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Hermoclydes S. Franco (1929 – 2012)

Nasceu em Niterói, em 26 de maio de 1929.

Aposentado. Advogado e administrador formado, respectivamente, pela Faculdade de Direito de Niterói e pela Universidade Gama Filho.

Começou a escrever literariamente em 1980, quando a preocupação com o que fazer após a aposentadoria, para preencher a mente com algo que pudesse trazer satisfação e impedir que a falta do trabalho pudesse trazer qualquer tipo de isolamento ou insatisfação. Na verdade sempre gostou de literatura, desde a mocidade, de maneira que não houve uma influência direta para que começasse a escrever. A preocupação com a futura aposentadoria levou-o a esse caminho.

Em 1985, iniciou preparativos para ingressar no meio trovadoresco, através da União Brasileira de Trovadores (UBT), o que veio a mostrar-se uma positiva decisão, ocorrendo a filiação à seção do Rio de Janeiro no 2º semestre daquele ano. A aposentadoria viria a concretizar-se em 1991, após 40 anos de trabalho em apenas duas empresas brasileiras: a Cia. Aços Especiais Itabira (ACESITA), de l95l a l973, e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 1973 a 1991.

Os seus primeiros trabalhos literários de algum valor foram uma versão em quadras da ORAÇÃO DE S. FRANCISCO DE ASSIS (1985), posteriormente musicada pela trovadora -musicista GLORINHA VELLOSO, e o poema “PARQUE ITATIAIA (A Natureza, o Poeta e o Insensato) – 1º premio em Concurso Comemorativo do cinqüentenário dos parques Nacionais Brasileiros (1987).

Não possui livros editados. Apenas diversas plaquetes em edições restritas feitas artesanalmente e distribuídas gratuitamente a amigos. Destes o mais importante é a série “TROVAS, SIMPLESMENTE TROVAS”: 1º VOL/1993; 2º VOL/1998; 3º VOL/2003; o VOL. IV, a em 1998, seguindo o mesmo processo.

Como escritor conheceu perfeitamente suas limitações, mas procurou manter acesa a chama da esperança e jamais deixar de sonhar, apanágio maior dos poetas.

Ao longo de 20 anos de participação em concursos de trovas e de poesias, é natural que possua cerca de 400 premiações nesses certames. Grande é a alegria por ter obtido o 1º prêmio em quadras no I Concurso Algarve/Brasil (1997) e Menção Honrosa no II (1998) e duas Menções Honrosas no Grande Concurso de Quadras de S. João (1993) do Jornal de Noticias do PORTO. Algumas poesias (sonetos e poemas) premiadas em vários estados brasileiros.

A quem começasse a escrever agora, o único conselho que daria seria no sentido de que estude permanentemente todos os meandros de nossa Língua Portuguesa, para não se permitir cometer erros crassos em seus escritos, como ocorre comumente com tantos pseudo-escritores.

Faleceu no Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 2012.

Fontes:
Portal CEN
Macae News

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Arquivado em Biografia, Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro em Trovas

Rio de Janeiro Trovadoresco

Livreto 1 com 170 paginas com trovas de trovadores do Rio de Janeiro, até a letra L. Breve o livreto 2
Especial João Freire Filho, falecido esta semana.. 

Leia e/ou faça o download AQUI
 João Freire Filho
Abigail de Araújo Lima RizziniAbílio KacAdelir Coelho MachadoAgostinho RodriguesAilto Rodrigues
Alba Helena Correa – Albertina Moreira PedroAlberto LimaAlda Pereira PintoAlice Alves Nunes 
Alírio de Oliveira Ramos – Almerinda LiporageAlmir Pinto de AzevedoAmadeu LaginestraAna Maria MottaAnis Murad – Antonio Carlos PiragibeAntonio Manoel Abreu SardenbergAntonio SeixasAntonio WerneckArthur Nunes da Silva – Benedita Silva AzevedoBrasil dos ReisCasimiro de AbreuCélia CavalcanteCid AndradeDalmir Penna – Diamantino FerreiraDirce MontechiariDjalda Winter SantosEdmar Japiassú MaiaElen Novaes Félix – Elisabeth Souza CruzFlorestan Japiassú MaiaFrancisco RosettiGilson Faustino Maia
Gumercindo Jaulino – Haroldo WerneckHermoclydes S. FrancoJoão CostaJoão Rangel Coelho 
Josafá Sobreira da Silva – Lamartine BaboLaurindo RabeloLilian MaialLilinha FernandesLuna Fernandes

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Trova de Dia das Mães – Hermoclydes S. Franco (Rio de Janeiro/RJ)

Pintura de Pablo Picasso

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Hermoclydes S. Franco (Abril – Flores de Maringá em Trovas)

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1 de abril de 2012 · 19:29

João Costa (Falando de Amor)

Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.

Um gosto de fim de festa,
tristeza, desilusão
É tudo, enfim, que nos resta
depois que os sonhos se vão…

Em meu delírio, cansado
de tanto em vão te esperar,
a saudade canta um fado
e faz minha alma chorar.

Peço-te perdão, querida ,
pela audácia de querer-te,
de sonhar-te em minha vida,
de imaginar merecer-te.

Nossas emoções primeiras,
sob o efeito da paixão,
são fortes, mas passageiras,
como chuvas de verão.

Viva intensamente quem
tem um sonho a ser vivido
que a saudade sempre vem
atrás de um sonho perdido…

Não me indagues por que te amo.
Não saberia dizer.
Eu te amo só porque te amo.
Que outra razão pode haver?

A vida é triste, sombria,
nesta minha solidão.
Sem a tua companhia,
é inverno em pleno verão.

A noite é perfeita e bela,
a lua encanta e seduz,
tecendo em nossa janela
uma cortina de luz.

Poesia, vida, beleza,
bem-aventurança, dor,
felicidade, tristeza…
É isso e bem mais o amor.

