Arquivo da categoria: Universo de Versos

José Feldman (Universo de Versos n. 134)


Uma Trova de Porto Alegre/RS

LISETE JOHNSON


No brinquedo “Esconde-esconde”,
eu me escondia tão bem,
que, até hoje, não sei onde,
eu me escondi…E de quem?
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O Universo Poético de Francisco Macedo

FRANCISCO NEVES DE MACEDO
Natal/RN (1948 – 2012)


Patativa… Paixão e Vida

Nasceu Patativa… Poeta emoção!
Santana, seu chão… Assaré, sua vida!
Sorbone o estudou e curvou-se vencida…
Fenômeno e luz que brilhou no sertão!

Poeta maior, de uma vida sofrida,
compôs os seus versos com inspiração.
Nasceu e cumpriu sacrossanta missão,
vive em Assaré… Após “Triste Partida”!

Os versos que fez e que são imortais,
seu povo e Assaré… Não esquecem jamais:
São seus sentimentos de amor/fantasia!…

Meu mestre maior, viverá entre nós.
Em mim permanece com trêmula voz
a sua sublime e divina poesia!…
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Um Haicai, de São Paulo/SP

FABRÍCIO SOARES PERICORO


Friozinho da manhã
Sob as azaleias floridas
Dorme o cãozinho.
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Uma Trova sobre Ecologia, de Caicó/RN

FRANCISCO F. DA MOTA


Ficamos estarrecidos
vendo pra todos os lados
nossos rios poluídos,
nossos campos devastados.
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O Universo Poético de Perneta

Emiliano David Perneta
Curitiba (1866 – 1921)

Dor

Ao Andrade Muricy

Noite. O céu, como um peixe, o turbilhão desova
De estrelas e fulgir. Desponta a lua nova.

Um silêncio espectral, um silêncio profundo
Dentro de uma mortalha imensa envolve o mundo

Humilde, no meu canto, ao pé dessa janela,
Pensava, oh! Solidão, como tu eras bela,

Quando do seio nu, do aveludado seio
Da noite, que baixou, a Dor sombria veio.

Toda de preto. Traz uma mantilha rica;
E por onde ela passa, o ar se purifica.

De invisível caçoila o incenso trescala,
E o fumo sobe, ondeia, invade toda a sala.

Ao vê-la aparecer, tudo se transfigura,
Como que resplandece a própria noite escura.

É a claridade em flor da lua, quando nasce,
São horas de sofrer. Que a dor me despedace.

Que se feche em redor todo o vasto horizonte,
E eu ponha a mão no rosto, e curve triste a fonte.

Que ela me leve, sem que eu saiba onde me leva,
Que me cubra de horror, e me vista de treva.

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O Universo da Glosa de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando EDUARDO A. O. TOLEDO
A Bênção, Mãe!

MOTE:
Durmo tranquila e feliz,
na madrugada sem lei,
quando meu filho entra e diz:
a bênção mãe, eu cheguei!

GLOSA:
Durmo tranquila e feliz,
e a noite se faz amiga
quando com terno matiz
junto a mim, meu filho abriga!

Titubeia o coração
na madrugada sem lei,
maldades, sem emoção
são praticadas, eu sei!

As preces todas que eu fiz
agradeço, de mansinho,
quando meu filho entra e diz:
Oi mãe, com todo o carinho!

Eu sinto a felicidade,
ouvindo a voz do meu rei,
que diz com tranquilidade:
– a bênção mãe, eu cheguei!
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Uma Trova Lírica Filosófica, de Balneário Camboriú/SC

ELIANA RUIZ JIMENEZ


Sorriso que é cativante,
 é sincero e iluminado.
 Precioso como brilhante
 por todos ambicionado.
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


sol na varanda –
sombras ao entardecer
brincam de ciranda
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O Universo Poético de Suttana

RENATO SUTTANA
Barroso/MG

Empório


 “Timbre: rompante, a megalomania…”
(Camilo Pessanha)


 Fui ao vento pedir uma riqueza
de que o vento, já velho e despossuído,
não se lembrava mais, tendo-a perdido
entre as monções do engano e da beleza.

Curvado ao peso da delicadeza
que a tal ponto me havia conduzido
(sem meta que eu tivesse pretendido),
nada achei que me desse uma surpresa,

senão o labirinto, já ruinoso,
e os vidros, e os vitrais despedaçados,
e o projeto do salto, desastroso,

e a coleção dos uivos, e o cansaço,
saudade, grito, a pretensão de espaço,
asas de grifo – megalomania.
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Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Chega o Ano Novo –
Acenam do portão
os filhos e os netos.
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Cara-metade, em verdade,
é uma expressão… trapaceira…
– a gente quer a metade
mas tem que engolir… inteira.
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Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


mas que noite curta –
o sonho do fim do mundo
ficou no começo
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

SE TU VISSES O QUE EU VI


 Há inúmeras rimas começadas com “Se tu visses o que eu vi”, pois são quadras fáceis de criar. O objetivo é sempre divertir e fazer rir, pela imagem absurda que evocam.

Se tu visses o que eu vi
À vinda de Guimarães
Um barbeiro de joelhos
A fazer a barba aos cães

***

Se tu visses o que eu vi,
Havias de te admirar.
Uma cadela com pintos,
E uma galinha a ladrar.

***

Se tu visses o que eu vi,
Havias de te admirar.
Uma cobra a tirar água,
E um cavalo a dançar.

***

Se tu visses o que eu vi,
Havias de te admirar.
Uma abelha a grunhir,
E um porco a voar.

***

Se tu visses o que eu vi,
Fugias como eu fugi,
Uma cobra a tirar água,
E outra a regar o jardim.

***

Se tu visses o que eu vi,
Este caso de assombrar,
Um macaco sem orelhas
A servir de militar.

http://luso-livros.net/
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Como é um facho de luz,
fosse de madeira a trova,
eu mesma faria a cruz
que irá marcar minha cova.
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

O Plenipotenciário Da Facúndia

(a Oliveira Lima)

De carne mole e pele bambalhona,
Ante a própria figura se extasia.
Como oliveira — ele não dá azeitona,
Sendo lima — parece melancia.

Atravancando a porta que ambiciona,
Não deixa entrar nem entra. É uma mania!
Dão-lhe por isso a alcunha brincalhona
De paravento da diplomacia.

Não existe exemplar na atualidade
De corpo tal e de ambição tamanha,
Nem para a intriga igual habilidade.

Eis, em resumo, essa figura estranha:
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.
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Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Labirinto


como uma sala em outra sala
em outra sala, e não se finda
dentro, eu; eu, ainda
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Uma Trova Humorística, de Caçapava/SP

ÉLBEA PRISCILA DE SOUSA E SILVA


Gostosa! – diz, leviano.
– Ela é minha filha Ester…
– Perdão, é a outra, que engano!                 
– A outra é minha mulher.

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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Busca


Traço na tábua a trilha da traça.
Tiro da tira um tanto de nada.
Fito na foto a fita que enfeita,
O filme perfeito
De um conto de fada.

Fico atento focando no trono,
O rato roendo a roupa do rei.
Vejo ao relento a força da lei,
Perco a esperança, o sonho, o sono!

Sinto na alma um quê de saudade,
Choro sozinho o sonho perdido,
Vejo o passado morto e partido.
De mim sinto pena, dó, piedade!

Lanço o laço em busca do nada.
Sinto o horizonte mais longe que tudo.
Perco o caminho, o rumo, a estrada,
Caio na poça de um poço bem fundo.

Busco na fé a força do forte.
Conto o tempo em cada segundo.
Procuro na bússola a reta, o norte,
Acho você: meu mundo, meu tudo!
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Mini-borboletas
Orquídeas papilonáceas
– Só não podem voar
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Uma Trova Hispânica, da Argentina

ALICIA BORGOGNO


Toda mi ilusión navega
en el cauce de sus ríos…
segura estoy de que llega
con su barca y con sus bríos.
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Trilha


Sei que em algum lugar,
há alguém que me espera
Nos bares que ainda não fui,
ou nas ruas desertas
Longe de mim há alguém,
que eu ainda não vi
Pode ser que talvez algum dia,
sua trilha eu vá seguir
Sei que em algum lugar,
esse amor me completa
E posso sentir pelo ar,
que esse alguém me desperta
Sei que um pedaço de mim
mora longe daqui
E a falta que ele me faz,
ninguém mais vai sentir
Tento seguir os seus passos
pelas noites vazias
Em busca de abrigo ou talvez,
me perder em seus braços
Sei que em algum lugar,
esse amor me completa
E sonho um dia encontrar,
sua trilha minha amada
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

O Mosquito Escreve


 O Mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois, treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.

O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U e faz um I.

Esse mosquito
esquisito
cruza as patas, faz um T.

E aí, se arredonda e faz outro O,
mais bonito.

Oh!
já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever o seu nome.

Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?

E ele está com muita fome.
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Trovadores que deixaram saudades

HERÁCLITO DE OLIVEIRA MENEZES
Rio de Janeiro/RJ


Toda criança produz,
apesar da ingenuidade,
grandes clareiras de luz
nas trevas da Humanidade.
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Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto


Procuro refletir num dia assim
em que a chuva prossegue sem cessar;
e encontro a solidão dentro de mim,
enquanto avisto ali bem perto o mar…

Quisera num momento navegar
os meus sonhos de amor no mar sem fim,
pra que pudesse reviver e amar
o que me falta nesta vida, enfim…

Porém, são tão inúteis estes sonhos,
quais os meus pensamentos enfadonhos,
quando não me permitem conciliar

o que desejo obter e não consigo,
embora seja um sentimento antigo,
com o que o mundo tem a me ofertar !
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Nossa relação é quente
Toda noite na cama
um gato entre a gente
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Há nos teus olhos escuros,
o escuro da Ave-Maria.
Desconfio que teus olhos,
são os de Santa Luzia…
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O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Os degraus


Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo…
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Constelação Poética de Misciasci

ELIZABETH MISCIASCI
São Paulo/SP

Olho no olho…


Dos meus medos faço canção
embalando meus sonhos em desatino.
Desvairada num anseio turbulento
de quem se despede da razão

Envolta persisto e desisto
insegura me entrego aos desvios
do vazio que minh’ alma teme
meus dias são passados distantes
Versos sem rimas que se apagam
Folhas secas caindo a fremir
Atroz aparente disfarçada audaz
arsenal revestida conclamo concisa

Mar a ser atravessado
sem barco nem remo
Necessidade de transpor
lanço-me neste fluxo

Incerteza é direção
niilismo insistente
desordenada renego
este meu perecimento

Canção que me decompõe
harmonia espacejada sem ritmo
procriada dos meus medos
transformados mau grado e solidão.

Olho no olho
encaro meu ego sem receio
sou de mim mesma esteio
Dos meus medos, faço canção.
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Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Despedida


Saudade, tanta saudade!…
Quem deixa as provas da vida,
È que sabe como dói
O tempo da despedida!…
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Veronica’s Veil


Plasmar-me vero ícone em poesia
Foi pra mim verdade e confissão,
Pois jamais em falsidade conseguia
Resistir ao linguajar do coração.

Não há como mentir ou falsear
Tua verdadeira face ao mundo
Se tiveres alma e palma que rimar
E chegar do coração ao poço fundo.

Pois se fores falso nem atinges
O que se denomina de poema,
O lenço que com más tinturas tinges…

Quais cabelos as raízes mostrarão
A cor de uma velhice que se tema:
As mais feias rugas de expressão…
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Uma Poesia de Osasco/SP

DOMINGOS ALBERTO R. NUVOLARI

Você longe


 Gostaria de estar longe, bem distante,
 No campo, onde a natureza vive,
 Ver tudo que posso e quero.

Olhar os campos e sentir o aroma da vida,
 Queria ficar sozinho, só com a natureza.
 Estando sozinho me sinto bem.

Queria entrar na noite, sair dela,
 Entrar no dia, sair dele,
 Viver sem preocupações,
 Mas paro e penso:

Aqui a vida também é boa, tenho de tudo,
 Vou aonde quero, não é tão saudável,
 Mas é boa …às vezes,
 Penso realmente em sair daqui.
 Mas penso outra vez:
 E você?

Ficar sem poder te olhar?
 Ficar sem te sentir?
 Ficar sem ouvir tua voz?

Você foi quem conseguiu me mudar.
 Você fez nascer em mim a poesia.
 O drama, a crítica,
 Coisa que não gostava.

Só você.
 Não tenho mais ninguém.
 Só você, você.
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O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro…
Bem sabes quem to mandou…
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Nessa ausência tão sofrida
que a separação impôs;
vejo o grande mal que a vida
fez na vida de nós dois.
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O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares

VI

A Haroldo de Brito

Quantos momentos passei como este, não sabendo
se os homens estão alegres mesmo, ou se carregam
sobre os ombros o peso de todas as noites.
Embora haja vozes que dizem menos que o silêncio,

eu sou um só na rua. E se encontrasse
Deus de repente, sua presença me aniquilaria,
ou me tornaria leve como um cego perdido
que súbito deparasse nas trevas o seu guia.

Mas não lhe pediria que perdoasse os homens,
essas criaturas frágeis e sujeitas
à condição de serem levadas sem que saibam.

Ao encontrar os homens sinto-me fraco
para abraçá-los, mas dispo-me do que de mim existe em mim
e me torno como eles – pobre, orgulhoso, impenetrável.
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O Universo Trovadoresco  de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

 –
Obsessão de quem ama,
ninguém consegue entendê-la:
parece vaso de lama
encarcerando uma estrela.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Luta sempre e desde cedo,
sem nunca desanimar,
pois o mais duro rochedo
cede à constância do mar…
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O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Desde sempre


Na minha frente, no cinema escuro e silencioso
Eu vejo as imagens musicalmente rítmicas
Narrando a beleza suave de um drama de amor.
Atrás de mim, no cinema escuro e silencioso
Ouço vozes surdas, viciadas
Vivendo a miséria de uma comédia de carne.
Cada beijo longo e casto do drama
Corresponde a cada beijo ruidoso e sensual da comédia
Minha alma recolhe a carícia de um
E a minha carne a brutalidade do outro.
Eu me angustio.
Desespera-me não me perder da comédia ridícula e falsa
Para me integrar definitivamente no drama.
Sinto a minha carne curiosa prendendo-me às palavras implorantes
Que ambos se trocam na agitação do sexo.
Tento fugir para a imagem pura e melodiosa
Mas ouço terrivelmente tudo
Sem poder tapar os ouvidos.
Num impulso fujo, vou para longe do casal impudico
Para somente poder ver a imagem.
Mas é tarde. Olho o drama sem mais penetrar-lhe a beleza
Minha imaginação cria o fim da comédia que é sempre o mesmo fim
E me penetra a alma uma tristeza infinita
Como se para mim tudo tivesse morrido.
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Esta Música


 Esta música que estou ouvindo
não é música,
é você.

Você está inteira nesta música,
ela guardou você com a fidelidade de um perfume
que me envolve todo,
e que de repente acende olhos em minhas lembranças.

Eu não ouço esta música. Eu vejo você.
Nela nos encontramos, e dançamos, e enlouquecemos,
como naquela noite que nunca há de amanhecer
em minha memória.

Esta música foi música. Hoje, é apenas você,
Sou eu, é aquela vida
de repente colhida
e ultrapassada,
resto de vida numa angústia
atroz,
que há de ficar tocando e bailando fantasmas
dentro de nós…
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Os currais estão vazios…
o verde fugiu do chão…
e a seca, bebendo os rios,
vai devorando o sertão.
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O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)

Natal/RN (1934)

Se chover poesia no sertão,
vou fazer meu chapéu de uma peneira,
pois não quero perder um pingo só
da fartura que desce na biqueira
e, pra o grande calor de minha febre,
eu arranco o telheiro do casebre;
quero é banho de verso a noite inteira!
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O Universo Poético de Mallemont

MARIA EFIGÊNIA MALLEMONT
Petrópolis/RJ

Encantamento


Canta meu coração,
que de oprimido e sujeito
a tão duras provações,
está querendo saltar peito.
Canta meu coração,
que um dia talvez suceda
encontres o teu amor
na curva de uma vereda.
E se persistires no teu canto,
na via que vais seguindo,
pode ser que algum encanto
dê corpo a um sonho lindo.

– II –

Os dias que estás vivendo,
assim triste, esmorecida,
podes transformá-los, querendo,
em euforia merecida.
Teus versos são ambrósia,
bom alimento da alma,
que nos enchem de alegria,
e tornam a vida calma.
Teus poemas são delícia,
melhores que vinho do Porto;
são uma doce carícia,
plenos de amor e conforto.
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O Universo de Beça

Anibal Beça
(Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto)
Manaus/AM (1946 – 2009)

Profissão de Fé


Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No vôo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Procura da poesia


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação
Que se dissipou, não era poesia
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. ==================================
UniVersos Melodicos

Bororó e Evrágio Lopes

QUE É, QUE É?

(samba-choro, 1943)

O que é? O que é?
Adivinhe meu amor
Trabalha como um relógio
Não tem corda nem motor
Marca as horas de ventura
Marca as horas de amargor
Não há dinheiro que pague
Nem se bota em penhor

Muito embora não se esconda
Não se mostra à ninguém
Não se empresta, não se vende
Dá-se quando se quer bem
Vem conosco de nascença
Morre conosco também
Todo mundo tem no peito
Só você é que não tem
(o que é? o que é?)
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Uma Cantiga Infantil de Roda

ANDA À RODA


É uma roda de crianças e uma no meio. A menina do centro canta:

Anda à roda }
Porque quero }
Porque quero }
Me casar } bis

A roda responde:
Escolhei nesta roda
A quem mais vos agradar
A quem mais vos agradar

A criança do meio:
Não me serve, não me agrada,
Só a ti, a ti hei de querer,
Só a ti hei de querer.

A escolhida passa a ser a do centro na vez seguinte. E assim
por diante.

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas Infantis Brasileiras. 2003.
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O Universo das Poetisas Paranaenses

ANDREA MOTTA
(Curitiba)

Natureza Íntima


Sou pedra plantada.
Quando pedra, sou dura,
implacável com as palavras.

Sou água a correr.
Quando água, sou como um riacho sereno
a deslizar em silêncio.

Sou vulcão em constante erupção.
Quando vulcão, sou imaginação.
Trago na pele, no rosto e,
na alma a cor da paixão.

Sou cigana livre de preconceitos.
Sou nômade, vivo as margens dos rios
minh’ alma tem asas brancas e vermelhas,
p’ros vôos desta vida incerta.

Tenho os olhos tristes e a voz embargada,
em simultâneo a alegria d’uma criança.
No peito trago contudo, a inabalável certeza
de amar-te eternamente.
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Conversas


Não a conversa dos vizinhos
pelas janelas
abertas
nos assuntos
de todos os dias
a conversa ampliada
em gestos e sorrisos
na mímica
  e música
não a descoberta da vontade
em palavras imaginadas
nos mistérios
e desvendadas
em conversas
de vizinhos
no que acontece
diariamente.
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O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Precisamos Ser Verdadeiros

Homenagem Acróstica nº 4946

P-Para ser feliz é muito trabalhoso,
R-Revela-nos o escritor Mia Couto!
E-Em 1966, ouviu no Rádio de Lusaka,
C-Comunicação do Presidente Kaunda,
I-Importante  agradecimento à população:
S-Sobre a construção da 1ª Universidade,
A-A partir da ajuda de todos os cidadãos…
M-Mas, 40 anos depois, a fome continua…
O-O povo nada  mudou em sua história!
S-Será a culpa do povo ou dos governos?
 –
S-Sempre a mesma pergunta:O que falta?
E-É preciso tomar ATITUDES ATIVAS,
R-Retirar todos os preconceitos do passado.
 –
V-Vítimas não queremos ser! Avalia:
E-Em Moçambique, o maior fator de atraso
R-Revela, não se localiza na economia;
D-Deve-se à incapacidade de fazer gerar
A-A forma de pensar ousada, inovadora,
D-Dentro de idéias produtivas avançadas.
E-Em Palestra feita:[Oração da Sapiência]
I-Indicou sete ATITUDES, os sapatos sujos…
R-Responsabilidade, ousadia, igualdade,
O-O espírito consciente das possibilidades,
S-Sem preconceito, ser verdadeiros, na realidade.
=============================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Estou a procura


De sorriso com mais verdade
Do carinho com toda certeza
Da nobreza vestindo coração.

E da verdade mais sorridente
Da certeza do doce acarinhar
Do coração com alma nobre.

Caço o beijo com todo gosto
A tez que encrespa ao toque
E do corpo que pede calado.

Do sabor dos lábios beijados
Do contato que a pele abala
Do silêncio dos corpos depois.
====================
Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

O Sofá


OH! COMO É suave os olhos
Sentir de gozo cerrar,
Sobre um sofá reclinado
Lindos sonhos a sonhar,
Sentindo de uns lábios d’anjo
Um medroso murmurar!

Um sofá! Mais belo símbolo
Da preguiça outro não há…
Ai, que belas entrevistas
Não se dão sobre um sofá,
E que de beijos ardentes
Muita boca aí não dá!

Um sofá! Estas violetas
Murchas, secas como estão
E entre beijos vaporosos
Da terra fazer um céu!
Um sofá! Mais belo símbolo
Da preguiça outro não há…
Sobre o seu sofá mimoso,
Cheirosas, vivas então,
Achei um dia perdidas,
Perdidas: por que razão!

Talvez ardente entrevista
Toda paixão, toda amor
Fizesse ali esquecê-las
Quem não sabe? sem vigor
Estas flores só recordam
Um passado encantador!

Um sofá! Ameno sítio
Para cingir duas frontes
De amor num místico véu,
Ai, que belas entrevistas
Não se dão sobre um sofá,
E que de beijos ardentes
Muita boca aí não dá!
================================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Carta de Um Homem Arrependido


Quando você me deixou,
meu mundo caiu na desolação e arrependimento.
Me senti muito triste, muito só,
e sequer dormir, eu conseguia,
remoendo a culpa atroz, de você ter ido embora.

Sei que não dei à você,
a importância que você merecia,
não dei atenção, nem amor.
Vivi esse tempo todo, de forma egoísta,
pensando somente em mim.
Sei que você foi embora por que,
tinha seus motivos, que não eram poucos
mas, mesmo assim, fico imaginando,
o dia, a hora, o momento
em que você, com seu sorriso largo,
vai entrar por essa porta,
trazendo num abraço, o seu perdão.

