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Ernesto Coutinho Júnior (1956)

Ernesto Coutinho Júnior, natural de Recife/PE, nasceu aos 05/08/1956.

Advogado Criminalista, formado pela Faculdade de Direito de Olinda, Pós-Graduado em Processo Penal, Doutor PhD em Teologia, formado em Oratória na Academia Ateniense de Oratória, formado pelo Instituto Paulista do Júri.

Inscrito na UBE (União Brasileira dos Escritores), tendo publicado as seguintes obras:
O Tribunal Treme e Egrégio Tribunal. Publicou os C’ds: A Cegueira Jurídica na aplicação da lei, A Fuga da Lei no Tribunal, A Arte do Orador no Júri e Como Se Tornar Um Tribuno do Júri.

Professor de Oratória,
Palestrante de Auto-estima, focando palestras como: Liberte-se da depressão, Oratória no Júri, Descobrindo sua Verdadeira Identidade, Auto-Gestão Empresarial, Como Aplicar sua Inteligência, Superando os Obstáculos, Poder de Decisão, Visão Processual dentro do Campo do Direito, Aprendendo a fazer o Cálculo Estrutural da Engenharia Jurídica, Como detectar as Nulidades no Processo Penal.

Poeta, tendo realizado mais de 300 Júris e feito mais de 600 Sustentações Orais.

Atuou como advogado nos seguintes estados: São Paulo, Pernambuco, Bahia, Paraíba, Minas, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Brasilia e Rio de Janeiro.

Fonte:
União Brasileira de Escritores

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Bastos Tigre (Caderno de Trovas)

