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Varal de Trovas n 42 – Roberto Pinheiro Acruche (São Francisco de Itabapoana/RJ) e Severino Uchoa (Aracajú/SE)

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Arquivado em Rio de Janeiro, Sergipe, Trovas, varal de trovas

Antonio Carlos Viana (Tia Darci Ouve Vozes)

 Quando tia Darci voltou a ouvir vozes, eu não era mais tão criança. Ninguém lhe deu atenção. Diziam que era meio pancada só porque era solteirona. Minha mãe dizia que era falta de homem, que, se ela tivesse um ao lado, ia ver coisas bem mais interessantes, não ia ficar prestando atenção em vozes do outro mundo. Mas eu sentia verdade na voz de tia Darci. Quando ela disse que uma nova prova ia começar para a família, todo mundo ficou nervoso, mas preferiu disfarçar, dizendo que espíritos não voltam, se é que há espíritos. Como tia Darci viu que só eu deixava transparecer confiança em suas palavras, se pegou comigo e me chamava sempre que recebia um recado do além. Eu perguntava como era a voz. Ela dizia que não chegava a ser uma voz assim como quando a gente fala. Era uma coisa que se espalhava dentro dela, que ficava azucrinando e só lhe dava descanso quando ela parava tudo o que estivesse fazendo para escutar. Ela vivia fazendo jejuns e tinha certas comidas que não comia nem amarrada, dizia que lhe quebravam as forças. Seu maior sonho era ter as chagas de Cristo nas mãos. Ela lera isso numa revista, um padre italiano sangrava assim e fazia milagres.

 Um dia perguntei a ela o que a voz falava de mim. Ela disse para eu não ter medo do futuro, mas que tomasse cuidado com os inimigos que se fazem de amigos e a gente nem desconfia. Que inimigos? Por enquanto só o menino vizinho, que vivia pegando no meu pé porque no pião eu era imbatível. “Começa por aí”, ela falou. Passei a olhar o tal vizinho com olho torto. Ele vinha me chamar para brincar e eu dizia que não, tinha muita tarefa da escola pra fazer, precisava molhar as plantas do quintal, que se morresse uma roseira a culpa ia ser minha… É chato a gente mentir. Ele não se conformava e marcava então pra depois que eu terminasse minhas tarefas. Na verdade, eu não queria mais brincar com ele. Depois que tia Darci adivinhou que alguém ia se queimar com uma panela de água quente e meu irmão se queimou todo no peito, 0 que ela dizia não podia ser desprezado.

 Leonardo, o tal vizinho, veio brincar de pião num fim de tarde que quase terminou no hospital. Ele jogou o pião de um jeito que o bico caiu em cima do meu pé e fez um furo feio. Tia Darci falou que eu precisava levar a sério o que ela dizia, não fosse como os outros, que viviam zombando dela. E viviam mesmo. No almoço, todos à mesa, meu pai era o primeiro a desacatá-la de forma grosseira: “Que é que esse pato está lhe dizendo agora, Darci?”. A gente via que ele estava indo além dos limites. “A mim está dizendo que está muito gostoso”, respondia ele mesmo, com aquela risada sem controle, de fazer saltar carocinho de arroz por cima da gente. Tia Darci olhava para ele e eu via nos olhos dela um misto de raiva e compaixão. Havia na gaveta do armário dela um livro de são Cipriano, o Livro negro, que minha mãe dizia só servir para fazer mal aos outros. Eu era doido para folheá-lo, mas tia Darci não deixava. Dizia que ali havia remédio para tudo, até para a pessoa não ficar careca. Eu quis saber como era, para aplicar a fórmula, se eu precisasse um dia, mas ela nunca me deixou nem pegar nele.

 De manhã, todos nós ficávamos esperando tia Darci sair do quarto pra perguntar o que ela havia escutado durante a noite. Não era sempre que isso acontecia. Minha mãe só queria 05 números do bicho, era viciada. Tia Darci dizia que os espíritos não gostam de jogo e que, se minha mãe quisesse ganhar, fosse escutar as vozes dela, porque todos temos vozes que zelam por nós, é só querer escutá-las. Corno éramos crianças, ela dizia só coisas boas: eu iria ser escritor, Deo vai ser engenheiro, Caco vai ser um pintor famoso, Lia vai ser doutora, Nenzinho vai ser advogado.