Estou aqui, debruçado no parapeito desta janela,
assistindo ao longe, no céu,
as celebrações juninas.
Queria que você chegasse agora, assim, de surpresa,
dentro de um desses maravilhosos balões,
que passeiam no céu de junho.
Não sou santo meu amor,
sou apenas um homem arrependido
que implora pelo seu perdão pois,
sem você, não sei viver!
Volta pra mim, vai?!?.…
============================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Era Bom…


Era tão bom aquele tempo, já distante,
em que íamos sempre de mãos dadas
caminhando, e olhando para adiante,
sem ver o que deixávamos na estrada.

Era tão bom esquecer o que passava,
fosse um pequeno ou grande dissabor,
porque a vida, em troca, já anunciava
que amanhã tudo teria mais valor.

Era bom esquecer que o tempo passa
e transforma esses sonhos em fumaça
que apaga as imagens e o seu som.

Porque o tempo não pára, e desse jeito,
só acabou nos restando aqui no peito
a saudade de lembrar como era bom.
============================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Rumos


Cada rendição, cada covardia, cada traição contra si,
cada medo à pública opinião, cada ato de tibieza
de espírito, cada pacto contra a voz da consciência

mais nos predestina a essa quase morte que é pior do que morrer.

Cada ação que parte do sangue íntegro, do repúdio ao que é vil
(é questão de hábito), cada rir deveras, cada chorar, deveras,
torna mais fácil a força e o saber que engendram mais a força

e sentir, a cada despertar, que vale a pena estar aqui. ===================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)

IV


Depois que quis Amor que eu só passasse
Quanto mal já por muitos repartiu,
Entregou-me à Fortuna, porque viu
Que não tinha mais mal que em mim mostrasse.

Ela, porque do Amor se avantajasse
Na pena a que ele só me reduziu,
O que para ninguém se consentiu,
Para mim consentiu que se inventasse.

Eis-me aqui vou com vário som gritando,
Copioso exemplário para a gente
Que destes dois tiranos é sujeita;

Desvarios em versos concertando.
Triste quem seu descanso tanto estreita,
Que deste tão pequeno está contente!
=======================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Consoada


Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
==============================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 6


Assim, não deixemos a mão rota do inverno desfigurar
De ti o teu verão antes que sejas destilada;
Adoça teus sumos; orna um lugar
Que tenha o valor da beleza antes de sucumbires.

Este uso não é a proibida usura
Que alegra os que pagam os devidos juros –
Para que cries, para ti mesma, um novo ser,
Ou sejas dez vezes mais feliz do que és.

Serias dez vezes mais alegre,
Se em dez de ti dez vezes te transmudasses;
Então, o que poderia fazer a Morte se partisses,

Passando a viver na posteridade?
Não sejas turrona, pois és por demais bela
Para que a Morte vença e os vermes te consumam.
==============================
O Universo Poético de Vinheiro

PAULO VINHEIRO

(Paulo Vieira Pinheiro)
Monteiro Lobato/SP

Desandanças


Tudo quanto sei são das trevas
Aquelas que renuncio sem certeza
Tudo por onde ando são breus
Quanto toco carece de luz e
Sofre de tanto esperar em vão
Sofro também, pois nada sei
Neste misto de sim e não
Nisto que aceitamos como vida
Não há, sinto, algo valioso
Seria temerário dizer que há além?
Troco passos em calçadas e afins
Me perco das sobras e de mim
=================================
Galáxia Poética de Jacob

José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Almas Sem Flores


Tenho tido a tristeza do meu lado,
E os olhos cheios de visões de outrora,
Com fantasmas que chegam do passado
E entram por minha porta em qualquer hora.

Eles trazem um vento desolado,
E assim, tal qual o inverno que demora,
Esses duendes, que custam ir embora,
Zombam de mim: e eu fico mais calado…

Uns vestem-se de reis, outros esmolam,
E outros, tanto se esmurram que se esfolam
Que, ao andarem, o mal rasteja atrás.

Eu tenho a casa cheia com as dores
Dessas almas, que nunca deram flores,
Eu tenho apenas isso… e nada mais.
========================
A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

Idas Vindas


Sempre busco esse instante que passou,
Mas me atraso, em segundos, uma era.
E se volto, eu me perco de onde estou,
Bem não fico onde o tempo me tolera.

O caminho que escolho já chegou,
E eu não chego onde o grito reverbera.
No meu eco, a palavra silenciou,
No silêncio, ouço a voz que dilacera.

Se o meu tempo abre em mim funda cratera,
Esse abismo, em que o peito se lançou,
Sou um louco astronauta em longa espera.

Tenho a tola certeza do que sou,
Sei do tempo que me aprisiona fera,
Entre a ida e entre a volta, eu nunca vou.
=====================
O Universo Poético de Carvalho

VICENTE DE CARVALHO
(Vicente Augusto de Carvalho)
Santos/SP 1866 – 1924

Esperança


Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
==========================
Poesia Além Fronteiras

ROBERT FROST
(Robert Lee Frost)
São Francisco/EUA 1874 – 1963 Boston/EUA

A Família da Rosa


 A rosa é uma rosa
E sempre foi rosa.
Mas hoje se usa
Crer que a pêra é rosa
E a maçã vistosa
E a ameixa, uma rosa.
Pergunta a amorosa
Que mais será rosa.
Você, claro, é rosa –
Mas sempre foi rosa.

(Tradução: Renato Suttana)

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José Feldman (Universo de Versos n. 133)


Uma Trova de Porto Alegre/RS

DELCY CANALLES


Empilhados na memória,
um a um, mesmo à distância,
escreveram linda história
os meus brinquedos de infância!
============================
O Universo Poético de Francisco Macedo

FRANCISCO NEVES DE MACEDO
 Natal/RN (1948 – 2012)

Tributo ao Dicionário


O dicionário, qual mulher incrível,
e sempre para nós, indispensável,
numa entrega total, imensurável,
doando para nós, todo o possível.

Se o verso parecer quase impossível
por sua doação, fica viável
e neste conviver terno e saudável
torna a vida mais doce e mais sensível…

É você, meu amigo dicionário,
nosso caso de amor extraordinário
jamais terá divórcio, ele é moderno.

Vamos esparramar nossa poesia
em romântica e doce parceria…
Nosso caso de amor será eterno!
============================
Um Haicai, de Irati/PR

ELISSON THOMAS SVEREDA


Manhã de geada.
Estarão ainda vivas
As flores de ontem?
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Pindamonhangaba/SP

JOÃO PAULO OUVERNEY


Somente o júri divino
pode, na força que encerra,
julgar o filho assassino
no matricídio da Terra!
============================
O Universo Poético de Perneta
 EMILIANO PERNETA
(Emiliano David Perneta)
Curitiba (1866 – 1921)

Damas


Ânsia de te querer que já não tem mais fim,
Meu espírito vai, meu coração caminha,
Como uma estrela, como um sol, como um clarim,
Mas tudo em vão, sei eu! Tu és uma rainha! …

És a constelação maravilhosa, a minha
Aspiração, de luz magnífica, ai de mim!
A nudez, o clarão, a formosura, a linha,
O espelho ideal! Ó Torre de Marfim!

Nunca me hás de querer, batendo-me por ti,
Pomo duma discórdia infrutífera, beijo
Todo em fogo, e a arder, assim como um rubi…

Mas é por isso que eu, ó desesperação,
Amo-te com furor, com ódio te desejo,
E mordo-te, Ideal, e adoro-te, Ilusão!
===================================
O Universo da Glosa de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando BENEDITO CAMARGO MADEIRA
Adormecer…


MOTE:
Viajor, na tarde fria,
buscando quentes regaços,
quisera poder, um dia,
adormecer nos teus braços!

GLOSA:
Viajor, na tarde fria,
sozinho, pelos caminhos,
na tarde da nostalgia,
sofre a ausência de carinhos!

Sigo em minha solidão,
buscando quentes regaços,
e um pouquinho de afeição
para amparar os meus passos!

Poder viver a alegria,
antecipar meu depois…
quisera poder, um dia,
num mundo só de nós dois!

Realizando desejos:
ganhar todos teus abraços…
ganhar todos os teus beijos…
adormecer nos teus braços!
============================
Uma Trova Lírica Filosófica, de Belo Horizonte/MG

WANDA DE PAULA MOURTHÉ


És o Sol de minha vida,
e eu, um planeta menor,
que, à distância, sem guarida,
só gravita ao teu redor…
=============================
O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


chão de caruma,
crepitar no pinheiral –
passos ou fogo?
===========================
O Universo Poético de Suttana

RENATO SUTTANA
Barroso/MG

O Pássaro


 Sou o pássaro em seu mais alto galho.
Quem tenta comandar meu coração,
estendendo na minha direção
um cantil, uma côdea, um agasalho;

quem se arroja na noite ao (vão) trabalho
de abrir-me em plena chuva o seu portão
e me oferece abrigo e proteção –
não conhece o que quero ou o que valho.

Abre-me, inutilmente, uma passagem
que leva ao centro morno do seu dia
e que entanto não cruzo, pois a imagem

é que me põe em marcha e me desvia:
e desejar um bem que não existe,
e sequer entender em que consiste.
==========================
Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Ao romper da aurora
o sabiá dobra seu canto –
Só isso me basta.    
=======================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Se a gente fosse dar crédito
ao que diz a maioria,
só de “autor de livro inédito”
tinha uns mil na Academia!…
=========================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


mas que noite curta –
o sonho do fim do mundo
ficou no começo
=================================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

LAGARTO PINTADO

 –
 Lagarto pintado,
quem te pintou?
Foi uma menina
que por aqui passou
 
Lagarto verde,
que te esverdeou?
Foi uma galinha
que aqui passou
 
Lagarto azul,
que te azulou?
Foi a onda do mar
que me molhou
 
Lagarto amarelo,
que te amarelou?
Foi o sol pœnte
que em mim pisou
 
Lagarto encarnado,
que te encarniçou?
Foi uma papoila
que para mim olhou

http://luso-livros.net/
=================================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


É assim a boca do mundo
que vigia nossas portas:
esconde nossos triunfos,
propala nossas derrotas.
================================
O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Vinte anos depois…


“Feia – tu me disseste – o teu amor de outrora,
– Resíduo de mulher, arcabouço de um sonho,
Escrava de um burguês presumido e enfadonho,
Feia e velha mal vive a morrer de hora em hora!”

E tu, poeta querido, a cuja alma sonora,
Sempre, em meu culto de arte, as estrofes deponho,
Mergulhaste ao falar-me este meu ser tristonho,
Numa recordação que me embevece agora!

Vejo-lhe a alma infantil de há vinte anos!
Revejo Tudo que houve entre nós nessa manhã de Maio
Que só fez perpetuar o insaciado desejo!

Toda a vida a passar mais rápida que o raio,
Ao néctar virginal do seu primeiro beijo,
Na volúpia imortal do primeiro desmaio!…
=================================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Quo Vadis

(inspirado em Montaigne)

beira de precipício
andar para frente
é dar um passo pra trás
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

EDMAR JAPIASSÚ MAIA

THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA


O velho rico é moderno
e quer que a garota jure:
-Que nosso amor seja eterno
enquanto o dinheiro dure.
=============================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Brisa


Você é meu sopro de vida,
brisa terna e envolvente –
aragem leve e sentida
roçando no corpo da gente!

É a cascata escondida,
sussurrando bem baixinho,
dando o adeus da despedida
ao correr pelo caminho!
 
É do campo a relva verde
toda coalhada de flor,
que mata a fome e a sede
do tão frágil Beija Flor!
 
É a luz do sol poente
escondendo na montanha…
deixando saudade na gente,
mesmo antes que se ponha!
 
Você é o céu estrelado
em noite de lua cheia…
é o amor mais amado,
é fogo que incendeia!
 
É, então, tudo afinal:
princípio, meio e fim,
o mundo pleno e total
guardado dentro de mim!
===============================
Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Pescoços de cisne
Transformam em corações
O espaço vazio…
=========================
Uma Trova Hispânica, da Venezuela

ADAMIS BARRIOS


Pasa el amor más querido
como pasan las estrellas
fugaces, dejando huellas
y el corazón afligido.
==========================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Jardins de Cor


Quando a sombra se torna clara,
Aonde todo rio é marginal
A calmaria invade as salas
Tornando a nossa vida um pouco mais real…
Mais real

Pelo tempo afora, agora
Ninguém além de nós é tão feliz
A ternura estampada na face
De quem me olha agora e me diz
Pelas ruas carros passam,
As pessoas vêm e vão
Pelos cantos desta casa
Amor, poemas e canção
Fervem rimas, notas primas
Melodias de amor……
Aonde mora o azul da tarde
Também cabem jardins de cor… jardins de cor
Quando a chuva alaga a alma
Eu lavo e limpo a mágoa por você
Mas o carinho vira mero acaso
Se acaso um do outro se perder
Pelas ruas carros passam
As pessoas vêm e vão
Pelos cantos desta casa
Amor, poemas e canção
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Presença em Pompéia

 –
 Esta conta não pagarás:
– ficará sob uma cinza que não sabes.
 
Sob a cinza que ainda não sabes
ficará teu filho por nascer
e também os meninos que já sabiam desenhar nos muros.
 
Ficarão os figos que ontem puseste na cesta.
Ficarão as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de estátuas felizes,
sob a cinza que não sabes.
 
Os gladiadores anunciados não lutarão
e amanhã não verás, próximo às termas,
a mulher que desejavas.
 
Tu ficarás com a chave da tua porta na mão;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unirão, no mesmo grito;

os cães se debaterão com mordaças de lava;
a mão não poderá encontrar a parede;
os olhos não poderão ver a rua.
 
As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
É uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d’água:
a luz do sol que afaga pela última vez as roseiras verdes.
========================================
Trovadores que deixaram saudades

ZÉLIA SIMEÃO POPLADE
Paranaguá/PR


Jamais negue alguma ajuda
ao pobre, sabe por quê?
Às vezes a sorte muda…
quem vai pedir é você.
=========================
Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto


Compus velhos sonetos como outrora;
não me preocupa em ser original,
quero viver feliz aqui e agora,
pensando só no bem, nunca no mal…

A quem me ler eu peço sem demora
que siga seu caminho etc e tal,
mas como alguém que um dia vai embora,
levando para o Além a alma imortal.

Existe uma certeza: a Evolução,
para nós sermos mais aprimorados
e próximos, enfim, à Perfeição.

Preciso me encontrar nesta saudade
que sinto vir dos meus antepassados,
quando procuro ter felicidade…
=============================
Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Nas entrelinhas
destas linhas
só há estrelinhas
==========================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Grande dia, este meu dia,
dado por Nosso Senhor.
– De manhã, escrevi versos
De noite, vi meu amor.
======================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

De Repente


Olho-te espantado:
Tu és uma Estrela do mar.
Um mistério estranho.
Não sei…

No entanto,
O livro que eu lesse,
O livro na mão.
Era sempre o teu seio!

Tu estavas no morno da grama,
Na polpa saborosa do pão…

Mas agora enchem-se de sombra os cântaros.

E só o meu cavalo pasta na solidão.
====================
Constelação Poética de Misciasci

ELIZABETH MISCIASCI
São Paulo/SP

Não quero morrer assim


Ah! Chuva fria…
Agora Me faz pensar em você.
Quisera pudesse falar contigo…
Dizer tudo que sinto seria presente de valor sem igual.

Estou rodeada de gente, mas me sinto só,
Pensamento vagando, rumo ao desconhecido.
Uma música suave toca, mas é sua voz que ouço.
Sussurrando ao meu ouvido palavras que me enlouquece de paixão.

Será que está beijando outra boca,
se despindo, tirando a roupa, mesmo em pensamento…
Entregando seu corpo que já meu?
Penso e viajo anos luz em você.

Sinto dores jamais sentidas…

Olho sua foto perco o chão, levito,
molho sua face com minhas lágrimas de saudades.
Eu sei o que é desejo,
já vivi muitas paixões.
Não ouse me ensinar o que é amor.

Não me prenda, não me solte…
Não me chame, não me deixe só.
É o lamento do meu coração.

Rogo as forças ocultas que me revele seu olhar.
Clamo ao mares que sufoque minha voz no momento
Em que eu gritar meu amor por você.

Que os céus não ouçam, que os anjos não desçam
Não quero morrer assim;

desejando um beijo seu
para selar nos lábios meus
a vontade que hoje senti de te amar.
=============================
Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Esqueçamos


Lendo livros ou jornais
Guarda no bem a cabeça,
Esqueçamos qualquer mal
Para que o mal nos esqueça.
==========================
O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Titã


Creio o homem ser maravilhoso
Em seu funcionamento tão complexo.
Nem me refiro só ao amor e o sexo
Mas ao nosso cérebro espantoso.

Não me venha então com a coisa vã
De visões negativas, derrisórias;
O homem em si mesmo é um Titã,
Só civilizações são provisórias.

Afinal somos feitos das estrelas,
A ciência o provou e é verdade,
E até nos caberá também fazê-las.

E me espanta que o Bardo já sabia
Quando o colocou na Tempestade,
Como no próprio cerne da Poesia…
==============================
Uma Poesia de Santos/SP

CARLOS ALBERTO OMENA

Pinceladas


 Pinceladas de tinta eu dou
 em tela pelo tempo amarelada.
 Faço riscos e manchas sem tino
 dando forma sequer imaginada.

Sem quadro nenhum aplaudido
 digo-me pintor renomado
 pois pinto a essência da alma,
 qual um poeta apaixonado.

Pinto o mar, a lua ,as estrelas,
 dou sentido também … saudade e o amor.
 Retrato tudo em simples tela,
 usando apenas meu guache multicor.

Em doces e suaves pinceladas
 eu plasmo meus pensamentos.
 E ‚ através do colorido das aquarelas,
 que eu registro meus sentimentos.
=================================
O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Toda a noite ouvi no tanque
A pouca água a pingar.
Toda a noite ouvi na alma
Que não me podes amar.
===============================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Nos momentos mais tristonhos
chega a musa da poesia,
torna reais os meus sonhos
num mundo de fantasia.
=================================
O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares

V


Ou nunca o alcançaremos. O silêncio
aguarda as mãos – peixes enfim cansados
de se esbaterem aos sinais da aurora,
imóveis junto ao mar, na areia podre.

Meu sonho entre fronteiras nada vale.
Não cessaram os gestos de cimento
a esmigalharem pétalas de músicas.
A noite esconde a praia dos iguais.

Mas transitórios anjos me acenaram.
Meu coração é pêndulo entre os pólos.
Radiogramas do azul captei no cais.

Mortas manhãs renascem de elementos
geradores do canto que em mim vive.
Morto o sonho não morrem suas luzes.
================================
O Universo Trovadoresco  de Auta

AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

 –
Ofensa, pedrada, espinho,
injúria, maldade ou lama…
Tudo vence, no caminho,
o coração de quem ama.
===============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Acabam-se os meus cansaços
e os dias são mais vividos,
se a música dos teus passos
vem tocar nos meus ouvidos.
========================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

O bom pastor


Amo andar pelas tardes sem som,
brandas, maravilhosas
Com riscos de andorinhas pelo céu.
Amo ir solitário pelos caminhos
Olhando a tarde parada no tempo
Parada no céu como um pássaro em voo
E que vem de asas largas se abatendo.
Amo desvendar a vaga penumbra que desce
Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma…

Amo andar nessas tardes…
Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
Como um raio de luz.
Cresço, projeto-me ao infinito, agitando
Para consolar as árvores angustiadas
E acalmar os pinheiros moribundos.
Desço aos vales como uma sombra de montanha
Buscando poesia nos rios parados.
Sou como o bom-pastor da natureza
Que recolhe a alma do seu rebanho
No agasalho da sua alma…E amo voltar
Quando tudo não é mais que uma saudade
Do momento suspenso que foi…
Amo voltar quando a noite palpita
Nas primeiras estrelas claras…
Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
Trazendo cheiros agrestes de selva…
E pelos caminhos já percorridos,
voltando com a noite
Amo sonhar…
=============================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

E De Repente, Te Conheço


 E de repente, te conheço, tanto tempo depois…

Agora que não sou teu, que não és minha,
que não somos dois,
que nada mais interessa,
percebo que eu apenas vivi o que vivemos…

Tu te deixavas levar…

E eu.. te levei a extremos…
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Manhã… Ao passar das horas,
incendeia-se o horizonte…
E o Sol – pastor das auroras,
varre as neblinas do monte.
=================================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Sertanejo sem terra, meu irmão,
cedo, acorda pra ver o sol raiar,
toma um simples café com tapioca,
beija alegre a rainha do seu lar,
que na cama singela tem um trono,
e pergunta: – quando é que vou ser dono
de um pedaço de chão para plantar?
====================================
O Universo Poético de Mallemont

MARIA EFIGÊNIA MALLEMONT
Petrópolis/RJ

Delicados sonhos


Abriu-se a janela dos sonhos
E de repente, tudo fluiu
Que eu naturalmente me dei
Com toda loucura que juntei
E que tive naquele instante.
Senti que a boca que beijei,
Tinha sabor de cumplicidade
Posso agora ao beijo ganho
Saber o que esperei.
Depois quando a realidade

Me fez, mais uma vez, acordar
E sentir que o torpor é sonhar
Com uma cotidiana saudade.
====================
O Universo de Bilac

OLAVO BILAC
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Sonata ao Crepúsculo


Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata,
Esfalfai-vos, rugindo, e emudecei… Apenas,
Agora, trilem no ar, como em cristal e prata,
Rústicos tamborins e pastoris avenas.

Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.
Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas,
Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata,
Bailam rindo as sutis alípedes Camenas.

Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves,
Termina a pastoral num lento epitalâmeo…
Cala-se o vento… Expira a surdina das aves…

E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva,
Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo,
Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Política Literária

A Manuel Bandeira

O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal.
tira ouro do nariz.
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UniVersos Melodicos

Alcebíades Barcelos e Armando Marçal

VIOLÃO AMIGO

(samba, 1942)

Violão amigo ouve os meus ais
Ouve os meus segredos
Não suporto mais

Talvez tu compreendas meu sentir
Quero exprimir nesse samba
Tudo que sofri

Quem de mim sorriu
Por certo há de chorar
Quando ouvir alguém cantar

Poeta eu fui
Embora sem querer
Cantei em versos o meu sofrer

Violão amigo
Eu canto por consolação
Trago esta mágoa sentida
No meu coração, violão

Fonte:
http://cifrantiga3.blogspot.com.br

================================
Uma Cantiga Infantil de Roda

PEZINHO

do Folclore Brasileiro

Ai bota aqui
ai bota ali
o teu pezinho
O teu pezinho
bem juntinho
com o meu

Ai bota aqui ai bota ali
o teu pezinho
O teu pezinho o teu pezinho
ao pé do meu

E depois não vá dizer
que você já me esqueceu
E depois não vá dizer
que você já me esqueceu

E no chegar deste teu corpo,
uma abraço quero eu
E no chegar deste teu corpo,
uma abraço quero eu

Agora que estamos juntinhos,
da cá um abraço e um beijinho
Agora que estamos juntinhos,
da cá um abraço e um beijinho

E depois não vá dizer
que você já me esqueceu
E depois não vá dizer
que você já me esqueceu
==============================
O Universo das Poetisas Paranaenses

ANA GUADALUPE
Londrina

Mapa de Tesouro


menino vestido de pirata
eu sei que os carnavais
têm sua graça

por isso eu respiro
engraçado

quanto te vejo
sinto meus braços

acenando para
navios parados
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Sonhos


Por que não escrevo sobre sonhos
sofro tormentosos instantes
em que a cena desnuda desenredos
de náufragos sentimentos
na busca de longos desencontros

ávidas águas serpenteiam pecados
não acontecidos na comunhão do corpo
no esgarçar dos tecidos
no semi-brilho das alturas
e no não chegar

sou sombra sobra sobrado encantado
da esquina no caminhar retilíneo pela calçada

descoradas paredes liberam o corpo
de meu futuro passado e presente
momento na mumificação do corpo
em sorrisos e esgares

movimento protelatórios
em que o acordar se manifesta
                                     e cessa.
===============================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Peixinho Solitário

Acróstico-filosófico nº 4951

P-Peixinho solitário, no aquário da vizinha,
E-Estava fazendo greve de fome…Regime?
I-Impossível. Ele não queria mais comidinha!
X-X da observação: – Pedia uma companhia!
I-Inspirada pelo meu casal de peixinhos,
N-Na verdade, tive a simples conversinha,
H-Habitual, sobre aquela situação desigual!
O-Os meus peixinhos vivem felizes a brincar!
 –
S-Seguindo a sugestão, fomos ao Mercado Central.
O-O vendedor mineiro, logo sorriu aos nos receber…
L-Levou-nos aos seus lindos aquários expostos!
I-Inacreditável! Em um aquário sem luz, isolado…
T-Também vimos um peixinho sozinho, tristinho…!
Á-A nossa intuição cresceu, então ele foi comprado!
R-Rimos muito ao chegar à casa da vizinha! No aquário,
I-Imediatamente, os dois peixinhos foram brincar!
O-O lanche fizeram e agora, estão felizes juntinhos.

 =============================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Abra a janela


Já é outro dia, olha só!
E a semente já nasceu
Em instantes será flor
E nem isso você notou!

Abra a janela do seu ser
Aceite que a brisa entre
E assopre a sua poeira
Mundifique a sua alma!

Há cores além do preto
Há essência estampada
Há calores nos abraços

Há claridade em chama
Destranque seu coração
Acolha os raios do viver!
====================
Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Minha Musa


A MUSA, que inspira meus tímidos cantos,
É doce e risonha, se amor lhe sorri;
É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos.
Saudades carpindo, que sinto por ti.

A Musa, que inspira-me os versos nascidos
De mágoas que sinto no peito a pungir,
Sufoca-me os tristes e longos gemidos
Que as dores que oculto me fazem trair.

A Musa, que inspira-me os cantos de prece,
Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor.
Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece
Ao último arranco de esp’ranças de amor

A Musa, que o ramo das glórias enlaça,
Da terra gigante – meu berço infantil,
De afetos um nome na idéia me traça,
Que o eco no peito repete: – Brasil!

A Musa, que inspira meus cantos é livre,
Detesta os preceitos da vil opressão,
O ardor, a coragem do herói lá do Tibre,
Na lira engrandece, dizendo: – Catão!

O aroma de esp’rança, que n’alma recende,
É ela que aspira, no cálix da flor;
É ela que o estro na fronte me acende,
A Musa que inspira meus versos de amor!
================================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Brincando de ser mulher


Brincando de ser mulher,
aquela mulher-menina
sem saber bem o que quer,
segue a sua triste sina…

Á quem pagar o seu preço,
ela cede os seus favores.
Pobre mulher-menina,
desgraçados os senhores.

De shortinho bem curtinho
na esquina a caminhar,
acena a pobre menina
para quem de carro parar.

Mal sabe a pobre menina
que o tempo vai passar,
e um dia, sem que perceba,
se a doença não lhe pegar,
nas mãos de algum cretino,
a morte vai encontrar.
============================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Versos no Ar


Já que não posso chegar aonde estás,
mando-te estas palavras pelo vento
como as notícias voam, boas, más,
ao sabor da direção do pensamento.

Estas rimas levam o peso da saudade,
e de um tempo que nos foi interrompido
por outros ventos, outra tempestade
que deixou o nosso sonho adormecido.

Estes versos, levados pela brisa,
irão pousar de forma bem precisa
ao lado de quem meu coração amou.

E estas folhas, girando em torvelinho,
se espalharão como um livro no caminho,
livro que o vento leu, depois fechou.
============================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)


Nosso amor é o rio
cujas águas eludem
abrolhos e declínios:

os medos do passado
e do tempo presente
e do futuro vago,

o que nos bate e tenta

e dentro e fora fere.
===================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)

III


            Com grandes esperanças já cantei,
            Com que os deuses no Olimpo conquistara;
            Depois vim a chorar porque cantara,
            E agora choro já porque chorei.
           
Se cuido nas passadas que já dei,
Custa-me esta lembrança só tão cara,
Que a dor de ver as mágoas que passara,
Tenho por a mor mágoa que passei.

            Pois logo, se está claro que um tormento
Dá causa que outro na alma se acrescente,
Já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?
=======================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Canção da Parada do Lucas


Parada do Lucas
– O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Minha alma incendiada
Pediria à Noite
Dois seios intactos.

Parada do Lucas
– O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.

Parada do Lucas
– O trem não parou.

Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.
==============================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 5


As horas que suavemente emolduraram
O olhar amoroso onde repousam os olhos
Serão eles o seu próprio tirano,
E com a injustiça que justamente se excede;

Pois o Tempo incansável arrasta o verão
Ao terrível inverno, e ali o detém,
Congelando a seiva, banindo as folhas verdes,
Ocultando a beleza, desolada, sob a neve.

Então, os fluidos do estio não restaram
Retidos nas paredes de vidro,
O belo rosto de sua beleza roubada,

Sem deixar resquícios nem lembranças do que fora;
Mas as flores destilaram, sobreviveram ao inverno,
Ressurgindo, renovadas, com o frescor de sua seiva.
==============================
O Universo Poético de Vinheiro

PAULO VINHEIRO
Monteiro Lobato/SP

Clear


Muito além da razão de quem não tem
Por mais buscar a sinceridade onde não há
Um sentido sem sentido que desmaia
Desilude e se cala, assim como se deve calar
Um pensar matemático é de admirar
Assim como se admira um bobo e seu discurso
Um por ser incompreensível e o outro também
Firme como uma corda solta sem o que amarrar
Seguindo por uma tal escuridão que só dá desencanto
Sobrou um não sei quê que se aninha e mofa
Metamorfose do mofo e do abandono, desrazão
Pra que? Por que? Por quem? O que se dirá?
=================================
Galáxia Poética de Jacob

JOSÉ A. JACOB
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Almas Raras


As almas simples são as almas raras
De luz intensa e a projeção pequena,
Que nos circundam de maneira amena:
Como são nobres essas almas caras!

São os espíritos das outras searas,
Que pela vida passam numa plena
E esplêndida energização serena
De um vento pastoreando as nuvens claras.

O tempo passa, o tempo que não dorme,
E a vida andando, tarde sobre tarde,
Sem demover essa humildade enorme.

Gosto demais dessas criaturas boas
Que passam pela vida sem alarde:
Como nos fazem bem essas pessoas!
========================
A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

Por Entre Os Dedos


    O mal que nos fizemos não foi tanto,
    que um peito, de paixão, não se definha.
    Tua voz de rouxinol, um acalanto…
    pras noites sem o olhar que me adivinha.

    Não me causaste medo, só o espanto,
    de um arrepio intenso pela espinha.
    O amor, que revelavas com teu canto,
    se fez na tua mão por sobre a minha.

    Por que levaste a voz e o doce olhar,
    restando a melodia, em coro triste,
    num eco me deixando quase louca?

    Por que titubeaste em me tocar?
    Talvez temendo que eu não resistisse?
    Por que não exploraste a minha boca?
=====================
O Universo Poético de Açucena

LOURIVAL ACUÇENA
(Joaquim Eduvirges de Mello Açucena)
Natal/RN 1827 – 1907

Eu Não Sei Pintar Amor


Amor é brando, é zangado
É faceiro e vive nu,
Tem vistas de cururu,
E vive sempre vendado:
É sincero, é refolhado,
Causa prazer, causa dor,
Tem carinhos, tem rigor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é terno, é cruel,
É rico, é pobre, é mendigo,
É dita, é peste, é castigo,
É mel puro, é agro fel;
Tem cadeias, traz laurel,
É constante, é vil traidor,
É escravo, é grão Senhor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é loquaz, é mudo.
É moderado, é garrido,
É covarde, é destemido,
É galhofeiro, é sisudo.
É vida, é morte de tudo,
É brioso, é sem pudor.
Traz doçura, dá travor,
Amor… pinte-o quem quiser,
Retrate o amor quem souber,
Eu não sei pintar amor.

Amor é grave, é truão,
É furacão é galerno,
É paraíso, é inferno,
É cordeirinho, é leão;
É Anjo, é Nume, é Dragão,
Tem asas, tem passador,
Dá esforços, faz tremor.
Enfim, pinte-o quem quiser,
Retrate amor quem quiser,
Eu não sei pintar amor.
(1887)

Fonte:
CASCUDO, Luís da Câmara. Lourival Açucena – Lorenio .2.ed. Natal/RN:
UFRN, 1986.

=====================================
Universo Poético Além Fronteiras

ROBERT FROST
(Robert Lee Frost)
São Francisco/EUA 1874 – 1963 Boston/EUA

A Estrada Não Trilhada


Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

 E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

(Tradução: Renato Suttana)

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Arquivado em Universo de Versos

José Feldman (Universo de Versos n. 132)


Uma Trova de Porto Alegre/RS

DORALICE GOMES DA ROSA


Nosso amor é um triste enredo
que o destino emaranhou,
fez de nós dois um brinquedo
que em tuas mãos se quebrou.
============================
O Universo Poético de Francisco Macedo

Francisco Neves de Macedo
Natal/RN (1948 – 2012)

Eu Cultivo uma Flor


No segundo semestre de setembro,
plantas se vestem das mais lindas cores
que eclodem no campo em forma de flores,
tantas, que os nomes, não sei ou não lembro.

No ar, toda a embriaguez, na qual relembro,
as festas, os buquês e os meus amores,
a doce inspiração e os trovadores,
e dos Jogos Florais e cada membro.

Primavera, Poética Estação,
que faz esparramar, pelo sertão,
as chananas, orquídeas, lindas rosas!

Eu cultivo uma flor… Mulher, “Rainha”…
Mulher amada que será só minha.
Pétalas de emoções miraculosas!
============================
Um Haicai, de São Paulo/SP

JOSÉ ALBERTO LOPES


Cafezal em flor –
Velho imigrante saudoso
Do seu monte Fuji.
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Pindamonhangaba/SP

NÉLIO BESSANT

O planeta está fadado
a sumir completamente,
pois a força do machado
já supera a da semente.
============================
O Universo Poético de Perneta

Emiliano David Perneta
Curitiba (1866 – 1921)

Corre Mais Que Uma Vela…


Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento…

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais…

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte…
Mas que queria que corresse mais!
===================================
O Universo da Glosa de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando SARAH RODRIGUES
Ruas do Céu


MOTE:
Este céu tem lindas ruas
e Deus, para enriquecê-las,
de prata pintou as luas
e bordou o chão de estrelas.

GLOSA:
Este céu tem lindas ruas,
cheias de encanto e harmonia,
de tristezas, estão nuas,
nelas, só existe alegria!

São as mais belas de todas
e Deus, para enriquecê-las,
deu-lhes luz de eternas bodas…
Impossível descrevê-las!

Pra não ver mais cores cruas,
com seu pincel de emoção,
de prata pintou as luas
com a mão do coração!

Quis belezas extasiantes
e, assim, para poder tê-las,
pintou as luas distantes
e bordou o chão de estrelas.
============================
Uma Trova Lírica Filosófica, de Uberaba/MG

JOSÉ FABIANO


Conserva sempre contigo,
a palavra que conforta,
para dizê-la ao amigo
que bater em tua porta!
=============================
O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)

que flor é esta,
que perfuma assim
toda a floresta?
===========================
Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Calçada da escola –
As flores do ipê-roxo
na mão das crianças.
=======================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


A sorte, esquiva e malvada,
não dá chance, só trabalho…
Eu a sigo pela estrada,
e ela foge pelo atalho!…
=========================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


já no entardecer
a andorinha de verão
com a chuva fina
=================================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

O DOCE


 Qual é o doce que é mais doce
que o doce de batata doce?
Respondi que o doce que é mais doce
que o doce de batata doce
É o doce que é feito com o doce
do doce de batata doce.

http://luso-livros.net/
=================================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Ao amor fiel, que não minta,
a palavra injuriosa
é como um borrão de tinta
manchando tela famosa.
================================
O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Vida Nova


De uma vida sem fé de nebuloso inverno,
Furtei-me sacudindo o gelo da descrença.
Aquece-me outra vez este calor interno,
Esta imensa alegria, esta ventura imensa.

Sinto voltar de novo a minha antiga crença,
Creio outra vez no céu, creio outra vez no inferno,
Na vida que triunfe ou na morte que a vença
Creio no eterno bem, creio no mal eterno!

E quando enfim do corpo a alma for desgarrada
E procure entrever a região constelada
Que aos bons é concedida, esplêndida a irradiar.

Ao coro festival de um hino triunfante
Abra-se a recebê-la, olímpico e radiante
Todo o infinito céu do teu sereno olhar!…
=================================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Tudo Bem


do tapete pra cima
do pescoço pra baixo
dos dentes pra fora
=======================
Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro/RJ

EDMAR JAPIASSÚ MAIA

Ela engana o marinheiro
que sempre lhe afoga a mágoa.
Também engana o padeiro…                                       
e vai vivendo a pão e água!
=============================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Brado

A boca do pobre brada
Pedindo justiça e pão,
No campo a mão calejada
Arando a terra torrada
Planta pro rico o feijão.

Os olhos do pobre choram
Nesse mundo indiferente
Quando veem tanto contraste
Entre o rico e o carente.

E a alma do pobre sofre
Quando se perde a esperança
Vendo o futuro morrer
No rosto triste e sofrido,
No olhar de uma criança!
===============================
Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Força dos opostos
Espirais de eternidade
Yin e yang: você e eu
=========================
Uma Trova Hispânica, da Argentina

LIBIA CARCIOFETTI

El sol brinda su magia
a la isla de esplendor,
y la luna ya presagia
momentos de nuestro amor.
==========================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Dança da Lua


Dança lua cheia no meio da rua
Sem pedir licença teu luar flutua
Ilumina as esquinas e as calçadas de amor
Sob o veu da noite pela madrugada
Prateando o mar, o horizonte e a estrada
Ilumina o rosto e a pele da morena de amor

Lua, oh… lua
Dança a ciranda do amor
Lua, oh… lua
Dança a ciranda do amor

Dança lua cheia a nossa ciranda
Ensina pras estrelas os passos da dança
Ilumina o poeta que anuncia o amor
Lua cheia creia morro de saudade
Brilha tua luz por toda essa cidade
Ilumina minha voz e o meu canto de amor

Lua, oh … lua
Dança a ciranda do amor
Lua. Oh… lua
Dança a ciranda do amor
========================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Coliseu


Cem mil pupilas houve:
– cem mil pupilas fitas na arena.
Os olhos do Imperador, dos patrícios,
dos soldados, da plebe.

Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.

E os olhos da fera acossada,
do lado oposto.
Os olhos que ainda brilham fulvos,
agora, na eternidade igual de todos.

Cem mil pupilas:
– ilustres, insensatas, ferozes, melancólicas,
vagas, severas, lânguidas . . .
Cem mil pupilas vêem-se, na poeira da pedra deserta.

Entre corredores e escadas,
o cavo abismo do úmido subsolo
exala os soturnos prazeres da antiguidade:

Um vozeiro arcaico vem saindo da sombra,
– ó duras vozes romanas! –
um quente sangue vem golfando,
– ó negro sangue das feras!
um grande aroma cruel se arredonda nas curvas pedras.
              – Ó surdo nome trêmulo da morte!

(Não cairão jamais estas paredes,
pregadas com este sangue e este rugido,
a garra tensa, a goela arqueada em vácuo,
                           as cordas do humano pasmo sobre o último estertor . . .)

Cem mil pupilas ficam aqui,
pregadas nas pedras do tempo,
manchadas de fogo e morte,
no fim do dia trágico,
depois daquela ávida e acesa coincidência
quando convergiram nesta arena de angústia,
que hoje é pó e silêncio,
esboroada solidão.

(As pregas dos vestidos deslizaram, frágeis.
E os sorrisos perderam-se, fúteis.
Sobre o enorme espetáculo, que foi o aroma dos cosméticos?)
========================================
Trovadores que deixaram saudades

TASSO DA SILVEIRA
Curitiba/PR

Da vida no grande coro,
eis nosso destino atroz:
Seguirmos de choro em choro,
até que chorem por nós.
=========================
Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto Eneassílabo


As palavras devem se adequar
no contexto simples da poesia,
para quem a for apreciar
sentir o seu brilho de magia.

Já fiz alguns versos de euforia
e por eles pude declarar
a emoção que minh´alma sentia
no desejo de alguém conquistar.

Mas, depois deixei de enaltecer
a bela mulher com quem sonhava
nas noites que me deram prazer.

Que foi feito dela? Tão volúvel
me parecia, talvez escrava
de uma união feliz e indissolúvel.
=============================
Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Literatura clássica
Seu Zé tenta ler a lista
da cesta básica
==========================

Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Chagas de amor que se eleva
Recordam Cristo na cruz…
De cada golpe da treva
Jorra uma fonte de luz.
======================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Da Inquieta Esperança


Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu… quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.
====================
Constelação Poética de Misciasci

ELIZABETH MISCIASCI
São Paulo/SP

Não me atrevo


Partir daqui sem olhar pra trás…
pura ilusão
levou na bagagem um passado
já bem distante.
O que restou de um futuro
incessante a questionar
é presente apenas nos teus dias
Não me atrevo a falar de dor
nem tão pouco de solidão,
as marcas se somam as mágoas e estas não
merecem reflexão.
Hospedeira de alegrias me transformo
Em repudio aos teus recalques me esquivo
Tudo posso dizer…
Respiro com a vontade de viver
Desfaço laços que um dia fora usado para unir
desamarro as cordas que em outrora,
me prenderam a ti
Nada quero das quirelas
que sem pudor me oferecestes
Estas a ti pertencem
O tempo se fez meu amigo e com este
compartilho meus momentos
Quero sorrir com a certeza da sorte
a me acompanhar
Das tuas convicções errôneas,
dos teus fracassos e insanidades
me evadi
Sou outra Mulher
Plena e audaz
Satisfeita por ver
esta porta se abrir pra você sair
e agradeço… por
Partir daqui sem olhar pra trás
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Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Deserção

Abel, rapaz elegante,
Casou-se com Zina Alceu;
A moça teve dois gêmeos,
Abel desapareceu.
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Cosmogonia


A força e lei maior que tudo une
É a da Gravitação Universal.
Ela é Deus e o Amor que nos reúne
E também cria o habitat natural

Onde prosseguimos procurando
O que está em nós, o mesmo Amor,
Que ao buscar fora de nós criamos dor
Que também vai se aglutinando

Num anti-universo que é o Horror
Que gera anti-matéria, que é o Mal,
Se insistirmos em juízo de valor.

Mas para entender esse imbróglio,
Caminhando sob o grande Festival,
Minhas estrelas simplesmente olho…
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Uma Poesia de São Paulo/SP

Carta para Minha Musa


I

O que dizer de uma mulher tão Linda?
Que palavras usar? E quais metáforas
eu tentaria achar? E que vocábulos
eu usaria para descrever-te?
E se eu visse um milhão de dicionários…?
Talvez não encontrasse o termo certo…
Seus olhos…? Seus cabelos…? Seu sorriso…?
O que dizer da sedutora Musa
que todo poeta quereria ter?
Em vão eu me debato… pois, voando,
as palavras parecem borboletas…
Mas não desisto… até que uma palavra
bem mansamente pousa em minha mão…
A palavrinha exata… bem aqui…
descreve a minha Musa – PERFEIÇÃO…

II

Querida Musa, não há um só momento
de todos os minutos, horas, dias,
em que tu não estejas do meu lado…
Mas não o sabes…! Só eu sei… e sinto…
que és presença invisível e constante…
Por ti, o meu Saara interior
se fez uma floresta tropical…
És o sopro bendito, a Vida Plena
que brota do meu chão outrora infértil…
Abençoada sejas, minha Musa,
pois me ensinaste a versejar de novo!
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O Universo de Fernando Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por ‘star estragado
Que ainda não mo devolveste …
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Na transposição mais nobre,
podemos, sem qualquer risco,
matar a sede do pobre
com as águas do São Francisco!…
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O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares

IV

Não mais verei nas paisagens trêmulas
da tarde ou da manhã flocos da infância.
Outros são os caminhos, alguns deles
penetrarei – já gastos os sentidos.

O sangue ainda a gritar, rios que rolam
sobre ausências de amadas. Mas informes
luzes indicam o caminho único,
com substâncias da aurora construído.

