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Francisco Sobreira (A Pantera)

Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo – nem grande, nem pequena. Os braços – e aí um pequeno senão na sua beleza – eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da farmácia, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até a vitrine, para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois a três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.

Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois comer o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ele ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fossem as de que gostasse mais), já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler, em muitos momentos parecia “ver” a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho, mas isso não ocorreu.

No dia seguinte, ao despertar, o primeiro pensamento foi para ela. Rápida, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela sairia da sua cabeça. A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão. Até que um dia ela desapareceu, afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pelo caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre dela.

Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propaganda e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela entrada, preferiu a porta dos fundos. Ao passar pela seção de perfumaria, sem um razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, dando-lhe a impressão de que quisesse saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuou a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça, tinha de fato, saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, viesse em seu encalço. Nem quando entrou no carro, sentiu-se livre. Em disparada voltou para o apartamento.

E, à noite, sonhou com ela.

Fonte:
http://contosbrasileiros.blogspot.com.br/2007/10/francisco-sobreira.html

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Vírgula

Vírgula pode ser uma pausa… ou não.

Não, espere.
Não espere.
 

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
0,234…

Ela pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.
 

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
 
E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.
 
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
 
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
 
A vírgula pode ser ofensiva.
Não quero comprar seu porco.
Não quero comprar, seu porco.
 
Uma vírgula muda tudo.
Detalhes Adicionais
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.

Fonte:
Fábulas e Contos

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Cesário Verde (Cabelos)

Pintura de Richard Johnson
Portugal 1955 – 1986

Ó vagas de cabelo esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E, ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e enlanguescer.

E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de verão,
De flácido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos Romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.
…………………………………………………………………….

Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.

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Amadeu Amaral (Memorial de um Passageiro de Bonde) 2. Um Soneto

Saí, hoje, de casa maquinando um soneto. Não foi culpa minha, mas obra do acaso. Lendo um jornal, depara-se-me, perdido no entrecho de uma notícia ordinária, em que se narrava a prisão de uma negrinha gatuna, este retalho de frase: “Toda a ilusão da triste Gabriela…” -Magia do número! Não foi sem razão, ó sombra venerável de Pitágoras! que a pressentiste por tudo nas esferas como nas almas. Repeti duas, três, dez vezes esse pedaço de frase vulgar, que é um verso inteiro e excitante. Gabriela alvejou-se-me e transfigurou-se-me logo na remota imagem de uma linda pessoa que de repente se vira nua de toda ilusão, nua como lady Godiva montada num asno, em meio da praça. Comecei a compor… não, começou a compor-se em mim um soneto:

Já não tens ilusão, ó Gabriela!
Nega-ta o amor, essa comédia triste.
Nega-ta a vida. E em tudo quanto existe,
O espinho do real se te revela.

Subi para o bonde a escandir mentalmente esses decassílabos, que para ser sincero comigo mesmo, não me pareceram maravilhosos. Mas alentava-me a esperança de que pudessem ir melhorando do meio para o fim do soneto. -O que me apepinava um bocado era que as rimas aproveitáveis não se deixavam pegar como frangos de pés amarrados. A memória, afeita a servir-me os torresmos do vocabulário trivial, só me deparava coisas como fivela, moela, espinhela, chiste, alpiste, que não se coadunavam à pura nobreza da inspiração. Encolhi-me, cerrei as pálpebras e atirei-me à caça de boas rimas, exercício muito útil, para refrescar as idéias e especialmente indicado como passatempo higiênico e divertido para homens atarefados, nas horas vagas.

Ia engolfado nesse labor -Cellini do verso! – quando senti que uns dedos me bicavam no ombro. Voltei-me, era o meu amigo Fabiano Alves, prático de farmácia meu vizinho. Bom homem, mas confiado, e ainda com a particularidade esquisita de se achar sempre numa temperatura espiritual completamente diversa da minha.

-“Está calculando?” indagou.

Tive ganas de lhe perguntar que conta lhe fazia que eu estivesse calculando ou voando muito acima do lodaçal do mundo, onde patejam os boticários sem alma.

-“Vem tão concentrado, mexendo com os lábios.”

-“Cá umas coisas.”

Fabiano entrou imediatamente a explicar que era tapadíssimo em questões de cálculo. Decididamente, não dava para essa especialidade. De uma feita, propuseram-lhe um problema, no clube de Periquitos, sua terra natal: “Um pássaro faz sete voltas em redor de uma torre de cantaria em quarenta segundos; quantas torres serão precisas para que sete pássaros façam uma volta…” Mais ou menos isso. Coisa à-toa, simples aplicação da regra de três; podendo-se também resolver rapidamente por análise. Pois levou mais de meia hora para dar com a solução! Uma vergonha.

-“Ainda assim, você é um bicho, Fabiano.”

-“Não; em Matemática, serei bicho, mas de má qualidade: um burrego. De todas as ciências, a que dá com o meu feitio é esta” (e batia com a larga e magra mão sobre a capa de um livro de espiritismo) “é esta, a filosofia.”

E Fabiano falou copiosamente sobre a doutrina espírita, “a mais consoladora de todas”, e em particular sobre a moral, “sem discussão possível, a mais perfeita.”

-“Fabiano” (lhe disse eu, apenas por dizer alguma coisa), “você conhece a moral de Sócrates?

Ele sorriu:

-“Esse, justamente, freqüenta o meu círculo. Um espírito evoluído. Adiantado!”

E dizendo “adiantado”, Fabiano esticou os beiços para um assobio, que deixou subentendido. Mas eu, intrigado, questionei:

-“Como é isso, ó Fabiano? Então Sócrates freqüenta…”

Ele sorriu com bonomia, explicando:

-“Manifesta-se, compreende? Está desencarnado há muitos anos, desde um desastre que houve aqui na Central. Saiu com as pernas esmigalhadas. Nesse mesmo dia visitou uns nossos irmãos, no Pará; por sinal que fez o pobre do aparelho gritar com dores nas pernas!”

Fabiano discorria, discorria. A certeza da verdade dava-lhe um ar de beatitude. “Ele já parecia respirar o eterno, planava além de todas as coisas perecedouras, que vão da molécula às estrelas. Este prático de farmácia, que acabava de largar o almofariz para ir comprar uma porção de calomelanos à drogaria, achava-se absolutamente integrado nos planos perpétuos da vida e do movimento universal. E o curioso é que se consolava com isto.

Ia sorrindo, no bonde, como sorriria um arcanjo na sua biga de chamas, através do infinito, assistindo ao florir e ao despertar das constelações pelos abismos sem fundo. Ou como uma criança contemplando um queimar de rodinhas e traques.

Com isto, deixei de fazer o meu soneto. Quando pretendi reinvocar a inspiração, ela havia batido as asas. Um acaso ma trouxera, um outro ma levou.