 Num dia de muita chuva, todo mundo dentro de casa, tia Darci levantou a mão direita pedindo silêncio. Olhei pra ver se tinha alguma chaga. Não tinha. Nessas horas, ela se empertigava toda, parecia mais alta do que era, era a mais alta da família, muito magra, o rosto encovado, talvez de tanto sofrer com a descrença dos outros. Tinha os cabelos curtinhos, ela mesma os cortava com uma gilete, era uma pessoa toda sem vaidade. De longe, se estivesse de calça comprida, qualquer um pensava que era um rapazinho. Acho que o nome moldou seu corpo, porque Darci tanto podia ser nome de homem ou de mulher. Só quando falava, aparecia a sua feminilidade, uma voz doce e bonita, que puxava os cânticos nas novenas de junho.

 Ficamos então em silêncio, e tia Darci foi se empertigando toda, foi ficando distante de todos nós, seus olhos deixavam transparecer que não era coisa boa 0 que ela estava ouvindo. O silêncio era total na sala e dali a pouco ela veio voltando lentamente, sacudiu a cabeça e disse: “Coisas graves vão acontecer nesta casa”. Minha mãe disse logo: “Por que você não pega só as boas?”. “Não depende de mim”, ela respondeu, e saiu da sala. Depois de ouvir as tais vozes, tinha de tomar um banho de sal grosso para se livrar das energias negativas que ficavam em seu corpo. Se não tomasse, caía numa prostração feia que só o doutor conseguia curar com muita conversa no quarto escuro e bolinhas de homeopatia. Ela dizia que só se dava bem com elas, os outros remédios a fariam perder a capacidade de ouvir. Foi assim com um antibiótico que tomou para um ferimento na perna. Passou meses sem ouvir vozes. Da família, era a mais estudada, fora até o Normal, mas não se formou, pois começou a ouvir as tais vozes ainda no primeiro ano e isso atrapalhou tudo. Espalharam sua fama de feiticeira e ela foi ficando malvista por todos, até que desistiu da escola. Podia até ter vivido da sua mediunidade, mas nunca quis, dizia que não se cobrava pelo que era dado de graça por Deus. Por Deus?, retrucava minha mãe, sempre incrédula.

 Naquele dia, uma das coisas que tia Darci falou quando voltou do banho foi que meu pai deveria tomar cuidado. Devia adiar aquela viagem que ele ia fazer em outubro. Se ele fosse, não voltaria. Falou direto, acho que de tanta raiva que tinha dele, já que os dois viviam se pegando por qualquer tolice. E que a voz tinha dito que dele só restaria a malinha de ferramentas. Melhor não viajar. Pela primeira vez minha mãe deu ouvidos a tia Darci e fez tudo pra meu pai deixar aquela viagem pra depois, quando os espíritos soprassem tempo bom. Ele disse que, se fosse esperar pelos espíritos, a gente morria de fome. Precisava ir ao Rio resolver problemas de um emprego que tinha largado, trabalhar mais um pouco pra juntar dinheiro e depois voltava de vez pra morar com a gente e abrir uma torrefação de café. O olhar de tia Darci em cima dele parecia de pena.

 A gente estava almoçando quando o assunto voltou à baila. Meu pai, com seu jeito ríspido, falou: “Agora mesmo é que eu vou. Quero ver se essas vozes estão falando a verdade”. Achei que ele não devia ter falado assim, tia Darci já havia acertado comigo no caso de Leonardo. A malinha de ferramentas no canto da sala me pareceu sinistra. Nada fez meu pai desistir da viagem.

