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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 5

2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários 

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.
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Alexandre Sebastião Ferrari Soares
Roselene de Fatima Coito
O SUJEITO NA LÍNGUA E NA HISTÓRIA: DA QUESTÃO DA SUBJETIVAÇÃO
Este Simpósio em Análise de Discurso de orientação francesa será lugar de reflexão sobre as construções de sujeitos e identidades a partir de diversas materialidades. Para pensar este sujeito, pode-se partir dos estudos do filosofo e linguista Michel Pêcheux e do filosofo Michel Foucault. O primeiro enquanto forma-sujeito e, o segundo, enquanto subjetividades constituídas no campo do saber e nas instancias do poder. Enquanto forma-sujeito pensando o discurso em uma teoria da ideologia e em uma teoria do inconsciente e como tal uma teoria dos efeitos de sentido em um tecido histórico que constitui o próprio discurso, já que a ideologia e o inconsciente têm a capacidade de “dissimular em sua própria existência no interior de seu funcionamento produzindo um tecido de evidencias subjetivas”, conforme Pêcheux (1997). Por isso, a forma-sujeito teoriza o funcionamento imaginário da subjetividade, sem deixar de levar em consideração que sujeito e sentido são produzidos na história. 
Destas subjetividades, constituídas discursivamente, a construção das identidades em âmbito sócio-historico. Outrossim, pensar este sujeito constituído discursivamente no campo do saber e na instancia do poder em praticas discursivas que circulam em dadas sociedades de determinadas épocas, tendo em vista que “o novo não está no que é dito mas na volta do seu acontecimento”, segundo Foucault (1999). Diante destes dois olhares sobre a questão do sujeito do e no discurso, propomos a reflexão em torno de dois eixos fundamentais: no primeiro, pensar sobre as relações entre a memória e o discurso e a ausência e a presença, o silêncio e os dizeres quando a memória é considerada tanto falha da língua quanto do esquecimento necessário à constituição do efeito-sujeito; no segundo, como este sujeito discursivizado é subjetivado no saber e no poder. Diante destes dois eixos propostos, refletir sobre a noção de identidades latino-americanas na literatura, na mídia, enfim, em imagens que correm o mundo sobre o que é ser latino e, mais especificamente, ser brasileiro. 
Para tanto, as mais variadas “superfícies materiais” ou “lugares de inscrição do acontecimento” comportam, no dizer, a constituição destas subjetividades, que, na língua se materializam no discurso e na história, em práticas discursivas – estabilizadas ou não- que vão constituindo o saber, não necessariamente em uma linearidade de acontecimentos, mas no acontecimentos das suas discursividades. Então, pensamos nestas materialidades ou lugares de inscrição em suas relações diversas em um arquivo, não como um mero reflexo passivo de uma realidade institucional mas ordenado por sua abrangência social, já que o arquivo permite trazer á tona dispositivos e configurações significantes, tendo em vista que a Analise do Discurso passou do domínio doutrinário ou institucional para a história social dos textos, como preconiza Jacques Guilhaumou. Diante disso, propomos que a questão da subjetividade constituída discursivamente na forma-sujeito e no campo do saber e na instancia do poder, seja pensado na confrontação de series arquivistas, nos regimes múltiplos de produção, na circulação e na leitura, no que se refere ao gênero, à religião, à diversidade sexual, à etnia.
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Paulo de Tarso Galembeck
Isabel Cristina Cordeiro
O TEXTO ESCRITO E FALADO: ASPECTOS COGNITIVOS E SOCIOINTERACIONAIS
De acordo com a formulação mais recente, o texto constitui um evento comunicativo, no qual concorrem ações linguísticas, sociocognitivas e interacionais. Essa concepção coloca em realce a dimensão procedimental do texto e enfatiza: 
a) a atuação dos participantes do evento comunicativo e as ações (conscientes e finalisticamente orientadas) por eles executadas; 
b) a criação de representações, a partir do contexto sociocognitivo e ideacional partilhado pelos interlocutores; 
c) o estabelecimento do sentido textual, a partir das representações criadas e das ações executadas por interlocutores social e historicamente situados; 
d) a continuidade entre o texto e o contexto e entre os processos mentais e o mundo: o texto dialoga com o contexto e o sentido textual flui dessa relação. 
A partir das ideias anteriores, busca-se congregar trabalhos que considerem a dimensão sociocognitiva e interacional do texto, os processos de sua construção, a formulação do sentido e das representações e o papel do contexto nessa formulação e atuação consciente e deliberada dos interlocutores na consecução dos fins almejados e dos efeitos de sentido pretendidos. Serão consideradas, preferencialmente, propostas que digam respeito aos seguintes temas: 
a) papel dos elementos lexicogramaticais e dos procedimentos discursivos na construção do texto, na criação das representações e no estabelecimento do sentido; 
b) marcas de interação, de subjetividade e de intersubjetividade na construção do texto e no estabelecimento das relações entre os participantes; 
c) gêneros textuais: conceituação e dinamismo, de acordo com a perspectiva sociocognitiva e interacional; 
d) textos sincréticos: relação entre o verbal e outras linguagens e construção do sentido a partir do diálogo entre as várias linguagens; 
e) intertextualidade e polifonia na construção do texto, no estabelecimento do sentido textual e na criação do universo comum partilhado pelo interlocutores; 
f) pressuposição e outras relações implícitas presentes na construção do discurso; 
g) texto e contexto: coextensividade e relações mútuas; papel do contexto na criação das representações; 
h) texto e ensino: o aluno como produtor do sentido e das representações, a partir de sua competência textual e de seu conhecimento do mundo; 
i) recursos argumentativos na produção do texto e conseqüente orientação do leitor a determinados posicionamentos: convencimento, persuasão e recursos de envolvimento do ouvinte/leitor; 
j) texto e interação em diferentes situações de uso (escolar, profissional, institucional). 
Os temas apresentados correspondem a diferentes aspectos a partir dos quais pode ser considerado o texto enquanto evento sociocomunicativo e interacional, por isso poderá haver propostas que reúnam dois ou mais deles. Essas propostas, aliás, não constituem campos estanques ou exclusivos, mas constituem diferentes aspectos pelos quais pode ser considerado o fenômeno textual. Cabe esclarecer que abrangência dos temas corresponde diretamente aos diferentes aspectos a partir dos quais o texto pode ser enfocado, dentro da visão sociocognitiva e interacional. Por ess motivo, os trabalhos selecionados serão agrupados de acordo com as afinidades temáticas e/ou metodológicas e com a natureza do corpus da pesquisa. . O importante – reitere-se – será a possibilidade de apresentar um amplo painel dos estudos do texto: temas mais recorrentes, tipos e gêneros textuais que têm recebido maior atenção por parte dos pesquisadores e contribuições mais recentes no âmbito do estudo do texto e do discurso. Também se busca congregar pesquisadores de diferentes instituições, uma vez que, em nosso país, vários são os grupos que se dedicam ao estudo do texto.
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Elaine Cristina de Oliveira
Cristiane Carneiro Capristano
ORALIDADE, LETRAMENTO E SUAS RELAÇÕES
Pode-se afirmar que o interesse de linguistas, fonoaudiólogos e profissionais da educação em examinar fenômenos linguísticos relacionados à fala e à escrita com base em teorias linguísticas e/ou linguístico-discursivas não é recente. Esse interesse volta-se tanto para fenômenos linguísticos que se manifestam em contextos considerados como de normalidade, quanto para fenômenos que se manifestam em contextos considerados como patológicos. Uma parcela significativa desses profissionais compartilha a idéia de que os fatos linguísticos falados e escritos não devem ser compreendidos como restritos ao código (gráfico ou sonoro). 
Contrariamente, supõe que o funcionamento da fala e da escrita deve ser investigado no âmbito das praticais sociais da oralidade e do letramento, bem como no âmbito de suas relações. Ou seja, há, entre esses profissionais, um relativo consenso de que, para compreendermos, de fato, o funcionamento da fala e da escrita, é necessário nos interrogarmos, também, sobre as práticas sociais em que esses fatos linguísticos são engendrados. Esse relativo consenso tem possibilitado uma melhor compreensão da fala e, correlativamente, das práticas sociais orais, bem como da escrita e, também correlativamente, das práticas sociais letradas, assim como tem permitido investigar relações possíveis entre essas duas formas de enunciação. O presente simpósio tem como propósito constituir um lócus para a apresentação e discussão de pesquisas (concluídas ou em andamento) que elegeram fenômenos linguísticos do oral/falado e do letrado/escrito como campo de investigação e de atuação, bem como pesquisas voltadas para a reflexão sobre relações entre o oral/falado e o letrado/escrito. 
De forma mais específica, serão acolhidos trabalhos cujo propósito mais geral seja o de examinar e debater, a partir de diferentes perspectivas linguísticas ou linguístico-discursivas, temas relacionados, por exemplo: 
(a) à aquisição da linguagem em seu modo de enunciação falado, tanto aquisição normal quanto a aquisição desviante; 
(b) à aquisição da linguagem em seu modo de enunciação escrito, de sujeitos de diferentes níveis de escolaridade; 
(c) aos vínculos entre esses diferentes modos de enunciação na aquisição da linguagem; 
(d) à discussão sobre letramento e alfabetização; 
(e) à relação entre o falado e o escrito em diferentes contextos; 
(f) à emergência da escrita no contexto da tecnologia digital etc. 
Com este simpósio, almeja-se aprofundar e divulgar conhecimento científico sobre estudos que tratam da fala e da escrita como fenômenos intrinsecamente ligados a práticas sociais e permitir o estabelecimento de diálogos entre diferentes áreas da Linguística e da Linguística Aplicada com a Fonoaudiologia e a Pedagogia, na medida em que a compreensão de fenômenos do oral/falado e do letrado/escrito, bem como suas possíveis relações, estão entre as temáticas que preocupam investigadores desses diferentes campos de conhecimento. Almeja-se, igualmente, fornecer subsídios para o trabalho clínico e o educacional com a linguagem e fomentar o desenvolvimento de investigações sobre os fenômenos do oral/falado e do letrado/escrito em diferentes níveis da formação acadêmica.
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Fabiane Cristina Altino
Elvira Barbosa da Silva
PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO: ESTUDOS DIACRÔNICOS EM DEBATE
A pesquisa sobre a história do português brasileiro – PB, baseada em documentos escritos de diversas naturezas, vem ganhando corpo nas universidades brasileiras já faz algum tempo. O que antes era um território quase exclusivo da História, hoje é também uma área importante para a construção do passado da nossa língua. Pensando nisto, um grupo de pesquisadores no Brasil, inseridos no projeto interinstitucional Para a História do Português Brasileiro – PHPB, sob a coordenação do Dr. Ataliba Teixeira de Castilho, vem trabalhando para descrever e analizar o português brasileiro. 
O projeto Para a história do português paranaense: estudos diacrônicos de manuscritos dos séculos XVII a XIX – PHPP, projeto integrante do PHPB, que propõe a pesquisa sobre a história do português brasileiro baseada em documentos que foram escritos durante os séculos XVII, XVIII e metade do XIX, nas antigas vilas que hoje se constituem municípios do estado do Paraná, vem propor um espaço de reflexão sobre os dados diacrônicos do PB. Para o projeto PHPP é o estudo exaustivo de dados coletados, neste caso, através da escrita que fornece, além de uma visão panorâmica da língua, a possibilidade de fazer seu inventário e documentar o grau de aculturação presente na língua, quer seja no espaço geográfico quer seja no espaço social, de realizar o estudo da formação da língua e da sua história. 
Para chegar ao conhecimento do PB, segundo Mattos e Silva (2004), os estudos descritivos do português brasileiro devem perpassar 
(i) os estudos da dialetologia, com os atlas regionais e nacional; 
(ii) com o trabalho da dialetação vertical, conduzida pela Sociolinguística; e 
(iii) do “levantamento exaustivos de depoimentos diretos ou indiretos sobre todos os processos linguageiros havidos a partir do início da colonização”. 
Há, desta forma, um número incalculável de manuscritos, oficiais ou não, à espera de uma edição confiável e de estudos linguístico-filológicos, que possam complementar as pesquisas que hoje buscam lançar luzes à história do PB, registrando, descrevendo, analisando e comparando dados oriundos de um corpus diacrônico referente à documentação, em sua maioria, manuscrita produzida no Brasil. Para tanto, este Simpósio se increve como veiculador de estudos sobre a linguagem em seus diferentes aspectos do ponto de vista diacrônico, além de pesquisas que possam delinear a sócio-história do português, estudando a ocupação demográfica, a formação das variedades culta e popular. É objetivo a disseminação de trabalhos sobre a mudança gramatical e sobre o léxico do PB em suas alterações fonológicas, morfológicas e ortográficas, como também os estudos que possam contribuir para melhor compreensão das dificuldades de aprendizagem da língua materna. 
Deste modo, esta proposta de Simpósio pretende ser o espaço de discussão sobre os trabalhos de cunho diacrônico realizados atualmente, reunindo pesquisadores que se ocupam desta área de estudo para descrever e analisar a(s) norma(s) vigente(s) na época e, assim, contribuir para uma história do PB.
Fonte: 

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 4


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Luzmara Curcino Ferreira
Henrique Silvestre Soares
LER NA ATUALIDADE: HISTÓRIA, PRÁTICAS E DISCURSOS

A leitura é ao mesmo tempo um gesto interpretativo individual que, no entanto, é regido por diferentes formas de injunção social. Ela é também uma prática culturalmente delimitada, uma vez que se altera ao longo da história assim como de uma cultura a outra. Textos, gestos de leitores e objetos culturais são relacionados e explorados segundo crivos teóricos particulares de modo a permitirem a estudiosos da leitura oriundos de diferentes campos de saber (teóricos da comunicação, linguistas, críticos literários, professores, psicólogos, historiadores etc.) descreverem e sistematizarem essa prática que, por si só, não deixa marcas tangíveis de sua realização que possam atestar uma homogeneidade em sua prática ou uma singularidade quanto aos sentidos produzidos na apropriação dos variados textos a que estamos expostos.

A proposição deste GT visa congregar pesquisadores da leitura, especialmente aqueles voltados para a análise das representações discursivas que orientam nossas concepções sobre a leitura assim como nossa maneira de ler. Essa orientação pode se estabelecer de duas maneiras: de um lado, pela produção e reprodução de discursos sobre a leitura que elegem não somente os tipos de textos como também as formas legítimas de se ler/de se ensinar a leitura; de outro, pelo controle exercido pelos próprios textos em circulação e que, por suas estratégias de escrita, pelo modo como selecionam, priorizam ou empregam as linguagens, ordenam a maneira, enfim, o ritmo como nosso olhar leitor deve percorrê-los e os sentidos que a eles devemos ou podemos atribuir.

Nosso interesse é congregar estudiosos que abordem em seus trabalhos de pesquisa a leitura como objeto de conhecimento, em uma de suas várias dimensões – como prática educacional, estética, social, cognitiva, histórica, subjetiva, tecnológica etc. – mas especialmente em sua dimensão discursiva, ou seja, como prática de interpretação de textos historicamente orientada, de maneira a contribuir com uma melhor compreensão acerca do que faz o leitor quando lê, ou como ele exerce (ou não) essa prática, levantando as coerções ou liberdades que atuam quando do exercício da leitura, no nível da materialidade textual ou não, definindo assim os limites ou extensões da intepretação. Este GT, portanto, pretende atuar como um espaço privilegiado de debate sobre o leitor e suas práticas de leitura, especialmente em relação ao leitor brasileiro na atualidade. Para tanto, serão bem vindos trabalhos que abordem as formas peculiares de leitura de comunidades de leitores diversas, especialmente aquelas, tão heteróclitas assim como desconhecidas, que podemos designar, com base na definição dos historiadores culturais da leitura, como novos leitores. São aqueles leitores, em sua grande maioria, não pertencentes ao universo sociocultural erudito que, graças à expansão dos textos e às novas tecnologias de produção e circulação de textos impressos e eletrônicos da atualidade, têm travado contato mais freqüente com a escrita, por meio de textos da cultura de massa mas também da cultura letrada.

Objetivamos, assim, fomentar a discussão sobre os discursos sobre a leitura e seu papel na formação dos indivíduos na atualidade, as novas formas de produção e circulação de textos e seu impacto sobre a leitura, as estratégias de mercado que vêem no leitor um consumidor e as políticas públicas voltadas para a leitura, compreendendo assim as injunções de diversas ordens que determinam, em alguma medida, as condições de produção da leitura na atualidade. Essas discussões nos permitirão levantar prováveis continuidades e/ou descontinuidades nas práticas e nas representações discursivas da leitura e do leitor ao longo da história, o que pode nos permitir apreender melhor o fenômeno e suas variações e avançar hipóteses de trabalho e propostas de atuação no âmbito da pesquisa ou no âmbito político-pedagógico, junto a órgãos governamentais e a intituições escolares e universitárias, entre outros.

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Neiva Maria Jung
Cristina Marques Uflacker
LETRAMENTO, ETNOGRAFIA, INTERAÇÃO E APRENDIZAGEM

Neste Simpósio, tem-se como objetivo reunir trabalhos que examinam práticas sociais letradas, mais especificamente, estudos que buscam descrever e compreender os usos sociais da escrita e as suas implicações para a aprendizagem escolar.

Os pressupostos teórico-metodológicos são os estudos sobre letramento (STREET, 1984, 1988, 2000, 2003, 2004; HAMILTON, 2000; BARTON, 1994; BARTON, HAMILTON e IVANIC, 2000; BAINHAM, 2004; KLEIMAN, 1995, 2004; OLIVEIRA, 2010), que apresentam e discutem letramento como prática social. De acordo com Street (1995), os usos da leitura e da escrita são socialmente determinados, têm valor e significado específico para cada comunidade, portanto, não podem ser tratados isoladamente como “neutros”.

Nesse sentido, os Novos Estudos de Letramento (NLS) representam uma nova tradição de pesquisa, por considerarem a natureza do letramento, pois ele pode variar de acordo com o tempo e o espaço e está articulado com as relações de poder (STREET, 2003). Para descrever esses usos sociais da escrita, Street recomenda a realização de trabalhos etnográficos, pois somente esses trabalhos seriam capazes de descrever a complexidade dos fatores envolvidos em práticas situadas de uso da escrita e compreendê-los em nível micro. Trata-se de uma metodologia que permite reconhecer os fatores culturais e sociais envolvidos nas práticas de escrita, ou seja, como as pessoas fazem uso da escrita e como elas interagem umas com as outras ao fazê-lo, e qual a relação desses modos de participação com as culturas que constituem os participantes, articulando a compreensão micro com as relações macrossociais.

Para a descrição micro, a articulação com os estudos de fala-em-interação social também tem se mostrado bastante produtivos. A perspectiva da Análise da Conversa Etnometodológica (ACE) (SACKS, SCHEGLOFF e JEFFERSON, 1974; LODER; JUNG, 2008, 2009) entende a fala como uma forma de ação social, isto é, como uma forma de fazer coisas no mundo. Desse modo, a ACE investiga como as pessoas envolvidas na interação compreendem o que sua fala e outras condutas estão fazendo e estas compreensões são evidenciadas nas sequências organizadas da fala. Essa compreensão permite analisar de que modo as pessoas presentes em um evento de letramento efetivamente se engajam nesse evento, mostrando a sua participação e aprendizagem, ou seja, neste viés como as pessoas por uma série de práticas operacionalizam ações e atitudes orientadas para a confirmação, modificação ou ampliação do conhecimento (ABELEDO, 2007; SCHEGLOFF, 1991).

Nesse caso, o espaço para a participação deve ser construído na escola para que todos possam participar e ter a palavra para dizer o que estão aprendendo e o que está difícil de aprender, o que possibilita que os alunos passem a ser protagonistas de seus processos de aprendizagem (SCHULZ, 2007). Em síntese, este simpósio propõe reunir trabalhos que descrevam práticas de letramento em sala de aula que evidenciem efetivamente a participação de professores e alunos, propostas de práticas para a aprendizagem escolar, que descrevam o papel das novas tecnologias nessas práticas e proporcionar um espaço para que outras práticas sociais de uso da escrita possam ser descritas e apresentadas, como práticas religiosas, procurando reconhecer a sua contribuição (ou não) para as práticas letradas escolares.