Assim acontece com tantas coisas belas e boas da alma! Nascem e morrem por aí na sombra e na bruma da vida larvada. Nascem por acaso, por acaso morrem. E nós caminhamos sobre as flores mortas dos nossos jardins interiores, como um cordão de porcos-do-mato sobre uma camada de pétalas, na época da inumerável florescência dos manacás. Mas entre a preta Gabriela e o boticário Fabiano, minha alma teve um momento de ventura inocente, embalada no berço dos ritmos e dos timbres. E, se não chegou a perpetrar nada, tanto melhor.

O melhor da poesia e de tudo quanto se lhe parece é a elaboração, o estado de graça, a embriaguez esporeante, a doce liberdade interior em que vive quem a elabora ou rumina. Talvez que o mais alto poeta seja um simples ruminante mudo de formas, O mais, vaidade e pretexto.

Bendita a Gabriela, e bendito o Fabiano.

Fonte:
Domínio Público

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Artur Azevedo (O Liberato)

Comédia

Oferecida ao Excelentíssimo Senhor Doutor Joaquim Nabuco

Representada pela primeira vez no Teatro Lucinda do Rio de Janeiro, em 16 de setembro de 1881.

 PERSONAGENS

 GONÇALO
 DOUTOR LOPES
 RAMIRO
 MOREIRA
 DONA PERPÉTUA
 ROSINHA

 A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro, em 1880.

O teatro representa uma sala. Duas janelas ao fundo, duas portas de cada lado, quatro cadeiras e uma poltrona, consolos.

Cena I

Rosinha, debruçada a uma das janelas; Dona Perpétua, entrando da esquerda, primeiro plano; logo depois Gonçalo, da direita, segundo plano.

  DONA PERPÉTUA (Entrando de muito mau humor, com um vergalho na mão.) – Ora valha-me Deus! Não me faltava mais nada!…

 ROSINHA e GONÇALO (Descendo ao proscênio.) – O que foi?

 DONA PERPÉTUA – O diabo do negro – Deus me perdoe! – agora é que se lembrou de cair doente! Como até estas horas não saía do quarto, fui buscá-lo preparada com este vergalho, e encontrei-o ardendo em febre. Desavergonhado!

 GONÇALO (Timidamente.) – O Liberato?

 DONA PERPÉTUA – O Liberato, sim senhor Pois quem havia de ser? É surdo? Que inferno! Esta só a mim acontece!

 ROSINHA – É coisa de cuidado?

 DONA PERPÉTUA – Um negro nunca tem coisa de cuidado! E este diabo, se não fosse valer uns oitocentos mil réis…

 GONÇALO – Vou chamar o médico?

 DONA PERPÉTUA – Vá, homem de Deus, vá! Mexa-se, com todos os demônios! Parece estar a dormir!

 GONÇALO (Vai buscar o seu chapéu sobre o consolo que deve estar entre as duas janelas, e dirige-se para a esquerda, segundo plano. A Rosinha, que se dirige à porta da esquerda, primeiro plano.) – Onde vai?

 ROSINHA (Naturalmente.) – Vou ver o Liberato;

 DONA PERPÉTUA (Com autoridade.) Fique! (Rosinha volta e vai para a janela.) Por causa destas e de outras confianças, é que o demônio do negro…

 GONÇALO (Quase a sair, parando.) – Adoeceu?

 DONA PERPÉTUA – Cale-se. (Gonçalo desaparece) Agora vá lá ficar o dia inteiro, como é seu costume! Que marido! (Sai pela direita, segundo plano.)

 Cena II

Rosinha, só

[ROSINHA] (À janela. Ouvindo dar horas tem um gesto de impaciência e desce ao proscênio.) – Duas horas, e primo Ramiro nada de aparecer! A que será devida esta demora? É o primeiro domingo em que não aparece logo depois do meio dia! Estará doente? (Aplicando o ouvido.) Parece que sobem a escada… Deve ser ele… É ele, é, não me engano… (Aparece Moreira da esquerda, segundo plano.- Vendo-o, despeitada.) – Ora!

Cena III

Rosinha, Moreira

 MOREIRA (Entrando.) – Licença para um. (Dirigindo-se a Rosinha, com muita amabilidade.) Como tem passado, Dona Rosinha? Tem passado bem?

 ROSINHA (Secamente.) – Bem, obrigada.

 MOREIRA (Sentando-se na poltrona. Tem deixado o seu chapéu sobre o consolo que estará entre as duas portas da esquerda.) – Eu vou indo conforme Deus é servido. (Tomando uma pitada de tabaco, movimento este que repete quatro ou cinco vezes durante a peça.) Mamãe está boa?

 ROSINHA – Boa, obrigada. (Vai à janela, a ver se chega o primo.)

 MOREIRA – Não lhe pergunto por papai, porque o encontrei ali na esquina. Disse-me que ia chamar o médico para ver o negro, que caiu doente. Isto de negros, põem-se finos com duas lambadas. Lá na fazenda,
tenho o Doutor Bacalhau que faz milagres!

 ROSINHA (Voltando da janela.) – O senhor viu por aí primo Ramiro?

 MOREIRA (Muito sério.) – Vi, minha senhora, e também vi seu tio!

 ROSINHA (Interessada.) – Onde?

 MOREIRA – Na tal conferência!

 ROSINHA – Que conferência?

 MOREIRA – Pois não sabe que se trama entre nós uma grande conspiração contra a propriedade particular?

 ROSINHA – Uma grande conspiração?

 MOREIRA – Que meia dúzia de rapazolas inconseqüentes, que nada tem que perder, que não possui um moleque ou uma negrinha para remédio, arvorou-se em defender a emancipação dos escravos, empunhando o facho da discórdia, e anda a proclamar urbi et orbi – pelos botequins, pelas gazetas e até pelos teatros – a dilapidação da fortuna particular?!

 ROSINHA – Deveras?

 MOREIRA – Em outra qualquer parte que não fosse o Rio de Janeiro, isto seria uma quadrilha de ladrões; aqui chama-se a isto o Partido Abolicionista! (Erguendo-se percorrendo a cena, de muito mau humor.) Pois não! Uma gente sem eira nem beira, nem ramo de figueira: uns pobres diabos, carregados de esteiras velhas, que se ralam de inveja, quando vêm um cidadão prestante como eu, que possuo cinqüenta escravos, ganhos com o suor do meu rosto! (Surpreendendo um sorriso de Rosinha.) Sim, senhora: ganhei-os com o suor do meu rosto, a trabalhar, (Gesto como se tirasse suor da testa com o polegar.) e não a dizer baboseiras no teatro…

 ROSINHA – E foi no teatro que se encontrou com primo Ramiro?

 MOREIRA – No teatro, sim, senhora: agora há comédias também de dia. E seu primo dava palmas e gritava: — Bravo! – àquela caterva de desmiolados que desejam a ruína do país!

 ROSINHA – Oh!

 MOREIRA – Do país, sim, que depositou na grande lavoura as suas esperanças. — E seu tio, o Doutor Lopes, um homem formado, que deve ter juízo, nem sequer repreendia o filho!

