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Natália Lima (Poesias Avulsas)

FELICIDADE
E quando chegar amanhã
Eu vou estar do teu lado
E no depois de amanhã
Estaremos  contando histórias
de tudo o que vivemos

E por amá-lo hoje
Me honra a certeza desse amor
que  ainda ontem  desconhecia

Felicidade  é  teu amor
Por toda a eternidade
Felicidade é ser amor
Para minha felicidade

SE NÃO EXISTISSE HORA
Se não existisse hora
O tempo não acabava
Se não existisse hora
A vida não passava
Há  horas percebo o tempo
E o que ele leva consigo
O tempo acelera os segundos
E  os primeiros que passam voando
Já os últimos estão mais perto
Mas não muito longe do fim

Se não existisse hora
Também não existiria
Nem o nascer, nem o pôr
E nem o crescer da flor
Nem muitas belezas
E nem muita dor
Daquilo que parte por ora
Sem controlar o passar
O desejo do inerte impossível
Desejo de ter e ficar
Desejo do desequilíbrio

Se não existisse hora
Todo tempo seria agora
Sem pressa  e sem demora
O tempo faria  greve
E  a hora faria graça
Sem culpa ou explicações
Se não existisse hora
Estaria agora em outro lugar .…

PRECISO ESCREVER
Preciso escrever com a força daquele
que um dia conseguiu ser lido e admirado

Foi lido, admirado e cantado…

Aquele mesmo que versejava nas madrugadas

Um tal que parava no tempo e se perguntava:
-Serei lido amanhã ?

E se respondia feliz:
-Percebo que sim…

O mesmo que se questionava
quanto a riqueza de seus versos

Lia-se   e não acreditava

Mas aquela mesma força, a mesma força conseguiu ser lida
conseguiu ser admirada

Ao menos a minha própria visão leu o fundo
o profundo do meu eu
Com tanta força
Que mal espera para escrever
O que já está em mente
Antes mesmo que estes versos acabem…

PERCEPÇÃO
Você pode fazer da sua vida, o céu
Basta ter a percepção
Da simplicidade das coisas
Do valor do pouco
E de que o muito nem sempre  é tanto
De não parar no tempo
Mas ter paciência
Do significado do amor
De exercer a paz
Da importância de um sorriso
E da intensidade dos gestos
De que não somos perfeitos
Mas podemos ser o  ídolo de alguém
De que nem todo dia estaremos felizes
Mas que alguém é feliz porque existimos
Procurar algo para achar
Seja feito por você , ou por outrém
Mas que seja feito de coração
Com a pureza divina
De quem tem a percepção
De que a vida pode ser o céu

DESABAFO
Há algo que me sufoca
Que me inquieta
Não sem bem o quê
Algo que mexe com tudo
Tira-me o sossego
Tem a ver com o que sinto
Com o que quero ser
Tem a ver com o que conto
Com o quero dizer
Sem saber ao certo o quê
Vou-me esvaziando do sufoco
E preenchendo lacunas com palavras
No papel antes branco
Agora pleno de sentimento
Apenas sentimentos
Sem que eu ainda saiba qual
Sentimento que me alivia a alma
Sentimento relaxante
Desabafo talvez
Daquilo que precisava ser dito
Mesmo que sem sentido

CENAS DE AMOR
Escrevo que te amo
Com a felicidade pulsante
Que me percorre as veias

Escrevo no teu corpo
Sobre o doce amor
Que me entorpece

Escrevo versos nossos
Únicos e cúmplices
Que traçam o gosto
Da boca
Do beijo

De todas as partes
Que compõem
Nossas Lindas
Simples,
Mas Intensas,
Porém Incomparáveis,
Cenas de amor .…

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=56322

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Paula Ney (Poesias Avulsas)

extraído de A Produção Poética de Paula Nei. Artigo de Bruno Scomparim Pereira (Cuiabá/MT)

A ABOLIÇÃO

A justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a lei da Abolição.

Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da Redenção.

Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores.

Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite: só temos alvoradas!


Segundo Raimundo de Menezes, o presente soneto foi escrito nos dias que se sucederam à Abolição, em meio às comemorações que tomavam as ruas centrais do Rio de Janeiro. Diz o biógrafo que Paula Ney escreveu-o de improviso, “entre dois cálices de vermouth, em meio ao ruidar da multidão na rua”.

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SEM TÍTULO

Mestre Meira mira o Moura
E o mestre Moura mira o Meira
Na marinha e na salmoura,
Mestre Meira mira o Moura,
Enquanto grita a lavoura,
Saltando doida e brejeira,
Mestre Meira mira o Moura
E o mestre Moura mira o Meira!


