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Dyonélio Machado (1895 – 1985)

Dyonélio Tubino Machado nasceu em Quarai, RS, em 21/08/1895, na fronteira com o Uruguai, filho de Sylvio Rodrigues Machado e de Elvira Tubino Machado. Político, médico escritor, jornalista e poeta, foi um dos expoentes da segunda geração do Modernismo no Brasil.

Um acontecimento marcante na sua vida foi o assassinato do pai, que aconteceu quando ele era ainda um menino.

Em 1903, como a família, que era constituída pela mãe e pelo irmão Severino, ficou pobre, aos oito anos, ele já vendia bilhetes de loteria para ajudar no sustento da casa . Nunca mais esqueceu uma cena terrível que lhe aconteceu: um dia, na rua, encontrou o assassino do pai. O homem queria comprar um bilhete. Esse encontro é narrado pelo próprio escritor: “Não queiram passar pelo momento que passei: negociar com quem me fizera órfão era renegar uma adoração que nada abalaria. Mas trocar por dinheiro os poucos bilhetes de loteria que eu carregava, era obter meio quilo de carne. Cedi. Nossa transação se fez sem palavras. Sabia também o que me esperava em casa: era minha mãe chorando”.

Embora pobre, continuou os estudos. Matriculou-se e ao irmão menor na recém-aberta Escola de Aurélio Porto. Para pagar a escola para os dois, ele dava aulas para os meninos das classes mais atrasadas. Com 12 anos, começou a trabalhar como servente no semanário O Quaraí, o que lhe permitiu conhecer os intelectuais locais. Foi também balconista na livraria de um parente, João Antônio Dias.

Em 1911, em Quaraí mesmo, ele fundou, o jornal 0 Martelo.

Em 1912, foi morar em Porto Alegre, onde permaneceu até estourar a Primeira Guerra Mundial, quando voltou para a terra natal.

A partir de 1915, começou a colaborar com a Gazeta do Alegrete, o Correio do Povo, o Diário de Notícias e o Diário Carioca.

Em 1921, casou com dona Adalgisa Martins, professora de piano, com a qual teve dois filhos, Cecília e Paulo. Também, no mesmo ano, participou, em Porto Alegre, da criação do jornal A Informação.

Em 1923, publicou um livro de ensaios políticos, Política Contemporânea.

Em 1924, entrou para a Faculdade de Medicina, na qual foi um ótimo aluno.

Em 1927, publicou um livro de contos chamado Um Pobre Homem.

Em 1928, fez concurso público para funcionário do Hospital São Pedro, classificando-se em primeiro lugar. Trabalhou lá durante trinta anos, chegando a ser diretor da instituição.

Em 1929, formou-se em Medicina.

Em 1930 e 1931, especializou-se em Psiquiatria no Rio de Janeiro, de onde regressou em 1932. Uma curiosidade sobre este romancista é que, embora fosse médico, não gostava de médicos nem de remédios. Quando adoecia só admitia tomar Melhoral, mas era adepto incondicional de chás e chimarrão.

Em 1934, envolveu-se na greve dos gráficos da Livraria do Globo, por isso, foi preso num quartel militar, na Praia de Belas. Como era homem de esquerda, tornou-se membro dedicado do Partido Comunista Brasileiro -PCB. Após ser solto, foi para o interior ajudar um familiar doente.

Em 1935, por ocasião da Intentona Comunista, foi preso novamente. Enviado para o Rio de Janeiro, conheceu Graciliano Ramos no cárcere. Enquanto estava preso, soube que seu primeiro romance, Os Ratos, recebeu o Prêmio Machado de Assis, sendo publicado naquele mesmo ano, tornando-o conhecido em todo o País. Essa obra foi muito bem aceita pela crítica. O assunto deste livro é aparentemente banal, fala sobre criaturas medíocres às voltas com um pequeno problema. Ele foi inspirado num pesadelo que sua mãe lhe contou.

Em 1937, regressou a Porto Alegre, por coincidência no dia em que aconteceu o golpe do Estado Novo. Para não ser preso mais uma vez, fugiu para Santa Catarina pelo litoral, com identidade falsa. Conta-se que, anos depois, ele reconheu, no Hospital São Pedro, o motorista de caminhão que o ajudara naquela viagem. Fez o que pôde para retribuir o auxílio despretensioso que recebera em tempo difícil, mas não revelou a identidade do doente.

Em 1942, saiu O Louco do Cati.

Em 1944, veio a público Desolação.

