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Fernando Pessoa e Antonio Manoel Abreu Sardenberg (O Amor)

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Ferdinando Fernandes (Caderno de Trovas)

A boa fada da sorte
Te pôs um dia a meu lado;
Dizendo que só a morte,
Faz este amor acabado.

A chorar vivi cantando
Cantando vivo a chorar,
Se eu a cantar vou chorando
A chorar quero cantar…

Alma de corpo franzino
Anjo ridente dos céus,
Sofres já de pequenino
Como sofrera teu Deus.

Andorinha que partiste
Pra terras de mais calor;
Leva minha alma triste,
Que anda à procura de amor.

Ao ver-te bailar contente
Com um filho no braçado,
Eu recordo docemente
Loucuras de ano passado…

Arranjei-te sem saber
Pensando a sorte encontrar;
Hoje mesmo sem te ver,
Fico cheio de te olhar.

A saudade é lenço branco
Que nos chama sem parar,
O sentimento mais franco
Que muito diz sem falar.

A sonhar juntos, Maria
Fizemos o arraial,
E nos folguedos do dia
Fizemos fogueira igual.

Caminhemos mão em mão
Fulcro de amor e alegria;
Só assim no coração,
Há Natal em cada dia!!

Cobrir crianças despidas
Tornar o mundo igual,
Cativar almas perdidas
Seria o meu ideal…

Conta lá os teus segredos
Loucuras… horas a fio;
A água sai dos rochedos,
E vai cantando até ao rio.

Cravos vermelhos à porta
Mangericos na sacada,
Mas se a fogueira está morta
Que vale a cinza apagada.

Criança, anjo sagrado
Sem rua sem lar nem pais,
Serve pro homem malvado
Em seus fins materiais.

De pequeno desconheço
Maldades que a vida tem;
Agora que a conheço,
Vivo nela com desdém.

Deves ouvir meu conselho
Quando te julgas um santo;
Olha-te bem ao espelho,
E depois despe o teu manto.

Dizes ser rico e nobre…
Esquece lá a fantasia,
Pois a fogueira do pobre
Dá mais calor e alegria.

Dizes te julgas perdida
Pra mim tens tanto valor,
Pois quem aquece outra vida
Tem que ter muito calor!

Em cada dia que passa
Mais vergonha tenho eu,
De ser fruto desta massa
Que em mim encarneceu.

É melhor comer o pão
Embora duro que seja,
Que ser na vida ladrão
E deitar fora o que sobeja.

Em quatro linhas ficou
Tantos sonhos e magias;
Que no teu peito moldou,
Aquilo que não sabias…

Esse beijo ainda gritante
Em quatro lábios ficado;
Ainda lembra constante,
As loucuras do passado…

Esta dor que atormenta
Este meu peito em saudade.
É choro que se lamenta
Dos tempos da mocidade…

Eu nascera só pra ti
Na vida que me foi dada!
Fogueira que eu revivi,
Com cinza quase apagada.

Eu vivi triste na vida
Destino que Deus me deu,
Foi de uma alma sentida
Que a alegria nasceu!

Foi nas urzes do caminho
Que eu vira o trevo feliz,
Não o quis, fiquei sozinho
A sorte só eu a fiz…

Fui à fonte para te ver
E quando lá te encontrei,
Depois de tanto beber
Com outra sede fiquei…

Fui primavera ridente
E hoje que não sou nada;
Sou pobre que ri contente,
Na vida que me foi dada.

Hoje estás abandonada
Só por loucuras de amor.
Mas a rosa por cheirada,
Nunca perde o seu valor!

Já basta o que tem por sina
A vida do pobrezinho…
O homem ainda lhe ensina
A ser trapo do caminho!

Lágrima caída no rosto
Dos teus olhos cor do mar;
Lembra a vida em sol posto,
Saudade sempre a chamar…

Mentiras que o outro diz
Não acredites amor;
Pois planta sem raíz,
Não alimenta a flor.

Meu amor de mim tem dó
Sou coração enjeitado…
Por fraca que seja a mó
Dá sempre o milho ralado.

Meu amor olha pra mim
Preciso do teu sorrir,
Como a rosa no jardim
Do sol para florir.

Morena que vais pra fonte
De cantarinha na mão;
Choras tristezas pelo monte,
Das saudades que lá vão.

Nada há que determine
Os traços que a vida tem;
Nem há sol que ilumine,
O negrume do desdém.

Na farsa da ilusão
Tudo anseias com fervor;
Podes comprar a razão
Mas não compras o amor.

Não dês esmola por vaidade
Inda que seja um vintém,
Podes ferir sem maldade
Aquele que nada tem…

Não escrevo para entreter
Mas escrevendo a dor acalma.
Nunca se pode esconder,
Tristezas que vem da alma.

Não me olhes descontente
Pelos meus loucos folguedos;
O rio corre contente,
Sem dar contas aos rochedos.

Não penses que não te amo
Porque te não presenteio,
Pois o amor é um ramo
Que vive no nosso meio.

Não posso gostar de alguém
Só porque gosta de mim.
A primavera não vem
Só porque existe um jardim.

Não procures viver só
Faz do pobre companheiro,
Pois que seria da mó
Se não tivesse o moleiro…

Não te julgues desgraçada
Se a má sorte te persegue;
Existe pior calçada,
Que aquela que agente segue.

Não venhas flores um dia
À minha campa depôr,
Pois tudo foi fantasia
Que me falava de Amor.

Nessa noite de ilusão
A dançar te conheci,
E ao sentir teu coração
Logo fogueira acendi.

Nesta dor feita alegria
Algo de estranho acontece,
Ante meus olhos é dia
Dentro em meu peito anoitece.

No altar desse teu peito
É minha prisão de amor,
É capelinha que enfeito
Com somente uma flor.

No choro do meu olhar
Há risos em gargalhadas;
É a saudade a mostrar,
As saudosas madrugadas.

No mundo vivi sonhando
E a sonhar envelheci,
E a sonhar vou ficando
Pequeno como nasci.

No parlamento da vida
É só mísera ilusão…
Depois da lista escolhida,
Ainda é maior o ladrão!

No parlamento da vida
Todos querem mandar mais…
Pois a seara perdida,
Faz tentar mais os pardais.

No teu regaço dormi…
Como em cama de jasmim
Foi no teu sonho que eu vi,
O quanto gostas de mim!

Nunca odeies meu amigo
Mesmo que tenhas razão;
Pois não é só o mendigo,
Que necessita de pão.

Nunca sonhei ilusões
Riquezas…luxos sem fim;
Pois os mais belos brasões,
São os teus olhos pra mim.

Nunca te esqueço meu bem
Como mais terna donzela.
Primavera vai e vem,
E a rosa espera por ela!

Nunca te julgues vencida
És um anjo aos olhos meus.
Mesmo uma filha perdida,
É sempre filha de Deus.

Ó belo trevo da sorte
Quem foi que te semeou?…
Talvez alma de má porte
E nunca mais te encontrou.

O choro que existe em mim
Nem sempre é feito de dor,
Nem sempre a vida tem fim
Quando acaba um grande amor.

O homem tanto promete
E nunca cumpre o que diz,
E dos erros que comete
Não quer ser ele o juiz.

Olhei pra ti com desejo
E com desejo fiquei;
Pois nesse rosto que vejo,
Está o sonho que sonhei.

Olhei-te de olhos fechados
De olhos abertos fiquei;
Nesses teus lábios rosados,
Ficou o que desejei.

Olho na vida o passante
Meu irmão de cada hora,
Meu companheiro errante
Ferido com a mesma espora.

O manjerico velhinho
Outra vez reverdeceu,
Mas está morto o teu carinho
Esse pra sempre morreu.

Ó meu amor, teu dançar
Tem graça tem alegria,
Pode a roda cheia estar
Mas sem ti está vazia.

O pobre que nada tem
Que na vida não tem norte,
Não dá contas a ninguém
Quando lhe chegar a morte.

O poeta é mensageiro
Na luta pela igualdade…
Luta sempre companheiro
Em abraço de amizade.

Ó rio de água serena
Que vais chorando pro mar;
Ao chorares a tua pena,
Chora também meu penar.

O trevo nasce no prado
Sem ninguém o semear,
A sorte não é mercado
Que se consiga comprar.

Porque nasci afinal…
Neste monturo sem vida,
Só vi choros, só vi mal
Só vi peitos sem guarida.

Por ti chorei, e afinal
Meu pranto nada valeu,
Que importa um amor leal
Se outro amor nunca nasceu.

Possuir a felicidade
É um sonho tão profundo…
Que até penso com saudade
Que não existe no mundo.

Primavera é sempre igual
Todos anos traz flores,
Mas a vida tem final
Leva consigo os amores.

Proibir a mendicidade…
Faz o homem sem pensar,
Mas não proíbe a caridade
Nem a vontade de dar.

Prometes-te e não cumpris-te
Sofre alguém esse teu porte;
O coração que feris-te,
Te pede contas na morte.

Quando eu um dia me for…
Não me chores, minha querida;
Pois quem morre por amor
Fica sempre nesta vida!

Quem me dera ser a lua
Num vaivém sempre a rodar,
Iluminar tua rua…
E no teu quarto espreitar.

Quero levar a saudade
Quando desta vida for…
É sonho da mocidade
Que sempre falou de amor.

Repara bem ao dançares
Que não te calquem os pés,
E se de par tu trocares
Podem te dar pontapés.

Risonhos dias vivi
Na vida que me foi dada,
Mas hoje já tudo esqueci
Desse sonho que foi nada.

Rosa branca que venero
Neste jardim de saudade;
És o amor mais sincero,
Que ficou da mocidade.

Se a desgraça fosse pão
Que a todos fome mata-se,
Eu não teria um irmão
Que na vida mendigasse.

Se a fogueira se apagou
Não te importes meu amor,
Outro fogo começou
Que dá muito mais calor.

Se a lei tudo castiga
Eu não sei porque razão…
Ou tudo é canto ou cantiga
Pra todos comer o pão.

Se algo sofri não sei quanto
E não sei quando nasci…
Pois tudo hoje é só pranto
Da mentira em que vivi.

Se a saudade é letra morta
Não o posso afirmar…
Só sei que me bate à porta
Mesmo sem eu a chamar!

Se a sorte nasce no prado
Sem ninguém a semear;
Triste sina este meu fado
Não consigo encontrar.

Se na vida não fui nada
Nada me deram pra ser,
Nasci de uma vida errada
Culpa teve o meu nascer.

Se o Sol tudo aquece
Só o comparo então;
Ao amor que se merece,
E aquece o coração.

Ser bem pobre e não ter nada
É dom que Deus nos legou;
Quando a vida terminada,
Vai cantar o que chorou.

Sonhando pela vida afora
Saudades feitas por mim…
Mas só me apercebo agora
Que este sonho está no fim.

Sonhei contigo, e a sonhar
Corri distâncias sem fim…
Pois só sei que ao acordar,
Estavas pertinho de mim.

Sou filho que por desgraça
Nada tenho pra comer,
Se ás vezes riu por graça
Sou hipócrita sem querer.

Tempo que passa é saudade
De algo que fica chorando.
São sonhos da mocidade
Que ficam por nós chamando.

Tudo lembro com saudade
Dos tempos que já lá vão,
Mas só vejo a bondade
Distante do coração.

Tu me deste a luz da alma
De um sonho quase acabado;
Hoje te oferto a vida calma,
Que abraçamos lado a lado.

Um português a cantar
Faz de uma trova canção,
Depois do verde provar
Canta por uma Nação.

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Lídia Serras Pereira

Elvira Lídia Valente Correia Serras Pereira, nasceu em Algôz, no Algarve, Portugal, em Janeiro de 1903. Está ligada ao Sardoal através do casamento com o prestigiado escritor e filósofo António Serras Pereira, natural desta vila. Casaram em 1931, após se terem conhecido num baile da faculdade. Tiveram uma única filha, Maria Helena, já falecida.

Lídia foi homenageada, a título  póstumo, pela Junta de Freguesia de Silves, pela sua actividade cultural, artística e de colaboradora em programas infantis em rádios nacionais. Enquanto residiu entre nós foi uma grande militante associativista, integrando os grupos cénicos que se constituíam para apresentação de récitas.

Em conjunto com Gregório Cascalheira foi autora de muitos textos e versos desses espectáculos.

De Lídia Serras Pereira existem as seguintes obras publicadas:

“Bicharada Endiabrada” (contos infantis em verso – 1941),
“O Pinto Pintalegrete” (contos infantis em prosa – 1944),
“A Bravata de D. Barata” (1945) e
“A Burrinha Toleirona” (1947),
todos da Clássica Editora, de Lisboa.

Quanto a outros géneros, escreveu o romance regional

“Como Nasce um Romance”, editado pela Empresa Literária Fluminense (1944).

Após o seu falecimento, a família publicou as duas obras a título póstumo, “Sonetos” (1964) e “Quadras Soltas” (1965).

“O Século”, um jornal diário já extinto, disse em 1964 que o volume “Sonetos”, de Lídia Serras Pereira reúne “uma admirável série de poesia”. Apesar do livro ser publicado alguns meses depois da morte da autora, precisamente em 1964, o periódico escreve: “a poetisa mostra-nos, em todos os seus versos, uma inspiração rica e uma delicada sensibilidade. Os sonetos são todos perfeitos, de uma fluência encantadora, e difícil se torna dizer qual é a composição melhor e a mais linda. As imagens são belas, e no classicismo de forma encontramos outro motivo para apontar o livro como uma das melhores obras poéticas publicadas nestes últimos tempos. Os modernismos, os versos sem rima, deformados e sem regras, não tocaram, felizmente, a autora.”

Fonte:
Boletim de Informação e Cultura da Câmara Municipal de Sardoal . Bimestral – N.º 58 – Ano 10 – Maio/Junho de 2009.

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Alexandre O`Neill (Poesias Avulsas)

Albertina

“Albertina” ou “O inseto-insulto” ou “O quotidiano recebido como mosca”

O poeta está só, completamente só.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstração, alguns minutos
Do nariz para o chão
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta é todo cotovelos
E espera um minuto de beleza.
Mas o poeta é aos novelos;
Mas o poeta já não tem a certeza
De segurar a musa, aquela
que tantas vezes, arrastou pelos cabelos…
A mosca Albertina, que ele domesticava,
Vem agora ao papel, como um inseto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava …

Quase mulher e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica, mosca-mulher, por ali…

– Albertina!, deixa-me em paz, consente
Que eu falhe neste papel tão branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que está!

– Albertina! eu quero um verso que não há!…

Conjugal, provocante, moreno e azulado,
O inseto levanta, revoluteia, desce
E, em lugar do verso que não aparece,
No papel se demora como um insulto alado.

E o poeta sai de chôfre, por uns tempos desalmado …

O Beijo

Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escaracéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (não é meu…)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar…

Cão

Cão passageiro, cão estrito,
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara-lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado,
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
De remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, cão tétrico, maldito,
A desfazer-se num ganido,
A refazer-se num latido,
Cão disparado: cão aqui,
Cão além, e sempre cão.
Cão amarrado, preso a um fio de cheiro,
Cão a esburgar o osso
Essencial do dia a dia,
Cão estouvado de alegria,
Cão formal de poesia,
Cão-sonêto de ão-ão bem martelado,
Cão moldo de pancada
E condoído do dono,
Cão: esfera do sono,
Cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
Cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
Cão de olhos que afligem,
Cão-problema…
Sai depressa, ó cão, deste poema!

A central das frases

… já te disse que são os do primeiro…
… e afinal não pudémos telefonar…
… ai nem queira saber o engenheiro…
… se me dão licença eu vou contar…

… penses nisso era só o que faltava…
… não as outras duas é que são as tais…
… mas o senhor presidente autorizava…
… na avenida centenas de pardais…

… de facto muito inteligente…
… ó filha por aqui fazes favor…
… que veio ontem para falar com a gente…
… é mesmo lá ao fim do corredor…

Fala

Fala a sério e fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
Falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala francês fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
Desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
Fala com elegância – muito e devagar.

Inventário

Um dente d’ouro a rir dos panfletos
Um marido afinal ignorante
Dois corvos mesmo muito pretos
Um polícia que diz que garante

A costureira muito desgraçada
Uma máquina infernal de fazer fumo
Um professor que não sabe quase nada
Um colossalmente bom aluno

Um revolver já desiludido
Uma criança doida de alegria
Um imenso tempo perdido
Um adepto da simetria

Um conde que cora ao ser condecorado
Um homem que ri de tristeza
Um amante perdido encontrado
Um gafanhoto chamado surpresa

O desertor cantando no coreto
Um malandrão que vem pe-ante-pé
Um senhor vestidíssimo de preto
Um organista que perde a fé

Um sujeito enganando os amorosos
Um cachimbo cantando a marselhesa
Dois detidos de fato perigosos
Um instantinho de beleza

Um octogenário divertido
Um menino colecionando estampas
Um congressista que diz Eu não prossigo
Uma velha que morre a páginas tantas

Poema pouco original do medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos

Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensangüentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Velha fábula em bossa nova

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(- Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe…)

Fonte:

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Alexandre O’Neill (1924 – 1986)

Alexandre Manuel Vahía de Castro O’Neill de Bulhões GOSE (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 – Lisboa, 21 de Agosto de 1986) foi um importante poeta do movimento surrealista português. Era descendente de irlandeses.

Em 1943, com dezessete anos, publicou os primeiros versos num jornal de Amarante, o Flor do Tâmega. Apesar de ter recebido prêmios literários no Colégio Valsassina, esta actividade não foi grandemente incentivada pela família.1

Datam do ano de 1947 duas cartas de Alexandre O’Neill que demonstram o seu interesse pelo surrealismo, dizendo numa delas (de Outubro) possuir já os manifestos de Breton e a Histoire du Surrealisme de M. Nadeau. Nesse mesmo ano, O’Neill, Mário Cesariny e Mário Domingues começam a fazer experiências a nível da linguagem, na linha do surrealismo, sobretudo com os seus Cadáveres Esquisitos e Diálogos Automáticos, que conduziam ao desmembramento do sentido lógico dos textos e à pluralidade de sentidos.

Por volta de 1948, fundou o Grupo Surrealista de Lisboa com Mário Cesariny, José-Augusto França, António Domingues, Fernando Azevedo, Moniz Pereira, António Pedro e Vespeira. As primeiras reuniões ocorreram na Pastelaria Mexicana. As posições antineorealistas eram frontais e provocatórias, tal como as atitudes contra o regime: em Abril, o Grupo retira a sua colaboração da III Exposição Geral de Artes Plásticas, por recusar a censura prévia que a comissão organizadora decidira impor. Com a saída de Cesariny, em Agosto de 1948, o grupo cindiu-se em dois, dando origem ao Grupo Surrealista Dissidente (que integrou, além do próprio Cesariny, personalidades como António Maria Lisboa e Pedro Oom).

Em 1949, tiveram lugar as principais manifestações do movimento surrealista em Portugal, como a Exposição do Grupo Surrealista de Lisboa (em Janeiro), onde expuseram Alexandre O’Neill, António Dacosta, António Pedro, Fernando de Azevedo, João Moniz Pereira, José-Augusto França e Vespeira. Nessa ocasião, Alexandre O’Neill publicou A Ampola Miraculosa como um dos primeiros números dos Cadernos Surrealistas. A obra, constituída por 15 imagens e respectivas legendas, sem nenhum nexo lógico entre a imagem e legenda, poderá ser considerada paradigmática do surrealismo português.

Depois de uma fase de ataques pessoais entre os dois grupos surrealistas (1950-52) e a extinção de ambos os grupos, o surrealismo continuou a manifestar-se na produção individual de alguns autores, incluindo o próprio Alexandre O’Neill. Em 1951, no “Pequeno Aviso do Autor ao Leitor”, inserido em Tempo de Fantasmas, ele demarcou-se como surrealista. Nessa mesma obra, sobretudo na primeira parte, Exercícios de Estilo (1947-49), a influência deste corrente manifesta-se em poemas como “Diálogos Falhados”, “Inventário” ou “A Central das Frases” e na insistência em motivos comuns a muitos poetas surrealistas, como a bicicleta e a máquina de costura.

Neste primeiro livro de poesia inclui o poema que o tornou célebre, “Um Adeus Português”, originado num episódio biográfico que o próprio viria a contar, muitos anos mais tarde: no início de 1950, estivera em Lisboa Nora Mitrani, enviada do Surrealismo francês para fazer uma conferência. Conheceu O’Neill e apaixonaram-se. Meses mais tarde, querendo juntar-se-lhe em Paris, O’Neill foi chamado à PIDE e interrogado. Por pressão de uma pessoa da família, foi-lhe negado o passaporte. Coagido a ficar em Portugal, não voltaria a ver Nora Mitrani.

Não foi, de resto, a única vez que Alexandre O’Neill foi confrontado com a polícia política. Em 1953, esteve preso vinte e um dias no Estabelecimento Prisional de Caxias, por ter ido esperar Maria Lamas, regressada do Congresso Mundial da Paz em Viena. A partir desta data, passou a ser vigiado pela PIDE. No entanto, sendo um oposicionista, não militou em nenhum partido político, nem durante o Estado Novo, nem a seguir ao 25 de Abril – conhece-se-lhe uma breve ligação ao MUD juvenil, na altura em que abandona o Grupo Surrealista de Lisboa. A partir desta época, O’Neill foi-se distanciando de grupos ou tertúlias, demasiado irônico e cioso do seu individualismo para se envolver seriamente em qualquer militância partidária.

Em 1958, com a edição de No Reino da Dinamarca, Alexandre O’Neill viu-se reconhecido como poeta. Na década de 1960, provavelmente a mais produtiva literariamente, foi publicando livros de poesia, antologias de outros poetas e traduções.

A poesia de Alexandre O’Neill concilia uma atitude de vanguarda, (surrealismo e experiências próximas do concretismo) — que se manifesta no caráter lúdico do seu jogo com as palavras, no seu bestiário, que evidencia o lado surreal do real, ou nos típicos «inventários» surrealistas — com a influência da tradição literária (de autores como Nicolau Tolentino e o abade de Jazente, por exemplo).

Os seus textos caracterizam-se por uma intensa sátira a Portugal e aos portugueses, destruindo a imagem de um proletariado heróico criada pelo neorealismo, a que contrapõe a vida mesquinha, a dor do quotidiano, vista no entanto sem dramatismos, ironicamente, numa alternância entre a constatação do absurdo da vida e o humor como única forma de se lhe opor.

Temas como a solidão, o amor, o sonho, a passagem do tempo ou a morte, conduzem ao medo (veja-se “O Poema Pouco Original do Medo”, com a sua figuração simbólica do rato) e/ou à revolta, de que o homem só poderá libertar-se através do humor, contrabalançado por vezes por um tom discretamente sentimental, revelador de um certo desespero perante o marasmo do país — “meu remorso, meu remorso de todos nós”. Este humor é, muitas vezes, manifestado numa linguagem que parodia discursos estereotipados, como os discursos oficiais ou publicitários, ou que reflecte a própria organização social, pela integração nela operada do calão, da gíria, de lugares-comuns pequeno-burgueses, de onomatopeias ou de neologismos inventados pelo autor.

Alexandre O’Neill, apesar de nunca ter sido um escritor profissional, viveu sempre da sua escrita ou de trabalhos relacionados com livros. Em 1946, tornou-se escriturário, na Caixa de Previdência dos Profissionais do Comércio. Permaneceu neste emprego até 1952. A partir de 1957, começou a escrever para os jornais, primeiro esporadicamente, depois, nas décadas seguintes, assinando colunas regulares no Diário de Lisboa, n’ A Capital e, nos anos 1980, no Jornal de Letras, escrevendo indiferentemente prosa e poesia, que reeditava mais tarde em livro, à maneira dos folhetinistas do século XIX.

Em 1959 iniciou-se como redator de publicidade, atividade que se tornaria definitivamente o seu ganha-pão. Ficaram famosos no meio alguns slogans publicitários da sua autoria, e um houve que se converteu em provérbio: “Há mar e mar, há ir e voltar”. Tinha entretanto abandonado definitivamente a casa dos pais, casando com Noémia Delgado, de quem teve um filho, Alexandre. Nesta época, instalou-se no Príncipe Real, bairro lisboeta onde haveria de decorrer grande parte da sua vida, e que levaria para a sua escrita. Neste bairro, encontraria Pamela Ineichen, com quem manteve uma relação amorosa durante a década de 1960. Mais tarde, em 1971, casará com Teresa Gouveia, mãe do seu segundo filho, Afonso, nascido em 1976.4

Fez ainda parte da redação da revista Almanaque (1959-61), publicação arrojada com grafismo de Sebastião Rodrigues onde colaboravam, entre outros, José Cardoso Pires, Luís de Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e João Abel Manta.

A sua atração por outros meios de comunicação, que não a palavra escrita, é testemunhada pela letra do fado “Gaivota” destinada à voz de Amália, com música de Alain Oulman, tal como a colaboração, nos anos 1970, em programas televisivos (fora, aliás, crítico de televisão sob o pseudônimo de A. Jazente), ou em guiões de filmes e em peças de teatro. Em 1982 recebeu o prêmio da Associação de Críticos Literários.

