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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Parte 2

Comédia Teatral

Carmo: Vou já, minha senhora. Olhe que já tenho alguns pastelinhos de bacalhau prontos. Quer que lhos traga?

Augusta: Depois trazes. Mas agora vai lá abrir a porta… Mas antes de abrires vê bem quem é.

Carmo: É o Sr. Coronel Ramalho. Boa noite, Sr. Coronel!

Coronel: Boa-noite, minha querida mulher. Desculpa o atraso, mas esta cabeça já não é o que era dantes. Vê lá tu que com a pressa de chegar a casa, me esqueci do molho das chaves no escritório!

Augusta: Não me digas que entre elas também lá deixaste as chaves do cofre?!

Coronel: Pois claro que também lá ficaram. Mas porque estás tão interessada nas chaves do cofre?

Augusta: Por nada, meu amor… Vê lá tu, sempre tão cuidadoso, esqueceres da chave do cofre no escritório… (baixando a voz) – Ai, Jesus… ai… A minha vida está em perigo…

Coronel: Não te compreendo, pois um esquecimento, qualquer pessoa pode ter. Olha, hoje calhou a mim…

Augusta: Eu nem quero acreditar… (baixando a voz) – arranjaste-me a bonita!… Ai… A minha vida a andar para trás…

A criada entra de rompante no salão, e…

Carmo: Minha senhora, minha senhora… Acuda-me! Ai que coisa tão esquisita que aconteceu!…

Augusta: Desembucha, e conta o que te aconteceu. Carmo, que aflição é essa?

Carmo: Os pastéis, os pastéis… Minha senhora…

Augusta: Sim, os pastéis, o que é que têm?! Não te entendo, vê lá se te explicas melhor, para que eu possa entender. O que é que aconteceu aos pastéis?

Carmo: Desapareceram, minha Senhora!

Augusta: Desapareceram?! Mas como é que isso foi possível?

Carmo: Não sei, minha senhora. Tinha-os numa travessa em cima da mesa da cozinha e, quando regressei, já não estavam lá.

Augusta: Mas essa situação é completamente impossível, pois cá em casa nunca desapareceu nada, mesmo nada. Carmo, procura bem os pastéis, sim, porque eles nem asas deviam ter, pois não? E ratos cá em casa não existem!

Carmo: Minha senhora, podia ter sido algum fantasma que tivesse passado por aqui.

Augusta: Credo mulher! “Abrenúncio pé-de-cabra à francesa”. Fantasmas cá em casa, nem pensar!

Toca a campainha da porta. O Senhor Coronel, embora admirado com o desaparecimento dos pastéis, vai abrir…

Coronel: Ah, é o Sr. Capitão Ribeiro, entre e parabéns, meu caro, pois hoje conseguiu não ser o último a chegar!

Capitão: Alguma vez tinha que ser o primeiro a chegar. Sabe, meu caro Coronel, curiosamente, o meu horóscopo indica que hoje vou ter uma noite fora do vulgar, mesmo fora do comum…

Coronel: Este Capitão Ribeiro, tem cada uma! Vejam bem o que o horóscopo lhe diz? Que ele vai ter uma noite fora do vulgar, fora do comum. Uma pessoa da sua categoria, a ler horóscopos, francamente que não lhe fica nada bem. O primeiro decénio do século XXI já passou, e como há ainda pessoas que acreditam nestas coisas!

Capitão: Meu caro Coronel, diga e pense o que quiser, mas eu acredito nessas “coisas”, como você diz, sem vergonha de o dizer. Cada qual, é como cada um.

Nesse momento a criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Minha senhora!

Augusta: O que é te aconteceu agora, Carmo?

Carmo: O bolo de laranja…o bolo de laranja… Percebe?

Augusta: Mau, mau… O que é que aconteceu ao bolo?!

Carmo: Minha senhora… Compreende? Não compreende… O bolo de laranja, que estava no fogão…

Augusta: Diz rapidamente… O que é que lhe aconteceu?…

Carmo – Desapareceu! Assim como desapareceram as lâmpadas do corredor e da cozinha. Minha senhora, não consigo compreender estas coisas estranhas, pois isto nunca tinha acontecido antes! Devem ser Fantasmas que andam por aqui… E confesso que já estou a ficar aterrada!

Augusta: Calma, mulher, calma. Tu deves estar com visões: primeiro desapareceram os pastéis de bacalhau, depois o bolo de laranja, e agora até as lâmpadas do corredor e da cozinha desapareceram?

Carmo: Isso tudo, como vê, deve ser obra de Fantasmas, ou de coisas do outro mundo… Estou toda arrepiadinha e cheia de medo, minha senhora !

Coronel: Ah, ah, medricas! Fantasmas? Coisas do outro mundo?! Ah, ah, ah … Essas ideias só podem sair da cabeça de uma criada! Ah, ah, ah … Onde é que isto já se viu?! De facto, este serão está a ter um princípio muito divertido!… Muito divertido mesmo! Ah, ah, ah!

Augusta: Querido, por favor não te rias. Não te rias pois eu já nem sei o que dizer, ou melhor, pensar… É que podem muito bem existir Fantasmas, e quem sabe, as tais coisas do outro mundo… Olha que também já estou a ficar como tu, Carmo: arrepiada e com… Bem, com algum medo.

Capitão: Meus caros, já notaram que neste salão cheira a pastéis de bacalhau e a bolo de laranja?! Ora cheirem, cheirem bem, que logo notarão…

Augusta: Confesso que não estou a cheirar nada. Deve ser impressão do Sr. Capitão… Olhe, por favor, não faça nem provoque mais confusões. Por favor, Capitão! Que confusão esta, que momento este!…

Capitão: Eu não quero provocar nenhumas confusões, longe de mim tal ideia! Mas pareceu-me ter ouvido um ruído estranho para os lados da cozinha. Como eu tenho um certo jeitinho natural para descobrir certos mistérios, peço-vos licença para ir investigar o que se está a passar por aquelas bandas… Posso? Dão-me licença?

Coronel: Meu caro Capitão, descubra tudo à sua inteira vontade. Mas tome muito cuidado com os Fantasmas, pois eles, por vezes, até são muito maus, violentos e muito cruéis… Ah, ah, ah, que vontade que eu tenho de rir!

Capitão: Saiba o meu caro Coronel que eu nunca, por nunca, tive medo de nada, e, muito menos de Fantasmas!

Coronel: Vá lá então e descubra alguma coisinha. Faça de conta que está em sua casa. Este Capitão…

Por momentos ouve-se um ruído estranho como uma pancada seca e…

Coronel: Mas, mas o que é que aconteceu ao Capitão? Capitão, responda…

O Capitão entra no salão, a cambalear, agarrado à cabeça e todo sujo…

Capitão: Ai, ai a minha rica cabecinha… Ai… Vejam só o que  aconteceu à minha cabecinha!

Augusta: Coitadinho do Sr. Capitão! Olhem que grande “galo” tem na cabeça!… Diga-nos lá o que é que lhe aconteceu… Vá lá, diga-nos…

Capitão: Ai, ai a minha riquinha cabecinha!… Ai, que me dói tanto, tanto. E também estou todo sujo… Veja: todo sujo… Ai, que me dói tanto a minha cabecinha!

Coronel: Não me diga, meu caro Capitão, que foi um Fantasma que lhe deu uma “toutiçada” (pancada) na cabeça e lhe fez esse “galo”, além de o sujar com farinha e ovo!… ah, ah, ah, que divertido eu estou!

A criada entra no salão com ar de pessoa comprometida …

Carmo: Meus senhores, peço-vos perdão a todos, em especial ao Sr. Capitão. Pois, a culpada do que aconteceu, sou eu!… É que o Sr. Capitão apareceu na cozinha e, como ia para destapar o tacho onde está a cozer uma galinha… Espero que compreendam… como a luz está muito fraca, pensei que fosse um Fantasma – e zá catrapus, dei-lhe com a colher de pau na cabeça e depois atirei-lhe com um ovo e farinha. Desculpem, mas como devem calcular, estou muito desorientada com estas coisas que estão acontecendo…

Coronel: Estão a ver o que é que o nosso Capitão arranjou com esta brincadeira de Fantasmas? “Os Fantasmas Bateram na Cabeça do Capitão” ah, ah, ah, até dava um bom título para um romance policial… ah, ah, ah !

Augusta: O Sr. Capitão não faça caso do que o meu marido diz, pois já sabe como é que ele é. Vamos já arranjar-lhe um banhinho e bem quentinho!

Capitão: Muito obrigado, Dona Augusta. Bem preciso de um banho. Este estúpido acidente… Olhem, que ainda me dói a cabeça, e tenho o fato todo sujo…

Augusta: Carmo, prepara já um banho para o Sr. Capitão. E com a água bem quentinha – ouviste?

Carmo: É para já, minha senhora. Um banho bem quentinho, e em especial para o Sr. Capitão!

A campainha da porta volta a tocar…

Augusta: Desta vez sou eu que vou abrir a porta, enquanto a Carmo prepara o banho para o Sr. Capitão… Olhem quem é que chegou, o Sr. Alferes Marques! Boa-noite, entre, entre…

Marques: Com sua licença, Dona Augusta. Boa-noite a todos. Mas, olha que engraçado, o senhor Capitão Ribeiro com o rosto e o fato cheio de farinha e ovo! Não me diga que virou pasteleiro?

Coronel: Meu caro Alferes, o nosso comum e querido amigo Capitão, quis ir caçar Fantasmas, e, imagine que lhe atiraram com farinha e um ovo! Eheheheh! E não apanhou nenhum dito cujo Fantasma! Que divertido que eu estou, ah, ah, ah!

Capitão: Deixe-se de brincadeiras, pois, quem me atirou com isto, não foi nenhum Fantasma, mas sim a Carmo, a criada! Este nosso amigo Coronel muito gosta de gozar comigo.

Augusta: Vocês por favor não me falem mais em Fantasmas… Ai que eu até me arrepio toda, todinhaaaa…

Alferes: Ó Dona Augusta, não me diga que a senhora ainda acredita em Fantasmas?! Já a minha avó contava o que lhe contou a avó dela…

Augusta: Por favor, Sr. Alferes, em Fantasmas, não acredito… Mas lá que eles existem… Existem!

Entretanto, a Dona Augusta dirige-se ao seu quarto, e…

Augusta: Olha…! Ó seus bandidos, o que é que vocês fazem aqui no meu quarto? Bandidos!

1º Encapuzado – Cala já o bico, mulher… Olha que será muito melhor para ti… Caladinha, disse eu… E juizinho nessa cabeça, e não te esqueças… Juizinho e muita calma, senão, pescoço cortado…

2º Encapuzado – Se tu não te calas, ainda te corto o pescoço – assimmmm!

Augusta: Credo, homem, por favor chegue para lá essa faca… Que nervos!…

1º Encapuzado – Pois é como o meu amigo diz. Muito juizinho, senão… Pescoço fora! Vamos lá ao que mais interessa: quando é que nos dás a massinha, ou seja, o dinheiro que combinámos ?

Augusta: Não sei, não sei. Mas por favor não me façam mal, pois eu não tenho culpa do meu marido, o Sr. Coronel Ramalho, ter-se esquecido das chaves no escritório. Assim, não poderei tirar o dinheiro do cofre, como vocês querem. Mas essas fotografias não são minhas…

2º Encapuzado – Cala-te mulher, pois senão já sabes o que te pode acontecer: pescocinho cortado! E tu até tens um pescocinho bem feitinho…

Augusta: Não sei como fazer ou que fazer! Como já vos disse… Olhem, escutem, tive uma ideia: podiam vir cá amanhã, ou mesmo noutro dia, mais ou menos a esta hora, buscarem o dinheiro que me querem extorquir? Compreendem e estão de acordo?