Jogo de palavras composto por Paula Ney, sobre desentendimentos havidos entre dois Ministros do Império: João Florentino Meira de Vasconcelos e João Pereira Moura, este ocupando a pasta da Marinha. Segundo R. de M., Ney, na ocasião trabalhando como repórter parlamentar, compôs esses versos e distribui-os aos parlamentares, na Câmara dos Deputados.

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SEM TÍTULO

Aquele piano, que ontem soluçava,
Triste e dolente, a doce cavatina
Dos teus olhos, oh! lânguida bonina,
Parecia uma órfã que chorava…

Parecia uma nuvem que espalhava
A branda luz da estrela matutina;
Parecia uma pomba que arrulhava
Na orla verde-negra da campina.

E eu chorava também… Tinha em meu peito
A dor da ausência, o perenal martírio
Dum grande amor passado e já desfeito!

Então, pedia às brisas que corriam,
Puras e leves, como o odor do lírio,
Para falar-te; e as brisas me fugiam…


Raimundo de Menezes, n'”A Vida Boêmia de Paula Ney”, intitula o soneto “O Piano”, afirmando que ele foi dedicado a D. Júlia Lima de Freitas Coutinho, com a qual o boêmio se casou já trintagenário. Da união matrimonial nasceram três filhos, sendo que o primogênito faleceu ainda recém-nascido, após intervenção cirúrgica. Já Ciro Vieira da Cunha possui outra versão para o poema. Segundo o biógrafo, o poema nasceu da parceria de Paula Ney e Lins de Albuquerque, poeta parnasiano morto precocemente e  que pertencia à roda boêmia de Ney. O soneto acima, sem título, teria sido, segundo Vieira da Cunha, publicado n'”O Mequetrefe”, sob as inicias P. N. e L. A., após ter sido redigido em uma das mesas da Confeitaria Paschoal, no Rio. O biógrafo explica que foi o olvido que baixou sobre a figura de Lins e Albuquerque que fez  com que atribuíssem sua autoria apenas ao nome de Paula Ney. Efetivamente, a versão de Ciro Vieira da Cunha parece-nos mais fidedigna, e por isso optamos por não intitular o soneto do modo como fez Raimundo de Menezes.

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A TRANÇA

Esta santa relíquia imaculada,
De teu saudoso amor, esta lembrança,
Da vida que fugiu, arrebatada,
Ligeira, como um sonho de criança,

Nos sonos de uma noite de bonança…
– Eu guardo, junto a mim, oh! noiva amada,
Enquanto minha vista não se cansa
De vê-la e adorá-la, extasiada!

Com o fio desta trança, tão escura,
Tão negra, sim – que até minha amargura
Lhe invejaria a cor – e tão macia…

Quais pétalas de rosa, eu teço, à noite,
Da viração sentindo o brando açoite,
– O epitáfio de minha campa fria!…


Único poema de Ney de que se tem notícia  que foi publicado na imprensa, à época da composição. Foi este soneto foi estampado no periódico “A Semana”, de 16 de Janeiro de 1886.

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ADORAÇÃO
Tu és minha, afinal! Enfim, te vejo
Sobre os meus braços, lânguida, prostrada,
Enquanto em tua face, descorada,
Os lábios colo e sorvo-te num beijo.

Vibra em minh’alma o lúbrico desejo,
De assim gozar-te a sós, abandonada,
De sentir o que sentes, minha amada,
De escutar-te do peito o doce arpejo!

Quando, entretanto, eu sinto que teu seio
Palpita delirante em doido anseio,
Como a luz que do sol à terra emana,

Eu digo dentro em mim: se eu te manchara,
Se eu te manchara, Flor, ai! não te amara,
Oh! branca espuma da beleza humana!


Sobre este soneto escreveu Ney da Silva: “neste encantador quatorzeto vê-se bem delineada toda a idéia: a posse, o desejo, a piedade, e, por fim, a revolta íntima de um ato pouco  digno de um coração que coloca o ideal, sempre intangível e puro, longe, muito longe, das terrenas misérias do mundo. Nele o espírito pode mais do que a matéria vil, e, assim, a doce e a inefável visão dos seus sonhares, ficou-lhe sendo sempre: ‘a branca espuma da beleza humana'” – O entusiasmo quiçá exagerado do escritor se escusa pelo fato de seu parentesco com Paula Ney…

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DE VIAGEM

Voa minh’alma, voa pelos ares,
Como o trapo de nuvem flutuante,
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as asas tuas sobre os mares!