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Maria Regina Pante
Elódia Constantino Roman
LINGUÍSTICA FUNCIONAL: TENDÊNCIAS E INTERFACES

Este simpósio tem por objetivo constituir-se como espaço de discussão de trabalhos de pesquisadores de graduação e de pós-graduação da Universidade Estadual de Maringá e de outras instituições nacionais e internacionais que promovam discussões integradas das contribuições de base funcionalista, sob os mais diferentes modelos de análise textual e discursiva, relacionando tais investigações com possíveis interfaces (estudo de mudanças históricas de itens e construções; interação sociodiscursiva, em que a língua é vista como atividade estruturada e cooperativa; estudos relativos às competências básicas; estudos de contexto e contexto, associados a questões de ordem pragmática entre outros).

Com base na perspectiva que trata a linguagem como um instrumento de interação verbal e toma, dessa maneira, as propriedades formais das unidades linguísticas, descrevendo-as em termos de intenção comunicativa em que são produzidas para a descrição de língua em uso, considera-se, assim, os vários níveis de análise da língua portuguesa no Brasil e em outros países em que ela é falada. As análises aqui propostas devem ser compreendidas como manifestações complexas que concebem as atividades linguísticas de sujeitos que, primordialmente, partem de escolhas comunicativamente adequadas e operam as variáveis dentro de condicionamentos ditados pelo processo de produção de enunciados em condições reais de uso. Ou seja, as investigações avaliam as condições dessas escolhas para o cumprimento de determinadas funções; as condições de produção dessas estruturas; as estratégias e os elementos que efetivamente operam para a construção textual/discursiva.

Com base nesse pressuposto, as diferentes pesquisas a serem expostas podem considerar desde as unidades menores, como itens que, ao serem construídos e expandidos pelo uso foram integrando outras categorias (processos de gramaticalização interpretados aqui, nos termos de Hopper & Traugott (1993); Traugott, (1995,1999); Traugott & König (1991), como processo de mudança linguística em que itens ou construções menos gramaticais passam em determinados contextos a assumir traços morfossintáticos, semânticos e pragmáticos de itens ou construções mais gramaticais ainda quanto unidades maiores que a oração – um período ou uma sequência discursiva e extensões distintas). Nesse caso, considera-se tanto a mudança devido ao aumento gradual da pragmatização do significado (inferência) quanto o aumento de abstratização do item linguístico (estratégias metafóricas), evidenciando parte de um uso considerado mais concreto para um uso mais abstrato-expressivo que implica situações discursivas distintas.

Aceitam-se, no presente simpósio, trabalhos que possam apresentar e caracterizar essas possíveis interfaces com os diferentes modelos de gramática de base funcionalista – Gramática Sistêmico-Funcional, Gramática Funcional, Modelo de Halliday (1989), Dik (1989), Dik e Hengeveld (1997) Linguística Textual, Pragmática entre outros. Mediante tais análises, objetiva-se compreender como as regularidades de certas escolhas podem alterar o sistema linguístico.

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Helson Flávio da Silva Sobrinho
Maurício Beck
O CAMPO PARADOXAL DAS IDEOLOGIAS, ENTRE IDENTIFICAÇÕES, SIMETRIAS E RUPTURAS

A proposta deste Simpósio é aprofundar o debate sobre o campo paradoxal das ideologias a partir das noções de identificação, contraidentificação e desidentificação em Pêcheux e as noções freudianas de identificação. Para Pêcheux, no transcurso do século passado, persistiu certa tendência de produção-reprodução do Estado (de tipo prussiano, espécie de fortificação ocupada) nas inversões/subversões de aparelhos ideológicos dos países sede do “socialismo realmente existente”.

Nestes enclaves assimétricos no interior do desenvolvimento geral da acumulação do Capital, não deixaram de funcionar dispositivos estratégicos e práxis ideológico-discursivas de contraidentificação “simetrificantes do adversário vencido”(Pêcheux, 1982: 112). Essa leitura pecheuxtiana coloca novos problemas em relação ao estudo dos antagonismos no movimento do real, impondo-nos o questionamento sobre quais formas de inversões/subversões rompem radicalmente a ponto de não funcionar como espelho invertido do Capital-Estado? Na Análise do Discurso, as contradições são inerentes aos discursos, afinal, o dito pode ser negado e contrariado dentro de uma mesma formação discursiva, sem que, por isso, haja paradoxo no funcionamento dessa formação no âmbito de uma dada formação ideológica.

Talvez seja por isso que, nas tentativas esquerdistas de subversão do poder ao longo do século XX, temos mais uma troca de gestores na extração de mais-valia, que, de fato, uma negação do Capital, conforme Mészarós, a despeito de todas as conquistas sócio-históricas alcançadas, impensáveis na periferia do sistema capitalista antes do advento da Revolução de 1917. Para aprofundarmos essa questão, é preciso antes entender como funcionaram essas formas simetrificantes nas lutas antagônicas do século XX mencionadas por Pêcheux. Entre as abordagens pertinentes para esse problema, há uma via ainda pouco trabalhada: a da articulação entre as noções de indentificação, contraidentificação e desidentificação em Pêcheux, com as noções freudianas de identificação (mecanismo de defesa) e sugestão propostas em “Psicologia das Massas” e “Análise do Eu”. Além disso, as elaborações freudianas acerca do funcionamento de aparelhos como a igreja e o exército podem contribuir na investigação dos mecanismos de produção e reprodução da forma de produção capitalista.

Ao mesmo tempo, a crítica de Pêcheux à práxis do Estado de Emergência em que tudo se justifica em nome da urgência pode nos remeter aos estudos de Agamben acerca do Estado de Exceção e às formas de segregação (homo sacer) engendradas pelo aparelho de Estado em relação à população (Gulgag, no caso do stalinismo), formas de segregação essas que já foram adiantadas por Gramsci, quando tratou da divisão social do trabalho entre Homo faber e Homo sapiens. O trabalho de um fogo crítico em relação à teoria e às práticas das forças anticapitalistas do século XX condiz com a postura teórico-política desafiadora de Pêcheux e converge com a postura de Zizek de que é necessário que a autocrítica do materialismo histórico seja mais rigorosa e mais contundente que a crítica externa, a de seus adversários políticos (liberais, pós-modernos).

O desenvolvimento dessas questões, neste Simpósio, pode ajudar a compreender, de modo mais profícuo, como a língua e as linguagens são cotidianamente trabalhadas na condição de campos de força em meio aos (e não como um meio ou mero espelhamento dos) variados processos sociais de resistência-revolta-revolução, desde a atualização de fronteiras enunciativas, com a manutenção de não-ditos no silêncio, ao atravessamento dos seus limites, configurando novas posições do dizer, removendo \”ininterruptamente os pontos discursivos de assujeitamento ideológicos e os locais a partir dos quais é possível enunciar oposição, sem que a lógica dessa remoção jamais [possa] ser descrita em um sistema fechado\” (Pêcheux, 1982: 119).

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 2

2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Vanderci de Andrade Aguilera
Catarina Vaz Rodrigues
ESTUDOS GEOSSOCIOLINGUÍSTICOS NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Os estudos dialetológicos no Brasil bem cedo despertaram a atenção de filólogos, docentes da Língua Portuguesa e até mesmo de autodidatas. Desse interesse nasceram reflexões e obras como as de Amaral (1920) e Nascentes (1923), dando o impulso inicial para que outros pesquisadores se voltassem não apenas para os fatos linguísticos do português europeu, mas para o português que se transplantou para a România Nova, seja materializado na pena do escritor, seja articulado na boca do povo. Nascentes reconhece que o Dialeto Caipira (AMARAL, 1920) foi o inspirador de O Linguajar Carioca tanto na metodologia de coleta dos dados como na estruturação da obra: ambas discutem aspectos fonéticos, lexicais e morfossintáticos das duas realidades linguísticas – a paulista e a carioca.

Nesta mesma linha teórica, e na sequência, vêm os trabalhos sobre os falares nordestinos, de Marroquim (1934) e sobre os falares mineiros e goianos, de Teixeira (1938), mostrando para a academia pelo menos uma parte do Brasil linguístico real. Essas obras dialetológicas pioneiras vão instigar pesquisadores da época para a elaboração de um atlas linguístico do Brasil. Assim é que Silva Neto (1957) e Nascentes (1958 e 1961), amparados pelo Decreto de 1952 que atribuía à Casa de Rui Barbosa a responsabilidade pela coordenação e desenvolvimento de tão ousado projeto, lançam para este fim as sementes teórico-metodológicas sob a forma de bases e guias. Se a ideia de um atlas nacional não frutificou de imediato, a proposta foi se enraizando pouco a pouco pelas Faculdades de Letras de tal modo que, em menos de 40 anos, cinco atlas afloraram sucessivamente em pontos diversos: na Bahia, em Minas Gerais, na Paraíba, em Sergipe, no Paraná enquanto outros estavam em gestação na Região Sul, no Ceará, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos últimos anos do século passado, lança-se o projeto do Atlas Linguístico do Brasil com uma proposta mais moderna que associa os princípios teórico-metodológicos da Geolinguística aos da Sociolinguística.

Dessa grande árvore, brotaram inúmeros ramos em quase todos os 26 estados brasileiros, tais como no Pará, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Espírito Santo, entre outros. Cardoso (2002), diretora presidente do ALiB, lembra muito bem que a fusão dos princípios geolinguísticos com os sociolinguísticos nasceu de dois aspectos fundamentais:

“(i) o reconhecimento das diferenças ou das igualdades que a língua reflete e

(ii) o estabelecimento das relações entre as diversas manifestações linguísticas documentadas e circunscritas a espaços e realidades pré-fixados”.

Além desses aspectos, concordamos com Moreno Fernández (1998) quando reafirma que “as atitudes do falante influem decisivamente nos processos de variação e mudança linguística que se produzem nas comunidades de fala, pois uma atitude favorável ou positiva pode fazer

(i) uma mudança cumprir-se mais rapidamente;

(ii) que em certos contextos predomine o uso de uma língua ou de um dialeto em detrimento de outra(o);

(iii) que certas variantes linguísticas se confinem a contextos menos formais e outras predominem nos estilos cuidados.

Diante desse panorama produtivo e multifacetado e sabendo que a língua não é somente um complexo de variedades regionais, mas também uma superposição de variedades sociais que implica valores a elas atribuídos, propomos o presente Simpósio com os seguintes objetivos:

(i) congregar pesquisadores de várias IES para apresentar estudos e projetos de Geolinguística e de Sociolinguística, inclusive de crenças e atitudes sociolinguísticas, em andamento no Brasil;

(ii) descrever e discutir aspectos da variação diatópica e diastrática do português;

(iii) discutir aspectos teóricos e metodológicos relacionados aos estudos geossociolinguísticos.

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Cláudia Valéria Dona Hila
Elvira Lopes Nascimento
FERRAMENTAS DE ENSINO E PRÁTICAS EM SALA DE AULA

Na perspectiva do Interacionismo Sociodiscursivo (BRONCKART, 2006; 2008) a atividade do professor é instrumentada. Isso quer dizer que a relação entre o docente e o seu objeto de ensino é mediada por inúmeras ferramentas, as quais:

(a) asseguram o encontro do professor com o objeto teórico a ser internalizado;

(b) contribuem para modificar os modos de pensar, agir e falar tanto dos alunos como também dos próprios professores;

(c) apresentam-se semiotizadas e

(d) conseguem promover a reflexão daqueles que delas se utilizam.

Schneuwly (2000) argumenta que as ferramentas podem ser de natureza material e discursivas. Entre as primeiras se incluem as sequências didáticas, as oficinas, os projetos temáticos e os inúmeros materiais de sala de aula que, se adequados ao planejamento do professor, funcionam como mediadores do processo de ensino-aprendizagem, tais como: os livros didáticos, os paradidáticos, os textos de divulgação cientifica, os textos literários, as obras de referência, os livros de consulta, os jornais, as revistas, os jogos, os vídeos e os próprios gêneros textuais, em diferentes mídias e linguagens. Entre as segundas, se incluem as ferramentas de natureza discursiva, como as ações e os gestos didáticos dos professores ao presentificar o objeto em sala de aula (NASCIMENTO, 2011).

Hila (2011) amplia essa discussão exemplificando outras ferramentas significativas para o movimento de internalização, tais como: as sessões reflexivas, os planos de aula, a reescrita, o estilo individual de cada professor, dentre outras. Colaborando com a discussão, Wirthner (2004;2007) compreende que as ferramentas didáticas ainda definem, em grande parte, o ensino, pela maneira como se propõem a abordar, apresentar ou recortar o objeto a ser ensinado e, nesse sentido, elas também influenciam as concepções de ensino e de linguagem daqueles que as empregam. Por isso mesmo, o uso de ferramentas em sala de aula pode ser uma fonte de aprendizagem e de desenvolvimento tanto para o professor, como para o aluno e, sendo assim, conhecer as potencialidades das inúmeras ferramentas que o docente têm a sua disposição é fundamental para o processo formativo de todos aqueles envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.

Dessa forma, o objetivo desse simpósio é reunir trabalhos que, diante das práticas de linguagem, nos eixos de ensino- leitura, produção e análise lingüística- evidenciem o papel das ferramentas (de quaisquer natureza) para gerar práticas significativas em sala de aula, exatamente porque auxiliam o processo de internalização e podem gerar o desenvolvimento dos alunos. As dificuldades encontradas na formação inicial e continuada de professores de Língua Portuguesa para promoverem a internalização de diferentes objetos teóricos justificam a organização deste simpósio, por propiciar reflexões tanto sobre os subsídios prático-metodológicos que dão suporte à formação, quanto ao desenvolvimento de ferramentas didáticas, considerando a sua relação e adequação ao projeto de ensino do professor, assim como quanto à busca de identificação e compreensão dos agires realizados por professores durante o planejamento, elaboração e aplicação dessas ferramentas. O conhecimento, a discussão e a aplicação de procedimentos pedagógicos atualizados é o fio condutor dos pesquisadores integrados a este simpósio.

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Sírio Possenti
Sonia Aparecida Lopes Benites
FÓRMULAS E ESTEREÓTIPOS: RELAÇÕES E CONDIÇÕES DE FUNCIONAMENTO

Textos-fórmulas, como provérbios, ditados, máximas, adivinhas, piadas e slogans são enunciados que apresentam estruturas linguísticas relativamente fixas, em geral breves, além de um determinado ritmo. Seu funcionamento se caracteriza pela repetição, que os legitima, tornando-os reconhecidos e reconhecíveis em uma comunidade de falantes. Considerando essa forma de funcionamento, Maingueneau (2006) classifica-os em:

a) fórmulas autônomas ou destacadas, independentes do contexto, com significante e significado inalteráveis, memoráveis;

b) fórmulas destacáveis, estruturas passíveis de serem destacadas de um texto e convertidas em pequenas frases que passam a circular de forma também autônoma.

De fato, algumas dessas frases são criadas exatamente para isso, como é o caso dos slogans publicitários e políticos. Embora tenham um contexto histórico bastante relevante, não possuem um contexto textual imediato imprescindível para seu “funcionamento”. Contudo, existem também aquelas que são destacadas de seus contextos textuais originais – e o são graças a essa estrutura frasal específica, somada a seu conteúdo generalizante e a um ethos solene. Nestes casos, apesar de fazerem parte de um texto, sua estrutura faz com que se sobressaiam dentre os outros enunciados e passem a ser empregadas como fórmulas.

Maingueneau (2010) falará, assim, em destacamento constitutivo, para referir-se a enunciados que nascem destacados (como os provérbios e os slogans publicitários), e em destacamento por extração, para fazer menção às citações. A aforização é exatamente o regime enunciativo implicado em um enunciado destacado por extração. Em outras palavras, o regime de enunciação aforizante torna um enunciado passível de ser destacado de seu contexto original. Por fim, lembramos os estereótipos sociais, elementos também caracterizados pela cristalização, e que podem ser vitais para o funcionamento de um texto, tanto na medida em que implicam posições ideológicas ou culturais quanto por serem cruciais para o próprio gênero em que aparecem (para muitas piadas, por exemplo).

A estereotipia, segundo Amossy (2005), “é a operação que consiste em pensar o real por meio de uma representação cultural preexistente, um esquema coletivo cristalizado” (p. 125). Situando-se em certo tipo de exterior constitutivo, ela é condição (parcial, pelo menos) de funcionamento dos textos-fórmulas, e está fortemente ligada ao humor e às verdades correntes, além de desempenhar “papel essencial no estabelecimento do ethos” (AMOSSY, 2005, p. 125).

O presente simpósio tem os seguintes objetivos: reunir estudos sobre os textos-fórmulas e estereótipos e suas eventuais relações mútuas; estudar as condições de funcionamento dos textos-fórmula (sua circulação, seus sentidos, suas eventuais adaptações), relacionando-os com as verdades correntes ou com pretensas formulações de verdades. Poderão ser tomados como objetos de análise, entre outros, os provérbios, os slogans e as piadas que operam com clichês e estereótipos.

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Vera Wannmacher Pereira
Onici Claro Flôres
LEITURA E ESCRITA: ESTUDOS PSICOLINGUÍSTICOS E INTERFACES

O Simpósio “Leitura e escrita: estudos psicolinguísticos e interfaces” propõe-se a considerar as dificuldades evidenciadas por estudantes dos diversos graus de ensino (fundamental, médio e superior) em relação à leitura (compreensão/ interpretação) e à escrita. As dificuldades dos estudantes evidenciam-se nos escores alcançados em Língua Portuguesa em provas oficiais nacionais (SAEB, ENEM, ENADE) e internacionais (PISA), manifestando-se com intensidade nos comentários dos professores, dos familiares, dos empregadores e da sociedade em geral.

Nesse quadro, a leitura e a escrita constituem-se em prioridade educacional de grau máximo, exigindo espaços e financiamentos públicos para o desenvolvimento de pesquisas e demandando condições mais favoráveis para seu ensino. Em vista disso, o presente Simpósio enfoca justamente o tema – leitura e escrita, examinando cada um dos tópicos, individualmente, e em suas inter-relações. Do ponto de vista teórico, a temática situa-se na área de estudos da Psicolinguística, segundo a qual a leitura e a escrita são consideradas como processos cognitivos, que exigem do leitor e do escritor procedimentos diferenciados, embora convergentes.

Dessa forma, este Simpósio assume a relevância dos trabalhos de interfaces da Psicolinguística – internas (Estudos do Texto e do Discurso, Pragmática) e externas (Literatura, Psicologia, Sociologia, Informática, Educação, Fonoaudiologia, Neurociências). A presente proposta de trabalho relaciona as pesquisas sobre leitura e escrita que, teoricamente, tanto podem ser abordadas em separado como em conjunto, considerando-as interativamente. É útil, então, salientar que, se existem questões não respondidas em relação à leitura, apesar do número de pesquisas feitas e de pesquisadores envolvidos, há que acrescentar que as dúvidas e dificuldades se avolumam quando se aborda a escrita. Não se escreve em um só gênero nem em um só tipo de sequência.

A ocasião social que faz emergir a necessidade social da escrita tem suas exigências e elas precisam ser atendidas, a fim de que o papel da atividade social da qual a escrita faz parte seja preenchido. Assim, mesmo adultos alfabetizados têm muitas dificuldades de leitura e de escrita, mesmo profissionais têm de se esforçar bastante para compreender um texto e escrever da forma requerida. Enquanto isso a vida social prossegue em seu ritmo e avultam e se diferenciam os gêneros discursivos (BAKTHIN, 2003) em circulação. O certo é que, a partir do momento em que se assume a tarefa de escrever um texto até o momento de dar-lhe o destino para o qual se fez necessário escrevê-lo, atravessam-se distintas fases – a de pré-escrita, a de escrita, propriamente, e, por fim, a de revisão ou pós-escrita, segundo o destaca Soares (2009). Em suma, os dois processos se relacionam, mas não se reduzem um ao outro, exigindo planejamento de atividades que possam levar a bom termo tanto leitura quanto produção escrita.

