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Lino Mendes (O Trabalho e o Lúdico nos Meios Rurais)

Naquela semana, alguns “ranchos de trabalhadores”iam sair para uma quinzena, pelo que a “praça da jorna” tinha sido das mais concorridas enchendo a Rua Grande, da taberna do Zé Gabirra até à Praça onde já terminara o “mercado semanal”, e no qual de quase tudo se vendia, desde os produtos da horta e do calçado do Badeirana, até aos tremoços e” pirolitos de chupar” da ti Ilda Pina.”E o povo era tanto que se dizia que se uma laranja caísse do céu não chegava ao chão.

Era no entanto junto às tabernas que se verificava uma maior afluência de gente, pois era aí que se procurava patrão. De uma maneira geral este( o patrão) estava lá dentro, e como as mulheres não podiam lá entrar (a não ser chegar à porta para chamar o sê homem), era o capataz que fazia a ligação .A propósito de capataz (ou manageiro) este era uma figura por quem os trabalhadores, salvo uma ou outra excepção não tinham simpatia. Às vezes, diziam-me as irmãs Ramira e Margarida, eram piores que o patrão, só não nos tiravam a pele se não pudessem. E cantaram-me uma quadra das “saias”, que dizia assim:
Vai-te sol,vai-te sol
lá para trás do outeiro
alegria para o rancho
tristeza pró manajeiro

Claro que também cantavam uma destinada ao patrão
Vai-te sol, vai-te sol
para trás do barracão
alegria para o rancho
tristeza para o patrão

Isto e como se calcula, era cantado quando o dia de trabalho estava a chegar ao fim

Por volta da meia-noite começavam a regressar a casa ,mas podia acontecer que pelo caminho até à entrada da vila, mesmo quem tinha patrão encontrasse quem lhe desse mais cinco ou dez tostões por dia, e lá ficava o outro sem trabalhador/a. E era por isso que no outro dia logo de manhãzinha havia outra “praça da jorna”, mas agora no Lugar da Farinha Branca, a uns cinco quilómetros da vila.

Diga-se entretanto, que especialmente as mulheres ,mas também alguns homens, era à entrada da vila que se calçavam, voltando a descalçar-se à saída. Quando se calçavam para entrar na vila, deixavam guardadas em qualquer sítio as meias e a rodilha com que limpavam os pés.

Vindas do campo havia duas entradas.

A vida era, de facto, dura, pois bem cedinho, a pé e descalços lá partiam levando o farnel e as mantas à cabeça (elas) ou nos alforges (eles), dormindo ao relento e no meio do mato, quando por exemplo iam para as vindimas em Almeirim.

Chegados ao trabalho, que era de sol a sol, arrumavam as suas coisas no “quartel”,que era uma cabana grande que por vezes compartilhavam com o gado, e onde à noite contavam histórias ou faziam rendas(por exemplo “marcavam”lenços que depois ofereciam aos rapazes)

Mas o seu grande divertimento era o balho, e neste caso os chamados “bailes do trabalho”que faziam duas vezes por semana, e em cujos dias por vezes faziam empreitadas para descansar ainda um bocado. Que o horário, e foi mais uma vez a cantar que a senhora Margarida me explicou:
O almoço quere-se às nove
e o jantar ao meio-dia.
a merenda às quatro e meia
e a ceia ao fim do dia

E já agora, e sem que tal se pudesse considerar um padrão, explica-me a senhora Margarida que a comida durante o dia poderia ser:

Logo ao levantar, e antes de enregar no trabalho, comia-se um bocado de pão com queijo ou com azeitonas, depois ao almoço feijão frade ou batatas de azeite e vinagre, à merenda de novo pão com queijo ou com azeitonas, ao jantar feijão com couve ou sopas de carne e à ceia migas carvoeiras ou migas gatas

Mas voltemos à “balharada”.Naturalmente que levavam o fato com que trabalhavam.


