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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 5

2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários 

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.
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Alexandre Sebastião Ferrari Soares
Roselene de Fatima Coito
O SUJEITO NA LÍNGUA E NA HISTÓRIA: DA QUESTÃO DA SUBJETIVAÇÃO
Este Simpósio em Análise de Discurso de orientação francesa será lugar de reflexão sobre as construções de sujeitos e identidades a partir de diversas materialidades. Para pensar este sujeito, pode-se partir dos estudos do filosofo e linguista Michel Pêcheux e do filosofo Michel Foucault. O primeiro enquanto forma-sujeito e, o segundo, enquanto subjetividades constituídas no campo do saber e nas instancias do poder. Enquanto forma-sujeito pensando o discurso em uma teoria da ideologia e em uma teoria do inconsciente e como tal uma teoria dos efeitos de sentido em um tecido histórico que constitui o próprio discurso, já que a ideologia e o inconsciente têm a capacidade de “dissimular em sua própria existência no interior de seu funcionamento produzindo um tecido de evidencias subjetivas”, conforme Pêcheux (1997). Por isso, a forma-sujeito teoriza o funcionamento imaginário da subjetividade, sem deixar de levar em consideração que sujeito e sentido são produzidos na história. 
Destas subjetividades, constituídas discursivamente, a construção das identidades em âmbito sócio-historico. Outrossim, pensar este sujeito constituído discursivamente no campo do saber e na instancia do poder em praticas discursivas que circulam em dadas sociedades de determinadas épocas, tendo em vista que “o novo não está no que é dito mas na volta do seu acontecimento”, segundo Foucault (1999). Diante destes dois olhares sobre a questão do sujeito do e no discurso, propomos a reflexão em torno de dois eixos fundamentais: no primeiro, pensar sobre as relações entre a memória e o discurso e a ausência e a presença, o silêncio e os dizeres quando a memória é considerada tanto falha da língua quanto do esquecimento necessário à constituição do efeito-sujeito; no segundo, como este sujeito discursivizado é subjetivado no saber e no poder. Diante destes dois eixos propostos, refletir sobre a noção de identidades latino-americanas na literatura, na mídia, enfim, em imagens que correm o mundo sobre o que é ser latino e, mais especificamente, ser brasileiro. 
Para tanto, as mais variadas “superfícies materiais” ou “lugares de inscrição do acontecimento” comportam, no dizer, a constituição destas subjetividades, que, na língua se materializam no discurso e na história, em práticas discursivas – estabilizadas ou não- que vão constituindo o saber, não necessariamente em uma linearidade de acontecimentos, mas no acontecimentos das suas discursividades. Então, pensamos nestas materialidades ou lugares de inscrição em suas relações diversas em um arquivo, não como um mero reflexo passivo de uma realidade institucional mas ordenado por sua abrangência social, já que o arquivo permite trazer á tona dispositivos e configurações significantes, tendo em vista que a Analise do Discurso passou do domínio doutrinário ou institucional para a história social dos textos, como preconiza Jacques Guilhaumou. Diante disso, propomos que a questão da subjetividade constituída discursivamente na forma-sujeito e no campo do saber e na instancia do poder, seja pensado na confrontação de series arquivistas, nos regimes múltiplos de produção, na circulação e na leitura, no que se refere ao gênero, à religião, à diversidade sexual, à etnia.
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Paulo de Tarso Galembeck
Isabel Cristina Cordeiro
O TEXTO ESCRITO E FALADO: ASPECTOS COGNITIVOS E SOCIOINTERACIONAIS
De acordo com a formulação mais recente, o texto constitui um evento comunicativo, no qual concorrem ações linguísticas, sociocognitivas e interacionais. Essa concepção coloca em realce a dimensão procedimental do texto e enfatiza: 
a) a atuação dos participantes do evento comunicativo e as ações (conscientes e finalisticamente orientadas) por eles executadas; 
b) a criação de representações, a partir do contexto sociocognitivo e ideacional partilhado pelos interlocutores; 
c) o estabelecimento do sentido textual, a partir das representações criadas e das ações executadas por interlocutores social e historicamente situados; 
d) a continuidade entre o texto e o contexto e entre os processos mentais e o mundo: o texto dialoga com o contexto e o sentido textual flui dessa relação. 
A partir das ideias anteriores, busca-se congregar trabalhos que considerem a dimensão sociocognitiva e interacional do texto, os processos de sua construção, a formulação do sentido e das representações e o papel do contexto nessa formulação e atuação consciente e deliberada dos interlocutores na consecução dos fins almejados e dos efeitos de sentido pretendidos. Serão consideradas, preferencialmente, propostas que digam respeito aos seguintes temas: 
a) papel dos elementos lexicogramaticais e dos procedimentos discursivos na construção do texto, na criação das representações e no estabelecimento do sentido; 
b) marcas de interação, de subjetividade e de intersubjetividade na construção do texto e no estabelecimento das relações entre os participantes; 
c) gêneros textuais: conceituação e dinamismo, de acordo com a perspectiva sociocognitiva e interacional; 
d) textos sincréticos: relação entre o verbal e outras linguagens e construção do sentido a partir do diálogo entre as várias linguagens; 
e) intertextualidade e polifonia na construção do texto, no estabelecimento do sentido textual e na criação do universo comum partilhado pelo interlocutores; 
f) pressuposição e outras relações implícitas presentes na construção do discurso; 
g) texto e contexto: coextensividade e relações mútuas; papel do contexto na criação das representações; 
h) texto e ensino: o aluno como produtor do sentido e das representações, a partir de sua competência textual e de seu conhecimento do mundo; 
i) recursos argumentativos na produção do texto e conseqüente orientação do leitor a determinados posicionamentos: convencimento, persuasão e recursos de envolvimento do ouvinte/leitor; 
j) texto e interação em diferentes situações de uso (escolar, profissional, institucional). 
Os temas apresentados correspondem a diferentes aspectos a partir dos quais pode ser considerado o texto enquanto evento sociocomunicativo e interacional, por isso poderá haver propostas que reúnam dois ou mais deles. Essas propostas, aliás, não constituem campos estanques ou exclusivos, mas constituem diferentes aspectos pelos quais pode ser considerado o fenômeno textual. Cabe esclarecer que abrangência dos temas corresponde diretamente aos diferentes aspectos a partir dos quais o texto pode ser enfocado, dentro da visão sociocognitiva e interacional. Por ess motivo, os trabalhos selecionados serão agrupados de acordo com as afinidades temáticas e/ou metodológicas e com a natureza do corpus da pesquisa. . O importante – reitere-se – será a possibilidade de apresentar um amplo painel dos estudos do texto: temas mais recorrentes, tipos e gêneros textuais que têm recebido maior atenção por parte dos pesquisadores e contribuições mais recentes no âmbito do estudo do texto e do discurso. Também se busca congregar pesquisadores de diferentes instituições, uma vez que, em nosso país, vários são os grupos que se dedicam ao estudo do texto.
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Elaine Cristina de Oliveira
Cristiane Carneiro Capristano
ORALIDADE, LETRAMENTO E SUAS RELAÇÕES
Pode-se afirmar que o interesse de linguistas, fonoaudiólogos e profissionais da educação em examinar fenômenos linguísticos relacionados à fala e à escrita com base em teorias linguísticas e/ou linguístico-discursivas não é recente. Esse interesse volta-se tanto para fenômenos linguísticos que se manifestam em contextos considerados como de normalidade, quanto para fenômenos que se manifestam em contextos considerados como patológicos. Uma parcela significativa desses profissionais compartilha a idéia de que os fatos linguísticos falados e escritos não devem ser compreendidos como restritos ao código (gráfico ou sonoro). 
Contrariamente, supõe que o funcionamento da fala e da escrita deve ser investigado no âmbito das praticais sociais da oralidade e do letramento, bem como no âmbito de suas relações. Ou seja, há, entre esses profissionais, um relativo consenso de que, para compreendermos, de fato, o funcionamento da fala e da escrita, é necessário nos interrogarmos, também, sobre as práticas sociais em que esses fatos linguísticos são engendrados. Esse relativo consenso tem possibilitado uma melhor compreensão da fala e, correlativamente, das práticas sociais orais, bem como da escrita e, também correlativamente, das práticas sociais letradas, assim como tem permitido investigar relações possíveis entre essas duas formas de enunciação. O presente simpósio tem como propósito constituir um lócus para a apresentação e discussão de pesquisas (concluídas ou em andamento) que elegeram fenômenos linguísticos do oral/falado e do letrado/escrito como campo de investigação e de atuação, bem como pesquisas voltadas para a reflexão sobre relações entre o oral/falado e o letrado/escrito. 
De forma mais específica, serão acolhidos trabalhos cujo propósito mais geral seja o de examinar e debater, a partir de diferentes perspectivas linguísticas ou linguístico-discursivas, temas relacionados, por exemplo: 
(a) à aquisição da linguagem em seu modo de enunciação falado, tanto aquisição normal quanto a aquisição desviante; 
(b) à aquisição da linguagem em seu modo de enunciação escrito, de sujeitos de diferentes níveis de escolaridade; 
(c) aos vínculos entre esses diferentes modos de enunciação na aquisição da linguagem; 
(d) à discussão sobre letramento e alfabetização; 
(e) à relação entre o falado e o escrito em diferentes contextos; 
(f) à emergência da escrita no contexto da tecnologia digital etc. 
Com este simpósio, almeja-se aprofundar e divulgar conhecimento científico sobre estudos que tratam da fala e da escrita como fenômenos intrinsecamente ligados a práticas sociais e permitir o estabelecimento de diálogos entre diferentes áreas da Linguística e da Linguística Aplicada com a Fonoaudiologia e a Pedagogia, na medida em que a compreensão de fenômenos do oral/falado e do letrado/escrito, bem como suas possíveis relações, estão entre as temáticas que preocupam investigadores desses diferentes campos de conhecimento. Almeja-se, igualmente, fornecer subsídios para o trabalho clínico e o educacional com a linguagem e fomentar o desenvolvimento de investigações sobre os fenômenos do oral/falado e do letrado/escrito em diferentes níveis da formação acadêmica.
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Fabiane Cristina Altino
Elvira Barbosa da Silva
PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO: ESTUDOS DIACRÔNICOS EM DEBATE
A pesquisa sobre a história do português brasileiro – PB, baseada em documentos escritos de diversas naturezas, vem ganhando corpo nas universidades brasileiras já faz algum tempo. O que antes era um território quase exclusivo da História, hoje é também uma área importante para a construção do passado da nossa língua. Pensando nisto, um grupo de pesquisadores no Brasil, inseridos no projeto interinstitucional Para a História do Português Brasileiro – PHPB, sob a coordenação do Dr. Ataliba Teixeira de Castilho, vem trabalhando para descrever e analizar o português brasileiro. 
O projeto Para a história do português paranaense: estudos diacrônicos de manuscritos dos séculos XVII a XIX – PHPP, projeto integrante do PHPB, que propõe a pesquisa sobre a história do português brasileiro baseada em documentos que foram escritos durante os séculos XVII, XVIII e metade do XIX, nas antigas vilas que hoje se constituem municípios do estado do Paraná, vem propor um espaço de reflexão sobre os dados diacrônicos do PB. Para o projeto PHPP é o estudo exaustivo de dados coletados, neste caso, através da escrita que fornece, além de uma visão panorâmica da língua, a possibilidade de fazer seu inventário e documentar o grau de aculturação presente na língua, quer seja no espaço geográfico quer seja no espaço social, de realizar o estudo da formação da língua e da sua história. 
Para chegar ao conhecimento do PB, segundo Mattos e Silva (2004), os estudos descritivos do português brasileiro devem perpassar 
(i) os estudos da dialetologia, com os atlas regionais e nacional; 
(ii) com o trabalho da dialetação vertical, conduzida pela Sociolinguística; e 
(iii) do “levantamento exaustivos de depoimentos diretos ou indiretos sobre todos os processos linguageiros havidos a partir do início da colonização”. 
Há, desta forma, um número incalculável de manuscritos, oficiais ou não, à espera de uma edição confiável e de estudos linguístico-filológicos, que possam complementar as pesquisas que hoje buscam lançar luzes à história do PB, registrando, descrevendo, analisando e comparando dados oriundos de um corpus diacrônico referente à documentação, em sua maioria, manuscrita produzida no Brasil. Para tanto, este Simpósio se increve como veiculador de estudos sobre a linguagem em seus diferentes aspectos do ponto de vista diacrônico, além de pesquisas que possam delinear a sócio-história do português, estudando a ocupação demográfica, a formação das variedades culta e popular. É objetivo a disseminação de trabalhos sobre a mudança gramatical e sobre o léxico do PB em suas alterações fonológicas, morfológicas e ortográficas, como também os estudos que possam contribuir para melhor compreensão das dificuldades de aprendizagem da língua materna. 
Deste modo, esta proposta de Simpósio pretende ser o espaço de discussão sobre os trabalhos de cunho diacrônico realizados atualmente, reunindo pesquisadores que se ocupam desta área de estudo para descrever e analisar a(s) norma(s) vigente(s) na época e, assim, contribuir para uma história do PB.
Fonte: 
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Arquivado em Simpósio, Universidade Estadual de Maringá