Quanto à metodologia, o Simpósio ora proposto está aberto para investigações bibliográficas e de campo, assim como para estudos teóricos e aplicados. Em vista disso são oportunos trabalhos que proponham reflexões teóricas, bem como que apresentem resultados decorrentes de aplicações, configurando-se como relatos de pesquisas. Considerando o recorte teórico, são participações pertinentes as que estejam centradas exclusivamente na Psicolinguística, as que estejam assentadas em movimentos com interfaces internas (com outras áreas da Linguística) e com interfaces externas (com outros campos de conhecimento).

Desse modo configurado, o Simpósio tem como objetivo primordial ensejar o debate entre professores e pesquisadores da linguagem sobre o tema “leitura e escrita”, buscando contribuir para o desenvolvimento da Psicolinguística, para a elucidação de problemas de pesquisa, para o levantamento de caminhos produtivos para o ensino e o aprendizado tanto da leitura quanto da escrita e para o aclaramento de suas inter-relações.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 2

CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários
O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.
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Darcilia Marindir Pinto Simões
Maria Suzett Biembengut Santade
DISCUTINDO O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO L1, L2, L2E
Este simpósio visa a congregar docentes-pesquisadores interessados na temática \”ENSINO DE PORTUGUÊS [LP] COMO L1, L2, L2E\”, para levantar discussões que possam contribuir com a melhoria da prática de ensino de Língua Portuguesa nesse amplo espectro. Tema que vem ensejando muitos debates, estudos e pesquisas, pareceu-nos oportuno reunir, sob os auspícios do CIELLI, profissionais com experiência nessa modalidade didático-pedagógicas da Língua Portuguesa, de modo a promover o cruzamento de saberes, crenças, hipóteses teóricas etc., que propulsionem o avanço da produção técnico-científica e, por conseguinte, contribuir para o aperfeiçoamento das estratégias de trabalho.
Na ótica de Charles S. Peirce, estudioso norte-americano, as concepções são “idéias que se alojam na mente das pessoas como hábitos, costumes, tradições, maneiras folclóricas e populares de pensar”. Portanto, entendemos que muito do que circula sobre o ensino da língua portuguesa (L1, L2, L2E) se deve a juízos acientíficos produzidos e alimentados pela mídia e que merecem nosso olhar crítico, para que reajustemos a imagem dos docentes e dos cursos que operam nessa área. O ensino da língua com meta comunicativa trouxe à cena a incongruência histórica do ensino pautado na nomenclatura.
Posto o foco no problema, chegou às classes os ensinamentos da Linguística Textual e da Análise da Conversação. Uma e outra contribuíram para uma revisão do que se ensinava e do que cobrava do aluno. Verificou-se ainda, com a luz da Sociolonguística, a questão da variedade que, independentemente de qual língua ou qual modalidade de língua seja, a variação é um fato relevante. Então os olhos se voltaram para novos enfrentamentos. Todavia, os equívocos não deixam de existir e, apesar dessas importantes malhas teóricas surgidas, continua o sofrimento docente por não conseguir atingir seus objetivos.
Diante do processo de globalização, as nações passaram a se avaliarem em relação às outras e partiram para a elaboração de processos avaliativos mundiais. E os resultados desses expedientes é motivo de mais angústia por parte dos docentes. Estamos numa fase propícia, pois o Brasil parece bem situado em meio à crise econômica internacional. Em decorrência, os olhos estrangeiros cada vez mais se voltam para o Brasil, que vem sendo visto como nova shangrilá, por isso, o controle de qualidade se impõe com mais força, e nós, docentes-pesquisadores da área, somos cobrados, pedem-nos teorias, métodos, enfim, caminhos para a consecução dos grandes objetivos do ensino de línguas para a comunicação.
A Linguística Aplicada, a Semiótica, A Semântica, a Pragmática etc. disponibilizam caminhos seguros para a realização de um processo de ensino produtivo. No entanto, a moldura de temeridade e de displicência, construída a partir de uma prática social voltada para a valorização das línguas estrangeiras, acaba por afetar o ambiente das classes de LP e resultar em desentendimento sistemático entre teorias e métodos de modo a permitir resultados dolorosos no ranking nacional e internacional de avaliação das competências discentes para a leitura e produção textual. Assim sendo, espera-se desse Simpósio a elaboração de um material que possa, no mínimo, provocar a reflexão docente no âmbito do ensino de LP como L1, L2, L2E. Palavras-chave: LÍNGUA PORTUGUESA; ENSINO; TEORIAS, MÉTODOS E COMPETÊNCIAS
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Jeane Mari Sant´Ana Spera
Marco Antônio Domingues Sant´Anna
ELEMENTOS DE LINGUÍSTICA PARA O TEXTO LITERÁRIO
Dominique Maingueneau, em Elementos de lingüística para o texto literário, título tomado de empréstimo para identificar este simpósio, aponta o risco de se aprofundar o “fosso” entre os estudos lingüísticos e a análise literária, caso linguistas e literatos insistam em manterem-se recolhidos em seus próprios domínios. Manifesta mesmo o desejo de contribuir para o restabelecimento da comunicação entre ensinos lingüístico e literário, como evidentemente o faz, com suas publicações.
Este é, também, o objetivo deste simpósio: possibilitar o encontro de pesquisadores que busquem explorar, na análise literária, o papel efetivo dos estudos lingüísticos da mais variada natureza. Nesse particular, destacam-se os estudos relativos às instâncias da enunciação, tais como as formas de manifestação do sujeito e suas consequências textuais, os discursos citados, as questões relativas a tempo e espaço etc… Fala-se, nesse caso, em discurso literário. Percebe-se que essa preocupação com as relações entre literatura e lingüística como objeto de estudo tem ocupado muitos outros lingüísticas.
Além do já citado Maingueneau. Já há algum tempo, Sírio Possenti (1988), em Discurso, estilo e subjetividade, discute, no capítulo intitulado Notas sobre estilo literário, a questão que envolve as relações entre Lingüística e Literatura, ou, mais especificamente, entre lingüistas e críticos literários. O autor constata a necessidade de haver um maior intercâmbio entre esses estudiosos, visto que ambos trabalham com a linguagem. No campo da literatura, a publicação recente de Beth Brait (2010), intitulada Literatura e outras linguagens, reúne lingüísticas e literatos, do nível de Carlos Alberto Faraco, Luiz Carlos Travaglia, Francisco da Silva Borba, Carlos Vogt, Cristóvão Tezza, Ignácio de Loyola Brandão, Ingedore Koch, Possenti, Maingueneau, entre outros, para discutir suas relações com língua e literatura.
A partir de uma pergunta formulada na apresentação do livro, “Como se arranjam língua e literatura nas estantes da vida?”, Brait seleciona textos, “cuja leitura, análise, discussão é complementada por depoimentos inéditos de prosadores, poetas, lingüistas, analistas do discurso, teóricos da literatura” que trabalham com linguagem, criação e ensino. Os textos revelam as relações entre língua e literatura, em cuja convergência se pode “observar a linguagem – verbal, visual, verbo-visual –, bem como os sujeitos com ela envolvidos e por ela constituídos”. A autora justifica a obra pela convicção manifesta de que língua e literatura formam “uma parceria inquestionável”, crença, acredita-se, também professada pela maioria dos pesquisadores que se dedicam ao estudo do discurso literário.
Enfim, acredita-se que esse simpósio possa, assim como as obras citadas, provocar discussões que permitam vislumbrar o movimento contínuo das relações mútuas entre literatura e linguagem, traduzidas nas reflexões sobre a função dos fatos linguísticos na conformação do texto literário, bem como sobre o papel fundamental da literatura na construção da identidade de uma língua. A confluência de tais esforços só poderá fortalecer o diálogo entre os dois campos de estudo, o que, com certeza, deverá ampliar as possibilidades de pesquisa tanto no campo dos estudos lingüísticos como no dos estudos literários.
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Adriane Teresinha Sartori
Sílvio Ribeiro da Silva
ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES NA CONTEMPORANEIDADE
Este simpósio visa reunir pesquisadores, cujos trabalhos estejam em andamento ou já tenham sido concluídos, que se debruçam sobre a questão do ensino de língua portuguesa como língua materna em todos os níveis escolares. Trata-se de temática que merece nossa análise por diversos motivos. Um deles está na problemática enfatizada pela constante divulgação de resultados insatisfatórios de nossos alunos em avaliações (inter)nacionais de leitura e escrita. Abre-se, então, um primeiro grupo de trabalhos: por um lado, aqueles que investigam os testes propostos e, por outro, aqueles que pesquisam os processos de leitura e escrita.
A questão da leitura merece nossa atenção, porque há muito a se dizer sobre como ensinar a ler/compreender/interpretar um texto, identificando informações explícitas e construindo informações implícitas. Vale destacar que a leitura deixou de ser vista como um mero processo de decodificação de símbolos, por envolver, na verdade, a mobilização de vários elementos, formando uma complexa rede de inferenciação.
A escrita, por sua vez, pode ser tratada por diversos ângulos: a redação de gêneros escolares, as situações de produção bastante detalhadas e específicas, os “erros” dos estudantes, a reescrita/refacção do texto, entre outros, todos fundamentais para se pensar em como desenvolver a competência discursiva escrita do sujeito. Os outros eixos de ensino, a gramática/análise linguística e o oral, também ganham espaço neste simpósio. A questão da análise linguística, ressignificando o ensino de gramática, efetiva-se hoje em práticas variadas, ora contemplando aspectos da nomenclatura gramatical, ora buscando a análise das marcas linguísticas de tipologias textuais e de gêneros variados. E no meio desses dois polos, há um verdadeiro mix de atividades, revelando aproximações e distanciamentos entre concepções acadêmicas e escolares.
O ensino do oral, longe de ser uma simples discussão de um assunto em sala, ou apenas a exposição de ideias acerca de um texto lido, exige que voltemos nosso olhar para os gêneros formais públicos e a (necessária) ficcionalização das propostas de produção oferecidas aos alunos (Schneuwly, 2004). Há que se considerar, também, que os estudos sobre gêneros discursivos abrem possibilidades de investigação muito importantes, considerando desde a descrição daqueles que devem ser ensinados, até experiências que têm sido realizadas para abordá-los, sem esquecer o processo de didatização dos que são deslocados de sua esfera de origem para a escola. Pode-se discutir, nessa perspectiva, a questão dos gêneros que devem ser lidos e dos gêneros que devem ser produzidos pelos discentes (Lopes-Rossi, 2005). Merecem nossa atenção, ainda, os livros didáticos de Língua Portuguesa, bem como os apostilados usados pelas redes privadas de ensino e, em menor número, por escolas públicas. Há de se considerar seus usos, suas propostas e concepções. Inegavelmente, são materiais muito utilizados pelo professor no dia a dia com seus alunos ou, no mínimo, como subsídio para a elaboração de suas aulas.
Enfim, esse simpósio pretende reunir pesquisadores interessados em desvelar as práticas que se efetivam ou poderiam se efetivar nas salas de aula de língua portuguesa dos diversos níveis de ensino, visando contribuir para a construção de alternativas para o processo ensino-aprendizagem, objetivando a inclusão e participação dos alunos em novas e variadas práticas de letramento.
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Magdiel Medeiros Aragão Neto
Morgana Fabiola Cambrussi
ESTUDOS DO LÉXICO E DA GRAMÁTICA
A discretude entre componentes gramaticais e a negação do léxico como um dos componentes estruturados das línguas naturais, pelo que parece, é uma opção metodológica que afasta a análise linguística de uma compreensão dos fenômenos da linguagem mais adequada e inviabiliza a unificação dos estudos desenvolvidos mais acentuadamente a partir da segunda metade do século XX – o que acarreta, além da falta de diálogo entre as ramificações da Linguística, a fragilidade de suas pesquisas.
Isso pode ser adequadamente atestado todas as vezes em que se esbarra, em meio a profusões terminológicas, na dificuldade de se distinguir entre “[…] o fenômeno observável, por um lado, e a variedade de constructos teóricos, por outro.” (LYONS, 1979, p.26. Tradução livre.). Nesse jogo de poder, não é incomum esbarrar em trabalhos cuja discussão tenta moldar fatos da língua para assentá-los no escopo de uma teoria qualquer. Na contracorrente dessa suposta discretude, este Simpósio, “Estudos do Léxico e da Gramática”, propõe um espaço de discussão ampla dos fenômenos da gramática e do léxico, sustentando-se sobre a premissa de que há, entre os componentes gramaticais e lexicais, assim como entre o léxico e a gramática, uma interdependência saliente, rejeitada por uma tradição de correntes linguísticas, mas que já começa a ser posta em nova chave.
Essa interdependência deixa-se perceber quando o olhar não está viciosamente conduzido pela ideia de autonomia e de centralidade de um dos componentes da gramática e do léxico sobre outros que, assim, tornam-se periféricos ou pela ideia de que o léxico das línguas reduz-se a uma listagem desordenada de informações linguísticas sem relevância para a organização e o funcionamento das línguas. Pelo contrário, para explicar certas configurações sintáticas, por exemplo, muitas vezes é necessária a compreensão de quais aspectos lexicais interagem e como se articula tal interação, que comumente envolve diversas propriedades gramaticais. Em outras palavras, a proposta deste Simpósio é propiciar uma discussão teórica e analítica sobre questões pertinentes e atuais levantadas por pesquisas desenvolvidas no campo da investigação linguística, concernentes aos fenômenos observados na estrutura e no funcionamento das línguas naturais, seja no plano do léxico seja no plano da gramática, preferencialmente a partir da integração entre esses planos e/ou da integração entre os componentes gramaticais e lexicais (morfológico, fonológico, sintático, semântico).
Objetiva-se, portanto, articular pesquisadores interessados nas interfaces, nos limites e nas possibilidades que se colocam para a descrição, para a análise e para a explicação linguística dos fenômenos observáveis no léxico e na gramática das línguas naturais. Dessa forma, este Simpósio se constitui em um espaço acadêmico e científico aberto e instigador de debate acerca de fatos linguísticos, que podem ser investigados sob diferentes perspectivas quanto às orientações teóricas e às abordagens empregadas.
Fonte:

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Estudos Linguísticos) Parte 1


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

1
Edson Rosa Francisco de Souza
Ana Cristina Jaeger Hintze
A GRAMÁTICA DISCURSIVO-FUNCIONAL E OS ESTUDOS DE GRAMATICALIZAÇÃO – INTERFACES POSSÍVEIS

O objetivo deste simpósio é reunir diferentes estudos de orientação funcionalista que vêm sendo desenvolvidos por pesquisadores brasileiros. Especificamente, o propósito dos trabalhos é discutir questões de mudança gramatical/semântica em diferentes unidades linguísticas (orações, verbos, conjunções, advérbios), a partir de princípios teóricos provenientes tanto da Teoria da Gramaticalização (HEINE et alii, 1991; HOPPER & TRAUGOTT, 1993; TRAUGOTT, 1995, 1999; TRAUGOTT & KÖNIG, 1991; BYBEE et alii, 1994; BYBEE, 2003) quanto da Teoria da Gramática Funcional (DIK, 1997; NEVES, 2000; HENGEVELD & MACKENZIE, 2008).

Em termos gerais, a gramaticalização (GR, doravante) é definida aqui como um processo de mudança linguística de caráter unidirecional, no interior do qual itens ou “construções lexicais” (HOPPER & TRAUGOTT, 1993; TRAUGOTT, 2003) passam a exercer funções gramaticais ou, se já gramaticalizados, continuam a desenvolver funções ainda mais gramaticais. Trata-se de um processo de mudança linguística que pode afetar, de diferentes formas e em diferentes graus, a fonologia, a morfologia, a sintaxe e a semântica das línguas naturais. Como afirmam Traugott e Heine (1991), pode-se dizer que o termo se refere à parte da teoria da linguagem que tem por objeto a interdependência entre langue e parole, entre o categorial e o menos categorial, entre o fixo e o menos fixo na língua.

Na verdade, o estudo da gramaticalização põe em evidência a tensão entre a expressão lexical, por exemplo, relativamente livre de restrições, e a codificação morfossintática, mais sujeita a restrições, salientando a indeterminação relativa da língua e o caráter não discreto de suas categorias.

As análises aqui propostas, portanto, devem ser compreendidas como manifestações complexas que concebem as atividades linguísticas de sujeitos que, primordialmente, partem de escolhas comunicativamente adequadas e operam as variáveis dentro de condicionamentos ditados pelo processo de produção de enunciados em condições reais de uso. Ou seja, as investigações avaliam as condições dessas escolhas para o cumprimento de determinadas funções; as condições de produção dessas estruturas; as estratégias e os elementos que efetivamente operam para a construção textual/discursiva. Nesse caso, considera-se tanto a mudança que ocorre devido ao aumento gradual da pragmatização do significado, (inferência) quanto a que ocorre mediante o aumento de abstratização do item linguístico (estratégias metafóricas), evidenciando um processo que vai do uso mais concreto para um uso mais abstrato-expressivo.

Assim, considerando-se os pressupostos teóricos da Gramática Discursivo-Funcional, que muito se assemelha à proposta de Traugott e Hopper e Traugott, e que têm servido como modelo de descrição gramatical e interpretação do processo de mudança linguística, aceitam-se, no presente simpósio, trabalhos que possam apresentar e caracterizar esta possível interface. Mediante tais análises, objetiva-se compreender como as regularidades de certas escolhas podem alterar o sistema linguístico.

2
Alba Maria Perfeito
Terezinha da Conceição Costa-Hübes
CONCEPÇÃO INTERATIVA DE LINGUAGEM E ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: ABORDAGENS E REFLEXÕES TEÓRICO-PRÁTICAS

Entende-se neste simpósio, de acordo com as OCEM (2006) que a política curricular deve ser interpretada como manifestação de uma política cultural, ao selecionar conteúdos e práticas de uma determinada cultura para serem abordados na instituição escolar. Isso implica, no que tange à disciplina de Língua Portuguesa na educação básica, a construção gradativa de saberes textuais, que circulam socialmente, no apuro das práticas de leitura e de escrita, de fala e de escuta e no desenvolvimento da capacidade de reflexão sistemática sobre a língua e a linguagem, em contínua ampliação, com a clareza de que, em um mundo de rápidas transformações, o aluno deve tornar-se sujeito construtor de sua história.

A linguagem, nesse sentido, deve ser concebida como meio de interação, como local das relações sociais em que homens atuam como sujeitos, ou, mais apropriadamente, constituem-se sujeitos. Em consequência, compreende-se que o papel da disciplina em questão é o de oportunizar ao discente, por meio de ações sistemáticas, o desenvolvimento das atividades de produção de linguagem em diversas situações interativas, perpassando formas de funcionamento da língua e modos de expressão da linguagem, ao construir seus saberes linguísticos em diferentes contextos.

Nessa perspectiva, faz-se necessário salientar, em termos de teorias linguísticas subjacentes, que a concepção de linguagem em foco recebeu contribuições de várias áreas de estudos mais recentes, buscando analisar a linguagem em situação de uso, como a Teoria da Enunciação de Benveniste, a Pragmática, a Semântica Argumentativa, a Análise da Conversação, a Análise do Discurso, a Linguística Textual, a Sociolingüística, a Enunciação Dialógica de Bakhtin. É relevante observar, inclusive, que, historicamente, há aproximadamente trinta anos, no Brasil, discute-se a visão interativa para o ensino, seja por meio da teoria piagetiana, na relação sujeito-objeto de ensino, seja pela vigostskiana: sujeito – mediador – via signo (ideológico).

Mais especificamente, em termos Língua Portuguesa, a concepção interativa no ensino foi inicialmente proposta, no país, por Geraldi (1984), sobretudo, na integração, sem artificialidade, das práticas de leitura, análise linguística, de produção e refacção textuais – fundamentado, no caso, pela teoria bakhtiniana. Após perpassarem documentos estaduais, na década de 90 do século passado, os estudos geraldianos e de seguidores foram incorporados e/ou ampliados/redimensionados em documentos nacionais e regionais e, nesse contexto, pesquisas teórico-práticas foram/são efetuadas em instituições de ensino superior.