Jurei que não voltaria,
ao partir, e assim o fiz.
Lamento essa teimosia
que só me fez infeliz…

De príncipe me chamava
e a gente era tão feliz.
E quando não mais se amava,
nem como escravo me quis.

Tu me prendes com abraços,
torturas com tal paixão,
que, sendo algemas teus braços,
bendita seja a prisão!

Nem ouro nem o fulgor
dos diamantes trago, e sim,
no peito, a rosa do amor;
nas mãos, carinhos sem fim.

Passa o tempo… Passa a vida…
E eu não consigo esquecer-te.
Não me perdôo, querida,
pelo crime de perder-te.

É noite… Insone, penando,
nesta triste solidão,
ouço o silêncio gritando
dentro do meu coração.

Na despedida, confiei
na promessa que fizeste:
– Espera-me, eu voltarei!
Mas quando… não me disseste.

Dos bons acontecimentos
de minha vida, bendigo
aqueles doces mementos
que pude viver contigo.

Desiludido da vida,
do amor – em total entrega -,
sou folha no chão caída
que nem o vento carrega.

Desfeito o sonho mais puro,
longe de quem tanto quis,
para não sofrer, procuro
esquecer que fui feliz…

Não ambiciono o Eldorado.
Meu mundo, embora singelo,
contigo sempre ao meu lado,
é dos mundos o mais belo.

Relembramdo tempos idos,
abro a agenda da memória
e encontro sonhos perdidos,
pedaços da nossa história.

Quero um relógio, querida,
cujo mágico processo,
atrase a tua partida
e abrevie o teu regresso.

– Eu volto! – me consolava.
Mas, em profunda agonia,
meu coração pressagiava
que ela jamais voltaria…

Somos metades perdidas
e eu espero te encontrar.
E esperarei quantas vidas
ainda tiver que esperar…

Cansado de tanto errar,
nessa procura infeliz,
já nem sei se ao te encontrar
eu me sentirei feliz.

Que te amo ao mundo proclamo.
Duvidas, mas eu insisto.
Se é mentira, amor, que eu te amo,
é mentira que eu existo.

O tempo passa…Demoras…
E eu aqui a te esperar.
Meu amor, quantas auroras,
nessa espera, vi chegar!…

Voltarás…Que importa quando?
Eu só sei que voltarás…
Estarei sempre esperando
o dia em que tu virás.

Por esta senda de espinhos,
vou sufocando meus ais,
pois eu sou, sem teus carinhos,
o mais triste dos mortais.

Quis-te para sempre, amor,
mas me deste a solidão.
Hoje és saudade e esta dor
é eterna em meu coração…

Quando as almas são unidas
pelo amor, completamente,
deixam de ser duas vidas
para ser uma somente.

A noite é toda poesia.
Lua e estrelas a brilhar…
Mas, sem tua companhia
de que me serve o luar?…

De exuberância suprema,
que nos encanta e extasia,
cada alvorada é um poema
que Deus compõe todo dia.

Tua presença é poesia,
tudo de bom para mim;
teu sorriso pressagia
felicidade sem fim…

Os meus dias são tristonhos.
Tu não vens e o tempo avança.
Nem mesmo no mar dos sonhos
vislumbro a nau da esperança.

Quando eu me for desta vida,
irei a meu Deus pedir
que ele me faça, querida,
reencontrar-te no porvir.

Descobri, ao te perder,
que, sem direito a perdão,
fui condenado a viver
algemado à solidão.

De saudade angustiado,
faço versos soluçando
e cada trova é um recado
por teu regresso implorando.

Mais triste e pior castigo
do que o meu não pode haver:
– Não pode viver contigo,
sem ti não saber viver…

Nós dois… A felicidade…
Muito amor… Sonhos… Depois,
a distância e a saudade
como abismo entre nós dois…

Que importa o tempo passado,
se é tão grata a descoberta?
– Ao ver-te ainda ao meu lado,
sei que fiz a escolha certa!

Dei a ti meu coração,
muito te amei e te quis.
Se tudo foi ilusão,
não importa, eu fui feliz!…

Os meus versos se calaram,
à saudade sucumbi,
minhas lágrimas secaram
de tanto chorar por ti…

Ao partires, me disseste:
– Espera-me, eu voltarei!
O tempo passou… Não vieste…
E o pior: eu te esperei.

Recomeça a nostalgia
quando o dia vai morrendo.
Não suporto esta agonia.
Volta, amor, estou sofrendo!

O tempo que tudo apaga,
promovendo o esquecimento,
em vez de apagar afaga
teu nome em meu pensamento.

Que em tua ausência dispare,
eu apelo ao tempo; e quando
estivermos juntos, pare,
o momento eternizando.

Fonte:
João Costa. Meu Caderno de Trovas. Saquarema, RJ: Edição Artesanal, 2011.

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Trova 213 – Edmar Japiassu Maia (RJ)

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6 de dezembro de 2011 · 00:46

Trova 197 – Durval Mendonça (RJ)



Fonte:

Trova obtida no blog de Pedro Mello, Trova do dia de hoje, http://pedromello-ubt.blogspot.com/

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Trova 196 – Roberto Pinheiro Acruche (São Francisco de Itabapoana/RJ)

Fonte:
Imagem e trova = http://robertoacruche.blogspot.com

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Trova 195 – Roberto Pinheiro Acruche (São Francisco de Itabapoana/RJ)

Colaboração do Autor

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Anis Murad (Caderno de Trovas)

Debaixo da nossa cama,
que tu deixaste vazia,
o meu chinelo reclama
o teu chinelo – Maria.

Não, saudade, não açoite
o carro de bois, dolente,
gemendo dentro da noite…
chorando dentro da gente…

Estes teus olhos brejeiros!
– ah! se eu pudesse, meu Deus!
por noites, dias inteiros,
ver meus olhos nos teus!

Saudade – rede vazia
a balançar tristemente…
ninando a melancolia
que dorme dentro da gente.

Manhã de sol, que alegria!
De pés descalço, meu ser,
é um garoto que assovia,
na alegria de viver.