 Era outubro, bem no começo, ele nem se despediu da gente, só vi a porta bater e minha mãe ficar chorando na sala. Ela o amava muito, mesmo sendo ele um pobretão, como ela mesma dizia. Passou a primeira semana e nenhuma notícia dele. Passou a segunda, e a mesma coisa. A família começou a se inquietar. Como saber o que tinha acontecido? Tia Darci, mais calada do que nunca.

 Como ela havia previsto, meu pai nunca mais voltou. Só errou quanto à maleta de ferramentas, que se perdeu para sempre. Assim que soube da notícia, tia Darci sumiu de casa, e só muitos anos depois é que descobrimos seu paradeiro, quando já estávamos crescidos. Ela estava morando num asilo, numa cidade do interior. Fui visitá-la. Parecia bem tratada, de banho tomado. Engordara muito. Ali sentada na varanda, parecia um velho índio do Oeste, com uma trança branca descendo pelo ombro esquerdo. Não a reconheci. A imagem que me ficara era a de uma mulher seca, de cabelo cortado bem curtinho. Não deu a menor bola para. mim, apenas sorriu quando falei quem eu era. Minha voz quase não saía para dizer que nossa vida tinha sido muito difícil, que agora estava tudo bem. Que minha mãe tinha acertado na loteria e que todo mundo tinha se formado, mas em carreiras diferentes das que ela predissera. Num determinado momento, pensei que ela ia falar, apenas movimentou os lábios sem conseguir articular nada. Só fez esboçar um sorriso. Fiquei pensando se alguma voz lhe teria dito que ela acabaria assim, em silêncio total. Me despedi e, pela primeira vez, uma voz me disse que eu nunca mais a veria. Morreu meses depois. Fui lá pegar seus pertences, entre eles o Livro negro de são Cipriano. Pregada numa das páginas, uma foto de meu pai de paletó branco, ainda bem jovem e bonito, e em outra a de minha mãe, com os olhos furados.

Fonte:

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Arquivado em O Escritor com a Palavra, Sergipe

Antonio Carlos Viana (1944)

Antonio Carlos Mangueira Viana nasceu em Aracaju/SE, em 1944. 
Contista, tradutor e professor. 
Ainda menino, muda-se com a família para o Rio de Janeiro, e cursa o primário na Escola Pública Guatemala. Tenta a carreira diplomática, sem sucesso. Passou pela Psicologia e acabou ensinando Português, Literatura e Redação. Foi depois para Teresópolis. Lá, para complementar o necessário à sobrevivência, vendia cachorro-quente na porta do INPS
Retornam a Aracaju, em 1955, onde completa os estudos preparatórios. Ingressa, em seguida, no curso de letras com habilitação em francês da Universidade Federal de Sergipe – UFSE, instituição na qual, em 1976, é admitido como professor. Lá coordenou a Oficina de Redação do Departamento de Letras. Desse último trabalho nasce o livro Roteiro de Redação: Lendo e argumentando, da Scipione (participam ainda as professoras Ana Maria Macedo Valença, Denise Porto Cardoso e Sônia Maria Machado).
Chegou a sobreviver fazendo traduções. Sempre estudando, fez mestrado em Teoria Literária, na PUC-RS e doutoramento em Literatura Comparada pela Universidade de Nice, na França.
A estréia no mercado editorial se dá com o livro de contos Brincar de Manja, de 1974.  
De 1989 a 1990, participa do grupo responsável pela implementação do curso de pós-graduação em letras da UFSE. 
Concilia a produção literária com as atividades de docente até 1995, quando se aposenta na universidade e cria, em Aracaju, um curso de redação preparatório.
Coleciona ainda dois importantes títulos: vencedor do Prêmio Esso de Literatura – 1971 e do II Concurso Nacional de Literatura – 1992, promovido pela Prefeitura Municipal de Garibaldi – RS.
Dono de uma prosa concisa e econômica, sobretudo no que concerne a aspectos formais e de estilo, em geral, de tom seco e preciso. Constrói assim narrativas sem excessos e que versam essencialmente sobre a temática da infância, perda da inocência e morte. 
Viana não se considera um “escritor regional”: suas histórias transcorrem tanto no interior nordestino quanto em Paris, reflexo do período em que escritor estudou literatura comparada na França. Sua temática, sombria em princípio, não resvala, no entanto, só para enredos de infelicidade. O que prevalece é a perplexidade quase calma e a poesia discreta dos que se comunicam com poucas palavras e observações precisas.
Livros de sua autoria: 
“Cine Privê, “Brincar de Manja”, “Em pleno castigo”, “Aberto está o inferno”, “O meio do mundo” e “O meio do mundo e outros contos”.
Viana também participou de uma antologia de Os melhores contos brasileiros de 1974, em 1975, e da coletânea Os cem melhores contos brasileiros do século (Objetiva – 2000), seleção de Ítalo Moriconi.
Fontes:
Biografia de AC Viana, por Landisvalth Lima, em Recanto das Letras

