
chama a deusa o sol e chama a deusa lua
essa Nação é mesmo tua,
por direito ancestral.
Descendente dos úteros sadios
das mães da Terra brasilis,
você é
andiroba, seringueira,
guaraná e açaí.
roçado e igara,
peneira,
tipi-tipi,paná -paná, ati-ati,
voa, ave,
voa borboleta,
o caldo da mandioca
coa, você é tudo isso e muito mais,
Eliane Potiguara,
mesmo se vestir vestidos citadinos
e aparecer em salões nas festas…
Mas os olhos de castanhas,
os cabelos lisos e escuros,
a cor da pele bonita,
sempre apontam que você
é onça nativa, arara.
Eliane Potiguara,

Pega o microfone, tecla e fala,
defende a mulher ,a criança, a idosa,
pede proteção á iara.
você é forte e poderosa,
Eliane Potiguara,
“Metade Máscara,
Metade Cara”…

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Ailton Maciel (Ó Meu Deus!)

I
Ó meu Deus! Ó meu Deus! Destrói a noite.
Eu não suporto o seu cruel açoite
No vento a repicar!…
Eu quero a luz; a noite o ser destrói,
Sua algidez o corpo me corrói
De vício e de pesar!
 
II
Eu sou filho da luz, filho da aurora.
O meu ser purpureja e triste chora
Quando a luz frouxa apaga…
Não me deixes sofrer tanta desgraça,
Senhor, destrói a noite e a traspassa
Pra bem longe… outra plaga!
 
III
Quando à noite me inclino no meu leito,
Me contorço a gemer de todo jeito
A sentir muitas dores;
Depois, quando adormeço – e já bem tarde
O coração fervilha e o peito arde
A sonhar mil horrores!
 
IV
Lembranças muitas tenho do meu bem;
Uma saudade infinda logo vem
Depois… quando desperto!
E sofro angústia… dor… saudade e tédio;
E só os versos de amor são meu remédio.
O meu remédio certo!
 
V
Desprezo o breu e amo o lírio agreste,
Que de alvura a natura lhe reveste,
E transborda de luz.
O branco augusto é a luz que diviniza.
E a luz, pudor e graça simboliza;
E aos bardos seduz!
 
VI
Bendita seja a luz – bendito o dia,
Que transborda de viço e de alegria
Na madrugada em flor!
Te bendigo, ó luz – direção dos mastros
Perdidos em mar – néctar dos astros;
Madona do esplendor!
 
VII
Surgi, luz: – ilumina o meu pensar.
Quero vê-lo divino ao sol brilhar,
Amor reverberando!
Quero subir ao ápice – à fronteira
Onde só brilha luz a vida inteira
O verso alumiando!
 
VIII
Quero subir ao panteon sagrado,
Olhar bem perto o gênio imaculado
Do Deus da inspiração.
Quero ver Vênus – deusa da beleza,
Do formoso, do belo – singeleza;
Dona do coração!
 
IX
Inspira, ó musa, ao poeta um só instante
O viço do pensar inebriante
Que diviniza o verso!
Dai-me luz, ó musa, o verso ilumina-me,
E para o Éden sagrado encaminha-me;
Para a luz do universo!
 
X
Eu sou filho da luz – amo as alturas;
O perfume da flor – das formosuras,
Das candentes donzelas.
Amo o vicejo agreste, a brisa, o vento;
Odeio o mal – o seio purpurino
Das fétidas querelas!
_____________
Ailton Maciel deixou alguns inéditos. Ailton Alves Maciel (nome completo) nasceu em Baturité, Ceará, em 7 de março de 1943. Em vida nada publicou, embora tenha escrito inúmeros poemas, romances e contos. Sua obra mais importante desapareceu. Talvez no incêndio doméstico que quase o matou, em Brasília, onde foi viver (e morrer) no início dos anos 1970. Sua morte clínica se deu no dia 22 de outubro de 1974. Apenas quatro contos se salvaram: “Santa Caçada”, “O Touro”, “O Careca” e “O Presente da Professora”, publicado na revista Literatura n.º 24, de 2003. Outros onze fragmentos encontrados podem ser de contos e romances.
Fonte:

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Jangada de Versos do Ceará (1)

LEONTINO FILHO
(Aracati,1961)
DENTRO DA NOITE, PENSO EM TI

Volta e meia
sigo rumo à ilha do amor
coisas antigas que ficaram
nau perdida no porto abandonado
barco sem vela
que persiste no desenho
formado pelas águas dos rios.

Volta e meia
o fluxo de imagens paira sobre as águas
e sigo devorando
a cauda dos sonhos
retornando ao chão descontínuo da ilusória
estrada do bem querer:
uma outra história.

Volta e meia
o amor perturba o sono descontente das estrelas
e o luar embaraçado
por tantos murmúrios
arma a provisória tenda da paixão:
o meu olhar de neblina
costurado na memória
tece a infância medieval
do teu corpo.
=============================

JOSÉ LINHARES FILHO
(Lavras da Mangabeira , 1939)
A MINHA MAE, HABITANTE DA MORTE

Tua branca rede já não se arma
para a sesta. Todavia guardo,
com o ranger longínquo dos armadores,
a placidez do teu sono
a entreter o meu sonho.
No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave.
A mesa posta, entre o apetite e a lembrança,
há uma cadeira sem dono.
Falta ao alimento o tempero
que de tuas mãos ninguém pode aprender.
Mas junto a mim esta um cântaro
que se encheu de lágrimas que libertam.
As dálias do jardim continuam a florescer,
cada ano, tão brancas, tão viçosas! Contudo
parecem reclamar a sutileza
de um carinho que o meu sono não esquece…
Teus pincéis dormem
com a resignação de pincéis.
Minha alma imperfeita, a despeito de teres sido
artista perfeita, pede, todo dia,
os últimos retoques.
Santa e elmo,
no navio em que eu encontrar borrasca,
os teus olhos serão santelmo…
No silêncio noturno não se ouvem mais
os passos cautelosos com que fechavas
a janela que dá para a rua,
no entanto percebo,
na lã escura da noite,
o abrigo do teu xale.
=====================================

MYRIA DO EGITO
(Fortaleza)
PINCELADAS TORTURADAS,

esparramando cores
na tela apática,
embebe-se e nasce,
da mão torturada
do pintor.

Feridas jorrando tons,
amarelos desesperados,
vermelhos sangrantes.
E azuis
todas as nuances
mar, noite, água, céu.

Angústia borbulhante
em criação incansável
como se soubesse
que o tempo esvaía-se
como os que partiam
como os que morriam.

Desespero explode
vulcão em erupção.
Alma atormentada
amputando-se.
Faca, orelha, dor,
tela, campo, cor.
Olhar perdido,
sem saber de si.

Perdendo-se
no torturante
pesadelo de criar.

Carente
de um olhar por dentro
da carcaça infame.

Banido.
Tingido de cores
em tela de sombras.

 Teu legado.
que o mundo rejeitou.
espraia-se por
galerias e museus.
Inatingível
e eterno.
Impassível
como as cabeças de cervos
em paredes anónimas,
Conheço tua tortura,
parceiro na loucura,
na busca do ponto final.
==================================

EDUARDO PRAGMACIO DE LAVOR TELLES FILHO
(Fortaleza, 1969)
INVASÃO

Essas imagens perdidas na noite
antes me despertavam encanto,
agora me trazem tormento.

E quando me tocam,
a rosa arranca o espinho,
a taça rejeita o vinho
e o tempo se cobre,
rapidamente,
com um lençol branco de linho.

A imagem
escorrega até a ponta
dos meus dedos,
no íntimo da palavra,
invade o papel.
==============================
 

HORÁCIO DÍDIMO PEREIRA BARBOSA VIEIRA
(Fortaleza, 1935)
A PALAVRA CHAVE

 

 a palavra chave
 já não fecha
 nem abre

 a palavra amor
 muda de cor

 a palavra verde
amadurece

a palavra ave
voa no papel
==========================

CARLYLE DE FIGUEIREDO MARTINS
(Fortaleza, 1899 – 1986)
E S T Ó I C O     

 Pelo caminho estreito em que ora sigo,
Pisando em cardos, sob um céu escuro,
Não vejo a paz serena de um abrigo,
Nem sol que aclare as trevas do futuro.

Encontrar leve alfombra não consigo,
Em toda parte o solo é áspero e duro,
Mas, no árduo impulso do vigor antigo,
Em seguir a jornada me aventuro.

Viva eu a dores infernais sujeito,
Pedradas rudes batam no meu peito,
Pervague à toa, esquálido e sozinho,

Sei que a mágoa da vida é transitória,
E hei de um dia cantar, de amor e glória,
Vendo estrelas e sóis no meu caminho.

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Mário A. J. Zamataro (Dois Olhares)

Noite de céu coberto
sem luar
lanterna
estrelas
mas ao longe
um brilho é guia
do andarilho
vacilante

Mesmo o longe
muito longe
não inibe a caminhada
são dois tempos
dois lugares
dois espaços
numa noite

Noite longa
já se arrasta
por estradas
avenidas
ruas tortas
curvas retas
por subidas
e descidas
pradarias
altas serras
vales fundos
cumes rasos
chão batido
asfalto frio
mato ralo
mato grosso
um corguinho*
um rio mais largo
nas esquinas
e nas praças
tantas casas
a cidade

E eis que o longe diminui
mesmo o escuro
a noite cansa
e passo a passo ele andarilho arremete o pó as pedras
vento chuva e tempo tempo]
São dois tempos
dois lugares
dois espaços
numa noite

O andarilho 
enxerga a noite
no horizonte e mais além
nas viradas do terreno
do outro lado da divisa
e a noite é boa
a noite é livre
a noite é clara
é linda a noite
do andarilho
a noite é chama
e ele declama
e se derrama
e se declara
à noite ele ama
a noite é dama e dela emana aquele brilho (brilho ao longe)
do andarilho

Mas andarilha 
ela é também
na mesma trilha
a noite escorre
pelos vãos do tempo tempo
e nos vãos do vento (ui)vento
há muitos vãos
em poucas mãos

São dois tempos
dois lugares
dois espaços
dois olhares
===========================
* Nota:
Corguinho é córrego em linguagem popular. Deve ter nascido do fato de os rios, riachos e córregos serem naturalmente os limites das propriedades.
==================
Fonte:
CHIARI, Alcir et al. Antologia Novos Autores Curitibanos.  Curitiba: Gusto Editorial, 2013.
Imagem – montagem com imagens obtidas na internet

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Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG (Juventude em Versos Diversos)

JOSÉ FELDMAN*
Saudades


Oh! Saudades da juventude,
daqueles dias de outrora,
em que não existia vicissitude,
e eu seguia mundo afora.

Oh! Saudades da juventude,
de quando minha vida era um sonho,
e apesar de toda minha inquietude,
sempre havia um semblante risonho.

Oh! Saudades da juventude,
de um tempo que ficou prá trás,
um tempo em que a solitude,
não era mais que um cartaz.

Oh! Que saudades da juventude,
daqueles tempos de paz!
––––––––––––––––––-
*Escritor, presidente da Academia de Letras do Brasil/Paraná, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.
==============================

HELENA SELMA COLEN*
Aos jovens


Com o tempo você aprende:
Que a vida é oferecida como um prêmio.
Cultivar esse prêmio é um grande dever.
Que o aprendizado pode perpetuar um bom futuro.
Que o futuro é reflexo do presente.
Que jovem tem o direito de ser jovem.
Mas a obrigação de sentir respeito pelos mais velhos.
Que aquilo que você acredita ser impossível, pode estar acontecendo amanhã.
Que a riqueza pode ser alcançada.
Sem perder a alegria de viver.
Que a felicidade pode ser dividida com outras pessoas.
Que tudo que precisam está ao seu alcance.
É preciso saber procurá-la.
E, acima de tudo, ame.
Ame a Deus e a família. Ame os amigos e os não muito amigos.
Sem desanimar, nunca irá se arrepender.
––––––––––––––-
*Professora, escritora, reside em Ladainha/MG, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni
=======================

CLEVANE PESSOA*
Juventude


A juventude mostra uma beleza especial,
pois reúne traços ,força, coragem
para contestar e renovar o Mundo.
Todo o corpo vem da infância,
Com sua carga de vida pura,
Com uma nova existência a possibilitar…
Os órgãos, pouco desgastados,
Quando a saúde impera,
Trazem consigo um vigor
Que se perde depois, sem desejar…
A memória mediata e imediata,
É tão plena de capacidade.
Que os jovens sem perceber,
São capazes de acumular
Informações, lembranças, emoções,
E disputar, desfrutar, narrar,
Tudo que passaram
qual uma ave em voo,
sempre querendo chegar…
Qual uma rosa de pétalas e sépalas perfeitas,
Abrem-se ao beijo de um sol particular!
Ah, se todo esse potencial pudesse ser preservado…
Se os jovens não acabassem as maravilhas
Da vida herdada , com excessos, drogadição,
Se não se expusessem a mil noites indormidas,
à violência, à pressa sem razão!
Se as necessidades do corpo jovem
Não fossem minimizadas pela falta de boa alimentação!
Deveríamos amadurecer a mente, a alma, o espírito,
Mas sem envelhecer , parados
num tempo físico de mais valia,
sem tristezas, mágoas, revoltas,
fome ou violação dos direitos naturais!
A juventude é a verdadeira beleza.
Tudo mais é consolo, é paliativo
À casa corporal que foi bela e agora, em ruínas,
Vai devagar se desgastando
Até ao suspiro final…
–––––––––––––––––
*Escritora, poetisa, membro da Academia Feminina Mineira de Letras, reside em Belo Horizonte/MG, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.
==============================

ELBA KHADIJA*
Aos Jovens


O refletir e pensar
Ouvir e aceitar,
É o que devemos acatar
Para o nosso bem estar.

Para um futuro brilhante,
Ouvir os sábios
Nos trará glórias
E um saber exemplar.

Educando nossa mente,
Sermos sempre obedientes
Ficaremos à frente
Para as conquistas alcançar.
–––––––––––––––––
*Escritora e poetisa, reside em Paranaguá-PR, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.
=======================

FRANSILVA*
Conflito de Gerações

 
O tempo passa, traz maturidade
Velhas lembranças que se eternizam
Volta e meia traz também saudade
Ou feridas que nunca cicatrizam.

Tempo e experiência, de mãos dadas
Às vezes trazem a sabedoria
Outras tantas, são cruzes ou espadas
Razão de sofrimento e agonia.

Nossa terceira ou, MELHOR IDADE
Lamenta por perder a JUVENTUDE
O jovem busca a maturidade:
Paradoxo em forma de virtude.

Pouco importa a faixa etária
Todas elas são muito importantes
Ainda mais que a faixa é temporária
E os destinos, são itinerantes.
––––––––––––––––––
*Professor, escritor e poeta, reside em Bom Jesus do Galho/MG, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.
========================

GLÓRIA BRANDÃO*
Festiva Aurora da Juventude


És tu, ser jovem, dono da mocidade
Brisa fresca que invade tua narina
Almejando sorver da vida, toda felicidade
Saiba manejar o lápis para escrever tua sina.

Verdes anos são esses, do teu agora
Vive, pois, esses dias de glória e poesia
Com licitude no desejo que em ti aflora
Colherás flores mescladas de aroma e alegria.

Nos albores fanfarrões da juventude
Esparja belas sementes no teu viver
A vida amiúde, com ledos enganos te ilude
Detentor da juventude, não venhas a padecer.

A aurora da juventude é viçosa e contente
Nesse dilúculo festivo navegam as ciladas
Não penetres em abismo e serás feliz vivente
Assim, tuas pegadas serão por Deus, abençoadas.
––––––––––––––––––––––––––-
*Escritora e poetisa, reside em Itabuna/BA, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.
==================================

FRANCISCO ALVES BEZERRA*
Pugilato da razão


Surge um facho de luzes, que fazem dos súbitos instantes
Coroa de plumas brilhantes dos páramos azuis.
Ao longe um fraco grito cruza os horizontes
Das páginas do infante livro das luzes.
Nas voltas do século brotam sementes do saber!
E entre as palmas do mundo vão as sementes brotando
E as raízes incólumes vão ficando no solo da amplidão.
E do estrato surgem braços ainda molhados de suor,
Nas mãos um alfarrábio dourado,
Entre os dedos o aljôfar do passado
Com alcunha de esperança do existir.
Mas se o tufão ameaça destruir o Livro Sagrado,
Do esforço grande dos guerreiros verdes,
Surge ao longe sob as imensas plagas
Um forte grito, maior que o infinito,
Mais bravo que Davi.
Meu Deus, que grito é esse,
Que afugenta a tempestade e arrasta o tufão?
Ah! É um grito lançado das páginas brilhantes
Vindo do peito desses bravos estudantes
Do coração do amado Brasil!
E em festa o firmamento aplaude o solo brasileiro,
Que brotou de sementes tão santas
Altaneiras plantas de coração estudantil!
–––––––––––––––––––
*Funcionário Público, escritor, reside em São Bernardo do Campo/SP, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.
============================

GESSIMAR GOMES DE OLIVEIRA*
Refém do tempo


Juventude,
Fiz o que pude,
Mas, você se foi.

Calmamente,
Lentamente,
Como isso dói!

O tempo passou veloz,
Deixando em todos nós,
Lembranças e cicatrizes.