Quando eu partir – não sei quando,
não ponhas, minha querida,
teus olhos, lindos, chorando,
sobre os meus olhos, sem vida.

Saudade – tristeza imensa,
por meu amor que não vem.
Saudade – tristeza imensa,
de alguém ausente… de alguém!

Disseste não, fiquei triste,
mas disseste sim, depois.
Maldito “sim”, que persisti,
no eterno “não”, de nós dois.

Na noite triste, vazia,
ouvi a voz de meu bem.
Corri louco de alegria,
abri a porta – ninguém!

Mandei a saudade, um dia,
à procura de meu bem,
desse meu bem – que é Maria,
mas que é saudade – também…

Vendo-a passar, ficou triste,
quando alguém lhe perguntou:
– E aquele amor… inda existe?
– Não! – respondeu… Já passou!…

Com a luz, pai, que me deste,
do teu meigo olhar profundo,
eu vejo – no mundo agreste,
toda a beleza do mundo.

Saudade – doce maldade,
que a gente sente e não vê,
mas eu vejo esta saudade,
esta saudade é você!…

Saudade – sonho, desejo,
lembrança, recordação……
Um beijo – que já foi beijo,
um amor – que foi paixão…

Olho o boi, de olhar parado,
que me fica amargamente
Parece que o desgraçado
tem piedade da gente.

Bebida da mesma adega,
serás igual a teu pai…
Tu, Anis novo – que chega,
– “Quem é?” – Eu, Anis velho – que vai…

No meu ermo – “Soledade”,
alguém bateu, certo dia.
“Sou eu, a Saudade!”
– “Meu Deus! A voz de Maria!”

Amo no amor a ternura,
a meiguice, a suavidade;
o amor – que é todo doçura,
o amor – que é todo amizade.

Guardo esta crença comigo,
com carinho e devoção:
todo mundo é meu amigo,
todo amigo: – meu irmão!

Se todo mundo quisesse,
melhor o mundo seria,.
se todo mundo soubesse,,
do nosso mundo, Maria.

Vem o trem cortando a serra,
no seu grito lancinante
Talvez saudade da terra
que foi ficando distante.

Mente, descaradamente,
o coração da mulher.
Diz que não gosta da gente,
só pra dizer que nos quer..

Não sei se foi por maldade,
não sei se foi por vingança:
mataram minha saudade…
roubaram minha esperança..

Tens o sentido profundo
da fé – que é paz, é perdão!
Braços abertos ao mundo,
portal do céu – redenção!

No teu grande simbolismo,
é um cruzeiro de luz,
de um abismo ao outro abismo,
dos homens até Jesus!…

Mãe que traz uma criança,
nas entranhas de seu ser,
carrega a própria esperança,
no filho que vai nascer.

Esperei-a toda a vida…
Nessa espera envelheci…
Ela – de verde, vestida
passou por mim e não vi…

Na triste quadra da vida,
rima-se a felicidade,
com esta rima querida,
que se rima na amizade.

A minha alma não se cansa,
– embora desiludida,
de acalentar a esperança,
que é o acalanto da vida.

Olhos risonhos, infindos,
que choram de quando em quando:
sorrindo – lindos, tão lindos;
feios, tão feios – chorando…

Esperança!… quem diria,
quem diria – que a esperança
fosse os olhos de Maria,
vagando em minha lembrança.

Não estaria amarrado,
pela igreja e pretoria,
se não tivesse encontrado,
este encanto de Maria!

Achei uma forma nova
de tornar-me trovador:
nossos lábios – uma trova
na doce rima do amor.

Mesmo velhinho e cansado,
não sei que estranha magia,
fico um saci, assanhado,
quando te vejo, Maria.

Deixa a vida do menino
viver a vida, meu bem,
ninguém muda o destino,
nem a vida de ninguém!…

Que medida desmedida
medir as misses, assim.
Com medida ou sem medida
são na medida prá mim.

Nós nos queremos, querida,
com tanta simplicidade,
que o maior bem desta vida,
não vale a nossa amizade!

De sete meses gerado,
vim ao mundo temporão.
Já fui tesouro guardado,
em caixa de papelão.

Só senti a luz da vida,
com mais calor e mais brilho,
quando tu deste, querida,
a luz da vida a meu filho.

O Amor – que tudo redime,
não tem a sublimidade,
do querer bem – que se exprime,
no bem querer da Amizade!

Por um beijo concedido,
ficou desfeito o noivado;
pois o futuro marido,
sentiu-se logo enganado.

Surpreendeu-me o garoto,
em colóquio com meu bem.
E diz, num sorriso maroto:
– Eu quero beijar, também!

Do meu quarto de solteiro
– já cansei de te pedir,
vem buscar teu travesseiro,
que não me deixa dormir!…

Não sei porque a lembrança,
de uma florzinha que cai,
faz-me pensar na criança,
abandonada, sem pai,

Do meu berço pequenino,
fizeram tosca jangada,
que voga ao léu do destino,
para o destino do nada.

Terá, mulher, se quiseres,
o mundo todo a teus pés.!
Porque é todo das mulheres,
que forem como tu és!

Maria – meu sol, meu guia!
Maria – Mãe do Senhor
Minha santa mãe: Maria!
Maria – meu santo amor!

A vida é mesmo engraçada:
correr, correr, para enfim,
tombar, ao fim, para o Nada –
no eterno nada – sem fim…

Simples jardim sobre a cova,
trevos repousando em calma
Em cada trevo uma trova,
em cada trova a minha alma…

Há uma lâmpada encantada,
acesa no coração,
que tem a chama sagrada,
que se chama inspiração.

É, francamente, bobagem,
possuir televisão
se eu posso ver tua imagem,
no vídeo do coração.

Aqui jaz, na quadra imerso,
um vate, vivo e mordaz.
Fez sepulturas, do verso,
e sepultou-se; aqui jaz.

As trovas, quando eu as faço,
faço-as de mim para mim.
Vou dizê-las… que embaraço…
Estremeço… fico assim..