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Trova de Dia das Mães – Severino Uchoa (Aracajú/SE)

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13 de maio de 2012 · 23:45

Folclore Brasileiro (O Bicho Manjaléu)

(Versão de Sergipe, coletada por Sílvio Romero)

Uma vez existia um velho casado, que tinha três filhas muito bonitas; o velho era muito pobre e vivia de fazer gamelas para vender. Quando foi um dia, chegou à sua porta um moço muito formoso, montado num belo cavalo e lhe falou para comprar uma de suas filhas.

O velho ficou muito magoado e disse que, por ser pobre, não havia de vender sua filha. O moço disse-lhe que, se não lha vendesse, o mataria; o velho intimidado vendeu-lhe a moça e recebeu muito dinheiro. Retirando-se o cavaleiro, o pai da família não quis mais
trabalhar nas gamelas, por julgar que não o precisava mais de então em diante; mas a mulher instou com ele para que não largasse o seu trabalho de costume, e ele obedeceu.

Quando foi na tarde seguinte, apresentou-se um outro moço, ainda mais bonito, montado num cavalo ainda mais bem aparelhado, e disse ao velho que queria comprar uma de suas filhas. O pai ficou incomodado; contou-lhe o que tinha sucedido no dia antecedente, e recusou-se ao negócio. O moço o ameaçou também de morte, e o velho cedeu.Se o primeiro deu muito dinheiro, este ainda deu mais e foi-se embora.

O velho de novo não quis continuar a fazer as gamelas e a mulher o aconselhou, até ele continuar. Pela tarde seguinte, apareceu outro cavaleiro ainda mais bonito, e melhor montado, e, pela mesma forma, carregou-lhe a filha mais moça, deixando ainda mais dinheiro.

A família cá ficou muito rica; depois apareceu a velha pejada e deu à luz a um filho, que foi criado com muito luxo e mimo. Quando chegou o tempo de o menino ir para a escola,
um dia brigou com um companheiro, e este lhe disse:

— Ah! Tu cuidas que teu pai foi sempre rico!… Ele hoje está assim, porque vendeu tuas irmãs!…

O rapazinho ficou muito pensativo e não disse nada em casa; mas quando foi moço, lá num dia se armou de um alfanje e foi ao pai e à mãe e lhes disse que lhe contassem a história de suas três irmãs, senão os matava. O pai lhe teve mão, e contou o que se tinha passado antes de ele nascer. O moço então pediu que queria sair pelo mundo para encontrar suas irmãs, e partiu. Chegando em um caminho, viu numa casa três irmãos brigando por causa de uma bota, uma carapuça e uma chave. Ele chegou e perguntou o que era aquilo, e para que prestavam aquelas coisas.

Os três irmãos responderam que àquela bota se dizia “Bota, me bota em tal parte!” e a bota botava; à carapuça se dizia: “Esconde-me, carapuça!” e ela escondia a pessoa que
ninguém a via; e a chave abria qualquer porta. O moço ofereceu bastante dinheiro pelos objetos, os irmãos aceitaram, e ele partiu. Quando se encobriu da casa, disse: “Bota, me bota na casa de minha irmã primeira”.

