Humberto de Campos (A Bilha)

Sentado em um banco de madeira tosca, colocado por ele próprio diante da sua chácara do “Bom Retiro”, a dois quilômetros de São Fidélis, olha o coronel Saturnino as grandes águas do Paraíba, que rola, sereno e inchado, no rumo de São João da Barra. A cinco metros do honrado fazendeiro, no leito do rio, emergem duas cabeças queridas: a do filho, o Alfredinho, um pirralho louro, forte, vivaz, de quatro anos, feitos em setembro, e a da sua segunda esposa, D. Florinda, cujos cabelos castanhos, soltos e molhados, lhe orlam, como um capuz de freira, o formoso rosto moreno. O fazendeiro olha, sorrindo, os dois banhistas que lhe enchem o coração, e dá ordens:

– Não vá para longe, Alfredo. Fique aí mesmo.

E para a esposa:

– Mergulhe, Lindinha. Está com medo?

A moça dá um mergulho ligeiro, e aparece mais distante, com os lindos olhos fechados, para que lhe escorra melhor sobre o colo forte, como pérolas dissolvidas, a água que lhe encharca os cabelos.

Diverte-se o coronel, assim, com os dois anjos que lhe constituem a família, quando, tomando uma bilha velha e inservível que se achava próxima, se põe de pé, e a atira, longe, um exercício dos músculos vigorosos, na corrente do rio. Apanhada pela correnteza, a vasilha de barro começa a descer, rápida, rodopiando, arrebatada pelas águas. De repente, porém, com a boca para cima, começa a encher-se, afundando-se pouco a pouco, até que desaparece, sem deixar vestígio, no tumulto um redemoinho fervente.

Alfredinho olha, atento, a viagem da vasilha, e, vendo-a desaparecer na voragem, franze o cenho infantil, perguntando, intrigado, ao velho:

– Papai, por que é que a bilha foi para o fundo?

– Porque entrou água; está claro! – explicou o coronel.

– Ela não estava com a boca para cima?

– Estava, sim.

– E como entrou água?

– Porque estava furada, – tornou o velho.

O pequeno meditou um instante, franziu a testazinha inteligente, e, olhando Dona Florinda, que se encaminhava com o rosto fora d´água, para o meio do rio, gritou, alto, alarmado, com a vozinha fina:

– Mamãe, venha mais p’ra beira!…

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze.

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Hernando Feitosa Bezerra Chagall (Cantares) VII

AGORA

A vida acontece
A todo o momento e em qualquer lugar
Estejamos ou deixemos de estar.
Atemporal escorre pelos dedos das mãos
Pegajosa lambuza-nos de gente
O coração.

ADOLESEMPRE
 
Meu coração inconsequente
Doce quente adolescente
Esquece o tempo que diz:

Tuas melenas brancas
Não fazem de ti criança
Então por que és tão feliz?

MERCADORES DA PALAVRA

Não aceito a palavra maldita
A palavra bendita rejeito
Prefiro a palavra não dita
Que faça abalar-me o peito
Porque
A palavra afiada
Eloquente e vazia
Não me diz nada
E
A palavra mansa
Mas cheia de hipocrisia
Simplesmente me cansa.

UÓ UÓ UÓ

Enquanto a ambulância
Desespera-se pela avenida
Trânsito e pessoas engarrafadas
Dizem não à vida.

SEMEADOR
 
Planto sementes, resoluto.
Sei nunca serei
Árvore ou flor
Sou fruto.

SEM CHANCE

Essa vida é uma escada
Apontada para o nada
Para aqueles que a vivem
Sem gozar a utopia
Das pessoas simples, vadias
Que amam e entregam-se amadas.

CICLOS

Nasço no verão
No outono frutifico
Morro no inverno
Na primavera ressuscito.

ALQUIMI$TA$

No princípio
Era o verbo
Um alquimista alegre
Cercado de crianças geniais.
Hoje
Alquimistas e crianças
$ão $eres $érios demai$.

CLOWN

Pintei um sorriso no rosto
Para disfarçar meu cansaço.
Hoje
Uns me chamam de louco
Outros exclamam, palhaço!!!

BEZERRAS

Tato frágil
Tito mais
Tita flor
Ambrózia
Pai…
Perdoem-me
Ser mais forte
Poeta
Sonho mais.

ADULTO

Vestido de feliz
Caminha o adulto triste
Enquanto a felicidade
Despida de maldade
Brinca de roda
Num coração
Infantil.