Envelhecer! – que tristeza,
sentir a vida fugir
e ter a triste certeza,
que a morte certa há de vir.

Depois de sua partida,
mais a possuo, porque:
toda a saudade da vida,
ficou em mim – de você!

Não sejas má nem injusta,
nem faças mal a ninguém.
– O querer bem nada custa,
é tão bom fazer o bem.

Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem!
Só pelo bem – que há na vida
de se poder querer bem.

Morre o dia, tristemente,
na tarde crepuscular…
Dá uma saudade, na gente,
ao ver a noite chegar..

Esses teus olhos tão lindos,
misteriosos, profundos,
são dois abismos infindos
dois precipícios – dois mundos!..

Olhas pra mim, na verdade,
mas não me vês – este olhar
perdido está, na saudade,
que ficou noutro lugar…

Eu só, tu só, nós dois sozinhos…
O amor chegou certa vez,
misturou nossos trapinhos,
somos um mundo: – nós três!

Tudo passa – na verdade,
passa tudo – sem parar.
Só não passa esta saudade,
que ficou no teu lugar.

A vida é noite fechada,
num coração sem amor.
Amor é Luz – madrugada!
Raio de Sol – Esplendor!

Essa Maria – que existe,
chorando nos versos meus,
foi a saudade mais triste,
que alguém deixou num adeus!

Saudade – dor repartida
entre o que fica e o que vai.
Uma esperança perdida
num sonho azul que se esvai.

Menina – pobre, perdida,
que a vida jogou ao chão,
descendo a rampa da vida
rolando de mão em mão…

Também nas flores existe
uma saudade de amor…
Orvalho – saudade triste,
lacrimejando na flor…

Nas trilhas de Deus, teremos,
o caminho justo e certo,
para esse Deus, que não vemos,
mas que nos vê tão de perto.

Só a saudade é que explica
por que foi que ele chorou:
esse vazio – que fica,
no vazio – que ficou…

Cansado estou da esperança,
cansado do meu ser,
da própria vida – que cansa,
vivendo, assim, sem viver…

A minha alma – agradecida,
elevo a Deus com fervor,
pelo amor – maior da vida!
Que nasceu do nosso amor.

Perdoa, mãe a heresia!
Mas não posso mais rezar:
fui dizer – Ave Maria!
e comecei a chorar…

Tal qual ingênua criança
nas noites de São João,
vou soltando as esperanças,
como quem solta balão!…

As trovas feitas a esmo,
são difíceis de fazer:
conversa contigo mesmo,
que a trova sai sem querer.

Um vagido de criança
sacode todo meu ser:
era o pranto da esperança
que gritava pra viver.

Vejo-te, mãe, todo dia
que a tarde cai pra morrer
e que a voz da Ave Maria
vem minhalma enternecer…

Guarda, meu bem, na lembrança,
esta lembrança do bem:
quem não tiver esperança,
seja a esperança de alguém!…

Sempre que faço uma prece,
não sei que estranha visão,
a minha mãe aparece,
sorrindo em minha oração.

O trovador – simplesmente,
é uma pessoa feliz;
se às vezes diz o que sente,
nem sempre sente o que diz.

Pobre amor – triste saudade!…
Saudade – triste lembrança!..
De um grande amor – na verdade,
que não passou de esperança!…

Ao verme o verme me diz,
depois de me haver provado; e
bonito!… bebi anis…
Vou ficar embriagado…

Dá tantas voltas a vida,
a gente, atrás, a correr…
Que gente doida, varrida!
Correr tanto, pra morrer!

O destino predestina,
destinos da nossa vida…
A minha invertida sina,
deu-me uma sina invertida…

Tens no coração fecundo,
um patrimônio seguro;
essa riqueza do mundo:
ser bom, ser justo, ser puro.

Que será dessas crianças,
sem luz, sem teto, sem pão…
Uns farrapos de esperanças,
de uma triste geração!

Esses balões e as fogueiras,
trazem à minha lembrança,
as esperanças fagueiras,
dos meus tempos de criança!…

Tenho pena das crianças,
andrajosas, semi-nuas,
malbaratando esperanças,
pelas sarjetas das ruas!…

Eu seria bem feliz,
das mágoas que já sofri,
se pudesse, sendo anis,
ser somente para ti…

Meu coração desconhece,
a raiva, o ódio, o rancor,
Quanto mais vive e padece,
mais vida tem para o amor.

“É bebida apetecida,
– de gostosura sem fim…
Se bebo desta bebida,
eu fico cheio de mim…

Eu nada tenho de meu,
por isso vivo a cantar –
a graça que Deus me deu:
mulher, um filho – meu lar!

Alô!… Quem fala?… Esperança?….
– Um momento!… Vou chamar!…
Esperei… – pobre criança
que envelheceu a esperar!…

Hei de esperar, querida,
nessa esperança, sem fim,
de esperar-te toda a vida,
se a vida esperar por mim!

Pode ir! Tem liberdade,
de levar o que quiser!
Só não me leve a saudade,
que é seu retrato, mulher!

Que pobre vida – vivida
de muitos amigos meus;
desencantadas da vida
sem crença, sem fé, sem Deus.

Maria, só por maldade,
deixou-me a casa vazia…
Dentro da casa: saudade!
E na saudade: Maria!

Não desespere, querida,
que a vida foi sempre assim:
uma esperança perdida
que só se encontra no fim…

Fonte:
Luiz Otávio e J. G. De Araújo Jorge (organizadores). 100 Trovas de Anis Murad. Coleção “Trovadores Brasileiros”. RJ: Editora Vecchi – 1959

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Waldir Neves(Caderno de Trovas)

A espontânea palavrada,
que acompanha um tropeção,
faz bem crer que uma topada
seja a mãe do palavrão.

Ao sair d’água, a banhista
gritou de vergonha: – “Xiii…”
no maiô, na frente e à vista,
veio agarrado… um siri !