Quando abriu os olhos, estava lá. A casa era um palácio ornado e rico, e o moço mandou pedir licença para entrar e falar com a irmã que estava feita rainha. Ela não queria aparecer, porque dizia que nunca tinha tido irmão. Afinal, depois de muita instância, deixou o estrangeiro entrar; ele contou toda a sua história, a irmã acreditou e o tratou muito bem.

Perguntou-lhe como poderia ter chegado ali àquelas brenhas, e o irmão disse-lhe ter o poder da bota. Pela tarde, a rainha se pôs a chorar e o irmão lhe indagou a razão, ao que ela respondeu que seu marido era o rei dos peixes e, quando vinha jantar, era muito zangado, em termos de acabar com tudo, e não queria que ninguém fosse ter ao seu palácio…

O moço disse-lhe que por isso não se incomodasse, que tinha com que se esconder e não ser visto, e era com a carapuça. Pela tarde veio o rei dos peixes, acompanhado de uma porção de outros, que o deixaram na porta do palácio e se retiraram. Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: “Aqui me fede a sangue real!” do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou banho e se desencantou num belo moço.

Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí, apareça.

Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restavam duas irmãs a visitar.

O rei lhe indagou que préstimo tinha aquela bota, e quando soube do que valia, disse:
— Se eu a apanhasse, ia ver a rainha de Castela.

O moço, não querendo ficar, despediu-se e, no ato da saída, o cunhado lhe deu uma escama, e disse-lhe:
— Quando você estiver em algum perigo, pegue nesta escama, e diga: “Valha-me o rei dos peixes’”.

O moço saiu e quando se encobriu do palácio, disse: “Bota, me bota em casa de minha irmã segunda”; e, quando abriu os olhos, lá estava. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que o outro. Com alguma dificuldade da parte da irmã, entrou e foi recebido muito bem. Depois de muita conversa, a sua irmã do meio pôs-se a chorar, dizendo que era “por ele estar aí, e, sendo seu marido o rei dos carneiros, quando vinha jantar, era dando muitas marradas, em termos de matar tudo”. O irmão apaziguou-a, dizendo que tinha onde se esconder. Com poucas, chegou uma porção de carneiros com um carneirão muito alvo e belo na frente; este entrou e os outros voltaram.

Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: “Aqui me fede a sangue real!” do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou banho e se desencantou num belo moço.

Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí, apareça.

Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restava uma irmã a visitar. Na despedida, o rei dos carneiros deu ao cunhado uma lãzinha, dizendo:
— Quando estiver em perigo, diga: “Valha-me o rei dos carneiros”.

Também disse, depois de saber a virtude da bota:
— Se eu pegasse esta bota, ia ver a rainha de Castela.

O moço foi reparando nisto e formou-se logo consigo o plano de ir vê-la. Saiu, e pela mesma forma foi à casa de sua irmã mais moça. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que os outros dois. O que lá sucedeu foi o mesmo do que nos palácios das suas irmãs mais velhas. Era o palácio do rei dos pombos, e este, na despedida, deu ao cunhado uma pena, com as palavras:
— Quando se vir nalgum perigo, diga: “Valha-me o rei dos pombos”.

Na despedida, sabendo o rei do préstimo da bota, mostrou também desejos de ir visitar a rainha de Castela. Logo que o moço se viu longe do palácio, disse: “Bota, bota-me agora na terra da rainha de Castela”. Assim foi.

Chegado lá, ele indagou e soube que “era uma princesa que o pai queria casar, e que era tão bonita que ninguém passava pela frente do palácio que não olhasse logo para cima para vê-la na janela; mas a princesa tinha dito ao rei que só casava com o homem que passasse sem levantar a vista.”

O estrangeiro foi passar, atravessou toda a distância sem olhar, e a princesa casou com ele.

Depois de casados, ela indagou pela significação daqueles objetos que seu marido sempre trazia consigo; ele tudo lhe contou, e a princesa prestou muita atenção ao prestígio da chave.