Hoje sou um idoso,
Desiludido e muito saudoso,
Dos momentos felizes.

Não tenho o vigor de outrora,
Vejo só o correr das horas,
No tristonho rolar do dia.

Ah, se eu pudesse, novamente,
Possuí-la, imediatamente,
Como feliz eu seria!
–––––––––––––-
*Escritor, bancário, reside em Montes Claros/MG, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni
==========================

ANTONIO SÉRGIO TORRES FERREIRA*
Conceito de juventude


Como gotas de orvalho,
Que fluem dentre dedos.
Afoitos, vorazes, sem medos,
Vivendo de momentos, atalho.

Doces encantos em faces juvenis,
Forjam personalidades, atrozes,
Permeiam sorrisos em vidas febris,
A vida escoa, tempos velozes.

Momentos de ternura finita,
Encontros de gerações, controversas,
Poesias que nascem em gestos e imitam,
A vida em simples conversas.

Não apenas a esperança do amanhã,
Porém, certezas que englobam experiências,
Todas empreitadas lhe confiadas, pendências.
Serão logo tratadas em todos os temas,
Para produzirem todas as consequências.

Juventude não é apenas não ter idade,
É abrigar no peito um vontade imensa,
Voraz e ter sempre viva a sede do saber e querer,
Como consequência, diariamente oferecidas,
Ter a consciência de absorvê-las com aprazimento.
Para que a experiência do tempo lhe seja amena…!
–––––––––––––––-
*Membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni, titular da cadeira 21.
======================

VERÔNICA VICENZA*
Rejuvenescer


Velha, depois da batalha
Chora as cinzas da mortalha
Esquece o sol que ainda brilha
Pensas apenas nos dias de anilha
Em que suportaste o peso da estaca.

Fraca, exausta, cansada…
Envenenada vida dançada
Repousa tua mente
Sossega teu coração
Rejuvenesce calmamente

Abastece-te de paixão
E depois de todo o alívio que sente
Ao esquecer os percalços de vivente
Segue…
Siga jovem, o teu caminho.

Pois a vida é feita das feridas que levamos
Mas também do sucesso das batalhas que travamos.
–––––––––––––––––––––-
*Escritora, poetisa, relações públicas, reside em Águas Belas/DF, é membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni.
===============================

LEUSON FRANCISCO DA CRUZ*
A Juventude


Tão sábia, às vezes sabiá
Tanto do campo ou da cidade
Também gosta de cantarolar
É gente moça, é mocidade.

Desabrocha como as flores
Alegra o lugar onde está
Perde tempo pra sonhar
Retira em ilusões de amores.

De passagem é passageira
Porque não se deu conta ainda
Pois vaga como uma estrela
Até de passagem é muito linda.

Perde tempo pra pensar
À vezes tem forte reflexo
Outras vezes pra se mostrar
Fica cheia de complexo.

Gosta sempre de criticar
Atitudes dos mais velhos
Às vezes não leva a sério
Que envelhecer é capacitar.

Quando se é jovem ou juvenil
Com a força da jovialidade
É um orgulho para esta idade
Ser chamada, futuro do Brasil.
––––––––-
*É membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni, titular da cadeira 2.
========================

Fonte:
Revista Literária Café-com-Letras – Ano 11 n.11. Teófilo Otoni: Academia de Letras de Teófilo Otoni, 2013.

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Yara Cecim (Sopa de Poemas)

ENCANTAMENTO

Sou filha das águas azuis do meu rio.
Criei-me nas praias do meu Tapajós
ouvindo as yaras cantando em surdina
seu canto de amor
que embriaga, que encanta,
lavando os cabelos com a espuma das ondas,
seus longos cabelos, tão lisos, tão verdes,
da cor da esperança que a gente acalanta.
A hora do sol, deitadas nas pedras
seus corpos secavam,
enquanto os cabelos, tão lisos, tão longos,
as águas levavam, pra lá e pra cá…
À noite elas riam e brincavam de roda
na areia da praia, à luz do luar,
enquanto serena a lua banhava
seu rosto redondo nas águas do rio
e a gente medrosa do boto encantado
fechava-se em casa, tremendo de frio.
E foi numa noite de maio bissexto,
de águas tão grandes, tocando o assoalho
que eu vim a este mundo,
por mãos do destino,
tão frágil, tão tenra como um mururé.
Depois as yaras meu berço embalaram
e ensinaram à mamãe suas canções de ninar.
A fada madrinha seu nome me deu
e velou por meu sono
quando eu era criança.
Por isso ainda hoje eu escuto seu canto.
Uma doce cantiga de amor e esperança.

O RIO E O MAR

Amo a tranquilidade das águas serenas
do rio, que descem cantando pro mar.
O doce ondulado das calmas maretas
que batem na areia
sem a machucar.
Adoro a cantiga serena da yara
em noites prateadas com a luz do luar
que me fala à alma,
que entorpece o espírito,
que não me magoa
nem me faz chorar.
Amo a placidez das coisas encantadas.
As lendas que falam de coisas bonitas,
do boto encantado, do uirapuru,
da cigarra amiga ao cair da tarde
ciciando na folha do pé de caju.
Sou rio e não mar.
Sou yara e não ninfa.
Sou cabocla flor,

como dizia meu pai
com carinho e amor.
Sou musgo da pedra
que o vento arrancou
jogando no mar
e o mar destroçou.

(SEM TÍTULO)

Eu não sou aquela Nega Fulô
do poema escrito por Jorge de Lima
que conta a história de outros amores
bem mais diferentes do amor que te dou.
Da minha janela contemplo o horizonte
aberto, terrível, de ondas bravias
que se atiram ferozes nas pedras escuras
se despedaçando, quebrando-as também.
Que levam pra longe a mirada da gente,
arrastando, ondulando como uma serpente.
Adoro a mareta que vem se chegando
de manso, rolando na areia branquinha,
chegando, chegando, suave, maneira
e eu caminhando tranquila, sem medo,
esperando que venha, amorosa, cheirosa,
molhar os meus pés, me contar um segredo!
Prefiro ser lenda
a ser uma história
de heróis, de vikings,
de naus com mil remos
lutando, matando,
sofrendo, morrendo
por uma coroa,
por um Imperador.

Fonte:
Poesia do Grão-Pará. RJ: Graphia, 2001.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 12 – 5 de fevereiro de 1887

Quem diria que o Cassino,
Onde a fina flor se ajunta,
Ficaria tão mofino,
Que é quase cousa defunta?

Aqueles lustres brilhantes,
Que viram colos e braços,
Pares e pares dançantes,
E os ardores e os cansaços;

Que viram andar em valsas,
Quadrilhas, polcas, mazurcas,
Moças finas como as alças,
Moças gordas como as turcas;

Que escutaram tanta cousa
Falada por tanta gente,
Que eternamente repousa,
Ou geme velha e doente;

Que viram ir tanta moda
De toucados e vestidos,
Vestidos de grande roda,
E vestidos escorridos;

Ministros e diplomatas,
E outros hóspedes ilustres,
E sábios e pataratas…
Ó vós, históricos lustres,

Que direis vós desse estado,
Cassino a beira de um pego;
Melhor direi pendurado
De um prego, lustres, de um prego?

Deve até o gás, aquele
Gás que encheu os vossos bicos,
Que deu vida, em tanta pele,
A tantos colares ricos.

Deve ordenados, impostos,
E gastos tão incorretos,
Que até não foram expostos
Por diretores discretos.

E vede mais que há ruínas
No edifício, e é necessário
Colher muitas esterlinas
Para torná-lo ao primário.

E há mais, há a idéia nova
De alguns acrescentamentos,
É pôr o Cassino à prova
Com outros divertimentos.

Oxalá que a cousa saia
Como se deseja. Entanto
Posto que a reforma atraia,
Acho outro melhor encanto.

Não basta que haja bilhares,
Conversações e leituras
Partidas familiares,
E algumas outras funduras.

Preciso é cousa mais certa,
Cousa que dê gente e cobres,
Disso que chama e que esperta
Vontades ricas e pobres!

Não digo elefante branco,
Nem galo de cinco pernas,
Nem a ossada de um rei franco,
Nem luminárias eternas.

Mas há cousa que isso tudo
Vale, e vale mais ainda,
Cousa de mira e de estudo,
Cousa finda e nunca finda.

Que seja? Um homem. E que homem?
Um homem de Deus, um Santos,
Que entre as dores que o consomem
Não esquece os seus encantos.

Esse general que estava
Há pouco em Paris, e voa
Quando apenas se curava.
Voa por mais que lhe doa,

Voa à pátria, onde uns pelintras,
A quem confiara o Estado,
Para ir ver as suas Cintras,
E tratar-se descansado,

Entenderam que podiam
Passos de pouco préstimo
Governar, e que o fariam,
Como seu, o que era empréstimo.

Homem tal, que mais não sente
Que a sede do eterno mando,
Que, inda prostrado e doente,
Quer morrer, mas governando,

Olhe o Cassino, valia
Algum esforço em pegá-lo
No dia, no próprio dia
Em que passasse, e guardá-lo.

Pois tão depressa a Assembléia
Oriental e aterrada
Soubesse disso — uma idéia
Seria logo votada.

Vejam que idéia e que tino:
Que anualmente o seu tesouro
Pagasse ao nosso Cassino
Trezentos mil pesos de ouro,

Quando à velha sociedade
Particular encomenda
De guardar nesta cidade
Aquela famosa prenda.

Com isso, e mais o cobrado
Às pessoas curiosas,
Passavas de endividado,
Cassino, a maré de rosas.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Lourival Açucena (Versos)

A POLÍTICA

I

Você pergunta, Yayá,
Por que deixei a política?
Você quer saber de tudo,
Você é muito analítica.

Pois bem, eu lhe digo:
Ouça o que eu refiro,
Porque nesse jogo
Já fechei o firo…
Mas, olhe, menina,
Que dos meus arcanos
Não quero que saibam
Gregos nem Troianos…
Já ouviu, Yayá?

II

Esses arautos políticos,
Quer de uma, quer doutra grei,
Quando estão de baixo gritam:
“Viva o povo” – “Abaixo o Rei”!

Mas, o sábio Rei,
Que conhece tudo,
Faz que não entende,
Fica surdo e mudo;
E o povo que idéia
Não tem dos negócios
Vai crendo nas loas
Dos tais capadócios…
Já ouviu, Yayá?

III

Prometem ao pobre povo
Um governo angelical,
A terra da promissão,
Um paraíso ideal…

Porém, quando grimpam,
Cessam as cantigas
E tratam somente
De suas barrigas.
E nem mais conhecem
Aquele bom moço
Com quem já viveram
De braço ao pescoço…
Já ouviu, Yayá?

IV

Prometem casas da Índia,
Cabedais, mundos e fundos:
Mas, quando estão no poleiro:
–Viva Dom Pedro segundo!

Seja liberal
Seja puritano,
Traz o povo sempre
Num completo engano.
Gregos e Troianos
Procedem assim…
Eu vou debulhando
Tintim por tintim…
Já ouviu, yayá?

V

Enquanto esperam maré,
Oh! Que afeto! Oh! que doçura!
Mas, quando embarcam na lancha,
Quanto gás!… quanta impostura!

E toda carícia
Veste-se em orgulho,
E a massa fina
Reduz-se a gorgulho.
Eu de rapapés
Estou escarmentado,
E de farrambambas
Muito escabriado…
Já ouviu, Yayá?

VI

Nas vésperas da eleição,
Vão à casa do compadre,
Dão beijos no afilhado,
Rompem sedas à comadre…

E o pobre diabo
Entra na rascada,
Tomando sopapos,
Servindo de escada.

Eles vão p’ra Corte

E o compadre fica
Bebendo jucá,
Ou dose de arnica…
Já ouviu, Yayá?

VII

Propalam grandes idéias,
Proclamam belos princípios,
Arrotam patriotismo,
Por todos os municípios.

Tudo isto é pirraça,
Isto tudo é peta,
É toda a questão
L’argent na gaveta:
Ou, então, galgar-se
O mando, a grandeza,
Para, lá de cima,
Calcar-se à pobreza…
Já ouviu, Yayá?

VIII

Morra Pedro e viva Paulo,
Com muita festa p’ra festa,
Com pouco mais: – Viva Pedro,
Morra Paulo que não presta.

Quanta incoerência
E contradição!…
Oh! Que mastigado
Que especulação!…
Quem isto negar
Terá boa fé?!…
Nega de finório,
Ou de pai-mané…
Já ouviu, Yayá?

IX

Hoje, Sancho é muito bom…
Amanhã, Sancho é ruim…
Já fica sendo um demônio
Quem foi ontem Serafim.

Eu não os entendo,
Eu não os percebo,
E, nesta enredada,
Se os percebo, cebo!…
Por isto, safei-me,
Sem bulha e arenga,
E livre-me Deus
Da tal estrovenga…
Já ouviu, Yayá?

EU NÃO SEI PINTAR AMOR

Amor é brando, é zangado
É faceiro e vive nu,
Tem vistas de cururu,
E vive sempre vendado:
É sincero, é refolhado,
Causa prazer, causa dor,
Tem carinhos, tem rigor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é terno, é cruel,
É rico, é pobre, é mendigo,
É dita, é peste, é castigo,
É mel puro, é agro fel;
Tem cadeias, traz laurel,
É constante, é vil traidor,
É escravo, é grão Senhor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é loquaz, é mudo.
É moderado, é garrido,
É covarde, é destemido,
É galhofeiro, é sisudo.
É vida, é morte de tudo,
É brioso, é sem pudor.
Traz doçura, dá travor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é grave, é truão,
É furacão é galerno,
É paraíso, é inferno,
É cordeirinho, é leão;
É Anjo, é Nume, é Dragão,
Tem asas, tem passador,
Dá esforços, faz tremor.
Enfim, pinte-o quem quiser,
Retrate amor quem quiser,
Eu não sei pintar amor.

DELÍQUIOS

Donzela bela, Eucaris formosa,
Brisa odorosa, que afugenta a calma:
Ah! Foge, foge, dos salões dourados,
Que mil cuidados me despertas n’alma.

Donzela bela, Flor de Lis amada!
Mimosa fada, que de amor me encanta:
Se brinca o zéfiro com o teu cabelo,
Amargo zelo meu prazer quebranta.

Donzela bela, ante quem Aglaia
Cora e desmaia, vendo um teu sorriso;
Do rio à margem, oh! esconde o seio,
Pois me receio do gentil Narciso!

Donzela bela, oh! Não vejo o mundo
Esse jocoso riso encantador.
Não vás ao bosque, que no bosque habitam
Deuses que excitam de volúpia amor.

Donzela bela! Não me dês ciúmes,
Brandos queixumes, compassiva, atende,
Ouve: não queiras de Silvano a flauta,
Que a virg’incauta sedutora prende.

Donzela bela! prazenteira palma,
Vida dest’alma, que só quer amar-te;
Da trácia lira ternos sons desejo,
Em doce arpejo para consagrar-te.

Donzela bela! Vênus coruscante!
Em seu levante pela madrugada,
Sob os influxos dessa luz benina
A minha sina já se vê mudada.

Donzela bela! nenúfar mimoso,
Vergel umbroso, onde Amor descansa,
Dá-me um abrigo nos teus lindos braços,
Preso nos laços da sedosa trança.

A PORANGABA

Minha gentil Porangaba,
Imagem, visão querida,
Só teu amor me conforta,
Nos agros transes da vida.

Quando ouço a juriti
Soltar saudosa um gemido,
Saudoso, pensando em ti,
Respondo com um ai! dorido…

Se, na campina deserta,
Terno sabiá gorjeia,
Deste amor, que me inspiraste,
Voraz a chama se ateia.

Quer procure o povoado,
Quer divague na espessura,
Mostra-me a mente abrasada
Tua elegante figura.

Estando de ti ausente,
Da saudade eu sinto a dor;
Serão teus os meus suspiros,
Minha afeição, meu amor.

Da vida o doce prazer
Em mim fenece e acaba;
Só este amor não falece,
Minha gentil Porangaba!

SABIÁ
(LUNDU)

Eu fui pegar passarinho,
Na matinha de Yayá?
Engendrei o meu lacinho
E peguei um sabiá.

Sabiá, eu bem sabia,
Sabia que tu caías.
Sabiá, fica sabendo
Que tu cais todos os dias.

Sabiá ressabiado
Na matinha arrepiou-se,
Eu toquei chama de baixo
Sabiá veio, entregou-se.

Sabiá, eu bem sabia, etc.

Saiba todo sabiá
De mata, gangorra ou praia
Que não armo a gangolina
Em que sabiá não caia…

Sabiá, eu bem sabia, etc.

E Yayá já sabe hoje
Que eu sei pegar passarinho,
E que sabiá sabido
Não me come o melãozinho.

Sabiá, eu bem sabia, etc.

PIRRAÇAS DE AMOR

Ante os citérios altares,
Respeitoso apresentei-me,
E das pirraças de Amor
A Vênus assim queixei-me:
– “Ó deusa da formosura,
Se fazes justiça pura,
Castiga Cupido ingrato
Que, com juras e promessas,
Pregando: mocas e peças,
Fez de mim gato sapato”.

