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Francisco Sobreira (A Pantera)

Bonita. Muito bonita. Os olhos bem abertos, agateados, que davam ao rosto um ar de pantera, a boca parecendo ter o tamanho certo – nem grande, nem pequena. Os braços – e aí um pequeno senão na sua beleza – eram um pouco musculosos, assim formados, certamente, por exercícios em uma academia. Quando a viu pela primeira vez, ela surgindo de repente, com o olhar provocador, foi tomado por uma sensação estranha. Um impacto. Ou, antes, um susto pelo inesperado da presença da moça, como algo ameaçador, embora revestido de beleza. Ela estava colada à vitrine da parte lateral de uma perfumaria, localizada num centro comercial. O que sentiu, de tão forte, quase como se percebesse uma ameaça de agressão (e a beleza dela tinha um quê de agressivo), o fez olhar rapidamente para a moça e continuar a caminhada de todo final de tarde, dando várias voltas pelos dois longos quarteirões, no primeiro dos quais se situava aquele centro comercial. Seguiu com a imagem da moça na cabeça. Atingiu o fim do segundo quarteirão, dobrou à direita, passou em frente a um antigo colégio, depois pegou outra vez a direita e foi percorrendo os dois quarteirões do lado oposto, até alcançar outra vez o centro comercial. Era assim todas as tardes, quando começava a escurecer. Ao se aproximar da farmácia, já se sentia preparado para não sofrer o mesmo efeito de minutos antes e foi até a vitrine, para examinar a moça. E, embora tocado pela agressividade de sua beleza, permaneceu uns dois a três minutos observando detalhadamente o rosto e a mão que segurava um frasco de perfume de nome inglês.

Ao voltar para o apartamento vazio, desfez-se da bermuda, do tênis, da camiseta, enxugou o suor do corpo, escolheu um cd, deitou-se na cama para ouvi-lo. Como fazia todas as tardes, antes de tomar banho e depois comer o jantar frugal. Mas daquela vez ocorreu uma quebra na rotina. Ele ouvia as músicas, mas sem a mesma concentração. Em algumas músicas até que a concentração era inteira (talvez porque fossem as de que gostasse mais), já em outras a imagem da moça se sobrepunha e ele não tinha força para rejeitá-la. Quando mais tarde foi ler, em muitos momentos parecia “ver” a moça presente no relato. Houve uma vez que ao ler a descrição dos olhos de um personagem feminino, imaginou que eles fossem iguais aos dela. Interrompeu a leitura e, com o livro seguro na mão, pôs-se a pensar na moça. E pelo resto da noite não conseguiu livrar-se da sua imagem e teve a certeza, ao deitar-se, de que ela apareceria num sonho, mas isso não ocorreu.

No dia seguinte, ao despertar, o primeiro pensamento foi para ela. Rápida, veio a resolução de tomar a providência de evitá-la, alterando o itinerário da caminhada. Ficou cada vez mais distante da perfumaria, na certeza de que, não vendo a moça, ela sairia da sua cabeça. A providência deu resultado, mas não imediato, por alguns dias a imagem da moça, o ar de pantera, o rosto de uma beleza perfeita surgiam, de repente, por entre as páginas de um livro, no meio de uma música, na tela da televisão. Até que um dia ela desapareceu, afinal. Experimentou uma grande satisfação, como se tivesse ganho um prêmio. Com o passar do tempo, livre dela, chegou a pensar em vê-la outra vez, pois acreditava que não iria lhe acontecer mais nada, a não ser a indiferença. Saiu uma tarde disposto a retomar o antigo itinerário, mas, ao chegar a poucos metros da perfumaria, algo estranho o dominou, impedindo-o de seguir. Voltou, então, pelo caminho que o levara até ali, continuando a caminhada no sentido das outras tardes. Enquanto andava, percebeu, num misto de decepção e raiva, que não estava de todo livre dela.

Um dia foi ao centro da cidade. Fazia anos que não ia lá, para não ser incomodado pelo barulho dos carros de propaganda e do número excessivo de pedintes e de pessoas oferecendo cartões de crédito, empréstimos, entregando papeizinhos de serviços diversos. Mas um amigo lhe dissera que tinha visto numa grande loja o cd que ele procurara, sem sucesso, em outros locais da cidade. Encontrou o cd, após uma busca que levou uns dez minutos, uma única unidade, escondido por outros discos, como se estivesse à sua espera. Pagou-o e, em vez de sair pela entrada, preferiu a porta dos fundos. Ao passar pela seção de perfumaria, sem um razão que justificasse o ato, como impelido por alguma coisa da qual não pudesse escapar, desviou a vista para a parede ao lado. E viu. No alto da parede, ela, os olhos parecendo mais agateados, a expressão no rosto parecendo ainda mais agressiva, olhando desafiadora para ele, dando-lhe a impressão de que quisesse saltar do pôster para cima dele. Virou-se com tanta rapidez que o corpo perdeu um pouco o equilíbrio e precisou apoiar-se numa prateleira para não cair. Logo em seguida, retomou a caminhada, apressado, esbarrando nas pessoas, sem se desculpar, ansioso para encontrar a saída. E mesmo depois de sair da loja, continuou a andar veloz, quase correndo, como se achasse que a moça, tinha de fato, saltado do pôster e, tão rápida quanto ele, viesse em seu encalço. Nem quando entrou no carro, sentiu-se livre. Em disparada voltou para o apartamento.

E, à noite, sonhou com ela.

Fonte:
http://contosbrasileiros.blogspot.com.br/2007/10/francisco-sobreira.html

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Vírgula

Vírgula pode ser uma pausa… ou não.

Não, espere.
Não espere.
 

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.
0,234…

Ela pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.
 

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
 
E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.
 
Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
 
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
 
A vírgula pode ser ofensiva.
Não quero comprar seu porco.
Não quero comprar, seu porco.
 
Uma vírgula muda tudo.
Detalhes Adicionais
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.

Fonte:
Fábulas e Contos

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Cesário Verde (Cabelos)

Pintura de Richard Johnson
Portugal 1955 – 1986

Ó vagas de cabelo esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E, ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e enlanguescer.

E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de verão,
De flácido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos Romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.
…………………………………………………………………….

Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.

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Amadeu Amaral (Memorial de um Passageiro de Bonde) 2. Um Soneto

Saí, hoje, de casa maquinando um soneto. Não foi culpa minha, mas obra do acaso. Lendo um jornal, depara-se-me, perdido no entrecho de uma notícia ordinária, em que se narrava a prisão de uma negrinha gatuna, este retalho de frase: “Toda a ilusão da triste Gabriela…” -Magia do número! Não foi sem razão, ó sombra venerável de Pitágoras! que a pressentiste por tudo nas esferas como nas almas. Repeti duas, três, dez vezes esse pedaço de frase vulgar, que é um verso inteiro e excitante. Gabriela alvejou-se-me e transfigurou-se-me logo na remota imagem de uma linda pessoa que de repente se vira nua de toda ilusão, nua como lady Godiva montada num asno, em meio da praça. Comecei a compor… não, começou a compor-se em mim um soneto:

Já não tens ilusão, ó Gabriela!
Nega-ta o amor, essa comédia triste.
Nega-ta a vida. E em tudo quanto existe,
O espinho do real se te revela.

Subi para o bonde a escandir mentalmente esses decassílabos, que para ser sincero comigo mesmo, não me pareceram maravilhosos. Mas alentava-me a esperança de que pudessem ir melhorando do meio para o fim do soneto. -O que me apepinava um bocado era que as rimas aproveitáveis não se deixavam pegar como frangos de pés amarrados. A memória, afeita a servir-me os torresmos do vocabulário trivial, só me deparava coisas como fivela, moela, espinhela, chiste, alpiste, que não se coadunavam à pura nobreza da inspiração. Encolhi-me, cerrei as pálpebras e atirei-me à caça de boas rimas, exercício muito útil, para refrescar as idéias e especialmente indicado como passatempo higiênico e divertido para homens atarefados, nas horas vagas.

Ia engolfado nesse labor -Cellini do verso! – quando senti que uns dedos me bicavam no ombro. Voltei-me, era o meu amigo Fabiano Alves, prático de farmácia meu vizinho. Bom homem, mas confiado, e ainda com a particularidade esquisita de se achar sempre numa temperatura espiritual completamente diversa da minha.

-“Está calculando?” indagou.

Tive ganas de lhe perguntar que conta lhe fazia que eu estivesse calculando ou voando muito acima do lodaçal do mundo, onde patejam os boticários sem alma.

-“Vem tão concentrado, mexendo com os lábios.”

-“Cá umas coisas.”

Fabiano entrou imediatamente a explicar que era tapadíssimo em questões de cálculo. Decididamente, não dava para essa especialidade. De uma feita, propuseram-lhe um problema, no clube de Periquitos, sua terra natal: “Um pássaro faz sete voltas em redor de uma torre de cantaria em quarenta segundos; quantas torres serão precisas para que sete pássaros façam uma volta…” Mais ou menos isso. Coisa à-toa, simples aplicação da regra de três; podendo-se também resolver rapidamente por análise. Pois levou mais de meia hora para dar com a solução! Uma vergonha.

-“Ainda assim, você é um bicho, Fabiano.”

-“Não; em Matemática, serei bicho, mas de má qualidade: um burrego. De todas as ciências, a que dá com o meu feitio é esta” (e batia com a larga e magra mão sobre a capa de um livro de espiritismo) “é esta, a filosofia.”

E Fabiano falou copiosamente sobre a doutrina espírita, “a mais consoladora de todas”, e em particular sobre a moral, “sem discussão possível, a mais perfeita.”

-“Fabiano” (lhe disse eu, apenas por dizer alguma coisa), “você conhece a moral de Sócrates?

Ele sorriu:

-“Esse, justamente, freqüenta o meu círculo. Um espírito evoluído. Adiantado!”

E dizendo “adiantado”, Fabiano esticou os beiços para um assobio, que deixou subentendido. Mas eu, intrigado, questionei:

-“Como é isso, ó Fabiano? Então Sócrates freqüenta…”

Ele sorriu com bonomia, explicando:

-“Manifesta-se, compreende? Está desencarnado há muitos anos, desde um desastre que houve aqui na Central. Saiu com as pernas esmigalhadas. Nesse mesmo dia visitou uns nossos irmãos, no Pará; por sinal que fez o pobre do aparelho gritar com dores nas pernas!”

Fabiano discorria, discorria. A certeza da verdade dava-lhe um ar de beatitude. “Ele já parecia respirar o eterno, planava além de todas as coisas perecedouras, que vão da molécula às estrelas. Este prático de farmácia, que acabava de largar o almofariz para ir comprar uma porção de calomelanos à drogaria, achava-se absolutamente integrado nos planos perpétuos da vida e do movimento universal. E o curioso é que se consolava com isto.

Ia sorrindo, no bonde, como sorriria um arcanjo na sua biga de chamas, através do infinito, assistindo ao florir e ao despertar das constelações pelos abismos sem fundo. Ou como uma criança contemplando um queimar de rodinhas e traques.

Com isto, deixei de fazer o meu soneto. Quando pretendi reinvocar a inspiração, ela havia batido as asas. Um acaso ma trouxera, um outro ma levou.

Assim acontece com tantas coisas belas e boas da alma! Nascem e morrem por aí na sombra e na bruma da vida larvada. Nascem por acaso, por acaso morrem. E nós caminhamos sobre as flores mortas dos nossos jardins interiores, como um cordão de porcos-do-mato sobre uma camada de pétalas, na época da inumerável florescência dos manacás. Mas entre a preta Gabriela e o boticário Fabiano, minha alma teve um momento de ventura inocente, embalada no berço dos ritmos e dos timbres. E, se não chegou a perpetrar nada, tanto melhor.

O melhor da poesia e de tudo quanto se lhe parece é a elaboração, o estado de graça, a embriaguez esporeante, a doce liberdade interior em que vive quem a elabora ou rumina. Talvez que o mais alto poeta seja um simples ruminante mudo de formas, O mais, vaidade e pretexto.

Bendita a Gabriela, e bendito o Fabiano.

Fonte:
Domínio Público

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Artur Azevedo (O Liberato)

Comédia

Oferecida ao Excelentíssimo Senhor Doutor Joaquim Nabuco

Representada pela primeira vez no Teatro Lucinda do Rio de Janeiro, em 16 de setembro de 1881.

 PERSONAGENS

 GONÇALO
 DOUTOR LOPES
 RAMIRO
 MOREIRA
 DONA PERPÉTUA
 ROSINHA

 A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro, em 1880.

O teatro representa uma sala. Duas janelas ao fundo, duas portas de cada lado, quatro cadeiras e uma poltrona, consolos.

Cena I

Rosinha, debruçada a uma das janelas; Dona Perpétua, entrando da esquerda, primeiro plano; logo depois Gonçalo, da direita, segundo plano.

  DONA PERPÉTUA (Entrando de muito mau humor, com um vergalho na mão.) – Ora valha-me Deus! Não me faltava mais nada!…

 ROSINHA e GONÇALO (Descendo ao proscênio.) – O que foi?

 DONA PERPÉTUA – O diabo do negro – Deus me perdoe! – agora é que se lembrou de cair doente! Como até estas horas não saía do quarto, fui buscá-lo preparada com este vergalho, e encontrei-o ardendo em febre. Desavergonhado!

 GONÇALO (Timidamente.) – O Liberato?

 DONA PERPÉTUA – O Liberato, sim senhor Pois quem havia de ser? É surdo? Que inferno! Esta só a mim acontece!

 ROSINHA – É coisa de cuidado?

 DONA PERPÉTUA – Um negro nunca tem coisa de cuidado! E este diabo, se não fosse valer uns oitocentos mil réis…

 GONÇALO – Vou chamar o médico?

 DONA PERPÉTUA – Vá, homem de Deus, vá! Mexa-se, com todos os demônios! Parece estar a dormir!

 GONÇALO (Vai buscar o seu chapéu sobre o consolo que deve estar entre as duas janelas, e dirige-se para a esquerda, segundo plano. A Rosinha, que se dirige à porta da esquerda, primeiro plano.) – Onde vai?

 ROSINHA (Naturalmente.) – Vou ver o Liberato;

 DONA PERPÉTUA (Com autoridade.) Fique! (Rosinha volta e vai para a janela.) Por causa destas e de outras confianças, é que o demônio do negro…

 GONÇALO (Quase a sair, parando.) – Adoeceu?

 DONA PERPÉTUA – Cale-se. (Gonçalo desaparece) Agora vá lá ficar o dia inteiro, como é seu costume! Que marido! (Sai pela direita, segundo plano.)

 Cena II

Rosinha, só

[ROSINHA] (À janela. Ouvindo dar horas tem um gesto de impaciência e desce ao proscênio.) – Duas horas, e primo Ramiro nada de aparecer! A que será devida esta demora? É o primeiro domingo em que não aparece logo depois do meio dia! Estará doente? (Aplicando o ouvido.) Parece que sobem a escada… Deve ser ele… É ele, é, não me engano… (Aparece Moreira da esquerda, segundo plano.- Vendo-o, despeitada.) – Ora!

Cena III

Rosinha, Moreira

 MOREIRA (Entrando.) – Licença para um. (Dirigindo-se a Rosinha, com muita amabilidade.) Como tem passado, Dona Rosinha? Tem passado bem?

 ROSINHA (Secamente.) – Bem, obrigada.

 MOREIRA (Sentando-se na poltrona. Tem deixado o seu chapéu sobre o consolo que estará entre as duas portas da esquerda.) – Eu vou indo conforme Deus é servido. (Tomando uma pitada de tabaco, movimento este que repete quatro ou cinco vezes durante a peça.) Mamãe está boa?

 ROSINHA – Boa, obrigada. (Vai à janela, a ver se chega o primo.)

 MOREIRA – Não lhe pergunto por papai, porque o encontrei ali na esquina. Disse-me que ia chamar o médico para ver o negro, que caiu doente. Isto de negros, põem-se finos com duas lambadas. Lá na fazenda,
tenho o Doutor Bacalhau que faz milagres!

 ROSINHA (Voltando da janela.) – O senhor viu por aí primo Ramiro?

 MOREIRA (Muito sério.) – Vi, minha senhora, e também vi seu tio!

 ROSINHA (Interessada.) – Onde?

 MOREIRA – Na tal conferência!

 ROSINHA – Que conferência?

 MOREIRA – Pois não sabe que se trama entre nós uma grande conspiração contra a propriedade particular?

 ROSINHA – Uma grande conspiração?

 MOREIRA – Que meia dúzia de rapazolas inconseqüentes, que nada tem que perder, que não possui um moleque ou uma negrinha para remédio, arvorou-se em defender a emancipação dos escravos, empunhando o facho da discórdia, e anda a proclamar urbi et orbi – pelos botequins, pelas gazetas e até pelos teatros – a dilapidação da fortuna particular?!

 ROSINHA – Deveras?

 MOREIRA – Em outra qualquer parte que não fosse o Rio de Janeiro, isto seria uma quadrilha de ladrões; aqui chama-se a isto o Partido Abolicionista! (Erguendo-se percorrendo a cena, de muito mau humor.) Pois não! Uma gente sem eira nem beira, nem ramo de figueira: uns pobres diabos, carregados de esteiras velhas, que se ralam de inveja, quando vêm um cidadão prestante como eu, que possuo cinqüenta escravos, ganhos com o suor do meu rosto! (Surpreendendo um sorriso de Rosinha.) Sim, senhora: ganhei-os com o suor do meu rosto, a trabalhar, (Gesto como se tirasse suor da testa com o polegar.) e não a dizer baboseiras no teatro…

 ROSINHA – E foi no teatro que se encontrou com primo Ramiro?

 MOREIRA – No teatro, sim, senhora: agora há comédias também de dia. E seu primo dava palmas e gritava: — Bravo! – àquela caterva de desmiolados que desejam a ruína do país!

 ROSINHA – Oh!

 MOREIRA – Do país, sim, que depositou na grande lavoura as suas esperanças. — E seu tio, o Doutor Lopes, um homem formado, que deve ter juízo, nem sequer repreendia o filho!

 ROSINHA – Modere-se, Senhor Moreira!

 MOREIRA (Esbravejando.) – A ruína do país ainda não é nada!… Mas o aniquilamento da riqueza particular? E o meu dinheiro?

 ROSINHA – Vejo que o senhor é um patriota…

 MOREIRA – Patriotismo é isto (Bate no ventre.) e isto. (Sinal de dinheiro.) Já não bastava a famosa lei de 28 de setembro, que me obriga a educar moleques que não são meus filhos, e que, se são meus filhos, não são meus escravos! Canalha! (Muito exaltado, e ameaçando, com os punhos cerrados, a porta da rua.) Canalhas!

 ROSINHA – Modere-se.

 MOREIRA – Tem razão; o melhor é não dar-lhes importância. (Põe-se de novo a passear pela sala, proferindo frases entrecortadas. Acalma-se pouco a pouco. Rosinha, durante este passeio, vai de novo à janela ver se chega o primo, e volta. Pausa.)

 ROSINHA – Com que então, o senhor tem cinqüenta escravos, hein?

 MOREIRA (Muito amável, pegando-lhe na mão.) – Cinqüenta escravos que serão seus no dia em que consentir que eu peça a seus pais esta mãozinha.

 ROSINHA (Admirada.) – Que a peça? Mas… para quem?

 MOREIRA – Para mim mesmo; pois para quem há de ser?

 ROSINHA (Retirando-lhe a mão, sorrindo.) – Neste caso, desconfio, meu caro senhor, que os seus escravos nunca serão meus.

 MOREIRA (Desabridamente.) – Veremos.

 ROSINHA – Hein?

 MOREIRA – Pois não é tão bom possuir cinqüenta escravos? Cinqüenta e um, porque eu serei o mais humilde, o mais cativo de todos os seus cativos.

 ROSINHA – Se julga que os meus pais disponham de mim com a mesma facilidade com que o senhor pode dispor de seus escravos…

 MOREIRA – Mas, Dona Rosinha…

 ROSINHA – O senhor bem sabe que meu coração já está dado, e vamos e venhamos – muito bem
dado.

 MOREIRA – Ora o seu coração! Sei que a namora o tal primo Ramiro; mas entre o namoro de um rapaz estabanado, que vai dar palmas a discursos de demagogos de meia tigela, e o amor calmo e refletido de um homem de senso prático, deputado provincial, proprietário agrícola e senhor de cinqüenta escravos, não me parece que haja hesitação possível!

 ROSINHA (À parte.) – É divertido!

 MOREIRA – E depois, nunca ouviu falar das desastrosas conseqüências de matrimônios entre parentes consangüíneos? Quer ter filhos idiotas?

 ROSINHA (Baixando os olhos.) – Senhor Moreira..

 MOREIRA – E eu… como não sou seu primo…

 ROSINHA – Não é meu primo… (Rindo-se.) mas podia ser meu avô…

 MOREIRA – Não exagere: eu tenho apenas cinqüenta anos.

 ROSINHA – Justamente o número de escravos. Nada: prefiro ter filhos idiotas a ter um marido velho. Demais, Deus é bom e misericordioso: não há de permitir que eu seja mãe de idiotas.

 MOREIRA – Se tiver filhos perfeitos, onde irá buscar meios para educá-los? Seu primo é um simples praticante de secretaria…

 ROSINHA – Amanuense, aliás.

 MOREIRA – Ou isso. Eu tenho talvez o dobro da idade dele, não nego; mas gozo de uma posição social definida. Tenho influência política… Não sou amanuense. Ser lavrador é tudo…

 ROSINHA (Atalhando.) -… neste país essencialmente agrícola, já sei… Vou prevenir mamãe de sua visita… (Vai a sair pela direita, segundo plano, e volta-se.) Diga-me cá, Senhor Moreira: seus pais eram
primos? Ah! Ah! Ah!… (Sai)

Cena IV

Moreira, só

[MOREIRA] – Ri-te, ri-te, minha sirigaita. Eu cá farei a cama a teu primo, que é o único obstáculo que se levanta entre nós. Era o que me faltava ver! Ser vencido por amanuense, eu, que sou senhor de trinta escravos…sim, porque, cá entre nós, só tenho trinta escravos. — Ao pai já falei… Mas o Gonçalo nada resolve por si… Felizmente a velha não morre de amores pelo tal priminho… Hei de falar-lhe hoje mesmo… (Depois de uma pequena pausa.) Ah, Major Gaudêncio! Major Gaudêncio! você é que é a causa destas declarações inoportunas de um amor que não sinto. — O caso é este; o Major Gaudêncio, o padrinho desta pequena, é um velho octogenário, que quebrou relações com o compadre por via das impertinências da comadre, e retirou-se para Maricá. Ora, aqui há coisa de mês e meio, o Major Gaudêncio disse-me em confiança que fizera o seu
testamento e, não tendo parentes, instituíra a afilhada herdeira universal de todos os seus bens, que hão de orçar por trinta ou quarenta contos. — Estou, por conseguinte, empregando meios e modos para apanhar esta sorte grande… O diabo é que isto de primos…

Cena V

Moreira, Rosinha, depois Gonçalo

ROSINHA (Da direita, segundo plano.) – Mamãe pede-lhe que faça o favor de ir ter com ela; espera-o na sala de jantar.

 MOREIRA – Lá vou. (Vai saindo pela direita, segundo plano, e para.) Reflita bem: com seu primo, a miséria dos amanuenses; comigo, uma bela fazenda de café, cinqüenta escravos, meia dúzia de apólices de conto de réis e, quando quiser, um título de baronesa. (Sai.)

 ROSINHA (Só.) – Nem todo o ouro da terra, nem todos os títulos do mundo me fazem esquecer do meu Ramiro. (Aplicando o ouvido.) Sobem a escada… Oh! desta vez não pode deixar de ser ele! (Vendo entrar o pai da esquerda, segundo plano, despeitada.) Ora!

 GONÇALO – Já chamei o médico. Onde está mamãe?

 ROSINHA – Lá dentro, na sala de jantar. (Gonçalo vai saindo.) Está lá também o Senhor Moreira.

 GONÇALO (Parando.) – Ah, está lá o Moreira? (Coçando a cabeça.) Este Moreira… (Resolutamente, depois de uma pequena pausa.) Olha, minha filha, tu sabes como é tua mãe… Se ela quiser, não queiras!

 ROSINHA – O quê?

 GONÇALO – Não queiras senão teu primo. Bate-lhe o pé! Se eu estiver do lado da tua mãe, não faças caso: bate-me o pé também a mim…

 ROSINHA – Mas…

 GONÇALO – Aí vem teu primo. Amem-se à vontade. (Sai.)

 ROSINHA – Ele! Finalmente!… (Corre ao encontro de Ramiro, que entra como um raio, pela esquerda, segundo plano, e conserva o chapéu na cabeça.)

Cena VI

Rosinha, Ramiro

RAMIRO – Prima!

 ROSINHA – Por que não vieste há mais tempo?

 RAMIRO – Hoje quase morri!

 ROSINHA – Credo!

 RAMIRO – De entusiasmo!

 ROSINHA – Respiro.

 RAMIRO – Que talentos! que idéias! que eloqüência! que mocidade!

 ROSINHA – Nunca te vi assim!

 RAMIRO – Pudera! Se eu nasci hoje! Até agora, tu, só tu enchias o meu coração; doravante tens uma rival: a liberdade! É que nunca me lembrei de que um milhão e meio de homens amargam neste país a sorte mais bárbara, o mais horrível destino! (Passando.) Oh! viva a liberdade, formosa deusa que ilumina o mundo!

 ROSINHA – Que entusiasmo! Não me faças tu ter ciúme da liberdade!

 RAMIRO – Onde está teu pai!

 ROSINHA – Está lá dentro, mas dize-me…

 RAMIRO – Onde está tua mãe?

 ROSINHA – Lá dentro. Mas… o que tens tu?

 RAMIRO – E o Liberato?

 ROSINHA – Está doente.

 RAMIRO – Vai chamar teu pai, vai chamar tua mãe, vai chamar o Liberato!

 ROSINHA – Mas se te acabo de dizer que o Liberato está doente?

 RAMIRO (Com piedade.) – Doente! doente!… (Outro tom.) Quero aqui reunido um conselho de família!

 ROSINHA – Um conselho de família! Mas o que será, meu Deus!

 RAMIRO – Vai, Rosinha, vai… Trago no coração um peso enorme! Meu pai não pode tardar aí. A sua presença também é indispensável.

 ROSINHA – Mas como estás hoje! Tira o chapéu, dá cá a bengala. (Ramiro obedece. Triste.) Nem sequer me perguntaste como passei.

 RAMIRO (Tomando-lhe as mãos.) – Perdoa, Rosinha, perdoa. Amo-te muito, muito, muito! És um anjo, e eu só me considerarei digno de ti, depois deste conselho de família! – vai chamar teus pais.

 ROSINHA – Vou já. (Sai pela direita, segundo plano, depois de ter posto a um canto a bengala e o chapéu do primo. Ramiro vai ao encontro de Lopes, que entra da esquerda, segundo plano.)

Cena VII

Ramiro, Doutor Lopes

 RAMIRO – Ah, meu pai! Chega em boa ocasião! Mas por que não veio comigo?

 LOPES – Tinha que ir à casa consultar a lei e arranjar os quinhentos mil réis. (Batendo na cabeça.) Cá está a lei (Batendo na algibeira do peito.) e cá está o dinheiro.

 RAMIRO – Compreendo: o pecúlio do escravo.

 LOPES – Já lhes falaste?

 RAMIRO – Ainda não. Convoquei-os a um conselho de família, aqui na sala.

 LOPES – Entusiasmou-me o teu entusiasmo, e a tua humanitária lembrança me encheu de orgulho de ser teu pai. És o homem que eu sonhava, quando te acalentava ao colo. No período abolicionista que atravessamos, ser escravagista já não é mau nem absurdo: é ser ridículo.

 RAMIRO (Olhando para a porta da direita, segundo plano.) Eles aí vem… Eles e… e o Moreira, se não me engano.

 LOPES – O Moreira? Má notícia.

Cena VIII

Ramiro, Lopes, Rosinha, Dona Perpétua, Moreira, Gonçalo

DONA PERPÉTUA (Com impertinente volubilidade, enquanto Rosinha toma a benção a Lopes, e Gonçalo e Moreira, cumprimentam Lopes e Ramiro.) – Viva lá, senhor meu sobrinho! Então Vossa Excelência não se quis dar ao trabalho de entrar? Se nos queria falar, por que não foi lá ter, senhor fidalgo? Quem tem a dor de dentes é que vai ao barbeiro. Tão longe era de cá lá como de lá cá! (Vendo o Doutor Lopes) Olé! também aí está, senhor meu mano? Viva! Como vai de saúde o senhor advogado? Há de fazer o favor de me explicar que farsa é esta de conselho de família, que a Rosinha não soube dizer. Estamos todos reunidos. Diga lá o que pretende, senhor meu sobrinho das dúzias!

 LOPES (À parte.) – É uma máquina Marinoni a falar!

 MOREIRA – Perdão, mas ao que parece, sou aqui demais.

