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Lourival Açucena (Versos)

A POLÍTICA

I

Você pergunta, Yayá,
Por que deixei a política?
Você quer saber de tudo,
Você é muito analítica.

Pois bem, eu lhe digo:
Ouça o que eu refiro,
Porque nesse jogo
Já fechei o firo…
Mas, olhe, menina,
Que dos meus arcanos
Não quero que saibam
Gregos nem Troianos…
Já ouviu, Yayá?

II

Esses arautos políticos,
Quer de uma, quer doutra grei,
Quando estão de baixo gritam:
“Viva o povo” – “Abaixo o Rei”!

Mas, o sábio Rei,
Que conhece tudo,
Faz que não entende,
Fica surdo e mudo;
E o povo que idéia
Não tem dos negócios
Vai crendo nas loas
Dos tais capadócios…
Já ouviu, Yayá?

III

Prometem ao pobre povo
Um governo angelical,
A terra da promissão,
Um paraíso ideal…

Porém, quando grimpam,
Cessam as cantigas
E tratam somente
De suas barrigas.
E nem mais conhecem
Aquele bom moço
Com quem já viveram
De braço ao pescoço…
Já ouviu, Yayá?

IV

Prometem casas da Índia,
Cabedais, mundos e fundos:
Mas, quando estão no poleiro:
–Viva Dom Pedro segundo!

Seja liberal
Seja puritano,
Traz o povo sempre
Num completo engano.
Gregos e Troianos
Procedem assim…
Eu vou debulhando
Tintim por tintim…
Já ouviu, yayá?

V

Enquanto esperam maré,
Oh! Que afeto! Oh! que doçura!
Mas, quando embarcam na lancha,
Quanto gás!… quanta impostura!

E toda carícia
Veste-se em orgulho,
E a massa fina
Reduz-se a gorgulho.
Eu de rapapés
Estou escarmentado,
E de farrambambas
Muito escabriado…
Já ouviu, Yayá?

VI

Nas vésperas da eleição,
Vão à casa do compadre,
Dão beijos no afilhado,
Rompem sedas à comadre…

E o pobre diabo
Entra na rascada,
Tomando sopapos,
Servindo de escada.

Eles vão p’ra Corte

E o compadre fica
Bebendo jucá,
Ou dose de arnica…
Já ouviu, Yayá?

VII

Propalam grandes idéias,
Proclamam belos princípios,
Arrotam patriotismo,
Por todos os municípios.

Tudo isto é pirraça,
Isto tudo é peta,
É toda a questão
L’argent na gaveta:
Ou, então, galgar-se
O mando, a grandeza,
Para, lá de cima,
Calcar-se à pobreza…
Já ouviu, Yayá?

VIII

Morra Pedro e viva Paulo,
Com muita festa p’ra festa,
Com pouco mais: – Viva Pedro,
Morra Paulo que não presta.

Quanta incoerência
E contradição!…
Oh! Que mastigado
Que especulação!…
Quem isto negar
Terá boa fé?!…
Nega de finório,
Ou de pai-mané…
Já ouviu, Yayá?

IX

Hoje, Sancho é muito bom…
Amanhã, Sancho é ruim…
Já fica sendo um demônio
Quem foi ontem Serafim.

Eu não os entendo,
Eu não os percebo,
E, nesta enredada,
Se os percebo, cebo!…
Por isto, safei-me,
Sem bulha e arenga,
E livre-me Deus
Da tal estrovenga…
Já ouviu, Yayá?

EU NÃO SEI PINTAR AMOR

Amor é brando, é zangado
É faceiro e vive nu,
Tem vistas de cururu,
E vive sempre vendado:
É sincero, é refolhado,
Causa prazer, causa dor,
Tem carinhos, tem rigor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é terno, é cruel,
É rico, é pobre, é mendigo,
É dita, é peste, é castigo,
É mel puro, é agro fel;
Tem cadeias, traz laurel,
É constante, é vil traidor,
É escravo, é grão Senhor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é loquaz, é mudo.
É moderado, é garrido,
É covarde, é destemido,
É galhofeiro, é sisudo.
É vida, é morte de tudo,
É brioso, é sem pudor.
Traz doçura, dá travor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é grave, é truão,
É furacão é galerno,
É paraíso, é inferno,
É cordeirinho, é leão;
É Anjo, é Nume, é Dragão,
Tem asas, tem passador,
Dá esforços, faz tremor.
Enfim, pinte-o quem quiser,
Retrate amor quem quiser,
Eu não sei pintar amor.

DELÍQUIOS

Donzela bela, Eucaris formosa,
Brisa odorosa, que afugenta a calma:
Ah! Foge, foge, dos salões dourados,
Que mil cuidados me despertas n’alma.

Donzela bela, Flor de Lis amada!
Mimosa fada, que de amor me encanta:
Se brinca o zéfiro com o teu cabelo,
Amargo zelo meu prazer quebranta.

Donzela bela, ante quem Aglaia
Cora e desmaia, vendo um teu sorriso;
Do rio à margem, oh! esconde o seio,
Pois me receio do gentil Narciso!

Donzela bela, oh! Não vejo o mundo
Esse jocoso riso encantador.
Não vás ao bosque, que no bosque habitam
Deuses que excitam de volúpia amor.

Donzela bela! Não me dês ciúmes,
Brandos queixumes, compassiva, atende,
Ouve: não queiras de Silvano a flauta,
Que a virg’incauta sedutora prende.

Donzela bela! prazenteira palma,
Vida dest’alma, que só quer amar-te;
Da trácia lira ternos sons desejo,
Em doce arpejo para consagrar-te.

Donzela bela! Vênus coruscante!
Em seu levante pela madrugada,
Sob os influxos dessa luz benina
A minha sina já se vê mudada.

Donzela bela! nenúfar mimoso,
Vergel umbroso, onde Amor descansa,
Dá-me um abrigo nos teus lindos braços,
Preso nos laços da sedosa trança.

A PORANGABA

Minha gentil Porangaba,
Imagem, visão querida,
Só teu amor me conforta,
Nos agros transes da vida.

Quando ouço a juriti
Soltar saudosa um gemido,
Saudoso, pensando em ti,
Respondo com um ai! dorido…

Se, na campina deserta,
Terno sabiá gorjeia,
Deste amor, que me inspiraste,
Voraz a chama se ateia.

Quer procure o povoado,
Quer divague na espessura,
Mostra-me a mente abrasada
Tua elegante figura.

Estando de ti ausente,
Da saudade eu sinto a dor;
Serão teus os meus suspiros,
Minha afeição, meu amor.

Da vida o doce prazer
Em mim fenece e acaba;
Só este amor não falece,
Minha gentil Porangaba!

SABIÁ
(LUNDU)

Eu fui pegar passarinho,
Na matinha de Yayá?
Engendrei o meu lacinho
E peguei um sabiá.