Saudade,  palavra  doce,
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
espinho cheirando a flor.
Aliança!   algema  divina,
a mais doce das prisões;
uma  prisão  pequenina
que encerra dois corações.
Ama a tua arte. Por ela       
faze o bem: ama e perdoa.
A  bondade  é sempre bela,         
a beleza  é  sempre  boa.    
Eu versos os mais diversos       
já fiz: muita gente os lê…        
Mas “poesia” há nos versos    
que eu fiz pensando em você.    
Mente o peito que suspira?
O beijo é só falsidade?           
Bendigamos  a  mentira          
se ela é melhor que a verdade.
Você diz que é cego o amor…
Como se engana você!            
Fecha os olhos o impostor        
para fingir que não vê.        
Meu amor enche-me a vida
e eu vivo feliz assim.             
Basta que gostes, querida,   
de ser querida por mim.        
Quando em meus braços te aperto,
satisfaço o meu desejo:            
de mim te sinto tão perto,        
tão perto que não te vejo.        
Um filósofo de peso                    
é desta sentença o autor:            
o beijo é fósforo aceso                 
na palha seca do amor.                
Morena de olhos castanhos,
teu encanto é a minha pena;
quem dera que olhos estranhos
te achassem feia, morena!     
Namorados. Para ouvi-los    
faço, ao lado esforços vãos,  
Como dois mudos, tranqüilos,
falam somente com as mãos.  
Seu dinheiro o homem, cioso,
não confia a qualquer,              
mas a honra de esposo      
deixa nas mãos da mulher    
Quem canta seu mal espanta,
diz o provérbio ilusório.
Você, rapaz, quando canta
espanta, sim… o auditório.
Depois  de  uma  vida  airada,
ao  céu  quis  ir  sem  licença.
São Pedro  pede-lhe a entrada-
e o morto, arrogante: – Imprensa!
Trocar idéias contigo ?              
É possível, mas escuta:              
quero ver, primeiro, o artigo                 
que ofereces à permuta.                
Quando nós, discretamente                 
ficamos conosco a sós,             
 é que ouvimos quanta gente            
chora e ri dentro de nós.           
 Neste mundo organizado              
 de encontro à lei natural,               
 tudo que é bom é pecado             
e o que é gostoso faz mal.              
Dinheiro não há que abrande              
a  dor  que  um peito magoa:            
uma  sorte é ” sorte grande”            
outra  coisa  é ” sorte boa “.            
 “O cão que ladra não morde”.               
Permitam que nesta quadra             
eu do provérbio discorde:             
sim, não morde… enquanto ladra.            
Amizades são incertas.              
Ao fazê-las, desconfia:              
esta mão que agora apertas            
bem pode espancar-te um dia.              
Não te queixes! Sofrem quantos              
vivem, na vida, a lutar;              
se não secassem os prantos,          
o mundo era todo um mar.              
Um longo olhar que se lança
numa carta ou numa flor;    
Saudade – irmã da Esperança,
Saudade – filha do Amor.        
O poderoso ? Merece              
pena, lamento, piedade!            
Ah! se ele ao menos pudesse      
mandar na própria vontade!             
Foi-me o amor, na mocidade,              
um passatempo, comum:            
tantas amei que, em verdade,       
nunca tive amor nenhum.             
Ao  te  ver  fico  mudo              
mas mesmo assim, sou feliz.            
Pois meu olhar te diz tudo             
que a minha voz não te diz.           
Se te olho de quando em quando,              
Por Deus, não é por mau fim;              
é que estou verificando              
se tu olhas para mim.                    
Um sonho é ter-te ao meu lado,
a te ver, ouvir, palpar…             
Que bom sonhar acordado          
sem perigo de acordar!             
O meu coração é o cofre      
que as minhas dores contém    
e as dores que você sofre    
eu nele guardo-as também.  
Na minha face estás lendo              
que a minha mágoa é sem fim;                  
mas sinto alívio, sabendo              
que não sofres… nem por mim!                          
Vacinei-me contra o amor              
mas  não  tive  resultado…                         
Nas farmácias – é um horror!-             
tudo  é  falsificado.             
Ponhamos no calendário   
mais um santo português
milagroso Santo Hilário,    
que os fados mais belos fez.
Elo de ouro! És a esperança
de horas risonhas e calmas! 
Felizes dos que, na aliança,  
acham a aliança das almas.  
Os sonhos tem saúde, entendo,
nasceram com boa estrela.
Pena é viverem sofrendo             
pelo medo de perdê-la.     
Saudade – um suspiro, uma ânsia,              
uma  vontade  de  ver                         
a  quem  nos    à  distância              
com  os  olhos  do bem-querer.             
AMBIÇÃO – De olhar agudo,  
marcha, firme, aos seus ideais;
quer pouco, que mais, quer tudo;
se tem tudo ainda que mais.              
LIBERDADE – O cidadão              
livre, tem todo o direito              
de fazer o que o patrão             
acha que deve ser feito.            
Saudade é um mal que consiste              
em sofrer por vontade              
mas na vida o quanto é triste           
não ter de quem ter saudade!          
Da morte a sentença imprensa              
trazemos desde o nascer:            
assim que a vida começa        
começa a gente a morrer.                   
Como infeliz é esta gente             
que pensa que ser feliz        
é não dizer o que sente      
e não sentir o que diz!
Este velho batoteiro          
quando a morte o trouxe cá,
ao ver a pá… do coveiro      
foi dizendo: – bacarat !            
Quem só a verdade aspira
com certeza inda não viu         
que a verdade é uma mentira
que inda não se desmentiu.  
Da vida o relógio rode              
até que a corda se acabe…
Em moço, nada se sabe; 
em velho, nada se pode… 
Cora a moral, fica rubra,
ante a imodéstia; pois, certo,
é feio que se descubra    
o que deve ser coberto.
Seguro porto, esperança,              
dos que andam pelo alto mar!       
É nas procelas – bonança,              
farol… estrela polar…
Jurar é falar a esmo,
é prometer sem pensar.     
Juras não faças; nem mesmo
a jura de não jurar.                   
Se a mulher que está contigo              
vive do “outro” a dizer mal,              
tem cuidado, meu amigo,              
ela inda ama o teu rival.              
A Saudade é calculada    
por algarismos também:
distância multiplicada
pelo fator “querer bem”.
Olhos tristes ou risonhos
vejo entre a gente do povo      
dos restos dos velhos sonhos
fabricando um sonho novo…       
Quanta palavra bonita!
Quanto perdido latim!
E quanta cera erudita
para defunto tão ruim!
Como será compreendida
a incongruência da sorte?
Pois há quem nasça sem vida
e ninguém morre sem morte.
Eu, neste assunto de esmola
sem  ambições  me  suponho:
estendo  a  minha  sacola
peço um bocado de sonho…
                                      
Fonte:
 Luiz Otávio e J. G. de Araújo Jorge (organizadores). Cem Trovas de Bastos Tigre. Coleção “Trovadores Brasileiros”- Editora Vecchi – 1959

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Manuel Bandeira (Poesias Infanto-Juvenis)

Ilustração de Robson Corrêa de Araújo

COTOVIA

– Alô, cotovia! 
 Aonde voaste,
 Por onde andaste,
 Que saudades me deixaste?
 – Andei onde deu o vento.
 Onde foi meu pensamento
 Em sítios, que nunca viste,
 De um país que não existe . . .
 Voltei, te trouxe a alegria.
 – Muito contas, cotovia!
 E que outras terras distantes
 Visitaste? Dize ao triste.
 – Líbia ardente, Cítia fria,
 Europa, França, Bahia . . .