É com essa breve configuração de abordagem da visão interativa da linguagem que se pretende no simpósio:

i) constituir um espaço congregador de propostas de ensino de Língua Portuguesa, na educação básica, que integrem as práticas de leitura, análise linguística e produção textual, subsidiadas pela concepção de linguagem em pauta;

ii) propiciar a reflexão sobre a heterogeneidade das perspectivas teóricas subjacentes à prática;

iii) analisar o processo de didatização, o qual envolve rupturas, deslocamentos e modificações – sendo, pois, (re)significado no contexto da ação.

3
Fernando Felício Pachi Filho
Renata Marcelle Lara Pimentel
DISCURSIVIDADES EM DIFERENTES SUPORTES MIDIÁTICOS

Este simpósio visa questionar se é possível delinear formações discursivas em que se inscrevem os diversos acontecimentos na mídia em relação aos suportes em que as informações circulam, sejam eles digitais, impressos ou eletrônicos, ou seja, busca-se explorar discursividades midiáticas, sejam elas impressas ou digitais, de acordo com as potencialidades específicas dos meios. Dessa forma, admiti-se a instabilidade dessas formações, sua permeabilidade e contradições que se formam em seu interior, que permitem a constituição de novos sentidos.

A produção de sentidos vincula-se às possibilidades enunciativas em períodos históricos, em relação ao que é dito, a sentidos anteriores, a não-ditos, ou seja, às condições de produção, entre as quais o suporte em que se inserem os enunciados. Há ainda uma variação do sentido que deve ser captada no movimento da história e da linguagem. Esta variação só é possível porque há rupturas nos sentidos dominantes, falhas (bloqueios da ordem ideológica) que abrem à possibilidade de polissemia, deslocando sentidos e fazendo emergir o novo, o diferente, o ressignificado, o reformulável. Pergunta-se, portanto, se e como o suporte midiático deve ser levado em conta em análises não apenas em termos de condição de produção dos discursos, mas também como determinantes para a constituição de novos sentidos, logo de formações discursivas.

A observação e análise dos diversos suportes midiáticos, em termos comparativos, permite compreender o funcionamento dos discursos, delimitando-se como as interpretações para os acontecimentos são constituídas. Pretende-se, dessa forma, compreender como objetos simbólicos, por definição não-transparentes, produzem sentidos, e os gestos de interpretação realizados pelos sujeitos. Tendo em vista que a formação de corpus é também uma construção do próprio analista, que seleciona o material de acordo com os objetivos de sua análise, questiona-se se, corpus abertos, formados com materiais de diferentes suportes midiáticos, apresentam propriedades discursivas diferentes ou semelhantes.

Além disso, busca-se compreender como os sentidos são homogeneizados em determinadas formações, de acordo com o jogo de forças presentes na sociedade, cristalizando interpretações em relação a formações ideológicas que as sustentam. As temáticas de interesse para este simpósio envolvem, entre outros, sujeitos, formações discursivas e ideológicas, memória e insconsciente, contradição e resistência. A explosão tecnológica e o acesso a dispositivos de tecnologia (celulares, laptops, etc.) levaram a uma potencialização crescente de produtores informais de enunciados midiáticos na internet e também fora dela e/ou não diretamente ligada a ela, mas que também se inscrevem como co-participantes das mídias impressas e eletrônicas (jornais, revistas, etc.). Ocorre, assim, uma fragmentação crescente dos discursos produzidos no espaço público.

Frente a isso, situa-se o interesse pelo funcionamento de discursos possíveis e em circulação em novos ou nos mesmos formatos, repetíveis, reorganizados e/ou modificados, ressignificados ou não.

4
Pedro Navarro
Carlos Piovezani
DISCURSO E SUJEITO: ABORDAGENS TEÓRICO-ANALÍTICAS EM TORNO DA SUBJETIVIDADE, DO CORPO E DA FALA PÚBLICA

Este simpósio, intitulado Discurso e sujeito: abordagens teórico-analíticas em torno da subjetividade, do corpo e da fala pública, tem por finalidade congregar pesquisadores que se debruçam sobre questões concernentes à formulação e à produção de discursos circulantes em espaços institucionais e em textos midiáticos. Assim, os trabalhos a serem apresentados devem girar em torno de dois eixos centrais à Análise de Discurso, quais sejam: o discurso visto como objeto histórico e em diferentes materialidades e o sujeito e as práticas discursivas de produção de identidades e de subjetivação.

Sobre o primeiro eixo, à concepção tão cara de discurso como algo da ordem da história e da língua, somam-se abordagens teóricas que consideram não somente o linguístico como parte integrante dos processos discursivos, mas também o nível imagético e sonoro. Nesse sentido, o caráter semiológico do enunciado, tal como podemos concluir do texto d’A arqueologia do saber, de Michel Foucault (1972) e as pesquisas empreendidas por Jean-Jacques Courtine (2008; 2006), sobre a história do corpo e da fala pública, configuram, atualmente, importantes dispositivos teóricos e metodológicos, com os quais é possível descrever discursos, não perdendo de vista a dispersão enunciativa que lhes é própria e a heterogeneidade de linguagens por meio das quais eles se realizam como acontecimento singular e repetível. No que concerne às pesquisas sobre a produção de subjetividade na relação com os jogos de saber/poder, considera-se oportuno discutir a produção de subejtividades, em um contexto marcado pela desestabilização das velhas identidades sólidas e pela liquidez das formações discursivas.

De um ponto de vista genealógico, a concepção de história em Foucault, pautada na filosofia de Nietzsche, não toma para si a tarefa de reencontrar aquilo que poderia ser raízes de nossa identidade. Pelo contrário, a função dessa história genealogicamente dirigida é dissipar aquilo que liga os homens a uma identidade, ao fazer aparecer todas as descontinuidades que os atravessam.

O alcance dessa perspectiva histórica para as análises discursivas impõe projetos de pesquisa que promovam uma espécie de dissociação sistemática das imagens de identidade que se projetam sobre os sujeitos, se consideramos, como o faz Foucault, que a identidade que tentamos assegurar e reunir sob uma máscara não passa de uma paródia: o plural a habita, inumeráveis almas nela disputam; sistemas se entrecruzam e dominam uns aos outros. Nesse sentido, esse segundo eixo contempla tanto a análise dos dispositivos de subjetivação, que, nos discursos, transformam os indivíduos em objeto e sujeito de um saber, por meio da regulação e do controle da vida, quanto as tecnologias do eu, por meio das quais se produz, discursivamente, a ideia de um sujeito “cuidadoso de si” (FOUCAULT, 1984).

Espera-se, assim, criar um espaço em que se discutam questões relativas à constituição, formulação e circulação de diferentes materialidades discursivas, bem como proporcionar debates acerca da produção do sujeito, a partir de enunciados que circulam nos meios de comunicação de massa.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 5


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Alba Krishna Topan Feldman
Sérgio Paulo Adolfo
TRANSCULTURAÇÃO E HIBRIDISMO EM LITERATURAS PÓS-COLONIAIS

Na sociedade atual, especialmente nos últimos séculos, observa-se que o sonho da cultura ideal ou mesmo da raça pura se desvaneceu em um conjunto de contatos, quase nunca pacíficos e certamente marcantes, entre culturas e etnias originado do fenômeno que se desenvolveu, principalmente, no século XVI, sendo denominado como ‘colonização’. Dentre estes contatos, pode-se mencionar o encontro do colonizador com os nativos ditos ‘selvagens’ das Américas, Caribe, África, etc., além da descoberta de civilizações já constituídas socialmente há vários séculos, como a China e a Índia.

Tais encontros propiciaram o desenvolvimento de novas relações não só interpessoais, mas também, no que diz respeito à cultura, costumes e políticas sociais dentro das novas comunidades, sem contar o aspecto biológico, responsável pelo surgimento da miscigenação e hibridismo. Entretanto, as transformações não operaram apenas no âmbito do colonizado; o mesmo ocorreu nas sociedades colonizadoras quando os sujeitos coloniais passaram a fazer parte delas através das diásporas causadas pela própria colonização.

A proposta deste simpósio é a análise de aspectos que se tocam, se modificam e que favorecem o surgimento de indivíduos cujas identidades dialogam com outros universos culturais e experiências pós-coloniais, identidades estas, invariavelmente fragmentadas pelas questões decorrentes dos processos de inclusão/exclusão coloniais fundamentados principalmente pelo fator dérmico e, consequentemente, pelo desrespeito às diferenças, tanto na literatura em língua portuguesa quanto em língua inglesa. Para isso, considera-se a construção da identidade em ambientes de transculturação, conforme o abordado por Pratt, os aspectos de hibridismo discutidos por Bhabha e aspectos de estudos sobre a identidade desenvolvidos por diversos críticos, como, por exemplo, Hall.

A definição do termo pós-colonial, sob esse viés, torna-se mais abrangente, referindo-se ao conjunto de ideologias subjacentes aos processos de colonização e dominação, além do discurso do Outro, calcado na representação negativa do termo \”differance\”, desenvolvido por Derrida. Esse simpósio pretende discutir de que maneira os textos narrativos, poéticos, descritivos ou testemunhais representam os conceitos aqui expostos, e como demonstram a identidade em um contexto cada vez mais amplo de zona de contato, que, por vezes se mostra hostil e árido, levando em consideração as consequências advindas da ação colonizadora no que concernem todos aqueles sujeitos envolvidos nesse processo, sejam eles, homens ou mulheres, colonizados ou colonizadores.

Procura-se explorar, por meio da literatura pós-colonial, o modo como os sujeitos agem dentro de contextos multiétnicos e multiculturais para compreender, dessa forma, quais os efeitos provocados nas sociedades influenciadas pelo aparato colonial desde seus primórdios.

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Jaime Ginzburg
Alamir Aquino Corrêa
VIOLÊNCIA E TRISTEZA NA NARRATIVA DE FICÇÃO DO SÉCULO XX

Um dos temas mais constantes da literatura é aquele da tristeza, quase imensurável, muitas vezes resultante do espaço da violência. A tônica que permeia queixas, lamentos e dores passa por perdas, depressões e estados melancólicos. A proposta do simpósio é discutir o tom lamentoso e tristonho em textos narrativos no recorte temporal do século XX, por seu aspecto mais revelador da emoção com toques de reflexão, especialmente em narrativas autodiegéticas, com particular interesse sobre as relações entre autoritarismo e violência.

Questões sobre o sentido da vida e sua representação estética, as profundidades dialéticas na relação matéria/espírito sobre a finitude, a memória dilacerada pela ausência do outro e a voz diante da violência são exemplos de abordagem comparatista. Deve predominar a leitura de textos enquanto textos, sem desprezar a fortuna crítica, fundada na detecção de relações intra e intertextuais; ou seja, o aparato teórico deve ser menos importante/evidente que a explicação do texto artístico.

Entre vários textos de suporte teórico, oriundos da Antropologia , da Sociologia, da Filosofia, da Psicologia/Psiquiatria ou da História, lembramos entre vários de Edgar Morin, Philippe Ariès, Norberto Elias, Mircea Eliade, Nicole Loraux, Sigmund Freud, Carl Jung, Georg Friedrich Hegel, Martin Heidegger, Abram Rosenblatt, Hannah Arendt, Primo Levi e Giorgio Agamben. Há de se tomar como premissa que o advento do Romantismo leva a percepção do tempo para outro nível – o do mundo que deveria ter sido. A tônica da fundação das nações modernas com a necessidade de construção de um pai e de uma mãe novos – um passado que possa ser glorificado a justificar o presente – vai encontrar especialmente na prosa de ficção o campo apropriado para sua efetivação. Por outro lado, essa relação com uma nova mátria ou pátria e sua afirmação também sinaliza embates entre o indivíduo e a vontade do Estado.

Há uma desvinculação do passado, substituído por outro – imaginado como objeto de consolação também. O olhar de Orfeu para o passado faz com que ele tenha de procurar, por compensação, outra saída, uma outra história, um outro tempo. A perda é irrecuperável – aquele passado não pode mais estar presente, pois não mais pertence ao mundo, Eurídice se desvincula por completo do mundo de Orfeu. Não mais em busca de uma glória divina, não mais a imagem e semelhança de Deus, há de se buscar no passado um Outro. A tristeza ou a melancolia daí resultante, própria de um passado idealizado e irrealizado, provoca a contemplação do mundo que deveria ter sido – o distanciamento ou a fuga dolorida em direção ao passado pensado se torna a saída compensatória diante do mundo que é. Busca-se assim ler o passado, não mais com a sua força normativa, para sustentar a compreensão histórica das coisas.

O mundo perfeito, idealizado da Antiguidade, não existe mais; imitar é normatizar, mas nisso reside a impossibilidade, pois não é possível reproduzir. No século XX, a prosa de ficção se torna cada vez mais capaz de lidar com o inimaginável – a ausência de consolo futuro diante da industrialização da guerra e seu forte conjunto de interesses econômicos, e com o imponderável – a presunção de fruição da arte e o desprezo pelo homem. As atitudes ou emoções são o arrependimento, o pesar, a confusão, a raiva, a ansiedade, a dúvida, a alienação e o desespero. Se a morte por si já era um mundo contrário aos desejos, as perdas e embates no século XX tornam tudo inconsolável, o que exige da voz literária uma dureza acima das forças antes pensadas.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 5


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

Diariamente estão sendo postados Resumos dos Simpósios que serão apresentados em 13 a 15 de junho, até totalizar os 25 a serem apresentados.

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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Lúcia Osana Zolin
Nincia Cecilia Ribas Borges Teixeira
REPRESENTAÇÃO/CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES NA LITERATURA DE AUTORIA FEMININA BRASILEIRA

No âmbito dos estudos literários contemporâneos e, de modo especial, dos estudos de gênero, a noção de representação ocupa um espaço de incontestável importância. Isso porque, nas últimas décadas, a crítica literária tem refletido acerca de seu objeto a partir de vieses teóricos que problematizam insistentemente a relação texto-contexto. O conceito aponta significações múltiplas, entre elas, para o ato de fazer as vezes da realidade representada; ou para o de tornar uma realidade visível, exibindo-lhe a presença (GINZBURG, 2001).

De acordo com Chartier (1990), é “instrumento de um conhecimento mediador que faz ver um objeto ausente através da substituição por uma imagem capaz de o reconstituir em memória e de o figurar como ele é”. As representações são variáveis e determinadas pelos grupos ou pelas classes que as edificam; sendo que o poder e a dominação estão sempre presentes. Também para Bourdieu (1998), uma das principais problemáticas que envolvem a questão da representação reside nas imposições e lutas pelo monopólio da visão legítima do mundo social. O fato é que a identidade do ser ou da coisa representada, não raro, se resume à aparência dela, escamoteada que está por configurações intelectuais múltiplas, através das quais a realidade é contraditoriamente construída.

O conceito foucaultiano de discurso, relacionado com o desejo e com o poder, traz, igualmente, importantes contribuições ao trabalho de identificação do modo como as “verdades” são edificadas. Tem contribuído com a crítica literária no sentido de investigar as fronteiras entre o real e o ficcional e refletir acerca do tema da representação dos seres e das coisas pela linguagem. Consideradas como “fatos”, as práticas discursivas e os poderes que as permeiam ligam-se a uma ordem imposta, cujas redundâncias de conteúdos reproduzem o sistema de valores das tradições de uma dada sociedade, em uma determinada época, autorizando o que é permitido dizer, de que maneira se pode dizê-lo, quem o pode dizer e a que instituição o que está sendo dito se vincula.

Para reverter esse estado de coisas, há que se promover o desnudamento das condições de funcionamento do jogo discursivo e de seus efeitos (Foucault, 2001). Se representar significa dar visibilidade ao outro, no dizer de Chartier (1990), pode significar, também, falar em nome do outro. Para ter assegurado o direito de falar, enquanto o outro é silenciado, o sujeito que fala se investe de um poder que lhe é doado por circunstâncias legitimadas pelo lugar que ocupa na sociedade, delimitado em função de sua classe, de sua raça e, entre outros referentes, de seu gênero os quais o definem como o centro, a referência, o paradigma, enfim, do discurso proferido. Historicamente, esse sujeito imbuído do direito de falar – e falar com autoridade – é de classe média-alta, branco, e pertencente ao sexo masculino. No âmbito da arte literária, até meados do século passado, os discursos dominantes vinham circunscrevendo espaços privilegiados de expressão e, consequentemente, silenciando as produções ditas “menores”, provenientes de segmentos sociais “desautorizados”, como as das minorias e dos/as marginalizados/as. No limite, o quadro comportava, de um lado, a visibilidade das obras canônicas, a chamada “alta cultura”, cujas formas de consagração guardam relações bastante estreitas com o modo de o mundo ser representado, com a ideologia aí veiculada e, também, é claro, com quem o está representando. De outro, o apagamento da diversidade proveniente das perspectivas sociais marginais, que incluem mulheres, negros, homossexuais, não-católicos, operários, desempregados…

Tendo isso em vista e, sobretudo, a tradição literária de mulheres que, no Brasil, nasce na segunda metade do século XIX, bem como as reflexões teóricas acerca da representação literária, empreendidas pelos teóricos/as empenhados em debater o tema, este simpósio propõe o debate da representação/construção de identidades na literatura de autoria feminina.

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Cecil Jeanine Albert Zinani
Salete Rosa Pezzi dos Santos
REPRESENTAÇÕES DO SUJEITO FEMININO: GÊNERO, SEXUALIDADE, IDENTIDADE, HISTÓRIA

No contexto cultural da pós-modernidade, destaca-se a voz feminina, na medida em que, apropriando-se da palavra, denuncia sua exclusão e defende seu direito de falar e de representar-se nos diferentes domínios tanto público quanto privado. Nos estudos sobre a mulher, ressalta a questão da sexualidade feminina, no sentido de verificar a relação existente entre sexualidade e dominação.

Para Foucault (1988, p. 46), a sociedade burguesa oitocentista é \”uma sociedade de perversão explosiva e fragmentada\”. Nesse aspecto, complementa Giddens (1993, p. 30), \”o estudo e a criação de discursos sobre o sexo levaram ao desenvolvimento de vários contextos de poder e de conhecimento”. Rita Schmidt, em “Repensando a cultura, a literatura e o espaço da autoria feminina”(1995), destaca a importância da inserção da prática discursiva feminina no espaço do logos, classificando-a como um ato político, na medida em que a mulher desconstrói a sua imagem negativa projetada pelas práticas culturais masculinas que constituem a norma, o padrão.

Considerando essa perspectiva, assoma a relevância da obra literária, na medida em que ela faculta uma nova consciência receptora, visto abrir-se para o leitor outra possibilidade de percepção do mundo, tanto da realidade externa quanto interna. Assim, é possível pensar que narrativas que se movimentem em torno da representação do sujeito feminino poderão favorecer a problematização de vivências da mulher, desestabilizando mecanismos de poder e colocando em pauta a hierarquização de gêneros, cujas relações se estabelecem não apenas a partir da noção de diferença, mas também da concepção de inferioridade, marcadamente, feminina.

A identidade de gênero, como qualquer outro aspecto da identidade cultural, configura-se dentro de um processo socioistórico, não constituindo um componente fixo, permanente, mas móvel e transitório. Na medida em que os elementos formadores da cultura operam o movimento de articulação/desarticulação, a identidade modifica sua configuração, como também os próprios sujeitos, que, devido a sua vivência e experiência, re-inventam, ressignificando a sua identidade.

A construção da identidade feminina, num território periférico como a América Latina, está mediada por um sistema de representações culturais de características patriarcais e androcêntricas, tidas como naturais, ou seja, fundadas numa dominação legítima que precisa ser subvertida para que essa construção se efetive. Assim, é impraticável pensar essa identidade sem levar em consideração o sistema de gênero, uma vez que é esse sistema que vai codificar o comportamento e o desempenho dos sujeitos sociais tendo como base o fator biológico. Essa modalidade de representação, além de posicionar o sujeito no espectro social, caracteriza e dá significado ao sujeito, condicionando uma organização social assimétrica, em que o masculino define-se a partir do centro, do positivo, restando para o feminino a posição marginal (SCHNEIDER, 2000).