Sabiá, eu bem sabia,
Sabia que tu caías.
Sabiá, fica sabendo
Que tu cais todos os dias.

Sabiá ressabiado
Na matinha arrepiou-se,
Eu toquei chama de baixo
Sabiá veio, entregou-se.

Sabiá, eu bem sabia, etc.

Saiba todo sabiá
De mata, gangorra ou praia
Que não armo a gangolina
Em que sabiá não caia…

Sabiá, eu bem sabia, etc.

E Yayá já sabe hoje
Que eu sei pegar passarinho,
E que sabiá sabido
Não me come o melãozinho.

Sabiá, eu bem sabia, etc.

PIRRAÇAS DE AMOR

Ante os citérios altares,
Respeitoso apresentei-me,
E das pirraças de Amor
A Vênus assim queixei-me:
– “Ó deusa da formosura,
Se fazes justiça pura,
Castiga Cupido ingrato
Que, com juras e promessas,
Pregando: mocas e peças,
Fez de mim gato sapato”.

Respondeu-me Vênus,
De bom parecer:
“Quem se dispõe a amar,
Dispõe-se a sofrer;
Gracinha de amor
Amor quer dizer…”

– “Ouve, atende, ó linda deusa:
Asseverou-me Cupido
Que da formosa Tircea
Eu era amado e querido;
E, quando eu já muito crente,
Saltitando de contente,
Ia explicar-me com ela,
Rompe ele a pateada,
Solta a bela uma risada,
E zás… me bate a janela!”

Respondeu-me Vênus,
Com riso maligno:
–“É muito garoto
Aquele menino!
Mas não se despeite
Com o pequenino”.

Assegurou-me que Eulina,
Em delíquios amorosos,
Delirava por me ver
Entre os seus braços formosos:
Para a escada de um sobrado,
Onde habita o bem-amado
Funesta paixão me arrasta;
Ele, porém, de antemão,
Nos degraus unta sabão:
Virei de bumba canastra.

Respondeu-me Vênus,
Com ar zombeteiro:
“Aquele meu filho
É muito brejeiro!
Sempre foi assim
Vivo e galhofeiro”.

Fez-me crer também que eu era
Os sonhos de um serafim,
Pois que Jonia encantadora
Morria de amor por mim!
Não sei como tal notícia
Não me matou de delícia!
Mas era uma nova entrega…
Pois Jonia com o filho teu
Encapelou-me o chapéu
E fez de mim cabra-cega.

Respondeu-me Vênus,
Meneando a trança:
– “É muito traquinas
Aquela criança.
Só com paciência
Afetos se alcança.”

Jurou-me, enfim, por teus mimos
E pelas águas do Estige,
Que por mim terna paixão
De Clorinda o peito aflige;
Fui bem ancho ter com a bela,
Mas, teu filho unido a ela
Apresta p’ra caçoada
Uma chusma de vadios,
Que entre gritos e assobios,
Fez-me chispar na palmada.

Vênus, a bom rir,
Com as faces vermelhas,
Me disse franzindo
Lindas sobrancelhas:
“Quando ele chegar
Puxo-lhe as orelhas”.

De Vulcano a esposa pérfida
Inda a frase não findava,
Quando o filho adulterino
Neste comenos entrava.
A mãe, com ledo festejo
Para dar-lhe um terno beijo,
Da ara desce um degrau…
E ele dizendo xetas,
Saudou-me com três caretas,
E por fim deu-me um gagau…

Sempre os filhos seguem
De seus pais o trilho…
Se Vênus é pérfida,
É pérfido o filho.
E o jogo de Amor
É só de codilho!…

Fonte:
AÇUCENA, Lourival. Lorenio (Joaquim Eduvirges de Mello Açucena). Versos
reunidos por Luís da Câmara Cascudo. 2. ed. Natal: Editora Universitária/UFRN, 1986.

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Lourival Açucena (1827 – 1907)

Joaquim Eduvirges de Mello Açucena, ou Lourival Açucena ou Lorênio (Natal, 17 de Outubro de 1827 – Natal, 28 de Março de 1907) foi o primeiro poeta do Rio Grande do Norte.

Sua poesia era ligada ao Romantismo, mas tinha forte relação tardia com o Arcadismo.

Teve uma vida agitada e participava ativamente dos serões boêmios de Natal.

Para visitar sua amada, chegava a atravessar o Rio Potenji a nado e ainda andar algumas léguas até o município de São Gonçalo do Amarante, onde ela morava.

Ficou preso por dois meses no Forte dos Reis Magos, acusado de desfalque.

Figura emblemática em Natal, Lourival Açucena foi funcionário público, juiz de paz, delegado de polícia, oficial de gabinete do Presidente da Província, seresteiro, ator e poeta.

Como cantor, alcançou fama nos festejos religiosos, Diz-se que era cantor de grandes qualidades e que se acompanhava ao violão. Há também notícias de que não teria se limitado a cantar apenas em Natal, chegando a se apresentar em Pernambuco com reconhecimento e aplauso. Tendo sido entre os nosso poetas um dos de mais longa existência (viveu 80 anos incompletos), ele notabilizou-se não apenas pela qualidade da sua poesia e talento de modinheiro, mas pela agitação que lhe marcou a vida, de modo especial no complicado relacionamento coma elite política da Província.

Não teve livro publicado em vida, mas, chegaria a ver poemas seus, impressos em várias publicações

Em 1853, representou o Capitão Lourival na peça O Desertor Francês, e sua performance rendeu-lhe o apelido que carregaria por cinquenta anos.

Escreveu para quase todos os jornais da cidade, mas não chegou a publicar livro algum em vida.

Ele teve seus textos publicados pela primeira vez com o surgimento do pioneiro jornalzinho O Recreio, em 1861, pois seu talento e agitada vida pessoal acabaram se tornando objeto de interesse entre os que residiam na capital e arredores.

Lourival casou-se por três vezes e teve 32 filhos.

Trinta dias após a morte de Lourival Açucena os amigos publicaram uma Poliantéia, breve reunião de poemas seus, para homenagear-lhe a memória. O pequeno volume saiu pela Oficina Literária Norte-Rio-Grandense. Coube, porém, a Luiz da Câmara Cascudo, contando coma colaboração do filho do poeta, querida personalidade natalense, Joaquim Lourival (o “professor Panqueca”, proprietário de uma concorrida escola particular), a tarefa de reunir tudo o que pode recolher dos seus poemas, publicando um volume a que chamou de Versos, em 1927.

Em 1987 a Universidade Federal do Rio Grande do Norte voltaria a editar este trabalho.