 LOPES (Com desembaraço.) – Na realidade, uma vez que se trata de um conselho de família…

 RAMIRO (Idem) – E não pertencendo o senhor Moreira à família…

 LOPES (Idem) – Que nos conste…

 DONA PERPÉTUA – Não pertence à família, mas… quem sabe? O mundo dá tantas voltas…

 MOREIRA – Isso é verdade, minha senhora: as voltas que o mundo dá! (Indo buscar o seu chapéu à esquerda.)

 DONA PERPÉTUA – Fique. (Toma-lhe o chapéu, e coloca-o onde estava.) O Senhor Moreira é pessoa de nossa amizade; pode assistir ao conselho; pode mesmo tomar parte dele.

 MOREIRA – Nesse caso, peço licença para representar aqui o Major Gaudêncio, que é um quase parente.

 DONA PERPÉTUA – Bem lembrado: representa o compadre Gaudêncio. (Moreira senta-se.)

 LOPES – A falar no Major Gaudêncio. Aqui tem, mano Gonçalo, uma carta de Maricá… Entregou-ma o carteiro, no corredor, quando eu subia.

 DONA PERPÉTUA (Tomando a carta que ia ser entregue ao marido.) – Dê cá. Nesta casa sou eu que abro as cartas. Lerei logo mais, não tenho aqui meus óculos. (Fica com a carta fechada na mão.)

 MOREIRA (Passando perto de Rosinha.) – Este mundo dá tantas voltas!

 RAMIRO (Que observou.) – O que lhe diria ele?

 LOPES – Bem, sentemo-nos. (Colocando a poltrona no centro da cena.) Este é o ligar de honra; deve ficar aqui o dono da casa, para presidir o conselho.

 DONA PERPÉTUA (Sentando-se na poltrona.) O dono da casa sou eu.

 LOPES – Perdão, mana, mas a casa é de Gonçalo.

 DONA PERPÉTUA (Repoltreada.) – Por isso mesmo.

 LOPES – A… mana manda mais que o galo.

 DONA PERPÉTUA (Erguendo-se de um salto.) – Observo-lhe, senhor meu mano, que eu não sou galinha.

 LOPES – Bem! Não val’zangar-se. (Colocando duas cadeiras de cada lado da poltrona.) Senta-te aqui Ramiro. (Fá-lo sentar-se na primeira cadeira a começar da esquerda.) Rosinha, tu aqui. (Na segunda.) O Senhor Moreira ali. (Na quarta.) e eu aqui. (Na terceira. – Estão todos sentados na seguinte ordem, a começar da esquerda: Ramiro, Rosinha, Dona Perpétua, Lopes, Moreira.)

 GONÇALO (De pé.) – E eu?

 DONA PERPÉTUA – Fica onde quiseres. Enquanto deliberamos, vai lá dentro, pega numa agulha e cose. (Gonçalo procura com a vista uma cadeira, e, não a encontrando, vai debruçar-se na sacada ao fundo, ficando de frente para a cena.)

 DONA PERPÉTUA – Está aberto o conselho de família.

 RAMIRO (Erguendo-se.) – Tomo a palavra. Reuni-os para comunicar-lhes uma idéia grandiosa que há duas horas me anda dançando no cérebro.

 LOPES (A uma cara de Dona Perpétua.) – Não se assuste com essa coreografia, mana.

 RAMIRO – Nós possuímos um escravo.

 DONA PERPÉTUA – Um só, infelizmente. Meu pai, teu tio, morreu sem testamento.

 LOPES – Ab intestato.

 DONA PERPÉTUA – Deixou por única herança um escravo. (Lopes ergue-se. Ramiro senta-se.)

 LOPES – Não houve composição entre os herdeiros: o escravo não foi à praça… Como o negro, apesar de ser coisa, não era coisa que se dividisse, sim, porque afinal de contas, eu não podia ficar com a cabeça, ali a mana com uma perna, etc., resolvemos fazer o que em direito se chama uma partilha amigável. O escravo veio prestar serviços à mana, sem deixar, ipso facto de nos pertencer a todos. (Senta-se. Ramiro levanta-se.)

 RAMIRO – Muito bem. Este pobre Liberato, que assim se chama o escravo…

 LOPES – Paradoxo batismal;

 RAMIRO – Esse pobre Liberato há vinte anos que nos presta muito bons serviços.

 DONA PERPÉTUA (Erguendo-se.) Muito bons serviços? Ora, sou sua criada, senhor meu sobrinho! Muito bons serviços! Um desavergonhado! Um preguiçoso! Um beberrão!

 RAMIRO (Com violência.) – Desavergonhado! E quer que tenha vergonha um miserável escravo!

 LOPES (Idem.) – Preguiçoso! E quer que seja ativo quem nunca viu a recompensa do seu trabalho!

 RAMIRO (Idem.) – Beberrão! Nunca se constou que o Liberato bebesse! (Todos se erguem e falam ao mesmo tempo. Gonçalo desce ao proscênio. Confusão geral.)

 RAMIRO – É uma injustiça! Sugar-lhe o sangue durante vinte anos, e, ao cabo, tratá-lo desta sorte!
Isto brada aos céus!

 LOPES – Com isto já contava eu! E então quando a mana souber da idéia do Ramiro! O melhor é tratar já do depósito!

 DONA PERPÉTUA – É um preguiçoso, um beberrão, repito! Não presta para nada! Não me tem dado senão desgostos o maldito do negro!

 ROSINHA – Mas, meu Deus! o que é isto? Fale cada um por sua vez! Assim não se podem entender! Silêncio!

 MOREIRA – E então! Estamos na Assembléia Provincial? Entendam-se!

 GONÇALO – Isto parece mais a Praia do Peixe! Silêncio! Olhem os vizinhos!

 RAMIRO (Conseguindo falar mais alto que os outros, que se calam.) – Há dez anos, em 1870, penetrou um ladrão nesta casa. A senhora, minha tia, viu-o e deu um grito! O ladrão avançou, e matá-la-ia com um punhal, se o Liberato, interpondo-se, não o tivesse subjugado.

 LOPES – A mana deve a vida a esse desavergonhado, a esse beberrão!

 DONA PERPÉTUA – Grande coisa! Pois se o diabo tinha visto o ladrão, e se me ouvira gritar, não fez mais que o seu dever, que era salvar sua senhora!

 RAMIRO – Em que código está prescrito este dever?

 DONA PERPÉTUA – E sabe Deus se o negro não se achava ali com as mesmas intenções do ladrão…

 RAMIRO – Oh!…

 DONA PERPÉTUA – Os negros são capazes de tudo!

 LOPES – Você, mana, é um Clube da Lavoura… de saias…

 DONA PERPÉTUA – E você é um malcriado!

 RAMIRO – Bem, já vejo que perco o meu latim! A minha proposta está prejudicada.

 DONA PERPÉTUA – Mas o que nos queria propor este espirra-canivetes?

 RAMIRO – O quê? Ouça, mas não desmaie!

 LOPES – Tens razão. São necessárias certas precauções. Espera. (Batendo nas mãos.) Um… dois… e..

 RAMIRO – A liberdade do Liberato.

 DONA PERPÉTUA (Saltando.) – O quê?…

 RAMIRO e LOPES – A liberdade do Liberato.

 DONA PERPÉTUA – Isso nem resposta tem. Sabem que mais? Não sejam tolos, seus pedaços d’asnos! (Falam todos a um tempo. Confusão geral.)

 DONA PERPÉTUA – Era o que me faltava! Alforriar o Liberato! mas por que cargas d’água, seus idiotas?

 ROSINHA – Mas que palavras são essas, mamãe? Veja que está aqui o Senhor Moreira.

 RAMIRO e LOPES – O que queremos é justo, justíssimo! Um pobre diabo que trabalha de graça há vinte anos, e não nos custou um real!

 MOREIRA (Caindo na poltrona, às gargalhadas.) – Ah! Ah! Ah!… Só esta agora me faria rir! Ora estes abolicionistas que querem abolir o que não é seu! Ah! Ah! Ah!

 GONÇALO (À parte.) – Eles não arranjam nada como Dona Perpétua. Oh! com quem se vieram meter! Logo com ela! Boas!…

 LOPES (Dominando com sua voz as demais.) – Bem, agora falo eu! A mana quer receber em dinheiro a parte que lhe toca e a sua mulher… Oh! quero dizer: a seu marido? (Moreira ergue-se.)

 DONA PERPÉTUA (Encarando-o com desdém e encolhendo os ombros.) – Vou lá dentro buscar os meus óculos, para ler esta carta. (Sai pela direita, segundo plano, abrindo a carta. Rosinha vai para a janela.)

 LOPES (A Gonçalo.) – O que diz você, mano Gonçalo?

 GONÇALO (Coçando a cabeça.) – Eu?… Eu?…. Olhe, eu vou ver o Liberato… O médico ainda não veio e… (Sai pela esquerda, primeiro plano.)

 LOPES (A Ramiro, enquanto Moreira vai conversar com Rosinha, à janela.) – Esta casa é hoje a imagem perfeita do país em que vivemos. Cada instituição tem hoje aqui o seu emblema. Nós somos os filantropos: a utopia, o direito; aquele fazendeiro pedante, a lavoura, uma força; a mana e a Rosinha, a representação nacional: imposição, sofisma, sujeição; Gonçalo, o povo, indiferença e pusilanimidade.

 RAMIRO – E lá está o pobre Liberato, para simbolizar a escravatura.

 LOPES (Indo gritar à porta, por onde saiu Dona Perpétua.) – Ah! é assim que nos trata a mana? Pois é uma questão de capricho! Daqui a uma hora o Liberato está livre! (Descendo ao proscênio.) Toma!

 DONA PERPÉTUA (Voltando, com a carta aberta na mão.) – Hein? Como é lá isso? (A Moreira, que desce ao proscênio.) Nem me deram tempo de procurar os óculos!

 LOPES – É isso mesmo! Lei número 2040 de 28 de setembro de 1871. Artigo quarto, parágrafo primeiro. pecúlio do escravo. Quinhentos mil réis! Não lhe digo mais nada! (A Ramiro.) Vamos, meu filho, vamos buscar a guia ao juízo de órfãos, para fazer o depósito no Tesouro.

 RAMIRO – Vamos! (Tomam os chapéus, e saem, arrebatadamente, pela esquerda, segundo plano.)

 Cena IX

 Dona Perpétua, Moreira, Rosinha, à janela

 DONA PERPÉTUA (Atônita, de braços cruzados, depois de uma pausa.) – O que me diz a isto, Senhor Moreira?

 MOREIRA (Muito calmo.) – Digo, Senhora Dona Perpétua, que nunca vi coisa que me surpreendesse tanto! É o resultado das tais conferências abolicionistas! Só servem para semear a discórdia no seio das famílias! Mas que o Senhor Ramiro tenhas estas idéias, vá; até certo ponto merece desculpa… Mas seu irmão, minha senhora, o Senhor Doutor Lopes, um homem que me parecia tão bom, propor a alforria de um negro! Estou perplexo. Ter um negro, um só, e pretender libertá-lo! Eu cá, tenho sessenta e não liberto nem meio!

(Aproximando-se muito dela e baixinho.) E é ao Senhor Ramiro que vão dar a mão daquele anjo? (Aponta para Rosinha, que se tem conservado na janela.) Ao Senhor Ramiro?! Mas pelo amor de Deus, Senhora Dona Perpétua! o procedimento de seu sobrinho autoriza-me a reiterar o pedido que formalmente lhe fiz ainda há pouco, lá na sala de jantar.

 DONA PERPÉTUA (Muito alto.) – É sua a mão de minha filha, Senhor Moreira. (Rosinha volta-se subitamente e desce ao proscênio.) Não há mais que discutir. (Com autoridade, a Rosinha.) Está ouvindo, menina? O Senhor Moreira vai ser teu marido.

 ROSINHA (Naturalmente) – Isso não é comigo, mamãe. (Gesto de satisfação de Moreira.)

 DONA PERPÉTUA – Bem sei, é comigo.

 ROSINHA – Também não é com vossemecê.

 DONA PERPÉTUA – Queres dizer que é com teu pai. Neste casa só se faz o que eu quero.

 ROSINHA – Não duvido, mas eu não pretendo casar nesta casa e sim na igreja.

 DONA PERPÉTUA – Menina!

 MOREIRA (A Rosinha.) – Mas, minha senhora, se isto não é com a senhora, nem com seu pai, nem com sua mãe, com quem é então?

 ROSINHA – É com primo Ramiro.

 DONA PERPÉTUA e MOREIRA – Hein?

 ROSINHA – Certamente. Eu dei o meu coração a primo Ramiro. Para dá-lo a outro homem, é preciso que ele mo restitua.

 DONA PERPÉTUA – Pois tem o descoco de falar desse modo em presença de tua mãe?

 ROSINHA – Quero a minha liberdade. Parece-me que não sou o Liberato! (Vai de mau modo para a janela.)

 DONA PERPÉTUA – Não é o Liberato! Senhor Moreira, segure-me, senão, deito-me a perder.

 MOREIRA (Segurando-a.) – Minha rica senhora, o mundo está perdido. A liberdade anda agora como Salsaparrilha de Bristol.

 DONA PERPÉTUA – Uma menina educada no colégio da Baronesa de Geslin!

 MOREIRA (Segurando-a sempre.) – Já ouvi dizer que é o melhor colégio da corte!

 ROSINHA (Voltando da janela.) – Primo Ramiro aí vem, Senhor Moreira. Peça-lhe que ceda o meu coração. Ofereça luvas. (Vai encostar-se a um consolo da direita.)

Cena X

Dona Perpétua, Moreira, Rosinha, Doutor Lopes, Ramiro

LOPES (Entrando com Ramiro pela esquerda.) – Sai, num estado de tal excitação que me não lembrei de que hoje é domingo e o juízo de órfãos não funciona.

 MOREIRA (Sorrindo.) – Mesmos nos dias úteis, a estas horas já deve estar encerrada a audiência.

 RAMIRO – Vimos ainda uma vez propor-lhes uma conciliação. Recebam os quinhentos mil réis.

 DONA PERPÉTUA (Vai como responder, mas arrepende-se.) – Vou lá dentro buscar os meus óculos para ler esta carta. (Saindo.)

 LOPES – A mesma impertinência de ainda agora.

 MOREIRA – Não é preciso incomodar-se, Senhora Dona Perpétua: se me der licença, eu leio a carta.

 DONA PERPÉTUA – Por favor. (Passa-lhe a carta e Ramiro vai ter com Rosinha.)

 LOPES (Passeando pela sala, à parte.) – Nunca vi homem mais metediço.

 MOREIRA (Depois de ler a assinatura.) – A carta vem de Maricá, mas não é do Major Gaudêncio.

 DONA PERPÉTUA – De quem é então?

 MOREIRA – É do vigário da freguesia. (À parte.) O que será?

 DONA PERPÉTUA – Ah! o vigário é conhecido velho de meu marido. Leia.

 MOREIRA (Lendo.)- “Amigo e Senhor Gonçalo. Vou ter o pesar e ao mesmo tempo o prazer de dar a Vossa Senhoria duas notícias, uma boa e outra má.” (Aproximam-se todos com curiosidade. Grupo.) “Deus foi servido chamar à Sua presença o Senhor Major Gaudêncio”. E esta!

 DONA PERPÉTUA – Pois morreu o compadre?!

 TODOS (Consternados.) – Ah!

 MOREIRA (Continuando a leitura.) – “Abri hoje mesmo o seu testamento. Deixou tudo quanto possui à sua afilhada Dona Rosa, filha de Vossa Senhoria. Os escravos, porém, ficaram livres.”

 ROSINHA – E se o não ficassem, eu libertá-los-ia.

 RAMIRO – Muito bem, Rosinha!

 DONA PERPÉTUA – Era o que havíamos de ver! – Continue, Senhor Moreira.

 MOREIRA (Que tem lido para si o resto da carta, disfarça, fecha-a e entrega-a a Dona Perpétua.) – É só.

 LOPES (Que se acha ao lado do Moreira, e tem também lido.) – Perdão, mas o senhor não leu tudo.

(Toma a carta e abre-a.)

 MOREIRA – Ah! É verdade! Esquecia-me que tenho de jantar com um amigo político à Rua de São Clemente. Minhas senhoras e senhores, passem bem! (Toma o chapéu e sai.)

 ROSINHA – Na verdade, o Senhor Moreira era aqui demais: morreu meu padrinho, já não tinha a quem representar.

 LOPES (Que tem aberto a carta, lendo.) – “O testador impôs apenas uma condição: Dona Rosa só poderá aceitar a herança, casando com seu primo, o Senhor Ramiro Lopes.!

 RAMIRO e ROSINHA – Ah! (Corre um para o outro.)

 RAMIRO – Minha tia, agora não peço: exijo a liberdade do Liberato. A felicidade de sua filha está nas minhas mãos,

 Cena XI

 Dona Perpétua, Rosinha, Ramiro, Doutor Lopes e Gonçalo

GONÇALO (Entrando, fora de si.) – Sabem?… Sabem?… O Liberato…

 TODOS – O que tem?!

 GONÇALO – Morreu!

 TODOS – Morreu?!

 GONÇALO – De repente. Quando entrei no quarto, exalava o último suspiro.

 DONA PERPÉTUA (Desabridamente, depois da muda estupefação geral.) – E eu, que recusei os quinhentos mil réis!…

 LOPES – Com esse dinheiro far-lhe-emos um enterro decente. (A Ramiro.) Disseste que o Liberato simbolizava a escravatura; vês? Decididamente a morte é o único meio eficaz de emancipação.

[Cai o pano]

FIM

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Eliana Ruiz Jimenez (Trova-Legenda: Luar na Praia)

Amar é bom, ame à beça,
o mais que puder amar…
Ame sem medo e sem pressa,
de preferência ao luar!
A. A. de Assis – Maringá/PR

Numa inspiração suprema,
para embelezar o mar,
Deus escreveu um poema
nas entranhas do Luar…
Ademar Macedo – Natal/RN

Os olhos da minha amada
têm o brilho do luar,
e sua cor comparada
às águas azuis do mar!
Alberto Paco – Maringá/PR

Tatuada en azul intenso
  refleja pasos nublados…
  son las olas del mar manso
  que los tienen atrapados.
 Alicia Borgogno – Argentina

O clarão desse luar,
de tom azul-celestial,
me lembra teu meigo olhar
tão profundo e divinal!
Amilton M. Monteiro – São José dos Campos/SP

Tiene la luna divina
reflejo al mar azulado
para un alma peregrina
cielo, mar, luna a su lado
Anahi Duzevich Bezoz – Argentina

Hay un mar, hay una luna
que brilla en la lontananza,
hay soledad en la duna
como sola es mi esperanza
Ángela Desirée Palacios– Venezuela

No sonho do trovador,
 há sempre um mar e uma lua,
 que o inspiram a compor
 a mais bela trova sua !
Angelica Villela Santos- Taubaté/SP

Cai a noite e me enternece
ver, à luz da lua cheia,
com quanto enlevo o mar tece
rendas de espuma na areia!…
Antonio Juraci Siqueira – Belém/PA

Meus passos à beira mar,
vão construindo caminhos,
sob o clarão do luar
entre beijos e carinhos.
Antonio Cabral Filho – Jacarepaguá/RJ

Nesse mar azul, silente,
onde a noite se harmoniza,
tem luar, tão envolvente,
como o olhar de monalisa.
Ari Santos de Campos – Itajaí/SC

Ante a lua, o mar se alteia,
tenta alcança-la na altura,
mas é nos braços da areia,
que encontra a paz que procura!…
Carolina Ramos – Santos/SP

É a lua beijando o mar …
e o mar inspirando a lua …
Querem só se deleitar,
de beleza pura e nua …
Cristina Cacossi – Bragança Paulista./SP

Jorra a luz feito cascata,
pelas mãos do Criador,
quando a lua, Eros de prata,
abre a janela do amor.
Dáguima Verônica – Santa Juliana/MG

Nesta visão tão solene,
 quando a lua beija o mar,
 vejo ali bênção perene
 de Deus a nos confortar.
Dalva de Araujo – Santos/SP

Fruto da emoção que atua,
É o pranto,no meu olhar:
– Nos braços do mar… a lua…
– Nos braços da lua… o mar…
Darly O. Barros – São Paulo/SP

Sobre o mar azul turqueza,
 a  Lua, no céu,  brilhava,
 enfeitando  a  natureza,
 com que feliz, se abraçava!
Delcy Canalles – Porto Alegre/RS

Em noite de lua cheia,
tanta luz por sobre o mar…
Bem mais que o dia, clareia
bela noite de luar!
Diamantino Ferreira – Campos/RJ

Beija a lua e foge o vento.
Receosa ela fita o mar…
e ele estilhaça, ciumento,
em mil cacos o luar.
Dorothy Jansson Moretti – Sorocaba/SP

Numa praia assim, deserta,
numa noite de luar,
vi do céu a porta aberta
e Deus lá dentro a rezar.
Elisabete Aguiar – Mangualde/Portugal

Quando a lua se faz cheia
 argentando o espaço infindo,
 o mar se espraia na areia
 num leque escumoso e lindo!
Francisco José Pessoa – Fortaleza/CE

No mar azul, taciturno,
dos teus olhos ao luar,
ponho o veleiro noturno
do meu sonho a te buscar.
Gabriel Bicalho – Mariana/MG

Refém de beijos e abraços,
de um ir e vir que a dilui,
a praia enfim abre os braços,
e o mar inteiro a possui…
Gilvan Carneiro da Silva – Rio de Janeiro/RJ

Lua cheia sobre o mar
vai prateando suas águas,
colorindo o meu sonhar,
terminando minhas mágoas!
Gislaine Canales – Balneário Camboriú/SC

Onde tudo foi escuro,
mar e lua resplandecem;
sendo assim, eu asseguro:
namorados aparecem!…
Glória Tabet Marson – S. J. dos Campos/ SP

O luar no mar refrata
feixe de raios azuis,
realça a onda e retrata
a praia que nos seduz.
Haroldo Lyra – Fortaleza/CE

Hoje a noite está tão linda
e a lua cheia, tão bela,
que eu não vou dormir ainda:
passo a noite na janela.
Janske Niemann – Curitiba/PR

Foi depois de se banhar
e cuidar do desalinho
que o mar resolveu usar
o seu terno azul-marinho.
Joana D’arc da Veiga – Nova Friburgo/RJ

Qual fanal de branca luz
a lua de azul clareia
o namoro que seduz
o mar a beijar a areia !
João Batista Xavier Oliveira – Bauru/SP

Tendo por espelho o mar
e o espaço embelezando,
a lua, com seu brilhar,
o ar vai romantizando.
Jessé Nascimento – Angra dos Reis/RJ

Na noite do sofrimento,
muitas vezes, nos alcança,
afastando o desalento,
a débil luz da esperança…
José Fabiano – Belo Horizonte/MG

Quando a Lua se retrata
 com seu encanto invulgar,
 traça um caminho de prata
 sobre a esmeralda do mar.
José Lucas de Barros – Natal/RN

Por um caminho de prata
anda a lua sobre o mar.
Toda a alma deve ser grata
por ter alguém para amar.
José Marins – Curitiba/PR

Essa lua descarada
é exibida, além de bela,
porque sabe que mais nada
se compara aos dotes dela!
José Ouverney – Pindamonhangaba/SP

Es la moneda de plata
 que está contemplando el mar
 en pos de una cabalgata
 que seguro ha de ganar.
Libia Beatriz Carciofetti- Argentina

Uau, que foto mais linda,
enluarada de azul
na bela tarde que finda
aqui nas terras do sul…
Lóla Prata – Bragança Paulista/SP

Clara luz, assim brilhante,
Sobre mar azul imenso,
Lua sensual, tão galante
Conduz a um sonho…  intenso!…
Lora Saliba – São José dos Campos/SP

Es un hechizo de luna
 reflejándose en el mar,
 cuando redonda se acuna
 como instándolo a besar.
Maria Cristina Fervier – Argentina

Mar azul, mar trovador,
 tuas ondas encrespadas
 entoam versos de amor
 nas noites enluaradas!
Marina Valente – Bragança Paulista/SP

A noite ficou vazia,
e a lágrima, mais salgada.
Lua cheia e maresia,
nos olhos da madrugada…
Mário A. J. Zamataro – Curitiba/PR

Quando a lua derramava
sobre nós chuva de prata,
um orquestra esparramava,
os sons de uma serenata.
Mifori -São José dos Campos/SP

A lua e mar cor de prata,
vêm inspirar trovador,
que a sonhar faz serenata,
cantando versos de amor!
Nadir Giovanelli – São José dos Campos /SP

Quando a lua, ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar!
Nei Garcez – Curitiba/PR

Sem um “pingo” de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!
Nemésio Prata –Fortaleza/CE

Tenho ciúmes da lua,
 ciúmes loucos, meu bem,
 pois passeia em tua rua…
 e no teu corpo também.
Olympio Coutinho – Belo Horizonte/MG

Numa noite enluarada,
de bela praia sem fim,
sinto a imagem ondulada
das vagas batendo em  mim…
Olga Maria Dias Ferreira – Pelotas/RS

Em seu vai-e-vem bonito,
a lua em seu caminhar…
Enche de luz o infinito,
de prata, as ondas do mar!
Prof. Garcia – Caicó/RN

Pelas esteiras de luz
 deste luar tão profundo,
 o meu sonho me conduz…
 E fica azul o meu mundo!
Renato Alves – Rio de Janeiro/RJ

Espelhando-se no Mar
 que ardentemente a deseja,
 a Lua apaga o luar
 para que o Sol não a veja!
Ruth Farah Nacif Lutterback – Cantagalo/RJ

O luar se faz de prata
e vem descansar na praia,
tanta beleza retrata
que meu ser quase  desmaia !…
Sônia Ditzel Martelo –Ponta Grossa/PR

Ó Lua que estás sozinha
namorando o imenso mar,
tua sorte é igual à minha:
amas quem não vai te amar.
Thalma Tavares – São Simão/SP

Coloco azul no pincel,
pinto o céu, também o mar…
e deixo no alvo papel,
a luz da lua brilhar!
Vanda Alves da Silva – Curitiba/PR

O luar intenso me induz
a crer que Deus guarda o dia,
diz ao céu que acenda a luz…
mas nos cobra uma poesia.
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

Se da lua vão chegando
poemas, gotas de mel,
o luar vai adocicando
os que parecem ter fel.
Victor Batista – Barreiro/Portugal

Nos céus, a Lua vagueia
com o mais intenso esplendor.
E, na Terra, a Lua cheia
tem um nome: Nosso Amor.
Wagner Marques Lopes – Pedro Leopoldo/MG

Já que a lua da cidade
 se perdeu na poluição,
 – oh queimadas, por piedade,
 poupem o luar do sertão!
Wandira Fagundes Queiroz – Curitiba/PR

Fonte:

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João A. Carrascoza (O Segredo do Casco da Tartaruga)

Logo que aprendeu a ler, o menino começou a fazer descobertas. Um dia estava folheando um livro e se deparou com a palavra “réptil”. Procurou no dicionário e se surpreendeu com o significado: animal que se arrasta. Cobras, por exemplo. Pensava que réptil tinha a ver com rapidez e era justamente o contrário. O pai riu de seu espanto e disse que as tartarugas também eram répteis. Aliás, uma lenda chinesa afirmava que Deus escrevera o segredo da vida no casco de uma tartaruga.
O menino gostou dessa escrita de Deus, que utilizou o casco da tartaruga como se fosse uma folha de papel. O pai lembrou que aprender a ler nos livros era só o começo. Com o tempo, o filho poderia ler no rosto de uma pessoa sua história inteirinha. E bastaria observar os olhos de um amigo para ver se neles brilhava a felicidade. Ou tocar as mãos de um homem do campo para conhecer seus sofrimentos. 
Mas o menino, curioso, queria mesmo era saber qual o segredo da vida. Por isso, começou a se interessar pela vida das tartarugas. Conheceu a tartaruga-de-couro, cujo casco parecia uma bola de capotão. A tartaruga-oliva, que lembrava o verde das azeitonas, e a tracajá, típica da Amazônia. Descobriu que a tartaruga-de-pente tinha esse nome porque de sua carapaça se faziam pentes, bolsas e aros para óculos. E aprendeu tudo sobre a tartaruga-cabeçuda, sobre a tartaruga-gigante, atração das Ilhas Galápagos, e sobre a Ridley, das praias da Costa Rica.
Quanto mais estudava, mais o menino se convencia de que realmente poderia descobrir a escrita de Deus naquelas criaturas que carregavam a casa nas costas. Elas tinham carapaças misteriosas, com desenhos estranhíssimos, círculos coloridos, arestas longitudinais. Algumas até pareciam pintura.
O menino foi crescendo e se tornou especialista em tartarugas. Sabia distinguir uma adolescente de uma adulta e conhecia como ninguém a desova das espécies marinhas no litoral. Mas também descobriu que, assim como procurava o segredo da vida no casco das tartarugas, outras pessoas buscavam a mesma coisa em lugares diferentes: no pulsar das estrelas, no canto dos pássaros, no silêncio dos olhares, no cheiro dos ventos, nas linhas das mãos, no fim do arco-íris. Tudo ao redor podia ser lido, sorriu ele, lembrando-se das palavras de seu pai. E só o tempo, como um professor que pega na mão do aluno, ensinava essa lição, enquanto as pessoas iam fazendo suas descobertas bem devagarzinho — como as tartarugas. Talvez estivesse aí o segredo. 
Fonte:
Revista Nova Escola

