Arquivo da categoria: Resenha

Robert Galbraith (O Chamado do Cuco)

Tudo tem início quando o corpo de Lula Landry, uma modelo belíssima, negra, se projeta da varanda de sua cobertura, repleta de neve, na direção da morte. Apesar da beleza rara e da fama internacional, a jovem revelava uma mente perturbada e vinha tentando se recuperar da dependência química. Assim, foi fácil concluir que ela havia se suicidado.

Pouco tempo depois, porém, o irmão dela, que não crê absolutamente nesta possibilidade, procura o investigador particular Cormoran Strike para buscar a verdade. O detetive, ex-combatente na Segunda Guerra, com lesões internas e externas, está à beira da falência, a ponto de fechar o escritório, e mesmo assim não seria capaz de pagar todas as dívidas.

A princípio ele se deixa guiar por seus princípios morais e rejeita a oferta, pois não acredita na possibilidade de assassinato. No fim, porém, sua consciência perde o conflito interno e o protagonista acaba cedendo diante do pagamento generoso do cliente e da probabilidade de dar um fim ao caos que tomou conta da sua vida. Strike se apega ao pretexto que o motivou a aceitar o caso: a luta por justiça.

Sua decisão de desvendar o que se oculta por trás dessa morte o leva a submergir em um universo intrincado, do qual Lula fazia parte. Tudo fica cada vez mais sinistro e os riscos se ampliam. Sua vida passa a correr perigo enquanto ele percorre o submundo londrino. ===============

Robert Galbraith é o nome artístico de J K Rowling, autora consagrada da saga Harry Potter e de Morte Súbita. A escritora britânica Joanne Kathleen Rowling nasceu na cidade de Yate, nas proximidades de Bristol, na Inglaterra, em 31 de julho de 1965.

É o primeiro livro escrito por J. K. Rowling sob o pseudônimo de Robert Galbraith, procurando  desvincular sua imagem e nome famosos para explorar algo diferente ou mesmo evitar comparações com outras obras suas.

Ela surpreendeu o mundo quando, em 2012, anunciou seu primeiro romance adulto, Morte súbita. Porém, a surpresa maior veio em 2013 quando descobriu-se que o autor por trás de Robert Galbraith era ela. O Chamado do Cuco já estava bem cotado no Goodreads muito antes mesmo da informação vazar.

Robert Galbraith, porém, não é o único pseudônimo de Rowling. O próprio nome J. K. Rowling é um pseudônimo. Por volta de 1997, quando seu agente Christopher Little conversava com a autora sobre a publicação de Harry Potter and the Sorcerer’s Stone, ele sugeriu que ela adotasse um nome neutro alegando que os garotos não leriam um livro escrito por uma mulher. Foi quando ela emprestou o nome Kathleen de sua avó paterna e passou a assinar J. K. Rowling.

================
~A janela abriu, o Cuco caiu~

Foi através de uma sacada que a supermodelo Lula Landry, também conhecida como Cuco, caiu para a morte no que a polícia e a imprensa qualificaram como suicídio. Porém, seu irmão, John Bristow, não acredita nessa versão e contrata Cormoran Strike para investigar o que de fato aconteceu com Lula no seu último dia de vida. John procura Strike porque o detetive fora amigo de infância de Charlie, seu falecido irmão. A princípio, Strike reluta em aceitar o cargo, mas as dificuldades financeiras por que passa somada aos seus problemas sociais mais prementes o fazem pensar melhor.

    (…) Foi só quando chegou à porta de vidro no andar de cima que Robin percebeu, pela primeira vez, a que tipo de empresa fora enviada para auxiliar. Ninguém na agência lhe dissera. O nome no papel ao lado da campainha estava gravado no vidro: C. B. Strike e, abaixo dele, as palavras Detetive Particular.
Apesar do foco principal do livro ser a investigação do último dia de Lula, ele não se apega somente a isto.

Strike acaba de sair da casa de sua noiva Charlotte com quem estava junto durante anos e, sem ter para onde ir, passa a ter uma subvida morando no escritório em que trabalha. Ele é filho de um homem famoso que mal vira durante seus trinta e cinco anos de vida, mas a fama do pai o ofusca quando as pessoas descobrem sobre sua origem familiar.

Robin passa a trabalhar para Strike por um erro da parte dele, que pensava ter cancelado o contrato com a agência de temporários por não ter como pagar. Ela é aquela pessoa que está indecisa entre seguir as incertezas de um sonho e a segurança e estabilidade de um emprego comum e tedioso.

A narrativa é em terceira pessoa, transitando pelo menos oitenta porcento por Strike e os vinte restantes por Robin. E ela é lenta.

Strike investiga praticamente todos os que tiveram contato com Lula, porém todas essas pessoas trazem informações cruciais para nos animar a ir adiante e criar nossa teoria do que aconteceu.

O tom de humor está muito bem colocado nas páginas. Num momento, Strike está matutando sobre como cobrar os clientes que não lhe pagaram e, no outro, está simplesmente cutucando o nariz quando John Bristow entra na sala para conversar com ele.

Robert começa sua história de maneira bem agradável e ela vai melhorando a cada página até chegar este momento em que a gente quer correr na leitura para saber como Cormoran explicará o que descobriu.

    (…) Escreveram que ela era desequilibrada, instável, inadequada para o superestrelato em que a rebeldia e a beleza a capturaram; que passara a andar com uma classe endinheirada e imoral que a corrompera; que a decadência de sua nova vida atordoou uma personalidade já frágil. Ela se tornou uma densa fábula moral de Schadenfreude, e tantos colunistas fizeram a alusão a Ícaro que a revista Private Eye publicou uma matéria especial.

Veterano na guerra do Afeganistão, o personagem perdeu uma perna em combate e carrega consigo a vergonhosa história de sua família. Filho de uma groupie, que engravidou de um astro do rock e ficou famosa por isso, Strike é sempre lembrado como fruto de uma família desestruturada e de uma mãe que, aos olhos da sociedade, mereceu a morte por overdose.

Não bastasse, no mesmo dia em que é procurado pelo irmão de Lula, o detetive tem uma briga épica com a noiva, Charlotte, com quem termina o relacionamento, passando a morar no escritório em que trabalha. A vida conturbada de Strike tem relação com a de Lula que, assim como a mãe do detetive, é julgada pela imprensa, pelos amigos e até mesmo pela família, que vê sua morte prematura como algo esperado. “Como era fácil tirar proveito da tendência de uma pessoa à autodestruição; como era simples empurrá-la para a inexistência”, escreve a autora em certo ponto sobre a comparação das personagens desvalorizadas.

A seu favor, o detetive tem sua apurada inteligência e sua nova assistente temporária, Robin, uma jovem garota que aceita o trabalho mais pelo fascínio pela profissão do chefe que pelo salário.

A investigação dura o livro todo, com diversas entrevistas com as pessoas que, de algum modo, estavam envolvidas com a modelo em seus últimos dias de vida.

Sua principal crítica é voltada à sujeira do mundo da fama. Na falsidade e superficialidade de seus agentes, assim como nos fãs, obcecados por ídolos que pouco têm a oferecer e que, mesmo depois da morte, continuam a ser referência. A imprensa também ganha alfinetadas, principalmente os famosos tabloides ingleses, que exploram ao máximo e incansavelmente pessoas e suas histórias, por vezes trágicas e indignas de serem reveladas. Em certo ponto, a perseguição sofrida por Lula pelos jornais é apontada pela escritora como um dos responsáveis por sua morte.

Apesar da falta de charme e de todas as dificuldades encontradas para desenvolver a investigação, Strike consegue ser um personagem que prende o leitor. Seus pensamentos são relacionáveis e sua falta de simpatia não é motivo para aversão.

Fontes:
Ana Lucia Santana. http://www.infoescola.com/livros/o-chamado-do-cuco/
Tiago de Souza http://ocapitulodolivro.blogspot.com.br/2013/11/resenha-o-chamado-do-cuco.html
Raquel Carneiro. http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/livros-da-semana/j-k-rowling-se-reinventa-com-misterioso-o-chamado-do-cuco/

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

José Feldman (Francisco Pessoa: “Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso”)

Esta semana recebi o livro de um brilhante escritor brasileiro, que devorei (metaforicamente falando… o livro) até hoje. Talvez eu seja meio suspeito por tal afirmação, pela amizade que vimos desenvolvendo no decorrer do tempo, desde que tivemos contato há poucos anos, atualmente irmãos de glicose.

O poeta português Fernando Pessoa (1888 – 1935) dizia: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.  Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Eu, como grande parte da população daqui do Paraná, sempre pelo pouco que estudamos e lemos, acreditamos que os grandes escritores além dos paranaenses, estivessem no eixo Rio-São Paulo, mas o Brasil é tão vasto, e nossa crença em nosso conhecimento ser enorme, é ledo engano. Vai muito além, e confesso que em minha ignorância de sulista, tomei conhecimento que o nordeste do Brasil possuía grandes escritores, no caso que especifico agora, os cearenses. Romancistas, contistas, cronistas, poetas, trovadores, uma lista de nomes que mostra que a literatura não é somente uma estrela, mas uma constelação enorme de pessoas que enobrecem as páginas da cultura brasileira. O fato é que simplesmente por falta de acesso, por falta de divulgação, enfim por diversos fatores que nos obstruem a ampliação de nossa consciência, ou em palavras mais tecnológicas, não são inseridos dados no HD de nosso cérebro.

Fernando Pessoa foi um grande poeta português que é do conhecimento de boa parte da população brasileira, mas sem querer desmerecer o nome deste poeta que sempre fez parte de minha biblioteca particular, também possuímos o nosso Pessoa. No caso, Francisco Pessoa, um cearense que no livro que lançou recentemente “Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso”, coloca-nos seja em trovas, poesias, décimas, cordéis, crônica e contos a sua arte, que divide conosco.

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, nos diz: Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és no mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.

Nosso Pessoa segue este poema, e se mostra grande no que faz, e faz com que o brilho do lago, seu reflexo se estenda muito além de si mesmo, de sua cidade (Fortaleza) e ilumine quem quiser ser iluminado.

Francisco, Chico para os amigos, nos diz : Meus sonhos por si navegam/ levando-me ao transcendente, / por mil estradas enxergam /bem mais do que enxerga a gente.

Nos mostra como na trova acima, que buscamos novos caminhos, mas tão enraizados que estamos em nossas visões, não vemos todos os caminhos que podemos seguir. Este é Chico, mostrando a sua arte de versejar, percorrendo o caminho entre o lírico/filosófico e o humorístico: Feliz da vida se logra/O Zeca exibe o caneco/que ele trocou pela sogra/  na feira do cacareco.

Sempre temos a visão do médico, aquela pessoa que de certo modo acredita ser Deus, arrogantes, contudo existem exceções. Chico é uma delas. Médico oftalmologista, uma pessoa simples, calma, alegre e sempre pronta a amizades, que com seu falar eloquente parece querer abraçar o mundo.

Segundo Alberto Caeiro (outro heterônimo de Fernando Pessoa): Sejamos simples e calmos, / Como os regatos e as árvores, / E Deus amar-nos-á fazendo de nós / Belos como as árvores e os regatos, / E dar-nos-á verdor na sua primavera, / E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

Somos o que somos, mas nem sempre o demonstramos para as pessoas que nos rodeiam. Muitas vezes usamos máscaras para disfarçar o que nos vêm no íntimo. E a cada situação, uma nova máscara, um novo eu, que não mostra a sua verdadeira face. Em seu livro, Chico em uma décima nos diz em “O Palhaço”: A vida se nos faz meros palhaços…/Sorriso solto num choro prendido, / Querer que é dado nunca agradecido / Saltar ao vento sem pisar os passos. / Tragar o fumo dos prazeres baços / Embebedar-se tanto pra esquecer, / Sentir-se ser alguém, mesmo sem ser, / No picadeiro, o aplauso, a falsa glória, / Imagem tão real quanto ilusória / Pranto da morte rindo pra viver!

Mais uma do Fernando Pessoa: “Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”

Mas Chico vai além, ele vive e cria. Cria a vida e vive a criação, este é o ideal do verdadeiro artista. Faz que “Não há placa de chegada/na minha estrada da vida…/faço de cada parada/ novo ponto de partida.

Ele segue adiante, cria, sonha, deseja:
“Se eu fosse…
Um Malba Tahan, calcularia cm segundos as horas de alegria que a vida nos dá./ Um Einstein, criaria um antídoto para entibiar a bomba que certo dia flamejou o céu de Hiroshima./ Um Alexandre, o grande, teria conquistado o coração do incrédulo, fazendo-o crer no Grande Arquiteto./ Um Ataúlfo Alves, no meu arrependimento, diria como ele disse: aquilo sim, é que era mulher,/ Um Graham Bell, teria inventado um telefone que, pudesse eu, sentir o odor dos teus lábios, e que minhas frases ouvisse maviosas./ Um Braille, transportaria os dedos para uma zona do cérebro./ Um Barnard, só transplantaria coração de um homem bom para um homem de bem./ Um Bill Gates, tornaria virtual a violência que envolve os povos.
(…) Um Salomão, eu seria um sábio e teria trezentas mulheres?., acorda, Pessoinha!!!”

Um outro amigo, o poeta potiguar Ademar Macedo (1951 – 2013) : “De todos os sonhos meus,/ realizei o mais fecundo: /ser um Poeta de Deus / e mandar versos pra o mundo!

Isto é que faz nosso Pessoa, pinta a aquarela das palavras com sua magia.

Chico em “De Pessoa pra Pessoa”
Poesia é um sonho e, se sonhado,/ Sobre nuvens volutas, pictóricas,/ Rédeas soltas sem bridas, metafóricas,/ Faz do poeta um ser místico e alado./ Quem o lê, leia certo ou leia errado, / Sempre os versos encontram seu intento…/ Lamentar cada um com seu lamento, / E sorrir cada um com seu sorriso, / Coração de poeta é sem juízo/ E a razão de fingir é seu talento!


Aproveitando o se falar em Pessoas, Clevane Pessoa, de MG nos diz neste trecho de seu poema Pensares: Meus pensamentos são mares/ De muita profundidade, / Mas que rasantes nas areias / Lambem o calor que encintram, / Ajudam a esfriar as orlas / Com suas ondas agitadas… / Às vezes fazem redemoinhos / Em caldeirão perigoso … / Podem chegar a maremotos, / Em fenômenos encadeados, / Mas a maré esperada / Somente depende dos ciclos / Caprichosos das faces de dona lua…
Chico mostra através de suas trovas o caminho que escolhemos seguir. Cada qual faz o seu destino. “Toda colheita contém/ uma lição de moral:/ quem planta o bem colhe o bem/ quem planta o mal colhe o mal”
Outro grande amigo meu, já falecido há muitos anos, Artur da Távola (1936 – 2008) dizia: “A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir e entender. E….nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são CAPAZES.”

Sem mais delongas, a pessoa que está na pessoa de Pessoa, FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS.