(1) Gente havia sempre, até porque apareciam idos de outros ranchos que trabalhavam em herdades ali perto.

Naquele dia, não havia ainda tocador, mas esperavam que aparecesse o Ti Zé Bom Dia  (2) com o seu Harmónio, ou Ti António Carqueja com o seu Realejo, mas a falta de músicos nunca impediu que um balho se fizesse, pois cantava-se, por aqui normalmente as “saias”.Se eram mais as raparigas, bailavam umas com as outras, se eram mais os rapazes, havia o “bota cá dispensa”.

Era bonito, dizia-me o senhor João, mais conhecido por Jarreta quando uma (que andava a bailar) lançava a primeira quadra das saias, e de outro par lhe respondiam, podendo ainda outros ou outras entrar na liça. Mas o que ti António mais gostava de ver, era quando nos dois passos, que naturalmente cada um bailava como sabia, uns o faziam, rasteiro, outros pulado e ainda outros escufinhado.

A vida era, de facto, dura ,mas o baile era um refúgio, aliás o único divertimento que a vida rural lhes oferecia.

(1)Como se compreende, só nos chamados “bailes do trabalho” a mulher usava o traje de camponesa, porque nos outros usava a blusa domingueira, por vezes a única que tinha e que ao regressar a casa era logo lavada para estar em condições no fim de semana seguinte. Curioso, é que por vezes entregava um lenço ao par, para este colocar entre a mão e a blusa de maneira a não sujar esta.

(2) O alcunha de Bom Dia resultou do facto de ainda gaiato, andando a guardar gado, fosse qual fosse a hora em que o cumprimentassem, respondia sempre com um “bom dia”.

(3) Bailava-se muito quando ia-mos à semana ou à quinzena. Se houvesse baile duas vezes por semana, era à terça e à quinta, se houvesse só uma vez era à quarta ou à quinta. Depois isso acabou e era só ao fim se semana, ao sábado à noite(Maria Gertrudes

Fonte:
Lino Mendes (Montargil—Alto Alentejo-Portugal)

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Jogos Literários de Montargil 2012 (Classificação Final)

GRUPO DE PROMOÇÃO S.C.MONTARGIL

Tema: A ESCOLA

QUADRA


Foi por não ter ido à escola
com a atenção que é devida,
que ando, hoje, a pedir esmola
na outra escola : a da Vida.

João Baptista Coelho—S.Domingos de Rana
………………………………………………………………

Da escola tenho saudade
e do tempo que lá andei,
porque foi lá de verdade
qu’ a ser homem comecei.

Victor Manuel Capela Batista—Barreiro
………………………………………………………………….

Porque a escola me educou,
Porque a escola me instruiu,
Muito daquilo que sou
Foi na escola que floriu

Maria Ruth Brito Neto—Lisboa
………………………………………………………………………………

Minha Escola, minha amiga,
Tudo o que ensinaste outrora
É o elo que me liga
A tudo o que sou agora.

José António Palma Rodrigues—Ganilhos-Aljubarrota
……………………………………………………………………………….

Sempre bom em redação,
Escrevia cartas d’amor,
sucedeu haver meninas,
com queixas ao professor…

Júlio Siva Máximo Viegas—Queijas
………………………………………………………………………………

Dando cor ao universo
Desde a treva à luz suprema,
A escola, mais do que verso,
É, no seu todo um poema.

João Batista Coelho—S.Domingos de Rana
……………………………………………………………………………..

Com a escola fiz-me à vida
E a vida deu-me saber
Que a vida só é valida
Com um constante aprender.

Maria Ruth Brito Neto—Lisboa
………………………………………………………………………………….

Na minha Escola Primária
O ensino foi muito rico
Mas na Escola Secundária
Arranjei um namorico

Celeste Maria da Silva Avó Charneca—S.Miguel de Machede
………………………………………………………………………………..

Dos velhos tempos da escola
o que mais me apraz registar
É que levava na sacola
o importante pra trabalhar.