O rei, seu pai, tinha em palácio um quarto que nunca se abria, e neste quarto, onde era proibido a todos entrar, estava, desde muito tempo, trancado um bicho Manjaléu, muito feroz, que sempre o rei mandava matar e sempre revivia. A moça tinha muita curiosidade de o ver e, aproveitando a saída do pai e do marido para uma caçada, pegou a chave encantada e abriu o quarto. O bicho pulou de dentro, dizendo: “A ti mesmo é que eu queria!…” e fugiu com ela para as brenhas.

Quando voltaram, os caçadores deram por falta da princesa, e ficaram muito aflitos. O rei foi ao quarto do Manjaléu, e achou-o aberto e vazio, e o novo príncipe conheceu a sua chave… Ao depois valeu-se de sua bota e foi ter aonde estava sua mulher. Esta, quando o viu, estando ausente o Manjaléu, ficou muito alegre, e quis ir-se embora com ele. Mas o marido não o consentiu, dizendo que ela ficasse para indagar ao monstro onde estava a sua vida, para assim dar cabo dele.

O príncipe foi-se embora. Quando o Manjaléu voltou, conheceu que ali tinha estado bicho homem; a moça o dissuadiu, e quando ele se acalmou, ela lhe perguntou onde estava a sua vida. O monstro zangou-se muito, e disse:
— Ah! Tu queres saber de minha vida mais o teu marido, para darem cabo de mim!… Não te digo, não…

Passaram-se dias, sempre a moça instando. Afinal, ele foi amolar um alfanje, dizendo:
— Eu te digo onde está minha vida; mas se eu sentir qualquer incômodo, conheço que ela vai em perigo e, antes que me matem, mato a ti primeiro, queres?!

A princesa respondeu que sim. O Manjaléu amolou o alfanje, e disse-lhe:
— Minha vida está no mar; dentro dele há um caixão, dentro do caixão uma pedra, dentro da pedra uma pomba, dentro da pomba um ovo, dentro do ovo uma vela; assim que a vela se apagar, eu morro.

O bicho saiu e foi procurar frutas; chegou o príncipe, soube de tudo e foi-se embora. O Manjaléu veio e deitou-se no colo da moça com o alfanje ali perto. O príncipe chegou com sua bota à praia do mar num instante; lá pegou na escama que tinha, e disse: “Valha-me o rei dos peixes!” de repente uma multidão de peixes apareceu, indagando o que ele queria.

O príncipe perguntou por um caixão que havia no fundo do mar; os peixes disseram que nunca o tinham visto, e só se o peixe do rabo cotó soubesse. Foram chamar o peixe do rabo cotó, e este respondeu:
— Neste instante dei uma encontroada nele.

Todos os peixes foram e botaram o caixão para fora. O príncipe o abriu e deu com a pedra; aí pegou na lãzinha e disse: “Valha-me o rei dos carneiros!” De repente apareceram muitos carneiros e entraram a dar marradas na pedra.

O Manjaléu lá começou a sentir-se doente, e dizia:
— Minha vida, princesa, corre perigo!

E pegou no alfanje; a moça o foi dissuadindo e engambelando. Os carneiros quebraram a pedra e voou uma pomba. O príncipe pegou na pena e disse: “Valha-me o rei dos pombos!” Chegaram muitos pombos e correram atrás da pomba, até que a pegaram. O príncipe abriu-a e achou o ovo.

Quando estava nisto, lá o Manjaléu estava muito desfalecido, pegou no alfanje e ia dando um golpe na princesa. Foi quando cá o príncipe quebrou o ovo, e apagou a vela; aí
o bicho caiu sem ferir a moça. O príncipe foi ter com ela, e levou-a para o palácio, onde houve muitas festas.

Fontes:
Ana Rosa Abreu et al. Alfabetização : livro do aluno / Brasília : FUNDESCOLA/SEFMEC, 2000.
Imagem = Blog de Márcia Brito

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Gizelda Morais (1939)

Nascimento em 30 de maio de 1939 na cidade de Campo do Brito – Sergipe.