Respondeu-me Vênus,
De bom parecer:
“Quem se dispõe a amar,
Dispõe-se a sofrer;
Gracinha de amor
Amor quer dizer…”

– “Ouve, atende, ó linda deusa:
Asseverou-me Cupido
Que da formosa Tircea
Eu era amado e querido;
E, quando eu já muito crente,
Saltitando de contente,
Ia explicar-me com ela,
Rompe ele a pateada,
Solta a bela uma risada,
E zás… me bate a janela!”

Respondeu-me Vênus,
Com riso maligno:
–“É muito garoto
Aquele menino!
Mas não se despeite
Com o pequenino”.

Assegurou-me que Eulina,
Em delíquios amorosos,
Delirava por me ver
Entre os seus braços formosos:
Para a escada de um sobrado,
Onde habita o bem-amado
Funesta paixão me arrasta;
Ele, porém, de antemão,
Nos degraus unta sabão:
Virei de bumba canastra.

Respondeu-me Vênus,
Com ar zombeteiro:
“Aquele meu filho
É muito brejeiro!
Sempre foi assim
Vivo e galhofeiro”.

Fez-me crer também que eu era
Os sonhos de um serafim,
Pois que Jonia encantadora
Morria de amor por mim!
Não sei como tal notícia
Não me matou de delícia!
Mas era uma nova entrega…
Pois Jonia com o filho teu
Encapelou-me o chapéu
E fez de mim cabra-cega.

Respondeu-me Vênus,
Meneando a trança:
– “É muito traquinas
Aquela criança.
Só com paciência
Afetos se alcança.”

Jurou-me, enfim, por teus mimos
E pelas águas do Estige,
Que por mim terna paixão
De Clorinda o peito aflige;
Fui bem ancho ter com a bela,
Mas, teu filho unido a ela
Apresta p’ra caçoada
Uma chusma de vadios,
Que entre gritos e assobios,
Fez-me chispar na palmada.

Vênus, a bom rir,
Com as faces vermelhas,
Me disse franzindo
Lindas sobrancelhas:
“Quando ele chegar
Puxo-lhe as orelhas”.

De Vulcano a esposa pérfida
Inda a frase não findava,
Quando o filho adulterino
Neste comenos entrava.
A mãe, com ledo festejo
Para dar-lhe um terno beijo,
Da ara desce um degrau…
E ele dizendo xetas,
Saudou-me com três caretas,
E por fim deu-me um gagau…

Sempre os filhos seguem
De seus pais o trilho…
Se Vênus é pérfida,
É pérfido o filho.
E o jogo de Amor
É só de codilho!…

Fonte:
AÇUCENA, Lourival. Lorenio (Joaquim Eduvirges de Mello Açucena). Versos
reunidos por Luís da Câmara Cascudo. 2. ed. Natal: Editora Universitária/UFRN, 1986.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.º 11 – 20 de janeiro de 1887

Cousas que cá nos trouxeram
De outros remotos lugares,
Tão facilmente se deram
Com a terra e com os ares,

Que foram logo mui nossas
Como é nosso o Corcovado,
Como são nossas as roças,
Como é nosso o bom-bocado.

Dizem até que, não tendo
Firme a personalidade,
Vamos tudo recebendo
Alto e malo, na verdade.

Que é obra daquela musa
Da imitação, que nos guia,
E muita vez nos recusa
Toda a original porfia.

Ao que eu contesto, porquanto
A tudo damos um cunho
Local, nosso; e a cada canto
Acho disso testemunho.

Já não falo do quiosque,
Onde um rapagão barbado
Vive… não digo num bosque,
Que é consoante forçado,

Mas no meio de um enxame
(É menos mau) de cigarros,
Fósforos, não sei se arame;
Parati para os pigarros;

Café, charutos, bilhetes
Do Pará, das Alagoas,
Verdadeiros diabretes,
E outras muitas cousas boas.

Mas a polca? A polca veio
De longas terras estranhas,
Galgando o que achou permeio,
Mares, cidades, montanhas.

Aqui ficou, aqui mora;
Mas de feições tão mudadas,
Que até discute ou memora
Cousas velhas e intrincadas.

Pusemos-lhe a melhor graça,
No título, que é dengoso,
Já requebro, já chalaça,
Ou lépido ou langoroso.

Vem a polca: Tire as patas,
Nhonhô! — Vem a polca: Ó gentes!
Outra é: — Bife com batatas!
Outra: Que bonitos dentes!

—Ai, não me pegue, que morro!
— Nhonhô, seja menos seco!
— Você me adora? — Olhe, eu corro!
— Que graça! — Caia no beco!

E como se não bastara
Isto, já de casa, veio
Cousa muito mais que rara,
Cousa nova e de recreio.

Veio a polca de pergunta
Sobre qualquer cousa posta
Impressa, vendida e junta
Com a polca de resposta.

Exemplo: Já se sabia
Que esta câmara apurada,
Inda acabaria um dia
Numa grande trapalhada.

Chega a polca, e, sem detença,
Vendo a discussão, engancha-se,
E resolve: — Há diferença?
— Se há diferença, desmancha-se.

Digam-me se há ministério,
Juiz, conselho de Estado,
Que resolva este mistério
De modo mais modulado.

É simples, quatro compassos,
E muito saracoteio,
Cinturas presas nos braços,
Gravatas cheirando o seio.

— Há diferença? diz ela.
Logo ele: — Se há diferença,
Desmancha-se; e o belo e a bela
Voltam à primeira avença.

E polcam de novo: — Ai, morro!
— Nhonhô, seja menos seco!
— Você me adora? — Olhe, eu corro!
— Que graça! Caia no beco!

Desmancha, desmancha tudo,
Desmancha, se a vida empaca.
Desmancha, flor de veludo,
Desmancha, aba de casaca!

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Clevane Pessoa (Poema de Natal)

Dizem que altos anjos
Da Divina hierarquia,
Na verdade, casulos de luz
– Pura energia criadora
Desceram de outras dimensões
Para apreciar um nascimento
Muitíssimo essencial…

Dizem que flocos de neve
Caíram das alturas
Cada um mais especial
Com formas que jamais se repetiram…

Dizem que o ar ficou de tal maneira
Perfumado de rosas e jasmin
e embriagou os passarinhos
-Que mais docemente cantaram
E girandolando voejaram
Saindo a anunciar
O evento anunciado
Que acabara de acontecer…

Dizem que uma alegria intensa
Se apossou dos pastorinhos,
-Pensaram então fazer parte
Da corte de um certo rei
E se sentiram comovidos,
Não de ouro e prata vestidos
Mas vestidos de Alegria
E canções de ninar entoaram
Louvando a chegada do Menino…

E é por isso que até agora
Quando chega o Natal
Também vestimos a alma
De cores especiais
E a nossa voz se eleva
Para acima de qualquer treva
E desejamos a todos
Votos de tantas coisas
Boas de acontecer…

Quem disse? Quem contou
Essa história às pessoas aqui da Terra?
Ora, os bardos, com a Poesia
Dos que precisam de Luz
Dos que necessitam de esperança
E querem levar alegrias
Pelo menos uma vez ao Ano
Para que os homens não desistam
De renovar seus sonhos
E de aproximar os que sonham…

 …E agora, plenificada
de Amor, quem vos reconta,
sou eu: no colar dos contadores
mais uma conta que conta

mais uma ponta que canta…

Fontes:
A Autora

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.º 10 – 10 de janeiro de 1887

Depois de férias tão longas;
Tão docemente cumpridas,
Ó musa, minhas candongas,
Voltemos às nossas lidas.

Assim faz a Pátria, às vezes,
E é certo que não estoura;
Descansa um mês ou dois meses
O nosso C. B. de Moura.

E a Pátria, meia enfadada
Daquelas extensas férias,
Volta mais fortificada
Aos combates e às pilhérias.

Eia, pois, minha gorducha,
Vê que recomeça a aurora,
Puxa daqui, puxa, puxa,
Vamos trabalhar lá fora.

E antes de tudo, inclinando
O gesto a todos os lados,
Vai a todos desejando
Plácidos dias folgados.

Desejarás uma boa
Vereança aos cariocas,
Que se não esgote à toa,
Em longas brigas e mocas;

Que eleja pacatamente,
Sem atos tumultuários,
O seu vice-presidente
E os restantes comissários.

Pouco calor, pouca chuva,
Nenhuma peste que assole,
Algum vinho feito de uva,
E menos gente que amole.

Grandes bailes mascarados
E passeatas nas ruas,
Câmaras de deputados
Sem as discussões tão cruas.

Boatos, sobre boatos,
De modo que quem passeie
Por esses bonds ingratos
Tenha cousa que recreie.

E mais que tudo, meu anjo;
Anjo meu do meu sacrário,
Desejo um bonito arranjo
Ao nosso estafado erário.

Não sei se leste a mensagem
De Cleveland, um documento
De americana homenagem
Lá, para o seu parlamento.

Pois conta-se aí (por esta
Luz do céu minh’alma jura
Que não é peta funesta,
Mas pura verdade, pura);

Conta-se que a renda é tanta
Que urge cortar-lhe os babados,
Que é demasiada a manta
Para tão vastos Estados.

Que, se vão nessa carreira,
Pagam aqueles senhores
Em breve a dívida inteira,
E ficarão sem credores.

Depois vem maior excesso
De renda, e será tamanho
Que não haverá processo
De o dar a melhor amanho,

Porque ou fica no tesouro,
Inútil, mudo e parado,
Ou saem carradas de ouro
Para os delírios do Estado.

Ora bem, estes fenômenos
Dados como desastrosos,
Terríveis paralipômenos
De grandes livros lustrosos,

Hás de pedi-los, amiga,
Mas pedi-los de maneira
Que uma segunda barriga
Coma sem dor da primeira.

Es decir, que aquela caixa
Que ronca de tanta altura,
Se quiser ficar mais baixa
Tem receita mais segura:

Pegue em si, tire metade
E verá como lhe pego,
Pego-lhe com ansiedade,
Com ansiedade de cego.

E digo ao Tesouro nosso
— Amigo, aqui tens dinheiro;
Precisas deles, aqui posso
Dá-lo às tuas mãos inteiro.

Vê tu que singular obra
A deste mundo peralta,
Geme um — pelo que lhe sobra,
E outro — pelo que lhe falta.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Hernando Feitosa Bezerra Chagall (Cantares) V

RIMBAUD

Após oito anos luz
Pelos caminhos do inferno
Entro num cabaré
Faminto de olhos tetas e bocados
Regados a sossego.
No chope gelado
Uma réstia de sol ilumina
Ainda que tardiamente
Meu pensamento.

CÂNDIDO

Pintura milagre da luz
Transformada em nuanças coloridas
pela mente mãos cálidas
De um pintor completamente genial
Desses iluminados
Na loucura refinados
Saborosos como o sal da vida
Parida na cor dolorida do amor.

SEGUINDO A LINHA

Deixei meu passado entulhado
Num canto qualquer da memória
Não vim de ontem sou de hoje
Não tenho história.
Experiência?
É o ar que respiro na brisa do agora.
É reaprender cada minuto que morre
Sem envelhecer
No tempo que corre.

DOR ESQUECIDA

No torpor vermelho vinho
As canções são mais sentidas
Estranhamente coloridas
Feito quadros de Dali.
Uma lágrima traiçoeira
Desgarrada incontida
Revela uma ferida
De não cicatrizar.

RIMBAUD II

Escarros vermelhos ecoam no infinito azul
Batalhões tombam aos pés do rei
Que os xinga…
Enquanto pequenos deuses
Do alto de seus altares
E suas taças de ouro
Embalados por preces e cantos adormecem.
Só despertam
Quando mãos estendidas calejadas
Sofridas subjugadas
Entregam-lhes tudo o que têm:
O último vintém.

FERNANDA
(UMA ROSA AZUL)

Eu vim e vou caminhar
A estranha estrada de terra
Vermelho é o sol que se põe
No azul de uma rosa que nasce
Aos olhos infantis que adormecem.

MECKINHO

A imobilidade
Do grande mestre
Contrasta
Com a fúria de seu raciocínio.
Na aparência
Um monge tibetano,
Na determinação mental
Um moderno
Gladiador.

MIRACLE

Rimo a rima que rimar
Escrevo a fala do cantar
Sonho pensamento futuro
Sinto o que sinto sei lá.

Estranho é estranhar minha palavra
Pois ela não cura ou agrava
Um estado de coisas suaviza
Sendo assim só faz melhorar

Esse espaço esse ar essa lida
Colorida poesia bonita
Que inútil seria explicar
O milagre singular dessa vida.

CANDELÁRIA

A polícia reza missa
Com a voz da metralha
Mata um
Mata dois
Mata oito
Na candelária.
Tenta cortar
O mal pela raiz
Podando apenas
As folhas da violência,
Que demência!

VOLPI

Enfim
Cansado de colorir
Suas bandeirinhas
O garoto escolheu
A mais bela estrela
E cobrindo-se de azul
Adormeceu.

GUERREIROS

Soldados valentes
Crédulos e cansados
De carregarem
Sobre os ombros doentes
A cabeça de um rei
Eternamente embriagado.

QUINTANA

Tenho nas mãos uma jóia
Lapidada por um menino
Franzino de 87 anos
Que solitário segura o céu
Como uma bela e imponente
Coluna grega.

2001

Virei com o século
Venci o pesadelo
E neste segundo sono
Escolherei meu sonho
Com maior desvelo.

ÓCIO

Uma garrafa vazia
Um copo pela metade
Pablo Neruda na mão
Na mente uma canção
De liberdade.

SEM PALAVRAS

O poeta necessita
De palavras em seu poema
Mas a poesia
Dispensa
Palavras e poetas.

CALEIDOSCÓPIOS
 
Olhe-me veja
Remexa já não sou
Vire
Lá estará outro eu
Outro lugar
Somos assim
Caleidoscópios a girar
Se transmutar
Explicar isso não dá
Mas ainda podemos cantar
Aquela canção do sorrir e caminhar…
Caminhar por este chão
Comum camaleão.

LOUCOS ALEIJADOS

Quantas vezes
Usamos as muletas
Da religião da moral da sanidade
Por não confiarmos
Em nossas convicções
Sentimentos idéias e ideais…
Por não confiarmos
Em nossa própria loucura.

CONSELHO

Sabe de uma coisa colega
A vida está difícil demais
Mas um poeta não se entrega
E não desanima meu rapaz.

Ser poeta, meu amigo.
É ser criança forte e frágil
Humano, fera, rocha e abrigo.
É trazer na alma a chama indecifrável…

Não deixar morrer em seu olhar
Aquele espanto primordial
De menino puro ao amar

Nem deixar viver em seu ser
Aquele medo primordial
De homem imaturo pra morrer.

CIRANDA

Acordo de manhã
E aí está o mundo
Barulhento, traquinas
Saudável criança.
Fazer o quê?
Senão entrar nesta ciranda
E brincar de crescer.

HIPOCRISIA

Procuramos ter
Pensamentos puros e elevados
Enquanto emporcalhamos
Nossos rios mais sagrados.

NO HORIZONTE UM SOL SEMPRE

No horizonte
Vermelho
Brilhante
Morre
Naturalmente
Um sol
No ocidente

No mesmo instante
No oriente
Um sol
Naturalmente
Nasce
Brilhante
Vermelho
No horizonte.

ESTAÇÃO LIBERDADE

Sobram bancos e mármores
Nessa estação de metrô
O trem é rápido
As pessoas apressadas
Devagar vomito
Numa lixeira próxima
Impecavelmente
Limpa.

MEDO

Minha sensibilidade
Escondeu-se atrás do medo
Minha inteligência
Atrás do muro
O coração não vê presente
A cabeça não vê futuro
Silencioso tateio meu caminho
Zigue – zagueando poesia.

IDADES

Meu corpo
Tem a idade de um homem
Minha mente
A de um ancião
A idade de uma criança
Tem meu coração.

Fonte:
Hernando Feitosa Bezerra. Cantares.  Universidade da Amazônia – NEAD.

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José Inácio Vieira de Melo (Poesias Escolhidas)

CARAMUJOS

Os caramujos da Ribeira do Traipu
mugem em um tempo que se foi.

Os caramujos eram os bois da minha boiada.
Quando os invocava era prontamente atendido,
mas eles tinham lá seus nomes e seus matizes
(e ali já estava o poeta batizando as coisas):

e vinham Manjerona, Paixão, Diamantina,
Fachada, Chuvisco, Carnaval, Meia-Noite,
e vinha toda a vacaria de caramujos
encantar aqueles dias com seu leite de sonhos.

De repente, dava um redemoinho
na minha cabeça de vento
e já era outra história:

Ivaldo, numa atitude inaugural,
– possível apenas para quem goza
da sabedoria dos cinco anos –
bradava para que fossemos
ouvir o mar nos caramujos.

[A terceira romaria – livro inédito]

DESERTO

Nem o deserto do Saara mais todo o Sertão
são desertos quanto o eu deserto.

E segue o peregrino na aridez dessa demência:
deserto dia – noite deserta: a mesma intensidade.

E de repente vejo o que não vejo,
o voo que sempre levanto e nunca voei,
e assomam os meus fantasmas:
anjos e demônios e poetas e vampiros,
putas e bruxas e santas e fadas,
deus e deuses e musas e a mulher,
vaqueiro e cavalo e gado e cachorro,
música toada, música embolada, música zoada.
E Moisés Vieira de Melo – meu avô –
tangendo esses bichos todos
dentro do deserto do romeiro de mim.