1º Encapuzado – Compreendemos até muito bem! És muito espertinha, mas nós não nos vamos embora sem a massinha (dinheiro)! Que espertinha me saíste!

2º Encapuzado – Com esta brincadeira toda (que não é nenhuma brincadeira, antes pelo contrário), até rasguei as minhas calças. Foi na cozinha ao fugir da maldita da criada…

Augusta: Então… Então foram vocês que comeram os pastéis de bacalhau e o bolo de laranja?!

1º Encapuzado – Pois claro que fomos! Olha lá, não podíamos matar a fome? E estavam deliciosos! Bem podia ter sido mais…

2º Encapuzado – Pois ainda ficámos com fome…

Augusta: Pois, pois… Agora é que estou a compreender: Vocês é que são os Fantasmas que a criada Carminho julga que são!

Fora do quarto, ouve-se a voz do marido:

Coronel: Augusta, ó mulher, nunca mais sais daí do quarto? Olha que o Sr. Sargento Neto, acabou mesmo agora de chegar. Vem servir-nos o Whisky, pois vamos começar o nosso habitual joguinho de cartas.

Augusta: Marido, eu vou já. Só estou a acabar de me arranjar…

1º Encapuzado – Vai lá, mas toma muita atenção, pois nós, os Fantasmas, (como tu dizes), só vamos embora depois de recebermos o dinheirinho todo. Repito: o dinheiro todoooo!

2º Encapuzado – Não te esqueças que são só dez mil e quinhentos reais!

Dona Augusta, abanando a cabeça e encolhendo os ombros, sai do quarto e entra no salão…

Augusta: Boa-noite, Sr. Sargento Neto. Vou já servir o whisky, e para o Sr. Sargento, uma dose muito especial, tome.

Sargento: Este líquido, aliás, este precioso líquido, hoje parece estar divinal! Que rico whisky. Que delícia mais deliciosa que o Sr. Coronel tem cá em casa! Whisky como este, só nos quartéis e só para oficiais superiores!

Alferes: Este Scotch é mesmo genuíno. O que não admira, pois estamos em casa do Sr. Coronel. Em nada se compara com aquele que no outro dia bebemos em sua casa… Ó Capitão Ribeiro, desculpe lá a franqueza! Mas o whisky que lá bebemos era uma má imitação!

Capitão: Sabe, meu caro Sargento, há dias em que o paladar dos amigos não se encontra tão apurado como o de hoje… Mas este whisky, é de facto muito bom, muito diferente daquela “má qualidade” que bebemos por aí em casa de certos amigos, como por exemplo na do Alferes Marques.

Alferes: Mas esse facto tem uma explicação: o whisky chamado de “Imitação de Sacavém, ou de outra terra qualquer” ainda não atingiu a perfeição desejada!…

O Sr. Capitão entra no salão, depois de sair do banheiro…

Coronel: Meus caros amigos e companheiros, o nosso querido e estimado amigo Capitão Ribeiro foi tomar banho.

Capitão: Claro que tive de ir tomar banho… depois daquele disparate que a Carmo me fez… Olhem lá, por acaso, alguém viu as minhas calças? As minhas calças novas?

Alferes: Ó Capitão, não me diga que perdeu as calças!!!

Capitão: Bem, não quero dizer que as tenha perdido… Mas, logo as calças novas, que me custaram quase uma fortuna!…

Coronel: Então, o Sr. Capitão não sabe onde deixou as calças? É esquisito… Olhe, o seu copo está aqui bem cheio de whisky, beba agora e procure depois as calças. Não é que lhe fique mal o toalhão envolto no corpo… mas compreende… Cá em minha casa… Compreende que não é nada decente…

Capitão: Dou-lhe toda a razão, pois eu também não gosto de andar, ou estar, nesta figura. Entretanto, Dona Augusta, por favor, encha-me outra vez o copo. Muito obrigado pela sua gentileza… está bem assim… assim. Que magnífico whisky este! Parece-me que já estou a ficar com os “copos”, ou seja, um pouco grosso, bêbedo… Mas eu quero as minhas calças, as minhas calças novas! Roubaram-mas… Isto deve ser uma manobra para me derrubarem psicologicamente!… Protesto, protesto, protesto… Quero as minhas calças novas… As minhas riquinhas calças novas!

Augusta: Tenha calma, Sr. Capitão, pois as calças vão aparecer. Sim, porque cá em casa, não há  (há…há…há?…) ladrões?… Fantasmas?

Coronel: Caro Capitão, antes de ir procurar as suas calças, beba mais um copo de whisky… Vá lá, não se faça esquisito. Depois de beber, vá procurar muito bem as calças, pois, como diz, e muito bem, minha mulher, cá em casa não há ladrões. Mas espere… Só se foi algum Fantasma que lhas roubou… Ah, ah, ah!… Teria sido um fantasma e, neste caso, fantasma e até ladrão?

Augusta: Ai, credo, marido… Cala-te por favor… Mas se foi… Algum Fan… Fantasma… Podemos pedir por favor que ele devolva as calças… Tive uma ideia: vamos todos gritar, assim: Ó Fantasmas!!! Ó senhores Fantasmas!!! Por favor devolvam as calças ao Senhor Capitão… – Vá lá, gritem todos comigo…

Coronel: Ó Augusta, tu também bebeste whisky? Mas o que é que te deu, para estares a gritar aí aos Fantasmas? Até parece que estás louca…

Sargento: Eu também estou de acordo em não gritarmos por Fantasmas, pois senão, daqui a pouco, ficamos inundados por eles, e lá se ia todo o whisky do nosso caro amigo Coronel. Pois devem existir Fantasmas apreciadores do bom whisky. Penso eu…

Coronel – Agora um pouco mais a sério: Carmo, vem cá depressa… Rápido, mulher… És cá uma vagarosa! Mas que mulher esta…

Carmo: Pronto, ao seu inteiro dispor, Sr. Coronel!

Coronel: Olha lá, vais aqui com o Sr. Capitão procurar as calças dele, as quais não devem andar por muito longe. Pelo menos penso que não…

Carmo: Sr. Coronel, eu não me importo de as ir procurar, mas… Mas o pior é a cozinha…

Coronel: E o que é que tem a cozinha a ver com as calças?!…

Carmo: Sabe, é que estou a cozinhar uma galinha de cabidela…

Coronel: E daí? Não me digas que estás com medo que a galinha levante voo e que fuja do tacho… Ficaste muito calada, diz qualquer coisa, ou estás com medo de qualquer coisa?

Carmo: Estou com medo dos Fantasmas, sim, Sr. Coronel, os Fantasmas podem voltar novamente e levarem com eles a galinha. Já vi que o Sr. Coronel não quer compreender, mas…

Coronel: Mau, mau. Deixa-te de brincadeiras e procura rapidamente as calças, pois o senhor Capitão não pode (nem deve) ficar em cuecas toda a noite!

Alferes: Confesso que eu próprio já estou a ficar com um certo receio dos Fantasmas! E pelos vistos, estes até são comilões! Ai, que horror: Fantasmas! Caro Capitão, não se vá embora, não procure ainda as calças, sem antes beber mais um copito de whisky, ao qual terei muito gosto, e prazer, em acompanhá-lo (a beber outro, claro…!).

Sargento: Ai que medo que eu sinto… Até sinto o corpo todo a tremer! Ah, ah, ah! Fantasmas! E se em vez de Fantasmas, fossem, fossem… Assim com estas formas… Formas femininas, compreendem?! Aí é que seria uma grande orgia! Perdão, Dona Augusta! Vejam lá que eu por causa dos Fantasmas, até me esqueci da senhora. Mais uma vez, as minhas desculpas…

Augusta: Aceito as suas desculpas, mas, Sr. Sargento, por favor não provoque mais confusões, pois já estou a ficar muito nervosa com este assunto. Ufff! Fantasmas…

Alferes: Tem toda a razão, em vez de Fantasmas, podiam ser, por exemplo, Lobisomens, Vampiros, ou mesmo Extraterrestres, enfim… sei lá que mais!

Coronel: Meus caros convidados, não podemos dar mais crédito a este assunto nem falar mais em Fantasmas! Sejamos racionais. Não existem Fantasmas! Não existem e ponto final.

Sargento: Pois é, mas nós estamos a dar crédito a essa parvoíce. Até parece um filme que vi há pouco tempo na televisão, com muitos fantasmas maus que até comiam…

Coronel: Bom. Vamos ao que mais interessa: Olha lá, Carmo, já encontraste as calças do Sr. Capitão? Eu quero este caso resolvido rapidamente, ouviste e compreendeste bem?

Carmo: Já as procurei por todo o lado que é sítio, mas não as encontrei.

Capitão: Mas eu quero as minhas calças… Eu quero as minhas calcinhas novas… As minhas ricas calcinhas… Um Capitão, nunca por nunca, pode, nem deve, andar em cuecas! É indigno para a sua categoria social e militar.

Sargento: Apoiado, apoiado! O caro Capitão tem toda a razão (mas não chore) e o seu protesto é pertinente… Embora já tenha bebido alguns copos de whisky!…

Alferes: O caro amigo Sargento, tem toda a razão, pois não deve tentar afogar o desgosto de ter perdido as calças, bebendo muito whisky. Olhe que eu conheço quem já tenha perdido as calças por muito menos!

Capitão: Mas eu quero, eu quero as minhas calcinhas novas. Por favor, compreendam-me, pois sinto-me muito infeliz sem elas… Imaginem só se os meus tropas me vissem neste estado!

A criada entra novamente de rompante no salão…

Carmo: Sr. Coronel, Sr. Coronel… Dona Augusta!

Coronel: Que tens tu? O que é que te aconteceu, Carmo?

Augusta: Não chores, pequena, e diz o que aconteceu…

Carmo: Uma desgraça – uma grande desgraça! É que a galinha de cabidela que estava ao lume…

Coronel: Não me digas que a deixaste queimar?!

Carmo: Não a deixei queimar, não. Mas ela desapareceu!

Augusta: Ai aqueles bandidos!…

Coronel: Bandidos?! Augusta, o que é que tu disseste? Aqueles quê? Confesso que não te ouvi muito bem, por favor repete…

Augusta: O que eu disse? Olha, pois disse, ou devia de ter dito: Fantasmas. Ou seja lá o que for… Mas não sei se foram ou não os Fantasmas que levaram a galinha de cabidela… Olha, não sei se disse alguma coisa, ou pensei alto.

Alferes: Amigos, reparem: agora até começou a cair água do tecto… Vejam, vejam! Até parece que está a chover e a água cheira a líquido orgânico.

Sargento: Olha, pois está. E escutem, não ouvem o barulho de um autoclismo a descarregar?

Coronel: De facto, estou a ouvir. Estou cansado de dizer à Carmo que não utilize o banheiro do sótão. Mas ela é teimosa, e o canalizador ainda não apareceu para afinar o autoclismo.

Carmo: Perdão, senhor Coronel, eu não utilizo o banheiro lá de cima, há mais de um mês. Para mais, com o medo que tenho dos Fantasmas, ainda hoje não fui lá  acima ao meu quarto. Que medo!

Coronel: Então, então… Queres dizer que não foste tu que utilizaste o banheiro?

Carmo: Juro por tudo que não fui eu que utilizei aquele banheiro.

Alferes: Bem, meus senhores, vamos analisar os factos referentes a este assunto: primeiro, os Fantasmas comeram os pastéis de bacalhau, depois o bolo de laranja, e por fim a galinha de cabidela. Com uma certa lógica, depois de comerem isto tudo, com certeza que precisaram de ir à casa de banho (banheiro)…!