Leva contigo os lânguidos cismares,
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante,
A copa verde-negra dos palmares.

Atira tudo isso aos pés de Deus,
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil c’roadas de verbena.

Isto que já brilhou como uma estrela,
_ Adeus! dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de um anjo, coração de hiena!


Este poema – conta-nos R. de M. – foi escrito a bordo do navio que levou Ney, em sua mocidade, do Rio de Janeiro para Salvador, onde passou tumultuosa e alegre  temporada. O motivo da viagem, a filha de um comerciante da Corte, pela qual o jovem boêmio se apaixonara, e que lhe serviu de inspiração para o soneto transcrito.

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A FORTALEZA

Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loira desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins pousada
Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho,
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais…

É minha terra! a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais!


Quando se pensa sobre a fama atual de Ney, constata-se que, seguramente, este soneto é seu legado mais vivo, na medida em  que a beleza dos versos de “A Fortaleza” rendeu ao poema o mérito de figurar em diversas coletâneas de poesias, sendo o soneto consideravelmente conhecido pelo público até hoje, principalmente em Fortaleza, que por muitos ainda é chamada de – A loira desposa do sol”.

Fonte:

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Irene Coimbra (Poesias Avulsas)


O MENININHO E A TORNEIRA

A aula da primária
já havia começado,
quando aquele menininho
veio sentar-se ao meu lado.

E olhando para mim
com olhar interrogador,
parecia esperar
uma manifestação de amor.

E quando lhe sorri
pra mim sorriu também,
e aproximando-se mais de mim,
essa frase disse assim:

– Na minha casa tem tornera!

Tomada de surpresa
pela frase inusitada,
por um breve momento
não consegui dizer nada.

Mas olhando bem pra ele
pude logo entender,
o que com aquela frase
ele queria dizer.

E enquanto entusiasmado
continuava a falar,
eu ia percebendo
um brilho em seu olhar.

– Dentro de casa. O vô qui pois. Saiu água!

Não precisou dizer mais nada
e sua realidade vi,
era a primeira vez
que uma torneira entrava ali.

Abraçando-o com carinho
fiquei a imaginar,
a importância que tinha
uma torneira em seu lar.

Aquele menininho
que diante de mim estava,
era como um professor
que entrelinhas me ensinava.

Com ele aprendi
a parar de reclamar
por coisas insignificantes
que faltavam em meu lar.

Jamais irei esquecer-me
daquela simples lição,
pois ela ficou gravada
dentro de meu coração.

PRECISO CORAGEM

É preciso coragem
para não revidar com palavra agressiva,
quando se foi atingida de forma ofensiva.

É preciso coragem para não fingir,
quando todos ao seu lado estão a mentir.

É preciso coragem para dizer a verdade,
no meio de tanta falsidade.

É preciso coragem para silenciar,
quando se tem vontade de gritar.

É preciso coragem
para dizer a mensagem que deve ser dita,
mesmo que depois a vejam como maldita.

É preciso coragem para espalhar alegria,
mesmo vivendo em agonia.

É preciso coragem para dizer “Não”,
diante de uma grande tentação.

É preciso coragem pra continuar lutando,
mesmo em tudo fracassando.

MEXERICOS DE PAPEL

Há três horas estou aqui
esperando a inspiração,
com o papel à minha frente
e a caneta na mão.

De repente ouço a caneta
falando com o papel,
que a inspiração que espero
já foi pro beleléu.

O papel ri da caneta
e ela dele também,
e juntos riem de mim
porque a inspiração não vem.

E os dois mexericando
ali em minha frente,
dizem que não consigo
porque é vazia minha mente.

Perco a paciência de vez
ao ouvi-los dizer assim,
e meu primeiro impulso
é de dar neles um fim.

Pego a caneta bem firme
e a aperto entre os dedos,
enquanto o papel me olha
branco de tanto medo.

Nesse momento os dois
começam uma gritaria,
e entre seus gritos vejo
nascer a minha poesia.

A REVOLTA DA CANETA

A caneta de repente
fica toda revoltada,
e me encarando com fúria
diz que eu sou a culpada.

Diz que já se cansou
de todos os meus rabiscos,
e que está decidida
a parar com tudo isso.

Que a aperto entre os dedos
e que rabisco demais,
e nem por um minuto
consigo deixá-la em paz.

Que não tenho piedade
pois quando estou escrevendo,
sou incapaz de perceber
o quanto está sofrendo.

Que a pressão de meus dedos
sobre ela é tão forte,
que por muitas, muitas vezes
desejou até a morte.