E os desertos cantam na imensidão do nada,
e canto este canto meu (porque de dentro):
eu não sabia do caos do eu,
eu não sabia da miragem que tudo é,
eu não sabia da angústia,
eu não sabia do gozo.
Eu, sabiá…

O deserto de mim diante de todos os olhos.

E assim segue o peregrino
– nessa romaria que o sufoca e o deleita –
em busca de oásis,
abrigo de mim.

O peregrino – deserto a buscar.

[Decifração de Abismos]

ESPELHO

Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles

Que ninguém se engane:
os caminhos são tortos

E no sertão do ser
– deserto e mar
nossos de cada dia –
o outro nome do nome:
HOMEM

E no oráculo antolhar:
a imagem é a dor escarlate
de um labirinto
onde vago vago

E indaga o oráculo:
– Qual a tua graça?

Como o quem? Saber como?
Tal Torquato com fé ficciono
e confecciono a palavra

Poeta há de ser a graça
E indaga o oráculo:
– O que fazes de teus passos?

O que dizer dos rastros
conquanto já não são meus?
Como aquele Minotauro cego
sigo pela noite
guiado pela menina poesia

E o oráculo:
– Não haverá mais tempo
apenas a poesia:
Mãe e Manhã

[Códigos do Silêncio]

MATURI
para Cássia

A primeira vez não tinha paredes,
havia um voyeur: a Lua.

Um cajueiro frondoso
abençoava aquela descoberta
farfalhando suas folhas,
e das folhas secas
que buscavam a terra: o colchão.

E tudo conspirava para o êxtase:
os olores dos cajus,
o agridoce gosto da deusa morena:
musa canora que entoava gemidos
– cantigas sopradas pelos deuses.

Na primeira vez,
senti, pela primeira vez,
o mistério das estrelas.

E as vacas pastavam
na mansidão dos campos,
na imensidão da noite.

[A terceira romaria – livro inédito]

EPITÁFIO PARA GUINEVERE

Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem.
Domingos Carvalho da Silva

Meus cavalos choram por ti, égua de olhos azuis.
Não mais invadirei o vento montado no teu galope.

Que fique inscrito na tua lápide
o verso de lágrimas dos meus cavalos.

Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,
o relinchar da paixão pagã
dos cavalos que trago dentro de mim.

[Decifração de Abismos]
MÃE FILHA

Ela não oferecia pão a um carnívoro,
ela era a carne e a caridade,
era a ovelha dos desgarrados.

A cruz recebia entre as pernas,
o seu sino era no meio das pernas,
ela era a sua própria igreja.

Ela tinha a ferida e a cura,
e todos os homens salivaram ali,
e todos ganiram o lamento do sino.

Era a vida d’A Casa das Primas,
ninguém jamais saiu daquele templo
seco em seus apetites.

Para uma sede, outra sede maior;
para a solidão, os sentidos de Mãe Filha
e de todas as suas discípulas – as primas.

[A terceira romaria – livro inédito]

Fonte:
Goulart Gomes (organizador). Antologia do Pórtico.

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Adelmo Oliveira (Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas) III

ESTRELA DE NATAL

Quero ficar em silêncio
Na correnteza da tarde
Vendo a lágrima do tempo
Vertendo na minha face

– É um rio escuro e miúdo
Que em mim profundo deságua
Só meu lábio seco e mudo
Ouve o gemido que passa

Passa. E cada gota líquida
Em cristal se petrifica
Transparente como a vida
Que na morte se eterniza

Mas, dentro do lago, o poço
Dentro do céu, a medida
Espalha tições de fogo
Em teias de fantasia

Veste seu manto de chamas
– De penas bem coloridas
Faz de seu brilho esperança
De um pouco de cada dia

Põe labaredas nos olhos
Sai pelo mundo e caminha
E longe, já sol posto
Desaparece sozinha

MEU NATAL DE SEMPRE

Ficou na sombra a casa onde morei
As árvores do quintal, a ventania
E eu, pequeno ainda, me recordo
Quanto chorei, quando cantar devia.

Ficou no céu o tempo que sonhei:
Sapato de verniz dependurado
Num saco bem vazio de esperanças
Qual pacote amarrado pelo vento.

Não finjo o sonho em que me sustentei
No portal da janela de meu quarto:
As bolas de borracha coloridas
(Revólver de brincar de detetive).

Meus irmãos já tiveram as mesmas coisas,
Meus amigos, também, o que não tive.
A vida dá presente todo dia:
A dor que sinto agora, não sentia.

Ficou no rosto o traço que não tinha:
A solidão que sopra lá de fora.
Multiplico os minutos pelas horas
E tenho as mesmas horas repartidas.

Ganho, então, meu presente de lembranças:
Uma flor na lapela e meu cansaço.
Costuro mágoas e as transformo em ânsias
E corto a fantasia em mil pedaços.

O MENINO E OS PÁSSAROS
Para Tude Celestino

Certo que eu fosse menino
Vinha no sopro do vento
Pegar esses passarinhos
Nos quintais desse convento

Pulava o muro do canto
Pé descalço de mansinho
– Atrás do tamarindeiro
Vinha de corpo escondido

Pisava na grama verde
E olhava os galhos e os ninhos
– O coração sacudia
No céu que a tarde continha

Nunca vi tanto assanhaço
Bem-te-vi papo amarelo
Rolinhas gordas de pena
E os canarinhos da terra

(Minha capanga de balas
Meu bodogue de borracha
Meus olhos cheios de sonho
Minha alma cheia de nada)

Certo que eu fosse menino
Certo a saudade matava
Numa cova tão profunda
Pra não me banhar de lágrimas

POEMA ANTIGO

A lua no meu quarto invade
Branca, molhada de sereno
Entra na memória um caminho
Que termina onde fui pequeno

Vaga, de luz opala verde
Entra devagar pela rua
Do menino de calça curta
– Que idade eternamente nua

A vida, a vida passa mesmo
Nem sei quando isto aconteceu
Só sei que a lua vem bonita
Dizer que a infância já morreu

SEGUNDA CANÇÃO DA BEIRA D’ÁGUA

Cada poema tem seu dia
Na claridade da manhã
Na face lírica das águas
Na casca loura da maçã

Cada poema tem seu dia
No prisma, no sinal da cruz
Na estrela do mistério vago
Na vida das cores azuis

FRAGMENTOS DE UM SONHO

Sou itinerante
Não vou de encontro às distâncias
Minha alma é um vestir-se de quatro paredes

Se mudo de roupa todo dia
Ela se renova
Todas às vezes que miro o espelho

Sou um rio caminhando dentro de mim
Varado de peixe e moluscos
Líquido: olho-me de cima para baixo
Parado: beijo as flores do lago
Corrente: pinto as cores da manhã

TRAVESSIA

A tarde cai sobre as águas do Paraguaçu
– Meu amor descansa sobre os ombros
– A montanha descansa sobre os vales
A própria natureza se imagina
Uma visita na véspera da primavera

O campo aberto não esconde as amapolas
E ninguém espia o vigia na estrada
– O rio manso é uma longa espada de sol

(Não compro ilusões
Nem vendo alegrias
Não piso em flores
Nem espalho fantasias
Geradas pela máquina do tempo)

A tarde cai sobre as águas do Paraguaçu
– A noite chega na arquitetura das serras
E desenha potros de asa e cavalos de sombra

Dentro da noite
A madrugada espera
Dentro da madrugada
Os frisos vermelhos da aurora

CONFISSÃO

Tua palavra é um código
Que sai
de tua boca
E queima os meus ouvidos

Teu gesto é um crucifixo de sinais
Que me converte
A uma seita antiga
Para o culto de deuses invisíveis

Não me toques
Te peço
Não me toques

Meu violino está surdo
E nada do que há em suas cordas
Poderá ser para sempre revelado

Vês? (Não te espantes)
Meus olhos estão secos
De tanto navegar
Por lugares desconhecidos

Minhas mãos estão crespas
e apalpam
Os muros de silêncio
Que me perseguem
Com inscrições hierográficas

E eu te digo
O raio
que tanto fere
me ilumina

Até a flor
que não tem espinho
me crucifixa

Mas teu corpo é uma ânfora dourada
Que não se parte
E brilha nos arabescos
De ritmos orientais

Aproxima-te
Mas não me toques
Deixa que eu me vingue de olhar para o infinito

VARIAÇÕES DO DIA

Antes de dormir, eu sonho
Antes de acordar, eu rio
Antes de dançar, eu tombo
Antes de fingir, eu crio

Antes de esperar, avanço
Antes de correr, tropeço
Antes de morrer, descanso
Antes de passar, trafego

Antes de partir, não fico
Antes de chorar, não quero
Antes de pensar, não minto
Mas, depois de amar, desperto

AMARALINA

Venho cortando o vento da avenida
A estrela assim não veio e a ventania
Sacode as ondas contra o rosto e a fria
Madrugada se esconde indefinida

Neste mar não existe maresia
Neste mar não há mito nem segredo
Não era a aurora a luz que pressentia
Entre as dobras da espuma no rochedo

Era a face que via contra o espelho
Era o perfil azul dos teus cabelos
Gravados na memória da retina

Venho cortando o vento da avenida
No silêncio dos passos e da vida
– A flor que fui buscar na Amaralina

A FLOR, A FLAUTA E O BANDOLIM
Para Raimundo Barros e Pedro Figueroa, Filhos de Orfeu
Saio com uma flor pela varanda
E digo num sorriso de criança
– Se finjo num suspiro de alma pura
Que sou feito de corpo e de esperança

Se eu sinto, digo ao sol e digo à lua
E digo ao mar que azula este verão
Mas logo a melodia se desata
E solta ao vento as letras da canção

A flor, ora crisântemo, ora lírio
É flauta. É margarida do delírio
Ou ciúme das cordas da paixão

Esta czarda é louca e enluarada
Pinta com um bandolim a madrugada
– O amor de mais eterna perfeição

Fonte:
Adelmo Oliveira. Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas. 1987. http://br.geocities.com/rsuttana/adelmo_cantico.pdf

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Edmar Japiassú Maia (Barafundas Natalinas)

A minha casa é uma baderna só,
por conta do Natal que se aproxima.
Um penico – de estilo rococó –
“ornando” a sala, atesta o intenso clima…

Exalando um aroma de dar dó,
a íntima peça, lá da mesa em cima,
por sua higiene e o porte do “fiofó”,
a dona denuncia: a gorda prima!

Junto às travessas para as rabanadas,
as tigelas dos gatos são lavadas,
escorridas e envoltas num filó…

Já pinguço, entre frascos e risoles,
vovô nota o sumiço, em meio aos goles,
de um material pra exame…de vovó!
– – – – – – – – – – – – –


É um desejo que me abrasa
no Natal que se avizinha:
de que a festa em sua casa
não seja a cópia da minha!

Feliz Natal!   

Fonte:
O Autor

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 9 – 21 de dezembro de 1886.

À Carmen Silva, à rainha
Da Rumânia, à delicada,
Egrégia colega minha,
Pelas musas laureada,

Pobre trovador do Rio,
Cantor da pálida lua,
Esta breve carta envio,
E aguardo a resposta sua.

Note bem que lhe não falo
Das suas lindas novelas,
Nem do plácido regalo
Que nos dá com todas elas.

Não, augusta e bela moça,
Não é prosa nem poesia
O meu assunto …     Ouça, ouça,
Verá que é sensaboria.

Cá se soube que um partido,
Que há muito não dava cacho,
Após combate renhido,
Tomou ao outro o penacho.

Fez-se isso eleitoralmente;
A gente que não queria
O partido então vigente,
Mudou de cenografia.

Se fez bem ou mal, lá isso
É com ela; a culpa inteira
Pertence-lhe de o feitiço
Virar contra a feiticeira.

Mas, como aqui neste canto,
Não há tal eleitorado,
Que faça nunca outro tanto,
E pense em cousas do Estado;

E também porque isto, às vezes,
Está em qualquer cousa (adágio,
Que herdamos dos portugueses,
E tem o nosso sufrágio),

Lembrou-me que poderia
Obter, por seu intermédio,
Para uma tal embolia
O apropriado remédio.

Serão pastilhas? xarope?
Pílulas de qualquer cousa?
Um cozimento de hissope?
Fricções de madeira e lousa?

Seja isto ou seja aquilo,
Peço a Vossa Majestade
Uma amostra, um frasco, um quilo
Para ensaiar na cidade.

Porque, como ora se trata
De uma operação sabida,
Que a gente que se maltrata
Torna a pôr amada e unida,

Operação que dissolve
Os grupos mais separados,
E rapidamente absolve
Todos os ódios passados;

Quisera, logo que esteja
Toda a obra recomposta,
E esta liberal igreja
De novo aos fiéis exposta,

Quisera ver se, tomando
A droga rumaica um dia,
Chegaríamos ao mando
Pela mesma e larga via.

De outro modo ficaremos
Nestas náuticas singelas
De largar o leme e os remos
E abrir à fortuna as velas.

Eia, pois, augusta musa,
Mande-me o remédio santo,
E não vos concedo escusa;
Quero tirar o quebranto.

Quero ver se, finalmente,
Depois de tão larga espera,
A nossa eleitoral gente
É gente, não é quimera.

Para que depois se queixe
De si e das culpas suas,
E por uma vez se deixe
De murmurar pelas ruas.

Vede, flor das maravilhas,
Como esta alma pede e roga:
Mandai-me as vossas pastilhas,
Pílulas ou qualquer droga.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Adelmo Oliveira (Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas) II

AS BODAS DA MORTE

Para Carlos Lamarca,
In memoriam

Entre os frisos vermelhos da tarde
Eu canto a aurora

Nas colunas de mato e rebanho
Eu canto a aurora

Um fuzil pendurado entre arbustos
Eu canto a aurora

Eu canto a aurora

Uma estrela desmaia de sangue
Eu canto a aurora

E este tempo é um marco de prata
Eu canto a aurora

E esta morte é amarga e sonora
Eu canto a aurora

BILHETE A UM POETA

Olha, Capinam
chegando a Nova Iorque
não te esqueças
escreve um poema
(daqueles)
e manda pelo correio
Vê se as tristezas de lá
são iguais ou mais fundas
que as tristezas daqui

Sabe (e disto não te iludas)
– pelas notícias que tenho
de um amigo que lá esteve –
que há muito ladrão solto
pelas ruas e avenidas
à espreita de fama
e de cenas tão vivas
quanto as letras de sangue
dos crimes de mistério da Rua Morgue

Levas contigo o telescópio?
Sei que montarás
– como navegante de rotas aéreas
um pequeno observatório
para a lua e para as estrelas
– Dizem até que o céu é de prata
além (e por cima) dos arranha-céus de vidro

Tira o primeiro domingo
e vai a Washington
e vê quantas manchas e sangue negro
salpicam os muros
as paredes
e os vitrais da Casa Branca

Escuta se chega
através do vento
do dia e da hora
o eco das vozes
oprimidas do mundo

(Onde se encontra
o radar eletrônico
da Agência de Informações?
– Um detector de mentiras
guardado em sete segredos
que capta a dor em alegria
o pranto em riso
a morte
a morte em vida?)

Ah Poeta andarilho
não te canses agora
aperta a mão de cada astronauta
mas procura nos parques
ou na Quinta Avenida
um jovem que tenha
no peito uma flor
E os Guetos? E as Guerras?
E a Bomba? E a Paz?

Nem te lembro
mas te confesso
que certo dia
morri dez vezes
quando William Calley
– o tal tenente Batman
destruiu com a morte
a vida
e os brinquedos
dos meninos de Mi Lay

E os mísseis?
Inverossímeis?