1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

Thomas Mann (O Escritor e sua Missão)

(Resenha e comentários da obra são de Rafael Bán Jacobsen, extraídos de http://www.amalgama.blog.br/02/2012/o-escritor-e-sua-missao-thomas-mann/)

Título original:     
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradução: Kristina Michahelles
Editora: Zahar
Assunto: Ensaios
Edição: 1ª
Ano: 2011
Páginas: 208

Sinopse

Thomas Mann tem uma vasta e relevante produção não ficcional, pouco conhecida e/ou publicada no Brasil. Para divulgá-la, a Zahar está lançando a série Thomas Mann – Escritos & Ensaios, com volumes organizados especialmente para o público brasileiro. Este primeiro volume, ‘O escritor e sua missão’, reúne 12 ensaios a respeito da obra (e muitas vezes também a vida) de expoentes como Tolstói, Goethe, Dostoiévski, Hermann Hesse, Shaw, Heinrich Heine, Ibsen, Zola e Tchekhov. São textos escritos por Mann em contextos variados: homenagens em datas comemorativas de Goethe e Tolstói, necrológio para George Bernard Shaw e Hugo von Hofmannsthal, prefácio a uma edição de Dostoiévski, resposta a uma pesquisa de um jornal no caso de Ibsen… E versam sobre temas não menos diversos, tais como os pontos de aproximação entre as obras de Ibsen e Wagner, papel de Goethe como representante da era burguesa, a relação entre Dostoiévski, sua doença e sua produção literária. Eruditos e instigantes, os ensaios oferecem uma luz original não apenas sobre outros autores, mas também sobre o próprio Mann, pois dialogam com sua produção ficcional, refletindo os interesses, preocupações e desafios que o estimularam ao longo de sua trajetória.

Em alguns momentos, o leitor terá a impressão de que o autor comenta seus próprios textos ao analisar os escritos alheios. Um livro essencial para se aprofundar não apenas na obra de escritores modernos europeus e o contexto em que foram realizados os seus escritos, mas também no próprio pensamento de Thomas Mann.

Resenha:

O artigo que abre o volume intitula-se “Sobre Heinrich Heine”. Trata-se de um pequeno texto em que Mann elogia a obra desse poeta alemão de origem judaica que foi, provavelmente, o primeiro sujeito a receber a alcunha de “último dos românticos” e que foi celebrizado pela musicalização que compositores como Schumann, Brahms e Schubert fizeram de seus versos. O artigo visava defender a construção de um monumento em homenagem a Heine, projeto que, na época, estava atravancado pelo furor antissemita que grassava na Alemanha.

O segundo texto é “Ibsen e Wagner”. Nele, Mann estabelece um paralelo entre as obras do compositor Richard Wagner, famoso por “O Anel dos Nibelungos”, seu ciclo operístico megalomaníaco (no melhor dos sentidos), e a dramaturgia de Henrik Ibsen, partindo de uma observação casual de Hermann Levy, um famoso regente de Bayreuth, que, ao assistir pela primeira vez a uma peça de Ibsen, teria dito: “Ou bem isto é ridículo, ou é tão grandioso quanto Wagner.” Mann advoga que Ibsen e Wagner, na comédia de costumes e na ópera, respectivamente, foram capazes de transcender os gêneros que cultivaram, criando, a partir de sua matéria bruta, algo novo e perfeito.

A seguir, o [terceiro] ensaio “Tolstói – no centenário do seu nascimento” apresenta um retrato semiliterário do romancista russo. Mann o enaltece como um homem de fibra e personalidade, representante dos melhores valores e do espírito épico da segunda metade do século XIX, uma espécie de profeta que, mesmo quando tencionava deixar a arte de lado para transmitir lições e opiniões, escrevia com criatividade e imensa lucidez, tanto que, nas palavras de Mann, foi capaz de conceber “o romance social mais poderoso da literatura mundial”: Anna Karenina.

[Quarto ensaio] O necrológio “In memoriam Hugo von Hofmannsthal” focaliza muito mais a relação de amizade de Mann com o poeta e dramaturgo austríaco do que a obra deste, a qual, pelo menos no Brasil, é mais conhecida através dos libretos que ele escreveu para várias óperas de Richard Strauss. Não deixa de ser interessante apreciar, através dos relatos de Mann, um pouco dos bastidores da cena literária alemã do começo do século XX, da camaradagem e das trocas entre os autores de então, e ainda deparar com percepções preciosas de Mann, como a seguinte descrição da pessoa de Hofmannsthal:

“Ele tinha uma maneira de compreender antes que o próprio interlocutor compreendesse, de aperfeiçoar e dar sequência a coisas que capturava no ar, fazendo com que a conversação transcorresse com leveza onírica e jocosamente inteligente.”

O quinto texto, “Discurso sobre Lessing”, é um ensaio caudaloso no qual Mann disserta sobre a obra de Gotthold Ephraim Lessing, poeta, dramaturgo, crítico de arte e filósofo, autor de Laocoonte, ou Sobre as fronteiras da pintura e da poesia, um clássico da teoria estética, enaltecendo-o como um tipo “fundador, em que vidas futuras se reconhecem”, um dos espíritos “mais crentes, bondosos e esperançosos que já viveram e se preocuparam com o humano”. Mann defende o status de poeta muitas vezes negado a Lessing pela crítica, aborda sua tendência à polêmica (descrevendo um célebre embate teológico em que Lessing se envolveu e ao final do qual acabou proibido de publicar textos sobre religião) e ainda traça um instigante paralelo entre ele e Lutero, tendo ambos como exemplos de personalidades libertárias, questionadoras e à frente de seus tempos.

[Sexto ensaio] Em “Goethe como representante da era burguesa”, Mann parte de três possíveis maneiras de avaliar a significância e o impacto de Goethe na cultura: a primeira, mais modesta, seria considerá-lo como o mestre do classicismo alemão que, de fato, forjou a noção de uma cultura alemã; a segunda, grandiloquente, mas não necessariamente exagerada, consistiria em colocá-lo entre os “grandes vultos que já passaram pela Terra”, um desses expoentes cuja influência se estende por milênios e que, por isso, acabam adquirindo aura mítica; a terceira, uma espécie de meio-termo entre as duas primeiras abordagens, seria alçar Goethe à condição de representante da “era burguesa”, isto é, o período histórico que se estende desde o século XV até a virada do século XIX. A partir daí, Mann busca retratar o autor de Werther e Fausto como um típico burguês, de “modos simples e educados”, amante da boa comida e da bebida, que se agradava da rotina e do fato de pertencer a um estrato social confortavelmente mediano, o qual seria propício ao talento, pois, nas palavras do próprio Goethe, “encontramos todos os grandes artistas e poetas nas classes médias”. Levando-se em conta o contexto histórico, é plenamente justificado o esforço de Mann para retratar Goethe dessa forma: trata-se de uma resposta aos nazistas que, na época, em 1932, ganhavam cada vez mais poder e buscavam legitimar seus ideais e suas doutrinas deturpando a imagem de grandes pensadores germânicos, como Goethe, o qual, não raro, era convenientemente descrito por eles como populista e ultranacionalista.

O sétimo ensaio que compõe o volume é “Dostoiévski, com moderação”, um prefácio redigido por Mann para uma coletânea de romances do autor russo publicada nos Estados Unidos. Aqui, Mann demonstra seu fascínio pela condição de epilético e pelo estigma de homem doente sob o qual vivia o autor de Os Demônios, condição essa que abarcaria a “grandeza religiosa dos amaldiçoados, do gênio como doença e da doença como gênio, do tipo do atormentado e do possesso, no qual o santo e o criminoso se tornam um só”. Analisa, então, a repercussão dessa doença de êxtases e convulsões sobre a personalidade marginal de Dostoiévski e sobre a sua produção literária, chegando, em certos momentos, a tecer saborosas (porém equivocadas) especulações sobre uma eventual origem psíquica da epilepsia:

“Em minha opinião ela indubitavelmente tem suas raízes no campo sexual e é uma forma selvagem e explosiva de sua dinâmica, um ato sexual deslocado e transfigurado, uma devassidão mística.”

A partir da convicção nietzscheana de que as situações de exceção condicionam o artista, “todas as situações que são profundamente aparentadas e entretecidas com sintomas doentios”, e da pré-existência do conceito de “super-homem” na obra de Dostoiévski (mais especificamente nas falas da personagem Kirilov, em Os Demônios), Mann estabelece ainda um diálogo entre o romancista russo e o filósofo niilista alemão.

[Oitavo] Segue-se o texto congratulatório “Hermann Hesse – homenagem ao seu 70º aniversário”. Nesse artigo, mais uma vez, Mann apoia-se na sua relação pessoal com o escritor comentado para tratar de assuntos universais – aqui, mais especificamente, o conflito entre a visão crítica de certos intelectuais alemães (ele próprio e Hesse inclusos) e a tacanhice ideológica e estultice patriota dos diversos setores sociais que serviram de substrato ao crescimento do nazismo ou que por ele se deixaram contaminar. Um dos primeiros pontos de contato que Mann apresenta para ilustrar sua proximidade com Hesse é o fato de ambos terem sido chamados de “miseráveis” por um certo compositor de Munique porque ambos não compactuariam com a crença de que os alemães seriam “o maior e mais nobre dos povos, ‘um canário entre rolinhas’”. A visão compartilhada de Mann e Hesse acerca da presunção e do provincianismo germânico é sintetizada em uma sentença no melhor estilo “pá de cal”: “Na Alemanha, aliás, os insatisfeitos com a cultura alemã foram sempre os mais alemães de todos.”

[Nono] Em “Bernard Shaw”, mais um necrológio contido na compilação, Mann escreve sobre aquele que, sem dúvidas, foi seu dramaturgo favorito, ressaltando o apreço que o autor dublinense tinha pela Alemanha, esse país que reconheceu sua importância para o teatro antes mesmo dos países de língua inglesa, muito embora a influência da cultura germânica sobre a obra de Shaw fosse mínima e mesmo que seu conhecimento nesse âmbito fosse “fragmentário e casual”. Outro aspecto abordado por Mann é o influxo da música na obra de Shaw, socialista radical capaz de se dedicar com idêntica paixão ao estudo de O Capital ou da partitura de “Tristão e Isolda”. Shaw era um homem austero, dado a banhos frios, vegetariano, que gostava de escrever em uma cabana de simplicidade franciscana, e essas características, que se poderiam chamar de tendência ascética de Shaw, não passam incólumes à leve (mas constante) acidez de Mann, como mostra o trecho a seguir, um excerto particularmente divertido quando lido por olhos vegetarianos:

“Na imagem de Shaw (…) há algo de magro, de vegetariano e de frígido que, para mim, não combina com a imagem de grandeza. (…) A batalha pesada (que lembra o titã Atlas) e a carga muscular e moral de um Tolstói; Strindberg, que passou pelo inferno; a morte de Nietzsche como mártir na cruz do pensamento nos insuflam esse respeito trágico. Nada disso no caso de Shaw.”

E lança, então, uma pergunta provocadora, cuja resposta deixa propositalmente em aberto: “Estaria ele acima disso ou não estaria ele à altura disso?”.

O décimo artigo, “Gerhart Hauptmann”, versa sobre o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1912, um romancista e dramaturgo alemão cuja obra, inicialmente de tendências naturalistas (vide as peças “Antes da aurora” ou “Os tecelões”), converteu-se em algo muito mais próximo de um simbolismo metafísico de forte inspiração religiosa (a novela Herege de Soana é um exemplo). Mann gasta um bom pedaço do artigo para explicar que o fato de ter se inspirado em Hauptmann para criar o cativante mas desajeitado e naïf Mynheer Peeperkorn de A Montanha Mágica foi uma homenagem, e não uma traição. Porém, ao tratar da concepção dessa caricatura, Mann não está se justificando ou pedindo escusas de qualquer tipo à opinião pública; ele está, em realidade, tratando de um tema fundamental na arte da escrita: a modelagem de personagens literárias.

O penúltimo texto, “Fragmento sobre Zola”, é uma das raras referências ao escritor francês dentro da obra ensaística de Thomas Mann. Embora ele defenda a proposta estética de Zola, considerando que seu naturalismo “se alça ao plano do simbólico e se vincula intimamente ao mítico”, é o engajamento social do autor de Germinal que o fascina sobretudo, especialmente sua intervenção no famoso caso Dreyfus, em que um oficial judeu do exército francês, em flagrante manifestação de antissemitismo, foi injustamente acusado de traição à pátria.

Encerrando a compilação O escritor e sua missão, está o belíssimo “Ensaio sobre Tchekhov”. Certa vez, no começo de sua carreira literária, quando a fama do escritor já eclipsava a do médico, Tchekhov, eternamente modesto, insatisfeito e desconfiado do próprio talento para as letras, escreveu: “Será que estou ludibriando o leitor, já que não sou capaz de responder às questões mais importantes?”. E foi essa frase que tocou fundo no espírito de Mann a ponto de fazê-lo se debruçar sobre a biografia de Tchekhov. E, de fato, o ensaio de Mann elenca e esmiúça várias passagens da vida do russo, buscando, pelo veio biográfico, explicar a gênese e a importância de sua obra, essa obra que, ao contrário das criações de Tolstói e Dostoiévski, “abriu mão da monumentalidade épica” e, mesmo assim, conseguiu encerrar em si “toda a vasta Rússia de antes da revolução, com sua natureza eterna e suas eternas condições sociais ‘desnaturadas’”.

* x * x *

Comentários:
Esse caleidoscópio de ensaios, um bem temperado aperitivo da obra não-ficcional de Mann, certamente atrairá escritores (e candidatos a escritores) em busca de “conselhos” desse gigante da literatura universal sobre o ofício (até mesmo por causa do título escolhido para a coletânea, que parece insinuar algo nessa direção). Tais leitores poderão se desapontar, porque, de fato, o livro está longe de ser um “manual de criação literária” ou coisa parecida. Contudo, para quem tem sede de colher alguma dica sobre o assunto, é possível sim garimpar algumas delas entre as observações do próprio Mann e citações que ele busca em outros autores para ilustrar suas argumentações. Eis algumas delas, transcritas em uma salada proposital, sem delimitar claramente o que é original de Mann e o que é invocado por ele a partir de outros:

“A genialidade na arte seria então o elemento da surpresa e do encanto que causa pasmo, o elemento da ousadia que só pode ser conhecido em suas realizações.

(…) como ensina a estética de Schopenhauer (…) as obras mais elevadas se contentam com um mínimo de ação.

Há a dolorosa constatação de que a palavra apenas consegue elogiar a beleza física, nunca reproduzi-la, há o desafio aos poetas de abrir mão da descrição, da narrativa da beleza, para, em seu lugar, pintar para nós o bem-estar, o afeto, o amor, o encanto que a beleza causa, pois com isso, diz Lessing, “tereis pintado a beleza ela mesma”.

Uma obra-prima não pode parecer obra-prima.

Apesar de tudo, parece que um artista, um criador (…), não tem como não afirmar a vida e lhe ser fiel.

Sinto que, sobre o demoníaco, deve-se “poetar” e não apenas escrever.

Foi o pintor e escultor francês Degas quem afirmou que um artista deve se aproximar de sua obra como um criminoso executa seu ato.

Pois a única forma de lidar com o que é poético, irracional, é por meio da literatura, e não por intermédio da palavra que analisa e dissocia.

A insatisfação consigo mesmo constitui um elemento básico de todo talento genuíno.”

Fonte:
http://anatoli-oliynik.blogspot.com.br/2012/08/o-escritor-e-sua-missao.html

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

Pedro Du Bois (Lançamento do livro “Brevidades”)


O Projeto Passo Fundo e Pedro Du Bois convidam para o lançamento do livro de poemas

Com prefácio do poeta amazônico Jorge Tufic e comentário (orelha) do professor e historiador Paulo Monteiro,

19 de abril, 5a. feira, a partir das 18 horas

Livraria Nobel
Rua Gal. Osório, 1148 – Passo Fundo – RS

Brevidades é o novo livro de poemas de Pedro Du Bois, lançado através do Projeto Passo Fundo, que tem por criador e administrador, Ernesto Zanette. A obra traz a apresentação do poeta Jorge Tufic; “orelha” do historiador e poeta Paulo Monteiro; capa da artista plástica Silvana Oliveira.