Depois que os céus lhe mandaram
As gotas do seu DESEJO,
duas outras marejaram
os olhos do sertanejo…

Doente, a velha cegonha
recusa trabalhos duros,
e pra não passar vergonha
só carrega … prematuros.

Enquanto eu durmo, querida,
minh’alma, por compulsão,
se aninha e dorme, encolhida,
aí… no teu coração.

Espalhou pedras à estrada
do velho barraco… “Ô xente!
Não dizem que é só topada
que põe o pobre pra frente ?…

Flagrado, na contramão,
no quarto da serviçal,
o vivaldino patrão
fingiu “confusão mental”

Folha em branco… A esmo, um nome
rabisco, na tarde calma.
E a angústia… que me consome…
vai rabiscando minh’alma…

Importuno e impertinente,
o DESEJO insatisfeito
sempre foi, literalmente,
meu “inimigo do peito”…

Maduro ao sol outonal,
pela brisa acariciado,
freme, ondulante, o trigal,
num desvario dourado !…

Motel chique… Olha o marido!!!
E a confusão foi tão feia,
que blusa virou vestido,
e sutiã virou meia.

Na casa do casal velho,
a confusão é total:
-lê-se o jornal no Evangelho;
e o evangelho, no jornal.

Não te esqueças, otimista,
de lembrar, no teu anseio,
que, entre o DESEJO e a conquista,
há sempre pedras no meio…

No abandono, desvairado,
levo noites a fitar
o vestido desbotado
que ela esqueceu de levar…

No apogeu do seu ardor,
tão ternamente se exprime,
que chamamos nosso amor
o “desvario sublime”.

Nosso amor é, neste ensejo,
brasa oculta em cinza quente.
-Basta um sopro de DESEJO,
e arde em fogo, novamente…

O desvario arrebata…
E eu fui por falso caminho.
Minha sombra, mais sensata,
deixou-me seguir sozinho…

O ladrão, envergonhado,
diz : – “Doutor, vim me entregar:
o roubo era tão pesado
que eu não pude carregar…”

O mendigo da calçada,
a quem a mágoa não poupa,
talvez tenha esfarrapada
bem mais a alma que a roupa.

Por topadas em excesso
– um tormento em seu caminho –
o dedão abriu processo
contra os olhos do ceguinho.

Pra fugir do casamento,
o noivo, meio “frufru”,
alegou, como argumento,
“vergonha de ficar nu”

Provocador e brigão,
o General de Brigada,
sempre que arma confusão,
ela é… generalizada.

Quando a jovem aluada
deu, no amor, um “tropeção”,
foi um caso de “topada
com os pés fora do chão”.

Severo no condenar,
o Céu abranda o rigor
quando o pecado a julgar
é um desvario de amor…

Tal fascínio lhe desperta
o mistério das estrelas,
que, às vezes, de mim liberta,
minh’alma vai percorrê-las.

Uma das mágoas, apenas,
que à minh’alma são pesadas…
faria leves as penas
até das almas penadas…

“Um prodígio o seu arranco,
a dois metros da chegada!”
E o vencedor, meio manco:
“prodígio foi a topada…”

Velho par, na academia,
é ímpar na confusão:
-foi de sunga à confraria
e à praia foi de fardão!

Vergonha, mesmo, passou
dr. Cornélio, homem sério.
Imaginem… Processou
a mulher por adultério.

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João Freire Filho (Caderno de Trovas)

A lua, que nos clareia,
é diferente de quem,
recebendo luz alheia,
não ilumina ninguém!

Ante a dor… não esmoreço,
sabendo, em meu caminhar,
que a Vida não cobra preço
que não se possa pagar

A Terra vive conflitos,
sangrando, de guerra em guerra,
e é com voz branda… e, não, gritos…
que se há de ter Paz… na Terra!

A saudade é dependência…
É meu vício, em tal medida,
que você se fez a ausência
mais presente em minha vida!

As revoltas não têm fim
e explodem cada vez mais,
que a fome acende o estopim
das convulsões sociais!

A tormenta, que atordoa,
não distingue, em mar bravio,
a humildade da canoa…
da soberba do navio!…

A Verdade anda tão rara,
que a Mentira, sorridente,
já nem sequer se mascara
para enganar tanta gente!

A vida me presenteia
com tamanhas alegrias,
que a tristeza é um grão de areia
na ampulheta dos meus dias!

Bendita a fonte escondida…
que escorre e, por onde passa,
trazendo a graça da vida,
dá tanta vida de graça!

Cai na rua… Perde o tino,
no alcoolismo em que se esvai…
E, aos passantes… um menino
diz, inocente: – “É meu pai”…

Cantando terno estribilho
e esquecendo que era escrava,
Mãe Preta aleitava o filho
de quem os seus açoitava!…

Com sabor de penitência…
de brinde contra a vontade,
vou bebendo a tua ausência…
em meus porres de saudade!

Da ternura ao desvario..
do desvario à ternura,
nosso amor vive no fio
da mais sublime loucura…

Distante, a lua prateada,
entre nuvens de inconstância,
me lembra a mulher amada…
mais amada… se à distância!

Distante do olhar das ruas,
num sonho que me enternece,
em nosso céu brilham luas
que só nosso amor conhece!…

Dos meus tempos mais risonhos
descubro, agora, os segredos:
– cabia um mundo de sonhos
no meu mundo de brinquedos!

É o desvario do mando
de alguns Senhores da Terra…
que implanta, de quando em quando,
os desvarios da guerra!

Eu compreendo os desvios
a que leva uma paixão…
As vezes, são desvarios
que dão à vida… razão!…

Fim do amor… Desiludidos,
sabemos juntos, mas sós,
que há silêncios inibidos…
tentando falar por nós!

Hoje, em meu leito, sem ela,
enquanto resisto ao sono,
a Saudade é sentinela…
dando plantão… no abandono!

Imperfeito, eu rogo, aflito,
por nosso amor, que é perfeito:
– Não faças de mim um mito…
que mitos não têm defeito!