 ROSINHA – Modere-se, Senhor Moreira!

 MOREIRA (Esbravejando.) – A ruína do país ainda não é nada!… Mas o aniquilamento da riqueza particular? E o meu dinheiro?

 ROSINHA – Vejo que o senhor é um patriota…

 MOREIRA – Patriotismo é isto (Bate no ventre.) e isto. (Sinal de dinheiro.) Já não bastava a famosa lei de 28 de setembro, que me obriga a educar moleques que não são meus filhos, e que, se são meus filhos, não são meus escravos! Canalha! (Muito exaltado, e ameaçando, com os punhos cerrados, a porta da rua.) Canalhas!

 ROSINHA – Modere-se.

 MOREIRA – Tem razão; o melhor é não dar-lhes importância. (Põe-se de novo a passear pela sala, proferindo frases entrecortadas. Acalma-se pouco a pouco. Rosinha, durante este passeio, vai de novo à janela ver se chega o primo, e volta. Pausa.)

 ROSINHA – Com que então, o senhor tem cinqüenta escravos, hein?

 MOREIRA (Muito amável, pegando-lhe na mão.) – Cinqüenta escravos que serão seus no dia em que consentir que eu peça a seus pais esta mãozinha.

 ROSINHA (Admirada.) – Que a peça? Mas… para quem?

 MOREIRA – Para mim mesmo; pois para quem há de ser?

 ROSINHA (Retirando-lhe a mão, sorrindo.) – Neste caso, desconfio, meu caro senhor, que os seus escravos nunca serão meus.

 MOREIRA (Desabridamente.) – Veremos.

 ROSINHA – Hein?

 MOREIRA – Pois não é tão bom possuir cinqüenta escravos? Cinqüenta e um, porque eu serei o mais humilde, o mais cativo de todos os seus cativos.

 ROSINHA – Se julga que os meus pais disponham de mim com a mesma facilidade com que o senhor pode dispor de seus escravos…

 MOREIRA – Mas, Dona Rosinha…

 ROSINHA – O senhor bem sabe que meu coração já está dado, e vamos e venhamos – muito bem
dado.

 MOREIRA – Ora o seu coração! Sei que a namora o tal primo Ramiro; mas entre o namoro de um rapaz estabanado, que vai dar palmas a discursos de demagogos de meia tigela, e o amor calmo e refletido de um homem de senso prático, deputado provincial, proprietário agrícola e senhor de cinqüenta escravos, não me parece que haja hesitação possível!

 ROSINHA (À parte.) – É divertido!

 MOREIRA – E depois, nunca ouviu falar das desastrosas conseqüências de matrimônios entre parentes consangüíneos? Quer ter filhos idiotas?

 ROSINHA (Baixando os olhos.) – Senhor Moreira..

 MOREIRA – E eu… como não sou seu primo…

 ROSINHA – Não é meu primo… (Rindo-se.) mas podia ser meu avô…

 MOREIRA – Não exagere: eu tenho apenas cinqüenta anos.

 ROSINHA – Justamente o número de escravos. Nada: prefiro ter filhos idiotas a ter um marido velho. Demais, Deus é bom e misericordioso: não há de permitir que eu seja mãe de idiotas.

 MOREIRA – Se tiver filhos perfeitos, onde irá buscar meios para educá-los? Seu primo é um simples praticante de secretaria…

 ROSINHA – Amanuense, aliás.

 MOREIRA – Ou isso. Eu tenho talvez o dobro da idade dele, não nego; mas gozo de uma posição social definida. Tenho influência política… Não sou amanuense. Ser lavrador é tudo…

 ROSINHA (Atalhando.) -… neste país essencialmente agrícola, já sei… Vou prevenir mamãe de sua visita… (Vai a sair pela direita, segundo plano, e volta-se.) Diga-me cá, Senhor Moreira: seus pais eram
primos? Ah! Ah! Ah!… (Sai)

Cena IV

Moreira, só

[MOREIRA] – Ri-te, ri-te, minha sirigaita. Eu cá farei a cama a teu primo, que é o único obstáculo que se levanta entre nós. Era o que me faltava ver! Ser vencido por amanuense, eu, que sou senhor de trinta escravos…sim, porque, cá entre nós, só tenho trinta escravos. — Ao pai já falei… Mas o Gonçalo nada resolve por si… Felizmente a velha não morre de amores pelo tal priminho… Hei de falar-lhe hoje mesmo… (Depois de uma pequena pausa.) Ah, Major Gaudêncio! Major Gaudêncio! você é que é a causa destas declarações inoportunas de um amor que não sinto. — O caso é este; o Major Gaudêncio, o padrinho desta pequena, é um velho octogenário, que quebrou relações com o compadre por via das impertinências da comadre, e retirou-se para Maricá. Ora, aqui há coisa de mês e meio, o Major Gaudêncio disse-me em confiança que fizera o seu
testamento e, não tendo parentes, instituíra a afilhada herdeira universal de todos os seus bens, que hão de orçar por trinta ou quarenta contos. — Estou, por conseguinte, empregando meios e modos para apanhar esta sorte grande… O diabo é que isto de primos…

Cena V

Moreira, Rosinha, depois Gonçalo

ROSINHA (Da direita, segundo plano.) – Mamãe pede-lhe que faça o favor de ir ter com ela; espera-o na sala de jantar.

 MOREIRA – Lá vou. (Vai saindo pela direita, segundo plano, e para.) Reflita bem: com seu primo, a miséria dos amanuenses; comigo, uma bela fazenda de café, cinqüenta escravos, meia dúzia de apólices de conto de réis e, quando quiser, um título de baronesa. (Sai.)

 ROSINHA (Só.) – Nem todo o ouro da terra, nem todos os títulos do mundo me fazem esquecer do meu Ramiro. (Aplicando o ouvido.) Sobem a escada… Oh! desta vez não pode deixar de ser ele! (Vendo entrar o pai da esquerda, segundo plano, despeitada.) Ora!

 GONÇALO – Já chamei o médico. Onde está mamãe?

 ROSINHA – Lá dentro, na sala de jantar. (Gonçalo vai saindo.) Está lá também o Senhor Moreira.

 GONÇALO (Parando.) – Ah, está lá o Moreira? (Coçando a cabeça.) Este Moreira… (Resolutamente, depois de uma pequena pausa.) Olha, minha filha, tu sabes como é tua mãe… Se ela quiser, não queiras!

 ROSINHA – O quê?

 GONÇALO – Não queiras senão teu primo. Bate-lhe o pé! Se eu estiver do lado da tua mãe, não faças caso: bate-me o pé também a mim…

 ROSINHA – Mas…

 GONÇALO – Aí vem teu primo. Amem-se à vontade. (Sai.)

 ROSINHA – Ele! Finalmente!… (Corre ao encontro de Ramiro, que entra como um raio, pela esquerda, segundo plano, e conserva o chapéu na cabeça.)