FLOR DO MEIO DIA

Eu nasci para ser feliz
Não lembro mais porque chorei
Também não sei porque sofri
O que sei é que amo demais
Do meu jeito meu mau jeito.
Importante!
É que ainda hoje consigo sorrir
Porque nasci neste lugar
E vim morar com a poesia
Menina flor
Musa do meio-dia.

FIO DE OURO

Num céu azul
De iluminadas núvens
Uma pipa dançando
Brinca de liberdade
Atrelada ao sonho que livra
Um garoto de sua dura realidade.

ESCREVER
 
Não jogues com palavras
Como quem joga dados
Nem com sentimentos
Como quem lê mãos…
Tuas sementes
Cultiva na mente
Com raízes fincadas
Em teu coração.

AVENIDA QUALQUER

Dos altos prédios impassíveis
Janelas olham, radares observam,

Antenas perfuram o céu
Da famosa cidade…
Êta ruazinha futriqueira, meu Deus!

OFÍCIO

Escrevo
Como quem acha um trevo
Escrevo
Como quem dá um beijo
Escrevo
Tudo o que desejo
Por muito desejar
Escrevo
Escrevo
Escrevo.

PRIMAVERA

A primavera talvez seja
Duas mãos cheias de cores
Que vêm silenciosamente
Abrir uma janela de fora pra dentro de nós
Movimentando de lá pra cá, daqui pra lá
Suavemente as coisas velhas
Sem nada quebrar.

BAILARINA
(Karina)

Ah, teus pés [rimas preciosas]
Bailam giram voam encantam
Como duas rosas.

Ai, teus pés [delicados artistas]
Quando finalmente no chão
Correm para as mãos do calista.

BALA PERDIDA
(No alvo)

Arma empunhada
Mirada no ser humano

Bala no alvo
Corpo no chão
Inocente ou não

Revólver do povo
Gatilho da lei
Ou vice-versa
Não sei

Sei que toda bala
Acerta sempre em cheio
O peito e o seio
De nossa frágil sociedade.

NEGRO

Negro jazz
Negro samba
Negro soul.

O branco canta e se encanta
Com o que a alma africana
Criou

Negro jazz
Negro samba
Negro soul
E Rock and roll!

OSCAR

Deus revela-se
Através das curvas
Leves, sinuosas e belas
Das monumentais mulheres
De Niemeyer.

LEITURA

Palavras dormem
No silêncio dos livros fechados
Cobertos pela poeira da ignorância…
Mas acordam
Em algazarra num livro aberto
Pela curiosidade de uma criança.

Fonte:
Hernando Feitosa Bezerra. Cantares.  Universidade da Amazônia – NEAD.

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Simões Lopes Neto (Casos do Romualdo) VI – Uma Balda do Gemada

Mais vale jeito que força.

O meu cavalinho, o Gemada, era um ótimo animal, de cômodo e rédea: marrequeiro fino e até farejador de perdizes, pelo hábito aprendido com a minha cachorra Tetéia, que foi uma maravilha.

Mas o Gemada tinha uma balda; a não ser comigo, não havia quem o obrigasse a passar um rio, em balsa. Para cavalo era até uma burrice, isso; pois os próprios cavalos confessam – confessam pelo comportamento – que é muito mais agradável atravessar o rio na balsa, do que nadando: cansa menos e não é tão frio…

O Gemada, porém, era refratário a tais comodidades.

Fosse um peão ou qualquer outra pessoa fazê-lo entrar na balsa: gastaria horas, zangar-se-ia, cairia n’água e nada arranjava: o cavalo firmava-se, recuava, pulava, empacava-se, mas não entrava; a cacete, então era pior: empinava-se, couceava, mordia, mas não ia…

Ora, certa vez que, da barranca, eu assistia a uma dessas cenas, e tendo muita pressa e pouca paciência para fazê-lo passar a nado e encilbar do outro lado; enquanto o balseiro, já cansado de firmar a embarcação, praguejava, e o peão, já de mau humor, dava sofrenaços e tirões, e um outro auxiliar já estava rouco de tanto gritar com o cavalo, e embarreado e encharcado; enquanto essa luta durava, a mim fervia-me o sangue, e batia o queixo, enraivado, como que sacudido por febre de sezões…

Não me contive.

Desci da barranca, tomei o cavalo, apertei muito bem os arreios montei e mandei que os peões se afastassem, e que obalseiro, encostando bem a balsa à beira do rio, apenas a segurasse com a mão, de terra.