Miguel Mendes—Montargil
……………………………………………………………………………….
10º
Bata branca, lá ia eu
Prá escola, oh alegria!
Realizei sonho meu ,
Ensinar no dia a dia.

Isabel Maria dos Anjos Viegas—Carnaxide
……………………………………………………………………………..
1º do ALENTEJO,de MONTARGIL e da EBI

Miguel Mendes

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CONTO CURTO


A ESCOLA DE E PARA A VIDA
Maria Albertina Guerra Dordio Caldeira Martins
PORTALEGRE
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REDACÇÃO-A MINHAESCOLA
Fernando Máximo
AVIS
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ESCOLA PARA SEMPRE
João Manuel da Silva Rogaciano
ALVERCA
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

A FALTA DAS LETRAS
Vítor Manuel Capela Batista
BARREIRO
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

O SORRISO DA CÉLIA
Maria João Lopes
Gaspar  de Oliveira
COIMBRA
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

A ESCOLA QUE TEMOS
Maria Rita dos Santos Romão
LOURES
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Áásáá, Éééé, Iiiii, Óóóó, Uuuu!
Fernandino Lopes
AVIS
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

ESCOLAS
Fernando Máximo
AVIS
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

NA MINHA ESCOLA
Victor Manuel Capela Batista
BARREIRO
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
10º
FELIZ O QUE RECORDA VELHOS TEMPOS
Júlio Silva Máximo Viegas
QUEIJAS
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

1º ALENTEJO
Maria Albertina Guerra Dordio Caldeira Martins
PORTALEGRE

Obrigado a todos os participantes e parabéns aos premiados.

Atribuição dos prémios no Espetáculo “Pátio da Cultura” a Realizar na Casa do Povo de Montargil, dia 8 Setembro, pelas 15.30h.

Fonte:
Lino Mendes

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Lino Mendes (Praça da Poesia) Moda de "saias"

Muitos saberão que a moda de “saias”, que são cantadas e bailadas ou só cantadas, com ou sem acompanhamento musical, são essencialmente cantadas a despique, entre homem e mulher ou entre mulheres, podendo eventualmente entrar na liça outro homem se em jogo está a conquista dessa mulher.
Ora, em 2004,solicitamos a um grupo de amigos que para o efeito  fizessem algumas “quadras”. E aqui deixamos algumas das que nos foram enviadas:

FERNANDO MÁXIMO (Avis)

Ela: 
Quando chegas sobe o sol ,
           quando te vais desce  a lua;
           se tu foras um lençol 
           eu dormia toda nua

Ele:     
Mas se eu fosse um lençol 
           branquinho como a geada, 
           tu,  sem teres um cachecol
           morrias   toda gelada

JOSÉ DA SILVA MÁXIMO (Santo Antº Areias)

             Ele:     
Menina que tens o curso
           responde ao fim e ao cabo:
           quantos pelos tem o urso
           sem contar com os do rabo

Ela:        
Os pelos que um urso tem
             estou certa e não me iludo:
             os mesmos que tu, também,
incluindo o rabo e tudo!

M. ROSA VICENTE BARRABÉ (Tramagal)

Ele:       
Contigo hei-de casar,
             preciso de cozinheira;
             ainda hei-de ser teu par,
             ser teu dono a vida a inteira

Ela:      
Lamento dizer que não ,
            faço-o de forma singela,
            sou bicho de estimação
            mas não sou de andar à trela

 GABRIEL RAMINHOS   (Reguengo da Monsaraz)

Ele:      
Minha linda alentejana,
            moreninha de encantar,
            meu coração não se engana…
          -eu só vivo pra te amar!

Ela:       
Deixa-te de brincadeiras; 
           de falar com fingimento. 
            Dizes gostar de trigueiras…
            Palavras leva-as o vento!