Coincidindo com a irrequieta personalidade do autor, a sua poesia não revela unidade, um traço comum, capaz de caracterizá-la. Ao contrário, é fácil perceber lendo os seus poemas, que a ele não preocupou filiar-se a qualquer escola, (embora seja forte em sua pequena obra a presença do arcadismo). Tal diversificação encontraria uma possível justificativa em sua condição de modinheiro, pressupondo-se, aí, a obrigação de variar o repertório e o seu estilo, com vistas a atender à solicitação popular. Assim, é possível vê-lo também como romântico e até como poeta clássico. Mas, é justamente quando adota a maneira mais próxima do povo, nas quadras, nos termas satíricos, que se percebe um Lourival Açucena mais autentico. Isto é fácil de comprovar em “A Política” onde ele “filosofa” a respeito desta prática à época do Império.

Em sua homenagem, Ferreira Itajubá escreveu o poema No Campo Santo:

Morreste e não soubeste, ó grande veterano,
Que, quando por Natal, a rosa todo ano
Floresce alegremente, entre as demais roseiras,
O prado embalsamando, ao lado das primeiras,
esta alma não rebenta em rosas de ilusão
Como quando cantaste ao som do violão.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lourival_A%C3%A7ucena
http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090308125215AAmCLnE

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Prof. Garcia (Caderno de Trovas)