Não te perturbes, amigo
a hora explode toda em chamas

De tanto espanto
ódio conflito
as palavras se trituram
em pó. Em grito

Depois
antes de teu regresso
(máquina de filmar a tiracolo)
quero fazer-te um pedido
– Dá um pulinho à Ilha de Manhattan
para ver de perto
se a Estátua da Liberdade
continua de pé
ou caiu

CANÇAO DO MENINO PRESENTE

Cada palavra é uma porta
E toda porta é um enigma
Não canto poesia morta
No leito estreito da vida

E canto, poeira e espuma
Amor punhal catavento
Canto as esporas da lua
Cravadas no pensamento

Oh lâmina do céu que arde
Oh dor que no tempo corre
Canto um menino que nasce
Distante de outro que morre

Não morre. O signo guerreiro
Crepita fagulhas e asas
– O peito expulso de medo
E as mãos cruzadas de espadas

O lábio rente e ferreiro
É um rio cortado de datas
A boca é pranto e ponteio
Num poço de ondas e mágoas

A voz é grito na praça
– Lanças agudas no peito
Aurora que se desata
Na fechadura do tempo
_______________________

Fugiu agora a tristeza
Chegou na face à alegria
– Os deuses caíram mortos
Em cinzas de fantasia

APARIÇÃO

Na veia d’água
Ao pé do monte
Tem uma sombra
Atrás da ponte

Em duas pontas
O sol quebrado
Parte os sentidos
De um potro alado

Em puro sangue
O céu se banha
– Cristais de cores
De nuvem estranha

Até na grota
A cotovia
Crespa os cabelos
Da ventania

A natureza
Assim trabalha
Cortando as dobras
De uma mortalha

Na veia d’água
Ao pé do monte
Tem uma sombra
Atrás da ponte

Fonte:
Adelmo Oliveira. Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas. 1987. http://br.geocities.com/rsuttana/adelmo_cantico.pdf

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Adelmo Oliveira (Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas)

MEDITAÇÃO DO SILÊNCIO

Contra a dureza fria das máquinas
Contra o ruído cavo do mundo
Nasci para conquistar aldeias
E reunir as cidades e o campo

Profecia? Não serei profeta
– Grandes rebanhos do mundo moram
Em arranha-céus de arquitetura
E não pisam caminhos de orvalho

As almas ficam assim paradas
Que levantam estátuas de sombra
– Não respiram porque são de cera
– Já não se amam porque são de bronze

O gesto se perdeu no próprio eco
Cravado à fuligem das paredes
– A saliva em sal espuma a boca
E as palavras se petrificaram

Cedo, os corações se endureceram
Com setas de estruturas metálicas
– Só os operários da manhã
Acordam a sirene nas fábricas

O céu é um lacre azul de vidro
Que corrói as ânsias confinadas
– Ora é o tédio, ora é o delírio
Comprimindo o peito e a esperança

Inverterei agora o crepúsculo
Para conquistar a luz do dia
Profecia? Não serei profeta
– Não tenho ferida sob os pés

Sou pregador de antigas parábolas
– Sempre visito a porta dos túmulos
Não professo religiões mágicas
– Sempre aplaquei a ira dos tiranos

Profecia? Não serei profeta
Meu reino é o das estrelas eternas
– Minhas mãos não serão crucificadas
Entre a palavra, o mundo e o tempo

ELEGIA DOS DEUSES
Para Carlos Falck

Agora, as caravelas já partiram
– Neste cais um navio ficou em chamas
As águas negras batem-se contra as quilhas
Ao apito sonoro da distância

O porto está em ruínas. Embora iluminadas
As águas estão paradas e sombrias
– Velas acesas – Círios – Um tinir de cascos
Range de espera pela noite imensa e fria

Os marujos dos deuses ensanguentados
Já dormem num paiol de estrelas fixas
– Não há sorrisos nem flâmulas de prata
Navegando sobre as ondas desse mar infinito

A voz do mar é só um eco de espumas
Que não é brisa nem vento nem flauta
Mas ressoa no espaço cortado em luas
No mapa azul dos reis e argonautas

CANTIGA DE VIAGEM
Para Carlos Anísio Melhor, jogral e poeta agônico

Sei que esta noite ainda é longa
E longa será
Navego na luz deste cerco infinito
– Sigo enquanto espero – e não me finjo
E canto e lento me faço caminhar

Sei que esta noite ainda é longa
– As estrelas dão vertigem no céu
Visto meu casaco azul de malha e saio
– De cavalo de pó e nuvem pelo espaço
À procura da face errante de Deus

PÁSSARO
Para Carlos Pena Filho,
ausente

Eu canto e se cantar por solidão
A rosa em mim floresce no silêncio
Ninguém perturbe a paz deste momento
Em cuja fantasia eu me transvio

Muito menos turve a água desta fonte
Que bebo para o instante inumerável
– Acaso sei de mim que transitório
Sustento um pé na terra outro no espaço

Sou, pássaro de pedra sou. Jamais
Neguei de expor ao sol meu corpo duro
– Tenho postura de animal correto

Falo também a mesma língua escrita
Irmão que sou de tua solidão
Oh navegante além da mesma rota

QUEIXAS PARA ÉOLO

Ilha ou presídio longe um barco acena
Agora navegando em outros mares
Antiga solidão a deste porto
– Isolamento e cais de eternas águas

Ânsias de liberdade mutilada
E larvas de futuro acontecido
– Manhã azul: A quilha sobre as ondas
Risca no mapa um novo itinerário

Navegar, navegar, constante infinda
E sempre navegar por mar e céu
– Outro porto virá além no tempo

Onde a tristeza e a solidão se apaguem
– Atrás, o barco deixa as águas negras
Afastando os perigos dos abrolhos

SONETO DA MORTE FINGIDA

Aqui, perto de mim, na minha vida
Meus olhos ficam cheios de poesia
– A estrela se debruça na janela
E a lua troca a noite pelo dia

Aqui, perto de mim, na minha vida
Corre um vento de mar com melodia
– Risco do mapa antigas caravelas
E a espuma se contorce em fantasia

Aqui, perto de mim, na minha vida
Há um cais. E junto ao cais, há um porto
E no cais e no porto a despedida

Levanto os ferros. A sirene apita
Um corpo bate na água e, então, gravita
Aqui, perto de mim, na minha vida

CONVERSÃO DAS HORAS
(Elegia)
Para Vinicius de Moraes,
Amigo eterno

De repente, a casa virou festa
A maré subiu na praia
– O santo desceu da cruz
Fez um sinal na testa
Olhou de lado – cuspiu no chão
E passou a contar e a repetir
As parábolas e os milagres que tinha feito

De repente, a aurora se repartia
Dando a cada criança um pedaço de suas cores
A outros ofereceu um quinhão de nostalgia
– Um bêbado inerte dormia na calçada
Entre cacos de sonhos de antigos carnavais
– A menina-moça deixou de ser virgem
E constipou o coração com seus primeiros amores

De repente, aquele amor ficou murcho
E o que era azul ficou triste
– O verde perdeu a esperança
– O cristal se fez opaco

De repente, os sinos da cidade dobraram
Nos arredores de velhas catedrais
– O morto não conseguiu chegar ao cemitério
E dispersou a multidão aflita
– As mulheres expulsavam de casa seus maridos
– Os homens pediam perdão às suas mulheres
Mas tudo isto era feito com “inocência e candura”

De repente, os cambueiros de setembro
Estalavam na esquina das montanhas
Relâmpagos, trovões e raios de chuva
Arrancando árvores e telhados de casas
Em redemoinhos de poeira e torrão seco
– As lâmpadas elétricas se apagavam
E todos, desapontados, iam dormir cedo

De repente, “mais que de repente”
Perdi o gosto lírico da tristeza
Mas ganhei a felicidade que invadiu a minha alma
E espancou todos os santos demônios
Que arruinavam o relógio do coração

Fonte:
Adelmo Oliveira. Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas. 1987.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N. 8 – 14 de dezembro de 1886

E disse o Diabo: — “Fala,
Que queres ser nesta vida?
Antonino ou Caracala?
Capucho ou jardins de Armida?

“Escolhe, e verás, Malvólio,
Tudo o que quiseres; pede
Um sólio, e terás um sólio,
Pede um culto, e és Mafamede”.

E eu, respondendo-lhe, disse
Que nem tronos nem altares;
Que, na minha mandriice,
Tinha sonhos singulares.

Ou antes, um sonho apenas,
Um só desejo, um só, único,
Mais velho que a velha Atenas,
Mais velho que um vintém púnico.

Não era ter a coroa
Do Egito nem da Bulgária,
Nem ver as moças de Goa,
Nem ter os beijos da Icária,

Nem dormir o dia inteiro
Em tapetes persianos,
Sentindo o vento fagueiro
De numerosos abanos.

Digo abanos meneados
Por muitas damas formosas,
Feitos de fios delgados
De palma, e plumas, e rosas.

Nem comer em pratos de ouro
Figos secos da Turquia,
Acompanhados do louro
Néctar que há na Andaluzia.

Nem possuir as estrelas
Que são tão minhas amigas,
Para um dia convertê-las
Em meias-dobras antigas.

Pois tudo isso, e o mais que pode
Entrar no mesmo cortejo
Duvido que se acomode
Ao meu íntimo desejo.

Sabes tu o que eu quisera?
Quisera ser cartomante,
Dizer que espere ao que espera,
E dizer que ame ao amante.

Saber de cousas perdidas,
Saber de cousas futuras,
De verdades não sabidas,
De verdades não maduras.

Se uma senhora é amada,
Saber de cousas futuras,
De verdades não sabidas,
De verdades não maduras.

Se uma senhora é amada,
Ou se há lá na costa mouras;
Se a costureira — casada —
Chega a depor as tesouras.

Quem é certo moço que anda
De chapéu branco e luneta,
E algumas vezes lhe manda
Lembranças por uma preta.

Se a mulher de um diplomata
Vive enredando as pessoas…
Se há de esperar certa data…
Se as filhas hão de ser boas…

Onde pára uma pulseira,
Um recibo, um cachorrinho…
Se a neta da lavadeira
Bifou algum colarinho…

Se há de morrer de um inchaço
Que traz na perna direita…
Ou se a luxação de um braço
Pode deixá-la imperfeita…

Tudo isso, e o mais que não cabe
Em verso rápido e breve,
E que a cartomante sabe,
Sabe, conta, e não escreve.

É o meu desejo. E tenho
Que, se essa cousa me ensinas,
Serei, com o meu engenho,
O doutor destas meninas,

Que a nós outros coube em sorte
Política e loteria,
Cousas que têm, como a morte,
Mistério e melancolia.

Mas que hão de fazer as damas
Com a alma incendiada
Das mesmas secretas flamas
E ao mesmo abismo inclinada?

Procuram timidazinhas
Aquelas claras vivendas
E crescem as adivinhas,
Não dão para as encomendas.

Pois se tu, Diabo amigo,
Me pões capelo de mestre,
Juro-te que dás comigo
No paraíso terrestre.

Cá virão as Evas novas,
Inquietas, desordenadas,
Pedir-me, com ou sem provas,
As verdades mascaradas.

E olha que farei no ofício
Notáveis melhoramentos,
Tapetes, largo edifício,
E o preço — mil e quinhentos.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 7 – 6 de dezembro de 1886.

A lei darwínica é certa
Inda em acontecimentos…
Não fiquem de boca aberta,
Vão vê-lo em poucos momentos.

Há nelas a mesma luta
Pela vida, e de tal arte
A crua lei se executa,
Que é a mesma em toda a parte.

Há seleção, persistência
Do mais capaz ou mais forte,
Que continua a existência,
E os outros baixam à morte.

Demonstro: — O famoso caso
Da escola e pancadaria,
Caso que pôs tudo raso,
Tudo, até a epidemia.

Tal foi ele que, tomando
Todo ou quase todo o espaço,
Foi de um trago devorando
Quanto lhe embargava o passo.

Escapou a Cantagalo,
Por trazer comprido bico,
Unha capaz de matá-lo,
Peito largo e sangue rico.

Mas, por um só que resiste,
Quantos passaram calados
Na penumbra vaga e triste
Dos seres mal conformados!

Cito dois — um pequenino,
Um telegrama celeste,
Oficial e argentino
Sobre os destroços da peste.

Dava os óbitos do dia,
De modo tão encoberto,
Que o duvidoso morria
E só escapava o certo.

— “Rua tal: um duvidoso,
Outro duvidoso ao lado…”
Pois, com ser tão engenhoso,
Foi lido e não foi guardado.

Segundo caso: o de Arantes,
Arantes, a testemunha,
Que os juízes implicantes
Cuidam de pegar à unha.

Porquanto há necessidade
De ouvir-lhe a palavra de ouro,
Para saber a verdade
Do que houve no Matadouro.

Seja pró ou seja contra
Essa testemunha rara,
Onde é, onde é que se encontra?
Onde vive? Onde é que pára?

Mandou-se às partes remotas
Da cidade, e logo ao centro;
Foram ao fundo das botas
E não o acharam lá dentro.

Em Minas? Vá precatório,
Rápido, para intimá-lo …
Esforço inútil e inglório!
Voltou sem lograr achá-lo.

Não sendo encontrado em Minas
Nem pelas matas cerradas,
Foram às ilhas Malvinas,
Ao Congo e ao reino das Fadas.

E bradaram-lhe: — “Ó Arantes,
Chamado como quem sabe
O nome aos bois pleiteantes,
E o mais que no caso cabe;

“Arantes, onde respiras?
Onde estás? Onde te escondes?
Na trama das casimiras?
Chamo-te e não me respondes.

“Talvez no centro da Arábia,
Talvez na rua da Ajuda,
Talvez estudando a Fábia,
Talvez adorando a Buda.

“Donde quer que estejas, corre,
Acode ao nosso chamado:
Vem, que, se não corres, morre
O processo começado”.

E passou esse episódio
Sem fazer maior barulho
Do que as saúdes de um bródio
Na Gávea ou no Pedregulho.

Porque nos próprios eventos
A lei darwínica é certa.
Provei-o em poucos momentos,
Não fiquem de boca aberta.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Djalma Filho (Poemas Avulsos)

A foto da gaveta

havia uma foto antiga na gaveta.

Por mais que jurasse de nada saber,
ela chorava o mais calado dos cantos tristes
– ao meu lado –
como se quisesse desmanchar, com seu chover,
o contorno da imagem à mostra, ali, cheia de espanto…

havia uma foto antiga na gaveta usada.

Eu, desconhecedor de todas as lembranças,
– novas ou antigas –
entre seus braços fui morrendo de passado
e nascendo a cada instante de silêncio
ouvi, sem surpresa, seu choro:
– Rasga?…

havia uma foto antiga na gaveta emperrada,
tão escondidinha que parecia até ter sido guardada…

havia uma foto na gaveta,
– só mesmo a foto –
pois a essência da alma que vivo
está ao meu lado fingindo-se de morta
silenciosa e quase triste
por ter me achado numa imagem do passado.

Havia uma foto na gaveta,
só uma foto:
– Coisa boba, não é?
Havia. Não há mais!

Reforma

tua forma feminina
ainda anda pela casa.

Com ela,
chegaste comigo
qual cabra-cega:
com os olhos fechados por minhas mãos
e com os dedos soltos no ar. Parecias despencar!…

seguiste-me,
corredor adentro,
atrás do caminho que meu cheiro te provocava,
qual um abre-alas.

Apresentei-te à flor de plástico no vaso sobre a mesa,
disseste-me que nela havia cheiro de campo;
enquanto, flutuando sobre o tapete barato da sala,
andavas mercando liberdade
como se em tua volta não existissem paredes, rodapés, portas nem vidraças,
enfim, nada mais que pudesse silenciar
o exercício pleno do amor.

Participei-te a cama
só para não topares os dedos,
– dos pés! –
pois, ainda vendada,
sentes o cheiro da minha espera sobre o lençol de linho. E deitas!…
não há mais nada para mostrar-te:
Toca-me?…

O noivado
ou Frejat e Vinicius não compareceram

conseguiste achar a quinquagésima nona gravação de “Luiza”.
Compraste-a de olhos fechados!

sabes, há muito,
da minha paixão pelo Jobim, o Brasileiro,
e da admiração por casamentos quase eternos,

consegui encontrar a oitava gravação de “Codinome Beija-Flor”.
Adquiri-a sem duas vezes pensar!

sei, há muito,
do teu espanto pelos Cazuzas, poesia-alta,
e do desejo suave por relacionamentos estáveis.

Saímos,
cada qual para seu canto,
em busca de uma aliança bem bonita
– com nosso jeito e cara –
para tocar nossos dedos no dia do noivado.

Encontramo-nos,
com os dedos ainda vazios,
na porta de saída de uma loja qualquer
pensando, inevitavelmente, um no gosto do outro.

E trocamo-nos presentes:
dei-te o Cazuza,
deste-me o Jobim;
estávamos noivados!

Amigos antigos, velhos namorados

invadi teu abraço
até sentir-me guardado
na paz que mora em ti.

Quando, feridos de passado,
éramos os mesmos ou
– até outros –
inseparáveis fingindo-nos de amigos
carimbados por tanta identidade;
e, quando o beijo engravidava,
preferíamos o silêncio,
que faz falta aos cinemas mesmo com pipocas nos fins-de-tarde,
até desapercebermos que a mão da ausência pesa muito
a cada toque desarrumando por um carinho não feito.

Invadi teu abraço o mais que pude,
só então percebi quão infantil-homem fui:
por mais que usasse calça desde pequeno,
por mais que abusasse da barba e do bigode,
por mais que fingisse a mais adulta das posturas.

Depois de invadir
tantos e quase todos teus abraços,
– enquanto pude –
senti, inteira, a arquitetura do teu corpo
nos querendo mais adultos
até acriançarmo-nos e adormecemo-nos!
Ninado pelo acalanto silencioso dos teus bons-dias,
senti-me morador nos teus abraços invadidos,
enquanto, tarde da noite, a paz regride
envelhecida pelo teu pôr-do-sol.

Silêncio de cinco pontas

há um vago silenciar…

entrei na noite dos teus braços,
adiei o dia
– o mais que pude –
de lábios mordidos
economizando claridade.

tênue, o silêncio é vago.

dois respiros em hiatos
na mansidão mais abstrata da mudez,
– quase mudez –
ditas pelas mãos contornando a alma em forma,
respiro teus ais suados de amor em resguardo
na penumbra de muito silêncio, o absoluto,
enquanto o grito do sol não arde
vago pela noite
em busca das cinco pontas
do brilho silencioso desta estrela.

Os últimos primeiros

Conheci Deus.
Estaria louco?

Era Deus, sim,
– há pouco –
com dedos paz-amor, insistindo sono às pálpebras,
pressionando-as para o sul, querendo-as fechar.

Com Ele falei o mais humanamente, enquanto pude;
em fração de segundos, tornei-me Dele íntimo:
desenvergonhamo-nos
– Um ao Outro –
nossos segredos.