2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 4


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Luzmara Curcino Ferreira
Henrique Silvestre Soares
LER NA ATUALIDADE: HISTÓRIA, PRÁTICAS E DISCURSOS

A leitura é ao mesmo tempo um gesto interpretativo individual que, no entanto, é regido por diferentes formas de injunção social. Ela é também uma prática culturalmente delimitada, uma vez que se altera ao longo da história assim como de uma cultura a outra. Textos, gestos de leitores e objetos culturais são relacionados e explorados segundo crivos teóricos particulares de modo a permitirem a estudiosos da leitura oriundos de diferentes campos de saber (teóricos da comunicação, linguistas, críticos literários, professores, psicólogos, historiadores etc.) descreverem e sistematizarem essa prática que, por si só, não deixa marcas tangíveis de sua realização que possam atestar uma homogeneidade em sua prática ou uma singularidade quanto aos sentidos produzidos na apropriação dos variados textos a que estamos expostos.

A proposição deste GT visa congregar pesquisadores da leitura, especialmente aqueles voltados para a análise das representações discursivas que orientam nossas concepções sobre a leitura assim como nossa maneira de ler. Essa orientação pode se estabelecer de duas maneiras: de um lado, pela produção e reprodução de discursos sobre a leitura que elegem não somente os tipos de textos como também as formas legítimas de se ler/de se ensinar a leitura; de outro, pelo controle exercido pelos próprios textos em circulação e que, por suas estratégias de escrita, pelo modo como selecionam, priorizam ou empregam as linguagens, ordenam a maneira, enfim, o ritmo como nosso olhar leitor deve percorrê-los e os sentidos que a eles devemos ou podemos atribuir.

Nosso interesse é congregar estudiosos que abordem em seus trabalhos de pesquisa a leitura como objeto de conhecimento, em uma de suas várias dimensões – como prática educacional, estética, social, cognitiva, histórica, subjetiva, tecnológica etc. – mas especialmente em sua dimensão discursiva, ou seja, como prática de interpretação de textos historicamente orientada, de maneira a contribuir com uma melhor compreensão acerca do que faz o leitor quando lê, ou como ele exerce (ou não) essa prática, levantando as coerções ou liberdades que atuam quando do exercício da leitura, no nível da materialidade textual ou não, definindo assim os limites ou extensões da intepretação. Este GT, portanto, pretende atuar como um espaço privilegiado de debate sobre o leitor e suas práticas de leitura, especialmente em relação ao leitor brasileiro na atualidade. Para tanto, serão bem vindos trabalhos que abordem as formas peculiares de leitura de comunidades de leitores diversas, especialmente aquelas, tão heteróclitas assim como desconhecidas, que podemos designar, com base na definição dos historiadores culturais da leitura, como novos leitores. São aqueles leitores, em sua grande maioria, não pertencentes ao universo sociocultural erudito que, graças à expansão dos textos e às novas tecnologias de produção e circulação de textos impressos e eletrônicos da atualidade, têm travado contato mais freqüente com a escrita, por meio de textos da cultura de massa mas também da cultura letrada.

Objetivamos, assim, fomentar a discussão sobre os discursos sobre a leitura e seu papel na formação dos indivíduos na atualidade, as novas formas de produção e circulação de textos e seu impacto sobre a leitura, as estratégias de mercado que vêem no leitor um consumidor e as políticas públicas voltadas para a leitura, compreendendo assim as injunções de diversas ordens que determinam, em alguma medida, as condições de produção da leitura na atualidade. Essas discussões nos permitirão levantar prováveis continuidades e/ou descontinuidades nas práticas e nas representações discursivas da leitura e do leitor ao longo da história, o que pode nos permitir apreender melhor o fenômeno e suas variações e avançar hipóteses de trabalho e propostas de atuação no âmbito da pesquisa ou no âmbito político-pedagógico, junto a órgãos governamentais e a intituições escolares e universitárias, entre outros.

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Neiva Maria Jung
Cristina Marques Uflacker
LETRAMENTO, ETNOGRAFIA, INTERAÇÃO E APRENDIZAGEM

Neste Simpósio, tem-se como objetivo reunir trabalhos que examinam práticas sociais letradas, mais especificamente, estudos que buscam descrever e compreender os usos sociais da escrita e as suas implicações para a aprendizagem escolar.

Os pressupostos teórico-metodológicos são os estudos sobre letramento (STREET, 1984, 1988, 2000, 2003, 2004; HAMILTON, 2000; BARTON, 1994; BARTON, HAMILTON e IVANIC, 2000; BAINHAM, 2004; KLEIMAN, 1995, 2004; OLIVEIRA, 2010), que apresentam e discutem letramento como prática social. De acordo com Street (1995), os usos da leitura e da escrita são socialmente determinados, têm valor e significado específico para cada comunidade, portanto, não podem ser tratados isoladamente como “neutros”.

Nesse sentido, os Novos Estudos de Letramento (NLS) representam uma nova tradição de pesquisa, por considerarem a natureza do letramento, pois ele pode variar de acordo com o tempo e o espaço e está articulado com as relações de poder (STREET, 2003). Para descrever esses usos sociais da escrita, Street recomenda a realização de trabalhos etnográficos, pois somente esses trabalhos seriam capazes de descrever a complexidade dos fatores envolvidos em práticas situadas de uso da escrita e compreendê-los em nível micro. Trata-se de uma metodologia que permite reconhecer os fatores culturais e sociais envolvidos nas práticas de escrita, ou seja, como as pessoas fazem uso da escrita e como elas interagem umas com as outras ao fazê-lo, e qual a relação desses modos de participação com as culturas que constituem os participantes, articulando a compreensão micro com as relações macrossociais.

Para a descrição micro, a articulação com os estudos de fala-em-interação social também tem se mostrado bastante produtivos. A perspectiva da Análise da Conversa Etnometodológica (ACE) (SACKS, SCHEGLOFF e JEFFERSON, 1974; LODER; JUNG, 2008, 2009) entende a fala como uma forma de ação social, isto é, como uma forma de fazer coisas no mundo. Desse modo, a ACE investiga como as pessoas envolvidas na interação compreendem o que sua fala e outras condutas estão fazendo e estas compreensões são evidenciadas nas sequências organizadas da fala. Essa compreensão permite analisar de que modo as pessoas presentes em um evento de letramento efetivamente se engajam nesse evento, mostrando a sua participação e aprendizagem, ou seja, neste viés como as pessoas por uma série de práticas operacionalizam ações e atitudes orientadas para a confirmação, modificação ou ampliação do conhecimento (ABELEDO, 2007; SCHEGLOFF, 1991).

Nesse caso, o espaço para a participação deve ser construído na escola para que todos possam participar e ter a palavra para dizer o que estão aprendendo e o que está difícil de aprender, o que possibilita que os alunos passem a ser protagonistas de seus processos de aprendizagem (SCHULZ, 2007). Em síntese, este simpósio propõe reunir trabalhos que descrevam práticas de letramento em sala de aula que evidenciem efetivamente a participação de professores e alunos, propostas de práticas para a aprendizagem escolar, que descrevam o papel das novas tecnologias nessas práticas e proporcionar um espaço para que outras práticas sociais de uso da escrita possam ser descritas e apresentadas, como práticas religiosas, procurando reconhecer a sua contribuição (ou não) para as práticas letradas escolares.

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Maria Regina Pante
Elódia Constantino Roman
LINGUÍSTICA FUNCIONAL: TENDÊNCIAS E INTERFACES

Este simpósio tem por objetivo constituir-se como espaço de discussão de trabalhos de pesquisadores de graduação e de pós-graduação da Universidade Estadual de Maringá e de outras instituições nacionais e internacionais que promovam discussões integradas das contribuições de base funcionalista, sob os mais diferentes modelos de análise textual e discursiva, relacionando tais investigações com possíveis interfaces (estudo de mudanças históricas de itens e construções; interação sociodiscursiva, em que a língua é vista como atividade estruturada e cooperativa; estudos relativos às competências básicas; estudos de contexto e contexto, associados a questões de ordem pragmática entre outros).