Que eu não ligo pra ela
e não tenho coração,
e que já está farta
de ver seu trabalho em vão.

Diz que já não aguenta mais
ver as folhas que rabisco,
em pedacinhos rasgadas
e mandadas para o lixo.

Que se for pra continuar
com essa situação
ela desiste de tudo
e vai para outra mão.

DISPUTA SOBRE O TECLADO

Ligo o computador
e faço a conexão,
enquanto os dedos se agitam
na maior animação.

Cada dedo no teclado
quer passar uma mensagem,
alguns falam coisa séria,
outros falam só bobagem.

Às vezes olho, espantada,
para a tela à minha frente,
sem querer acreditar
no que saiu da minha mente.

Vejo os dedos, ansiosos,
pulando sobre o teclado,
como se estivessem todos
dançando um sapateado.

Olho pra eles bem séria
e falo com autoridade:
“Ou vocês me obedecem
ou os castigo sem piedade.”

“Será que não percebem
as bobeiras que ali estão?
Parem de escrever tolices
e prestem mais atenção”.

Nesse momento minha alma
como sempre a interferir
joga em mim toda a culpa
pelo meu modo de agir.

“Não queira culpar seus dedos
pelo que acabam de escrever,
você mesma é a culpada
com esse seu jeito de ser.”

“Você não sabe o que diz”
falo então pra minha alma,
“Fique aí no seu canto
e não me tire a calma.”

Os dedos, indiferentes,
sobre as teclas vão saltando,
e palavras pra todo lado,
vão todos eles jogando.

Tento, em vão, controlá-los
pra que não escrevam bobeira,
mas, indisciplinados,
fazem à sua maneira.

Só depois de muito tempo
e com o micro desligado,
é que acaba a disputa
dos dedos sobre o teclado.

“NADA SE CRIA, TUDO SE COPIA…”

“Nada se cria, tudo se copia.”
Foi isso que ouvi dizer,
quando comecei a escrever.

Mas minha única vontade
era escrever uma mensagem,
sem de ninguém copiar
e pra todo mundo eu passar.

Vi então, em minha mente,
aparecer, de repente,
palavras e mais palavras
que em frases se tornavam.

Como se estivesse a beber
da água de uma nascente,
comecei a escrever
tudo que me vinha à mente.

E, enquanto ia escrevendo,
eu tinha a sensação,
de que um anjo invisível
guiava minha mão.

Deixei-me levar assim,
sem me preocupar com nada,
pois sabia que no fim
a mensagem seria dada.

E como um raio de luz
incidindo em minha mente,
a mensagem apareceu
assim de repente:

“É preciso ter coragem
pra passar uma mensagem,
pois todo aquele que uma mensagem passou,
de alguma maneira alguém o crucificou.”

Fonte:
União Brasileira de Escritores

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J. B. Donadon-Leal/MG (Poesias Avulsas)


VOZ DE POETA

Minha voz de poeta
Silenciosa
Se diz em meditação

Minha voz de profeta
Licenciosa
Se diz maldição

Minha voz manifesta
Ditosa
Se diz a foz do não.

Enquanto minha voz discreta
Irrompe do peito o tom do trovão
Águo a ira inda pupa no aguardo
Do pecado já cometido
No dia do juízo final
No dia preciso
Diante da luz
Terna
Do relâmpago artificial
Na rede elétrica da minha bondade.

Minha voz de sóis completa
Copiosa
Sua raiva nos traços da mão.

Haja voz, nós nas gargantas,
Sazonal humor qual céu de verão,
Minha voz de poeta
Deleitosa
Toca as linhas do coração.

GÊNESE DA POESIA

Desajeitada, rude ainda,
fiz-me um verso uma rima,
folk fui em forma linda:
poesia, onde ainda você se arrima.
Fiz épocas, bongas e locuções,
normatizada fiz-me tão restrita
e escolada em tanta boca atrita
sou cantada nas todas evoluções.
Fui dos espíritos cenário e voz;
das ninfas, píxide de toda glória,
nas naus rebendo de um amor e a sós,
flutuante, párvula, que ainda história,
galgo minúcias, em gargantas nós.
Escura, nívea, que de afetos tantos,
sendo da lírica visão dos santos,
do alfa perpétua vago até por nós.
Que de os filósofos ouvirem cantos,
quando o mais ávido talento exala,
traz na poética prazeres tantos,
pois que a ver índole na gênia fala
o som dessa auréola astuta assume,
em versos áticos, cultistas lautos,
de inversos tentos, sentimentos pautos,
o teor artístico por ledo lume.
Atraco ao pojo que uma vez perfeita
todos meus clássicos andores, deuses,
vendo-me bojo, minha sina enfeita,
em moldes práticos, pastores, reses,
pois trago, então, cenas de posses tais,
que para meus dotes de vivência em fogo
atiça gana, em mui descrença, jogo:
busco a razão nas tantas artes mais.
Fui no sonho buscar abrigo
e na morte conter meus ais,
da liberdade fazer-me amigo
e no amor encontrar rivais;
da natureza me embebi em doses
com a mulher que se fez saudade
e no bom selvagem que me invade
fiz-me pátrio em todas as minhas vozes.