Liberdade — sentinela
da Paz, em qualquer lugar!
E quem não lutar por ela…
não tem mais por que lutar!

Lutando por ideais,
mesmo à beira da utopia,
tenho enfrentado os “jamais”
com meus “sempres” de ousadia

Meu coração se acautela
e, imerso em desilusões,
faz da razão sentinela…
contra novas invasões!

Meus ideais mais risonhos
correm livres, sempre em frente,
numa corrente de sonhos,
que rompe qualquer corrente!

Na vida, que te conduz
às mais diversas pelejas,
se não puderes ser luz,
que, ao menos, sombra não sejas!

Nosso amor, desde o começo,
tem tal alcance e medida,
que, quanto mais envelheço,
mais o sinto… além da vida!

O meu amor te ocultei!
Seguimos rumos diversos…
Passou-se o tempo, e, hoje, eu sei:
– permaneceste em meus versos!

Poeta é aquele que abraça
a noite, sentindo-a sua,
e bebe estrelas na taça
inspiradora… da lua!

Quem ama… libera o ardor
dos impulsos naturais,
que, em desvarios de amor,
loucura alguma é demais !

Quem tem a luz do saber,
muito mais que outro qualquer,
tem de cumprir o dever
de ser luz… onde estiver!

Saudoso, namoro a Lua
e sinto, por seu feitiço,
que o nosso amor continua,
embora nem saibas disso!

Sonhador, poeta… e amante
de quanto a vida me dá,
que importa a lua distante…
se os meus sonhos chegam lá ?!…

Tenho um segredo profundo
– e, é de amor… – e, tarde ou cedo,
eu gostaria que o mundo
soubesse desse segredo!

Teu ciúme, cortando os laços
do nosso amor, me magoa…
mas meu amor abre os braços
e, por amor, te perdoa!

Toda noite ela regressa
em meus sonhos erradios…
Não há distância que impeça
de eu tê-la… em meus desvarios !

Vem do sol a luz de prata
que parte da lua encerra…
E a lua, modesta e grata,
deita pratas sobre a terra!

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Arquivado em Rio de Janeiro em Trovas, Trovas

Trova 189 – Colbert Rangel Coelho (RJ)

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15 de janeiro de 2011 · 19:16

Trova 167 – Renato Alves (Rio de Janeiro)

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3 de agosto de 2010 · 00:51

Trova 141 – Durval Mendonça (RJ)

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1 de maio de 2010 · 21:32

Trova 139 – Antonio Manuel Abreu Sardenberg (São Fidélis/RJ)

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11 de abril de 2010 · 18:51

Carlos Guimarães (Trovas: Cantigas que Alguém Espera)

Canto, feliz, para quem
é meu Sol de Primavera
e, em suas mãos, hoje, tem
CANTIGAS QUE ALGUÉM ESPERA.
________________________________________
Ponho nas trovas amigas
um pouco do meu viver,
por isso, chamo-as Cantigas,
CANTIGAS DE BEM-QUERER.

A minha trova imperfeita
somente um destino almejo:
– pra tua boca ser feita,
como foi feito o meu beijo.

A tua mão carinhosa,
quando me vem afagar,
lembra a ternura da rosa
desabrochando ao luar.

Ai amor, que me fugiste
e deixaste tantas mágoas!
Sou, hoje um salgueiro triste
chorando à beira das águas

As coisas simples, pequenas,
bem pode o Amor transformar
– eu dei-te uma casa, apenas,
dela, tu fizeste um Lar!

Ao desespero me entrego.
Choro tanto, tanto, tanto,
que recaio ficar cego:
– olhos desfeitos em pranto.

A mais triste das notícias
tu me dás com tanta graça,
por entre tantas carícias,
que a tristeza vem e passa.

A ternura do meu beijo,
em vão, ocultar procura
este meu louco desejo
de beijar-te sem ternura.

A tua mão, que transforma
pesares meus em ventura,
é uma flor de estranha forma,
toda feita de ternura.

A Estrela d’Alva perdida
no céu, em plena alvorada,
é uma lágrima vertida
dos olhos da madrugada.

As roseiras tão vaidosas,
quando me vens visitar,
deitam pétalas de rosas
nas pedras que vais pisar.

A prece que tu fizeste,
mão unida à minha mão,
se não foi ao Pai Celeste,
entrou no meu coração.

As velas pandas ao vento…
Doidas gaivotas pelo ar…
Você no meu pensamento
E, entre nós dois, esse Mar…

A tua boca perfeita,
que tem do pecado a cor,
parece, amor, que foi feita
para os meus beijos de amor

Beijo teu beijo na rede,
com repassada ternura,
como quem mata a sede
numa fonte de água pura.

Contra a tua ingratidão,
transbordando indiferença,
meu remédio é a solidão,
meu refúgio é minha crença.

Cantando canções antigas,
a serenata me encanta
porque repete as cantigas,
que a minha saudade canta

Chora, amor, que o pranto encerra
lenitivo à alma ferida:
depois da chuva é que a terra
se apresenta mais florida

Deus que te deu tanta graça,
que te fez linda e faceira,
espero, amor, que te faça
minha eterna companheira

Devo tudo quanto sou
e a Vida me concedeu,
à mãe que Deus me levou
e à mulher que Ele me deu.

Desfaz-se a flor, mas, no galho,
deixa em pétala singela,
uma lágrima de orvalho,
que a noite chorou por ela.

Deixei-te, amor, e não sei
como aquilo aconteceu,
pois nunca mais encontrei
outro beijo igual ao teu

Devo a essa boca vermelha
ser o escravo que, hoje, sou:
foi o teu beijo a centelha,
que o meu peito incendiou!

Eu sou feliz – bem ou mal –
crendo nas tuas promessas,
porque a Esperança, afinal,
é um saudade às avessas.

Ela se vai eu aceito
o adeus com tranqüilidade
e o céu da distância enfeito
com estrelas de saudade

Essas tuas mãos morenas,
com que meu rosto acarinhas,
parecem feitas das penas
das asas das andorinhas.