Em razão de deslocamento de seus pais para Riachão do Dantas – SE, esse foi oficialmente anotado como seu local de nascimento.

Estudos primários no Grupo Escolar Tobias Barreto da cidade de Tobias Barreto (Sergipe) onde passou a infância e leu os primeiros livros na Biblioteca pública do mesmo nome.

Estudos ginasiais e secundários no Colégio N.S. de Lourdes e Ateneu Sergipense em Aracaju.

Desde adolescente declamava suas poesias em solenidades estudantis. Teve sua apresentação na imprensa feita por Epifânio Dória (13/01/ 1955 no Sergipe Jornal)e daí em diante publicou poemas, artigos e crônicas em diversos jornais de Sergipe.

Nos anos 50 e 60 participou de programas culturais de emissoras de rádio.

Membro da Arcádia Estudantil do Colégio Estadual de Sergipe (Atheneu), participou da fundação do Clube Sergipano de Poesia.

Seu primeiro livro de poesias, Rosa do Tempo), foi publicado em 1958, em Aracaju, pelo Movimento Cultural de Sergipe. No ano seguinte, iniciando seus estudos universitários em Belo Horizonte, ganhou ali o 1° prêmio no Concurso Universitário de Poesia, e em 1960 um prêmio com o ensaio, João Ribeiro e a História do Brasil, em concurso promovido pela Secretaria de Educação e Cultura de Sergipe. Transferindo-se para Salvador para continuar seus estudos, colaborou ali em revistas universitárias.

Graduada em Filosofia e em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia, recebeu o grau de Doutora, em Psicologia, pela Universidade de Lyon (França), realizando, mais tarde, estágio pós-doutoral na Universidade de Paris XIII.

Na Universidade Federal da Bahia trabalhou no Departamento de Psicologia (do qual foi também chefe), e no Mestrado em Educação do qual foi Coordenadora e uma das fundadoras da ANPED.

Na Universidade Federal de Sergipe foi professora do Departamento de Psicologia e Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação. Professora visitante na Universidade de Nice (França). Prestou serviços a outras Universidades brasileiras e a instituições públicas nacionais como CFE, CNPq, CAPES e outras.

Foi a primeira Secretária Regional da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) em Sergipe (1981-86) e membro do Conselho Nacional dessa entidade científica (1986 a 91).

Além de sua tese de doutorado, L’Ecriture et la Lecture – (1969), defendida em 13 de janeiro de 1970, publicou trabalhos científicos em livros, revistas, anais, e Pesquisa e Realidade no Ensino de 1° Grau, org. (Cortez Editora, São Paulo, 1980). Entre os ensaios, Esboço para uma análise do significado da obra poética de Santo Souza (Aracaju, 1996).

Mais recentemente vem se dedicando ao romance e já publicou:

. Jane Brasil, 1986.
. Ibiradiô – as várias faces da moeda, 1990.
. Preparem os agogôs, (Menção Honrosa no Concurso Nacional de Romance, promovido pela SEC do Estado do Paraná – 1994). 1996.
. Absolvo e Condeno, 2000 (Menção Especial do Prêmio A.J.Cabassa, UBE, 2002)
– Feliz Aventureiro, 2001. (Prêmio A.J.Cabassa, Especial do Júri, UBE, 2002).

Poesia:
– Rosa do Tempo, Movimento Cultural de Sergipe, 1958.
– Baladas do inútil silêncio (com Núbia Marques e Carmelita Fontes), 1965.
– Acaso, 1975.
– Verdeoutono (com Núbia Marques e Carmelita Fontes), 1982.
– Cantos ao Parapitinga ou Louvações ao São Francisco,1992.

Participação em diversas coletâneas (também em jornais e revistas), entre as quais:
– Aperitivo Poético, Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de Aracaju, SE. Edições de 1986/ 87/ 88/ 89.
– Palavra de Mulher, Maria de Lourdes HORTAS (org.), 1979.
– Nordestinos, Pedro Américo de FARIAS (org.), Portugal, 1994.

Prêmio: 1º lugar no Concurso Universitário de Poesia, Belo Horizonte, 1959.