 – E esqueceste Pernambuco, 
 Distraída?

 – Voei ao Recife, no Cais
 Pousei na Rua da Aurora.

 – Aurora da minha vida
 Que os anos não trazem mais!

 – Os anos não, nem os dias,
 Que isso cabe às cotovias.
 Meu bico é bem pequenino
 Para o bem que é deste mundo:
 Se enche com uma gota de água.
 Mas sei torcer o destino,
 Sei no espaço de um segundo
 Limpar o pesar mais fundo.
 Voei ao Recife, e dos longes
 Das distâncias, aonde alcança
 Só a asa da cotovia, 
 – Do mais remoto e perempto
 Dos teus dias de criança
 Te trouxe a extinta esperança,
 Trouxe a perdida alegria. 

A ONDA

A onda
a onda anda
 aonde anda
 a onda?
 a onda ainda
 ainda onda
 ainda anda
 aonde?
 aonde?
 a onda a onda

BELO BELO

 Belo belo minha bela
 Tenho tudo que não quero
 Não tenho nada que quero
 Não quero óculos nem tosse
 Nem obrigação de voto
 Quero quero
 Quero a solidão dos píncaros
 A água da fonte escondida
 A rosa que floresceu
 Sobre a escarpa inacessível
 A luz da primeira estrela
 Piscando no lusco-fusco
 Quero quero
 Quero dar a volta ao mundo
 Só num navio de vela
 Quero rever Pernambuco
 Quero ver Bagdá e Cusco
 Quero quero
 Quero o moreno de Estela
 Quero a brancura de Elisa
 Quero a saliva de Bela
 Quero as sardas de Adalgisa
 Quero quero tanta coisa
 Belo belo
 Mas basta de lero-lero
 Vida noves fora zero. 

ORAÇÃO PARA AVIADORES

Santa Clara, clareai
 Estes ares.
 Dai-nos ventos regulares,
 de feição.
 Estes mares, estes ares
 Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
 Se baixar a cerração,
 Alumiai
 Meus olhos na cerração.
 Estes montes e horizontes
 Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
 Sustentai
 Nossas asas.
 A salvo de árvores, casas,
 E penedos, nossas asas
 Governai.

Santa Clara, clareai.
 Afastai
 Todo risco.
 Por amor de S. Francisco,
 Vosso mestre, nosso pai,
 Santa Clara, todo risco
 Dissipai.

Santa Clara, clareai.

A ESTRELA 

Vi uma estrela tão alta, 
 Vi uma estrela tão fria! 
 Vi uma estrela luzindo 
 Na minha vida vazia. 

 Era uma estrela tão alta! 
 Era uma estrela tão fria! 
 Era uma estrela sozinha 
 Luzindo no fim do dia. 

 Por que da sua distância 
 Para a minha companhia 
 Não baixava aquela estrela? 
 Por que tão alto luzia? 

 E ouvi-a na sombra funda 
 Responder que assim fazia 
 Para dar uma esperança 
 Mais triste ao fim do meu dia. 

D. JANAÍNA 

D. Janaína
 Sereia do mar
 D. Janaína
 De maiô encarnado
 D. Janaína
 Vai se banhar.

 D. Janaína
 Princesa do mar
 D. Janaína
 Tem muitos amores
 É o rei do Congo
 É o rei de Aloanda
 É o sultão-dos-matos
 É S. Salavá!

 Saravá saravá
 D. Janaína
 Rainha do mar.

 D. Janaína
 Princesa do mar
 Dai-me licença
 Pra eu também brincar
 No vosso reinado.

BALÕEZINHOS

Na feira do arrabaldezinho 
 Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor: 
 – “O melhor divertimento para as crianças!” 
 Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres, 
 Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha. 
 Vão chegando as burguesinhas pobres, 
 E as criadas das burguesinhas ricas, 
 E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe, 
 Nas barraquinhas de cereais, 
 Junto às cestas de hortaliças 
 O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras, 
 Os tomatinhos vermelhos, 
 Nem as frutas, 
 Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a 
 [única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa: 
 – “O melhor divertimento para as crianças!” 
 E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um 
 [círculo inamovível de desejo e espanto. .