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Amadeu Baptista (1953)

Amadeu Baptista nasceu no Porto/Portugal a 6 de Maio de 1953. 
Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 
É membro da Associação Portuguesa de Escritores e do Pen Clube Português. 
Colaboração dispersa em jornais, revistas, livros colectivos e antologias nos seguintes países: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, E.U. A., Espanha, França, Grã-Bretanha, Itália, México, Portugal, Roménia e Uruguai. 
Poemas seus foram traduzidos para alemão, castelhano, catalão, francês, hebraico, italiano, inglês e romeno. 
É divulgador em Portugal de poetas espanhóis e hispano-americanos. 
Fundou e co-dirigiu (com Álvaro Holstein Ferreira e Vergílio Alberto Vieira) a publicação Babel – fascículos de poesia, e co-organizou (com Egito Gonçalves) a revista Orfeu 4. 
Organização de antologias: Quanta Terra!!! – Poesia e Prosa Brasileira Contemporânea, 2001; Álbum de Acenos – Antologia de Poesia e Fotografia, 2001; Poesia Digital – 7 poetas dos anos 80, em col. com José Emílio-Nelson, Porto, 2003. 
Integrou 
o Júri do Grande Prémio de Poesia APE/CTT relativo ao ano editorial de 1993, 1997 e 2003; 
o Júri do Grande Prémio de Literatura Biográfica APE/C.M. do Porto relativo ao ano editorial de 1997 e  
o Júri do Grande Prémio do Conto APE/Câmara de Vila Nova de Famalicão, relativo ao ano editorial de 1999. 
Obras publicadas
As Passagens Secretas, Coimbra, 1982; 
Green Man & French Horn (in A Jovem Poesia Portuguesa/2, em col.), Porto, 1985; 
Maçã [Prémio José Silvério de Andrade – Foz Côa Cultural, 1985], Porto, 1986; 
Kefiah, Viana do Castelo, 1988; 
O Sossego da Luz, Porto, 1989; 
Desenho de Luzes (edição galaico-portuguesa), Corunha, Galiza, Espanha, 1997; 
Arte do Regresso (pelo primeiro capítulo deste livro, Cúmplices, recebeu o Prémio Pedro Mir, na categoria de Língua Portuguesa, promovido pela revista Plural, da Cidade do México, em 1993), Porto, 1999; 
As Tentações, Santarém, 1999; A Sombra Iluminada (in Douro: Um Percurso de Segredos, em col.), s/l, 2000; 
A Noite Ismaelita, Guimarães, 2000; 
A Construção de Nínive, Porto, 2001; 
Paixão (Prémio Vítor Matos e Sá, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2001 e Prémio Teixeira de Pascoaes, 2004), Porto, 2003; 
Sal Negro (in Sal Negro Sal Branco com 25 fotografias de Rosa Reis) Almada, 2003; 
O Som do Vermelho – tríptico poético sobre pintura de Rogério Ribeiro, Porto, 2003; 
O Claro Interior [Prémio de Poesia e Ficção de Almada – 2000 / poesia], Almada, 2004; 
Salmo (com a reprodução de um desenho de Rogério Ribeiro), Porto, 2004; 
Negrume (com desenhos de Ana Biscaia), Lisboa, 2006; 
Antecedentes Criminais (Antologia Pessoal 1982-2007), Vila Nova de Famalicão, 2007; 
O Bosque Cintilante [Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, 2007], Vila Nova de Azeitão, 2007 (ed. fora do mercado); 
Balada da Neve e Outros Poemas, Maputo, Moçambique; 
Outros Domínios (Clamor por Florbela Espanca) – [Prémio Literário Florbela Espanca, 2007], Vila Viçosa, 2008; 
O Bosque Cintilante [id.], Porto, 2008. 
Fonte:
Jornal de Poesia

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Alcy Cheuiche (Poemas Avulsos)

ANITA GARIBALDI
(gravada em forma de canção por Marlene Pastro
com arranjo musical do Maestro Adolph Hülsberg)

 Na beira da praia
na longínqua Itália
Anita contempla
as ondas do mar
A mão poderosa
de um louro pirata
levou-a pra longe
da terra natal

Anita morena
da pele macia
amante de noite
soldado de dia
um filho num braço
no outro um fuzil

Guerreira farrapa
guerreira uruguaia
guerreira italiana
rolando na cama
nos braços de um homem
com cheiro de mar

Anita morena
da pele macia
amante de noite
soldado de dia
um filho num braço
no outro um fuzil

Anita menina
da verde Laguna
mulher farroupilha
legaste teu sangue
fizeste tuas filhas
a todas mulheres
do sul do Brasil

Anita morena
da pele macia
amante de noite
soldado de dia
um filho num braço
no outro um fuzil

PAYADA DOS CHIMANGO

 CHIMANGO é gavião campeiro
da planície americana,
ave nativa que irmana,
no lenço branco altaneiro,
um partido brasileiro
que abriu picadas na História,
dividindo sua glória
com o lenço colorado,
irmãos do mesmo passado
que vive em nossa memória.

CHIMANGO é também poesia,
o livro de um payador,
versos de ódio e amor,
gauchesca rebeldia.
Um protesto que recria,
cantada junto ao bandônio,
“a vida de um tal Antônio,
Chimango por sobrenome,
magro como o lobisomem,
mesquinho como o demônio.

 Nos cerros de Caçapava
foi que viu a luz do dia
esta chucra confraria,
que há muito tempo sonhava
clavar a suerte na tava
da união continentina:
BRASIL irmão da ARGENTINA,
da BOLÍVIA e PARAGUAI,
irmanado ao URUGUAI e
à AMÉRICA LATINA.

 CHIMANGOS são payadores,
dançarinos, mesnestréis.
Acima de tudo fiéis
à terra dos seus amores.
Mas voam com os condores
que passam na Cordilheira,
a montanha feiticeira
que vai unir nossa gente,
ELOS DA MESMA CORRENTE,
PÁTRIAS DA MESMA BANDEIRA.

 ARGENTINA! Pátria amada
do grande José Hernandez.
Da Patagônia até os Andes,
a mesma terra adorada.
Milongas na madrugada
cruzando a nossa fronteira
e a DANÇA DA CHACARERA
erguendo pó nos fandangos.
Carlos Gardel e seus tangos
no rádio de cabeceira.

 Teu nome é feito de prata,
teu nome é feito de luz.
A lança, a espada e a cruz,
que a tua História retrata.
Índios da pampa e da mata,
europeus vindos dos mares,
mesclando-se em avatares
de alma e sangue guerreiro:
El pueblo de Martín Fierro
que só ajoelha nos altares.

 PARAGUAI das reduções
do socialismo cristão,
tua capital, Assunção,
arrebata os corações.
São lindas tuas canções,
no azul do Ipacaraí,
e o idioma guarani
conosco não tem fronteira:
bailando LA GALOPERA
llegamos cerca de ti.

 BOLÍVIA! Das tuas alturas,
tradição Quíchua e Aimara.
Flautas feitas de taquara,
vento frio e pedra dura.
Misteriosas criaturas,
herdeiras de antigos templos
cantando amor e lamentos
na força de seus bailados.
Vestindo ponchos bordados
com as cores do firmamento.

 Gauderiamos na cultura
das Nações do Continente,
não para ser diferentes,
mas em busca de água pura.
E a tradição que perdura,
mostrada em forma de dança,
é um bailado de esperança,
de fé e de liberdade,
unindo o campo à cidade,
num laço da mesma trança.

 Do Forte da nossa terra,
nenhuma pedra rolou,
apenas se desgarrou
algum gaúcho na guerra.
E qual um touro que berra
no centro do seu rodeio,
o Forte ficou no meio
da cidade que se expande
testemunha do RIO GRANDE
nos tempos do pastoreio.

 CAÇAPAVA! Terra linda
como as mulheres do pago!
Tua presença é um afago
em nossa paisagem infinda.
Voltar a ti é ainda
o que mais nos arrebata.
E se a saudade maltrata,
se dói no peito esta ausência:
VOLTA O CHIMANGO À QUERÊNCIA!
Verde Clareira da Mata.

QUE DIACHO! EU GOSTAVA DO MEU CUSCO

Entendo. Envelheci entendendo.
Bicho não tem alma, eu sei bem,
mas será que vivente tem?

Que diacho! Eu gostava do meu cusco.
Era uma guaipeca amarelo,
baixinho, de perna torta,
que me seguiu num domingo,
de volta de umas carreira.

Eu andava meio abichornado,
bebendo mais que o costume,
essas coisa de rabicho, de ciúme,
vocês me entendem, ele entendeu.

Passei o dia bebendo
e ele ali no costado
me olhando de atravessado,
esperando por comida.

Nesse tempo era magrinho
que aparecia as costela.
Depois pegou mais estado
mas nunca foi de engordá.

Quando veio meu guisado,
dei quase tudo prá ele.
Um pouco, por pena dele,
e outro, que nesse dia,
só bebida eu engolia
por causa dos pensamento.

Já pela entrada do sol,
ainda pensando na moça
e nas miséria da vida,
toquei de volta prás casa
e vi que o cusco magrinho
vinha troteando pertinho,
com um jeito encabulado.

Volta prá casa, guaipeca!
Ralhei e ralhei com ele.
Parava um puco, fugia,
farejava qualquer coisa,
depois voltava prá mim.
O capataz não gostou,
na estância só tinha galgo,
mas o guaipeca ficou.

Botei o nome de sorro,
as crianças, de brinquinho,
mas o nome que pegou
foi de guaipeca amarelo.

Mas nome não é o que importa.
Bicho não tem alma, eu sei bem.
Mas será que vivente tem?

Ficou seis anos na estância.
Lidava com gado e ovelha
sempre atento e voluntário.
Se um boi ganhava no mato,
o guaipeca só voltava
depois de tirá prá fora.

E nunca mordeu ninguém!
Nem as índia da cozinha
que inticava com ele.
Nem ovelha, nem galinha,
nem quero-quero, avestruz.
Com lagarto, era o primeiro
e mesmo piquininho
corria mais do que um pardo.

E tudo ia tão bem…
Até que um dia azarado
o patrãozinho noivou
e trouxe a noiva prá estância.

Era no mês de janeiro,
os patrão tava na praia,
e veio um mundo de gente,
tudo em roupa diferente,
até colar, home usava,
e as moça meio pelada,
sem sê na hora do banho,
imagino lá no arroio,
o retoço da moçada.

Mas bueno, sou doutro tempo,
das trança e saia rodada,
até aí não tem nada,
que a gente respeita os branco,
olha e finge que não vê.
O pior foi o meu cusco,
que não entendeu, por bicho,
a distância que separa
um guaipeca de peão
da cachorrinha mimosa
da noiva do meu patrão.

Era quase de brinquedo
a cachorrinha da moça.
Baixinha, reboladera,
pêlo comprido e tratado,
andava só na coleira
e tinha medo de tudo,
por qualquer coisa acoava.

Meu cusco perdeu o entono
quando viu a cachorrinha.
E les juro que a bichinha
também gostou do meu baio.
Mas namoro, só de longe
que a cusca era mais cuidada
que touro de exposição.

Mas numa noite de lua,
foi mais forte a natureza.
A cadela tava alçada
e o guaipeca atrás dela
entrou por uma janela
e foi uma gritaria
quando encontraram os dois.

Achei graça na aventura,
até que chegou o mocito,
o filho do meu patrão,
e disse prá o Vitalício
que tinha fama de ruim:
Benefecia o guaipeca
prá que respeite as família!
Parecia até uma filha
que o cusco tinha abusado.

Perdão, le disse, o coitado
não entende dessas coisa.
Deixe qu’eu leve prá o posto
do fundo, com meu cumpadre,
depois que passá o verão.
Capa o cusco, Vitalício!
E tu, pega os teus pertence
e vai buscá teu cavalo.

Me deu uma raiva por dentro
de sê assim despachado
por um piazito mijado
e ainda usando colar.
Mas prometi aqui prá dentro:
mesmo filho do patrão,
no meu cusco ninguém toca.
Pego ele, vou m’embora
e acabou-se a função.

Que diacho! Eu gostava do meu cusco.
Bicho não tem alma, eu sei bem.
Mas será que vivente tem?

Campiei ele no galpão,
nos brete, pelas mangueira
e nada do desgraçado.
No fim, já meio cansado,
peguei o ruano velho
e fui buscá o meu cavalo.

Com o tordilho por diante,
vinha pensando na vida.
Posso entrá numa comparsa,
mesmo no fim das esquila.
Depois ajeito os apero
e busco colocação,
nem que seja de caseiro,
se nã me ajustam de peão.
E levo o cusco comigo
pois foi o único amigo
que nunca negou a mão.

Nisso, ouvi a gritaria
e os ganido do meu cusco
que era um grito de susto,
de medo, um grito de horror.
Toquei a espora no ruano
mas era tarde demais.
Tinham feito a judiaria
e o pobrezinho sangrava,
sangrava de fazê poça
e já chorava fraquinho.

Peguei o cusco no colo
e apertei o coração.
O sangue tava fugindo,
não tinha mais esperança.
O cusco foi se finando
e os meus olho chorando,
chorando como criança.

Que diacho! Eu gostava do meu cusco.
Bicho não tem alma, eu sei bem.
Mas será que vivente tem?
Nessa hora desgraçada
o tal mocito voltou
prá sabê pelo serviço.
Botei o cusco no chão,
passei a mão no facão
e dei uns grito com ele,
com ele e com o Vitalício!

Ele puxô do revólver
mas tava perto demais.
Antes que a bala saísse,
cortei ele prá matá.
Foi assim, bem direitinho.
Não tô aqui prá menti.
É verdade qu’eu fugi
mas depois me apresentei.
Me julgaram e condenaram
mas o pior que assassino,
foi dizerem que o motivo
era pouco prá o que fiz…

Que diacho! Eu gostava do meu cusco.
Bicho não tem alma, eu sei bem.
Mas será que vivente tem?

Fonte:
http://www.alcycheuiche.com.br/poesias.htm

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Fernando Sabino (Meras Coincidencias)

Alguém me dá notícia de um livro sobre coincidências, cuja tese é a de que elas não existem.

Realmente, o número de incidências que não coincidem é infinitamente maior – mas, ainda assim, como não se surpreender com as que acontecem? O tal livro não deve ser o de Koestler, que já andei lendo: se não me engano, ele admite e justifica as coincidências.

O caso do carro de Pedro Gomes, por exemplo. Ainda me lembro a expressão descrente de seu rosto, perguntando se eu sabia onde ele poderia encontrar uma calota para o carro já antigo que possuía então:

– No último domingo eu ia passando pela Avenida Atlântica, e uma calota caiu. Só fui perceber muito adiante, quando alguém na rua me avisou. Voltei para apanhar, não achei. E igual não existe mais para vender.

– Talvez na Mil – sugeri: – Aquela casa de acessórios para automóveis na Rua México.

– Acho que lá só vendem peças novas.

– Não custa tentar – insisti.

Dias depois ele me procurava para contar o que lhe havia acontecido. Seguira a sugestão, e verificou que sua dúvida procedia: lá só vendiam peças de carros novos. Mas o homem que o atendeu lhe disse:

– O senhor é de sorte: por acaso tenho uma. Domingo passado eu estava na Avenida Atlântica, quando um carro igual ao seu deixou cair uma calota. Apanhei e levei comigo, mesmo sem saber o que fazer com ela…

Numa cidade com alguns milhões de habitantes, ele fora atendido, na loja que sugeri por mero acaso, justamente pelo homem que havia recolhido na rua a calota de seu carro.

Para não sair das coincidências e dos carros, vejo-me rodando pelo aterro do Flamengo em sombria noite de chuva. Súbito, o limpador do pára-brisa se desprende, executa uma parábola no ar e vai desaparecer lá adiante, à direita da pista, em meio ao lamaçal. Impossível continuar dirigindo sem enxergar um palmo adiante do nariz.

Detenho o carro e dou uma longa marcha à ré, pretendendo o impossível: recuperar o diabo da peça, sem a qual eu não chegaria a lugar algum.

Ali vou eu a pé, debaixo de chuva, a chafurdar os sapatos na lama e afastando-me cada vez mais da pista. Quando penso em desistir, diviso logo adiante alguma coisa brilhando no chão: a haste de metal do limpador, guarnecida de borracha, meio afundada no barro.

Já de volta, procurei recolocá-lo no pára-brisa, para só então descobrir ser impossível: o limpador que encontrei não era o meu! De modelo diferente, pertencia a um carro de outra marca.

E eu estaria ali até hoje, diga-se de passagem, se não me houvesse ocorrido, debaixo de chuva, sem mais coincidências, com o auxilio de uma chave de fenda, passar para a esquerda do pára-brisa o limpador da direita.

Meras coincidências como esta podem não ter maior importância, senão a de confirmar para mim que elas existem. Já dizia Cervantes (ou alguém por ele, não estou bem certo): “yo no creo en brujerías ni en tropelias de Satanás, pero que las hay, las hay”…

Devo reconhecer modestamente que as coincidências não se dão apenas comigo. Ainda hoje, por exemplo, me lembrei do que me contou meu saudoso amigo Reynaldo Dias Leme, locutor de rádio, que morava em Nova York.

Um dia, ao passar pela Broadway, ele foi abordado por um desconhecido. Era um brasileiro de voz matuta perguntando em português onde ficava a Rua 46. Reynaldo quis saber como é que ele descobrira tratar-se de outro brasileiro.

– Não descobri não – respondeu candidamente o homem: – É que eu não sei falar inglês…

Disse que era de Campinas, no interior de São Paulo, havia acabado de chegar do Brasil. Hospedara-se num hotel da Rua 46, mas ao sair pela primeira vez, aturdido com o movimento, acabou se perdendo.

– Também sou de Campinas – informou Reynaldo, espantado com a coincidência.

Mas ele é que não perdia por esperar:

– Ah, é? – e o outro tirou do bolso um envelope: – Estou trazendo uma carta de recomendação para um conterrâneo nosso, talvez você saiba me dizer onde posso encontrá-lo. O nome dele… deixa ver aqui: é Reynaldo Dias Leme.

Quando eu próprio vivia em Nova York, todas as manhãs tomava o subway bem cedo, no subúrbio em Long Island onde morava, a caminho do trabalho em Manhattan.

No trem superlotado, aturdia-me a quantidade de passageiros em pé ao meu redor, numa promiscuidade que se renovava a cada estação do trajeto, quando uns saíam, outros entravam. E na minha imaginação de jovem, a própria vida era uma espécie de viagem, em que o convívio com os outros se fazia variado e efêmero, como o dos passageiros de um trem.

“Aquele ali, por exemplo”, – pensei numa daquelas manhãs, olhando alguém no banco em frente a mim, e que como eu tivera a rara sorte de conseguir sentar-se.

Era um cidadão com cara de índio em trajes civis – parecia um descendente direto de Winnetou, o cacique pele-vermelha. Durante a viagem podíamos nos observar com indiferença, como numa relação ocasional ao longo de nossa vida, para nunca mais nos vermos, quando cedêssemos lugar a outros. Como no poema de Vinicius,

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na trena

Um caminho entre dois túmulos

Ou pelo menos entre duas estações… Nunca mais verei esse índio – concluí, ao deixar o trem.

Naquele mesmo dia, ao anoitecer, voltei para casa, como sempre, de pé entre centenas, milhares de passageiros, num trem ainda mais abarrotado. Quando mal consigo me ajeitar em meio aos que se comprimem de pé, vislumbro entre eles, bem à minha frente – e sentado, como na vinda! – o índio que eu nunca mais veria.

Afirma Paulo Mendes Campos, numa crônica sobre o assunto (repetindo uma expressão, creio que de Rimbaud):

“Quando topamos uma boa coincidência, por um momento o vento da asa da imbecilidade roça por nossas orelhas em pé. Mudam-se os planos habituais do conhecimento como numa acrobacia aérea; contemplamos o mundo de cabeça para baixo”.

Por coincidência, este vem a ser, mesmo, o título de um de meus livros: “De Cabeça para Baixo”. É o que costuma acontecer comigo.

Como outro dia, durante uma visita da escritora Luciana Savaget.

Conversando sobre problemas de concepção literária que nos são comuns, a certa altura invoquei o exemplo de Dostoievski. Conta ele, numa de suas notas biográficas, que durante longo tempo tentou escrever um romance, do qual só lhe ocorria a primeira frase:

– “O ano passado, no dia tal do mês tal, à noite, aconteceu-me uma coisa extraordinária”.

Que coisa era essa, ele não conseguia imaginar. Então resolveu deixá-la para diante, ir narrando a partir daí o que lhe viesse à cabeça. E acabou escrevendo “Humilhados e Ofendidos”, um de seus maiores romances, em tamanho e em qualidade.

Minha amiga, curiosamente, se interessou em saber a data da noite em que a tal coisa extraordinária havia acontecido. Eu não me lembrava – para atendê-la teria de consultar o livro, o que não seria fácil: como de hábito, não saberia onde estivesse. Pois bastou esticar o braço até a estante mais próxima e encontrá-lo (o que em si já era uma coincidência). Li a primeira frase em voz alta:

– “O ano passado, em 22 de março à noite, aconteceu-me uma coisa extraordinária”.

Alegremente surpreendida, ela me informou então que 22 de março era a data de seu aniversário.

Poucos minutos eram passados, e Edwaldo Pacote me telefonava. Antes de iniciar uma de nossas agradáveis conversas habituais, narrei-lhe o ocorrido:

– Já que você gosta destas coincidências…

– Tanto gosto, que aqui vai mais uma – replicou ele: – O dia 22 de março é também o do meu aniversário.

Naquela mesma noite, Eduardo Vaz, outro amigo meu e das coincidências, não se surpreendeu quando lhe contei o ocorrido, pois com ele não houve nenhuma: não nasceu no dia 22 e sim no dia 23 de março.

 Fonte:
SABINO, Fernando. A Chave do Enigma.

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Olivaldo Junior (De Costas Para o Sol)

Pois é, de costas para o sol,
só vejo a lua,
ilustro a rua
com distintas cores,
somos eu, mais meus amores.

Pois é, de costas para o sol,
só vejo estrelas,
anseio vê-las
por diversas horas,
somos eu e tais auroras.

Pois é, de costas para o sol,
só vejo a noiva,
inundo a noite
com distantes órbitas,
somos eu, mais minhas mortes.

Fonte:
O Autor

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Machado de Assis (O Bote de Rapé)

Peça Teatral

Personagens:

    TOMÉ
    UM RELÓGIO NA PAREDE ELISA, sua mulher
    O NARIZ DE TOMÉ UM CAIXEIRO

CENA PRIMEIRA: TOMÉ, ELISA (entra vestida)


TOMÉ Vou mandar à cidade o Chico ou o José.

ELISA Para … ?

TOMÉ Para comprar um bote de rapé.

ELISA Vou eu.

TOMÉ Tu?

ELISA Sim. Preciso escolher a cambraia,

A renda, o gorgorão e os galões para a saia,

Cinco rosas da China em casa da Malte,

Um par de luvas, um peignoir e um plissé,

Ver o vestido azul, e um véu … Que mais? Mais nada.

TOMÉ (rindo) Dize logo que vás buscar se uma assentada

Tudo quanto possui a Rua do Ouvidor.

Pois aceito, meu anjo, esse imenso favor.

ELISA Nada mais? Um chapéu? Uma bengala? Um fraque?

Que te leve um recado ao Dr. Burlamaque?

Charutos? Algum livro? Aproveita, Tomé!

TOMÉ Nada mais; só preciso o bote de rapé

ELISA Um bote de rapé! Tu bem sabes que a tua Elisa…

TOMÉ Estou doente e não posso ir à rua.

Esta asma infernal que me persegue… Vês?

Melhor fora matá-la e morrer de uma vez,

Do que viver assim com tanta cataplasma.

E inda há pior do que isso! inda pior que a asma:

Tenho a caixa vazia.

ELISA (rindo) Oh! se pudesse estar Vazia para sempre, e acabar, acabar

Esse vício tão feio! Antes fumasse, antes.

Há vícios jarretões e vícios elegantes.

O charuto é bom tom, aromatiza, influi

Na digestão, e até dizem que restitui

A paz ao coração e dá risonho aspecto.

TOMÉ O vício do rapé é vício circunspecto.

Indica desde logo um homem de razão;

Tem entrada no paço, e reina no salão

Governa a sacristia e penetra na igreja.

Uma boa pitada, as idéias areja;

Dissipa o mau humor. Quantas vezes estou

Capaz de pôr abaixo a casa toda! Vou

Ao meu santo rapé; abro a boceta, e tiro

Uma grossa pitada e sem demora a aspiro;

Com o lenço sacudo algum resto de pó

E ganho só com isso a mansidão de Jacó.

ELISA Não duvido.

TOMÉ Inda mais: até o amor aumenta

Com a porção de pó que recebe uma venta.

ELISA Talvez tenhas razão; acho-te mais amor

Agora; mais ternura; acho-te. . .

TOMÉ Minha flor,

Se queres ver-me terno e amoroso contigo,

Se queres reviver aquele amor antigo.

Vai depressa.

ELISA Onde é?

TOMÉ Em casa do Real;

Dize-lhe que me mande a marca habitual.

ELISA Paulo Cordeiro, não?

TOMÉ Paulo Cordeiro.

Queres,

ELISA Para acalmar a tosse uma ou duas colheres

TOMÉ Do xarope? Verei.

ELISA Até logo, Tomé.

TOMÉ Não te esqueças.

ELISA Já sei: um bote de rapé. (sai)


CENA II: TOMÉ, depois o seu NARIZ


TOMÉ Que zelo! Que lidar! Que correr! Que ir e vir!

Quase, quase lhe falta tempo de dormir.

Verdade é que o sarau com o Dr. Coutinho

Quer festejar domingo os anos do padrinho,

É de primo-cartello, é um grande sarau de truz.

Vai o Guedes, o Paca, o Rubirão, o Cruz

A viúva do Silva, a família do Mata,

Um banqueiro, um barão, creio que um diplomata.

Dizem que há de gastar quatro contos de réis.

Não duvido; uma ceia, os bolos, os pastéis,

Gelados, chá… A coisa há de custar caro.

O mal é que eu desde já me preparo

A despender com isto algum cobrinho…O quê?

Quem fala?

O NARIZ Sou eu; peço a vossa mercê

Me console, insirindo um pouco de tabaco.

Há três horas jejuo, e já me sinto fraco,

Nervoso, impertinente, estúpido, — nariz,

Em suma.

TOMÉ Um infeliz consola outro infeliz;

Também eu tenho a bola um pouco transtornada,

E gemo, como tu, à espera da pitada.

O NARIZ O nariz sem rapé é alma sem amor.

TOMÉ Olha podes cheirar esta pequena flor.

O NARIZ Flores; nunca! jamais! Dizem que há pelo mundo

Quem goste de cheirar esse produto imundo.

Um nariz que se preza odeia aromas tais.

Outros os gozos são das cavernas nasais.

Quem primeiro aspirou aquele pó divino,

Deixas as rosas e o mais as ventas do menino.

TOMÉ (consigo) Acho neste nariz bastante elevação,

Dignidade, critério, empenho e reflexão.

Respeita-se; não desce a farejar essências,

Águas de toucador e outras minudências.

O NARIZ Vamos, uma pitada!

Um instante, infeliz! (à parte)

Vou dormir para ver se aquieto o nariz. (Dorme algum tempo e acorda)

Safa! Que sonho; ah! Que horas são!

O RELÓGIO (batendo) Uma, duas.

TOMÉ Duas! E a minha Elisa a andar por essas ruas.

Coitada! E este calor que talvez nos dará

Uma amostra do que é o pobre Ceará.

Esqueceu-me dizer tomasse uma caleça.

Que diacho! Também saiu com tanta pressa!

Pareceu-me, não sei; é ela, é ela, sim…

Este passo apressado … És tu, Elisa?


CENA III: TOMÉ, ELISA, UM CAIXEIRO (com uma caixa)


ELISA Enfim!

Entre cá; ponha aqui toda essa trapalhada.

Pode ir. (Sai o caixeiro) Como passaste?

TOMÉ Assim; a asma danada

Um pouco sossegou depois que dormitei.

ELISA Vamos agora ver tudo quanto comprei.

TOMÉ Mas primeiro descansa. Olha o vento nas costas.

Vamos para acolá.

Cuidei voltar em postas.

ELISA Ou torrada.

TOMÉ Hoje o sol parece estar cruel.

Vejamos o que vem aqui neste papel.

ELISA Cuidado! é o chapéu. Achas bom?

TOMÉ Excelente.

Põe lá.

ELISA (põe o chapéu)

Deve cair um pouco para a frente.

Fica bem?

TOMÉ Nunca vi um chapéu mais taful.

ELISA Acho muito engraçada esta florzinha azul.

Vê agora a cambraia, é de linho; fazenda

Superior. Comprei oito metros de renda,

Da melhor que se pode, em qualquer parte, achar.

Em casa da Creten comprei um peignoir.

TOMÉ (impaciente) Em casa da Natté

ELISA Cinco rosas da China.

Uma, três, cinco. São bonitas?

TOMÉ Papa-fina.

