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Lucan (Lucas Candelária) /SP (Caderno de Sonetos)

Lucan é de Salesópolis/SP

CHORA O POETA

(…) e o poeta chorava suas mágoas
Sentado à sombra de árvore gigante,
Tinha nos olhos um dilúvio de águas
E tinha o coração qual retirante.

Sua alma não saía do lugar
Ficava remoendo a sua dor atroz.
Por que chora o poeta sem parar?
Todos perguntavam à meia voz.

Mas, se olhassem à beira do caminho
Uma trevosa cruz em desalinho
Diria toda a história do cantor.

Pobre poeta! Nada o consolava…
Não se consola uma paixão escrava,
Não se consola um poeta sem amor!

SUPLÍCIO DE TÂNTALO

Por que eu vivo poetando em fantasia?
Por que? Se minha amada me deixou?
Nem tricotamos mais… Só nostalgia!
Só tristeza comigo então ficou.

Enquanto ela sorri com alegria,
Sem saber como dói o que restou
Num coração que viveu de utopia,
Eu pago caro o amor que me cegou.

Conheço outras pessoas formidáveis
Que têm o coração e a alma notáveis
E me amparam nesta hora de abandono.

Mas a forte afeição é incompreensível:
Não há como extirpá-la… É impossível!
Eu vivo nesta dor, e ela? Em seu trono.

QUEM É ELA

Ela é a luz que ilumina o meu caminho,
É a Rainha de um mundo hospitaleiro.
É uma deusa do amor e do carinho,
Estrela que ilumina o mundo inteiro.

Por ela pulsa o pobre coração
Que no meu peito, em minha trêmula esperança,
Espera, em ritmo de feliz paixão,
Voto de afeto e muita confiança.

Mas, como pode a estrela vir ao chão?
A ave viver nos vagalhões do mar?
Só do poeta na doce inspiração.

À Rainha, o poeta pode amar
Alegrando o seu pobre coração,
Na louca fantasia de poetar!

OS AGENTES

Línguas que tecem colchas de discórdia,
Por que não se acomodam no palato
E silenciam – por misericórdia -,
Com bons princípios e feliz recasto?

Mãos que se espalmam só para ferir,
Por que não acalmar a rude sanha
E abençoar, pensando no porvir,
Quando a bondade é a única façanha?

Neurônios que maquinam pra magoar
Por que não se aquietam no lugar
Como bons elos do sistema humano?

Não podem responder… São os agentes
Como o espinho é da flor; são as serpentes,
Que picam do vassalo ao soberano!

VOCÊ

Na viagem que eu fazia ao fim do mundo
-Descalço sobre as pedras do caminho -,
Via gente feliz, de olhar profundo,
Trocando doces beijos e carinho.

Eu já na escuridão do poço fundo,
Andrajoso de fé e amor, sozinho,
Chorava a falta de esperança, oriundo
Da dor, exausto, um mudo passarinho.

Depois… vi uma estrela luminosa
Brilhando à minha frente. Era uma rosa
Do jardim celestial… não sei por que

Acabou minha dor, fiquei contente,
Sorri, cantei, alegre e reverente.
Daí que eu vi… a luz era Você!

LIÇÃO DE PAI

-Que folgança é essa, meu querido filho,
Essa explosão de fogos pelo espaço?
Minhalma assim se imbui de enorme brilho
E corre-me um tremor pelo espinhaço.

-Ah, meu pai, é a vitória do caudilho
Comemorada com estardalhaço.
-Então ele venceu, sem empecilho,
Com seu rompante e seu clamor devasso?

-Sim, pai, venceu, venceu a votação.
-Pois é, meu filho, aceite esta lição:
Bom ou mau, pra vencer tem que lutar;

Os pusilânimes, os fracos, frios,
Perdem a guerra e tremem de arrepios
Antes mesmo de a guerra começar!…

OS INFELIZES DO MUNDO

-Você pode sair de minha vida,
Mas uma coisa não pode negar:
Que eu guarde essa beleza tão querida
Do seu sorriso e do seu lindo olhar.

Pode levar as jóias, o Jaguar
E a nossa rica moto colorida.
Mas, uma coisa não pode levar:
Minh´alma desprezada e tão sofrida.

Chega um senhor e diz: -O brutamonte
Enlouqueceu vivendo sob a ponte
Onde passava fome e só dormia.

E eu disse nesse instante: Não senhor,
Esse homem enlouquece por amor,
Esquecido na rua da agonia.

UTOPIA

Pudesse eu dominar o vento forte,
E a chuva dominar também pudesse,
Pudesse comandar também a sorte
E fosse humilde pra manter-me em prece…

Eu exterminaria a dor e a morte,
O sofrimento e o mal a quem padece;
Espalharia o amor em grande porte
E a alegria que a todos apetece.

E de Você? Faria uma princesa,
Que dominasse toda a humanidade
Que lhe servisse com total presteza.

Mas… seria de minha propriedade
Seu corpo e seu carinho – com certeza –
Para vivermos toda a eternidade.

A GOTA D´ÁGUA

Vinha da imensidão… do seio escuro
Da nuvem, balouçando pelo espaço,
No extravasar mais tímido e mais puro
Em refração de luz, de brilho lasso.

Vinha caindo, com frescor e apuro
Como um cristal – dos deuses, estilhaço -,
Tão pequenina, em seu mister mais duro
De visitar a terra, num abraço.

Chegou, de par em par, com as convivas,
Como lindas princesas fugitivas
De negra nuven túmida de mágoa.

E foi assim que terminou a história
Da que caiu do céu com toda a glória
De fria e cristalina gota d´agua!

METEMPSICOSE

Da anipnia escravo e sem remédio,
Auscultando o silêncio em fantasia,
Explode o peito em amargoso tédio
E acaba por compor uma poesia.

Da rigorosa métrica um assédio
Vem queimar seus neurônios em porfia,
E as rimas para o fúnebre epicédio
São escolhidas por analogia.

O homenageado, amigo extraordinário,
Já se perdia no galpão do ossário
Naquele pódium de materialistas.

E o vate arranca-o desse cemitério
– Na metempsicose sem mistério –
Levando-o a outro pódium de conquistas!..

A BRIGA DAS FLORES

O lírio branco, um dia, contundente,
Gritou à força plena dos pulmões:
– A rosa é vil, escrava, inconseqüente,
Cheia de espinhos, cheia de ambições!

E a rosa, do seu trono, descontente,
Retribui às tolas agressões:
– Lírio, você parece puro e ausente
Mas traz n’alma um brejal de podridões.

E a violeta, que ouvira toda a briga,
Meiga como é, calada, humilde e amiga,
Deitou nos ares os dulcíssimos olores.

O lírio e a rosa, nobres, decantados,
Percebendo o vexame, envergonhados,
Esconderam-se, então, das outras flores!

Fonte:
Sonetos
.com 

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