Mas a doença começava a atormentá-lo. Em 1976, sofre um ataque cardíaco, que o poeta admitiu dever-se à vida desregrada que sempre tinha sido a sua, e que, apesar de algum esforço em contrário, continuou a ser. No início dos anos 1980, já divorciado de Teresa Gouveia, repartia o seu tempo entre a casa da Rua da Escola Politécnica e a vila de Constância. Em 1984, sofreu um acidente vascular cerebral, antecipatório daquele que, em Abril de 1986, o levaria ao internamento prolongado no hospital. Morreu em Lisboa a 21 de Agosto desse ano. A 10 de Junho de 1990 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada a título póstumo.

Obras

Poesia

    1948 – A Ampola Miraculosa, Lisboa, Cadernos Surrealistas.
    1951 – Tempo de Fantasmas, Cadernos de Poesia, nº11.
    1958 – No Reino da Dinamarca, Lisboa, Guimarães.
    1960 – Abandono Vigiado, Lisboa, Guimarães.
    1962 – Poemas com Endereço, Lisboa, Moraes.
    1965 – Feira Cabisbaixa, Lisboa, Ulisseia.
    1969 – De Ombro na Ombreira, Lisboa, Dom Quixote.
    1972 – Entre a Cortina e a Vidraça, Lisboa, Estúdios Cor.
    1979 – A Saca de Orelhas, Lisboa, Sá da Costa.
    1981 – As Horas Já de Números Vestidas (Em Poesias Completas (1951-1981))
    1983 – Dezanove Poemas (Em Poesias Completas (1951-1983))

Antologias feitas na vida

    1967 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1965), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
    1974 – No Reino da Dinamarca – Obra Poética (1951-1969), 3.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Guimarães.
    1981 – Poesias Completas (1951-1981), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982.
    1983 – Poesias Completas (1951-1983), 2.ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984.
    1986 – O Princípio de Utopia, O Princípio de Realidade seguidos de Ana Brites, Balada tão ao Gosto Popular Potuguês & Vários Outros Poemas, Lisboa, Moraes.

Antologias póstumas

    2000 – Poesias Completas, com inclusão de dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.
    2005 – anos 1970. Poemas Dispersos, Lisboa, Assírio & Alvim.

Prosa

    1970 – As Andorinhas não Têm Restaurante, Lisboa, Dom Quixote.
    1980 – Uma Coisa em Forma de Assim, 2ª edição, revista e aumentada, Lisboa, Presença.

Antologias feitas por O’Neill

1959 – Gomes Leal – Antologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
    1962 – Teixeira de Pascoaes – Antologia Poética (em colaboração com F. da Cunha Leão), Lisboa, Guimarães.
    1962 – Carl Sandburg – Antologia Poética, Lisboa, Edições Tempo.
    1963 – João Cabral de Melo Neto – Poemas Escolhidos, Lisboa, Portugália.
    1969 – Vinicius de Moraes – O Poeta Apresenta o Poeta, Lisboa, D. Quixote.
    1977 – Poesía Portuguesa Contemporánea / Poesia Portuguesa Contemporânea (em colaboração com a Secção de Literatura da Direcção Geral de Acção Cultural), edição bilingue, Lisboa, Secretaria de Estado da Cultura.

Discos de poesia

Alexandre O’Neill diz poemas da sua autoria – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1010.
    Os Bichos também são gente – colecção «A Voz e o Texto», Discos Decca, PEP 1278.

Filmografia

    1962 – Dom Roberto
    1963 – Pássaros de Asas Cortadas
    1967 – Sete Balas Para Selma
    1969 – Águas Vivas
    1970 – A Grande Roda
    1975 – Schweik na Segunda Guerra Mundial (TV)
    1976 – Cantigamente (3 episódios da série)
    1978 – Nós por cá Todos Bem
    1979 – Ninguém (TV)
    1979 – Lisboa (TV)

Ator (Narrador)

    1933 – Las Hurdes, tierra sin pan
    1969 – Águas Vivas
    1971 – Sever do Vouga. Uma Experiência
    1976 – Máscaras

Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_O%27Neill

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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Comédia Teatral – Parte 1

Como era habitual às quintas-feiras, em casa do Sr. Coronel Ramalho (grande herói das campanhas do tempo em que os ventos lutavam contra os moinhos),reunia-se um grupo de amigos para um animado e silencioso serão a jogar às cartas.

O salão onde esses serões se realizavam era amplo, tendo ao centro uma mesa rectangular, e em sua volta, seis cadeiras também do estilo Luís XV, assim como o aparador e a cristaleira que a ladeavam. No tecto, um lustre de metal e vidro, do mesmo modelo dos quatro apliques situados em paredes diferentes, assim como várias molduras com fotografias de familiares, destacando-se entre elas, uma enorme fotografia do austero pai do Sr. Coronel Ramalho, conhecido na época como comerciante de vinhos a granel, com os seus grandes e torcidos bigodes, situada em frente onde habitualmente a Dona Augusta, a esposa do Sr. Coronel Ramalho, fazia a sua renda (ou malha), junto a uma das duas janelas do salão. Ao fundo colocado ao meio da parede, situava-se um enorme e barulhento relógio que marcava até os quartos de hora, ficando por baixo uma vitrina onde o Sr. Coronel conservava orgulhosamente as suas condecorações e algumas armas antigas, algumas das quais das guerra napoleónicas.

Este salão tinha três portas: uma com acesso às escadas que, descendo, davam para a rua; subindo, davam para o sótão onde a criada tinha o seu quarto, junto à sua casa de banho e despensa da casa; outra porta dava para um corredor que ligava à cozinha; e uma terceira para o quarto do casal.

Os convidados para o serão desse dia (que por sinal eram sempre os mesmos), ou seja, o Sr. Capitão Ribeiro, o Sr. Alferes Marques e o Sr. Sargento Humberto, ainda não tinham chegado.

Mais tarde apareceram dois encapuzados, completamente desconhecidos, nem se chegando a saber de onde vieram…

Entretanto, a criada, a Carmo (uma jovem lisboeta que dizia ter vinte cinco anos) aproximou- se da patroa, de nome Augusta…

Carmo: Minha senhora, por favor… Dona Augusta, dá-me licença?

Augusta: Levantando os olhos de um bordado que estava a fazer, por fim, respondeu para a criada: Entra, entra Carmo. Diz lá o que queres?

Carmo: Minha Senhora, tenho de ir ao supermercado fazer umas compras, pois, são quase vinte horas e depois eles fecham. A senhora quer que pague a dinheiro?

Augusta: Ai não!… pois… não tenho dinheiro trocado… Eles que assentem na minha conta, que depois pago. Mas, Carmo, não te demores, e não te esqueças que hoje é quinta-feira, e os convidados não tardam aí a chegar…

Carmo: Eu não vou demorar mesmo nada, Dona Augusta, fique tranquila.

Augusta: Então vai lá, pequena…

Pouco depois da criada ter saído, toca a campainha da porta…

Augusta: Quem será que está a tocar à porta? A Carmo não deve ser. Só se esqueceu alguma coisa…

A campainha volta a tocar, desta vez mais prolongadamente…

Augusta: – Não toque mais, pois eu vou já abrir…

Ao abrir a porta, a Dona Augusta teve uma grande surpresa, pois à sua frente estavam três homens encapuçados.

Augusta: Mas…mas quem são os senhores, o que me querem? Por favor não me empurrem, estou em minha casa. Não me empurrem…!

1º Encapuzado – Mulher, está caladinha, senão… olha esta faca. Deixa-nos passar e senta-te aí nessa cadeira, sossegadinha…

2º Encapuzado – Raio da mulher não está quieta. Rápido, amigo, amarra depressa esta “fera” aí a essa cadeira…

Augusta: Ah, mas quem são os senhores?!…

2º Encapuzado – Está quieta e cala-te! Tem muita calma, pois só queremos falar um pouco contigo. Está sossegada, mulher… Tem juizinho nessa cabeça, senão…

1º Encapuzado – Já te dissemos para estares quieta e deixares de chorar! Nós só queremos falar contigo… Olha que é um assunto que te interessa muito…

Augusta: Eu vou estar quietinha, mas por favor não me empurrem, nem me agarrem… Por favor…

2º Encapuzado – E ela não se cala nem está sossegada, hei… Ó mulher, ainda te mato. Ouviste bem? Ainda te mato!

Augusta: – Mas quem são vocês? Por favor, digam-me… O que é vocês querem de mim?!…

1º Encapuzado – Assim está bem. Continua calminha, pois, só queremos mostrar-te umas fotografiazinhas que temos aqui…

2º Encapuzado – E são fotografias de uma pessoa que tu deves conhecer muito bem… Vá lá, não vires a cara para o lado… Não te armes em pudica! Olha! Olha!…

1º Encapuzado – Abre, abre, não feches os olhinhos… Vê, vê… Por acaso, não conheces esta mulher que está toda nua… Deitada na cama com este homem?!… Não me digas que a não conheces? Vá lá, faz um esforçozinho de memória!…

Augusta: Mas… Mas eu não conheço essa mulher… juro por tudo que não a conheço ! Juro que a não conheço, mas larguem-me, larguem-me…

2º Encapuzado – Não nos tentes enganar, pois esta mulher é mesmo tu – tu, ouviste bem? Ou será que não te conheces a ti própria?!…

1º Encapuzado – Não te faças de tolinha, pois connosco, isso não pega – espertinha!

2º Encapuzado – Ó mulher, deixa-te de tretas, pois é melhor entrares em acordo connosco. Pensa bem e rapidamente, e não queiras fazer nenhuma asneira…

Augusta: Mas eu já vos disse que esta mulher que está nesta fotografia toda nua, não sou eu!… Volto a jurar por tudo, que não sou eu que, está aí toda nua!

2º Encapuzado – Ah, ah… És tu, és, não me consegues enganar, e por favor não me faças perder a paciência. Senão, daqui a pouco corto-te o pescoço… Assim…!!!

1º Encapuzado – Tem calma, amigo, pois deves ter uma certa paciência com esta mulher… E tu aí, mulher, para não ficares com o teu pescocinho cortado, é melhor resolveres entrares em acordo connosco. Senão, como deves calcular, o teu maridinho, o Sr. Coronel, vai saber tudo, tim-tim por tim-tim!!!…

2º Encapuzado – Como já deves calcular, a nós, não nos custa nada… Mas mesmo nada, fazer isso! Amigo, talvez seja melhor mostrar-lhe novamente as fotografias…

Augusta: Eu não sei como é que vos hei-de fazer crer que esta mulher que está aqui, nesta fotografia, não sou eu!!! Juro que não sou eu! Só se for… Só se for… A minha irmã – gémea, que se chama Liza. Já há muitos anos que a não vejo. Só se for ela.

2º Encapuzado – Já te disse que não venhas com essa mentira! És tu, tu, e só tu – e está tudo dito !!! Percebeste?

Augusta: Ai que vida a minha! Já vi que não adianta discutir com vocês… Mas, finalmente, o que é que vocês querem de mim? Mais uma vez vos digo que não sou eu…

1º Encapuzado – Já te disse para estares quieta e cala-te… Como já vimos que és boa mulher, vamos fazer umas continhas, e assim, por estas fotografias… sim, por estas fotografias só te vamos levar…

2º Encapuzado – Digamos… Dez mil e quinhentos euros!

1º Encapuzado – Como vês, é uma verdadeira pechincha: só dez mil e quinhentos euros. Até devia ser mais qualquer coisinha…

Augusta: Mas o que é que vocês estão p’ra aí a dizer? Dez mil e quinhentos euros, é pouco dinheiro? Olhem que eu nunca tive tanto dinheiro junto e em meu poder! Vocês são uns escroques, uns chantagistas…

2º Encapuzado – Toma mas é cuidadinho com essa língua, pois senão já sabes que te corto o teu lindo pescoço.

Augusta: Ai credo, homem!… Que aflição… Tire-me essa faca daqui do meu pescoço!… Ai o meu coração…

1º Encapuzado – Não te enerves, mulher, olha o teu coração… Nós não desejamos que você morra, antes de nos dar o dinheiro…

Augusta: Ai, o meu pobre coração até parece que vai rebentar!… Ai…

1º Encapuzado – Deixa lá o coração e vamos lá ao que mais interessa: tens ou não os dez mil e quinhentos euros? Se não tens, vai ao cofre do teu marido, o Sr. Coronel, pois ele deve ter lá muito dinheiro…

Augusta: Mas não é possível, pois eu nunca roubei nada a ninguém, e muito menos ao meu marido. Vocês estão doidos…

2º Encapuzado – Não me venhas cá com esses argumentos, pois para nós não pega. Vai depressa ao cofre e traz rapidamente o dinheiro. Vá lá, rápido!…

1º Encapuzado – E para tua orientação, enquanto não nos entregares o dinheiro, ficaremos cá em casa a fazer distúrbios. E tu nem calculas os distúrbios que somos capazes de fazer…

Augusta: O que vocês estão p’ra aí a dizer? Que ficam cá em casa? Mas onde?…

1º Encapuzado – Onde não interessa. Mas podes ter a certeza que ficaremos cá até recebermos a massinha toda. Não faças essa cara de espantada e nem tentes brincar connosco…

2º Encapuzado – E toma bem atenção: se por acaso tentares denunciar-nos, já sabes o que te vai acontecer: pescoço fora!

Neste momento toca novamente a campainha da porta …

1º Encapuzado – Amigo, espreita aí pelo óculo da porta… O que é que vês?

2º Encapuzado – É a criada. Olha que a «mamífera» tem cá um “cabedal” de género avião… Ai que bom… bonzinho… Ai… Que gatinha! Estou a ficar cheio de comichões…

1º Encapuzado – Deixa-te de parvoíces. Vamos esconder-nos atrás daquele sofá… Rápido e sem barulho. Cuidado não tropeces nesse fio… Esconde-te… Rapidamente…

2º Encapuzado – E tu aí “menina”… Olha para aqui para mim… Assim… Se não colaborares connosco, já sabes o que te acontece aos teu lindo pescoço… Olha que não somos para brincadeiras…

1º Encapuzado – E toma atenção: diz à criada que faça qualquer coisa que se coma, pois estamos esfomeados! Ela que faça um bom petisco para nós… Não te esqueças!

2º Encapuzado – Agora “menina”, vai lá abrir a porta, mas com juizinho…
Augusta: É inacreditável o que me está a acontecer… Eu nem quero acreditar!… Deve ser um sonho mau…

Falando um pouco mais alto, prepara-se para abrir a porta…

Augusta: Quem é?… Quem é que está aí a bater à portaaa?…

Carmo: Sou eu, minha senhora, a Carmo.

Augusta: Até que enfim que chegaste! Sempre que vais fazer compras, até parece que levas uma cadeirinha atras de ti… Deves dar um grande desgaste à tua língua ao falares tanto com as vizinhas…

Carmo: Mas, a senhora deve de estar enganada, pois desta vez quase que não me demorei nada. Fui num pé e vim noutro.

Augusta: Olha que não me parece. A mim, pareceu que demoraste quase uma eternidade. Olha, vai para a cozinha e prepara… Deixa cá ver…talvez uns pastelitos de bacalhau e, bem fritinhos…

Carmo: Pastéis de bacalhau a esta hora?…

Augusta: Não compreendo a tua observação, pois, a qualquer hora, podemos ter vontade de comer pastéis de bacalhau!

Carmo: A senhora é que manda. Vou já preparar meia dúzia de pastéis…

Augusta: Só meia dúzia?! São poucos! Nem calculas a fome que eu tenho. Prepara pelo menos uma dúzia e meia ou mesmo duas dúzias, de pastelinhos e bem fritinhos, não te esqueças.

Carmo: Não sabia que a senhora tinha deixado de fazer dieta para o tal regime de emagrecimento, que tanto falava! Isto de ser criada, tem muito que se lhe diga!

Quando a criada já se encontrava na cozinha, toca novamente a campainha da porta.

Augusta: Carmo, vai abrir a porta; ainda não ouviste a campainha?
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continua…

Fonte:
O Autor

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) IX

foi mantida a grafia original.
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À HORA DO SILÊNCIO

Eu quis ontem sonhar, sentir como um romântico
A doce embriaguez do pálido luar,
Ouvindo em pleno azul passar o imenso cântico
Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!

A cidade dormia o sono dos devassos;
Aquele sono turvo, infecto e sensual:
E a lua, antiga fada, erguia nos espaços
Tranquila e sempre ingénua a fronte de vestal!

E sobre a quietação das coisas vis e exóticas
Sentiam-se as febris, cruéis respirações,
Dos tristes hospitais e das virgens cloróticas,
Dos amantes fatais da febre e das paixões!

A noite era em silêncio, a atmosfera doce
E ria a natureza aos beijos dum bom Deus.
De súbito escutei, ao longe, o quer que fosse
Dum canto que supus então baixar dos céus!

Atento ao vago som, porém, a pouco e pouco
Senti que era uma voz disforme e sensual,
Soltando uma canção naquele acento rouco
Da triste inspiração alcoólica e brutal! …

O terna vagabunda, enamorada lua!
Enquanto ias assim, diáfana e sem véu,
Uma triste mulher passava, então, na rua
Cuspindo uma porção de infâmias para o céu!

Eu quisera depois das lutas acabadas,
Na paz dos vegetais adormecer um dia
E nunca mais volver da santa letargia,
Meu corpo dando em pasto às plantas delicadas!

Seria belo ouvir nas moutas perfumadas,
Enquanto a mesma seiva em mim também corria,
As sãs vegetações, em intima harmonia,
Aos troncos enlaçando as lívidas ossadas!

Ó beleza fatal que há tanto tempo gabo:
Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo,
— gentil metamorfose em que nesta hora penso; –

Tu, felina mulher com garras de veludo
Havias de trazer meu espírito, contudo,
Envolto muita vez nas dobras do teu lenço!

O VELHO CÃO

Soltava ontem já tarde um velho cão felpudo
Uns doloridos ais,
Em frente dum palácio altivo, belo e mudo,
Cerrado aos vendavais.

Fazia pena ouvi-lo, o mísero molosso
Em seu triste chorar!
Era quase uma sombra: apenas pele e osso
E um vago, um doce olhar!…

Eis a sorte cruel do pobre que não come,
Dos míseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vai tragando a Fome,
A negra aparição!

Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quase voraz!
E o pobre não sabia, enfim, que há muita gente
Que adora a santa paz.

Ora perto vivia uma galante rosa,
Etérea, virginal,
Que tinha um lindo colo, amava, era nervosa
E a quem fazia mal,

Aquele uivar sinistro; a ponto de em desmaios
Pender a fronte ao chão!
Saíram pois à rua impávidos lacaios
E foram dar no cão.

— Há no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
— o povo sofredor,
Que às vezes vai ganir, com fome, o seu bocado
Às portas dum senhor.

O resto é velha história: ocioso é já dizer-vos
O fim que ela há de ter.
A Ordem, só de ouvi-lo, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!

AS VELHITAS

Eu não professo muito o culto das ruínas.
Prefiro uma oficina às velhas barbacãs;
Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,
No entanto nunca insulto as prateadas cãs.

Deixá-las caminhar, curvadas, vagarosas,
Com seu bento rosário, os seus fofos beitões,
A rirem-se de nós, cruéis, maliciosas,
Sagazes comentando as nossas ilusões!

Ah, velhitas sem cor! Cabeças regeladas,
Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:
Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;
Prendestes vossos pés nos húmidos rosais;

Tivestes já no olhar os bons reflexos mágicos
Dos lagos ideais cobertos de luar;
As curvas sensuais, os belos dedos trágicos;
As rosas más do inferno, os lírios bons do altar!

Prendestes já cismando as frontes melancólicas
Nas varandas à noite, amantes dos Titãs
Do belo amor antigo! Ó Márcias das bucólicas!
E agora apenas sois as mães de nossas mães!

Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
As belas da cidade, anémicas, gentis,
Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
Dos provectos chapéus, das galas que vestis!

Oh! Mostrando os troféus das vossas velhas rosas,
Dizei-lhes, a sorrir, das fúteis ilusões,
Que fostes já, também, galantes e nervosas
Mas destes isso tudo a vários corações!

Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
Sentidos contra nós; queixumes sem valor!
E ao mundo importam muito os vossos testamentos
E importa muito pouco a vossa imensa dor!

Batei à grande porta: os belos dias vossos,
Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!
A terra ide levar, enfim, nuns tristes ossos
O resíduo fatal das coisas virginais!

ÀS VISÕES

Pois que visões! Não cessa a rápida corrida
E seja noite ou dia,
Volteadoras cruéis! Vós sempre a toda a brida
Na minha fantasia!

Parti, quimeras vãs! Arcanjos ou madonnas,
Parti, que o mando eu,
Como um bando fatal de velhas amazonas
Que o circo aborreceu!

Levai tudo convosco: as setas mais a aljava;
O angélico sorriso:
E as asas de escumilha em que eu voava
À noite, ao paraíso!

Eu quero, enfim, dormir; passar as noites gratas
Sentindo-me feliz,
No sono maquinal dos velhos acrobatas
Depois das farsas vis!

Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quase,
Lembrando-me — é verdade! –
Que onde eu supunha aurora havia apenas gaze
E uns traços de alvaiade.

Perdão se vos insulto! Oh, não, vós sois do empíreo,
Daquele meigo azul,
Que a todos tem sorrido: a Cristo no martírio,
Na dor, ao rei de mil;

E quando vos apraz, nas asas transparentes,
Mais alto ides por certo,
Do que as deusas gentis, aéreas, insolentes,
Que vemos voar tão perto!

No entanto podeis crer ó lúcidos fantasmas
Que o século, afinal,
Oculta no esplendor não sei que vis miasmas
Que fazem muito mal!

E quando vós passais, nas horas do mistério
De estrelas revestidas,
Bebemos nós, talvez, o aroma deletério
Das rosas corrompidas!

Oh sim! Parti depressa; erguei-vos deste abismo
Arcanjos ideais,
Deixando-nos colher a flor do realismo
Nas coisas triviais!

Melancolias do Outono! Eu quando além descubro,
Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
Compungem-me as cruéis desolações de Outubro!

Das orlas do poente, afogueado, rubro,
Ó moribundo sol! Com que poesia douras,
As formas triviais das cabecitas louras,
Que, às portas dos casais, de bênçãos também cubro!

Solta o canto final a orquestra da folhagem:
São horas de partir; apresta-se a viagem,
E as noites dos saraus hão de voltar mais belas!

Mas as vistas lançando às regiões saudosas,
Nos esforços cruéis das tosses dolorosas,
Em bandos vão partindo as tísicas donzelas!

O VELHO MUNDO

Eu vejo em toda a Terra um vasto cemitério,
A necrópole imensa, a campa dos colossos,
Aonde em paz descansa o velho megatério,
Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!

E os grandes leviatãs dos primitivos mares!
Os tremendos répteis, cruéis, descomunais,
Celebram no silêncio as núpcias singulares
Dos seus resíduos vis, com ricos minerais!

E os esqueletos nus dos lívidos gigantes
Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova,
Deixando um lugar vago aos velhos elefantes
Que vão fugindo à luz da natureza nova!

Também no mundo interno as almas vão seguindo,
Na corrente da vida, em mil circulações;
E da consciência humana o largo abismo infindo
Oculta, há muito já, disformes criações!

Elas dormem na sombra imensa do passado
Aonde em breve hão de ir nos transes doloridos,
A velha Realeza e o trémulo Papado
Sem forças descansar os corpos corrompidos.

Depois virão mais tarde as gerações futuras
E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar,
Bem como a nossa voz, as grandes criaturas
Do mundo primitivo, obriga a despertar.

E as crianças terão seus nomes de memória,
Como exemplo, na vida, a todos os momentos;
E vê-los-eis de pé, nas páginas da história.
Grotescos, maquinais, pesados, sonolentos;

Fazendo-nos pensar; de espanto enchendo tudo;
Sofrendo o riso alvar do ingénuo e do plebeu,
Iguais ao mastodonte armado para estudo
E exposto às irrisões nas salas dum museu!

Eis a velha cidade! A cortesã devassa,
A velha imperatriz da inércia e da cobiça,
Que da torpeza acorda e à pressa corre à missa!
Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!

Ela estreita no seio a velha populaça,
Nas vis dissoluções da lama e da preguiça,
E nunca o santo impulso, o grito da Justiça,
Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!

E pode receber o beijo e a bofetada
Sem que sinta o rubor da cólera sagrada
Acender-lhe na face as duas rosas belas!

Somente dum sorriso alvar e desonesto,
As vezes, acompanha o provocante gesto
Quando soa a guitarra, à noite, nas vielas!

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Carlos Leite Ribeiro (Esta Juventude…)

Mais velhos, não direi, talvez os mais antigos – de acordo?

No nosso tempo não se via disto – uma frase que se ouve com certa frequência aos mais antigos. Agora, vimos os jovens sempre agarradinhos e aos beijinhos por todo o lado.