Com base na perspectiva que trata a linguagem como um instrumento de interação verbal e toma, dessa maneira, as propriedades formais das unidades linguísticas, descrevendo-as em termos de intenção comunicativa em que são produzidas para a descrição de língua em uso, considera-se, assim, os vários níveis de análise da língua portuguesa no Brasil e em outros países em que ela é falada. As análises aqui propostas devem ser compreendidas como manifestações complexas que concebem as atividades linguísticas de sujeitos que, primordialmente, partem de escolhas comunicativamente adequadas e operam as variáveis dentro de condicionamentos ditados pelo processo de produção de enunciados em condições reais de uso. Ou seja, as investigações avaliam as condições dessas escolhas para o cumprimento de determinadas funções; as condições de produção dessas estruturas; as estratégias e os elementos que efetivamente operam para a construção textual/discursiva.

Com base nesse pressuposto, as diferentes pesquisas a serem expostas podem considerar desde as unidades menores, como itens que, ao serem construídos e expandidos pelo uso foram integrando outras categorias (processos de gramaticalização interpretados aqui, nos termos de Hopper & Traugott (1993); Traugott, (1995,1999); Traugott & König (1991), como processo de mudança linguística em que itens ou construções menos gramaticais passam em determinados contextos a assumir traços morfossintáticos, semânticos e pragmáticos de itens ou construções mais gramaticais ainda quanto unidades maiores que a oração – um período ou uma sequência discursiva e extensões distintas). Nesse caso, considera-se tanto a mudança devido ao aumento gradual da pragmatização do significado (inferência) quanto o aumento de abstratização do item linguístico (estratégias metafóricas), evidenciando parte de um uso considerado mais concreto para um uso mais abstrato-expressivo que implica situações discursivas distintas.

Aceitam-se, no presente simpósio, trabalhos que possam apresentar e caracterizar essas possíveis interfaces com os diferentes modelos de gramática de base funcionalista – Gramática Sistêmico-Funcional, Gramática Funcional, Modelo de Halliday (1989), Dik (1989), Dik e Hengeveld (1997) Linguística Textual, Pragmática entre outros. Mediante tais análises, objetiva-se compreender como as regularidades de certas escolhas podem alterar o sistema linguístico.

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Helson Flávio da Silva Sobrinho
Maurício Beck
O CAMPO PARADOXAL DAS IDEOLOGIAS, ENTRE IDENTIFICAÇÕES, SIMETRIAS E RUPTURAS

A proposta deste Simpósio é aprofundar o debate sobre o campo paradoxal das ideologias a partir das noções de identificação, contraidentificação e desidentificação em Pêcheux e as noções freudianas de identificação. Para Pêcheux, no transcurso do século passado, persistiu certa tendência de produção-reprodução do Estado (de tipo prussiano, espécie de fortificação ocupada) nas inversões/subversões de aparelhos ideológicos dos países sede do “socialismo realmente existente”.

Nestes enclaves assimétricos no interior do desenvolvimento geral da acumulação do Capital, não deixaram de funcionar dispositivos estratégicos e práxis ideológico-discursivas de contraidentificação “simetrificantes do adversário vencido”(Pêcheux, 1982: 112). Essa leitura pecheuxtiana coloca novos problemas em relação ao estudo dos antagonismos no movimento do real, impondo-nos o questionamento sobre quais formas de inversões/subversões rompem radicalmente a ponto de não funcionar como espelho invertido do Capital-Estado? Na Análise do Discurso, as contradições são inerentes aos discursos, afinal, o dito pode ser negado e contrariado dentro de uma mesma formação discursiva, sem que, por isso, haja paradoxo no funcionamento dessa formação no âmbito de uma dada formação ideológica.

Talvez seja por isso que, nas tentativas esquerdistas de subversão do poder ao longo do século XX, temos mais uma troca de gestores na extração de mais-valia, que, de fato, uma negação do Capital, conforme Mészarós, a despeito de todas as conquistas sócio-históricas alcançadas, impensáveis na periferia do sistema capitalista antes do advento da Revolução de 1917. Para aprofundarmos essa questão, é preciso antes entender como funcionaram essas formas simetrificantes nas lutas antagônicas do século XX mencionadas por Pêcheux. Entre as abordagens pertinentes para esse problema, há uma via ainda pouco trabalhada: a da articulação entre as noções de indentificação, contraidentificação e desidentificação em Pêcheux, com as noções freudianas de identificação (mecanismo de defesa) e sugestão propostas em “Psicologia das Massas” e “Análise do Eu”. Além disso, as elaborações freudianas acerca do funcionamento de aparelhos como a igreja e o exército podem contribuir na investigação dos mecanismos de produção e reprodução da forma de produção capitalista.

Ao mesmo tempo, a crítica de Pêcheux à práxis do Estado de Emergência em que tudo se justifica em nome da urgência pode nos remeter aos estudos de Agamben acerca do Estado de Exceção e às formas de segregação (homo sacer) engendradas pelo aparelho de Estado em relação à população (Gulgag, no caso do stalinismo), formas de segregação essas que já foram adiantadas por Gramsci, quando tratou da divisão social do trabalho entre Homo faber e Homo sapiens. O trabalho de um fogo crítico em relação à teoria e às práticas das forças anticapitalistas do século XX condiz com a postura teórico-política desafiadora de Pêcheux e converge com a postura de Zizek de que é necessário que a autocrítica do materialismo histórico seja mais rigorosa e mais contundente que a crítica externa, a de seus adversários políticos (liberais, pós-modernos).

O desenvolvimento dessas questões, neste Simpósio, pode ajudar a compreender, de modo mais profícuo, como a língua e as linguagens são cotidianamente trabalhadas na condição de campos de força em meio aos (e não como um meio ou mero espelhamento dos) variados processos sociais de resistência-revolta-revolução, desde a atualização de fronteiras enunciativas, com a manutenção de não-ditos no silêncio, ao atravessamento dos seus limites, configurando novas posições do dizer, removendo \”ininterruptamente os pontos discursivos de assujeitamento ideológicos e os locais a partir dos quais é possível enunciar oposição, sem que a lógica dessa remoção jamais [possa] ser descrita em um sistema fechado\” (Pêcheux, 1982: 119).

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 2

2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Vanderci de Andrade Aguilera
Catarina Vaz Rodrigues
ESTUDOS GEOSSOCIOLINGUÍSTICOS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Os estudos dialetológicos no Brasil bem cedo despertaram a atenção de filólogos, docentes da Língua Portuguesa e até mesmo de autodidatas. Desse interesse nasceram reflexões e obras como as de Amaral (1920) e Nascentes (1923), dando o impulso inicial para que outros pesquisadores se voltassem não apenas para os fatos linguísticos do português europeu, mas para o português que se transplantou para a România Nova, seja materializado na pena do escritor, seja articulado na boca do povo. Nascentes reconhece que o Dialeto Caipira (AMARAL, 1920) foi o inspirador de O Linguajar Carioca tanto na metodologia de coleta dos dados como na estruturação da obra: ambas discutem aspectos fonéticos, lexicais e morfossintáticos das duas realidades linguísticas – a paulista e a carioca.

Nesta mesma linha teórica, e na sequência, vêm os trabalhos sobre os falares nordestinos, de Marroquim (1934) e sobre os falares mineiros e goianos, de Teixeira (1938), mostrando para a academia pelo menos uma parte do Brasil linguístico real. Essas obras dialetológicas pioneiras vão instigar pesquisadores da época para a elaboração de um atlas linguístico do Brasil. Assim é que Silva Neto (1957) e Nascentes (1958 e 1961), amparados pelo Decreto de 1952 que atribuía à Casa de Rui Barbosa a responsabilidade pela coordenação e desenvolvimento de tão ousado projeto, lançam para este fim as sementes teórico-metodológicas sob a forma de bases e guias. Se a ideia de um atlas nacional não frutificou de imediato, a proposta foi se enraizando pouco a pouco pelas Faculdades de Letras de tal modo que, em menos de 40 anos, cinco atlas afloraram sucessivamente em pontos diversos: na Bahia, em Minas Gerais, na Paraíba, em Sergipe, no Paraná enquanto outros estavam em gestação na Região Sul, no Ceará, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos últimos anos do século passado, lança-se o projeto do Atlas Linguístico do Brasil com uma proposta mais moderna que associa os princípios teórico-metodológicos da Geolinguística aos da Sociolinguística.

Dessa grande árvore, brotaram inúmeros ramos em quase todos os 26 estados brasileiros, tais como no Pará, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Espírito Santo, entre outros. Cardoso (2002), diretora presidente do ALiB, lembra muito bem que a fusão dos princípios geolinguísticos com os sociolinguísticos nasceu de dois aspectos fundamentais:

“(i) o reconhecimento das diferenças ou das igualdades que a língua reflete e

(ii) o estabelecimento das relações entre as diversas manifestações linguísticas documentadas e circunscritas a espaços e realidades pré-fixados”.

Além desses aspectos, concordamos com Moreno Fernández (1998) quando reafirma que “as atitudes do falante influem decisivamente nos processos de variação e mudança linguística que se produzem nas comunidades de fala, pois uma atitude favorável ou positiva pode fazer

(i) uma mudança cumprir-se mais rapidamente;

(ii) que em certos contextos predomine o uso de uma língua ou de um dialeto em detrimento de outra(o);

(iii) que certas variantes linguísticas se confinem a contextos menos formais e outras predominem nos estilos cuidados.

Diante desse panorama produtivo e multifacetado e sabendo que a língua não é somente um complexo de variedades regionais, mas também uma superposição de variedades sociais que implica valores a elas atribuídos, propomos o presente Simpósio com os seguintes objetivos:

(i) congregar pesquisadores de várias IES para apresentar estudos e projetos de Geolinguística e de Sociolinguística, inclusive de crenças e atitudes sociolinguísticas, em andamento no Brasil;

(ii) descrever e discutir aspectos da variação diatópica e diastrática do português;

(iii) discutir aspectos teóricos e metodológicos relacionados aos estudos geossociolinguísticos.

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Cláudia Valéria Dona Hila
Elvira Lopes Nascimento
FERRAMENTAS DE ENSINO E PRÁTICAS EM SALA DE AULA

Na perspectiva do Interacionismo Sociodiscursivo (BRONCKART, 2006; 2008) a atividade do professor é instrumentada. Isso quer dizer que a relação entre o docente e o seu objeto de ensino é mediada por inúmeras ferramentas, as quais:

(a) asseguram o encontro do professor com o objeto teórico a ser internalizado;

(b) contribuem para modificar os modos de pensar, agir e falar tanto dos alunos como também dos próprios professores;

(c) apresentam-se semiotizadas e

(d) conseguem promover a reflexão daqueles que delas se utilizam.