Os poemas estão divididos em cinco blocos: Breve apanhado sobre a (minha) lucidez, Breve anotação sobre a (minha) sanidade, Breve apontamento sobre o (meu) equilíbrio, Breve relato sobre a (minha) natureza e Breve ilustração sobre o (meu) sentimento.
Na obra o autor expõe (suas) brevidades, revelando tipos obsessivos, frutos de suas observações sobre a lucidez, o equilíbrio, a natureza e o sentimento.

“Permito-me a lucidez: vejo a árvore e os frutos; / desfaço a cama e guardo as cobertas. Visto na roupa / a imagem trazida no regresso. //… A lucidez contém luzes enfeitiçadas de verdades. / A lucidez é o meu cansaço”.

Nos poemas, Pedro Du Bois diz “da brevidade do pensamento e dos atos”, através de imagens metafóricas que celebrizam fragmentos da vida na descrição de quadros complexos, onde se defronta com a (sua) sanidade e natureza; penetra na película do (seu) comportamento ao demonstrar a (sua) aparência no universo de (des)equilíbrios: o (seu) sentimento que o libera da necessidade limitadora de se submeter ao cotidiano e pela maneira com que se envolve na imaginação ao se descobrir em “Brevidades”.

“… – sou cores realizadas em tinta / e represento vontades: claras / escuras amarelas e vermelhas. / Pranteio o antecedente espaço / e me aprofundo em brancos. //… – sou cores fixadas sobre a pedra / e me digo consentâneo em respostas”.

Segundo o poeta Jorge Tufic, “o autor deste livro capta as situações e posturas mais diversas em que se vê, dando aos tranquilos ou abismáticos rituais de seu cotidiano admissíveis “estampas” da realidade em cada bloco ou fragmento, como se “cantos” fossem de uma bem elaborada saga individual, entre a “solidão do corpo” e a “sentinela do olvido”.

Nas palavras do historiador e poeta Paulo Monteiro, “… Os temas minúsculos, invisíveis e indiferentes à grande arte estão presentes nos poemas de Pedro…. Na verdade, a obra poética de Pedro Du Bois mais do que reunir influências, reúne sensações”.

Ao lermos Brevidades vemos, além do domínio técnico e da beleza, a certeza do objetivo alcançado através de grande processo criativo, sensível e emotivo.
Tânia Du Bois

1
Permito-me a lucidez: vejo a árvore e os frutos;
desfaço a cama e guardo as cobertas. Visto na roupa
a imagem trazida no regresso. Da casa retenho
a tinta das paredes; nos vidros da janela vejo
a poeira acumulada. Recorro à figura armazenada
e retiro a essência. A lucidez me repete
fatos intercalados.

Invado o lúdico e me deparo com a reserva
ao conhecimento. Cumprimento a sombra
do que sou e deixo arrolado o tanto procurado.

A lucidez contém luzes enfeitiçadas de verdades.
A lucidez é meu cansaço.

Fonte:
O autor
Resenha por Tânia Du Bois, in http://www.recantodasletras.com.br/artigos/3613001

1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, Lançamento, poema., Resenha

Geimes Oliveira (Resenha sobre Livro de Estilística, de José Lemos Monteiro)


MONTEIRO, José Lemos. A Estilística: manual de análise e criação do estilo literário. 2. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2009, Cap. I, pp. 41-99.

A obra Estilística: Manual de análise e criação do estilo literário escrita por José Lemos Monteiro, Doutor em Letras e mestre em Educação, professor titular da Universidade de Fortaleza. É crucial para o nosso entendimento sobre a disciplina em questão, porque sugere métodos para a análise dos usos linguísticos e nos auxilia a identificar os mecanismos que propiciam a escolha de uma forma em vez de outras disponíveis, para melhor explorar o potencial expressivo da linguagem.

Neste primeiro capítulo, o autor introduz algumas considerações sobre a delimitação terminológica do que seja estilo que, por sua vez, faz-se bastante complexo uma vez que alguns teóricos o veem vago e genericamente e outros a querem restrito ao uso individual da linguagem para fins literários. Se bem que a maioria dos autores corroboram que o traço da individualidade é muito presente quando falamos de estilística.

Embora outros discordem que esse valor individual é raro, posto que o processo verbal já resulta de uma extensa quantidade de fatores culturais, como as influências do meio, da época, da estrutura linguística, entre outros. Isto quer dizer que a estilística voltada para o estudo da língua visa analisar as variantes normais com valor expressivo-afetivo. Porém, para alguns autores citados por Monteiro dizem que não existem línguas mais belas, mais harmoniosas que outras.

Por fim, o escritor deste livro ressalta que não há critérios científicos objetivos para definir o grau de beleza e, portanto, os julgamentos desfavoráveis constituem nada mais que uma forma de preconceito. Por isso, a definição do que seja realmente estilo vai além dos recortes terminológicos feitos sobre o assunto.

Dando continuidade a polêmica de conceituação de estilo, Monteiro discute também as diferenças feitas sobre normas e desvios. Notando que as normas tem uma área maior de incidência de dados do que os desvios, visto que a primeira são hábitos, construções ou usos da maioria da população, já os desvios são as alterações devidas ao desconhecimento, lapso de memória e cansaço mental ou algum intuito expressivo.

O autor ressalta ainda que o desvio como nem sempre é fácil identificá-lo pela relação do conceito de norma, é preciso vê os desvios tendo como referência a determinado registro linguístico ou ao ambiente sociocultural. Desse processo temos os conteúdos emotivos que visam estimular a exteriorização psíquica de escritores acerca de seus sentimentos e emoções para constituir o estilo próprio. Sendo que as formas expressivas estão associadas a uma emoção.

Por isso, Monteiro diz que a linguagem conativa é extremamente rica, às vezes de difícil decodificação, em face dos múltiplos significados que engloba, já que a Estilística volta-se a recriação da linguagem em que há as expressões utilizadas buscam sensibilizar, transmitir valores e evocações emotivas nesse processo de reconstrução, sobretudo das ambiguidades da mensagem.

No final desse capítulo, Monteiro mostra exemplos sólidos em textos literários demarcando as figuras usadas pelos escritores para a construção do estilo literário em que os desvios estilísticos foram retoricamente sempre praticados pelo uso de figuras que são simples repetição de palavras que ao posiciona-se no texto causa seu efeito expressivo dentro, é claro, dos níveis sintáticos, morfológicos, semânticos e lógicos mais enfatizados.

Fonte:
http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/2278861

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

Celso Sisto (Circo Mágico)

Hoje tem marmelada? Hoje tem goiabada?!

Provavelmente os mais antigos conhecem o verso: hoje tem marmelada? Tem sim senhor! Hoje tem goiabada? Tem sim senhor! E o palhaço o que é? É ladrão de mulher! Com esse bordão se anunciava a chegada do circo! E atrás, vinha o desfile das atrações. E algumas atrações dos grandes circos atravessaram o tempo, como os palhaços Piolin e Carequinha ou o mágico Houdini. E assim como a acrobacia circense extrapolou os domínios da China, o circo ainda vive, nos quatro cantos do mundo!

E circo sempre desperta a imaginação. Pode ser o circo de antigamente ou os novos circos, com bichos ou sem bichos, de variedades ou temáticos (como costumam ser os circos modernos!), daqui ou de longe, brasileiro ou estrangeiro. Não importa! A imaginação se arma para a festa, para a surpresa e para o riso, tudo na base da emoção. E de repente todo mundo parece ter a mesma idade, mesmo que tenham variados tamanhos e diferentes anos de vida.

Mas se circo atiça a imaginação, também provoca poesia.

No livro “Circo mágico” vamos encontrar 20 poemas sobre os personagens clássicos de um circo; desde o bilheteiro ao apresentador; do tratador ao adestrador de animais; do equilibrista ao domador; do palhaço ao malabarista. O livro é quase uma fotografia da família circense, dessas charmosamente amareladas feitas por um lambe-lambe. Digo “fotografia” porque os poemas “focalizam” justamente o elenco que compõem um circo. Mas são mais do que mero registro de luz e sombra, mais que papel e líquidos reveladores e fixadores! São poemas revestidos pela química do tempo e do olhar perscrutador do poeta.

Mas não é assim tão simples. Falar de cada tipo desses na forma de poema é a proposta do livro. E não é poema desses rimadinhos pra ficar bonitinho. Não! São poemas bem construídos com versos grandes ou pequenos, com estrofes (“divisórias”) maiores ou menores; com palavras conhecidas ou desconhecidas. O que importa é que os poemas não são simples jogos de palavras (a poesia infantil, por vezes, esquece o jogo dos sentidos para ficar apenas no vazio dos jogos de palavras!). Eles apontam para a brincadeira sim, para a delícia das palavras sonoras, para o ritmo da fala (poema sempre é melhor quando lido em voz alta!), mas também para umas idéias engraçadas e brincalhonas, como no poema “a mulher borracha”:

a mulher-borracha
é que tem jogo de cintura

parece de látex
retorce pra lá, retorce pra cá
vira do avesso
se estica toda
que nem cobra, lombriga, minhoca
até encostar o umbigo nas costas
então se desenrosca

depois
coça a cabeça com o pé
as pernas põe atrás da orelha
e sai caminhando com as duas mãos
sobre os dedos
na maior

mas o namorado largou dela
diz que era muito enrolada.

O poeta vai jogando com o sentido duplo das coisas, em vários poemas, como faz acima, com o verso “diz que era muito enrolada” ou, como faz no verso “para o homem-bala/ a vida é um tiro no escuro”, do poema “o homem-bala”. E com isso, instaura o riso. Ou faz cessar o riso e instaura a reflexão, como no poema “o palhaço”:

o palhaço
tem cinco filhos
riso, sorriso, risada e gargalhada.

o mais velho
fica em casa
veste preto
gosta de rock pesado
vara noite e madrugada

se chama lágrima

Como num circo de verdade, os poemas do livro conseguem despertar no leitor uma gama de emoções muito grandes, que vão do riso ao suspense, da melancolia ao medo, por exemplo. E num circo de sentimentos, a emoção, por vezes, é um corte, como neste poema:

a mulher do atirador de facas
confia no marido de olhos fechados

errar é humano
mas ela nem desconfia

Se no circo é o “número, a cena” quem traz a marca do sentimento (por exemplo, um número de palhaço traz sempre a marca do riso, a platéia sabe que vai rir com aquele número), no livro, o personagem descrito no poema além de trazer uma marca prévia, conhecida, é acrescido por um discurso que reforça ou desconstrói tudo isso, de uma forma inusitada. O sentimento impresso no tipo que ele representa é reforçado pelo discurso, é somado ao discurso, mas com um toque a mais (do contrário seria a repetição do que já se sabe ou se conhece!). Vejamos, por exemplo, o poema “o mágico”, em que o sentimento de surpresa emerge de várias formas, seja pelas mágicas executadas pelo mágico, seja pela falha do mágico em suas próprias mágicas, como se o poema construísse e desconstruísse o “natural” dos personagens, dos tipos que cria, indo além de uma mera descrição:

o mágico
gosta de enganar os olhos da gente

fazer sumir e aparecer coisas
é com ele mesmo
nessa hora ninguém pisca
todo mundo quer ver se decifra
e num passe de mágica
o que se escafedeu se desescafede
e reaparece

quer ver o menino rir
a mocinha sorrir, o velhinho feliz
nem que seja por um instante só.

mas a sua maior mágica
é fazer gente grande virar gente pequena

quando não funciona, ele pensa:
ó, que pena

Ainda poderíamos pensar que em “circo mágico”, os poemas mostram o lado espetacular e o lado humano de cada tipo desses. Como se fosse um espelho. Ou como se fosse o “de dentro e o de fora”:

a mulher que engole fogo
é cuca fresca
não se queima com nada

era fogo quando criança
quase incendiava a casa
mas de noite
nada de xixi na cama

não gosta de pilotar fogão
prefere uma churrasqueira
uma fogueira, um fogo de chão

certas piadinhas ela não aceita
quando se irrita solta fogo pelas ventas

sabe que não é bonita
mas também não é nenhum dragão

Há, contudo, no livro, umas frases sob medida, construídas para ficarem rodando na cabeça do leitor, como esta do poema “o apresentador”:

(…)
tem que entrar no picadeiro de peito aberto
pra fazer o céu chegar mais perto Ou uns toques-revelação contidos em alguns poemas, como este do “tratador de animais”:

o tratador de animais
é um cara intratável
prefere viver com os bichos
… são mais verdadeiros
(…)

Mas, no final das contas não é isso o que a poesia quer? Ficar morando nos olhos, na memória, no coração do leitor? O mais legal é isso, esse jogo de dubiedades, de ritmos, de graças, de sentimentos, que fazem dos poemas desse livro, um festival de brincadeiras sonoras e imaginárias, em que a palavra corporifica o seu significado real, ampliado, renovado, atualizado pelo simbólico. Precisa mais?

Em última instância, o livro fica a nos lembrar que para sentir e se espantar com o que os olhos vêem e com o que os outros fazem de espetacular, não há idade. O circo das palavras de Alexandre e Eduardo liberta bichos, feras, homens e meninos. Fazendo tudo e todos conviverem magicamente no mesmo tempo e lugar:

o circo
tem cheiro de pipoca
e algodão doce

é o paraíso
hoje, ontem, amanhã
vira sempre

é um lugar exato no espaço
fora do tempo
dentro do coração

onde o velho e a criança
dão as mãos.

Essa idéia, de paraíso, de lugar idílico, de território que abole fronteiras perpassa o livro em muitos momentos, e certamente ecoará depois que o leitor fechar o livro, principalmente porque a solenidade do significado de tudo isso está magnetizada e aromatizada pelo riso, pela leveza, pelo inesperado.

As ilustrações parecem feitas em tela e deixam o leitor ver os risquinhos do tecido, essa textura que é tão própria dos quadros. E as cores são abundantes. E o colorido é uma alegria só. Desenhos com cara de antigos pôsteres de propagandas.

Alexandre Brito estréia em livro solo para criança, e estréia muito bem. Traz consigo a experiência da banda “os poETs”, da qual faz parte. Eduardo Vieira Cunha entrou com as ilustrações amplas e enxutas. Na medida. A dupla faz samba, quero dizer, poesia pura, em vários sentidos!

Fonte:
Artistas Gaúchos

1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

A Poesia Azul de Fernando Koproski

por Rodrigo de Souza Leão

O poeta atual – devido aos alicerces que fundamentam a poesia de hoje – está quase sempre em profunda oscilação entre o caráter dionisíaco e o caráter apolíneo de sua arte. São raros os casos de convivência pacífica entre estes dois extremos. Penso o apolíneo como sendo a propensão a uma forma “enxuta” do poema, à moda cabralina, e vejo como dionisíaca o acento maior para o conteúdo. Para um bom projeto literário é necessário que estas duas forças, as de forma e conteúdo – apolíneo e dionisíaco -, estejam lado a lado em uma peça literária; e que elas participem em igualdade de força e tensão, proporcionando assim uma estética de completude na escrita de um autor.

O poeta vive na corda bamba. Se ele for excessivamente “forma”, corre o risco de se perder sem conteúdo. Se for o oposto, a forma pode ficar prejudicada e o poema embarcar pelos caminhos de uma poesia tíbia, em que a estrutura não possui a tensão que deveria ter. Afinal, não são mais tempos de uma escrita grandiloqüente, em que o poeta se adula de metáforas e linguagem conotativa. Então, como equilibrar a forma e o conteúdo numa poética? Como manter em patamares aceitáveis os níveis de apolíneo e dionisíaco na arte de escrever versos?