No nosso tempo, não se via “esta vergonha” não; tínhamos uma enorme ingenuidade quase a roçar a santidade. Nós quase não olhávamos para as jovens pois tínhamos grande pudor e éramos demasiadamente envergonhados e tímidos. No meu tempo nem tínhamos tentação de saber se as carnes da nossa moça eram rijas ou moles; se ela sabia beijar bem; nem sequer um encosto mais apertado. Nada disso. Éramos uma perfeição. Nos bailes, dançávamos afastados das moças pelo menos um palmo; no escurinho do cinema, ficávamos sempre com as mãos em posição de oração e nunca por nunca a fazer pesquisas por sítios proibidos; para mais, tínhamos sempre a mamã sentada a nosso lado. Nenhuma parte de nosso corpo reagia à aproximação ou quando estamos junto da nossa amada. Nos dias de chuva, nunca procurávamos a entrada de um edifício ou mesmo o vão de uma escada; nunca (o pior era quando esses espaços já estavam ocupados por outro casal).

Nunca por nunca invejámos e muito menos desejámos a namorada dos outros ou mulher casada; nunca!

Rapazes como nós, já não existem.

Um certo colega, o Mário, certa vez foi apanhado por uma vizinha a fazer algo que não “devia” com uma moça. A dita (cuja) vizinha, chamou-o a sua casa para lhe dar uma grande lição de moral e, ao mesmo tempo, dar-lhe umas lições de sexologia prática; no dizer desta senhora já viúva há muitos anos, as lições seriam vinte… Mas o Mário contou a situação aos amigos e, quando a vizinha marcou nova lição, aparecemos a sua porta cerca de dez amigos. Resultado: não passou da primeira lição. O que éramos capazes para perder a nossa ingenuidade para nos integrarmos no mundo dos já muito adultos!

Volto a repetir: rapazes como nós, já não existem…

Também é preciso não esquecer que namorávamos com a moça à janela, mesmo que morasse num 5º andar enquanto o rapaz ficava na rua. Não tínhamos hipóteses nenhumas … Embora há quem diga que nós tínhamos uma “engenharia deveras criativa”; mas isso são boatos!
O caso melhorou (só um pouco) quando apareceram as “lambretas” que só tinham dois lugares e a mamã tinha que ficar de fora. O pior era quando a tal mamã marcava que de dez em dez minutos tínhamos que passar à sua porta ou num local pré-combinado.

E quando apareceram os Volkswagens de três mudanças para a frente e uma para trás? Para “conduzir” era precisa certa “habilidade” pois senão saiam dentro do carro que dolorosos torcicolos.

Rapazes como nós, já não existem…

Em 2001, escrevi este apontamento “MOMENTOS MARCAM UMA ÉPOCA …”

Há nomes que nos marcam para sempre, principalmente, quando se referem à nossa juventude. Para mim, o nome Nan, traz-me recordações da minha meninice.

Teria uns dez anos, morava num rés-do-chão de um prédio da Pascoal de Melo (Estefânia – Lisboa), e no último andar, por sinal o 4º, morava a Nan, uma moça que na altura teria uns 16 ou dezassete anos. A mãe da moça, de nome Sen, viúva de um obscuro subchefe de uma repartição da função pública, era uma figura muito castiça: Muito magra, não muito alta, sempre vestida de preto e, fosse em que estação do ano fosse, andava sempre de sombrinha. Quando aqui em Portugal passou a telenovela “Tieta do Agreste” (que eu parodiei para a radiodifusão), logo me lembrei da D. Sen, que a vi retratada na “Charifú” desta novela. A Nan era filha única e sua mãe a defendia de todos e quaisquer “Moinhos de Vento” (eram como as mamãs tratavam os rapazes). Se a moça lhe ia fazer algum recado (compra) perto de casa, logo a mãe se empoleirava na varanda começando logo a berrar assim que ela saía do prédio: “Nan ! não te demores, olha que eu estou aqui à tua espera !” ; ou “Nan ! estás a demorar muito ! Que estás para aí a fazer ?…”. Se nas traseiras da casa, a moça estava a estender a roupa na varanda, lá estava sua mãe ralhando comigo:

– “Olha lá menino, estás a olhar para as pernas da Nan … etc …”.

Recordo-me uma vez minha tia dizer em voz alta para ela ouvir bem:

– “Carlitos, não olhes para cima !Podes estar a cobiçar umas pernas que não valem nada … “.

Claro que a opinião era de minha tia, porque a minha, embora não me recorde bem, talvez fosse uma “bela panorâmica” !

Mas voltando à Nan, andava num colégio de feiras, onde a mamã a ia levar e trazer. Recordo-me de um carnaval no Clube Estefânia, em que a D. Sen quando notava (?) que o par da filha a estava a agarrar “demais”, levantava-se e o ia afastar do corpo da filha. De tantas vezes que repetiu, que se tornou um escândalo hilariante. Nessa altura, um D. Juan da época, virou-se para a D. Sen, perguntando-lhe:

– “Olhe lá minha senhora, é católica ?”. A senhora olhando-o de frente, replicou-lhe:

– “Sou sim, seu desavergonhado !.

Então o “malandreco” respondeu-lhe perante a hilaridade de todos:

– “Então vá com Deus e deixe sossegada a sua filha!”.

Era assim a vida da Nan …

Meses depois, a pequena, não se sabendo muito bem porquê, apareceu grávida. É verdade !. Já na gravidez avançada, tanto a mãe como ela, juravam a pés juntos que não sabiam com “aquilo tinha acontecido”. Algumas vizinha, (daquelas mais aconselhadas), aconselharam a D. Sen a ir a uma senhora de grande virtude, que morava na Horta das Tripas (Casal de Santa Luzia – Rua D. Estefânia) para que ela expulsasse o “Mafarrico” do corpo da moça, porque tal só podia ter sido “obra do diabo”. Outras menos “cultas” diziam que tinha era sido “obra e graça do Espírito Santo”…

Fosse como fosse nasceu um bebé que teve como nome Francisco (o Chiquinho).

Muito mais tarde, já a D. Sen tinha entregado a alma a Deus e o corpo à terra fria, a Nan confessou que “talvez fosse obra de um ajudante de limpa-chaminés”. Na altura, existiam em Lisboa o “limpa-chaminés” que subiam aos telhados, ponham uma corda muito comprida dentro das chaminés e tiravam a “ferrugem”; pelo menos faziam muito lixo. Normalmente quem tinha a chave da porta que dava para o telhado era o locatário do último andar. Assim, um dia, a Nan foi abrir a porta ao ajudante de limpa-chaminés, enquanto o mestre ficava junto às chaminés das cozinhas, segurando a corda, o ajudante abanava – a no telhado.


Ainda segundo o relato da Nan “foi tudo muito rápido”. Nós podemos acrescentar: Rápido e Eficiente! Ficámos sem saber se teria sido no abrir da porta, ou, ao abanar da corda. Mas isso também não interessa.
 
Claro que a moça teve depois vários namorados.

Enquanto estes esperavam pela dama, havia sempre um “malandreco” a avisá-lo:

– “Não cuspas para cima que ela pode engravidar …”.

E assim, o nome de Nan, ficou sempre gravado na minha memória …

Fonte:
O Autor (Marinha Grande – Portugal)

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) V

foi mantida a grafia original.
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AS VÍTIMAS

Eu vejo muita vez e raro já me assombro
— minha alma tanto afiz às tristes comoções! –
Na rua, junto a mim, passar ombro com ombro
No trânsito penoso as longas procissões,

De vítimas da sorte e vítimas do mundo!
Umas boas, gentis, outras feias, cruéis,
Envoltas num sudário ou num burel imundo;
Nas pompas teatrais, nas galas dos bordéis,

Não são filhas do sonho ou criações quiméricas
Da mente alucinada, ou vagos ideais;
São magros peitos nus, são faces cadavéricas,
São as tristes, as vis desolações carnais.

São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
Nas lamas encharcando os regelados pés:
Que dormem nos portais, que nunca vão à escola
— flores que enfeitarão a noite das galés!

São aquelas gentis e pobres costureiras
De peito comprimido; anémica expressão;
Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
Ganhando em todo o dia apenas um tostão,

Curvadas a coser o lânguido veludo,
O irritante cetim dos grandes enxovais,
Das princesas do Banco, herdeiras disto tudo;
Depois indo morrer nos tristes hospitais!

São os pobres heróis que os seus irmãos combatem;
Que morrem sob o peso enorme dos canhões,
E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
E os reis fazendo rir das suas maldições!

São da lúgubre noite umas flores sem nome
Batidas muito já dos grandes vendavais,
Que, porque sentem frio ou porque sentem fome,
Derramam pelo seio aromas triviais

E fingem depois ser aparições divinas,
Erguendo um pouco a saia, a fímbria sensual,
Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
Aos apetites vis da multidão brutal!

São mineiros sem luz; são velhos britadores,
Que o contacto da pedra um dia endureceu,
Queimados pelo sol, gelados nos horrores
Do túmulo cruel que em vida os recebeu!

São aqueles heróis, enfim, dos grandes sonhos,
Que sentiram na terra as vastas corrupções
E às turbas apontando uns mundos mais risonhos
Tentaram espedaçar os últimos grilhões

E que passam também um tanto contristados,
Talvez cheios de tédio, ao verem que hoje, nós,
Os deixamos seguir ainda apedrejados
Não raro desprezando a sua augusta voz!

E a grande multidão de mártires sublimes,
De tristes seminus, constante a caminhar,
Aos céus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
Dos déspotas que aos pés não cessam de os calcar!

A fila tenebrosa, a procissão de vítimas,
Aumenta mais e mais; não deixa de crescer!
E do estigma cruel das penas mais legítimas
Em muita fronte bela um traço podeis ver!

Caminhe muito embora: a sorte é sempre vária
E a turba sofredora, ó grandes bem sabeis,
Podia dividir a túnica cesárea
Lançando aos que estão nus a púrpura dos reis!

EVOCAÇÃO

Levanta-te Romeu do túmulo em que dormes
E vem sorrir de novo à boa, à eterna luz!
De noite, ouço dizer que há sombras desconformes
E as noites do passado, oh, devem ser enormes
Na atonia fatal das larvas e da cruz!

Conchega gentilmente ao peito carcomido
Os restos do teu manto: — assim, que bem que estás!
Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido
Que busca desdenhoso o centro do ruído
Nas horas vis do tédio e das insónias más.

O mundo transformou-se; aquele fundo abismo
Do antigo amor fatal, fechou-se duma vez,
E tu filho gentil do velho romantismo,
Tu vens achar dormindo o rude prosaísmo
No berço onde sonhava a doce candidez!

No entanto podes crer; faz muito menos frio
À luz do novo sol; do gás provocador;
E o século apesar de gasto e doentio,
Não pode já escutar o cântico sombrio
Que fala de ideais e cousas sem valor!

Em paz deixa dormir a terna Julieta
Que aos céus ainda por ti levanta as brancas mãos;
E enquanto por mim corre a tétrica ampulheta,
Da musa alegre e vil da torpe cançoneta
Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!

Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira
Inunda-se na luz de mil constelações!
E os arcanjos da rua assomam na poeira
Que exala o macadame, trazendo em cada olheira
O astro criador das grandes sensações!

E quando a cotovia à estrela matutina
Mandar a saudação. Lá fora, em pleno céu,
Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina,
A trança da beleza anémica e franzina
Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!

Boas noites coveiro: a tua enxada
Não cessa há tanto tempo de cavar?!
Cavaleiro da morte, ó fronte desolada,
Não sentes a mão trémula e cansada
De tanto trabalhar!

Tu esperas hoje as legiões sombrias
De mortos, que eu suponho ao longe ver?
Os felizes caídos nas orgias
E os tristes que além todos os dias
O gelo vem colher?!

Que imensa vala aberta! São medonhos
Os risos dessa boca infame, alvar!…
Descansa dos teus dias enfadonhos!
— Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
Não posso descansar!

Fonte:
http://luso-livros.net/

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Alfredo Santos Mendes (Livro de Sonetos) II


HALLOWEEN

É noite de Halloween, o medo impera.
Há muita bruxa à solta em cada esquina.
No seu modo ancestral, fica à bolina.
Seu rosto de menina esconde a fera!

Tendo a presa na mão, tudo se altera…
Deixa cair seus ares de menina.
Se metamorfoseia de felina…
E aos poucos nosso corpo dilacera!

O meu, foi sendo aos poucos desmembrado.
Meu coração ficara aprisionado,
Àquela feiticeira alucinada!

Passado o Halloween fui surpreso.
Aquela bruxa má, à qual fui preso,
Era a mais deslumbrante e linda fada!

HERESIA

Talvez minha garganta revoltada.
Espinhosa ficasse, e enrouquecesse.
Ou para meu castigo enlouquecesse,
Por a manter tão muda, tão calada!

Quero falar, a voz sai embargada,
Como se algum mal eu lhe fizesse.
Eu juro que não fiz, e isso acontece.
Minhas cordas vocais fiquem paradas!

Eu preciso gritar minha revolta,
Engolir todo o mal que não tem volta,
E na glote se encontra aprisionado!

Eu quero ler a minha poesia.
Limpar do meu passado, a heresia,
Engolir as tristezas do meu fado!

   IGUALDADE

Indiferente ao credo à própria raça,
O ser humano nasce, modo igual.
A sua formação conceptual,
É dádiva de Deus, divina graça!

Não traz no nascimento uma mordaça.
Um sórdido ferrete, ou um sinal!
É apenas um ser, e tal e qual,
Igual a qualquer ser que nos enlaça!

O seu direito à vida, ao mundo, enfim!
Ao colo maternal, ao frenesim,
É ganho mal acaba de nascer!

E toda a dignidade adquirida,
Só deverá um dia ser perdida…
No dia em que seu corpo fenecer!

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Partiste para junto do Senhor,
Após Tê-lo servido humildemente.
Fizeste uma vida de indigente!
Teu património era: muito amor!

Do amargo, conheceste o mau sabor.
O sofrimento atroz de tanta gente.
Nunca viraste o rosto a um doente,
Enquanto não sanasses sua dor!

E ficou Calcutá, inda mais pobre,
Perdeu a sua filha! A mais nobre:
Na virtude, no amor e na grandeza!

Ficou uma lacuna neste mundo!
Aquele amor que davas, tão profundo…
Ninguém esquecerá, MADRE TERESA!

MÁSCARA

Por que se escondem vós, forças do mal?
Abandonai de vez vosso covil!
Por que escondeis o vosso rosto vil,
atrás de um rosto puro, angelical?

Já chega de prosápia assaz banal,
de tanto fingimento, vão, servil!
Há muito conhecemos vosso ardil,
p’ra  tudo conseguirem no final!

Pois mal se apanham donos do poder…
Só querem seus discursos esquecer,
e não cumprir promessas propaladas!

E enquanto o Zé povinho vai sofrendo,
vós, tubarões, os bolsos vão enchendo,
sem nenhum preconceito, às descaradas!

MÚSICA DIVINA

É música divina o chilrear,
De uma ave que voa, solta ao vento!
É música divina, doce alento…
Se alguém nos diz baixinho: eu vou te amar!

É música divina o sussurrar,
Que o mar provoca em cada movimento.
Divina melodia, o açoitamento;
Que a onda nos difunde, ao se espraiar!

É música divina, quando o amor,
É cântico divino, sedutor;
Lembrando Pierrot e Columbina!

Até o próprio vento em noite escura,
Sibilando estridente na lonjura…
Nada mais é, que música divina!

O DILEMA

A concepção da vida, é um poema…
Que se compõe, sem nunca se escrever!
É um bailado a dois, que irá fazer,
Um musical de amor…um sonho…um tema!

Um tema transformado num dilema,
Que terão de enfrentar, de resolver!
Mais uma personagem vai haver,
Há que pôr no guião, mais uma cena!

Um corpo de mulher em movimento.
Um cântico de amor. Um nascimento.
Actores desempenhando um novo lema!

Vai ter mais um compasso, a melodia.
Vai ter mais uma estrofe, a poesia.
Mas tem final feliz, este dilema!

O EMBRIÃO

Mãe! Por que não me deixas ver teu mundo?
Por que acabas assim com minha vida?
Por que será que estás tão decidida,
a praticar tal acto tão imundo!

Mãe! Eu não sou um ser nauseabundo!
Não sou uma doença contraída!
Faço parte de ti, fui concebida!
Sou vida no teu útero fecundo!

Não queiras destruir-me por favor!
Não transformes em ódio, aquele amor,
do momento da minha concepção!

Eu sei que não pensavas conceber…
Mas, por favor mãe, deixa-me nascer,
eu sou um ser humano em formação!

O MEU DIÁRIO

Peguei no meu diário envelhecido,
um velho confidente meu amigo!
Que eu fiz das suas folhas meu abrigo…
Meu fiel conselheiro enternecido!

No diário se encontra redigido:
O meu sentir. A dor que não mitigo,
que vive aboletada e não consigo,
retirar do meu peito tão sofrido!

Suas capas afago com amor!
Elimino alguns fungos de bolor,
que o tempo e a idade provocaram!

Há manchas; caracteres indefinidos!
São sinais indeléveis produzidos,
p’las lágrimas, que os olhos derramaram!

O PALCO DA VIDA

Peguei no meu viver, pus nos dois pratos…
Da balança que pesa a minha vida.
Ficou a baloiçar, enlouquecida,
Perante a imensidão de tantos factos!

Desesperei. Quis ver quais os relatos,
Que a deixaram assim, enfurecida!
Teria ela ficado ressentida…
P’lo turbilhão perverso, dos meus actos?

Eu fui mais um actor que desfilou!
Que fez o seu papel, representou!
Que foi palhaço. Herói. E foi guerreiro!

Se errei alguma vez no meu percurso.
Por certo não havia outro recurso,
Terão de condenar, o mundo inteiro!

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro. Portal CEN 

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Manuel Alegre e António Portugal (Trova do Vento que Passa)

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Fonte:
http://delta4.no.sapo.pt/malegre13.html

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Alfredo Santos Mendes (Livro de Sonetos)

PLAGIADORES

Há poetas que sabem enganar.
Pois nasceram eternos fingidores!
E fingem serem grandes escritores,
Mas palavras de outros, vão buscar!

Já dissera Pessoa, a versejar:
Que chegava a fingir que suas dores,
Das quais ia sentindo seus horrores,
Eram dores, que fingia acreditar!

Por isso muita gente anda a fingir,
Que escreve nos poemas seu sentir,
E orgulhoso os lê, à descarada!

O seu fingir é forte, tem poder!
Que consegue a si próprio fazer crer,
Que não é poesia plagiada!

A MEIA LARANJA

Senti meu coração alvoraçado,
Bater desordenado no meu peito.
Impávido fiquei! Fiquei sem jeito!
Que raio o pôs assim em tal estado?

Olhei em meu redor, desconfiado.
Senti-me desolado, contrafeito!
Por não compreender, a causa efeito,
Que o pusera a bater descontrolado!

Tive depois, a estranha sensação.
Que me tinham aberto o coração,
E dentro dele, alguém se aboletava!

Aos poucos o meu ser se aquietou.
Pois percebeu, que o ser, que se alojou…
Era a meia laranja que faltava!

ADEUS JUVENTUDE

Depois da juventude ultrapassada,
a vida passa a ter outro sentido.
E todo o aprendizado adquirido,
Será o nosso guia de jornada!

Teremos pela frente, tudo ou nada.
Qual deles será de nós, o nosso adido?
Será que ficaremos no olvido?
Nossa porta estará sempre fechada?

Há que sorrir em cada despertar.
E nunca esquecer de comentar:
que há mais um dia todas as manhãs!

E quando já passados muitos anos,
não devemos chorar os desenganos,
mas olhar com orgulho nossas cãs!

AGRADECIMENTO

Eu agradeço a Deus tanta ventura,
que orna a minha vida, o meu caminho!
Não deixar que em meus pés, um só espinho,
os façam fraquejar pela tortura!

Enfeitar os meus dias, de ternura,
rechear minhas horas de carinho!
Nunca deixar, que ficasse sozinho,
em triste solidão, torpe amargura!

Obrigado meu Deus, pelos amigos,
que me abraçam, me livram dos perigos,
e que por Ti, estão ao meu dispor!

A todos que me dão tanta amizade,
eu desejo a maior felicidade,
muitas graças de Deus, e muito amor!

AMAR O PRÓXIMO

Amar sem condição, amar somente!
Abrir o coração ao semelhante.
Fazer do nosso amor, uma constante,
E nas horas amargas, ‘star presente!

Amar sem condição, devotamente.
Amar só por amar, ser tolerante.
Com o próximo, não ser arrogante,
P’ra com seus impropérios, indulgente!

Tratemos toda a gente tal e qual.
Com a mesma ternura, e modo igual,
Como gostamos nós de ser tratados!

Se estendermos a todos nossas mãos!
E fizermos vivência como irmãos!
Por certo nós seremos mais amados!

CANÇÃO NAVEGANTE

Compus uma canção, lancei ao mar!
Pedi-lhe humildemente que a levasse!
E em caso de procela a amparasse,
Para nenhuma estrofe se afundar!

Às estrelas pedi para a guiar,
Ao luar que o seu rumo iluminasse.
A Neptuno roguei, que não deixasse,
De a um porto seguro a acompanhar!

Eu sei que alguém espera esta canção.
Terá seu peito arfando de emoção,
P’ra ouvir a melodia, e seu cantar!

Meus versos, um a um recolherá!
Seu peito generoso se abrirá,
Para nele a canção se aboletar!

CORAÇÃO AMANTE

Fui fazer um electrocardiograma.
Quis o meu coração compreender!
Saber se ele alterou o seu bater,
Quando se apercebeu quanto te ama!

Teria lá ficado a dita chama,
A crepitar no peito, sem se ver,
E ficará teimosamente arder…
Numa severidade desumana?

As agulhas da máquina vibraram.
Nas folhas de papel elas deixaram,
Um tracejado torto, transversal!

Diz o cardiologista, meio sem jeito:
Você tem a pular dentro do peito.
Um coração amante sem igual!

DEUS QUEIRA

Ficar sem ti, amor, será meu fim.
Não irei suportar tua partida.
És um órgão vital na minha vida…
És um gene que faz parte de mim!

És parte do meu corpo…tu és, enfim,
A fonte alimentar mais requerida.
Não podes fraquejar, sê aguerrida…
Não aceites a morte e o seu afim!

Não permitas que ceifem teu viver.
Minha vida darei para te ter,
Sempre juntinha a mim, à minha beira!

Mas se eu te vir partir para o além,
Mais nada neste mundo me detém,
Breve irei ter contigo, assim Deus queira

DIREITOS HUMANOS

Cortaram meu cordão umbilical!
Fiquei um ser liberto nesse dia!
Foi como receber a alforria…
O ter deixado o ventre maternal!

A vida não seria mais igual!
O conforto uterino acabaria!
Seria mais um ser que enfrentaria…
A crueza de um mundo desigual!

Iria ser exposto à crueldade!
Teria de enfrentar a sociedade,
Aonde proliferam seres ufanos!

Teria no futuro, de gritar:
A todo aquele que gosta de humilhar.
Senhor, respeite os direitos humanos!

  FLOR SEM PECADO

Queria ser teu par, na dança ardente.
Ser chama que desperta tua alma.
Serpentear teu corpo em doce calma,
E beijar tua boca, avidamente!

Quero ouvir-te dizer em voz plangente:
Devora meus desejos, me acalma.
Aperta-me em teus braços, me espalma…
Seremos sintonia eloquente!

Eu ficarei braseiro nos teus braços.
Resistirei a todos os cansaços,
Em apagar o fogo que te envolve!

Teu corpo junto ao meu, jamais se inflama.
Não vai haver por certo alguma chama,
Pois teu beijo de amor, tudo resolve!

FRENESI

Semicerrei os olhos p’ra não ver,
A luz que teu olhar irradiava.
Eu receei o brilho que emanava,
E o frenesi que via, transparecer!

Teu corpo sedutor me fez tremer,
Pois tua formosura me ofuscava.
O teu porte de deusa dominava…
Ali fiquei refém do teu poder!

Miríades de estrelas te envolviam.
Meus lacrimantes olhos não te viam…
Perante o esplendor do teu olhar!

Cerrei de novo os olhos p’ra não ver!
Chorei por teu amor não poder ter,
Ceguinho por amor irei ficar!

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro. Portal CEN 

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) IV

foi mantida a grafia original.
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ASTRO DA RUA

Fazia ontem já tarde um nevoeiro espesso.
— Que insónia em mim produz este húmido vapor! –
Eu vinha enfastiado, ou turvo, enfim confesso,
Dos fumos do café, da luz e do rumor.

Um fantástico véu cobria as longas praças;
E o gás ria através da grande cerração
Que em lágrimas descia ao longo das vidraças
E em flocos de alva neve humedecia o chão.

Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
Dispus-me a crer no céu a amar este ideal:
De súbito eis que passa um astro radioso
Luzindo-me através do mágico cendal!
Que vaga exalação ó coisas vis que adoro!
Que belo olhar de Deus, deixai-me assim dizer!
Pelo sulco de luz julguei um meteoro,
Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!

Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
A sua breve história! O sonho é sempre assim!
Há cousas que ao passar ainda deixam fumo:
Aquela só deixava um vácuo dentro de mim.

Arcanjos caminhai, que eu espero o grande dia
Da nossa atirou vingança, ó déspotas do céu!
Nossa alma anda algemada à vossa tirania
Mas há de erguer-se a escrava… — Assim dizia eu
E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!

De novo a mesma aurora o espaço a iluminar!
Agora pude vê-la e posso recordar-me
Dos abismos de luz que havia em seu olhar.