TREM DE FERRO

Café com pão
 Café com pão
 Café com pão

 Virgem Maria que foi isto maquinista?

 Agora sim
 Café com pão

Agora sim
 Café com pão

 Voa, fumaça
 Corre, cerca
 Ai seu foguista
 Bota fogo
 Na fornalha
 Que eu preciso
 Muita força
 Muita força
 Muita força

 Oô..
 Foge, bicho
 Foge, povo
 Passa ponte
 Passa poste
 Passa pato
 Passa boi
 Passa boiada
 Passa galho
 De ingazeira
 Debruçada
 Que vontade
 De cantar!

 Oô…
 Quando me prendero
 No canaviá
 Cada pé de cana
 Era um oficia
 Ôo…
 Menina bonita
 Do vestido verde
 Me dá tua boca
 Pra matá minha sede
 Ôo…
 Vou mimbora voou mimbora
 Não gosto daqui
 Nasci no sertão
 Sou de Ouricuri
 Ôo…

 Vou depressa
 Vou correndo

Vou na toda
 Que só levo
 Pouca gente
 Pouca gente
 Pouca gente…

Fonte:

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Arquivado em poesias para crianças, Recife, Rio de Janeiro

Edigles Guedes (Livro de Sonetos)

NAUFRAGO-ME NA SUPERFÍCIE

Páginas e mais páginas, folheadas
A inconsútil dedo, vagam por horas
A fio, na escrivaninha tão recheada
De livros imaginários… agora!…

Eis uma escrivaninha inexistente
Povoando a memória indelével de mim!…
Quem me dera! se eu pudesse navegar
Por entre as escumas, co’ odor de jasmim

A perseguir minhas ilusões!… Vagar,
Quiçá, por livros, que férteis são terras
De ideias mirabolantes, minha mente!…

E o vento sopra no meu rosto… Serra
Vai, monte vem… Montanha vai, planície
Vem… E eu naufrago-me na superfície…

DESCRIÇÃO MARÍTIMA

Ribombou o velho mar!… Tuas tênues ondas
Tecem fios de fiandeira na escuma atroz!…
Voa ligeiro e mais que veloz o albatroz,
Qual o sorriso de tua “La Gioconda”!…

Ostras perambulam por entre rochas
Anônimas!… Sociedades de corais
Pintam de Picasso os azuis anormais!…
Anêmonas acendem tortas tochas

De neurotoxinas… Peixes naufragam
Nos frios d’águas… Caranguejos afagam
A textura insondável do rochedo!…

É noite e o mar baloiça as velas, toscas
E trêmulas, voejam… Foscas moscas
Brincam com a lixeira do penedo…

TUA MÃO

Teu corpo de pérola em meu corpo
Deitado e vagamundo… Psiu tosco
De mão que mão se namora… Rede
Sem peixe para pescar: só mágoa…

Teia de aranha que arranha essa pele
De tigre… Peçonha que me chora
De dor inconcebível… Insídia
De cavaleiro medieval… Mídia

Sem suporte técnico… Parede
Sem porta ou caminho nu sem saída…
Sentimentos que me enredam… Pepe

Legal (cabuloso) sem Babalu,
Seu escudeiro; assim, ando por tabu
E teimosia… Acho tua mão lânguida!…

LUA DE OCEANO AQUÉM

Lua: bacia de prata, em que me banho de seus raios
Argênteos, na Noite fria e calma co’ essa chuva
Renitente… Descontente com as estrelas
Cadentes que nenhum dos meus desejos realizam…

Eis que Lua bamba, pendurada no trampolim
Da vaidade, sofre porque sofre com desmaios
De gravidade ausente!… Andorinha viúva
Procura marido em páginas amarelas…

Entretanto, essas estrelas parabenizam
A caçadora intrépida e seu vulgar gaiolim,
Que me prenderam aos grilhões: de Amor cárcere!…

Coruja corveja, abre asas, corre célere,
Zomba de minha insensatez, por amar a quem
Não me ama, qual Lua solitária, do oceano aquém.