ELISA Comprei luvas couleur tilleul, creme, marron;

Dez botões para cima; é o número do tom

Olhe este gorgorão; que fio! que tecido!

Não sei se me dará a saia do vestido.

TOMÉ Dá.

ELISA Comprei os galões, um fichu, e este véu.

Comprei mais o plissé e mais este chapéu.

TOMÉ Já mostraste o chapéu.

ELISA Fui também ao Godinho,

Ver as meias de seda e um vestido de linho.

Um não, dois, foram dois.

TOMÉ Mais dois vestidos?

ELISA Dois…

Comprei lá este leque e estes grampos. Depois,

Para não demorar. corri do mesmo lance,

A provar o vestido em casa da Clemence.

Ah! Se pudesse ver como me fica bem!

O corpo é uma luva. Imagina que tem…

TOMÉ Imagino, imagino. Olha, tu pões-me tonto

Só com a descrição; prefiro vê-lo pronto.

Esbelta, como és, hei de achá-lo melhor

No teu corpo.

ELISA Verás, verás que é um primor.

Oh! a Clemence! aquilo é a primeira artista!

TOMÉ Não passaste também por casa do dentista?

ELISA Passei; vi lá a Amália, a Clotilde, o Rangel,

A Marocas, que vai casar com o bacharel

Albernaz…

TOMÉ Albernaz?

ELISA Aquele que trabalha

Com o Gomes. Trazia um vestido de palha…

TOMÉ De palha?

ELISA Cor de palha, e um fichu de filó,

Luvas cor de pinhão, e a cauda atada a um nó

De cordão; o chapéu tinha uma flor cinzenta,

E tudo não custou mais de cento e cinqüenta,

Conversamos do baile; a Amália diz que o pai

Brigou com o Dr. Coutinho e lá não vai.

A Clotilde já tem a toilette acabada.

Oitocentos mil-réis.

O NARIZ (baixo a Tomé) Senhor, uma pitada!

TOMÉ (com intenção, olhando para a caixa)

Mas ainda tens aí uns pacotes…

ELISA Sabão;

Estes dois são de alface e estes de alcatrão.

Agora vou mostrar-te um lindo chapelinho

De sol; era o melhor da casa do Godinho.

TOMÉ (depois de examinar)

Bem.

ELISA Senti, já no bonde, um incômodo atroz.

TOMÉ (aterrado)

Que foi?

ELISA Tinha esquecido as botas no Queirós.

Desci; fui logo à pressa e trouxe estes dois pares;

São iguais aos que usa a Chica Valadares.

TOMÉ (recapitulando)

Flores, um peignoir, botinas, renda e véu.

Luvas e gorgorão, fichu, plissé, chapéu,

Dois vestidos de linho, os galões para a saia,

Chapelinho de sol, dois metros de cambraia

(Levando os dedos ao nariz)

Vamos agora ver a compra do Tomé.

ELISA (com um grito)

Ai Jesus! esqueceu-me o bote de rapé!

Fonte:
Portal São Francisco

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Haicai 6 – Mario Zamataro (Curitiba/PR)

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8 de agosto de 2012 · 17:00

J. G. de Araújo Jorge (A Cantiga Do Só) A Vida

Ó pobre vida suicida!
Teu destino é uma ironia
se o que chamamos de vida
é um morrer de cada dia!

Numa amizade perdida,
num amor que se desgraça,
a morte desconta a vida
a cada dia que passa !

Vive a vida bem vivida
e ao mais, esquece e revela,
que a gente leva da vida
a vida que a gente leva…

Fonte:
JORGE, J.G. de Araújo. Cantiga do Só. 2. ed. 1968.

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Mia Couto (Velho com Jardim nas Traseiras do Tempo)

No Jardim Dona Berta há um banco. O único que resta. Os outros foram arrancados, vertidos em tábua avulsa para finalidades de lenha. Nesse restante banco mora um velho. Cada noite, os dois se encostam mutuamente, assento e homem, madeira e carne. Dizem que 0 velho já tem a pele às listas, formatadas no molde das tábuas, seu externo esqueleto. O idoso recebeu um nome: Vlademiro. Ganhou o nome da avenida que ali passa, rasando-lhe a solidão: a Vladimir Lenine.

Soube hoje que vão retirar o banco para ali instalar um edifício bancário. A noticia me desabou: o jardinzinho era o último mundo do meu amigo, seu derradeiro refúgio. Decidi visitar Vlademiro, em missão de coração.

– Triste? Quem disse?-

Espanto meu: o homem estava eufórico com a noticia. Que um banco, desses das finanças, todo estabelecimentado, era um valor maior. Já lhe haviam dito da sua dimensão, dava bem para ele dormir mais seu bicho de estimação. E mesmo quem sabe ele encontrasse emprego lá? Nem que fosse nos canteiros em volta. Afinal, ele transitava de seu banco de jardim para um jardim de banco.

– Ando de banco para Banco .

Risada triste, descolorida. Não tardaria a escurecer. Quando baixasse a noite, Vlademiro se afundaria em bebida, restos deixados em garrafas. Já bêbado ele atravessaria a noite, a modos de caranguejo. Do outro lado da avenida estão as putas. As prostiputas, como ele chama. Conhece-as a todas pelos nomes. Quando não tem clientes elas se adentram pelo jardim e sentam junto dele. Vlademiro lhes conta suas aldrabices e elas tomam a baboseira dele por cantos de embalar. Às vezes, escuta as noturnas menininhas gritar. Alguém lhes bate. O velho, impotente, se afunda entre os braços, interdito aos pedidos de socorro enquanto pede contas a Deus.

– Deus está bom de mais, já não castiga ninguém- .

Vlademiro foi ganhando familiaridades com o todo-potente. Me admira esse tu-cá-tu-lá com o divino. Vlademiro já foi um beato, todo e totalmente. Mas o velho tem explicação: à medida que envelhecemos vamos entrando em intimidades com o sagrado. É que vamos abatendo no medo. Quanto mais sabemos menos cremos? Ele não sabe, nem crê. Às vezes até se pergunta:

– Deus ficou ateu?

Será que o velho vive isento de medos? Assim, sozinho, sem morada própria. Ele me contesta, neste ponto:

– Morada própria? Alguém tem morada mais própria?-

Às vezes, doente, sente a morte rondar o jardim. Mas Vlademiro sabe de truques, troca as voltas àquela que o vem levar. Mesmo batendo o dente, febrilhante, ele canta, voz trémula, faz conta que é mulher. As mulheres, diz, demoram mais para morrer.

– A morte gosta muito de ouvir cantar. Se distrai de mim e dança.

E assim em jogo de desagarra-esconde. Até que, um dia, a morte se adiante e cante primeiro. Mas ela terá que insistir para o de aninhar. Vlademiro está bem acolchoado no banco. E clama que ainda não tem idade. Velhos são aqueles que não visitam as suas próprias variadas idades.

No enquanto, Vlademiro vai dormindo leve e pouco. Despertador dele é um sapo. Dorme com o batráquio amarrado pela perna. E adianta, sério: o bicho é amarrado apenas para impedimento de voar.

– Sapo não voa porque deixou entrar água no coração- .

Agora, tudo vai terminar. Vão demolir o jardinzinho, a cidade vai ficar mais urbana, menos humana. Esse é o motivo da minha visita ao velho. Regresso ao que ali me levou:

– Diga-me, sobre isto do banco: você está mesmo contente?-

Vlademiro demora. Está procurando a melhor das verdades. O riso desvanece no rosto.

– Tem razão. Esta minha alegria é mentira.

– Porquê, então, você faz de conta?

– Nunca eu lhe falei de minha falecida?-

Acenei que não. O velho me conta a história de sua mulher que morreu, em lentidão de sofrimento. Doença pastosa, carcomedora. Ele todo o dia se empalhaçava frente a ela, fazia graças para espantar desgraças. A mulher ria, quem sabe com pena da bondade do homem. De noite, quando ela dormia é que ele chorava, desamparado, doido-doído.

– É como agora: só choro quando o jardim já dormiu …

Meu braço fala sobre o seu ombro. É adeus. Regresso de mim para um abandono maior. Atrás, fica Vlademiro, a avenida e um jardim onde resta um banco. O último banco de jardim.

Fonte:
Mia Couto. Contos do Nascer da Terra. Vol.1. Porto: CPAC, 1998.

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Thaty Marcondes (Lembranças de Infância)

Sou de um tempo em que as mulheres não conversavam sobre política: isto era assunto exclusivamente de homens.

 Sou de um tempo em que as crianças iam pra cama quando começava o horário dos noticiários, que não eram considerados apropriados para crianças, devido aos temas “fortes” que abordavam.

 Lembro-me de minha avó – espanhola de traços mouros – cuidando para que tudo isso acontecesse de forma correta, pois não podia perder o controle da casa e da família, para que meu avô – espanhol de traços ibéricos – não perdesse a calma ou alguma palavra do apresentador do Repórter Esso.

 “Lugar de mulher é na cozinha, falando sobre amenidades e trocando receitas” – chavão da época da minha infância.

 Outro chavão: “Lugar de criança, depois das 9 h da noite, é na cama: criança limpa, de dentes escovados, após tomar um leite morno (leite de verdade, não esse leitágua de vaca quadrada de caixinha) e comer uns biscoitos (bolacha Maria ou de Maisena)”.

 E os homens na sala trocando idéias sobre as notícias anunciadas com estardalhaço, bebericavam uma “purinha” de reserva especial que era pra facilitar a digestão. Ficavam até tarde nos bebericos e falações, às vezes se exaltavam quando o assunto era política ou futebol. A avó na cozinha, se alguém precisasse de um café forte pra cortar o efeito do exagero nas doses.

 Se eu ainda fosse criança, naquele tempo novamente, eu não teria visto a CNN espanhola. Eu não teria marejado meus olhos ao ver o povo de meus avós sofrendo de forma parecida ao que seus antepassados um dia fizeram sofrer os antepassados dos assassinos. Afinal, quem matou quem? Caim matou Abel? David matou Golias? A inquisição matou os ímpios? As fogueiras queimaram bruxos? Resumo: gente matando gente, por que o nome de seu Deus é diferente!

 – Mãe, tem uma bolachinha Maria e um leitinho morno? Acho que tá na hora de eu dormir. Não entendo gente grande!

 “Tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar;
 um bom sono pra você e um alegre despertar”.

Fontes:
Garganta da Serpente. Contos do Coral.
Imagem = Cultura Livre

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Flávio Paiva (Os Guerreiros de Nilto Maciel)

Quem passa desavisado por Baturité nem imagina que aquela cidade do maciço poderia nem existir, caso no tempo em que, na ficção do escritor Nilto Maciel, 66, ela ainda era vila, tivesse sido destruída pela revolução nativista sonhada pelo anti-herói protagonista do livro “Os guerreiros de Monte-mor” (Armazém da Cultura, 2011), que será lançado hoje, às 19 horas, na Livraria Cultura, em Fortaleza. A primeira edição dessa novela alegórica cearense foi publicada em 1988, pela editora Contexto, de São Paulo.
Enlouquecido pelos efeitos da matança colonial ocorrida por estas bandas, o personagem João Cardoso decide libertar os povos nativos do Ceará, derrubando o poder da província e o império português instalado no Brasil. Com um bode de apoio e combate, que carrega nas costas uma infantaria de morcegos engaiolados e presos a caçuás, ele parte para o enfrentamento irreversível de uma derrota histórica.
O remanescente dos Jenipapo carrega em sua caricatura um coração tapuio, a pulular por Baturité, Canindé e Barbalha até encontrar-se no desvario dos sem-memória que, indignados com o destino, passam a zanzar pela geografia, pelo linguajar e pela etno-história cearense. Neste sentido, o livro de Nilto Maciel renova uma tradição iniciada por José de Alencar (1829 – 1887), em sua característica da novela psicológica, indianista, regional e histórica.
Fico contente quando encontro a nossa literatura explorando com inteligência as identificações da cearensidade. “Os guerreiros do Monte-Mor” é alegoria quixotesca saída da gema de ovo de galinha pé duro. João e seus poucos companheiros de destemida louquidão oferecem ao leitor percursos políticos e estéticos comparáveis à exaltação utópica de Antonio Conselheiro (1893 – 1897) e de seus muitos seguidores na trágica experiência de Canudos.
Em suas desesperadas tentativas para reversão do domínio colonial, os personagens transitam pelas veredas do tempo e se relacionam com figuras da nossa historiografia, como o Naturalista Feijó (1760 – 1824) e Tristão Gonçalves (1789 – 1824). Os guerreiros de Nilto Maciel fazem o papel de si mesmos em uma narrativa que floresce na sequidão do passado esquecido de um Ceará enfatizado pela sátira romanesca da sua formação, enquanto entidade política, etnológica e literária.
As batalhas dos defensores da Revolução Nativista se dão contra o abandono, contra a falsa identificação e em favor de uma rejeição que quer participar. O autor parece fazer questão de firmar, afirmar e confirmar a marginalidade histórica e cultural do Ceará profundo. Sente-se em seu texto uma preocupação quase metodológica para que isso aconteça. Embora denso nessa suposta deliberação, o livro não perde a naturalidade, nem se inclina para simplificações ou linearidade imitativa.
O intransponível está sempre presente página por página porque a saga é inglória em sua gênese e impraticável como fator de conversão. Não há como escapar daquela sina, traçada em determinismos do passado dos exterminados, com todas as vertentes históricas e culturais e seus diversos enredos seculares. Os esforços dos guerreiros do Monte-Mor, no impetuoso enfrentamento das falsas consciências impostas pelas circunstâncias, recaem em justiça estética da maioria que se tornou minoria e que desapareceu na história oficial, ressurgindo na recriação literária como uma ideia de sociedade.
Da geografia humana cearense Nilto Maciel extrai especificidades em lembranças que até achamos que temos, mesmo que seja simplesmente convergência de ilusões. O livro se desenrola nesse vácuo, evidenciando passos e compassos perdidos de um Ceará que conhece pouco o Siará e por isso acha que do seu litoral para dentro tudo é desolação e do seu interior para fora sobeja insolação.
A novela, aparentemente sem eira nem beira de Nilto Maciel, presencia o que não existe e acaba pintando cenários de um tempo em perspectiva curva, como em um cinema 180 graus, fazendo circular inquietações esquecidas. A luta febril dos guerreiros ingênuos por uma liberdade qualquer, reescreve o que não foi sequer escrito e dá contornos abstratos ao que foi desfigurado por toda sorte de ignorância.
Em face da compreensão alterada e tosca da realidade, por parte de seu protagonista, o livro se desenrola onde tudo acontece e nada se passa; onde quase ninguém lembra e todos são profusamente convidados a ficar para trás. Essa diversão alienante é uma das curiosidades do livro “Os guerreiros do Monte-Mor”. São trabalhos literários assim que contribuem para um lugar voltar a si mesmo, desatando aspectos inconscientes de uma guerra silenciosa contra algo que nem sabemos que somos.
Rubem Alves me contou por e-mail, no sábado passado que o escritor franco-marroquino Daniel Pennac diz que a literatura nos “aliena” para, em seguida, nos trazer de volta. Ao ler “Os guerreiros de Monte-Mor” fiquei com essa sensação. Óbvio que por conta disso não quero cobrar de uma ficção o preenchimento de lacunas historiográficas, mas bem que a leitura do livro de Nilto Maciel me levou a recordar de algumas expressões e cacoetes culturais da cearensidade que gostei de reencontrar: no lugar de “triste” ele coloca “capiongo”; onde seria “desajeitado”, ele escreve “marmotoso”; e se alguém está montado a cavalo, ele diz que vai “escanchado”.
A despeito de o livro ter um glossário, o ritmo de leitura pode ser lento para quem não conhece os códigos do palavreado e do jeito atoleimado de se expressar dos guerreiros e do autor. Sabe-se que as histórias que ouvimos quando criança praticamente determinam a imagem que fazemos de nós e do mundo. Isso, de certo modo, torna-se um desafio aos que chegam ao Monte-Mor sem saber muito bem como aproveitar o papel não historiográfico das metáforas.
Quem guarda consigo conteúdos da cearensidade pode beber sorvendo essa narrativa bem humorada, mas quem não estiver familiarizado com isso precisa estar com sede para ingeri-la. Ler trabalhos como o dos guerreiros de Nilto Maciel requer o esforço de quem cava cacimba em leito de rio seco, com a paciência de esperar a revência pingar a água infiltrada nas raízes, pela paisagem subterrânea dessa literatura com cheiro de Lunário Perpétuo. O bom é que nela, não há subentendidos, tudo pode ser desperdiçado, que a prosa não vai embora, fica com o leitor pela força monogênica do texto.
Os revolucionários João, José e Xocó estão mais vivos do que nunca. Na tentativa de fazer uma primavera tapuia, eles podem ser associados às transformações que estão sendo processadas na atualidade pelo conflito entre as crenças no darwinianismo cultural e o realce das diferenças. Na condição de agitadores marginais, poderão até sair vitoriosos fora do livro, se a inclinação dos desfechos das lutas cidadãs tenderem para a perda da hegemonia das narrativas colocadas a serviço da replicação das estruturas sociais, ideologias e doutrinações dominantes.
A literatura tem a liberdade de dizer que nem tudo o que está posto sempre foi ou será desse ou daquele jeito. Em “Os guerreiros de Monte-Mor”, Nilto Maciel captura do passado um espírito impetuoso plural e aberto ao discurso crítico, reflexivo, cômico e divertido. É uma guerra que se dá no âmbito da inquietação delirante, mas seus guerreiros, mesmo não conseguindo o que talvez quisessem, conquistaram o direito de procurar por um poder, qualquer que seja, desde que melhor do que o desencanto e o abandono.

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Hilário Tácito (1885 – 1951)

José Maria de Toledo Malta (Araraquara SP 1885 – São Paulo SP 1951). Romancista, ensaísta, tradutor, engenheiro.

Formado em engenharia civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – Poli/USP, começa a trabalhar como funcionário público estadual.

Considerado um importante especialista em concreto armado, escreve três obras sobe o tema.

Em 1919, publica seu único romance, Madame Pommery, assinado com o pseudônimo Hilário Tácito. A obra faz, em seu título, uma referência inevitável à Madame Bovary, do escritor francês Gustave Flaubert (1821 – 1880), como ela, uma crítica aos costumes de uma época.

Muito embora, segundo crônica de Lima Barreto (1881 – 1922), a sátira de Tácito não imite nenhum dos valores, estilos ou modelos estabelecidos pela tradição literária que o antecede, inserindo-se no panorama da literatura brasileira no conjunto de criações que precederam o modernismo, ao lado de trabalhos dos escritores Monteiro Lobato (1882 – 1948) e Godofredo Rangel (1884 – 1951), de quem Tácito era amigo.

O romance narra a transformação de São Paulo numa metrópole cosmopolita e o aburguesamento de sua sociedade através da vida da cafetina que dá nome ao livro. Além disso, escreve o prefácio do romance Vida Ociosa, de Rangel, o artigo Primeira e Última Morada de Monteiro Lobato e duas crônicas para o jornal O Estado de S. Paulo, interrompendo essa colaboração que deveria tornar-se uma série.

Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural

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Hello world!

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Silviah Carvalho (Adeus!)

Agora que a noite já se foi e o dia certamente não chegará
Depois de haver depositado tanto sacrificio no altar da liberdade
vejo que, o amor só descansa morto, vivo é um ‘ser” em conflito
venho me despedir de tudo isso aqui, entregar meu espírito

Aurora, amiga que, precede o sol, não permita que eu o veja
a luz traz a tona aquilo que divide meu querer, deixa-me aqui
que, o vento espalhe meu sentimento. E minhas lágrimas
sejam misturadas ao orvalho e assim aniquile este sofrimento

Cada ramo molhado que tocar seus pés lembrara-se de mim
verás eles molhados de minhas lágrimas, enquanto prostrada
lutava e, dava minha vida por ti, não tenho braços que
me acolham ao pé desta montanha, ficarei aqui…

Até que seja dissipada esta luz que insiste em me manter viva
chamando-me de volta, dizendo que vale a pena sair do esconderijo
que este vento leve esta ilusão e, me ofereça um eterno abrigo

Minha voz calou-se, sou uma ave caída num canto qualquer
venho hoje, outra vez, absorver nestes últimos instantes
o cheiro do vento… Perdi a motivação e agora a fé

Não pergunte por mim, não me procures, deixe-me seguir,
Não sei para onde vou, não tenho você, nada mais importa
Quando leres saiba, esta é da sua despedida a minha resposta
Adeus!

Fonte:
http://umcoracaoqueama.blogspot.com/

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Prêmio Benvirá de Literatura 2010

As inscrições deverão ocorrer no período de 12/08/2010 a 30/11/2010, somente através do site http://www.benvira.com.br/

Revelar novos talentos e promover a literatura nacional são propósitos do Prêmio Benvirá de Literatura Ficção 2010.

Com a finalidade de estimular a produção e divulgação das obras de escritores brasileiros, a Editora Saraiva institui o concurso, que também abre uma porta do mercado editorial aos estreantes: o livro selecionado será publicado e distribuído em todo o país.

Autores já publicados ou não, de nacionalidade brasileira, poderão participar inscrevendo uma obra inédita de ficção, de tema livre escrita em língua portuguesa. Cada candidato poderá concorrer somente com 1 (um) original. O livro selecionado será publicado e distribuído em todo o país.

Caberá ao vencedor, além da publicação da obra pelo selo Benvirá, um prêmio de R$30.000,00 (trinta mil reais).

REGULAMENTO DO CONCURSO CULTURAL “1º PRÊMIO BENVIRÁ DE LITERATURA”, promovido pela Editora Saraiva.

Este concurso tem caráter exclusivamente cultural, não estando subordinado a qualquer modalidade de área ou pagamento por parte dos concorrentes para aquisição de produtos ou serviços, nos termos do artigo 30 do Decreto nº 70.951/72.

A finalidade do presente concurso é fomentar a arte literária, mediante a premiação da melhor obra literária, dentro da proposta do presente Regulamento:

1. A participação do concurso é gratuita e aberta aos escritores brasileiros ou naturalizados, com mais de 18 anos, que apresentem originais dirigidos ao público infanto-juvenil ou adulto. Funcionários do Grupo Saraiva e/ou seus parentes em primeiro grau não poderão participar do presente concurso.

2. Os originais deverão ser inéditos e escritos em língua portuguesa. Entende-se por inédito o original não editado e não publicado (parcialmente ou em sua totalidade) em antologias, coletâneas, suplementos literários, jornais, revistas, sites e publicações do gênero. Cada candidato poderá concorrer somente com a apresentação de 1 (um) original.

3. O conteúdo do original deverá obedecer ao seguinte critério: um tema livre que aborde uma história de ficção. Entende-se por ficção designar uma narrativa imaginária, irreal ou referir obras criadas a partir da imaginação.

4. A inscrição do original deverá ser feita no período de 12/08/2010 a 30/11/2010, através do site www.benvira.com.br/premiobenvira2010

5. O interessado deverá preencher corretamente o formulário de inscrição disponível no site www.benvira.com.br/premiobenvira2010 e anexar o arquivo do original no formato Word.

6. No ato de envio da inscrição pelo site www.benvira.com.br/premiobenvira2010 , o inscrito receberá uma mensagem de confirmação. O recebimento da mensagem de confirmação não isenta o candidato de verificar e cumprir os requisitos constantes do presente Regulamento.

7. Para efeito de inscrição serão considerados os originais recebidos até às 24h do dia 30/11/2010.

8. A identificação dos originais se dará mediante o preenchimento completo e correto da ficha de inscrição, que conterá: nome completo, número do RG, número do CPF, endereço para contato, endereço eletrônico (e-mail), telefone com o respectivo DDD, mini currículo pessoal do Autor e sinopse da obra. O candidato que enviar a ficha incorreta ou incompleta, com qualquer dado em branco, será automaticamente desclassificado.

9. Para a seleção da melhor obra, a Editora Saraiva elegerá uma Comissão Julgadora apta a avaliar todos os originais de acordo com os critérios editoriais e escolher o vencedor do presente concurso cultural.

10. Toda e qualquer decisão tomada pela Comissão Julgadora será irrevogável.

11. A escolha da melhor obra literária será publicada no mês de março de 2011, no site Benvirá (www.benvira.com.br/premiobenvira2010) .

12. O vencedor será premiado com o 1º Prêmio Benvirá de Literatura, consistente (i) no pagamento em favor do vencedor do importe de R$ 30.000,00; e (ii) na publicação do original da sua obra pelo selo Benvirá, da Editora Saraiva, no ano de 2011, ocasião em que será formalizado um contrato de edição, de comum acordo entre as partes.

13. A entrega do 1º Prêmio Benvirá de Literatura acontecerá após a divulgação do resultado, em data e local a serem ainda definidos pela Editora Saraiva, os quais serão oportunamente disponibilizados no site Benvirá (www.benvira.com.br/premiobenvira2010), sendo o vencedor comunicado através do telefone e e-mail informados na ficha de inscrição.

14. No caso do vencedor residir fora da Cidade de São Paulo, os gastos de deslocamento e hospedagem de até 2 (dois) dias para recebimento do prêmio serão de responsabilidade da Editora Saraiva, desde que previamente aprovados pela mesma. As demais despesas não descritas neste Regulamento, tais como – mas não se limitando a – gorjetas para carregadores de malas, tarifas para malas que excedam o peso, a quantidade ou as dimensões máximas permitidas, passeios não inclusos, alimentação, bebidas, bem como despesas extras de caráter pessoal como telefonemas, utilização de cofres, lavanderia, bar, frigobar, sauna, ginástica, filmes de televisão, compras de qualquer natureza e quaisquer outras despesas não mencionadas serão de responsabilidade do vencedor.

15. A Editora Saraiva poderá manifestar interesse por trabalhos inscritos no presente concurso cultural e não premiados. Assim, durante o prazo de 6 (seis) meses, a contar da data de divulgação do vencedor, a Editora Saraiva poderá estabelecer contato com os autores de obras recomendadas pela Comissão Julgadora, para adquirir os direitos de publicação.

16. Os originais em desacordo com as normas contidas no presente regulamento serão imediatamente desclassificados.

17. Os originais e demais documentos entregues à Editora Saraiva em razão da participação no presente concurso cultural não serão devolvidos.

18. A apresentação de originais para concorrer ao 1º Prêmio Benvirá de Literatura implica em expresso acordo às normas expressas no presente regulamento.

19. A participação no presente concurso cultural é gratuita.

20. O prêmio é pessoal e intransferível e não poderá ser trocados por quaisquer outros produtos.

21. Os candidatos autorizam o uso e veiculação do seu nome pela Editora Saraiva ou por terceiros por ela autorizados, inclusive para fins comerciais.

22. Todos os casos não previstos nas normas deste regulamento serão resolvidos diretamente pela Editora Saraiva.

23. Aplica-se a este concurso cultural, incluindo, mas sem se limitar à sua divulgação, condução, às participações e à premiação, a legislação brasileira e fica eleito o foro Central da Comarca de São Paulo para dirimir quaisquer controvérsias oriundas do presente Regulamento.

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Folclore de Minas Gerais (Chibamba)

Fantasma do ciclo das assombrações criadas para assustar crianças, para fazer parte dos seus pesadelos noturnos. É do sul de Minas Gerais. Amedronta as crianças que choram, as teimosas e as malcriadas. Anda envolto em longa esteira de folhas de bananeira, ronca como se fosse um porco e dança de forma compassada enquanto caminha; às vezes gira.

O nome é um vocábulo africano, Bantu na verdade, e teria como significado uma espécie de canto ou dança africana à exemplo do Lundu [Espécie de dança nativa africana].

Há uma quadrinha que diz:
Ê vém o Chibamba, nêném, ele papa minino, cala a boca!…

O Chibamba vestido de folhas de bananeira e dançando, lembra a África de onde o nome é originário. Em Angola e Congo ainda os negros, em suas tradições festivas e folclóricas, dançam vestindo elaboradas roupas feitas de folhas, ramos e galhinhos de plantas locais.

Na Ásia, entre os antepassados dos Laos, da indochina francesa, chamados de Pu Nhiê, há uma dança. Os Pu Nhiê, em certa época, vestindo folhas e peles, surgem com máscaras de monstros excêntricos. E Dançam lentos, compassados, dando giros misteriosos, ao som de tambores.

A dança grave, em giro, é bem africana e de finalidade religiosa. As outras, coletivas, festivas, em ritmo mais agitado, são rituais de pesca e caça.

O Chibamba é um remanescente dos rituais negros da África, que se transformou em Cuca, ou Negro Velho, e se tornou encarregado de fazer dormir à força as crianças. O fato de “roncar como um porco” é uma adaptação brasileira.

Chibamba, pelo nome e maior influência negra que indígena em Minas Gerais, é africano. Ali ele vive, fazendo as crianças dormirem, mesmo quando não estão com vontade.

Notas complementares:

Nomes comuns: Chibamba.

Origem: Africana.

De fato, os nativos africanos se vestiam com folhas e usavam máscaras assustadoras nos seus rituais de pesca, caça e mesmo religiosos. Sua chegada ao Brasil mineiro, em seus terreiros festivos, onde as amas pretas de leite cuidavam dos seus bebês e também das crianças brancas, explica o surgimento do Chibamba como criatura assustadora.