Em 1946, Passos Perdidos. Neste mesmo ano, fundou, com o camarada Décio Freitas, o jornal Tribuna Gaúcha, porta-voz do Partido Comunista Brasileiro.

Em 1947, com o PCB na legalidade, Dyonélio elegeu-se deputado estadual pelo velho “partidão” e tornou-se líder da sua bancada na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Em 1948, foi cassado, em janeiro, quando o PCB caiu na clandestinidade.

Em 1966, lançou Deuses Econômicos.

Em 1977, aos 82 anos, teve o primeiro infarto do miocárdio. Ele sofria também de insônia crônica. Neste ano, recebeu o Prêmio Especial de Crítica de São Paulo e foi empossado na Academia Rio-Grandense de Letras, na cadeira de Eduardo Guimarães.

Em 1980, saíram os livros Prodígios e Endiabrados, Sol Subterrâneo e Nuanças.

Em 1981, foi a vez de Fada e Ele Vem do Fundão.

No dia 19 de junho de 1985, Dyonélio Machado faleceu no Hospital de Clínicas, em Porto Alegre.

Dyonélio foi ainda um dos fundadores da Associação Rio-Grandense de Imprensa – ARI. Escritor com fama de difícil, pessimista, por vezes impenetrável ao leitor mais apressado, a crítica e o público não receberam suas demais obras do mesmo modo como Os Ratos.

Segundo escreve o seu biógrafo Rodrigues Till, ele foi “um médico eminentemente humanitário, sem jamais pretender fazer da profissão um balcão de negócios. Gratuitamente atendia a todos os que o procuravam, desprovidos de quaisquer recursos materiais. E, como decorrência lógica, não seria nunca um amealhador de riqueza pecuniária, daí ter morrido com a consciência tranqüila por ter sabido cumprir, por inteiro, os mandamentos de Hipócrates.” Artur Madruga resumiu assim a sua vida: “Foi na medicina que teve seu sustento; na política, seu tormento e na literatura, seu alimento”.

O “Lobo Solitário” da literatura gaúcha, como o chamou Érico Veríssimo, deixou-nos uma obra composta de 12 romances, um livro de contos, um volume de memórias e vários ensaios.

Sua obra foi apenas reconhecida tardiamente, tendo recebido destaque nos meios acadêmicos apenas a partir da década de 1990. O psicológico está bastante enraigado em sua obra, como deixam transparecer O louco do Cati e Os ratos.

Características de Sua Obra

Dyonélio Machado possibilitou a compreensão da unidade de sua obra graças à sua perspectiva social e à reiteração dos temas abordados: pequena burguesia e operariado urbano. Narra a trajetória de uma personagem, associando-as sempre a um deslocamento no espaço, que tem um alvo a atingir, podendo o resultado desse esforço ser menos ou mais precário, jamais significando, porém, uma realização pessoal. A narrativa, portanto, assemelha-se a uma história de aventuras, apesar de a personagem estar plenamente integrada ao contemporâneo e ao nacional.

Nas novelas de Dyonélio Machado, o deslocamento no espaço, impedindo o descanso e a tranqüilidade dos heróis, acaba por confundir busca e fuga, exemplificando a situação de precariedade e insegurança das camadas menos favorecidas da sociedade urbana e subdesenvolvida, submetida a um regime de força

Fontes:
http://www.al.rs.gov.br/plen/SessoesPlenarias/49/1995/950830.htm
http://memoria.simers.org.br/
www.tirodeletra.com.br/biografia/DyonelioMachado.htm
http://vestibular.setanet.com.br/resumos/modernismo.htm
http://www.geocities.com/slprometheus/html/dyonelio.htm
– CASTILHOS, Patrícia. Roteiro de uma Literatura Singular: Análise da historiografia literária sul-rio-grandense.

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Carlos Reverbel (21 Julho 1912 – 27 Junho 1997)

Carlos de Macedo Reverbel (Quaraí, 21 de julho de 1912 — Porto Alegre, 27 de junho de 1997) foi um jornalista, cronista e historiador brasileiro.

Reverbel nasceu em 1912, em Quaraí. Criou-se numa vida de fazendeiro, em família de largas posses e bastante ilustrada, coincidência que era relativamente comum até certo tempo atrás. Veio a Porto Alegre, para estudar, em 1927, e seguiu estudando no antigo Anchieta até 1933, quando abandonou os estudos formais sem formar-se e sem habilitar-se, portanto, para qualquer curso superior, para desgosto de sua família. Resolveu ingressar no jornalismo, vocação rara em sua geração e classe; para começo de carreira, preferiu trabalhar num jornal de cidade acanhada, a Florianópolis de 1934. Depois disso retornou ao Rio Grande do Sul, onde fez carreira de sucesso no Correio do Povo. Militou na Livraria do Globo, como secretário burocrata e como jornalista, nas duas revistas da época, a popular Revista do Globo e a super-intelectualizada Província de São Pedro.