Deixou-me escapar
– quase sem querer –
que jamais fora brasileiro,
mas tem uma vontade louca de passar férias na Bahia.
(os curiosos, espantados, descerram a janela na minha cara sã)

Há pouco, conheci Deus!
(os amigos lúcidos ainda dizem que pirei de vez)

Falou-me das Suas angústias,
enquanto era eu quem deveria estar deitado no divã
falando mais que a matraca da quarta-feira-de-cinzas.
Deixou-me escapar
– sem nenhum estereótipo –
que fora Um sem-lugar, Um sem-grana,
Um sem-paciência, Um sem-medo
e Um sem-espelho
– principalmente –
só para não constatar a desgraça das semelhanças.

Diverti-me muito com Deus,
– em poucos segundos –
até sentir-me, confesso, necessitado,
tornar-me Dele analista, vigia e confessor.

Nos breves poucos segundos,
– talvez os últimos –
saímos para falar a última bobagem dita entre goles de chope;
até que um amigo
– um daqueles preocupadíssimos com meu surto –
com a língua tropeçando no excesso de álcool e na falta dos óculos,
leu duas laudas e meia de páginas
provocando cochilos aos que não Nos viam;
enquanto Dele me despedia ao som de um blues-azul,
em noite de puro jazz.

Agora, menos cansado,
só, então, um pouco mais eterno,
descobri porquê Deus pressionou
minhas pálpebras:
Ele tentou fechá-las, sem querer.

Fonte:
Goulart Gomes (organ.). Antologia do Pórtico.

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Nilton Manoel (São Paulo é Esperança Todos os Dias)

450 ANOS DE SÃO PAULO
O sonho da vida está na vida do sonho.
(Nilton Manoel, em Grilos na ponta do lápis)

Estação da Luz (SP)

1
No meu antigo toca discos,
ouço com muita atenção,
lindas canções de outrora:
– “São Paulo  Quatrocentão”,
da “Rapaziada do  Brás”…
O “Trem das Onze me traz”,
saudade e muita emoção.
2
O trem pelos velhos trilhos,
a história do povo escreve!
e a cidade em seu cenário
sempre arrojada se atreve
a plantar modernidade;
sofra a gente com a saudade,
o progresso não é breve.
3
São Paulo, não perde tempo,
inova, protege, acolhe,
quer sua gente contente
não há garoa que molhe,
o entusiasmo dessa sina;
quem vence sua rotina
dá vida aos sonhos que escolhe.
4
O povo quer movimento,
quer cenário, quer ação,
quer futuro e conforto
pela glória da nação…
Todo mundo quer ter paz,
como é bom sonhar no Brás,
há poesia nesse chão!
5
Sou paulista do interior
e passo a vida na estrada,
quem gosta de movimento
quer vida facilitada:
– ao modernismo dou fé,
por todo lado dá pé,
se a cidade é bem cuidada…
6
Quando estou na capital
tenho eficiente o transporte;
seguro, rápido, alegre,
em toda estação o bom porte
que, nem posso imaginar
sem metrô pra trabalhar…
Ser pontual é ser forte!
7
A inspiração não me falta
e até me lembro que, a gente,
há trinta e cinco anos tem,
esse serviço excelente
que movimenta a cidade
e dá ao povo a vontade,
de viver mais… felizmente!
8
São estações variadas
espalhadas pela cidade,
elevados, com plataformas
e na sua versatilidade,
põe no cenário, poesia,
integra-se com a ferrovia,
caminho de prosperidade.
9
Entre fixas e rolantes,
gente que faz movimento
no ganha pão habitual…
paro, olho e  meu pensamento
cola imagens que, resumo
para as falas de consumo…
Reportagens do momento!
10
Quem tem vida solidária
dá valor à cortesia:
por favor… muito obrigado…
dá licença… que poesia,
nas convenções sociais;
todos nós somos serviçais,
pelo pão de cada dia.
11
Jânio Quadros fez história
melhorou a imagem do Brás.
com novas edificações
e o povo cheio de paz,
se orgulha a todo o instante,
por ser sempre o Bandeirante,
de eras que não voltam mais…
12
Nossa vida que é cíclica,
deve a Anchieta, o jesuíta,
que nem sabia, Senhor!
a vida rica e catita
que sua instalação
da história da fundação,
seria plena e bonita.
13
Na sequência do transporte
o tempo não segue à toa
e o cenário num instante
de São Paulo da garoa
vai e volta com o metrô
rápido como um alô
de celular… Coisa boa!
14
Na integração, a saudade
que traz Maria Fumaça
é recompensa gostosa
é vida cheia de graça
é tempo cheio de glória
é povo que faz a história
nas estações em que passa.
15
Sertanejo, deslumbrado,
da capital do Interior,
Paro e olho como poeta
e fotografo com amor,
a cidade velha e a nova…
Faço haicai, cordel e trova,
São Paulo em tudo tem cor.
16
Fora e dentro da paisagem
do metrô, pelas estações,
a moda que inventa moda
tem espaço de emoções,
nos projetos culturais,
além de artes visuais
concertos e belas canções
17
Viajando, cheio de sonhos,
o usuário com vigor,
faz a vida mais contente,
tem no metrô, o esplendor,
do minuto brasileiro.
Sabe que tempo é dinheiro
e dinheiro é vida e valor.
18
Nestes bons trinta e cinco anos
dos quais dez Companhia
de Trens Metropolitanos.
São Paulo que é poesia.
tem seus pontos cardeais
movimentos cordiais,
na vida do dia a dia…
19
Entre túneis e superfícies.
neste cenário bacana,
paz pelas quatro estações
com as vitrines de Ikebana…
Esculturas e poesia…
O jornal de todo o dia…
É obra que de Deus emana.
20
Nesse progresso incomum
de terra quatrocentona
dos cafezais à indústria
ao comércio em maratona
o povo que se desdobra…
O imigrante tudo cobra
da cidade que emociona.
21
Cenário amigo é o Metrô!
solidário,  nada esconde…
Relembre através da história
a vida dura do bonde,
no meu relógio de ponto…
Todo mês quanto desconto!
A rapidez corresponde.
22
“São Paulo dos meus amores”
treze listras das bandeiras
progressista a todo o instante
de vida gentil de ordeira
cidade que se desdobra,
urbanidade que sobra
pela pátria brasileira.
23
Nesta vida, coisa boa,
meu trem das onze, é fulgor,
corre até a meia-noite;
é transporte de valor
é segurança de fé
é sorriso que dá pé
é verso de cantador…
24
Vai-e-volta, gente bonita,
da pátria do bom cidadão
em sua faina diária,
carteira assinada ou não
que, São Paulo que é formiga
também é cigarra e abriga
a saga da Educação.
25
Neste  mundo transversal
temas escolares tantos,
em seu cenário tem vida…
Num programa, com encantos
comunitários, o fascínio,
dá a todos tirocínio
da grandeza em todos cantos.
26
No “Ação Escolar” projeta
a influência, positiva,
do metrô pela cidade…
Movimento que motiva,
no urbanismo, novos lares,
é nos bancos escolares,
consagra-se em voz ativa.
27
Os conceitos cidadãos
são plenos em toda parte
faz da cultura de então
dar vivas a vida com arte
que o visual é fartura
que encanta, fascina e apura,
É saber que se reparte…
28
Como patrimônio público
paisagístico e de transporte
Metrô é riqueza da história,
trouxe à vida a melhor porte,
é tudo que o povo queria…
Foguete de todo o dia
do meu trabalho, o suporte.
29
São Paulo é renovação,
canteiro da arquitetura,
pátria de nossos estados
onde se sonha fartura…
Ambição a luz do dia
de noite sonho e poesia…
Vive-se bem… A vida é dura!
30
Por todas as linhas que passo,
por todos sonhos que planto
a trabalho ou a passeio
O metrô tem seu encanto
viajo em paz, sossegado,
feliz e cheio de agrado
e meus limites suplanto.
31
Recordo dos velhos tempos
do transporte e nossa história…
Museu Gaetano Ferolla
têm muito da trajetória…
O bondinho da novela
se à saudade dá trela?
Metrô é conforto e glória!
32
Salve os metroviários. Viva!
gente amiga e de paz!
quem trabalha por São Paulo,
é ordeiro em tudo que faz.
Viva minha gente de fé,
em Sampa tudo da pé!…
Viva o Metrô!  Viva o Brás!

Fonte:
O Autor

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.º 6 – 28 de novembro de 1886.

“Tu és Cólera, e sobre esta
Doença amiga edifico
A minha igreja, e uma sesta
Perpétua, em ficando rico”.

Assim me dizia o Bento
Da Silva Luz, boticário,
Inventor de um cozimento,
Inócuo e pecuniário.

E, vendo que eu o escutara,
Cheio de alegria e riso,
Como alguém que se prepara
A ter igual paraíso,

Quis saber qual fosse a causa
Daquela expressão ridente;
Eu, depois de certa pausa,
Disse-lhe naturalmente:

— “Quando cogito em que a peste
Pode entrar por nossa casa,
Cuido no favor celeste
Que trará pendente na asa.

Deu ela entre alienados
De Buenos-Aires, matando
Metade dos atacados,
E nova gente atacando.

Cada telegrama conta
Dois, três, cinco, oito, dez loucos,
Que ficam de mala pronta
E vão deixando isto aos poucos.

Não tarda que o derradeiro
Hóspede saia do asilo
E fique o edifício inteiro
Despovoado e tranqüilo.

E calcule agora a soma
De palácios encantados,
Feitos de nácar e goma,
Telhados e destelhados;

Calcule os pássaros feios
De asas longas, longas pernas,
Que enchem por todos os meios
As frias noites eternas;

Calcule as meias idéias
Feitas de meias lembranças,
E a meia luz das candeias,
E a meia flor de esperanças;

E as gargalhadas sem boca,
Ouvidas perpetuamente,
Ora claras, ora roucas,
E as conversações sem gente.

Farrapos de consciência,
Cozidos pelo delírio,
E uma enorme concorrência
De patuscada e martírio;

Calcule agora essa vida
De doidos enclausurados,
De repente interrompida,
E os corpos amortalhados.

Nem sempre a peste é moléstia,
Sacramentos e ataúde;
Aos doidos vale uma réstia
De inesperada saúde.

Por isso é que, quando penso
Naquele monstro terrível,
Acho um beneficio imenso,
Que o torna bom e aprazível.

E digo: Oh! abençoado
Destino que tal prescreve!
Que haja ao pé do alienado
A epidemia que o leve!”

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Hernando Feitosa Bezerra Chagall (Cantares) IV

O PEREGRINO VI

Deixe-me colher um sorriso
No Teu rosto cheio de dor
Preciso meu Senhor preciso
Dessa delicada flor

Nascida entre as puras lágrimas do Teu olhar
Que resplandecentemente belo
Resume todo o segredo
No perdão e no doar.

LUNAR

Sentado
Na fria escuridão
Deste miserável pedaço de pedra
Contemplo à minha frente
Esse paraíso
Resplandecentemente
Azul
E penso:
Como somos tolos, meu Deus!
Não percebemos o privilégio,
A felicidade e o verdadeiro milagre
Que é viver nesse maravilhoso
Oásis suspenso
Em teu bonito deserto e
Infinito universo.

CONSELHO VINICIANO

Ao escrever, seja leve, não vago.
Íntimo, não intimista;
Seja claro e preciso, nunca pessimista.
Tenha uma linguagem positiva,
Concreta e abreviada.
Dispense os adornos inúteis.
Fique discretamente por trás daquilo que escreve,
Sem medo ou angústia
Mas com a íntima certeza de estar fazendo
O melhor para fortalecer e iluminar
Os espíritos mais humildes
De nossa frágil sociedade.

PEQUENA GAIVOTA

Você
É um pássaro
Ainda pequeno e desajeitado.
Mas nenhum pássaro voa sem deixar o ninho, se atirar no abismo.
Tente o vôo! Se cair levante-se e tente novamente! Nunca despreze
A técnica! Nunca despreze quem pode ajudá-lo a voar mais alto! Nunca se despreze!
Voe livre ainda que sozinho e não se preocupe com opiniões pejorativas e
Invejosas de pássaros alquebrados pelo peso da desesperança
E do medo. Voe o mais alto que puder para alcançar
Seus objetivos. Só assim você poderá ser
Mais confiante, mais amigo,
Mais humano,
Vitorioso.
Ser
V
O
C
Ê
.

USURA

Todo governo
Vive às dispensas do povo
Mas nenhum sobrevive
Taxando-o de burro.

ANTÍTESE

Prefiro
Uma mentira que me faça rir
A uma mão cheia
De verdades lacrimejantes.

INVERNO
Vago ruas solitárias
De frio névoa garoa
Vago só mente à toa
Nesse dia que esqueceu
Do sol do céu das pessoas
E numa persistência tola
Tentou teimou amanheceu.

LIBERDADE CATIVA

Voei alto nas asas da imaginação
Procurando pela liberdade
A passos lentos me alcançou a solidão
Jogando-me nos braços da saudade.

MEU JEITO

Ando não corro
Não paro jamais
Por vezes passos à frente
Por outras, passos atrás
Sigo contido
Correndo perigo
Por todo lugar
Mas sigo contente
Pois sei que há gente
Há sempre um amigo
A se preocupar.
Em mim vive um homem
Um Deus um menino
Andando caminhos
De pontas arestas
De portas e frestas
Ansiando chegar
Chegar não sei onde
Aonde chegar sei lá
Ando não corro
Não paro jamais…

ALVORADA

O clarinete chora
Madrugada afora
Sob a luz da lua
A falta que faz você
Na algazarra do alvorecer
completamente nua.

ALBATROZ

Tenho as asas abertas
Tamanhas abrangem tudo
Voo por áreas desertas
Onde as cores falam
E o som fica mudo
Não participo de nada
Tudo fico a observar
Tenho a boca selada
E um discurso no olhar
Sou um pássaro grande
Desajeitado e louco
Louco para pousar
Fazer morada num ninho
Descansar um pouco
Ser um albatroz
Livre da solidão
Continuar meu caminho
Dentro de um coração.

NOITE

Chove é verão
Cheira terra
A úmida boca da noite
Embriagada
De prazer pela lua
Que insinua
Caminhos solidários
A dizer
Que nada é impossível
Enquanto luz.

MANTO

Vai-se o sol
Fim do dia
Na flauta (de Gounot)
Ave Maria
Passa a noite a cair
Feito manto ajeitado
Sobre os ombros
Do poeta.

OS PODEROSOS E AS POMBAS
(para John Lennon)

Olhem no alto
Abaixo do azul
Ao nível das nuvens
Acima de nós
Algo supremo silencioso pairando no ar…
Não!!!
Não manchem esse branco
Gracioso e puro
Com um vermelho encarnado e duro
Simplesmente olhem
Com olhos de poetas
Sentidos de profetas
Reverenciem chorem
Por fim
Desengatilhem suas armas
E dêem mais uma chance à paz
E dêem mais uma chance à paz
Se dêem mais.

OLHOS POÉTICOS

Os olhos que acompanham
O vôo de uma ave
– Câmera lenta aero- espaçonave –
São olhos que voam pra’lém do que vêem
Olhando pra’lém do que podem voar
São olhos científicos poéticos e finitos
A olhar infinitos
A olhar infinitos
A olhar…

OLHAR CRISTALINO

Olhos visão de um coração que bate
Em cada célula
Vivificada pela ilusão de harmonia no caos.

Olhos prismas dos colores cósmicos
Derramados sobre formas
Transformadas flores.

Olhos Ray Wonder que brilham na escuridão
Com o cristalino incrustado
Dentro do coração.

Fonte:
Hernando Feitosa Bezerra. Cantares.  Universidade da Amazônia – NEAD.

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Oswald de Andrade (Redondo)

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12 de dezembro de 2013 · 23:53

Machado de Assis (Gazeta de Holanda) – N.° 5 – 21 de novembro de 1886.

Com franqueza, esta Bulgária
Vai-me esgotando a paciência;
Lembra a ilha Baratária,
Onde, após uma audiência,

Sancho, que naquele dia
Começara a governá-la,
Foi, com muita cortesia,
Levado a uma grande sala.

Tinha uma fome de rato
O governador recente,
E viu prato, e prato, e prato,
Prato de atolar o dente.

Quanto manjar, quanto molho,
Não direi, por mais que diga;
Só a vista enchia o olho…
Restava encher a barriga.

Mas tão depressa acudia
Algum servo respeitoso,
Trazendo-lhe uma iguaria
De cheirinho apetitoso,

Um doutor, que se postara
Ao lado, sem mais demora
Fazia um gesto co’a vara,
E ia-se a iguaria embora.

Afinal, pergunta o Sancho
Que era aquela caçoada.
Responde o doutor, mui ancho,
Que nada, não era nada.

Que, como ele tinha a cargo
A sua saúde e vida,
Cabia-lhe pôr embargo
A uma ou outra comida.

— “Bem, então dê-me essas belas,
Maravilhosas perdizes”.
— “Livre-o Deus de tocar nelas,
Nem de chegar-lhe os narizes”.

— “Mas, aquele gordo coelho
Espero que me não negue”.
— “Senhor, o melhor conselho
É que nem sequer lhe pegue”.

— “Naquele prato travesso
Cuido que há olha-podrida”.
— “Não coma, por Deus lh’o peço!
Aquilo espatifa a vida.

“Deixe Vossa Senhoria
A cônegos e a reitores
Essa péssima iguaria
Que tanto estraga os humores”.

E o pobre Sancho com fome,
Por mais que lhe dê na gana,
Tudo pede e nada come,
Até que se desengana.