Era uma oportunidade e tanto mostrar às crianças, aqueles figurantes caracterizados como monstros cobertos de folhas e mascarados, como uma entidade que viria atormentar crianças que não queriam dormir.

Na tradição africana, os figurantes cobertos de folhas e mascarados, simbolizavam a reencarnação dos seus antepassados, que ora os visitavam, para abençoar suas festas, caçadas, colheitas, guerras e rituais de casamento.

Também os nossos índios dançavam envoltos em folhas e tecidos vegetais. Não é uma tradição dos Tupis, mas entre os pajés do Brasil colônia. Estes dançavam, nas horas dos rituais religiosos, disfarçados, cobertos de folhas e pintados com corantes vegetais. A dança lenta, rodada, com os figurantes cobertos com vestimentas ornamentadas, era tradição entre os Gês, Nu-aruacos e Caraíbas. Mas a influência para a existência do Chibamba mineiro é mesmo africana.

Fonte:
http://sitededicas.uol.com.br/cfolc.htm

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III Concurso Literário Internacional Letras Premiadas

Autora homenageada:
Professora e Escritora Ilda Maria Costa Brasil

Prêmio de incentivo à leitura e produção textual
Poesia: 1º lugar – R$1.000,00
Crônica: 1º lugar – R$ 1.000,00
Conto: 1º lugar – R$ 1.000,00

Contribuição para cada texto:
( ) Máster: poesias, Contos e Crônicas – R$ 10,00
( ) Estudantes até 21 anos: Somente Poesia – R$ 5,00

Tema Livre – Textos inéditos

Participam deste Concurso textos em português, espanhol e italiano
enviados por autores residentes em diversos países.

1. Endereço: Envie uma cópia do texto(s), uma fotografia e teu currículo para:
gaya.rasia@hotmail.com ou alpasxxi@hotmail.com

Ou: ALPASXXI – Rua Benjamin Constant, 71 – Centro
Cruz Alta – RS – 98025-110

2. Prazo até : Até 30.04.09

3. Contribuição: Cheque nominal a Rozelia Scheifler Rasia ou depósito CC 35 0242960-0 Ag. 0190 – Banrisul ou Banco Itaú – Ag 0335 – Cc 30022- 4.

3.1 Os bancos estaduais fazem remessa para o Banrisul.

3.2 Remessa do exterior: MoneyGran ou Western Union.

4. Diplomas: Diploma de Destaque Literário para os dez primeiros textos classificados.

5. Resultados Os resultados serão divulgados no BLOG da ALPAS XXI em maio de 2009 e em vários jornais de grande circulação.

6. Premiação: 1º lugar em cada categoria: R$1.000,00

7. Evento de Premiação dos classificados com Certificado de Destaque Literário

8 Os textos classificados poderão participar da Coletânea Cooperativada ‘Olhos andarilhos’
Data: 23 de outubro de 2009 em Cruz Alta – RS.

9 Características: Tema Livre – Textos inéditos.

10 Limite de textos: 4 textos por categoria.

Obs: Estão isentos de contribuição os autores e alunos que não puderem pagar.

Instruções:
I – Sugerimos aos autores que registrem seus textos na Biblioteca Nacional.

II – Formatação do texto em A4; fonte 12, arial ou times.

III – Solicitamos criteriosa correção gramatical: ortografia, concordância e sintaxe.

IV – Os textos participantes do BLOG são expressamente excluídos dos Concursos.

V – Estudantes – Somente poesia: Indique a série, o grau, a escola ou universidade (nome e endereço).

Vamos imprimir uma cópia de cada texto concorrente para o Memorial da Cultura ALPAS XXI com os dados do autor e três cópias para os jurados sem identificação.

O Currículo e a fotografia irão para o Memorial da Cultura ALPAS XXI e Galeria de autores, posteriormente serão usados para a divulgação dos vencedores. O envio da fotografia não é obrigatório.

Fonte:
Movimento de Poetas e Trovadores

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Marilu Cordeiro (Lançamento do Livro “Oswaldo Lopes: Vida e Trajetória de um Artista Genuinamente Paranaense”)

untitled untitled2 Instituto Memória Editora e a Prefeitura de Paranaguá convidam
para o lançamento de mais um livro que promove e convalida a identidade cultural paranaense –

 

OSWALDO LOPES:
VIDA E TRAJETÓRIA DE UM ARTISTA GENUINAMENTE PARANAENSE

 

– da professora e pesquisadora Marilu Cordeiro, que acontecerá no dia 18/02/2010 na Casa de Cultura de Paranaguá – Casa Cecy.

 

A escolha desta data é em homenagem ao nascimento de Oswaldo Lopes e o evento será coordenado pelo presidente da Fundação Municipal de Cultura, Dr. Alceu Chaves.

 

SERVIÇO:

Dia: 18/02/2010 – 19h00 

Local: Casa de Cultura de Paranaguá – Casa Cecy

Rua XV de Novembro, 499 – Centro Histórico – Paranaguá – PR
Fone: (41) 3420-2933

"É com você, admirador das artes paranaenses, que início o meu diálogo. Com você, que visita exposições, museus e tudo que se relaciona com os artistas do nosso Paraná. E é por ser igualzinha a você que começo a questionar e me incomodar do esquecimento em que foi condenado um dos mais importantes pintor e escultor genuinamente paranaense: Oswaldo Lopes."
Marilu Cordeiro – Autora
________________
Oswaldo Lopes, que era também escultor, trabalhou durante 4 anos na construção de uma paranista tumba funerária, em forma de pinhão, na qual foi sepultado. Era uma peça com várias esculturas de pinhas, a qual inclusive teve problemas no momento do sepultamento – devido as medidas não coincidirem com o espaço no túmulo.

 

Instituto Memória Editora
Editora Destaque pela Câmara Brasileira de Cultura
(41) 3352 3661 – 3352 4515
www.institutomemoria.com.br

Fontes:
Colaboração do Instituto Memória
http://www.millarch.org/artigo/escultura-telefonica 

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João Clímaco Bezerra (A Vinha dos Esquecidos)

Análise da obra

Em A Vinha dos Esquecidos, João Clímaco Bezerra narra a angústia existencial do padre Anselmo, ao mesmo tempo em que conta a história do negro Zacarias, numa perdida cidadezinha do interior. O livro tem 35 capítulos que se alternam entre padre Anselmo (capítulos ímpares) e Zacarias (capítulos pares).

João Clímaco Bezerra consegue tramar bem o seu enredo, a partir da subjetividade dos personagens, nuanças de personalidade, também registrando um contexto histórico em que o modo de vida rural começa a mudar.

O título do romance remete à existência de uma população esquecida, assistida por um padre também esquecido:

(…) Agora as pregações haviam dado uma guinada de extremo a extremo. De tudo proibido passara para tudo permitido. Sinal dos tempos. Padre Anselmo não gostava de ameaças de castigo. Preferia mostrar Jesus, o doce Jesus, como o cordeiro de Deus que viera tirar os pecados do mundo. O Ser Supremo que tudo o todos perdoava. E tinha a predileção especial pela palavra “vinha”. (…)

Na obra, encontramos narrativa heterodiegética com acessibilidade lingüística, número atraente de discursos diretos, além dos discursos indireto e indireto livre, alguns até fazendo uso de palavras de baixo calão; encontramos, não raramente, flash-bach; há personagens bem definidos, abundância de criticidade, regionalismo, intensa intertextualidade bíblica; recorrente uso de latinismos; presença dos dois protagonistas (padre Anselmo e Zacarias); idealização de alguns personagens, como seu Leandro; personagens reais, como o padre Mundoca; discursão acerca de temas polêmicos ou inquietantes, como o segredo de confissão ou a educação sexual; há temas emocionantes como a amizade, o amor, e sociais, como a justiça ou a falta dela.

A Igreja era ligada ao conservadorismo. Logo, padre Anselmo seguia este caminho. Mas com a chegada de um novo padre, padre Pierre, que trazia idéias libertadoras da Europa, todos se vêem escandalizados.

Pode-se apontar portanto, temáticas muito relevantes e recorrentes no romance de Clímaco, como morte, desigualdade social, prostituição, injustiça, segredo de confissão, crises existenciais, racismo, tentação, casamentos formal e informal, religiosidade/crenças em milagres e educação sexual.

Obra de densidade psicológica. Configura-se como um romance de personagens, cuja narrativa se volta para a trajetória de vida de dois personagens. Vê-se ao longo da leitura, que a obra desenvolve o mundo interior das personagens, narrando o que pensam e o que lhes diz a consciência de si mesmas e dos demais.

Tempo

Pelos indício de modernidade que a cidade começa a tomar conhecimento, possívelmente a história ocorre na segunda metade do século XX. Embora haja o tempo psicológico, é o cronológico que ainda norteia a seqüência das ações.

Foco narrativo

O foco narrativo é feito na terceira pessoa, através de um narrador onisciente, que parece filtrar todo o tempo o ponto de vista dos protagonistas. O narrador, em alguns momentos, confunde-se com o protagonista, daí a força do discurso indireto livre para manifestar essa identificação.

O narrador de A Vinha dos Esquecidos não é personagem.

Enredo

A obra é ambientada em um lugarejo perdido sem progresso, abandonado das autoridades, dos homens de negócios, de Deus. Uma “cidadela esquecida até por Deus”, na qual histórias simples e outras bastante complexas se mesclam.

A história principal focaliza a personagem Padre Anselmo, homem de Deus que, apesar de sua formação de Seminário, vive um confronto enorme: desde criança gostava de esganar os bichinhos, maltratar os animais. Por não ser um menino de muita atitude, aceitou de pronto a ordem de sua mãe de colocá-lo no Seminário; sem muitas manifestações de contrariedade, Anselmo entra no colégio de sacerdotes e, logo no início de sua formação doutrinária recebe, de um professor, o livro “A Imitação de Cristo”, livro que o acompanha em todos os momentos, livro que permanece no bolso surrado de suas roupas simples. É desse livreto que Anselmo retira forças nos momentos de maior aflição e provações.

Ao tornar-se padre é enviado de volta a cidade que nasceu. Perde a mãe muito cedo e passa a ser criado pela negra Joana, que nunca o informa do verdadeiro paradeiro de seu pai. Devido o passado crudelíssimo de maltratar os animais, evita criá-los em sua casa, evita ter contato com eles, então, passa a cuidar de rosas, passa a conversar com elas, entende-as, preocupa-se quando estão doentes, vibra quando estão em plena saúde.

Padre Anselmo tem, embora lute muito contra esse sentimento, gosto por ver os moribundos padecendo, sente prazer pela morte das criaturas.

Um grande acaso atormenta a vida de Anselmo: a morte e estupro de uma garota por Inácio, homem que freqüenta as altas rodas da sociedade, possui um armazém e dinheiro, porém, devido a polícia ter chegado ao local do crime no momento em que Pedrinho, pai de família, honesto, incapaz de realizar tamanha barbaridade, passava. Pedrinho é acusado erroneamente de assassino; O padre, devido às confissões de seus fiéis sabe quem foi o verdadeiro assassino, uma vez que Inácio o confessa, porém fica de mãos atadas por se tratar do segredo da confissão, logo guarda para si uma verdade que não pode vir à tona. Sofre muito ao ver Laura, esposa de Pedrinho aos prantos sem poder fazer nada por ela. Anselmo consegue que Pedrinho saia da cadeia, onde está padecendo, para se cuidado pela esposa, embora provisoriamente.

Nos momentos finais do livro, padre Anselmo contesta Deus em como irá apresentar suas ovelhas diante do Todo Poderoso, sabia que ali eram todos mansos e humildes de coração, mas, que algumas vezes, pareciam mais um conjunto de lobos. O livro termina com padre Anselmo contemplando a cidade em que nascera, e que depois de se tornar sacerdote, voltara para seu povo, agradecia a Deus, embalado pela beleza das estrelas e pelo cheiros das rosas que cativava.

Uma história paralela é a do Negro Zacarias, homem direito, que, quando criança, sofria muito por ver Isaura, sua mãe, ganhar dinheiro como “mulher da vida”, recebendo homens em sua casa; Zacarias fazia-se de surdo no seu quarto para não ouvir “os ofegos dos homens em cima de sua mãe“. Foi mandado para o colégio público, mas não perseverou; Padre Anselmo manda Zacarias para uma escola particular, porém, ao ser humilhado pelo professor, ameaça-o com um estilete, vai embora e não mais se interessa pelos estudos.

Passa a trabalhar na caldeira da casa de máquinas da fábrica de Seu Leandro, que é um homem muito bom, conversa com os empregados, ajuda-os. Na caldeira mostra-se muito útil e inigualável, com o passar do tempo nutre uma grande amizade por Justino, rapaz com o qual Zacarias muito se identifica, por se parecer com ele, porém, Justino tem muito gosto pelos estudos, de uma família de onze irmão, sonha em ser doutor, quando sai da fábrica vai direto para a aula. Isaura, mãe do negro Zacarias, falece e seu Leandro ajuda bastante nos rituais fúnebres. Agora Zacarias está só, sem ninguém, pois não namorava, era filho único, só tinha a mãe por companheira. No velório de uma funcionária da fábrica, Zacarias conhece Maria, “moça donzela”, bem cuidada pela mãe, chega a beber um pouco e a falar besteiras, porém sente algo bom por ela, sente-se leve.

Depois do velório acompanha Maria e a mãe dela até em casa. Passam-se os dias e quando Zacarias se encontra tocando violão em casa, no meio da noite, surge uma mulher bonita, limpa, à porta, era Alice, “uma mulher da vida como Isaura”, Zacarias deixa-a entrar e por fim mantém relação sexual na mesma cama em que sua mãe morrera. Zacarias fica muito perturbado quanto a tudo, será que trabalhara até agora para se juntar a uma “sem-vergonha”? Ou será que deveria casar direitinho com Maria e viver em paz?

Em um determinado momento a fábrica pega fogo, porém não acontece um grande acidente, os prejuízos são poucos; é nessa hora que o velho Clarindo intensifica sua cobrança pelo sindicato, reivindicando indenizações, seu Leandro tem uma conversa com ele e, pela maneira serena que seu Leandro tem de falar, o homem muda seu comportamento e a idéia esfria. Após o incêndio, Justino passa a trabalhar no escritório, trabalho leve, e no seu lugar entra Jorginho, seu irmão, porém Zacarias não simpatiza com o garoto, por ele ser muito arredio, muito preguiçoso, ser muito diverso de Justino.

Zacarias fala com Maria e pede-a em casamento, fazem uma promessa de nunca mais tocar no nome de Alice. (O livro relata o noivado, mas nada aborda sobre o casamento e o futuro dessas duas personagens).

Vale salientar que ao final do livro, o autor deixa em aberto os finais das histórias, não se relata se a negra Joana morre, se Padre Anselmo morre, não comenta sobre o casamento de Zacarias e Maria.

A resolução do caso de Pedrinho e Inácio, não dá pra dizer se Inácio se entrega às autoridades, tendo em conseqüência a liberdade de Pedrinho.

Fonte:
http://www.passeiweb.com.br

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Rodrigo Capella (Estante de Livros)

Enigmas e Passaportes
(Capella, Rodrigo)
(Forever Editora – 1997)

Comentário

Ao iniciar a leitura desta obra, temos que levar em conta que o autor é um jovem de 16 anos, extremamente criativo e declaradamente brincalhão. Por ser criativo, armou cenários diferentes, misturou-os sem grandes preocupações, não deixando até de demonstrar um certo nível de erudição.

Como escritor brincalhão, fez peripécias que exigirão de todos muita atenção, para ninguém se perder no caso policial que Rodrigo armou e costurou com cuidado. O resultado disso tudo é um produto final diferenciado, curioso e até, de certa forma, instigante.

Como jovem, vingou-se de nós, adultos, criando uma história densa, bem arquitetada, que, certamente, desafiará nossa astúcia. “Enigmas e Passaportes” fica, pois, em suas mãos. Curiosamente, em se tratando de um livro policial, não há um mordomo para facilitar as coisas. E agora? (Hélio Casatle, editor da obra).

Resumo

Kall, um detetive altamente qualificado, foi contratado para desvendar um caso. E é com ele que o leitor vai conviver, ao longo de mais de uma centena de páginas, nas quais pistas, falsas e verdadeiras, desafiarão a astúcia de cada um.

A presente obra, assinada por um jovem de 16 anos, representa, assim, um convite silencioso que tenderá a levar o leitor ao cerne de um quebra-cabeças singular, que, para complicar, mistura épocas, privilegiando uma louca e divertida confusão. (Hélio Casatle, editor da obra).
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Transroca, o navio proibido
(Capella, Rodrigo)
(Editora Zouk – 2005)

Comentário

Kall, um detetive engraçado e inteligente, viaja em lua-de-mel com sua mulher. Não demora muito para o navio ser palco de um misterioso assassinato e para Kall comandar as investigações. Seja um dos passageiros do Transroca e embarque nessa divertida aventura!

Prefácio

Amanda e Kall, também se amam. Um dia se encontraram e sentiram um pelo outro o sentido do amor que os uniu. O truque que rege esse mundo de coisas – é mais honesto falar em truque que em método – consiste em trocar o olhar histórico sobre o passado por um olhar político. “Abri-vos, túmulos; mortos das pinacotecas, mortos adormecidos atrás de portas secretas, nos palácios, nos castelos e nos mosteiros, eis o porta-chaves feérico, que tendo às mãos um molho com as chaves de todas as épocas, e sabendo manejar as fechaduras maus astuciosas, convida-vos a entrar no mundo de hoje…” é o que esse jovem escritor brasileiro Rodrigo Capella nos faz embarcar, segurando nas mãos uma chave (A chave da imaginação)…

Amanda, uma doce mulher, como tantas. Kall, um homem típico, aparentemente com várias facetas, mas um detetive apenas, trás a tona o ar dos grandes e imortais mestres da investigação de todos os tempos. Kall é um profissional da investigação bem elaborado e preparado para desvendar tudo, ou melhor: todos os crimes.

Poderia ser em Londres, em Paris, Nova York ou simplesmente São Paulo. Mas a história de Amanda e Kall, se passa em Perúsia Pequena e Perúsia Grande e em seguida do jardim da casa do casal para a tão sonhada viagem de lua-de mel rumo a um lugar ambicionado por dezenas de pessoas, Parja, simplesmente Parja!

O autor em sua narrativa, nos embarca, num cruzeiro rumo a Parja, na mesma viagem de lua-de-mel que é só do casal, mas para nós o delírio de embarcar mesmo assim como degustadores de aventuras e emoção, o sentido maior dessa vida tem seu preço.

No auge da viagem, todos os passageiros são surpreendidos por um assassinato numa cabine do navio. O clima de mistério, de intrigas e de suspeitos multifacetados é contagiante até as últimas frases quando então surpreendentemente Kall, revela o criminoso. Porque apunhalar um biólogo, renomado, famoso e que desperta em todos os passageiros fascínio? A resposta tão bem construída pelo autor, revela-nos o mundo de homens que matam por interesses, amor, futilidades, ciúmes e medos. O fato é que a viagem rumo a Parja continua e o segredo da felicidade encontramos na coragem de viver com emoção qualquer coisa que nos faz embarcar numa viagem apenas: pelo mar, pelo ar, pela imaginação…
Ricardo Zimmer (cineasta e roteirista)
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Como mimar seu cão
(Capella, Rodrigo)
(Editora Zouk – 2005)

Comentário

O cão é o único que te dá amor incondicional! Não pede mesada, não exige presentes caros e gosta de distribuir carinho. Não esta na hora de você fazer o mesmo por ele?

Como mimar o seu cão apresenta 50 dicas importantes para transformar seu amigo num grande companheiro.

Prefácio

Foi por causa de uma fotografia da Brida, a adorável “Bichon Bolonhês” que divide a cama comigo e a minha mulher, dormindo sempre em baixo dos meus pés, que o autor do livro sugeriu meu nome para esta orelha.

Minha cumplicidade canina começou logo cedo, dos três aos nove anos de idade, compartilhando uma amizade mais que fraterna com Taro, um velho boxer adorável e babão, dissimuladamente carrancudo. Taro não só me defendia das agressões habituais dos “amiguinhos” mais afoitos e valentes como ainda tomava as minhas dores e culpas pelas travessuras cotidianas. Quando eu não queria comer o bife de fígado ou o creme de espinafre que minha mãe insistia em incluir no meu cardápio semanal, era Taro quem “limpava o prato” às escondidas. Flatulências naturais, advindas da ingestão de batata doce e repolho azedo, também eram assumidas pelo gentil Taro, já que o glutão e obeso boxer era, por seu lado, perito em tal prática. Até as minhas cuecas sujas eram “culpa” de Taro. Que amigo fabuloso este! Quando ele morreu, descobri que eu poderia morrer também e tenho certeza que neste dia o mundo perdeu a inocência…
Carlos Reichenbach
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Poesia não vende
(Capella, Rodrigo)
Caminho das Idéias – 2007

Veja os números de “Poesia não vende”, de Rodrigo Capella:

– 136 matérias publicadas nos principais jornais brasileiros, de Norte a Sul;
– 16 matérias publicadas em revistas literárias e de sociedade;
– 13 entrevistas em rádio;
– 11 entrevistas em televisão;
– 59 matérias publicadas em sites e revistas virtuais.
Totalizando, até o momento: 235 matérias e entrevistas
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Rir ou chorar
(Capella, Rodrigo)
Imprensa Oficial – 2007

O livro, que faz parte da prestigiada Coleção Aplauso, revela histórias curiosas e engraçadas sobre o cinema brasileiro e é também uma biografia sobre o premiado cineasta Ricardo Pinto e Silva, que já trabalhou ao lado de Vera Fischer, Paulo Betti, Guilherme de Almeida Prado, Paulo Gorgulho e Carlos Reichenbach, entre outros.

Para o crítico Rubens Ewald Filho, o livro “Rir ou chorar”, de Rodrigo Capella, traz histórias, casos e curiosidades dos bastidores que ajudam a torná-lo uma verdadeira aula de cinema.
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Loucuras de um escritor
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

“Loucuras de um escritor”, definido por Rodrigo Capella como uma salada de contos, crônicas e poemas, traz ao longo de suas páginas histórias curiosas e engraçadas sobre a viagem do autor a Europa, além de reportagens e contos especiais. Uma leitura despretensiosa para quem quer conhecer a verdadeira alma dos escritores.
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Dicas para escrever, publicar e vender um livro
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

Em “Dicas para escrever, publicar e vender um livro”, o escritor, que recebe por dia mais de 30 e-mails com dúvidas de escritores iniciantes, apresenta os bastidores do processo de publicação de livros. “Essa é uma obra sobre as curiosidades do mundo editorial, desvendando passo a passo o que ocorre nesse mundo, muitas vezes obscuro e injusto. Não se limita apenas em dar dicas para as pessoas publicarem; ele oferece também elementos para quem quer saber exatamente onde está se metendo”, diz Capella.
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@ntologia online
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

“@ntologia Online” é a primeira antologia da comunidade do Orkut “Dicas para publicar um livro”, criada por Rodrigo Capella. A obra reúne crônicas, poemas e textos de estilos diversos, de escritores das várias Regiões do Brasil, de Norte a Sul. “Criei a comunidade em 2009 e rapidamente ela foi invadida – no bom sentido – por curiosos e escritores. O resultado foi espetacular. Até hoje temos uma média de 10 novos membros por dia. E a comunidade, que nasceu com a ideia de ter um número limitado de membros – apenas 100 – já conta com mais de 600. Diante desses números e da excelente qualidade dos textos postados diariamente na comunidade, eu e os moderadores criamos a “@ntologia online” para publicar os melhores textos dos melhores autores participantes”, explica Capella.
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Assessor de Imprensa – fonte qualificada para uma boa notícia
(Capella, Rodrigo)
Clube de Autores – 2009

O assessor de imprensa ideal deve funcionar como uma extensão da redação, atendendo o jornalista sempre que este precisar. Para tanto, ele precisa conhecer o dia-a-dia dos veículos e saber, por exemplo, qual o melhor dia e horário para enviar uma sugestão de pauta. O assessor deve também passar as informações completas e corretas, pois o jornalista não tem muito tempo para checá-las.

E por fim: não deve enviar jabás aos colegas de redação, não deve insistir na publicação de notícias e não deve recorrer à malandragem, ou seja, mentir para conseguir um espaço no jornal. Essas são as principais conclusões do livro “Assessor de Imprensa – fonte qualificada para uma boa notícia”.
––––––––––––––
Mais sobre o autor pode ser encontrado em sua página pessoal http://www.rodrigocapella.com.br/ —————–
Fonte:
http://www.rodrigocapella.com.br/

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Carlos de Oliveira (Dunas)

Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:

“O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem.”

Fontes:
http://www.triplov.com/poesia/carlos_de_oliveira/

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Mário Quintana (1906 – 1994)

Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva… Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!”

Mario de Miranda Quintana nasceu na cidade de Alegrete (RS), no dia 30 de julho de 1906, quarto filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e de D. Virgínia de Miranda Quintana. Com 7 anos, auxiliado pelos pais, aprende a ler tendo como cartilha o jornal Correio do Povo. Seus pais ensinam-lhe, também, rudimentos de francês.

No ano de 1914 inicia seus estudos na Escola Elementar Mista de Dona Mimi Contino.

Em 1915, ainda em Alegrete, freqüentou a escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, onde conclui o curso primário. Nessa época trabalhou na farmácia da família. Foi matriculado no Colégio Militar de Porto Alegre, em regime de internato, no ano de 1919. Começa a produzir seus primeiros trabalhos, que são publicados na revista Hyloea, órgão da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do Colégio.

Por motivos de saúde, em 1924 deixa o Colégio Militar. Emprega-se na Livraria do Globo, onde trabalha por três meses com Mansueto Bernardi. A Livraria era uma editora de renome nacional.

No ano seguinte, 1925, retorna a Alegrete e passa a trabalhar na farmácia de seu pai. No ano seguinte sua mãe falece. Seu conto, A Sétima Personagem, é premiado em concurso promovido pelo jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre.

O pai de Quintana falece em 1927. A revista Para Todos, do Rio de Janeiro, publica um poema de sua autoria, por iniciativa do cronista Álvaro Moreyra, diretor da citada publicação.

Em 1929, começa a trabalhar na redação do diário O Estado do Rio Grande, que era dirigida por Raul Pilla. No ano seguinte a Revista do Globo e o Correio do Povo publicam seus poemas.

Vem, em 1930, por seis meses, para o Rio de Janeiro, entusiasmado com a revolução liderada por Getúlio Vargas, também gaúcho, como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre.

Volta a Porto Alegre, em 1931, e à redação de O Estado do Rio Grande.

O ano de 1934 marca a primeira publicação de uma tradução de sua autoria: Palavras e Sangue, de Giovanni Papini. Começa a traduzir para a Editora Globo obras de diversos escritores estrangeiros: Fred Marsyat, Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, Maupassant, dentre outros. O poeta deu uma imensa colaboração para que obras como o denso Em Busca do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust, fossem lidas pelos brasileiros que não dominavam a língua francesa.

Retorna à Livraria do Globo, onde trabalha sob a direção de Érico Veríssimo, em 1936.

Em 1939, Monteiro Lobato lê doze quartetos de Quintana na revista lbirapuitan, de Alegrete, e escreve-lhe encomendando um livro. Com o título Espelho Mágico o livro vem a ser publicado em 1951, pela Editora Globo.

A primeira edição de seu livro A Rua dos Cataventos, é lançada em 1940 pela Editora Globo. Obtém ótima repercussão e seus sonetos passam a figurar em livros escolares e antologias.

Em 1943, começa a publicar o Do Caderno H, espaço diário na Revista Província de São Pedro.

Canções, seu segundo livro de poemas, é lançado em 1946 pela Editora Globo. O livro traz ilustrações de Noêmia.

Lança, em 1948, Sapato Florido, poesia e prosa, também editado pela Globo. Nesse mesmo ano é publicado O Batalhão de Letras, pela mesma editora.

Seu quinto livro, O Aprendiz de Feiticeiro, versos, de 1950, é uma modesta plaquete que, no entanto, obtém grande repercussão nos meios literários. Foi publicado pela Editora Fronteira, de Porto Alegre.

Em 1951 é publicado, pela Editora Globo, o livro Espelho Mágico, uma coleção de quartetos, que trazia na orelha comentários de Monteiro Lobato.

Com seu ingresso no Correio do Povo, em 1953, reinicia a publicação de sua coluna diária Do Caderno H (até 1967). Publica, também, Inéditos e Esparsos, pela Editora Cadernos de Extremo Sul – Alegrete (RS).

Em 1962, sob o título Poesias, reúne em um só volume seus livros A Rua dos Cataventos, Canções, Sapato Florido, espelho Mágico e O Aprendiz de Feiticeiro, tendo a primeira edição, pela Globo, sido patrocinada pela Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul.

Com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, é publicada sua Antologia Poética, em 1966, pela Editora do Autor – Rio de Janeiro. Lançada para comemorar seus 60 anos, em 25 de agosto o poeta é saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, que recita o seguinte poema, de sua autoria, em homenagem a Quintana:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares…
Perdão! digo quintanares.