O astro vinha envolto em nuvens de escumilha:
De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
Deixava atrás de si um aroma de baunilha
De um louco se abismar de um pobre enlouquecer!

Quem quer que sejas tu, que sejam sempre belos
Teus céus sem vendaval, teus dias sem revés!
Feliz de quem puder beijar os teus cabelos
E aos lábios aquentar os teus pequenos pés!

— Dizendo caminhei. Porém novo prodígio!
Ainda a perseguir-me a mesma aparição
E eu ainda sentia o lúcido vestígio
Que há pouco em mim deixara a outra exalação!

Mas agora reparo, atento na sua chama!
Que olhar tão insolente, o céu não luz assim!
Na gaze que ela arrasta há um debrum de lama,
Na face macerada uns traços de carmim!

Oh! Astro! Enfim conheço a órbita que traça
O teu curso veloz! Bem sei onde tu vais!
Prossegue no teu giro em volta dessa praça
E Deus te dê mais luz e menos lamaçais.

Quando Marta morrer, depois do extremo arranco,
Não tratem de orações;
Desprendam-lhe o cabelo e vistam-na de branco
À moda das visões.

Desejo vê-la então passar desta maneira
Depois de tal revés,
Por entre a chama azul e ténue da poncheira
No fumo dos cafés.

Aquele bom país das pálidas quimeras,
Monotonia azul;
Não temam que ela vá no fogo das esferas
Queimar o véu de tule.

Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos trópicos
A nuvem triste e vã,
E podem-lhe prender os pés tão microscópicos
As névoas da manhã!

De noite ela virá com seus trajes singelos,
Arcanjo doutros céus,
Nos suspiros febris dos meigos violoncelos
Dizer-nos mal de Deus.

Contar-nos porque foge à doce transparência
Que o céu formoso tem,
Meiga filha gentil da mesma decadência
Que é nossa boa mãe.

Se as lágrimas de luz que chora o firmamento
Em noites de luar,
Ao seu pescoço nu pudessem, num momento,
Cingir-me num colar;

Decerto ela daria ao pálido cometa
E à estrela trivial,
A mesma adoração que dava à cançoneta
Que amou até final!
E à saída do circo, ao astro romanesco,
A noite iria, então,
Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
Do lívido truão!

Assim, não quer ouvir aos coros invisíveis
Um hino de enfadar,
Cantado por milhões de arcanos insensíveis
Sem um que a possa amar!

E não lhe esquecem nunca os rápidos instantes
Do que ela amava mais:
— a vida iluminada à luz dos restaurantes
Num sonho de cristais!

Fonte:
http://luso-livros.net/

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Guilherme de Azevedo (Alma Nova) III

foi mantida a grafia original.

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OS SONHOS MORTOS

Embora triste a noite, a vagabunda lua
Mais branca do que nunca erguia-se nos céus,
Igual a uma donzela ingénua e toda nua
No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

O mar tinha talvez cintilações funestas.
A praia estava fria, as vagas davam ais;
Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
Fantasmas ao galope em monstros colossais.

E eu vi num campo imenso, agreste e desolado,
Imerso no fulgor diáfano da luz,
Juncando tristemente o solo ensanguentado
Sinistra multidão de corpos seminus!
Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,

Deposto em cada fronte um ósculo brutal;
E um irónico riso ainda em muita boca
Se abria, como a flor fantástica do mal!

E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
Em sagrada nudez!… Cabeças decepadas!…
Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!…

E sobre a corrupção das brancas epidermes
Luzentes de luar e de esplendor dos céus,
Orgulhosos passando os triunfantes vermes,
Da santa formosura os últimos Romeus!

Se tu, a minha alma livre ainda hoje conservas
Memórias das visões que amaste com fervor
Aí as tens agora alimentando as ervas
De novo dando à terra o que ela deu à flor.

São elas! As visões dos meus dias felizes,
Meus sonhos virginais, as minhas ilusões,
Que a seiva dão agora aos vermes e às raízes,
Que em pasto dão seu corpo a novos corações!

São as sombras que amei, divinas, castas, belas;
As quimeras gentis, os vagos ideais,
Que de rosas cingi, que iluminei de estrelas,
E que não podem já da terra erguer-se mais!

FALA A ORDEM

Pequena, donde vens cantando a MARSELHESA;
Da barricada infame, ou doutra vil torpeza?

Que esplêndido porvir! Do nada apenas sais
Começas a morder as púrpuras reais
Ó filho trivial da lívida canalha!…
E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha?!
Não tremas que eu bem vi! Que trazes tu na mão?

Intentas já limar as grades da prisão,
Fazendo cintilar um ferro contra o sólio
Arcanjo que adejais nos fumos do petróleo?!…
Mas, vamos, abre a mão: não queiras que eu te dê.

Bandido eu bem dizia! — a carta do ABC!

Ó lírios da cidade, ó corações doentes
Das vagas afeções modernas e galantes;
Eu sei que vós morreis aos sons agonizantes
Das orquestras febris, — nos sonhos dissolventes!

Sois os fulcros gentis que balançais pendentes
Nas árvores da vida; e os pobres viajantes
Famintos de ideal, sorriem triunfantes
Julgando-vos colher nas seivas inocentes!

E tragam com fervor o pomo apetecido
Que deve ter um mel oculto no tecido,
— um raio bom do sol que nos sorri tão alto;

Mas vós que sois da moda um luminoso aborto,
Como os frutos cruéis das margens do mar morto
Apenas contendes dentro uma porção de asfalto!

MISÉRIA SANTA

Entrando esta manhã num templo da cidade
Aberto à multidão mas triste e quase só,
O ver ao desamparo a velha majestade
Num trono a desabar, meteu-me certo dó.

Restavam tão-somente alguns dourados velhos
Do passado esplendor, e foi-me fácil ver
Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
Como coisa esquecida e imprópria de se ler!

A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
Que o Gólgota lavou nas lágrimas de fel
Que sempre há de chorar toda a mulher amada,
Ou seja a mãe de Cristo, ou seja a de Rossel;

Achei-a desolada e triste lá num canto,
Sem pompas e sem luz, coberta de ouropéis
Tão velhos como o roto e desbotado manto
Que há muito, já, deveu à crença dos fiéis!

Dizer-me pode alguém de afetos bons e puros
Que eu posso ainda encontrar as belas catedrais
Aonde o simples Cristo e os mártires obscuros
Campeiam no fulgor de pompas teatrais.

Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
Levou-me a um templo pobre e foi nele que vi
Que há mendigos do céu, de olhar sereno e doce,
Proletários do altar a quem ninguém sorri!

E ao ver esta humildade — eu tenho disto às vezes —
Pensei, não sei porquê, nas mórbidas visões
Que não passam de ser as filhas dos burgueses
Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!

Fonte:
http://luso-livros.net/

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Guilherme de Azevedo (A Alma Nova) II

foi mantida a grafia original.
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GRAÇA PÓSTUMA

Depois da tua morte eu hei de ver se arranco,
Numa noite serena, ao teu berço final,
Um produto mimoso; — um grande lírio branco
Da alvura do teu colo ebúrneo e divinal!

Aquela flor suave, ó minha visão etérica,
Debruçada gentil, na taça em que a puser,
Far-me-á lembrar a graça cadavérica
Do teu corpo franzino e etéreo de mulher!

E mesmo conterá, decerto, alguma cousa
Do que me traz submisso e preso ao teu olhar:
— Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo à lousa
Depois tornado em lírio à terra há de voltar! —

E em longas noites, nele, eu beberei sozinho,
Sonhando as convulsões duns lindos braços nus,
A fragrância que exala a candidez do linho
Em que hoje ondeias leve e onde os meus lábios pus,

— Saudando a boa mãe que faz com que eu te goze
Depois do verme vil teu seio poluir,
Mais pura no frescor de tal metamorfose
Do que eras a cismar, do que eras a sorrir!

Ó minha doce Ofélia! Os rápidos momentos
Da vida são cruéis mas passam como um som!
Um dia quando enfim dos velhos sedimentos
Teu corpo renascer num lírio imenso e bom,

Talvez que eu durma já também sob os matizes
Das flores, ao sorrir das mil germinações,
Dando um pasto fecundo às tuas sãs raízes
Depois de te sagrar as últimas canções!

HISTÓRIA SIMPLES

Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
De espádua larga e rija; um ceifador gentil.
Cavava todo o dia, andou sempre contente
E a féria dava à mãe sem falta dum ceitil*.

Ele amava a campina e os céus largos, serenos.
Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fenos,
Na fragrância do trevo, ao pé dos cães fiéis.

A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
Num cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
E tinha ainda mais não sei quantas crianças
Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.

O pai mal se sustinha às vezes sobre as pernas:
Era bêbado e mau, batia na mulher;
E à noite, ao cintilar dos vinhos nas tabernas.
Cantava canções vis de a gente ensurdecer.

Um dia uma senhora honesta da cidade,
Esplêndida, gentil, sabendo-se sorrir,
Reparou no rapaz; achou-lhe própria a idade
E fez-lhe um certo gesto: — o moço não quis ir.

Teve um assomo de raiva, então, sua excelência.
Ordenou-lhe que fosse: o moço disse, — irei!
Despediu-se dos seus: devia obediência
À senhora gentil que se chamava… A Lei!

Pegou no velho alforge e no bordão nodoso
E meteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
Choravam à partida: — um quadro doloroso!
A mãe louca de dor torcia as magras mãos!

Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
Primeiro foi medido e todos a final,
Depois de bem revisto, à uma, concordaram
Que ao serviço do rei convinha este animal!

Aqueloutra senhora, astuta, grave, terna,
— A Ordem — jubilava em doces pulsações!
Contava mais um servo, um filho, na caserna,
Gastando pouco mais: — uns cobres e uns feijões!…

Agora quando passa o batalhão luzente
Na rua, podeis ver o pobre cavador
Com modos imbecis, marchar pesadamente
— herói por conta alheia — ao rufo do tambor!

Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
Perguntem-lhe o que é pátria e liberdade e lei!
Caminha simplesmente às ordens dos prebostes*
Que trazem no chicote a salvação do rei.

E na pobre cabana ainda se conserva
O mesmo quadro triste: — a lacrimosa mãe;
Alguns pequenos nus rolando sobre a erva,
E um ébrio que pragueja e não pensa em ninguém!

Mulher não chores mais: a quadra é pura e bela:
Enquanto na campina alouram os trigais,
Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinela:
Receiam que Deus faça andar o mundo mais.

Em breve ele virá de júbilo e de assombro
Encher tua alma, enfim, quando amanhã voltar
Com seu velho canudo, a trouxa posta ao ombro,
Trazendo novamente a luz ao pobre lar.

E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!
A quantas guerras foste? Ó céus, como tu vens!
— Mãe tome essa lata! Esconda o meu tesouro
E deixe-me ir dormir no feno ao pé dos cães!

À mesa do festim, cercada de formosas,
O canto dos cristais e o cintilar dos vinhos
Saudavam juntamente os belos desalinhos
Das galantes visões das ceias luminosas!

Molhavam-se em champanhe as pétalas das rosas!
E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos
A gaze sobreposta à candidez dos linhos
Erguia-se num mar de vagas caprichosas!

Ali tudo era paz! Nem ódios vis nem zelos!
Os lábios pois limpando às rendas e aos cabelos
Da menos trivial das fadas tentadoras,

Eu brindo aos mortos! — disse: à legião sagrada
Que foi à solidão, à eternidade, ao nada!
— Às almas e ao pudor destas gentis senhoras.

===============
Notas:
Ceitil – Moeda antiga portuguesa que valia um sexto de real.
Preboste – Nome dado antigamente a um magistrado militar que havia nos corpos do exército e nos navios.

Fonte:
http://luso-livros.net/

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Guilherme de Azevedo (A Alma Nova)

Obs: – o significado de algumas palavras (que possuem asterisco ao lado)  foram colocadas ao final da postagem, sob o título notas. 
– foi mantida a grafia original do poeta português.
———————-
INTRODUÇÃO

Eu poucas vezes canto os casos melancólicos,
Os letargos* gentis, os êxtases bucólicos
E as desditas cruéis do próprio coração;
Mas não celebro o vício e odeio o desalinho
Da musa sem pudor que mostra no caminho
A liga à multidão.

A sagrada poesia, a peregrina eterna,
Ouvi dizer que sofre uma afeção moderna,
Uns fastios* sem nome, uns tédios ideais;
Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
E, vaidosa de si, no colo ebúrneo* e fresco,
Põe cremes triviais!

Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
Os falsos ouropéis* das cortesãs gentis,
E julgam já tocar-te as roçagantes* vestes
Ó deusa virginal das cóleras celestes,
Das graças juvenis!

Retine a cançoneta alegre das bacantes*,
Saudadas nos vagões, nos cais, nos restaurantes,
Visões de olhar travesso e provocantes pés,
E julgam já escutar a voz do paraíso,
Amando o que há de falso e torpe no sorriso
Das musas dos cafés!

Oh, tu não és, decerto, a virgem quebradiça
Estiolada* e gentil, que vem depois da missa
Mostrar pela cidade o seu fino desdém,
Nem a fada que sente um vaporoso tédio
Enquanto vai sonhando um noivo rico e nédio*
Que a possa pagar bem!

Nem posso mesmo crer, arcanjo, que tu sejas
A menina gentil que às portas das igrejas
Enquanto a multidão galante adora a cruz,
A bem do pobre enfermo à turba pede esmola
Nas pampas ideais da moda, que a consola
Das mágoas de Jesus!

E nas horas de luta enquanto os povos choram
E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
Não posso dizer bem se acaso tu serás
A senhora que espalha os lânguidos fastios*
Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
À viva luz do gás!

Tu és a aparição gentil, meia selvagem,
De olhar profundo e bom, de cândida roupagem,
De fronte imaculada e seios virginais,
Que desenha no espaço o límpido contorno
E cinge na cabeça o virginal adorno
De folhas naturais.

Teus a linha ideal das cândidas figuras;
As curvas divinais; as tintas sãs e puras
Da austera virgindade; as belas correções;
E segues majestosa em teu longo caminho
Deixando flutuar a túnica de linho
Às frescas virações!

Quando trava batalha a tua irmã Justiça
Acodes ao combate e apontas sobre a liça
Uma espada de luz ao Mal dominador:
E pensas na beleza harmónica das cousas
Sentindo que se move um mundo sob as lousas
No gérmen duma flor!

Num sorriso cruel, pungente de ironia,
Também sabes vibrar, serena, altiva e fria,
O látego febril das grandes punições;
E vendo-te sorrir, a geração doente,
Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
Das mórbidas canções!

Oh, voa sem cessar traçando nos teus ombros
O manto constelado, ó deusa dos assombros,
Até chegar um dia às regiões de luz,
Aonde, na poeira aurífera dos astros,
Contrito, Satanás enxugará de rastos,
As chagas de Jesus!

Lugar à minha fada ó lânguidas senhoras!
E vós que amais do circo as noites tentadoras,
Os flutuantes véus, os gestos divinais,
Podeis vê-la passar num turbilhão fantástico,
Voando no corcel febril, nervoso, elástico,
Dos novos ideais!

Eu vi passar, além, vogando sobre os mares
O cadáver de Ofélia: a espuma da voragem
E as algas naturais serviam de roupagem
À triste aparição das noites seculares!

Seguia tristemente às regiões polares
Nos limos das marés; e a rija cartilagem
Sustinha-lhe tremendo aos hálitos da aragem,
No peito carcomido, uns grandes nenúfares*!

Oh! Lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
Sorriste já, também, nas vagas harmonias
Das cousas ideais! Mas boje à luz mortiça

Dos astros, caminhando; apenas as ruínas
Das tuas criações fantásticas, divinas,
De pasto vão servindo aos lírios da justiça!

VELHA FARSA

Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
Dum mundo que desaba; aí vai tudo em tropel!
Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
E uma fera que dança atada a um cordel.

Ó funâmbulos* vis, comediantes rotos,
O vosso riso alvar agrada à multidão!
E quando vós passais o arcanjo dos esgotos
Atira-vos a flor que mais encontra à mão!

Lá vai tudo a correr: são as grotescas danças
Duns velhos animais que já foram cruéis
E agora vão sofrendo os risos das crianças
E os apupos da turba a troco de dez réis.

Conta um velho histrião*, descabelado e pálido,
Da fera sanguinária o instinto vil e mau,
E vai chicoteando um urso meio inválido
Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de pau.

Depois inclina a face e obriga a que lha beije
A fera legendária olhada com pavor:
E uma deusa gentil, vestida de barege*,
Anuncia o prodígio a rufo de tambor!

E as mães erguem ao colo uns filhos enfezados
Que nunca tinham visto a luz dos ouropéis*:
E acresce à multidão a turba dos soldados,
— ao hilota* da cidade o escravo dos quartéis.

E o funâmbulo* grita; impõe qual evangelho
À turba extasiada a grande narração.
E sobre um cão enfermo um orangotango velho
Passeia nobremente os gestos de truão*.

Correi de toda a parte, aligeirai o passo,
Deixai a grande lida e vinde à rua ver
As prendas duma fera, as galas dum palhaço,
E um arcanjo que sua e pede de beber!

A tua imagem tens, ó povo legendário
No cómico festim que mal podes pagar,
Pois tu ainda és no mundo o velho dromedário
Que a vara do histrião* nas praças faz dançar.
===============
Notas:
Bacantes = (Fig)Mulher sem pudor, de costumes dissolutos
Barege = tecido fino de lã combinada com seda ou algodão, usado no vestuário feminino
Ebúrneo = Que é branco e/ou liso como o marfim
Estiolada = enfraquecida, debilitada
Fastio = falta de apetite, enfado, aborrecimento
Funâmbulo = indivíduo que muda facilmente de opinião ou partido
Hilota = em Esparta, escravo que cultivava o campo; pessoa de ínfima condição social ou que foi reduzida ao grau extremo da miséria, da servilidade ou da ignorância
Histrião = bufão, comediante
Letargo = que possui incapacidade de reagir e de expressar emoções; apatia, inércia e/ou desinteresse
Nédio = brilhante
Nenúfar = lótus
Ouropéis = Lâminas de metal amarelo que imitam o ouro
Roçagante = se arrasta pelo chão
Truão = pessoa que diverte as outras; palhaço, saltimbanco

Fontes:
http://luso-livros.net/
Dicionário Caudas Aulete. Aulete Digital.

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Humberto Veríssimo Soares Santa (Árvore de Versos)

 A ÁRVORE

O vento assobiou soprando forte.
A árvore foi bailando, sacudida,
Enfrentando as rajadas, destemida,
Pra não vergar seu tronco, ao vento norte.

Desconhecia a triste, a triste sorte,
Teimando em defender a própria vida!…
Sem força, sem poder e sem saída,
Enfraquecida, foi perdendo o porte.

Exausta, a gigante soçobrou!…
Eu vi, quando a senti perder a fé
E a última rajada a empurrou.

O colosso vergou, caiu e até
Foi num choro de folhas, que tombou!…
…Há árvores que não morrem de pé!

A CARTA

Na carta, assinaste : Coração.
Em vermelho batom, colaste um beijo.
Ouço sons de violino… são o arpejo
Do suave dedilhar da tua mão !

No ar, sobem mil bolas de sabão
Levando para o espaço o meu desejo.
Procuro ao meu redor mas se te vejo,
Essa imagem não passa de ilusão.

Distante, viajante e perdulária
De gestos, de surpresas… nostalgia !
Sonho-te Vénus da antiga estatuária

Que ao espírito, em luz, dá alegria.
Dorme hoje no meu sono, ó solitária !…
Ah !…Veste-me de ti…. ó simpatia !!!…

DÁLIA NEGRA

Ó africana semente !…
…Quem te trouxe de além-mar
Rumo a outro continente,
Para terra tão diferente
Da terra do teu lugar ?

Rainha de mil amores !
Cor de ébano, menina,
No jardim, entre outras flores,
Cor perdida entre outras cores,
Negra flor que nos fascina !

Dália negra !… Qual o fim ? !…
Linda flor !… Que é da ventura ?
Que é de ti nesse jardim,
Sonhando com o jasmim
Que te roubou a frescura ?

A NUVEM

Sei não ter energia pra ser estrela
Mas tenho o meu lugar no infinito
Qual branca nuvem no azul bonito,
Alvo espelho de luz, que o Sol revela.

Essa nuvem, no céu vós ireis vê-la
De contorno indefinido, meio esquisito,
A parte do meu ser em que acredito,
Volátil, orgulhosa, informe e bela !

A nuvem… alma minha, ilusão !
Verá que o ser humano não melhora :
Só os poetas e os loucos sonharão.

A nuvem, correrá p’lo mundo fora
E as lágrimas que em chuva cairão
Serão da alma-nuvem que em mim chora !

A SOMBRA

A Sombra deslizou pelo salão
E parou frente ao trono do Poder :
– Tudo o que podes, não te vai valer
Porque o Poder não passa de ilusão.

Levantou-se o Poder com decisão :
– O que dizes…ó sombra deprimente ?!…
Como te atreves tu, que nem és gente,
A sentir o poder da minha mão ?!

– Não há força que valha, quando passo,
Sou eu, a Sombra, quem te dita a sorte.
Não há Poder que fuja ao meu abraço

Quando eu, a Sombra, o aperto forte.
Todo o Poder, aonde vou, desfaço !
Se tu néscio, és Poder, eu sou a Morte !

A TÚNICA

Levei o meu silêncio à catedral.
Ajoelhei entre os bancos alinhados
Sentindo em mim, o peso dos pecados,
Quedei-me ali, na nave principal.

O Sol abria cor num só vitral
Com Cristo e dois ladrões dependurados.
Guardas romanos que jogavam dados
Davam a cor do sangue àquele local.

Era jogado o espólio do inocente,
A túnica do próprio Redentor.
Senti-me a testemunha ali presente

E olhei a opulência ao meu redor.
Se nada fiz, nem quis mudar tal gente,
Fui eu que te matei… ó meu Senhor !

 A ÚLTIMA CENA

No palco, o velho actor fungou e disse :
– Escutem !… Hoje a máscara caiu !
Alguém roubou a peça e fugiu
Pra que o acto final não se cumprisse.

A cena principal era : “Velhice”.
O povo arrefeceu. Nunca se viu
Tanta gente a tremer, cheia de frio,
Para assistir à última tolice.

A multidão gritou horrorizada :
– O que foi ?!… O que foi que aconteceu ?!
Qual o final da peça aqui roubada ? !

O velho mascarou-se e olhou o céu.
Só uma voz se ouviu entusiasmada :
– Viva o actor !… – e o velho actor morreu.

A VIRGEM NEGRA

Sempre que a virgem negra ajoelha em prece
Em frente do altar-mor da catedral,
A súplica em silêncio acontece,
Pedindo o grande abraço universal.

Pelo negro da pele passeia a dor,
Em anseios de amor já transformada.
A alma é branca, não devendo a cor
Tornar a linda virgem, mal-amada.

Na arte da sagrada catedral,
São brancos… anjos, santos e cupidos.
Negros!… Só Satanás e anjos do mal.

Os santos de pele negra, estão esquecidos
Mas são raios da luz celestial
Que só p’la virgem negra, são sentidos !…

ABRAÇO DA SAUDADE

Sou fantasma na casa velha e triste !…
Na sala o tempo geme, sufocado.
Meus passos soam secos no sobrado…
Tudo o que foi aqui, já não existe.

Procuro em vão por ti mas tu sumiste.
Só a saudade abraça o meu passado,
Pai, diz-me aonde estás ?!… Para que lado
Fica o mundo de luz, pró qual partiste ?

Ao abrir portas na recordação
Preciso estar por ti acompanhado :
– Chega-te a mim, vem !… dá-me a tua mão !…

Vem pisar os caminhos da lembrança.
Quero ficar a ti aconchegado
E ao teu colo… voltar a ser criança !…

ABRAÇO

Junta o teu coração ao meu e agora
Os dois seremos um na caminhada,
Alma com alma, ambos de mão dada,
Serenos pela vida… vida fora.

Sempre que um estiver triste, o outro chora.
Se um rir, o outro solta a gargalhada.
A estrada dum, será do outro a estrada,
Quando um está perto, o outro não demora.

O nosso abraço, abraça a vida agora,
Protegendo na arena o nosso espaço,
Um dia um vai partir e ao ir-se embora

Levará deste amor algum pedaço.
Se for eu o primeiro… nessa hora,
No céu, fico esperando o teu regaço !

ALMA VESTIDA

Um vulto nu e só, dança na estrada
Lavando, com seus sonhos, corpo e alma.
Perdido, foi parar na encruzilhada
Onde nem no cansaço, sente a calma.

Quem és tu, dançarino do caminho ?…
Que fazes por aqui, bailando nu ?…
Que fazes neste mundo, tão sozinho ?…
Homem (que sou eu)… diz !… – Quem serás tu ?…

Pra seres o ditador da própria sorte
Nesta difícil dança que é a vida,
Terás que demonstrar que és o mais forte

Erguendo alto, a fé nunca perdida.
Só assim vencerás a própria morte,
Nu de corpo, porém de alma vestida !

AMANTES

Dançaste, deslizando, divertida.
Depois, foi em nácar que te tornaste
Quando só, quase nua, meio vestida,
Na relva do jardim te acomodaste.

Beijada pela luz, sob a ramagem,
Estes meus olhos viram-te princesa,
Tendo eu, logo ali, virado pagem,
Guardião dessa fonte de beleza.