Cena VI

Rosinha, Ramiro

RAMIRO – Prima!

 ROSINHA – Por que não vieste há mais tempo?

 RAMIRO – Hoje quase morri!

 ROSINHA – Credo!

 RAMIRO – De entusiasmo!

 ROSINHA – Respiro.

 RAMIRO – Que talentos! que idéias! que eloqüência! que mocidade!

 ROSINHA – Nunca te vi assim!

 RAMIRO – Pudera! Se eu nasci hoje! Até agora, tu, só tu enchias o meu coração; doravante tens uma rival: a liberdade! É que nunca me lembrei de que um milhão e meio de homens amargam neste país a sorte mais bárbara, o mais horrível destino! (Passando.) Oh! viva a liberdade, formosa deusa que ilumina o mundo!

 ROSINHA – Que entusiasmo! Não me faças tu ter ciúme da liberdade!

 RAMIRO – Onde está teu pai!

 ROSINHA – Está lá dentro, mas dize-me…

 RAMIRO – Onde está tua mãe?

 ROSINHA – Lá dentro. Mas… o que tens tu?

 RAMIRO – E o Liberato?

 ROSINHA – Está doente.

 RAMIRO – Vai chamar teu pai, vai chamar tua mãe, vai chamar o Liberato!

 ROSINHA – Mas se te acabo de dizer que o Liberato está doente?

 RAMIRO (Com piedade.) – Doente! doente!… (Outro tom.) Quero aqui reunido um conselho de família!

 ROSINHA – Um conselho de família! Mas o que será, meu Deus!

 RAMIRO – Vai, Rosinha, vai… Trago no coração um peso enorme! Meu pai não pode tardar aí. A sua presença também é indispensável.

 ROSINHA – Mas como estás hoje! Tira o chapéu, dá cá a bengala. (Ramiro obedece. Triste.) Nem sequer me perguntaste como passei.

 RAMIRO (Tomando-lhe as mãos.) – Perdoa, Rosinha, perdoa. Amo-te muito, muito, muito! És um anjo, e eu só me considerarei digno de ti, depois deste conselho de família! – vai chamar teus pais.

 ROSINHA – Vou já. (Sai pela direita, segundo plano, depois de ter posto a um canto a bengala e o chapéu do primo. Ramiro vai ao encontro de Lopes, que entra da esquerda, segundo plano.)

Cena VII

Ramiro, Doutor Lopes

 RAMIRO – Ah, meu pai! Chega em boa ocasião! Mas por que não veio comigo?

 LOPES – Tinha que ir à casa consultar a lei e arranjar os quinhentos mil réis. (Batendo na cabeça.) Cá está a lei (Batendo na algibeira do peito.) e cá está o dinheiro.

 RAMIRO – Compreendo: o pecúlio do escravo.

 LOPES – Já lhes falaste?

 RAMIRO – Ainda não. Convoquei-os a um conselho de família, aqui na sala.

 LOPES – Entusiasmou-me o teu entusiasmo, e a tua humanitária lembrança me encheu de orgulho de ser teu pai. És o homem que eu sonhava, quando te acalentava ao colo. No período abolicionista que atravessamos, ser escravagista já não é mau nem absurdo: é ser ridículo.

 RAMIRO (Olhando para a porta da direita, segundo plano.) Eles aí vem… Eles e… e o Moreira, se não me engano.

 LOPES – O Moreira? Má notícia.

Cena VIII

Ramiro, Lopes, Rosinha, Dona Perpétua, Moreira, Gonçalo

DONA PERPÉTUA (Com impertinente volubilidade, enquanto Rosinha toma a benção a Lopes, e Gonçalo e Moreira, cumprimentam Lopes e Ramiro.) – Viva lá, senhor meu sobrinho! Então Vossa Excelência não se quis dar ao trabalho de entrar? Se nos queria falar, por que não foi lá ter, senhor fidalgo? Quem tem a dor de dentes é que vai ao barbeiro. Tão longe era de cá lá como de lá cá! (Vendo o Doutor Lopes) Olé! também aí está, senhor meu mano? Viva! Como vai de saúde o senhor advogado? Há de fazer o favor de me explicar que farsa é esta de conselho de família, que a Rosinha não soube dizer. Estamos todos reunidos. Diga lá o que pretende, senhor meu sobrinho das dúzias!

 LOPES (À parte.) – É uma máquina Marinoni a falar!

 MOREIRA – Perdão, mas ao que parece, sou aqui demais.

 LOPES (Com desembaraço.) – Na realidade, uma vez que se trata de um conselho de família…

 RAMIRO (Idem) – E não pertencendo o senhor Moreira à família…

 LOPES (Idem) – Que nos conste…

 DONA PERPÉTUA – Não pertence à família, mas… quem sabe? O mundo dá tantas voltas…

 MOREIRA – Isso é verdade, minha senhora: as voltas que o mundo dá! (Indo buscar o seu chapéu à esquerda.)

 DONA PERPÉTUA – Fique. (Toma-lhe o chapéu, e coloca-o onde estava.) O Senhor Moreira é pessoa de nossa amizade; pode assistir ao conselho; pode mesmo tomar parte dele.

 MOREIRA – Nesse caso, peço licença para representar aqui o Major Gaudêncio, que é um quase parente.

 DONA PERPÉTUA – Bem lembrado: representa o compadre Gaudêncio. (Moreira senta-se.)

 LOPES – A falar no Major Gaudêncio. Aqui tem, mano Gonçalo, uma carta de Maricá… Entregou-ma o carteiro, no corredor, quando eu subia.

 DONA PERPÉTUA (Tomando a carta que ia ser entregue ao marido.) – Dê cá. Nesta casa sou eu que abro as cartas. Lerei logo mais, não tenho aqui meus óculos. (Fica com a carta fechada na mão.)

 MOREIRA (Passando perto de Rosinha.) – Este mundo dá tantas voltas!

 RAMIRO (Que observou.) – O que lhe diria ele?

 LOPES – Bem, sentemo-nos. (Colocando a poltrona no centro da cena.) Este é o ligar de honra; deve ficar aqui o dono da casa, para presidir o conselho.

 DONA PERPÉTUA (Sentando-se na poltrona.) O dono da casa sou eu.

 LOPES – Perdão, mana, mas a casa é de Gonçalo.

 DONA PERPÉTUA (Repoltreada.) – Por isso mesmo.

 LOPES – A… mana manda mais que o galo.

 DONA PERPÉTUA (Erguendo-se de um salto.) – Observo-lhe, senhor meu mano, que eu não sou galinha.

 LOPES – Bem! Não val’zangar-se. (Colocando duas cadeiras de cada lado da poltrona.) Senta-te aqui Ramiro. (Fá-lo sentar-se na primeira cadeira a começar da esquerda.) Rosinha, tu aqui. (Na segunda.) O Senhor Moreira ali. (Na quarta.) e eu aqui. (Na terceira. – Estão todos sentados na seguinte ordem, a começar da esquerda: Ramiro, Rosinha, Dona Perpétua, Lopes, Moreira.)

