Arquivo da categoria: prosa-poética

Amélia Luz (Crônica: Catatau)

Amélia é de Pirapetinga/MG
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(Para Paulo Leminski)

A noite era pequena para os seus sonhos eletrizantes. Caía a madrugada e ele perdido entre letras e metáforas trabalhava no seu ofício com servidão. Às vezes ele parecia calmo, outras ele parecia agitado e inquieto no seu processo de criação. Gênio, não se cansava nunca! Dedilhava com entusiasmo e arte o velho violão, companheiro fiel da sua solidão de poeta.

A palavra era a sua lâmina sangrando veias de onde escorriam mananciais de versos conferidos de polêmicas vitórias.

Sua existência não foi vã, embora incompreensível, vazou a lápide no canto imortal, cristal transparente, além da tumba…

– “Catatau”, saia debaixo do braço do autor, chegue mais perto, chegue… Permita-nos entendê-lo na sua complexidade léxica! 

Peleja criativo o poeta no seu verso universal buliçoso e alvissareiro na “Metamorfose” da vida que o fez assim, célebre escritor!

Sinaleiro de uma geração sem rumo seguiu trafegando nas veredas da contramão, ditador de um tempo, persistente que era nas suas certezas…

Vestimos hoje o colorido alegre das suas idéias (in)questionáveis.

Somos uns bandos de inocentes galopando irreverentes em suas trilhas, multiplicadores das suas verdades, sucedâneos vigilantes da sua memória. 

Sem gravatas e honrosas pompas lambuzamos nossas mãos na matéria prima que para nós deixou argila fresca com a qual construímos silêncios, vozes e manifestos transbordados em copos de essências puras.

Embebedamos a nossa consciência numa eterna alvorada, “Sintonia para pressa e presságio”.

Dos seus lábios não há mudez de morte. Há um grito poderoso a ecoar levando-nos a velar sempre pela preciosa obra literária que herdamos das suas mãos de mestre.

“Paulo, tu és pedra” Paulo,
filosofal, literária ou poética,
“sobre ti edificaremos”
nosso castelo de sabedoria… 

Fonte:
A Autora
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Fátima Parente (“Mudaria o Natal ou Mudei Eu?… ”)

Medalha de Prata do II Concurso Oliveira Caruso

Quisera fechar os meus olhos e, quando os abrisse, 
já estar em um novo ano,
sem passar pela triste noite de um natal dos sem natais,
quando a noite é a mais longa e triste para tantos dos mortais…
De algum modo, era a noite dos ausentes…

A noite Santa é plena das lembranças e saudades daqueles que, outrora, ao redor da grande mesa preenchiam de amor o natal!

Quantas e tantas noites assim vividas, e tão pouco agradecidas… Não quero sem convivas minha mesa, pois de afetos, em pobreza bem mais forte, o é e com certeza, será o sentimento das partidas…Quisera, de um sonho bom, meu despertar e ainda estar à lareira da sua casa de infância, ao calor do crepitar das chamas de amor que se espalhavam, à volta pela cozinha… Ah, o cheiro doce da canela nas rabanadas , a aletria, o leite creme!… Delícias degustadas com tanto afeto!… O pai tão amado!…A mãe, em total azáfama, a cuidar de todos!… E, logo, o repicar de sinos para a missa do galo!… Era noite de natal!…Por essa razão, a neve comparecia em finos floquinhos de algodão que, peraltas, se divertiam a fazer carreirinhos nas janelas de correr…E, então, era o nunca acabar de primos, tios e tias a chegarem para o fraternal abraço na graça infinita do menino Deus, a renascer em todos os corações por se viver mais um natal. Quisera não acordar deste sonho tão sentido, de olhos fechados revivido, que, assim, viveria na ilusão de que o tempo não passou e nada mudou,

E é outra vez natal!…

Fonte:
Comendador Oliveira Caruso.

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Odyla Pinto de Paiva (Natal) Medalha de Ouro no II Concurso Oliveira Caruso

É alegre e triste, pobre e rico.
É cheio de surpresas e também de tristezas.
Às vezes falta alguém.
Às vezes tem gente demais…
E o que é Natal?