Que uma porta se abra enquanto espero.
Frágeis são as correntes que me prendem
aos que não se conformam com a ferrugem

do leito que os sustenta. Sobre rastos
de carne e espinhos continuo. E, claro,
antes do mar do sono, um porto acena.
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O Universo Trovadoresco  de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

 –
 Mãe de filhinhos dos outros,
Mulher de mãos benfazejas…
Diz o Mundo : – “Deus te guarde!…”
Diz o Céu : – “Bendita sejas!…”
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Abandonada, esquecida,
sem amor, sem ter ninguém,
vai rolando, até que a vida
não a queira mais também…
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O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Ânsia


NA TREVA que se fez em torno de mim
Eu via a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno a mim
E eu caí!
As horas longas passaram.
O pavor da noite me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quedou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possuiu a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei …
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento…
Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
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O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

” … E A Felicidade “


    Nada envelhece mais do que a infelicidade…
Por isto nos sentimos no inverno
quando ainda faz primavera.

Felizes os que são felizes, porque descobriram
a fonte da eterna juventude.

Mas, e o segredo da felicidade?
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


De todas as despedidas,
esta é a mais triste, suponho:
duas almas comovidas,
chorando a morte de um sonho!
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O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Nesta praia, que é sonho e que é prazer,
sinto o cheiro do mar em minha rua,
ouço o choque das ondas que se quebram
e o cantar da sereia seminua
que seduz o inocente pescador,
prometendo um castelo encantador,
e ele afunda no mar, olhando a Lua.
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O Universo Poético de Mallemont

MARIA EFIGÊNIA MALLEMONT
Petrópolis/RJ

Baile ao luar


No compasso da valsa,
onde há tons de nobreza
me transformo em princesa
e sonho a sorrir
sempre a girar.
Gira o salão
mas me sinto segura
pois firme me guias
neste alegre valsar.
Ficará na lembrança
esses belos momentos
de um baile de encantos
e uma doce saudade
pedirá outras valsas
onde enlaçados estaremos
de novo a valsar.
Mas nesse momento
somos só sentimento
na magia da valsa
deste baile ao luar.
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O Universo de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Os sinos

Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta…
Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes,
Ardemos numa louca aspiração mais casta,
Para transmigrações, para metempsicoses!

Cantai, sinos! Daqui por onde o horror se arrasta,
Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses,
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta!
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes!

Em repiques de febre, em dobres a finados,
Em rebates de angústia, ó carrilhões, dos cimos
Tangei! Torres da fé, vibrai os nossos brados!

Dizei, sinos da terra, em clamores supremos,
Toda a nossa tortura aos astros de onde vimos,
Toda a nossa esperança aos astros aonde iremos!
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O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poesia


Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
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UniVersos Melodicos

Roberto Martins e Mário Rossi

RENÚNCIA
(fox, 1942)


Começando a se projetar em março de 42, com a valsa “Dorme que eu velo por ti”, de Roberto Martins e Mário Rossi, o então jovem cantor Nelson Gonçalves se consagraria cinco meses depois com o fox “Renúncia”, da mesma dupla.

De quebra, ainda mostraria com sua interpretação que possuía a voz ideal para esse tipo de música. E o curioso é que Nelson não estava interessado em “Renúncia”, só a gravando em cumprimento a uma determinação de Vitório Latari, diretor da Victor. Por isso chegou ao estúdio sem conhecer a melodia. Temendo que ele errasse na gravação, a ser realizada após breve ensaio, Roberto Martins gratificou o saxofonista Luís Americano para que antecedesse a entrada do cantor com um solo do tema.

No final saiu tudo certo, nesse prodígio de improvisação, porque o cantor e o conjunto – Luís Americano (sax-alto), Carolina Cardoso de Menezes (piano), Garoto (violão-tenor), Faria (contrabaixo) e Duca (bateria) – eram ótimos. Em dezembro, Nelson voltaria a gravar “Renúncia”, desta vez em ritmo de samba, para o carnaval de 43.

Hoje não existe nada mais entre nós
Somos duas almas que se devem separar
O meu coração vive chorando e minha voz
Já sofremos tanto
que é melhor renunciar

A minha renúncia
Enche minh’alma e o coração de tédio
A tua renúncia
Dá-me um desgosto que não tem remédio

Amar é viver
É um doce prazer embriagador e vulgar
Difícil no amor
é saber renunciar
É saber renunciar

Fonte:
http://cifrantiga3.blogspot.com.br
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Uma Cantiga Infantil de Roda

SERENO DA MEIA-NOITE

É uma roda de crianças, com uma no centro. Cantam as da roda:

Sereno da meia-noite }
Sereno da madrugada } bis

Eu caio, eu caio }
Eu caio. sereno, eu caio } bis

Responde a menina do centro:

Das filhas de minha mãe }
Sou eu a mais estimada } bis

Eu não m’importo, }
Que da amiguinha, }
Eu seja a mais desprezada } bis

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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O Universo das Poetisas Paranaenses

Alice Ruiz
(Curitiba/PR)

Saudação da Saudade


minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
======================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Ultrapassagem


Ultrapasso
a mediocridade inerente
ao tempo: discorro
sobre o tema
           arbitro
sentenças e ouço na música
os compassos derradeiros.

Vergo a madeira
em extremo gesto.

A forma na conformação
              da hora ultrapassada
              em proezas. Ouço
              o recado e o apago.
===============================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Diálogo  No Aquário

Acróstico-filosófico nº 4949

D-Diversas vezes fiquei a olhar
I-Insistentemente para o casal
Á-Apaixonado dentro do aquário
L-Ligado à eletricidade, no corredor
O-Onde passo, para entrar em casa.
G-Guardiões da minha sala de estar…
O-Os peixinhos trocam seus carinhos!
 –
N-No diálogo, faço a interlocução ao amor:
O-Ó peixinha, tu me fazes companhia;
 –
A-A tua face é quentinha do calor
Q-Que me sensibiliza, com alegria.
U-Um beijinho teu é extraordinário;
Á-Aconchegante é tua forma de ficar
R-Reparando-me, sorrindo sem parar!
I-Inesperadamente, ela se aproxima e diz:
O-Ó meu peixinho, eu também te amo!
=============================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Aparentemente


Tenho o rosto cansado
Tenho lágrima que salta
Momentos de desgostos
Em círculo sempre vem!

E às vezes a face faceira
O sorriso que escancara
Felicidade que não cabe
Em círculo sempre vem!

O que dói não é de mim
Vem de fora e me invade
Despetala o meu jardim!
====================
Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Um Anjo

À memória de minha irmã

Se deixou da vida o porto
Teve outra vida nos céus.
A. E. ZALUAR


FOSTE A ROSA desfolhada
Na urna da eternidade
Pr’a sorrir mais animada,
Mais bela, mais perfumada
Lá na etérea imensidade.

Rasgaste o manto da vida,
E anjo subiste ao céu
Como a flor enlanguecida
E pouco a pouco morreu!
Que o vento pô-la caída

Tu’alma foi um perfume
Erguido ao sólio divino;
Levada ao celeste cume
C’os Anjos oraste ao Nume
Nas harmonias dum hino.

Alheia ao mundo devasso,
Passaste a vida sorrindo;
Derribou-te, ó ave, um braço,
Mas abrindo asas no espaço
Ao céu voaste, anjo lindo.

Esse invólucro mundano
Trocaste por outro véu;
Deste negro pego insano
Não sofreste o menor dano
Que tu’alma era do Céu.

Foste a rosa desfolhada
Na urna da eternidade
Pr’a sorrir mais animada
Mais bela, mais perfumada
Lá na etérea imensidade.
================================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

As armadilhas da vida


Era uma linda menina
criada como princesa,
cresceu com princípios
de uma certa realeza.

Mas a vida às vezes, por certo,
tem das suas armadilhas
e os pais não estando por perto,
caem em cima, os cães em matilha.

E de repente, a pobre menina
em más companhias andava,
achando que adrenalina
era tudo o que precisava.

Quando chegou a perceber
a fria em que ela estava,
não deu o braço a torcer,
dizia que controlava.

Mas no fundo ela sabia
que seu fim se aproximava,
pois nem bem amanhecia
e ela já se drogava.

À sua volta tudo desmoronava.
Amigos, família, tudo enfim.
Mas a menina não ligava,
só esperava seu fim.

Os pais em total desespero,
tomaram a decisão,
internaram a menina
que ficou em reclusão.

Mas o destino estava traçado.
Os pais não tinham como lutar
com o horário marcado,
da morte que ia chegar.

No último dia de vida,
no leito de morte chorava,
a mãe compadecida
com a triste sina estava.

E lá se foi a filha amada,
deste mundo descabido,
partiu sem saber nada,
sem nunca ter vivido!
============================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Segredo


No meu computador tem um programa
que só eu posso acessar, e ninguém vê,
um aplicativo que o meu coração chama
sempre que sente saudade de você.

Quando eu o abro,  vejo as suas fotos,
ouço até a gravação da sua voz,
em arquivos dos tempos mais remotos,
do tempo em que eu e você viramos nós.

Este programa é todo o meu conforto,
porque faz renascer o que está morto:
um amor que tinha tudo pra durar.

Mas quando apago a luz do monitor,
o que se instala no meu peito é a dor
que eu tento, inutilmente, deletar.
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Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

O Novo Ano


Dong!… Ao velho, brota-lhe o cabelo preto.
Dong!… As costas dobradas erguem-se.
Dong!… E um homem maduro que era velho.

Dong!… E o homem maduro que já é um jovem.
Dong!… Mas, jovem já foi, agora é um menino:
Dong!… O menino cambalhota. Dong!… Corre.

Dong!… Engatinha. Dong!… Tem um chocalho.

Dong!… Abre os olhinhos. Dong!… Dong!… Chora.
===================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)

II

       –   
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
   
Farei que Amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia, e pena, ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

 Porém para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e arte.
=======================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

O Bicho


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
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Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 4


Doçura pródiga, por que gastas
Contigo mesma o legado de tua beleza?
A herança da natureza nada dá, porém cede,
E, sendo franca, empresta a quem for livre;

Depois, bela e tola, por que abusas
Da abundância que te é dada a ofertar?
Usuária sem proveito, por que usas
Um valor tão grande e, mesmo assim, não vives?

Lidando apenas contigo mesma,
Tu, a ti mesma, teu doce ser enganas;
Então, como, quando a natureza te chama para que vás,

Que espólios aceitáveis deixarás?
Tua beleza intocada contigo deve ser enterrada,
Pois, ao ser usada, tornar-te-á sua executada.
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O Universo Poético de Vinheiro

PAULO VINHEIRO
Monteiro Lobato/SP

Quimera

Quimera, alguma esperança mantenho
Cantilena, monotônica toada trovoa
Do boi o carro carroçando vai cantando
À vera trocam letras tropeçando pedras
Escrevo sem sentidos, abstraio teus olhos
Perdoe o perverso que rabisco a toa
Enxugo lágrimas que não nasceram
Em vão de página… Quem sabe em vão
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Galáxia Poética de Jacob

José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Roseiras Dolorosas


Estou sozinho em meu jardim sem cores,
E ainda que eu tenha mágoas, bem guardadas,
Cuido dessas roseiras desmaiadas
Que em meu canteiro nunca abriram flores.

Tais quais receosas almas delicadas
Elas se encolhem, sobre seus temores,
E abortam seus rebentos nas ramadas
Enquanto vão morrendo em suas dores…

Quantas almas, que por serem assim,
Como essas tristes plantas no jardim,
Calam-se, a olhar o nada, tão descrentes…

Feito as minhas roseiras dolorosas
Que só olham para a vida, indiferentes,
E não me dão espinhos e nem rosas.
========================
A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

Negrume


        Teus olhos – duas pérolas-sementes,
        Tão negros, que a graúna empalidece,
        São luas, a sorrirem de contentes,
        São lagos, de represa que anoitece.

        De dia, qual farol de um mar latente,
        Que acende, ilumina e entontece,
        De noite, doce archote incandescente,
        Ardendo o meu querer, que tanto cresce.

        Por dentro desses olhos de promessa,
        Nos cílios, equilibram-se vontades,
        Desejos que, eu, poeta, decifrei.

        No mar de escuridão, velas dispersas,
        Meus olhos, procurando outras metades,
        Soçobram, nau dos teus, onde ancorei.

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Arquivado em Universo de Versos

José Feldman (Universo de Versos n. 131)


Uma Trova do Paraná

A. A. DE ASSIS
Maringá


Num momento de euforia,
cedemos-lhe uma costela…
Fomos cedendo, e hoje em dia
quem manda no mundo é ela!
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Porto Alegre/RS

DORALICE GOMES DA ROSA

Clareiras que vão se abrindo,
motosserras na devassa.
E os homens vão destruindo
o que Deus nos deu de graça.
============================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Todo “barbeiro” sustenta
que a “batida” foi assim:
-“Veio um poste a mais de oitenta,
na contra-mão, contra mim!…”
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Natal/RN

JOSÉ LUCAS DE BARROS


Zarpei ao romper do dia,
no meu barco, a velejar,
para “pescar” a poesia
que a Lua escondeu no mar.
============================
Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP

RENATA PACCOLA


Casamento traz enganos,
pois seu muso inspirador
pode virar, depois de anos,  
o seu museu roncador!                                                 
============================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Na vida o que me conforta,
está nesta frase bela:
“Deus jamais fecha uma porta,
sem que abra uma janela”!
============================
Uma Trova Hispânica, da Argentina

DORA FORLETTI


En noches de luna llena
la ilusión me da esperanza,
para que muera mi pena
tu amor cálido me alcanza.
============================
O Universo Poético de Francisco Macedo

Francisco Neves de Macedo
Natal/RN (1948 – 2012)

Estações


Nós, duas almas que desabrochavam,
começavam viver os bons momentos,
cheios de grande amor, encantamentos
que em arroubos de ardor se enamoravam.

Braços, que ao sabor, já se entrelaçavam,
seguindo, os corações, os batimentos,
a mesma comunhão de sentimentos,
desnudos, nossos corpos que se amavam.

Primaveras, outonos… Estações,
velhos costumes,, sem as emoções
dia a dia a verdade que me ensina.

Nosso futuro, que nos corações,
se anunciavam, cheios de paixões.
agoniza no chão desta rotina
============================
Trovadores que deixaram Saudades

JOÃO FREIRE FILHO
Rio de Janeiro/RJ


Em seu engano grosseiro,
vovô, que anda mal da cuca,
diz que, em casa de ferreiro,                            
não mete a mão em cumbuca!                         
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


No céu, a lua a escutar
a noite de serenata,
beijando as ondas do mar
faz surgir rolos de prata…
============================
Um Haicai de São Paulo/SP

WILLIAM VENÂNCIO DA SILVA


Acordo de manhã
Observo até o horizonte
Campo de geada
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


A modéstia não se ostenta,
se esconde e é pressentida:
a presunção se apresenta
e passa despercebida.
============================
O Universo Poético de Perneta

Emiliano David Perneta
Curitiba (1866 – 1921)

A Mão…

        Ao Dr. Claudino dos Santos

Tantas vezes, bem sei, e eu ouço, quando cismo,
Meu coração bater depressa, não o nego,
Mão invisível tem-me salvo, a mim, um cego,
Rolando como se rolasse num abismo…

Babilônias de horror, e montanhas de lodo,
E torres de Babel, sangrentas como lava,
Eu mais afoito do que um jovem deus, mais doido,
Eu passei sem saber por onde é que passava…

Sorrindo pelo ar, miraculosa e a esmo,
Tudo pôde abrandar, os ventos, e a mim mesmo,
Por um prodígio enfim que eu não explico, ateus!

…Donde veio essa mão nervosa, que me arranca
Dos abismos do mal, a Mão ideal e branca,
A mim, que nem sequer mais acredito em Deus?…
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando WANDA DE PAULA MOURTHÉ
E é quase dia…


MOTE:
No talvez da quase noite,
quando a espera me angustia,
horas batem feito açoite…
Tu não vens…e é quase dia…

GLOSA:
No talvez da quase noite,
eu me perco em devaneios
e temo que a dor se amoite
e se instale nos meus seios!

O pranto cai devagar
quando a espera me angustia,
sentindo – não vais chegar,
morre em mim toda a alegria!

A tristeza faz pernoite
no meu pobre coração…
horas batem feito açoite…
sem nenhuma compaixão!

Quando a solidão aumenta,
a noite perde a magia
e minha alma não aguenta,
tu não vens…e é quase dia…
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Minha viola, meu cavalo,
a lavoura dando flor,
Maria, dentro de casa …
– Louvado seja o Senhor!
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


beijo roubado
é o butim do ladrão
apaixonado
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Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Cintilando ao sol
As bolhas de sabão
Caem na varanda.
===================
O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Única


Fruto efêmero e hostil de um efêmero gozo,
Esta vida que arrasto, efêmera e improfícua,
Sinto-a embalde, e, debalde, entre pasmado e ansioso,
Sondo-a, palpo-a, examino-a, estudo-a, verifico-a.

E tudo quanto empreende o espírito curioso,
E tudo quanto apreende a análise perspícua,
É o falso, é o vão, é o nulo, é o mau, é o pernicioso,
Por menos que a razão seja perversa ou iníqua.

Logo, por que pensar? Logo, por que no Sonho
Não havemos deixar correr a vida fátua,
Obrigando o Destino a ser calmo e risonho?

Por que só não amar: É culpa? Eis-me: resgato-a
Agora que a teus pés todo o meu ser deponho,
Como um vil pedestal à tua excelsa estátua!. . .
============================
Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Desengano


Numa palestra serena,
Disse-me o sábio Conrado:
“Desengano que mais doi
É o que vem de um ente amado.”
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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Berimbau


Ariranha arranha a presa,
Aranha tricota a teia,
Faz charme a moça bonita,
Faz crochê a mulher feia.

Quando o dia se apressa
O homem acende a candeia,
A pecadora confessa,
O padre impõe muita reza:
O fogo dela incendeia.

Araruta faz polvilho
E dele faz-se o mingau,
Vaca dá leite ao novilho
No cocho lambendo o sal.

Surubim sobe a represa
Indo em busca do canal,
Mulher de saia rodada,
Não dança o mineiro-pau.

O coração machucado
Bate em ritmo anormal,
O homem que é afobado
Come cru e passa mal.

Eu fico aqui matutando
Para encontrar um final,
Nesses versos que eu te fiz
Sob o som do berimbau.
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Romance II ou do Ouro Incansável

 –
Mil bateias vão rodando
sobre córregos escuros;
a terra vai sendo aberta
por intermináveis sulcos;
infinitas galerias
penetram morros profundos.

De seu calmo esconderijo,
o ouro vem, dócil e ingênuo;
torna-se pó, folha, barra,
prestígio, poder, engenho . . .
É tão claro! – e turva tudo:
honra, amor e pensamento.

Borda flores nos vestidos,
sobe a opulentos altares,
traça palácios e pontes,
eleva os homens audazes,
e acende paixões que alastram
sinistras rivalidades.

Pelos córregos, definham
negros a rodar bateias.
Morre-se de febre e fome
sobre a riqueza da terra:
uns querem metais luzentes,
outros, as redradas pedras.

Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos;
cada família disputa
privilégios mais antigos;
os impostos vão crescendo
e as cadeias vão subindo.

Por ódio, cobiça, inveja,
vai sendo o inferno traçado.
Os reis querem seus tributos,
– mas não se encontram vassalos.
Mil bateias vão rodando,
mil bateias sem cansaço.

Mil galerias desabam;
mil homens ficam sepultos;
mil intrigas, mil enredos
prendem culpados e justos;
já ninguém dorme tranquilo,
que a noite é um mundo de sustos.

Descem fantasmas dos morros,
vêm almas dos cemitérios:
todos pedem ouro e prata,
e estendem punhos severos,
mas vão sendo fabricadas
muitas algemas de ferro.
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Na Lagoa


Eu tava meio assim, meio down
Aí fiquei afim, eu fiquei afim
De ver o sol

De ver o sol na lagoa
Andando a toa ou de canoa
Nós dois remando juntos numa boa
A canoa, remando numa boa
Ou andando a toa em volta da lagoa

Em volta da lagoa tudo pode acontecer
Dentro da canoa então, ninguém pode prever
Mas lá pelas bandas do meu coração
Não tem engano, engano, engano
Ele só quer ver o sol

Na lagoa..…
============================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


escurece a tarde –
entre raios e clarões
os sons da trovoada
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Sonetos como um pássaro


Criar sonetos como um pássaro
Que canta por cantar e abrir o bico
Ou porque tendo já descido ao tártaro
Subiste e sem culpa nem um tico.

E então ao leitor lembrar Camões
Sem poderem dizer que o imitas
Pela forma pouco lusa que compões
Ou pelos dois olhos com que fitas

A tua realidade que é só tua
Sendo outrossim de toda gente
Que persegue a palavra que flutua

Ao léu, por aí, no espelho astral
Onde o mundo então seja diferente
Mas nunca invertidos bem e mal…
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Uma Poesia de São Paulo/SP

PEDRO MELLO

O Bibliotecário bêbado

Parece que
do topo das estantes
vocês ficam olhando para mim…
O que querem que eu faça?
Que abra as mãos
e tente
segurar a Poesia?
Eu a sinto
 invisível pelo ar…

E se eu erguesse as mãos
por um acaso
tentando capturar
toda a Poesia
latente
na atmosfera desta sala
e condensasse
os versos em absinto,
eu viveria embriagado deles?
============================
Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Lembro, triste, o amor passado,
vendo a Luz e o velho cais:
– saudade é barco ancorado
no porto do “nunca mais” …
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Constelação Poética de Misciasci

Elizabeth Misciasci
São Paulo/SP

Não diga nada


Não diga nada
observe meus lábios a atinar
desejos que se perdem
entre um indestrutível querer
Não diga nada
apenas veja meus olhos que
estancam a dor do não ter
chorando em silencio
Não diga nada
sinta a dor que minha alma
em furor transcende
desejando com veemência teu ser
Não diga nada
pense detidamente
que não é insensível o teu saber
nem relegado o meu viver.
Não diga nada
ouça meus murmúrios
palavras mudas transformadas
em vertentes clamando por ti
Não diga nada
sinta o calor
que em delírio se faz passional
preexistente em meu corpo
Não diga nada
perceba que estou presente
como nanquim na supremacia
de uma folha branca
Não diga nada
vem denominar um sentimento
desterrando o viso que insistente
vocifera um coração.
Não diga nada
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

 OLHA ALÉM


 Olha além um rato,
 Um olho aqui outro no mato.
Olha além um gato,
Um olho aqui outro no rato.
Olha além um Papa,
Com uma pedra no sapato.