 GONÇALO (De pé.) – E eu?

 DONA PERPÉTUA – Fica onde quiseres. Enquanto deliberamos, vai lá dentro, pega numa agulha e cose. (Gonçalo procura com a vista uma cadeira, e, não a encontrando, vai debruçar-se na sacada ao fundo, ficando de frente para a cena.)

 DONA PERPÉTUA – Está aberto o conselho de família.

 RAMIRO (Erguendo-se.) – Tomo a palavra. Reuni-os para comunicar-lhes uma idéia grandiosa que há duas horas me anda dançando no cérebro.

 LOPES (A uma cara de Dona Perpétua.) – Não se assuste com essa coreografia, mana.

 RAMIRO – Nós possuímos um escravo.

 DONA PERPÉTUA – Um só, infelizmente. Meu pai, teu tio, morreu sem testamento.

 LOPES – Ab intestato.

 DONA PERPÉTUA – Deixou por única herança um escravo. (Lopes ergue-se. Ramiro senta-se.)

 LOPES – Não houve composição entre os herdeiros: o escravo não foi à praça… Como o negro, apesar de ser coisa, não era coisa que se dividisse, sim, porque afinal de contas, eu não podia ficar com a cabeça, ali a mana com uma perna, etc., resolvemos fazer o que em direito se chama uma partilha amigável. O escravo veio prestar serviços à mana, sem deixar, ipso facto de nos pertencer a todos. (Senta-se. Ramiro levanta-se.)

 RAMIRO – Muito bem. Este pobre Liberato, que assim se chama o escravo…

 LOPES – Paradoxo batismal;

 RAMIRO – Esse pobre Liberato há vinte anos que nos presta muito bons serviços.

 DONA PERPÉTUA (Erguendo-se.) Muito bons serviços? Ora, sou sua criada, senhor meu sobrinho! Muito bons serviços! Um desavergonhado! Um preguiçoso! Um beberrão!

 RAMIRO (Com violência.) – Desavergonhado! E quer que tenha vergonha um miserável escravo!

 LOPES (Idem.) – Preguiçoso! E quer que seja ativo quem nunca viu a recompensa do seu trabalho!

 RAMIRO (Idem.) – Beberrão! Nunca se constou que o Liberato bebesse! (Todos se erguem e falam ao mesmo tempo. Gonçalo desce ao proscênio. Confusão geral.)

 RAMIRO – É uma injustiça! Sugar-lhe o sangue durante vinte anos, e, ao cabo, tratá-lo desta sorte!
Isto brada aos céus!

 LOPES – Com isto já contava eu! E então quando a mana souber da idéia do Ramiro! O melhor é tratar já do depósito!

 DONA PERPÉTUA – É um preguiçoso, um beberrão, repito! Não presta para nada! Não me tem dado senão desgostos o maldito do negro!

 ROSINHA – Mas, meu Deus! o que é isto? Fale cada um por sua vez! Assim não se podem entender! Silêncio!

 MOREIRA – E então! Estamos na Assembléia Provincial? Entendam-se!

 GONÇALO – Isto parece mais a Praia do Peixe! Silêncio! Olhem os vizinhos!

 RAMIRO (Conseguindo falar mais alto que os outros, que se calam.) – Há dez anos, em 1870, penetrou um ladrão nesta casa. A senhora, minha tia, viu-o e deu um grito! O ladrão avançou, e matá-la-ia com um punhal, se o Liberato, interpondo-se, não o tivesse subjugado.

 LOPES – A mana deve a vida a esse desavergonhado, a esse beberrão!

 DONA PERPÉTUA – Grande coisa! Pois se o diabo tinha visto o ladrão, e se me ouvira gritar, não fez mais que o seu dever, que era salvar sua senhora!

 RAMIRO – Em que código está prescrito este dever?

 DONA PERPÉTUA – E sabe Deus se o negro não se achava ali com as mesmas intenções do ladrão…

 RAMIRO – Oh!…

 DONA PERPÉTUA – Os negros são capazes de tudo!

 LOPES – Você, mana, é um Clube da Lavoura… de saias…

 DONA PERPÉTUA – E você é um malcriado!

 RAMIRO – Bem, já vejo que perco o meu latim! A minha proposta está prejudicada.

 DONA PERPÉTUA – Mas o que nos queria propor este espirra-canivetes?

 RAMIRO – O quê? Ouça, mas não desmaie!

 LOPES – Tens razão. São necessárias certas precauções. Espera. (Batendo nas mãos.) Um… dois… e..

 RAMIRO – A liberdade do Liberato.

 DONA PERPÉTUA (Saltando.) – O quê?…

 RAMIRO e LOPES – A liberdade do Liberato.

 DONA PERPÉTUA – Isso nem resposta tem. Sabem que mais? Não sejam tolos, seus pedaços d’asnos! (Falam todos a um tempo. Confusão geral.)

 DONA PERPÉTUA – Era o que me faltava! Alforriar o Liberato! mas por que cargas d’água, seus idiotas?

 ROSINHA – Mas que palavras são essas, mamãe? Veja que está aqui o Senhor Moreira.

 RAMIRO e LOPES – O que queremos é justo, justíssimo! Um pobre diabo que trabalha de graça há vinte anos, e não nos custou um real!

 MOREIRA (Caindo na poltrona, às gargalhadas.) – Ah! Ah! Ah!… Só esta agora me faria rir! Ora estes abolicionistas que querem abolir o que não é seu! Ah! Ah! Ah!

 GONÇALO (À parte.) – Eles não arranjam nada como Dona Perpétua. Oh! com quem se vieram meter! Logo com ela! Boas!…

 LOPES (Dominando com sua voz as demais.) – Bem, agora falo eu! A mana quer receber em dinheiro a parte que lhe toca e a sua mulher… Oh! quero dizer: a seu marido? (Moreira ergue-se.)

 DONA PERPÉTUA (Encarando-o com desdém e encolhendo os ombros.) – Vou lá dentro buscar os meus óculos, para ler esta carta. (Sai pela direita, segundo plano, abrindo a carta. Rosinha vai para a janela.)

 LOPES (A Gonçalo.) – O que diz você, mano Gonçalo?

 GONÇALO (Coçando a cabeça.) – Eu?… Eu?…. Olhe, eu vou ver o Liberato… O médico ainda não veio e… (Sai pela esquerda, primeiro plano.)

 LOPES (A Ramiro, enquanto Moreira vai conversar com Rosinha, à janela.) – Esta casa é hoje a imagem perfeita do país em que vivemos. Cada instituição tem hoje aqui o seu emblema. Nós somos os filantropos: a utopia, o direito; aquele fazendeiro pedante, a lavoura, uma força; a mana e a Rosinha, a representação nacional: imposição, sofisma, sujeição; Gonçalo, o povo, indiferença e pusilanimidade.