A dor que se intensifica
e amedronta os dias meus,
é pensar na dor que fica
depois da palavra adeus!
* * *
A estrela da mocidade,
que em minha infância brilhou;
brilha em meu céu de saudade,
depois que a infância passou!
* * *
A existência é dividida
em dois extremos da idade:
um, alvorada da vida,
outro, arrebol de saudade!
* * *
A insensatez, na verdade,
separou nossos lençóis;
e agora a dor da saudade
dói muito mais entre nós!
* * *
A liberdade do poeta,
está num verso… Num grito…
No equilíbrio se completa,
vencendo o próprio infinito!
* * *
Amores na mocidade!…
Depois, a contrapartida:
cansaço, dor e saudade
na curva extrema da vida!
* * *
A musa chega e me inspira,
num delírio encantador…
Afina as cordas da lira
e enche o meu mundo de amor!
* * *
A natureza resiste,
mas a tristeza do monte,
é enxugar o pranto triste
dos olhos tristes da fonte!
* * *
Antes que a aurora desponte
dando vida à luz do dia,
tenho que cruzar a ponte
nos braços da poesia.
* * *
Aos  ritos do amor se entrega
um casal apaixonado,
que até nos olhos carrega
o silêncio do pecado!
* * *
A poesia se engalana,
mas só se torna completa,
quando se faz soberana
na voz do próprio poeta!
* * *
As cordas desafinadas
e esta voz chegando ao fim!…
São mimos das madrugadas
guardados dentro de mim!
* * *
A solidão me angustia
e à noite aumenta o meu drama,
vendo a cadeira vazia
que a tua ausência reclama!
* * *
Às vezes, me falta estima,
vendo a multidão que passa…
Muita gente se aproxima,
mas pouca gente se abraça!
* * *
A terra inteira secou!…
E, a dor me fez sofrer tanto,
que quando a chuva voltou,
tinha secado o meu pranto!
* * *
A virtude que mais rego,
vive em mim, nunca passou:
é a FÉ que sempre carrego
de ser feliz como sou.
* * *
Beije e abrace uma criança,
como se beija uma flor!
Pois, nesta rosa se alcança
a essência pura do amor!
* * *
Busquei no universo um dia,
uma resposta eficaz;
que transformasse a POESIA
num hino de amor e paz!!!
* * *
Cada tropeço me ensina
que a vida é eterno sonhar.
Na vida nada termina,
muda de forma e lugar.
* * *
Cadeira velha!…Esquecida,
sem dono e sem mais ninguém…
Só a saudade atrevida
reclama a ausência de alguém!
* * *
Cascata, teu pranto triste,
parece que não tem fim!…
Comparo ao pranto que existe
doendo dentro de mim!
* * *
Como quem faz uma prece,
braços erguidos se abrindo,
a borboleta parece
um anjo da paz dormindo!
* * *
Dai-nos ó, Pai, a razão,
desta santa imagem tua…
e que eu reparta o meu pão,
com quem não tem pão na rua!!!
* * *
Desperto e fico tristonho,
é triste o meu despertar,
ver acabado o meu sonho
antes do sonho acabar!
* * *
Deus – pintor da natureza,
usando a tinta mais viva:
pinta o céu, de azul-turquesa
e os mares, de verde-oliva!
* * *
De volta ao lar que eu não via,
desde a minha mocidade…
Enquanto a emoção crescia,
crescia a dor da saudade!
* * *
Distante dos teus afagos,
nesta inquieta nostalgia,
meus olhos formam dois lagos
que me afogam todo dia!
* * *
Do sino, ouvindo a amargura,
da tarde que já morria,
fiz da triste partitura
a mais feliz melodia !
* * *
Em cada beijo roubado,
que roubo de ti, meu bem,
sinto o gosto do pecado
que o beijo roubado tem.
* * *
Em seu vai-e-vem bonito,
a lua em seu caminhar…
Enche de luz o infinito,
de prata, as ondas do mar!
* * *
Enquanto a ciência avança,
fato novo se descobre…
E o fruto do que se alcança
torna a ciência mais nobre
* * *
Esta aliança que um dia,
já guardou nossos segredos;
hoje guarda a nostalgia
das digitais de outros dedos!
* * *
Esta distância tão triste,
entre nós dois, na verdade,
mede a distância que existe
entre o AMOR e a saudade!
* * *
Esta dor que em mim persiste
e não me deixa dormir!…
é “aquela” lembrança triste
do que deixou de existir!
* * *
Este amor que em mim fervilha,
quando estamos sempre a sós…
se for bem feita a partilha,
será eterno entre nós!
* * *
Eu me curvo ante os conselhos
que recebo todo dia,
quando dobro os meus joelhos
aos pés da Virgem Maria!
* * *
Eu vejo ó linda criança,
neste teu sorriso lindo,
a mais feliz esperança
das esperanças dormindo!!!
* * *
Há uma sombra em meu caminho
que me segue…e, mesmo assim…
Nem quer me deixar sozinho
nem diz o que quer de mim!
* * *
Já escalei morros medonhos,
caminhando passo a passo.
Mas nunca pude em meus sonhos
escalar nuvens no espaço!
* * *
Já pronta e de vela içada
tremulando de ansiedade,
vai para o mar a jangada
carregada de saudade!
* * *
Larga a tristeza e acalanta
teus sonhos, por onde fores.
Nada no mundo suplanta
teus lindos sonhos de amores!
* * *
Mãe preta! teu negro seio
deu-me o mais puro sabor;
nele eu bebi sem receio
a eternidade do amor!
* * *
Meu Deus! se a chuva caída,
fecunda o sertão no estio,
o inverno é fonte de vida
do sertanejo bravio!
* * *
Meus sonhos da mocidade,
hoje são meus pesadelos;
lembrados, sinto saudade,
mas é tolice esquecê-los!
* * *
Minha renúncia…quem sabe…
não seja a chave secreta,
de tudo quanto só cabe
na inspiração de um poeta!
* * *
Morre a flor na flor da idade,
padece a planta de dor;
a ausência deixa saudade,
até na morte da flor!
* * *
Morre a tarde!…E ao fim do dia,
na imagem do sol poente,
há tintas de nostalgia
do fim da tarde da gente!
* * *
Na sinfonia das almas
ensaia-se lindo canto;
ouvem-se preces e palmas:
– Padre João Maria é santo!
* * *
Na loucura dos meus versos,
e em quase todos seus traços,
há pedacinhos dispersos
do amor que tive em teus braços.
* * *
Na manjedoura em Belém,
nasce um mistério profundo:
Uma luz vinda do além,
que se fez a luz do mundo!
* * *
Não me faça mais perguntas,
erro assim, não mais cometa…
Talvez, só nossas mãos juntas
possam salvar o planeta!
* * *
Nas asas de um vento brando,
na espuma branca do mar…
as ondas chegam cantando,
trazendo o sal potiguar!
* * *
Na vida que se renova,
no Natal que se aproxima,
eu forro a mesa com trova,
e brindo a noite com rima.
* * *
Nesta longa caminhada
que fazemos sempre a sós…
Nem o silêncio da estrada
quebra o silêncio entre nós!
* * *
Ninguém é pedra polida,
se não mudar de conduta;
pois, a pedreira da vida
é feita de pedra bruta!
* * *
No outono triste da idade,
meu lago de solidão
transborda só de saudade
dos meus dias que se vão!
* * *
Nosso casebre, é de palha
de pau-a-pique a parede.
O amor que aqui se agasalha,
dorme comigo na rede!
* * *
O aborto, triste ferida,
que nos faz tanto sofrer;
como dói matar a vida,
antes da vida nascer!
* * *
Ó cigarra destemida
o seu disfarce me encanta,
por não ter nada na vida
e ser feliz quando canta!
* * *
Ó coqueiro pequenino,
que tanta água nos deu!
Que ironia o teu destino:
por falta d’agua morreu!!!
* * *
O mundo é roda gigante,
girando sempre a girar,
e eu sou passageiro errante
procurando meu lugar!
* * *
O outono da vida ingrata,
chega fazendo atropelos:
Joga tinta cor de prata,
na tinta dos meus cabelos!
* * *
O Seridó se enternece,
reza e clama todo dia,
orando, em forma de prece,
pelo Padre João Maria.
* * *
Pelas manhãs vou buscando
minha esperança perdida…
Há sempre um sonho vagando
nas alvoradas da vida!
* * *
Pesa a cruz do meu fadário,
mas tenho fé em Jesus
que se aumentar meu calvário
não sinto o peso da cruz!
* * *
Porteira velha, o gemido
desta dor que te corrói…
é o teu passado esquecido
que em teu presente inda dói!
* * *
Por teu amor sofri tanto,
foi tão grande o meu desgosto,
que cada gota de pranto
se fez cascata em meu rosto!
* * *
Prazer é sentir os dedos
de nossas mãos artesãs
pintando os lindos segredos
das auroras das manhãs!
* * *
Primavera é foto linda,
de uma infância toda em flor,
parece que nunca finda
a primavera do amor!
* * *
Quando a minha fé se esmera,
penso que tudo se alcança.
Por longa que seja a espera,
não perco nunca a esperança!
* * *
Quando a tarde veste o manto,
torna escura a luz do dia…
Saudade dói outro tanto
do tanto que já doía!
* * *
Quando um jardim perde as flores,
a mão de Deus recupera,
pintando as mais lindas cores
nas flores da primavera!
* * *
Quantas lições primorosas,
num pequeno beija-flor,
que beija todas as rosas
enchendo o mundo de amor!
* * *
Quase seca…E a fonte insiste
em seu lamento de dor!
É o canto ficando triste
e a fonte jorrando amor!
* * *
Rasga o manto que te cobre,
mostra teu riso e esplendor…
Pois, a cortina, mais nobre,
não cobre um riso de amor!
* * *
Revendo entulhos e tacos,
na tapera dos meus sonhos,
chorei por ver tantos cacos
dos meus dias mais risonhos!
* * *
Saudade de amor… lembrança,
que dói mais que qualquer dor!
Nem na velhice descansa,
quem tem saudade de amor!
* * *
Saudade – no fim do dia,
já sei por que me dói tanto:
aumenta a melancolia,
dobra as dores do meu pranto!
* * *
Saudade – seja onde for,
sempre é saudade, meu bem.
Um sentimento de amor
que dói no peito de alguém!
* * *
Sempre sozinha, aos farrapos,
mas de rosário na mão…
A fé tecida entre os trapos,
remendava a solidão!
* * *
Sempre tristonho…No entanto,
se a alegria é um grande bem,
eu tento esconder meu pranto
por trás do riso de alguém!
* * *
Se o tempo me desse tempo,
de fazer mais do que faço,
queimava a sobra do tempo
no calor do teu abraço!
* * *
Se descobre essa verdade
depois da idade vencida:
que a cada passo da idade,
se encurta o passo da vida!
* * *
Se o mar por insensatez,
naufragar o meu batel…
mando o recado outra vez
pelo barco de papel!
* * *
Sinalizando o caminho,
do nauta na escuridão;
o farol velho, sozinho
é fantasma e solidão!
* * *
Sonho repetidamente,
vendo um clone em tristes ais,
chorando porque não sente
o carinho dos pais.
* * *
Sou sertanejo e não nego
crestei meus pés neste chão.
Nestas marcas que carrego ,
carrego o próprio sertão!
* * *
Teu amor que me enternece,
que acaba todo meu pranto,
da sobra faço uma prece,
e ainda sobra outro tanto.
* * *
Toda tarde o passarinho
bate as asas, quando canta.
Quanto mais longe do ninho,
mais afinada a garganta!
* * *
Um beijo em ti, tão criança,
que agora tão longe vai…
Tudo me sai da lembrança,
mas o teu beijo não sai!
* * *
Velho sino, és sentinela,
a repetir sem maldade…
a dor da saudade dela,
na dor de minha saudade!
* * *
Vem das águas cristalinas
e vem da espuma do mar,
o sal das brancas salinas
do meu rincão potiguar!
* * *
Viver por viver somente,
faz teu mundo tão perjuro,
que este teu falso presente,
é o presente do futuro.
* * ** * ** * ** * *
Fontes:
Ademar Macedo (Mensagens Poéticas)
Eliana Jimenez (http://poesiaemtrovas.blogspot.com.br)
Carlos Leite Ribeiro – Portal CEN – http://www.caestamosnos.org/autores/autores_p/Professor_Garcia.htm