Entre apagadas imagens,
fulguras como um clarão,
neste asilo de miragens,
que é, hoje, meu coração.

E esta lágrima contida,
medrosamente a brilhar,
é igual à conta perdida
de todo um grande colar…

Esta aflição que me invade
e esta dor que me consome,
não creio sejam saudade:
– devem ter um outro nome.

Esse teu beijo molhado
traz-me à idéia imagem louca:
– vinho rubro do pecado,
na taça da tua boca.

Enquanto a Lua comanda
as serenatas na Terra,
estrelas fazem ciranda
juntinho à crista da serra.

Entra as rosas mais formosas,
a razão dos meus enleios,
são as rosas perfumosas,
com que ornamentas teus seios.

Gemem, na praia, os coqueiros,
refletindo o soluçar
das noivas dos marinheiros,
que se perderam no Mar.

Já não me queres, porém,
é tranqüilo que eu te digo:
– tu não me impedes, meu bem,
que eu sonhe, sempre, contigo.

Lavadeira, o que insinuas,
um desejo em mim acorda:
ver minhas roupas e as tuas,
juntinhas, na mesma corda.

Lembro o beijo terno e amante,
que te dei quando menino:
espaço de um breve instante,
que mudou todo um destino.

Linda música de fato,
ouvida em noite de Lua,
é a que faz o teu sapato,
nas pedras de minha rua.

Maria, que é meu tesouro
e ee julga muito pobre,
não sabe que valem ouro
seus cabelos cor de cobre.

Minhas mãos formam dois ninhos
sempre de ternura cheios,
onde abrigo dois pombinhos,
dóceis e lindos: teus seios,

Meu lenço, na despedida,
tu não viste em movimento:
– Lenço molhado, querida,
não pode agitar-se ao vento.

Marcado por mil ausências,
que a distância evidencia,
meu pranto põe reticências,
em nossa história, Maria.

Mudou nosso lar depois
do triste adeus, que ela deu:
– um Paraíso de dois
tornou-se Inferno só meu

Meio tonto de desejo,
beijo teu beijo risonho
e, através desse teu beijo,
chego à fronteira do sonho…

No momento em que o
sol posto separa a noite do dia,
sinto roçarem meu rosto
as asas da nostalgia.

Na carta, ao dizer-te quanto
a saudade me consome,
as reticências do pranto
quase apagaram meu nome.

Não é desdém, malquerença,
antipatia ou rancor.
Essa tua indiferença
tem um nome: desamor

Nesta vida amargurada,
que eu vejo esvair-se aos poucos,
tu foste a chama migrada,
no altar dos meus sonhos loucos!

Numa carta alviçareira,
dizes que voltas e, então,
mais rosas veste a roseira,
mais sonoro é o carrilhão,

Não posso impedir que um beijo
lascivo, em meus lábios brote,
quando teu seio, entrevejo,
na janela do decote.

Na Rósea Estrada do Amor,
que, junto de ti, eu trilho,
rendo graças ao favor
de seres mãe do meu filho.

Nas noites de serenata
quantas cancões tenho escrito
usando as letras de prata
do livro azul do Infinito,

Na ausência do teu carinho
torturado de desejos,
rolo em meu leito, sozinho,
beijando meus próprios beijos.

Na festa do teu regresso,
desculpa o que eu te disser
e perdoa todo o excesso
dos carinhos que eu te der

Nessas minhas confidências,
repetidas, sempre iguais,
falam mais as reticências,
que as frases convencionais

Olhos presos à amazona,
velho palhaço risonho
faz, sob o teto de lona,
os seus castelos de sonho.

O sol, pelas madrugadas,
se as estrelas vão-se embora,
acende as velas doiradas
do candelabro da aurora,

O destino, em sua teia,
enredou-nos por maldade:
eu – pequeno grão de areia;
tu – cristal de qualidade

Ouço na alma a ressonância
da frase simples, sem brilho,
ouvida lá na distância:
– Que Deus te abençoe, meu filho!

O que me faz indeciso
– indecisão que eu não venço –
é pensar que teu sorriso
não quer dizer o que eu penso.

Os teus seios, provocando
o meu olhar atrevido,
são dois pássaros bicando
as rendas do teu vestido.

O Tempo ao Amor não mata
é, disso prova fiel,
as nossas Bodas de Prata,
em plena Lua de Mel…

Passaste… E eu recordo ainda
o pouco que me ficou:
Foste a promessa mais linda
com que a vida me enganou…

Por te querer me torturo,
sem saber, em minha dor,
que mistérios o futuro
reservou ao nosso amor!

Porque te foste, a revolta
não me deixa por um triz,
mas a crença em tua volta
quase me faz ser feliz.

Pobre amor que as nossas vidas
reduziu a quase nada:
– somos as brasas dormidas
de uma fogueira apagada…

Partiste, mas, sem desgosto,
lembro a nossa história louca,
pois, na boca, tenho o gosto
do gosto da tua boca.

Preso às garras da saudade,
quase feliz, eu bendigo
ter ainda a liberdade
de sonhar sempre contigo…

Pelo milagre do amor,
é que a mulher nos conduz,
transformando o espinho em flor,
fazendo, das trevas, luz.

Passam-se as horas felizes,
numa disparada louca,
quando as frases que tu dizes
são ditas na minha boca.

Passos leves sobre alfombra,
de roxa mágoa vestida,
a saudade é igual à sombra,
que acompanha a despedida…

Quando me deito e acontece,
que o sono logo não vem,
converso com Deus em prece,
rezo em trovas ao meu bem.

Quando a mulher seu amor
transforma em doida paixão,
ganha as asas de um condor
ou rasteja pelo chão,

Quando contigo velejo,
que prazer, ao te beijar,
sentir no teu doce beijo,
gosto salgado do Mar.

Quando aos teus beijos me entrego,
é tanta a minha alegria,
que eu me sinto como um cego,
que enxergasse a luz do dia.