 RAMIRO – E lá está o pobre Liberato, para simbolizar a escravatura.

 LOPES (Indo gritar à porta, por onde saiu Dona Perpétua.) – Ah! é assim que nos trata a mana? Pois é uma questão de capricho! Daqui a uma hora o Liberato está livre! (Descendo ao proscênio.) Toma!

 DONA PERPÉTUA (Voltando, com a carta aberta na mão.) – Hein? Como é lá isso? (A Moreira, que desce ao proscênio.) Nem me deram tempo de procurar os óculos!

 LOPES – É isso mesmo! Lei número 2040 de 28 de setembro de 1871. Artigo quarto, parágrafo primeiro. pecúlio do escravo. Quinhentos mil réis! Não lhe digo mais nada! (A Ramiro.) Vamos, meu filho, vamos buscar a guia ao juízo de órfãos, para fazer o depósito no Tesouro.

 RAMIRO – Vamos! (Tomam os chapéus, e saem, arrebatadamente, pela esquerda, segundo plano.)

 Cena IX

 Dona Perpétua, Moreira, Rosinha, à janela

 DONA PERPÉTUA (Atônita, de braços cruzados, depois de uma pausa.) – O que me diz a isto, Senhor Moreira?

 MOREIRA (Muito calmo.) – Digo, Senhora Dona Perpétua, que nunca vi coisa que me surpreendesse tanto! É o resultado das tais conferências abolicionistas! Só servem para semear a discórdia no seio das famílias! Mas que o Senhor Ramiro tenhas estas idéias, vá; até certo ponto merece desculpa… Mas seu irmão, minha senhora, o Senhor Doutor Lopes, um homem que me parecia tão bom, propor a alforria de um negro! Estou perplexo. Ter um negro, um só, e pretender libertá-lo! Eu cá, tenho sessenta e não liberto nem meio!

(Aproximando-se muito dela e baixinho.) E é ao Senhor Ramiro que vão dar a mão daquele anjo? (Aponta para Rosinha, que se tem conservado na janela.) Ao Senhor Ramiro?! Mas pelo amor de Deus, Senhora Dona Perpétua! o procedimento de seu sobrinho autoriza-me a reiterar o pedido que formalmente lhe fiz ainda há pouco, lá na sala de jantar.

 DONA PERPÉTUA (Muito alto.) – É sua a mão de minha filha, Senhor Moreira. (Rosinha volta-se subitamente e desce ao proscênio.) Não há mais que discutir. (Com autoridade, a Rosinha.) Está ouvindo, menina? O Senhor Moreira vai ser teu marido.

 ROSINHA (Naturalmente) – Isso não é comigo, mamãe. (Gesto de satisfação de Moreira.)

 DONA PERPÉTUA – Bem sei, é comigo.

 ROSINHA – Também não é com vossemecê.

 DONA PERPÉTUA – Queres dizer que é com teu pai. Neste casa só se faz o que eu quero.

 ROSINHA – Não duvido, mas eu não pretendo casar nesta casa e sim na igreja.

 DONA PERPÉTUA – Menina!

 MOREIRA (A Rosinha.) – Mas, minha senhora, se isto não é com a senhora, nem com seu pai, nem com sua mãe, com quem é então?

 ROSINHA – É com primo Ramiro.

 DONA PERPÉTUA e MOREIRA – Hein?

 ROSINHA – Certamente. Eu dei o meu coração a primo Ramiro. Para dá-lo a outro homem, é preciso que ele mo restitua.

 DONA PERPÉTUA – Pois tem o descoco de falar desse modo em presença de tua mãe?

 ROSINHA – Quero a minha liberdade. Parece-me que não sou o Liberato! (Vai de mau modo para a janela.)

 DONA PERPÉTUA – Não é o Liberato! Senhor Moreira, segure-me, senão, deito-me a perder.

 MOREIRA (Segurando-a.) – Minha rica senhora, o mundo está perdido. A liberdade anda agora como Salsaparrilha de Bristol.

 DONA PERPÉTUA – Uma menina educada no colégio da Baronesa de Geslin!

 MOREIRA (Segurando-a sempre.) – Já ouvi dizer que é o melhor colégio da corte!

 ROSINHA (Voltando da janela.) – Primo Ramiro aí vem, Senhor Moreira. Peça-lhe que ceda o meu coração. Ofereça luvas. (Vai encostar-se a um consolo da direita.)

Cena X

Dona Perpétua, Moreira, Rosinha, Doutor Lopes, Ramiro

LOPES (Entrando com Ramiro pela esquerda.) – Sai, num estado de tal excitação que me não lembrei de que hoje é domingo e o juízo de órfãos não funciona.

 MOREIRA (Sorrindo.) – Mesmos nos dias úteis, a estas horas já deve estar encerrada a audiência.

 RAMIRO – Vimos ainda uma vez propor-lhes uma conciliação. Recebam os quinhentos mil réis.

 DONA PERPÉTUA (Vai como responder, mas arrepende-se.) – Vou lá dentro buscar os meus óculos para ler esta carta. (Saindo.)

 LOPES – A mesma impertinência de ainda agora.

 MOREIRA – Não é preciso incomodar-se, Senhora Dona Perpétua: se me der licença, eu leio a carta.

 DONA PERPÉTUA – Por favor. (Passa-lhe a carta e Ramiro vai ter com Rosinha.)

 LOPES (Passeando pela sala, à parte.) – Nunca vi homem mais metediço.

 MOREIRA (Depois de ler a assinatura.) – A carta vem de Maricá, mas não é do Major Gaudêncio.

 DONA PERPÉTUA – De quem é então?

 MOREIRA – É do vigário da freguesia. (À parte.) O que será?

 DONA PERPÉTUA – Ah! o vigário é conhecido velho de meu marido. Leia.

 MOREIRA (Lendo.)- “Amigo e Senhor Gonçalo. Vou ter o pesar e ao mesmo tempo o prazer de dar a Vossa Senhoria duas notícias, uma boa e outra má.” (Aproximam-se todos com curiosidade. Grupo.) “Deus foi servido chamar à Sua presença o Senhor Major Gaudêncio”. E esta!

 DONA PERPÉTUA – Pois morreu o compadre?!

 TODOS (Consternados.) – Ah!

 MOREIRA (Continuando a leitura.) – “Abri hoje mesmo o seu testamento. Deixou tudo quanto possui à sua afilhada Dona Rosa, filha de Vossa Senhoria. Os escravos, porém, ficaram livres.”

 ROSINHA – E se o não ficassem, eu libertá-los-ia.

 RAMIRO – Muito bem, Rosinha!

 DONA PERPÉTUA – Era o que havíamos de ver! – Continue, Senhor Moreira.

 MOREIRA (Que tem lido para si o resto da carta, disfarça, fecha-a e entrega-a a Dona Perpétua.) – É só.

 LOPES (Que se acha ao lado do Moreira, e tem também lido.) – Perdão, mas o senhor não leu tudo.