São múltiplas faces estilhaçadas que nos mostram fragmentos de recordações queridas, mas também fiapos de memórias que gostaríamos de esquecer.

Mesmo com a noite transcorrendo cheia de alegrias, em algum momento, uma lembrança se insinua sorrateiramente e acabamos sendo vencidos, por alguns segundos, pela nostalgia.

Nostalgia de algo ou de alguém.

De algo que foi tão bom e não mais se repetiu ou de alguém que passou e não mais voltou porque não queria ou, na pior das hipóteses, não mais podia.

Natal é o doce e o amargo de toda vida.

É mágico e cruel, mas também é sonho e fantasia.

É o riso da criança e a lágrima do idoso.

É a mesa farta e a fome que corrói aquele que não tem o que comer.

É a fé de que a vida se renova e que tudo tem princípio, meio e fim para depois recomeçar o mesmo ciclo que permite, a todos, a reparação e a construção de uma nova vida cheia de expectativas e desejos.

Natal?

É a esperança de felicidade.

Fonte:
Comendador Oliveira Caruso.

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Eliana Ruiz Jimenez (18 de Julho – Dia do Trovador)

O poeta é detentor de uma sensibilidade aguçada e tem a necessidade de compartilhar a sua visão emocional e os seus sentimentos com as outras pessoas, transformando essas impressões em versos, que podem ser livres, ou em formatos predeterminados, como na trova, por exemplo.

Os versos livres costumam surgir de repente e arrebatam o poeta onde ele estiver. É preciso segurar a ideia, transpô-la imediatamente para o papel antes que o sopro inspirador se dilua e as palavras se percam.

Já a trova é a expressão poética trabalhada. De formato rígido, requer métrica e rimas, além da expressão de um pensamento completo em quatro versos, sendo que o último arremata a reflexão com um grande final.

Habilidoso, o trovador precisa adequar o querer dizer na precisão das sete sílabas tônicas e ainda provocar no leitor a empatia com a saudade sentida, com o coração partido e – por que não dizer? – com as reminiscências que cada um traz consigo.

Audacioso, o trovador elabora a trova com sofisticação, procurando justapor as palavras num encaixe cuidadoso, observando tanto a forma como a sonoridade, procurando a rima inédita, notável. Vale pensar, refazer, pois o que importa é o resultado perfeito.

A trova é, portanto, a ideia sintetizada, a comunicação imediata, que pode trazer tanto um pensamento filosófico como a sabedoria da experiência, o humor ou o lirismo.

Quando finalmente pronta, a trova é como o filho criado, independente, que percorre o mundo levando a mensagem de seu criador.

Nesse oceano de trovas brilhantes, os trovadores são amigos fraternos que, embalados pela mesma inspiração poética, vão compartilhando a vida nos versos, falem eles das dores sentidas ou das alegrias da jornada.

No dia 18 de julho, data de nascimento de Luiz Otávio, responsável pela consolidação do movimento trovadoresco no Brasil, é comemorado o dia do trovador, data em que todos os poetas e admiradores dessa bela e requintada expressão poética relembram o saudoso e querido amigo, principalmente com a leitura de suas belas trovas, tão contemporâneas, que nos deixam a certeza de um homem que viveu à frente de seu tempo e que assim escrevia:

Meus sentimentos diversos
prendo em poemas pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos.

Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém;
sendo quatro versos breves,
como a trova nos faz bem!

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Olivaldo Junior (A Flor, a Noite e o Trovador que Eu Sou)