Reacendendo meus desejos,
lembro saudoso, Maria,
da camisola de beijos,
que no teu corpo eu tecia.

Regresso e, de peito aberto,
dás-me perdão às mancheias:
– quem anda no rumo certo
entende as culpas alheias

Rendeiras, de toda a parte,
tecelãs de fina teia,
vinde à praia ver com que arte
o mar faz rendas na areia.

Saudoso de ti, tristonho,
procuro o sono com ânsia
porque, nas asas do sonho,
torno menor a distância.

Sem teu beijo, teu abraço
e o calor do teu carinho,
vou, de fracasso em fracasso,
morrendo devagarinho.

Se para a igreja ela passa,
penso pedir-lhe um favor:
– Maria, cheia de graça,
rogai por mim, pecador.

Tu me deixaste e eu, tristonho,
lamento o amor fracassado:
– cortaste as asas de um sonho
tanto tempo acalentado

Toda essa dor que me invade
e, constante, me angustia,
se não chega a ser saudade
é bem mais que nostaIgia…

Teu rosto vincado, triste,
é simples confirmação
de que o remorso persiste,
mesmo depois do perdão.

Teu amor, brasa dormida,
que o tempo apagada fez,
a um leve sopro, incendida,
pode brilhar outra vez…

Tentei o amor e os fracassos
se acumularam, meu bem:
– quem teve você nos braços
já não pode amar ninguém.

Tudo acabou… Não mais juntos,
seguimos rumo, diversos…
E eu te agradeço os assuntos,
que deste para os meus versos.

Tece a vida, a vida inteira,
a minha sina vadia,
mas, na trama, trapaceira,
põe fios de nostalgia!…

Taça cheia de doçura,
tua boca apetecida
faz milagres de ternura,
nos beijos de despedida…

Triste vida é minha vida,
pois, na vida, não consigo
a coisa melhor da vida:
– viver a vida contigo…

Teu beijo, doce acalanto
à noite, me embala, amor…
De manhãzinha, entretanto,
ele é meu despertador…

Tendo os olhos rasos d’água,
imploraste o meu perdão,
com tanta graça, que a mágoa
fugiu do meu coração.

Tuas mãos, flores morenas,
que eu colhi nos meus caminhos,
junto à maciez das penas
trazem ternura dos ninhos.

Tanta beleza e tal graça
valorizam teu amor,
pois que quanto mais linda a taça,
melhor do vinho o sabor…

Tantas vezes foi relida,
do meu triste pranto em meio,
que a carta de despedida
já não tem letras e eu leio…

Um violão preso à parede…
Canto alegre de um riacho…
Um doce embalo de rede…
Quatro chinelos debaixo…

Um grande amor permanece
dentro em nós, a vida inteira:
É igual à cinza que aquece,
depois de extinta a fogueira…

Vivo preso ao desencanto
que esse teu amor me traz:
teus olhos prometem tanto
e é tão pouco o que me dás…

Vestindo roupas de bruma,
envolta em seu negro véu,
a madrugada, uma a uma,
apaga estrelas no céu…

Vais ser mãe… Tua figura
perdeu a graça infinita…
Mas, revelas tal ventura,
que pareces mais bonita…

Voltaste! E, em meio à alegria,
nós nem contamos as horas,
que o carrilhão anuncia
pingando gotas sonoras!…
—-

Fonte:
União Brasileira dos Trovadores Juiz de Fora

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Trova 137 – Carlos Guimarães (Rio de Janeiro/RJ)

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8 de abril de 2010 · 00:01

Trova 121 – Sérgio Bernardo (Nova Friburgo/RJ)

Trova sobre imagem obtida em http://www.imagensdahora.com.br

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Trova 119 – Jorge Murad (Rio de Janeiro/RJ)

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27 de fevereiro de 2010 · 22:36

Trova 108 – Renato Alves (Rio de Janeiro/RJ)

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17 de janeiro de 2010 · 19:20

Trova 104 – Elischa Dewes (Rio de Janeiro/RJ)

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10 de janeiro de 2010 · 23:25

Trova XCI – Élton Carvalho (Rio de Janeiro)

Trova sobre “Barbicha”, criação de Rico. site http://www.ricostudio.com.br/

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Trova XC – Maria Nascimento (Rio de Janeiro/RJ)

Montagem da trova sobre imagem obtida na internet em http://sergeicartoons.blogs.sapo.pt

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Trova LXXXI – Waldir Neves (Rio de Janeiro)

Fonte das Imagens:
Trova sobre imagens obtidas nos sites http://www.homemsonhador.com/ e http://www.itta.com/

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Trova LXXIX – Aparício Fernandes (Rio de Janeiro/RJ)

Montagem da trova sobre capa de Livro de Geografia e Livro Tratado Geral dos Chatos.

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Trova LXXV – Antonio Manuel Abreu Sardenberg (São Fidélis/RJ)

Montagem da trova sobre arte de Nelli Neto e desenho do site de Sardenberg

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Trova LV

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19 de setembro de 2009 · 18:01

Trova LIV

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17 de setembro de 2009 · 19:32

Trova LI

montagem sobre imagem de www.mayte.us/prosa/images/velhos.jpg

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Trova L

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23 de julho de 2009 · 23:37

Trova XLIX

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22 de julho de 2009 · 23:19

Trova XLVIII

Desenho do Submundo Mamão

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Trova XLII

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12 de julho de 2009 · 21:53

Trova XXXVII

Trova sobre charge de Márcio Diemer

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Arquivado em Balaio de Trovas, Humorismo, Rio de Janeiro em Trovas

Trova XXXV

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3 de julho de 2009 · 23:38

Trova XX

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12 de junho de 2009 · 23:54

Trova XIV

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2 de junho de 2009 · 22:42

Trova XII

Montagem sobre pintura a óleo da Toucan Art

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Arquivado em Rio de Janeiro em Trovas

Trova XI

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29 de maio de 2009 · 22:20