Na altura de 45, intensificou a convivência (que jamais terminaria) com a obra de Simões Lopes Neto. Primeiro, numa extensa reportagem com a viúva, que ainda vivia; depois com a redescoberta dos textos que viriam a compor o livro Casos de Romualdo; tempos adiante, com a biografia que agora se reproduz. Em suas memórias, fez questão de apor título alusivo ao escritor pelotense: aquela “arca de Blau”, que é o tesouro das memórias de Reverbel, evocava o personagem-narrador dos Contos gauchescos. Em 47, vendeu quase tudo que tinha para viver por dois anos em Paris, já casado. Na volta, viria a ser um dos mais importantes, senão o mais importante, dos jornalistas culturais de século 20 no estado, ao protagonizar uma seção de literatura e cultura no Correio, a partir de 1954. Não apenas editou, escreveu, resenhou e fez reportagens ali; também inventou pautas, propôs textos para escritores daqui e de fora, promoveu enquetes, fez andar a fila da vida cultural letrada.

Viveu até 1997. Sua presença faz uma falta enorme: para além da figura gentil e acolhedora que era, tratava-se de um daqueles sujeitos que tinha, já de moço, a perspectiva da história e o gosto das reminiscências, motivo por que soube desde cedo aproveitar idéias que os jornalistas nem sempre percebem como importantes. Exemplo: em 1948, se lançou a Santana do Livramento entrevistar uma senhora de 93 anos que tinha conhecido, adolescente, naquela cidade, ninguém menos que José Hernández, o autor do Martin Fierro, clássico escrito em parte ali mesmo, na fronteira brasileiro-uruguaia.

Seu faro histórico o fazia igualmente detectar valores no presente. É o caso de uma extensa reportagem que faz, no calor da hora de 48, sobre os jovens gravuristas de Bagé, terra que, segundo o bem humorado mas nunca nihilista Reverbel (o nihilismo é uma das flores fáceis do jornalismo cultural, garantindo sucesso junto aos impressionáveis e aos tolos de todos os tempos mas improdutivo a longo prazo — o prazo mental com que Reverbel e os bons trabalham), seria uma das mais improváveis para a eclosão de movimento artístico de tipo moderno.

Na crônica propriamente dita, é um dos bambas da língua portuguesa, sem favor algum. Com estilo agradável na linha de Rubem Braga (ou, no campo da memória, de Pedro Nava), brincando com o tema e consigo mesmo, manejando a alta cultura letrada e com a vivência profunda da cidade — especialmente a cidade de Porto Alegre, que ele retratou em detalhes e minúcias a que os amantes do tema devemos agradecer penhorados —, ele soube comentar o miúdo recente, como a estranha mania do “chispa”, nos anos 70 do Parcão, tanto quanto o graúdo das questões profundas, em particular as mudanças na paisagem da cidade, tudo sempre tomado de um ângulo capaz de mostrar o ridículo que se esconde na solenidade.

Maragato de família, antigetulista nos anos 30, espantado com o sucesso do Tradicionalismo mas capaz de elogiar a importância das pesquisas de Paixão Cortes; apreciador de intelectuais lusófilos como Gilberto Freyre ou Moysés Vellinho, amigo de Erico Verissimo e admirador de Darcy Azambuja; incorformado com o barulho em Porto Alegre e envolvido sempre com a divulgação das leituras antigas da terra, que ele cultivava com requintes de colecionador de livros e o paladar refinado dos grandes leitores — Reverbel é daquelas figuras que engrandeciam o interlocutor, ao vivo, e fazem o bem do leitor, por escrito.

Foi escolhido como o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 1993.

Obra literária

Barco de papel (crônicas), 1978;
Saudações aftosas (crônicas), 1980;
Um capitão da Guarda Nacional (biografia de Simões Lopes Neto), 1981;
Diário de Cecília de Assis Brasil, 1984;
Pedras Altas – A vida no campo segundo Assis Brasil, 1984;
Maragatos e Pica-paus, 1985;
O gaúcho, 1986;
Arca de Blau (memórias), 1993.

Fontes:
Luís Augusto Fischer. In Cafezinho na Net
Wikipedia

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