Augusta: Mas que lógica… tão lógica! Fantasmas a utilizarem um banheiro – onde é que isto já se viu?

Capitão: Com essa conversa toda, não se esqueçam que eu quero as minhas riquinhas calcinhas… As minhas calças novas. Pela minha dignidade de Capitão, eu nunca devia de sofrer o vexame de andar p’ra aqui em cuecas, e logo em casa do Sr. Coronel.

Sargento: O Sr. Capitão tem toda a razão e todo o meu apoio. Mas por favor deixe de chorar, pois, põe-me muito nervoso. Mas… um Capitão em cuecas, ou em slips, é demais!

Alferes: Pois é, mas por causa das calças que eventualmente perdeu, teve o pretexto de já ter bebido quase uma garrafa inteira. Neste contexto, eu também não me importaria de andar em cuecas!

Sargento: Olhe que ainda está a tempo, meu amigo, pois o nosso querido e Sr. Coronel, ainda tem, pelo menos, mais uma garrafa cheia.

Sargento: Olhem que está novamente a cair água lá de cima. E muito mal cheirosa. De certeza que não comeram sabonetes nem beberam perfume!

Sargento: E prestem atenção. Oiçam com atenção… Um ruído tão característico, pois os Fantasmas devem estar a desbeber, ou seja, devem estar a fazer chichi!

Capitão: Mas eu quero as minhas riquinhas calças novas… Como ninguém se incomoda com o assunto, eu vou lá acima e mato todos, todos os Fantasmas… todos… todos, um a um.

Alferes: Amigos, admirem a valentia do nosso Capitão. Que homem tão valente, um verdadeiro representante da valente raça lusitana!

Sargento: É assim mesmo, caro Capitão. Vá mostrar aos Fantasmas o que é ser um homem de barba rija!… E mais: um verdadeiro herói dos nossos dias!

Capitão: Só preciso de uma arma, para assim poder avançar. Vou matá-los todos, todos os Fantasmas que aparecerem à minha frente… À minha frente…

Alferes: Estou mesmo a ver que vai ser uma enorme mortandade! Ai, pobres Fantasmas, agora é que vão ser elas, com o Capitão no encalço deles!

Coronel: Tem toda a razão para proceder assim, meu caro Capitão. Aqui tem uma boa arma: um martelo de orelhas! E assim tão bem armado, não se esqueça de matar todos (mas todos) os Fantasmas que encontrar no seu caminho. Força, Capitão Ribeiro!

Sargento: Mas tenha muito cuidado, não os maltrate muito, pois eu tenho horror em ver sangue. Contente-se só em fazer-lhes umas nódoas negras!

Coronel: Mas que situação tão caricata: um Capitão em cuecas, com um martelo de orelhas na mão, à procura de uns Fantasmas… E tudo isto em pleno século XXI…

Alferes: Deixai ir o homem, que está muito bem temperado em whisky…
Coronel: Oxalá é que não caia pela escada abaixo… E, claro, que apanhe muitos Fantasmas!

CONTINUA

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Carlos Leite Ribeiro (Casa de Fantasmas) Comédia Teatral – Parte 1

Como era habitual às quintas-feiras, em casa do Sr. Coronel Ramalho (grande herói das campanhas do tempo em que os ventos lutavam contra os moinhos),reunia-se um grupo de amigos para um animado e silencioso serão a jogar às cartas.

O salão onde esses serões se realizavam era amplo, tendo ao centro uma mesa rectangular, e em sua volta, seis cadeiras também do estilo Luís XV, assim como o aparador e a cristaleira que a ladeavam. No tecto, um lustre de metal e vidro, do mesmo modelo dos quatro apliques situados em paredes diferentes, assim como várias molduras com fotografias de familiares, destacando-se entre elas, uma enorme fotografia do austero pai do Sr. Coronel Ramalho, conhecido na época como comerciante de vinhos a granel, com os seus grandes e torcidos bigodes, situada em frente onde habitualmente a Dona Augusta, a esposa do Sr. Coronel Ramalho, fazia a sua renda (ou malha), junto a uma das duas janelas do salão. Ao fundo colocado ao meio da parede, situava-se um enorme e barulhento relógio que marcava até os quartos de hora, ficando por baixo uma vitrina onde o Sr. Coronel conservava orgulhosamente as suas condecorações e algumas armas antigas, algumas das quais das guerra napoleónicas.

Este salão tinha três portas: uma com acesso às escadas que, descendo, davam para a rua; subindo, davam para o sótão onde a criada tinha o seu quarto, junto à sua casa de banho e despensa da casa; outra porta dava para um corredor que ligava à cozinha; e uma terceira para o quarto do casal.

Os convidados para o serão desse dia (que por sinal eram sempre os mesmos), ou seja, o Sr. Capitão Ribeiro, o Sr. Alferes Marques e o Sr. Sargento Humberto, ainda não tinham chegado.

Mais tarde apareceram dois encapuzados, completamente desconhecidos, nem se chegando a saber de onde vieram…

Entretanto, a criada, a Carmo (uma jovem lisboeta que dizia ter vinte cinco anos) aproximou- se da patroa, de nome Augusta…

Carmo: Minha senhora, por favor… Dona Augusta, dá-me licença?

Augusta: Levantando os olhos de um bordado que estava a fazer, por fim, respondeu para a criada: Entra, entra Carmo. Diz lá o que queres?

Carmo: Minha Senhora, tenho de ir ao supermercado fazer umas compras, pois, são quase vinte horas e depois eles fecham. A senhora quer que pague a dinheiro?

Augusta: Ai não!… pois… não tenho dinheiro trocado… Eles que assentem na minha conta, que depois pago. Mas, Carmo, não te demores, e não te esqueças que hoje é quinta-feira, e os convidados não tardam aí a chegar…

Carmo: Eu não vou demorar mesmo nada, Dona Augusta, fique tranquila.

Augusta: Então vai lá, pequena…

Pouco depois da criada ter saído, toca a campainha da porta…

Augusta: Quem será que está a tocar à porta? A Carmo não deve ser. Só se esqueceu alguma coisa…

A campainha volta a tocar, desta vez mais prolongadamente…

Augusta: – Não toque mais, pois eu vou já abrir…

Ao abrir a porta, a Dona Augusta teve uma grande surpresa, pois à sua frente estavam três homens encapuçados.

Augusta: Mas…mas quem são os senhores, o que me querem? Por favor não me empurrem, estou em minha casa. Não me empurrem…!

1º Encapuzado – Mulher, está caladinha, senão… olha esta faca. Deixa-nos passar e senta-te aí nessa cadeira, sossegadinha…

2º Encapuzado – Raio da mulher não está quieta. Rápido, amigo, amarra depressa esta “fera” aí a essa cadeira…

Augusta: Ah, mas quem são os senhores?!…

2º Encapuzado – Está quieta e cala-te! Tem muita calma, pois só queremos falar um pouco contigo. Está sossegada, mulher… Tem juizinho nessa cabeça, senão…

1º Encapuzado – Já te dissemos para estares quieta e deixares de chorar! Nós só queremos falar contigo… Olha que é um assunto que te interessa muito…

Augusta: Eu vou estar quietinha, mas por favor não me empurrem, nem me agarrem… Por favor…

2º Encapuzado – E ela não se cala nem está sossegada, hei… Ó mulher, ainda te mato. Ouviste bem? Ainda te mato!

Augusta: – Mas quem são vocês? Por favor, digam-me… O que é vocês querem de mim?!…

1º Encapuzado – Assim está bem. Continua calminha, pois, só queremos mostrar-te umas fotografiazinhas que temos aqui…

2º Encapuzado – E são fotografias de uma pessoa que tu deves conhecer muito bem… Vá lá, não vires a cara para o lado… Não te armes em pudica! Olha! Olha!…

1º Encapuzado – Abre, abre, não feches os olhinhos… Vê, vê… Por acaso, não conheces esta mulher que está toda nua… Deitada na cama com este homem?!… Não me digas que a não conheces? Vá lá, faz um esforçozinho de memória!…

Augusta: Mas… Mas eu não conheço essa mulher… juro por tudo que não a conheço ! Juro que a não conheço, mas larguem-me, larguem-me…

2º Encapuzado – Não nos tentes enganar, pois esta mulher é mesmo tu – tu, ouviste bem? Ou será que não te conheces a ti própria?!…

1º Encapuzado – Não te faças de tolinha, pois connosco, isso não pega – espertinha!

2º Encapuzado – Ó mulher, deixa-te de tretas, pois é melhor entrares em acordo connosco. Pensa bem e rapidamente, e não queiras fazer nenhuma asneira…

Augusta: Mas eu já vos disse que esta mulher que está nesta fotografia toda nua, não sou eu!… Volto a jurar por tudo, que não sou eu que, está aí toda nua!

2º Encapuzado – Ah, ah… És tu, és, não me consegues enganar, e por favor não me faças perder a paciência. Senão, daqui a pouco corto-te o pescoço… Assim…!!!

1º Encapuzado – Tem calma, amigo, pois deves ter uma certa paciência com esta mulher… E tu aí, mulher, para não ficares com o teu pescocinho cortado, é melhor resolveres entrares em acordo connosco. Senão, como deves calcular, o teu maridinho, o Sr. Coronel, vai saber tudo, tim-tim por tim-tim!!!…

2º Encapuzado – Como já deves calcular, a nós, não nos custa nada… Mas mesmo nada, fazer isso! Amigo, talvez seja melhor mostrar-lhe novamente as fotografias…

Augusta: Eu não sei como é que vos hei-de fazer crer que esta mulher que está aqui, nesta fotografia, não sou eu!!! Juro que não sou eu! Só se for… Só se for… A minha irmã – gémea, que se chama Liza. Já há muitos anos que a não vejo. Só se for ela.

2º Encapuzado – Já te disse que não venhas com essa mentira! És tu, tu, e só tu – e está tudo dito !!! Percebeste?

Augusta: Ai que vida a minha! Já vi que não adianta discutir com vocês… Mas, finalmente, o que é que vocês querem de mim? Mais uma vez vos digo que não sou eu…

1º Encapuzado – Já te disse para estares quieta e cala-te… Como já vimos que és boa mulher, vamos fazer umas continhas, e assim, por estas fotografias… sim, por estas fotografias só te vamos levar…

2º Encapuzado – Digamos… Dez mil e quinhentos euros!

1º Encapuzado – Como vês, é uma verdadeira pechincha: só dez mil e quinhentos euros. Até devia ser mais qualquer coisinha…

Augusta: Mas o que é que vocês estão p’ra aí a dizer? Dez mil e quinhentos euros, é pouco dinheiro? Olhem que eu nunca tive tanto dinheiro junto e em meu poder! Vocês são uns escroques, uns chantagistas…

2º Encapuzado – Toma mas é cuidadinho com essa língua, pois senão já sabes que te corto o teu lindo pescoço.