Estas perguntas podem ser respondidas citando o exemplo do poeta Fernando Koproski, no livro Pétalas, pálpebras e pressas (Sesquicentenário, 2004), sua quarta incursão pelo mundo poético. Onde Fernando dosa muito bem o conteúdo e forma: incorporando o ensinamento de Cabral, o de não perfumar a flor, e o conteúdo lírico de Vinicius de Morais, o de falar de amor despudoradamente.

Posso partir do pressuposto de que a poesia de Koproski está alicerçada em duas temáticas bem definidas: de metalinguagem e lírico-amorosa. A primeira é uma ambição alcançada desde uma advertência – nas primeiras páginas do opúsculo – de que este apanhado de poemas não é de poesia e sim sobre o assunto. A segunda já fazia parte dos primeiros projetos, em livros anteriores, do autor. Mas há espaço também para o hibridismo temático, onde o poeta alça um vôo “azul” sobre estas duas vozes que fazem parte de seu repertório.

Convém refletir que tanto a metalinguagem quanto o amor já foram exaustivamente usados
poeticamente. Aí que está a força de Koproski: utilizar, de maneira nova, temas recorrentes na literatura, sem cair no lugar comum. Para isto o autor, como nos diz Paulo Sandrini na orelha do livro, lança mão de “doses de oxímoros, metonímias, metáforas, sinestesias, sinédoques, aliterações, assonâncias, melopéias, fanopéias, logopéias e coisa e tal”. E são doses exatas. Tudo de modo diferente, a serviço da boa poesia.

AZUL

Para Koproski azul é a cor do poema. Trata-se de um ensaio – que consta do livro – em que o autor elabora a noção de que esta tonalidade é a mais poética para a poesia. Pétalas, pálpebras e pressas está dividido em três partes. A primeira delas (a minha maneira de estar sozinho) é composta de belos poemas e poemas em prosa. Podemos citar vários exemplos de como o poeta alcança o seu intuito, como nesta peça sem título: “um dia talvez/quando tinha 17/agora,/tarde demais(…)//noites por certo/quando tinha 27/até que escrevi(…)//hoje tenho tantas tardes(…)//tarde demais pra ser rimbaud/ou pra cometer o suicídio/um pouco cedo ainda/pra pensar em ser Vinicius”.

A segunda parte do livro (o que é o poema?) reúne alguns ensaios que versam sobre o fazer poético com muita delicadeza e personalidade, à maneira de Koproski: com muita poesia. A terceira e última seção têm como abertura um belo poema também sem título:

desde que decidi viver
morrer tem sido a vida inteira
lago a lago à espera de um amor
morrer esse mar que me lê
em páginas e mais páginas de areia

Há também um ensaio entremeado com a poesia de Koproski em que se mostra o seu virtuosismo ensaístico e poético. Tudo ao mesmo tempo: num só encadeamento. Juntando ensaio, prosa poética e poesia num trabalho de habilidade ímpar. Assim como os Beatles têm um álbum branco que entrou para a história da música, quem sabe este não será o livro azul de Koproski a entrar pra história da nossa nova poesia brasileira?

RL – Fernando, por que a cor da poesia é a azul?

FK – Citando uma passagem que trata disto em meu último livro: “Porque o azul de um poema é como um sistema propulsor de vôo para os pássaros e borboletas”. Assim penso a rara substância, cara seiva composta de matéria onírica, liberta e sugestionável que segue e infringe delicadamente as leis internas responsáveis pelo funcionamento de um poema. Azul é a cor de um poema por toda a amplitude sensorial que esta cor fere nas águas do olhar, caminhar de lagos que ela sugere ou mesmo signifique quando desavisados um céu no mar ela nos pisque e amplifique.

RL – Por que escreve?

FK – Muitos escribas já investigaram alguns de seus porquês e dos porquês de escrever. Sinto uma proximidade, aceitável identificação com os que o fazem por razões especificamente fisiológicas, feito fosse o poema realmente uma necessidade corpórea, uma dessas urgências da epiderme em identificar e esmiuçar o que a atrita ou a afaga. Mas não penso o poema somente como uma carência a ser sanada de uma estrutura física, posto que os exercícios da mente em geral exigem muito mais atenção e acompanhamento clínico de uma poética. Assim, penso que escrever poderia muito bem ser um suor da alma, algo imprescindivelmente necessário ao bom funcionamento deste estranho e frágil mecanismo feito de ossos e carne pulsante que volta e meia não se conforma em ser apenas o que é e, merecida ou imerecidamente, sonha ir além.

RL – O que é poesia de invenção?

FK – Não me vejo como defensor, muito menos procurador dessa tendência da poesia brasileira atual de empreender uma verdadeira cruzada de esvaziamento de significação nas possibilidades de terna ou tensa convivência entre o sentir e o pensar, em nome de uma pretensa procura por inovação de linguagem no que se propõe poesia; não importa o quanto este esvaziamento seja cuidadosamente maquiado por anúncios competentes de belas campanhas de self-marketing literário de certos “poetas”, e principalmente assegurado por estes em conluios comumente realizados nos círculos da política literária tupiniquim. Pois não imagino como testemunhas do culto ao fragmentário ou da “velocidade” de percepção, nomeadamente os que insistem em cultivar insights poéticos como se estes fossem poemas, ou mesmo os que assumem uma postura de delírio em pretensos ornamentos e “rebuscamentos” feito fosse o poema uma simples arte decorativa, nomeadamente os que procuram disfarçar sua mera condição de obsessivos-compulsivos por dicionários, alheios à verdadeira força motriz da linguagem, tenham de fato algo a ver com a poesia de invenção.

Tampouco sou partidário desse Rotary Club da terceira idade da literatura, composto em sua grande maioria por velhas carpideiras da linguagem, ou seja, distintas senhoras (algumas bem jovens, por sinal) que passam a vida a se lamuriar, cônscias que estão de que não há nada mais a fazer e a inventar, condicionadas, portanto, a apenas lamentar o fim das inovações e dos limites a serem transpostos do verso e pelo verso. Neste cenário tão profuso a seriedades e equívocos da razão, posto que os da paixão ou são desculpados ou ignorados ou lamentados, a única coisa que percebo é que se há um caminho a pensar e a sentir uma nova forma poética – ou como queiram, poesia de invenção -, intuo que este não seja um caminho único, de uma via apenas.
Seria talvez um caminho de jardins que se bifurcam, onde os procedimentos prosaicos não se sintam tão negligenciados ou assimilados tão simploriamente pelos cultores de versos, e de igual forma os discípulos dessa ciência que a tantos torna propícia uma música de idéias, não se proclamem tão narcísicos em relação às suas virtuosas demonstrações de egoísmo e, depreciativos, esqueçam do aspecto fundamental da arquitetura poética que é a capacidade comunicativa. Talvez assim os jardins, ainda que não anseiem por completude ou supremacia de seus procedimentos internos em relação aos que destes distam, ao menos percebam através de suas distinções de áreas de sombra as alturas que anseiam e a capacidade de claridade que sonhem e possam apreender dos ensinamentos daquela luz que se faz autêntica.

RL – Como anda a cena poética do Paraná?

FK – Acho que vai bem. Encontro força e vontade aliadas a juventudes sensíveis. E quando falo em juventude, me refiro a obras em expansão que independem da idade cronológica de seus autores. Confirmo este olhar ao ver os poemas que Bárbara Lia comete. Esta que embora tenha sido uma poeta educada por Borges e Lezama Lima, já foi vista cabulando muitas aulas ao lado de Rimbaud e outros seres de alta periculosidade poética. Igualmente espero bons trabalhos dela e de Luiz Felipe Leprevost para o futuro, pela distinta poética cênica que este autor vem desenvolvendo. Además, se não encontro muita poesia em alguns poetas praticantes daqui, de forma alguma há razão para pânico ou melancolia. Basta me dirigir ao meu armário de primeiros socorros poéticos e abrir qualquer livro de contos da Luci Collin, pois ali é amplamente possível ao leitor encontrar poesia – com aquele componente ativo chamado autenticidade – em altas dosagens; administrada cuidadosamente e com muita maestria, encanto e beleza entre os fios narrativos. A quem interessar possa, estas narrativas poéticas da Luci, eu prescrevo sem hesitação.

RL – Como surgiu o tradutor Koproski?

FK – Acho que este estranho sujeito surgiu, ou melhor, foi gerado devido a um irreprimível processo de mitose de minha experiência como leitor de poesia. Pois depois de um certo tempo lendo e tendo descobertas notáveis e necessárias em poemas de língua inglesa, percebi a impossibilidade de ficar estupefato sozinho. Após encontros de ternura ou violência com a lírica do outro, sentia a impraticidade de descobrir algo precioso e manter isto apenas para mim, feito fosse apenas um egoísmo aceitável de leitor, ou então conversar sobre isto com ocasionais leitores do texto original. Senti a necessidade de dar um passo adiante, ou seja, traduzir como forma de dividir com outros as especificidades expressivas do original.

Além disso, já que não era mais possível se conformar em guardar aquele texto somente para uso próprio, por que não pensar a atividade tradutória como uma possível parceria entre autor e tradutor? A música já está pronta, isso nós sabemos, entendemos ou intuímos. É tão somente uma questão de estar atento, com o senso e os sentidos em vigília, apto a deixar o outro falar, cantar ou calar através de você as suas letras.

RL – Sua poesia se encaminha cada vez mais para uma vertente lírico-amorosa. Como encara esta afirmação? Faz parte de seu projeto literário?

FK – Se permitirmos tratar como projeto literário este pequeno diário de bordo de insistências deste fernando nos azuis, poderia inferir que, em termos de poética, talvez só o que eu queira ou intencione seja inspecionar e investigar as possibilidades do que possa ser humano em nós, ainda que certas circunstâncias assim não possam ser referendadas ou admitidas. Ao escrever, penso em auscultar interiores, escavar arduamente dentro de mim mesmo, não somente a fim de me compreender exclusivamente, tal qual um mero arqueólogo em busca dos mais belos egoísmos perdidos de si mesmo, mas, ao contrário, se isto me for compatível ou concedível, com a intenção inconteste de procurar veios e águas interiores, feixes de claridade e escuridão essenciais, que a si só não se bastem.

Procuro estas águas e feixes que necessitem se comunicar, através de equilíbrios sensivelmente musicais entre as formas de sentir e pensar, com os feixes e as águas de outros. Pois não posso sequer imaginar apreender como poema um texto que ignore o aspecto primordial comunicativo que se faz necessário em toda e qualquer obra de arte. Para tanto, leio o poema que me (ou nos) escreve assim, como um sistema de vasos comunicantes entre eu e você, apto a inaugurar águas interiores que se reconheçam posto que contenham semelhança ou intimidade entre si, ou quando não, quem sabe, possa propiciar outros encontros, de águas negras e águas aclaradas em interessantes e estimulantes conflitos, que nos imaginem em confluências dignas de nota. Neste sentido, de promover através de uma biografia circular das águas uma inspeção no que seja irremediavelmente humano em nós, percebo a vertente lírica sustentada nas circunstâncias do amor como esta condição que aqui me conduz – entre os azuis do que melhor nos traduz.

RL – Como surgiu a Kafka – edições baratas?

FK – A Kafka surgiu da necessidade de viabilizar publicações de trabalhos de prosa ou de poesia a custos bem reduzidos. Ao lado de meu caro amigo Paulo Sandrini, escritor e designer gráfico, notávamos há tempos que havia uma barreira muitas vezes intransponível à divulgação de livros de novos autores, entre os quais nós nos incluíamos. A saber, o preço final de venda dos livros. Em termos práticos, verificávamos que era muito difícil um leitor apostar num livro de um autor estreante e desconhecido. O poder aquisitivo deste leitor, como nós bem sabemos, é posto à prova de diversas formas num país como o nosso. Assim
sendo, imaginamos uma publicação que pudesse de forma extremamente acessível apresentar uma amostragem de um trabalho narrativo de um escritor, ou em termos de poesia, se não uma amostragem até mesmo um livro inteiro de um poeta. Depois de estabelecido o formato, que é o de um mini-pocket, 13×9 cm, o passo seguinte era o de, através de um projeto gráfico simples mas de bom gosto, viabilizar esta modesta empreitada.

Desta maneira, produzimos em fins do ano passado “O capacete da imortalidade”, uma narrativa do Paulo, “Como tornar-se azul em Curitiba”, misto de prosa-poética e ensaio de minha autoria, e “O sorriso de Leonardo”, estréia em livro da Bárbara Lia. Posso dizer que até o momento, a experiência tem sido bem estimulante, tanto que pretendemos procurar novas parcerias com outros autores para este ano.
*
aprendi a escrever com a dor que me ensinaram, aprendi a
escrever com a dor que eu causei. decidi que não quero mais
aprender a sentir o que não for amor.
decidi que não quero mais aprender com a dor o que aprendi
ou ensinei.
*
felicidade não existe como uma pedra, uma página, uma
pessoa. felicidade acontece como uma sede, um sentido, um
céu. as coisas que existem procuram por porquês – não
adianta perguntar, é a sua maneira de ser. para as coisas que
acontecem basta acontecer.
*
um dia talvez
quando tinha 17
agora,
tarde demais
pra ser rimbaud
tarde demais
pra escrever tudo
que senti
e depois sumir.
noites por certo
de quando tinha 27
até que escrevi
uma ou outra,
mas para minha
maior surpresa
eu não morri
com janis
com jimi
com jim.
hoje tenho tantas tardes
florescem florenças
dentro de minha cabeça
e mesmo tendo pétalas
diante de pálpebras
diante de pressas
eu me sinto tão pobre.
tarde demais pra ser rimbaud
ou pra cometer suicídio
um pouco cedo ainda
pra pensar ser vinicius.
*
para os que se ocupam de fazer análises literárias
I. nos seguintes versos:
se fosse em virtude que se vivesse
quando um vício se distraísse
se quando vênus viesse
fosse em versos que me visse
não minhas vertigens
o que ela vestisse
o nome dessa figura de linguagem
não é aliteração
o nome
dessa figura de linguagem
é vida
ou os amores
que eu não tive.
II. nos seguintes versos:
porque meus ouvidos têm sede
do que você diz,
meus olhos têm essa sede
de quando você sorri.
porque se tuas tardes
têm sede de saber
quem vai nos amanhecer,
minhas manhãs têm sede
de tudo que te entardecer.
o nome dessa figura de linguagem
não é sinestesia
o nome
dessa figura de linguagem
é Ingrid
ou o amor
que ainda me vive.
*
em lagoas onde só o que seja a gente ainda cisme, todo não
que cabe num poema é todo sim que nos ensine a cisnes.
(de Pétalas, pálpebras e pressas)
*

Fontes:
Entrevista concedida à Rodrigo de Souza Leão em abril de 2005. Disponível em http://www.germinaliteratura.com.br/

Deixe um comentário

Arquivado em Entrevista, Paraná, Poesias, Resenha

Edival Perrini e outros (Traços do ofício: poemas do Encontrovérsia)

Resenha Crítica de Denise Azevedo Duarte Guimarães

Como já explicava Aristóteles, a linguagem poética manifesta um caráter estranho e surpreendente, o que é entendido, modernamente, como um discurso elaborado de forma a fazer com que a percepção se detenha na sua própria organização. Desde sempre, portanto, a criação poética tem sido ligada ao gesto e ao risco do fazer, da arte como techné. Tudo que pode parecer minúcia, não o é numa mensagem poética, em que o significante, seja ele gráfico ou sonoro, tende sempre a perturbar as certezas da língua.