(Toma a carta e abre-a.)

 MOREIRA – Ah! É verdade! Esquecia-me que tenho de jantar com um amigo político à Rua de São Clemente. Minhas senhoras e senhores, passem bem! (Toma o chapéu e sai.)

 ROSINHA – Na verdade, o Senhor Moreira era aqui demais: morreu meu padrinho, já não tinha a quem representar.

 LOPES (Que tem aberto a carta, lendo.) – “O testador impôs apenas uma condição: Dona Rosa só poderá aceitar a herança, casando com seu primo, o Senhor Ramiro Lopes.!

 RAMIRO e ROSINHA – Ah! (Corre um para o outro.)

 RAMIRO – Minha tia, agora não peço: exijo a liberdade do Liberato. A felicidade de sua filha está nas minhas mãos,

 Cena XI

 Dona Perpétua, Rosinha, Ramiro, Doutor Lopes e Gonçalo

GONÇALO (Entrando, fora de si.) – Sabem?… Sabem?… O Liberato…

 TODOS – O que tem?!

 GONÇALO – Morreu!

 TODOS – Morreu?!

 GONÇALO – De repente. Quando entrei no quarto, exalava o último suspiro.

 DONA PERPÉTUA (Desabridamente, depois da muda estupefação geral.) – E eu, que recusei os quinhentos mil réis!…

 LOPES – Com esse dinheiro far-lhe-emos um enterro decente. (A Ramiro.) Disseste que o Liberato simbolizava a escravatura; vês? Decididamente a morte é o único meio eficaz de emancipação.

[Cai o pano]

FIM

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Eliana Ruiz Jimenez (Trova-Legenda: Luar na Praia)

Amar é bom, ame à beça,
o mais que puder amar…
Ame sem medo e sem pressa,
de preferência ao luar!
A. A. de Assis – Maringá/PR

Numa inspiração suprema,
para embelezar o mar,
Deus escreveu um poema
nas entranhas do Luar…
Ademar Macedo – Natal/RN

Os olhos da minha amada
têm o brilho do luar,
e sua cor comparada
às águas azuis do mar!
Alberto Paco – Maringá/PR

Tatuada en azul intenso
  refleja pasos nublados…
  son las olas del mar manso
  que los tienen atrapados.
 Alicia Borgogno – Argentina

O clarão desse luar,
de tom azul-celestial,
me lembra teu meigo olhar
tão profundo e divinal!
Amilton M. Monteiro – São José dos Campos/SP

Tiene la luna divina
reflejo al mar azulado
para un alma peregrina
cielo, mar, luna a su lado
Anahi Duzevich Bezoz – Argentina

Hay un mar, hay una luna
que brilla en la lontananza,
hay soledad en la duna
como sola es mi esperanza
Ángela Desirée Palacios– Venezuela

No sonho do trovador,
 há sempre um mar e uma lua,
 que o inspiram a compor
 a mais bela trova sua !
Angelica Villela Santos- Taubaté/SP

Cai a noite e me enternece
ver, à luz da lua cheia,
com quanto enlevo o mar tece
rendas de espuma na areia!…
Antonio Juraci Siqueira – Belém/PA

Meus passos à beira mar,
vão construindo caminhos,
sob o clarão do luar
entre beijos e carinhos.
Antonio Cabral Filho – Jacarepaguá/RJ

Nesse mar azul, silente,
onde a noite se harmoniza,
tem luar, tão envolvente,
como o olhar de monalisa.
Ari Santos de Campos – Itajaí/SC

Ante a lua, o mar se alteia,
tenta alcança-la na altura,
mas é nos braços da areia,
que encontra a paz que procura!…
Carolina Ramos – Santos/SP

É a lua beijando o mar …
e o mar inspirando a lua …
Querem só se deleitar,
de beleza pura e nua …
Cristina Cacossi – Bragança Paulista./SP

Jorra a luz feito cascata,
pelas mãos do Criador,
quando a lua, Eros de prata,
abre a janela do amor.
Dáguima Verônica – Santa Juliana/MG

Nesta visão tão solene,
 quando a lua beija o mar,
 vejo ali bênção perene
 de Deus a nos confortar.
Dalva de Araujo – Santos/SP

Fruto da emoção que atua,
É o pranto,no meu olhar:
– Nos braços do mar… a lua…
– Nos braços da lua… o mar…
Darly O. Barros – São Paulo/SP

Sobre o mar azul turqueza,
 a  Lua, no céu,  brilhava,
 enfeitando  a  natureza,
 com que feliz, se abraçava!
Delcy Canalles – Porto Alegre/RS

Em noite de lua cheia,
tanta luz por sobre o mar…
Bem mais que o dia, clareia
bela noite de luar!
Diamantino Ferreira – Campos/RJ

Beija a lua e foge o vento.
Receosa ela fita o mar…
e ele estilhaça, ciumento,
em mil cacos o luar.
Dorothy Jansson Moretti – Sorocaba/SP

Numa praia assim, deserta,
numa noite de luar,
vi do céu a porta aberta
e Deus lá dentro a rezar.
Elisabete Aguiar – Mangualde/Portugal

Quando a lua se faz cheia
 argentando o espaço infindo,
 o mar se espraia na areia
 num leque escumoso e lindo!
Francisco José Pessoa – Fortaleza/CE

No mar azul, taciturno,
dos teus olhos ao luar,
ponho o veleiro noturno
do meu sonho a te buscar.
Gabriel Bicalho – Mariana/MG

Refém de beijos e abraços,
de um ir e vir que a dilui,
a praia enfim abre os braços,
e o mar inteiro a possui…
Gilvan Carneiro da Silva – Rio de Janeiro/RJ

Lua cheia sobre o mar
vai prateando suas águas,
colorindo o meu sonhar,
terminando minhas mágoas!
Gislaine Canales – Balneário Camboriú/SC

Onde tudo foi escuro,
mar e lua resplandecem;
sendo assim, eu asseguro:
namorados aparecem!…
Glória Tabet Marson – S. J. dos Campos/ SP

O luar no mar refrata
feixe de raios azuis,
realça a onda e retrata
a praia que nos seduz.
Haroldo Lyra – Fortaleza/CE

Hoje a noite está tão linda
e a lua cheia, tão bela,
que eu não vou dormir ainda:
passo a noite na janela.
Janske Niemann – Curitiba/PR

Foi depois de se banhar
e cuidar do desalinho
que o mar resolveu usar
o seu terno azul-marinho.
Joana D’arc da Veiga – Nova Friburgo/RJ

Qual fanal de branca luz
a lua de azul clareia
o namoro que seduz
o mar a beijar a areia !
João Batista Xavier Oliveira – Bauru/SP

Tendo por espelho o mar
e o espaço embelezando,
a lua, com seu brilhar,
o ar vai romantizando.
Jessé Nascimento – Angra dos Reis/RJ