HIPÓLITA M.CHARNECA CARRIÇO (Évora)

Ele:      
Ó que menina tão linda 
            que me despertou paixão,
            posso ter esperança ainda 
            de me dares teu coração?

Ela:      
Meu coração já o dei ,
            já chegaste atrasado,
            infiel não serei,
            vai cantar pra outro lado

  MARIA ALBERTINA DORDIO  (Portalegre)

 Ele      
Uns vivem na abastança
             e outros pobres de mais; 
            para quê tanta riqueza, 
            se os homens são iguais?

  Ela      
Se os homens são iguais,
            têm igual merecer. 
            O que têm uns a mais, 
            falta a outros pra viver

FRANCISCO MATOS SERRA (Cabeço de Vide)

 Ele          
Sempre aqui encontrarás,
                se vieres a Montargil,
                muito amor justiça e paz
                num sonho feito de Abril.

Ela   
             Muito sincero e subtil…
Montargil sempre me apraz…
                 Aqui…o povo é gentil,
                 e, Abril não volta atrás.

 CELESTE M. DA SILVA AVÓ CHARNECA  (S. Miguel de Machede)

 Ele         
Vestidinho de chita verde, 
               nesta função se estreou,
               está bonito e bem talhado,
               minha bolsa é que o pagou.

Ela          
    Tua bolsa é que o pagou,
e já remédio não tem;
              tu deste-mo e eu aceitei,
               Deus pague a quem faz bem. 

Fonte:
Lino Mendes

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Teófilo de Azevedo (Quadras Populares)

Para quem não sabe:
Quadra Popular
A forma lírica mais comum entre o povo; foi também utilizada por poetas de renome.
Composta por 4 versos de sete sílabas (redondilha maior), a rima surge geralmente no 2º verso e 4º versos, sendo os outros dois versos brancos (sem rima).
A quadra popular pode ser composta por uma única estrofe ou por várias.

Mandei buscar na botica
Remédio para uma ausência
Me mandaram uma saudade
Coberta de paciência

Sete e sete são quatorze
Com mais sete vinte e um
Soletra quem sabe ler
A paixão de cada um

Meu benzinho não é este
Nem aquele que lá vem
Meu benzinho está de branco
Não mistura com ninguém

Menina dos olhos pretos
Sobrancelhas de retrós
Dá um pulo na cozinha
Vá coar café prá nós

Quem quiser pegar morena
Arma um laço na parede
Que inda ontem peguei uma
Morena dos olhos verdes

Em cima daquela serra
Tem um ninho de carcará
Quando olho pra tua cara
Dou vontade de lançar

Atirei meu limão verde
Lá atrás da sacristia
Deu no ouro, deu na prata
Deu na moça que eu queria

Limoeiro pequenino
Carregado de limão
Eu também sou pequenino
Carregado de inluzão

Eu plantei e semeei
Carrapicho na “colonha”
A coisa que tenho raiva
É gente branca sem vergonha

A laranja de madura
Caiu nágua foi ao fundo
Os peixinhos estão gritando
Viva dom Pedro Segundo

Esta noite à meia-noite
Me cantava um gavião
Parecia que falava
Maria, meu coração

Cravo branco na janela
É sinal de casamento
Menina tira seu cravo
Inda não chegou seu tempo

Toda vez que considero
Que tenho de te deixar
Me foge o sangue na veia
E o coração do lugar

A garça pôs o pé n’água
Pode estar quarenta dia…
Eu fora do meu bem
Nem uma hora, nem um dia

Menina dos olhos pretos
Sobrancelhas de veludo
Vamos berganhar os olhos
Com sobrancelhas e tudo

Lá do céu caiu um cravo
De tão alto desfolhou
Quem quiser casar comigo
Vai pedir quem me criou

Eu joguei meu limão verde
Numa moça na janela
O limão caiu no chão
E eu caí no colo dela

Limoeiro pequenino
Carregado de “fulô’
Eu também sou pequenino
Carregado de “amô”