Questões fundamentais ligadas à história da literatura e às representações de gênero, identidade e sexualidade, perpassadas, transversalmente, pelo olhar da história e da psicanálise, constituem o objeto de problematização do presente simpósio.

23
Márcio Roberto do Prado
Jaime dos Reis Sant Anna
SOB O SIGNO DA CONVERGÊNCIA: ARTICULAÇÕES ENTRE TEORIA E PRÁTICAS DE SALA DE AULA NO ENSINO DE LITERATURA

Quando pensamos nos aspectos ligados ao estudo da literatura, sobretudo no meio universitário, não é raro que tenhamos uma cisão entre uma abordagem eminentemente teórica e outra de viés prático, voltada para a aplicação de conteúdos em sala de aula. Assim, a abordagem teórica destacaria a pesquisa e a produção de conhecimento científico para divulgação por meio de publicações de livros e periódicos especializados, ao passo que a prática visaria questões relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem, tendo como foco a otimização de tal processo e o estabelecimento de estratégias e planos capazes de contribuir para semelhante cenário de eficiência.

Todavia, essa separação não existe em termos tão radicais, de modo que as questões ligadas à Teoria da Literatura e aquelas que lançam mão de uma prerrogativa didático-pedagógica acabam por se articular, cruzando-se várias vezes. De modo mais incisivo, podemos ainda destacar que semelhante “contaminação” contribui para o avanço nas duas frentes, uma vez que permite que se lance luz sobre aspectos que, diante de uma idealizada (e impossível) segmentação inquestionável, seriam, no mínimo, negligenciados. Tendo em vista este panorama, cumpre destacar que se trata de algo em perfeita consonância com as demandas atuais em termos que não se limitam ao contexto de pesquisa científica academicamente considerada e da sala de aula no âmbito do ensino de literatura. Nomes como Henry Jenkins apontam para a natureza de convergencial de nossa cultura (atingindo, assim, a atividade docente), na qual mídias, interesses e indivíduos encontram pontos de contato teleologicamente organizados, o que abarca inclusive a convergência teórico-prática. Outros, como Pierre Lévy, destacam o contexto cultural que emerge do impacto das tecnologias de informação e comunicação em nossas vidas, em suas mais variadas frentes (a “cibercultura”), mostrando como há uma urgência e uma obrigatoriedade de modificações em diversos de nossos paradigmas, não escapando dessa condição o próprio professor que, instigado por uma verdadeira revolução na dinâmica comunicacional, vê-se impelido a buscar novas possibilidades que, por seu turno, têm como condição incontornável uma reflexão teórica mais pormenorizada capaz de dar base a essas possibilidades que se abrem.

Assim, impõe-se um cenário em que o professor deve ir além (sem desconsideração) do tradicional tripé “giz-lousa-saliva” e lançar mão de recursos tecnológicos e das mídias deles emergentes, além de propostas de ensino e de verificações de aprendizagem capazes de utilizá-los de modo eficiente. Por seu turno, o pesquisador não pode fechar os olhos para tais inovações, uma vez que seu reflexo até mesmo em nossa concepção de arte e, portanto, de literatura, é por demais evidente, destacando a importância de inovações equivalentes em termos de instrumental teórico e crítico.

Deste modo, o presente simpósio pretende abordar variadas facetas de abordagem das questões suscitadas pela articulação entre Teoria da Literatura e Metodologia do Ensino de Literatura, destacando em especial aquelas que enfoquem a mediação de leitura e a formação do leitor, bem como as atuais demandas tecnológicas e comunicacionais, com o intuito de apresentar reflexões e experiências ilustrativas nesse sentido. Por fim, tomará forma uma visão mais colaborativa e interativa do professor e do pesquisador, visão esta capaz de ilustrar com eloquência que a prática sem teoria é diletantismo, ao passo que a teoria sem a prática é alienação.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 4

2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

Diariamente estão sendo postados Resumos dos Simpósios que serão apresentados em 13 a 15 de junho, até totalizar os 25 a serem apresentados.

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

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José Nicolau Gregorin Filho
Thiago Alves Valente
LITERATURA INFANTIL E ENSINO: ROTAS, DESVIOS E DESAFIOS

As discussões sobre a natureza de qualquer campo de estudos são constantes e necessárias. Entretanto, nota-se, quanto aos estudos sobre literatura infantil ou juvenil, a estabilidade no meio acadêmico referente à ideia de existência de subsistemas literários ou culturais que têm nas crianças e jovens suas marcas mais evidentes. A mesma situação ocorre com a relação entre o literário e o pedagógico, discussão que, por mais pertinente que seja, aponta para o predomínio, nos meios legitimadores do “literário”, da obra de caráter estético.

Apesar dessas duas situações de estabilidade que podem indicar a conquista efetiva do espaço acadêmico e cultural por parte dos estudos em literatura “infantil”, foco deste simpósio, observa-se que essas discussões ainda estão distante das escolas de Educação Básica (Ensino Fundamental e Médio). O quadro se torna ainda mais agravante à medida que a articulação entre obras de reconhecido valor literário, estudadas e devidamente abordadas por metodologias atualizadas, encontram-se à disposição nas bibliotecas e não são lidas pelo público escolar. A isso se acrescenta a ausência de mecanismos de veiculação da crítica literária voltada à literatura infantil no meio midiático. Observa-se, porém, uma situação anterior à escola como espaço de divulgação e concretização do texto literário. Trata-se do papel da pesquisa, isto é, no Brasil, do meio acadêmico majoritariamente universitário frente ao problema de se divulgar, mas, sobretudo, de constituir e manter uma crítica literária ativa, engajada com a árdua tarefa de trazer ao público não especializado questões de qualidade literária quando o assunto é livro para crianças.

É notória a ausência de publicações de ampla circulação sobre o tema. Também é perceptível que o mercado ocupa esta posição num processo de autopromoção das qualidades de seus produtos, conclamando para isso, contraditoriamente, a própria academia e agentes culturais muito próximos dela. Surgem, assim eventos de divulgação de livros, palestras com escritores, projetos de leitura institucionalizados ou não, entre muitas outras práticas muitas vezes custeadas pelas próprias editoras.

Este simpósio, enfim, busca discutir justamente a ocupação deste espaço, lançando questionamentos sobre:

1) a relação entre a universidade e a sociedade de modo geral, o que traz à baila o problema dos limites entre o conhecimento desinteressado e a ausência de engajamento ou alienação dos problemas sociais;

2) o engajamento do meio acadêmico com o “direito à literatura”, premissa posta à margem de discussões aparentemente mais substanciais para a educação brasileira;

3) a relação entre texto literário de qualidade reconhecida com as práticas de leitura realizadas em sala de aula;

4) as perspectivas artísticas, culturais e educacionais para o tratamento do texto literário infantil como espaço de emancipação pessoal e formação do leitor;

5) as tendências estéticas, temáticas e formais, quanto à produção nacional e internacional direcionada ao público infantil.

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Paulo Astor Soethe
Wolf-Dietrich Sahr
LITERATURA SEM MORADA FIXA – ESPAÇOS E MOBILIDADES

As expressões literárias muitas vezes conformam, além do seu conteúdo estético e social, a construção de espacialidades sociais. Dessa maneira, configurações de trajetos temporal-espaciais ambientam e interligam elementos textuais e realidades vividas.

A partir do século XVIII, na fase da globalização capitalista, desenvolveu-se uma gama de textos cujos recortes temáticos e princípios estruturadores concentram-se sobre espaços que ultrapassam largamente o lugar fixo: são romances e relatos de viagem (em parte marcados pela dicção científica), baladas e dramas sequenciais, ensaios e diários. Inspiradas por abordagens de Friedrich Nietzsche (Geofilosofia) e reflexões mais recentes como as de Gilles Deleuze e Félix Guattari, estabelecem-se noções, como desterritorialização e reterritorialização, espaço liso e espaço estriado, que permitem refletir sobre a relação entre texto e paisagem, entre formas textuais e tradições culturais, entre atitudes de leitura e lugares de enunciação.

Assim, esperamos poder discutir uma Geoliteratura que se propõe criar, acompanhar, aprofundar e criticar espaços literários e seu diálogo com diferentes vivências socioespaciais. Inclui-se nessa perspectiva a reflexão do romanista alemão Ottmar Ette (Universidade de Potsdam), que, sobretudo em sua trilogia ÜberLebenswissen [SaberSobreViver], ZwischenWeltenSchreiben [EscreverEntreMundos] e Zusammenlebenswissen [SaberConviver], propõe a concepção de uma “literatura sem morada fixa”. A fim de superar as limitações metodológicas e conceituais presentes no par opositivo “literatura nacional” / “literatura mundial” (Weltliteratur), e para evitar classificações identitárias excludentes como “literatura de migração”, Ette propõe privilegiar no exercício da leitura os elementos textuais e contextuais ligados à mobilidade de personagens, mercadorias, tecnologias, ideias, linguagens.

Os textos em si mesmos, ao transitar e fazer transitar, provocam mobilidades e trajetos reflexivos no interior de sua arquitetura e orquestração formal. Para além de aspectos temáticos ou formais intrínsecos, os textos transitam de uma comunidade interpretativa para outra (por exemplo, por meio da tradução) e criam com isso dinâmicas de comunicação e não-comunicação diferenciais que projetam novas espacialidades. Nessas configurações, inserem-se novas formas textuais e consolidam-se novas bases midiáticas, tais como literatura virtual, street poetry, manifestações performáticas (presenciais ou midiáticas), que se movem de maneira imediata no espaço físico e virtual, onipresente e ilimitado.

Em síntese, o simpósio pretende discutir, a partir de exemplos e considerações teóricas, tendências interpretativas e de pesquisa acerca das categorias de espacialidade e mobilidade em textos literários (seja de matriz hermenêutica, seja de matriz descontrucionista, seja de matriz não-representacional), a fim de apontar traços comuns e disparidades entre essas tendências, os ganhos reflexivos ou as incompatibilidades que resultem da tentativa de se estabelecer um tal diálogo.

15
Divanize Carbonieri
Alvany Rodrigues Noronha Guanaes
NARRATIVAS DE SUPERAÇÃO E DE ANIQUILAÇÃO NAS LITERATURAS AMERÍNDIAS, AFRICANAS E AFRO-DESCENDENTES

Este simpósio pretende enfocar a prosa de ficção das literaturas ameríndias, africanas e afrodescendentes, preferencialmente, mas não de forma exclusiva, nas línguas portuguesa e inglesa. O recorte empreendido nessa ampla produção literária abrange as narrativas que representam situações individuais ou coletivas de violência ou sofrimento. De que estratégias esses autores lançam mão para ir além do que seus personagens e/ou coletividades vivenciam historicamente? É possível alguma transcendência do trauma histórico? Ou, ao contrário, existe um esgotamento de todos os recursos, inclusive os narrativos, aniquilando qualquer possibilidade de redenção, qualquer esperança de futuro, qualquer retorno a um passado mais feliz? O ato de narrar confirma ou contraria a ideia de que a obra literária pode ser vista como um mecanismo de compensação para a imobilidade da vida extraliterária?

Diante desses questionamentos, a abordagem teórica proposta para essa análise é, em grande parte, dada pelo referencial dos estudos pós-coloniais. Apesar das diversas possibilidades de definição, é possível entender as literaturas pós-coloniais no seu aspecto amplo, que envolve tanto as manifestações literárias de grupos oprimidos espalhados pelo mundo quanto aquelas produzidas pelas culturas que passaram e foram além do jugo da colonização imposto a elas pelas nações europeias. A existência de fluxos e deslocamentos constantes parece marcar essas produções, desestabilizando certezas a respeito da construção de identidades e da experiência de tempos e espaços. Partindo da conceituação de Zygmunt Bauman (1998) de uma pós-modernidade líquida, em que existe a necessidade de não se adotar nenhuma identidade com excessiva firmeza porque todas elas estão em processo de liquefação, pensamos que o atributo do transitório é um traço característico dessas realizações estéticas.

Assim, as experiências temáticas e estilísticas dos movimentos, trânsitos e fluxos tornam-se também um objeto de estudo especial neste simpósio. Se esses deslocamentos geram verdadeiras transformações ou se apenas aniquilam o já existente é uma das questões que se levantam no exame dessas obras. Em outras palavras, o que pretendemos é o exame de alguns eixos temáticos principais, como as questões de pertencimentos e não pertencimentos, movimentações, trânsitos e mesmo imobilismos de diversas naturezas, identificações e diluição das identidades, resistências, transformações e abandonos da agência transformadora.

No campo estilístico e formal, busca-se o desvendamento das configurações espaciais e temporais dessa produção literária, com o escrutínio dos novos cronotopos propostos, além do delineamento de seus modos, estratégias e soluções narrativas. Ainda são levados em consideração os elementos contextuais que surgem das relações entre literatura, história, política e sociedade.

Portanto, serão aceitos trabalhos que tratem dessas relações e que reflitam sobre os processos de mudança ou estagnação sofridos por sujeitos que se encontram em situações de opressão. Investigações a respeito das possíveis pedagogias estabelecidas pelos autores em suas tentativas de demonstrar caminhos de saída viáveis aos leitores também são esperadas. Além disso, como não poderia deixar de ser, também serão contempladas discussões acerca da impossibilidade de superação diante de alguns tipos de devastação histórica e psicológica.

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Antonio Carlos de Melo Magalhães
Salma Ferraz
O DEMONÍACO NA LITERATURA

Na relação que se estabelece entre os diferentes estilos, gêneros e tradições de textos literários, um dos temas recorrentes é o do demoníaco na literatura, mesmo na literatura que pode ser interpretada como crítica da religião. Seja na literatura antiga, chamada muitas vezes de religiosa, como são os textos da Bíblia,do Alcorão, da Bíblia hebraica e cristã em suas diferentes versões, da vastíssima literatura hebraica fora da circunscrição teológico-literária mais institucional, dos textos denominados apócrifos, etc, seja na literatura considerada não religiosa, a presença do tema do demoníaco e suas mais diversas representações, tais como o diabo, o mal, satanás, o demônio, etc. são constantemente retomadas, reescritas, ampliadas, criticadas.

Da literatura antiga, o primeiro grande exemplo é o texto bíblico hebraico e cristão, mas também os muitos textos denominados apócrifos, já que não importa ao simpósio nenhum tipo de canonicidade prévia, até porque o canônico manifesta tradições afins a outras tradições consideradas não-canônicas. Além destes textos, o simpósio acolherá trabalhos para análise que contemplem textos chamados religiosos ainda não amplamente conhecidos, mas que já tenham recebido ou que possam receber interpretações baseadas na crítica e na teoria da literatura. Abre-se, portanto, a possibilidade de sermos confrontados com textos religiosos em novas versões literárias e culturais. Nas muitas literaturas recentes não faltam exemplo da temática do demoníaco. Assim sendo, o demoníaco não está circunscrito à religião formal e institucional, antes se tornou um tema constitutivo de muitas narrativas literárias, além de fazer parte de imaginários e representações das mais diferentes camadas da cultura brasileira.

O tema deste simpósio assume a tarefa de trabalhar o tema do demoníaco no chamado texto religioso e no texto literário, ou também na relação entre ambos, ainda que seja necessário e importante destacar que alguns dos textos antigos, denominados de religiosos, sejam em sua constituição, escrita, formação, desenvolvimento e recepção textos literários e, por conseguinte, passíveis de serem compreendidos na vasta história da literatura e a partir de enfoques teóricos da crítica e da teoria da literatura.

Os trabalhos do simpósio estarão focados nas diversas manifestações do demoníaco na literatura e poderão ser desenvolvidos e apresentados a partir de textos de diferentes épocas, estilos e gêneros. O foco será o tema, não o período, não o estilo, não o gênero. Parte-se do pressuposto que os textos a serem apresentados incluirão enfoques teóricos oriundos de correntes como os da intertextualidade, da interdiscursividade, da literatura comparada, de teorias da cultura voltadas para literatura marcada pela oralidade no Brasil,assim como as teorias voltadas para os textos clássicos religiosos, como são os textos bíblicos e os chamados apócrifos.

O fundamental será desenvolver leituras e interpretações que garantirão competência e domínio do tema, além de busca de acuidade e profundidade na análise literária, na crítica e na teoria da literatura. Outrossim, é importante destacar que o demoníaco evoca os resquícios do mítico na história do pensamento, ainda que a alusão a ele se dê em esferas não tradicionalmente religiosas, como pode ser o caso do pensamento filosófico e mesmo científico.

O demoníaco permite, portanto, esta fronteira do pensamento, esta linha tênue entre o religioso, o literário, outras formas de criar e desenvolver o pensamento e sedimentar as culturas. Se as figuras do diabo, de satanás são figuras tradicionalmente religiosas, em grande parte cultivadas e interpretadas na história das religiões, o demoníaco, por sua vez, estabelece uma fronteira criativa com essas figurações do mal, mas também continua a constituir a criatividade em outras tradições do pensamento, sem deixar de manter certo vínculo com as muitas formas de sua representação na história da cultura, das civlizações e da religião.

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Alexandre Villibor Flory
Allan Valenza da Silveira
O PAPEL DO TEATRO NA LITERATURA BRASILEIRA

Quando estudamos a teoria dos gêneros literários, nenhum pesquisador cogitaria deixar de lado o gênero dramático, até mesmo porque a teoria literária não prescinde da Poética, de Aristóteles, para ficar apenas em um exemplo eloquente.

Mas o teatro brasileiro não goza do mesmo prestígio, ficando relegado a um papel meramente indicativo na maioria dos cursos de Letras. Isso levaria a pensar que, no Brasil, o teatro não estaria à altura da poesia e da narrativa. Porém, com um olhar mais acurado sobre a qualidade da produção dramática brasileira, esse rebaixamento mostra-se falso. Mas, não podemos negar que a qualidade do texto teatral brasileiro não lhe rendeu, academicamente, o mesmo espaço que os outros gêneros receberam tanto em termos de história como de teoria e crítica.

Entretanto, esse pouco interesse sobre a dramaturgia brasileira não é diretamente proporcional a uma baixa qualidade de investigação, bem pelo contrário. O jovem Machado de Assis, na quadra dos vinte anos, estava tomado pelas perspectivas formadoras do teatro no Brasil, desdobrando-se como autor teatral, crítico e parecerista do Ginásio Dramático; José de Alencar e Gonçalves Dias também participaram ativamente de nossa vida teatral, em capítulos pouco estudados de nossa história literária. Tudo isso corrobora a autoavaliação de Antonio Candido, em um dos prefácios de sua Formação da literatura brasileira, de que faltou o teatro em suas páginas.

O século XX, dentro de sua característica metalinguística, viu o surgimento, especialmente a partir dos anos 40, de grupos relativamente estáveis, com propostas estéticas ousadas e uma busca formal incessante, discutindo a função social da arte por obras de elevado interesse formal e temático. Essa perspectiva não se restringe ao eixo São Paulo – Rio de Janeiro, mas também ocorre um diálogo importante no interior do Brasil e em outras regiões, como no Nordeste. Esses são alguns poucos exemplos do que costuma ficar à margem de nossa história literária, até mesmo porque sua ênfase recai sobre autores individuais e obras específicas. Essa historiografia se vê diante de enormes dificuldades – metodológicas, epistemológicas e, por que não, ideológicas – no trato com o teatro vivo, seja entendido como processo criativo (concepção do texto dramático), como organização da atividade artística (processo de trabalho em grupo) e encenação propriamente dita (com recepção imediata), níveis esses dificilmente isoláveis no campo teatral.