Assim anda a tal Bulgária;
Elege, mas não elege,
Pois, como na Baratária,
Há um doutor que a protege.

“Este príncipe!” — “Não presta;
Faz-lhe mal aos intestinos”.
— “Est’outro?” — “Escolha funesta”.
— “Aquel’outro?” — “Um valdevinos.

“Para os seus humores basta
Este da Mingrélia; é moço,
Boa cara e boa casta;
Demais, pertence ao colosso”.

E a Bulgária, se há de os braços
Estender e recebê-lo,
Fazendo assim com abraços,
Em vez de a murros fazê-lo,

Timeos Danaos, et dona
Ferentes, pensa consigo;
E com ar de valentona,
Recusa o presente amigo.

Bulgária dos meus pecados,
Imita o meu pobre Sancho,
Que, vendo os pratos negados,
Agarrou um pão a gancho.

Um pão seco e frescas uvas,
Acaba essas longas bodas.
Já tens véu, grinalda e luvas,
Escolhe uma vez por todas.

E, tomando a liberdade
De te chamar D. Amélia
(Ó rima! Ó necessidade!)
Bulgária, escolhe o Mingrélia!

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) – N.° 4 – 17 de novembro de 1886.

Que será do novo banco?
Interroga toda a gente;
Respondem uns que um barranco,
Outros dizem que uma enchente.

Certo é que andaram milhares
De contos, contos e contos,
Uns por terra, outros por mares
Contos de todos os pontos.

Caíam como sardinhas,
Pulavam como baleias;
Aí belas ambições minhas!
Ai sonho, que me incendeias!

E o Holman, o forte e ledo
Inglês abrasileirado,
Contemplava o Figueiredo,
Que olhava, grave e barbado.

Supunha que muita gente
Viesse; mas gente tanta
Não cuidavam certamente…
Obra abençoada e santa!

Da empresa, ora começada,
Há quem diga maravilhas;
Muita idéia cogitada;
Ouro a granel, ouro em pilhas.

Circulação recolhida,
Câmbio a vinte e seis ou sete,
Mudança da antiga vida,
Outra cara, outro topete.

Ai, sonho! ai, diva quimera!
Pudesse eu entrar na dança!
Ai viçosa primavera!
Ai verde flor da esperança!

Nem eu, nem o meu compadre
Eusébio Vaz Quintanilha,
Que, por mais que corra e ladre,
Nenhum grande emprego pilha.

Que, para matar a fome,
Vem matá-la em minha casa,
Sem poder dizer que come,
Mas que destrói, mata, arrasa.

Pobre Quintanilha! Um anjo!
Coitado! Afinal parece
Que lá teve algum arranjo
Que lhe dá certo interesse.

Há já dias que o não via;
Onde iria o desgraçado?
Quem sabe se morreria,
Faminto, desesperado?

Eis que ontem, quando passava
Pela rua da Quitanda,
E nos negócios cismava
Desta Gazeta de Holanda,

Lá no outro lado da rua
Uma figurinha pára;
Trazia a cabeça nua,
Bacia, opa e uma vara.

Era o pobre… Deu comigo
E veio, em quatro passadas,
Ao seu delicado amigo
Apertar as mãos pasmadas.

— “És andador de irmandade?
Aprovo os teus sentimentos
De devoção, de piedade…
Toma um níquel de duzentos”.

— “Não, Malvólio, não, não ando
Como um andador professo…”
— “Andador de contrabando?”
— “Também não; ouve, eu t’o peço.

“Esta opa, esta bacia
Alugo a alguma Irmandade:
Dou cinco mil réis por dia,
E corro toda a cidade.
“Varia o lucro, segundo
Dou mais ou menos às pernas;
Não escandalizo o mundo
E mato as fomes eternas.

“Rende-me oito ou nove, e há dias
De dez mil réis, dez e tanto.
Crês? Já faço economias,
Já deito algum cobre ao canto.

“É este o meu banco. O fundo
É variável, mas certo;
Deus dá banco a todo o mundo;
Uns vão longe, outros vão perto.

“Eu cá não ando com listas
De ações, nem faço rateio;
Todos são meus acionistas,
Gordo ou magro, lindo ou feio.

“Que um só vintém esmolado
Vale no céu muitos contos;
E há muito vintém cobrado…
Vinténs de todos os pontos!”

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Paulo Walbach (Caderno De Versos)

APENAS UMA PLUMA

Sou apenas uma pluma carregada pelo vento;
vou vivendo a minha vida, por aqui ou acolá,
sem morada, sem família e sem ninguém.
Sou apenas uma pluma, desgarrada de meu sabiá…

Não tenho asas, não tenho canto,
não tenho vida, só tenho encanto.
Sou suave, leve solta eu sou,
Sem presa, sem saber para onde vou.

Sou apenas uma pluma do meu sabiá,
que voava e cantava pra viver…
Mas, um dia, triste dia aconteceu:
Uma pedra, dura pedra o abateu.

E soltei-me da plumagem de seu peito,
e do sopro derradeiro, eu voei…
Sou a pluma separada do meu ser,
que morreu, sem saber do meu viver!

Minha vida se é vida, feito assim…
Pouco dela sei, pouco sei de mim.
Pois eu vivo, se o sopro me soprar,
se a brisa ou se o vento me levar.

Mas um dia, a sorte me pegou
pelo vôo de um pássaro de acolá,
carregando-me pelo bico familiar:
Era o bico da mulher do meu sabiá.

De uma vida com passado, sem futuro,
transmutada de um dia para cá…
Do nada, quase nada, virei ninho
da ninhada dos filhotes do meu sabiá!
======================
 
A LINGUAGEM DO POETA
 

Arte, Sonho, Liberdade! – a Poesia;
que o poeta,sem passagem, acredita,
pelos sonhos, perambula na magia
das palavras de sua Língua tão Bendita.

Ele voa pelas asas da alegria,
no embalo da estrela que palpita…
nos acordes do silêncio e da folia;
acelera, anda, passa, freia, grita…

Na linguagem; sinestesia ele tenta…
Escrevendo, vai suprindo sua emoção,
muitas vezes, já cansado de Sonhar…

O Poeta, com coragem, experimenta
até o fogo, que embriaga o vulcão,
acendendo seu pavio do Amar!
=================

RASCUNHO & BORRÃO

Nas linhas pautadas do velho caderno
aterrissam sonhos, que viajam em mim…
Vêm de algures, além do inverno,
ao porto seguro da pista molhada,
em versos sem fim…

Pedaços poemas, delírios sem asas,
fonemas opacos que vêm para mim;
às vezes quebrados, não chegam, não vingam,
se perdem no espaço…
e viram poeira num outro jardim.

Palavras sem forças, sem nexo,sem voz,
que risco e apago e faço borrão.
Pensamentos que fogem, se soltam no ar,
e voltam sem vida na mente cansada
de minha emoção…

Os versos que morrer no ventre da alma
são sementes estéreis jogadas no chão…
Sepulto as letras nas pautas vazias,
escritos perdidos à espera de luz,
meu lápis riscando em traços em cruz…
fechando o caderno rascunho e borrão!
================

VENTO MENINO

Acordei com a voz do vento,
Que batia na minha janela…
Pensei na hora e no tempo,
Acendi ao meu lado uma vela.

Lá fora o frio ardia,
Doíam, a relva e a flor…
O vento na janela batia;
Batendo, implorava calor.

Abri a janela e o vento…
Tremendo, em mim desmaiou;
Passei minhas mãos sobre ele,
Sorrindo, o vento acordou.

Parecendo um menino perdido
Entre as mãos espalmadas o acolhi,
Balbuciando logo em meu ouvido,
melancólico adágio eu ouvi.

Tremendo ainda o vento,
No outro ouvido cantou…
Parecendo elemento alado,
O vento pra mim sussurrou.

Não sendo menino e nem pássaro,
Que presos, ainda podem cantar…
Levei-o tão logo à janela…
E o vento se põe a voar!
===================

MÃE

MÃE é presente e eternidade
Que amarra a prole e a família
Por laços de verdade,
No mais nobre sentimento e magia.

MÃE é futuro da mulher…
Que DEUS faz no seu corpo crescer
A semente da mais bela flor,
Pelo filho que um dia há de nascer.

MÃE é passado de glória, agonia e ventura…
É esplendor e saudade pura
Num perene estado espiritual.

MÃE é um ser tão singular,
Da mais forte e fiel expressão
Dos verbos sofrer e amar!
=============

CURITIBA…
 
Índios correndo, abrindo picadas por dentre as matas….
Itupava…caminho de pedras, início de tudo.
Atuba, primeiro local, riacho tão rico, de ouro e pedras.
Cory-etuba!.
Pinheiros rodeando, pinhão florindo, é seu dia de festa!

Um pássaro azul solta seu canto,
voeja suas asas plantando a semente,
fazendo seu ninho nos braços esguios da árvore gigante.
Nasce a cidade, no largo central…
Pelourinho, futura matriz – a Catedral…

29 de março de mil e seiscentos e noventa e três…
Mateus Leme, Ébano Pereira, Baltazar Carrasco dos Reis…

Cidade Sorriso da rua das flores…
Do Ipê amarelo que traz primavera,
Dos campos, colinas, riachos, amores…
Curitiba escancara nos abraços seus,
fazendo de sua terra a miscigenação,
na riqueza dos irmãos filhos de Deus,
Que fizeram desta casa o seu rincão.

No sotaque tão aberto deixa a gente
Tão sem graça e na graça, vem o riso
quando pede o gostoso ´leite quente´…

Curitiba, de seus bosques e postais,
Ornamenta a cidade nos Natais
Curitiba dos tubos, da Boca Maldita…
Cidade que se recicla, cidade bendita.

Curitiba dos prêmios internacionais,
Capital modelo, no papel e no serviço,
Da Universidade quase centenária tem nos anais,
o irmão, o Centro de Letras de Emiliano Perneta,
Euclides Bandeira, Emilio Meneses e de tantos mais…

Curitiba, cantamos o Parabéns pra você,
Por que é a menina cativa que muito cresceu…
És a dama de sempre, e dos pinheirais
Curitiba, poema, te amamos demais!

Fontes:

Lilia Souza (organizadora). Coletânea da Academia Paranaense de Poesia. 2012

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) – N.° 3 – 12 de novembro de 1886

“Voilà ce que l’on dit de moi
Dans la “Gazette de Hollande”.

Aqui está, em folhas várias,
Uma cousa que se presta
A notas e luminárias.
Aqui vai a cousa, é esta:

— Na rua Larga se aluga,
Em bom estado, uma beca. —
Parece uma simples nuga,
E é mais que uma biblioteca.

Eis aqui o que eu diria:
Há nesta beca alugada
Uma idéia que devia,
Há muito andar publicada.

Primeiramente, repare
Que esta beca não se vende
Por preço barato ou caro;
É que, alugada, mais rende.

Comprá-la, era possuí-la;
Alugá-la, é só trazê-la,
Usá-la e restituí-la,
Sem rompê-la ou descosê-la.

Não haverá neste caso
Um sintoma? Não parece
Que a beca tomada a prazo
Uma lição oferece?

Que, sem correr Seca e Meca,
Muita gente delicada,
Assim como traz a beca,
Traz a ciência alugada?

Que, sendo esta leve e pouca,
Apenas meia tigela
Não chega a entornar da boca,
E pouco pedem por ela?

Que, inda mesmo sendo um quarto
De tal tigela, e não meia,
Parece falar de fato
Quem fala de boca cheia?

E que esse pouco, bastando
A que o locatário almoce,
É tolice andar estando
Ciência de sobreposse?

Nada sei; mas ofereço
A toda a pessoa séria
Este problema de preço
E passo a outra matéria.

Escreve um correspondente
Cholera-Morbus chamado:
“Conto que proximamente,
Malvólio, estou ao teu lado.

“Aqui nesta Buenos-Aires,
Terra de belas meninas…
Que salero e que donaires!
Que formosas Argentinas!

“Aqui, por mais que me esbofe,
Levo uma vida vadia;
Esperava um rega-bofe
E vou de pança vazia.

“Quando mato uma pessoa,
Surge-me logo uma junta,
Que a declara viva e boa,
Por mais que a deixo defunta.

“Negam-me tudo; o meu ato,
O nome, e até a existência;
Chamam-me simples boato
Sem razão nem consistência,

“Aborrecido com isto,
Determinei ir-me embora
Por esse mundo de Cristo;
Estou aqui, estou lá fora.

“Aí me vou, caro mio,
Só não sei de que maneira,
Se diretamente ao Rio,
Se atravessando a fronteira.

“Ir por água é arriscado
A dar com o nariz na porta;
Se achar o porto trancado,
Eu fico de cara torta.

“Enfim, veremos… Espero
Que, de um modo ou de outro modo,
Lá, entre; e aqui te assevero
Que com pouco me acomodo.

“Saudade, tenho saudade
De outr’ora. Há mais de trinta anos
Que andei por essa cidade
Com grandes passos ufanos.

“Mudou tudo? Existe ainda
O teatro Provisório?
Onde está Lagrua, a linda
Que teve um lapso amatório?

“O gordo Tatti? O magano
Ferrari? A Charton divina?
Vive ainda o João Caetano?
Vive ainda a Ludovina?

“A Loja do Paula Brito
Mudou de dono ou de praça?
Paranhos, grave e bonito,
Vive ainda? Vive o Graça?

“Mora ainda no Rocio
Muita família? O teatro
Tem inda o mesmo feitio?
São ainda os mesmos quatro?

“Publica-se inda o elegante
Mercantil? Que faz? Que escreve
Maneco? e o Muzzio? e o brilhante
Alencar de estilo leve?

“Vou vê-los todos, e juro
Em honra aos dias passados,
Que ao meu golpe áspero e duro
Serão poupados, poupados…”

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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José Alcides Pinto (Eu)

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Hernando Feitosa Bezerra Chagall (Cantares) III

THE GARDENER

O amor
Planta flores
De todos os matizes
No sagrado jardim
Dos corações felizes.

CHARME
 
Cegos de amor
Meus olhos
Tateiam teu corpo
Que insensível
Finge-se de morto.

O PEREGRINO
(Para Khalil Gibran)

Um dia neste mundo surgiu
Um jovem peregrino.
Diziam que Ele era vulgar e violento
Diziam que Seus cabelos
Eram penteados pelos ventos
Diziam também que a chuva
Suas roupas assentava
E atribuíam aos demônios Suas palavras
Mas o que diziam não importa
Há mais de dois mil anos
Ele abriu uma porta
E ainda hoje
Convida-nos a entrar.

O PEREGRINO II

Quem dera
Eu ali sentado
No poço de Jacó
CRISTO ao meu lado
Sorrindo palavras de luz
Enchendo de vida meu cântaro
Sem medos cruzes ou prantos
Somente eu e Ele, JESUS.

O PEREGRINO III

Jesus
Nome gravado na pedra
Cristo
Suave grito no ar
Um
Deixou marcas na areia
Outro
Nas ondas do mar
Juntos
Humano e divino
Conjugam o verbo
Amar.

O PEREGRINO IV

As flores de Getsêmani
Murcharam contritas
Às voltas de Um inocente
A ser condenado simplesmente
Por amar a liberdade e a justiça.
Na solidão de Suas lágrimas
Encontra-se o antídoto
Para todos os covardes
Deste novo milênio.

SENHOR DA POESIA
 
Oh, Senhor que une versos
Vida sonhos e verdade
Que vossa pureza possa
Livrar-nos das sombras da nossa
Imensa perversidade.

SALMO

Senhor
Dono das águas e dos astros
Do ar dono dos pássaros
Senhor
Mestre dos mestres e ateus
Budistas hindus judeus…
Senhor
Revolucionário imperador do bem
Soldado e mendigo também
Senhor
Aqui se encontra alguém
Que não aprendeu orar
Mas a dizer-lhe
Amém.

BUDDHA

Quando a aflição me atinge
Procuro refúgio
Sob a frondosa figueira
Dos frutos imperecíveis
Aos pés da delicada
Flor de Lótus.


 
Quem ama vê mais cores
Quem sonha pode voar
Quem canta espanta as dores
Quem dança encanta o olhar
Quem faz as quatro coisas
Caminha por sobre o mar.

CRISTO ADOLESCENTE

Faço parte do sonho
Que meu Pai sonhou
Se pesadelo existe
É meu não do amor.

Sou o sonho sonhado
Sou o sopro a vida
Sofro e sangro calado
Arranho e lambo a ferida.

Sou o canto a esperança
Sou aquilo que é seu
Sou o sonho do sonho
Eu sou filho de Deus.

MENINO LUZ

Doce menino andante
Meiga flor do oriente
Incansável viajante
Dos labirintos da mente.

Do brilhar de duas pérolas
Fez-se teu olhar
Do brancor de tu’alma
Todo imaginar.

Chegaste tão humilde
Numa centelha de luz
Foste tão corajoso
No alto de uma cruz

Que me sinto envergonhado
De estar acovardado
Diante da vida, obrigado
Muito obrigado Jesus.

NATAL

Era noite madrugada
Um casebre uma estrada
No brilho de uma estrela
Veio Deus nos visitar

Trazendo a esperança
Nos olhinhos de criança
No peito um veio de ouro
Nas mãos abertas ofertas

Pois O Cristo já habitava
Aquele sorriso de luz
Tão meigo sincero e bonito
Do pequenino Jesus.