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SETILHAS

Distante de minha terra
só sinto tristeza e dor,
ao lembrar de minha infância
simples com tanto esplendor;
podia me faltar tudo
mas era rica de amor.
* * *
Enfrentei ventos fracos e refregas,
calmarias e fortes vendavais,
a procura da musa que me inspira
nos refrões dos antigos madrigais;
mas a sorte, madrasta dos meus planos,
só me deu versos soltos e profanos
e os gemidos sofridos dos meus ais!
* * *
Foi assim que eu pensei e sempre quis
e este meu pensamento eu não desfaço,
acredito na força do destino
confiando no verso que inda faço;
pois da fonte da santa inspiração,
eu bebi gotas d’água de ilusão
afastando as loucuras do fracasso.
* * *
Sempre tive a maior veneração,
por Deus Pai, nosso eterno criador,
que me quis pequenino deste jeito
e me fez seu eterno sonhador;
como quem diz abrace o que te dei,
e a poesia, feliz eu abracei,
me tornando poeta e Trovador.
* * *
Podem ver que os colibris
são amantes sonhadores,
que apesar de pequeninos
são felizes sedutores,
vivem beijando, e beijando,
de manhã cedo roubando
a virgindade das flores!
* * *
Sempre vi na grandeza do Senhor,
esta mão benfeitora e artesã:
no trinado das aves seresteiras,
despertando a floresta, o morro e a chã,
num concriz quando canta uma toada,
que enfeitiça o romper da madrugada
nos primeiros gorjeios da manhã!
* * *
Esqueci das barreiras que transpus
percorrendo as vertentes da poesia,
sempre em busca da forma mais completa
das origens dos versos que eu fazia;
só depois que bebi desta vertente,
Deus me fez tangerino do repente
e tropeiro do verso que me guia!

SEXTILHAS

É um eterno labutar
essa luta sempre a sós;
um no Sul, outro no Norte,
e o verso frio, sem voz,
quebrando o silêncio mudo
desta distância, entre nós.
* * *
A inspiração de meus versos
vem do infinito, do além;
dos arpejos dos suspiros
que as cordas da lira tem,
e do sorriso da noite,
de todo canto ela vem!
* * *
A saudade é um grande bem
na vida de um sonhador;
pois se não fosse a saudade
que provoca pranto e dor,
não havia entre os amantes
os lindos sonhos de amor!
* * *
Nossos versos não merecem
tratamentos desiguais;
são os fiéis guardiãs
que amamos  cada vez mais,
e a mais feliz harmonia
das liras celestiais!
* * *
Se o destino na verdade
aponta o nosso caminho,
que me dê a inspiração
de um poeta passarinho,
que canta versos ao vento
e faz serestas no ninho!
* * *
Penso na vida que passa
ligeira como quem voa,
no amor que se faz presente
no lar de cada pessoa,
e em tudo quanto se alcança
na graça de quem perdoa!
* * *
Eu vivo sempre a rezar
neste mundo em desatino,
peregrinando no tempo
igualmente a um beduino,
que leva o terço na mão
e a fé na luz do destino!
* * *
É na força da oração,
que a inspiração nos convém.
Quando dobramos o orgulho
erguemos um grande bem,
vão-se as tristezas da vida
e os desenganos também!
* * *
No mar onde a poesia,
beijando as ondas passeia;
meu barco cheio de encanto
por todo canto vagueia,
buscando as ondas dos versos
para adormecer na areia!
* * *
Que bom na vida seria
um sono à luz do luar,
onde um poeta cantasse
linda canção de ninar,
e a lua beijasse os lábios
dos versos que vem do mar!
* * *
Fontes:
Prof. Garcia, Zé Lucas e Ademar Macedo. Debate em Setilha Agalopada. RN, 2012.
Zé Lucas, Gislaine Canales, Ademar Macedo, A. A. de Assis, Delcy Canalles e Prof. Garcia. Sexteto em sextilhas: debate pela internet.

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Prof. Garcia (1946)

Francisco Garcia de Araujo (Prof. Garcia), nasceu na fazenda Acari, Município de Malta-PB, em 27 de novembro de 1946. Em 1959, foi para Caicó-RN, na companhia do tio, poeta e amigo José Lucas de Barros, com quem morou vários anos, e vive até hoje.

    Licenciado em Letras (Português e Inglês), Bacharel em Direito pela UFPB e Pós-graduado em Teologia e Éticas Especiais.

    Poeta, trovador, escritor e compositor.

    Publicou em 1974 o livro TROVAS QUE SONHEI CANTAR.

    Foi bancário, vereador e secretário municipal em Caicó-RN.     

    Lecionou Português, Francês, Inglês e Espanhol.

    Casado com Anunciada Laura de Araujo Garcia, com quem tem três filhas: Mara Melinni de Araujo Garcia (Advogada, Pós-graduada e poetisa), Ava Murielli de Araujo Garcia (Pedagoga e Pós-graduada) e Eva Yanni de Araujo  Garcia (Formanda em Pedagogia e poetisa).

    Presidente do Clube dos Trovadores do Seridó (CTS),

    Delegado da União Brasileira de Trovadores (UBT) em Caicó-RN,

    Delegado do Portal Cen para o RN.

    Sócio-efetivo da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte e da União Brasileira de Trovadores, seção de Natal-RN.

    Detentor de várias premiações em concursos de trovas e outras modalidades poéticas no Brasil e em Portugal.

    Radio Amador com prefixo PS7-ACK, e em 26 anos de radioamadorismo já fez mais de 53 mil contatos internacionais, tendo colaborado em situações extremas para salvar vidas humanas.

    Atualmente, é pequeno empresário no ramo de atacado, em Caicó-RN.

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro – Portal CEN – http://www.caestamosnos.org/autores/autores_p/Professor_Garcia.htm

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Zé Lucas (Caderno de Trovas)

A ciência, sem suspeita,
será no mundo aplaudida
se a clonagem só for feita
em benefício da vida.

A esmola às vezes se “enfeita”
com tinturas de vaidade,
mas a caridade é feita
de amor e fraternidade.

A liberdade é um tesouro
da mais alta qualidade…
Nem por gaiola de ouro
há quem troque a liberdade!

A menina seminua,
presa, disse ao detetive:
– eu não me queixo da rua,
mas do lar que nunca tive!

A mulher, rasgando os passos,
caminha alegre, vai cedo…
Quem leva um filho nos braços
enfrenta o mundo sem medo.

A multidão me põe louco
entre empurrões e zoada…
Sozinho, sou muito pouco;
na multidão, não sou nada!

Antes de sair de cena,
peço tempo aos céus risonhos,
pois acho a vida pequena
para a vida de meus sonhos.

Ao voltar, com muito amor,
ao campo que já foi meu,
bebi no cálix da flor
o mel que a abelha esqueceu.