Augusta: Ai credo, homem!… Que aflição… Tire-me essa faca daqui do meu pescoço!… Ai o meu coração…

1º Encapuzado – Não te enerves, mulher, olha o teu coração… Nós não desejamos que você morra, antes de nos dar o dinheiro…

Augusta: Ai, o meu pobre coração até parece que vai rebentar!… Ai…

1º Encapuzado – Deixa lá o coração e vamos lá ao que mais interessa: tens ou não os dez mil e quinhentos euros? Se não tens, vai ao cofre do teu marido, o Sr. Coronel, pois ele deve ter lá muito dinheiro…

Augusta: Mas não é possível, pois eu nunca roubei nada a ninguém, e muito menos ao meu marido. Vocês estão doidos…

2º Encapuzado – Não me venhas cá com esses argumentos, pois para nós não pega. Vai depressa ao cofre e traz rapidamente o dinheiro. Vá lá, rápido!…

1º Encapuzado – E para tua orientação, enquanto não nos entregares o dinheiro, ficaremos cá em casa a fazer distúrbios. E tu nem calculas os distúrbios que somos capazes de fazer…

Augusta: O que vocês estão p’ra aí a dizer? Que ficam cá em casa? Mas onde?…

1º Encapuzado – Onde não interessa. Mas podes ter a certeza que ficaremos cá até recebermos a massinha toda. Não faças essa cara de espantada e nem tentes brincar connosco…

2º Encapuzado – E toma bem atenção: se por acaso tentares denunciar-nos, já sabes o que te vai acontecer: pescoço fora!

Neste momento toca novamente a campainha da porta …

1º Encapuzado – Amigo, espreita aí pelo óculo da porta… O que é que vês?

2º Encapuzado – É a criada. Olha que a «mamífera» tem cá um “cabedal” de género avião… Ai que bom… bonzinho… Ai… Que gatinha! Estou a ficar cheio de comichões…

1º Encapuzado – Deixa-te de parvoíces. Vamos esconder-nos atrás daquele sofá… Rápido e sem barulho. Cuidado não tropeces nesse fio… Esconde-te… Rapidamente…

2º Encapuzado – E tu aí “menina”… Olha para aqui para mim… Assim… Se não colaborares connosco, já sabes o que te acontece aos teu lindo pescoço… Olha que não somos para brincadeiras…

1º Encapuzado – E toma atenção: diz à criada que faça qualquer coisa que se coma, pois estamos esfomeados! Ela que faça um bom petisco para nós… Não te esqueças!

2º Encapuzado – Agora “menina”, vai lá abrir a porta, mas com juizinho…
Augusta: É inacreditável o que me está a acontecer… Eu nem quero acreditar!… Deve ser um sonho mau…

Falando um pouco mais alto, prepara-se para abrir a porta…

Augusta: Quem é?… Quem é que está aí a bater à portaaa?…

Carmo: Sou eu, minha senhora, a Carmo.

Augusta: Até que enfim que chegaste! Sempre que vais fazer compras, até parece que levas uma cadeirinha atras de ti… Deves dar um grande desgaste à tua língua ao falares tanto com as vizinhas…

Carmo: Mas, a senhora deve de estar enganada, pois desta vez quase que não me demorei nada. Fui num pé e vim noutro.

Augusta: Olha que não me parece. A mim, pareceu que demoraste quase uma eternidade. Olha, vai para a cozinha e prepara… Deixa cá ver…talvez uns pastelitos de bacalhau e, bem fritinhos…

Carmo: Pastéis de bacalhau a esta hora?…

Augusta: Não compreendo a tua observação, pois, a qualquer hora, podemos ter vontade de comer pastéis de bacalhau!

Carmo: A senhora é que manda. Vou já preparar meia dúzia de pastéis…

Augusta: Só meia dúzia?! São poucos! Nem calculas a fome que eu tenho. Prepara pelo menos uma dúzia e meia ou mesmo duas dúzias, de pastelinhos e bem fritinhos, não te esqueças.

Carmo: Não sabia que a senhora tinha deixado de fazer dieta para o tal regime de emagrecimento, que tanto falava! Isto de ser criada, tem muito que se lhe diga!

Quando a criada já se encontrava na cozinha, toca novamente a campainha da porta.

Augusta: Carmo, vai abrir a porta; ainda não ouviste a campainha?
====================
continua…

Fonte:
O Autor

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Arquivado em Magia das Palavras, Portugal, Teatro

Artur Azevedo (A Pele do Lobo)

Comédia em um ato
Escrita em 1875 e representada pela primeira vez no Rio de Janeiro, no Teatro Fênix Dramática, em 10 de abril de 1877

A ANTONIO FONTOURA XAVIER

PERSONAGENS
CARDOSO – subdelegado
AMÁLIA – sua mulher
APOLINÁRIO
PERDIGÃO
JERÔNIMO
MANUEL MARIA
VITORINO
O COMPADRE
UMA PARTE

Dois soldados da polícia

A cena passa-se no Rio de Janeiro

Atualidade.

Ato Único
Sala, secretária, relógio de mesa, etc., etc.

Cena I

CARDOSO, AMÁLIA (Vestidos para a cerimônia e prontos para sair.) UMA PARTE (Que logo sai, à porta do fundo.)

CARDOSO – Sim, senhor; sim,. senhor! Pode ir com Deus. Descanse, que hoje mesmo serão dadas as providências que o caso exige.

PARTE – Às ordens de Vossa Senhoria. (Retira-se.)

CARDOSO – Safa!

AMÁLIA (Erguendo-se.) – Deixar-te-ão desta vez?

CARDOSO- E metam-se!

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Para que aceitaste esta maldita subdelegacia?

CARDOSO (Ainda passeando.) – Eu não aceitei: pedi. Mas já tenho dito um milhão de vezes que os serviços prestados ao país e ao partido pesam muito no ânimo daqueles que me podem fazer galgar mais um degrau na escala social.

AMÁLIA – Deixa-te disso, Cardoso; um degrau dessa tão falada escala social, não vale decerto o sacrifício que te custa essa autoridade de ca-ca-ra-cá. São uns desfrutadores, eis o que são! Hás de ser pago com um pontapé. Verás!

CARDOSO – Hei de ser promovido na primeira vaga que aparecer. O Cantidiano está por pouco a bater a bota. Verás se o lugar é ou não é meu!

AMÁLIA – Fia-te na Virgem e não corras.

CARDOSO – E uma vez que aceitei o cargo…

AMÁLIA – A carga, deves dizer.

CARDOSO – Venha com ele o sacrifício. Antes de tudo o dever!

AMÁLIA – Estamos prontos para sair há duas horas.

CARDOSO (Consultando o relógio de mesa.) – Há duas horas e dois minutos.

AMÁLIA (Embonecando-se ao espelho.) – Creio que não chegamos a tempo para o batizado.

CARDOSO – Que remédio terão eles, senão esperar pelos padrinhos?

AMÁLIA – E o carro na porta há tanto tempo?

CARDOSO – Anda com isso, anda com isso! E metam-se!

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Vamos. Não percamos mais tempo.

CARDOSO – Vamos . (Vão saindo. Batem palmas.)

AMBOS – Bateram.

CARDOSO – Quem é?

APOLINÁRIO (Fora.) – Sou eu.

AMÁLIA – Eu quem?

APOLINÁRIO (No mesmo.) – Um criado de Vossa Senhoria.

CARDOSO – Entre quem é.

AMÁLIA – Temo-la travada! (Entra Apolinário. Pisa macio e fala descansado.)

Cena II
Os mesmos e Apolinário

APOLINÁRIO (À porta do fundo.) – Dá licença, senhor subdelegado?

CARDOSO – Entre, senhor. (Vai outra vez por o chapéu na secretária.)

APOLINÁRIO (Entrando e sentando-se em uma cadeira que deve estar no meio da cena.) – Não se incomode Vossa Senhoria. Estou muito bem. Vossa Senhoria como tem passado?

CARDOSO – Bem, obrigado. O que pretende o senhor?

APOLINÁRIO – Sua senhora tem passado bem, senhor subdelegado?

AMÁLIA – Bem, obrigada. O senhor o que pretende?

APOLINÁRIO – Ah! estava aí, minha senhora? Os meninos estão bons?

AMÁLIA – Que meninos, senhor?

APOLINÁRIO – Os seus filhos, minha senhora.

AMÁLIA – Não os tenho. E esta!
 

APOLINÁRIO – Pois levante as mãos pra o céu e dê graças a Nosso Senhor Jesus Cristo!(Sinais de impaciência em Cardoso e Amália.) Eu tenho três, três! Todos três machos, felizmente. Mas que consumição! Que canseira! Quando não está um doente, está outro; quando não está outro, está outro; quando não está nenhum, está a mãe; quando não está a mãe, está o pai. Às vezes estão, filhos e pais, todos doentes. É preciso chamar a vizinha para dar-nos qualquer coisa. É uma lida, minha rica senhora! Peça a Deus que lhe não dê filhos. Olhe…(Mostra a cabeça.) Não vê?

AMÁLIA – O quê? o quê?

APOLINÁRIO – Já estou pintando… Ainda anteontem… Anteontem não… Quando foi, Apolinário? Segunda… terça… Foi anteontem mesmo… Eu tinha acabado de tomar o meu banhinho e de ouvir minha missinha…

CARDOSO (Interrompe-o.) – Meu caro senhor, tomo a liberdade de preveni-lo que temos muita pressa e não, podemos perder tempo. Íamos saindo justamente quando o senhor entrou…

APOLINÁRIO (Erguendo-se.) – Nesse caso, senhor doutor…

CARDOSO – Perdão, não sou doutor.

APOLINÁRIO – Fica para outro dia… Eu vinha dar minha queixa, mas… (Cumprimenta.) Senhor doutor… minha senhora… (Vai saindo.)

CARDOSO – Venha cá, senhor: já agora diga o que pretende.

APOLINÁRIO (Voltando-se e preparando-se como para um discurso, com força.) – Senhor subdelegado…

CARDOSO – Não é preciso gritar tanto…

APOLINÁRIO – Esta noite fui roubado.

CARDOSO – Diga.

APOLINÁRIO – Dezoito cabeças de criação… dezoito ou dezenove… Ontem esteve em nossa casa um cunhado meu, irmão de minha mulher, empregado no Arsenal de Guerra, e não tenho certeza de que ele levasse alguma galinha consigo, mas creio que não. Em todo caso, foram dezoito ou dezenove cabeças, não falando em um bonito galo de crista, que comprei no mercado, não há quinze dias.

CARDOSO – Muito bem. O senhor chama-se…

APOLINÁRIO – Apolinário, um criado de Vossa Senhoria.

CARDOSO – Apolinário de quê?

APOLINÁRIO – Apolinário da Rocha Reis Paraguaçu (Dando um cartão) Olhe, aqui tem Vossa Senhoria meu nome e morada.

CARDOSO – Bem; pode ir descansado, que serão dadas as providências que o caso exige.

APOLINÁRIO (Preparando-se outra vez para um discurso e elevando muito a voz.) – Ainda não fica nisso, senhor doutor!

CARDOSO – Já tive ocasião de dizer-lhe, primeiro, que não é preciso gritar tanto; segundo, que não sou doutor.

APOLINÁRIO (Com a mesma inflexão, porém baixinho.) – Não fica nisso. Eu conheço o gatuno!

CARDOSO – E por que estava calado?

AMÁLIA (Não se podendo conter.) – Com efeito, Senhor Paraguaçu!

APOLINÁRIO (Atarantado.) – Hein! (Falando com cada vez mais descanso.) Não conheço eu outra coisa! Chama-se Jerônimo de tal, um ilhéu, um vagabundo, que foi há tempo cocheiro de bondes e agora não sai da venda de seu Manuel Maria, ao qual dizem que vende por um precinho de amigo, o que …     (Ação de furtar.) Vossa Senhoria sabe qual é a venda de seu Manuel Maria? É a que fica mesmo em frente à casa do meu cunhado, do mesmo que esteve ontem em nossa casa, e sobre o qual estou em dúvida se levou ou não alguma galinha. (A Amália.) Mas que bonito galinho, senhora! Vossa Senhoria dava oito mil réis por ele com os olhos fechados… Era branco, branquinho, como aqueles patinhos do Passeio Público. Uma crista escarlate! Que bonito galo!