Todo trovador tem sua flor. Toda flor tem sua noite. A noite e a flor estão em mim, no trovador que eu sou. Posso não ser o melhor, nem o maior, mas inda escrevo. Volto à página e ponho ali a minha história, minha estrada, ainda que a ninguém mais interesse. Dia 18 de julho é Dia do Trovador, uma homenagem ao Príncipe dos Trovadores Brasileiros, Luiz Otávio, fundador da União Brasileira de Trovadores (UBT). A fundadora da UBT em Moji Guaçu é Maria Ignez Pereira, uma das flores que encontrei no mundo. O mundo de um poeta é muito estranho. Há sempre dois mundos onde quer que ele esteja. Desisti de entender o que é ser o que se é. Não sei se aceito, mas acato e cato flores à noite alta de mim, minha flor… A flor, a noite e o trovador que eu sou são como a voz de Nana, que nana os que se deixam seduzir pelo seu canto. Canto, mas ninguém mais ouve. Ouço, mas ninguém mais toca… Toco, e é a noite, em flor, em trova, redondilhas que torno minhas por estrela, ou fado. O trovador que eu sou suspira em versos pura ausência. Não sabe ainda ser santo como São Francisco, mas canta e assume o risco, arrisca e se deixa ser. Mesmo para poucos, mesmo sendo um cisco. A flor, a noite e o trovador que eu sou não são senão poesia, troviscos breves ao pé de vós.

Olivaldo Júnior
Moji Guaçu, SP, dezessete de julho de 2012.

Fonte:
http://caeseubt.blogspot.com.br/2012/07/homenagem-ao-dia-do-trovador-2012.html

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Mara Melinni (Você Não Se Lembra?)

Tanto tempo juntos…! Quantas vezes nos deixamos e, logo depois, corremos de volta para nós mesmos outra vez? Estou inquieta, não consigo conceber essa demora. Enquanto você se foi, sem nada dizer, fiquei aqui sozinha, em nossa casa, eu e a solidão, que me rouba todo o espaço. Faz frio, o inverno chegou intenso… Começou hoje… Lá fora… E eu já o sinto, também, em meu coração…! E onde está você, que não volta para mim…? Nenhuma palavra dita, nenhuma despedida… Estranhei, mas eu achei, sinceramente, que a nossa última discussão já havia sido esquecida. Tivemos momentos piores, contudo, a única vez em que dormimos separados foi na noite passada. Senti-me murchando como uma rosa que vai perdendo as pétalas devagar. Não sei o que se passa dentro mim… É confuso, sinto vontade de gritar o seu nome, de lhe ver à minha espera…!  O nosso amor sempre foi maior do que as nossas diferenças, sempre foi! Minha teimosia e sua paciência, meu bom humor e sua crítica incomparável, minha caretice e sua contemporaneidade… Tudo isso nos fazia complemento um do outro porque o que restava, no fim das contas, eram os nossos gostos, as nossas músicas, as nossas fotos… Nós dois e o nosso amor… Sempre ele. Por isso… Como dói esse silêncio, como amarga minha alma e malfere o meu corpo inteiro…! Por favor, mande notícias. Não consigo enxergar quem errou, se é que houve erro. A única coisa que eu lhe peço, nem que seja pela última vez, é… Que você se lembre das razões pelas quais me amou…! E se existir uma, ao menos uma razão ainda, eu irei lhe esperar aqui… Mais uma vez… Enquanto houver uma razão (E eu sinto… Que há!).

Fonte:

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Olivaldo Junior (Arvoredo)

Amigo

Eu tinha tanto a lhe escrever. Tanta coisa se perdeu, tanto em mim já feneceu. A vida é um coração pulsando, mas o pulso já não pulsa, não. Se não lhe escrevo o quanto devo, escrevo o quanto posso então. Eu tinha um pé de cravo e rosa no meu ser. Hoje a rosa e o cravo são canção. São mais de mil no mesmo eu. Não sei ser nada que não seja assim: silêncio e música no fim. O mesmo em que começam versos e músicas, canções que eu mesmo fiz pra mim. O verso é meu direito. Direito é meu avesso. O preço de ser só é ser sozinho na vida. A vida é um velho arvoredo em que fizemos ninho. E o seu, amigo, foi sempre alto demais.

Obrigado, amigo.
Boa sorte em seus revoos.

Trovas

Arvoredo

Arvoredo ou flor miúda,
vivo em volta de mim mesmo:
por mais que Deus nos acuda,
nossas folhas vão a esmo…

Arvoredo dá viola,
violino e violão,
só não dá nem deu esmola
para as cordas da paixão.

Arvoredo é sombra certa,
grande abrigo pela estrada,
flor e fruto e fronha aberta
para o filho sem pousada.

Moji Guaçu, SP, dezesseis de maio de 2012.

Fonte:
O autor

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