Salta sapato,
Salta gato,
Salta rato,
Para o meio do mato
Que ninguém o papa.
Pirilipapo, pirilipapa, pirilipapo.

http://luso-livros.net/
============================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Data e dedicatória


Teus poemas, não os dates nunca… Um poema
Não pertence ao Tempo… Em seu país estranho
Se existe hora, é sempre a hora extrema
Quando o Anjo Azrael nos estende ao sedento
Lábio o cálice inextinguível…
O que tu fazes hoje é o mesmo poema
Que fizeste em menino,
É o mesmo que,
Depois que tu te fores,
Alguém lerá baixinho e comovidamente,
A vivê-lo de novo…
A esse alguém,
Que talvez nem tenha ainda nascido,
Dedica, pois, teus poemas,
Não os date, porém:
As almas não entendem disso…
============================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Álbuns


vida cheia de retratos
gênios, queríamos sê-los
tolos, só figurinhas
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O Universo Poético de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Desalento


Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim
Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar
Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos
============================
O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares

III


Nos recantos tranquilos encontrava
a poesia. Sobre mim e o rio
debruçavam-se as árvores. Os pássaros
eram ecos aos meus primeiros cantos.

Ruas de chuvas leves, nunca o inverno.
Com o menino brincar vinham as tardes
e vinha o céu. Adeus, nuvens cinzentas
onde vagam os monstros meus da infância.

Já não vibram as músicas ingênuas
na planície escutadas. A poesia
difícil se tornou e vive em sombras.

Em mim – que tanto amei – hoje as palavras
movem-se para ásperas mensagens
e vão morrer na incompreensão dos gestos.
============================
O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Na bela dupla de estrelas
Em que o Natal se anuncia,
Precedendo a de Belém,
A primeira foi Maria.
============================
Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Armadilha bela:
Luz atraindo mariposa
– Destinação cruel
============================
Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Para não perder o clima
peguei o verso de baixo
e rimei com o de cima
==========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Dois  Ramos


É preciso coragem, meu amor.
para afinal reconhecer que vamos
nos afastar, assim como dois ramos,
que continuam dando a mesma flor…

Que importa a flor, no entanto, se não damos
os mesmos sonhos de antes? Se o sabor
do fruto que ainda agora partilhamos
já se vai transformando em amargor?

É preciso coragem… Mas um dia
será preciso tê-la… Que a tenhamos !
Não vamos prolongar essa agonia

em que nossos desejos se desgastam…
Nosso destino… é o mesmo de dois ramos:
– quanto mais crescem… tanto mais se afastam…
============================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Quando jovem saudável, minha meta
era a grande aventura das jornadas,
enfrentando descidas e ladeiras,
sem temer o perigo das estradas
nem o peso das duras circunstâncias,
e hoje as pernas, cansadas de distâncias,
só aceitam pequenas caminhadas.
============================
O Universo Poético de Mallemont

MARIA EFIGÊNIA MALLEMONT
Petrópolis/RJ

Amor em poesia


Sobre a mesa,
livros,canções,
odes e sonetos,
onde me debruço,
aconchegando,
meus sonhos.
Na face da noite,
a voz do poeta,
murmurando sonhos
em meu coração deserto!
Aos seus devaneios,
me entrego invisível,
nua, sem resposta.
Deixa-me amar,
do mundo alheia,
nas frágeis torrentes
da tua poesia.
============================
O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Remorso


Às vezes uma dor me desespera…
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera…
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!
============================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema que aconteceu


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
============================
UniVersos Melódicos

Ary Barroso

QUERO DIZER-TE ADEUS

(valsa, 1942)

Quero dizer-te adeus
De forma singular
Cantando a nossa valsa
Sem chorar

Quero dizer-te adeus
Pois vou partir, amor
Sem mágoa e sem rancor
Dos falsos beijos teus

Quero deixar-te assim
Sem atribulações
Pra que longe de mim
Não tenhas ilusões

O nosso amor morreu
E o culpado não fui eu
Foi a sorte
Foi a vida, querida

Sonhei, confesso
Castelos de ouro e luz
Mansão de mil venturas
Para nós dois
Porém, no mundo os namorados
Não contam com as surpresas que vêm depois
Depois, depois, amor
A tempestade veio e tudo carregou
Até a saudade

Quero dizer-te adeus
De forma singular
Cantando a nossa valsa
Sem chorar
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

O CRAVO BRIGOU COM A ROSA 


O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido,
E a rosa,   despedaçada

O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio
A rosa pôs-se a chorar
============================
O Universo das Poetisas Paranaenses

Alba Krishna Topan Feldman
Maringá/PR (1969)

Pintura


Na tela da vida, eu vi uma pintura
Em branco e negro;
E haviam gemidos no fundo da tela,
Do fundo da terra.
Eram cores contrastantes
Formando a guerra,
Manchando os lados
De vermelho.

E olhando, pensei
Que não era assim que havia pensado
O Divino Pintor.
Na harmonia das cores,
Uma vida sem dores,
tormentas ou lutas
Deveria haver.

E, olhando apenas os contrastes,
São tolas cores que escorrem,
Enfraquecem e morrem,
Sem jamais compreender
Que o destino de tudo
E o nada,
É o CINZA!
==========================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Líquido


Sorvido o líquido
resta o copo
vazio
e seco

como restamos
como restam
como secos e vazios
estamos
no final
e no início

quando e onde
nos desencontramos
e o líquido escorre
em nossos olhos
como lágrimas.
=============================
O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Peixinhos Amantes

Acróstico-filosófico nº 4948

P-Por incrível que possa parecer, concordei…
E-Estive escolhendo o peixinho que fui comprar:
I-Imediatamente, uma peixinha o acompanhou
X-X da questão: o AMOR é lindo! Quando
I-Insistia, que só queria UM peixinho… e olhei:
N-Naquele saquinho de plástico, com água…
H-Heroína romântica que começou a nadar…
O-Os dois entraram no plástico de uma só vez:
S-Sem pedir licença, foram amar e brincar…
 –
A-A justificativa do vendedor, desta vez,
M-Mostrou-me a importância de um par…
A-Apaixonados, há algum tempo, juntos,
N-Nadavam sem parar e nem dormiam…
T-Tomei a decisão. Vou pagar pelos dois!
E-E os levei para o aquário do meu lar:
S-Sensibilizada com a união dos amantes!
==========================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Distância


Entre o aqui e o ali há um espaço
E sem a atitude não será galgado
E há cor que não auxilia no passo
O tom cinza deve ser descartado.

Cinzas assopradas desse percurso
A brasa que aborta a oportunidade
Aporta a sociedade o seu discurso
Arranca em vermelho a igualdade.

E o sonho? Esse é de toda a gente
Às vezes é medonho seu caminho
Dificultam-lhe a ler o pergaminho.

Distância se faz assim tão distante
Ambição, propriedade e obstáculo.
Exonera Deus, foge o sustentáculo.
===============================
O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Ela


Nunca vi, – não sei se existe
Uma deidade tão bela,
Que tenha uns olhos brilhantes
Corno são os olhos dela!
F. G. BRAGA

SEUS OLHOS que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde corri rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com a meiguice e com primor.

Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspirada em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meigo e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se realiza

Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
0 Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um – sim –
Pr’a alívio do coração!

Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh’alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
Faz-lhe gozar teu portento
“Dá-lhe um suspiro de amor!”
==============================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

“Arraiá” de São João


Os fogos anunciavam
a subida dos balões,
que o céu iluminavam
a noite de São João.

Barraquinhas de pipoca,
cachorro quente e quentão,
a moça vendendo “bitoca”
e os moços dizendo:-Que “bão”!…

Com balões e lindas bandeiras,
o “arraia”, estava enfeitado,
para as muitas brincadeiras,
sem poder ficar sentado.

No auge da festa animada,
no quintal entra a quadrilha:
À frente a noiva mimada,
com a barriga na virilha.

O noivo, o bem amado,
tremia sem parar
de medo do sogro armado,
que só fazia gritar.

O padre só gaguejava
em frente a tal situação,
e a mãe da noiva rezava
pra acabar a confusão.

Casamento realizado,
o sogro se acalmou,
o amor estava selado
e a festa continuou.
============================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Visões


Faço um esforço pra lembrar teu rosto,
mas apenas uma nuvem me aparece,
como se a encobrir todo o desgosto
daquilo que passou e não se esquece.

Ainda há pouco eu conseguia ver-te,
mas os contornos foram se apagando,
junto com a esperança de ainda ter-te,
mesmo que, como antes, eu chorando.

Não sei se agradeço o esquecimento
de como era teu rosto, ou se lamento
pois foi parte importante do passado.

Mas creio que ainda seja bem melhor
outro rosto procurar guardar de cor
do que querer restaurar esse, borrado.
====================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

O Ladrão de Lençóis


Um raio de lua que é pássaro e homem
através do xadrez do vitraux entra,
e de halo, então, passa a corpo denso.

É chamado pelo dormir das que não sabem
de seus sonhos e, assim, os lençóis
rouba. E quiçá deixe como se um orvalho

que fica no corpo ou como um sabor

de lua nos lábios ou um sonhar que esteve.
================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)

Soneto I

     –     
Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus versos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse.

      Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

  Verdades puras são, e não defeitos…
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos!
========================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Belo Belo II


Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.
============================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto III


Mira no espelho e descreve o rosto que vês;
Agora é o tempo em que a face deve mudar,
Cujos reparos não tenhas logo renovado,
Terás enganado o mundo, à revelia de tua mãe.

Onde está a bela, cujo ventre não semeado
Desdenha o cultivo de teus cuidados?
Ou de quem será a tumba de um ser tão cioso
De seu amor-próprio para negar a posteridade?

És o espelho de tua mãe, e tua semelhança
Recorda os adoráveis dias de sua primavera;
Então, pela tua idade, poderás ver,

Apesar das rugas, o teu tempo áureo;
Mas se vives para não seres lembrado,
Jamais te cases, e tua imagem fenecerá contigo.
==============================
Constelação Poética de Celito

CELITO MEDEIROS
Curitiba/PR

Ah, Meus Olhos!


Que felicidade a minha
matando a saudade
que nunca me matou

Que sutileza sinto
vendo tanta beleza
que todavia sobrou.

Estas velhas dúvidas
que tudo se paga

e nada se paga!

Que corpo, ainda tão forte
Que vença a morte
A vida é minha sorte.

Ah, meus olhos!…
com os que tudo vejo
e tudo noto.

Que bom haver sido gente
um pouco mais que apenas prudente
não só um contestador, eu contesto a dor.

Mas a nada detesto,
por ter muito
Amor

(tradução da poesia, do espanhol por José Feldman)
=====================
Galáxia Poética de Jacob

José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

Além da Porta


E, novamente, a rua está deserta,
Outra vez cheguei tarde na janela,
E tudo que passou em frente dela
Não viu que a minha porta estava aberta.

Eu nunca apareci na hora certa…
Mas sei que lá adiante a vida é bela,
Que sempre há uma nova descoberta
Fora do meu pijama de flanela.

E a Voz, que me acompanha e que me fala,
De essa vez não me assusta, só conforta:
“Ânimo José, deixa esta casa! – Anda!”

E eu saio… do meu quarto para a sala,
E decidido vou, além da porta,
Mas volto quando chego na varanda.
================================
Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto Hendecassílabo


Ouvindo música clássica medito
nas emoções de toda minha existência,
que fui levando como quem cumpre um rito
de passagem, cultivando a paciência…

Se às vezes me senti triste, quase aflito,
tive dentro de mim a voz da consciência
me orientando para seguir expedito,
sempre preservando a boa convivência.

Agora que já vou longe na jornada,
tenho lembranças que não se apagam mais,
que, por certo, não foram feitas do nada…

Tiveram sua origem nos meus amores,
que não foram muitos, mas sentimentais,
próprios de corações simples sonhadores…
=====================
A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

O Retrato


        Teus olhos mudos, no retrato, me acompanham,
        Como a mostrar-me, fogo fátuo, o que morreu.
        Por sob o brilho do papel, teus lábios trancam
        O meu sorriso, refletido sob o teu.

        As mãos imóveis, por tão pouco não me espancam
        De solidão, que o teu abraço não é meu.
        O peito inerte, fria pedra, de onde emanam
        Os evangelhos desse coração ateu.

        Doente máquina que ousou prender teu rosto
        Nessa moldura que me dá tanto desgosto,
        Testemunhando o sofrimento, a fome e a sede.

        Quisera um dia ter poder de destruir
        E finalmente libertar-te p’ra partir,
        Ou pendurar-me, junto a ti, nessa parede.
==========================
Uma Poesia Além Fronteiras

DOMI CHIRONGO
Moçambique (1975)

Meia-Noite


 Era dia
mas nas minhas
mãos claras
esfolhava
meia-noite
quando
de súbito
deparo-me
com uma página
invulgar
quarenta, suponho
era a Ana,
o Lourenço
e o Armando
não o Artur
mas como ele
falavam
literatura…
especificamente
poesia.
Quem diria!

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Arquivado em Universo de Versos

José Feldman (Universo de Versos n. 130)

Uma Trova do Paraná

NEIDE ROCHA PORTUGAL
Bandeirantes


Vem Trovador, vem correndo
ao meu Paraná, porque,
o Pinheiro está morrendo…
… De saudades de você!
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Natal/RN

JOAMIR MEDEIROS


Queimada… A verde floresta
perdeu no fogo a folhagem…
Hoje – só carvão nos resta,
e a saudade da paisagem!
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Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Dois sentimentos moldados
no mesmo barro sem cor:
–  o ódio, pelos pecados,
pelas virtudes, o amor!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Belo Horizonte/MG

ARLINDO TADEU HAGEN


Há trovas que, ao meu instinto,
traduzem tais sentimentos,
que em Quatro Versos eu sinto
a força de quatrocentos!
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Uma Trova Humorística, do Rio de Janeiro/RJ

EDMAR JAPIASSÚ MAIA


É normal ver a cigana
lendo a sorte de um cliente…
E ela diz que não se engana,                                 
mas engana muita gente!
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Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


No instante da despedida,
arquivei no pensamento
a tristeza da partida
e a dor do meu sofrimento.
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Uma Trova Hispânica, da Argentina

MARÍA CRISTINA FERVIER


En la mañana retornan
los sentimientos con calma.
En esperanza se tornan
las cruces que carga el alma.
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Uma Trova Ecológica sobre Queimada, do Rio de Janeiro

ALMERINDA LIPORAGE


Em criminosas queimadas
por ambição desmedida,
vê-se, nas vidas ceifadas,
a extinção da própria vida!
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Trovadores que deixaram Saudades

RODOLPHO ABBUD
Nova Friburgo/RJ 1926 – 2013


A doença comentada
correu mundo, ganhou fama,
pois na pensão “afamada”
ela só vive de cama!…
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Bondade!… Bem pouca gente
quer imitar as raízes,
que luta, secretamente,
fazendo as rosas felizes!
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Um Haicai de Santos/SP

JOSÉ ALVES DA SILVA


Brancas de geada
As plantas deste jardim.
E a flor desabrocha…
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Num vôo de pomba mansa,
quisera ir ao céu saber
qual o crime da criança
que é condenada a nascer.
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O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Arte do Chá


ainda ontem
convidei um amigo
  para ficar em silêncio
comigo

  ele veio
meio a esmo
  praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
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  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando A. A. DE ASSIS
Nossa Guerra de AMOR…


MOTE:
Ah, o amor…O amor fascina,
quando na cama o combate
triunfalmente termina
num belo e gostoso empate!

GLOSA:
Ah, o amor…O amor fascina!
Sempre tontos de emoção,
estouram, a adrenalina,
nossos beijos de paixão!

É quase uma guerra fria,
quando na cama o combate
usa as armas da euforia
e com elas se debate!

Com gemidos em surdina
a guerra do amor se faz…
Triunfalmente termina
na calmaria da paz!

Nessa luta incontrolada,
ninguém exige resgate,
e ela é sempre terminada,
num belo e gostoso empate!
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Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


O perfume do teu lenço
trago comigo na mão.
Mas o cheiro da tua alma,
dentro do meu coração.
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O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


serra nevada,
cumes tocam o céu –
nuvem furada
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Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Ao sol da manhã
Reflexos brilham no pasto –
Noite de geada.
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O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Os três olhares de Maria


I
A Anunciação
.
Entre gente modesta, a existência prosaica,
Longe do grande luxo e vivendo distante
Do fausto babilônio e da pompa caldaica,
Sem nada a lhe turvar o angélico semblante;

Diz uma tradição de santa lenda arcaica
– Cuja veracidade a Escritura garante –
Floresce a melhor flor da família judaica
Como um lótus ideal de aroma penetrante.

Vive calma e feliz. Todo o seu bem resume
Em ter, pelo seu Deus e seu supremo guia,
Tudo o que a dor lhe acalme e os sonhos lhe perfume.

“Mãe do Senhor serás” – o arcanjo lhe anuncia
E Ela acende no olhar do espanto o estranho lume! –
Era o primeiro olhar dos olhos de Maria!… –

II
A Paixão
.
Messias anunciado e do Céu predileto!
Tu que és Filho de Deus e Rei do mundo todo.
Filho da minha crença e meu primeiro afeto,
Sofres dos maus, assim, o repelente apodo?

Tens o Teu coração de bondade repleto
De perdões e de fé, de audácias e denodo;
E eu vejo assim na terra, o Teu divino aspecto
Maculado de sangue e coberto de lodo!. . .

Será possível, Deus! Pai da suprema graça!
Que assim deixes passar pela dura agonia
Porque Meu Filho, o Teu, por entre os homens passa!?.

E nisto, a Virgem-Mãe, cujo olhar irradia,
Tem nos olhos a dor e a dúvida a traspassa!…
– Era o segundo olhar dos olhos de Maria!… –

III
Ascensão
.
Sinto-te, enfim, Senhor! Sei quem és Tu, meu Filho
Que de Teu Pai trouxeste aos algozes da terra,
O roteiro que mostra o verdadeiro trilho
Que vai de bosque em bosque e vai de serra em serra.

Agora sinto, enfim, que todo o estranho brilho
Que nos meus olhos vês e nos Teus olhos erra,
No humano coração não encontra empecilho,
Todo o rancor acalma e acalma toda a guerra!

É assim que a Virgem-Mãe, entre preces, murmura
Vendo, entre nuvens de ouro e rara pedraria
A ascensão de Jesus para a infinita altura!. . .

Que era o filho de Deus, tudo lhe ali dizia…
E em seus olhos brilhava a suprema ventura!…
– Era o terceiro olhar dos olhos de Maria!…
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Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Criação


Deus criou o homem na terra
À sua imagem Divina
Mas não falou quando é
Que esse trabalho termina.
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O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Bem-Te-Vi


Bem-te-vi que bom te ver!
Vim aqui pra te encontrar…
Pouse no meu pé de Ipê,
Quero ouvir o seu cantar.

Vê se vês a minha amada,
Que há muito já se foi,
Partindo de madrugada
No velho carro-de-boi!

Não me deixes tão sozinho
Chorando a minha dor!
Canta, canta, passarinho,
Traze ela pro meu ninho,
Quero fartar-me de amor!

Dar-te-ei de recompensa
Água fresca e alpiste…
Sem ela o mundo não existe,
Minha tristeza é imensa!

E quando ela voltar,
Atendendo ao teu canto,
Vou secar todo meu pranto
E sorrir com teu cantar…
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O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Cronista Enamorado do Saguim


 O saguim é um animalzinho assaz bonito:
é mesmo o mais bonito de todos, pela selva;
anda nas árvores, esconde-se, espia, foge depressa
e há deles, na terra viçosa, número infinito.

Se qualquer rei da Europa o visse, gostaria
de possuí-lo como um brinquedo, vindo de longe, e raro.
Mas é o saguim animalzinho tão delicado
que a uma viagem tão longa não resistiria.

A cara do saguim é como a de um leãozinho,
e pode-se conseguir que ele pouse no nosso ombro.
O saguim mais bonito de todos é o saguim louro,
que tem uma expressão de inteligência e carinho.

Ele pode descer a comer à nossa mão! Graciosa
é a sua maneira de olhar. Gracioso é o movimento do seu corpo inteiro,
tão leve e breve! Mas os melhores, só no Rio de Janeiro
se encontram: se encontram apenas nesta cidade, a mui formosa.
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O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Soma das Estrelas


Pela soma das estrelas
Toda uma constelação
Como poema quando termina
Não importa sua rima

A meia luz, a meia voz
Sob o sol poente
A meia luz a meia voz
Sob o sol poente

Como a tela pra moldura
Não importa sua textura
Como a jóia de rara beleza
Nada ofusca sua clareza

A meia luz, a meia voz
Sob o sol poente
A meia luz, a meia voz
Sob o sol poente

A arte e longa , a vida e breve
A noite flui e a gente nem sente
Onde o tempo dorme solitário
Quando eu me tornar ausente

A meia luz, a meia voz
Sob o sol poente
A meia luz, a meia voz
Sob o sol poente
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Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


domingo sem sol
uma árvore de Natal
ainda na caixa
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O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

O Fantasma dos Sonetos


Permanecer viva em meu escrito…
Eis a esperança que ainda guardo,
E sendo isso o derradeiro Mito
Que me mantém acesa, com que ardo.

Um soneto mais, que insensatez!
Não posso parar, devo ir em frente.
Acabar é dar o sim ao pretendente
Que hospedado espera a sua vez.

Toda a minha vida entretecida,
Concentrada afinal em tipos pretos
A me fazer mais íntegra e assumida!

Já mal existo fora de um poema,
E sou mais e mais nestes tercetos,
Eu, fantasma vivo, que ainda teima…
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Uma Poesia de São José do Rio Preto/SP

IZABEL MARTHO

Beijo negro


Pairou insensato num raio de luz amarelo e rosa
Esgueirando-se após entre fios cristalinos;
Translúcido.

Sem medo abateu-me num sussurro perfumado
Penetrando minha pele além dos lábios;
Úmido.

Partiu a semente ao meio embrenhando-se na casca
Remexendo meu corpo sedento em tremores;
Voraz.

Avançou com tenacidade junto à brisa outonal
Abrindo portas em meu coração desconhecido;
Avassalador.

Desbravou impunemente recantos escondidos
Cavando trilhas antes inóspitas numa alma sombria;
Sedutor.