Schneuwly (2000) argumenta que as ferramentas podem ser de natureza material e discursivas. Entre as primeiras se incluem as sequências didáticas, as oficinas, os projetos temáticos e os inúmeros materiais de sala de aula que, se adequados ao planejamento do professor, funcionam como mediadores do processo de ensino-aprendizagem, tais como: os livros didáticos, os paradidáticos, os textos de divulgação cientifica, os textos literários, as obras de referência, os livros de consulta, os jornais, as revistas, os jogos, os vídeos e os próprios gêneros textuais, em diferentes mídias e linguagens. Entre as segundas, se incluem as ferramentas de natureza discursiva, como as ações e os gestos didáticos dos professores ao presentificar o objeto em sala de aula (NASCIMENTO, 2011).

Hila (2011) amplia essa discussão exemplificando outras ferramentas significativas para o movimento de internalização, tais como: as sessões reflexivas, os planos de aula, a reescrita, o estilo individual de cada professor, dentre outras. Colaborando com a discussão, Wirthner (2004;2007) compreende que as ferramentas didáticas ainda definem, em grande parte, o ensino, pela maneira como se propõem a abordar, apresentar ou recortar o objeto a ser ensinado e, nesse sentido, elas também influenciam as concepções de ensino e de linguagem daqueles que as empregam. Por isso mesmo, o uso de ferramentas em sala de aula pode ser uma fonte de aprendizagem e de desenvolvimento tanto para o professor, como para o aluno e, sendo assim, conhecer as potencialidades das inúmeras ferramentas que o docente têm a sua disposição é fundamental para o processo formativo de todos aqueles envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.

Dessa forma, o objetivo desse simpósio é reunir trabalhos que, diante das práticas de linguagem, nos eixos de ensino- leitura, produção e análise lingüística- evidenciem o papel das ferramentas (de quaisquer natureza) para gerar práticas significativas em sala de aula, exatamente porque auxiliam o processo de internalização e podem gerar o desenvolvimento dos alunos. As dificuldades encontradas na formação inicial e continuada de professores de Língua Portuguesa para promoverem a internalização de diferentes objetos teóricos justificam a organização deste simpósio, por propiciar reflexões tanto sobre os subsídios prático-metodológicos que dão suporte à formação, quanto ao desenvolvimento de ferramentas didáticas, considerando a sua relação e adequação ao projeto de ensino do professor, assim como quanto à busca de identificação e compreensão dos agires realizados por professores durante o planejamento, elaboração e aplicação dessas ferramentas. O conhecimento, a discussão e a aplicação de procedimentos pedagógicos atualizados é o fio condutor dos pesquisadores integrados a este simpósio.

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Sírio Possenti
Sonia Aparecida Lopes Benites
FÓRMULAS E ESTEREÓTIPOS: RELAÇÕES E CONDIÇÕES DE FUNCIONAMENTO

Textos-fórmulas, como provérbios, ditados, máximas, adivinhas, piadas e slogans são enunciados que apresentam estruturas linguísticas relativamente fixas, em geral breves, além de um determinado ritmo. Seu funcionamento se caracteriza pela repetição, que os legitima, tornando-os reconhecidos e reconhecíveis em uma comunidade de falantes. Considerando essa forma de funcionamento, Maingueneau (2006) classifica-os em:

a) fórmulas autônomas ou destacadas, independentes do contexto, com significante e significado inalteráveis, memoráveis;

b) fórmulas destacáveis, estruturas passíveis de serem destacadas de um texto e convertidas em pequenas frases que passam a circular de forma também autônoma.

De fato, algumas dessas frases são criadas exatamente para isso, como é o caso dos slogans publicitários e políticos. Embora tenham um contexto histórico bastante relevante, não possuem um contexto textual imediato imprescindível para seu “funcionamento”. Contudo, existem também aquelas que são destacadas de seus contextos textuais originais – e o são graças a essa estrutura frasal específica, somada a seu conteúdo generalizante e a um ethos solene. Nestes casos, apesar de fazerem parte de um texto, sua estrutura faz com que se sobressaiam dentre os outros enunciados e passem a ser empregadas como fórmulas.

Maingueneau (2010) falará, assim, em destacamento constitutivo, para referir-se a enunciados que nascem destacados (como os provérbios e os slogans publicitários), e em destacamento por extração, para fazer menção às citações. A aforização é exatamente o regime enunciativo implicado em um enunciado destacado por extração. Em outras palavras, o regime de enunciação aforizante torna um enunciado passível de ser destacado de seu contexto original. Por fim, lembramos os estereótipos sociais, elementos também caracterizados pela cristalização, e que podem ser vitais para o funcionamento de um texto, tanto na medida em que implicam posições ideológicas ou culturais quanto por serem cruciais para o próprio gênero em que aparecem (para muitas piadas, por exemplo).

A estereotipia, segundo Amossy (2005), “é a operação que consiste em pensar o real por meio de uma representação cultural preexistente, um esquema coletivo cristalizado” (p. 125). Situando-se em certo tipo de exterior constitutivo, ela é condição (parcial, pelo menos) de funcionamento dos textos-fórmulas, e está fortemente ligada ao humor e às verdades correntes, além de desempenhar “papel essencial no estabelecimento do ethos” (AMOSSY, 2005, p. 125).

O presente simpósio tem os seguintes objetivos: reunir estudos sobre os textos-fórmulas e estereótipos e suas eventuais relações mútuas; estudar as condições de funcionamento dos textos-fórmula (sua circulação, seus sentidos, suas eventuais adaptações), relacionando-os com as verdades correntes ou com pretensas formulações de verdades. Poderão ser tomados como objetos de análise, entre outros, os provérbios, os slogans e as piadas que operam com clichês e estereótipos.

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Vera Wannmacher Pereira
Onici Claro Flôres
LEITURA E ESCRITA: ESTUDOS PSICOLINGUÍSTICOS E INTERFACES

O Simpósio “Leitura e escrita: estudos psicolinguísticos e interfaces” propõe-se a considerar as dificuldades evidenciadas por estudantes dos diversos graus de ensino (fundamental, médio e superior) em relação à leitura (compreensão/ interpretação) e à escrita. As dificuldades dos estudantes evidenciam-se nos escores alcançados em Língua Portuguesa em provas oficiais nacionais (SAEB, ENEM, ENADE) e internacionais (PISA), manifestando-se com intensidade nos comentários dos professores, dos familiares, dos empregadores e da sociedade em geral.

Nesse quadro, a leitura e a escrita constituem-se em prioridade educacional de grau máximo, exigindo espaços e financiamentos públicos para o desenvolvimento de pesquisas e demandando condições mais favoráveis para seu ensino. Em vista disso, o presente Simpósio enfoca justamente o tema – leitura e escrita, examinando cada um dos tópicos, individualmente, e em suas inter-relações. Do ponto de vista teórico, a temática situa-se na área de estudos da Psicolinguística, segundo a qual a leitura e a escrita são consideradas como processos cognitivos, que exigem do leitor e do escritor procedimentos diferenciados, embora convergentes.

Dessa forma, este Simpósio assume a relevância dos trabalhos de interfaces da Psicolinguística – internas (Estudos do Texto e do Discurso, Pragmática) e externas (Literatura, Psicologia, Sociologia, Informática, Educação, Fonoaudiologia, Neurociências). A presente proposta de trabalho relaciona as pesquisas sobre leitura e escrita que, teoricamente, tanto podem ser abordadas em separado como em conjunto, considerando-as interativamente. É útil, então, salientar que, se existem questões não respondidas em relação à leitura, apesar do número de pesquisas feitas e de pesquisadores envolvidos, há que acrescentar que as dúvidas e dificuldades se avolumam quando se aborda a escrita. Não se escreve em um só gênero nem em um só tipo de sequência.

A ocasião social que faz emergir a necessidade social da escrita tem suas exigências e elas precisam ser atendidas, a fim de que o papel da atividade social da qual a escrita faz parte seja preenchido. Assim, mesmo adultos alfabetizados têm muitas dificuldades de leitura e de escrita, mesmo profissionais têm de se esforçar bastante para compreender um texto e escrever da forma requerida. Enquanto isso a vida social prossegue em seu ritmo e avultam e se diferenciam os gêneros discursivos (BAKTHIN, 2003) em circulação. O certo é que, a partir do momento em que se assume a tarefa de escrever um texto até o momento de dar-lhe o destino para o qual se fez necessário escrevê-lo, atravessam-se distintas fases – a de pré-escrita, a de escrita, propriamente, e, por fim, a de revisão ou pós-escrita, segundo o destaca Soares (2009). Em suma, os dois processos se relacionam, mas não se reduzem um ao outro, exigindo planejamento de atividades que possam levar a bom termo tanto leitura quanto produção escrita.

Quanto à metodologia, o Simpósio ora proposto está aberto para investigações bibliográficas e de campo, assim como para estudos teóricos e aplicados. Em vista disso são oportunos trabalhos que proponham reflexões teóricas, bem como que apresentem resultados decorrentes de aplicações, configurando-se como relatos de pesquisas. Considerando o recorte teórico, são participações pertinentes as que estejam centradas exclusivamente na Psicolinguística, as que estejam assentadas em movimentos com interfaces internas (com outras áreas da Linguística) e com interfaces externas (com outros campos de conhecimento).