A Antologia Poética recebe em dezembro daquele ano o Prêmio Fernando Chinaglia, por ter sido considerado o melhor livro do ano. Recebe inúmeras homenagens pelos seus 60 anos, inclusive crônica de autoria de Paulo Mendes Campos publicada na revista Manchete no dia 30 de julho.

Preso à sua querida Porto Alegre, mesmo assim Quintana fez excelentes amigos entre os grandes intelectuais da época. Seus trabalhos eram elogiados por Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, além de Manuel Bandeira. O fato de não ter ocupado uma vaga na Academia Brasileira de Letras só fez aguçar seu conhecido humor e sarcasmo. Perdida a terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido

Poeminho do Contra
.

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!
(Prosa e Verso, 1978)

A Câmara de Vereadores da capital do Rio Grande do Sul — Porto Alegre — concede-lhe o título de Cidadão Honorário, em 1967. Passa a publicar Do Caderno H no Caderno de Sábado do Correio do Povo (até 1980).

Em 1968, Quintana é homenageado pela Prefeitura de Alegrete com placa de bronze na praça principal da cidade, onde estão palavras do poeta: “Um engano em bronze, um engano eterno”. Falece seu irmão Milton, o mais velho.

1973. Nesse ano o poeta e prosador lançou, pela Editora Globo — Coleção Sagitário — o livro Do Caderno H. Nele estão seus pensamentos sobre poesia e literatura, escritos desde os anos 40, selecionados pelo autor.

Em 1975 publica o poema infanto-juvenil Pé de Pilão, co-edição do Instituto Estadual do Livro com a Editora Garatuja, com introdução de Érico Veríssimo. Obtém extraordinária acolhida pelas crianças.

Quintanares é impresso em 1976, em edição especial, para ser distribuído aos clientes da empresa de publicidade e propaganda MPM. Por ocasião de seus 70 anos, o poeta é alvo de excepcionais homenagens. O Governo do Estado concede-lhe a medalha do Negrinho do Pastoreio — o mais alto galardão estadual. É lançado o seu livro de poemas Apontamentos de História Sobrenatural, pelo Instituto Estadual do Livro e Editora Globo.

A Vaca e o Hipogrifo, segunda seleção de crônicas, é publicado em 1977 pela Editora Garatuja. O autor recebe o Prêmio Pen Club de Poesia Brasileira, pelo seu livro Apontamentos de História Sobrenatural.

Em 1978 falece, aos 83 anos, sua irmã D. Marieta Quintana Leães. Realiza-se o lançamento de Prosa & Verso, antologia para didática, pela Editora Globo. Publica Chew me up slowly, tradução Do Caderno H por Maria da Glória Bordini e Diane Grosklaus para a Editora Globo e Riocell (indústria de papel).

Na Volta da Esquina, coletânea de crônicas que constitui o quarto volume da Coleção RBS, é lançado em 1979, Editora Globo. Objetos Perdidos y Otros Poemas é publicado em Buenos Aires, tradução de Estela dos Santos e organização de Santiago Kovadloff.

Seu novo livro de poemas é publicado pela L&PM Editores – Porto Alegre, em 1980: Esconderijos do Tempo. Recebe, no dia 17 de julho, o Prêmio Machado de Assis conferido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Participa, com Cecília Meireles, Henrique Lisboa e Vinicius de Moraes, do sexto volume da coleção didática Para Gostar de Ler, Editora Ática.

Em 1981, participa da Jornada de Literatura Sul Rio-Grandense, uma iniciativa da Universidade de Passo Fundo e Delegacia da Educação do Rio Grande do Sul. Recebe de quase 200 crianças botões de rosa e cravos, em homenagem que lhe é prestada, juntamente com José Guimarães e Deonísio da Silva, pela Câmara de Indústria, Comércio, Agropecuária e Serviços daquela cidade. No Caderno Letras & Livros do Correio do Povo, reinicia a publicação Do Caderno H. Nova Antologia Poética é publicada pela Editora Codecri – Rio de Janeiro.

O autor recebe o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no dia 29 de outubro de 1982.

É publicado, em 1983, o IV volume da coleção Os Melhores Poemas, que homenageia Mario Quintana, uma seleção de Fausto Cunha para a Global Editora – São Paulo. Na III Festa Nacional do disco, em Canela (RS), é lançado um álbum duplo: Antologia Poética de Mario Quintana, pela gravadora Polygram. Publicação de Lili Inventa o Mundo, Editora Mercado Aberto – Porto Alegre, seleção de Mery Weiss de textos publicado em Letras & Livros e outros livros do autor. Por aprovação unânime da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, o prédio do antigo Hotel Magestic (onde o autor viveu por muitos e muitos anos), tombado como patrimônio histórico do Estado em 1982, passa a denominar-se Casa de Cultura Mário Quintana.

Em 1984 ocorrem os lançamentos de Nariz de Vidro, seleção de textos de Mery Weiss, Editora Moderna – São Paulo, e O Sapo Amarelo, Editora Mercado Aberto – Porto Alegre.

O álbum Quintana dos 8 aos 80 é publicado em 1985, fazendo parte do Relatório da Diretoria da empresa SAMRIG, com texto analítico e pesquisa de Tânia Franco Carvalhal, fotos de Liane Neves e ilustrações de Liana Timm.

Ao completar 80 anos, em 1986, é publicada a coletânea 80 Anos de Poesia, organizada por Tânia Carvalhal, Editora Globo. Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS) e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Lança Baú de Espantos, pela Editora Globo, uma reunião de 99 poemas inéditos.

Em 1987, são publicados Da Preguiça como Método de Trabalho, Editora Globo, uma coletânea de crônicas publicadas em Do Caderno H, e Preparativos de Viagem, também pela Globo, reflexões do poeta sobre o mundo.

Porta Giratória, pela Editora Globo – Rio de Janeiro, é lançada em 1988, uma reunião de crônicas sobre o cotidiano, o tempo, a infância e a morte.

Em 1989 ocorre o lançamento de A Cor do Invisível pela Editora Globo – Rio de Janeiro. Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, entre escritores de todo o Brasil.

Velório sem Defunto, poemas inéditos, é lançado pela Mercado Aberto em 1990.

Em 1992, a editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) reedita, em comemoração aos 50 anos de sua primeira publicação, A Rua dos Cataventos.

Poemas inéditos são publicados no primeiro número da Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional/Departamento Nacional do Livro, em 1993. Integra a antologia bilíngüe Marco Sul/Sur – Poesia, publicada Editora Tchê!, que reúne a poesia de brasileiros, uruguaios e argentinos. Seu texto Lili Inventa o Mundo montado para o teatro infantil, por Dilmar Messias. Treze de seus poemas são musicados pelo maestro Gil de Rocca Sales, para o recital de canto Coral Quintanares – apresentado pela Madrigal de Porto Alegre no dia 30 de julho (seu aniversário) na Casa de Cultura Mario Quintana.

Alguns de seus textos são publicados na revista literária Liberté – editada em Montreal, Quebec, Canadá – que dedicou seu 211o número à literatura brasileira (junto com Assis Brasil e Moacyr Scliar), em 1994. Publicação de Sapato Furado, pela editora FTD – antologia de poemas e prosas poéticas, infanto – juvenil. Publicação pelo IEL, de Cantando o Imaginário do Poeta, espetáculo musical apresentado no Teatro Bruno Kiefer pelo Coral da Casa de Cultura Mário Quintana, constituído de poemas musicados pelo maestro Adroaldo Cauduro, regente do mesmo Coral.

Falece, em Porto Alegre, no dia 5 de maio de 1994, próximo de seus 87 anos, o poeta e escritor Mario Quintana.

Escreveu Quintana:

Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas… Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira“.

E, brincando com a morte: “A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos“.

Bibliografia:

– A Rua dos Cata-ventos (1940)
– Canções (1946)
– Sapato Florido (1948)
– O Batalhão de Letras (1948)
– O Aprendiz de Feiticeiro (1950)
– Espelho Mágico (1951)
– Inéditos e Esparsos (1953)
– Poesias (1962)
– Antologia Poética (1966)
– Pé de Pilão (1968) – literatura infanto-juvenil
– Caderno H (1973)
– Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
– Quintanares (1976) – edição especial para a MPM Propaganda.
– A Vaca e o Hipogrifo (1977)
– Prosa e Verso (1978)
– Na Volta da Esquina (1979)
– Esconderijos do Tempo (1980)
– Nova Antologia Poética (1981)
– Mario Quintana (1982)
– Lili Inventa o Mundo (1983)
– Os melhores poemas de Mario Quintana (1983)
– Nariz de Vidro (1984)
– O Sapato Amarelo (1984) – literatura infanto-juvenil
– Primavera cruza o rio (1985)
– Oitenta anos de poesia (1986)
– Baú de espantos ((1986)
– Da Preguiça como Método de Trabalho (1987)
– Preparativos de Viagem (1987)
– Porta Giratória (1988)
– A Cor do Invisível (1989)
– Antologia poética de Mario Quintana (1989)
– Velório sem Defunto (1990)
– A Rua dos Cata-ventos (1992) – reedição para os 50 anos da 1a. publicação.
– Sapato Furado (1994)
– Mario Quintana – Poesia completa (2005)
– Quintana de bolso (2006)

Participação em Antologias no Brasil:

– Obras-primas da lírica brasileira (1943)
– Coletânea de poetas sul-rio-grandenses. 1834-1951 – (1952)
– Antologia da poesia brasileira moderna. 1922-1947 – (1953)
– Poesia nossa (1954)
– Antologia poética para a infância e a juventude (1961)
– Antologia da moderna poesia brasileira (1967)
– Antologia dos poetas brasileiros (1967)
– Poesia moderna (1967)
– Porto Alegre ontem e hoje (1971)
– Dicionário antológico das literaturas portuguesa e brasileira (1971)
– Antologia da estância da poesia crioula (1972)
– Trovadores do Rio Grande do Sul (1972)
– Assim escrevem os gaúchos (1976)
– Antologia da literatura rio-grandense contemporânea – Poesia e crônica (1979)
– Histórias de vinho (1980)
– Para gostar de ler: Poesias (1980)
– Te quero verde. Poesia e consciência ecológica (1982)

Discos:

– Antologia Poética de Mario Quintana – Gravadora Polygram (1983)

Música:

– Recital Canto Coral Quintanares (1993) – treze poemas musicados pelo maestro Gil de Rocca Sales.

– Cantando o Imaginário do Poeta (1994) – Coral Casa de Mario Quintana – poemas musicados pelo maestro Adroaldo Cauduro.

Teatro:

– Lili Inventa o Mundo (1993) – montagem de Dilmar Messias.

Fontes:
Casa de Cultura Mário Quintana
http://www.releituras.com/
http://paginas.terra.com.br/arte/ecandido/quintan2.htm

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Luiz Antonio Cardoso (Lygia…)

Lygia Fagundes Telles… lindo nome! Lygia Fagundes Telles! Lygia…

Uma das nossas maiores escritoras. Membro da Academia Paulista de Letras! Membro da Academia Brasileira de Letras! Premiadíssima… o Prêmio Jabuti, por exemplo! Formada em Direito pela tradicional e conceituada Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Vários livros publicados… vários sucessos… sucessos como “As Meninas”, “Ciranda de Pedra “… foi elogiada pelos maiores entendidos em literatura… Carlos Drummond de Andrade, Antonio Cândido e Otto Maria Carpeaux são apenas alguns dos que recomendaram a leitura de seus livros.

Foi uma moça linda e, hoje, com toda a experiência, na plenitude de sua maturidade, continua bela. Uma bela senhora!

Mas de que importa todos os títulos de Lygia? De que me importa se ela foi bela ou se ainda o é? De que me importa o Largo de São Francisco? O Prêmio Jabuti? Os grandiosos que a recomendaram? De que me importa, se tudo isso passa? Se tudo passará? Qual o motivo de todo este glamour? E eu respondo a mim mesmo: nenhum! Tudo que fora relatado não significa nada, isto quando comparado ao sentimento do mundo que Lygia possui… este sentimento tão bem definido pelo nosso poeta maior, encontra um canal perfeito de manifestação na literatura e na vivência de Lygia Fagundes Telles.

Ouvia falar muito da notável escritora paulista, mas nunca tinha lido seus livros… era como muitos, que diziam se tratar de uma grande escritora sem ter experimentado a maravilha de ler seus verdadeiros ensinamentos de vida… como tantos, se me pedissem uma lista com nomes de escritores a serem estudados, passaria, dentre outros, o de Lygia, sem ao menos ter profundo conhecimento do motivo de tal indicação.

Mais eis que um dia chegou as minhas mãos de leitor, um exemplar de “As Meninas”, e ao iniciar a viagem pelo mundo ficcional desta obra-prima, fui a cada página me surpreendendo… a cada linha que trilhavam, meus olhos curiosos e repletos de admiração, eram inundados por uma crescente sensação, ainda mais real, no meio da ficção que me envolvia…

– Eu conheço alguém muito parecido com Lorena! Eu conheço a Lião! Eu juro que conheço a Ana Clara! Ah, a Ana Clara… fui me apaixonando a cada vocábulo por Ana Clara. Ao entrelaçar das palavras de Lygia, seguia espargindo as minhas e tentando de todas as formas ajudar minha Ana… mas nem Ana nem Lygia me ouviram… jurei amor eterno… ajoelhei-me (mesmo com o problema que possuo nos joelhos!)… rezei tanto, tanto, como há muito tempo não fazia… quis deixar de ser real e entrar na história para mostrar a Ana Clara que havia sentido maior para vida… mas nem mesmo minha renúncia da condição de real foi suficiente para Ana… Lorena me ouvia, mas não deu a atenção devida, pois estava preocupada com M.N. Lia também me ouviu, deu-me até alguns conselhos, mas falou que o mais importante era a luta contra a ditadura… mas, naqueles exatos momentos, nem M.N. tampouco a ditadura me afligiam… importava-me, tão somente, o olhar de Ana Clara… a riqueza psicológica desta fenomenal personagem… Lygia Fagundes Telles fez com que eu me apaixonasse e depois aniquilou o motivo de meu amor-fantasia-real… e ao término, restou uma paixão imortal pela literatura de Lygia!

O amor foi tanto, que se pela manhã estava terminando a leitura de “As Meninas”, ao cair da noite já me enveredava pelos caminhos de “Ciranda de Pedra”. E surgiu outra paixão, chamada Virgínia… ela veio sem muito alarde, sem muito falar, andando nas pontas dos pés… ainda criança me cativou… seu jeito de enxergar o mundo… um mundo todo dela, impenetrável como o mundo de seu pai-não-pai… confuso como o de sua mãe e ao mesmo tempo sublime como o de seu padrasto-que-era-pai. E conforme ela crescia, minha paixão também foi tomando proporções maiores… Virgínia foi conhecendo o mundo… vendo que não era o que pensava que fosse… viu que, o que era denominado de cruel, de detestável, era na verdade amor… um amor tão sublime, tão extraordinário, capaz de adentrar num mundo enfermo, fantasioso, irreal… um sentimento tão belo, que todos os que não alcançavam tamanha grandeza, o denominavam de ruim, de loucura… e desse amor surgiu Virgínia, para tornar-se um dos personagens mais grandiosos de nossa literatura!

E terminado o romance, ficou minha admiração pela escritora… minha gratidão pela sua arte criativa que me fez apaixonar duas vezes… sentir dor, rancor, frio, fome, alegria e tristeza…
E se não bastasse tudo que me havia ofertado, com seus romances, contos e entrevistas, que afoito, li e reli, ainda fui premiado – eu e cerca de cem pessoas – a ouvi-la num debate no Prédio da FIESP, na bela Avenida Paulista…

Lá estava eu, naquela noite de quarta-feira, que tinha tudo para ser uma noite como as outras, mas que acabou sendo uma noite demasiadamente especial! Estava em meio à platéia ansiosa… a maioria conformada apenas em esperar… alguns conversando com os colegas circundantes… mas eu, que até parecia querer ser diferente dos outros, estava a ler… não lia Lygia Fagundes Telles naqueles preciosos momentos de angústia salutar, mas lia, sim, Drummond, uma paixão que tenho em comum com a escritora que estava por chegar.

Foi então que notei a platéia se mexendo para cá e para lá… levantei minha cabeça e avistei, caminhando, Lygia, que andava calmamente ao nosso encontro… fiquei super emocionado só com sua presença… estremeci e pequenas lágrimas romperam minha estranha resistência. E ela começou a falar… falar… falar…

Sonhar…. sonhar…. sonhar…

Foi uma aula sem precedentes em minha existência turbulenta e sequiosa de paz… ela falou sobre inúmeros assuntos… disse da importância da esperança; da necessidade de termos mais escolas e creches, para evitarmos no futuro, os hospitais, as prisões e a violência; da literatura nacional como sendo da melhor qualidade; do exemplo de Machado de Assis, que era feio, pobre, mulato, gago e epilético e tornou-se o maior nome da literatura brasileira; dos políticos que roubam em demasia; da nossa importância; da qualidade da educação para as crianças; da boçalidade atual da televisão; do importante contato com a natureza, com os bichos; de sua infância e adolescência; de seus pais; de sua vida; da Faculdade de Direito; dos gatos e cachorros que teve; da composição literária e da comparação com a aranha e sua teia; do conhecimento da natureza humana… e eu estava já extasiado com tantas informações… com tanta vida que brotava das palavras de Lygia… e ela continuava… falou sobre Carlos Drummond da Andrade; da missão do escritor; das desigualdades sociais; do poder da palavra; de Jesus Cristo; das drogas, do álcool e da promiscuidade; da necessidade de fazermos o melhor em nossas profissões; da vocação; do preconceito no Brasil; do atender ao chamado; da origem da personagem Ana Clara… neste ponto fiquei ainda mais emotivo do que já estava… Ana Clara… mas Lygia falou que as personagens, assim como as pessoas, voltam, e isto me trouxe certa esperança… será então que Ana Clara voltaria e eu teria, finalmente, a chance de auxiliá-la e mostrar toda a intensidade de meu amor?

E a Lygia continuou… falou sobre a permanência do escritor através da palavra; da fantasia; do amor ao povo; da arte como negação da morte; da música de Bach; da mudança do ser humano; do artesanato literário; da paciência do escritor; da busca incessante da perfeição; das miniaturas no livro “Disciplina do Amor”; da palavra a desviar um jovem do estúpido suicídio; da criança e do incentivo à criatividade; da natureza como motivo de inspiração e amor; de Santo Agostinho; da lupa que o avô lhe dera; da urgência de criarmos ao redor de nós, nossas próprias reservas florestais; das suas idéias futuras; dos contos escritos em cadernos de escola; do custeio dos próprios livros; das participações em concursos literários… e ao fim, citou Camões: “eu estou em paz com a minha guerra…”.

Lygia… oh grande escritora! Bela mulher! Grandioso ser humano! Como você me fez feliz sem ao menos saber que existo! É por causa de pessoas como você, como Drummond, Manuel Bandeira, Charles Chaplin, Monteiro Lobato, dentre outros tantos divinos anjos da cultura que vieram ao triste mundo trazer um pouco de esperança, que eu vivo… que eu resisto… que eu luto… que eu sobrevivo… que eu amo!

Muito obrigado, Lygia, muitíssimo obrigado… até, quem sabe, um dia… lembranças para todos… para as meninas, para o contemplador Conrado, para a especial Virgínia e para a Ana Clara! Ah, a Ana Clara… estou em paz, querida Ana Clara, mas desta guerra não desistirei!
São Paulo-SP, 2001

Fonte:
E-mail enviado por Luiz Antonio Cardoso, de Crônica Publicada no Site Diário LAC. http://www.diariolac.com.br/

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Enquete do Blog

Da enquete realizada no blog sobre as preferencias dos leitores, até o presente momento contamos com a resposta de 64 pessoas, ficando assim a classificação:

1 – Poesias……………………….. 25 (39%)
2 – Contos …………………………22 (34%)
3 – Romances…………………… 17 (26%)
……Folclore ……………………….17 (26%)
5 – Literaturas do Mundo …15 (23%)
6 – Cronicas ………………………10 (15%)
……Resenhas de livros ………10 (15%)
……Entrevistas ………………….10 (15%)
9 – Biografias ………………………8 (12%)
10- Trovas ……………………………5 (7%)
11- Haikai ……………………………..4 (6%)

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14 de junho de 2008 · 14:42

Eno Teodoro Wanke (1929-2001)

por Filemon F. Martins

“Um livro pode ser nosso sem nos pertencer. Só um livro lido nos pertence realmente”. (Eno Teodoro Wanke)

Nasceu em Ponta Grossa, Paraná, a 23 de junho de 1929. Filho de Ernesto Francisco Wanke e de Lucilla Klüppel Wanke. Aprendeu as primeiras letras na Escola Evangélica Alemã, de sua cidade natal. Quando a escola foi fechada em razão do advento do Estado Novo, o futuro escritor foi transferido para o Liceu dos Campos, cuja proprietária era a educadora Judith Silveira, hoje nome de rua na cidade.

Estudou também no Colégio Regente Feijó, de Ponta Grossa, no Colégio Santa Cruz, da cidade de Castro, PR, onde completou o ginásio. Em 1948, transferiu-se para Curitiba, PR, onde terminou o científico no Colégio Iguaçu e em 1949, após vestibular, entrou para a Escola de Engenharia Civil da Universidade do Paraná, formando-se em 1953. Trabalhou na Prefeitura de Ponta Grossa (1954-1955). Atuou como fiscal de construção de uma linha de alta tensão elétrica em Curitiba, da Companhia Força e Luz do Paraná.

Em 1957 ingressou, por concurso, no curso de Refinação de Petróleo, da Petrobrás, no Rio, passando a trabalhar em 1958 na Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão, SP, residindo em Santos, onde viveu onze anos. A partir de 1969 passou a residir no Rio de Janeiro, onde fez carreira dentro da Empresa.

Começou a escrever desde os doze anos. Poeta, Trovador, Contista, Cronista, Biógrafo, Ensaísta, Historiador, Fabulista e Prefaciador, entre outros. Como sonetista de primeira, obteve com o soneto APELO, 160 versões para 95 idiomas e dialetos. É o soneto em português mais traduzido para idiomas estrangeiros:
“Eu venho da lição dos tempos idos
e vejo a guerra no horizonte armada.
Será que os homens bons não fazem nada?
Será que não me prestarão ouvidos?

Eu vejo a Humanidade manejada
em prol dos interesses corrompidos.
É mister acabar com esta espada
suspensa sobre os lares oprimidos!

É preciso ganhar maturidade
no fomento da paz e da verdade,
na supressão do mal e da loucura…

Que a estrutura econômica da guerra
se faça em pó! E que reinem sobre a terra
os frutos do trabalho e da fartura!”.

Como trovador, escreveu trovas magníficas e inesquecíveis, como estas, entre outras:
“Senhor! Que eu pratique o bem
separe o joio do trigo,
e tenha força também
de amar o irmão inimigo.”

“Na praia deserta, eu penso
que a imagem da solidão
começa no mar imenso
e finda em meu coração.”

“Quem vai ao mar deitar rede
que tome cuidado, tome!
o mar nunca teve sede,
mas nunca vi tanta fome!”

“Seguindo a trilha infinita
do meu destino estrelado,
eu sou aquele que habita
a ilusão de ser amado.”

“O meu destino se encerra
num grave e eterno conflito:
– meu corpo é feito de terra,
– meu coração, de infinito.”

A obra de Eno Theodoro Wanke é extensa e variada. Eis as principais: “NAS MINHAS HORAS” (poesia, 1953), “MICROTROVAS” (1961), “OS HOMENS DO PLANETA AZUL” (sonetos, 1965), “OS CAMPOS DO NUNCA MAIS” (poesia, 1967), “VIA DOLOROSA” (sonetos religiosos, 1972), “A TROVA” (estudo, 1973), “A TROVA POPULAR” (estudo, 1974), “A TROVA LITERÁRIA” (estudo, 1976), “REFLEXÕES MAROTINHAS” (pensamentos humorísticos, 1981), “VIDA E LUTA DO TROVADO RODOLFO CAVALCANTE” (biografia, 1982), “A CARPINTARIA DO VERSO” (didática da metrificação, 1982, 1989, 1990 e 1994), “DE ROSAS & DE LÍRIOS” (minicontos, 1987), “O ACENDEDOR DE SONETOS” (líricos, 1991), “ALMA DO SÉCULO” (sonetos, 1991), “FÁBULAS” (1993), “ADELMAR TAVARES, UM TROVADOR AO LUAR” (biografia, 1997), “ANTOLOGIA DE SONETOS SOBRE A TROVA” (1998), “CONTOS BEM-HUMORADOS” (1998), “FARIS MICHAELE, O TAPEJARA” (biografia, 1999), “ELUCIDÁRIO MÉTRICO” (metrificação, 2000) e “APARÍCIO FERNANDES, TROVADOR E ANTOLOGISTA” (biografia, 2000).

O escritor transitou do CLÁSSICO ao MODERNISMO com elegância e competência, passando pelo lirismo, romantismo, parnasianismo, às vezes até irreverente como no caso de “NESTE LUGAR SOLITÁRIO” (a trova em grafitos de banheiro, 1988) e “ANTOLOGIA DA TROVA ESCABROSA” (1989), aderindo, de forma brilhante ao TROVISMO, desde o seu primeiro momento, em 1950, tornando-se um dos maiores propagadores e historiadores do Movimento da Trova Brasileira.

Eno foi um escritor exuberante, multiforme e polivalente. Alguns CLECS (pensamentos humorísticos) de Eno, selecionados por Elmar Joenck, publicados em 1998: “Quando um adjetivo mente, ele, por castigo, vira advérbio. Folha que se desprende da árvore não volta nunca mais. Melhor perder o trem do que perder a linha. O sol nasce para todos. Mas a maioria prefere dormir um pouco mais. Um tolo inteligente não fala, que é para não revelar sua condição”. Organizou e participou ao lado do Trovador Clério José Borges de Sant’Anna, dos Seminários Nacionais da Trova, no Estado do Espírito Santo, organizados pelo Clube dos Trovadores Capixabas, de 1981 a 1999. Recebeu o título de Cidadão Espírito-santense, conferido pela Assembléia Legislativa do Estado do Espírito Santo. Faleceu a 28 de maio de 2001, deixando livros e livrotes que ultrapassam 1000 títulos.

Está presente em várias obras de Aparício Fernandes, entre outras: “NOSSAS TROVAS”, 1973; “NOSSOS POETAS”, 1974; “POETAS DO BRASIL”, 1975; “ANUÁRIO DE POETAS DO BRASIL”, 1976, 1977, 1978, 1979, 1980 e 1981; “NOSSA MENSAGEM”, 1977; “ESCRITORES DO BRASIL”, 1979, 1980. Participou também das “COLETÂNEAS DE TROVAS BRASILEIRAS”, organizadas pelo Trovador Fernandes Vianna, Recife, PE. Verbete de inúmeras obras literárias, entre outras: ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, edição do MEC, 1990, edição revista e atualizada por Graça Coutinho e Rita Moutinho Botelho, em 2001.

Fontes:
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=7644&cat=Ensaios&vinda=S
http://www.consciencia.net/citacoes/wx/wanke.html

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José Feldman (Realidade)

Não somos mais que esboços
Desenhados por outras mãos
Olhos cegos que vêem sem ver
Fantasmas do passado
Assombrando o amanhã.

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Anton Tchékhov (A Obra de Arte)

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer… Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida… curando-me de grave enfermidade e… não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito…

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico… como diria?… um tanto ou quanto ousado… Não é apenas decotada; é… sei lá, que diabos!

— Mas… por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!… Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra… Veja bem… Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!…

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras…

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente… Sou o filho único de mamãe… somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu… seu filho único… lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão… esta ninharia que… É um bronze antigo… uma obra rara… de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim… Trata-se um objeto belíssimo… em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores… Já mamãe e eu não nos ocupamos disso…

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida… Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e… só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato… Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui… Aparecem muitas senhoras… Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!… Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui… Hum… Está criado o problema… Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

“Às mil maravilhas!”, decidiu. “Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança… E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto…” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada… — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação… Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente… Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido… É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo…

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque… Mamãe vem aqui, meus clientes… e além do mais é constrangedor em relação aos criados…

— Ora, essa é boa!… Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!… Trata-se de um objeto de arte… Que movimentos! Que expressão!… Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta…

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo”, pensou. “Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa… Melhor seria oferecê-lo a alguém… Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia…”

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos… Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: “Pode-se entrar?”, logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff… Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho…

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade… Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!… Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!… Mamãe está se sentindo tão feliz!… E o senhor me salvou a vida…

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.

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Biografia do autor postada em 11 de março
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Fonte:
COSTA, Flávio Moreira da (org.). Os cem melhores contos de humor da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. Disponível em http://www.releituras.com/

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Clarice por Clarice

CLARICE POR CLARICE

Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.

A descoberta do amor

[…] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.

Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. […] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.

Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. […] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino. Pois juro que a vida é bonita.

Temperamento impulsivo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso

“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Ideal de vida

Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.

O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.

[…] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.

É pouco, é muito pouco.

Escritora, sim; intelectual, não

Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.

[…] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?

O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

A síntese perfeita

“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

A certeza do divino

“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

Viver e escrever

“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”

“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.

O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”

“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

A importância da maternidade

“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca […].”