Como se vê por esse breve apanhado, por vários motivos ocorre uma espécie de apagamento dessa história que precisa ser compreendida, e essa lacuna, paulatinamente, preenchida, o que é dificultado pelo espaço reservado nos cursos de Letras à literatura dramática. Esse Simpósio pretende contribuir para essa atualização de nossa história literária, ao abrir um espaço para discutir o papel do teatro em nossa literatura, em todas as frentes em que ela se desdobra: como história, crítica, teoria e interpretação de obras ou de encenações.

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Rosana Cássia Kamita
Regina Célia dos Santos Alves
O ROMANCE BRASILEIRO

Considerado híbrido, em constante transformação, ora um gênero menor, ora visto como possuidor de um caráter político com atuação direta na sociedade, o romance tornou-se referencial devido ao seu caráter livre e multiforme, com intensa capacidade de se modificar ao longo do tempo, adaptando-se a diferentes momentos e lugares. Bakhtin pensava o romance como um gênero em constante renovação, e se pode compreender sua posição ao apontar que a teoria dos gêneros serve como critério e é constantemente reavaliada a partir das obras produzidas e não o contrário. Ou seja, é a própria produção dos textos literários em suas variadas formas que impulsiona o estudo dos gêneros.

Numa outra linha de investigação, mas também tentando compreender o gênero, Ian Watt (A ascensão do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.) aponta o realismo formal, embora também responsável pelo aspecto amorfo do romance, como um de seus principais traços distintivos, que se faz observar, por exemplo, na visão circunstancial e cotidiana da vida, com alto grau de individualização das personagens e detalhamento de seu ambiente. O ser humano e a vida são, portanto, suas preocupações centrais, vinculando romance à determinada sociedade, em dado tempo e lugar.

No Brasil, não obstante as controvérsias acerca da origem do romance, é sem dúvida a partir do século XIX, com o movimento romântico, que o gênero toma fôlego, passando a ser uma das formas literárias mais importantes no país não só naquele momento, mas também nos subsequentes.

No século XIX, em especial durante o Romantismo, passa a ser um importante instrumento na descoberta do país, na medida em que toma como uma de suas principais tarefas não só o entretenimento ou a fruição estética, mas o conhecimento do Brasil no tocante ao passado histórico, mítico e lendário, bem como aos costumes, às paisagens e vidas quase desconhecidas do sertão e à vida urbana, a qual, no país daquele momento, se resumia à vida na corte. Os romances de Alencar são flagrantes nesse sentido e nessa espécie de missão em que parecia se achar envolvido o gênero quando, então, a nação carecia com urgência de formas de identidade e de legitimação.

O final do século XIX acentua o traço analítico já ensejado no romance romântico. O apoio, não raro, no arsenal científico e filosófico que formava as bases do pensamento ocidental à época – afastando-se portanto da visão idealizante romântica -, leva o gênero a acentuar as preocupações acerca das mazelas sociais, expondo um mundo repleto de vícios e corrupções. Não apenas os romances naturalistas apontam para essa direção, mas inclusive, e certamente de maneira muito mais aguda, os romances machadianos.

Distante dos preceitos ortodoxos naturalistas, o romance de Machado de Assis, como afirma João Alexandre Barbosa, inaugura a modernidade do romance brasileiro, ao trazer para primeiro plano a tensão entre realidade e representação. Sua singularidade, assim, estaria na capacidade de transformar “a linguagem da realidade em realidade da linguagem” (A modernidade do romance. IN: PROENÇA FILHO, Domício (org.) O livro do seminário. São Paulo:LR Editores, 1983, p.25.). Essa consciência do fazer literário acompanharia, ora em grau maior, ora menor, toda a produção romanesca do século XX, desde aquelas formas mais radicais e experimentais àquelas de traçado mais convencional e conservador.

No cenário nacional, portanto, o romance mostra-se em constante processo de transformação, como parece ser próprio do gênero, mesmo quando se evidenciam alguns traços que o marcaram fortemente no século XIX e também em alguns momentos do século XX, como o naturalismo e o regionalismo. Na dinâmica de sua evolução, abre-se para diferentes possibilidades, revela-se fluido e de difícil caracterização, adaptando-se a diferentes intenções, mimetizando finalidades diversas.

No século XXI, o gênero apresenta alguns contornos e características ao mesmo tempo em que se mostra ainda em formação, difuso em suas várias potencialidades, o que incentiva seu estudo. Nesse sentido, a proposta para este simpósio é a de tentar compreender as manifestações de obras no gênero romance, de autores brasileiros, e procurar estabelecer as características assumidas pelo gênero, sua construção e elaboração, experimentações, traços que possam vir a ser considerados específicos em determinados períodos, além das principais temáticas abordadas.

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Raquel Lazzari Leite Barbosa
Sérgio Fabiano Annibal
O SUJEITO LEITOR, A LEITURA E O ATO DE LER NA LITERATURA, NA EDUCAÇÃO E NAS MÍDIAS

Procuraremos trazer a discussão acerca da leitura como habilidade capaz de contribuir na performance do sujeito na cultura. Trata-se de uma proposta ampla, que visa compreender de que forma os estudos da leitura e as representações sociais sobre o ato de ler vêm sendo discutidos em diversas áreas:

Educação, no que diz respeito à formação de professores e gestores, nas abordagens feitas pelos livros didáticos e nas relações didáticas implícitas neste processo;

Literatura, uma vez que, a partir da leitura literária, sua análise e refração em ambientes escolares, suas contribuições para a estética e para o fomento do gosto literário estarão em voga para se pensar o ato de ler;

Linguística, ciência de que lançaremos mão para entender de que maneira o texto é arquitetado pela linguagem, no que tange à produção do ato de ler tanto nos aspectos sintáticos quanto semânticos da língua e seus efeitos de sentido tanto para quem ensina como para quem aprende, ou seja, como a leitura é engendrada no texto a fim de produzir um sentido na cultura;

Comunicação, que será utilizada para situar de que maneira a leitura midiática se processa e vem sendo representada nesta área do conhecimento;

Educomunicação, campo novo e em pleno debate tanto na Comunicação como na Educação, e que consistirá na busca de compreensão da leitura neste novo campo e o olhar sobre o sujeito que lê as mídias e sua constituição linguística e cultural.

Ademais, outras áreas podem contribuir para este debate, como, por exemplo, a Fonoaudiologia, a Psicologia e a Neurociência, dentre muitas outras áreas dispostas a pensar o ato de ler, o sujeito leitor e suas representações. Para tanto, a metodologia também será hibrida e advinda destas áreas: História, Comunicação, Semiótica, Estudos Literários, dentre outras.

Neste contexto, o ato de ler apresenta relação direta com as representações sociais dos sujeitos, podendo produzir um movimento de construção e reconstrução destas representações por meio da leitura e, consequentemente, interferindo nas maneiras pelas quais o sujeito enfrenta e concebe o espaço cultural em que transita. Esta abertura nas apresentações sobre Leitura é justificável pelas tentativas demonstradas por meio das produções acadêmicas oriundas de diversos campos do conhecimento. São opções teóricas para se conhecer mais sobre o assunto e, dessa forma, ampliar a pesquisa e o debate sobre o tema, configurando várias entradas teóricas para a leitura, cada uma com suas particularidades e sistematizações, pois não basta nos debruçarmos apenas sobre os resultados, isto é, se o indivíduo apresenta ou não um bom desenvolvimento de leitura. É preciso mapear os processos que conduzem ao ato de ler em vários suportes e, sobretudo, captar quais os sentidos que estes estudos e seus impactos apresentam e até que ponto eles conseguem corroborar os esforços de entendimento e desenvolvimento da leitura como prática social capaz de oferecer maior transito social para o sujeito.

Portanto, dentre os resultados esperados estão a tentativa de se repensar velhos paradigmas – muitas vezes restritos e reducionistas –, a possibilidade de rever o conceito de leitura e a dinâmica do ato de ler e também compreender o que se chama de dificuldades de leitura e, talvez, com isso, buscar caminhos para superá-las. Este debate sobre leitura e as relações implícitas em seus processos tanto no suporte digital quanto no impresso espera reunir pesquisadores de diferentes regiões e instituições brasileiras para que tenhamos oportunidades de discussão sobre a concepção da leitura como resultado de um processo histórico materializado pela linguagem e suas possibilidades de operar em gêneros.

Logo, este trabalho busca compreender de que forma o ato de ler, independentemente do suporte, refrata as práticas culturais. Finalmente, parece se encontrar nestas reflexões a chance de se ver o leitor como mediador e regulador da linguagem que o constitui, deixando-o, talvez, menos vulnerável aos não ditos do discurso social e cultural.

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Rosana Cristina Zanelatto Santos
Susylene Dias de Araújo
PSICANÁLISE E TEORIA CRÍTICA ARTICULADAS PARA A LEITURA E ANÁLISE DO TEXTO LITERÁRIO: O MAL ESTAR E A VIOLÊNCIA EM QUESTÃO

Freud, desde seu ensaio Além do Princípio do Prazer (1920), dá indícios do encaminhamento e da confirmação da Psicanálise como um campo crítico acerca do humano e que se estendia para além do âmbito do indivíduo, alcançando as relações pertinentes para uma crítica da Cultura, como se lerá adiante em suas formulações encontradas em ensaios como Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), O Futuro de uma Ilusão (1927), O Mal-Estar na Civilização (1930) — esta última que se constituiu no eixo central de suas discussões — e Moisés e o Monoteísmo (1939). Suas considerações têm sido pertinentes para os estudos que pretendem dar conta dos limites representacionais tanto da “catástrofe” quanto de sua dissolução no cotidiano do mundo contemporâneo, chegando ao esvaziamento de significados.

Sem dúvida, delineia-se uma linha de pensamento sobre um “mal-estar” que contém em seu campo semântico-discursivo as diferentes configurações da violência e da agressividade. Por outro lado, a Teoria Crítica desenvolvida pela Escola de Frankfurt apresenta uma percepção que possibilita, pela aliança entre a teoria e a prática, o esclarecimento, sem o cunho iluminista, e uma visão alargada dos conflitos e dos debates em sociedade. Sendo assim, em hipótese, a Teoria Crítica ofereceria bases para estudos críticos e de autocrítica no que concerne às múltiplas faces da política, da ética, da cultura e da arte e ao entrelaçamento delas.

Esses estudos colocarão em crise inclusive alguns postulados psicanalíticos, não para negar sua importância para a leitura da humanidade senão para – a partir de sua posição epistemológica – relacionar-se com a metapsicologia naquilo que aproxima Psicanálise e Teoria Crítica e, principalmente, no que as faz “olhar diferente” para o ser e sua presença no e como mundo. Adorno e Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento (1947), dirão que Freud tinha muito mais razão do que supunha quando disse que a civilização produz a anticivilização e a reforça progressivamente, tendo em vista que os impulsos encontram-se longe da satisfação de suas necessidades, que são cotidianamente subordinadas aos anseios do consumo.

Como podemos compreender que a “dialética do esclarecimento” diz respeito a todo progresso material e espiritual obtido mediante a divisão social do trabalho (a qual, por sua vez, não caminhou numa “rua de mão única”, pois a humanidade, apesar de cada vez mais esclarecida, é forçada a assumir posturas próximas da barbárie e esquecer-se de como devem ser lidos os vestígios deixados pelo passado), não se pode deixar de pensar no conceito de pulsão de morte, desenvolvido por Freud, que carrega em si a metáfora do movimento em direção ao estado primitivo como elemento fundamental para a constituição da subjetividade e, por extensão, da cultura e de suas ramificações em sociedade, incluindo-se aí a literatura.

Este Simpósio pretende, portanto, propiciar debates no entre-lugar entre as relações de Psicanálise e Teoria Crítica para a leitura e análise da obra de arte literária, de modo a dar lugar a trabalhos que objetivem tratar desse “mal-estar” e também da violência. Serão aceitos trabalhos que busquem estabelecer relações entre as perspectivas teóricas adotadas ou que se vinculem a apenas uma delas (Psicanálise ou Teoria Crítica) contanto que tenham como objeto o texto literário.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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Arquivado em Simpósio, Universidade Estadual de Maringá

2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 3


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

Diariamente estão sendo postados 4 Resumos dos Simpósios que serão apresentados em 13 a 15 de junho, até totalizar os 25 a serem apresentados.

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

9
Wellington Ricardo Fioruci
Ana Maria Carlos
LITERATURA, CINEMA E TELEVISÃO: CONFLUÊNCIAS INTERSEMIÓTICAS

Este simpósio insere-se na vertente de estudos próprios da intersemiótica, já que busca estabelecer pontos de convergência entre as linguagens da literatura, do cinema e da televisão. Ao pensarmos no caráter literário, na inter-relação sígnica e nas possibilidades tradutórias do texto, notamos que, desde os primórdios, o texto literário mantém uma intensa relação com a imagem. Se nos reportamos às inscrições rupestres, encontradas nas cavernas, podemos verificar que os desenhos já se encontravam organizados numa estrutura narrativa linear, constituindo um sistema de linguagem, que objetivava contar uma história.

A imagem tem possibilidades de construção narrativa, de caráter sintético, enquanto a escrita, analítico. Neste sentido, serão aceitos trabalhos para este simpósio que promovam o diálogo comparativo entre obras destas diferentes formas de expressão artística, desde que fundamentados no princípio da adaptação ou tradução semiótica. Assim sendo, obras literárias de qualquer natureza no que tange ao gênero, incluindo-se nesta ampla categoria contos, romances, poemas, novelas, HQs, roteiros, adaptadas para o cinema ou televisão, em formas de filmes ou minisséries, ou vice-versa, isto é, obras de natureza sonoro-visual que foram transformadas em textos literários.

O presente simpósio parte dos estudos comparativos entre as diferentes modalidades de expressão artística, cujas raízes encontram-se nos princípios teóricos da Semiótica Moderna fundada por Pierce, compreendida como “a doutrina formal dos signos”, ou, na opinião de Nöth, vista como a ciência dos signos e dos processos significativos (semiose) na natureza e na cultura. Assim sendo, com base na Semiótica e, mais precisamente, em sua variação, denominada Intersemiótica, a qual, segundo Julio Plaza, deve ser vista a partir de um “pensamento com signos, como trânsito dos sentidos, como transcriação de formas na historicidade”, abre-se caminho para uma diversidade de estudos que aproximam diferentes códigos estéticos, com vistas a compreender os processos de simbiose e dissidência entre eles, os quais tendem a redimensionar significativamente as diferentes áreas de estudo implicadas nestas abordagens interdisciplinares.

Colocar-se-á em debate temas pertinentes à Intersemiótica, tais como, os valores e a função social das obras artísticas, o conceito de fidelidade, a tradução de sistemas sígnicos e o processo de transcriação ou transculturação, a relação entre objeto artístico e mercado e a participação do leitor/espectador na construção dos sentidos.

Tendo em vista amplo arcabouço teórico inerente a esta linha de pesquisa, considera-se, com efeito, em consonância às observações de Lúcia Santaella, que todo fenômeno de cultura só funciona culturalmente porque é também um fenômeno de comunicação, e considerando-se que esses fenômenos só se comunicam porque se estruturam como linguagem, pode-se concluir que todo e qualquer fato cultural, toda e qualquer atividade ou prática social constitui-se como prática significante, isto é, como prática de produção de linguagem e sentido.

10
Edison Bariani Junior
Márcio Scheel
LITERATURA E CIÊNCIAS HUMANAS: LIMITES, APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS

As relações entre literatura e ciências humanas sempre foram mais estreitas, complexas e profícuas do que parte considerável dos cientistas e dos críticos literários gostaria de admitir. Platão, por exemplo, que por julgar os poetas imitadores afastados em três graus da verdade do mundo, dos seres e das coisas, acaba por lançar mão dos mitos, elemento essencial ao discurso poético, como forma alegórica de expressão do conhecimento filosófico. Aristóteles, por sua vez, defende, na Poética, a ideia de que a diferença fundamental entre o poeta e o historiador não está na forma de expressão de suas obras, mas naquilo que expressam: o historiador remete-se aos acontecimentos tais como foram, ao passo que o poeta concebe os fatos como poderiam ter sido. É possível perceber, nas afirmações de Aristóteles, uma certa supremacia do poeta diante do historiador, já que, para ele, a Poesia concentra em si mais filosofia e elevação ao enunciar verdades gerais, do que a História e seus fatos particulares.

Em fins do século XVIII, os românticos alemães, na esteira da influência que Kant e Fichte exerceram sobre suas reflexões, tornam-se representantes fundamentais do pensamento idealista da época, solicitando que poesia e filosofia se aproximassem novamente, exigindo uma criação literária cada vez mais aberta à reflexão crítica, ao exercício do pensamento. A literatura realista-naturalista da segunda metade do século XIX adere fortemente aos princípios cientificistas do período, dando origem, inclusive, à noção de romance experimental de tese, sendo que o conceito de experimental não está de nenhum modo associado aos ideais modernos de experimentalismo formal, mas sim aos princípios científicos estabelecidos pelo médico e fisiologista francês Claude Bernard. Experimental como parte de um processo empírico de recolher fatos, estabelecer uma hipótese, isolar um ambiente, experimentar, observar, analisar, verificar, explicar e descrever. Nesse sentido, o século XX viu desenvolver-se, no campo dos estudos literários, um amplo conjunto de métodos críticos que pressupunham, desde seus fundamentos teóricos, a utilização de um arsenal conceitual e metodológico estreitamente articulado com a ciência.

Também a literatura, a partir da modernidade, preocupa-se não somente em narrar, mas, sobretudo, em interpretar o mundo que narra, mormente as relações entre os homens, já tão distantes da natureza, e sua existência num mundo que já é eminentemente social, ‘puramente social’, segundo Ferenc Fehér. Também as ciências sociais, desde seu nascimento no séc. XIX, lançaram mão do texto e da visão literários para recolher informações e mesmo explicar a vida social; Marx, por exemplo, recorre a Balzac para entender e exercitar sua crítica à vida e atitudes burguesas, a Shakespeare para discutir aspectos humanos da transformação do capitalismo, etc. Mais ainda, as ciências sociais (e a sociologia em particular) – a despeito de posições naturalistas, positivistas e cientificistas – tomadas como formas de geração de conhecimento por meio da criação, da originalidade, da invenção, da renovação e da interpretação específica, também aproximam-se da forma estética, especificamente, literária, como já o afirmaram Robert Nisbet, ao asseverar a sociologia como uma forma de arte, e Richard Brown, ao mencionar uma “poética da sociologia”.

Assim, a criação estética e literária permeia o fazer científico seja como fato, elemento de informação/descrição, documento, interpretação, criação e mesmo estilo. Em obras como as de Marx, Weber, Mannheim, Wright Mills na sociologia já clássica; como as de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, no Brasil; e, atualmente, escritos de Mafesoli, Elias, Bauman, configuram a proximidade e distanciamento, o diálogo rico e crítico entre ciência (social) e estética (literária). Sendo assim, nosso interesse é pensar de que modo se dão essas aproximações entre literatura e ciências, bem como os limites que elas insistem em romper.

11
Emerson da Cruz Inacio
Jorge Vicente Valentim
LITERATURA E HOMOEROTISMO

Tentar definir as formas com que as manifestações de Eros se apresentam constitui tarefa ingrata e praticamente impossível, dada as múltiplas possibilidades de suas representações. A diversidade dos caminhos adotados para a constatação dos impulsos, dos desejos e das reações tem gerado uma gama significativa de veios metodológicos para a pesquisa e a leitura de tal temática.

Sem querer fechar num único caminho esquemático para a sua reflexão, a proposta do presente Grupo Temático é abrir um amplo espaço de discussão e debate sobre as múltiplas rotas eróticas, presentes nas literaturas de língua portuguesa, abrangendo a produção literária de Portugal, Brasil e África, assim como as perspectivas teóricas que atendam às especificidades destes povos. Se entendermos tais rotas eróticas como manifestações da ordem daquela “sexualidade plástica”, de que nos fala Anthony Guiddens, ou seja, de uma “sexualidade descentralizada, liberta das necessidades de reprodução”, então, poderemos caminhar tanto por uma via de liberdade entre os gêneros e as escolas literárias a que os textos propostos para leitura pertencem, quanto pelas vias de sua representação temática, entendendo-a nas linhas do hetero e/ou do homoerótico, da escrita de lésbicas, transexuais, queer ou das textualidades que tematizem aspectos das sexualidades não-normativas.