Absorveu somente o que de mais puro havia
Colocando na pele o calor de um beijo;
Negro.
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Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Chego ao fim, com os pés sangrando,
abandonado e sozinho;
meus sonhos foram ficando
um a um pelo caminho…
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Constelação Poética de Misciasci

Elizabeth Misciasci
São Paulo/SP

Abnegada


Sou tudo aquilo que um coração pede
por indução, a perfilar sentimentos.
Sem o desvio do probo que me norteia,
torno por vezes redutível à razão.
Por crer, que o inviável é mera justificativa
do “não tentar”, contesto!
Abnegada, não julgo o que desconheço e,
até que se apresente o reverso, considero
crível, os relatos e fatos a mim revelados.
Apiedando-me dos excluídos, não temo a luta e,
relevando os que tendem a profilar, sigo adiante.
Não nego que tenho imperfeições e repudio a injúria,
No entanto, por ser eu, tudo aquilo que meu
coração pede, me esquivo dos ínfimos
e de peito aberto, só quero transbordar Amor.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

PIA, PIA, PIA

 –
Pia, pia, pia,
 O mocho
 Que pertencia
A um coxo.
Zangou-se o coxo,
Um dia,
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia…

http://luso-livros.net/
============================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Das Utopias


Se as coisas são inatingíveis… ora!
não é motivo para não quere-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
a magica presença das estrelas!
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Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Infância Humilde


brinquedo velho
consertado
brinquedo novo
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O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

Parece às vezes que desperto

Parece às vezes que desperto
E me pergunto o que vivi;
Fui claro, fui real, é certo,
Mas como é que cheguei aqui?

A bebedeira às vezes dá
Uma assombrosa lucidez
Em que como outro a gente está.
Estive ébrio sem beber talvez.

E de aí, se pensar, o mundo
Não será feito só de gente
No fundo cheia de este fundo
De existir clara e ebriamente?

Entendo, como um carrossel;
Giro em meu torno sem me achar…
(Vou escrever isto num papel
Para ninguém me acreditar…)
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O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Consolação


Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa do amor
Ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei
É que ninguém nunca teve mais
Mais do que eu
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O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares


II

Por Deus eu não chamei, pois Deus é Deus
e eu, nada e a consciência do meu nada.
Não respondem os homens, e a resposta
minha a mim mesmo morre no silêncio

de onde vim e para onde vou.
Quando olhei sepultavam já o mundo
entrevisto na infância, que entre sombras
vai cantando – e cantando afasta o medo.

Não retornar à antiga transparência,
no amor sulcos abrir. Sobre as sementes
no azul lançadas crescem novas árvores.

Ainda posso amar, sair cantando
pelas noites de lua, enquanto dormem
lagos de outrora sobre um mundo morto.
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O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Filho do meu coração,
Nas lutas por luz e paz,
Não te afastes da razão,
Mas só na fé vencerás.
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Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG

Órgãos musicais
De sonata progressiva:
Cigarra insistente
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Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


Páginas do orkut
Essa tal de gramática
naum c diskut
==========================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Distraído ?


 Levo sempre esse ar de quem vai conversando
com alguém…

Entretanto
sigo sozinho
e não vejo ninguém…
………………………………

Tão fácil o mistério:
tu me acompanhas por toda parte,
mas eu apenas sei disto…
============================
Um Soneto de Jacareí/SP

ALISON SANTINI

Demasia


 Delírio das noites vagas dos lumes
 Apraz o ser que insiste e inexiste
 Frescura vaidosa sem costumes
 Quão bom foi descobrir que você existe.

 Tu só tu caso do ocaso ou acaso
 Audaz corpo que queima e retine
 Olhar estrelado, febril, sublime
 Mistura de sonhos em riso raro.

 Tu és o sonho mais lindo que eu sonho
 Culpa do meu sentimento estranho
 Desejo inocente em poder felino.

 Tu és o soneto que escrevo em demasia
 Duelo de medos que aos poucos nascia
 Rindo nas lágrimas de um menino.
============================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


A mudança do campo pra cidade
me deixou um sabor de despedida:
aqui tenho encontrado mais conforto;
de lá vêm as lembranças da guarida,
onde eu tinha um irmão em cada canto.
Finalmente, esta praia é meu encanto,
mas o velho sertão é minha vida!
============================
O Universo Poético de Mallemont

MARIA EFIGÊNIA MALLEMONT
Petrópolis/RJ

Alma em flor


Primavera, romance no ar,
com indistintos rumores,
o vento improvisa
a valsa das flores
e me ponho a dançar
Bailando vou
nas asas do vento,
sentindo a volúpia
que passa a voar
deixando um murmúrio
de beijos no ar,
nas bordas do tempo,
na beira do mar.
E assim vou,
desfiando esses versos
a ver se emolduro
um sorriso nos lábios
de quem me sorri
e me faz amar.
Que seja esta primavera
de sonhos multicores,
a mais deslumbrante
da estação dos amores,
nos versos da vida
na alma das flores.
============================
O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Primavera


Ah! quem nos dera que isso, como outrora,
inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
que inda juntos pudéssemos agora
ver o desabrochar da primavera!

Saíamos com os pássaros e a aurora,
e, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

E esse corpo de rosa recendia,
e aos meus beijos de fogo palpitava,
alquebrado de amor e de cansaço….

A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera…E eu te levava,
primavera de carne, pelo braço
============================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema-orelha


Esta é a orelha do livro
por onde o poeta escuta
se dele falam mal
ou se o amam.
Uma orelha ou uma boca
sequiosa de palavras?
São oito livros velhos
e mais um livro novo
de um poeta ainda mais velho
que a vida que viveu
e contudo o provoca
a viver sempre e nunca.
Oito livros que o tempo
empurrou para longe
de mim
mais um livro sem tempo
em que o poeta se contempla
e se diz boa-tarde
(ensaio de boa-noite,
variante de bom-dia,
que tudo é o vasto dia
em seus compartimentos
nem sempre respiráveis
e todos habitados
enfim.)
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? nada.
Nada vivido? Tudo.
A orelha pouco explica
de cuidados terrenos;
e a poesia mais rica
é um sinal de menos.
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UniVersos Melódicos

Zé da Zilda e Edgard Nunes

QUEM MENTE PERDE A RAZÃO
(samba,  1942)


Mentirosa
Foste tu, que um dia
Perante Santa Maria
Prometeste ser fiel
Quem mente, perde a razão
E acaba de déo em déo
Não tem sossego na terra
E nem perdão, lá no céu

A tua promessa faliu
A tua jura também se quebrou
Mentiste ao meu coração
Mentiste ao Nosso Senhor
Eu sei que tu vives bem
Sem ter os carinhos meus
Mas não podes ser feliz
Sem ter a Graça de Deus
(mentirosa fingida)
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda

O CACAU


Subi no tronco
Comi cacau
Joguei os caroços
Pro seu Nicolau

Ai, ai, ai, iôiô
Isto é maxambomba
Não é vapor

Corre minha gente
Já vai chuviscar
Cacau na barcaça
Não pode molhar

Fonte:
CD Bia Bedram – Brinquedos Cantados.
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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Nunca direi que te amo


Sem nenhum aviso,
as sardas de um rosto, vieram as sardas
e eram notícia de uma navegação morena;
uma voz rouquenha, como se abafasse
o grito súbito sobre este porto
de nenhum aviso.

Nunca lhe direi sobre o amor: jamais faria
declaração de posse às minhas mãos;
nenhum registro público hei de requerer
sobre meus pés; nem protocolos mandarei abrir
sobre meus braços;
mandato algum darei sobre meus olhos:
cega-me a crueldade desta posse.

De que haveria de falar, se a voz
me some nos contrastes deste aviso súbito?
Os segredos,
não os desvendarei –
as mãos, a voz, este “sim” –
porque
Ela,
subitamente a tua voz morena:
a flor, o vinho.
==========================
O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Promessas


A voz ressoa cantos
dos discursos pronunciados
entre a realidade e os sonhos

promessas

o significado estendido
ao passante que o leva
para outras passagens

rasga o envelope
                  e lê o texto:
         o convite entre linhas
em branco fica a cobrança
do tempo passado

promessas

a voz cala o significado antigo
das conversas enquanto jovens
na permissão de sonhar palavras

joga fora o papel: ecos abalroam
a vida conseguida.
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O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Nas Asas da Minha Águia


Acróstico-filosófico Nº 4994-

N-Nas asas da minha águia interior
A-Alcanço coragem, paz e esperança,
S-Sobrevoo, com o poder da oração;
 –
A-As más, entre antigas lembranças
S-Sempre excluo com acuidade visual!
A-Agradeço a Deus pela inteligência,
S-Sabedoria, ética, moral e espiritual;
 –
D-Diante da busca do conhecimento
A-Aumento a qualidade do pensamento,
 –
A-Auto-estima persistente e perspectiva
G-Garantem-me sobrevoar sempre alto:
U-Um equilíbrio na própria existência
I-Indica fortaleza para superação da dor,
A-A beleza do perdão e rejuvenescimento.
==========================
O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Amar


É tocar com carinho o rosto
É voejar sem asas no espaço
Conhecer o beijo com gosto
É comportar o nó do abraço.

Guardar palavra inesperada
Enxergar nos olhos o brilho
Impecavelmente adulterada
É perder e achar-se no trilho.

É fechar os olhos num sorriso
Seduzir-se com desconhecido
É confiar o coração se elegido.

É fazer de um quarto, o mundo
É guardar as noites na saudade
É fazer do mínimo: felicidade!
===============================
O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Álvares D’Azevedo


Ao Sr. Dr. M. A. D’almeida

Veio em fúnebre cipreste
Transformada a ovante palma!
PORTO ALEGRE

MORRER, de vida transbordando ainda,
Como uma flor que ardente calma abrasa!
Águia sublime das canções eternas:
Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Quem nessa fronte que animava o gênio,
A rosa desfolhou da vida tua?
Onde o teu vulto gigantesco? Apenas
Resta uma ossada solitária e nua!

E contudo essa vida era abundante!
E as esperanças e ilusões tão belas!
E no porvir te preparava a pátria
Da glória as palmas e gentis capelas!

Sim, um sol de fecunda inteligência
Sobre essa fronte pálida brilhava,
Que à face deste século de indústria
Tantos raios ardentes derramava!

E pôde a morte destruir-te a vida!
E dar à tumba a tua fronte ardente!
Pobre moço! saudaste a estrela d’alva,
E o sol não viste a refulgir no Oriente!

Morrer, de vida transbordando ainda,
Como uma flor que ardente calma abrasas!
Águia sublime das canções eternas:
Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Voltaste à terra só – Não morrem Byrons,
Nem finda o homem na friez da campa!
Homem, tua alma aos pés de Deus fulgura,
Teu nome, poeta. no porvir se estampa!

Não morreste! estalou a fibra apenas
Que a alma à vida de ilusões prendia!
Acordaste de um negro pesadelo,
E saudaste o sol do eterno dia!

Mas cá fica no altar do pensamento
Teu nome como um ídolo pomposo,
Que a fama com o turíbulo dos tempos
Perfuma de um incenso vaporoso!
E ao ramalhete das brasílias glórias,
Mais uma flor angélica se enlaça,
Que a brisa ardente do porvir passando
Trêmula beija e a murmurar abraça!

Byron da nossa terra, dorme embora
Envolto no teu fúnebre sudário,
Murmure embora o vento dos sepulcros
Junto do teu sombrio santuário.

Resta-te a c’roa santa de poeta,
E a mirra ardente da oração saudosa,
E pelas noites calmas do silêncio
Os séculos da lua vaporosa!

Ela te chora, e ali com ela a pátria,
Pobre órfã de teus cânticos divinos,
E das brisas na voz misteriosa,
Da saudade da dor sagram-te os hinos!

Dorme junto de Chatterton, de Byron,
Frontes sublimes, pra sonhar criadas,
Almas puras de amor e sentimento,
Harpas santas, por anjos afinadas!

Dorme na tua fria sepultura
Guarda essa fronte vaporosa, ardente,
Tu, que apenas saudaste a estrela-d’alva
E o sol não viste a refulgir no Oriente!
==============================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Ânsia de viver


Meu tempo, não tem tempo
de esperar por ti.
Por ti que, só enganos, somou
aos meus desenganos.

A noite fria já não tem mais lua
E eu amor, já não sou mais tua.
Meu corpo hoje, se aquece em outros braços
E, é por isso que rompo todos os laços
com o tempo passado,
que nunca teve tempo para mim.

Cansei de esperar pelo vinho
que depois de feito,
já não fazia mais efeito em mim.
Cansei do dia, da noite,
da vida vazia
que se apoderou de mim.

Perdoe amor, os meus desencantos,
mas hoje só canto,
a alegria de viver.
Viver o amor, sem pranto,
com outro amor no meu canto,
cantando pra eu dormir!
============================
Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Reprovação


Quando passo em frente àquela escola,
onde estudei na minha mocidade
um sentimento no meu peito rola:
aquilo que chamamos de saudade.

Eu me vejo outra vez aos quinze anos,
cheio de sonhos e de esperança,
e também, incluindo entre os meus planos
tudo que a ilusão de um jovem alcança.

Sonhava com a primeira namorada,
uma menina bonita e aplicada
que era toda atenção ao professor.

Mas ela, ignorando essa vontade,
preferiu ficar apenas na amizade
e eu fiquei sem aprender o que era amor.
====================
Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

Declaração de Amor à Cidade de São Paulo


Antes de hoje fui só um ser sem ti,
assim é, meu amor, minha água, assim é. Minha
irmã, mãe, esposa, amiga, amante

após o agora se o queres, se
queres que eu seja o teu amor, a tua água e
o teu irmão, pai, esposo, amigo, amante.

Quando eu morrer quero ser só um vivi

contigo, e agora, um em ti adiante.
================================
Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou Fortuna roubadora,
Deixai-me repousar em paz uma hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n’alma larga história
Deste passado bem que nunca fora;
Ou fora, e não passara; mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro d’esquecido,
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.
========================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Belo Belo


Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo – que foi? passou – de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
============================
Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 2


Passados quarenta invernos sobre a tua fronte,
Após cavarem fundos sulcos nos vergéis de tua beleza,
O vigor de tua orgulhosa juventude, hoje tão admirada,
Será um esmaecido ramo sem nenhum valor.

Então, ao te perguntarem onde está o teu encanto,
Onde está a riqueza de teus luxuriosos dias,
Respondes, com olhos fundos,
Que não passaram de vergonha e descabidos elogios.

Que louvores mereciam o uso de teus dotes,
Se pudesses responder: “Este belo filho meu
Me vingará, e justificará todos os meus atos”,

E provará ter herdado de ti toda a formosura.
Isto farás de novo quando fores mais velha,
E o sangue te aquecer quando te sentires fria.
==============================
Constelação Poética de Celito

CELITO MEDEIROS
Curitiba/PR

A Liberdade é para Todos


Somos de fato ainda muito poucos
Neste planeta com alguns insanos
Assim podem nos considerar loucos
Ao lidarmos direto com os profanos

A população entre pessoas dementes
Lançadas no meio de sadias e puras
Urge a ação em sanear as sementes
Para preservar as gerações futuras

São os joios no meio dos trigais
Espalhados por toda a sociedade
Possuindo o instinto dos animais

Impedem toda a solidariedade
Daqueles com missões especais
Indicarem a plena liberdade
=====================
Galáxia Poética de Jacob

José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

A Saudade Sempre Pede Mais


A saudade que agora me procura
É como a brisa que vem lá de fora
Rompendo a madrugada e abrindo a aurora
Do meu olhar descrente de ventura.

Mas a dor que me aflige é uma ternura,
Pois que ela é teu pedaço que em mim mora,
E só ponho no olhar minha amargura,
Quando a tua lembrança vai embora…

A dor ofende como uma saudade,
É que a dor incide e a saudade invade,
As duas se assemelham, são iguais.

A saudade que chega dói demais,
E a dor magoa a gente sem piedade
Porque a saudade sempre pede mais.
================================
Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Soneto Octossílabo


Se já te amei em tempos idos
e sorvi beijos dos teus lábios,
ficaram somente ressábios
daqueles momentos vividos.

Mas nunca serão esquecidos
e aqui estou sem astrolábios
ou bússolas, procuro os sábios
que podem salvar os perdidos.

O que se leva desta vida
são apenas boas ações
que fizermos aos semelhantes.

Portanto, norteemos a lida,
aproveitando as ocasiões
para sermos leais e amantes…
=====================
A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ


    Incontáveis e Quentes Madrugadas

    As incontáveis quentes madrugadas,
    em busca da palavra nunca certa,
    de nada adiantaram ser varadas,
    dilacerando o sonho da poeta.

    Nossos dragões: defesas desarmadas,
    ante a ternura que esse olhar desperta,
    de tantas chances tão bem camufladas,
    nas sombras dos sonetos – dor secreta.

    Enfim a perseguida rima rica,
    teu nome, sussurrado no papel,
    balbuciado em doses de quimera..

    Covarde esse papel que não se arrisca,
    só inscreve rocha, mar, estrela e céu,
    pois rasgo-te, que o tempo não espera!
==========================
Uma Poesia Além Fronteiras

ARMANDO GUEBUZA
Moçambique

As Tuas Dores


As tuas dores
mais as minhas dores
vão estrangular a opressão

Os teus olhos
mais os meus olhos
vão falando da revolta

A tua cicatriz
mais a minha cicatriz
vão lembrando o chicote

As minha mãos
mais as tuas mãos
vão pegando em armas

A minha força
mais a tua força
vão vencer o imperialismo

O meu sangue
mais o teu sangue
vão regar a Vitória.

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José Feldman (Universo de Versos n. 129)

Uma Trova do Paraná

JOSÉ REGINALDO PORTUGAL
Bandeirantes


Hoje estamos separados…
e o destino, a fazer graça,
mostra os “corações gravados”
no pinheiro lá da praça! …
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Curitiba/PR

VANDA FAGUNDES QUEIROZ


Não há recursos que domem
predação de tal grandeza,
quando é a própria mão do homem
que destrói a Natureza.
============================
Uma Trova do Izo

IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Virtude  é fazer o bem
pelo prazer de fazê-lo,
mesmo sendo para alguém
que não fez por merecê-lo.
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Porto Alegre/RS

FLAVIO ROBERTO STEFANI


Em ternura plena e extrema,
nossos sonhos se cruzaram.
E a noite se fez poema…
E os versos também se amaram!
============================
Uma Trova Humorística, de Caçapava/SP

ÉLBEA PRISCILA DE SOUSA E SILVA


Morre a sogra do Herculano,
e o mesmo, por prevenção,
para que não haja engano,                          
põe cadeado no caixão!
============================
Uma Trova do Ademar

ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN


Nenhuma voz é afinada
e de entonação tão bela,
igual a da passarada
que canta em minha janela…
============================
Uma Trova Hispânica, da Argentina

MARGARITA MANGIONE


En Navidad las estrellas,
lucen igual que diamantes,
se ven más grandes, más bellas,
mas nítidas y brillantes.
============================
Uma Trova Ecológica sobre Queimada, Do Rio de Janeiro

J. STAVOLA PORTO


Labaredas,nas queimadas
da floresta em combustão,
lembram mãos agoniadas,
rogando aos céus proteção.
============================
Trovadores que deixaram Saudades

RODOLPHO ABBUD
Nova Friburgo/RJ (21 outubro 1926 – 25 novembro 2013)


Aos Teus pés eu me ajoelho,
erguendo graças Senhor!
– Quem me dera ser espelho
para a Luz do Teu Amor!
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores

LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém.
Sendo quatro versos breves
como a trova nos faz bem.
============================
Um Haicai de São Paulo/SP

GUILHERME GUIMARÃES

Ao amanhecer
O passarinho canta
Na relva, geada!
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores

LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Esperança, és bandoleira,
mas és também sol doirado,
de luz a única esteira
na cela de um condenado.
============================
O Universo de Leminski

PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Poetas Velhos


Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine

GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando MIGUEL RUSSOWSKY
Vai-se a Vida… O Sonho Fica…

MOTE:
Vai-se a vida, o tempo avança,
tudo muda, o globo roda,
mas com lastros na esperança
sonhar nunca sai da moda.

GLOSA:
Vai-se a vida, o tempo avança,
sem ter piedade, inclemente,
sufocando até a criança
que temos dentro da gente!

Ao chegar um novo dia,
tudo muda, o globo roda,
traz mais pranto que alegria,
e o prazer de viver, poda!

Temos somente a lembrança
dos bons momentos vividos,
mas com lastros na esperança,
fa-lo-emos renascidos!

Sonhar traz felicidade,
o sonho não incomoda,
pra sonhar, não há idade,
sonhar nunca sai da moda.
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores

ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Trovas, – cantigas do povo,
alma ingênua dos caminhos
de lavradores. . . cigarras …
mulheres… e passarinhos …
============================
O Universo do Haicai de Seabra

CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)


louco desafio:
comer fubá e cantar
o sole mio!
============================
Galáxia Haicaista da Benedita

BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)


Quietude na praia –
Só a aragem da manhã
E o rumor das ondas.
============================
O Universo Poético de Emilio

EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Trapo

Esta que outrora o linho da cambraia
Na pompa da ostentosa lençaria,
– Folhes e rendas que à secreta alfaia
Ornavam com capricho e bizarria

– Era camisa – e que hoje a nostalgia
Sofre do tempo em que entre a pele e a saia
O perfumado corpo lhe cingia, –
Era ao possuí-la, a última atalaia.

Trampo que encerras o ebriante aroma
Do seu colo moreno, poma e poma,
Ora em tiras te vejo desprezado.

E mais te quero, e mais te achego ao peito
Trapo divino! Símbolo perfeito
De um coração por Ela espedaçado.
============================
Universo Trovadoresco de Cornélio

CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP

Criação


Deus criou o homem na terra
À sua imagem Divina
Mas não falou quando é
Que esse trabalho termina.
=================================
O Universo Poético de Sardenberg

ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Beijo Perdido


O tempo passa rápido demais,
Levando na bagagem mais um dia,
Deixando uma saudade para trás
Que a gente nem ligava e percebia.

Levou aquele abraço que não dei,
O beijo que eu tanto quis um dia,
Deixou em seu lugar melancolia,
Tristeza por não ter o que sonhei.

E o tempo, quando vai, nunca mais volta.
Não adianta a gente lamentar
E nem ficar curtinho essa revolta.