Volvo meus olhos nus em nódoas águas
e vendo o embaço desse céu sem cor
solvo-me em versos que das artes tábuas
em sulcos tortos, pois que se é depor
contra tais sonhos indivíduos d’outros
escritos falsos, onde morto agora,
pinto o meu céu de negro pálio, fora
da casta dos que se julgam doutos.
Em badalos, estalos e alaridos
fiz-me música, mística e rumores
e passiva, altiva em sons ouvidos,
ritmados, contados em tambores,
tão simbólica, cólica e acesa
num turbante andante, ameno, mas forte,
sinto-me tonta e o quanto sou indefesa.
Sendo dos meus sertões a entranha em fala
penetrei no real que tão presente,
vim pasma em meio ao verso que não cala,
alegre, triste… a voz que o povo sente:
dormente ao trilho, forte base, enfim,
semente ao chão da semana brotada
tal qual a terra, bem mais safada
que a orgia que cedo chega ao fim.
Poesia, poesia
assim sou chamada.
Fui do povo, perfeita, sacrossanta.
Fui teórica…
Fui parte
Um só sonho.
Hoje, porém, sou de tudo
plena.

APRENDER A APRENDER

A bruma da manhã
testa a paciência do sol
ao interferir na monotonia.

O sol, olho dilata,
de privilegiado lugar
sabe-se diferente a cada segundo
em seu ludismo
de rolar a terra incessante
e esconder de si a nuvenzinha tola
que de dorso frio na altura
chora chuva fina e se vai
abrigar na pele aconchegante da terra
para no lago quente se brumizar de novo
e brincar de esconder o sol
que rola a terra ensinando
aprender a aprender a diferença infunda
na monotonia aparente do sistema.

A bruma da manhã
se testa na paciência do sol:
ferem juntos a sucessão circunferente
num lúdico e diuturno aprender.

CREDO QUIA ABSURDUM

Seduzir
revelar
mover-se de si
a se doar
ser truísta
nos mortos brios
expandir
dilatar
morrer-se de si
por se jorrar
dos aviões
no espaço frio
explodir
reatar
abster-se de si
ao se voar
sobre as cabeças
avião
sob os pés
some o chão
credo quia absurdum.

MEU VÍCIO

Meu vício
não segue o fascismo do fumante
não impregna o cabelo
nem o paletó
nem a mão
nem a boca
nem a sala de espera
nem o vizinho de mesa
nem o salão de festa
nem o escritório
nem o automóvel
nem a areia da praia
nem o barzinho
da catinga
irremediável
dos cigarros.
Meu vício
não dá câncer
não intoxica quem se Avizinha
não reduz a capacidade de respirar.
Meu vício
só ocupa folhas
com palavras
de liberdade.
Meu vício
não obriga o outro
a ler meus versos.
Meu vício
joga palavras
em poesia,
mas como as aldravas
pede licença.
Meu vício
mostra que pode haver
prazer
sem contra-indicações.

Fonte:

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Altino Caixeta de Castro/MG (Poesias Avulsas)


A ANTIMEMÓRIA

O capim de cinábrio cresce nos
pântanos de metal. Os cavalos comem
os candelabros de prata do poeta
Bueno de Rivera. O galo de Aghone
em Lautrèamont parte com o bico em
dois galos de Pirapora, crista de
azinhavre. Um poeta aprende copta
para captar um poema. A morte passa
a limpo os últimos palimpsestos.

PORQUE VIM

Não vim para cantar.

Se cheguei tarde
não vim para cantar.
Cheguei tarde porque deixei na estrada sem lua
a minha boca torturada sem rumo e sem canção.

Não vim para dizer.

Se cheguei tarde
não vim para dizer.
Cheguei tarde porque tudo está falado.

Não vim para chorar.
Porque a lágrima ficou estúpida
na pálpebra doirada.