O sol que abria o verde, distraído,
Penetrando seus raios entre a folhagem
Era um ramo dourado, que caído,
Punha pequenos sóis na tua imagem.

Ao longe um girassol virava lento
Seguindo a cor do Sol embevecido.
Um cisne, só, nadava pachorrento,
De branco e de elegância bem vestido.

Beijei nesses teus seios a beleza,
Bebendo em delírio a tua imagem
Que via no teu trono de princesa
Comigo a teus pés, nascido pagem.

Mais tarde, quando o Sol já se deitava,
Rebolámos p’lo chão mais uns instantes
Sentindo a brisa terna, que afagava
Os nossos corpos de eternos amantes.

Fonte:
Portal CEN.

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Humberto Veríssimo Soares Santa (1940)

Humberto Veríssimo Soares Santa – Nascido a 31 de Outubro de 1940, numa pequena aldeia do litoral português, Atalaia da Lourinhã, de onde saiu com dois anos.

Viveu a maior parte da sua vida na cidade de Setúbal, tendo estado ligado à Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra, onde foi responsável pelo Departamento de Coordenação de Operações, encontrando-se hoje na situação de aposentado.

É casado com Margarida Augusta Correia Pinto Soares Santa que alia à arte de desenhar uma elevada sensibilidade poética e lhe ilustra todos os poemas com magníficos desenhos a lápis ou a nanquim.

OBRA LITERÁRIA
POESIA :
MUNDO DE QUIMERA – Edição do autor 1999

COLECTÂNEAS :
POIESIS V e VI – Editorial Minerva – Lisboa – 2001
TEMPERA(MENTAL) – Editorial Minerva – Lisboa – 2002
PROSA & VERSO II – Projecto Palavras Azuis – Blumenau (BRASIL) – 2003
I ANTOLOGIA DO PORTAL CEN – Edição L.P. Baçan – P. R. – Londrina – BRASIL 2004
TERRA LUSÍADA – Edição Abrali – BRASIL – 2005

LIVROS VIRTUAIS :

REDENÇÃO
FRASCOS com gotas de poesia
SENTIMENTALMENTE
FANTASIA NO LAGO DOS SONHOS
O BERGANTIM DE CRISTAL
O OÁSIS DO AMOR
O PENSAR PROSAICO DE PEQUENOS POETAS
MUNDO DE QUIMERA I – II – III
ALMA PEREGRINA
O TEMPO E O VERBO

Participação em várias ANTOLOGIAS

Fontes:
http://www.ligia.tomarchio.nom.br/ligia_amigos_humbertosoaressanta.htm

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Dulce Rodrigues (1941) autobiografia

Lisboa, 29 de Abril de 1941.

O meu nome é Dulce Rodrigues e sou a autora de A Aventura do Barry e outros livros infanto-juvenis em português, francês, inglês e alemão, assim como do sítio multilingue para crianças e jovens http://www.barry4kids.net.

Nasci num dia de Primavera, já lá vão muitos anos… “Alfacinha” e portuguesa de nacionalidade e de coração, vivi grande parte da minha vida na cidade que me viu nascer. Mas embora traga Lisboa e o meu belo Portugal sempre no coração, a minha “aventura” profissional levou-me a outras cidades e países. Durante cerca de quarenta anos, reparti a minha vida profissional entre o meu país de origem – que adoro – e os países estrangeiros que adoptei e que me adoptaram. Isso tem-me permitido divulgar mais facilmente a enorme riqueza cultural do meu país e conhecer de perto novas gentes e mentalidades, o que inevitavelmente abriu o meu horizonte espiritual e influenciou a minha própria vivência.

Divido agora o meu tempo entre as viagens afectivas ou de lazer, e os livros – como leitora e como autora. Escrever, sobretudo para crianças, é fonte de grande prazer e realização pessoal.

E porque a língua é a alma de um povo, a melhor maneira que encontrei para compreender os outros foi aprender a língua deles. Sou poliglota, falo seis línguas vivas e escrevo regularmente pelo menos em três, o que me permitiu ganhar quatro prémios em concursos literários internacionais com contos para crianças em três línguas.

Os meus verdes anos passei-os no Bairro da Encarnação. Os meus pais mudaram-se para lá na véspera dos meus quatro anos. Ali frequentei a escola e encontrei os primeiros amigos e amigas, e muitas dessas amizades perduraram através do tempo; algumas, infelizmente, já nos deixaram prematuramente.

Fui uma adolescente como tantas outras, mas nesse período da minha vida começou a manifestar-se o meu interesse pela escrita, pela Ciência e pela História… Circunstâncias várias levaram-me, contudo, a seguir primeiramente o campo das Letras. Talvez porque comecei cedo a contactar com Alemães, uma vez que o meu pai praticamente sempre trabalhou na Siemens em Portugal, apaixonei-me pela língua alemã, e logo após ter terminado o meu curso do British Council, inscrevi-me no Goethe-Institut, que alguns anos mais tarde me ofereceu uma bolsa de estudos, o que me levou a viver pela primeira vez num país estrangeiro e a começar a tomar verdadeiramente gosto pelas viagens.

Regressei a Portugal, mas o apelo da Alemanha, que para uma jovem adulta da época representava a aventura e a liberdade, foi mais forte. Assim começou uma carreira professional internacional que interrompi para voltar de novo para Portugal. Mas alguns anos depois parti novamente. E como a vida às vezes nos prega partidas, embora eu seja contra a guerra e contra tudo o que é violência, a verdade é que as minhas vivências profissionais no entrangeiro me levaram sempre a trabalhar com organizações de carácter bélico. Nos anos 60, na Alemanha, fui tradutora de inglês/alemão junto do ENGCOMEUR, por outras palavras, do Comando de Engenharia das Forças Armadas Norte-americanas na Europa, entidade que pertencia ao Ministério da Defesa dos Estados Unidos. Anos mais tarde, já nos anos 80 e no Luxemburgo, fiz parte do pessoal internacional da NAMSA, ou seja, da agência que faz a manutenção e reparação de material bélico para os países que pertencem à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Foi esta organização que me ofereceu a minha segunda bolsa de estudos, quando paralelamente à minha actividade profissional me decidi a pisar de novo os campos universitários, desta vez com uma universidade inglesa, para finalmente realizar o meu sonho no campo da Ciência.

Tenho uma grande ânsia de aprender sempre e cada vez mais, e todos os assuntos me fascinam. A História é outra das minhas paixões, especialmente a de Portugal, e dela tenho feito o tema das minhas conferências. Adoro viajar e sou um pouco como o vento – sempre em constante deslocação. Mas aprecio igualmente o aconchego da minha casa, quer seja a de Portugal ou a da Bélgica. Sou uma apaixonada pela Natureza, pela sua grandeza e diversidade. Aprecio todas as formas de expressão artística, desde que elas nos transmitam Beleza, pelo que sinto uma grande tristeza quando penso na Arte – se é que podemos dar-lhe esse nome – que nos legou o final do século XX e com que se estreou o século XXI. E porque amo a Vida, ela também tem sabido amar-me.

Sou membro de várias associações, tanto em Portugal como no estrangeiro.

BIBLIOGRAFIA:
“Era Uma Vez Uma Casa”;
“Piloto e Lassie, uma outra estória de Romeu e Julieta”;
“Há Festa no Céu”;
“O Pai Natal está constipado”;
“A Aventura do Barry”; 
“Barry’s Adventure”;
“Father Christmas has the Flu”;
“Il était une fois une Maison   ;
“Le Ciel est en Fête” ;
“Le Théâtre des Animaux” ;
“Piloto und Lassie, Romeo und Julia einmal tierisch anders”;
“Der Weihnachtsmann ist verschnupft”;
“Travelogue – Egypt through the Eyes of a Western Woman”

Fonte:
http://www.dulcerodrigues.info/dulce/pt/bio_pt.html

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Varal de Trovas n 20 – Emilia Penalba Esteves (Porto/Portugal) e Dorothy Jansson Moretti (Sorocaba/SP)

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20 de julho de 2013 · 21:44

Varal de Trovas n 11 – Jose Feldman (Maringá/PR) e Mario de Sá-Carneiro (Lisboa/Portugal)

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Varal de Trovas n 8 – Cyroba Ritzman (PR) e Emilia Penalba Esteves (Portugal)

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António Boavida Pinheiro (Caravelas da Poesia)

A CRIANÇA É MARAVILHA…

A criança é maravilha
 Abençoada por Deus,
 Em seu olhar tudo brilha,
 Anjo que desceu dos Céus…

A criança é um bem crer,
 Para esta vida adoçar,
 Vem ao mundo para viver
 E para Deus abençoar…

A criança agrada a Deus,
 Com toda a sua inocência,
 Seus risos chegam aos Céus
 Por nós pedem clemência…

A criança é fruto belo
 Que Deus pôs na nossa vida,
 É preciso merecê-lo
 Dar amor e dar guarida…

A CRIANÇA E O MUNDO!!!

Condenamos o aborto
 Em toda a sua crueza,
 É um ser que vai ser morto,
 Uma criança indefesa…

Crianças morrem à fome
 Neste mundo tão ingrato,
 E o mundo não se comove
 É um mundo insensato…

Redes de pedofilia
 Sacrificam a criança,
 Num viver em agonia
 De vida em desesperança…

Há que acabar com o mal
 Que tanta desgraça faz,
 Que as crianças afinal
 Só querem Amor e Paz…

A CRIANÇA, E O AMOR……

A criança vem ao mundo
 P’ra vida continuar,
 É milagre bem profundo
 De beleza sem ter par…

A criança é um bem caro
 Que nos merece respeito,
 Carece de nosso amparo
 Não pode ser doutro jeito…

Deixar crescer a criança
 Em paz e em liberdade,
 Porque ela é a esperança
 Dum viver em felicidade…

A criança é o melhor
 Que existe na Natureza,
 É o fruto do amor
 Em toda a sua beleza…

LAGOS …

Lagos, terra de eleição,
 Onde o progresso domina
 Na tua urbanização,
 E a tua bela «marina».

Uma beleza que são
 As praias de areia fina,
 Onde, ondas vêm e vão…
 Do mar que não se amofina.

Antes te envolve a preceito,
 Te namora com tal jeito,
 P’ra sempre tua glória…

S. Gonçalo te protege,
 D. Sebastião… te rege,
 E o «povo» te fez a História…

IR A «BANHOS»…

Às «termas», vai gente para se tratar
 E recompor então suas maleitas,
 Na esperança qu’ali irão melhorar,
 Suas dores, seus achaques, e receitas.

Pretendem todas elas, pois ficar
 Sem “stress”, como novas e escorreitas,
 Com as águas, com seus dotes para curar,
 Conforme as qualidades que são feitas.

Para além do bem que fazem ao físico,
 Também ali melhora, pois o psíquico
 P’la calma, p’lo sossego e p’la amizade

No contexto das relações humanas
 Qu’ali se desenvolvem em semanas
 De saudável solidariedade…

LIBERDADE . . .(I)

À proa do meu navio,
 Ancorado ao cais de leste,
 Vejo nuvens a porfio,
 Alvas sob o azul celeste…

Se a liberdade fugiu,
 De algum lugar, que neste
 Planeta azul, mas sombrio,
 Algo da vida perdeste…

Nuvens brancas, soltas, livres,
 Percorrem a estratosfera,
 Ao sabor de leve brisa,

Assim também eu quisera,
 A liberdade… afinal,
 Sem grades, sem dor, sem mal . . .

LIBERDADE . . .(II)

O viver em liberdade
 É um bem inestimável.
 Que a vida em sociedade,
 É algo inimaginável

Sem essa realidade,
 Que por vezes é instável,
 No meio de tanta vaidade,
 Face ao ódio miserável…

Mas quem lhe dá mais valor?
 Quem ora a tem, e antes não.
 Porque conhece o sabor

De ser livre, sem mais não,
 De sonhar sem ter rancor,
 Poder ter opinião . . .

FELICIDADE…
(Poema de um sonhador…)
 Ainda pequenino, olhei o céu,
O mar, o sol, a água do ribeiro,
E logo nessa altura em mim nasceu,
Um sonho mentiroso e traiçoeiro.

Subir… poder voar na imensidade,
Dar livre curso à minha fantasia…
Pensando assim, julguei que a felicidade,
De nós, e não dos outros dependia.

 Embalado nas asas da ilusão,
Livremente deixei o coração
Dizer a toda a gente o que sentia.

 Mas vi depois com mágoa e sofrimento,
Que aquilo que eu dissera num momento,
Ninguém… ninguém sequer o entendia . . .

HOMEM DE PALAVRA…

Sendo um intelectual, e mesmo investigador,
Nunca se especializou em nada em particular.
Estudioso até mais não, escolheu ser Professor,
Depois de ter concluído a carreira militar.

 Em tudo aquilo que fez, fê-lo sempre com primor,
Sério… como do mais, que se possa imaginar,
A sua linha de rumo, foi pautada pelo rigor,
Mesmo que tal atitude, o pudesse prejudicar.

 Entre seus pares conhecido, como o «perfeccionista»
Com seus defeitos pois não, como toda a gente tem,
Vive porém,  todavia, de consciência bem leve,

 Com respeito pelos outros, é aspecto em que se insiste,
Considerando a «Palavra» como um dos maiores bens
Que nas relações humanas, nada há que sobreleve…

IN  MEMORIAM…
( …a um  Pai…)

Partiste desta vida descontente,
Fechado e só, na tua solidão,
Isolaste-te do Mundo e da gente,
Não vendo ao teu redor…qu’ingratidão!

Num auto sofrimento permanente,
Não dando, nem querendo, compaixão…
Nesse orgulho de pedra, de quem sente
Tanta ausência d’amor no coração…

Sem pena, sem mágoa e sem pesar,
Assim, como viveste, desgarrado,
Julgando-te de todos olvidado.

Egoisticamente, sem pensar…
Que ao menos vale a pena ter vivido,
Ainda que julgando estar perdido…

NAS ASAS DE UM PASSARINHO
O meu amor está ausente,
Há muito que a não vejo,
A saudade está presente
Um dia mandei-lhe um beijo.

Um beijo com muito amor,
E mui repenicadinho
Um beijo e uma flor
Nas asas de um passarinho.

Passarinho não voltou,
Perdeu-se um tal ensejo,
Não sei que rumo tomou
Não cumpriu o meu desejo.

Nunca mais tive resposta
Daquele meu bilhetinho,
Passarinho deu à costa,
Enganou-se no caminho…

GOSTO DO VERÃO…

Como eu gosto do Verão,
Calorzinho benfazejo,,
Nos aquece o coração
Na sequência dum beijo.

Parece que a solidão,
A saudade e a tristeza,
Vão de férias, pois então,
Pesam menos p’lo que vejo.

Moçoilas de perna ao léu,
Sorrisos, de um bem fazer,
Também as bênçãos do Céu

Para os pobres, no viver,
Sardinha assada é pitéu,
Bem gordinha podem crer…

Fonte:
http://www.joaquimevonio.com/espaco/antonio_boavida/boavida.html

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António Boavida Pinheiro (1934)

Natural de Alverca do Ribatejo – PORTUGAL; nascido a 7 de Novembro de 1934.

Professor Universitário Aposentado;

Foi toda a sua vida um estudioso “nato”…tendo acumulado no seu currículo várias Licenciaturas e Mestrados, para além de diversos outros cursos, em Portugal e no estrangeiro, …um dos quais de nível equivalente ao Doutoramento.

 A queda para as rimas já vem do tempo da sua juventude, no entanto a sua atividade profissional não lhe deixou tempo para publicar os seus poemas, que sempre foi escrevendo e ficado na “gaveta”, para além duma ou outra participação esporádica em revistas ou jornais…

 Tendo ficado com tempo mais disponível, depois da sua aposentadoria…é assim que desde Setembro de 2008, vem participando em Concursos Literários e Jogos Florais, em Portugal e no Brasil, tendo já obtido vários «Prêmios» e «Menções Honrosas»:
– vencedor do «Concurso Nacional/Internacional de Trovas da UBT – 2009» de São Paulo – Brasil;
– vencedor do Troféu “Augusto dos Anjos”, por ter sido 1º classificado no «XV FESERP – Festival Sertanejo de Poesia – 2009»,na cidade de Aparecida – Brasil;
– 2º e o 1º Prémios respectivamente nos 92º e 96º «Concursos de Quadras Populares» do «Clube da Simpatia» – Olhão, em 2008 e 2009…

Desde Dezembro de 2008, que tem publicado alguma poesia em “sites” e “blogs” na Internet, nomeadamente no «Luso Poemas», e no «Recanto das Letras», entre outros, onde a amizade e a estima de Amigos/as, lhe deram apoio e ânimo para publicar o seu primeiro livro de poesia…., com o título «Cem Poemas…Diversos», publicado pela Editora «Temas Originais», em Maio de 2009; seu segundo livro de poesia com o título  «Poemas ao correr da pena…»…

 Tem poemas publicados em diversas Antologias, como por exemplo:
– «Antologia Nordeste de Poesia», editado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro, em 2009;
– «Literatum & Poeticum», (Volume 1), da Editora Guemanisse, Teresópolis. Rio de Janeiro, em 2009;
– antologia poética «(re) leitura do Natal» do 1º Concurso de Poemas de Natal de 2009, da Editora All Print, São Paulo, em Outubro de 2009;
– «Antologia – Prémio Literário Valdeck de Almeida Jesus 2008», editado pela Giz Editorial, São Paulo, 2009;
– volumes V e VI da «Antologia Poética do FESERP – Festival Sertanejo de Poesia», editado pela Acauã Produções Culturais, Cidade de Aparecida, Paraíba, respectivamente em Dezembro de 2009 e em 2010;
– «I Antologia Temas Originais», – 2009, Editora Temas Originais, Coimbra, em 2010;
– Antologia «O Desassossego da Vida – II Concurso de Poesia Poetas em Desassossego», pela Editora Bubok Publishing S.L. Madrid, em 2010;
– «III Antologia de Poetas Lusófonos», pela Editora Folheto Edições & Design, Ld.ª, Leiria, em  2010; ]
entre outras…,

Colabora também em Revistas Literárias, nomeadamente na revista literária «eisFluências», assim como no «Boletim da APE» …

Participa com assiduidade nas reuniões de várias «Tertúlias Poéticas», com destaque para as da Sociedade Portuguesa de Poetas…

É Sócio Efectivo das:
«Sociedade Portuguesa de Autores»;
«Associação Portuguesa de Escritores»;
«Associação Portuguesa de Poetas» e
clube de poetas «Clube da Simpatia» em Olhão,
Sociedade de Geografia de Lisboa,
Associação de Apoio ao Museu da Ciência,
Associação Internacional de Sociologia,
Associação Portuguesa de Sociologia,
“Association Française de l’Anthropologie”,
“Association Française de l’Anthropologie du Droit,”,
“Association pour le Patrimoine de la Vallé de la Rome – ASPAVAROM”,
Academia de Ciências de N.Y.,
Associação Cultural «Charles Darwin» de N.Y.,
“Paul Harris” da  Rotary International.

 Conta no seu currículo com mais de duas dezenas de condecorações e uma meia centena de “Louvores” individuais, concedidos por diversas entidades civis e militares, de entre as quais se mencionam: 

Grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Aviz,
Grão-Cruz da Ordem «Imperial  Constantinian  Military  de Saint  George»;
Grã-cruz da Ordem «Supremus Militaris Templi Hierosolymitani»,
Medalha de Cruz de «Benemérito» da Cruz Vermelha Portuguesa …

Fonte:
http://www.joaquimevonio.com/espaco/antonio_boavida/boavida.html

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Soares de Passos (A Um Teatro Académico)

Abrindo sepulcros, rasgando mistérios,
Quem mortos gelados levanta de pé?
Quem varre coas asas as cinzas d’impérios,
E os vultos heróicos anima, quem é?

Quem tira do nada uma forma divina?
Quem finge uma imagem de negro terror?
Quem ergue virtudes, e o crime fulmina?
Quem risos excita, quem prantos de dor?

– O génio do drama e o génio da cena! –
São eles que traçam, em véu d’ilusões,
D’Amor, de ciúme, de riso, e de pena
O jogo travado, falando às paixões.

São eles unidos que em chama inquieta
Sentiu Gil Vicente na fronte escaldar?
São eles que o bardo da terna Julieta,
E a fronte de Talma vieram c’roar.

São eles, mancebos, que em nuvens de flores
A senda apontaram que afoitos seguis,
De palmas e c’roas, de magos fulgores,
Mas senda d’espinhos; co génio condiz.

Em nobre fadiga, que os ócios despreza,
D’acerbos estudos assim descansais!
Foi belo o desígnio, difícil a empresa:
Quem logra nas artes repouso jamais?

Que importa? na luta se provam alentos,
Somente na luta se colhem lauréis;
Aos peitos ardentes, de glória sedentos,
Reluz a bonança por entre os parcéis.

Avante! e que o génio das artes potente
D fogo das artes vos possa trazer!
Que em cenas de prantos o pranto rebente,
Que em cenas alegres se goze o prazer.

As artes e as letras nasceram amigas:
Às aras das duas incensos levai,
E os louros colhidos em sábias fadigas,
Os louros do palco viçosos juntai!

Fonte:
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXVIII)

Fernando Pessoa e Camões
Sonetos
(foi mantida a grafia original)
026

Grão tempo há já que soube da Ventura
a vida que me tinha destinada;
que a longa experiência da passada
me dava claro indício da futura.

Amor fero, cruel, Fortuna dura,
bem tendes vossa força exprimentada:
assolai, destruí, não fique nada;
vingai vos desta vida, qu’inda dura.

Soube Amor da Ventura, que a não tinha,
e, por que mais sentisse a falta dela,
de imagens impossíveis me mantinha.

Mas vós, Senhora, pois que minha estrela
não foi milhor, vivei nesta alma minha,
que não tem a Fortuna poder nela.

162
Ilustre o dino ramo dos Meneses,
aos quais o prudente e largo Céu
(que errar não sabe), em dote concedeu
rompesse os maométicos arneses;

desprezando a Fortuna e seus reveses,
ide para onde o Fado vos moveu;
erguei flamas no Mar alto Eritreu,
e sereis nova luz aos Portugueses.

Oprimi com tão firme e forte peito
o Pirata insolente, que se espante
e trema Taprobana e Gedrosia.

Dai nova causa à cor do Arabo estreito:
assi que o roxo mar, daqui em diante,
o seja só co sangue de Turquia!

112

Indo o triste pastor todo embebido
na sombra de seu doce pensamento,
tais queixas espalhava ao leve vento
cum brando suspirar da alma saído:

—A quem me queixarei, cego, perdido,
pois nas pedras não acho sentimento?
Com quem falo? A quem digo meu tormento
que onde mais chamo, sou menos ouvido?

Oh! bela Ninfa, porque não respondes?
Porque o olhar-me tanto me encareces?
Porque queres que sempre me querele?

Eu quanto mais te vejo, mais te escondes!
Quanto mais mal me vês, mais te endureces!
Assi que co mal cresce a causa dele.

078

Lá a saudosa Aurora destoucava
os seus cabelos d’ouro delicados,
e as flores, nos campos esmaltados,
do cristalino orvalho borrifava;

quando o fermoso gado se espalhava
de Sílvio e de Laurente pelos prados;
pastores ambos, e ambos apartados,
de quem o mesmo Amor não se apartava.

Com verdadeiras lágrimas, Laurente,
—Não sei (dizia) ó Ninfa delicada,
porque não morre já quem vive ausente,

pois a vida sem ti não presta nada?
Responde Sílvio:—Amor não o consente,
que ofende as esperanças da tornada.

127

Já não sinto, Senhora, os desenganos
com que minha afeição sempre tratastes,
nem ver o galardão que me negastes,
merecido por fé, há tantos anos.

A mágoa choro só, só choro os danos
de ver por quem, Senhora, me trocastes;
mas em tal caso vós só me vingastes
de vossa ingratidão, vossos enganos.

Dobrada glória dá qualquer vingança,
que o ofendido toma do culpado,
quando se satisfaz com cousa justa;

mas eu de vossos males e esquivança,
de que agora me vejo bem vingado,
não o quisera eu tanto à vossa custa.

105

Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n’alma.

113

Lembranças que lembrais meu bem passado
para que sinta mais o mal presente,
deixai-me (se quereis) viver contente,
não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
viver (como se vê) tão descontente,
venha (se vier) o bem por acidente,
e dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito milhor é perder a vida,
perdendo-se as lembranças da memória,
pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assi que nada perde, quem perdida
a esperança traz de sua glória,
se esta vida há-de ser sempre em tormento.

015

Lembranças saudosas, se cuidais
de me acabar a vida neste estado,
não vivo com meu mal tão enganado,
que não espere dele muito mais.

De muito longe já me costumais
a viver de algum bem desesperado;
já tenho co a Fortuna concertado
de sofrer os trabalhos que me dais.

Atado ao remo tenho a paciência,
para quantos desgostos der a vida,
cuide em quanto quiser o pensamento;

que, pois não há i outra resistência
para tão certa queda da caída,
aparar-lhe hei debaixo o sofrimento.