A poesia se ilumina
e em trono de amor repousa,
pela pureza divina
dos versos de Auta de Souza.

A preguiça dos ponteiros
de meu velho carrilhão
mostra os minutos ronceiros
das noites de solidão!

Aquele singelo enredo
de amor, ensaiado a sós,
foi o mais belo segredo
que a vida pôs entre nós!

Auta pôs, com mãos de fada,
em versos de encanto e dor,
toda a pureza filtrada
na luz eterna do amor.

Carcará desce do pico,
pega a vítima e condena,
pois, sendo de pena e bico,
bica e mata sem ter pena.

Chove no Sertão, e o rio
desce da serra distante;
devolve a vida ao baixio
e o sorriso ao retirante!

Com devotamento ao lar,
onde o amor finca raízes,
a noite é para sonhar
e os dias são mais felizes.

Como é belo ver a planta
que abre flores nos caminhos,
nas horas em que Deus canta
pela voz dos passarinhos!

Como os demais trovadores,
tenho ilusões,toda hora…
São lindas, parecem flores,
mas, num sopro, vão embora!

Corre o viver tão bonito,
nesta paz de vento brando,
que eu vejo e não acredito
que a velhice está chegando!

Crianças em doce anelo,
fitando, além, o horizonte,
sonham que um dia mais belo
vai nascer por trás do monte!

De alguém que há pouco passou,
deixando a porta entreaberta,
alguma coisa ficou:
talvez a lembrança incerta!

Deus, que viagem florida,
em campos tão sedutores!
Como é bom trilhar, na vida,
pelo caminho das flores!

Duas taças num banquinho,
sem ninguém, têm a igualdade
do cheiro do mesmo vinho,
da dor da mesma saudade!

Em louco e brutal delírio
pra devastar o que resta,
a motosserra é um martírio
no calvário da floresta!

Em manhã chuvosa, a vida
canta no seio da mata
e há notas de água caída
no piano da cascata.

Em minha infancia inocente,
teu afeto, mãe querida,
desenhou-me fielmente
o lado belo da vida!

Em momentos mais risonhos,
sei que já fiz trova linda,
mas a trova dos meus sonhos
não pude fazer ainda!

Em muitas ocasiões,
só somos bons elementos
porque certas intenções
não passam de pensamentos.

Enquanto a emoção se alteia
sobre as dunas, a rolar,
a vida brinca na areia
ouvindo a canção do mar.

Entre o cãozinho e a criança
há tão lindo entendimento,
que na estrada da esperança
há, para os dois, um assento!

Esta fé que nos norteia
para a “terra prometida”,
mesmo sendo um grão de areia,
faz o alicerce da vida!

Estas cenas nos comovem,
como, na rua, alguém disse:
– Juntas, a energia jovem
e a lentidão da velhice!

Eu sou mais poeta quando,
no jogo de altas marés,
fico na praia esperando
que as ondas lavem meus pés.

Existem palavras mudas
que têm o peso da cruz,
e foi sem falar que Judas,
num beijo, entregou Jesus.

Feitas de sonhos e flores,
as nossas trovas são ninhos,
onde os vates trovadores
trinam como passarinhos.

Felicidade é o lugar
indicado pelo amor…
Lá, quem consegue chegar
é, por certo, um sonhador!

Há tempo sem teus afagos,
deixa-me lavar as dores
nos dois pequeninos lagos
de teus olhos sedutores!

João Maria, em nenhum canto
deixava um mendigo ao léu…
Na terra já era um santo;
foi ser mais santo no céu.

João Maria morreu quando
fazia um trabalho lindo.
Sua alma subiu cantando;
Deus o recebeu sorrindo!

Mais vale da vida o espelho
que muitos sermões no templo…
Em vez de nos dar conselho,
seu padre, nos dê o exemplo!

Mesmo enfermo, João Maria,
cumprindo a santa missão,
a própria dor esquecia
pra sanar a dor do irmão!

Mesmo que eu mude de estilo,
não mudarei, nem de leve,
uma vírgula daquilo
que a mão do destino escreve.

Mesmo que eu renove as trilhas,
desviando a caminhada,
não escapo às armadilhas
que o destino põe na estrada

Meu querido Rio Grande,
na beleza de teus vales,
desfeito em trovas se expande
o amor do “Trio Canalles”.

Meu rancho, no campo em flor,
longe de intriga e maldade,
era o meu ninho de amor,
hoje é o ninho da saudade!

Minha mulher reza tanto
aos pés de Nosso Senhor,
que eu vou precisar ser santo
pra merecer seu amor.

Musas divinas!… Ao vê-las,
no sonho que me seduz,
subo ao ninho das estrelas,
seguindo os rastros da luz!

Não há coisa mais bonita
neste mundo de pecado,
do que a fé que ressuscita
um sonho já sepultado!

Não me fizeste justiça
ao negar-me o teu carinho,
e hoje a saudade aterrissa,
como sombra, em meu caminho!

Não temo a longevidade
por esta simples razão:
a flor da felicidade
brota em qualquer estação.

Na paz da boa atitude
não há passada perdida,
e a moeda da virtude
paga o pedágio da vida.

Na paz de um lago deserto,
longe da luz da cidade,
foi quando estive mais perto
da luz da felicidade

No doce embalo da rede,
um sono bom me enfeitiça
e o relógio de parede
me acompanha na preguiça.

No instante em que o sol se enfada,
de tanto aquecer a Terra,
deita a cabeça dourada
no travesseiro da serra…

No meu rancho, pobre teto,
o chão era a cama e a mesa,
mas fui tão rico de afeto,
que nem falava em pobreza.

No trabalho, meus irmãos
não buscam prêmio nem glória,
e os calos de suas mãos
enobrecem nossa História.

Numa devoção de monge,
o Potengi, sem parar,
traz água doce de longe
e entrega de graça ao mar.

Numa fonte de águas claras,
Onde as musas cantam hinos,
Bebo as imagens mais raras
De meus versos peregrinos.

O alpinismo é dura prova
que não ficou para mim,
mas, no alpinismo da trova,
escalo alturas sem fim.

O amor e o sonho, querida,
são graças que Deus nos deu…
Quem não ama não tem vida,
quem não sonha já morreu.

O beijo, em qualquer instante,
estimula o amor e a vida,
e, sendo um beijo dançante,
faz tudo além da medida.

O cego, com dedos certos,
tange a sanfona dorida,
e eu, com dois olhos abertos,
erro nas teclas da vida.

O céu azul de meus sonhos
e as flores da mocidade
lembram-me dias risonhos
na aquarela da saudade!

O destino abre-me os braços
mas tem seu lado mesquinho:
guia-me todos os passos
mas não me ensina o caminho.

– Oh! Que demora sem fim
para tua decisão!
Chegou tão tarde o teu sim,
que já parecia um não!