A perdiz pia no campo
Comendo seu capinzinho
Quem tem amor anda magro
Quem não tem, anda gordinho

Anum é pássaro preto
Pássaro do bico rombudo
Foi praga que Deus deixou
Pra todo negro beiçudo

Em cima daquela serra
Passa boi, passa boiada
Também passa moreninha
De cabelo cacheada

Batatinha quando nasce
Esparrama pelo chão
Meu benzinho quando dorme
Põe a mão no coração

Cigarrinho de papel
Fumo verde não fumega
Eu vejo moça bonita
Meu coração não sossega

As moças daqui da terra
Passam fome porque quer
Tanto coco macaúba
Tanto buriti no pé

Um coqueiro de tão alto
Que dá coco na raiz
Uma moça bonitinha
Com três palmos de nariz

Meu amor é só meu
Não é de mais ninguém
Quem tiver inveja dele
É fazer assim também

Amanhã eu vou-me embora
Eu não vou-me embora não
Se eu tivesse de ir-me embora
Eu não estava aqui mais não

O anel que tu me deste
Era de vidro e quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e já acabou

Caititu do Mato-Grosso
Corre mais do que cotia
Quando vejo mulher velha
Dou bênção e chamo tia

Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Ou de ouro, ou de prata
Para meu bem passear

Alecrim da beira d’água
Não se corta de machado
Corta só de canivete
Cara de sapo rejado

Minha mãe me deu um pente
Todo crivado de ouro
Para fazer uma pastinha
Na janela do namoro

Duas correntes pesadas
Eu arrasto sem poder
Uma é do meu capricho
Outra é do meu dever

Bate bate coração
Arrebenta este peito
Como cabe tanta mágoa
Num espaço tão estreito?

Da Bahia me mandaram
Um presente num canudo
Tinha mais de conto de réis
Fora o dinheiro miúdo

Ninguém viu o que vi hoje
Um macaco fazer renda
E também vi um peru
Caxeirando numa venda

Camisinha de meu bem
Não se lava com sabão
Lava com raminho verde
Água no meu coração

Você disse que vai embora
Eu também já quero ir
Você disse não vai mais
Eu também “arresorvi”

Lá no céu tem três estrelas
Todas três encarrilhadas
Uma é minha, outra é sua
Outra de minha namorada

Mandei fazer um sobrado
De vinte e cinco janelas
Pra prender moça bonita
Morena cor de canela

Em cima daquela serra
Tem um caldeirão de ferro
Quem falar de minha vida
Está na porta do inferno

Calango desceu pra baixo
Foi vender sua farinha
Lagartixa respondeu
Vende a sua e deixa a minha

Lá no céu tem três estrelas
Vestidinhas de nobreza
Quem quiser casar comigo
Não repare minha pobreza

Trepei num morro de fogo
Com “precata” de algodão
Desci numa ponta de nuvem
Com mil coriscos na mão

Eu não dou a mão rapaz
Nem que seja meu parente
Porque rapaz tem o defeito
De apertar a mão da gente

Comprei uma camisinha
Que custou mil e quinhento
Toda vez que visto ela
Acho muito casamento

O anel que tu me deste
Na procissão do Senhor
Era frouxo no meu dedo
Acochado no amor

Da folha da bananeira
Pingou três pingos de prata
Da família de meu bem
É só ele quem me mata

Em cima daquela serra
Corre água sem chover
Os mocinhos da cidade
Me namoram sem me ver

Essas meninas dagora
Só sabem namorar
Botam a panela no fogo
E não sabem temperar

Menina de olhos pretos
Que inda ontem eu reparei
Se há mais tempo eu reparasse
Eu não amava quem amei

Lá vai a garça voando
Com as penas que Deus lhe deu
Contando pena, por pena
Mais pena padeço eu

Eu plantei um pé de rosa
Para te dar um botão
O pé de rosa morreu
Eu te dou meu coração