Desse modo configurado, o Simpósio tem como objetivo primordial ensejar o debate entre professores e pesquisadores da linguagem sobre o tema “leitura e escrita”, buscando contribuir para o desenvolvimento da Psicolinguística, para a elucidação de problemas de pesquisa, para o levantamento de caminhos produtivos para o ensino e o aprendizado tanto da leitura quanto da escrita e para o aclaramento de suas inter-relações.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 2

CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários
O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.
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Darcilia Marindir Pinto Simões
Maria Suzett Biembengut Santade
DISCUTINDO O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO L1, L2, L2E
Este simpósio visa a congregar docentes-pesquisadores interessados na temática \”ENSINO DE PORTUGUÊS [LP] COMO L1, L2, L2E\”, para levantar discussões que possam contribuir com a melhoria da prática de ensino de Língua Portuguesa nesse amplo espectro. Tema que vem ensejando muitos debates, estudos e pesquisas, pareceu-nos oportuno reunir, sob os auspícios do CIELLI, profissionais com experiência nessa modalidade didático-pedagógicas da Língua Portuguesa, de modo a promover o cruzamento de saberes, crenças, hipóteses teóricas etc., que propulsionem o avanço da produção técnico-científica e, por conseguinte, contribuir para o aperfeiçoamento das estratégias de trabalho.
Na ótica de Charles S. Peirce, estudioso norte-americano, as concepções são “idéias que se alojam na mente das pessoas como hábitos, costumes, tradições, maneiras folclóricas e populares de pensar”. Portanto, entendemos que muito do que circula sobre o ensino da língua portuguesa (L1, L2, L2E) se deve a juízos acientíficos produzidos e alimentados pela mídia e que merecem nosso olhar crítico, para que reajustemos a imagem dos docentes e dos cursos que operam nessa área. O ensino da língua com meta comunicativa trouxe à cena a incongruência histórica do ensino pautado na nomenclatura.
Posto o foco no problema, chegou às classes os ensinamentos da Linguística Textual e da Análise da Conversação. Uma e outra contribuíram para uma revisão do que se ensinava e do que cobrava do aluno. Verificou-se ainda, com a luz da Sociolonguística, a questão da variedade que, independentemente de qual língua ou qual modalidade de língua seja, a variação é um fato relevante. Então os olhos se voltaram para novos enfrentamentos. Todavia, os equívocos não deixam de existir e, apesar dessas importantes malhas teóricas surgidas, continua o sofrimento docente por não conseguir atingir seus objetivos.
Diante do processo de globalização, as nações passaram a se avaliarem em relação às outras e partiram para a elaboração de processos avaliativos mundiais. E os resultados desses expedientes é motivo de mais angústia por parte dos docentes. Estamos numa fase propícia, pois o Brasil parece bem situado em meio à crise econômica internacional. Em decorrência, os olhos estrangeiros cada vez mais se voltam para o Brasil, que vem sendo visto como nova shangrilá, por isso, o controle de qualidade se impõe com mais força, e nós, docentes-pesquisadores da área, somos cobrados, pedem-nos teorias, métodos, enfim, caminhos para a consecução dos grandes objetivos do ensino de línguas para a comunicação.
A Linguística Aplicada, a Semiótica, A Semântica, a Pragmática etc. disponibilizam caminhos seguros para a realização de um processo de ensino produtivo. No entanto, a moldura de temeridade e de displicência, construída a partir de uma prática social voltada para a valorização das línguas estrangeiras, acaba por afetar o ambiente das classes de LP e resultar em desentendimento sistemático entre teorias e métodos de modo a permitir resultados dolorosos no ranking nacional e internacional de avaliação das competências discentes para a leitura e produção textual. Assim sendo, espera-se desse Simpósio a elaboração de um material que possa, no mínimo, provocar a reflexão docente no âmbito do ensino de LP como L1, L2, L2E. Palavras-chave: LÍNGUA PORTUGUESA; ENSINO; TEORIAS, MÉTODOS E COMPETÊNCIAS
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Jeane Mari Sant´Ana Spera
Marco Antônio Domingues Sant´Anna
ELEMENTOS DE LINGUÍSTICA PARA O TEXTO LITERÁRIO
Dominique Maingueneau, em Elementos de lingüística para o texto literário, título tomado de empréstimo para identificar este simpósio, aponta o risco de se aprofundar o “fosso” entre os estudos lingüísticos e a análise literária, caso linguistas e literatos insistam em manterem-se recolhidos em seus próprios domínios. Manifesta mesmo o desejo de contribuir para o restabelecimento da comunicação entre ensinos lingüístico e literário, como evidentemente o faz, com suas publicações.
Este é, também, o objetivo deste simpósio: possibilitar o encontro de pesquisadores que busquem explorar, na análise literária, o papel efetivo dos estudos lingüísticos da mais variada natureza. Nesse particular, destacam-se os estudos relativos às instâncias da enunciação, tais como as formas de manifestação do sujeito e suas consequências textuais, os discursos citados, as questões relativas a tempo e espaço etc… Fala-se, nesse caso, em discurso literário. Percebe-se que essa preocupação com as relações entre literatura e lingüística como objeto de estudo tem ocupado muitos outros lingüísticas.
Além do já citado Maingueneau. Já há algum tempo, Sírio Possenti (1988), em Discurso, estilo e subjetividade, discute, no capítulo intitulado Notas sobre estilo literário, a questão que envolve as relações entre Lingüística e Literatura, ou, mais especificamente, entre lingüistas e críticos literários. O autor constata a necessidade de haver um maior intercâmbio entre esses estudiosos, visto que ambos trabalham com a linguagem. No campo da literatura, a publicação recente de Beth Brait (2010), intitulada Literatura e outras linguagens, reúne lingüísticas e literatos, do nível de Carlos Alberto Faraco, Luiz Carlos Travaglia, Francisco da Silva Borba, Carlos Vogt, Cristóvão Tezza, Ignácio de Loyola Brandão, Ingedore Koch, Possenti, Maingueneau, entre outros, para discutir suas relações com língua e literatura.
A partir de uma pergunta formulada na apresentação do livro, “Como se arranjam língua e literatura nas estantes da vida?”, Brait seleciona textos, “cuja leitura, análise, discussão é complementada por depoimentos inéditos de prosadores, poetas, lingüistas, analistas do discurso, teóricos da literatura” que trabalham com linguagem, criação e ensino. Os textos revelam as relações entre língua e literatura, em cuja convergência se pode “observar a linguagem – verbal, visual, verbo-visual –, bem como os sujeitos com ela envolvidos e por ela constituídos”. A autora justifica a obra pela convicção manifesta de que língua e literatura formam “uma parceria inquestionável”, crença, acredita-se, também professada pela maioria dos pesquisadores que se dedicam ao estudo do discurso literário.
Enfim, acredita-se que esse simpósio possa, assim como as obras citadas, provocar discussões que permitam vislumbrar o movimento contínuo das relações mútuas entre literatura e linguagem, traduzidas nas reflexões sobre a função dos fatos linguísticos na conformação do texto literário, bem como sobre o papel fundamental da literatura na construção da identidade de uma língua. A confluência de tais esforços só poderá fortalecer o diálogo entre os dois campos de estudo, o que, com certeza, deverá ampliar as possibilidades de pesquisa tanto no campo dos estudos lingüísticos como no dos estudos literários.
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Adriane Teresinha Sartori
Sílvio Ribeiro da Silva
ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
Este simpósio visa reunir pesquisadores, cujos trabalhos estejam em andamento ou já tenham sido concluídos, que se debruçam sobre a questão do ensino de língua portuguesa como língua materna em todos os níveis escolares. Trata-se de temática que merece nossa análise por diversos motivos. Um deles está na problemática enfatizada pela constante divulgação de resultados insatisfatórios de nossos alunos em avaliações (inter)nacionais de leitura e escrita. Abre-se, então, um primeiro grupo de trabalhos: por um lado, aqueles que investigam os testes propostos e, por outro, aqueles que pesquisam os processos de leitura e escrita.
A questão da leitura merece nossa atenção, porque há muito a se dizer sobre como ensinar a ler/compreender/interpretar um texto, identificando informações explícitas e construindo informações implícitas. Vale destacar que a leitura deixou de ser vista como um mero processo de decodificação de símbolos, por envolver, na verdade, a mobilização de vários elementos, formando uma complexa rede de inferenciação.
A escrita, por sua vez, pode ser tratada por diversos ângulos: a redação de gêneros escolares, as situações de produção bastante detalhadas e específicas, os “erros” dos estudantes, a reescrita/refacção do texto, entre outros, todos fundamentais para se pensar em como desenvolver a competência discursiva escrita do sujeito. Os outros eixos de ensino, a gramática/análise linguística e o oral, também ganham espaço neste simpósio. A questão da análise linguística, ressignificando o ensino de gramática, efetiva-se hoje em práticas variadas, ora contemplando aspectos da nomenclatura gramatical, ora buscando a análise das marcas linguísticas de tipologias textuais e de gêneros variados. E no meio desses dois polos, há um verdadeiro mix de atividades, revelando aproximações e distanciamentos entre concepções acadêmicas e escolares.
O ensino do oral, longe de ser uma simples discussão de um assunto em sala, ou apenas a exposição de ideias acerca de um texto lido, exige que voltemos nosso olhar para os gêneros formais públicos e a (necessária) ficcionalização das propostas de produção oferecidas aos alunos (Schneuwly, 2004). Há que se considerar, também, que os estudos sobre gêneros discursivos abrem possibilidades de investigação muito importantes, considerando desde a descrição daqueles que devem ser ensinados, até experiências que têm sido realizadas para abordá-los, sem esquecer o processo de didatização dos que são deslocados de sua esfera de origem para a escola. Pode-se discutir, nessa perspectiva, a questão dos gêneros que devem ser lidos e dos gêneros que devem ser produzidos pelos discentes (Lopes-Rossi, 2005). Merecem nossa atenção, ainda, os livros didáticos de Língua Portuguesa, bem como os apostilados usados pelas redes privadas de ensino e, em menor número, por escolas públicas. Há de se considerar seus usos, suas propostas e concepções. Inegavelmente, são materiais muito utilizados pelo professor no dia a dia com seus alunos ou, no mínimo, como subsídio para a elaboração de suas aulas.
Enfim, esse simpósio pretende reunir pesquisadores interessados em desvelar as práticas que se efetivam ou poderiam se efetivar nas salas de aula de língua portuguesa dos diversos níveis de ensino, visando contribuir para a construção de alternativas para o processo ensino-aprendizagem, objetivando a inclusão e participação dos alunos em novas e variadas práticas de letramento.
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Magdiel Medeiros Aragão Neto
Morgana Fabiola Cambrussi
ESTUDOS DO LÉXICO E DA GRAMÁTICA
A discretude entre componentes gramaticais e a negação do léxico como um dos componentes estruturados das línguas naturais, pelo que parece, é uma opção metodológica que afasta a análise linguística de uma compreensão dos fenômenos da linguagem mais adequada e inviabiliza a unificação dos estudos desenvolvidos mais acentuadamente a partir da segunda metade do século XX – o que acarreta, além da falta de diálogo entre as ramificações da Linguística, a fragilidade de suas pesquisas.
Isso pode ser adequadamente atestado todas as vezes em que se esbarra, em meio a profusões terminológicas, na dificuldade de se distinguir entre “[…] o fenômeno observável, por um lado, e a variedade de constructos teóricos, por outro.” (LYONS, 1979, p.26. Tradução livre.). Nesse jogo de poder, não é incomum esbarrar em trabalhos cuja discussão tenta moldar fatos da língua para assentá-los no escopo de uma teoria qualquer. Na contracorrente dessa suposta discretude, este Simpósio, “Estudos do Léxico e da Gramática”, propõe um espaço de discussão ampla dos fenômenos da gramática e do léxico, sustentando-se sobre a premissa de que há, entre os componentes gramaticais e lexicais, assim como entre o léxico e a gramática, uma interdependência saliente, rejeitada por uma tradição de correntes linguísticas, mas que já começa a ser posta em nova chave.
Essa interdependência deixa-se perceber quando o olhar não está viciosamente conduzido pela ideia de autonomia e de centralidade de um dos componentes da gramática e do léxico sobre outros que, assim, tornam-se periféricos ou pela ideia de que o léxico das línguas reduz-se a uma listagem desordenada de informações linguísticas sem relevância para a organização e o funcionamento das línguas. Pelo contrário, para explicar certas configurações sintáticas, por exemplo, muitas vezes é necessária a compreensão de quais aspectos lexicais interagem e como se articula tal interação, que comumente envolve diversas propriedades gramaticais. Em outras palavras, a proposta deste Simpósio é propiciar uma discussão teórica e analítica sobre questões pertinentes e atuais levantadas por pesquisas desenvolvidas no campo da investigação linguística, concernentes aos fenômenos observados na estrutura e no funcionamento das línguas naturais, seja no plano do léxico seja no plano da gramática, preferencialmente a partir da integração entre esses planos e/ou da integração entre os componentes gramaticais e lexicais (morfológico, fonológico, sintático, semântico).
Objetiva-se, portanto, articular pesquisadores interessados nas interfaces, nos limites e nas possibilidades que se colocam para a descrição, para a análise e para a explicação linguística dos fenômenos observáveis no léxico e na gramática das línguas naturais. Dessa forma, este Simpósio se constitui em um espaço acadêmico e científico aberto e instigador de debate acerca de fatos linguísticos, que podem ser investigados sob diferentes perspectivas quanto às orientações teóricas e às abordagens empregadas.
Fonte:

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 1


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

1
Edson Rosa Francisco de Souza
Ana Cristina Jaeger Hintze
A GRAMÁTICA DISCURSIVO-FUNCIONAL E OS ESTUDOS DE GRAMATICALIZAÇÃO – INTERFACES POSSÍVEIS

O objetivo deste simpósio é reunir diferentes estudos de orientação funcionalista que vêm sendo desenvolvidos por pesquisadores brasileiros. Especificamente, o propósito dos trabalhos é discutir questões de mudança gramatical/semântica em diferentes unidades linguísticas (orações, verbos, conjunções, advérbios), a partir de princípios teóricos provenientes tanto da Teoria da Gramaticalização (HEINE et alii, 1991; HOPPER & TRAUGOTT, 1993; TRAUGOTT, 1995, 1999; TRAUGOTT & KÖNIG, 1991; BYBEE et alii, 1994; BYBEE, 2003) quanto da Teoria da Gramática Funcional (DIK, 1997; NEVES, 2000; HENGEVELD & MACKENZIE, 2008).

Em termos gerais, a gramaticalização (GR, doravante) é definida aqui como um processo de mudança linguística de caráter unidirecional, no interior do qual itens ou “construções lexicais” (HOPPER & TRAUGOTT, 1993; TRAUGOTT, 2003) passam a exercer funções gramaticais ou, se já gramaticalizados, continuam a desenvolver funções ainda mais gramaticais. Trata-se de um processo de mudança linguística que pode afetar, de diferentes formas e em diferentes graus, a fonologia, a morfologia, a sintaxe e a semântica das línguas naturais. Como afirmam Traugott e Heine (1991), pode-se dizer que o termo se refere à parte da teoria da linguagem que tem por objeto a interdependência entre langue e parole, entre o categorial e o menos categorial, entre o fixo e o menos fixo na língua.

Na verdade, o estudo da gramaticalização põe em evidência a tensão entre a expressão lexical, por exemplo, relativamente livre de restrições, e a codificação morfossintática, mais sujeita a restrições, salientando a indeterminação relativa da língua e o caráter não discreto de suas categorias.

As análises aqui propostas, portanto, devem ser compreendidas como manifestações complexas que concebem as atividades linguísticas de sujeitos que, primordialmente, partem de escolhas comunicativamente adequadas e operam as variáveis dentro de condicionamentos ditados pelo processo de produção de enunciados em condições reais de uso. Ou seja, as investigações avaliam as condições dessas escolhas para o cumprimento de determinadas funções; as condições de produção dessas estruturas; as estratégias e os elementos que efetivamente operam para a construção textual/discursiva. Nesse caso, considera-se tanto a mudança que ocorre devido ao aumento gradual da pragmatização do significado, (inferência) quanto a que ocorre mediante o aumento de abstratização do item linguístico (estratégias metafóricas), evidenciando um processo que vai do uso mais concreto para um uso mais abstrato-expressivo.

Assim, considerando-se os pressupostos teóricos da Gramática Discursivo-Funcional, que muito se assemelha à proposta de Traugott e Hopper e Traugott, e que têm servido como modelo de descrição gramatical e interpretação do processo de mudança linguística, aceitam-se, no presente simpósio, trabalhos que possam apresentar e caracterizar esta possível interface. Mediante tais análises, objetiva-se compreender como as regularidades de certas escolhas podem alterar o sistema linguístico.

2
Alba Maria Perfeito
Terezinha da Conceição Costa-Hübes
CONCEPÇÃO INTERATIVA DE LINGUAGEM E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: ABORDAGENS E REFLEXÕES TEÓRICO-PRÁTICAS

Entende-se neste simpósio, de acordo com as OCEM (2006) que a política curricular deve ser interpretada como manifestação de uma política cultural, ao selecionar conteúdos e práticas de uma determinada cultura para serem abordados na instituição escolar. Isso implica, no que tange à disciplina de Língua Portuguesa na educação básica, a construção gradativa de saberes textuais, que circulam socialmente, no apuro das práticas de leitura e de escrita, de fala e de escuta e no desenvolvimento da capacidade de reflexão sistemática sobre a língua e a linguagem, em contínua ampliação, com a clareza de que, em um mundo de rápidas transformações, o aluno deve tornar-se sujeito construtor de sua história.

A linguagem, nesse sentido, deve ser concebida como meio de interação, como local das relações sociais em que homens atuam como sujeitos, ou, mais apropriadamente, constituem-se sujeitos. Em consequência, compreende-se que o papel da disciplina em questão é o de oportunizar ao discente, por meio de ações sistemáticas, o desenvolvimento das atividades de produção de linguagem em diversas situações interativas, perpassando formas de funcionamento da língua e modos de expressão da linguagem, ao construir seus saberes linguísticos em diferentes contextos.

Nessa perspectiva, faz-se necessário salientar, em termos de teorias linguísticas subjacentes, que a concepção de linguagem em foco recebeu contribuições de várias áreas de estudos mais recentes, buscando analisar a linguagem em situação de uso, como a Teoria da Enunciação de Benveniste, a Pragmática, a Semântica Argumentativa, a Análise da Conversação, a Análise do Discurso, a Linguística Textual, a Sociolingüística, a Enunciação Dialógica de Bakhtin. É relevante observar, inclusive, que, historicamente, há aproximadamente trinta anos, no Brasil, discute-se a visão interativa para o ensino, seja por meio da teoria piagetiana, na relação sujeito-objeto de ensino, seja pela vigostskiana: sujeito – mediador – via signo (ideológico).

Mais especificamente, em termos Língua Portuguesa, a concepção interativa no ensino foi inicialmente proposta, no país, por Geraldi (1984), sobretudo, na integração, sem artificialidade, das práticas de leitura, análise linguística, de produção e refacção textuais – fundamentado, no caso, pela teoria bakhtiniana. Após perpassarem documentos estaduais, na década de 90 do século passado, os estudos geraldianos e de seguidores foram incorporados e/ou ampliados/redimensionados em documentos nacionais e regionais e, nesse contexto, pesquisas teórico-práticas foram/são efetuadas em instituições de ensino superior.

É com essa breve configuração de abordagem da visão interativa da linguagem que se pretende no simpósio:

i) constituir um espaço congregador de propostas de ensino de Língua Portuguesa, na educação básica, que integrem as práticas de leitura, análise linguística e produção textual, subsidiadas pela concepção de linguagem em pauta;

ii) propiciar a reflexão sobre a heterogeneidade das perspectivas teóricas subjacentes à prática;

iii) analisar o processo de didatização, o qual envolve rupturas, deslocamentos e modificações – sendo, pois, (re)significado no contexto da ação.

3
Fernando Felício Pachi Filho
Renata Marcelle Lara Pimentel
DISCURSIVIDADES EM DIFERENTES SUPORTES MIDIÁTICOS

Este simpósio visa questionar se é possível delinear formações discursivas em que se inscrevem os diversos acontecimentos na mídia em relação aos suportes em que as informações circulam, sejam eles digitais, impressos ou eletrônicos, ou seja, busca-se explorar discursividades midiáticas, sejam elas impressas ou digitais, de acordo com as potencialidades específicas dos meios. Dessa forma, admiti-se a instabilidade dessas formações, sua permeabilidade e contradições que se formam em seu interior, que permitem a constituição de novos sentidos.

A produção de sentidos vincula-se às possibilidades enunciativas em períodos históricos, em relação ao que é dito, a sentidos anteriores, a não-ditos, ou seja, às condições de produção, entre as quais o suporte em que se inserem os enunciados. Há ainda uma variação do sentido que deve ser captada no movimento da história e da linguagem. Esta variação só é possível porque há rupturas nos sentidos dominantes, falhas (bloqueios da ordem ideológica) que abrem à possibilidade de polissemia, deslocando sentidos e fazendo emergir o novo, o diferente, o ressignificado, o reformulável. Pergunta-se, portanto, se e como o suporte midiático deve ser levado em conta em análises não apenas em termos de condição de produção dos discursos, mas também como determinantes para a constituição de novos sentidos, logo de formações discursivas.

A observação e análise dos diversos suportes midiáticos, em termos comparativos, permite compreender o funcionamento dos discursos, delimitando-se como as interpretações para os acontecimentos são constituídas. Pretende-se, dessa forma, compreender como objetos simbólicos, por definição não-transparentes, produzem sentidos, e os gestos de interpretação realizados pelos sujeitos. Tendo em vista que a formação de corpus é também uma construção do próprio analista, que seleciona o material de acordo com os objetivos de sua análise, questiona-se se, corpus abertos, formados com materiais de diferentes suportes midiáticos, apresentam propriedades discursivas diferentes ou semelhantes.