A poesia é um pensamento por imagens criadas através de procedimentos particulares, tanto nas suas constituintes fonéticas e léxicas, quanto na disposição das palavras e nas construções semânticas. Como seu objetivo é proporcionar a percepção estética, o que esperamos apreender ou experimentar com a poesia não é nada objetivo, mas sim algo significativo.

Impregnados pela magia e encantamento de fazer poesia, Edival Perrini, Jandyra Kondera Mengarelli, Leopoldo Scherner e Luiz Alberto Kucehnbecker sabem dos riscos impostos pela opção lírica, inseridos que estão em plena urgência da urbe contemporânea. Mas, nessa espécie de devaneio poético, engendram seus poemas, seguindo pelas sendas, onde não faltam espinhos, movidos pelo encanto e pela força do verbo.

São 4 poetas que, unidos pelo amor à poesia, compartilham um projeto poético coerente há 2 décadas. O tempo, que fez crescer a árvore, rebentar o broto e o botão, agora perfuma as flores e doura os frutos. São eles, agora colhidos, no livro TRAÇOS DO OFÍCIO: POEMAS DO ENCONTROVÉRSIA, versos/diversos que podemos saborear prazerosamente e que, também, abrem-nos o caminho para com eles nos identificarmos e até mesmo nos reconhecermos.

Nessa etapa do percurso, esses poetas são capazes de nos demonstrar que, pelo enriquecimento da percepção do mundo e das coisas do mundo, cada um deles, cada vez mais, consegue mergulhar no seu mundo interior, para trazer de lá imagens plenas de sentidos, que se intensificam e almejam a transcendência. Escrevendo poemas, eles depuram suas emoções frente às coisas, dando-lhes um colorido poucas vezes percebido; escutam dizeres ecoados de regiões mais profundas do ser humano, para traduzí-los em signos poéticos vivos, brilhantes e polissêmicos.

Podemos identificá-los, por outro lado, com a imagem do poeta-arquiteto, do poeta como um engenheiro – aquele que exercita matematicamente a disciplina no ato criador. Assim como João Cabral, eles têm como “instrumentos” a régua e o esquadro, sendo movidos por uma força metalingüística que problematiza inventivamente os elementos verbais da expressão poética. Para usar ainda mais uma vez as metáforas cabralinas, os poetas do Grupo Encontrovérsia são tecelões que, com paciência e atenção concentrada, cruzam os fios das virtualidades expressivas dos signos verbais, na tessitura/textura poética das obras que compõem esta antologia.

Embora cada um deles tenha sua dicção própria, alguns pontos comuns podem ser identificados, sendo que, o que mais chama a atenção é a consciência metalingüística, presente em inúmeros poemas dessa nova antologia. São textos que evidenciam uma postura crítico-inventiva, pois seus versos refletem uma consciência atenta às limitações do seu material de base e, ao mesmo tempo, procuram dar à palavra um singular, intenso e renovado modo de enfrentamento com os objetos do mundo.

Edival Perrini

Os textos selecionados pelo autor para a presente antologia mostram um poeta sintonizado com as formas de produção das poéticas contemporâneas. Perrini trava um embate lírico com o “poema / de encomenda “, um poema que “no seu fazer/ não se emenda“; observa, em outro poema, a fiação metafórica da palmeira: ” a palavra sombra.” ; ou ainda expressa “ a verdura/ do verbo/ alga” em jogos metalingüísticamente motivados, que se vão encadeando na seqüência dos versos, perfazendo um percurso do olhar: verte/ verdor/ ver-se/ vista/ verdura/ olhar/ me ver / veja-se // tocada // verde verde,/ verde. Os fortes apelos sinestésicos são marca característica da obra do poeta, em versos plenos de sugestões visuais, cromáticas, sonoras e táteis, como nesse belíssimo poema a “A ALGA”.

Os poemas mais longos são os líricos, que expressam as perplexidades do “eu lírico” diante do amor. Neles, a estranheza do mundo atual invade alguns versos, corporificando-se em imagens como a freeway (paradoxalmente uma ruela-avenida, do bairro da amada) que, na verdade, emblematiza a vida sem saída de um “eu” lírico determinado, como fera acuada (ruela acima, ruela-abaixo), pela força de um amor. Amor ligado à saudade, tematizada em muitos dos seus poemas, mas uma saudade nada piegas e sim eroticamente cultivada, em belas metáforas como :” fiar do desejo/ a saudade“, ou “o gozo escarlate da ferrugem“, ou ainda “solitário caroço abjeto,/ com você/ fruto completo.”

Por outro lado, ao criar seus haicais ou então seus poemas de apenas quatro versos – semelhantes aos tankas -, o poeta consegue expressar toda a magia do momento vislumbrado, com a inusitada irrupção do elemento urbano na paisagem natural:” buzinas e pardais “. Com esse curioso amálgama entre natural e artificial, os versos efetuam uma passagem do objetivo para o subjetivo, com uma pitada de ironia que não anula a nostalgia da existência bucólica, como em ” sanduíches de brisa/ e um farnel de gorjeios”.

Em outros versos, com leveza e atualidade, o poeta passa da ironia para o humor, na exploração fônica das gírias, como em “na marra / a farra // e na boa/ canoa “; ou das associações insólitas, como em ” O vento borrifa de sal o rosto do bairro.”

A consciência da passagem do tempo revela-se uma constante temática muito bem trabalhada por Perrini, na exploração dos constituintes sonoros do signo verbal, o que imprime aos versos uma musicalidade quase mágica, como em “sobressalto …no assalto deste instante” ou em ” permanece o espanto“, ou ainda em “Ao pôr-do-sol,/ pancadas de saudade.”

Poeta maduro, Perrini vem, mais uma vez, deleitar-nos com sua poesia feita de sutilezas e de belas imagens, que parecem adquirir movimento, na dinâmica dos jogos verbais e dos deslizamentos de sentidos. Poemas para serem lidos nas entrelinhas e muito além das linhas, pois para o olhar (cristal) que os decifram oferecem o arco-íris.

Jandyra Kondera Mengarelli

Percebe-se que os poemas de Jandyra são como escrituras paragramáticas, ou seja, que têm um funcionamento dinâmico e específico. Como uma prática significante, cada poema mostra um incessante vai-e-vem entre o lógico e o não lógico: entre o real e o não real, entre a palavra e a não-palavra; procedimento estético que assegura o predomínio da conotação e a abertura para inumeráveis interpretações, em versos como: “no cozer dos grãos / dado o ponto/ em água destilada,/ colheita“.

Nessa poética da sensibilidade filtrada pela imaginação, onde ” escrever-te é lavar a água/ a cada palavra escrita“, as águas, com toda a sua simbologia, estão presentes com tanta intensidade que seu fluxo – “tanto mar bateu à porta“- move os versos de Jandyra em direção a uma beleza onírica, quase surrealista: “acordado sobre a mesa/ o poema das marés“. A autora lança suas palavras na fluidez da página, que, como um lago, permite a formação de círculos concêntricos de significados que, quanto mais se ampliam, maior profundidade semântica vão conseguindo. Ao leitor seduzido, fica a tentação de mergulhar nesse vórtice, até atingir as profundezas, de onde poderá extrair algumas pérolas poéticas, como: “o arquiteto/ dá cobertura ao sonho // tal como a ostra/ para que da areia/ faça-se a pérola” ou ainda de “sacar com a vara / pedaço de mar aberto“.

Em alguns momentos, observa-se que a concreção cabralina do verbo toma conta dos versos de Jandyra que, na linha de João Cabral, produz uma poética substantiva e auto-consciente, na qual a consciência auto-reflexiva sobre a própria linguagem da poesia aparece inúmeras vezes, na imagem barthesiana do texto-tecido. É o que ocorre nos poemas mais longos: ” O arquiteto” e “Poema ao engenheiro“. Mas seu material é o sonho, como de sonho são as paisagens, as casas, as pontes, pois: “mal sabe ele/ que assim sonhando / é ele sonhado“.

Assim, a artista compõe suas paisagens numa vibração dos conteúdos intelectuais dos vocábulos e de suas tensões abstratas, num jogo entre linguagem e fantasia, como no exemplo:” mais que dedos/ paiolzinho de feriado/ é o quente no quieto:” Ao revelar o mistério essencial dos objetos do cotidiano, por meio de um entrelaçamento enigmático das palavras e das imagens, a linguagem se erotiza, como em: “sobras com sombras/ e já a saia saída/ o grão fora do cartucho“, enquanto ” recostada/ a escada dorme.”

Em outros momentos, a intenção desta enunciação lírica parece querer ressuscitar o objeto nas “impressões” evocadas e nas sonoridades das palavras: ” o arquiteto / sombra e luz/ a dar/ tato teto toca.”

É fascinante a forma como Jandyra oferece seus versos a um leitor não-ingênuo, antecipando um olhar atento à simultaneidade que a produção poética suscita. O leitor almeja ser capaz de oferecer respostas originais para os enigmas de seus poemas e de fazer como a traça que ,”com seu cavar túnel“, “da trança ninho/ desata o fio,/ sempre central“. Tal leitor, acredito, estará sendo instigado pelos conflitos imanentes que os poemas da autora presentificam: conflitos não necessariamente explícitos e que, portanto, constituem um desafio à imaginação criadora, na tentativa de rastrear “o cruzamento dos fios do tempo“, naquele “deixar, sendo ir-se“, sempre um ponto de partida…

Leopoldo Scherner

Os poemas de Leopoldo Scherner têm a marca da invenção permanente. Seus versos demonstram inquietude, inconformismo, tendência ao desequilíbrio e à ruptura com qualquer rebuscamento, o que não elimina discreta metafísica ao re (a) presentar) cenas da vida, de modo neo- (ou nada?) barroco, com ênfase na idéia de percurso e da fugacidade da vida humana,

em boa hora
em certas horas
que são e serão
vividas e denunciadas
como vindas
desde
o dia anterior
ao 1º. dia da criação.

Alguns poemas chamam a atenção pela visualidade, o que mostra que, ao usar os signos verbais de modo peculiar, explorando seus constituintes visuais, o poeta cria uma topologia sígnica que iconiza o movimento, como no fragmento central de um poema em que o eu lírico coloca-se como espectador da vida “que sei que passa como o vento.”:

Por isso, quero a janela ampla e clara,
quero ver o vento
e
ver a vida.

Em outro poema, que tematiza ironicamente o fim do mundo, o poeta encontra uma solução visual muito expressiva, na contraposição dos dois fragmentos/momentos do texto. Composta de três versos, alinhados à direita, sendo um longo e os dois seguintes bem curtos, a primeira parte do poema parece pairar como uma nuvem ameaçadora sobre a segunda parte, composta de cinco versos mais curtos, alinhados à esquerda e nos quais o “eu” está à espera. A própria distribuição espacial, enfatiza o conflito entre o EU (esperando) e o Mundo (dos outros) .

Na verdade, como uma marca intrínseca do poetar de Scherner, todos os níveis do signo verbal são ativados, numa busca do universal e/ou da plenitude do real que flue, como a água, na inexorabilidade da passagem do tempo. A consciência da efemeridade aparece emblematizada no movimento pendular das idas e vindas, dos “encontros/ desencontros” fugidios, nos quais o poeta joga com a idéia dos paradoxos da vida humana.

As imagens da água, com toda a sua simbologia, constituem um leitmotiv cultivado por Scherner, em versos que parecem feitos “com nuvens/ com águas doces,/ com águas salgadas“. São tão presentes e tão fortes essas imagens aquáticas, que nelas parece dissolver-se o tempo. Os termos da tríade: água, tempo e movimento, na verdade imbricam-se, interpenetram-se para configurar autênticas paisagens do eu profundo: um “eu lírico” que contempla o seu duplo nos espelho das águas e percebe a impossibilidade de captar uma identidade fugidia (ao ver seu rosto preso nas águas que passam ):”Até onde sou eu?/ até quando sou eu?

Mesmo quando parece estar jogando com elementos de humor, o poeta (um jogador e um fingidor) sugere o receio obsessivo da perda da identidade, como no poema sobre o terno, que lavado, torna-se outro: “Alguém me disse/ que se o vestisse,/ outro seria eu.”

Assim como no “poemas-piada” acima, o autor transita com segurança na linha oswaldiana de um humor sutil e irreverente, com que ele sabe, como ninguém, pincelar temas nem tão amenos, mas que recebem um tratamento poético de quem descobriu a “chave perdida: / o verbo e a medida/ o peso e o tamanho,” porque o que importa é ir “mostrando a alma/ parte por parte“.

Luiz Alberto Kuchenbecker

A poesia de Kuchenbecker traz a marca da concisão, própria de significativa vertente da poesia contemporânea brasileira: aquela que tem na síntese ideogrâmica da poesia oriental sua fonte primeira. Esse modo conciso de poetar tem vicejado no Paraná, com Helena Kolody, Alice Ruiz, Sérgio Rubens Sosséla, entre muitos outros cultores daqueles grãos/sementes de poesia. Trata-se de uma busca do máximo no mínimo, ou seja, da busca da exatidão no momento exíguo de três ou quatro versos (haicai ou tanka), numa opção magnificamente expressa por Leminski, em muitos de seus poemas, como o que transcrevo abaixo:

um pouco de mao
em todo poema que ensina

quanto menor
mais do tamanho da china
(Paulo Leminski)

Kuchenbecker explicita seu compromisso com um fazer poético ligado à síntese e à cosmovisão das poéticas orientais, especialmente no poema “Bashô”, que dá a tônica da maioria dos poemas selecionados pelo autor para esta antologia. Com sua lente microscópica, o poeta vislumbra o infinito. Demonstra que, naquelas formas mínimas, podem ser descobertas imagens precisas e preciosas, capazes de oferecer ao leitor a oportunidade de vislumbrar um tempo fora do tempo, um tempo da delicadeza. Trata-se de uma poesia que é resumo, essência, substrato; e que caminha da ironia ao mais puro lirismo.

Em apenas três versos (às vezes quatro), usando e abusando da magia sugestiva da palavra, o poeta cria jogos aparentemente simples, mas que trazem embutidos atritos de sentidos, que se condensam e se aprofundam a cada leitura, como no milenar jogo chinês do Tangran, no qual, para que se possa enxergar além do óbvio, a geometria foi colocada à serviço do imaginário. Diz a lenda que o Tangran surgiu, na China, há 4.000 anos. Ao tentar remontar um azulejo, que se espatifara em sete pedaços ao cair no chão, um homem percebeu que, a cada tentativa, formava-se uma nova figura.

Nos poemas do autor, a organização dos vocábulos explora as sonoridades e insinua associações que nos convidam a avançar, até encontrar os sentidos possíveis do texto, mas apenas para logo voltar a perdê-los em novas composições acústicas e óticas. O que importa não é que o leitor decifre o haicai e sim que esteja atento à compreensão múltipla, que penetre no mistério do poema que a aparente simplicidade vela/des/vela.

Essas partículas mínimas e iluminadas de poesia não podem ser aqui transcritas, por força de sua própria feição altamente sintética. Elas esperam para serem colhidas/ lidas por um leitor regido pelo princípio do prazer do texto, de que nos fala Roland Barthes.
*

Para concluir, diante dessa nova antologia de poemas do Encontrovérsia – TRAÇOS DO OFÍCIO – que traz a unidade na consciência do fazer poético e a variedade das formas poéticas cultivadas pelos 4 poetas, lembro que não importa a extensão do poema, porque verdadeiramente grande é o texto com muita matéria para reflexão e com os fortes apelos sinestésicos das suas imagens difíceis de apagar; aquele texto de forte lembrança, que permanece indelével em nossa memória, pronto para aflorar nos instantes em que a vida nos confronte com a arte.