Inéditos: Poemas de Amar (divulgação artesanal)

Sonatas da Quarta Dimensão

Crônicas e contos:
– Retalhos da Vida – coluna mantida na Gazeta de Sergipe -1960/61.

Participação em: Contos e Contistas Sergipanos, SEC, Aracaju, 1979.

Ensaios:
– João Ribeiro e a História do Brasil (prêmio em Concurso de Monografias sobre J. Ribeiro), em: Caderno de Cultura , nº 1, Edição da SEC. de Sergipe, 1960.
– Esboço para uma análise do significado da obra poética de Santo Souza, Gráfica J. Andrade, Aracaju, 1996.
– A Trajetória poética de Núbia Marques, em Caminhos e Atalhos, N. N. Marques, Segrase, Aracaju, 1997.

Fonte:
Prof. Wagner Lemos.

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Hermes Fontes (1888 – 1930)

Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (Buquim, Sergipe, 28 de agosto de 1888 – Rio de Janeiro, a 25 de dezembro de 1930) foi um compositor e poeta brasileiro.

Filho de Francisco Martins Fontes e de Maria José de Araújo Fontes, foi para o Rio de Janeiro em 1898 e bacharelou-se em Direito, em 1911, pela então Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
Fundou o jornal Estréia, com Júlio Surkhow e Armando Mota, em 1904, no Rio de Janeiro. Formou-se bacharel em direito, mas não exerceu a profissão. De 1903 ao final da década de 1930 colaborou em periódicos como os jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias e as revistas Careta, Fon-Fon!, Tribuna, Tagarela, Atlântida, entre outras. Foi também caricaturista do jornal O Bibliógrafo. No período, trabalhou como funcionário dos Correios e oficial de gabinete do ministro da Viação. Em 1913 publicou seu primeiro livro de poesia, Gênese. Seguiram-se Ciclo da Perfeição (1914), Miragem do Deserto (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922) e A Fonte da Mata… (1930), entre outros. A poesia de Hermes Fontes é de estética simbolista.

O êxito como escritor, alcançado muito cedo, não trouxe benefício pessoal ao poeta. “Cantou, constantemente em suas obras, o sentimento idealizado do amor, mas suas relações amorosas eram inconstantes e traziam-lhe sempre, como saldo, uma amarga sensação de enjeitado”, escreve Costa Almeida. Hermes Fontes tampouco conseguiu realizar o sonho de entrar para a Academia Brasileira de Letras. Ele tentou cinco vezes. “De acordo com alguns imortais, seu físico era impróprio para um acadêmico: pequeno, 1,54m, cabeça grande demais, meio surdo e gago, além de extremamente feio”. O poeta conseguiu, contudo, entrar para a Academia Sergipana de Letras.

Poética

Hermes Fontes estreou com o livro Apoteoses. Tinha 19 anos e obteve amplo reconhecimento do seu talento. Dele disse o poeta Olavo Bilac: “É Hermes Fontes um moço, quase um menino cujo livro Apoteoses é uma revelação de força lírica”. O livro influenciará a poesia brasileira no começo do século 20.

O poeta teve sua obra marcada por uma temática obsessiva, a equivalência entre a vida e a morte. “E o voluntário exílio me afigurara/Que ando seguindo o próprio enterramento/E abrindo, em vida, a própria sepultura…”, escreveu de forma premonitória.

“A vida definida por Hermes Fontes”, escreve Almeida Costa, “é o espaço de desagregação do ser; tem o sabor da existência em que os pesares apenas se alteram”.

Ao longo da sua obra, o poeta se dedicou a temas universais, inclusive política, revelando-se, em algum momento, seguidor de idéias anarquistas. “Mas Hermes Fontes se mostra melhor poeta quando trata de assuntos interiores, quando fala de amor e de desilusões pessoais”.

Suicidou-se no Rio de Janeiro, em 1930, aos 42 anos.

Fontes:
Wikipedia
http://www.webartigos.com/articles
http://www.sergipe.com.br/

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