Olhando o primor da teia,
eu fico aos céus inquirindo:
como é que a aranha, tão feia,
traça um desenho tão lindo!

Olho o céu de eterno azul,
e como fico feliz,
vendo o Cruzeiro do Sul,
emblema de meu país!

O perdão é que é o sinal
de perfeita lucidez…
Quem se vinga faz o mal
do jeito que alguém lhe fez.

O Potengi deita a luz
no seu leito sedutor
e, ao tê-la formosa e nua,
mergulha em sonhos de amor.

Os anos trazem cansaços;
nossa vida é sempre assim,
e a saudade segue os passos
da velhice, até o fim!

O trabalho é luta santa
que não vislumbra medalha,
e um país só se levanta
pelas mãos de quem trabalha.

O trabalho me norteia
e dele eu não me despeço,
pois quero meu grão de areia
a construção do progresso.

Para abraçar-te, menina,
meu anseio é tão profundo,
que a distância de uma esquina
parece uma volta ao mundo.

Pobre casal foi multado
sem defesa, na avenida,
por beijo estacionado
numa faixa proibida!

Por mais que a vida me açoite
com refinada ironia,
depois da prece da noite,
esqueço as mágoas do dia!

Potengi, corrente amiga
que alimenta o manguezal,
artéria grossa que irriga
o coração de Natal.

Qual a fonte de energia
Da luz de tantas estrelas?
Se não for Deus, quem teria
Um facho para acendê-las?

Quando a jangada flutua
sobre as águas, ao luar,
é uma lágrima da lua
nos olhos verdes do mar.

Quando a Lua se retrata
com seu encanto invulgar,
traça um caminho de prata
sobre a esmeralda do mar.

Quando estou em meu terraço,
olhando os astros risonhos,
a Lua atravessa o espaço,
puxando o carro dos sonhos!

Quando eu vejo a morte acesa
na fúria de uma queimada,
sinto a dor da natureza,
impunemente afrontada!

Quando o tempo se levanta
no sertão, e a seca vem,
não morre somente a planta,
morre a esperança também!

Quanta labuta perdida
para a clonagem de gente,
quando o amor que traz a vida
jorra de infinda vertente!

Queimada!… A terra ferida
clama por um povo forte
que faça brotar a vida
onde o fogo impôs a morte!

Quem fere, seja onde for,
uma simples borboleta,
mata um sonho multicor
que sobrevoa o planeta!

Se a lua beija as areias
destas praias de Poti,
cantam todas as sereias
das noites do Potengi.

Se aos pintores falta tinta
que eternize a juventude,
feliz quem, na vida, pinta
um retrato da virtude!

Sei que deste mundo lindo
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.

Se já não restam viventes
sobre a terra calcinada,
plantemos novas sementes
na cicatriz da queimada!

Se meu Potengi não fosse
perene, iria esgotar
de despejar água doce
no fundo amargo do mar.

Sem ter o clone a beleza
do amor que embala os casais,
torce as leis da natureza
e engendra seres sem pais!

Sem ter da mulher o afeto,
não tenho felicidade.
Homem nenhum é completo
quando lhe falta a metade.

Senti o ardor da poesia
nos meus primeiros amores,
quando a vida parecia
uma cascata de flores!

Sinal da antiga aliança
de Deus com a humanidade,
o arco-íris nos traz bonança
de paz e felicidade.

Toda a natureza é um plano
de vida farta e beleza,
mas o lucro desumano
põe no bolso a natureza!

Tomara que os trovadores
batam do verso a poeira,
e a trova, assim como as flores,
enfeite as bancas da feira.

Tua voz, terna e macia,
sob o calor dos lençóis,
tinha a doce melodia
de um canto de rouxinóis.

Viram cinza os verdes braços
de árvores tão bem formadas
e a terra morre aos pedaços
por onde vão as queimadas!

Volta aos sonhos de criança,
em teu recanto singelo,
mas nutre a flor da esperança
que torna o mundo mais belo!

Vou brincar com pirilampos
e beijar as flores nuas
pra ver se encontro nos campos
a paz que fugiu das ruas!

Zarpei ao romper do dia,
no meu barco, a velejar,
para “pescar” a poesia
que a Lua escondeu no mar.

PANTUM DA ECLOSÃO DO AMOR

Trova-tema:

Eu vi o amor eclodindo
na mensagem de um chamado:
o mar, despido, sorrindo…
O Sol se pondo, apressado.
(Mara Melinni)

Na mensagem de um chamado,
vinha um toque de magia:
o Sol se pondo, apressado,
visto que a noite caía.

Vinha um toque de magia
naquele doce arrebol,
visto que a noite caía,
logo após o adeus do Sol.

Naquele doce arrebol,
quase fiquei de alma nua,
logo após o adeus do Sol,
ao primeiro olhar da Lua.

Quase fiquei de alma nua,
e, num êxtase tão lindo,
ao primeiro olhar da Lua,
eu vi o amor eclodindo.

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Zé Lucas (Outros Versos)

Pintura de Salvador Dali
MEL NA POESIA

No trabalho das colmeias
me inspiro em meu dia-a-dia,
eu e a abelha laboramos
numa intensa parceria:
ela tira o mel das flores
e eu ponho em minha poesia.

AS GARÇAS

Voam longe as garças brancas
formando bonito véu,
como um lençol de morim
que o vento sacode ao léu…
Será que a paz criou asas
e está voando no céu?

A VIAGEM

-Neste mundo, ninguém tem a medida
Do caminho do berço para a morte,
E eu, que tinha de achar algum transporte,
Vindo ao mundo, peguei o trem da vida;
Anotei o momento da partida
E enfrentei a jornada com coragem;
Deus me deu o bilhete da passagem
E mandou-me seguir estrada afora.
Inda estou caminhando até agora,
Mas não sei o tamanho da viagem.

MEU JEITO DE OLHAR A VIDA

Sou menino do campo, sem vaidade;
vivi longe das sedas e dos linhos;
em vez das fantasias da cidade,
me entreguei à aventura dos caminhos.

Fui ao céu, imitando os passarinhos…
Nas asas do meu sonho, a imensidade
ficou pequena, e na canção dos ninhos
embalei toda a minha mocidade.

Minha alma se elevou no azul dos montes,
onde volto a beber, nas mesmas fontes,
a água doce da infância cristalina.

Deus não me nega paz nem agasalho:
se nos bosques da noite me atrapalho,
logo mais vem a aurora e me ilumina!

HUMILDE NAVEGANTE

Meu amigo, não peça o que não tenho
nem me dê o que eu sei que não mereço;
Não precisa ampliar o meu desenho,
basta que não me vire pelo avesso!

Não é para ser grande que me empenho,
mas para ser tratado com apreço.
Sou fraco, mas, o peso do meu lenho,
carrego sem negar meu endereço.