Baixa baixa serraria
Que eu quero ver a cidade
Meu amor aqui tão perto
E eu morrendo de saudade

Amanhã eu vou-me embora
Pela semana que vem
Quem não me conhece chora
Que fará quem me quer bem

Se eu soubesse quem tu eras
Quem tu havia de ser
Meu coração não te dava
Para agora eu padecer

Você disse que bala mata
Bala não mata ninguém
A bala que mais me mata
São os olhos de meu bem

Menina toma esta uva
Da uva faça seu vinho
Seus braços serão gaiola
Eu serei seu passarinho

A folha da bananeira
De tão verde amarelou
O beijinho de meu bem
De tão doce açucarou

Você disse que sou bonita
Mais bonito é seu cabelo
Cada cacho vale um conto
Cada conto vale um selo

Um coqueiro de tão alto
Pôs a rama na Bahia
Onde tem moço solteiro
Casado não tem valia

Lá no céu tem nuvem
Mas não é para chover
Antes de chegar domingo
Meu benzinho vem cá me ver

Sete cravos sete rosas
Na ponta de um alfinete
Meu benzinho está no meio
Servindo de ramalhete

Toda vez que o galo canta
No retiro onde moro
Me lembro do meu benzinho
Saio do terreiro e choro

Lá no céu está trovejando
Mas não é para chover
Meu benzinho está doente
Mas não é para morrer

Sete e sete são quatorze
Com mais sete vinte e um
Eu tenho sete namorados
Mas eu gosto é só de um

Sexta-feira faz um ano
Que meu coração fechou
Quem morava dentro dele
Tirou a chave e levou

Joguei o branco n’água
O moreno no jardim
Quem quiser o branco eu dou
O moreno é só para mim

Eu tenho um vestidinho
Todo cheio de babado
Toda vez que visto ele
Quarenta e cinco namorado

Em cima daquela serra
Tem um pé de papaconha
Tira a folha e lava a cara
Descarado sem vergonha

Em cima daquela serra
Tem dois pilãozinhos de ferro
Um bate, outro responde
Meu bem está no inferno

Ante-ontem à meia-noite
Saiu faca da bainha
Estão querendo me matar
Sabendo que a roxa é minha

O padre quando namora
Passa a mão pela coroa
Namora, padre, namora
Namorar é coisa boa

Menina não veste curto
Se tens a perna roliça
O padre da freguesia
Tudo que vê cobiça

Não me chame boiadeiro
Não sou boiadeiro não
Sou tocador de boiada
Boiadeiro é meu patrão

Quem tiver o segredo
Não conte à mulher casada
A mulher conta ao marido
O marido à rapaziada

Se eu soubesse da certeza
Que meu bem vinha cá hoje
Eu varria a casa cedo
Semeava pó de arroz

Amanhã eu vou-me embora
É mentira não vou não
Quem vai embora é meu corpo
Mas não vai meu coraçao

Em cima daquela serra
Tem um banco de areia
Onde assenta mulher velha
Pra falar da vida alheia

Esta noite eu tive um sonho
Mas, ó que sonho atrevido
Sonhei que estava abraçado
Com a forma de seu vestido

Esta noite eu tive um sonho
Um sonho todo de louco
Abraçado com uma pedra
Dando bicota num toco

Quem me dera estar agora
Lá no mato, no sertão
Onde está minha saudade
Onde está meu coração

Joguei meu chapéu pra cima
Para ver onde caía
Caiu no colo da velha
Cruz em credo, Ave Maria!