023

Lindo e sutil trançado, que ficaste
em penhor do remédio que mereço,
se só contigo, vendo te, endoudeço,
que fora cos cabelos que apertaste?

Aquelas tranças d’ouro, que ligaste,
que os raios do Sol têm em pouco preço,
não sei se para engano do que peço
se para me atar, os desataste.

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
e por satisfação de minhas dores
como quem não tem outra, hei de tomar te.

E se não for contente meu desejo,
dir lhe hei que, nesta regra dos amores,
pelo todo também se toma a parte.

084

Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há de durar tão duro intento?
Se dura porque dura meu tormento,
baste vos quanto já me atormentastes.

Mas se assi perfiais porque cuidastes
derrubar meu tão alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.

E, pois vossa tenção, com minha morte,
há de acabar o mal destes amores,
dai já fim a um tormento tão comprido,

porque d’ambos contente seja a sorte:
vós, porque me acabastes, vencedores;
e eu, porque acabei de vós vencido.

Fonte:
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)
Imagem com formatação sobreposta obtidas na internet, sem identificação do autor.

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Lino Mendes (Baú de Memórias: Quinta-Feira da Ascenção)

É uma “data” que ainda se festeja em várias terras do País, creio  que há dois anos em Lisboa, os “ raminhos de esperança”, assim lhe chamavam, eram vendidos a um euro e meio.”Trata-se de um ritual pagão e religioso, que tem como objectivo benzer os primeiros frutos primaveris e levar para casa um ramo florido que simboliza a fartura e a harmonia para a família”(DN).

Em tempos idos, também por aqui a “Quinta-feira da Ascensão” era tempo de festa com piqueniques e bailaricos, sendo o Pinhal das Lourenças um dos lugares de que me falam. E, claro , na parte da tarde toda a minha gente ia apanhar a espiga. Hoje, alguém se lamentava, é que tudo acabou…

Este dia de quinta-feira, corresponde ao da Ascensão de Cristo aos Céus quarenta dias após a ressurreição, por isso o dito popular de que “ da Páscoa à Ascensão quarenta dias vão”. Não se sabe no entanto, quando a mesma passou a coincidir com o “dia da espiga”, determinando que ao fator litúrgico se aliasse a componente pagã. Litúrgico , porque então e nesse dia, nos templos católicos e do meio dia à uma se celebrava a reza da hora; pagã, por toda uma série de actividades ligadas ao campo e ao camponês para quem, segundo Mircea Eliade (antropólogo e historiador) a terra era entendida como a Grande Mãe.

Há hábitos que se vêm perdendo com o decorrer dos tempos e funcionavam mesmo com um sentido apelativo à protecção, como colocar ramos de oliveira por cima das portas e das janelas para dar sorte, para combater as trovoadas. Hábitos que hoje seria interessante recordar e manter como tradição, acredite-se ou não, por exemplo, que” quem tem trigo da Ascensão todo o ano terá pão”.

“Tradicionalmente, no Alentejo deve-se colher o Ramo da Espiga do meio-dia à uma hora da tarde e consta que o ramo seja constituído por cinco folhas de oliveira, cinco espigas de trigo e o maior número possível de flores amarelas e brancas. Por vezes, e segundo as devoções de cada um, esta “apanha” era acompanhada pelo rezar de cinco Pai-Nossos, cinco Avé Marias e cinco Glórias, ”sendo “ que o número e a espécie de elementos constituintes do Ramo varia de terra para terra, de grupo para grupo, de família para família”. (Rui Arimateia—Diário do Sul-7/5/97).

Em MONTARGIL, e tanto quanto sabemos, para dar sorte, para não se acabar o dinheiro, era feito um ramo com três ou cinco espigas de centeio , trigo e cevada, um raminho de oliveira e flor do campo (papoila e malmequer), que depois se guardava em casa, pendurado até ao ano seguinte.

Fonte:
O Autor

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Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXVII)

Sonetos
(foi mantida a grafia original)

024

Está se a Primavera trasladando
em vossa vista deleitosa e honesta;
nas lindas faces, olhos, boca e testa,
boninas, lírios, rosas debuxando.

De sorte, vosso gesto matizando,
Natura quanto pode manifesta
que o monte, o campo, o rio e a floresta
se estão de vós, Senhora, namorando.

Se agora não quereis que quem vos ama
possa colher o fruito destas flores,
perderão toda a graça vossos olhos.

Porque pouco aproveita, linda Dama,
que semeasse Amor em vós amores,
se vossa condição produze abrolhos.

125

Este amor que vos tenho, limpo e puro,
de pensamento vil nunca tocado,
em minha tenra idade começado,
tê-lo dentro nesta alma só procuro.

De haver nele mudança estou seguro,
sem temer nenhum caso ou duro Fado,
nem o supremo bem ou baixo estado,
nem o tempo presente nem futuro.

A bonina e a flor asinha passa;
tudo por terra o Inverno e Estio
deita, só para meu amor é sempre Maio.

Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,
e que essa ingratidão tudo me enjeita,
traz este meu amor sempre em desmaio.

109

Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta: —Quando?
—Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado
que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

111

Eu vivia de lágrimas isento,
num engano tão doce e deleitoso
que em que outro amante fosse mais ditoso,
não valiam mil glórias um tormento.

Vendo-me possuir tal pensamento,
de nenhüa riqueza era envejoso;
vivia bem, de nada receoso,
com doce amor e doce sentimento.

Cobiçosa, a Fortuna me tirou
deste meu tão contente e alegre estado,
e passou-me este bem, que nunca fora:

em troco do qual bem só me deixou
lembranças, que me matam cada hora,
trazendo-me à memória o bem passado.

065

O Ferido sem ter cura perecia
o forte e duro Télefo temido,
por aquele que n’água foi metido,
a quem ferro nenhum cortar podia.

Ao Apolíneo Oráculo pedia
conselho para ser restituído;
respondeu que tornasse a ser ferido
por quem o já ferira, e sararia.

Assi, Senhora, quer minha ventura
que, ferido de ver vos, claramente
com vos tornar a ver Amor me cura.

Mas é tão doce vossa fermosura,
que fico como hidrópico doente,
que co beber lhe cresce mor secura.

091

Fermosos olhos que na idade nossa
mostrais do Céu certissimos sinais,
se quereis conhecer quanto possais,
olhai me a mim, que sou feitura vossa.

Vereis que de viver me desapossa
aquele riso com que a vida dais;
vereis como de Amor não quero mais,
por mais que o tempo corra e o dano possa.

E se dentro nest’alma ver quiserdes,
como num claro espelho, ali vereis
também a vossa, angélica e serena.

Mas eu cuido que só por não me verdes,
ver vos em mim, Senhora, não quereis:
tanto gosto levais de minha pena!

066

Fiou se o coração, de muito isento,
de si cuidando mal, que tomaria
tão ilícito amor tal ousadia,
tal modo nunca visto de tormento.

Mas os olhos pintaram tão a tento
outros que visto tem na fantasia,
que a razão, temerosa do que via,
fugiu, deixando o campo ao pensamento.

Ó Hipólito casto, que, de jeito,
de Fedra, tua madrasta, foste amado,
que não sabia ter nenhum respeito:

em mim vingou o amor teu casto peito;
mas está desse agravo tão vingado,
que se arrepende já do que tem feito.

087

Foi já num tempo doce cousa amar,
enquanto m’enganava a esperança;
O coração, com esta confiança,
todo se desfazia em desejar.

Ó vão, caduco e débil esperar!
Como se desengana üa mudança!
Que, quanto é mor a bem aventurança,
tanto menos se crê que há de durar!

Quem já se viu contente e prosperado,
vendo se em breve tempo em pena tanta,
razão tem de viver bem magoado.

Porém quem tem o mundo exprimentado,
não o magoa a pena nem o espanta,
que mal se estranhará o costumado.

126

Fortuna em mim guardando seu direito
em verde derrubou minha alegria.
Oh! quanto se acabou naquele dia,
cuja triste lembrança arde em meu peito!

Quando contemplo tudo, bem suspeito
que a tal bem, tal descanso se devia,
por não dizer o mundo que podia
achar-se em seu engano bem perfeito.

Mas se a Fortuna o fez por descontar-me
tamanho gosto, em cujo sentimento
a memória não faz senão matar-me ,

que culpa pode dar-me o sofrimento,
se a causa que ele tem de atormentar-me,
eu tenho de sofrer o seu tormento?

Fonte:
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)
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Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXVI)

Sonetos
(foi mantida a grafia original)

082

Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai me repousar em paz ü’hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n’alma larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro d’esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.

154
Dos ilustres antigos que deixaram
tal nome, que igualou fama à memória,
ficou por luz do tempo a larga história
dos feitos em que mais se assinalaram.

Se se com cousas destes cotejaram
mil vossas, cada üa tão notória,
vencera a menor delas a mor glória
que eles em tantos anos alcançaram.

A glória sua foi; ninguém lha tome.
Seguindo cada um vários caminhos,
estátuas levantando no seu Templo.

Vós, honra portuguesa e dos Coutinhos,
ilustre Dom João, com melhor nome
a vós encheis de glória e a nós de exemplo.

146

El vaso reluciente y cristalino,
de Ángeles agua clara y olorosa,
de blancas e da ornado y fresca rosa
ligado con cabellos de oro fino;

bien claro parecía el don divino
labrado por la mano artificiosa
de aquella blanca Ninfa, graciosa
más que el rubio lucero matutino.

Nel vaso vuestro cuerpo se afigura,
raxado de los blandos miembros bellos,
y en el agua vuestra ánima pura;

la seda es la blancura, e los cabellos
son las prisiones, y la ligadura
con que mi libertad fue asida dellos.

072

Em fermosa Leteia se confia,
por onde vaïdade tanta alcança,
que, tornada em soberba a confiança,
com os deuses celestes competia.

Porque não fosse avante esta ousadia
(que nascem muitos erros da tardança),
em efeito puseram a vingança,
que tamanha doudice merecia.

Mas Oleno, perdido por Leteia,
não lhe sofrendo Amor que suportasse
castigo duro tanta fermosura,

quis padecer em si a pena alheia;
mas, porque a morte Amor não apartasse,
ambos tornados são em pedra dura.

149

[À morte de D. António de Noronha]
Em flor vos arrancou, de então crecida
(Ah! senhor dom António!), a dura sorte,
donde fazendo andava o braço forte
a fama dos Antigos esquecida.

üa só razão tenho conhecida
com que tamanha mágoa se conforte:
que, pois no mundo havia honrada morte,
que não podíeis ter mais larga a vida.

Se meus humildes versos podem tanto
que co desejo meu se iguale a arte,
especial matéria me sereis.

E, celebrado em triste e longo canto,
se morrestes nas mãos do fero Marte,
na memória das gentes vivereis.

085

Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece me que estava assi ordenado.

Contentei me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.

Mas minha estrela, que eu já’gora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.

124
Enquanto Febo os montes acendia
do Céu com luminosa claridade,
por evitar do ócio a castidade
na caça o tempo Délia despendia.

Vénus, que então de furto descendia,
por cativar de Anquises a vontade,
vendo Diana em tanta honestidade,
quase zombando dela, lhe dizia:

-Tu vás com tuas redes na espessura
os fugitivos cervos enredando,
mas as minhas enredam o sentido.

—Melhor é (respondia a deusa pura)
nas redes leves cervos ir tomando
que tomar-te a ti nelas teu marido.

001

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos…
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

108

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a nao querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

155
Esforço grande, igual ao pensamento;
pensamentos em obras divulgados,
e não em peito timido encerrados
e desfeitos despois em chuva e vento;

animo da cobiça baixa isento,
dino por isso só de altos estados,
fero açoute dos nunca bem domados
povos do Malabar sanguinolento;

gentileza de membros corporais,
ornados de pudica continência,
obra por certo rara de natura:

estas virtudes e outras muitas mais,
dinas todas da homérica eloquência,
jazem debaixo desta sepultura

014

Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso sem medida, alegre e brando,
espedindo no rústico raminho;

o cruel caçador (que do caminho
se vem calado e manso desviando)
na pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

Dest’ arte o coração, que livre andava,
(posto que já de longe destinado)
onde menos temia, foi ferido.

Porque o Frecheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.

Fonte:
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)
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Florbela Espanca (Ser Poeta)

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7 de abril de 2013 · 22:51

Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXV)

Sonetos
(foi mantida a grafia original)

151

De um tão felice engenho, produzido
de outro, que o claro Sol não viu maior,
é trazer cousas altas no sentido,
todas dinas de espanto e de louvor.

Museu foi antiquíssimo escritor,
filósofo e poeta conhecido,
discípulo do Músico amador
que co som teve o Inferno suspendido.

Este pôde abalar o monte mudo,
cantando aquele mal, que eu já passei,
do mancebo de Abido mal sisudo.

Agora contam já (segundo achei),
Passo, e o nosso Boscão, que disse tudo
dos segredos que move o cego Rei.

057

De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança,
sinto vivo da morte o sentimento.
Não sei para que é ter contentamento,
se mais há de perder quem mais alcança.

Mas dou vos esta firme segurança
que, posto que me mate meu tormento,
pelas águas do eterno esquecimento
segura passará minha lembrança.

Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
que com qualquer cous’ outra se contentem;
antes os esqueçais, que vos esqueçam.

Antes nesta lembrança se atormentem,
que com esquecimento desmereçam
a glória que em sofrer tal pena sentem.

137

Diana prateada, esclarecia
com a luz que do claro Febo ardente,
por ser de natureza transparente,
em si, como em espelho, reluzia.

Cem mil milhões de graças lhe influía,
quando me apareceu o excelente
raio de vosso aspecto, diferente
em graça e em amor do que soía.

Eu, vendo-me tão cheio de favores,
e tão propínquo a ser de todo vosso,
louvei a hora clara, e a noite escura,

Sois nela destes cor a meus amores;
donde colijo claro que não posso
de dia para vós já ter ventura.

044

Ditoso seja aquele que somente
se queixa de amorosas esquivanças;
pois por elas não perde as esperanças
de poder n’algum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando ausente,
não sente mais que a pena das lembranças;
porqu’, inda que se tema de mudanças,
menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado
onde enganos, desprezos e isenção
trazem o coração atormentado.

Mas triste quem se sente magoado
d’erros em que não pode haver perdão,
sem ficar n’alma a mágoa do pecado.

056

Diversos dões reparte o Céu benino,
e quer que cada üa um só possua;
assi, ornou de casto peito a Lüa,
ornamento do assento cristalino.

De graça, a Mãe fermosa do Minino,
que nessa vista tem perdido a sua;
Palas, de discrição, que imite a tua;
do valor, Juno, só de império dino.

Mas junto agora o mesmo Céu derrama
em ti o mais que tinha, e foi o menos,
em respeito do Autor da natureza;

que, a seu pesar, te dão, fermosa Dama,
Diana, honestidade, e graça, Vénus,
Palas o aviso seu, Juno a nobreza.

121
Dizei, Senhora, da Beleza ideia:
para fazerdes esse áureo crino,
onde fostes buscar esse ouro fino?
de que escondida mina ou de que veia?

Dos vossos olhos essa luz Febeia,
esse respeito, de um império dino?
Se o alcançastes com saber divino,
se com encantamentos de Medeia?

De que escondidas conchas escolhestes
as perlas preciosas orientais
que, falando, mostrais no doce riso?

Pois vos formastes tal, como quisestes,
vigiai-vos de vós, não vos vejais,
fugi das fontes: lembre-vos Narciso.

122

Doce contentamento já passado,
em que todo meu bem já consistia,
quem vos levou de minha companhia
e me deixou de vós tão apartado?

Quem cuidou que se visse neste estado
naquelas breves horas de alegria,
quando minha ventura consentia
que de enganos vivesse meu cuidado?

Fortuna minha foi, cruel e dura,
aquela que causou meu perdimento,
com a qual ninguém pode ter cautela.

Nem se engane nenhüa criatura,
que não pode nenhum impedimento
fugir do que [lhe] ordena sua estrela.

123

Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!
Se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

006

Doces águas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;

de vós me aparto; mas, porém, não nego
que inda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.

Bem pudera Fortuna este instrumento
d’alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;

mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.

Fonte:
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)
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Helena Vasconcelos (Lua Cheia)

Fui feita em noite de lua cheia, está tudo escrito no céu, basta consultar as cartas, não há engano possível. Aconteceu neste mesmo quarto, neste mesmo leito, lua tão grande assim nunca fora vista! Foi assunto de conversas por tudo e por nada, parecia o fim, tanta beleza não podia ser deste mundo. A luz entrava a jorros pela janela aberta, os amantes estavam desatentos, nada viam, não olhavam um para o outro, fechavam as pálpebras com força, cegos, entrelaçados num abraço indissolúvel, a cama desfeita, o chão inundado de claridade; não ouviam, não davam pela lua nem pelos gritos dos animais noturnos não sentiam o vento, que tudo abrasava; demasiado juntos, demasiado expostos, sem o refúgio da escuridão.

Fui feita do sal das lágrimas, do gosto amargo do suor, do agasalho do riso, do desconcerto brutal dos gestos. Eles, nem por um momento se lembraram de mim. O luar, esse, espreitava.

Nasci assim, curiosa do mundo, enrolada como um bicho-de-conta, mal amanhada, sem freio nem mestre. Na minha casa entrava a espuma das vagas e os espelhos devolviam-me o olhar, na superfície mate do sal. Nasci do nada, no meio de nada. Este corpo que é o meu, é apenas isso, um corpo.

Manias, só manias, desde o princípio. Uma completa e devastadora solidão. O desejo de descobrir o que estava mais além, longe do que fica bem dizer que está bem. Uma vontade de pertencer a alguém, sem levar adiante tanto atrevimento. No mesmo lugar, armada em dura, feita de aço, antes quebrar que vergar. A mesma lua, desafiadora de perigos, do perigo maior do amor. (A luz doce quando nada nos separava; o negro da escuridão, quando me vi só.)
*
As vozes chegam-me aos ouvidos, num murmúrio, abafadas pela porta do quarto:

“Por que espera ela? Se isto continua, ainda ficamos sem casamento…!”

Não há esconderijo no silêncio, as palavras jorram de outras bocas, ininterruptamente, incitam-me, empurram-me:

“Vai, vai , que bela estás, ele espera-te, vai…”.

Ordens e mais ordens. Não é possível fugir. Nenhum abrigo. Quero gritar e não posso, da minha garganta não sai qualquer som. (A minha cabeça coroada de flores, o meu corpo envolto num tecido de vento que estremece ao menor movimento, náufragos num mar revolto…) .

Um homem não é desculpa para nada, não serve de álibi. Um homem, seja ele qual for, santo ou guerreiro, demônio ou ermita não é nada, nem princípio nem fim. É apenas o que é, um homem.

Do outro lado da parede, a mesa está vergada com o peso de iguarias, as travessas deixam marcas profundas na toalha imaculada. Os cheiros quentes enfraquecem as pernas e fazem a cabeça andar à volta, os odores frios são cortantes como o vento do norte, as fatias douradas refulgem na luz, há patos inteiros, a pele como laca antiga, bolinhos de cristal, queijos leitosos e macios como luas, terrinas fumegantes com carnes tenras e picantes, peixes rosados de olhos glaucos, cardumes de lagostas agressivas como soldados em batalha.

“Por que não sai ela do quarto?” dizem as vozes, “ de que tem medo, ele ama-a tanto, é tão terno, olhem que belo par!…”
*

Que sabem as vozes das rotas do amor? Como podem falar assim, do que nem eu conheço? De paixão sim, que assim nasci, paixão que não esqueço, paixão perigosa, nefasta, insustentável. De amor se fala agora e nada sei.

O meu noivo irrompe pelo quarto, olhar feroz, mão estendida num gesto imperativo, sem margem para dúvidas. Olho o espaço que já não me quer, o espelho alto onde me revejo uma ultima vez. A luz branca invade tudo, para lá dos vidros o jardim escurece envolto em sombras. Na clareira, desenham-se formas fantásticas, tufos, espirais, estrias, rastos de lua.

Estendo o braço e avanço com o meu vestido de espinhos, o corpo em fogo, o coração a latejar, os teus olhos cegos cravados nos meus. Longe vão as noites em que suspirávamos um pelo o outro neste mesmo leito, entrelaçados, impossível separarmo-nos, a minha mão na tua, a tênue claridade a iluminar o teu perfil ardente.

Devagarinho, fecho a porta atrás de mim.

Fonte:
“Storm-Magazine” março de 2007.

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Helena Vasconcelos

Helena Vasconcelos nasceu em Lisboa, Portugal.

Foi para a Índia com quatro anos e, desde então, nunca mais parou de viajar.

Formada pela Faculdade de Letras; em Filologia Germânica pela Universidade Clássica Lisboa e em História de Arte na Escola Arco, Lisboa, tem como ocupações principais escrever, ler e viajar.

É atualmente, e desde o primeiro número, colaboradora permanente da revista ELLE portuguesa.

Colabora com o “Jornal Público” desde a sua fundação – suplemento cultural Y – tendo também trabalhado no jornal “O Independente”.

Promove ações de Formação na área de apoio e divulgação à Leitura em Bibliotecas Municipais, orientando Comunidades de Leitores em Bibliotecas e, desde há cinco anos, na Culturgest, em Lisboa.

É promotora e dinamizadora de “Os Clássicos na Gulbenkian”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa;

Organizou os ciclos de conferências da Feira do Livro de Lisboa de 2004 e de 2005 (com Paula Moura Pinheiro).

Escreveu sobre Arte em vários jornais, catálogos e revistas da especialidade, dos quais se destacam Neue Kunst in Europa (Alemanha), Juliet (Itália).

Publicou um livro de contos em 1988 “Não Há Horas para Nada” (Ed. Relógio D’Água) que recebeu o Prêmio Revelação do Centro Nacional de Cultura.

Publicou “Mário Eloy. O Pintor do Desassossego”, Ed. Caminho.

Contribuiu com “short stories” para várias revistas portuguesas e estrangeiras.

Criou e dirige a revista on-line “Storm-Magazine. O lugar da cultura” – http://www.storm-magazine.com.

Fonte:
Projeto Releituras

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Arquivado em Biografia, Portugal

Lino Mendes (Baú de Memórias: A Páscoa)

Embora nesses tempos (1920/1930) a religiosidade fosse maior entre as nossas gentes, pois para assistir a Missa ou mesmo rezar o terço muitos eram os que vinham dos arredores (do campo). A quadra da PÁSCOA já tinha ultrapassado as fronteiras do religioso, pois a crentes e não crentes se ouvia logo de manhã (domingo) o desejo de uma “Boa Páscoa. ”Como em todo o lado a Quaresma começava à “Quarta-Feira de Cinzas” o que não impedia que nesse mesmo dia se realizasse o “Enterro do Santo Entrudo”que viria a ser proibido de maneira brutal aí por 1950, e terminava no Sábado de Aleluia pelas 10 horas quando os sinos repicavam na torre da Igreja enquanto a garotada, batendo as “ matracas “diziam” Aleluia, Aleluia, Cristo Ressuscitou”.

Mais tarde começaram a dizer “Aleluia, Aleluia, Bacalhau” para a rua. É que de uma maneira geral a população respeitava o jejum não comendo carne no dia de sexta-feira. Nos meios-dias santos,—de quinta feira ao meio-dia a sexta feira à mesma hora –não se trabalhava, não  se mexia em terra, e às 15 horas dessa mesma sexta-feira, em casa ou no trabalho, respeitava-se um minuto de silêncio.

Ainda durante a “Quaresma” e também mais ou menos até aos anos 50, mais concretamente na terceira quarta-feira tinha lugar a “Serração das Velhas”.

     Diga-se, entretanto, que a PÁSCOA tem lugar no 1º domingo depois da Lua Cheia que ocorra no dia ou depois do dia 21 de Março. É uma festa móvel que ocorre 47 dias depois da “Quarta-feira de Cinzas”.

     A “Semana Santa”, durante a qual decorrem as cerimónias relativas às várias fases do processo que leva à crucificação, tem início no domingo anterior (Domingo de Ramos), que simboliza a entrada de Jesus em Jerusalém, e durante o qual são benzidos os “ramos de palmeira”.
   
     PÁSCOA é tempo de festa, que se no aspecto religioso difere de terra para terra, o mesmo acontece no campo do lúdico, mas com a simbologia a não ter fronteiras. O “ovo” (símbolo do nascimento), o “folar”, as “amêndoas”, o pão e o vinho”(que representam a última ceia do Senhor), o “círio” (a grande vela que se acende na aleluia) são entre outros , símbolos que marcam esta quadra.
       
     Curiosamente, e sem que saibamos o por quê, em Montargil não são ramos de palmeira que se benzem mas sim de alecrim e de oliveira que são depois colocados em cruzes de cana, nas hortas e nas cearas. Havia até quem colocasse duas cruzes, uma voltada para a outra.

 Entretanto e décadas atrás (1920/1930) era por aqui tradição que ao domingo de Páscoa os pastores viessem dos campos à vila para comprar as amêndoas. É certo que o dinheiro era pouco, mas as amêndoas (de massa de centeio) eram baratas e vendiam -se ao preço de dois tostões a meia-quarta. Aliás, houve tempo em que nesta “quadra” se andava pela rua “rifando” pacotes de amêndoas—era o “Caçurras”, embora este não saísse da porta da taberna, era o “Rabanita” e era o “Perneta” e se calhar outros que agora não recorda. A cada jogador ( teriam que ser entre 3  a 9 e por um tostão eram dadas três cartas de um baralho de que se retiravam as figuras ganhando aquele que tivesse a carta com mais pintas.