Fonte:
Denise Azevedo Duarte Guimarães. Resenha crítica : NOVA ANTOLOGIA DO ENCONTROVÉRSIA. Curitiba, junho de 2004. Universidade Tuiuti do Paraná.

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

Pedro Bandeira (A marca de uma lágrima)

É uma recriação de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. A idéia romântica do autor francês é muito boa, mas sua forma, atualmente, é rebuscada demais para uma leitura popular. Usei apenas a idéia central das cartas escritas secretamente, mas criei outra história. Há, porém, equivalências: a guerra, em Cyrano, virou o crime, em A marca…; a cena do balcão é feita ao telefone; a famosa fala do nariz está no final, quando Isabel desiste de Cristiano.

Por que eu transformei uma grande personagem masculina em uma personagem feminina? Porque, se eu usasse um rapaz, correria o risco de fazer autobiografia; lançando mão de uma menina, vi-me obrigado a pesquisar, a sentir fora da minha pele, a imaginar o que pensa alguém que eu nunca poderia encarnar. E não é essa a função de um escritor?

Para este livro, desde o título, adotei descaradamente a forma folhetim por duas razões. Primeiro, porque este é o estilo de Rostand, o autor de Cyrano, e segundo porque eu creio que esta forma apaixonada, radical, melodramática de comunicação ajuda muito a conquistar as jovens leitoras, principalmente aquelas pouco afeitas ao hábito de ler. E, como estas são a maioria…

A marca de uma lágrima tem um interessante recurso literário que, até agora, pelo menos que eu saiba, ninguém percebeu. Eu pretendi criar uma personagem feminina que descobre bastar-se a si mesma, descobre poder realizar-se e ser feliz sem que a felicidade dependa única e exclusivamente do apêndice masculino, tomando-se apêndice em seus dois sentidos, o social e o sexual.

Não importa o que eu penso sobre isso, importa a coerência interna da personagem Isabel, uma cabeça superior, realizadora, corajosa e independente. Neste livro, é possível ver que, no transcorrer do enredo, a lógica aponta para uma solução, se não solitária, pelo menos de grande independência em relação ao sexo oposto. Assim, como pode ser visto no desfecho dramático do enredo, há um rompimento moderno do estilo folhetinesco que eu adotei para este livro.

Procurei, com o final racionalizante, uma saída a la Brecht, com a quebra de clima e tudo o mais. O tal distanciamento brechtiano. Em seguida, baseando-me no mesmo Brecht, usei a solução genialmente bolada por ele em A ópera dos três vinténs.

Esta peça termina de modo lógico, racional, com o enforcamento de Mac Navalha. No momento em que o carrasco vai puxar a corda, o Autor interrompe a peça e faz um dos personagens ir à boca-de-cena e explicar para a platéia que o Autor sabe que as pessoas não vêm ao teatro para ver finais infelizes e que gostam de voltar para casa com a alma lavada pela catarse. Eis então que, pensando nisso, o Autor preparou um outro final.

Nesse instante, a peça assume um clima operístico e entra em cena um mensageiro com um perdão real, Mac Navalha abraça sua namorada, é perdoado por todos e os espectadores saem do teatro com uma sensação de terem sido cinicamente enganados e manipulados pelo Autor em sua (deles) expectativa estética convencional. Desse modo, criei também um segundo final para A marca de uma lágrima, operístico, novelesco, falso, no melhor estilo de M. Delly.

Parece, felizmente, que as leitoras entenderam estas boas intenções, ou encontraram outras qualidades aqui não indigitadas. O livro é um grande sucesso de vendas. A marca… foi também bem acolhido pela crítica, recebendo o Prêmio A.P.C.A. como O melhor livro juvenil de 1986.

—-
Fonte:

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

José Hamilton Ribeiro (Pantanal, Amor Baguá)

Clique sobre a imagem para ampliar

RESENHA

Renato, um adolescente da cidade grande, vai passar uns dias no Pantanal e descobre sua riqueza e beleza. Vive as aventuras que a vida da região pantaneira lhe oferece e aproveita todas as oportunidades para explorar a fauna e a flora da região. Conhece os costumes, aprende a respeitar os habitantes, seu jeito de falar, isto é, seu sotaque. Aprende a conhecer um pouco a natureza, amá-la e respeitá-la, nos seus segredos e perigos. Os dias passados na selva tornaram-se decisivos para a escolha do tipo de vida que deseja levar.

COMENTÁRIOS SOBRE A OBRA

O livro Pantanal, amor baguá é um hino de amor à vida simples, bela e selvagem da região pantaneira, uma das mais conhecidas e cantadas por brasileiros e estrangeiros. É a possibilidade de descobrir um dos paraísos brasileiros e lutar para a sua preservação. Amor baguá é o amor que recusa cercas, que dispensa limites, que luta pela liberdade, que aprende a sobreviver na selva e reaprende a se alimentar e a viver em estado selvagem. Só vive essa vida solta e livre quem se apaixona pelo Pantanal, quem se liberta dos muros e cercas da selva de pedra e consegue correr solto e livre por essa região mato-grossense.

Fontes:
Recorte de jornal. Colaboração de Nilton Manoel.
Maria José Nóbrega e Lucy Wenzel e Maria Terezinha Lopes. In Editora Moderna.

1 comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

Antonio Cândido (O Escritor e o Público)

O escritor numa determinada sociedade não é apenas o “indivíduo” capaz de exprimir a sua originalidade, mas alguém desempenhando um “papel social”, ocupando uma posição relativa ao seu grupo profissional e correspondendo as expectativas dos leitores ou auditores. Pode-se dizer que é um panorama dinâmico, pois a obra realizada exerce tanto sobre o público no momento da criação e da posteridade quanto sobre o autor, cuja realidade se incorpora e a fisionomia espiritual se define através dela. Esse dinamismo da obra influencia o comportamento dos grupos e define relações entre os homens.

A literatura é um sistema vivo de obras, agindo umas sobre as outras e sobre os leitores; e só vive na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a, deformando-a. A produção da obra literária deve ser inicialmente encarada com referência à posição social do escritor e à formação do público. A posição do escritor dependerá do conceito social que os grupos elaboram em relação a ele, não necessariamente ao seu próprio. Deve-se considerar, relacionando-os ao grupo de fatores que integram o conceito de público. A obra sendo mediadora entre o autor e o público, este é o mediador entre o autor e a obra. O autor só adquire plena consciência da obra através da reação de terceiros, sendo esta necessária para sua autoconsciência. Por isso, todo escritor depende do público, tanto que é a ausência ou a presença dessa reação que decidirá a orientação de uma obra e o destino de um artista.

A cerimônia religiosa, a comemoração pública, foram ocasiões para se formarem os públicos mais duradouros em nossa literatura colonial, dominado pelo sermão e pelo recitativo. Silva Alvarenga foi o primeiro escritor brasileiro que procurou harmonizar a criação com a militância intelectual. Em torno dele formou-se o grupo Sociedade Literária que se prolongou pelos alunos por ele formados como Mestre de Retórica e Poética.

A exemplo de Alcino Palmireno – o escritor começou a adqüirir consciência de si mesmo no Brasil, incubidos como tarefa patriótica definir conscientemente uma literatura mais ajustada às aspirações da jovem pátria, exprimir a sensibilidade nacional, manifestando-se como ato de brasilidade.

Duas características foram decisivas para configuração geral da literatura: Retórica e Nativismo, fundidos no movimento romântico. Os românticos fundiram a tradição humanista na expressão patriótica, fornecendo ao Brasil um temário nacionalista e sentimental, adequado às necessidades de autovalores propiciando a formação de um público incalculável.

A literatura se incorporou ao civismo da Independência, pois foi aceita pelas instituições governamentais: o amparo oficial de D Pedro II, o Instituto Histórico e as Academias de Direito. Sua função consistiu de um lado – acolher a atividade literária como função digna; de outro – podar suas demasias pela padronização imposta ao comportamento do escritor. O Estado reconhecia o papel cívico e construtivo que o escritor atribuía como justificativa da sua atividade.

No segundo reinado são feitos publicações em revistas e jornais familiares, fato este que levou os escritores a escrever para um público feminino ou para serões que se liam em voz alta. No Brasil, embora exista tradicionalmente uma literatura muito acessível, na grande maioria verifica-se ausência de comunicação entre o escritor e o público. Com efeito disso, o escritor se habituou a escrever para públicos restritos e contar com a aprovação dos grupos reduzidos de pequenas elites.

Sendo a grande maioria de iletrados que ainda hoje caracteriza o país, a pobreza cultural nunca permitiu a formação de uma literatura complexa, salvo as devidas exceções. Por isso que quase não há no Brasil uma literatura requintada, seria inacessível aos públicos disponíveis.

Essas considerações apontam algumas condições da produção da Literatura no Brasil, desde o ponto de vista das relações do escritor com o público e dos valores de comunicação.

Segundo o escritor, o ornamento da sociedade pôde definir um papel mais liberto, sem se afastar do esquema traçado de participação na vida e aspirações nacionais. A diferenciação dos públicos permitiu maiores aventuras intelectuais e a produção de obras.

Fontes:
CANDIDO, Antonio. “O escritor e o público”. in Literatura e sociedade.
Marli Savelli de Campos in http://mscamp.wordpress.com/o-escritor-e-o-publico/

Deixe um comentário

Arquivado em Resenha, Sopa de Letras

Francine Prose (Para ler como um escritor)

Para Ler como um Escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los

Para ler como um escritor proporciona uma espécie de viagem visceral por obras-primas da literatura. Tem tudo de manual, de guia, de livro texto especificamente orientado para quem está se colocando na posição de escritor aprendiz ou iniciante, assim como para quem deseja perceber a literatura com os olhos livres do escritor e não com as lentes grossas do intelectual ou do ideólogo acadêmico. Seu modo visceral de ser conduz o leitor pelas entranhas do texto de prosa ficcional sem apelar para categorias macro de compreensão, sem camisas de força apriorísticas. Aqui, a indução prevalece sobre a dedução. Literatura não como ciência, mas como exercício de sensibilidade. O método é o “close reading”, a leitura atenta, a leitura densa, a leitura linha a linha, cuja meta é evidenciar como grandes escritores do passado e do presente obtiveram e continuam a obter resultados literários apreciáveis e diversificados através desse ou daquele jeito de fazer.

A lei maior de Francine Prose é: aprendemos através de exemplos.

Não para imitá-los (isso também, um pouco), mas para refletir intensamente sobre eles. Como tratar a frase? Como e por que quebrar um parágrafo? Como avaliar o impacto de uma palavra? Como apresentar um personagem ao leitor? São problemas práticos desse tipo que Prose aborda, sem estabelecer fórmulas, apenas mostrando, indicando, orientando o leitor por um caminho cujo fi m ela mesma não conhece, já que,

Para ler como um escritor como demonstra repetidas vezes, não há regras imutáveis para a boa literatura. Cada escritor institui suas próprias regras de criação. O leitor praticante da leitura atenta tirará parte de seu prazer do reconhecimento dessas marcas individuais que dão vida a cada bom texto literário.

O livro de Francine Prose chega ao Brasil num momento bastante adequado, como veremos adiante. Mas por isso mesmo, na tentativa de estabelecer contrastes esclarecedores, cabe assinalar que ele se insere em certa tradição anglo-saxônica de textos sobre literatura cujo pleno sentido só pode ser apreendido quando observamos como funcionam as coisas literárias naquela cultura. Dois fatores saltam aos olhos. Em primeiro lugar, o tamanho e o nível de profissionalização do mercado de ficção nos Estados Unidos e na Inglaterra. Em segundo lugar, o fato de que, nesses países, particularmente no primeiro, escrever é algo que se aprende, sim, na escola. Tal como existem as escolas de música, de teatro, de artes plásticas, existem nas universidades norte-americanas os cursos de mestrado (MFA – Master of Fine Arts) em criação literária.

O livro de Francine Prose é feito à imagem e semelhança desses cursos, destinando-se muito especialmente a essa clientela. Porém, por ser a literatura matéria de interesse universal, não se limita a ela. Qualquer cidadão interessado pode pegar este livro da prateleira e aproveitar dele tanto por puro prazer quanto como instrumento de estudo individual.

Um dos aspectos sedutores de Para ler como um escritor é ser escrito a partir da experiência pessoal da autora como escritora e como professora de criação literária. Em conseqüência, a moldura do livro combina o ensaístico ao memorialístico. A estrutura anglo-saxônica dos mestrados em criação literária oferece um desafogo ao estudante que quer estudar literatura por motivos práticos: seja porque simplesmente ama ler romances, contos, biografias, poesia e ensaios, seja porque seu interesse é tornar-se escritor ou aperfeiçoar-se como tal. Diferente do que ocorre nos doutorados propriamente acadêmicos de teoria da literatura, literatura comparada ou literaturas nacionais (norte-americana, inglesa, francesa, espanhola, alemã etc.), nos cursos de criação literária o que interessa é o texto em si, não o seu contexto histórico e muito menos sua discussão em função de temas intelectuais, provenientes das ciências humanas ou da filosofia.

Nesses cursos, a literatura interessa como arte. Arte da palavra, arte da escrita, arte da potência verbal. Eles representam a institucionalização da boa e velha oficina literária, assim como do bom e velho sarau literário. Neles, a literatura é lida para que se aprendam e desenvolvam técnicas de narração e composição e se aperfeiçoem os critérios de avaliação da qualidade artística de um texto. Além das disciplinas de leitura, as demais aulas do currículo são simplesmente oficinas de redação. Ninguém é solicitado a ter idéias geniais ou “corretas” sobre as obras estudadas, pois a crítica literária é aí exercitada como gênero a aprender, independente do conteúdo a transmitir. As palavras-chave são liberdade, flexibilidade, prazer de ler, alegria de escrever.

No Brasil, estamos passando por um momento importante de mutação e ampliação das estruturas de formação do escritor e do leitor qualificado (supõe-se que o leitor que lê como escritor seja um leitor qualificado). Aqui o modo mais disseminado de buscar uma formação de escritor têm sido as oficinas literárias, iniciativas que em geral passam ao largo da universidade, embora diversas universidades brasileiras ofereçam oficinas literárias como atividade de extensão extra-curricular. O livro de Francine é um guia muito útil para orientar o trabalho nessas oficinas.

No entanto, nosso início de século assiste à expansão dos cursos universitários regulares de criação literária, de que os casos mais notáveis são o da PUC-Rio e o da Unisinos, no Rio Grande do Sul. Está surgindo a graduação em criação literária no Brasil. Já não era sem tempo. E já não era sem tempo principalmente porque estamos também vivendo um surto literário muito forte, já desde os anos 90 do século passado, com a explosão de sucessivas ondas geracionais tanto de prosadores quanto de poetas. Temos a geração 90, a geração 00, os circuitos literários na internet – que são hoje mais importantes como consolidadores de público leitor qualificado que o próprio circuito tradicional dos suplementos culturais e literários nos jornais impressos. Atualmente, a tendência é que o jornal impresso sirva para divulgar os nomes dos novos autores, que são tratados como celebridades, ao passo que o público efetivamente interessado em ler o que esses autores estão escrevendo já nem sequer acompanha os jornais e se informa basicamente pelos sites e blogs.