Nesse sentido, pretende-se ainda procurar estabelecer um balanço dos Estudos Homoeróticos e da Diversidade Sexual no Brasil, tomando como marco a realização dos três encontros \”Literatura e Homoerotismo\”, promovidos na Universidade Federal Fluminense entre os anos de 1999 e 2001, momento em que pesquisadores e pesquisadoras visaram a visibilidade crítica, estética e literária daqueles estudos. Nos anos que separam a última realização do evento e a atualidade, muitas perguntas se impuseram aos pesquisadores e interessados na área: pode-se pensar em uma estética homoerótica em Língua Portuguesa? Há um cânone paralelo, representativo da produção de temática e autoria homossexual em nossas literaturas? As premissas teóricas, muitas delas importadas da Europa e dos EUA atendem com destreza às especifidades dos discursos literários que tangenciam ou tematizam as experiências homoeróticas? Os avanços políticos têm contribuído para uma oxigenação dos cânones em Língua Portuguesa, no que se aplica à tematização dos (homo)erotismos?

Na relação entre sujeito e objeto, como fica a produção e autoria: gays e lésbicas são ainda apenas objetos ou já constituem uma subjetividade no campo literário? A partir de tal premissa, respeitando, porém, os pressupostos teóricos propostos pelos seus leitores, o Grupo Temático expande a possibilidade de um encontro também entre os pensamentos de Freud, Bataille, Guiddens, Alberoni e Foucault, a Teoria Queer, David Halperin, Eve Kosofsky Sedgwick, dentre outros, e suas possíveis aplicações nas literaturas de língua portuguesa, bem como de teóricos e estudiosos de tais questões nos territórios abrangidos por este GT.

12
Jaison Luís Crestani
Daniela Mantarro Callipo
LITERATURA E IMPRENSA

A implantação e o desenvolvimento da imprensa promoveram a comercialização da literatura e deram início ao processo de profissionalização do escritor, que passaria a alcançar, assim, uma relativa autonomia na sua produção, deixando de se submeter à tutela de um mecenas. Consequentemente, a instauração de um mercado livre e anônimo para as manifestações artísticas e culturais teria um efeito duplo sobre o trabalho do escritor, instituindo o que se poderia denominar como dialética da liberdade e da alienação.

Com a abertura de um mercado dos bens simbólicos, aciona-se todo um “sistema de condicionamentos” com os quais o escritor deverá defrontar-se obrigatoriamente no decurso de sua produção artística. A introdução de novos meios de produção e de transmissão da cultura não só estimulam formas de escrita igualmente renovadas, como também contribuem decisivamente para a formação de um novo modo de raciocínio e, por conseguinte, de maneiras inovadoras de se relacionar com os produtos artísticos a serem assimilados.

Desse modo, este simpósio propõe-se a fomentar a interação de estudos e pesquisas empenhados em promover a compreensão das confluências dinâmicas entre as operações criativas e os mecanismos de produção e difusão cultural. Dispensando dicotomias simplistas, esta proposta prioriza abordagens dialéticas das contradições inerentes à simbiose entre literatura e imprensa, fundamentadas na combinação da apreciação de soluções estético-literárias com a análise da materialidade das obras e com a historicidade das práticas de escrita e de leitura.

Assim, o exame crítico das produções culturais deve considerar a complexidade inerente à sua composição material que, embora usualmente negligenciada, também se constitui em formas de expressão. Os meios de divulgação não são simples instrumento de difusão da virtualidade do texto literário, mas participam determinantemente da construção da identidade e do universo de sentido das obras publicadas. Portanto, o conhecimento das condições de enunciação vinculadas a cada contexto de produção define consideravelmente o percurso da leitura, indicando as normas que presidem ao consumo da obra.

Da confluência entre a constituição material e a componente textual resultam maneiras particulares de fruição do objeto escrito, determinadas pelos protocolos de leitura, categorias de leitores e horizontes de expectativas próprios de cada contexto. Com base nesses pressupostos, este simpósio pretende promover a interlocução entre estudos críticos sobre as interações dinâmicas que se articulam entre a criação artística e os fatores de produção (instituições culturais, meios de comunicação, concepções ideológicas, práticas mercadológicas etc.).

Com o intuito de propiciar a reflexão teórica e metodológica sobre a pesquisa em periódicos, planeja-se ressaltar a importância de jornais e revistas como fontes primárias fundamentais para o estudo da história literária e como agentes da atividade intelectual e da renovação estética, política e cultural do país.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 2


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

Diariamente serão postados 4 Resumos dos Simpósios que serão apresentados em 13 a 15 de junho, até totalizar os 25 a serem apresentados.

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

5
Neide Luzia de Rezende
Robson Coelho Tinoco
DIDÁTICA DA DIMENSÃO ESTÉTICA DA LEITURA

Em face dos novos paradigmas de leitura literária, que há pelo menos quatro décadas se apresentam como desafio para a escola, a proposta deste Simpósio é reunir trabalhos que se situem no eixo de aprendizagem das práticas sociais de leitura, incluindo além da literatura, também outros universos semióticos, como cinema e teatro. Com a emergência do leitor como instância da literatura desde os trabalhos iniciais da estética da recepção ao final dos últimos anos 60, pontuada na afirmação de Wolfgang Iser “o texto só existe pelo ato de constituição de uma consciência que o recebe” (in O ato da leitura, 1996), a leitura de especialistas se configura não mais como a leitura, mas como uma das possibilidades de interpretação da obra – e é a esse ato que ele denomina “estética”. Essa teoria tem, embora cheia de percalços, permeado as abordagens dos materiais didáticos voltadas para o ensino da literatura e a leitura literária e instaurado a noção interação texto–leitor como uma verdadeira palavra de ordem para as práticas de ensino.

Compreensivelmente, na escola, esse novo paradigma tem propiciado uma verdadeira crise de identidade no ensino de literatura, uma vez que faz emergir como instância da literatura o leitor empírico, com suas “reações pessoais, restritas e parciais, maculadas de erros e confundidas pelo jogo múltiplo das conotações” (Bellemin-Noël, Les plaisirs vampires, 2001).

Assim, enquanto a maioria dos materiais didáticos produzidos para a escola pelas instâncias oficiais (pelas Secretarias de Educação do Estado de São Paulo e do Governo do Distrito Federal, entre outras) propõem o contato efetivo com o texto e sua apreensão estética pelos alunos em vez de considerar como única opção didática a opinião da crítica e a metaleitura do professor (não obstante não se perceba nesses documentos um viés teórico capaz de esclarecer essas propostas), o livro didático voltado para o Ensino Médio (diferentemente daquele dirigido para o Fundamental), por exemplo, resiste às mudanças, restringindo-se ainda à história literária cristalizada e à linha do tempo.

Determinados parâmetros, ultrapassados ou ineficazes, parecem reger a didática desses livros didáticos e a de muitos professores, enquanto os alunos caminham livremente em outra direção, resistindo ao tipo de leitura e conhecimento que recebem na sala de aula. A decantada perspectiva de interação texto-leitor sofre com toda sorte de dificuldade para sua concretização: insegurança do professor em relação a sua própria leitura, falta de tempo para uma leitura mais subjetiva, mais reflexiva, mais propensa à elaboração pelo leitor e, sobretudo, falta de clareza quanto às dimensões de aprendizagem que uma perspectiva como essa requer.

Diante de tal situação, espera-se para este Simpósio colaborações que discutam uma epistemologia da cultura da leitura, também literária, de modo a repensar, para a escola brasileira – cujos alunos estão mergulhados nos meios eletrônicos e na cultura de massa –, novas práticas de ensino.

6
Clarice Zamonaro Cortez
Maria Natália Ferreira Gomes Thimóteo
HISTÓRIA, MITO E PAISAGEM NA LITERATURA PORTUGUESA

A Literatura Portuguesa contemporânea cruza os diversos registros históricos, mantendo um diálogo com o passado, reavaliando-o sob a perspectiva do presente. Na sua produção há uma relação íntima com a problemática político-social portuguesa, dramatizando a condição feminina em uma sociedade vinculada a padrões tradicionais, além de explorar novos caminhos estéticos, sem perder de vista a tradição.

A poética portuguesa contemporânea apresenta uma pluralidade de experiências, favorecendo diversos eixos norteadores que serão contemplados e discutidos neste simpósio. É imprescindível conhecer o resultado mais contemporâneo, com base no processo e nas dinâmicas de consolidação da Literatura Portuguesa desde as suas próprias origens, até o presente século XXI. A literatura, ao captar o “fulgor do real”, faz “girar os saberes”, segundo Barthes, na sua Aula. Esta dança poética de saberes é sentida – e faz girar os seus leitores no espaço e no tempo das cantigas sentimentais dos trovadores do século XIII, do passado histórico e delirantemente engrandecido em Camões, na obra sempre (re)visitada de Pessoa ao caráter mito-poético dos romances de Saramago.

O desenvolvimento do temário permitirá compreender melhor a configuração da Literatura Portuguesa e praticar uma análise comparatista em relação a outras literaturas vizinhas e/ou a literaturas veiculadas na mesma língua. Neste sentido, a Literatura Portuguesa abre caminhos de conhecimento para os estudos de pós-graduação em literatura e literaturas comparadas ou em estudos culturais, de caráter interdisciplinar. Segundo Plutarco (De gloria atheniensuim, III, 346 f – 347 c), Simónides de Céos, poeta que viveu no século V a.C., é o autor do dito aforismático, a pintura é poesia muda e a poesia é pintura falante (AGUIAR E SILVA, 1990, p. 163).

A partir desta afirmativa, pintores e poetas buscavam inspirações para suas composições nos termos literários e tentavam através desta prática expor aos olhos dos leitores imagens que somente as artes visuais adequadamente ofereciam. A Antiguidade Clássica registra uma relação entre as artes. O conceito de mimeses de Aristóteles, oriundo de várias interpretações de sua Poética, norteou o pensamento clássico. Mário Praz, em sua obra Literatura e Artes Visuais (1982, p.1), assevera que “a ideia de artes irmãs está tão enraizada na mente humana desde a antiguidade remota que deve nela haver algo mais profundo do que a mera especulação, algo que se apaixona e que se recusa a ser levianamente negligenciada”. Nesse sentido, não se pode negar a irmandade, o fio condutor que une as obras de arte, observando e respeitando suas características próprias. E. Forster (apud PRAZ, 1982, p.1) afirma que “a obra de arte é um objeto único e justifica porque é o único objeto material do universo dotado de harmonia interna”. O artista, seu mentor criativo, ao produzi-la parte de um conjunto, de suas experiências, sua visão de mundo, entre outros elementos que, junto a sua sensibilidade, culminará na sua produção.

O objetivo deste simpósio é oferecer aos pesquisadores um espaço de discussão da Literatura Portuguesa nos aspectos sincrônico e diacrônico, nos quase mil anos de produção, proporcionando especial atenção aos temas e suas nuances da História, do Mito e da Paisagem na sua produção literária.

7
Renata Junqueira de Souza
Ana Lucia Espíndola
LEITURA LITERÁRIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL E SÉRIES INICIAIS: SUPORTES E GÊNEROS

As reflexões sobre o ensino da leitura e da escrita nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação Infantil têm sido permeadas, nos últimos anos, pela discussão sobre a importância da presença de diversos suportes e gêneros literários em sala de aula. Tal presença irá contribuir para o desenvolvimento de diferentes habilidades presentes no ato de ler e que precisam ser fomentadas desde a mais tenra idade. Ao mesmo tempo, a leitura do texto literário na escola, principalmente nos anos iniciais de aprendizagem tem sido tema de várias literaturas.

Houve na última década uma crescente produção de livros para crianças de 0 a 5 anos, como livros brinquedos, livros de pano e de plástico, poesias infantis e livros cartonados. Nas séries iniciais, por outro lado, editores, autores e ilustradores têm ampliado os gêneros literários para tal faixa etária, disponibilizando no mercado livros de contos de fadas, lendas, cordel para crianças, histórias em quadrinhos, poesia, livros em séries para todos os públicos. Se o mercado editorial brasileiro tem se preocupado em ampliar tanto quantitativa, quanto qualitativamente os gêneros literários disponíveis para crianças nos primeiros anos de aprendizagem (0 a 12 anos), as políticas públicas de leitura como o PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola) também têm selecionado uma diversidade de livros, de vários gêneros literários para compor os acervos de creches, escolas de educação infantil e séries iniciais brasileiras.

Neste sentido, podemos afirmar que temos hoje um número maior de obras que podem ser lidas pelas crianças, seja em casa, com auxilio dos pais, seja em bibliotecas escolares, ou na escola. Entretanto, um problema ainda afeta a leitura da obra literária em espaços escolares, quando esses espaços por meio de seus sujeitos orientam a leitura do texto literário pelo viés da pedagogia, ou seja, fazem desses textos pretexto para o ensino de alguma disciplina curricular, enaltecendo a função de instrumento para outro fim, que não aquele da criação artística.

O uso do texto literário adquire neste caso um caráter didático e tem sua especificidade anulada enquanto arte. Se por um lado isso acontece porque os professores de educação infantil ou séries iniciais não tiveram formação para o uso adequado de gêneros literários na escola, por outro as universidades já oferecem nas grades curriculares de seus cursos a disciplina Literatura Infantil que pode auxiliar futuros professores a compreenderem as características do texto literário evitando assim sua didatização.

Este simpósio tem como proposta reunir experiências de ensino, bem como, de práticas da leitura e compreensão do texto literário abarcando diversos gêneros e tipos (do livro brinquedo aos livros em séries) destinado ao público de 0 a 12 anos, seja experiências em sala de aula, bibliotecas escolares, ou ainda com estudantes que se preparam para ser professores de séries iniciais. Nosso objetivo maior é divulgar experiências de leitura enriquecedoras, em que a literatura se mostre como uma realidade possível, ativadora da imaginação e do conhecimento do outro e de si mesmo.

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Mirian Hisae Yaegashi Zappone
Célia Regina Delacio Fernandes
LETRAMENTOS LITERÁRIOS: PRÁTICAS DE LEITURA E DE ESCRITA

Leitura e escrita constituem-se como práticas variáveis no tempo e no espaço, tendo, portanto, uma história e uma sociologia (Chartier, 1999). Sendo assim, são influenciadas por inúmeros aspectos entre os quais as tecnologias que envolvem os diversos usos da escrita. Compreendendo o conceito de letramento como o “conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos para objetivos específicos” (Kleiman, 2004, p.19), podemos observar diferentes formas tanto de escrita, de leitura quanto de modos de circulação da escrita, fato que também pode ser notado com relação a textos literários.

Nesse sentido, o conceito de letramento se revela produtivo para os estudos literários, se realizarmos uma modulação fundamental: a restrição do conceito de escrita aos textos que possuem caráter de ficcionalidade, já que esta parece ser uma das características mais gerais da escrita compreendida até hoje como literatura. Assim, poderíamos pensar em letramento literário, ou seja, nas práticas sociais que fazem uso da escrita ficcional. Decorrente do conceito de letramento literário, abrem-se muitas perspectivas de estudos, pois ao considerarmos os diferentes contextos e objetivos envolvidos na produção e recepção de textos ficcionais, as práticas sociais que os envolvem passam a ser variadas.

A perspectiva de se olhar os contextos de tais práticas leva, por exemplo, a considerações históricas, culturais, sociais e materiais importantes no caso da produção de textos ficcionais e de sua leitura. Esses contextos estendem-se desde as práticas observadas em ambiente escolar (as práticas escolarizadas) até as práticas menos visíveis, encontradas em espaços sociais diversos (família, internet, igrejas, vida social etc.). Ao mesmo tempo, tal conceito permite uma expansão do conceito de literatura, na medida em que abarca não apenas as formas ficcionais impressas e verbais, já que o letramento leva em conta as tecnologias envolvidas na produção/recepção da escrita.

Por essa razão, podem ser consideradas formas ficcionais o próprio teatro, a novela televisiva, o videoclipe, a fanfic, a literatura oral, a poesia digital, o cinema, enfim, formas híbridas ou multimodais e outras que superabundam no mundo contemporâneo. Tais formas estão a exigir uma pluralidade de letramentos, gerados tanto pelas materialidades que envolvem a escrita quanto pelos diversos usos que dela se podem fazer, levando à discussão sobre as relações entre práticas letradas de leitura e escrita e outras práticas sociais de uso da escrita ficcional.

Tendo em vista tal panorama, este simpósio pretende agregar trabalhos que discutam aspectos relacionados a três eixos para os quais sugerimos alguns desdobramentos:

1) modos de produção, recepção e circulação de formas ficcionais impressas em diferentes contextos e espaços (imagens de leitura e de escrita na literatura infantil e juvenil, estudos específicos de autores e textos da literatura infantil e juvenil brasileira e estrangeira, estudos sobre recepção de tais textos etc.);

2) modos de produção, circulação e recepção de formas ficcionais em ambientes digitais, produzidos na cibercultura ou em outros contextos (estudos de formas ficcionais multimidáticas ou multimodais; formas multimodais e suas relações com gêneros impressos canônicos; intermidialidades, compreendidas como passagens de uma mídia a outra), literaturas orais e, finalmente,

3) os letramentos envolvidos na apropriação de tais formas ficcionais e sua inserção na cultura (letramentos literários e políticas públicas de leitura, literatura e formação de leitores na escola, materiais didáticos e letramento, práticas de leitura de textos literários em espaço escolar, letramentos em contextos digitais, letramentos escolares, letramentos sociais ou multiculturais).

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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2º CIELLI da UEM/PR (Resumo de Simpósio de Teoria Literária) Parte 1


2º CIELLI – Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários

Diariamente serão postados 4 Resumos dos Simpósios que serão apresentados em 13 a 15 de junho, até totalizar os 25 a serem apresentados.

O resumo havia sido publicado na UEM em parágrafo único, mas para facilitar a leitura dos leitores do blog, dividi em parágrafos.

1
Mônica Luiza Socio Fernandes
Marly Gondim Cavalcanti Souza
(A LITERATURA EM DIÁLOGO COM OUTRAS ARTES)

Este simpósio é um espaço para reunir as pesquisas, as reflexões e as discussões centradas nas relações entre a Literatura e as outras artes (música, pintura, dança, cinema, teatro). Um tema cada vez mais discutido, especialmente, por trazer ampliação da perspectiva crítico-interpretativa e aprofundamento dos estudos da Literatura Comparada. O assunto tem assumido destaque no Brasil, terra mestiça por excelência, encontrando-se no cerne do tema da sexta edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty (RJ), acontecida no período de 2 a 6 de julho de 2008, colocando “a literatura em diálogo com diversas áreas do conhecimento” (UOL, on line). Porém, não somente no Brasil esse tema é atualidade: em 2001, o IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada (APLC), acontecido na cidade de Évora (Portugal), com o tema: “Estudos literários/estudos culturais”, produziu nada menos que um volume (o III) publicado com o título: “Literatura e Outras Artes”.

Várias são as publicações surgidas sobre o assunto, envolvendo pesquisadores amantes das artes e da literatura. Como exemplo, podem ser citados: Pierre Brunel & Yves Chevrel (Orgs.). Compêndio de Literatura Comparada (2004), cujo capítulo intitulado: Literaturas e Outras Artes expõe uma linha de evolução desses estudos, teóricos, escolas e publicações; o livro Angulos: literatura e outras artes, de autoria de Evandro Nascimento (UFJF, 2002), com textos sobre literatura e cultura brasileira, explorando não somente a teoria, mas a obra de Guimarães Rosa e Machado de Assis; os livros Diálogo entre literatura e outras artes (UFPB/Realize, 2009) e Diálogo entre a literatura e outras artes, Vol.2 (UFPB/Realize, 2011) , organizados por Marly Gondim Cavalcanti Souza, reunem textos de autores de várias partes do Brasil, focalizando estudos aplicados a obras literárias em interação com outras artes (cinema, música, dança, pintura); a revista JIOP, lançada no dia 7 de outubro de 2010, na Universidade Estadual de Maringá, mais uma empreitada na divulgação de trabalhos realizados na área.