Abraço que escapa não tem volta,
Beijo perdido não se recupera,
Não adianta o ódio nem a ira…
Desejo que o tempo levou – já era!
============================
O Universo Poético de Cecília

CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

De um Lado Cantava o Sol


 De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim . . .
============================
O Universo Melódico de Assumpção

MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

A Porta


é sempre assim
todo dia você se prepara e sai
não esquece a bolsa as chaves os jornais
mas nunca me pergunta como vai o amor

pode ser que no momento de atravessar a porta
você pressinta o quanto nos tornamos sós
a luz do sentimento quase se apagou

ai então, vera que o amor não e´ um filme
e como as rosas de um jardim que você deve regar
solidão a dois agora mais do que parece
precisamos enxergar antes da porta fechar
============================
Constelação Haicaista de Marins

JOSÉ MARINS
Curitiba/PR


dois piás na fila
tão brancos como o sorvete
sabor de baunilha
============================
O Universo Sonetista de Alma

ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Testamento


Ao vento não lancei os meus desejos,
Mas em versos ritmados no papel
Para em rimas plasmar os meus ensejos
E os caprichos, tantos, em tropel

Formando com eles as milícias
Dos meus sonhos loucos de poeta,
Não só os dos gozos de delícias
Mas também os místicos, de asceta.

Talvez só seja ingênua aspiração
De restar ao menos no papel
Por mais de uma futura geração…

Para quê? me perguntam amiúde
Os que apostam da matéria a finitude
E descrentes acreditam só no céu…
============================
Uma Poesia do Rio de Janeiro

GILKA MACHADO
(1893 – 1980)

Saudade


De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo…
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo…
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?
============================
Universo Trovadoresco de Joubert

JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ


Cessa a luta na colina…
E Deus, ante o horror da guerra,
põe o algodão da neblina
sobre as feridas da terra.
============================
Constelação de Versos de Paccola

RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP

Tuas palavras

Tuas palavras
continuam em meu peito.

Teu perfume
continua na minha cabeça.

Teu sorriso
continua em meus olhos.

Teu presente
continua em meu passado.
==========================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas

CHICA LARICA


Chica larica
 De perna alçada
Comeu uma galinha
Na semana passada
Se mais houvesse
Mais comia
Adeus senhor padre
Até outro dia

http://luso-livros.net/
============================
O Universo Poético de Quintana

MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Da Felicidade


Quantas vezes a gente, em busca de aventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!
============================
Constelação Poetrix de Goulart

GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)

Pedra de Sísifo


subir escadas, descer ladeiras
sempre haverá
uma segunda-feira
===================================

 O Universo de Pessoa

FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

“Se alguém bater um dia à tua porta”


Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta
============================
O Universo Poético de Vinicius

VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Como dizia o poeta


Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não
============================
O Universo de Félix

AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

Sonetos Elementares

I


Aqui estou, um pássaro exilado
do mundo que criei à minha imagem.
Estou como meus pais, entre horizontes
de pobres paredões e frutos podres.

Em meio à cerração ouço esses passos
que ao comando do medo ou do desejo,
meu destino constróem singrando as horas
que de um silêncio vão a outro silêncio.

Por detrás brinca a infância – na planície
a se estender até a encosta em brumas
onde o corpo rolou, deixando as mãos,

as mãos que soltam no ar as aves bêbadas,
que com as asas colhidas na planície
sobrevoam cidades em ruínas.
============================
O Universo de Auta

Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN


Eu quero bem às crianças
porque não sabem mentir:
são pombas lindas e mansas,
passam na vida a sorrir.
============================
Constelação de Haicais de Haruko

HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG


Sons de flauta doce:
Murmúrios edulcorantes
– Vento no bambual…
============================
Galáxia Triversa de Posselt

ALVARO POSSELT
Curitiba/PR


a letra A tremeu na base
ao topar com outro A
teve uma crÀse
=============================
O Universo de J. G.

J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Desastre


Chegou o momento em que terei que ser um super-homem
para arrancar-me aos destroços de nosso desastre…

Ou morrerei preso às ferragens
a debater-me à vista de todos,
sem socorro…
…………………………………………………………………..

Quanto a ti,
saberás talvez da minha morte
pelos jornais…
============================
Um Soneto de São Paulo/SP

DEBORA MARTINS FONTES

Desabafo

 Aqui estou eu, em plena madrugada,
 tentando escrever uma poesia,
 me sinto só e abandonada,
 repleta de enorme melancolia.

 Penso em você e começo a chorar,
 tento esquecer para me livrar do sofrimento,
 quando penso que tudo vai passar,
 lá está você novamente em meu pensamento.

 Me deito e procuro dormir,
 depois de horas venho conseguir,
 mas acordo antes de amanhecer,

 e recomeça todo o meu sofrer.
 Volta toda a solidão e melancolia.
 Percebo que te amo até mesmo em poesia.
============================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas

ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)


Guardo ternas lembranças do passado,
com o encanto de tudo que era meu:
a menina singela e tão bonita,
sem adornos de loja ou camafeu.
Nos seus lábios, a vida me sorria;
nos seus olhos românticos, eu lia
um poema que nunca ninguém leu.
============================
O Universo Poético de Constantino

LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR


Nossa Senhora dos Sonhos 

Maria,
Há quanto tempo olho as nuvens,
esperando ver-Te numa estrela despertada
em pleno dia.

Há quanto tempo
deixei de contar ao sol os meus sonhos
porque a chuva sempre me surpreende
a caminho do Teu olhar.

Há noites, Maria,
em que penso ouvir Tua voz
na harpa que o vento toca nas ramagens
e meus ouvidos assemelham-se à terra
aguardando a semente que gerará a primavera.

Maria, Maria….
um a um os anjos me dizem de Ti
quando mal distingo as luzes do dia
entre as brumas dos meus olhos.
Vejo-os brincarem ao nascer de cada dia,
vejo-os rolarem pela grama e latirem para mim
seu bom dia de amor.

Eles me dizem de Ti
em cada pétala que o vento leva,
em cada pássaro que me sorri
do beiral do mundo, me dizendo
estou aqui esperando a chuva passar
para cumprir a vida.

Maria,
Mãe de todas as cores
do arco-íris por onde caminham os sonhos,
da Tua luz sobre a noite mais brilhante,
doa-me o sentir cada novo dia
como aquela Tua Noite de Paz.
============================
O Universo Poético de Bilac

Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

Por estas noites

Por estas noites frias e brumosas
É que melhor se pode amar, querida!
Nem uma estrela pálida, perdida
Entre a névoa, abre as pálpebras medrosas

Mas um perfume cálido de rosas
Corre a face da terra adormecida …
E a névoa cresce, e, em grupos repartida,
Enche os ares de sombras vaporosas:

Sombras errantes, corpos nus, ardentes
Carnes lascivas … um rumor vibrante
De atritos longos e de beijos quentes …

E os céus se estendem, palpitando, cheios
Da tépida brancura fulgurante
De um turbilhão de braços e de seios.
============================
O Universo de Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Poema do Jornal


O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.

Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.
============================
UniVersos Melodicos

Herivelto Martins e Grande Otelo

PRAÇA ONZE
(samba/carnaval, 1942)

Delimitada pelas ruas de Santana (a leste), Marquês de Pombal (a oeste), Senador Euzébio (ao norte) e Visconde de Itaúna (ao sul), a Praça Onze existiu por mais de 150 anos. A princípio denominada Rocio Pequeno, depois Praça Onze de Junho (data da Batalha de Riachuelo), tornou-se, nas primeiras décadas do século XX, o local mais cosmopolita do Rio de Janeiro.

Em suas redondezas misturaram-se imigrantes espanhóis, italianos e judeus de várias procedências com milhares de negros, na maioria oriundos da Bahia. E foram os negros que transformaram a Praça Onze em reduto de sambistas, ao usarem o seu espaço para os desfiles das primeiras escolas de samba.

Em 1941, quando a prefeitura começou as demolições para a abertura da Avenida Presidente Vargas, que extinguiria a praça, Grande Otelo teve a idéia de protestar em ritmo de samba. Ótimo ator, mas letrista medíocre, ele escreveria uma versalhada sobre o assunto, que mostrou aos compositores Max Bulhões, Wilson Batista e Herivelto Martins, sem lhes despertar o menor interesse.

Mas Otelo era teimoso e Herivelto, para se livrar dele, compôs o samba em que aproveitou a idéia, desprezando os versos. Diga-se de passagem, que na época os dois trabalhavam nos cassinos da Urca e de Icaraí, atravessando todas as noites a Baía de Guanabara, numa lancha que fazia a ligação entre as duas casas.

Foi numa dessas travessias que Herivelto começou a escrever “Praça Onze”. Acontece que a composição – anunciando o fim da praça e dos desfiles e, de uma maneira comovente, exortando os sambistas a guardarem os seus pandeiros – superou as expectativas do autor, sugerindo-lhe uma gravação diferente, em que se reproduzisse o clima de uma escola de samba. E assim ele fez, tendo a novidade se tornado padrão para a execução de sambas do gênero.

Além do canto, no estilo “empolgação”, a cargo do Trio de Ouro reforçado por Castro Barbosa, foi primordial para que se estabelecesse tal clima o uso destacado de três elementos rítmicos – o tamborim, o apito e o surdo. Até então, o apito era usado nas escolas de samba somente como elemento sinalizador, para comandar o desfile. Sua função rítmica, sibilando em tempo de samba, foi uma invenção de Herivelto, lançada nesta gravação.

Por tudo isso, “Praça Onze” alcançou extraordinário sucesso, ganhando, ao lado de “Ai, que saudades de Amélia”, o concurso de sambas promovido pelo Fluminense. E naquele carnaval, onde se cantou “Praça Onze” tinha sempre alguém soprando um apito, o que acabou causando a Herivelto uma despesa inesperada: caridosamente, ele assumiu metade do prejuízo sofrido por Murilo Caldas, autor da marcha “Passarinho Piu Piu”, que distribuíra mil apitos entre os foliões, indiferentes à sua música.

Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai
Chora o tamborim
Chora o morro inteiro
Favela, Salgueiro
Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai

Adeus, minha Praça Onze, adeus
Já sabemos que vais desaparecer
Leva contigo a nossa recordação
Mas ficarás eternamente em nosso coração
E algum dia nova praça nós teremos
E o teu passado cantaremos

(instrumental)

Favela, Salgueiro
Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai
Praça Onze, Praça Onze, adeus
Praça Onze, Praça Onze, adeus

Fonte:
http://cifrantiga3.blogspot.com
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Uma Cantiga Infantil de Roda

PENEDO VEM


São duas rodas de crianças. Uma com duas meninas e outra com diversas. Cantam as desta última:

Penedo vai
Penedo vem
Penedo é terra
De quem quer bem

A outra roda, das duas meninas, canta chamando uma delas:

Vem cá, Fulana
Vem cá, meu bem
Você é das outras
É nossa também

A garota convidada passa para a roda menor. A roda maior repete o primeiro quarteto e assim por diante, até chamar todas, ficando duas apenas, que formarão a roda menor da próxima vez

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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O Universo Poético de Feitosa

SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)

Não!


Tempo demais vivi perto da solidão e,
assim, desaprendi o silêncio.
(Friedrich Wilhelm Nietzsche)

Não, não e não – mil vezes não!

Porque me disseste: – um silêncio obsequioso.
Não.

Em contra-
partida, devo
dirigir-te tão-só a não-palavra cheia de presságios.
É a noite.
As nuvens passam
e seus soturnos:
como farei para saberes que não penso em ti!?
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O Universo Poético de Du Bois

PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)

Trem


Eram barcos
secos vagões em lentos movimentos
idas e vindas
de generalizados atrasos
escritos em giz
e o guarda atento
a tudo e a todos

menos em nós
garotos
sobre o muro
entre vagões  parados
curiosos das partidas
e dos apitos de chegada

partíamos todos os dias
em que chegávamos de longas viagens
por desertos e cidades

(outros países
e vidas que teríamos
pela frente).
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O Universo Acróstico de Motta

SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)

Pratique o Exercício do Amor e do Perdão

Acróstico-humanístico nº 4997

P-Passam as águas da chuva e do mar!
R-Raivas acesas, só causam sofrimentos!
A-A vida passada deve ser bem avaliada,
T-Transformando mágoas em sentimentos
I-Inalienáveis que são AMOR e PERDÃO!
Q-[Quanto mais aqui se faz, aqui se recebe.]:
U-Um adágio popular pela razão cultuada;
E-Enfrentar o DESAFIO é a grande solução.
 –
O-O melhor é desistir mentalmente da perda;
 –
E-Experimentar sempre, sem medo de errar;
X-X da atitude positiva é ter ESPERANÇA
E-E acreditar que o melhor vai acontecer;
R-Revelações otimistas durante todo o ano
C-Contam até os segundos de felicidade…
Í-Intransferível ao outro, em quaisquer
C-Circunstâncias. É preciso reconhecer
I-Indicações das críticas construtivas:
O-O ERRO humano não pode esquecer
 –
D-Dignidade e respeito às pessoas criativas:
O-{O que muito faz, está sujeito ao erro…}
 –
A-A essência do ERRO humano faz sofrer
M-Mas a experiência do recomeçar faz rever
O-O novo caminho da justiça e da verdade,
R-Realidade que leva a praticar fraternidade.
 –
E-Emoções podem ser positivas e negativas:
 –
D-Determinação individual é que avalia
O-O peso e o valor objetivo de cada uma,
 –
P-Profundidade dos resultados e [feed-back]
E-Expressam nossas motivações à mudança;
R-Revisão do produto que foi alcançado
D-Diante da batalha vitoriosa ou perdida
Ã-Alívio da culpa por ter errado ou sequência:
O-O correto é ser feliz e fazer outros felizes.
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O Universo Poético de Ordones

RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Eu sou a esperança


E se tudo me parecer arruinado
E se me furtarem a perseverança
Se do orbe eu ficar desencaixado
Preciso crer, eu sou a esperança.

E se o caminho parecer tortuoso
Se lágrima cair da minha criança
Se o adulto de mim for orgulhoso
Preciso crer, eu sou a esperança.

Se a minha flor tende emurchecer
Se eu tropeçar na minha andança
Preciso crer, eu sou a esperança.

Em minha essência algo invisível
Devo empunhá-lo e ter confiança
É minha fé, sou minha esperança.
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O Universo Poético de Machado

MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)

Vai-Te


POR QUE VOLTASTE? Esquecidos
Meus sonhos, e meus amores
Frios, pálidos morreram
Em meu peito. Aquelas flores
Da grinalda da ventura
Tão de lágrimas regada,
Nesta fronte apaixonada
Cingida por tua mão,
Secaram mortas estão.
Pobre pálida grinalda!
Faltou-lhe um orvalho eterno

De teu belo coração.
Foi de curta duração
Teu amor: não compreendeste
Quanto amor esta alma tinha…
Vai, leviana andorinha,
A outro clima, outro céu:
Meu coração? Já morreu
Para ti e teus amores,
E não pode amar-te – vai!
O hino das minhas dores
Dir-to-á a brisa, à noite,
Num terno, saudoso — ai —
Vai-te – e possa a asa do vento
Que pelas selvas murmura,
Da grinalda da ventura
Que em mim outrora cingiste,
Inda um perfume levar-te,
Morta assim: como um remorso
Do teu olvido… eu amar-te?
Não, não posso; esquece, parte;
Eu não posso amar-te… vai!
=============================
O Universo de Versos de Simone

SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

O anjo da misericórdia


Quando em teus olhos,
de repente, se fizer noite,
e a insuportável dor
da grave doença
que te consome lentamente,
por encanto, cessar…
Essa é a tua hora!

Segura nas mãos
do Anjo da Misericórdia
e vai cavalgando, sem medo,
nas asas do vento, sentindo a leveza
de tua alma iluminada,
agora liberta
das dores do mundo.
Ouve as trombetas dos anjos,
anunciando tua chegada.
E o Pai, ao fundo,
de braços abertos, à esperar por ti.
Vai em paz!…
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Galáxia Poética de Nicolini

AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)

Chuva Interior

Cartas Antigas
Meu mundo não mudou, ainda é aquele
onde passo a maior parte do meu tempo
rodeado de lembranças e saudades:
retratos, e uns papéis que guardo nele
e que serviram bastante como exemplo
do que eu achava ser felicidade.
Esses papéis são cartas, cartas tuas
escritas quando ? Há mais de vinte anos,
quando éramos moços e a vida nos sorria.
Eras então para mim o sol e a lua,
razão de ser de todos os meus planos
e luz do meu caminho noite e dia.
Mas essa  luz se apagou do firmamento
pouco a pouco escureceu o sentimento
sem que eu mesmo encontrasse uma razão.
E desse amor que prometia a eternidade,
só uns papéis amarelados pela idade
ainda povoam meu mundo, e o coração.
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Galáxia de Indrisos, de Iturat

ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)

História Natural


Iluminou os oceanos a célula;
pisou a terra uma pata de anfíbio;
comeu o réptil réptil, e mais réptil.

Mamou, depois do gelo, o mamífero;
endireitou-se a espinha do primata;
viu que era bom matar o hominídeo.

Queimou-se uma árvore e pensou o homem.

Gemeu ao pensar, quis voltar a ser célula.
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Universo Poético de Camões

LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)


Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.

Vôo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!
===========================
Galáxia Poética de Bandeira

MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Balõezinhos


Na feira do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
– “O melhor divertimento para as crianças!”
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a
[única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa:
– “O melhor divertimento para as crianças!”
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um
[círculo inamovível de desejo e espanto.
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Universo Poético de Shakespeare

WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)

Soneto 1


Dentre os mais belos seres que desejamos enaltecer,
Jamais venha a rosa da beleza a fenecer,
Porém mais madura com o tempo desfaleça,
Seu suave herdeiro ostentará a sua lembrança;

Mas tu, contrito aos teus olhos claros,
Alimenta a chama de tua luz com teu próprio alento,
Atraindo a fome onde grassa a abundância;
Tu, teu próprio inimigo, és cruel demais para contigo.

Tu, que hoje és o esplendor do mundo,
Que em galhardia anuncia a primavera,
Em teu botão enterraste a tua alegria,

E, caro bugre, assim te desperdiças rindo.
Tem dó do mundo, ou sê seu glutão –
Devora o que cabe a ele, junto a ti e à tua tumba.
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Constelação Poética de Celito

CELITO MEDEIROS
Curitiba/PR

A Poesia Que Eu Quero

Quero uma boa poesia, ora se quero!
Como o quero-quero no arpão lhe cai
Peregrino das palavras qual ferro
Ou doces rimas que tanto sonho atrai

Não quero mudar meu amor de outrora
Mesmo alimentando um pássaro vivaz
Quero doce melodia que a palavra traz
Para encantar-me da noite à aurora

Quero rebuscar o canto das manhãs
Comer o doce das melhores maçãs
Sentir o embalo das sentenças nobres

Não quero alimentar as rimas pobres
Nem mesmo aplaudir meros acordes
Quero contemplar escritas de avelãs!
_______________________
(Quero, ora se quero!
Quero tantas coisas…
E coisas que eu não quero.)
========================
Galáxia Poética de Jacob

José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG

A Mulher e a Roseira


Essa roseira, sempre silenciosa,
Não teve em sua vida outros caminhos,
E, desde que perdeu a última rosa,
Dobrou-se sob o peso dos espinhos.

E essa mulher que passa esperançosa,
Afagando os seus filhos com carinhos,
Faz-me crer, de uma forma tão piedosa,
Que vi Nossa Senhora e os seus anjinhos.

A roseira, a chorar as suas dores,
Fica no meu canteiro, ao sol e à lua,
Descrente do milagre de outras flores.

E a mãe, que passa em frente, continua…
Esquecida dos próprios dissabores
Vai beijando os seus filhos pela rua.
==========================================
Universo Poético de Ialmar

IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

SONETO

Dia chuvoso às 12h20min. – Tristeza – Porto Alegre – RS – Olhando as águas do Guaíba.

Devo escrever aqui meus versos tristes
como Pablo Neruda já o fez,
mas ao pensar que ainda em mim existes,
eu pretendo te amar mais uma vez !

E por este motivo, bem o vês,
em meu ferido coração persistes
a viver com saudável altivez,
porque em meu renascer feliz consistes.

Pois hei de recordar-te sempre mais,
que esta saudade não deiste nunca,
e vai te procurar onde estiveres.

Tu foste um somatório dos ideais,
que alimentou meu sonho que se trunca,
se o busco realizar c´outras mulheres…
======================================
A Constelação Poética de Maial

LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

Sedimento


    Recolho os seixos lisos desse rio,
    Qual lágrimas, são contas de um rosário.
    Margeio a lua, refletindo o estio,
    Conduzo estrelas frias p’ro estuário.

    Rabiscos, risco ao léu! Meu desafio
    Consiste em dar teu nome a esse cenário.
    A noite enfeita, em mim, o olhar sombrio,
    Revela a dor exposta em antiquário.

    Saudade é conterrânea do meu peito,
    Traduz em pedra a falta do teu toque,
    E deixa esse vazio a soçobrar.

Afundo nessas águas como um leito,
    Arrasto essas lembranças a reboque,
    Permito à solidão sedimentar.
================================
Poesia Sem Fronteiras

ANTÓNIO SILVA GRAÇA
Moçambique

Fusão das Liturgias


Fusão física de cores
que recolho em fios de luz.
Luz suspensa na noite,
instante caído de uma pétala.

 Leio as nuvens e reparo
que o léxico celeste confere
uma vontade sólida.

Na solidez deste dia
vou separando as águas da minha mitologia
das outras que retornam, serenas.
As horas são agora
modelos equilibrados
da organização do tempo.

 E os dias,
revoltas de uma qualidade sóbria.
A luz deixou de ser de bronze
para ser um fio dolente
iluminando com minúcia cada hora.

 No cadinho liso do silêncio
fundo liturgias.