Também não vim para sorrir.
Porque o sorriso ficou nos beiços dos carneirinhos
que minha mãe me deu nos currais de meu pai.

Também não vim para sofrer.
Inútil indagar porque cheguei.
Eu vim, apenas, para ser chegado.

SONETO DO ESTRANHO

Para Borges, Foucault, Drummond e outro

A geometria de Euclides me ampara,
mas a de Einstein é que me põe perplexo:
me exibo em versos côncavos-convexos,
minha rosa de rima é curva e clara.

A cicatriz da mágoa tem reflexos
ou se propõe na angústia que não pára.
A flor do lodo, flor do asfalto enfara
se a lésbica mulher mudar de sexo.

O que não muda é o homem (ser estranho)
o ser recente excelso de um rebanho
que ainda em hordas ríspidas resiste.

A minha rosa é côncava-convexa,
agora o que não sei nesta conversa
é o que Einstein e Euclides tem com isto.

Da COROA DE SONETOS PARA UMA CABRA

XIII

As luzes de meu ser e de meu nada,
Truísmo e tropo que não quero e topo,
A própria cabra é sombra no meu corpo,
Coisa que berra e bale misturada.

Coisa assim, penso e existo, como um sopro
Ardendo-me na pele suspirada
Conhece-te a ti mesmo, camarada,
Sem fim, sem meio e fim, sem meio escopo.

Ninguém sabia do a priori dela,
Só se sabia da braveza bela,
Do jeito de ser livre, e era tudo.

Por isso agora piso neste estrume,
Levo pra casa o lúrido volume
Feito de couro para meu estudo.

ROSA DE ISOPOR

Verifico
(em suma):
a indústria do Lirismo
é de consumo
conspícuo.

Do poema Fabricado
sem aporias
Isoporema
emana
a Fragrância
Flor.

A experiência
do aprendizado poético
(em alto nível)
Mestrado de Mímese
é uma experiência para o Consumidor:
Experiência Lyrica
de uma Rosa

LUANA

A Mário Garcia de Paiva, autor de Luana

a lua na janela de Luana
bate tranqüila, não me assusta, pois
Luana é a lua apenas da alvorada
ou é a alvorada a lua de nós dois?

estou cheio de estrelas lualãs,
“belimbelezas” de quem ama ou brilha.
das seis da tarde às sete das manhãs
um galo verde inaugura Brasília.

Luana canta? arranha o céu seu canto.
sírius, lá em cima, gane ganas de gente.
joãozinho enche de aurora a morte má.

ivanildo candango, paulo some
apenas eu, me resto, (amor ou fome)
lua-luando no paranoá.

EXALTAÇÃO DA FORMA

“Ainda é o canto que canta na garganta
A única recompensa pra quem canta”.
GONZAGA

Na palinódia de meu sonho acesa,
trago o esplendor da forma que retrato.
Se ainda canto e em prélios me debato,
é para erguer-me ao culto da beleza.

Praxíteles da forma, eu me arrebato
entre visões sonoras, com certeza.
Que veja o metro de seu verso exato
na cadência da língua portuguesa.

Acastelado assim, não se abacina
meu poetar e a musa me ilumina
o campo para a luta e para o ataque.

Fídias do verso, a estátua que cinzelo
suporta o peso deste amor ao Belo,
que fez um dia a glória de Bilac.

Fonte:
Antonio Miranda

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Dora Dimolitsas (Poesias Avulsas)


A REVOLTA DOS DEUSES

Transbordo ópera na espreita
Explosão nuclear, começo e fim
Medos, tsunami, violação do estante

Abro as cortinas e entulhos se sobrepõem
Transformações profundas sísmicas
Medos ,lágrimas e espanto

Já é tarde demais
Os deuses já despem os véus

SANGRA O SANTO SUDÁRIO

a espada é o elo,
esbarra nas distorções,
fazem os abismos de Breton
no caracol do rebento
não há lamentos
Microcefalia, cólera, massas profanas
( os impúberes-psíquicos )
deixam expostos o brilho
dos olhos,
nos ossos do crânio sagrado

SÃO PAULO À NOITE

São Paulo de noite nas ruas
Parece nua com suas cores, suas luzes piscando
Todas no mesmo ritmo, como um grande coração.
As luzes parecem pulsação.
Nos bares a vida noturna embala
As caras que encaram no peito a noite.
Não tem jeito, a noite é linda e leve,
Leva-nos a muitas reflexões.
Aqui, acolá, uma pessoa passa cantando, falando, sorrindo.
Olhando pra longe bem ao longe,
A existência do que parece vazio,
Do que nos fala ao ouvido, baixinho.
Através do vento que bate no rosto
Cochichando palavras inexplicáveis.