CARDOSO – Vamos! Não temos tempo a perder! Faça o favor de sentar-se naquela mesa e dar a queixa por escrito.

APOLINÁRIO – De muito bom gosto, senhor doutor. (Obedece.)

CARDOSO – E o senhor a dar-lhe! Já lhe disse que não sou doutor.

APOLINÁRIO – Isso é modéstia de Vossa Senhoria.

AMÁLIA – Parece de propósito, Senhor Paraguaçu.

CARDOSO – Deixa-o para lá. (Vai para junto de Amália.) Que maçador! E metam-se!

AMÁLIA – Não chegaremos a tempo.

APOLINÁRIO (À mesa.) – Esta pena está escarrapachada, senhor subdelegado…

CARDOSO – Vou dar-lhe outra… vou dar-lhe outra…

AMÁLIA – Anda… Tem paciência… Acaba com isso. (Cardoso vai abrir a secretaria e mudar a pena da caneta.)

APOLINÁRIO – Muito obrigado! Que incômodo tem tomado Vossa Senhoria! Mas também não há quem diga à boca cheia: “Aquilo é que é um subdelegado! Zelo até ali… É o pai das partes!”

CARDOSO – Faça o favor de escrever o que tem de escrever…

APOLINÁRIO – Às ordens de Vossa Senhoria . (Escreve.)

CARDOSO (Voltando para junto de Amália.) – Decididamente peço a demissão!

AMÁLIA – Isso já devias ter feito há muito tempo.

CARDOSO – Olha que é bem difícil suportar uma maçada assim… E metam-se!

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Pede demissão, Cardoso, pede demissão.

APOLINÁRIO (Da mesa.) – Senhor subdelegado, faça o favor de me dizer o modo por que devo principiar este requerimento… Em matéria de polícia sou completamente leigo… Diga-me só o cabeçalho… O cabeçalho! o resto vai…

CARDOSO – Aí, Senhor Paraguaçu! O senhor é maçante! Tenho estado a aturá-lo há meia hora!

AMÁLIA (Olhando o relógio.) – Há meia hora e sete minutos.

CARDOSO – Estamos muito apressados, meu caro senhor… não posso estar com isso…

APOLINÁRIO – Eu quis retirar-me quando Vossa Senhoria disse que …

CARDOSO – Vamos lá! Escreva no alto — Ilustríssimo Senhor .

APOLINÁRIO – O Ilustríssimo Senhor — já cá está.

CARDOSO – Bem (Ditando.) —“O abaixo assinado, morador nesta freguesia, à rua de tal , número tal…”

APOLINÁRIO (Escrevendo.) – …     número treze…

CARDOSO – “Queixa-se a Vossa Senhoria de que, ontem, às tantas horas da noite…”

APOLINÁRIO – “Queixa-se” é com x ou ch?

AMÁLIA – Ó céus! (Rindo-se.)

CARDOSO – Como quiser! Não faço questão de ortografia.

APOLINÁRIO – Vai com ch. (Acabando.) …     “da noite”…

CARDOSO – Como está?! (Vendo.) Fulano de tal, tal, tal. Ah! (Ditando.) “Furtaram-lhe tantas galinhas…”

APOLINÁRIO (Escrevendo.) – …”e um galo de crista”…

CARDOSO – “… as suspeitas de cujo furto faz recair em Fulano de Tal.” (Consultando o relógio.) E metam-se!

APOLINÁRIO (Escrevendo.) – “Fulano de tal, vulgo Barriga-cheia”. Pronto!

CARDOSO – Na outra linha: “Deus guarda a Vossa senhoria.”

APOLINÁRIO – …     “a Vossa Senhora”…

CARDOSO – Na outra linha: “Ilustríssimo Senhor Subdelegado de tal freguesia.”

APOLINÁRIO – Pronto.

CARDOSO – Assine.

APOLINÁRIO – …     “Apolinário da Rocha Reis Paraguaçu.” (Erguendo-se.) Pronto.

CARDOSO – Bem; agora pode ir descansado, que serão dadas as providências que o caso exige.

APOLINÁRIO – Com licença, senhor subdelegado… Às ordens de Vossa Senhoria…

CARDOSO – Passe bem.

APOLINÁRIO – Minha senhora…

AMÁLIA – Viva. (Volta-lhe as costas.)

APOLINÁRIO – Sem mais incômodo. (Saída falsa.)

CARDOSO – Safa!

AMÁLIA – Saiamos, saiamos quanto antes! pode vir outro… (Vão saindo.)

APOLINÁRIO (Voltando.) – Ia-me esquecendo, senhor subdelegado…

CARDOSO – Outra vez!

AMÁLIA – Assustou-me até!

CARDOSO – O que mais deseja?

APOLINÁRIO – Hoje, logo depois do almoço, encontrei-me cara a cara com o tal Jerônimo!

CARDOSO – Que Jerônimo, senhor?

APOLINÁRIO – O Barriga-cheia, o tal que me furtou as galinhas…

CARDOSO – E o que tenho eu com isso, não me dirá?

APOLINÁRIO – Direi, sim, senhor. Com licença. (Desce à cena e senta-se.) Chamei-o de ladrão! Disse-lhe assim: “Você é um ladrão!” — Com licença da senhora…

AMÁLIA – E o que tem meu marido com isso?

APOLINÁRIO – É que o sujeito tomou três testemunhas, e diz que me vai processar por crime de injúrias verbais.

CARDOSO – Mas, enfim, faz favor de me dizer para que voltou cá?

APOLINÁRIO – Vim prevenir a Vossa Senhoria de que…

CARDOSO – Vá prevenir ao diabo que o carregue!

APOLINÁRIO (levantando-se.) – Senhor doutor.

CARDOSO (Gritando.) – Já lhe disse que não sou doutor!

APOLINÁRIO (Imitando-o) – Isso é modéstia de Vossa senhoria!

CARDOSO – Saia! Ponha-se ao fresco! Supõe o senhor que sirvo de joguete?

APOLINÁRIO – Mas Vossa Senhoria…

CARDOSO – Saia!

APOLINÁRIO – É que …

AMÁLIA – Oh! senhor, já é a terceira vez que se lhe diz — saia.

APOLINÁRIO – Minha senhora, eu…(Tornando a sentar-se, com todo o sossego.) Com licença…

AMÁLIA – Oh! isto é demais!

CARDOSO – Então, não ouve!

APOLINÁRIO – Quero justificar-me!

CARDOSO (Ameaçador.) – Cuidado, Senhor Paraguaçu!

APOLINÁRIO – Bem, Vossa Senhoria está em sua casa: manda. (Levantando-se e cumprimentando.) Ás ordens de Vossa Senhoria.

CARDOSO – Viva! Há mais tempo! (Passeia agitado.)

APOLINÁRIO – Minha senhora…

AMÁLIA – Passe bem. (Saída falsa de Apolinário.) Que inferno! que inferno! E metam-se!

APOLINÁRIO (Voltando.) – Acredite senhor doutor, que eu não queria de forma alguma…

CARDOSO (Desesperado.) – Ah! ele é isso? (Agarra uma cadeira e levanta-a, correndo para Apolinário.)

AMÁLIA (Muito aflita.) – Ah! (Suspende o braço de Cardoso. Ficam todos numa posição dramática.)

APOLINÁRIO (Com todo o sangue frio.) — Tableau. (Desaparece.)

Cena III

Cardoso e Amália

CARDOSO – Vês, Sinhá, vês como um homem se deita a perder?

AMÁLIA – Sim, sim, mas vamos, anda daí!

CARDOSO (Caindo na cadeira que tinha nas mãos.) – E que dor de cabeça fez-me este bruto!… E metam-se.

AMÁLIA – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país!

AMÁLIA – Espera… vou buscar a garrafinha de água-flórida. (Sai e volta com a garrafinha.)

CARDOSO – Depressa… depressa, Sinhá! (Amália esfrega-lhe as frontes com água-flórida.) Bem…basta… está pronto… Aí! que ferroadas! deita a garrafinha em cima a mesa e vamos, vamos! (Amália deita a garrafinha sobre a mesa e vai dar o braço a seu marido.)

AMÁLIA – Vamos! (Saem e voltam.) Esqueci-me do leque. (Entra à direita baixa.)

CARDOSO (Falando para dentro.) Que demora, Sinhá, que demora! Ainda há de vir alguém, verás! (Passeia.) Então não achas esse leque! Aí! minha cabeça! E metam-se! (Quebra-se alguma coisa dentro.) O que foi isso?! O que foi isso?! (Corre também para a direita baixa.)

AMÁLIA (Dentro.) – O meu frasco de água da Colônia!

CARDOSO (Dentro.) – Que pena!

AMÁLIA (Dentro.) – Ah! cá está o leque! (Voltam à cena, de braço dado e dirigem-se para a porta.)

CARDOSO – Já estou suando. (Procura nos bolsos.) Não tenho lenço.

AMÁLIA – Oh que maçada! Quanto mais pressa, mais vagar. (Sai correndo pela direita baixa.)

CARDOSO – E metam-se, hein! E metam-se a servir o país!

AMÁLIA (Voltando com um par de meias na mão.) – Toma, toma… Apre! (Dá-lho.)

CARDOSO – Isto é um par de meias, Sinhá! Estás a meter os pés pelas mãos! (Restitui-lho.)

AMÁLIA – Como está esta cabeça, meu Deus! (Sai e volta com um lenço.) Toma… Vamos… uf!

CARDOSO – Vamos! (Encaminham-se para a porta. Batem palmas.)

AMBOS – Ah!

CARDOSO (Fora de si.) – Não estou em casa!

JERÔNIMO (Aparecendo, de chapéu na cabeça.) – Licença para um…

Cena IV

Os mesmos e Jerônimo

CARDOSO – Então é assim que se entra em casa alheia?

JERÔNIMO (Sombrio.) – Assim como? A casa da autoridade é uma repartição pública. (Deita no chão a cinza de um cachimbo; e escarra na parede.)

CARDOSO – E que tal?

AMÁLIA – Vê o que ele quer, Cardoso?

JERÔNIMO – Venho preveni-lo de que é falso o que lhe veio hoje dizer um tal Paraguaçu, acerca de um furto de galinhas. É provável que ele lhe dissesse que eu, Jerônimo Linhares, vulgo Barriga-cheia, sou o autor desse furto, como andou por aí dizendo a quem quis ouvi-lo. É falso! (Cospe outra vez na parede.)

AMÁLIA (Empurrando um escarrador com o pé.) – Faz favor de não cuspir no chão… Aqui tem o escarrador… (Jerônimo nem olha para Amália.)

CARDOSO – Era só isso? Estou ciente.

JERÔNIMO – Não, senhor; por isto só não vinha eu cá, ora viva! Venho queixar-me do queixoso por crime de injúrias verbais. Chamou-me de ladrão, e se quiser o mais, mande aquela mulher para dentro. (Cospe outra vez na parede.)

CARDOSO – Pois apresente a queixa e as testemunhas.

JERÔNIMO – A queixa aqui está. (Apresenta um papel sujo, que Cardoso pega com repugnância. Vai à porta do fundo.) Ò compadre! Ó seu Manuel Maria! Ó seu Vitorino? podem entrar… Nada de cerimônias!

CARDOSO (A Amália.) – O tratante dispõe desta casa como se fosse sua!

Cena V

Os mesmos, Manuel Maria, depois O Compadre, depois Vitorino

MANUEL MARIA (Entrando.) – Aqui estou eu!