    Outro costume que também desapareceu, era o do “enganchar”. Rapariga com rapaz ou rapariga com rapariga, enganchando dedo mininho com dedo mininho diziam “enganchar, enganchar, para na quaresma fazer rezar”, e quem no domingo de Páscoa se deixasse enganar, isto é, se deixasse fazer rezar primeiro ,—apontava-se e  dizia-se Reza –lá tinha que dar o “folar”, que normalmente era um pacote de amêndoas . Mais tarde e ao enganchar já se dizia, ”enganchar, enganchar, para na Páscoa fazer rezar”.

    Os que ” enganchavam” ficavam “compadres” (Compadres da Páscoa),e  o “folar” constava sempre de amêndoas, mas no caso das raparigas estas ofereciam sempre mais qualquer coisa como por exemplo uma “gravata”, um “lenço” ou um “colarinho”que nesse tempo era desligado da  camisa. Claro que havia sempre retribuição daquele que fazia “rezar”.

     Nalguns pontos do país também é dado o nome de “folar” a um bolo que se faz por esta altura (e não só, creio) mas  foi hábito que por aqui não se enraizou. No entanto, aí pelos anos 1945/50, o Mestre Alfredo, um verdadeiro artista na arte de padeiro, fazia um “folar” da  massa das “arrufadas”, que como se sabe é um  bolo pouco doce. De formato circular, levava ao centro um ovo e cruzando sobre o mesmo duas “asas” como as das cestas e naturalmente da mesma massa. Era então cozido no forno a lenha o que como se sabe lhe dava outro sabor.

      Quanto à gastronomia, a ementa era a canja de galinha ou de peru (este em casas mais endinheiradas), e as ditas aves assadas no forno a lenha (que lhe dava um outro sabor). À quinta e/ou  à sexta feira santa (dias em que não se comia carne) o bem tradicional arroz com castanhas. No que respeita a doces, as afamadas tigeladas, e os doces de amêndoa (os queijinhos e as tortas). Mas também nos falaram no chibo e no borrego assados (mas em fornos a lenha) havendo ainda quem nos fale, para o almoço, da sopa de pé de porco .

    Durante muitos anos, a “Procissão dos Passos” que merecia uma enorme adesão, realizava-se no “Domingo de Ramos” para não coincidir com a que aqui ao lado se realizava em Cabeção. Durante a mesma, que percorria a Rua do Comércio e a Rua da Misericórdia, estava assinalada a “Via Sacra”sendo cada uma das 14 “estações” marcada por um altar, que determinava uma paragem do cortejo, sendo então entoado um cântico alusivo ao acontecimento, com acompanhamento de algum instrumental— Contrabaixo (Chico Lourenço), Trompete (José Arlindo) e Clarinete (Fouchinha) enquanto o maestro Alves do Carmo emprestava a voz. O  Sermão do Encontro”  tinha lugar ou frente à Travessa dos Combatentes com o orador na varanda do Pailó (já numa segunda fase) ou então  frente ao Moura (com o orador na varanda da casa deste). Era um momento emotivo, que sensibilizava mesmo os não crentes..

O “ Baile da Pinha” realizava-se no domingo anterior à Páscoa.

E na segunda-feira (de Páscoa) embora fosse dia de trabalho, era costume  ir-se  em grupos fazer “piqueniques” no campo, pelo que muitos nesse dia tomavam uma “empreitada” para poderem ir para a festa.

Domingo de Páscoa era altura em se realizavam muitos batizados, mas em  tempos mais remotos  era Domingo de Pascoela  a data escolhida , chegando a ser 45 no mesmo dia

Fonte:
O Autor

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Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXIV)

Sonetos
(foi mantida a grafia original)

071

Como fizeste, Pórcia, tal ferida?
Foi voluntária, ou foi por inocência?
—Mas foi fazer Amor experiência
se podia sofrer tirar me a vida.

—E com teu próprio sangue te convida
a não pores à vida resistência?
—Ando me acostumando à paciência,
porque o temor a morte não impida.

—Pois porque comes, logo, fogo ardente,
se a ferro te costumas?—Porque ordena
Amor que morra e pene juntamente.

E tens a dor do ferro por pequena?
—Si: que a dor costumada não se sente;
e eu não quero a morte sem a pena.

043

Como quando do mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado,
d’um naufrágio cruel já salvo a nado,
só ouvir falar nele o faz medroso;

e jura que em que veja bonançoso
o violento mar, e sossegado
não entre nele mais, mas vai, forçado
pelo muito interesse cobiçoso;

Assi, Senhora eu, que da tormenta,
de vossa vista fujo, por salvar me,
jurando de não mais em outra ver me;

minh’alma que de vós nunca se ausenta,
dá me por preço ver vos, faz tornar me
donde fugi tão perto de perder me.

093

Conversação doméstica afeiçoa,
ora em forma de boa e sã vontade,
ora de üa amorosa piedade,
sem olhar qualidade de pessoa.

Se despois, porventura, vos magoa
com desamor e pouca lealdade,
logo vos faz mentira da verdade
o brando Amor, que tudo em si perdoa.

Não são isto que falo conjecturas,
que o pensamento julga na aparência,
por fazer delicadas escrituras.

Metido tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que me ensinou a viva experiência.

104

Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o Verão, passou o ardente Estio,
üas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.

052

Dai me üa lei, Senhora, de querer vos,
que a guarde, sô pena de enojar vos;
que a fé que me obriga a tanto amar vos
fará que fique em lei de obedecer vos.

Tudo me defendei, senão só ver vos,
e dentro na minh’alma contemplar vos;
que, se assi não chegar a contentar vos,
ao menos que não chegue [a] aborrecer vos.

E, se essa condição cruel e esquiva,
que me dois lei de vida não consente,
dai ma, Senhora, já, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva,
sem saber como vivo, tristemente,
mas contente porém de minha sorte.

150

À sepultura de D. Fernando de Castro

Debaixo desta pedra está metido,
das sanguinosas armas descansado,
o capitão ilustre, assinalado,
Dom Fernando de Castro esclarecido.

Por todo o Oriente tão temido,
e da enveja da fama tão cantado,
este, pois, só agora sepultado,
está aqui já em terra convertido.

Alegra-te, ó guerreira Lusitânia
por este Viriato que criaste,
e chora-o, perdido, eternamente.

Exemplo toma nisto de Dardânia;
que, se a Roma co ele aniquilaste,
nem por isso Cartago está contente.

094

Despois que quis Amor que eu só
passasse quanto mal já por muitos repartiu,
entregou me à Fortuna, porque viu
que não tinha mais mal que em mim mostrasse.

Ela, porque do Amor se avantajasse
no tormento que o Céu me permitiu,
o que para ninguém se consentiu,
para mim só mandou que se inventasse.

Eis me aqui vou com vário som gritando,
copioso exemplário para a gente
que destes dous tiranos é sujeita,

desvarios em versos concertando.
Triste quem seu descanso tanto estreita,
que deste tão pequeno está contente!

152

Despois que viu Cibele o corpo humano
do fermoso Átis seu verde pinheiro,
em piedade o vão furar primeiro
convertido, chorou seu grave dano.

E, fazendo a sua dor ilustre engano,
a Júpiter pediu que o verdadeiro
preço da nova palma e do loureiro,
ao seu pinheiro desse, soberano.

Mais lhe concede o filho poderoso
que, as estrelas, subindo, tocar possa,
vendo os segredos lá do Céu superno.

Oh! ditoso Pinheiro! Oh! mais ditoso
quem se vir coroar da folha vossa,
cantando à vossa sombra verso eterno!

153

De tão divino acento e voz humana,
de tão doces palavras peregrinas,
bem sei que minhas obras não são dinas,
que o rudo engenho meu me desengana.

Mas de vossos escritos corre e mana
licor que vence as águas cabalinas;
e convosco do Tejo as flores finas
farão enveja à cópia mantuana.

E pois, a vós de si não sendo avaras,
as filhas de Mnemósine fermosa
partes dadas vos tem, ao mundo caras,

a minha Musa e a vossa tão famosa,
ambas posso chamar ao mundo raras:
a vossa d’alta, a minha d’envejosa.

Fonte:
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)
Imagem formatada obtida na internet, sem identificação do autor.

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Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXIII)

Sonetos
(foi mantida a grafia original)

051

Apolo e as nove Musas, discantando
com a dourada lira, me influíam
na suave harmonia que faziam,
quando tomei a pena, começando:

— Ditoso seja o dia e hora, quando
tão delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
estar se em seu desejo traspassando!

Assi cantava, quando Amor virou
a roda à esperança, que corria
tão ligeira que quase era invisível.

Converteu se me em noite o claro dia;
e, se algüa esperança me ficou,
será de maior mal, se for possível.

041

Aquela fera humana que enriquece
sua presuntuosa tirania
destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando crece;

Se nela o Céu mostrou (como parece)
quanto mostrar ao mundo pretendia,
porque de minha vida se injuria?
Porque de minha morte s’enobrece?

Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer me e cativar me:
fazei disto no mundo larga história.

Que, por mais que vos veja maltratar me,
já me fico logrando desta glória
de ver que tendes tanta de matar me.

098
Aquela que, de pura castidade,
de si mesma tomou cruel vingança
por üa breve e súbita mudança,
contrária a sua honra e qualidade

(venceu à fermosura a honestidade,
venceu no fim da vida a esperança
porque ficasse viva tal lembrança,
tal amor, tanta fé, tanta verdade!),

de si, da gente e do mundo esquecida,
feriu com duro ferro o brando peito,
banhando em sangue a força do tirano.

[Oh!] estranha ousadia ! estranho feito !
Que, dando breve morte ao corpo humano,
tenha sua memória larga vida!

091

Fermosos olhos que na idade nossa
mostrais do Céu certissimos sinais,
se quereis conhecer quanto possais,
olhai me a mim, que sou feitura vossa.

Vereis que de viver me desapossa
aquele riso com que a vida dais;
vereis como de Amor não quero mais,
por mais que o tempo corra e o dano possa.

E se dentro nest’alma ver quiserdes,
como num claro espelho, ali vereis
também a vossa, angélica e serena.

Mas eu cuido que só por não me verdes,
ver vos em mim, Senhora, não quereis:
tanto gosto levais de minha pena!

116

Aqueles claros olhos que chorando
ficavam quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?

Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou s’estarão aquele alegre dia
que torne a vê-los, n’alma figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos,
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!

038

Arvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruto debuxando;

que, pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

160

À sepultura de del-Rei dom João Terceiro
Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
tão ilustres sinais no forte escudo?
– Ninguém; que nisso, enfim, se toma tudo
mas foi quem tudo pôde e tudo teve.

Foi Rei?- Fez tudo quanto a Rei se deve;
pôs na guerra e na paz devido estudo;
mas quão pesado foi ao Mouro rudo
tanto lhe seja agora a terra leve.

Alexandre será?- Ninguém se engane;
que sustentar, mais que adquirir se estima.
– Será Adriano, grão senhor do mundo?

Mais observante foi da Lei de cima.
– E Numa?- Numa, não; mas é Joane:
de Portugal terceiro, sem segundo.

096

Bem sei, Amor, que é certo o que receio;
mas tu, porque com isso mais te apuras,
de manhoso mo negas, e mo juras
no teu dourado arco; e eu to creio.

A mão tenho metida no teu seio,
e não vejo meus danos às escuras;
e tu contudo tanto me asseguras,
que me digo que minto, e que me enleio.

Não somente consinto neste engano,
mas inda to agradeço, e a mim me nego
tudo o que vejo e sinto de meu dano.

Oh! poderoso mal a que me entrego!
Que, no meio do justo desengano,
me possa inda cegar um Moço cego!

003

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

120

Cá nesta Babilónia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá onde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

cá, onde o mal se afina, e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a desengana;

cá, neste labirinto, onde a nobreza
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;

cá neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

103

Cantando estava um dia bem seguro quando,
passando, Sílvio me dizia
(Sílvio, pastor antigo, que sabia
pelo canto das aves o futuro):

—Méris, quando quiser o fado escuro,
oprimir-te virão em um só dia
dous lobos; logo a voz e a melodia
te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assi: porque um me degolou
quanto gado vacum pastava e tinha,
de que grandes soldadas esperava;

E outro por meu dano me matou
a cordeira gentil que eu tanto amava,
perpétua saudade da alma minha!

086

Cara minha inimiga, em cuja mão
pôs meus contentamentos a ventura,
faltou te a ti na terra sepultura,
porque me falte a mim consolação.

Eternamente as águas lograrão
a tua peregrina fermosura;
mas, enquanto me a mim a vida dura,
sempre viva em minh’alma te acharão.

E se meus rudos versos podem tanto
que possam prometer te longa história
daquele amor tão puro e verdadeiro,

celebrada serás sempre em meu canto;
porque enquanto no mundo houver memória,
será minha escritura teu letreiro.

159

Chorai, Ninfas, os fados poderosos
daquela soberana fermosura!
Onde foram parar na sepultura
aqueles reais olhos graciosos?

Ó bens do mundo, falsos e enganosos!
Que mágoas para ouvir! Que tal figura
jaza sem resplandor na terra dura,
com tal rosto e cabelos tão fermosos!

Das outras que será, pois poder teve
a morte sobre cousa tanto bela
que ela eclipsava a luz do claro dia?

Mas o mundo não era dino dela,
por isso mais na terra não esteve;
ao Céu subiu, que já “se” lhe devia.

097

Com grandes esperanças já cantei,
com que os deuses no Olimpo conquistara;
depois vim a chorar porque cantara
e agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
custa me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
tenho pola mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro n’alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?

Fonte:
CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)

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Trova 257 – Mário de Sá-Carneiro (Lisboa/Portugal)

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31 de março de 2013 · 00:55

Carlos Leite Ribeiro (A Maçã)

Imagem por Iara Melo
E eu aqui metida nesta ambulância, cheia de dores.

Nunca mais chegamos ao hospital ! e tudo começou por causa de uma maçã!…

Era eu pequenita e andava na escola primária, e, no trajecto de regresso à minha pobre casa, passava sempre pela frutaria do pai do Artur.

Naquele dia, num dos expositores que ficavam em cima do passeio, estavam em exposição uma belas e lustrosas maçãs. Os meus pais eram pobres e eu já há muito que não comia fruta.

Parei extasiada a admirar as maçãs. Tive a tentação de roubar uma, mas hesitei. Foi quando atrás de mim apareceu o Artur, que me disse:

“Ana, estas maçãs devem ser muito saborosas!…”.

“Sim ! devem ser uma delícia, Artur …” – respondi eu ao meu colega de escola.

“Porque não compras uma ?!” – perguntou-me o Artur.

“Olha, porque não tenho dinheiro. Bem sabes que os meus pais são muito pobres” – disse-lhe já quando me afastava.

No outro dia, na hora do recreio, o Artur abeirou-se de mim, e, timidamente, entregou-me um saco de papel, dizendo:

“Toma, isto é para ti, Ana”.

Curiosamente, rasguei o saco e, lá dentro estava uma bela e lustrosa maçã!

As lágrimas saltaram-me e tive vontade de o abraçar.

Mas o Artur já se tinha retirado …

Durante anos, o Artur sempre me presenteou com saquinhos de papel, tendo lá dentro sempre uma maçã.

E, por causa da maçã, um belo dia casamos; e, também por causa da maçã, vou aqui dentro desta ambulância a caminho do hospital, onde conto dar à luz o nosso primeiro filho.

Uma maçã dada pela Eva, dizem que atrapalhou o Adão; e uma maçã dada pelo Artur, está a atrapalhar-me e dar-me muitas dores.

Mas dentro em pouco o fruto do nosso grande amor nascerá, e, tudo voltará à normalidade.

E tudo isto por causa de uma maçã !!!

Fonte:
O Autor

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Luis Vaz de Camões (Caravela da Poesia XXII)

Sonetos

136
A fermosura fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.

114

Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!
Quão asinha em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes,
agora descansais com meus cuidados.

Deixastes-me sentir os bens passados,
para mor dor da dor que me ordenastes;
então nü’hora juntos mos levastes,
deixando em seu lugar males dobrados.

Ah! quanto milhor fora não vos ver,
gostos, que assi passais tão de corrida,
que fico duvidoso se vos vi:

sem vós já me não fica que perder,
se não se for esta cansada vida,
que por mor perda minha não perdi.

101

Ah! minha Dinamene! Assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te?
Ah! Ninfa! Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste!

Como já para sempre te apartaste
de quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te,
que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura morte
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste!

Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!
Que pena sentirei, que valha tanto,
que inda tenho por pouco o viver triste?

013

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.

080

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer te
algüa causa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver te,
quão cedo de meus olhos te levou.

083

Amor, co’a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta te com as lágrimas que choro.

005

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

042

Amor, que o gesto humano n’alma escreve,
vivas faíscas me mostrou um dia,
donde um puro cristal se derretia
por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
por se certificar do que ali via,
foi convertida em fonte, que fazia
a dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
causa o primeiro efeito; o pensamento
endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera num momento,
de lágrimas de honesta piedade
lágrimas de imortal contentamento.

058

A Morte, que da vida o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Ausência, que é contr’ ele espada fera,
e co’ Tempo, que tudo desbarata.

Duas contrárias, que üa a outra mata,
a Morte contra o Amor ajunta e altera:
üa é Razão contra a Fortuna austera,
outra, contra a Razão, Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potência
a Morte em apartar dum corpo a alma,
duas num corpo o Amor ajunte e una;

porque assi leve triunfante a palma,
Amor da Morte, apesar da Ausência,
do Tempo, da Razão e da Fortuna.

068

Apartava se Nise de Montano,
em cuja alma partindo se ficava;
que o pastor na memória a debuxava,
por poder sustentar se deste engano.

Pelas praias do Índico Oceano
sobre o curvo cajado s’encostava,
e os olhos pelas águas alongava,
que pouco se doíam de seu dano.

Pois com tamanha mágoa e saudade
(dezia) quis deixar me a que eu adoro,
por testemunhas tomo Céu e estrelas.

Mas se em vós, ondas, mora piedade,
levai também as lágrimas que choro,
pois assi me levais a causa delas!

Fontes:

  • CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro . Texto-base digitalizado por: FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (http://www.fccn.pt) IBL – Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (http://www.ibl.pt)
  • Imagem formatada com imagem obtida na internet, sem identificação do autor.

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Alberto Caeiro (Caravela da Poesia XXI)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

SE EU MORRER NOVO

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

SE DEPOIS DE EU MORRER

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

SE O HOMEM FOSSE

Se o homem fosse, como deveria ser,
Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais.
Animal directo e não indirecto,
Devia ser outra a sua forma de encontrar tini sentido às cousas,
Outra e verdadeira.
Devia haver adquirido um sentido do “conjunto”;
Um sentido como ver e ouvir do “total” elas cousas
E não, como temos, um pensamento do “conjunto”;
E não, como temos, uma idéia, do “total” das cousas.
E assim — veríamos — não teríamos noção do “conjunto” ou do “total”,
Porque o sentido do “total” ou do “conjunto” não vem de um total ou de um
conjunto
Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

TAMBÉM SEI FAZER CONJETURAS

Também sei fazer conjeturas.
Há em cada cousa aquilo que ela é que a anima.
Na planta está por fora e é urna ninfa pequena.
No animal é um ser interior longínquo.
No homem é a alma que vive com ele e é já ele.
Nos deuses tem o mesmo tamanho
E o mesmo espaço que o corpo
E é a mesma cousa que o corpo.

TODAS AS OPINIÕES

Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?

Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

TU, MÍSTICO

Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.

Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.
Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.

UM DIA DE CHUVA

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.

ÚLTIMA ESTRELA

Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trêmulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim;
Alegre pelo critério (?) que tenho em Poder ver-te
Sem “estado de alma” nenhum, sonho ver-te.
A tua beleza para mim está em existires
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.

UMA GARGALHADA

Uma Gargalhada de rapariga soa do ar da estrada.
Riu do que disse quem não vejo.
Lembro-me já que ouvi.
Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada,
Direi: não, os montes, as terras ao sol o sol, a casa aqui,
E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois
lados da cabeça

VERDADE, MENTIRA

Verdade, mentira, certeza, incerteza…
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos
e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.

VIVE

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Fonte:
Poemas Inconjuntos (http://www.cfh.ufsc.br/~magno/inconjuntos.htm)
Imagem formatada com sobreposição de figuras modificadas com imagens obtidas na internet, sem identificação do autor.

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Soares de Passos (A Fonte dos Amores)

Eis os sítios formosos, onde a triste
Nos dias d’ilusão viveu ditosa;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d’amor inda lhe guardam.
Oh! quantas vezes, solitária fonte,
Após longo vagar por esses campos
Do plácido Mondego, nestas margens
A namorada Inês veio assentar-se,
E ausente de seu bem carpir saudosa,
Aos montes e às ervinhas ensinando
O nome que no peito escrito tinha!
E quantas, quantas vezes no silêncio
Desta grata soidão viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a sós felizes,
Nos êxtases da terra os céus gozando!

Pobre, infeliz Inês! breves passaram
Os teus dias d’amor e de ventura.
Ao régio moço o coração renderas,
E o que em todos é lei, em ti foi crime.
Eis do bárbaro pai, do rei severo,
Se arma a dextra feroz, ei-lo que aos sítios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante do teu bem, ao desamparo,
Ai! não pudeste conjurar-lhe as iras.
Debalde aos pés d’Afonso lacrimosa
Pediste compaixão; debalde em ânsias
Abraçando teus filhinhos inocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade: a voz dos ímpios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Ei-los a ti correndo, ei-los que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio cristalino,
Que tanto amou, oh bárbaros! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonizante, os doces filhos
Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos inocentes abraçada expiras.

Inda, infeliz Inês, inda saudosos
Estes sítios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os ecos, brisas,
Parecem murmurar a infanda história;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
Como que em som queixoso inda repete
Às margens, e aos rochedos comovidos
Teu derradeiro, moribundo alento.

Fonte:
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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Alberto Caeiro (Caravela da Poesia XX)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

POUCO A POUCO

Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espetáculo que vejo: vejo-o,
É exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele.
E é esse sentimento que me liga à manhã que aparece.
Pouco me Importa
Pouco me importa.
Pouco me importa o que?
Não sei: pouco me importa.
Primeiro Prenúncio
Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.
As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço,
Da trovoada de depois de amanhã?
Tenho a certeza, mas a certeza é mentira.
Ter certeza é não estar vendo.
Depois de amanhã não há.
O que há é isto:
Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois.
Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?
Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã
Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.
Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,
Mas se eu não estiver no mundo.
O mundo será diferente —
Haverá eu a menos —
E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada
Pastor do Monte
Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol.

QUANDO TORNAR A VIR A PRIMAVERA

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

QUANDO VIER A PRIMAVERA
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

QUANDO ESTÁ FRIO

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas

O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

QUANDO A ERVA CRESCER
Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja este o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de “interpretar” a erva verde
sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.

SEJA O QUE FOR

Seja o que for que esteja no centro do Mundo,
Deu-me o mundo exterior por exemplo de Realidade,
E quando digo “isto é real”, mesmo de um sentimento,
Vejo-o sem querer em um espaço qualquer exterior,
Vejo-o com uma visão qualquer fora e alheio a mim.

Ser real quer dizer não estar dentro de mim.
Da minha pessoa de dentro não tenho noção de realidade.
Sei que o mundo existe, mas não sei se existo.
Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono da casa branca.
Creio mais no meu corpo do que na minha alma,
Porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade.
Podendo ser visto por outros,
Podendo tocar em outros,
Podendo sentar-se e estar de pé,
Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora.
Existe para mim — nos momentos em que julgo que efetivamente
Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo

Se a alma é mais real
Que o mundo exterior como tu, filósofos, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da realidade”

Se é mais certo eu sentir
Do que existir a cousa que sinto —
Para que sinto
E para que surge essa cousa independentemente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?
Para que me movo com os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
Cousa por cousa, o Mundo é mais certo.

Mas por que me interrogo, senão porque estou doente?
Nos dias certos; nos dias exteriores da minha vida,
Nos meus dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim.
Mas) tão sublimemente não-meu.

Quando digo “é evidente”, quero acaso dizer “só eu é que o vejo”?
Quando digo “é verdade”, quero acaso dizer “é minha opinião”?
Quando digo “ali está”, quero acaso dizer “não está ali”?
E se isto é assim na vida, por que será diferente na filosofia?
Vivemos antes de filosofar, existimos antes de o sabermos,
E o primeiro fato merece ao menos a precedência e o culto.

Sim, antes de sermos interior somos exterior.
Por isso somos exterior essencialmente.

Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo.
Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma filosofia,
Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,
E isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?

Fonte:
Poemas Inconjuntos (http://www.cfh.ufsc.br/~magno/inconjuntos.htm)
Imagem formatada com sobreposição de figuras modificadas com imagens obtidas na internet,
sem identificação do autor.