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José Feldman (Universo de Versos n. 128 )


Uma Trova do Paraná
AMALIA MAX
Ponta Grossa
Nossos pinheirais encantam
e dão fruto ao que parece,
porque quando as mãos o plantam
se juntam como na prece.
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Uma Trova sobre Ecologia, de São Paulo/SP
MARINA BRUNA
Nas águas turvas dos rios
os venenos poluidores
nos darão dias sombrios
de primaveras sem flores…
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Uma Trova do Izo
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP
Sai do museu, braço dado
com sua sogra, o Sinfrônio:
e o guarda grita, alarmado:
– “Tão roubando o patrimônio!”
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Porto Alegre/RS
FLÁVIO ROBERTO STEFANI
Abaixo a guerra entre irmãos!
 Plantemos a paz somente.
 Quem tem sementes nas mãos,
 não tem granadas na mente!
============================
Uma Trova Humorística, de Belo Horizonte/MG
DODORA GALINARI
Na venda, a moça esculacha
pelo engano que se deu:
pediu a maior bolacha,                                               
e o vendedor lhe bateu!                                                  
============================
Uma Trova do Ademar
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 – 2013 Natal/RN
Na construção do desgosto
de um casamento desfeito,
criei rugas no meu rosto
e pus mágoas no teu peito…
============================
Uma Trova Hispânica, da Argentina
MARGARITA DIMARTINO DE PAOLI
AMOR es un sentimiento
vuela al cielo al corazón,
y te sientes al momento
que has perdido la razón…!
============================
Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de São Paulo/SP
MARINA BRUNA
Sobre a queimada inclemente
que acende ipês e bambus,
chora uma estrela cadente
seu pranto em gotas de luz!
============================
Trovadores que deixaram Saudades
ADOLFO MACEDO
Magé/RJ (1935 – 1996)
Partirás… e eu ficarei
dissipando a minha mágoa
nas trovas que comporei
com os olhos rasos d’água!…
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP
Quem vive pela saudade,
por longos anos ou meses,
possui a felicidade
de reviver várias vezes.
============================
Um Haicai de Santos/SP
REGINA ALONSO
Freada no escuro –
Entre as cruzes das encostas
luz de pirilampos.
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981
Amanhece… Vibra a terra!
O sol que em ouro reluz,
sai da garganta da serra
como uma trova de luz.
============================
O Universo de Leminski
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)
rio do mistério
que seria de mim
se me levassem a sério?
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine
GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS
Glosando Almerinda Liporage (TITA)
NÓS DOIS

MOTE:
Nós tanto nos pertencemos,
nosso amor vai tão além…
Que nós dois já nem sabemos
quem de nós é mais de quem!

GLOSA:
Nós tanto nos pertencemos,
tanto nos damos enfim,
que sempre unidos vivemos,
muito felizes, assim.

O nosso amor é tão grande…
Nosso amor vai tão além…
que muita ternura expande,
sempre emocionando alguém.

Nós já atingimos extremos
vivendo um amor divino,
que nós dois já nem sabemos
separar nosso destino.

Somos um só na verdade,
e sei que nunca, ninguém,
saberá na realidade,
qual de nós é mais de quem!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ
Seria a glória das glórias,
se um dia alguém me dissesse,
ter chorado neste mundo,
lendo um verso que eu fizesse.
============================
O Universo do Haicai de Seabra
CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)
Saci Pererê
fuma seu cachimbo
à sombra do ipê
============================
Galáxia Haicaista da Benedita
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ (1944)
Ao romper da aurora
Suave perfume no ar –
Outra vez setembro.
=======================
O Universo Poético de Emilio
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)
Supremo apelo
Por que causas, de ti, foge a antiga ventura
E toda, em ti, se embebe a alma, em fel e vinagre?
Certo, uma grande dor te fere e te tortura!
– Mas tão grande, que a grande alma assim te conflagre?

Tanto Sol! Tanta Luz! E esta treva perdura!
– De um espírito mau, diabólico milagre –
Mas olha! Volta à Luz! Volta ao Sol que fulgura
Nos Poemas que te eu dê, no Amor que te eu consagre!

Vem beber no meu verso a fortaleza e a vida!…
Vê tu quanto poder num hemistíquio impera,
E o vigor que há na rima – arma nunca excedida!. ..

Vem, que ao fim da jornada, a glória nos espera!
Vamos! – a galopar, – em fora! a toda a brida,
Na esplanada genial do sonho e da quimera!
============================
Universo Trovadoresco de Cornélio
CORNÉLIO PIRES
Tietê/SP (1884 – 1958) São Paulo/SP
Caso Triste
Expulsando o pai leproso
Que o buscava, há vários dias,
Tonho caiu e morreu,
Ao descer escadarias.
=================================
O Universo Poético de Sardenberg
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)
Aurora Desbotada
Desperta a aurora fria e desbotada,
Em mais um dia que precede o fim,
E essa minha alma frágil e tão cansada,
Já não suporta a dor que dói em mim.

A noite avança, rompe a madrugada,
Eu já não sinto o aroma do jasmim
Que andava no meu quarto e na sacada
E perfumava todo o meu jardim.

Dia morto… noite morta… tudo é nada…
Viver só por viver não me consola
Se a aurora só é bela colorida.

Sinto que irei sem ti nessa jornada,
E a suportar a angústia que me assola,
Prefiro não viver – isso não é vida!
============================
O Universo Poético de Cecília
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
Máquina Breve
O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
– meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.
============================
O Universo Melódico de Assumpção
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ
Aquele Cara
será que alguém desconfia
do vazio que sempre morou
no meu coração cigano
pois é, de nada adianta
me enganar, o meu coração
sabe que é sozinho, sozinho
tentando achar pela cidade
em cada uma um novo amor em cada canto
sabe aquele cara que tem um par de asas
e um arco é flecha na mão
se ele me acertasse, ai não tinha jeito
o amor explodiria dentro do meu peito
============================
Constelação Haicaista de Marins
JOSÉ MARINS
Curitiba/PR
Dia da Professora –
aquele quadro de giz
com letra bonita
============================
O Universo Sonetista de Alma
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
Para entreter as horas
Não arrastei a vida, andei na frente
Com o cabelo e o rosto ao vento
Desbravando viva e bravamente
As horas em seu próximo momento.

Aventura maior do que estar viva
Não há, como estar ao próprio ritmo
Do primeiro e último conviva,
Nosso coração e rei legítimo.

Se me pus a rechear o entremeio
De poemas e sonetos bem rimados,
Para entreter as horas foi um meio

De nublar-me a certeza de morrer
Unindo o prazer aos meus cuidados
De em mim mesma restar, permanecer…
============================
Uma Poesia
EUGÊNIA TABOSA
Esse Olhar
Esse olhar parado
sem hoje nem passado
Esse olhar sem espera
como canto preso
em boca entreaberta
Esse olhar cansado
desfeito
sem jeito
não grita
não chora
Esse olhar desarmado
como barco sem leme
Existe
Não posso ignorá-lo!
============================
Universo Trovadoresco de Joubert
JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ
A sorte foi bem marota
para o pobre do Aristeu,
fazendo morrer de “gota”
quem só da “pinga” viveu.
=================================
Constelação de Versos de Paccola
RENATA PACCOLA
 São Paulo/SP
Revolta
O tempo não falta
pelo excesso de compromissos,
por chefes e submissos,
pela luta de cada dia,
pela dura realidade.
Tempo não é oportunidade.
O tempo só falta
pela ausência do desejo.
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
A BONECA
 –
 Tia Anica Marreca
 Traga-me uma roca
 Prá minha boneca
 Que ela é careca.
 Tem um pé de pau
 Quando vai prá cama
 Faz trau tau tau.
 –
============================
O Universo Poético de Quintana
MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)
As Coisas
O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da Natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
é, acaso, singular…
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
– é simplesmente porque
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!
============================
Constelação Poetrix de Goulart
GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)
A Duvida Persiste III
quem espera nunca alcança
morreu a derradeira
a dúvida venceu a esperança
=============================
O Universo de Fernando Pessoa
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935
Se tudo o que há é mentira
Se tudo o que há é mentira
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o mais valer,
Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.
============================
O Universo Poético de Vinicius
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
Coisa mais linda
Coisa mais bonita é você
Assim, justinho você
Eu juro, eu não sei por que
Você
Você é mais bonita que a flor
Quem dera
A primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza
Que é o amor
Perfumando a natureza
Numa forma de mulher
Por que tão linda assim não existe
A flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
E eu fico um pouco triste
Um pouco sem saber
Se é tão lindo o amor
Que eu tenho por você
============================
Uma Poesia de Portugal
EUGÉNIO DE ANDRADE
Lisboa
Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.
============================
O Universo de Auta
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
Colhi, entre amigos meus,
este conceito profundo:
– Mãe é um sorriso de Deus
nos sofrimentos do mundo.
============================
Constelação de Haicais de Haruko
HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)
Belo Horizonte/MG
Leve borboleta
Vitória sobre a crisálida:
Pétalas aladas…
=======================================
Galáxia Triversa de Posselt
ALVARO POSSELT
Curitiba/PR
Escrever sem consulta
O bom é obedecer
à norma oculta
=================================
O Universo de J. G.
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
” Desarvorado Navio “
 A verdade é que depois que tu partiste
vou ficando cada vez mais triste,
cada vez mais morto,
de amor em amor, como um navio
de porto em porto…

Nesta angústia em que morro,
a olhar o céu vazio,
sem uma estrela para me guiar,
tenho a impressão de que vou acabar, como esse navio,
soçobrando, sem socorro,
na solidão do mar…
============================
Um Soneto de Goiânia/GO
WILLIER CARLOS PEREIRA
Adão e Eva
 Deus fez a mulher tão bela,
 De uma simples costela de Adão.
 Só Ele pode fazer de uma costela,
 A mulher, símbolo da perfeição.

 E Adão se apaixonou por ela,
 Dando-lhe inteiro seu coração.
 Viu mil e um encantos nela,
 Que perdeu o juízo e a noção.

 Eva era seu verdadeiro paraíso…
 Razão de alegria e de sorriso,
 Por aquela criação tão bela.

 Para ter outras evas iguais aquela,
 Por certo ele não titubearia:
 Várias outras costelas ele daria.
============================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas
ZÉ LUCAS
(José Lucas de Barros)
Natal/RN (1934)
Dessas coisas que a vida leva e traz,
lembro um fato do meu interior:
o rapaz era louco pela moça
que a má sorte feriu com grande dor
e levou-a pra longe, sem alarde.
Quando trouxe de volta foi tão tarde,
que não houve mais chances para o amor!
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O Universo Poético de Constantino
LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR
Fonte de Paz
Além destas paredes,
da cintilação destas vitrines de felicidade,
a única coisa que ceva os olhos e o coração
é a pesada leveza do Ser.

Do que dependo e do que de mim depende
mais que as palavras manufaturadas
que emito em debandada
para purgar minha pusilanimidade.

É o arroubo do amor, o que me move.
São as penas do que se asila em meus braços
que me devolvem ao vôo da vida.

É o indulgente sinal de Deus
para com as águas de minha alma
que me mostra
que minha verdadeira fonte de paz
é somente irmã do arco-íris.
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Uma Poesia Além Fronteiras
LUCIAN BLAGA
Romênia (1895 – 1961)
A Estalactite
O silêncio é a minha sabedoria
e porque permaneço imóvel e sereno,
como um asceta de pedra,
parece-me
que sou uma estalactite dentro de uma caverna imensa
com o céu por abóbada.
Lentas,
lentas,
lentas gotas de luz,
gotas de paz, caem incontidas
e fazem-se pedra dentro de mim.
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O Universo Poético de Ialmar
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
Soneto
Volto a escrever os versos devotados
às Musas que povoam minha mente;
bem sei que são os mágicos cuidados
que me tornam romântico e consciente…

Delas obtive múltiplos agrados
e sempre me acompanham no presente,
pois, nos meus cânticos apaixonados
vivem formosas, deixam-me contente.

E assim levando a vida me convenço
que imaginando este Universos imenso
qual um Reino infinito de poesia,

me realizo pedindo inspiração;
e só peço que para esta missão,
não me abandone nunca a fantasia !
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A Constelação Poética de Lilian Maial
Rio de Janeiro/RJ
    As Flores têm Inveja
    As flores têm inveja desse amor,
    e tentam apagar nossa alegria.
    As cores que nos vemos não têm cor,
    matizes delicados da euforia.

    Se as cores fossem flores, eu diria,
    que a cor mais bela és tu, ó linda flor!
    Mas sei das outras flores, covardia,
    nenhuma se aproxima do esplendor!

    Que o teu perfume cheire a nossa vida,
    que todo o tempo corra, sem guarida,
    ao nosso encontro, num tempo sem fim!

    Pois eu vou colorir a nossa estrada,
    com as cores que colhemos na jornada,
    por ti, perfeita flor do meu jardim!
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O Universo Poético de Bilac
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)
Natal
Jesus nasceu ! Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria …
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus …
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.
Sobre a palha, risonho, e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino-Deus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.
Não nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz deste lugar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiros olhar.
No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presépio os guia.
Vêem cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.
Sobrem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu ! Natal ! Natal !
Sobre esta palha está quem salva o mundo,
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal !
Natal ! Natal ! Em toda Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia …
Salve, Deus da Humildade e da Pobreza,
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O Universo de Drummond
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos , raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundom,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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UniVersos Melodicos
Benedito Lacerda e Darci de Oliveira
POMBO CORREIO
(samba, 1942)
Soltei meu primeiro pombo correio
Com uma carta pra aquela mulher
Que me abandonou
Soltei o segundo e o terceiro
O meu pombal terminou
Ela não veio e nem o pombo voltou…

Depois que aquela mulher
Me abandonou
Não sei porque
Minha vida desandou
O canário morreu
A roseira murchou
O papagaio emudeceu
E o cano d’agua furou
Até o sol por pirraça
Invadiu a vidraça
E o retrato dela desbotou…
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Uma Cantiga Infantil de Roda
JOÃO DA ROCHA FOI À PESCA
As meninas ficam aos pares, de mãos dadas, e cada uma vai fazendo voltas, por cima da cabeça com os braços, sem se soltar. E cantam todas:

João da Rocha foi à pesca,
Convidou papai André;
Quando o Rocha de mergulho,
Pai André de jereré.

Fizeram boas pescadas,
Pescaram boas tainhas;
Quando vieram com fome
Foram logo à cozinha.

Depois da muqueca feita.
Pai André foi dos primeiros;
Por ser o mais guloso,
Engoliu o peixe inteiro.

Ficaram envergonhados
Na presença dos camaradas.
De ver papai André,
Com uma tainha engasgado
Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.
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O Universo Poético de Feitosa
SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)
Mergulho
Ela corria pela ravina
quand’eu lhe gritei:
desce, amor, sou eu.

Ela me perguntou:
o que me trazes,
o que me ofereces?
Trago no meu corpo
o perfume da terra áspera,
o cheiro da terra
na primeira neblina,
para ti eu trago.
Nos meus olhos,
o fruto amanhecente
numa aurora de ouro,
às tuas narinas,
eu trago o fruto.
Trago também, só para ti eu trago
o furor da tempestade,
o tremor do vento do deserto,
que de dia é quente,
que de noite é frio,
e aos teus cabelos não negarei
o arrepio
nem o mergulho,
não negarei…
E na ponta dos meus dedos
um dedilhar suave,
uns tons de sol,
uns tons de lua:
esquadrinharei todo o teu rosto,
pétala a pétala,
numa manhã de rosa.
– Agora vem, desce, amor!
Foi quand’ela saltou,
desequilibrou-se, nem sei,
de despenhadeiro abaixo,
e suavemente, pela cintura,
nos pousamos
nas touceiras azuis
dos manjericões de cheiro.
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O Universo Poético de Du Bois
PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)
Desenredo
                    Chovo
                    o tempo
                    dedicado
                    à seca.

Seco a hora enredada.

Falam em catástrofes: finalizo
                                     o inexistente.

Na esterilidade do planeta
aposto verdes plantas
e azuis marítimos: dói

              a água derramada sobre o solo
castigado em vazios. O relógio desperta
o sono irreparável da espécie.
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O Universo Acróstico de Motta
SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)
Tudo Acabado Entre Nós
(Acróstico-Poético nº 5069)
T-Tudo acabado entre nós!
U-Um cometa passou brilhando
D-Deixou um rastro do passado…
O-O vento frio, gelado, cantando
 –
A-Anuncia que o abrigo de outrora,
C-Consentido em nosso presente,
A-Agora, não tem mais a ilusão…
B-Basta de regar atenção ao ser ausente
A-Aquele sentimento amigo está retido!
D-Da nossa bela colcha de retalhos
O-Os fios soltam-se diariamente…
 –
E-E aquela fumaça branca do infinito
N-Não deixou sequer lembrança…
T-Tomei a decisão consequente:
R-Realidade dói… faz sofrer o coração,
E-E antes da infecção da decepção
 –
N-No leito com apenas um travesseiro
Ó-O tempo mostra a melhor opção,
S-Sinalizando constante PAZ interior.
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O Universo Poético de Ordones
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG
Vive em mim
E vive em mim uma primavera
Com pétalas, cores e perfumes
Cada uma das flores te espera
E no hall letreiro de vagalumes.

Vivem em mim vários canteiros
Talvez todos viventes no mundo
Nos setembros ou nos janeiros
Colorem de jeito tão profundo.

Algo existe; e é assim tão belo
Só é; sem qualquer explicação
E estacionou aqui essa estação.

Meu sentir resistirá ao inverno
No banho de chuva eu almejo
O meu beija-flor e o meu beijo.
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O Universo Poético de Machado
MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)
O Sofá
OH! COMO É suave os olhos
Sentir de gozo cerrar,
Sobre um sofá reclinado
Lindos sonhos a sonhar,
Sentindo de uns lábios d’anjo
Um medroso murmurar!

Um sofá! Mais belo símbolo
Da preguiça outro não há…
Ai, que belas entrevistas
Não se dão sobre um sofá,
E que de beijos ardentes
Muita boca aí não dá!

Um sofá! Estas violetas
Murchas, secas como estão
E entre beijos vaporosos
Da terra fazer um céu!
Um sofá! Mais belo símbolo
Da preguiça outro não há…
Sobre o seu sofá mimoso,
Cheirosas, vivas então,
Achei um dia perdidas,
Perdidas: por que razão!

Talvez ardente entrevista
Toda paixão, toda amor
Fizesse ali esquecê-las
Quem não sabe? sem vigor
Estas flores só recordam
Um passado encantador!

Um sofá! Ameno sítio
Para cingir duas frontes
De amor num místico véu,
Ai, que belas entrevistas
Não se dão sobre um sofá,
E que de beijos ardentes
Muita boca aí não dá!
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O Universo de Versos de Simone
SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS
O Anjo Poeta
Dentro de mim mora um anjo
que em sussurros, dita as palavras
que escrevo no papel.
Minha caneta dispara alucinada,
enlouquecendo meus pensamentos,
que acelerados, por vezes, se confundem
com a realidade correndo lá fora.

Dentro de mim mora um anjo
que traduz em palavras,
todos os sentimentos de uma vida,
libertando assim, o meu eu.

Dentro de mim mora um anjo
que me faz poeta, com a missão
de aquecer seu coração
com minhas palavras.
O poeta, é assim: um pouco insano!
Descreve coisas as quais nunca viveu,
com os sentimentos de quem presenciou.
É uma doce mistura do real e do irreal.
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Galáxia Poética de Nicolini
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)
Chuva Interior
A chuva cai, lavando estas calçadas,
molhando as plantas de toda a minha rua
como se fosse levando na enxurrada
até o próprio reflexo da lua.

Essa chuva afinal é benfazeja,
e não demora a cessar, serena e mansa,
para que a noite de novo calma esteja
e permita aquele sono de criança.

Tenho inveja da chuva e suas águas,
que colocam no calor um pouco o fim
nesta nova temporada de verão.

Enquanto eu enfrento minhas máguas,
que chovem sem parar dentro de mim
e acabam me afogando o coração.
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Galáxia de Indrisos, de Iturat
ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha (1973)
Batismo
A menina:          Indriso!
O autor:             É Isidro, não
                          Indriso.

A menina:          Indriso!
O autor:             Não! Isidro! Não
                          Indriso!

A menina:          Indriso!

O autor (aparte): Indriso ficou…
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Universo Poético de Camões
LUIS VAZ DE CAMÕES
Portugal (1524 – 1580)
Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar-me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.
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Galáxia Poética de Bandeira
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ
Auto-Retrato
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
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Universo Poético de Shakespeare
WILLIAM SHAKESPEARE
Stratford-upon-Avon, Reino Unido (1564 – 1616)
Soneto 13
Ah, se pudesses ser quem és! Mas, amado,
Tens a vida apenas enquanto ela pertence a ti.
Deverias te preparar para um fim tão próximo,
E a outro emprestar o teu doce semblante.

Assim, se a beleza que deténs em vida
Não tiver um fim, então, viverias
Novamente após a tua morte,
Quando a tua doce prole ostentasse a tua doce forma.

Quem poderia ruir uma casa assim tão bela,
Cuja economia em honra se poderia prevenir
Contra o vento impiedoso dos dias frios,

E a estéril fúria do eterno estupor da morte?
Ó, quanto desperdício! Meu caro, sabes
Que tiveste um pai: deixa o teu filho dizer o mesmo.
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Celito Medeiros
Curitiba/PR
A Arte e a Poesia
Sou sonho de artista realizando
Da poesia os versos e o encanto
Como a água da pedra brotando
A terra cobrirá com seu manto.

Na vida real eu tenho procurado
Dos traços do pincel um caminho
As estrofes da poesia d’um lado
Nas telas encontrar o meu ninho.

Minhas mãos calejadas o brilho
No movimento criado uma razão
As cores fortes são meu gatilho
Disparando toda a minha emoção.

Num tempo distante deste tempo
Quando maior valor poder existir
Eu estarei viajando como o vento
Da minha assinatura poderei rir.

Da dedicação nas artes e poesia
Toda inspiração gravada ali fica
Marcar o que na tela não podia
Na literatura foi uma boa dica.

No silêncio solitário do trabalho
Das noites de espera da amada
Querendo sempre mais eu falho
Como aquele que não fez nada.

Se é interessante minha obra
Muito de meu tempo dediquei
Serpenteando traços tal cobra
Usando a tecnologia eu inovei.

Do que fiz estou bem satisfeito
Tudo com grande amor e carinho
Este é o resultado do meu jeito
Desejando não apreciar sozinho!
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Galáxia Poética de Jacob
José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)
Juiz de Fora/MG
A Aurora da Velhice
Passo uma noite enfermo e desgostoso
A fumar, encolhido, na sacada,
E a olhar o vento suave e silencioso
Varrer as folhas mortas na calçada.

E entre cada suspiro de tragada
Desprendo, do cigarro vaporoso,
A mágoa de um soluço doloroso
Que em névoa vai se misturar ao nada.

E a contemplar o espaço espero a aurora,
Sabendo que a minha alma está indo embora
Nessa fumaça que na bruma sonha…

E dói, inda mais fundo, o peito doente,
Quando percebo ao longe o sol-nascente
Abrir no céu uma manhã risonha.

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