Adeus plantas, adeus rios,
Adeus gente do lugar
Vou partindo, vou chorando
Com vontade de voltar

Quando vim de minha terra
Muita gente lá chorou
Só uma velha muito velha
Muita praga me rogou

Quem inventou a partida
Não entendia de amor
Quem parte, parte chorando
Quem fica, morre de dor

Oh! linda Pirapora
Lugar de ganhar dinheiro
Vou ganhar mil e quinhentos
Na turma dos engenheiros

Marmelo é fruta gostosa
Onde dá na ponta da vara
Mulhe que chora por homem
Não tem vergonha na cara

Mamãe me chamou de feia
Ela só quer ser formosa
Ela vai ser roseira
Eu vou ser botão de rosa

Não tenho medo do homem
Nem do ronco que ele tem
O besouro também ronca
Vai se vê, não é ninguém

Em cima daquela serra
Tem um velho fogueteiro
Quando vê moça bonita
Fica todo regateiro

Você de lá e eu de cá
Ribeirão passa no meio
Você de lá dá um suspiro
Eu de cá, suspiro e meio

Eu pus minha mão na sua
Você a sua na minha
Ficou uma coisa justa
Como faca na bainha

Você ontem me falou
Que não anda nem passeia
Como é que hoje cedinho
Eu vi seu rastro na areia?

Não dês a ponta do dedo
Que logo te levam a mão
Depois da mão, vai o braço
Vai o peito e o coração

Uma velha muito velha
Mais velha que o meu chapéu
Foi pedida em casamento
Levantou as mãos pro céu

Um surdo disse que ouviu
Um pobre mudo dizer
Que um cego tinha visto
Um aleijado correr

Subi na serra do fogo
Com sapato de algodão
O sapato pegou fogo
E eu voltei de pé no chão

Prima pulga está doente
Taturana está parida
Meu compadre percevejo
Está de espinhela caída

Fonte:
Azevedo,Teófilo de. Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos.São Paulo, Global Editora, 1978. Cultura Popular, 3.

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Lino Mendes (São Saias, Meu Bem, São Saias…)

As “saias”, cantadas e bailadas ou só cantadas, cantigas de festa ou de trabalho (quando o mesmo não era de empreitada), é uma das mais belas modas do folclore português, mais centralizada no Alto Alentejo em especial no distrito de Portalegre onde, segundo Tomaz Ribas já existia no século XII.

Cantadas por homem e mulher, por duas mulheres, ou ainda por dois homens e uma mulher quando a mesma era disputada por ambos , de uma maneira geral eram de criação espontânea, era ali, na altura que os versos saiam. E como se compreenderá, eram de despique, por vezes de escárnio e mal dizer. E, se como dissemos se trata de quadras marcadas pela espontaneidade, muitas perduraram no tempo.

O exemplo de uma que se tornou de expressão nacional:

Estas é que são as “saias”,
estas saias é que são;
São cantadas e bailadas
na noite de S.João.

Outras houve, que terão sido adaptadas como esta:

MONTARGIL terra tão linda,
não és vila nem cidade.
mas és um rico cantinho
onde brilha a mocidade.

E a finalizar. Deixamos umas “cantigas” a despique:

RAPAZ
Estas raparigas de hoje
iguaizinhas são às dontem,
albardá-las e mandá-las
com um cântaro à fonte

RAPARIGA
Estes rapazes de agora
estes que de agora são,
albardá-los e mandá-los
à serra buscar carvão

RAPAZ
Menina que tanto sabe
diga lá o seu saber,
uma camisa bem feita
quantos pontos vem a ter

RAPARIGA
Quantos pontos vem a ter
vou-lhe já explicar,
não são mais e não são menos
dos que lhe querem plantar

RAPAZ
Menina que tanto sabe
faça-me esta conta bem.
um molho de trigo limpo
quantas meias quartas tem

RAPARIGA
Falaste no trigo limpo
mas não me falas no joio,
quatrocentas e oitenta
meias quartas tem o joio

MONTARGIL—05/02/011

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Diálogo Culinário

Eu adoro mocotó
caldo de carne e farinha
mas vou provar teu jiló,
co´essa pimenta e galinha.
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Sendo tão boa de prato,
dou-te uma vaca atolada.
Mas, sei que tu queres de fato,
Uma saborosa favada.
Carlos Soares (Natal/RN)