A noite em São Paulo é mágica
Ando na Avenida Paulista
Preocupada, pensativa, mas feliz,
Bebendo a brisa que passa
Abraçando a noite que fala…
Pensando em Você, como está:
Pensa em nós, ou faz tudo
Para me afastar de suas lembranças?
Lamento dizer, mas você está impregnado
Em mim, assim como estou em você.
Somos ligados não sei por quê acordo
No Céu, mas sei que são laços eternos.
Por isso já aprendi a amá-lo
Na incerteza das suas lembranças, mesmo de longe,
Morrendo de ciúmes de quem está perto.

NOITE DE SOL

Na noite,
Lençóis macios testemunham imagens
Que em teu olhar pasmo se formam.

O corpo nu, inteira cobiça,
Um busto que faz as mãos tremer
Deixando transpirar.

Desejos no beijo, no abraço,
Bombolinar, sonhar entre os lençóis,
Amar, deixar o sol brilhar.

AMOR EM ECO

Havia astros refletindo
Com a luz do luar
Em sinfonia pronuncia
O nome do amor em eco.

O relógio marcando a hora
Do dia que logo vai clarear,
Mãos prontas para estrelas pegar
Num reflexo da luz
Que a noite está sempre mostrando.

Nas cantigas grito,
Em sinfonia pronuncio
O teu nome ao cantar o amor.

NOS BARES

Nos finais de semana os bares ficam lotados.
À noite, bandas de garotos
Iniciando uma carreira promissora,
Fazem suas demonstrações.

Muitas luzes piscando,
Muitas jovens adolescentes com seus ficantes.

A noitada está só começando,
Dança agarradinho, cochicho no ouvido
Dança sensual fazendo a garotada sonhar.

A sedução faz parte da noite, fala macia,
E dois jovens vão parar na cama.
Aos pais, a quase certeza do neto chegando.

POETAS EM SARAU

Da sacada do prédio ao lado
Vejo poetas em deliciosos saraus,
Muita gente circulando
Bebendo as palavras poéticas,
Vejo os rostos das pessoas
Que na noite deixam a alma falar
Transitando nos corredores.

Paro e me pergunto
A poesia é sonho ou é real?
Chego à conclusão:
Bem vivida a vida é poesia

A LINGUAGEM POÉTICA

Traz o envolvimento perceptivo,
Criativo e principalmente belo.
Capaz de abraçar nossa alma por inteiro.
Ilustra e da cores a nossa imaginação,
O poeta em sua capacidade de ver e comunicar
Constrói todo um universo
Faz viagens, permitindo que sua criação
Tenha vida própria e alma…
as imagens transitam entre um elo e outro.
E assim o Poeta se comunica, cumprindo
Seu compromisso social de levar beleza e cores
A todo espaço que pareça vazio..
—–

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Maria Firmina dos Reis (Poesias Avulsas)


NO ÁLBUM DE UMA AMIGA

D’amiga a existência tão triste, e cansada,
De dor tão eivada, não queiras provar;
Se a custo um sorriso desliza aparente,
Que máguas não sente, que busca ocultar!?…

Os crus dissabores que eu sofro são tantos,
São tantos os prantos, que vivo a chorar,
É tanta a agonia, tão lenta e sentida,
Que rouba-me a vida, sem nunca acabar.

——————–

D’amiga a existência
Não queiras provar,
Há nelas tais dores,
Que podem matar.

O pranto é ventura,
Que almejo gozar;
A dor é tão funda,
Que estanca o chorar.

Se intento um sorriso,
Que duro penar!
Que chagas não sinto
No peito sangrar!…

Não queiras a vida
Que eu sofro – levar,
Resume tais dores
Que podem matar.

E eu as sofro todas, e nem sei
Como posso existir!
Vaga sombra entre os vivos, – mal podendo
Meus pesares sentir.

Talvez assim deus queira o meu viver
Tão cheio de amargura.
P’ra que não ame a vida, e não me aterre
A fria sepultura.

CONFISSÃO

Embalde, te juro, quisera fugir-te,
Negar-te os extremos de ardente paixão:
Embalde, quisera dizer-te: – não sinto
Prender-me à existência profunda afeição.

Embalde! é loucura. Se penso um momento,
Se juro ofendida meus ferros quebrar:
Rebelde meu peito, mais ama querer-te,
Meu peito mais ama de amor delirar.