Por tais razões, não se pode mais pensar em uma expressão artística sem que se considere a relação de complementaridade existente entre as mais diversas formas usadas pelo ser humano para comunicar suas ideias e sentimentos, chamadas de “arte”. As artes surgem como uma alternativa prática de estudo e de análise de obras literárias, fundada na relação interartística, tanto pela capacidade de envolver e seduzir o leitor, na sua dinamogenicidade, e de constituir o ponto inter-relacional para o diálogo entre obras literárias na perspectiva da intertextualidade, bem como entre a literatura e outro sistema semiótico artístico, considerando a presença de outros sistemas semióticos no texto literário e/ou a relação metafórica, de similaridade estrutural.

Este simpósio propõe-se a dar continuidade a um trabalho de pesquisa iniciado em 2007, cujos resultados podem ser observados em diversas publicações, troca de experiências e participação de pesquisadores em grupos de pesquisa em outros centros acadêmicos, enriquecendo o conhecimento mútuo da Literatura Comparada.

2
Alice Áurea Penteado Martha
Vera Teixeira de Aguiar
A LITERATURA JUVENIL: DO MERCADO ÀS INSTÂNCIAS DE LEGITIMAÇÃO

A literatura juvenil, fenômeno recente, cuja produção se fez maciça nas últimas décadas, com publicação de inúmeros títulos e circulação marcante no contexto escolar, em meio aos muitos produtos culturais que inundam o mercado e disputam avidamente a atenção dos jovens, destaca-se dentre os subsistemas que alimentam o sistema literário. Estudos acadêmicos mais recentes têm considerado a questão do “específico juvenil”, ainda que os trabalhos sistemáticos sobre a produção e a circulação dessas obras não se mostrem suficientemente significativos.

Embora a oposição “literatura”/“literatura infantil” se faça presente na absoluta maioria dos textos que compõem a bibliografia teórica sobre o assunto, as oposições “literatura”/“literatura juvenil” ou “literatura infantil”/“literatura juvenil” são quase que deixadas de lado pelos estudos que se dispõem a tratar desse polêmico subsistema literário. Sob a ambígua rubrica “literatura infantojuvenil”, utilizada, aliás, até este ponto sem maior questionamento, todos os problemas parecem estar resolvidos, ainda que depois se revelem contradições internas nas obras teóricas, que acabam – explícita ou implicitamente – trabalhando com a diferenciação de conceitos.

A complexidade do assunto amplia-se quando o foco é dirigido à significação do termo “juventude”, uma vez que o conceito é construído a partir de múltiplos olhares, notadamente das ciências médicas e humanas – história, sociologia, psicologia, educação, biologia. Apesar do peso significativo que possui atualmente a literatura juvenil no campo editorial, movimentando cifras consideráveis; da vasta produção de títulos em níveis de literariedade dos mais artísticos aos mais “comerciais”; do grande número de autores já consagrados ou novatos que produzem no gênero; da legitimação que a literatura juvenil acaba por receber de diferentes instituições (prêmios, diretrizes curriculares, disciplinas de graduação e pós-graduação, congressos), é possível constatar que a pesquisa sobre o assunto é ainda bastante precária, o que propicia uma reflexão sobre a noção de lugar de fronteira da literatura juvenil no sistema literário brasileiro.

O estabelecimento de um diálogo entre os elementos do campo literário mostra-se fundamental no reconhecimento da produção literária dirigida aos jovens como subsistema de obras, ligadas por certos fatores comuns que permitem reconhecer seus traços dominantes, como as características internas (língua, temas, imagens) e alguns elementos de natureza social e psíquica que, ao se organizarem literariamente, manifestam-se historicamente e transformam a literatura, concedendo-lhe aspecto orgânico. A discussão sobre as fronteiras da literatura juvenil, demarcadas por estudos de natureza diversa – historiografia, sociologia, psicologia e estética -, não tem a pretensão de esgotar as possibilidades para o estabelecimento de critérios para o reconhecimento da produção para jovens como subsistema de obras literárias.

Desse modo, e considerando a extensa e diversificada frente de trabalho que se abre com a discussão, tanto no que se refere a pesquisas teóricas e críticas quanto aquelas voltadas à questão da leitura e à superação gradativa dos problemas relativos à formação de leitores literários permanentes, a proposição deste simpósio justifica-se pelo empenho em compreender melhor as especificidades da produção para jovens nas suas múltiplas dimensões, bem como os modos de sua circulação e recepção. Assim, o simpósio deverá receber trabalhos que levantem obras que circulem, em diferentes suportes, sob a rubrica de literatura juvenil; debatam a produção em seus elementos estético/formais; realizem reflexão teórica sobre a existência de um específico juvenil no campo mais amplo da literatura; discutam e proponham questões relativas ao ensino da literatura juvenil; analisem o processo de mediação e recepção dos textos literários no contexto escolar, em suas múltiplas variáveis; discutam políticas públicas voltadas à leitura.

3
Marisa Corrêa Silva
Acir Dias da Silva
AS ARTES NARRATIVAS E O PANDEMÔNIO DA CONTEMPORANEIDADE

Este simpósio objetiva reunir e promover o debate entre estudiosos de teorias que vêm ganhando espaço nos círculos acadêmicos no início do século XXI. Embora a análise literária e/ou as reflexões sobre a narrativa sejam o ponto de convergência dessa proposta, as teorias não precisam ser, originalmente, criadas para se pensar especificamente o texto (entendido num sentido amplo) narrativo. Trata-se de abrir o leque acadêmico, expandindo-o, aceitando contribuições de diferentes campos – fenômeno tradicional no pensamento crítico.

Como é sabido, várias vertentes importantes da crítica literária, da comunicação e da estética beberam em fontes como Adorno e Benjamin, bem como outros filósofos da Escola de Frankfurt; o pós-colonialismo emana de autores como Hommi Bhabbha e Edward Said; a crítica feminista, de pensadoras como Hélène Cixous, cujo contributo é tão significativo quanto o de nomes como Virgínia Woolf e Simone de Beauvoir, que eram também romancistas. Portanto, serão bem-vindas contribuições que lidem com o pensamento de filósofos como Alain Badiou, francês de origem marroquina, cujo conceito de Evento (Évenement ou Acontecimento) reinstalam a discussão sobre metafísica num novo patamar, propondo, na contramão do mainstream do pensamento contemporâneo, que a Verdade, sob determinadas condições, é uma categoria prática; o italiano Giorgio Agamben, cujas leituras sobre a profanação provocaram polêmica, embora seu contributo para a crítica da biopolítica seja consagrado.

Slavoj Zizek, cujo materialismo lacaniano propõe uma nova leitura de Marx, voltando a Hegel e buscando soluções para a chamada “crise das esquerdas” do final do século XX, também é um dos nomes que buscamos.

Também serão bem-vindos trabalhos que retomem questões do feminismo, contemplando o contributo de pensadoras como, por exemplo, as anglófonas Kalenda C. Eaton, Laura Gillman, Judith Butler e outras que repensam o feminismo e articulam-no com questões raciais, trabalhando uma nova visão, o womanism, surgido da nomenclatura criada por Alice Walker.

O francês de origem tunisiana Pierre Lévy e suas contribuições mais recentes sobre a Internet também encontrarão espaço em nosso forum de discussões. Esses nomes e outros, que não mencionamos aqui, bem como teóricos que se propuseram a pensar especificamente a literatura, devem ser a base dos trabalhos recebidos. A condição de aceite das propostas é, portanto, que a(s) obra(s) teórica(s) principais que compõe(m) a metodologia do trabalho proposto tenha(m) sido produzida(s) originalmente (e não republicadas ou traduzidas) a partir de 1990, e que se encaixem em uma ou mais das seguintes modalidades: análises críticas de textos literários, reflexões sobre a aplicabilidade da(s) teoria(s) abordada(s) no campo literário, diálogo e contraponto com o estado anterior da questão (desde que devidamente ligado à questão literária).

A nossa preferência é por questões que:
a) enfoquem leituras e análises críticas de diferentes textos (literários, pictóricos, fílmicos etc)
b) proponham teorizações mais atuais, estrangeiras ou brasileiras.

4
Antonio Augusto Nery
Rosana Apolonia Harmuch
DIÁLOGOS COM A LITERATURA PORTUGUESA

Eduardo Lourenço em seu clássico artigo “Da Literatura como interpretação de Portugal”, presente no volume O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português (1978), realiza uma análise da produção literária portuguesa que vai de Almeida Garrett (1799-1854) a Fernando Pessoa (1888-1935), propondo que no espaço temporal que separa os dois autores, a literatura de ficção portuguesa “foi orientada e subdeterminada consciente ou inconsciente pela preocupação obsessiva de descobrir quem somos e o que somos como portugueses”.

Segundo o crítico, essa busca pela identidade caracterizou-se, nos séculos XIX e XX, pelo constante repensar do conceito de nacionalidade e pela constatação, por parte de diversos autores, de que “as contas a ajustar com as imagens que a nossa aventura colonizadora suscitou na consciência nacional são largas e de trama complexa demais”.

As proposições de Lourenço expõem a situação de alguns escritores, especialmente do contexto finissecular do Oitocentos e dos primeiros anos do século XX, que, ao refletirem sobre a questão da identidade nacional, deparavam-se com o impasse do passado glorioso que perseguia a realidade presente, não permitindo vislumbrar claramente o que estava porvir.

Mesmo dedicando especial atenção à literatura produzida entre Garrett e Pessoa, a análise de Eduardo Lourenço dialoga com toda a tradição literária de Portugal que vai das cantigas medievais até a contemporaneidade, deixando entrever que a busca pela identidade do ser português é, de fato, um anseio permanentemente perceptível na produção literária portuguesa. E tal anseio necessita ser (re) pensado na contemporaneidade, se considerarmos que a discussão sobre o conceito de identidade nacional, ao longo do século XX e agora no século XXI, é perpassada por conceitos/discursos que a problematizam a ponto de se poder entendê-la, à luz de Zygmund Bauman em Modernidade Líquida (2000) e Stuart Hall em A Identidade Cultural na Pós-modernidade (1992), como algo fluido, líquido, “sem fronteiras” – concepções que descontroem práticas discursivas, muitas vezes oficiais, interessadas em criar e alimentar uma hegemonia identitária e cultural que não existe.

Ainda no sentido de problematizar essa discussão, cabe mencionar o que Leyla Perrone-Moisés propõe em seu recente livro Vira e Mexe, Nacionalismo: Paradoxos do Nacionalismo Literário (2007): “aquilo que chamamos literatura é uma prática universalizante, que ensina a superar os escolhos dos nacionalismos”.

Levando em consideração as ponderações realizadas por esses e outros teóricos, propomos este simpósio com o intuito de abrigar trabalhos que tenham como foco a Literatura Portuguesa e temas relacionados aos questionamentos e a (re)interpretação da nação e do conceito de identidade nacional, bem como leituras críticas que problematizam tais temas como possibilidade para a interpretação do texto literário. Pressupõe-se, nos trabalhos apresentados, um esforço em revisar a crítica canônica/tradicional que se \”cristalizou\” em torno de várias obras e autores dessa literatura, interferindo/delimitando leituras e análises futuras desses textos.

Pretende-se também priorizar análises comparatistas que buscam novas perspectivas sobre a produção ficcional portuguesa, em suas relações com o cinema, a história, a filosofia, a pintura, a fotografia, entre outras interfaces, à luz de diversas linhas teóricas. Além do intuito de abrir espaço para revisões e releituras críticas, o simpósio também pretende dar visibilidade a pesquisas envolvendo obras de autores contemporâneos de países lusófonos.

Fonte:
http://www.cielli.com.br/programacao_geral

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Simpósio Afro-Cultura, Literatura e Educação, em Frederico Westphalen/RS

A Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI, Campus de Frederico Westphalen convida:

O Departamento de Lingüística Letras e Artes e o PPGL- Mestrado em Letras- Literatura Comparada da URI de Frederico Westphalen, RS, promovem, de 18-20 de agosto de 2010, o Simpósio Afro-Cultura, Literatura e Educação. O Simpósio é um evento paralelo do Curso de Extensão Novos Olhares, evento anual através do qual o Curso de Letras e o PPGL buscam despertar, tanto na comunidade acadêmica como no público em geral, o interesse quanto a autores, obras e seus mecanismos de circulação e recepção. No ano corrente, o Curso de Extensão Novos Olhares tem como temática Afro-Culturas e Literaturas Africanas.

O Simpósio Afro-Cultura, Literatura e Educação tem caráter multidisciplinar e destina-se a estudar as relações entre conhecimento, discurso e poder, especialmente no âmbito das expressões de minorias, com destaque para a produção literária e cultural da diáspora africana.

EIXOS TEMÁTICOS

– conhecimento, discurso e poder;

– educação e inclusão;

– identidade, nacionalidade, cultura;

– literatura e ensino;

– literatura e etnicidade;

– literatura e cultura da diáspora africana;

– expressões literárias de minorias e margens da história.

INSCRIÇÕES NO SITE:
http://www.fw.uri.br/site/eventos/index.php?evento=76&pg=inscricoes

APRESENTADOR (Comunicações e/ou Pôsteres): de 1 de junho a 9 de agosto de 2010.

PARTICIPANTE: de 1 de junho a 18 de agosto de 2010.

Certificados de 30 horas (freqüência mínima para expedição do certificado: 75%)

Vagas limitadas a 100.

PROGRAMAÇÃO

18/08/2010

8h-10h – Recepção aos Participantes, distribuição de pastas
10h-11h30min – Sessão de Comunicação
14h-17h – Sessão de comunicação
18h-Sarau Literário
19h – Conferência de abertura “O Ébano e o Marfim” – Prof. Ms. Giancarlo Cerutti Panosso

19/08/2010

8h-12h – Minicurso: Língua, Literatura, Etnicidade e Educação – Maria da Conceição Evaristo de Brito
13h30min-17h30min – Minicurso – Continuação
19h30min – Conferência: Literatura e Educação Segundo uma Perspectiva Afro-Brasileira – Maria da Conceição Evaristo de Brito

20/08/2010

8h-12h – Minicurso – Continuação
12h30min – Almoço por adesão
14h – Entrega dos certificados aos participantes.
Minicurso – Língua, Literatura, Etnicidade e Educação – Maria da Conceição Evaristo de Brito (12h)

Objetivos:

– Discutir a relação língua, literatura e etnicidade tendo como perspectiva a educação;

– Visibilizar parte de uma produção literária afro-brasileira.

– Propor o ensino/aprendizagem da literatura afro-brasileira como prática pedagógica que propicie a assunção de uma identidade afro-brasileira.

– Propiciar a discussão de ações pedagógicas que possam levar a uma educação que rejeite qualquer tipo de discriminação.

Ementa: Procurando problematizar a literatura como espaço de criação de identidade e de diferença, serão observados modos de representação do negro e da cultura afro-brasileira no interior de textos literários.

Tópicos: – Linguagem e poder; – O negro como objeto do discurso; – O negro como sujeito do discurso; – Vozes quilombolas na literatura brasileira; – Poética da irmandade – algumas aproximações entre criações literárias africanas e afro-brasileiras.

NORMAS

COMUNICAÇÕES

1. A proposta deverá estar articulada a um dos eixos temáticos do evento.

2. A organização e distribuição das sessões de apresentação dos trabalhos aprovados ficará a critério da Comissão Organizadora.

3. Os trabalhos individuais ou em grupo (máximo três autores) deverão ser resultantes de pesquisas concluídas ou de pesquisas em andamento que já apresentem análises preliminares.

4. Cada trabalho deve ser acompanhado do texto completo com um mínimo de cinco (05) páginas e um máximo de oito (08) páginas, excetuando-se as referências e os anexos. O texto poderá ser enviado juntamente com a inscrição, ou, alternativamente, preencher no momento da inscrição apenas o título, palavras-chave e resumo e entregar o texto em CD no dia da apresentação. Neste último caso, quando o sistema pedir o arquivo do trabalho, enviar arquivo dizendo: TRABALHO A SER ENTREGUE NO DIA DA APRESENTAÇÃO.

Formatação do Trabalho:

Os trabalhos submetidos deverão seguir a formatação abaixo:

Língua: português, espanhol ou inglês.
Folha: tamanho A4; Margens: superior- 3 cm; inferior- 2 cm; esquerda- 3 cm; direita- 2 cm.
Fonte: Times New Roman, tamanho 12
Editor de texto: Word for Windows 6.0 ou posterior.
Parágrafo: espaçamento: nenhum; entre linhas: 1,5; alinhamento justificado.
Citações e referências: seguir normas da ABNT. Citações parentéticas no corpo do texto. Notas de fim, apenas explicativas.
Número de páginas: mínimo de cinco (05) páginas e um máximo de oito (08) páginas, excetuando-se as referências e os anexos.
Disposição do texto: Somente serão aceitos para publicação artigos com o formato descrito abaixo:
Título e identificação do autor: título centralizado, em negrito; linha em branco; nome do autor, à direita, em negrito, acompanhado de chamada numérica para nota de rodapé contendo sua titulação e filiação institucional.
Linha em branco.
Resumo e palavras-chave: resumo de 100-150 palavras, em português (ou Resumen, Abstract caso escritos em, respectivamente, espanhol ou inglês), seguido de 3-5 palavras-chave (Keywords/Palabras Clave), separadas por ponto, e iniciadas por maiúscula, na língua em que o artigo foi escrito. Digitado em espaço simples.
Linha em branco.
Corpo do artigo
Linha em branco
Abstract/Resumen
, seguido de Keywords/Palabras Clave (3-5 palavras, separadas por ponto, e iniciadas por maiúscula).
Notas de fim ( se houver)
Referências

PÔSTERES

1. O pôster deverá estar articulado a um dos eixos temáticos do evento.

2. Os trabalhos individuais ou em grupo (máximo três autores) deverão ser resultantes de pesquisas concluídas ou de pesquisas em andamento que já apresentem análises preliminares.

3. A apresentação gráfica dos pôsteres deverá conter os seguintes itens: título, nome(s) do(s) expositor(es) e da Instituição a que está vinculado, objetivos, metodologia, contribuições da pesquisa ou da experiência com resultados ou considerações preliminares, referências, (fotos e tabelas se houver). A medida proposta é de 1,00m de largura por 1,20m de comprimento.

ANAIS DO SIMPÓSIO

Todos os trabalhos serão publicados em e-livro, devidamente registrado no ISBN, a ser publicado em setembro de 2010.

A correção e formatação do texto de acordo com as normas acima é de responsabilidade dos autores.

INSCRIÇÃO
Apresentador – Comunicação e Pôster …………………….R$ 50,00
Apresentador – Comunicação e Pôster (da URI) ……..R$ 45,00
Apresentador – Comunicações …………………………………R$ 45,00
Apresentador – Comunicações (da URI) ………………….R$ 40,00
Apresentador – Pôster …………………………………………….R$ 45,00
Apresentador – Pôster (da URI) ……………………………..R$ 40,00
Ouvintes ………………………………………………………………….R$ 35,00
Ouvintes (Alunos URI/ Inscrito Novos Olhares) ……..R$ 30,00

CONTATO E INFORMAÇÕES: http://www.fw.uri.br/site/eventos/?evento=76

Fone: 55 3744 9285 – 55 3744 9231 – 55 3744 9243; Fax: 55 3744 9265
E-mail: mestradoletrasurifw@gmail.com , novosolhares@fw.uri.br

Secretaria do Mestrado em Letras
Rua Assis Brasil, 709 – CEP: 98400-000
Frederico Westphalen, RS

Denise Almeida Silva – Coordenadora do Curso de Mestrado em Letras
Magali de Pellegrin Reinheimer – Secretária do Curso de Mestrado em Letras
URI – Campus de Frederico Westphalen

Fonte:
Delasnieve Daspet

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