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Alberto Caeiro (Caravela da Poesia XIX)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

FALAS DE CIVILIZAÇÃO
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

GOZO OS CAMPOS
Gozo os campos sem reparar para eles.
Perguntas-me por que os gozo.
Porque os gozo, respondo.
Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente
E ter uma noção do seu perfume nas nossas idéias mais apagadas.
Quando reparo, não gozo: vejo.
Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva,
Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos
À dureza fresca da terra cheirosa e irregular;
E alguma cousa dos ruídos indistintos das cousas a existir,
E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas,
E só um resto de vida ouve.

HOJE DE MANHÃ

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer…

Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

NÃO BASTA

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

NAVIO QUE PARTES

Navio que partes para longe,
Por que é que, ao contrário dos outros,
Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
E se se tem saudades do que não existe,
Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.

NOITE DE SÃO JOÃO

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

NUNCA SEI

Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
Só se é por um poente não ter uma madrugada.
Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?

O ESPELHO

O espelho reflete certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

ONTEM O PREGADOR

Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer.
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse faze-lo zangar-se.

O QUE OUVIU OS MEUS VERSOS
O que ouviu os meus versos disse-me: “Que tem isso de novo?
Todos sabem que unia flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.
Mas eu respondi, nem todos, (?………. )
Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente
E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.
Eu amo as flores por serem flores, diretamente.
Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.

O ÚNICO MISTÉRIO DO UNIVERSO

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.

O UNIVERSO

O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Fonte:
Poemas Inconjuntos (http://www.cfh.ufsc.br/~magno/inconjuntos.htm)
Imagem formatada com sobreposição de figuras modificadas com imagens obtidas na internet, sem identificação do autor.

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Soares de Passos (O Buçaco)

Oh! salve, irmão do Líbano,
Que altivo ergues a fronte,
Monarca destas serras,
Senhor da solidão!
Salve, gigante cúpula,
Que ostentas no horizonte,
Erguida sobre as terras,
A cruz da Redenção!

Em teus agrestes píncaros
O homem vive e sente
Mais longe deste mundo,
Mais próximo dos céus:
Por isso, nos seus êxtases,
O monge penitente
Aqui meditabundo
Se erguia aos pés de Deus.

Por largo tempo o cântico
Do pobre cenobita
Soou na ermida rude
Da tua solidão:
Hoje o silêncio lúgubre
Somente nela habita,
Silêncio d’ataúde
Em fúnebre mansão.

Porém se os coros místicos
Findaram sua reza,
Se a voz do santo hossana
Em ti já feneceu;
Tu vives, e inda incólume
Ao Deus da natureza,
Calada a voz humana,
Descantas o hino teu.

Oh! como és belo, erguendo-te
À luz do novo dia,
Que os mantos de verdura
Te banha de fulgor!
Quando o gemer dos zéfiros,
Das aves a harmonia,
Acordam na espessura
Louvando o Criador!

Mas quanto mais esplêndido
Serás quando a tormenta,
Sublime, rugidora,
Em teu regaço cai!
Quando de mil relâmpagos
Teu cume se apresenta
C’roado, como outrora
O fulgido Sinai!

Quando os tufões indómitos,
Rugindo nas escarpas,
Se abraçam às torrentes
Com hórrido fragor!
Depois, em negro vórtice,
Desferem nas mil harpas
De teus cedros ingentes
Um cântico ao Senhor!

Tu és grandioso; o ânimo
Que a sós aqui medita
Recolhe altas imagens
De santa inspiração.
Oh! porque veio túrbida
A guerra atroz, maldita,
Soltar nestas paragens
As vozes do canhão?

Dum lado eram as bélicas
Hostes de Bonaparte;
Do outro heróico e ufano
O povo português:
A liberdade e a pátria,
Ergueu seu estandarte,
E a história do tirano
Contou mais um revés.

Tudo passou: sumiram-se
Vencidos, vencedores;
Té mesmo do gigante
Soou a hora fatal;
Só tu, sorrindo impávido
Do tempo e seus furores,
Inda ergues arrogante
Teu vulto colossal.

E cada vez que fulgido
Renasce o novo dia,
De nova luz te banhas,
Despindo os negros véus;
E dizes, em teu júbilo,
Ao sol que te alumia:
– O rei destas montanhas
Saúda o rei dos céus.

Depois, ao vê-lo pálido
Nas vagas do horizonte,
Pareces ao mar vasto
Dizer com altivez:
Em teu regaço, ó pélago,
Tu lhe sumiste a fronte:
Avança, que de rasto
Virás beijar-me os pés.

Fonte:
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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Carlos Leite Ribeiro (Dois Amigos)

Depois de aposentado, o Ricardo vagueava pelas ruas da Baixa de Lisboa, para passar o tempo e recordar antigos episódios da sua vida. Nesse dia, por casualidade, passou pelo café onde seu amigo Alberto passava as tardes a ler o jornal. Entrou no café e dirigiu-se logo para a mesa onde seu amigo estava.

– Olá, Alberto, como vai essa saúde? Passas o tempo aqui sentado e daqui a pouco nem andar consegues!

– Tinha o pressentimento que algo desagradável me ia acontecer hoje. Não sabia o que era, mas com certeza que eras tu que me ias aparecer! Já me vai correr a tarde mal. Tu que andas sempre a vaguear pela Baixa, hoje deu-te para entrares aqui neste café posso perguntar porquê?

– Porque? Porque tinha saudades tuas e queria cumprimentar o meu querido amigo, Alberto.

– Querido amigo? Por favor não me ofendas com esse termo tão nobre, quando é verdadeiro!

– É o que eu sou: nobre e verdadeiro. E vim cá dizer-te que ontem vi a tua querida Lena ainda te recordas dela?

– És um verdadeiro finório (cara de pau). E o que eu tenho com isso?

– Como foi a tua amada pensei que ficasses feliz por eu a ter encontrado.

– És mesmo impossível. És sempre o mesmo amigo da onça!

– Não sei porquê, pois até na altura tive a gentileza de te apresentar a ela, o que ficaste (na altura) muito contente. Pois uma avião (moça linda e apetecível não aparecia todos os dias)!

– Já conheço essa conversa tua há muito, grande (nem te quero classificar). Mas em que falaram. De mim?

– De ti não! Falámos das nossas anteriores passagens pela vida. Mas vou contar-te tudo tim-tim por tim-tim?

Ontem fui dar um passeio até ao Terreiro do Paço e junto à muralha que separa o rio Tejo, vi ao longe um vulto de mulher que não me era desconhecida. Aproximei-me dela e qual o meu espanto que reconheci a Madalena. A nossa conhecida Lena!

– Olha quem encontro aqui, a minha querida e inesquecível amiga Lena!

– O que é que fazes aqui? Já pensava que tivesses morrido (o que não seria nenhuma pena?).

– Passei casualmente por aqui e mesmo de costas reconheci-te. Ainda hoje és uma avião, embora diferente do que conheci há anos, é certo respondeu-lhe ele.

– Para ti é tudo casualmente, grande finório (cara de pau). Deves estar a recordar as malandrices que fizeste na outra Banda (margem esquerda do Tejo), principalmente em Cacilhas e em Almada?

– Recordo-me daquela vez em que me convidaste a jantar no Ginjal (Cacilhas); não me recordo bem em que restaurante. Seria no Floresta?

– Nesse não foi de certeza, pois era muito caro para a minha bolsa. Foi no restaurante Elias.

– Recordo-me. Até notei que tu eras freguês habitual daquele restaurante, pois o garçon piscou-te o olhos e levou-nos para a tua mesa preferida, junto de uma janela que se via o Tejo e grande parte de Lisboa.

– Lena, tu tens boa memória! Claro que tinha ido algumas vezes a esse restaurante ? com os meus pais.

– Deixa-me rir ahahah. Que ingénua eu era nessa altura. Depois do jantar, quiseste que eu fosse a uma pequena praia que ficava mais adiante do Gihjal, onde tu dizias que tinhas pescado muito, com uma armação de dois varões de ferro; fazias um triângulo com a linha e colocavas um sinizinho; depois lançavas a linha ao mar e quando o peixe picava, o sininho tocava? Cara de Pau.

– Lena, a minha intenção era ensinar-te a arte de pescar, nada mais?

– Ricardo, quase que estou a acreditar (só quase) é que depois desse ensinamento, passaste à pesca em alto mar, e longe do razoável:

– Parece que me estou a recordar, sim. Sabes que esta memória já não é a que foi!

– Cara de Pau! Perdemos com a conversa o último barco para Lisboa, pois quando chegámos ao cais de embarque, já o ferryboat tinha partida há mais de uma hora. E ficámos no teu decrépito e furado Volkswagem, a quem tu chamavas carochinha (no Brasil fusca).

– Querida amiga, e ficámos muito bem, até às 6.30 horas quando do primeiro ferry para Lisboa.

– Tinha ido ao cabeleireiro fazer uns caracolinhos e quando abri a janela do meu quarto para minha mãe não saber a que horas tinha regressado, assustei-me a ver-me ao espelho, com o cabelo todo desgrenhado (em desalinho), além das nódoas de óleo que manchavam o meu vestido novo, apanhadas na tua praia, onde prometeste dar-me uma lição de pesca.

– Felizmente, tinhas deixado a janela de teu quarto só encostada. Eras previdente?

– Só deixava a janela encostada quando saía contigo.

– E com os outros?

– Não comento. Mais tarde, houve outro dia que me convidaste a ir a um baile, não em Cacilhas mas em Almada. Não me recordo o nome da localidade que dizias haver um grande baile.

– Parece-me que estou a recordar-me. Jantámos no restaurante Gonçalves.

– Onde também eras conhecido?

– Nesse dia não fomos para a praia que tinha óleo na areia. Subimos até ao castelo de Almada e depois descemos uma descida muito íngreme até quase ao Olho de Boi, onde descarregavam os barcos de pesca e onde me tinha dito haver um grande baile (mentiram-me).

– Ricardo, não sei porquê não acredito, nem na altura acreditei. Mas continua?

– Deve estar recordada que a estrada estava em reparação do lado do mar (direito) e tivemos que fazer inversão de marcha, e subir o que tínhamos descido. Quando chegámos junto das muralhas do castelo?

– Num recanto que devias conhecer muito bem? Continua.

– O carochinha avariou e tivemos que passar lá a noite. Dessa vez não te ensinei a pescar lembraste?

– Se me lembro, dessa tão estranha avaria, pois às 6 horas da manhã, o carro estava bom para apanharmos o ferry às 6.30 horas. Há avarias assim e tu eras mestre em inventá-las!

– Pelo menos, nessa manhã não chegaste a casa com o vestido com nódoas de óleo.

– De óleo vegetal, não, mas com nódoas negras (hematoma) nas pernas, principalmente nos joelhos.

– Nesse dia também tive problemas com minha mãe por causa das calças?

– Ricardo, por falar em tua mãe, ela era uma formidável cúmplice tua. Atendia muito bem os meus telefonemas, mas tu nunca estavas em casa; ou tinhas saído em serviço da empresa, ou tinhas saída não sabia para onde e por fim disse-me que tinhas ido fim-de-semana com a tua noiva. Perguntei-lhe quem era tua noiva o que ela me respondeu com grande descontração: não sei, são tantas!. Cara de Pau, da pior espécie!

– Mas tu gostavas do cá cara de pau!!! rssss

– Na nossa última saída te fintei e muito bem recordaste?

– Não. São fatos passados há tanto tempo?

– Vou-te recordar: Combinámos ir a um baile no Estoril. Desta vez não fomos para a outra margem, que ainda não havia a ponte 25 de abril (estava em começo de construção). Jantámos em Oeiras e depois seguimos para o Estoril. No regresso e como habitualmente, o teu carochinha avariou perto da Parede. Enquanto tu fingias que estavas a consertar o carro, eu sorrateiramente, procurei a casa de uma amiga, enfermeira no Sanatório da Parede. Faço ideia da rua cara depois de teres esperado horas e eu não ter aparecido! kakakaka

– Estou a recordar, estou. Esperei uma hora ou hora e meia antes de regressar a casa de meus pais. Imagina quão furioso eu estava, sua cara de pau, cafajeste, pilantra, etc… Confesso que não achei graça nenhuma com a tua atitude.

– Estás muito abrasilado, deves ter visto já muitas telenovelas!

– Pois é, minha amiga, hoje a juventude tem mais liberdade, mas no nosso tempo fazíamos tudo que eles fazem, mas tínhamos que ser mais engenhocas.

– E nesse aspeto, Ricardo, tu eras um grande engenheiro: Até talvez merecesses o Prémio Nobel.

– Estamos aqui parados e podíamos ir a qualquer lado?

– Eu vou ao Barreiro.

– Então podemos ir ao Barreiro?

– Tu é que sabes, mas na gare meu filho e meu neto estão à minha espera?

– Certo. Podíamos marcar um encontro para outro dia?

– Talvez para o próximo século! Passa bem e se possível, com mais juízo nessa cabeça oca!

– Então, inté?

– E foi assim amigo Alberto a minha conversa com a nossa Lena! Na próxima vez que nos encontrarmos, pago eu os cafés.

– Não disse que te pagava o café!

– Até à próxima, amigo!

FIM
(este texto é pura ficção, qualquer situação, lugar ou pessoas é pura coincidência)

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

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Alberto Caeiro (Caravela da Poesia XVIII)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

AH! QUEREM UMA LUZ

Ah! querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.

Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

ASSIM COMO
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer  pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
                
CRIANÇA DESCONHECIDA

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.
                
DIZES-ME
Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta?  Não sei.
Sou diferente.  Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, “é uma pedra”,
Digo da planta, “é uma planta”,
Digo de mim, “sou eu”.
E não digo mais nada.  Que mais há a dizer?

ENTRE O QUE VEJO

Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com “ele” na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas cousas:
O “homem” vai andando com as suas idéias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar.
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é — o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.

É NOITE

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

ESTAS VERDADES

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas.
E antes de ditas pensadas.
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias.
Na negação oposta de afirmarem qualquer cousa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim.

É TALVEZ O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

Fonte:
Poemas Inconjuntos (http://www.cfh.ufsc.br/~magno/inconjuntos.htm)
Imagem formatada com sobreposição de figuras modificadas com imagens obtidas na internet, sem identificação do autor.

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Alberto Caeiro (Caravela da Poesia XVI)

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

A ÁGUA CHIA NO PÚCARO QUE ELEVO À BOCA

A água chia no púcaro que elevo à boca.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.

A CRIANÇA

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

A ESPANTOSA REALIDADE DAS COUSAS

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

A GUERRA

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por conseqüência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza
os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

A NEVE

A neve pôs uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as ações do mundo.

A NOITE DESCE

A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m’aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me

Fonte:
Poemas Inconjuntos (http://www.cfh.ufsc.br/~magno/inconjuntos.htm)
Imagem formatada com sobreposição de figuras modificadas com imagens obtidas na internet,
sem identificação do autor.

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Fernando Pessoa (Caravela da Poesia XV)

Primeiro Fausto

Dois Diálogos


I
— Febre! Febre! Estou trêmulo de febre
E de delírio…]
Ancião, não podes tu
Arranjar-me um remédio para a vida?
Quero vivê-la sem saber que a vivo
Como tu vives.
Atordoar-me-á isto a alma toda,
Toda, até dentro, muito dentro, velho?
— Não teentendo], mas se é esquecer
Que queres, bebe…
— Quero, quero, vamos….
Esqueçamos-nos. Tens algo de mais forte
P’ra] mais do que esquecer? depressa, diz…
— Mal te compreendo, mas não tenho.
(FAUSTO bebe sofregamente)
Estranha e horrível criatura!
Não é vício
Nem crime, nem tristeza, nem pavor
Propriamente pavor, o que obscurece
Como uma escuridão de dentro d’alma
Toda a vida e expressão de sua face.
E essas palavras de que usou — “esquecer
A vida”; “mais do que esquecer”; “em mim
Acabará então parte de mim” —
Que significam?
Não sei, mas sinto
Que condizem, secreta e intimamente,
Com esse íntimo ser que eu não conheço;
Qualquer que seja essa desgraça, estranho,
Dorme e ou esquece ou aconteça em ti
Isso que semelhante ao esquecer
Desordenadamente me disseste
Desejar no teu íntimo…
Dorme, e que o filtro opere no silêncio
Da tua alma obra interior de paz
E ao descerrares para mim os olhos
Eu lhes veja a expressão já transmudada
Para compreensível e humana
Expressão de um humano sentimento.
Te adormeça a existência intimamente
E ao escuro desejo que tu tens.
(Vai para o levantar mais retrai-se)
Não; dorme onde caíste
Eu sou outro que os homens, ó ancião,
O teu filtro de paz e esquecimento
Não me faz esquecer e só a sombra
De uma possível paz me entrou na alma.
Para a paz que eu queria, isto que tenho
É como archote para a luz do sol.
Intimamente nada se passou.
Paralisaste em mim a engrenagem
Do pensamento e sentimento antigos
Não tornaria, eu sinto-o, a sentir
O que sentia antigamente. Foi-se
Não sei como o interior do meu ser
Com suas intuições, mas não se foi
A memória terrível do horror
Da minha vida antiga…]
Não fales mais. Eu vou…
(pondo-se em pé)
Eu vou, não sei aonde … Como…] treme,
Com que debilidade e sentimento
De estarmudado] o corpo todo. Velho,
Adeus; quisera ter achado em ti
podia ter achado. nada valem. Eu
Deveria ao pedir tê-lo sabido;
Mas… Não tens outro, diz-me… Tu que filtras
venenos mais subtis
Para a existência?
— Há um filtro
Diferente daquele que tomaste;
Diverso na intenção com que obra n’alma,
Mas parecido no fazer esquecer.
— Como diverso na intenção?
— Em vez
De apagar extinguir], adormecer,
Faz — com terrível excitar de vida —
Nascer n’alma um conflito de desejos
Um desejo de tudo possuir,
De tudo ser, de tudo ver, amar,
Gozar, odiar, querer e não querer,
Reunir vícios e virtudes — tudo
Como que na ânsia férvida dum trago
Da taça do existir.
— Tu vendes-mo… Ah! não, que eu nada tenho
Nem sei se tive ou poderia ter.
Tu dás-mo, velho. Não te servirá
De nada …]
Quem o fez?
Por que o fez? Onde o tens? Repete mesmo
O que de seus efeitos me disseste…
Que me decida ou não a beber dele,
Esse filtroque a ti] de nada serve
Dá-mo, pois.
— Não to dou.
— O filtro, velho.
Não me enfureças, vá; o filtro!
— Não to dou.
— O filtro!
— Não to posso dar.
— O filtro…
— Para que avanças? Eu que mal te fiz?
— O filtro; dá-me o filtro.
— Mas não posso
— Velho, repara em mim. Há na minh’alma
Uma ira calma e fria! Foge que ela
Na ação te mostre o que é.
— Não posso dar-te.
Em verdade to digo, o filtro. Eu
Fiz-te o bem que pude; porque então
Avançando assim calmo para mim
No horror de qualquer outra intenção
Te vejo o mesmo sempre. Poupa-me isso
Terrível que há em ti e que não trais
Em movimento ou vaga intimidade
Do olhar… Piedade, piedade…
Piedade, senhor!, Eu dou-te o filtro,
Eu dou-te o filtro. Piedade, eu dou…
(FAUSTO estrangula-o …])
(após matar)
Nem sinto horror, nem medo, ou dor, ou ânsia,
Nem qualquerforma] de estranheza sinto
Pelo que fiz por mais que tente querer
Sentir …]
É uma alma morta ante um corpo morto
Compreendo bem o que sentir eu devo
Mas não consigo mesmo imaginar-me
Sentindo-o …]
quanto é de horror
A morte, um ente morto, e o mistério
Disto tudo. Sim, sinto-lhe o mistério…
Mas este sentimento de mistério
Não se me liga a um sentimento
Queuna] esse corpo a mim, que fiz
O que de misterioso está ali.
Tremo ao sentir quanto é mistério a morte…
Procuremos o filtro…]

II

Reza por mim, Maria, e eu sentirei
Uma calma d’amor…] sobre o meu ser,
Como o luar sobre um lago estagnado…
Dize: Fazei feliz a quem eu amo,
Cujos olhos não choram por não ter
Na alma já lágrimas para chorar;
Que tendo erguido o seu pensar ao cume
Do humano pensar…. Não, não importa,
Não digas nada, reza e que a tua alma,
Compadecendo-se de mim, encontre
Os termos, as palavras que na prece
Murmurará… Choras? Fiz-te chorar?
— Sim… Não… Eu choro apenas de te ver
Triste …], sem que eu compreenda
Tua tristeza, meu amor. Vem ela
De alguma dor — oh, dize-me! partilha
Comigo a tua dor, que eu te darei
O meu carinho, porque te amo tanto…
— Tu amas-me, tu amas-me, Maria?
— Ah, tu duvidas? Meu amor, duvidas?
Se te amo, por que hás de
Tu duvidar de mim? Ah, se palavras
Podem levar a alma nelas, Fausto;
Se o amor, este amor como eu o sinto
Pode dizer-se sem o duvidar;
Se o que eu sinto em minh’alma se] te vejo,
Se sinto o teu pavor, quando penso
Em ti, amor, em ti; se olhares, beijos,
Podem mostrar o amor, todo o amor —
Crê, que as minhas palavras, os meus beijos,
O meu olhar têm esse amor.
Eu não sei dizer mais; não aprendi
Como o amor falar, não …] aprendi
Porque o amor não fala e] não pode
Dizer-se todo, senão não seria
Amor…]
Mas eu amo-te, Fausto! Ah, como te amo!
(à parte)
— Aquilo é amor… eu, pois, nunca amarei
Não posso
Fazer erguer em mim um sentimento
Que dê as mãos àquele. E, de o não poder,
Eu mais frio me sinto, mais pesado
N’alma, na minha desconsolarão.
Como me sinto falso, falso a mim…]
Falso à existência, falso à vida, ao amor!
(alto)
Perdoa, amor…
(à parte)
Amor! Como me amarga
De vazia em meu ser esta palavra
Como de isso assim ser me encolerizo!
(alto)
Perdoa, meu amor!
Cedo aprendi a duvidar de tudo
Por duvidar e mim, sem o querer,
Sem razão de o querer ou de o pensar
Mas eu creio em ti, Maria,
Eu creio em ti… Como és bela!
Não, não chores
Quero falar ternura e não o sei.

Fonte:
Fernando Pessoa . Primeiro Fausto. http://www.cfh.ufsc.br/~magno/fausto.htm

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Soares de Passos (Desalento)

Cansado, ai! já cansado, quando a vida
Em flor nascente desabrocha ao mundo!
Quando a esperança, d’ilusões vestida,
Sorri a todos num porvir jucundo!

Alma que gemes em letal quebranto,
Desprende as asas nos vergéis celestes!
Amor, glória, prazer, dai-me inda o encanto
Que nos dias passados já me destes!

Mas que é o amor da terra? luz divina
Que mal desce do céu logo se apaga;
Cândida rosa que o tufão inclina,
Que o tempo e a morte desfolhando esmaga.

Doces imagens que em ditoso enleio
Cerquei outrora d’ilusão infinda,
D que é feito de vós? ai! neste seio
Viveis apenas, se viveis ainda.

E tu, que és tu, ó glória? um som que passa,
E de século em século retumba,
Mas que a frígida lousa não traspassa
De quem já dorme na calada tumba.

Astro que brilha e queima, espectro ovante
Que a desgraça acompanha, e o génio ilude:
Vós o sabeis, Camões, e Tasso, e Dante,
Vós que gemeis ainda no ataúde.

Que é o gozo, o prazer? fumo d’incenso
Que embriaga um momento, e se evapora;
Que é o saber, a ciência? espaço imenso
Em que a verdade mal reluz na aurora.

Que é este mundo, que eu sonhei tão belo?
Profundo abismo de tormenta escura;
Que é pois a vida? um fadigoso anelo
Que levamos do berço à sepultura.

A morte! oh! se além dela o porto amigo
Nos surgisse afinal ledo e formoso!
Se nesses mundos da esperança abrigo
Despontasse outro sol mais bonançoso!

Mas quem sabe da morte? o ouvido atento
No silêncio das campas nada escuta;
E Sócrates não diz se um novo alento
Achou, bebendo a gélida cicuta.

Senhor, Senhor, por que vim eu ao mundo,
E qual é sobre a terra o meu destino,
De mim que homem geraste, e que fundo
Deste vale d’angústia erro sem tino?

Infeliz de quem nasce! a ave que gira,
A fera, o tronco, o verme que rasteja
Também nasceu, mas esse nada aspira,
Ou se aspirou alcança o que deseja.

E o homem nasce, pensa, e aspira ansioso
Às ilusões que a mente lhe depara,
E a cada passo lhe esmorece o gozo,
E acha só trevas onde luz sonhara.

E caminha, e caminha, e sem alento
Cai abismado no seu térreo leito,
Onde após a fadiga e o sofrimento
A lousa sepulcral lhe esmaga o peito.

Aqui, de dor um pélago profundo;
Além, os vermes da feral jazida;
Senhor, Senhor, por que vim eu ao mundo?
Por que do nada me chamaste à vida?

Fonte:
Poesias de Soares de Passos. 1858 (1ª ed. em 1856). http://groups.google.com/group/digitalsource

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Miguel Torga (Poema Melancólico a Não Sei que Mulher)

Portugal (1907-1995)

 Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão…

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