COMPADRE (Entrando.) – E eu…

VITORINO (Entrando.) – E eu…

AMÁLIA – Cardoso, dize-lhes que venham em outro dia… (À parte.) Como cheiram a cachaça!

CARDOSO – Meus senhores, tenham a bondade de voltar amanhã.

JERÔNIMO – Aí vem o maldito sistema da demora e do papelório.

CARDOSO – Cala-te daí, insolente, que não tens autoridade para fazer considerações neste lugar… Apareçam terça-feira ou mesmo amanhã! Mas terça-feira é melhor, porque é o dia da audiência. Não posso estar agora com isto… Estamos prontos para sair há muito tempo!

AMÁLIA – Há três horas!

CARDOSO (Consultando o relógio.) – Há três horas e três minutos!

JERÔNIMO (Cuspindo na parede.) – Então, podiam ter dito logo! Escusava a gente de estar aqui à espera! É isto sempre! A autoridade vai para a pândega, e o povo que sofra!

CARDOSO – Insolente! Espera que te ensino! (Agarra numa cadeira que está perto do toucador.)

AMÁLIA – Cardoso! O que vais fazer?!..

JERÔNIMO – Ah! Ele é isso? (Tira uma faca e deita a correr atrás de Cardoso. Amália fecha-se no quarto. As três testemunhas correm atrás de Jerônimo, para retê-lo. Cardoso apita.)

MANUEL MARIA – O que é isto, seu Jerônimo?!

COMPADRE – Compadre, tenha mão!

VITORINO – Não se deite a perder!

(Cardoso continua a apitar. Confusão.)

AMÁLIA (Grita de dentro.) – Aqui d’el-rei!

Cena VI

Os mesmos e Dois Soldados

SOLDADOS – O que é isto? o que é isto?…(Correm todos em redor da cena.)

CARDOSO – Prendam-no! prendam-no! (Jerônimo é afinal preso.) Levem-no! (Os soldados levam o preso, Saem também as testemunhas.)

Cena VII

Cardoso e depois Amália

CARDOSO (Caindo extenuado em uma cadeira.) – Uf!

AMÁLIA (Entrando.) – Feriu-te o maldito, feriu-te?

CARDOSO – Creio que não. (Apalpando-se.) Não feriu, não, Sinhá! Se não fossem as ordenanças que estavam na porta, a estas horas estavas viúva!

AMÁLIA – Credo! Viúva!

CARDOSO – Maldita subdelegacia! Maldita a hora em que aceitei semelhante cargo!

AMÁLIA – Como estás suando! Esta camisa é incapaz de aparecer no batizado…

CARDOSO – É verdade! O batizado! Vou mudar de camisa…

AMÁLIA – Mas isso depressa… depressa! (Saída falsa de Cardoso.) Ó Senhor Deus! Isto contado lá se acredita! É bem feito , senhor meu marido, é bem feito! Quem não quiser ser lobo, não lhe vista a pele.
(Rolo na rua. Apitos. Gritos. Pancadaria. Amália vai à janela.) Que vejo! Uma malta de capoeiras! Cardoso! Cardoso! Não tardam a entrar…

CARDOSO (Entra em mangas de camisa e com o fitão de subdelegado.) – O que é isto? (Espirra.)
Atxim! constipei-me… Atxim! O que é isto? Atxim! (Sai a correr pelo fundo.)

Cena VIII

Amália, depois Perdigão

AMÁLIA – Meu Deus! Hoje parece ser o dia de São Bartolomeu! Se não anda o diabo solto na cidade, ao menos nesta freguesia..

PERDIGÃO (Entra apressado pelo fundo, vestido para a cerimônia.) – Ó compadre! Ó comadre!

AMÁLIA – Mais uma parte!

PERDIGÃO – Deixe-se de partes!

AMÁLIA – Meu marido não está… (Reparando.) Ah! é o compadre!

PERDIGÃO – Estamos até estas horas à espera do padrinho e nada!

AMÁLIA – Queixe-se da maldita subdelegacia, compadre! Estamos vestidos há três horas…(Consultando o relógio.) Há três horas e um quarto…

PERDIGÃO – Ora! Para que foi o compadre buscar sarna para se coçar…

AMÁLIA – O compadre não imagina! Quantas vezes, alta noite, está ele sossegado a dormir, quando, de repente, é despertado pelas malditas partes…

PERDIGÃO – Por força!

AMÁLIA (Indo à janela.) – Já está aplacado o rolo… (Voltando.) Hoje quase o matam!

PERDIGÃO (Dando um salto.) – A quem?

AMÁLIA – Ao Cardoso.

PERDIGÃO – Ah! Ele descia a escada com tanta impetuosidade! Ia em mangas de camisa e de fitão… Olhem que figura! Espirrava, que era um Deus nos acuda! “Viva!” lhe disse eu; ele, porém, não me conheceu, apesar de responder: “Dominus tecum”, em vez de: ”Obrigado!”

Cena IX

Os mesmos e Cardoso

CARDOSO (Entra e cai espirrando em uma cadeira.) – Atxim!

PERDIGÃO – Viva!

CARDOSO – Dominus te… Quero dizer: Obrigado… Atxim! Ah! É o senhor, compadre? Desculpe.

PERDIGÃO – Já sei de tudo… Está mais que desculpado… Mas não perca tempo!

AMÁLIA – Sim, não percamos tempo!

CARDOSO – Vamos! (Ergue-se e deita o chapéu.) – Estou pronto!

PERDIGÃO – Em mangas de camisa, compadre?

CARDOSO – É verdade! (Corre ao quarto e volta vestindo a casaca.)

AMÁLIA – De fitão, Cardoso?

CARDOSO – É verdade! (Despedaça o fitão zangado.) Atxim!

PERDIGÃO – Já leu o que traz hoje o Jornal a seu respeito?

CARDOSO – Já: descompostura bravia! É o pago que dão a tantos sacrifícios.

PERDIGÃO – Diga antes: é o castigo que infligem ao erro de aceitá-los.
AMÁLIA (Impaciente.) – Vamos embora! (Vão todos saindo.)

Cena X

Os mesmos e um Soldado

SOLDADO (a Cardoso.) – Trouxeram este ofício e esta carta para Vossa Senhoria. (Entrega a carta e o ofício e sai.)

CARDOSO – De cá. (Abrindo a carta.) Com licença. (Lê.) É um bilhete em que o oficial do gabinete do ministro me participa haver sido outro nomeado para a vaga do Cantidiano… E metam-se!

PERDIGÃO – Hein?

CARDOSO – E metam-se a servir o país! (Abrindo o ofício.) Com licença! (Depois de ler o ofício.) Sabem o que é? Minha demissão.

PERDIGÃO E AMÁLIA – Demissão?

CARDOSO – Á vista do que a meu respeito tem aparecido na imprensa periódica!

PERDIGÃO – Não falemos mais nisso! Vamos embora.

CARDOSO – Poupou-me o trabalho de pedi-la.

AMÁLIA – Quem não quiser ser lobo…

PERDIGÃO – Mas o compadre acaba de despir a pele do lobo. (Apanhando o fitão.) Ei-la!

CARDOSO – Atxim! (Saem tos os três e cai o pano.)

[ Cai o pano]

Fonte:
AZEVEDO, Artur. Teatro de Artur Azevedo – Tomo 1. Instituto Nacional de Artes Cênicas-INACEN. V. 7: Coleção Clássicos do teatro Brasileiro.. In A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
Imagem = http://cemebturmaf.blogspot.com

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Marina Strachman (Peça Teatral: Bom Demais pra Ser…)

Esta narrativa é uma obra de ficção que envolve personagens reais, imaginando o que seria deles se morressem; o que estas personagens, que foram tão importantes em vida deixaram de bom, de realmente bom depois que se foram. A peça pretende mostrar que o que realmente importa, é a essência da pessoa, e não seus bens!

Peça teatral: Bom demais pra ser…
Autora: Marina Strachman

Baseado em “Um conto de Natal” de Charles Dickens
 Enredo

Esta narrativa é uma obra de ficção que envolve personagens reais, imaginando o que seria deles se morressem; o que estas personagens, que foram tão importantes em vida deixaram de bom, de realmente bom depois que se foram. A peça pretende mostrar que o que realmente importa, é a essência da pessoa, e não seus bens!

Cenário

Dividido em três espaços. Uma sala, com TV tudo de última geração com lap top, com televisão e som ligados. Outra um “campo” de futebol e na outra, dois carros um vermelho e um preto no trânsito, tudo separado por biombos.

Descrição dos Personagens

Asdrúbal – Têm 40 anos, pai de família, um executivo que só faz trabalhar, não dá atenção à esposa e nem ao filho.

Marilda a linda – Têm 30 anos, só fala de regime, ginástica e calorias, não dá atenção ao filho e ao marido.

Junior – Têm 10 anos, cabelo penteado como o Neymar, usa roupa de grife, tem Ipod, Ipad, e wii, e sempre todos ligados e brinca sozinho.

Uesley Uilson – Jogador de futebol profissional, bom jogador, mas é trapaceiro, encrenqueiro.

São Januário – Um garoto bonito, muito bom jogador, e uma pessoa do bem.

Beto Esperto – Joga bem, mas tem mania de querer ser mais esperto que os outros e só se dá mal.

Leila – motorista do carro vermelho, chorona, desempregada, frustrada, acha que sua vida é um erro atrás do outro.

 Beka – Amiga de Leila, está no carro, mas não agüenta mais.

Renato – Um jovem muito feliz, motorista do outro carro.

Mauro – amigo de Renato, companheiro pra tudo.

Três Anjos da Guarda – Um para Asdrúbal, outro para Uesley e o terceiro para Leila.

Abertura
Narrador

Vivemos hoje a nossa vida, uma vida boa, bacana, mas se deixássemos esta vida pra trás agora, já! O que teríamos deixado para trás?!

(Pausa, música mais alta – por meio minuto)

 Narrador prossegue:

– No mundo atual, mundo dos vivos, malandros, espertos a vida segue segue.

Ilumina-se um de cada vez as três cenas, a família na sala, o jogo de futebol, os carros no trânsito.

Cena I

(Cenário –  Sala da família, com Asdrúbal, Marilda a linda e Junior)

Narrador

-Era uma vez…

(Música e foco de luz passando sobre os objetos e as pessoas da cena da família)

Narrador – Asdrúbal é um super executivo de uma multinacional que tem escritórios em Londres, Nova Deli, Hong Kong e Rio de Janeiro. Como o fuso horário varia muito de um escritório para outro, Asdrúbal passa os dias conectado a algum computador, não tem tempo de folga e viaja muito, mas é muito rico, possui helicóptero, avião particular, iate, casa de campo e de praia e dá para esposa e para o filho tudo o que pedem, sem discutir.

 (Enquanto o narrador fala, mostra Asdrúbal falando em dois celulares, em línguas diferentes, na frente do computador que está ligado. Quando o narrador finaliza, entra o filho e a esposa discutindo.)

 Asdrúbal (aos gritos) – vocês não percebem que estou trabalhando?! Preciso resolver este assunto urgente!

Marilda a linda – Você está SEMPRE trabalhando e resolvendo alguma coisa urgente. Não percebe que este assunto é URGENTE também?!

Junior – é pai, a mamãe….

Marilda a linda (interrompendo) – Já disse que não gosto que você me chame assim, sou Marilda a linda!

Junior (chorando) – eu sou a única pessoa do mundo que não pode chamar a mãe de mãe!!!

Asdrúbal (em seus celulares)- Sorry, but I have a problem here. (e desliga os telefones, olhando muito feio para os dois!) – Venha cá, meu filho, não chore que o papai compra para você aquele Jet Ski, último modelo.