Quero só navegar no mar da vida
sem me tornar um navegante louco
pra deixar minha vela preferida

abandonada na ilusão do cais.
Sabe Deus que mereço muito pouco,
mas é tão bom que até me dá demais!

“AS ESTRELAS SÃO NÍTIDOS FARÓIS”

As estrelas são nítidos faróis
quando o céu anoitece mais bonito;
para nós, os poetas sonhadores,
a beleza da Lua é quase um mito
na distância da cósmica jornada
em que a voz de um trovão é quase nada
e o silêncio de Deus corta o infinito.

MENINICE

Cada dia, mais distância,
cada instante, mais saudade…
Como ficou longe a infância!

Amigos da mocidade,
agora não mais os vejo
em nossa velha cidade!

Meu coração sertanejo
bate ao compasso do sino
das festas do lugarejo.

Se eu fosse outra vez menino,
mesmo assim pouco faria
pra reverter o destino.

Pra meus pais, mais alegria
pediria, com certeza,
a Deus e à Virgem Maria,

e um grande alívio à pobreza
que os perseguiu duramente.
Quanto a mim, não é surpresa

afirmar, de boa mente,
que quase tive o que quis,
no meio de minha gente.

Botando os pontos nos is,
fui moleque bom de estrada,
fui menino, fui feliz!

Assim, digo a minha fada:
pode manter meu destino!
Não precisa mudar nada.

Basta, na vida futura,
que não me falte a ternura
de um coração de menino!

VAQUEIRO

Há registros em prosa e poesia,
Aqui pelo Nordeste brasileiro,
Mas ninguém descreveu, como devia,
A grandeza da saga do vaqueiro.

Quando um touro se torna barbatão,
Escondido na mata de espinheiro,
Não há nada que o enfrente no sertão,
A não ser a coragem do vaqueiro.

Cavaleiro de tanta valentia,
Esquecido por esses pés de serra,
Nosso herói nordestino merecia
Uma estátua de bronze em sua terra!

O DIA DAS MULHERES

Hoje cumpro o mais justo dos misteres,
Como poeta e amigo da beleza:
Dou parabéns a todas as mulheres,
Vendo nelas, do amor, a realeza!

Às rainhas do lar e deste mundo,
Que, sem elas, pra nada serviria,
Eu desejo, com o apreço mais profundo,
Um reinado de paz e de alegria!

Que haja flores na rota da existência
De toda mãe, que é nosso amor primeiro,
E nunca mais a mão da violência
Baixe sobre a mulher, no mundo inteiro!

O TEMPO

Quando menino, eu queria
Ser homem com rapidez,
Depois, contabilizando
Tudo que o tempo me fez,
Hoje morro de vontade
De ser menino outra vez.

EXCERTOS DA PELEJA EM MARTELO AGALOPADA
um diálogo entre Zé Lucas e Prof. Garcia

Pra o poeta encontrar a poesia,
basta o canto febril de um rouxinol,
ou os raios de ouro do arrebol,
registrando o nascer de um novo dia;
um olhar nas belezas que Deus cria
também deixa um poeta motivado;
uma grata lembrança do passado
tanto acorda a saudade como inspira;
mais o som peregrino de uma lira,
e está pronto o martelo agalopado!
(…)
No remanso tranquilo da gamboa,
cai no rio e se anima o pescador,
na esperança de um peixe lutador
que, na linha do anzol, puxe a canoa;
remo solto, segura-se na proa,
porque sabe os segredos de seu rio
e não foge jamais ao desafio,
visto que água no chão é mão na luva…
Essas cenas ocorrem quando a chuva
cai na terra do sol e espanta o estio.

(…)
Vi a cana espremida na moenda,
vi os bois sonolentos na almanjarra,
na qual já trabalhavam quando a barra
da manhã lourejava na fazenda;
e o engenho, que há muito virou lenda,
tinha cheiro de mel e rapadura,
mas o tempo mudou… Já não se apura
uma simples batida, ou alfenim.
No sertão, isso tudo levou fim,
mas a dor da saudade ninguém cura!

(…)
Não me esqueço do som da cantoria
nos alpendres de antigos casarões,
com sextilhas, martelos e mourões
recheados de nítida magia;
era um mundo encantado de poesia
que abracei desde minha tenra idade,
tradição nordestina de verdade
que não pode morrer nem fraquejar
porque é muito querida e popular,
mas mudou-se do campo pra cidade!

(…)
Quem trabalha precisa de repouso
pra suprir os efeitos do cansaço,
pois o esforço medido a cada passo
nunca pode tornar-se tão penoso;
nosso tempo é tesouro precioso,
como o próprio bom senso nos revela…
Desperdício das horas, sem cautela,
leva a perdas e danos sem medida
e ao desgaste das dádivas da vida,
desta vida que é curta, mas é bela.

(…)
No sertão, uma linda fiandeira
foi Maria Isabel, minha vovó,
que viveu no calor do Seridó
comandando uma roca de madeira;
punha os pés pequeninos numa esteira
fabricada com arte e paciência;
sempre estava na pobre residência
dando a bênção a adultos e guris…
Viveu quase cem anos, tão feliz,
com o novelo dos fios da existência!

(…)
No Nordeste, o mais duro cangaceiro,
Virgulino Ferreira, o Lampião,
assombrou todo o povo do sertão
com seu rifle temível e certeiro;
tinha fama de bravo bandoleiro,
pois, de fato, era intrépido e valente,
açoitava e matava cruelmente,
mas entrou pelo cano em Mossoró:
correu tanto, que as pernas davam nó;
mesmo assim, é um herói pra muita gente!


SETILHAS DIVERSAS

Aqui, se instala o verão
quando as nuvens vão embora;
inverno, prá nós, é chuva
que veste de verde a flora.
Quase todo o tempo é quente,
e o frio é como um presente,
mas, quando vem, não demora.
* * * * * * * *

Com a derradeira missa,
partimos pra eternidade,
depois das dores da morte,
eis a dura realidade!
Morrer é nosso destino,
mas, com gripe de suíno,
meu Deus, que infelicidade!
**************

Bom poeta vende os frutos
Na feira da honestidade;
No entanto sabemos de um
Que tem medo da verdade,
Porque, em vez de bons decretos,
Assinou “atos secretos”
Com tinta de improbidade.
******************

Quem mata um pezinho de erva
que prometia uma flor,
suja o rio ou cala a voz
de um canário cantador,
pratica um ato covarde
e algum dia, cedo ou tarde,
paga, seja como for!
********************

Existe uma estrela acesa,
sempre linda e radiante,
inspirando nossos versos
que descem do céu distante,
para que o mundo tristonho,
órfão de poesia e sonho,
um dia se alegre e cante.
********************

Minha vida em Pirangi
é fazer verso e sonhar,
conversar com as estrelas,
tomar banho de luar
e colher, durante o dia,
os retalhos de poesia
que a Lua deixa no mar.

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