Já perdí o apetite
a favada me assustou
agora sem um palpite
vou jantar ovo… Se vou!
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Estás fazendo dieta?
Proponho então… uma seleta!
Nem feijoada completa,
nem ovo na omeleta…
Carlos Soares (Natal/RN)

A receita se completa
se delícia de compota
no dizer do meu esteta
me deixar aquém da cota.
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Rezando pelo esteta,
compota de esturjão!
Ova do peixe, completa,
à preservar teu corpão.
Carlos Soares (Natal/RN)

Uma torta de palmito
acompanha esse menu
delícia que eu repito
com salada de chuchu.
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Feijão verde com nata
e uma boa farofa,
a carne assada na brasa
o cabra come que “gofa”.
Carlos Soares (Natal/RN)

Quibe ou mesmo um vatapá
regado ao sol do Brasil,
tem sabor do ar de cá,
liberdade… Humor febril!
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Dó, ré, mi, fá, si bemol,
assim me ponho a cantar,
se me dão carne de sol
e um bom arroz de cuxá.
Carlos Soares (Natal/RN)

Hoje a dieta é magrinha
num calorão de matar
só suco e uma polentinha
depois sorvete e nadar…
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Num dia quente, exaurido,
refresco de maracujá
ou de limão espremido
pras forças recuperar.
Carlos Soares (Natal/RN)

Sopa cremosa de ervilha
e gostoso pão torrado
deliciosa maravilha,
não se deixa ali de lado.
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Depois dessa guloseima
Um bom licor de cacau
Pois nos ajuda na queima
e assim ninguém fica mal.
Carlos Soares (Natal/RN)

Um salgadinho, coxinha
e um suquinho gelado,
matou a fome que eu tinha
me deixou alimentado.
Augustus Vinicius (São Luís/MA)

Esse frango à passarinho
com salada de tomate,
regado ao copo de vinho…
Ah, delícia, me arrebate!
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Lembraste bem!
A passarinho!
Será que tem
arroz soltinho?
Carlos Soares (Natal/RN)

Arroz soltinho tem não,
mas tem um baião de dois,
tão gostoso, meu irmão,
dá certinho pra nós dois…
Edir Pina de Barros (Cuiabá/MT)

Nem um cuscus com jabá?
Um café preto torrado?
Um queijo assado, quiça!
Banana maçã com melado?
Carlos Soares (Natal/RN)

Comi uma caranguejada
bem lá no bar da Lenoca,
juntinho com a namorada
que pra beber pediu coca.
Augustus Vinicius (São Luís/MA)

Sem coca, como a paçoca
sem amor janto a desdita
se a saudade me empipoca
até rejeito a marmita.
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

E faço greve de fome
e dispenso esse banquete
minha dor nem tem um nome…
… mas um porco no rolete…
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Na venda do seu Joaquim
Nas quintas, estou por lá,
Um bom bolo de aipim,
um prato com munguzá.
Carlos Soares (Natal/RN)

Testando ou gerundiando,
caio com gosto no prato,
degusto apimentando,
a dobradinha de fato!
Carlos Soares (Natal/RN)

Dobradinha já não gosto,
pra mim parece borracha,
mas tem quem ame, aposto,
então meu gosto esculacha…
Augustus Vinicius (São Luís/MA)

Ao menos nesta cozinha
fique certo, tudo pode.
Vem e dá u´a provadinha
nesta buchada de bode…
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)

Se for mal a gente alinha
num menú menos profano
uma canja à mineirinha,
ou um caldo lusitano.
Ana Maria Gazzaneo (Bragança Paulista/SP)
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Observação: A União Brasileira dos Trovadores tem por norma versos setesilabicos com as rimas entre o 1o. e 3o. Verso, 2o. e 4o. Versos. No caso de tal não ocorrer, geralmente são denominadas quadras.

Fonte:
http://recantodasletras.uol.com.br/forum/

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