Viver plenamente

“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”

Um vislumbre do fim

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto…”

Fonte:
VASQUEZ, Pedro Karp. Clarice por Clarice. Disponível em http://www.claricelispector.com.br/

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Obras de Clarice Lispector

1943 (Romance) Perto do coração selvagem

A vida de Joana é contada desde a infância até a idade adulta através de uma fusão temporal entre o presente e o passado. A infância junto ao pai, a mudança para a casa da tia, a ida para o internato, a descoberta da puberdade, o professor ensinando-lhe a viver, o casamento com Otávio. Todos estes fatos passam pela narrativa, mas o que fica em primeiro plano é a geografia interior de Joana. Ela parece estar sempre em busca de uma revelação. Inquieta, analisa instante por instante, entrega-se àquilo que não compreende, sem receio de romper com tudo o que aprendeu e inaugurar-se numa nova vida. Ela se faz muitas perguntas, mas nunca encontra a resposta.

Possibilidades pedagógicas:

Acompanhar a trajetória de Joana é observar a construção de uma vida em suas diversas fases, da infância à descoberta da puberdade, passando pelos caminhos da relação amorosa no casamento. A vida de Joana é vista sob um olhar não convencional. O leitor vê as inúmeras possibilidades de se estar no mundo de uma forma mais livre, aberto às mudanças, encarando o viver como uma permanente mutação.

Temas transversais:
1. Descoberta da puberdade:
Capítulo “O banho”: Páginas 64 a 66.
2. Relação amorosa
Capítulo “O passeio de Joana”. Página 31.
Capítulo “O casamento”. Páginas 108 a 109
3. Busca da identidade
Capítulo “O dia de Joana”. Páginas 21 a 22
Capítulo “A viagem”. Páginas 194 a 202

1946 (Romance) O lustre

Em O lustre, trafega-se, a maior parte do tempo, pelo mundo interior da protagonista, Virgínia, desde sua infância em um remoto vilarejo do interior até a vida adulta numa cidade grande e solitária. Clarice não permite ao leitor ter completo acesso ao que se passa do lado de fora — a não ser na crua e, talvez, surpreendente cena final. No universo subjetivo da escritora, a única clareza está nos sentimentos. Virgínia ama seu irmão, Daniel, sua alma gêmea, seu senhor. Virgínia ama seu amante, Vicente, a quem conhece tão pouco… A história é contada como num jogo de luzes e sombras, cada parágrafo permitindo apenas antever, de relance, a força sufocante de tanto amor.

1949 (Romance) A cidade sitiada

Lucrécia Neves vive num subúrbio em crescimento, São Geraldo, na década de 1920. O desejo de ser rica e de sair dos limites da cidade a fazem apostar no casamento com Mateus, que a leva para morar na cidade grande. No entanto, a nostalgia do subúrbio a invade de tal forma que ela retorna a São Geraldo, agora tão diferente daquela em que vivera. Viúva, ela se vê diante da possibilidade de iniciar uma relação amorosa mais verdadeira com o doutor Lucas, fato que não se concretiza. A carta da mãe chamando-a para mudar-se para a fazenda dá-lhe uma nova chance de jogar-se numa aventura amorosa e na busca de si mesma.

“Lucrécia Neves não seria bela jamais. Tinha porém um excedente de beleza que não existia nas pessoas bonitas. Era basta a cabeleira onde pousava o chapéu fantástico; e tantos sinais negros espalhados na luz da pele davam-lhe um tom externo a ser tocado pelos dedos. Somente as sobrancelhas retas enobreciam o rosto, onde alguma coisa vulgar existia como sinal apenas sensível do futuro de sua alma estreita e profunda. Toda a sua natureza parecia não se ter revelado: era hábito seu inclinar-se falando às pessoas, de olhos entrefechados – parecia então, como o próprio subúrbio, animada por um acontecimento que não se desencadeava. A cara era inexpressiva a menos que um pensamento a fizesse hesitar.”

1960 (Contos) Laços de família

Coletânea com algumas das obras-primas do conto brasileiro. Nos 13 contos que compõem o livro, os personagens são sempre surpreendidos por uma modalidade perturbadora do insólito, no meio da banalidade de seus cotidianos. A autora trata a solidão, a morte, a incomunicabilidade e os abismos da existência através da rotina de dona-de-casa (“Devaneio e embriaguez duma rapariga”, “Amor”, “A imitação da rosa”), do mergulho trágico em uma festa familiar nos 89 anos da matriarca (“Feliz aniversário”), da domesticação da natureza mais selvagem das mulheres (“Preciosidade”, “O búfalo”), ou dos pequenos crimes cometidos contra a consciência, como o drama do professor de Matemática diante do abandono e da morte de um animal. São lições de vida na prosa definitiva e transcendente de Clarice Lispector.

Possibilidades pedagógicas:

Mostrar o universo feminino de forma invulgar, a instabilidade que permeia as relações familiares, a existência invadida por momentos epifânicos, são algumas das possibilidades de penetrar no mundo dos “Laços de família” onde a monotonia cotidiana é atravessada subitamente pelo perigo de viver. O leitor se reconhece em situações corriqueiras, familiares.

Temas transversais:
1. Relações familiares. Página 60.
2. A condição feminina. Página 20.

1961 (Romance) A maçã no escuro

Seriam os atos do homem, às vezes os mais cruéis, necessários para elevá-lo à condição verdadeiramente humana? Em A maçã no escuro, Clarice Lispector faz crer que sim, transformando o atordoado Martim em um novo homem após ter supostamente assassinado a mulher. Fugindo do crime, Martim acaba descobrindo-se por inteiro, desprezando os antigos valores estabelecidos em sua vida. Sua fuga, em vez de isolá-lo, remonta à criação do homem, de um novo ser surgido do nada. Em vez de julgar os personagens culpados ou inocentes, Clarice Lispector faz deles aprendizes do mundo, onde cada etapa funciona como uma gênese de um ser recém-criado.

1964 (Contos) A legião estrangeira

Os treze contos reunidos neste livro abordam o cotidiano familiar, a perversidade infantil e a solidão. As histórias colocam os leitores diante de situações cujo maior encanto é o de flagrar a intimidade dos personagens no momento em que eles descobrem o quanto há de extraordinário no dia-a-dia. É o que se pode observar, por exemplo, no encontro da menina e do cachorro em “Tentação”; ou no diálogo entre um casal de jovens em busca de si mesmos em “A mensagem”. Outras histórias mostram como o próprio conto é construído, uma das obsessões da literatura clariceana.

“Que é, afinal, que eles queriam? Eles não sabiam, e usavam-se como quem se agarra em rochas menores até poder sozinho galgar a maior, a difícil e a impossível; usavam-se para se exercitarem na iniciação; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asas para que enfim – cada um sozinho e liberto – pudesse dar o grande vôo solitário que também significaria o adeus um do outro. Era isso?”

1964 (Romance) A paixão segundo G.H.

A escultora G.H. nos conta sua experiência vivenciada a partir do instante em que entra no quarto da ex-empregada, vê o surgimento de uma barata no guarda-roupa e a esmaga na porta. Daí em diante, tomada por uma mistura de medo e repulsa, G.H. vive com a barata durante horas e horas a sensação de ter perdido a sua “montagem humana”. A incapacidade de dar forma ao que lhe aconteceu, a aceitar este estado de perda, a leva a imaginar que alguém está segurando a sua mão. Desta maneira, o leitor passa a viver junto com a personagem esta experiência singular.

Possibilidades pedagógicas:

Ter a garantia de pensar que entende o que se é, o que se vive, é um dos modos de viver. Mas o que fazer quando se descobre um outro modo de viver, onde se perde a própria “montagem humana”? E como ter a coragem de manter-se nesse estado? O leitor que se aproximar desta obra deve-se colocar disponível para o exercício da reflexão sem limites, para viver o que não entende, para aceitar a limitação da linguagem humana ao tentar traduzir as experiências existenciais.

Temas transversais:
1. Existência e linguagem. Página 20.
2. Busca da identidade. Páginas 31 e 32.

1969 (Romance) Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

A professora primária Lori e o professor de filosofia Ulisses experimentam um processo de aprendizagem onde Ulisses segue como o condutor. Durante os árduos caminhos deste aprendizado em busca do eu mais profundo, ele descobrem o amor e o prazer da realização plena.

De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulissses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser Humano.

Possibilidades pedagógicas:

O leitor deste livro tem a possibilidade de refletir sobre um dos mais instigantes temas da literatura: o autoconhecimento. Ao acompanhar o processo de aprendizagem de Lóri e Ulisses em busca de si mesmos ele pode perceber todos os seus matizes quando realizado numa relação a dois, onde cada etapa é vivida intensamente, repleta dos sentimentos mais contraditórios. Dor, prazer, ódio, amor se misturam sem fronteiras. No caminho deste casal tudo converge para o aprendizado do andar com as próprias pernas permitindo-se muitas vezes não compreender o que lhe acontece. E é no interior desta descoberta que se sabe que se está em plena condição humana.

Temas transversais:
1. Autoconhecimento. Páginas 41 e 42.
2. Relação amorosa: Páginas 144 a 155.

1971 (Romance) Felicidade clandestina

Nesta coletânea de 25 textos reúnem-se alguns contos e crônicas publicados nos livros A legião estrangeira, Para não esquecer e A descoberta do mundo. Temas caros ao universo clariceano estão presentes neste livro: a relação mágica com os animais, a descoberta do outro, as inúmeras possibilidades de se escrever uma história, a presença do inesperado no cotidiano previsível. Naqueles textos de cunho autobiográfico é possível flagrar, por exemplo, momentos da infância marcados pelos sentimentos mais diversos; da euforia das descobertas ao choque das frustrações, como em Restos do carnaval ou em Cem anos de perdão.

“Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.”

Possibilidades pedagógicas:

Percorrer o universo infantil, viver os mistérios da adolescência, vivenciar os sentimentos mais díspares que vão do ódio ao amor, da perversidade à frustração. Esta é a experiência inesquecível ofertada por este livro inquieto, apaixonante, capaz de proporcionar ao leitor a descoberta de novas sensações, a mudança de seu olhar previsível sobre a vida.

Temas transversais:
1. A busca da identidade: Página 123.
2. A descoberta da sexualidade: Página 159.
3.O prazer da leitura: Página 10.

1973 (Romance) Água viva

Neste longo texto ficcional em forma de monólogo, Clarice Lispector se confunde com a personagem, uma solitária pintora que se lança em infinitas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, os sonhos e visões, as flores, os estados da alma, a coragem e o medo e, principalmente, a arte da criação, do saber usar as palavras num jogo de sons e silêncios que se combinam. Tudo é revelado através do olhar dessa pintora-narradora, que cai em estado de graça em plena madrugada.

“Mas eu denuncio. Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer – e respondo a toda essa infâmia com – exatamente isto que vai agora ficar escrito – e respondo a toda essa infâmia com a alegria. Puríssima e levíssima alegria. A minha única salvação é a alegria.”

1974 (Contos) Onde estivestes de noite

Os dezessete textos reunidos neste livro fogem a qualquer classificação: contos, crônicas ou relatórios do mistério? Alguns extraídos de romances, outros publicados na imprensa e outros, então inéditos. É um livro, como disse Clarice, feito de “supersensações”. Os personagens tocam no proibido, no impuro, passam pelos caminhos do ódio, da paixão, do sexo, da alegria mansa; rompem as fronteiras entre o tempo e o espaço. Onde estivestes de noite e O relatório da coisa são alguns destes textos capazes de provocar espanto e incompreensão, mas é desta matéria que se faz o instigante universo de Clarice.

“Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.”

1974 (Contos) A via crucis do corpo

Este livro de contos nasceu a partir da encomenda de um editor que contou três histórias para Clarice, cujo assunto, como ela disse, “era perigoso”. E ela completa: “Se há indecências nas histórias a culpa não é minha.” Nestes treze contos, mais do que revelar os desejos inconfessáveis do corpo, insinuam-se os delírios da alma crivada pelas experiências da velhice, da morte, do desejo carnal e dos momentos de fracasso.

1975 (Entrevistas) De corpo inteiro

Seleção de 35 entrevistas realizadas por Clarice Lispector na década de 1960 para as revistas Manchete e Fatos e Fotos. São encontros memoráveis com personalidades do meio artístico, científico e cultural: escritores, músicos, cantores, atores, artistas plásticos, cientistas e psicanalistas. A arte de entrevistar mostra-se numa receita simples ao revelar a humanidade de seus entrevistados e expor a sua própria sem receios. Tom Jobim, Oscar Niemeyer, Bibi Ferreira, Fernando Sabino e Djanira são alguns dos retratados neste livro.

“Tom Jobim e eu já nos conhecíamos: ele foi o meu padrinho no Primeiro Festival de Escritores, quando foi lançado meu livro A maçã no escuro. E ele fazia brincadeiras: segurava o livro na mão e perguntava: quem compra? Quem quer comprar? Para este diálogo, marcamos às seis da tarde: às seis e trinta e cinco tocavam a campanhia da porta. E era o mesmo Tom que eu conhecia: bonito, simpático, com um ar puro malgré lui, com os cabelos um pouco caídos na testa. Um uísque na mesa e começamos quase que imediatamente a entrevista. – Como é que você encara o problema da maturidade? – Tem um verso do Drummond que diz: a madureza, esta horrível prenda… Não sei, Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente”.

1977 (Romance) A hora da estrela

A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo por seu autor, o escritor Rodrigo S.M. (um alter-ego de Clarice Lispector), de um modo que os leitores acompanhem o seu processo de criação. À medida que mostra esta alagoana, órfã de pai e mãe, criada por uma tia, desprovida de qualquer encanto, incapaz de comunicar-se com os outros, ele conhece um pouco mais sua própria identidade. A descrição do dia-a-dia de Macabéa na cidade do Rio de Janeiro como datilógrafa, o namoro com Olímpico de Jesus, seu relacionamento com o patrão e com a colega Glória e o encontro final com a cartomante estão sempre acompanhados por convites constantes ao leitor para ver com o autor de que matéria é feita a vida de um ser humano.

Possibilidades pedagógicas:

A relação entre o criador e a criatura no fazer literário é fonte de indagações neste livro contundente. O leitor se vê diante das angústias do escritor Rodrigo S.M. – como escrever, como se aproximar dos personagens. Escrever é escrever-se através dos personagens? A personagem protagonista, que se delineia ao longo da narrativa, é um retrato das desigualdades sociais, uma nordestina pobre vivendo na cidade grande sem chances de tornar-se uma cidadã.

Temas transversais:
1. Desigualdade social. Página 14 e 36.
2. Criação literária. Páginas 12 e 13.

1978 (Romance) Um sopro de vida

Escrever para aprender, para entender a falta de definição da vida, para salvar a realidade. “Não consigo imaginar uma vida sem a arte de escrever ou de pintar ou de fazer música”, nos diz o personagem Autor, ao retratar, no livro que escreve os seus “rápidos vislumbres” e os da personagem Angela Pralini, a sua tentativa de ser dois. O livro se constrói a cada anotação do Autor no seu diário e no diário que ele faz Angela escrever.

1978 (Crônicas) Para não esquecer

Reunião de crônicas e pensamentos publicados originalmente na segunda parte da primeira edição de A legião estrangeira (1964), sob o título de “Fundo de Gaveta”. Neste livro, encontra-se um pouco da arte poética de Clarice Lispector, quando ela tece comentários sobre o seu processo de escrever. A autora também fala de suas vivências e aponta a força da poesia existente nelas, seja na visão de um quadro de Paul Klee, numa viagem à África, num passeio de táxi por Copacabana num dia de chuva ou numa conversa com os filhos.

1979 (Contos) A bela e a fera

Livro póstumo que reúne contos inéditos escritos em épocas diferentes. Na primeira parte, encontram-se alguns dos primeiros contos de Clarice Lispector, escritos ao longo da década de 1940. Na segunda parte, os dois últimos contos que escreveu. Na primeira parte, os contos mostram principalmente o universo feminino pontuado pelas relações amorosas, os encontros e desencontros com o próprio eu como, por exemplo, em “História interrompida”, “A fuga” e “Obsessão”. Na segunda parte, os contos transportam o leitor, de forma contundente, para as zonas obscuras da natureza humana.

1984 (Cronicas) A descoberta do mundo

Seleção de crônicas publicadas originalmente na coluna semanal que Clarice Lispector escrevia aos sábados, no Caderno B, do Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. Nela, divagava sobre temas variados: da infância no Recife a uma passeata contra a ditadura nas ruas do Rio de Janeiro; seu processo de criação; a satisfação em receber o carinho dos leitores e as particularidades da sua vida familiar. Em A descoberta do mundo, Clarice mostra-se disponível em externar seus sentimentos sem pudor nas páginas do jornal Literatura e justiça.

“Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior do que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria era “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, por mais que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar.”

2002 Correspondências
(Organização: Tereza Monteiro)

Retrato da trajetória biográfico-literária e do contexto cultural e sociopolítico da época em que viveu Clarice Lispector por meio de parte de sua correspondência com escritores, artistas, intelectuais e familiares. Reúne a correspondência pessoal ativa de Clarice Lispector, num total de 70 cartas, mais a correspondência pessoal passiva, proveniente do meio familiar e dos amigos, num total de 59 cartas. O conjunto de cartas está dividido em quatro décadas – de 1940 a 1970 – e abrangem o período em que ela residiu no Rio, Belém, Nápoles, Berna, Torquay e Washington.

2004 Aprendendo a viver (Organização: Pedro Karp Vasquez)

É uma espécie de autobiografia de Clarice Lispector construída através de uma seleção das crônicas confessionais que a escritora escreveu para o Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. Segundo o organizador do volume, Pedro Karp Vasquez, os relatos pessoais de Clarice foram dispostos tendo a vida da autora como fio condutor. O livro começa falando sobre a infância no Recife, passa pela adolescência, a vida adulta, o casamento, a maternidade, a carreira e termina com reflexões sobre a morte. Medo da eternidade

2005 Outros escritos (Organização: Lícia Manzo e Teresa Montero)

Reunião de textos de natureza diversa, produzidos ao longo da trajetória literária de Clarice Lispector. Caracterizam-se por passarem ao largo da série ficcional, (com exceção dos primeiros contos escritos pela escritora iniciante) mas mantém com esta um diálogo permanente. Os diversos escritos selecionados mostram a escritora sob várias facetas: a jornalista, a mãe, a estudante de direito, a dramaturga, a conferencista, a colunista feminina e a ensaísta. Este livro apresenta também uma longa entrevista concedida por Clarice Lispector ao Museu da Imagem e do Som onde ela discorre sobre a sua vida e obra.

“Literatura e magia (versão original) Tenho pouco a dizer sobre magia. E acho que o contato com o sobrenatural é feito em silêncio e [numa profunda] meditação solitária. A inspiração, para qualquer forma de arte, tem um toque mágico porque a criação é absolutamente inexplicável.”

2006 Correio feminino (Organização: Aparecida Maria Nunes)

Seleção de textos extraída de suplementos femininos assinados sob pseudônimos por Clarice Lispector nos jornais Correio da Manhã e O Comício, e como ghost-writer de Ilka Soares no Diário da Noite. Segundo a organizadora Aparecida Nunes, a divisão do livro em cinco blocos “caracteriza o percurso de Clarice no ofício de falar para mulheres em linguagem acessível e sobre assuntos que interessam à natureza feminina”. Mostrando-se mobilizada pela questão da emancipação da mulher, a colunista une entretenimento à informação, dá conselhos sobre beleza, culinária, moda e medicina, e ainda incita mudanças no comportamento das leitoras. É um retrato de hábitos e tendências da mulher brasileira nas décadas de 1950 e 1960.

“As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.”

2007 Clarice Lispector – Entrevistas

Seleção de 42 entrevistas realizadas por Clarice Lispector para as revistas Manchete e Fatos & Fotos, 19 delas inéditas em livro, com personalidades como Rubem Braga, Lygia Fagundes Telles, Ferreira Gullar, Elis Regina e Nelson Rodrigues, entre outras. A coletânea revela um pouco mais da personalidade da escritora, que se deixa entrever nas conversas reproduzidas no livro, 30 anos após a sua morte, além de traçar um panorama do contexto histórico e cultural do Brasil nas décadas de 1960 e 1970.

Fonte:

MONTEIRO, Tereza. http://www.claricelispector.com.br/

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O Que é Poetrix?

Nota Pessoal
Estava eu me dirigindo para São Paulo. Como são 12 horas de viagem desde minha cidade, teria muito tempo para ler. Além dos básicos (jornal e revista veja), alguns livros. O primeiro que me veio a mão foi Minimal, o qual me foi enviado por seu autor Goulart Gomes. Já havia observado superficialmente o conteúdo, naquelas famosas folheadas que se dá em um livro, e a primeira impressão que me passou que eram haikais. Tranquilamente, refastelado numa poltrona de ônibus de viagem (12 horas de viagem – ninguém merece!), comecei a ler este livro. E, de “cabo a rabo” o devorei (sem tempero mesmo). Por isso, faço primeiro uma introdução do Poetrix, para depois passar uma postagem com algumas (senão o Goulart vai querer que eu pague os direitos autorais) que está no livro que me chamaram a atenção.

POETRIX
(JOSÉ DE SOUSA XAVIER)

Para se entender o poetrix, é necessário saber um pouco sobre Goulart Gomes. Ele nasceu em Salvador, Bahia, em 1/5/1965. É graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Literatura Brasileira (UCSAL). Criador da linguagem poética POETRIX e um dos fundadores do Grupo Cultural PÓRTICO. Na homepage: http://www.goulartgomes.tk, apresenta os principais trechos de seus dez livros publicados. Obteve mais de 60 prêmios literários em concursos de poesia, prosa e festivais de música, destacando-se duas Menções pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores (RJ, 2000 e 2001) e o Primeiro Lugar no Prêmio Escribas de Poesia (SP, 2002). Integrou dezenas de antologias no Brasil, Cuba, Espanha, USA, Itália e Coréia do Sul e, ainda, trabalhos divulgados no México, Portugal e França. Tem cinco e-books com milhares de cópias distribuídas gratuitamente (downloads).

Durante a III Feira Internacional do Livro da Bahia, em 1999, Goulart formulou as bases de uma nova linguagem poética, com publicação do Manifesto Poetrix, no seu livro TRIX – POEMETOS TROPI-KAIS. O Movimento se propõe a ser internacional e já possui adeptos em vários países. Trata-se de um poema contemporâneo, em terceto, de temática livre, com título, ritmo e um máximo de trinta sílabas, que possui figuras de linguagem, de pensamento, tropos ou teor satírico. O neologismo foi criado a partir de POE, poesias e TRIX, três. Teve como precursores o epigrama (composição poética, breve e satírica, que expressa, de forma incisiva, um pensamento ou um conceito malicioso – segundo Houaiss), o poema-minuto e o hai-kai ( nas pessoas de Guilherme de Almeida, Paulo Leminsky e Millor).

Há quem diga que Leminsky já escrevia poetrix, conforme escreve Alice Ruiz em sua mensagem a Goulart: “•Oi, Goulart, tenho lido animadamente os poetrix que chegam na minha caixa de correio e acho fantástico esse desenvolvimento paralelo do filho rebelde do haikai. Só não entrei ainda, embora possa recolher vários poetrix nos meus livros anteriores e mesmo em alguns inéditos, vou fazer isso e postar pra turma, estou em dívida, só lendo o que chega, é que falta tempo no meu dia. Quanto ao Paulo, sim, é claro que, como eu, ele fez vários poetrix, pena que ainda sem terem sido batizados por você. Sucesso e um beijo carinhoso da Alice. (Dez/2000)”

O haikai (em português: haicai) é uma palavra japonesa usada pela primeira vez pelo poeta japonês Matsuo Basho para definir as estrofes, exceto a primeira, do renga (outro poema japonês). Ele chamou a primeira de hokku. O renga é um poema composto de várias estrofes, sendo a primeira com três versos (5/7/5). O hokku logo ganhou independência, e o poeta Masaoka Shiki lhe deu o nome de haiku pela junção das duas palavras concebidas por Basho.

O poetrix, embora inicialmente proposto como evidente alternativa ao haicai, apresenta características próprias que o faz diferente. O Manifesto Poetrix, inicialmente, foi concebido da seguinte forma:

1. No POETRIX, o título é desejável, mas não exigível. Ele exerceria uma função de complementaridade ao texto, definindo-o ou sendo por ele definido.

2. Não existe rigor quanto ao número de sílabas, métrica ou rimas no POETRIX, mas o uso do ritmo e da similaridade sonora das palavras, sim.

3. O uso de metáforas e outras figuras de linguagem são uma constante no POETRIX, assim como a criação de neologismos.

4. A interação autor/leitor deve ser provocada através da subliminaridade do POETRIX.

5. O POETRIX é necessariamente uma arte minimalista, ou seja, ele procura transmitir a mais completa mensagem com o menor número de palavras.

6. O POETRIX considera Passado, Presente e Futuro como uma só dimensão: TEMPO, podendo ser utilizado indistintamente.

7. No POETRIX o observador (autor), as personagens e o fato observado podem interagir, criando condições suprarreais ou ilógicas (“non sense”).

Posteriormente sofreu mudanças, como: exigência do título e ter um máximo de trinta sílabas. No plural a palavra poetrix não se altera, e os praticantes do estilo são chamados de poetrixtas. A partir deste estilo de poesia, no largo intercâmbio praticado pelos autores no grupo virtual POETRIX ( no site http://br.groups.yahoo.com), foram criadas outras variações, e chamadas de “Formas Múltiplas do Poetrix”. As quais temos: duplix, triplix, multiplix (criações coletivas criadas por dois ou mais poetrix, conforme indica as palavras), clonix ( gerado a partir de outro já existente), graftix (ilustrado), concretix ( poetrix concreto) e cirandas ( séries de poetrix temáticos).

Inicialmente, o Movimento Internacional de Poetrix (o MIP) era composto por coordenadores de vários estados do Brasil e de Portugal, Venezuela, Espanha, EUA, Itália, e Colômbia. Atualmente, a pessoa do coordenador inexiste. O MIP constitui-se numa organização responsável pela difusão do poetrix. É responsável pelo site POETRIX – http://www.poetrix.org – reconhecido pela UNESCO. Vários autores trocam diariamente informações e poetrix no grupo POETRIX, já citado e do qual faço parte.

Sabemos que existem muitos tercetos que se enquadrariam perfeitamente na descrição do poetrix. Por isso, quero terminar com as palavras da escritora e poetisa Leila Miccolis no seu “Curso de Carpintaria Poética – o fazer poético”: “Há muita gente que classifica meus tercetos como Poetrix e eu contesto: não, não são poetrix até porque, na década de 70, o poetrix ainda não havia nascido. Sendo posterior, não posso ter escrito algo que não tinha se constituído como tal. Na atualidade, posso até vir a escrever um Poetrix, é proposta muito interessante, embora ainda não o tenha feito. Com isso, quero dizer que, não é porque se escreve um terceto com no máximo 32 sílabas (observação minha: 30 no caso como preconiza o MIP) que, obrigatoriamente, estamos escrevendo um Poetrix ou entrando para o Movimento. É o autor quem classifica o gênero de seu texto poético, assim como escolhe o gênero de história que vai contar em um filme, por exemplo – comédia romântica, drama social, mistério psicológico, etc. Um drama pode ser parecido com um mistério psicológico, e é o escritor quem, definindo o tipo de gênero adotado, tentará ser o mais convincente dentro do estilo escolhido. De qualquer forma, penso que o leitor, conhecendo um pouco das técnicas da carpintaria poética, acabará percebendo, por ele mesmo, se a intenção do poeta foi escrever um haicai, um poetrix, um terceto clássico, um moderno, ou um poema-minuto.”

Fonte: http://www.movimentopoetrix.com/

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Poetrix – uma linguagem para o novo milênio

Autores: Edison Veiga Junior, Marina Torres, Sarah Maldonado Porchia, Rodrigo Gomes Lobo

PARTE I

1. Sobre a vanguarda

“A arte apresenta novas faces. Fala línguas
novas. Cria vozes diferentes e novos gestos.
Está farta de sempre falar a língua de ontem,
do passado.” (HESSE, 1971:143)

A palavra vanguarda, de origem francesa, significa “tudo aquilo que precede, anuncia, prepara”. Essa atitude abrange toda a atividade humana, encerrando o seu ímpeto, sua ânsia de invenção, de modificação da realidade, o impulso vital de enriquecer e aperfeiçoar seus instrumentos de inteligência e de ação.

Falar de vanguarda é falar do novo, do que se cria; é falar do que se pesquisa, do que se procura acrescentar ao mundo ou à experiência do homem.” (AVILA, 1969:59)

A poesia já é, intrinsecamente, considerada uma atitude inovadora. Isso se dá pelo fato de que é nesse gênero que a língua é testada em seu limite. O poeta apura e concretiza todas as potencialidades e possibilidades expressivas do idioma; cabe à ele a função de caminhar à frente, experimentando, inventando e adicionando formas e estruturas novas à linguagem.

Sempre houve poetas de vanguarda. São homens que tomam para si o papel de conduzir a sua arte para a renovação quando as formas em uso se tornam estanques. Sem eles, a arte ficaria estagnada.