De todo modo, é evidente o potencial de sinergia entre esse novo circuito brasileiro dos cursos de graduação universitária em criação literária, o circuito tradicional da imprensa escrita e o circuito contemporâneo da web. A publicação em português do livro de Francine Prose representa valiosa contribuição ao fortalecimento dessa sinergia tripla. Tal contribuição torna-se ainda mais interessante quando a confrontamos com alguns antecessores no seu gênero, dentre os quais se destaca, pioneiro, o clássico Aspects of the Novel (1927), do escritor E.M. Forster (autor de, entre outros, Howard’s End e A Passage to India). E, contemporaneamente, as inúmeras obras de Harold Bloom. O livro de Francine Prose não desautoriza nenhum dos dois, mas faz as coisas de maneira diferente. Em relação a Forster, Prose efetua recortes inovadores, analisando com ênfases originais aspectos da criação do texto literário: a palavra, a frase, o parágrafo, a narração, os personagens, os diálogos, o detalhe, o gesto. Enquanto a abordagem de Forster partia de uma visão inteiriça do texto, calcada na composição do enredo e dos personagens,

Prose está mais interessada em levar ao extremo a metodologia da leitura atenta ou densa (“close reading”), analisando as peculiaridades do uso da linguagem pelos autores. É a volta do comentário (a “explication de texte” dos franceses) como bom e velho método básico de leitura, solo imprescindível para todos os vôos ulteriores que a experiência literária pode ensejar.

De maneira semelhante a Forster e diferente de Harold Bloom, Francine Prose aborda as obras e autores independentemente de suas distintas situações históricas e orientações estéticas. Em comum com Bloom, a profunda desconfi ança em relação ao modo como a teoria da literatura acadêmica contemporânea, particularmente a norte-americana, opera a leitura de fi cção. Prose não está nem aí para questões de raça, gênero e etnia, muito menos para assuntos como desconstrução, pós-modernismo ou pós-colonialismo. Mas, ao contrário de Bloom, ela não polemiza com isso, simplesmente passa ao largo. No início de sua carreira, como nos conta no Capítulo 1, largou o doutorado em letras porque optou pela prática artística e não pelo que considera ser a utilização da literatura como álibi para discussões doutrinárias por parte de gente que, em sua visão, não gosta verdadeiramente de um bom romance ou um bom conto.

O gostar de ler é um critério central na mirada de Francine Prose. E por essa via seu projeto acaba diferenciando-se ainda mais em relação ao de Bloom, adquirindo porém, por outro viés, conotação também polêmica. Polêmica é a posição de Francine Prose frente ao cânone. Polêmicas são suas escolhas de autores, ostensivamente pessoais. Não pelos autores que ela seleciona para analisar, todos consagrados (os mestres do passado e os mestres modernistas) ou no mínimo muito interessantes (os mais contemporâneos). Mas pelas exclusões. Um leitor brasileiro de literatura norte-americana há de estranhar a ausência de um Paul Auster, de uma Toni Morrison. Contudo, esse tipo de polêmica é o ônus de todo e qualquer guia de grandes obras, de toda e qualquer antologia. Trata-se do caráter idiossincrático, personalíssimo, de toda lista de “melhores”. Os “melhores” são sempre os “meus preferidos”.

Um autor erudito como Harold Bloom disfarça suas escolhas debaixo dos grandes esquemas interpretativos sobre o cânone, que perpassam seu discurso a despeito de toda a retórica anti-teórica e anti-acadêmica. Já Francine Prose assume alegremente o caráter pessoal das escolhas. Os autores que comenta são aqueles porque aqueles são os que fi zeram sua cabeça como escritora e como professora de criação literária (na posição de escritora visitante) em diversas universidades. A lista de obras apresentadas no fi nal do livro, “a serem lidas imediatamente”, apresenta as mesmas características. Nenhum problema aí. Como em toda lista idiossincrática, no mínimo 80 por cento dela coincide com as listas de outras pessoas que entendem do riscado. Nem tão idiossincrática assim. Todas as entradas para a literatura são válidas. O que importa é entrar. O livro de Francine Prose abre uma porta, dentre outras possíveis. Por essa porta, o leitor adentra o recinto com toda segurança.

Italo Moriconi

A ESCRITA CRIATIVA PODE SER ENSINADA?

É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividade não pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso perdido, ou Kafka suportando um seminário em que seus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeito acorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não os convence.

O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de fi cção é uma completa perda de tempo? Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendo uma fraude criminosa.

LEITURA ATENTA

Em vez disso, respondo relembrando minha própria e valiosíssima experiência, não como professora, mas como aluna numa das poucas oficinas de ficção que freqüentei. Foi na década de 1970, durante minha breve carreira como estudante de pós-graduação em literatura inglesa medieval, quando me foi permitido o prazer de fazer um curso sobre ficção. O generoso professor ensinou-me, entre outras coisas, a editar meu trabalho. Para qualquer escritor, a capacidade de olhar uma frase e identificar o que é supérfluo, o que pode ser alterado, revisto, expandido ou – especialmente – cortado é essencial. É uma satisfação ver que a frase encolhe, encaixa-se no lugar, e por fim emerge numa forma aperfeiçoada: clara, econômica, bem definida.

Ao mesmo tempo, meus colegas proporcionavam-me meu primeiro público real. Nessa pré-história, antes que a massificação da fotocópia permitisse aos alunos distribuir manuscritos previamente, líamos nosso trabalho em voz alta. Naquele ano, eu estava começando o que viria a ser meu primeiro romance. E o que fez uma importante diferença para mim foi a atenção que sentia na sala enquanto os outros ouviam. Fui estimulada pela ânsia que tinham de ouvir mais. Essa é a experiência que descrevo, a resposta que dou para as pessoas que me perguntam sobre o ensino de escrita criativa: uma oficina pode ser útil. Um bom professor pode lhe mostrar como editar o seu trabalho.

A turma adequada pode formar a base de uma comunidade que o ajudará e sustentará. Mas não foi nessas aulas, por mais úteis que tenham sido, que aprendi a escrever. Como a maioria dos escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendo e lendo, tomando os livros como exemplo.

Muito antes de a idéia de palestras de escritores passar pela mente de alguém, escritores aprendiam pela leitura da obra de seus predecessores. Eles estudavam métrica com Ovídio, construção de trama com Homero, comédia com Aristófanes; afiavam seu estilo absorvendo as frases claras de Montaigne e Samuel Johnson. E quem teria podido pedir melhores professores: generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio, tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?

Embora muitos escritores tenham aprendido com os mestres de uma maneira formal, metódica — Harry Crews descreveu como analisou um romance de Graham Greene para ver quantos capítulos continham, quanto tempo abrangia, como Greene lidava com ritmo, tom e ponto de vista —, a verdade é que esse tipo de educação envolve mais freqüentemente uma espécie de osmose. Depois que escrevo um ensaio em que cito extensamente grandes escritores, tendo de copiar longas passagens de suas obras, noto que meu próprio trabalho se torna um pouco mais fluente, ainda que por um breve momento.

No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de que mais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneira mais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como o escritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregando detalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de “pôr cada palavra em xeque”: mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgula de volta.

Leio minuciosamente, palavra por palavra, frase por frase, ponderando cada aparentemente mínima decisão tomada pelo escritor. E embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução, posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particulares da arte da ficção.

Este livro pretende ser em parte uma resposta a essa pergunta inevitável sobre como os escritores aprendem a fazer algo que não pode ser ensinado. O que os escritores sabem é que, em última análise, aprendemos a escrever com a prática, o trabalho árduo, a repetição de tentativas e erros, o sucesso e o fracasso e com os livros que admiramos. Assim, o livro que se segue representa um esforço para recordar minha própria educação como romancista e ajudar o leitor apaixonado e aquele que deseja ser escritor a compreender como um escritor lê. (…)

Fonte:
http://mscamp.wordpress.com/para-ler-como-um-escritor/

Deixe um comentário

Arquivado em Estante de Livros, Resenha

Alcione Araújo (Lançamento de "Pássaros de Vôo Curto)

O livro Pássaros de vôo curto, de Alcione Araújo, será lançado durante a 22ª Feira do Livro, que vai do dia 5 ao dia 10 de novembro de 2008, e será realizada na praça Marechal Floriano.

Alcione Araújo nasceu em 1945, na cidade de Januária, Minas Gerais. É formado em engenharia e já foi professor na Universidade de Minas Gerais. Estreou no teatro com a peça Há vagas para moças de fino trato, em 1974. São de sua autoria também peças teatrais consagradas, como Doce deleite e A caravana da ilusão. Alcione também é cronista do jornal Estado de Minas e Pássaros de vôo curto é seu segundo romance. Ainda, o autor faz parte dos Três Tenores (coordenadores de debates) das Jornadas Nacionais de Literatura.

O lançamento do livro está marcado para três datas: 5 de novembro para a comunidade em geral e o público acadêmico, às 19h30min, no auditório do IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas); 6 de novembro, às 18h30min na praça Marechal Floriano, para o público da feira; e 7 de novembro, em Carazinho, na UPF campus Carazinho, às 19h30min, para escolas públicas e particulares da cidade.

Resenha

Um grande quebra-cabeça, com peças extremamente coloridas por personagens humanos e muita história do Brasil, com encaixes criados pelo leitor na hora de sua leitura. Eis uma boa definição visual do novo livro do dramaturgo, diretor e professor Alcione Araújo, chamado Pássaros de vôo curto.

A obra pode parecer, no início da leitura, uma seqüência de enredos independentes, por se passarem em épocas distintas e terem personagens diversos. Apesar disso, à medida que o leitor vai conhecendo as personagens e ambientando-se com cada cenário, percebe que todos estão interligados, como diz a teoria dos seis graus de separação, recentemente transposta para a televisão na série Six degrees, de um dos criadores do famoso Lost, que também explora o tema. De acordo com a teoria do psicólogo americano Stanley Milgram, são necessários no máximo seis laços de amizade para que duas pessoas quaisquer estejam ligadas.

Tal teoria concretiza-se em Pássaros de vôo curto e é o que consegue unir os três eixos narrativos iniciais, que não estão dispostos em ordem cronológica e alternam-se a cada página, fazendo o leitor construir um verdadeiro mapa mental (ou físico, em uma folha de papel, no meu caso…) do enredo para melhor apreciá-lo. Um exemplo simples e rápido desse fato é que na obra de Alcione Araújo, a mundialmente famosa cantora lírica grega, Maria Callas, está a somente dois graus de separação do garimpeiro Orlando, morador da interiorana cidade mineira de Galiléia.

Assim, o livro consegue descrever um grande pedaço da história de Minas Gerais e do Brasil, desde a exploração do ouro mineiro no século XIX por companhias inglesas, passando pela participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, culminando no fim da ditadura militar, configurando-se em uma verdadeira saga de mais de 100 anos.

Vários sub-temas são recorrentes na obra, como estribilhos que ecoam por toda a história, ora explícitos, ora ocultos em histórias secundárias. O principal deles é a música lírica e a ópera. A cantora Diva Bustamante é quem personifica tal aspecto, em seu sonho quixotesco de levar tal repertório pelo Brasil afora, dentro de um antigo carro blindado (veterano da Segunda Guerra mundial) transformado em ônibus, batizado 14 Bis. Nesse estranho veículo; pilotado pelo motorista, mecânico e assistente de palco, Zé Bolero; a cantora se apresenta com o pianista americano Ralph Conway, levando a ópera a uma, em suas palavras, “terra de botocudos.” Entre seu repertório, merece destaque a ópera de Giuseppe Verdi, La Traviata, muito significativa na trama: histórias paralelas de personagens como Ralph ou a camareira de Diva, Orlanda, são variações sobre o tema da prostituta que se apaixona e deve deixar o homem que ama, mesmo a contragosto, pensando no bem do amado.

Outro tema recorrente e que pode dar pistas sobre o título da obra é a aviação. Exemplo disso é a paixão que Zé Bolero e Vittorio Emanuelle Sbravatti Chalmers têm por voar. Mas, infelizmente, como retrata muito bem o romance, a satisfação pessoal depende de dinheiro. Assim, este foi piloto de avião da Força Expedicionária Brasileira, enquanto aquele, por ter nascido pobre e filho de mecânico, chegou mais perto do céu subindo em árvores e nomeando o veículo por ele reformado como 14 Bis.

Com personagens cativantes e muito humanos, que vivem situações ora cômicas, ora trágicas, e trazem reflexões profundas, mas simples, sobre arte, política, vida, morte, etc., Pássaros de vôo curto é uma obra que deve ser lida não só pelos interessados em história, que a verão de forma totalmente natural neste romance, mas por todos que apreciam uma grande obra de arte.

Fontes:

E-mail enviado pelo Boletim Jornada
Artigo por PHILIPPSEN, Bruno. Pássaros a seis graus de separação.
Boletim Eletronico Jornadas Literárias de Passo Fundo – n. 74

Deixe um comentário

Arquivado em Lançamento, notas biográficas, Resenha

Miguel de Cervantes (Resenha: Dom Quixote)

Candido Portinari (Dom Quixote e Sancho Pança)
A questão fundamental que se coloca quando nos encontramos frente a frente com a figura de D. Quixote é se estamos diante de um homem sensato ou de um louco. Da nossa resposta dependerá todo o relacionamento que, a partir de então, teremos com a imortal obra de Cervantes.

Cervantes dará sua resposta ao longo de duas Partes, a primeira com 52 capítulos e a segunda, com 74. Entre uma e outra, o próprio autor se encarrega de avisar que já anda correndo “pelo orbe” uma Segunda Parte que não foi escrita por ele. De fato, há muitas formas de ler o Quixote…

Logo no Cap. I ficamos sabendo o que aconteceu com o famoso fidalgo que “afinal, rematado já de todo juízo, deu no mais estranho pensamento em que nunca jamais caiu louco algum do mundo, e foi: parecer-lhe conveniente e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras(…) desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama” (p. 30).

Daí, e do que já conhecemos do Quixote, sem precisar sequer dar-nos ao trabalho de lê-lo, podemos concluir que possivelmente se trata de um louco, manso, mas louco. Porém, procuremos analisar essa conclusão com algo mais de vagar. Há muitas formas de se encarar a vida e a realidade. Há aqueles que olham para a vida e não vêem nada além do que seus olhos retém. Homens como os descritos por Dickens em “Tempos Difíceis”, que não querem decorar a casa com um papel de parede com desenhos floridos pura e simplesmente porque nunca ninguém viu flores nas paredes. Nada mais lógico: as flores encontram-se no campo ou nos vasos, mas nunca num papel de parede.

Homens assim estão feitos para serem práticos, pragmáticos. Sua vida se resolve numa única pergunta: isso serve para quê? Talvez o melhor representante desse tipo de pessoa seja a própria sobrinha de D. Quixote, Antonia Quijana, que no começo da II Parte (Cap. VI) aconselha o tio para que se deixe de bobagens e tenha em conta a idade que tem e não caia no ridículo de andar por aí “endireitando a vida de todos“…

Para esses homens e mulheres, D. Quixote só pode ser um louco. Aliás, o próprio D. Quixote sabe muito bem disso e explica claramente que há duas formas de entender e duas formas de olhar para o mundo. Há uma forma chã, terra a terra, e há uma outra forma, a forma daqueles que estão possuídos por um projeto.

O capítulo XXXI, Parte I é a chave para entender quem é D. Quixote. Sancho fora levar ao Toboso, terra da “sem par Dulcinéia” a carta que D. Quixote escrevera em Sierra Morena para a sua amada. Como Sancho era um homem prático e via que tudo não passava de uma bobagem, nem se preocupou em entregar a carta. Deu uma olhada em Dulcinéia, comprovou que, de fato, era mesmo uma loucura do seu amo, e voltou disposto a fazer ver a D. Quixote que Dulcinéia não era Dulcinéia, mas simplesmente Aldonza Lorenzo.

Sancho diz que Aldonza não leu a carta porque estava atarefada moendo o trigo…

– Discreta senhora -responde D. Quixote-. Isso deve ser para poder lê-la depois mais devagar e saboreá-la melhor.