Além disso, busca-se compreender como os sentidos são homogeneizados em determinadas formações, de acordo com o jogo de forças presentes na sociedade, cristalizando interpretações em relação a formações ideológicas que as sustentam. As temáticas de interesse para este simpósio envolvem, entre outros, sujeitos, formações discursivas e ideológicas, memória e insconsciente, contradição e resistência. A explosão tecnológica e o acesso a dispositivos de tecnologia (celulares, laptops, etc.) levaram a uma potencialização crescente de produtores informais de enunciados midiáticos na internet e também fora dela e/ou não diretamente ligada a ela, mas que também se inscrevem como co-participantes das mídias impressas e eletrônicas (jornais, revistas, etc.). Ocorre, assim, uma fragmentação crescente dos discursos produzidos no espaço público.

Frente a isso, situa-se o interesse pelo funcionamento de discursos possíveis e em circulação em novos ou nos mesmos formatos, repetíveis, reorganizados e/ou modificados, ressignificados ou não.

4
Pedro Navarro
Carlos Piovezani
DISCURSO E SUJEITO: ABORDAGENS TEÓRICO-ANALÍTICAS EM TORNO DA SUBJETIVIDADE, DO CORPO E DA FALA PÚBLICA

Este simpósio, intitulado Discurso e sujeito: abordagens teórico-analíticas em torno da subjetividade, do corpo e da fala pública, tem por finalidade congregar pesquisadores que se debruçam sobre questões concernentes à formulação e à produção de discursos circulantes em espaços institucionais e em textos midiáticos. Assim, os trabalhos a serem apresentados devem girar em torno de dois eixos centrais à Análise de Discurso, quais sejam: o discurso visto como objeto histórico e em diferentes materialidades e o sujeito e as práticas discursivas de produção de identidades e de subjetivação.

Sobre o primeiro eixo, à concepção tão cara de discurso como algo da ordem da história e da língua, somam-se abordagens teóricas que consideram não somente o linguístico como parte integrante dos processos discursivos, mas também o nível imagético e sonoro. Nesse sentido, o caráter semiológico do enunciado, tal como podemos concluir do texto d’A arqueologia do saber, de Michel Foucault (1972) e as pesquisas empreendidas por Jean-Jacques Courtine (2008; 2006), sobre a história do corpo e da fala pública, configuram, atualmente, importantes dispositivos teóricos e metodológicos, com os quais é possível descrever discursos, não perdendo de vista a dispersão enunciativa que lhes é própria e a heterogeneidade de linguagens por meio das quais eles se realizam como acontecimento singular e repetível. No que concerne às pesquisas sobre a produção de subjetividade na relação com os jogos de saber/poder, considera-se oportuno discutir a produção de subejtividades, em um contexto marcado pela desestabilização das velhas identidades sólidas e pela liquidez das formações discursivas.

De um ponto de vista genealógico, a concepção de história em Foucault, pautada na filosofia de Nietzsche, não toma para si a tarefa de reencontrar aquilo que poderia ser raízes de nossa identidade. Pelo contrário, a função dessa história genealogicamente dirigida é dissipar aquilo que liga os homens a uma identidade, ao fazer aparecer todas as descontinuidades que os atravessam.

O alcance dessa perspectiva histórica para as análises discursivas impõe projetos de pesquisa que promovam uma espécie de dissociação sistemática das imagens de identidade que se projetam sobre os sujeitos, se consideramos, como o faz Foucault, que a identidade que tentamos assegurar e reunir sob uma máscara não passa de uma paródia: o plural a habita, inumeráveis almas nela disputam; sistemas se entrecruzam e dominam uns aos outros. Nesse sentido, esse segundo eixo contempla tanto a análise dos dispositivos de subjetivação, que, nos discursos, transformam os indivíduos em objeto e sujeito de um saber, por meio da regulação e do controle da vida, quanto as tecnologias do eu, por meio das quais se produz, discursivamente, a ideia de um sujeito “cuidadoso de si” (FOUCAULT, 1984).

Espera-se, assim, criar um espaço em que se discutam questões relativas à constituição, formulação e circulação de diferentes materialidades discursivas, bem como proporcionar debates acerca da produção do sujeito, a partir de enunciados que circulam nos meios de comunicação de massa.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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Arquivado em Simpósio, Universidade Estadual de Maringá

2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 5


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Alba Krishna Topan Feldman
Sérgio Paulo Adolfo
TRANSCULTURAÇÃO E HIBRIDISMO EM LITERATURAS PÓS-COLONIAIS

Na sociedade atual, especialmente nos últimos séculos, observa-se que o sonho da cultura ideal ou mesmo da raça pura se desvaneceu em um conjunto de contatos, quase nunca pacíficos e certamente marcantes, entre culturas e etnias originado do fenômeno que se desenvolveu, principalmente, no século XVI, sendo denominado como ‘colonização’. Dentre estes contatos, pode-se mencionar o encontro do colonizador com os nativos ditos ‘selvagens’ das Américas, Caribe, África, etc., além da descoberta de civilizações já constituídas socialmente há vários séculos, como a China e a Índia.

Tais encontros propiciaram o desenvolvimento de novas relações não só interpessoais, mas também, no que diz respeito à cultura, costumes e políticas sociais dentro das novas comunidades, sem contar o aspecto biológico, responsável pelo surgimento da miscigenação e hibridismo. Entretanto, as transformações não operaram apenas no âmbito do colonizado; o mesmo ocorreu nas sociedades colonizadoras quando os sujeitos coloniais passaram a fazer parte delas através das diásporas causadas pela própria colonização.

A proposta deste simpósio é a análise de aspectos que se tocam, se modificam e que favorecem o surgimento de indivíduos cujas identidades dialogam com outros universos culturais e experiências pós-coloniais, identidades estas, invariavelmente fragmentadas pelas questões decorrentes dos processos de inclusão/exclusão coloniais fundamentados principalmente pelo fator dérmico e, consequentemente, pelo desrespeito às diferenças, tanto na literatura em língua portuguesa quanto em língua inglesa. Para isso, considera-se a construção da identidade em ambientes de transculturação, conforme o abordado por Pratt, os aspectos de hibridismo discutidos por Bhabha e aspectos de estudos sobre a identidade desenvolvidos por diversos críticos, como, por exemplo, Hall.

A definição do termo pós-colonial, sob esse viés, torna-se mais abrangente, referindo-se ao conjunto de ideologias subjacentes aos processos de colonização e dominação, além do discurso do Outro, calcado na representação negativa do termo \”differance\”, desenvolvido por Derrida. Esse simpósio pretende discutir de que maneira os textos narrativos, poéticos, descritivos ou testemunhais representam os conceitos aqui expostos, e como demonstram a identidade em um contexto cada vez mais amplo de zona de contato, que, por vezes se mostra hostil e árido, levando em consideração as consequências advindas da ação colonizadora no que concernem todos aqueles sujeitos envolvidos nesse processo, sejam eles, homens ou mulheres, colonizados ou colonizadores.

Procura-se explorar, por meio da literatura pós-colonial, o modo como os sujeitos agem dentro de contextos multiétnicos e multiculturais para compreender, dessa forma, quais os efeitos provocados nas sociedades influenciadas pelo aparato colonial desde seus primórdios.

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Jaime Ginzburg
Alamir Aquino Corrêa
VIOLÊNCIA E TRISTEZA NA NARRATIVA DE FICÇÃO DO SÉCULO XX

Um dos temas mais constantes da literatura é aquele da tristeza, quase imensurável, muitas vezes resultante do espaço da violência. A tônica que permeia queixas, lamentos e dores passa por perdas, depressões e estados melancólicos. A proposta do simpósio é discutir o tom lamentoso e tristonho em textos narrativos no recorte temporal do século XX, por seu aspecto mais revelador da emoção com toques de reflexão, especialmente em narrativas autodiegéticas, com particular interesse sobre as relações entre autoritarismo e violência.

Questões sobre o sentido da vida e sua representação estética, as profundidades dialéticas na relação matéria/espírito sobre a finitude, a memória dilacerada pela ausência do outro e a voz diante da violência são exemplos de abordagem comparatista. Deve predominar a leitura de textos enquanto textos, sem desprezar a fortuna crítica, fundada na detecção de relações intra e intertextuais; ou seja, o aparato teórico deve ser menos importante/evidente que a explicação do texto artístico.

Entre vários textos de suporte teórico, oriundos da Antropologia , da Sociologia, da Filosofia, da Psicologia/Psiquiatria ou da História, lembramos entre vários de Edgar Morin, Philippe Ariès, Norberto Elias, Mircea Eliade, Nicole Loraux, Sigmund Freud, Carl Jung, Georg Friedrich Hegel, Martin Heidegger, Abram Rosenblatt, Hannah Arendt, Primo Levi e Giorgio Agamben. Há de se tomar como premissa que o advento do Romantismo leva a percepção do tempo para outro nível – o do mundo que deveria ter sido. A tônica da fundação das nações modernas com a necessidade de construção de um pai e de uma mãe novos – um passado que possa ser glorificado a justificar o presente – vai encontrar especialmente na prosa de ficção o campo apropriado para sua efetivação. Por outro lado, essa relação com uma nova mátria ou pátria e sua afirmação também sinaliza embates entre o indivíduo e a vontade do Estado.

Há uma desvinculação do passado, substituído por outro – imaginado como objeto de consolação também. O olhar de Orfeu para o passado faz com que ele tenha de procurar, por compensação, outra saída, uma outra história, um outro tempo. A perda é irrecuperável – aquele passado não pode mais estar presente, pois não mais pertence ao mundo, Eurídice se desvincula por completo do mundo de Orfeu. Não mais em busca de uma glória divina, não mais a imagem e semelhança de Deus, há de se buscar no passado um Outro. A tristeza ou a melancolia daí resultante, própria de um passado idealizado e irrealizado, provoca a contemplação do mundo que deveria ter sido – o distanciamento ou a fuga dolorida em direção ao passado pensado se torna a saída compensatória diante do mundo que é. Busca-se assim ler o passado, não mais com a sua força normativa, para sustentar a compreensão histórica das coisas.

O mundo perfeito, idealizado da Antiguidade, não existe mais; imitar é normatizar, mas nisso reside a impossibilidade, pois não é possível reproduzir. No século XX, a prosa de ficção se torna cada vez mais capaz de lidar com o inimaginável – a ausência de consolo futuro diante da industrialização da guerra e seu forte conjunto de interesses econômicos, e com o imponderável – a presunção de fruição da arte e o desprezo pelo homem. As atitudes ou emoções são o arrependimento, o pesar, a confusão, a raiva, a ansiedade, a dúvida, a alienação e o desespero. Se a morte por si já era um mundo contrário aos desejos, as perdas e embates no século XX tornam tudo inconsolável, o que exige da voz literária uma dureza acima das forças antes pensadas.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 5


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

Diariamente estão sendo postados Resumos dos Simpósios que serão apresentados em 13 a 15 de junho, até totalizar os 25 a serem apresentados.

