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Almada Negreiros (Poesias Sem Fronteiras)

Maternidade (Pintura de Almada Negreiros)
ESTORVA-ME A TERRA

Estorva-me a terra por causa do sonho
estorva-me o sonho por causa da terra
eu ando na guerra do sonho com a terra.
Senhores empregados do mundo
tenham santa paciência
vale mais a vida do que a existência.

ENCONTRO

Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.

Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

ESPERANÇA

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente.
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
não me deixes sozinho
esperança.

ERAM SETE E MEIA

Eram sete e meia.
O mais tarde que podias entrar era até às oito
e depois das oito tornava-se reparado.
Havia ordem no mundo
e meia-hora para nós,
meia-hora que não foi como queríamos
meia-hora em que cada um de nós nos prejudicava
habituados que estávamos a não nos termos visto nunca.
Levámos meia-hora a combinar outra hora para nós
meia-hora que afinal só começou depois de terminada
ao despedirmo-nos até à vista.
E até tornar a ver-te
eu não me senti, nem a fome, nem a sede
nem outra vontade que tu,
fiz como os poetas
que apagam a realidade
para lhe pôr outra melhor por cima.

A SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei dó que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

RONDEL DO ALENTEJO

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitava
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são de fitas
desafogo
de luar.

Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos
girassóis
os bonés,
os braços
estes dois
iram laços
o luar.

colete
esta virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

CANÇÃO DA SAUDADE

Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha
irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha
edade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemiterios – as lágens são espessas vidraças transparentes, e
eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas
rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres
são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos.

Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.

RUINAS

Pandeiros rotos e côxas taças de crystal aos pés da muralha.

Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em bandolins distantes, surdinas finas de princesas mortas.

Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabeleiras embranquecidas.

Aquelas ameias cingiram uma noite pecados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites reza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castelo de nobres naquele lugar… E a lua, a contar, pára um instante – tem medo do frio dos subterrâneos.

Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e risinhos de sedas.

Aquelas ruínas são o túmulo sagrado de um beijo adormecido – cartas lacradas com ligas azuis de fechos de ouro e armas reais e lisas.

Pobres velhinhas da cor do luar, sem terço nem nada, e sempre a rezar…

Noites de insônia com as galés no mar e a alma nas galés.

Arqueiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao palacio pela tapada d’El-rei. Grande caçada na floresta–galgos brancos e Amazonas negras. Cavaleiros vermelhos e trombetas de ouro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.

Uma gôndola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela brisa o aviso da noite.

O sapato d’Ela desatou-se nas areias, e foram calça-lo nas furnas onde ninguém vê. Nas areias ficaram as pegadas de um par que se beija.

Noticias da guerra – choros lá dentro, e crepes no brasão. Ardem círios, serpentinas. Há mãos postas entre as flores.

E a torre morena canta, molenga, doze vezes a mesma dor.

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Alda do Espírito Santo (Poemas Diversos)

PARA LÁ DA PRAIA
Baía morena da nossa terra
 vem beijar os pezinhos agrestes
 das nossas praias sedentas,
 e canta, baía minha
 os ventres inchados
 da minha infância,
 sonhos meus, ardentes
 da minha gente pequena
 lançada na areia
 da praia morena
 gemendo na areia
 da Praia Gamboa.

Canta, criança minha
 teu sonho gritante
 na areia distante
 da praia morena.

Teu tecto de andala (1)
 à berma da praia
 teu ninho deserto
 em dias de feira,
 mamã tua, menino
 na luta da vida.

Gamã pixi (2) à cabeça
 na faina do dia
 maninho pequeno, no dorso ambulante
 e tu, sonho meu, na areia morena
 camisa rasgada,
 no lote da vida,
 na longa espera, duma perna inchada

Mamã caminhando p’ra venda do peixe
 e tu, na canoa das águas marinhas
 – Ai peixe à tardinha
 na minha baía
 mamã minha serena
 na venda do peixe
 pela luta da fome
 da gente pequena.

Notas:
(1) Andala: folha de palmeira;
 (2) Gamã pixi: gamela com peixe.

LÁ NO ÁGUA GRANDE
Lá no “Água Grande” a caminho da roça
negritas batem que batem co’a roupa na pedra. 
Batem e cantam modinhas da terra.

Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.

As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes…
Velam no capim um negrito pequenino.

E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso…
Jazem quedos no regresso para a roça.

ILHA NUA

Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e devida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras…

PARA A TANIA

Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória da nossa
Mãe África dignificada.

Fontes:
Luis Gaspar. Estudio Raposa.
Jornal de Poesia

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Alda do Espírito Santo (1926 – 2010)

Alda Neves da Graça do Espírito Santo (São Tomé e Príncipe 1926 – 9 de Março de 2010), conhecida como Alda do Espírito Santo, foi uma escritora e poetisa de língua portuguesa.

Teve a sua educação em Portugal, onde chegou a frequentar a Universidade.

Acabou por abandonar, em parte devido às suas actividades políticas, mas também por motivos económicos. Regressada  a S. Tomé, veio a trabalhar como professora.

Na sua passagem por Lisboa, foi contemporânea, de Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Francisco José Tenreiro e outras figuras do nacionalismo africano, designadamente na Casa dos Estudantes do Império.

Quando São Tomé e Príncipe conseguiu a independência de Portugal em 1975, ela ocupou vários altos cargos no governo, como o de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura tendo sido igualmente Deputada.

Os seus poemas aparecem nas mais variadas antologias lusófonas, nomeadamente em  M. Andrade e F. J. Tenreiro, Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958); ª Margarida, Poetas de S.Tomé e Príncipe (1963);  M. Ferreira, No Reino de Caliban II (1976);  C. ª Medina, Sonha Mamana África (1988);  O Coro dos Poetas e Prosadores de S.Tomé e Príncipe (1992); entre outros bem como em jornais e revistas de São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Obra poética:

    O Jogral das Ilhas, 1976, São Tomé, e. a.;
    É Nosso o Solo Sagrada da Terra, 1978, Lisboa, Ulmeiro
 

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