E as longas vigílias, – e os negros fantasmas,
Que os sonhos povoam, se intento dormir,
Se ameigam aos encantos, que tu me despertas,
Se posso a teu lado venturas fruir.

E as dores no peito dormentes se acalmam.
E eu julgo teu riso credor de um favor:
E eu sinto minh’alma de novo exaltar-se,
Rendida aos sublimes mistérios do amor.

Não digas, é crime – que amar-te não sei,
Que fria te nego meus doces extremos…
Eu amo adorar-te melhor do que a vida,
melhor que a existência que tanto queremos.

Deixara eu de amar-te, quisera um momento,
Que a vida eu deixara também de gozar!
Delírio, ou loucura – sou cega em querer-te,
Sou louca… perdida, só sei te adorar.

SEU NOME

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d’ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh’harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, – ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha idéia – em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito – em vão – repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!…

A UMA AMIGA

Eu a vi – gentil mimosa,
Os lábios da cor da rosa,
A voz um hino de amor!
Eu a vi, lânguida, e bela:
E ele a rever-se nela:
Ele colibri – ela flor.

Tinha a face reclinada
Sobre a débil mão nevada:
Era a flor à beira-rio.
A voz meiga, a voz fluente,
Era um arrulo cadente,
Era um vago murmúrio.

No langor dos olhos dela
Havia expressão tão bela,
Tão maga, tão sedutora,
Que eu mesmo julguei-a anjo,
Eloá, fada, ou arcanjo,
Ou nuvem núncia d’aurora.

Eu vi – o seio lhe arfava:
E ela… ela cismava,
Cismava no que lhe ouvia;
Não sei que frase era aquela:
Só ele falava a ela,
Só ela a frase entendia.

Eu tive tantos ciúmes!…
Teria dos próprios numes,
Se lhe falassem de amor.
Porque, querê-la – só eu.
Mas ela! – a outra ela deu
meigo riso encantador…
Ela esqueceu-se de mim
Por ele… por ele, enfim.

MEDITAÇÃO
(À minha querida irmã – Amália Augusta dos Reis)

Vejamos pois esta deserta praia,
Que a meiga lua a pratear começa,
Com seu silêncio se harmoniza esta alma,
Que verga ao peso de uma sorte avessa.

Oh! meditemos na soidão da terra,
Nas vastas ribas deste imenso mar;
Ao som do vento, que sussurra triste,
Por entre os leques do gentil palmar.

O sol nas trevas se envolveu, – mistérios
Encerra a noite, – ela compr’ende a dor;
Talvez o manto, que estendeu no bosque,
Encubra um peito que gemeu de amor.

E o mar na praia como liso ondeia,
gemendo triste, sem furor – com mágoas…
Também meditas, oh! salgado pego –
Também partilhas desta vida as frágoas?…

E a branca lua a divagar no céu,
Como uma virgem nas soidões da terra;
Que doce encanto tem seu meigo aspecto,
E tanto enlevo sua tristeza encerra!

Sim, meditemos… quem gemeu no bosque,
Onde a florzinha a perfumar cativa?
Seria o vento? Ele passando ergueu
Do tronco a copa sobranceira, altiva.

Passou. E agora sufocando a custo
Meu peito o doce palpitar do amor,
Delícias bebe desterrando o susto,
Que a noite incute a semear pavor.

E um deleite inda melhor que a vida,
langor, quebranto, ou sofrimento ou dor;
Um quê de afetos meditando eu sinto,
Na erma noite, a me exaltar de amor.

Então a mente a divagar começa,
Criando afouta seu sonhado amor;
Zombando altiva de uma sorte avessa,
Que oprime a vida com fatal rigor.

E nessa hora a gotejar meu pranto,
Nas ermas ribas de saudoso mar,
Vagando a mente nesse doce encanto,
Dá vida ao ente, que criei p’ra amar.

E a doce imagem vaporosa, e bela,
Que a mente erguera, engrinaldou de amor,
Ergue-se vaga, melindrosa, e grata
Como fragrância de mimosa flor.

E o peito a envolve de extremoso afeto,
E dá-lhe a vida, que lhe dera Deus;
Ergue-lhe altares – lhe engrinalda a fronte,
Rende-lhe cultos, que só dera aos céus.

Colhe p’ra ela das roseiras belas,
Que aí cultiva – a mais singela flor:
E num suspiro vai depor-lhe as plantas,
Como oferenda – seu mimoso amor.

Mas, ah! somente a duração dum ai
Tem esse breve devanear da mente.
Volve-se a vida, que é só pranto, e dor,
E cessa o encanto do amoroso ente.

Fonte:
CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871.

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