Junior (enxugando as lágrimas rapidamente)– Obaaaa, agora, pai, agora?!?!

 Marilda a linda (interrompendo) – é sempre assim, para ele você compra tudo, e pra mim nada. Já faz DOIS dias que pedi uma mixaria para fazer novamente minha plástica de barriga e você nem respondeu!

Asdrúbal- Desculpe minha linda, tem toda a razão, aonde está meu talão de cheques. (pegando o talão na pasta) – Quanto é minha linda, 500 mil está bom?! Não, não, é pouco por toda esta beleza, querida leve logo um milhão e aproveita renove seu guarda roupa. Se quiser ir para Miami, o jatinho estará disponível amanhã!

 Marilda a linda (beijando o marido) – é por isso que TODAS as minhas amigas morrem de inveja do MEU Asdrúbal!

Narrador – Asdrúbal volta ao telefone, para acabar de resolver os problemas dos escritórios.

– Cena II –

(Cenário – campo de futebol, Uesley Uilson,São Januário, Beto Esperto, brincando com a bola)

Narrador – Uesley Uilson é um jovem de 17 anos, que joga futebol tão bem que já têm alguns times atrás dele, mas ele bebe e usa drogas, seu melhor amigo, Beto Esperto, é um perna de pau que acha que joga MUITA bola, neste time existe também o goleiro São Januario, ótimo jogador, joga bem, é voluntário em duas ONGs é um garoto do bem.

 São Januário – Uesley, não te disse para você parar de beber e jogar bola que você ganha mais?! 

Beto Esperto (com desdém) – Se fosse só bebida o nosso problema, tava moleza!

Uesley Uilson – (interrompendo) – Cala boca, Beto! E Januário, o que é que você tem ficar me dando conselho, se conselho fosse bom, ninguém dava de graça!! (rindo), Né não Betão!!

(Betão e Usley, rindo)

São Januário – Olha cara, o negócio é o seguinte: tem uma conversa que o Santos tá querendo te contratar pra jogar com o Neymar, mas pra isso, você tem que deixar de faltar em treino por causa de bebida.

Beto Esperto (com desdém) – Eu já disse que, se fosse só bebida o nosso problema, tava moleza! Você com esse apelido encardido de São Januário, só quer dar bons conselhos…

 (Uma voz lá de dentro- Beto Esperto, fica quieto que este papo não é com você, você quando está bem, serve pra esquentar banco, não sei se você percebeu, mas nem no banco tu tá escalado!. Uesley, esta conversa do São Januário é séria, mas, só vai funcionar se você por 3 meses comparecer aos treinos sem estar drogado, ou bêbado, ou os dois!) E os três saem jogando bola.

– Cena III –

(Mostram os dois carros parados no farol, um vermelho com a Leila ao volante e a Beka ao lado, e no outro no carro de cor prata Renato dirigindo e Mauro ao lado)

Narrador – Leila a motorista do carro vermelho, é uma chorona, desempregada, frustrada, acha que sua vida é um erro atrás do outro. Beka, sua grande amiga, está tentando ajudar, até lhe ofereceu um ótimo emprego, que Leila recusou, mas a Beka está cansada desta amiga que parece gostar de sofrer.

(No carro vermelho)

Leila (com a maquiagem borrada de tanto chorar)- eu não sirvo pra nada MESMO, perdi meu emprego, perdi o noivo e agora estou a um passo de perder meu apartamento! EU VOU ME MATAR!

 Beka – Ah, pois não! Mas se mata sozinha que estou descendo do carro. Eu já te ofereci o cargo de gerente geral em meu escritório, mas você me respondeu que: trabalhar com a amiga só pode dar errado… você gosta é de reclamar!

(No carro preto)

Mauro – Renato olha só que mulherão no banco do passageiro!

Renato – Só se for, porque a motorista toda borrada tá parecendo que saiu do baile de halloween!

(os dois caem na gargalhada)

(No carro vermelho)

Beka – Você ouviu isso, sua louca?! Até quando você vai se fazer de vitima, olha só que dupla “tudo bom” aí do lado! E parece que estão rindo de nós!

(No carro preto)

Renato (dirigindo-se para Beka no outro carro)– Oi! Nós estamos indo no Shopping, você quer vir?!

(Leila engata uma primeira e sai correndo com o carro)

Beka (assustada e gritando) – Pára o carro já que eu vou descer! Você precisa de um médico urgente!

Apaga-se a luz do cenário.

– Cena IV–

(Nesta cena camas são necessárias)

Narrador – e o dia acabou e todos foram dormir…

Mostra cada um deitado em sua cama… Asdrúbal em seu lap top, enquanto Marilda pensa em suas plásticas, e Junior está dormindo. Beto Esperto, em sua cama bebendo a segunda garrafa de vodka, Uesley tentando jogar a garrafa de bebida fora, mas acaba bebendo… e São Januário fazendo suas preces antes de se deitar. Leila desmaiada ao lado de MUITOS remédios que ela ingeriu, Beka em sua cama preocupada com Leila, pedindo que o anjo da guarda olhe por sua amiga, Renato e Mauro cada um dormindo em sua cama.

Narrador – Me enganei, agora sim, e o dia acabou e todos foram dormir.

E mostra todos dormindo.

Narrador – E eles sonham, sonham com o seu futuro, e com o que será de cada um deles….

Anjo da Guarda de Asdrúbal  – Asdrúbal, sou seu Anjo da Guarda, estou aqui para te ajudar: você é um homem bem sucedido financeiramente, mas sua vida é uma droga… sua mulher só quer saber do seu dinheiro, e seu filho que tanto quer seu amor, não consegue ganhar nem um abraço! Você nunca fez uma boa ação na vida! Veja o que será de você depois que morrer:

Mostra a parte do cenário do céu, e Asdrúbal, sozinho, ninguém vem conversar com ele. E ele está, olhando para seu filho que está brincando, e sua esposa que está adorando estar sozinha com o dinheiro da herança que ele deixou.

Asdrúbal se desespera.

Anjo da Guarda de Asdrúbal prossegue – Asdrúbal, este quadro pode mudar, se for da sua vontade, você é jovem, tem muita coisa boa para fazer ainda, que tal?!

Asdrúbal (acorda assustado) – Marilda minha linda, tive um sonho e preciso mudar! Querida, amanhã vou começar a instruir meus diretores, para ter mais tempo com vocês. Também vou ajudar a quem eu puder, mas por enquanto…

Asdrúbal corre para o quarto do Junior e o abraça e beija.

– Cena V–

Anjo da Guarda de Uesley  – Uesley Uilson, sou seu Anjo da Guarda, estou aqui para te ajudar: você é um menino ainda, tem um lindo futuro pela frente, mas sua vida é só beber e se drogar, Deus te deu um Dom de jogar bola maravilhosamente, mas você prefere as drogas… Veja o que será de você depois que morrer:

Mostra a parte do cenário do céu, e Uesley Uilson, sozinho, ninguém vem conversar com ele. E ele está, olhando para o nada, pois não tem nada nem para olhar

Anjo da Guarda de Uesley  prossegue –  Uesley Uilson, este quadro pode mudar, se for da sua vontade, você é jovem, tem muita coisa boa para fazer ainda, que tal?!

Uesley Uilson acorda MUITO assustado e diz para si mesmo: Véio eu preciso mudar já!

Ele liga para São Januário e diz:

– São Januário, preciso muito da sua ajuda, tive um sonho e eu preciso mudar, você me ajuda?!

 São Januário – Uesley, claro que sim, aliás, eu vou adorar poder te ajudar! 

– Cena VI –

Anjo da Guarda de Leila  – Leila, sou seu Anjo da Guarda, estou aqui para te ajudar: você é uma mulher inteligente, bonita e que ainda, tem um lindo futuro pela frente, mas sua vida é só reclamar, você acha que a responsabilidade é sempre do outro, nunca é sua! A sua vida pode mudar mas… E preste atenção a este detalhe: VOCÊ  e somente VOCÊ é a responsável por suas escolhas.

Veja este é seu futuro… mostra Leila pedindo esmola.

Anjo da Guarda de Leila  prossegue – Leila, este quadro pode mudar, se for da sua vontade, você é jovem, tem muita coisa boa para fazer ainda, que tal?!

Leila acorda MUITO assustada e diz para si mesma: Eu não tinha percebido que passava por cima das minhas responsabilidades!

Liga para a Beka e diz:- Beka, você tem a partir de hoje uma nova amiga, e eu quero sim o emprego que você me ofereceu, você verá de agora em diante, sou uma pessoa melhor!

Narrador – E eles se tornaram pessoas melhores, e você?!

– Cena VII –

Narrador – E enquanto isso na lanchonete do bairro. Em uma mesa, dividindo uma pizza, contando estórias e se divertindo estão, Leila, Beka, Renato e Mauro.

Leila – Quero propor um brinde a minha amiga que não me abandonou quando mais precisei e ao que sobrou de legal daquela época, A Beka, ao Mauro e ao meu amor, o Renato!

 Beka – Ah, isso merece um brinde mesmo, Leila, você é outra pessoa, eu não sei o que te fez mudar assim pra melhor, mas eu agradeço! Posso confessar que pedi muita ajuda para seu anjo da guarda!

Mauro – Renato e você achando que ela parecia uma assombração!rsrsrsr Ainda bem que nos encontramos novamente, e foi incrível vê-las ajudando as crianças a refazer a mata ciliar daquela nascente!

Renato – Ainda bem que nos encontramos novamente, e foi incrível vê-las ajudando as crianças a refazer a mata ciliar daquela nascente!

Beka – Ei rapazes, semana que vem tem uma distribuição de mudas de arvores da região e meu escritório vai emprestar dois caminhões, será uma ação no fim de semana inteiro, pois vamos promover também a plantação na beira do rio, topam?

(Renato, Leila e Mauro)- Ah, Beka com certeza e você não vai se livrar de nós tão cedo!

Narrador – E na outra mesa, estão….Mostra a mesa com Asdrúbal, Marilda e Junior. Eles estão comendo uma salada!

Junior – Quero mais alface e tomate, mamãe!

 Marilda a linda (que está grávida) – Claro meu querido, eu também vou repetir. Asdrúbal amor, pede um suco de laranja pra mim?

Asdrúbal- Claro. Ah, Marilda, eu quero te agradecer a dica das empresas que investem em ações ambientais, eu estou adorando trabalhar com está área! Aliás, filho, este fim próximo fim de semana, vamos plantar arvores na beira do rio, e escolhemos você e a Marilda para representarem a empresa, vocês aceitam?

 Marilda a linda (beijando o marido) – é claro querido, nossa vida mudou pra melhor agora, eu me sinto melhor e sou uma mãe de verdade agora, eu curto estar com vocês!

Junior – é mesmo mamãe, agora a gente pedala juntos, e almoça juntos!

Asdrúbal- eu só tenho a agradecer por aquela noite! Sou outra pessoa e serei pai de gêmeos!

Narrador – e entrando na lanchonete… São Januario e Uesley. Uesley está triste.

 São Januário – Uesley, você tá bem? 

Uesley Uilson – To sim Janú, mas to muito triste! Nunca pensei que o Beto fosse morrer assim de overdose!! Sabe acho que é uma mistura de sentimentos… afinal, se não fosse por você, eu ia acabar assim também!

São Januário – Olha cara, mas você conseguiu, teve uma tremenda força de vontade e conseguiu ficar um ano inteiro longe da bebida e das drogas!

Uesley Uilson – E agora é seguir em frente! Este ano vou jogar no Santos e agradeço a Deus todos os dias por eles terem te contratado junto comigo, pois você é meu parceiro, irmão e amigo!