ROSA CEGA

Corre e abraça-me com abraços longos
E apertados… Olha-me olhos oblongos,
Perquirindo o Tempo pretérito na
Minha face rústica… Bela Dona

Que balança seus quadris de ondas do mar…
No azo, torno-me domador a domar
Minha dor tão madura!… Cai, qual fruto
Proibido de ósculos, no plano astuto

Da Serpente devoradora de olhos
Humanos. Eis que não vejo a luz tênue
No final do túnel!… Sim, cata-piolho

Brigou com fura-bolo na bacia, aiuê!
De algodão-doce… Ah! Porquanto Amor caolho
Esconde a rosa cega de seu buquê!…

ABRAÇOS AMARGOS

Instantâneo segundo, que passo sem olhar
Fundo nos olhos de minha Dama, uma náusea
Bruta brota no meu peito de árvore pérsea!…
Mas, o outono chega: eis pungente esse desfolhar

De olhos castanhos, tão castos quanto suaves são;
Que seduzem e encantam límpido coração
Aventureiro, qual Xerazade com lábias
Mil na boca enganadora… Loucas e sábias

Palavras misturam-se em grão caldo de cana…
A Noite dadivosa vem pé de mansinho,
Com seu odor de blandícia, carícia e carinho…

Sem pedir licença, entra perfume de alfana
Nas minhas narinas; ouço os passos mui largos
De minha Flor: eis nossos abraços amargos!…

PROCURA-SE UM TROPEÇO

Procurei um sentido no sem sentido que sente
A alma gemente da gente, que anda descontente
Com o Fado: artista arlequim, guizos de Lua algente,
Malcriada e fatal mulher de olho concupiscente.

De tanto procurar esqueci-me de achar o que
Procurava; como tenra criança com bilboquê,
A qual se esquece do tempo com terno brinquedo
Na mão cândida e venturosa. Sim, corro e quedo.

Almejo alcançar o infinito do pensamento,
Desbravar a aventura néscia do sentimento,
Destronar do meu coração trágico lamento.

Ó alma tremente! se logrei meu intento, conheço
O fim do fio da meada que procuro; o começo,
Mas é duro; por isso, quero lembrar… tropeço!

AMOR MADURO EM CAIXA DE CHUMBO

Tu inoculas teu veneno de serpe
Aleivosa, que me engana como Eva
Embrulhou Adão no Jardim do Éden. Treva
Logrou ambos com sua língua, trapuz, de erpe!

Mas, é doce a peçonha que me adoça
O Fado ingente. Louca, consomes chá
De meus passos, após receber crachá:
“Ando a servir ao próximo por troça!”

Tu és serpente tremente de ódio por mal
Que nunca fiz a ti, antes salvaguardei
Nosso Amor maduro em caixa de chumbo.

Se Amor adoeceu em profundeza abismal,
Certamente a ele jamais eu reservei
Maléficos intentos, sons de zumbo!

CORAÇÕES ENGRINALDADOS

Lembro-me do retrato na parede do nosso
Quarto de dormir. Nossos olhos enamorados clamam
Um pelo outro, em suspiros de desejos; declamam
Poemas eróticos às quatro paredes!… Que osso

É a vida!… Foi ontem que subimos, jungidos beijos,
A ladeira do tálamo. Tu estavas formosa;
Esplendias com todas as primaveras!… Oh! rosa
Do meu jardim de Amor e delícias… Onde queijos

De Lua se esconde do paladar da minha boca,
Fremente de prazer e gozo?… Sim, eis quão louca
Paixão me consome o íntimo meu ser… Quiçá ninguém

Me escute o dessegredo… Ó coelhinha na toca
De amores! acolhida nos meus braços de mouca
Libido, que pena sou na alcova mais um alguém!…

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=110

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Arquivado em livro de sonetos, Pernambuco, Recife

Edigles Guedes (1976)


Nasceu em 08.01.1976, em Recife, Pernambuco – Brasil.

Desde os 14 anos, quando estava no Colégio de Aplicação da UFPE, cursando a 8.ª Série do 1.º Grau, escreve poesias, cultivando entre outras formas, o soneto.

Cursou, entre os anos de 1991 a 1993, a Escola Técnica Federal de Pernambuco, onde se formou em Auxiliar Técnico em Eletrônica.

Durante os anos de 1994 e 1996, cursou o 3.º Grau, na Academia de Paudalho.

Apaixonado por línguas, desde os 12 anos aprendeu francês; aos 14, inglês; daí em diante: espanhol, italiano e alemão, línguas em que está engatinhando.