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Lúcia Osana Zolin
Nincia Cecilia Ribas Borges Teixeira
REPRESENTAÇÃO/CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES NA LITERATURA DE AUTORIA FEMININA BRASILEIRA

No âmbito dos estudos literários contemporâneos e, de modo especial, dos estudos de gênero, a noção de representação ocupa um espaço de incontestável importância. Isso porque, nas últimas décadas, a crítica literária tem refletido acerca de seu objeto a partir de vieses teóricos que problematizam insistentemente a relação texto-contexto. O conceito aponta significações múltiplas, entre elas, para o ato de fazer as vezes da realidade representada; ou para o de tornar uma realidade visível, exibindo-lhe a presença (GINZBURG, 2001).

De acordo com Chartier (1990), é “instrumento de um conhecimento mediador que faz ver um objeto ausente através da substituição por uma imagem capaz de o reconstituir em memória e de o figurar como ele é”. As representações são variáveis e determinadas pelos grupos ou pelas classes que as edificam; sendo que o poder e a dominação estão sempre presentes. Também para Bourdieu (1998), uma das principais problemáticas que envolvem a questão da representação reside nas imposições e lutas pelo monopólio da visão legítima do mundo social. O fato é que a identidade do ser ou da coisa representada, não raro, se resume à aparência dela, escamoteada que está por configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída.

O conceito foucaultiano de discurso, relacionado com o desejo e com o poder, traz, igualmente, importantes contribuições ao trabalho de identificação do modo como as “verdades” são edificadas. Tem contribuído com a crítica literária no sentido de investigar as fronteiras entre o real e o ficcional e refletir acerca do tema da representação dos seres e das coisas pela linguagem. Consideradas como “fatos”, as práticas discursivas e os poderes que as permeiam ligam-se a uma ordem imposta, cujas redundâncias de conteúdos reproduzem o sistema de valores das tradições de uma dada sociedade, em uma determinada época, autorizando o que é permitido dizer, de que maneira se pode dizê-lo, quem o pode dizer e a que instituição o que está sendo dito se vincula.

Para reverter esse estado de coisas, há que se promover o desnudamento das condições de funcionamento do jogo discursivo e de seus efeitos (Foucault, 2001). Se representar significa dar visibilidade ao outro, no dizer de Chartier (1990), pode significar, também, falar em nome do outro. Para ter assegurado o direito de falar, enquanto o outro é silenciado, o sujeito que fala se investe de um poder que lhe é doado por circunstâncias legitimadas pelo lugar que ocupa na sociedade, delimitado em função de sua classe, de sua raça e, entre outros referentes, de seu gênero os quais o definem como o centro, a referência, o paradigma, enfim, do discurso proferido. Historicamente, esse sujeito imbuído do direito de falar – e falar com autoridade – é de classe média-alta, branco, e pertencente ao sexo masculino. No âmbito da arte literária, até meados do século passado, os discursos dominantes vinham circunscrevendo espaços privilegiados de expressão e, consequentemente, silenciando as produções ditas “menores”, provenientes de segmentos sociais “desautorizados”, como as das minorias e dos/as marginalizados/as. No limite, o quadro comportava, de um lado, a visibilidade das obras canônicas, a chamada “alta cultura”, cujas formas de consagração guardam relações bastante estreitas com o modo de o mundo ser representado, com a ideologia aí veiculada e, também, é claro, com quem o está representando. De outro, o apagamento da diversidade proveniente das perspectivas sociais marginais, que incluem mulheres, negros, homossexuais, não-católicos, operários, desempregados…

Tendo isso em vista e, sobretudo, a tradição literária de mulheres que, no Brasil, nasce na segunda metade do século XIX, bem como as reflexões teóricas acerca da representação literária, empreendidas pelos teóricos/as empenhados em debater o tema, este simpósio propõe o debate da representação/construção de identidades na literatura de autoria feminina.

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Cecil Jeanine Albert Zinani
Salete Rosa Pezzi dos Santos
REPRESENTAÇÕES DO SUJEITO FEMININO: GÊNERO, SEXUALIDADE, IDENTIDADE, HISTÓRIA

No contexto cultural da pós-modernidade, destaca-se a voz feminina, na medida em que, apropriando-se da palavra, denuncia sua exclusão e defende seu direito de falar e de representar-se nos diferentes domínios tanto público quanto privado. Nos estudos sobre a mulher, ressalta a questão da sexualidade feminina, no sentido de verificar a relação existente entre sexualidade e dominação.

Para Foucault (1988, p. 46), a sociedade burguesa oitocentista é \”uma sociedade de perversão explosiva e fragmentada\”. Nesse aspecto, complementa Giddens (1993, p. 30), \”o estudo e a criação de discursos sobre o sexo levaram ao desenvolvimento de vários contextos de poder e de conhecimento”. Rita Schmidt, em “Repensando a cultura, a literatura e o espaço da autoria feminina”(1995), destaca a importância da inserção da prática discursiva feminina no espaço do logos, classificando-a como um ato político, na medida em que a mulher desconstrói a sua imagem negativa projetada pelas práticas culturais masculinas que constituem a norma, o padrão.

Considerando essa perspectiva, assoma a relevância da obra literária, na medida em que ela faculta uma nova consciência receptora, visto abrir-se para o leitor outra possibilidade de percepção do mundo, tanto da realidade externa quanto interna. Assim, é possível pensar que narrativas que se movimentem em torno da representação do sujeito feminino poderão favorecer a problematização de vivências da mulher, desestabilizando mecanismos de poder e colocando em pauta a hierarquização de gêneros, cujas relações se estabelecem não apenas a partir da noção de diferença, mas também da concepção de inferioridade, marcadamente, feminina.

A identidade de gênero, como qualquer outro aspecto da identidade cultural, configura-se dentro de um processo socioistórico, não constituindo um componente fixo, permanente, mas móvel e transitório. Na medida em que os elementos formadores da cultura operam o movimento de articulação/desarticulação, a identidade modifica sua configuração, como também os próprios sujeitos, que, devido a sua vivência e experiência, re-inventam, ressignificando a sua identidade.

A construção da identidade feminina, num território periférico como a América Latina, está mediada por um sistema de representações culturais de características patriarcais e androcêntricas, tidas como naturais, ou seja, fundadas numa dominação legítima que precisa ser subvertida para que essa construção se efetive. Assim, é impraticável pensar essa identidade sem levar em consideração o sistema de gênero, uma vez que é esse sistema que vai codificar o comportamento e o desempenho dos sujeitos sociais tendo como base o fator biológico. Essa modalidade de representação, além de posicionar o sujeito no espectro social, caracteriza e dá significado ao sujeito, condicionando uma organização social assimétrica, em que o masculino define-se a partir do centro, do positivo, restando para o feminino a posição marginal (SCHNEIDER, 2000).

Questões fundamentais ligadas à história da literatura e às representações de gênero, identidade e sexualidade, perpassadas, transversalmente, pelo olhar da história e da psicanálise, constituem o objeto de problematização do presente simpósio.

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Márcio Roberto do Prado
Jaime dos Reis Sant Anna
SOB O SIGNO DA CONVERGÊNCIA: ARTICULAÇÕES ENTRE TEORIA E PRÁTICAS DE SALA DE AULA NO ENSINO DE LITERATURA

Quando pensamos nos aspectos ligados ao estudo da literatura, sobretudo no meio universitário, não é raro que tenhamos uma cisão entre uma abordagem eminentemente teórica e outra de viés prático, voltada para a aplicação de conteúdos em sala de aula. Assim, a abordagem teórica destacaria a pesquisa e a produção de conhecimento científico para divulgação por meio de publicações de livros e periódicos especializados, ao passo que a prática visaria questões relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem, tendo como foco a otimização de tal processo e o estabelecimento de estratégias e planos capazes de contribuir para semelhante cenário de eficiência.

Todavia, essa separação não existe em termos tão radicais, de modo que as questões ligadas à Teoria da Literatura e aquelas que lançam mão de uma prerrogativa didático-pedagógica acabam por se articular, cruzando-se várias vezes. De modo mais incisivo, podemos ainda destacar que semelhante “contaminação” contribui para o avanço nas duas frentes, uma vez que permite que se lance luz sobre aspectos que, diante de uma idealizada (e impossível) segmentação inquestionável, seriam, no mínimo, negligenciados. Tendo em vista este panorama, cumpre destacar que se trata de algo em perfeita consonância com as demandas atuais em termos que não se limitam ao contexto de pesquisa científica academicamente considerada e da sala de aula no âmbito do ensino de literatura. Nomes como Henry Jenkins apontam para a natureza de convergencial de nossa cultura (atingindo, assim, a atividade docente), na qual mídias, interesses e indivíduos encontram pontos de contato teleologicamente organizados, o que abarca inclusive a convergência teórico-prática. Outros, como Pierre Lévy, destacam o contexto cultural que emerge do impacto das tecnologias de informação e comunicação em nossas vidas, em suas mais variadas frentes (a “cibercultura”), mostrando como há uma urgência e uma obrigatoriedade de modificações em diversos de nossos paradigmas, não escapando dessa condição o próprio professor que, instigado por uma verdadeira revolução na dinâmica comunicacional, vê-se impelido a buscar novas possibilidades que, por seu turno, têm como condição incontornável uma reflexão teórica mais pormenorizada capaz de dar base a essas possibilidades que se abrem.

Assim, impõe-se um cenário em que o professor deve ir além (sem desconsideração) do tradicional tripé “giz-lousa-saliva” e lançar mão de recursos tecnológicos e das mídias deles emergentes, além de propostas de ensino e de verificações de aprendizagem capazes de utilizá-los de modo eficiente. Por seu turno, o pesquisador não pode fechar os olhos para tais inovações, uma vez que seu reflexo até mesmo em nossa concepção de arte e, portanto, de literatura, é por demais evidente, destacando a importância de inovações equivalentes em termos de instrumental teórico e crítico.

Deste modo, o presente simpósio pretende abordar variadas facetas de abordagem das questões suscitadas pela articulação entre Teoria da Literatura e Metodologia do Ensino de Literatura, destacando em especial aquelas que enfoquem a mediação de leitura e a formação do leitor, bem como as atuais demandas tecnológicas e comunicacionais, com o intuito de apresentar reflexões e experiências ilustrativas nesse sentido. Por fim, tomará forma uma visão mais colaborativa e interativa do professor e do pesquisador, visão esta capaz de ilustrar com eloquência que a prática sem teoria é diletantismo, ao passo que a teoria sem a prática é alienação.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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