FORÇA DE VONTADE

Você não pediu um dia para nascer
Sentenciado está agora a viver
De nada adianta querer questionar
Se solução não tem solucionado está.

Não pense em morrer enquanto vida houver
Pois aqui nada acaba se você partir
Deve se encaixar onde te couber
E fazer de tudo e a tudo resistir.

Retome sua calma libere seu coração
Deponha sua arma estenda sua mão
Junte ao sorriso um brilho no olhar
E esqueça a falsidade fria de um gargalhar.

Lembre-se da força acima bem maior
Força que te ergue e te pode derrubar
Força dO Homem simples livre superior
Força de vontade de amar.

CÂNTARO
 
Nesse frágil vaso de barro
Nascemos florimos…
Crescemos em direção à luz.
Todos de braços abertos
Tentamos abraçar o sol.

MONGES DO SINAI

Aos pés do monte Sinai
Um mosteiro contempla
A presença de Deus.
Por trás de suas muralhas
Humildes monges colhem ossos
Sabendo que um dia
Serão as próximas flores.

A CAMINHO
 
Descobrimos o fogo
Inventamos a lâmpada
Iluminamos as trevas
Do espírito.
Participamos do grandioso
Milagre da luz.
Um dia com certeza
Seremos sol.

GANDHI

Quando o calar é lutar
Quando se render é vencer
Quando o silêncio é cantar
Quando morrer é viver

Quando o chorar é sorrir
Um riso muito maior
Toda solidão do existir
Por pior que seja é menor

Quando se é grande é assim
Quando se é Gandhi melhor
Seu exército luta por mim
Entregando se humilde a vós

Deus da vida, Deus do amor
Deus da não violência
Ensina-me, por favor,
O caminho dessa inocência.

Fonte:
Hernando Feitosa Bezerra. Cantares.  Universidade da Amazônia – NEAD.

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Roberto Pinheiro Acruche (Poesias Avulsas)

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EXALTAÇÃO A SÃO FRANCISCO DE ITABAPOANA

São Francisco de Itabapoana
Como eu gosto de você.
Sua beleza encantadora
Há de sempre resplandecer.

Suas praias, sua grandeza,
Seus campos e floração colorida,
Obra prima da natureza
Eu me orgulho de ter nascido aqui.

Salve seu povo hospitaleiro,
Bom, amigo e trabalhador;
Salve terra abençoada
De São Francisco nosso senhor…

Abraçada pelos rios,
Beijada pelo mar,
Ornada com lagoas
Você é linda, sempre vou lhe amar.

São Francisco de Itabapoana
Onde o sol brilha mais o ano inteiro,
Estrela de grandeza reluzente
Do Estado do Rio de Janeiro.

O MANGUE

Beleza que surpreende o imaginário,
Frondosas árvores, a tudo sombreando,
Folhas que caem, seguindo o seu fadário
Bandos de pássaros, aninhando e gorjeando.

Sobre um tapete macio, escurecido,
Aonde o sol chega brando e sereno,
Caminham os crustáceos, em merecido
Passeio, pelo ensoberbecido terreno.
A natureza criadora e esplendorosa,
Surpreendentemente primorosa
Improvisa a pluralização da existência.
Translada para o mangue o berço
Proporcionando a vida todo apreço

ENCANTO

Esta poesia que fiz somente para ti
leva em cada palavra um beijo carinhoso,
em cada verso o amor que sinto e é todo teu.

Busco nas estrelas e não encontro o brilho
que vejo em teus olhos.
Olho o luar e não vejo a beleza que tem a tua face.
Não tem o sol o mesmo calor que sinto em teus braços
e nem a brisa a suavidade de tua pele.

Quisera colocar em cada letra o perfume das rosas
para que pudesses sentir o aroma que exala
do jardim que plantei no coração.

INCOMPARÁVEIS DIAS

Imperturbáveis foram os dias
De paixão e amor desmedido
Que rasgamos nossa fantasias
Num encontro de ternura vivido.

A imensidão daqueles momentos
De aspiração e sonhos realizados
Avivam nos meus pensamentos;
São a todos os instantes lembrados.

Ocasião incomparável, agora saudade!
Dos delírios arrebatadores
Convivido com tanta intensidade

A imagem da mulher atraente
Dos aconchegos, fascinante, envolvente…
Verdadeiro encontro com a felicidade!…

HOJE EU ACORDEI COM SAUDADES DE VOCÊ

Meu coração bate forte
Quando chega sua mensagem
Que bom se tivesse a sorte…
Vê-la chegar da viagem.

Quando te amei de verdade,
jamais eu pensei, “por certo”,
Que tu serias saudade
e o meu coração, “deserto”!

MORTO DE CIÚMES

Embriaguei-me no seu perfume
afoguei-me nos seus cabelos
quase morri de ciúmes!
Acolhi os seus queixumes
atendi os seus apelos
afoguei-me nos seus cabelos
quase morri de ciúmes!
Realizei as suas fantasias,
a enchi de alegria
assim, foram tantos dias.
Separados a seguir ficamos
depois que brigamos
por um caso qualquer…
Cada um de nós foi para um lado;
mesmo apaixonado
não queria procurá-la.
Certo dia, nós nos reencontramos,
fomos logo abraçando-nos
entregando-nos a paixão…
Depois de tempos perdidos
ouvindo os seus gemidos,
embriagando-me no seu perfume
afogando-me nos seus cabelos
após dias sem vê-los…
Estava MORTO de CIÚMES.

OBRA DIVINA

Veja Amor, como é linda esta paisagem!
A luz dourada do sol sobre a mata,
a água cristalina da cascata…
Indescritível, tal uma miragem.

Olhe aquelas árvores, que beleza!…
Esta vastidão plena, tão florida,
exuberantemente colorida,
climatizada pela natureza.

Cenário encantador, impressionante!
Harmoniosamente perfumante,
modulado com a magia do amor…

Minutenciosamente preciso,
somente quem criou o paraíso
adviria… ser seu escultor!

A FORÇA DA FÉ

Por que tudo que sonho
está tão distante
e não posso alcançar?

Por que minhas vitórias
são tão sofridas, lutadas,
somente alcançadas
no limite da tolerância?

Por que tantos obstáculos
no meu caminho, desilusão,
tanta ingratidão sofrida?

Será uma provocação a minha fé?…
Persista, ela não tem limite,
é forte, acredite,
é meu rumo, é minha vida.

UM AMIGO

Um amigo de verdade, é aquele:
Companheiro de todos os momentos
Que podemos contar com ele
Mesmo sem provimentos.

Um amigo de verdade, é aquele:
Que nos promove esperança
Que podemos contar com ele
Que conosco quer fazer aliança.

Um amigo de verdade, é aquele:
Que não desaparece
Quando algo ruim nos acontece…

É aquele que nos conduz
Que ouve as nossas preces
Que podemos contar com ele… JESUS!

RITA

Você era tão bonita…
De uma beleza sem igual.
Eu, como tal,
encantado com a sua silhueta
retratava na memória
você vestida de azul…

De um azul que cintilava
como o céu na sua mais fascinante imagem.
Lembro-me ainda de quanta bobagem
o tempo que desperdicei
por não ter coragem
de revelar pra você a minha fascinação.
Não mereço perdão!

Devia castigar-me
por ter sido tão covarde.
Talvez fosse a idade
Talvez a timidez.
Só sei que a perdi de vez.
 

Perdi você Rita, que era tão bonita,
pra alguém que sequer merecia o seu olhar.
E você olhou
apaixonou-se
entregou-se
E se acabou na desventura
acreditando naquela criatura
que não soube amá-la
não soube respeitá-la
acabando por entregá-la
ao desgraçado mundo da ilusão.

Dói-me o coração
de vê-la descuidada
desiludida, acabada, desfigurada,
como não existisse mais nada…

Ou razão pra viver.
Ah! Rita, você era tão bonita…

FANTASIA          

Num aviãozinho, de papel, de cor azul, viajei pelo universo…
Naveguei nas nuvens
Passei pelas estrelas
Visitei a lua cheia
Pairei por distantes planetas
Avistei inúmeros cometas.
Quando cruzei o arco-íris…
Acordei do mundo da fantasia.

TEU SORRISO

Não há como esquecer o teu sorriso,
que vai comigo por onde eu andar!
É a imagem viva do paraíso,
estabelecida no meu olhar.

Teus lábios mexem com o meu juízo,
deslumbram-me, levando-me a sonhar…
Tu és a confidência que eu preciso,
a minha poesia, o meu cantar.

Teus gestos de suave singeleza,
teu corpo de exuberante beleza,
incendeiam de vez a minha chama.

Mas o encanto que teu sorriso reflete,
desaba como chuva de confete
neste coração, que tanto te ama.

SEMPRE AS FLORES

Uma borboleta
voava lentamente
e pairava suavemente
sobre as flores…
Um beija-flor
voava rapidamente
retendo-se repentinamente
para beijar as flores…
Uma garoa
que brandamente caia
em plena noite fria
vinha abluir as flores…
Uma abelha
trabalhava indefinidamente
sugava insistentemente
o néctar das flores…
Um jardineiro
jardinava diariamente
com aspecto plangente
diferentes espécies de flores…
Um romântico
caminhava apressadamente
levava todo contente
um buquet de flores…
Por que será
que inadvertidamente
tantos reverentemente
dirigem-se as flores?

UMA ROSA SEM ESPINHOS

Quando a música parou, ela veio,
Trazendo na mão um copo de vinho,
Eu que a olhava sem qualquer receio…
Avistava uma rosa sem espinho.

Os seus ombros, o seu corpo, seus meneios…
E improvidente, devagarzinho,
Tocava-lhe, de mansinho os seus seios,
Beijando-a com emoção e carinho.

Sequioso sugava sua boca
Ávido do mel, da essência dela,
Correspondia-me deveras, louca!

E deixando seu colo desnudado
Que a tornava mais sedutora e bela
E eu completamente apaixonado.

FLOR

Encontrei um jardim tão florido, tão bonito,
que me senti extasiado, perdido, encantado
diante de tanta realeza.
Cheguei a duvidar da certeza e pensar que estava vivendo um sonho!
Era uma realidade esplendorosa!
Um mundo de rosas, violetas, dálias, orquídeas…
Impossível contemplar apenas sem que tocasse cada flor,
sentisse seu aroma e afogasse na sua fragrância.
Senti-me poeta por estar como tal,
tomado pela sensibilidade e entender porque falam das flores;
e até comparam a sua formosura com a beleza do amor.
A flor sem dúvida é a culminância da arte, a obra prima divina, a perfeição!
Impossível evitar a emoção…
Inevitável sair da razão e não se aprofundar no mundo da fantasia!
Transportei-me então, a esse paraíso encantado,
e enamorado declarei minha fascinação a cada uma…
– Flor amarela, como é bela…
– Rosas, como são formosas…
– Flor vermelha, as outras em ti espelhas!
– As matizadas como são amadas…
– Flores azuis, tua beleza reluz!
– Flor negra, quanta nobreza!
– Flor branca que tanto me encanta…
– Flor lilás… Ah!… Flor lilás…
Quanta saudade me traz!

QUANDO MORRE UM POETA

“Quando morre um Poeta
Uma luz se apaga
Uma rima deixa de ser feita
Um trovador se cala.
– O belo é menos escrito
Do jeito mais bonito
de externar a inspiração.”

MEU ESPELHO

Meu espelho, revelador!…
Arca de memórias,
juiz implacável do presente,
profeta mudo do futuro,
confessionário e principal consultor.
Sorrindo diante de ti
relembro os meus dias de infância
gesticulando e fazendo caretas…
Na vaidade da adolescência e juventude
extraindo acnes, penteando os cabelos,
raspando os primeiros fios de barba
experimentando roupas…
Quanto desvelo, com a aparência!
Tudo sem perceber as transformações naturais
provocadas pela maturidade,
fator imposto pela idade,
pelo tempo, senhor de cada momento,
fosse ele, alegre, feliz, triste ou sofrido.
Agora, diante de ti,
mesmo estando a sorri
estou subordinado às mutações…
Uma ruga que antes não existia,
hoje, habita e marca a minha fisionomia…
Os cabelos longos, fortes, cheios,
que exigiam tantos cuidados,
apenas uns poucos, ainda existem,
presentemente esbranquiçados
e jogados um tanto para os lados.
No entanto, o que mais me revela e me assusta,
não é a modificação, irreversível, progressiva e bruta,
não são os momentos felizes ou tristes do passado;
nem o que fiz, de certo ou errado;
não são os tempos perdidos, desiludidos…
Não são os ideais que não puderam ser alcançados;
ainda que me deixem entristecido.
Muito menos, por tanto haver me empenhado
e me obrigado a compromissos…
Nada disso!
Mesmo que tenham me abalado, também não são,
as paixões e os amores fracassados…
Não é o futuro das minhas obras e conquistas;
não é a aparência de um homem cansado
desestabilizado, desalinhado,
vivido, sofrido,
nem sempre barbeado…
Definhando!…
Mas o que verdadeiramente me revela e me assusta
é o presente!… Esse presente
sem prorrogação, motivação,
sem meios de recuperação;
para a efetivação de tantos sonhos
que ainda vivo sonhando.

CAMINHOS

Caminhos… Caminhos!
Cada um com a sua história,
Cada um com um destino!…
Caminhos que levam e trazem,
caminhos cruzados, esquecidos, abandonados,
caminhos que se encontram, caminhos que se perdem!…

Caminhos do medo, da incerteza e da revolta,
caminhos dos enganos e dos desenganos,
onde durante anos aguardei a sua volta!…

Caminho da insensatez, da vaidade;
pelo qual você foi,
deixando de vez
um peito angustiado,
sofrendo de saudade.

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Mário Quintana (A Vida)

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Imagem formatada = http://www.dudabrama.com/2009/12/08/quintana

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N. 2 – 5 de Novembro de 1886

Voilà ce que l’on dit de moi
Dans la “Gazette de Hollande”.

Muito custa uma notícia!
Que ofício! E nada aparece,
Que canseira e que perícia!
Que andar desde que amanhece!

E tu, leitor sem entranhas,
Exiges mais, e não vês
Como perdemos as banhas
Em te dar tudo o que lês.

És assim como um janota
De maneiras superfinas,
Que não sabe o preço à bota
Com que cativa as meninas.

Agora mesmo, buscando
Saber de associação
Que se deu ao venerando
Ofício de proteção

Aos animais — não sabia
Onde achasse os documentos
Dessa obra de simpatia,
Para transmiti-la aos ventos.

Achei quatrocentas atas
De reuniões semanais,
Ofícios, notas e datas,
Tudo espalhado em jornais.

Mas das ações praticadas
Em favor da bicharia,
E das vitórias ganhadas,
Nada disso conhecia.

Então lembrei-me de um burro,
Sujeito de algum valor,
Nem grosseiro nem casmurro,
Menos burro que o senhor.

E pensei: “Naturalmente
Traz toda a historia sabida;
É burro, há de ter presente
A proteção recebida”

Lá fui. O animal estava
Em pé, com os olhos no chão,
Tinha um ar de quem cismava
Cousas de ponderação.

Que cousas, porém, que assunto
Tão grave, tão demorado,
Ocupava o seu bestunto,
Nada lhe foi perguntado.

Talvez, ao ver-se assim magro,
Cativo como um nagô,
Pensasse no velho onagro,
Que foi seu décimo avô.

Entrei, dizendo-lhe a causa
Daquela minha visita;
Ele, depois de uma pausa,
Como gente que medita,

Respondeu-me: — Em frases toscas
Mas verdadeiras, direi,
Enquanto sacudo as moscas,
Tudo o que sobre isto sei.

Juro-te que a sociedade,
Contra os nossos sofrimentos,
Tem obras de caridade,
Tem leis, tem regulamentos.

Tem um asilo, obra sua,
Belo, forte, amplo e capaz;
Já se não morre na rua,
Dá-se ali velhice e paz.

Gozam dessa benta esmola,
Em seus quartos separados,
Mais de uma onça espanhola,
E muitos gatos-pingados.

Todos os galos na testa
Acham lá milho e afeição;
Lá vive tudo o que resta
Da burra de Balaão.

Mora ali a vaca fria.
E mais a cabra Amaltéia,
Única e só companhia
Do pobre leão de Neméia.

Não posso fazer elipse
Dos bichos caretas, nem
Da besta do Apocalipse,
Que ali seu abrigo têm.

E o cisne de Leda, e um bode
Expiatório, e o cavalo
De Tróia, escapar não pode;
Mas há outros que inda calo.

Peguei no papel, e a lápis
Escrevi tudo, e escrevi
Mais o nome do boi Ápis,
Que ele inda me disse ali.

E perguntei: — Meu amigo,
Por que é que a tantos amaina
O tempo, naquele abrigo,
E você anda na faina?

Ele, burro circunspecto,
Asno de boa feição,
Tirou de fino intelecto
Esta profunda razão:

— Se eu estivesse ali junto
Com outros da minha banda,
Você não tinha este assunto
Para a “Gazeta de Holanda”.

Vá consolado: que importa
Que eu viva cá fora ou lá?
Qualquer porta há de ser porta,
Para sair; vá, vá, vá.

E enquanto assim me dizia
frases que chamava toscas,
Chagas de pancadaria
Iam convidando as moscas.

Lá o deixei como estava,
Em pé, com os olhos no chão,
Parecendo que cismava
Cousas de ponderação.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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