Sancho não entende como seu amo pode estar tão cego e dá um sinal contundente: Dulcinéia cheira mal. Pior, tem cheiro de homem, e de homem suado…

– Não é bem assim. Deve ser que você mesmo estava ……, ou então, que você se cheirou a si próprio, porque bem sei eu como cheira aquela rosa entre espinhos, aquele lírio do campo, aquele âmbar precioso.



Mesmo assim, Sancho insiste e diz a D. Quixote que sua amada não lhe deu sequer uma jóia de lembrança; que o único que lhe deu foi um pedaço de queijo e outro de pão. D. Quixote sabe ver a grandeza.

– Generosa é em extremo. E se não te deu uma jóia de ouro, é sem dúvida porque não a tinha à mão… (p. 182).

Quem está louco? Quem tem razão o cavaleiro ou o escudeiro? Não se pode esquecer que D. Quixote é um homem com um projeto a realizar, enquanto Sancho não tem projeto algum. E só o homem com projetos é que consegue captar que a realidade é sempre muito maior do que se vê.

Depende do sentido que a vida tiver. E só o homem com projetos é capaz de descobrir e atualizar o sentido e significado da vida.

Escrever é, do começo ao fim, reproduzir a vida ao meu redor através do meu interior, o qual o absorve tudo, o combina tudo, o recria de novo, o amassa e o reproduz em formas e matérias próprias. A criação não é criar e descobrir do nada, mas infundir o entusiasmo do espírito na matéria. (Thomas Mann).

Esse texto de Mann diz tudo: trata-se de infundir entusiasmo em toda a realidade. A realidade não é um bloco monolítico, isolado, à margem da minha vida. Pelo contrário, a realidade está à espera de que nos relacionemos com ela. E essa relação é que é a vida ou, pelo menos, a trama da minha vida. Como muito bem explica Marina, citando a Husserl e Zubiri, é falso afirmar que “vejo o que vejo“, como diria Sancho enfaticamente, pensando estar afirmando a verdade mais óbvia do mundo.

Todos temos as mesmas sensações, mas percebemos de acordo com nossos conhecimentos, planos e intenções. Enganamo-nos se pensamos que olhamos para a realidade como se fôssemos um espelho; como se, de certa forma, nossos sentidos e nossa inteligência se comportassem como uma máquina fotográfica, que refletiria a realidade: vejo o que vejo.

Não deveríamos esquecer que o que observamos não é a própria natureza, mas a natureza determinada pelo teor das nossas questões (Heisenberg).

A realidade é colocada em xeque; é submetida a intervenções; é analisada, entrevistada, recortada por nós e, dessa forma, é que é transformada em vida nossa. A minha vida real é a vida que sou capaz de viver dentro da realidade assim trabalhada. E, nesse sentido, D. Quixote não é louco, é apenas um homem apaixonado, um homem disposto a viver a vida com um projeto.

Por isso, quando depois de ter sofrido vilipêndios e desgraças, se encaminham pela Mancha à procura de um lugar de repouso e as suas coisas iam encaminhando de bem a melhor, [porque]ainda não tinham andado uma pequena légua, quando lhes deparou o caminho e nele descobriram uma venda que, a pesar seu [de Sancho], e a contento de D. Quixote, devia ser um castelo. Sancho porfiava que era venda e seu amo que não, porém castelo…(Parte I, Cap. XV, p. 88).

Enquanto que todos olhavam para a Maritornes -que era o nome da moça que “atendia” à venda- como “moça para se refocilar juntos”, D. Quixote enxergava uma princesa, que veio ver o malferido cavaleiro, vencido de amores, com todos os adornos que aqui se declaram. Tamanha era a cegueira do pobre fidalgo, que nem o tato, nem o cheiro, nem outras coisas, que em si trazia a boa donzela, o desenganavam, com serem tais, que fariam vomitar a quem quer que não fosse arrieiro; antes lhe parecia que tinha nos braços a deusa da formosura…(Idem, p. 90).

D. Quixote não está louco, simplesmente passou a ser visto como louco ou visionário por todos aqueles que, sensata e racionalmente, acham que a vida é para ser apenas vivida. D. Quixote pertence à categoria de homens que não aceitam curvar-se à facticidade do acontecer humano. Há uma irrealidade, extremamente poderosa, que não é ficcional nem fantástica. É a irrealidade do projeto, do sonho, da utopia, que envolve e entusiasma o homem, extraindo dele o máximo de si e carregando-o de felicidade. É por isso que o Quixote vê o famoso elmo de Mambrino, enquanto Sancho vê apenas uma bacia carregada por um barbeiro:

Como no caminho lhe começou a chover, receoso [o barbeiro] de que lhe estragasse o chapéu, que naturalmente seria novo, pôs-lhe por cima a bacia, que, por estar areada de pouco tempo, resplandecia a meia légua de distância. Vinha montado num asno pardo, como Sancho dissera, e esse é que ao fidalgo se figurou cavalo ruço rodado; o mestre, cavaleiro; e a bacia elmo de ouro (Parte I, Cap. XXI, p. 115).

Cervantes é consciente de que a decisão do Quixote de tornar-se um “cavaleiro andante” -o seu projeto: é mister andar pelo mundo buscando as aventuras como escola prática, para que, saindo algum grande monarca, já o cavaleiro seja conhecido pelas suas obras…(Parte I, Cap. XXI, p. 118).- configura a sua forma de ver as coisas. Por isso afirma, a continuação da história do elmo de Mambrino: “Tinha isso de si: quantas coisas via, logo pelo ar as acomodava às suas desvairadas cavalarias e descaminhados sonhos” (Idem).

O projeto é algo pensado, escolhido, deliberado, “ao qual entrego o controle da minha conduta. É precisamente essa característica projetiva -Marías dirá futuriça – que amplia e enriquece o campo de ação do homem e lhe permite sair dos estreitos limites do mundo racional e formal. Passa-se a viver criativamente. O enamorado de um ideal é muito mais normal do que todos aqueles que não são capazes de compreendê-lo. O projeto, ao colocar-se como meta a ser realizada, consegue ampliar o campo de liberdade do homem. A partir desse momento a sua vida dá-se além da estatística e da lógica. A lógica formal, o método matemático são tentativas de apreender a realidade, mas a realidade é muito mais do que o método compreensivo e vai muito mais além do que um simples modelo explicativo. Pode acontecer que o homem, quando completamente entusiasmado pelo seu projeto, não saiba bem para onde está indo, como acontecia com D. Quixote. Pode até não resolver muitos problemas que irão surgindo na sua frente, como também acontecia com D. Quixote, mas é sem dúvida alguma a melhor maneira de viver criativamente. Tudo o que hoje é permanente na história foi, nos seus começos, puro quixotismo.

É evidente que esta forma de viver está em rota de colisão com o padrão racionalizado, funcional e tecnologizado da sociedade contemporânea, mais preocupada com os “meios” do que com os “fins”. A técnica tem em si a sua própria razão de ser: não importa o para quê; não se discute se os meios tecnológicos serão bem ou mal utilizados. A eficácia é o único critério de verificação. Pode-se criticar D. Quixote de não preocupar-se se os seus esforços davam ou não davam resultados. E, de fato, nunca se preocupou da eficácia das suas ações. Não era esse o padrão comportamental do cavaleiro da Mancha. A sua eficácia consistia na sua entrega entusiasmada ao seu projeto. Num mundo dominado pela razão técnica, o homem é obrigado a pautar-se pela eficácia e pela produção. Tudo o mais é sonho, utopia inútil. Parece-me oportuno lembrar aqui umas palavras de Marías:

Quando o trabalho é demasiado impessoal, quando se realiza por acumulação de materiais e informações, quando interessa mais o resultado e o sucesso do que a própria realização da tarefa, a ilusión desaparece; acredito que isso afeta decisivamente à qualidade, e ainda mais à personalidade da obra, que acaba por ser em muitos casos intercambiável, em lugar de estar ligada à mais profunda realidade do autor.

Quando D. Quixote realiza qualquer aventura está olhando para a própria tarefa a ser realizada. Tem uma dimensão imanente, ou seja, sabe que a perfeição da ação não está propriamente na eficácia do agir, mas na qualidade da própria ação. O homem aperfeiçoa-se no ato, através do agir.

Esse é o ensinamento da tradição clássica grega: o agir segue o ser. Por isso, enquanto o fidalgo liberta os presos no capítulo XXII da Parte I, vai dizendo ao mesmo tempo:se bem vos castigaram por vossas culpas, as penas que ides padecer nem por isso vos dão muito gosto, e que ides para elas muito a vosso pesar e contra a vontade, e que bem poderia ser que o pouco ânimo daquele nos tratos, a falta de dinheiro neste, os poucos padrinhos daqueloutro, e finalmente que o juízo torto do magistrado fossem causa de vossa perdição, e de se vos não ter feito a justiça que vos era devida. Tudo isto se me representa agora no ânimo, de maneira que me está dizendo, persuadindo e até forçando, que mostre em favor de vós outros o para que o céu me arrojou ao mundo, e me fez nele professar a ordem de cavalaria que professo, e o voto que nela fiz de favorecer os necessitados, e aos oprimidos pelos maiores que eles…(Parte I, Cap. XXII, p. 125).

O Quixote age conforme ao seu projeto, mesmo que depois os próprios libertados nem lhe agradeçam e mesmo que acabem por apredejá-lo. O Quixote age de acordo com a sua utopia: realizar a justiça e ganhar a fama; quanto ao resto…que cada um se veja com o seu pecado: há Deus nos céus, que não descura de castigar o mau e premiar o bom. (Idem).

A utopia cria um espaço entre as possibilidades e a realidade. E dentro desse espaço é que o homem age e se realiza. De certa forma, o homem começa a ver diferente a partir da utopia e do projeto que o entusiasmam.

As coisas não se apresentam da mesma forma para um espectador, para um lavrador ou para um compositor. O projeto altera o significado das coisas: as coisas mais singelas e insignificantes podem passar a ter um enorme significado ou, então, podem continuar carecendo dele.

Era isso que acontecia com o cura e o barbeiro e a sobrinha. Para eles, o que realizava D. Quixote carecia de sentido e é por isso que vão à sua procura e conseguem fazê-lo voltar para sua casa, começando a Segunda Parte com um D. Quixote convalescente na cama, repondo-se do “mal da cavalaria” e tendo uma conversa com a sua sobrinha que Cervantes intitula “Capítulo dos mais importantes desta história toda” (Parte II, Cap. VI, p. 334) onde deixa transparecer uma outra forma de olhar para os mesmos fatos, um olhar sem projetos:

Ah! Senhor meu -acudiu a sobrinha- repare Vossa Mercê que tudo isso que diz dos cavaleiros andantes é fábula e mentira, e as suas histórias, a não serem queimadas, mereciam que se lhe pusesse a cada uma um sambenito, ou algum outro sinal, para que fosse conhecida por infame e destruidora dos bons costumes (…) Valha-me Deus! Saber Vossa Mercê tanto, que, se fosse mister, podia numa urgência subir ao púlpito ou ir a pregar por essas ruas, e com tudo isso cair numa insensatez tão óbvia, que dê a entender que é valente, sendo velho, que tem forças, estando enfermo, e que endireita tortos, estando derreado pela idade, e sobretudo que é cavaleiro, não o sendo, porque, ainda que o possam ser os fidalgos, nunca o são os pobres!



Quando D. Quixote volta a sair da sua cidade, ainda carrega o “desencanto” do olhar da sobrinha e, por isso, quando, de repente, na entrada de El Toboso se encontram com Dulcinéia e duas aldeãs amigas, o próprio D. Quixote vê apenas, como ele mesmo diz: “três lavradeiras montadas em três burricos(…) é tão verdade o serem burricos ou burricas como ser eu Dom Quixote e tu Sancho Pança. Pelo menos assim me parecem“. Como Sancho quisesse divertir-se, fingiu que Dulcinéia fosse uma princesa e passou a ajoelhar-se perante ela e a tratá-la como tal. D. Quixote, então, voltou a ser o que era e, mesmo continuando a ver três aldeãs, pensou de maneira diferente e disse dirigindo-se à sua Dulcinéia:

E tu, extremo de perfeição, último termo da gentileza humana, remédio único deste aflito coração que te adora. Já que um maligno nigromante pôs nuvens e cataratas nos meus olhos, e só para eles e não para outros mudou e transformou o teu rosto formoso no de uma pobre lavradeira…. (Parte II, Cap. X, p. 350).

Volta dessa maneira D. Quixote a olhar para o mundo desde a sua utopia. E vão transcorrendo os capítulos e o próprio Sancho, feito governador de uma ilha, vai compartilhando da utopia de D. Quixote. A estratégia para trazer D. Quixote de volta é transfigurar-se de cavaleiro da Branca Lua e desafiá-lo em combate. Mesmo derrotado, o fidalgo não deixa de expressar sua devoção por Dulcinéia:

Dulcinéia de El Toboso é a mais formosa mulher do mundo e eu o mais infeliz cavaleiro da terra, e não estaria certo que a minha fraqueza defraudasse esta verdade; aperta, cavaleiro, a tua lança e tira-me a vida, já que me tiraste a honra (Parte II, Cap. LXIV, p. 572).

Era loucura? Parece mais um sonho descontrolado. O projeto a ser realizado, quando é bom, sempre coloca o homem além dos seus próprios limites. O homem entrega-se à tarefa sem ter tudo definido previamente, sem saber exaustivamente o que vai acontecer e, então, sem que estivesse previsto, consegue-se o fruto que nos ultrapassa.

Quando D. Quixote está à beira da morte mostra-se completamente lúcido. Não tomara nenhum remédio. Está querendo que todos escutem suas últimas palavras. Dá a impressão de estar respondendo a Maquiavel e a todos os renacentistas que tanto acreditaram no papel da deusa fortuna.

O que te posso dizer é que não há fortuna no mundo, nem as coisas que sucedem, boas ou más, sucedem por acaso, mas sim por especial providência dos céus



Qual foi o erro de D. Quixote? Por isso costuma-se dizer que cada um é artífice da sua ventura, e eu o fui da minha, mas não com a prudência necessária (…) Atrevi-me, fiz o que pude, derribaram-me, e, ainda que perdi a honra, não perdi nem posso perder a virtude de cumprir a minha palavra (Parte II, Cap. LXVI, p. 576).

O sonho realiza-se além dos nossos sonhos. É só nessa altura que conseguimos ousar, atrever-nos, correr o risco do fracasso. Mas é só assim que o homem tem a possibilidade de entusiasmar-se. O entusiasmo é exatamente o oposto do auto-controle e do auto-domínio.

Etimologicamente, significa estar no controle e nas mãos de Deus, estar fora de si, absorvido no que se está realizando. Mas isso não é a condição dos loucos e, sim, dos apaixonados.

O que mais pode descobrir aos nossos próprios olhos quem somos de verdade, isto é, quem pretendemos ser, é o balanço insubornável do nosso entusiasmo. Onde estão colocados nossos sonhos, e com que força? Que empresa ou trabalho preenche a nossa vida e nos faz sentir que, por um momento, somos nós próprios? Que presença orienta a nossa expectativa, que antecipação nos polariza, estende o arco do nosso projeto e se converte no alvo involuntário e irremediável do mesmo?



Fontes:

RUIZ, Rafael. Resenha do livro Dom Quixote. Disponível em
http://www.portrasdasletras.com.br

Pintura =
http://www.proa.org/

Deixe um comentário

Arquivado em Literatura Espanhola, Resenha, Resumos, Romance