Leitor voraz, ele gosta de vários estilos de literatura. Em português: Luís de Camões, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Camilo Pessanha, Florbela Espanca, Cesário Verde, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Machado de Assis, Olavo Bilac, Cruz e Souza, Clarice Lispector, Guimarães Rosa. Em inglês: James Joyce, William Faulkner, Virgínia Woolf, Katherine Mansfield. Em francês: Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, Rimbaud e Mallarmé. Em alemão: Georg Trakl, Frank Kafka e Rainer Maria Rilke. Em russo: Dostoievski e Tchekhov. Em espanhol: Pablo Neruda, Jorge Luís Borges e Miguel de Cervantes. Em italiano: Petrarca, Dante, Umberto Eco, Ítalo Calvino. Enfim, ama os clássicos da literatura universal.

Gosta de ler os poetas e filósofos gregos e latinos. Compulsivamente, gosta de ler Franz Kafka e Sören Kierkegaard. Como William Faulkner, lê diariamente a Bíblia e Shakespeare.

Apreciador de aforismos, diz sempre: escrever é deitar no colo de Deus, uma gota de paz no oceano de tribulações.

Atualmente, publica os seus sonetos no seguinte blog:
http://sonetosdeedigles.blogspot.com/

Ademais, cultiva, também, outras formas poéticas em:
http://ediglesguedes.blogspot.com/.

Publica contos e novelas em:
http://oquartodekafkaeoutroscontos.blogspot.com/.

Fonte:
http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=110

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Arquivado em Biografia, Pernambuco, Recife

Valmir Jordão (Do Tricentenário de Zumbi)

Quilombo,Angola-Janga,
guerreando pra viver em paz,
igualdade direito de todos
salvaguardado pelos Orixás.

N’zambi,Zombi,Zumbi grande chefe
engravidou a Serra da Barriga,
de negritude,coragem,resistência
quilombola guerreiro bom de briga.

Mombaça,Congo,Camarões,Daomé
África oceânica palmarina,
enfrentando o amargo do açúcar
escravidão,tortura,má-sina.

Malungos nas várias Senzalas
Quimbundo,Mandinga,Jeje,Yorubá
em fuga,derrubam paus mandados,
pra ter tempo de jogar o Caxangá.

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Arquivado em O poeta no papel, Pernambuco, Recife

Márcia Maia (1951)

Márcia de Souza Leão Maia nasceu em Recife em 1951. Médica e poeta.

Teve seus poemas primeiramente publicados na Revista Poesia Sempre nº 15, da Fundação Biblioteca Nacional, em novembro de 2001. Apesar de ter começado a publicar recentemente Márcia é uma das poetas recifenses que vem ganhando destaque na cena literária pernambucana e o seu talento vem sendo reconhecido e seus livros premiados em vários concursos de poesia.

Em 2002, Espelhos foi premiado no 3º Concurso Blocos de Poesia; Cotidiana e virtual geometria ganhou o Prêmio Violeta Branca Menescal, concedido pelo Conselho de Cultura de Manaus, em 2007 e em 2008 o livro Onde a Minha Rolleiflex? venceu o Concurso de Poesia Eugênio Coimbra Júnior, promovido pelo Conselho de Cultura da Cidade do Recife.

Ainda nesse ano seu poema quase um réquiem obteve o segundo lugar no Prêmio Off-Flip.

Poeta articulada na intenet edita com regularidade os blogs tábua de marés e mudança de ventos e faz parte do site escritoras suicidas.

Livros:
Espelhos – Livro Rápido/Recife, 2003;
um tolo desejo de azul – Livro Rápido/Recife, 2003;
Olhares/Miradas – coleção Poetas de Orpheu, Livraria e Editora do Maneco, RS, 2004;
em queda livre – Edições Bagaço/Recife, 2005;
cotidiana e virtual geometria – Editora Muiraquitã/ Manaus, 2008.

Participação em coletâneas:
Antologia Poetrix – Editora Scortecci;São Paulo, 2002;
Antologia Escritas – Edição dos autores, 2004;
Poesia do Nascer (organizada por Mário Cordeiro), editada em Lisboa/Portugal, 2005;
Pernambuco, terra da poesia (organizada por Antônio Campos e Cláudia Cordeiro) – IMC/Escrituras, 2005;
Poesia nos Blogs, editada em Portugal – Apenas Livros Ltda, 2006;
Saboreando Palavras – SESC/MG, 2006.
Livro da Tribo – Editora da Tribo, 2004, 2005, 2007, 2008 e 2009.

blogs da poeta
http://tabuademares.blogger.com.br
http://mudancadeventos.blogger.com.br

Fonte:
http://www.interpoetica.com/

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