A poesia, aliás a arte em geral, deve ser capaz de exprimir o mundo em evolução, o devir muitas vezes ilógico que nos rodeia, as inquietações de espírito e as transformações materiais.

No entanto, se a vanguarda é o posicionamento do artista perante o fenômeno estético, pode-se dizer que o Brasil ficou muito tempo sem saber o que é isso.

Conformado por limitações de ordem econômica e social, (…) não passou, durante quatro séculos, de mero diluidor de uma cultura transplantada, quase sempre servida ao gosto duvidoso e ao interesse imediatista de pequenos grupos, que ao lado do controle da agricultura e do comércio, controlavam a vida pública.” (AVILA, 1969:61)

É só a partir do Simbolismo que o poeta brasileiro inicia um processo de amadurecimento, culminando com a revolução de valores que foi o Modernismo, no qual a consciência poética consolidou-se como expressão criadora do homem. Os manifestos da época assumem postura tipicamente vanguardista.

Entretanto, à primeira vista, o poema de vanguarda é encarado como absurdo e exótico, por ferir o senso comum estabelecido. Somente após um esforço de atenção é que acaba se convencendo que o mesmo atende às imposições contemporâneas de síntese e concisão, aproveitando os recursos técnicos do atual processo comunicativo. Assim sendo, a poesia de vanguarda propõe, concomitantemente, uma abertura semântica atrelada a novas estruturas e soluções verbais, sempre de acordo com o contexto em que se vive.

Portanto, vanguarda não é a aventura inconseqüente que a muitos parece ser. É um fato real, um fato novo e vivo, sem o qual não se empreenderia a atividade literária.

2. Breve histórico do Movimento Internacional Poetrix (MIP)

O poetrix surgiu em 1999, com a publicação do livro “Trix – Poemetos Tropi-Kais”, do baiano Goulart Gomes. Na verdade, esse tipo de terceto foi inspirado na arte milenar japonesa do hai-kai (daí a alusão “tropi-kais”) e incorporou características brasileiras, tais como: sensualidade, interação autor/leitor, uso de figuras de linguagem, entre outras.

Por ser uma arte minimalista, é adequada à Internet, seja pela rapidez com que flui pela rede, seja pelo dinamismo exigido pela vida moderna. Isso, somado ao fato de que é através de um grupo de discussão on-line que são traçadas as metas e debatidas as tendências do MIP, rendeu ao poetrix o apelido de “poeminha da Internet”.

O movimento já tem adeptos em várias partes do mundo. Atualmente está organizado em coordenadorias: há um responsável em cada região brasileira e diversos espalhados em outros países, entre os quais Colômbia, Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai, Estados Unidos, México, Espanha, Portugal e Cuba.

O poetrix representa a vanguarda poética e é reconhecido pela Unesco, além de ter menções especiais outorgadas pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira dos Escritores.

O grande desafio dos poetrixtas é, através de um projeto de divulgação, ultrapassar as barreiras da Internet, para que o MIP seja conhecido também fora da rede.

PARTE II

1. As teorias literárias e o poetrix

Pretendemos expor aqui alguns aspectos teóricos presentes em praticamente todos os poemas analisados a seguir, a fim de evitar a repetição exaustiva dos conceitos.

Para o escritor norte-americano Edgar Allan Poe, um texto deve ser feito para uma leitura rápida, “de uma assentada”. “Um poema, só o é quando emociona, intensamente, elevando a alma; e todas as emoções intensas, por uma necessidade psíquica, são breves”. (POE, 1945:63). A preocupação com a originalidade, uma constante nos poetrixtas, também é citada por Poe. Ele alerta, inclusive, acerca da necessidade de provocar a curiosidade do leitor, interatividade esta amplamente explorada pelo poetrix.

Pode-se destacar o caráter minimalista do poetrix, enquadrando-o no pensamento de Anatol Rosenfeld, que afirma como uma das características fundamentais das obras modernas a focalização ampliada, microscópica. O poetrix é como um flash, ou seja, mostra os fatos universais em uma expressão pontual e sucinta. Outra hipótese proposta pelo autor é a da arte sendo influenciada pela realidade, pela “precariedade da situação num mundo caótico, em rápida transformação, abalado por (…) imensos movimentos coletivos, espantosos progressos técnicos“. (ROSENFELD, 1969:84). Sendo assim, o poetrix pode ser um representante de uma nova arte, fruto de uma “época com todos os valores em transição e por isso incoerentes, uma realidade que deixou de ser ‘um mundo explicado’, exige adaptações estéticas capazes de incorporar o estado de fluxo e insegurança dentro da própria estrutura da obra“. (ROSENFELD, 1969:84)

Além disso, outro ponto que nos remete à obra de Rosenfeld é o fato de que no MIP, passado, presente e futuro são uma só dimensão: Tempo, podendo ser usado indistintamente. Nas palavras do autor: “na estrutura [da narrativa], os níveis temporais passam a confundir-se, sem demarcação nítida entre passado, presente e futuro“. (ROSENFELD, 1969:81)

Quanto às propostas teóricas de Italo Calvino, julgamos desnecessário esmiuçá-las, já que Goulart Gomes o faz de forma clara e coerente em seu artigo “Poetrix: uma proposta para o novo milênio”, anexado ao trabalho.

2. Interpretação de alguns poetrix

MORTE
(Regina Benitez)
manhã, tarde, noite
passou o dia, a vida
foice

Fica visível a retomada do valor árcade carpe diem. Aqui, a fugacidade da vida manifesta-se na progressão temporal dos versos: “manhã, tarde, noite / passou o dia…”.

A palavra “foice” possui vários sentidos agregados. Pode-se entendê-la como a junção do verbo foi com o pronome se, reforçando o tema da vida efêmera. É possível também depreender a foice como objeto de trabalho, significando a impossibilidade do trabalhador desfrutar dos prazeres da vida, diante de sua alienação, sua necessidade de trabalhar para ganhar sustento. Em última análise, foice pode ser entendida como o símbolo da morte, finalizando o poema com a idéia de que a morte é progressiva: morre-se um pouco a cada dia e não há como fugir disso.

Em relação às propostas de Calvino, o poetrix “Morte” apresenta leveza, pois apesar de tratar de um tema denso e relativamente carregado, o poeta abstrai-lhe seu pesadume e opacidade, abordando-o de maneira sutil, com certo grau de luminosidade e rarefeita consistência, contrapondo-se com a idéia que temos do obscuro e inevitável destino de todos; rapidez, por ser caracterizado pela economia verbal; exatidão, pela escolha da palavra foice, que sintetiza precisamente o pensamento do eu-lírico e por fim visibilidade e multiplicidade, expressas também na imagem da foice, que dá vazão a várias interpretações.

A oposição semântica estabelecida é facilmente reconhecida no par vida vs. morte, passando por um estágio intermediário de não-morte, que é justamente sua latência no cotidiano. É a morte a cada dia. A idéia de que cada dia a mais que se vive é um dia a menos que se tem de vida.

BRAILE
(Gilson Luiz Siqueira)
cego de amor
leio-te
com a ponta dos dedos

O poema apresenta forte dose de erotismo e estabelece uma analogia entre o braile (forma de leitura dos cegos, por meio do tato) e a necessidade do contato físico entre os amantes. A expressão “cego de amor” complementa o sentido do título.

A sutileza com que é tratada a sensualidade nesse poema explicita seu caráter de leveza. Além disso, a visibilidade é perceptível na figura do cego. Sua exatidão manifesta-se na escolha das palavras certas para dar determinado significado. A possibilidade de fazer várias interpretações do tema abordado caracteriza sua multiplicidade.

Existe uma oposição entre não-conhecimento vs. conhecimento: por estar “cego de amor” (não perceber os defeitos da pessoa amada), o amante não consegue “ver” sua parceira, portanto estão em disjunção. O sujeito só se torna eufórico diante do objeto (pessoa amada) a partir do tato, daí a alusão ao braile. A análise tátil pode ser muito mais minuciosa do que a visual.

ASSALARIADO
(Goulart Gomes)
vende a vida inteira
pelo pão de cada dia
a liberdade bóia, fria

O poetrix, por suas características abrangentes, também pode abordar temas de forte cunho social, denunciando as mazelas da realidade, a exemplo do poema acima: um retrato que expõe as agruras da forma de trabalho capitalista.

O embate presente nos versos se expressa na estrutura não-liberdade vs. liberdade. O trabalhador é tratado como mercadoria, torna-se um produto, “vende a vida inteira”, coisifica-se, aliena-se de sua condição humana. O assalariado perde sua individualidade, vira somente mais uma força de trabalho, mescla-se a uma categoria abstrata sem perspectiva de futuro a longo prazo, em que o importante é conseguir ganhar o “pão de cada dia”.

A leveza com que um tema tão chocante, tão marcadamente pesado é tratado, é explícita na figura da liberdade morta, cadavérica, fria, boiando, o que porém não prejudica a mensagem engajada do texto. Além disso, pode se fazer leituras diversificadas, como no trecho “… bóia, fria” em que transparece a alusão aos trabalhadores bóias-frias.

INUNDAÇÃO
(José Sergival)
Enquanto a chuva não chega,
os olhos do torrão marejam
com os versos do poeta.

A princípio, esses versos parecem transcrever a emoção que a arte do poeta pode causar nos sertanejos. O título “Inundação” pode ser uma alusão ao sofrimento dos flagelados pela seca do nordeste (inundação decorrente de suas lágrimas). Do verso “os olhos do torrão marejam” é possível depreender que, enquanto não há chuva para fertilizar o solo árido, a cultura (“… os versos do poeta”) é uma espécie de “adubo” para sua terra, bem como um conforto para o seu povo humilde e castigado.

Há uma oposição entre o tema da aridez do sertão nordestino e a virtual inundação desencadeada pelos versos do poeta (carência vs. abundância), que reforça a idéia que o contexto difícil em que vivem os sertanejos não os impedem de produzir uma cultura que emocione.

A beleza do poetrix reside na sua multiplicidade de interpretações, que só foi efetivada pela visibilidade da palavra “torrão”. Além disso, há algo de muito sutil no tratamento dado a um assunto tão preocupante para a sociedade brasileira. A leveza do poema manifesta-se na maneira suave como tal problema é tratado.

CONSEQÜÊNCIA
(Jurandir Argolo)
na barriga
o vazio cria calo
a fome gera presídio

A rapidez e a força do silogismo final “a fome gera presídio” é de uma clareza, de uma evidência incontestável. É pungente a intenção de alertar que o estado de miséria permanente cria a criminalidade; que a fome, na imagem do calo (forma de defesa, de resistência corporal contra a dor cotidiana) que se forma com o tempo, é um incômodo social gerador de atritos desgastantes, de desordem civil.

A multiplicidade de sentidos se revela no título “Conseqüência”, irônico por dar a entender uma relação causal determinista e inevitável contra a qual nada se pode fazer. Afinal, não é só a fome dos miseráveis a responsável pela marginalidade. Ao contrário, ela é sintoma de um contexto, de uma conotação mais abrangente que o poema mostra. Na barriga, o vazio cria calo, mas na mente o vazio de idéias, a falta de planos de ação eficazes, gera uma carência na sociedade, uma fome que é “tapeada” com resoluções paliativas, com presídios que trazem a falta de liberdade tanto para os presos quanto para os cidadãos trancafiados em suas casas, com medo.

A crítica social faz, desse modo, o esquema de confronto ação (criar, gerar) vs. não-ação (calo, fome).

NU
(Maristela Straccia)
temo o silêncio
quando ouço a nudez
de meu pensamento

A imagem construída pelas palavras “… nudez / de meu pensamento” caracteriza um estado de total desproteção do fluxo de idéias do eu-lírico, ou seja, sua mente está desprovida de qualquer carapaça que a possa disfarçar e, por isso, o temor do silêncio ao ficar sozinho, introspectivo, consiste no receio de constatar o “nada” em sua consciência, de descobrir-se uma pessoa vazia de conteúdo.

É possível fazer outra leitura à medida que se considera o pensamento como algo que agride a voz poética, e o temor do silêncio procede porque é nesse momento em que se está em contato com o próprio fluxo psíquico, o que se constitui um processo doloroso para o eu-lírico.

O embate semântico reside no par de antíteses superficialidade vs. conteúdo, que caracteriza o conflito pessoal de achar-se entre essas classificações.

A visibilidade do poema está manifestada na imagem da nudez do pensamento, que dá margem a uma multiplicidade de sentidos. A seleção das palavras, para construir um jogo de significados, comprova a exatidão do poetrix.

SONSAS
(Lilian Maial)
Estrelas
não dizem a verdade;
Elas piscam.

O poema nos leva a contemplação das estrelas e conseqüente conclusão de que somos apenas um ponto ínfimo no Universo. No entanto, a voz poética nos conforta, alegando que estrelas mentem, são sonsas, dissimuladas; talvez ainda sejamos importantes e a vida valha a pena.

Pode ser abordada de outra forma a questão da mentira. As estrelas iludem quem as vê, seja na dimensão, seja no tempo. Primeiro porque, devido à distância, somos incapazes de ter a noção do tamanho real delas; segundo, que olhar para o céu, é como observar o passado: muitas estrelas já se extinguiram há séculos, milênios, e sua luz ainda nos chega.

O último verso é uma evidência que comprova o “caráter” das estrelas. Afinal, fisicamente, o movimento do ar na atmosfera faz com que tenhamos a ilusão de ótica de que tais astros piscam. Ora, isso nos leva a conclusão popular de que “quem pisca, mente”.

Há uma oposição semântica verdade vs. mentira presente no texto. A visibilidade nos é evocada pela própria imagem da piscadela e a multiplicidade é a possibilidade de várias interpretações.

SOS
(Pedro Cardoso)
em mim,
explodem os canhões.
sem motivos, estendo as mãos.

O poetrix retrata o conflito interior enfrentado pelo eu-lírico: é como uma guerra, onde canhões explodem, fazendo com que ele se veja na necessidade de pedir socorro. Essa mensagem está sintetizada no título “S O S”.

Percebe-se a oposição semântica guerra interior vs. paz interior, sendo que a paz só será obtida com a ajuda de um ente externo. Por isso, o último verso diz: “… estendo as mãos”.

Aliás, o ato de estender as mãos pode ser tanto um pedido de socorro como um gesto simbolizando a trégua. E é essa a grande imagem do poema.

A expressão “sem motivos…” também dá margem a uma ambigüidade. Ele está sem motivos aparentes para estender as mãos ou sem motivação alguma?

SÍSIFO
(Aila Magalhães)
gravidade e esperança
na pedra que não se contenta
com o meio do caminho apenas!

A evocação do mito grego Sísifo, logo no título, já sugere um certo cuidado com acréscimos interpretativos externos. Segundo CALVINO

“… toda interpretação empobrece o mito e o sufoca: não devemos ser apressados com os mitos; é melhor deixar que eles se depositem na memória, examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado sem nunca sair de uma linguagem imagística. A lição que se pode tirar de um mito reside na literalidade da narrativa, não nos acréscimos que lhe impomos do exterior.” (1990:16-17)

O mito, na potência de sua imagem significativa, explora diversas interpretações. Sísifo, em sua eterna tarefa de rolar a pedra até o cume de um monte para que após isso a rocha deslize novamente e o trabalho recomece infinitamente, nos retrata a própria condição humana. Por outro lado “com o meio do caminho apenas!” remete-nos ao célebre poema de Carlos Drummond de Andrade.

O conflito se instaura de forma abrangente, segundo o esquema alto (esperança) vs. baixo (gravidade). O texto flui entre as oposições, entre a imagem da pedra, pesada, estorvo, e a leveza da esperança que não se contenta com os obstáculos, com o meio do caminho, com a força da gravidade agindo sobre os corpos, trazendo-os para o chão. O poema ganha vida, oscila, desliza, como a pedra em seu eterno trajeto, ora no alto, ora nas profundezas, num movimento dinâmico e ininterrupto.

SEMIÓTICOS
(Aníbal Beça)
A pá lavra
para a semeadura
A colheita se escolhe.

O tema desse poetrix já se manifesta no título “Semióticos”. Fica clara a intenção de lidar com o sentido do texto, tanto em seu significante, no jogo “pá lavra”, quanto no seu significado como um todo, aberto a múltiplas interpretações, porém com a ressalva de que a analogia cultivo/colheita com escrever/ler é propícia. O autor que “planta” um texto não sabe o que o leitor vai “colher”. Cria-se então um conflito que pode ser expresso desta maneira: autor (plantar) vs. leitor (colher).

A visibilidade, a imagem fixada no poema é a palavra tornada semente, unidade que pode se potencializar de forma fecunda, dando frutos inesperados, dependendo de quem “escolhe o que vai colher”, alimentando o espírito. Trata-se mesmo de um exercício semiótico, de construção de significados, de decifrar os diversos frutos que podem ser extraídos da terra lavrada pelo autor: o texto, com toda a sua multiplicidade latente, esperando pelo leitor coletor atento.

APÊNDICE: Entrevista com Goulart Gomes

O fundador do Movimento Internacional Poetrix, poeta Goulart Gomes, concedeu-nos uma breve entrevista. A seguir, os principais trechos.

1) De onde veio a idéia do poetrix? Como tudo começou?

R: Eu, como muitos outros poetas, escrevia tercetos acreditando que eram hai-kais. A maioria dos escritores não procura conhecer a essência do hai-kai antes de escrevê-lo ou, quando a conhecem, simplesmente passam por cima. Não concordo com isto, acredito que o hai-kai deva ser preservado como ele é desde há mil anos. Quando descobri que eu fazia algo diferente veio a necessidade de dar um nome diferente a isso. Em 1999, na Feira Internacional do Livro da Bahia (hoje, Bienal) lancei meu livro TRIX POEMETOS TROPI-KAIS – que foi premiado pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores – RJ, em 2000 – no qual coloquei o MANIFESTO POETRIX, propondo a nova linguagem.

2) Notamos certa resistência, sobretudo do meio acadêmico, frente ao poetrix. Por que o movimento não é tão conhecido? Há a idéia de intensificar a divulgação do projeto? Como?

R: Não diria que haja resistência ao poetrix no meio acadêmico. Talvez, pouco conhecimento. Como eu disse, meu livro de poetrix foi premiado pela Academia Carioca de Letras; nossa homepage está listada no site da UNESCO; professores da Faculdade Jorge Amado (Bahia) o tem disseminado; no curso de pós-graduação em Literatura Brasileira da Universidade Católica de Salvador, onde sou aluno, o poetrix também tem sido muito bem recebido. Vários críticos têm elogiado nossa proposta. Não temos do que reclamar. É verdade que o poetrix é pouco conhecido fora da Internet. Dentre outras ações para popularizá-lo estamos organizando, agora, uma antologia luso-brasileira que será distribuída aos “protocolos de consagração”.

3) Quais as metas para o MIP num futuro próximo?

R: A única meta do MIP a curto, médio e longo prazo é continuar divulgando o Poetrix e os poetrixtas, nacional e internacionalmente.

4) Já que a principal mídia utilizada pelo movimento é a Internet, como você encara a questão dos direitos autorais?

R: É uma questão polêmica, sobre a qual nem mesmo a Justiça chegou a um consenso. O plágio sempre existiu e sempre existirá, seja lá qual for a mídia. Se plagiam obras impressas, com seus direitos autorais registrados, quanto mais o que é divulgado virtualmente! Sempre recomendo aos autores que registrem seus trabalhos que julgarem mais importantes, antes de divulgá-los.

5) Qual a relação entre Poetrix e Internet? O Poetrix é a poesia da Era Digital?

R: Uma das características da Era Digital é a velocidade. Velocidade na transmissão das informações, velocidade de consumo, velocidade na interatividade. Por ser breve, o poetrix guarda grande afinidade com esta característica. Além disso, ele se afina muito bem com os novos recursos tecnológicos, como apresentações em Power Point, Flash, etc. Há quem chame o Poetrix de “poeminha da internet”, sem nenhum caráter pejorativo.

6) Você acredita que o Poetrix, por ser mais dinâmico, mais “rápido”, é mais acessível para o público? Como tem sido a receptividade?

R: As pessoas dispõem de cada vez menos tempo para ler as tantas mensagens que lhes chegam. Talvez, por isso, o poetrix seja tão bem aceito. Ele é breve (apesar de que nem sempre deva ser lido com brevidade), busca a síntese e, ao mesmo tempo, com sua subjetividade, deixa uma grande margem para interação com o leitor. Geralmente quem lê um bom poetrix, duplix, triplix ou multiplix, gosta

7) Quais são as suas influências literárias? Quais poetas você lê dos “clássicos”? E dos contemporâneos?

R: Dos clássicos, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa são minhas leituras preferidas. Dos contemporâneos gosto muito de João Cabral, Manoel de Barros, Ferreira Gullar e Affonso Romano (citando apenas os de língua portuguesa).

8) Como você vê a qualidade, no geral, da literatura contemporânea?

R: Em todas as épocas coisas boas e ruins foram escritas. Os autores contemporâneos têm, a seu favor, um vastíssimo acervo cultural herdado. É preciso conhecê-lo bastante, estudá-lo, antes de se ter a pretensão de escrever.

9) Você acredita que o MIP pode entrar para a história da literatura brasileira, como os movimentos que costumamos estudar?

R: Estamos trabalhando para que isso aconteça. “É a parte que nos cabe neste latifúndio”. Mas, não depende apenas de nós. Como diria o Ariano Suassuna, pode ser que sejamos vanguarda hoje e, amanhã, retaguarda. Só o tempo dirá.

10) Com a Internet, você acha que o brasileiro está lendo mais?

R: A Internet ainda não faz parte da realidade de milhões de brasileiros, que não tem nem o que comer, dependendo de esmolas públicas e privadas para sobreviver. São milhões de Sem-Terra, Sem-Teto, Sem-Saúde, Sem-Trabalho, Sem-Educação. Acho, sim, que a Internet propicia um incremento na leitura, apesar de que nem sempre a leitura certa. Sete dos dez sites mais visitados na Internet são de pornografia! Mas tenho certeza que se lê cada vez mais. Meus e-books gratuitos têm sido bastante lidos, assim como textos que tenho disponibilizado na Usina de Letras. Gostaria de convidá-los a conhecer os sites http://www.poetrix.org e http://www.goulartgomes.tk.

Fonte: http://www.movimentopoetrix.com/

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Entrevista com Goulart Gomes

Entrevista concedida a Ivan Cavalcanti Proença por Goulart Gomes

Entrevista concedida por Goulart Gomes, criador e coordenador geral do Movimento Internacional Poetrix a Ivan Cavalcanti Proença, Professor, Mestre e Doutor em Literatura. Autor de inúmeros livros/Ensaios de Literatura e Diretor/Professor da Oficina Literária mais antiga do Brasil.

Qual a inspiração mais atuante? Os micropoemas, poemas-minuto do Modernismo ou os tercetos orientais? Ou nenhum deles? Nesse caso, revelar a (s) fonte (s).

Eu diria que ambas. Rilke (1) afirmava que um poema é bom se nasceu pela necessidade. O POETRIX nasceu pela necessidade. Transmitir uma mensagem poética em apenas uma estrofe de três versos já impõe uma grande limitação; se, aliado a isto, temos ainda limitações temáticas ou estilísticas, a dificuldade torna-se ainda maior. Mas este não é o único entrave: perde-se em criatividade, perde-se a possibilidade de alçarmos maiores vôos. O POETRIX em sido chamado de “anti-haicai” ou “filho rebelde do haicai”. Eu diria que ele é um ‘herdeiro” do haicai, pela sua forma e um “herdeiro” dos micropoemas e poemas-minuto, pelo seu conteúdo. Mas, não esqueçamos que o terceto também tem uma tradição ocidental, oriunda dos terzettos italianos, praticados por Dante Alighieri.

O movimento literário Poetrix se vale de liberdades métrica e rímica, mas padrão estrófico. Como se explica, diante da, hoje, aceita conceituação de que Conteúdo é forma que vem à tona?

Conceitos são bons até que surjam outros, melhores, que os substituam. Qualquer paradigma só aguarda o momento de ser quebrado. O POETRIX preza a similicadência (frases com um mesmo ritmo ou cadência) ou, ao menos, o isocronismo (mais ou menos o mesmo número de sílabas) (2). Mas isto não é uma regra. Aliás, é sempre bom relembrar: não existem regras no POETRIX. No Manifesto Poetrix (3) apenas identificamos algumas características principais, que viriam a contribuir para a formulação da definição (ainda não definitiva) à qual chegaram os integrantes do Movimento Internacional Poetrix: um terceto contemporâneo, de temática livre, com título, ritmo e um máximo de trinta sílabas, possuindo figuras de linguagem, de pensamento, tropos ou teor satírico. Alguns teóricos defendem a opinião segundo a qual o que diferencia a poesia da prosa é o ritmo. Ainda assim, a poesia concreta despreza o ritmo; não seria ela, então, nem prosa nem poesia? O POETRIX insere-se no universo dos tercetos, possui padrão estrófico e rítmico mas, ao mesmo tempo, temos visto surgirem POETRIX CONCRETOS, no espaço das três linhas. O que vem à tona sempre é o conteúdo, na forma que melhor se adeque.

Os não-ditos e o jogo imagístico constituem a força, a essência dos poemas?

Em grande parte, sim. A nossa linguagem, ocidental, não tem o recurso “paisagístico” dos ideogramas japoneses. O grande haijin Masuda Goga (4) cita, em um dos seus livros, o escritor nipônico Ikutarô Nishida: “penso que uma forma poética como o haiku não poderá ser, absolutamente, traduzida para idioma estrangeiro… [ele]… mostra a atitude peculiar dos japoneses em relação à vida e ao mundo” . As mais bem intencionadas tentativas ocidentais (e principalmente brasileira, como a de Guilherme de Almeida) de prática do haiku – e sua adaptação, transformando-o em haicai – não passam de pálidos reflexos, sem a riqueza dos originais. Então, parodiando Caetano Veloso (“só é possível filosofar em alemão”): só é possível fazer haiku em japonês. Por aqui, “atropelamos” o haicai. A maioria dos poetas, por absoluto desconhecimento, acredita que está fazendo haicai, mas não. Ignoram o kigo (emoções vinculadas a estações do ano), o haimi (sabor, essência), o kireji (cadência). Para compensar esta nossa “desvantagem” visual, o POETRIX traz a imagética para o texto. O não-dito, por vezes, fala mais. Reconstruímos as imagens com o que nos permitem as palavras, incorporando figuras de linguagem, o non-sense, o humor. Acredito que, principalmente por isso, o POETRIX esteja sendo tão bem aceito por poetas do México, Argentina, Espanha e Portugal, dentre outros. Ele já “nasceu” ocidental, adequado à nossa escrita e facilmente assimilável pelas mais diferentes culturas.

Poetrix resulta do experimentalismo de vanguarda, da exaustão do Modernismo, ou de uma retomada da idéia de que “não sabemos o que queremos, mas sabemos o que não queremos!”

O POETRIX sabe o quer: tornar-se uma nova linguagem poética, que permita ao autor realizar altos vôos num curto espaço, “desengessar” o terceto, retirar-lhe as amarras, torná-lo contemporâneo. O POETRIX surge no “rastro” de poetas como Leminsky, Millor e Cacaso e totalmente adequada à dinâmica e à velocidade da informação no cibermundo em que vivemos. Mas o enigma da literatura brasileira hoje é: Onde termina (ou terminou) o Modernismo? Esse movimento quase octogenário é um divisor de águas. O recente e polêmico livro Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizado por José Nêumanne Pinto, tem a sua primeira parte intitulada “Pré-Modernismo”, adotando o conceito de Alceu Amoroso Lima: “o que concede ao prefixo pré uma conotação meramente temporal de anterioridade”. Nela estão elencados poetas tão distintos quanto Augusto dos Anjos e Machado de Assis! E o que aconteceu após a Semana de 22 que realmente se diferenciasse da proposta modernista? Talvez, apenas, o Concretismo e o Poema-Processo, que tem um apelo muito mais visual, gráfico, do que semântico. Hoje, temos bons poetas românticos, simbolistas, parnasianos, modernos; sonetistas, cordelistas, trovadores, de visuais, de versos livres. Vivemos uma agradável “babel”, onde todos se entendem. Neste ponto, sim, o conteúdo é forma que vem à tona… de qualquer forma! O Modernismo deu um tiro de misericórdia nas “escolas literárias” ou, como diria Raul Seixas, “faça o que tu queres pois é tudo da Lei”. Melhor seria considerar o POETRIX como resultante do experimentalismo de vanguarda, da busca por novas formas de expressão da nossa criatividade ou, apenas um exercício do que preconiza o mestre Ferreira Gullar: é preciso, ao poeta, elaborar a sua linguage,.

Agradeço à Amélia Alves pela oportunidade de conceder esta entrevista, ao mestre Ivan C. Proença pelo brilhantismo das questões levantadas e convido todos os leitores a conhecerem mais o POETRIX visitando: http://www.movimentopoetrix.com

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Rilke, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta.
Garcia, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna.
Gomes, Goulart. Trix Poemetos Tropi-kais.
Goga, H. Masuda. O haicai no Brasil.
Pinto, José Nêumanne, Os cem melhores poetas brasileiros do século.

Fonte: www.movimentopoetrix.com

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