Na noite do sofrimento,
muitas vezes, nos alcança,
afastando o desalento,
a débil luz da esperança…
José Fabiano – Belo Horizonte/MG

Quando a Lua se retrata
 com seu encanto invulgar,
 traça um caminho de prata
 sobre a esmeralda do mar.
José Lucas de Barros – Natal/RN

Por um caminho de prata
anda a lua sobre o mar.
Toda a alma deve ser grata
por ter alguém para amar.
José Marins – Curitiba/PR

Essa lua descarada
é exibida, além de bela,
porque sabe que mais nada
se compara aos dotes dela!
José Ouverney – Pindamonhangaba/SP

Es la moneda de plata
 que está contemplando el mar
 en pos de una cabalgata
 que seguro ha de ganar.
Libia Beatriz Carciofetti- Argentina

Uau, que foto mais linda,
enluarada de azul
na bela tarde que finda
aqui nas terras do sul…
Lóla Prata – Bragança Paulista/SP

Clara luz, assim brilhante,
Sobre mar azul imenso,
Lua sensual, tão galante
Conduz a um sonho…  intenso!…
Lora Saliba – São José dos Campos/SP

Es un hechizo de luna
 reflejándose en el mar,
 cuando redonda se acuna
 como instándolo a besar.
Maria Cristina Fervier – Argentina

Mar azul, mar trovador,
 tuas ondas encrespadas
 entoam versos de amor
 nas noites enluaradas!
Marina Valente – Bragança Paulista/SP

A noite ficou vazia,
e a lágrima, mais salgada.
Lua cheia e maresia,
nos olhos da madrugada…
Mário A. J. Zamataro – Curitiba/PR

Quando a lua derramava
sobre nós chuva de prata,
um orquestra esparramava,
os sons de uma serenata.
Mifori -São José dos Campos/SP

A lua e mar cor de prata,
vêm inspirar trovador,
que a sonhar faz serenata,
cantando versos de amor!
Nadir Giovanelli – São José dos Campos /SP

Quando a lua, ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar!
Nei Garcez – Curitiba/PR

Sem um “pingo” de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!
Nemésio Prata –Fortaleza/CE

Tenho ciúmes da lua,
 ciúmes loucos, meu bem,
 pois passeia em tua rua…
 e no teu corpo também.
Olympio Coutinho – Belo Horizonte/MG

Numa noite enluarada,
de bela praia sem fim,
sinto a imagem ondulada
das vagas batendo em  mim…
Olga Maria Dias Ferreira – Pelotas/RS

Em seu vai-e-vem bonito,
a lua em seu caminhar…
Enche de luz o infinito,
de prata, as ondas do mar!
Prof. Garcia – Caicó/RN

Pelas esteiras de luz
 deste luar tão profundo,
 o meu sonho me conduz…
 E fica azul o meu mundo!
Renato Alves – Rio de Janeiro/RJ

Espelhando-se no Mar
 que ardentemente a deseja,
 a Lua apaga o luar
 para que o Sol não a veja!
Ruth Farah Nacif Lutterback – Cantagalo/RJ

O luar se faz de prata
e vem descansar na praia,
tanta beleza retrata
que meu ser quase  desmaia !…
Sônia Ditzel Martelo –Ponta Grossa/PR

Ó Lua que estás sozinha
namorando o imenso mar,
tua sorte é igual à minha:
amas quem não vai te amar.
Thalma Tavares – São Simão/SP

Coloco azul no pincel,
pinto o céu, também o mar…
e deixo no alvo papel,
a luz da lua brilhar!
Vanda Alves da Silva – Curitiba/PR

O luar intenso me induz
a crer que Deus guarda o dia,
diz ao céu que acenda a luz…
mas nos cobra uma poesia.
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

Se da lua vão chegando
poemas, gotas de mel,
o luar vai adocicando
os que parecem ter fel.
Victor Batista – Barreiro/Portugal

Nos céus, a Lua vagueia
com o mais intenso esplendor.
E, na Terra, a Lua cheia
tem um nome: Nosso Amor.
Wagner Marques Lopes – Pedro Leopoldo/MG

Já que a lua da cidade
 se perdeu na poluição,
 – oh queimadas, por piedade,
 poupem o luar do sertão!
Wandira Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

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João A. Carrascoza (O Segredo do Casco da Tartaruga)

Logo que aprendeu a ler, o menino começou a fazer descobertas. Um dia estava folheando um livro e se deparou com a palavra “réptil”. Procurou no dicionário e se surpreendeu com o significado: animal que se arrasta. Cobras, por exemplo. Pensava que réptil tinha a ver com rapidez e era justamente o contrário. O pai riu de seu espanto e disse que as tartarugas também eram répteis. Aliás, uma lenda chinesa afirmava que Deus escrevera o segredo da vida no casco de uma tartaruga.
O menino gostou dessa escrita de Deus, que utilizou o casco da tartaruga como se fosse uma folha de papel. O pai lembrou que aprender a ler nos livros era só o começo. Com o tempo, o filho poderia ler no rosto de uma pessoa sua história inteirinha. E bastaria observar os olhos de um amigo para ver se neles brilhava a felicidade. Ou tocar as mãos de um homem do campo para conhecer seus sofrimentos. 
Mas o menino, curioso, queria mesmo era saber qual o segredo da vida. Por isso, começou a se interessar pela vida das tartarugas. Conheceu a tartaruga-de-couro, cujo casco parecia uma bola de capotão. A tartaruga-oliva, que lembrava o verde das azeitonas, e a tracajá, típica da Amazônia. Descobriu que a tartaruga-de-pente tinha esse nome porque de sua carapaça se faziam pentes, bolsas e aros para óculos. E aprendeu tudo sobre a tartaruga-cabeçuda, sobre a tartaruga-gigante, atração das Ilhas Galápagos, e sobre a Ridley, das praias da Costa Rica.
Quanto mais estudava, mais o menino se convencia de que realmente poderia descobrir a escrita de Deus naquelas criaturas que carregavam a casa nas costas. Elas tinham carapaças misteriosas, com desenhos estranhíssimos, círculos coloridos, arestas longitudinais. Algumas até pareciam pintura.
O menino foi crescendo e se tornou especialista em tartarugas. Sabia distinguir uma adolescente de uma adulta e conhecia como ninguém a desova das espécies marinhas no litoral. Mas também descobriu que, assim como procurava o segredo da vida no casco das tartarugas, outras pessoas buscavam a mesma coisa em lugares diferentes: no pulsar das estrelas, no canto dos pássaros, no silêncio dos olhares, no cheiro dos ventos, nas linhas das mãos, no fim do arco-íris. Tudo ao redor podia ser lido, sorriu ele, lembrando-se das palavras de seu pai. E só o tempo, como um professor que pega na mão do aluno, ensinava essa lição, enquanto as pessoas iam fazendo suas descobertas bem devagarzinho — como as tartarugas. Talvez estivesse aí o segredo. 
Fonte:
Revista Nova Escola

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