Apaga-se a luz do cenário.

 __________________
Marina Strachman – arquiteta e urbanista, mestre em desenvolvimento regional e meio ambiente e especialista em educação ambiental.

Fonte:
Educação Ambiental em Ação
http://www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=1387&class=06

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Teatro de Ontem e de Hoje (Roda Viva)

Espetáculo que radicaliza as propostas tropicalistas iniciadas em O Rei da Vela e promove seu diretor José Celso Martinez Corrêa à condição de expoente teatral do movimento. Espetáculo agressivo, síntese da ira e da rebeldia contra um momento político que divide a sociedade, entre a aceitação do regime militar ou a luta contra ele.

Tomando o texto de Chico Buarque em torno da vida de um ídolo da canção popular, figura manipulada, quer pela indústria fonográfica, quer pela imprensa, o encenador vê nele a possibilidade de acirrar a crítica à sociedade de consumo, uma das pontas de lança do tropicalismo. Apoiado na eloqüente cenografia e nos figurinos criados por Flávio Império, alcança o limite entre a ação no palco e seus desdobramentos na platéia. Numa passarela que invade o espaço da platéia, ocorrem muitas das cenas criadas para provocar os espectadores.

Tachada como emblema do “teatro agressivo” pelo crítico Anatol Rosenfeld1, a montagem reflete um momento em que o teatro assume esse tom violento, de confronto, de cobrança de atitudes frente a uma situação sociopolítica tensa e insustentável.

Na crítica ao espetáculo, Marco Antônio de Menezes descreve: “A cortina já está aberta quando você chega: enormes rosas à esquerda, enorme garrafa de Coca-Cola à direita, enorme tela de TV no fundo, uma passarela branca avançando até metade da platéia. […] A campainha toca três vezes, a platéia faz silêncio, ruídos estranhos saem dos alto-falantes, na tela de TV aparece uma frase: ‘Estamos à toa na vida’. […] Entra o coro, com longas túnicas vermelhas e mantilhas pretas. Canta um triste Aleluia, rodeia Benedito. Aparece o Anjo da Guarda (Antônio Pedro), o empresário de TV, com asas negras, cassetete de policial na cintura, maquiagem de palhaço de circo: ‘Benedito não serve, nós precisamos de um ídolo! Você será Ben Silver!’ E o coro joga para trás as túnicas e mantilhas, é agora um grupo de jovens iê-iê-iê que canta: ‘Aleluia, temos feijão na cuia!’ […] O espetáculo não está somente no palco, o coro invade a platéia, conversa com ela, e o empresário pede um minuto de silêncio em homenagem ao ídolo: cada participante do coro olha fixamente um espectador (agora todos já entendem por que a bilheteria insistiu em vender ingressos da primeira fila). […] O minuto termina, Ben Silver é carregado para o palco num grotesco andor feito de long-plays e fotos de cantores, conduzido por grotescas caricaturas das ‘macacas de auditório’, que no fim do primeiro ato o levam embora, deitado sobre uma cruz de madeira, nu, cansado sob o peso do próprio sucesso. […] Ben Silver, esgotado pelo sucesso, procura o consolo de sua mulher […] para um linda cena de amor que é repentinamente interrompida pela câmara (sic) de TV e pelo Capeta (o jornalista desonesto) […]. E juntos, o jornalista e o Ibope decretam o fim da carreira de Ben Silver: ‘O ídolo é casado! E além de tudo, é bêbado!’ Uma procissão de três matronas antipáticas tenta salvar o ídolo exigindo que ele faça caridade. Mas nada adianta, Ben Silver acabou. Só há uma solução: transformá-lo em Benedito Lampião, o ‘cantor de protesto’, vestido de nordestino, falando de ‘liberdade’ e de ‘vamos lutar’. A esquerda festiva o aclama, o jornalista vendido perde sua porcentagem e a vontade de elogiar o Lampião. O Ibope, vestido de papa, decreta novo fim para Benedito Lampião. Para manter o prestígio, ele deve suicidar-se. […] A platéia sai do teatro evitando sujar os saltos dos sapatos Chanel nos restos do fígado de Benedito Silva que o coro das fãs devora no final. […] Tudo é caricatura do religioso no espetáculo, que, como atividade religiosa, se desenvolve em todo o teatro, palco, galerias, platéia (O teatro com que sonhava Antonin Artaud). Para criar o ídolo, ele é liturgicamente paramentado, peça por peça de seu ridículo traje prateado. […] os atores se dirigem agressivamente à platéia, fazem perguntas, pedem assinaturas em manifestos, sacodem e encaram os espectadores (a censura de 14 anos me parece muito pouco severa para o espetáculo). Ben Silver se encontra com a esposa coroado de espinhos, nu, como o Cristo. A tentativa de salvar o ídolo em decadência é encenada como uma procissão, liderada pelo Capeta (seria a peça toda uma Missa Negra?) – que satiriza o jornalista marrom – usando como cruz o conhecido ‘X’ de lâmpadas empregado pelos fotógrafos. E a primeira cena entre Benedito e sua mulher é uma caricatura da Visitação de Nossa Senhora. […] Elementos cristãos, aliás, são misturados com rituais pagãos (o fígado de Prometeu, as orgias de Dionísio), até com rituais políticos (a foice-e-martelo no chapéu nordestino de Benedito Lampião). José Celso, na realidade, mais que dirigir, celebrou Roda Viva”.2

Por empregar em modo crítico símbolos eclesiásticos e da sociedade de consumo, e desvendar os bastidores de atuação do mercado cultural – demolindo mitos e padrões, escancarando escândalos e negociatas – Roda Viva encontra sérias oposições tanto entre a crítica e o público, e arregimenta, detratores, quanto entusiastas. Após bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro, o espetáculo é invadido pelo Comando de Caça aos Comunistas – CCC, nas apresentações em São Paulo, onde parte do cenário é destruída e o elenco espancado. Numa viagem a Porto Alegre, nova agressão se registra, o que leva a produção a suspender sua carreira.

Notas

1. ROSENFELD, Anatol. O Teatro Agressivo. In: TEATRO Paulista 1967. São Paulo: IDART, 1968.

2. MENEZES, Marco Antônio de. Roda Viva, de Francisco Buarque de Holanda. Jornal da Tarde, São Paulo, 2 fev. 1968. Divirta-se, p. 1.

Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural

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Teatro de Ontem e de Hoje (O Cão Siamês)

Peça de Antônio Bivar lançada em 1969, na esteira do sucesso aberto por Cordélia Brasil, traz uma marcante interpretação de Yolanda Cardoso, que divide a cena com Antonio Fagundes, sob a direção de Emílio Di Biasi. A encenação é materialmente modesta, mas iluminada pelos intérpretes. Espetáculo cult, faz breve temporada e tem pouco público.

A peça é centrada na figura de Alzira, uma explosiva outsider, crítica, bem informada, desbocada e irreverente, que atende a Ernesto, vendedor de enciclopédias que bate à sua porta. O rapaz, casado e com filhos pequenos, revela-se uma pessoa sem sonhos, conformado com sua vida modesta e sem perspectivas. O encontro entre figuras tão díspares produz um conflito: o anarquismo de Alzira triunfa, massacrando a racionalidade de Ernesto. Para Emílio Di Biasi, “Alzira é uma heroína marginal, já que ela faz a apologia de tudo o que vai contra os princípios do que se convencionou chamar sociedade. A sociedade absurda de Ernesto contra o absurdo mundo de Alzira. […] Ela se recusa a qualquer tipo de sentimentalismo pessoal e leva seu subconsciente violento até as últimas conseqüências”.1

Em 1970, o diretor Antônio Abujamra monta o texto no Rio de Janeiro, retrabalhado e aumentado por Bivar, com a mesma atriz e com Marcelo Picchi vivendo Ernesto. A encenação alcança grande sucesso e repercussão, rebatizada como Alzira Power, retorna posteriormente para São Paulo, onde faz longa carreira.

A encenação carioca desperta vivo entusiasmo na crítica especializada, como anota Henrique Oscar no seu comentário: “O espetáculo de Abujamra está todo apoiado numa hábil direção de atores. Neste sentido, o rendimento obtido com Yolanda Cardoso é muito grande. Ela assume o papel com uma garra impressionante. Outro que se sai muito bem é o ator paulista Marcelo Picchi, em seu segundo desempenho profissional. Num papel que pede muito menos do intérprete do que sua parceira, ele tem um trabalho perfeitamente realizado, inclusive nos momentos mais perigosos que o texto lhe exige”.2

Antônio Bivar completa em seu livro detalhes peculiares sobre a montagem de Abujamra: “Tirando o Hair, onde todos ficavam nus, Alzira era novidade também por, além de ser uma peça que falava fundo às mulheres – como nenhuma peça brasileira até então (a personagem-título era uma libertária desvairada) – tinha, como sobremesa, a exibição demorada e ritualística de um rapaz pelado. Não estava no texto, era coisa da direção picárdica de Antonio Abujamra”.3

Yolanda Cardoso recebe, com este desempenho, todos os prêmios como melhor atriz do ano, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo.

Notas

1. ALZIRA POWER OU O CÃO SIAMÊS DE ALZIRA PÔ… LÔCA. Direção e texto Emílio Di Biasi. São Paulo, 1969. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Ruth Escobar em agosto de 1969.

2. OSCAR, Henrique. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, jul. 1970.

3. BIVAR, Antonio. Longe Daqui Aqui Mesmo. São Paulo, Best Seller, 1995, p. 17.

Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural

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Teatro de Ontem e de Hoje (Na Solidão nos Campos de Algodão)

Estréia, no Brasil, da peça de Bernard-Marie Koltès, encenada por Gilberto Gawronski, que encontra na economia de meios e na secura expressiva uma via de valorização do texto e da tensão dramática.

Em Na Solidão dos Campos de Algodão, o autor francês, como em outras obras, tematiza a solidão. Não há uma ação evidenciada – o texto é construído a partir de extensos monólogos e o conflito se estabelece até o final pela contraposição desses discursos que subentendem dois lados complementares de uma situação. São dois homens sem nome e sem referências passadas explícitas, que expõem, por meio da palavra, um jogo feito apenas de sugestões ao longo de cada monólogo. Tráfico de droga ou de sexo, o texto não explicita as motivações nem o local onde se dá o encontro.

As qualidades poéticas do texto são ressaltadas pela tradução de Jacqueline Laurence. Na montagem de Gilberto Gawronski, o cenário trata apenas de circunscrever o espaço e neutralizá-lo, enquanto que a iluminação cria áreas de sombra e favorece o clima ermo. Não há divisão entre palco e platéia. O espetáculo é encenado para poucos espectadores que se sentam sobre caixas espalhadas pela pequena sala, onde os dois personagens se encontram. O diretor consegue imprimir ação ao texto por meio da sugestão, estabelecendo este jogo de gato e rato, de compra e venda, trabalhado apenas na voz e na atitude, com quase nenhum deslocamento e economia de gestos. Segundo o crítico Macksen Luiz, a montagem “pulsa com a virulência de um enfrentamento, ao mesmo tempo que leva o espectador a um universo provocantemente poético” e “procura ser aliciante, quando a força dramática da peça não está naquilo que sugere ação, mas naquilo que encobre a falta de ação”.1

Os dois atores trabalham em vias quase opostas. Ricardo Blat busca a interiorização e um tempo dramático emocional enquanto Gilberto Gawronski compõe uma figura socialmente nítida, com um humor ácido e uma tonicidade que sustentam o clima de tensão do espetáculo.

Notas
1. LUIZ, Macksen. A solidão pulsante. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30  nov. 1996.

Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural

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