Isto feito, afastei-me como umas sete braças, firmei as rédeas e cravei as esporas na barriga do cavalo teimoso: ele gemeu com a dor, mosqueou, e saltou pra frente, como unia mola!

Daquele arranco vim à praia, e sempre tocado de espora e rebenque, de pulo, o Gemada atirou-se dentro da balsa, comigo em cima, olé!

O impulso para diante foi tão forte, que a balsa, como uma flecha, deslizou sobre a água e foi, certinha, abicar na outra margem!…

E conforme lá cheguei, tomei a cravar as esporas no Gemada, e ele, desesperado, arrancou, e, de pulo, atirou-se da balsa para terra…

O impulso para trás foi tão forte, que a balsa desandou sobre a água, e foi certinha, como uma flecha, abicar na margem donde havia saído…

Fora esse, exatamente, o cálculo que eu havia feito.

Dai por diante nunca mais inquietei-me. Havia rio para passar, em balsa? Ora!

Espora… pulo.., balsa pra lá!
Espora… pulo.., balsa pra cá!
======================
continua… mais casos

Fonte:
Wikipedia

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Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 15 – 20 de marco de 1887

“Câmara Municipal
Sem ter regimento interno!”
Exclamou, com ar paterno
Vereador pontual.

“Sem um acordo fraterno,
Um papel, um manual,
Certo, acabaremos mal,
Faremos disto um inferno.

“Digo-vos que é usual,
Em qualquer lugar externo
Haver regimento interno
Para evitar todo o mal.”

Em tom sossegado e terno
Diz outro municipal
Que o pau (físico ou moral)
É regime mais superno.

— “Há de haver algum sinal
Aqui, pelo lado interno,
Do efeito vivo e fraterno
Desse estatuto formal.

“Palavras (é dito eterno)
Às sopas não trazem sal;
Quero ação, ação real,
Venha do céu ou do averno.

“E que outra menos verbal
Que a ação do cacete alterno,
Não como um vento galerno,
Porém, como um vendaval?

Se, assim amparado, externo
Meu parecer cordial,
Para que me serve o tal
Regimento de caderno?

“Saiba a câmara atual
Que, se eu aqui não governo,
Tenho este dever paterno
De a não fazer trivial.

“Paterno disse? Materno;
Quero outro tom pessoal.
Fique-lhe o tom paternal
Ao colega mais moderno.

“Sim, o pau, é pau real
Venha do céu ou do averno,
E palavras (dito eterno)
Às sopas não trazem sal “.

Não sei que disse o paterno
Vereador pontual;
Eu, por mim, prefiro a tal
Um copo do meu falerno.

Não que seja um casual,
Ruim, triste e subalterno
Modo de encontrar em erno
O consoante final,

É falerno e bom falerno
Sorrir da municipal
Que vive tant bien que mal,
Sem ter regimento interno.

Ou esse escrito legal
Que o outro chamou caderno,
Para o bom viver paterno
Vale tudo ou nada val.

Se não, por que é que o superno
Parlamento nacional
Conserva um trambolho igual,
Quer de verão, quer de inverno?

Se sim, como é curial,
Que não tenha esse uso interno,
Corpo tal, que vive alterno,
Conservador, liberal?

Relevem se um subalterno
Entrou nesse cipoal…
Olha a taça de cristal,
Leitor, vamos ao falerno!

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

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Aluízio Azevedo (Vida Literária) III – Um fruto da época

Ontem, quando saí do trabalho, para ir tomar o aperitivo do costume antes do jantar, dou com o nosso querido escritor, o Ernesto Branco, que eu não via há muito tempo.

– Olá! exclamei. Bons ares te restituam à rua do Ouvidor. Como vai isso, poeta? Que tens feito? Qual é agora o teu livro? Qual é o teu novo amor?

Ernesto respondeu-me a tudo isso com um gesto seco, acompanhado de um triste sorriso, que até então nunca lhe vira nos lábios.

E notei que a sua inteligente fisionomia perdera a primitiva expressão de alegre coragem, e parecia agora fechada sobre um surdo desgosto, desses que nos acabrunham, não pela violência da dor, mas pela pungente convicção de que não há esperança de remédio para eles.

– Que tens? perguntei-lhe, encarando-o. Parece-me doente.

– Tédio, murmurou o meu amigo, fechando por um instante os olhos e levando lentamente o charuto à boca.

– Tomaste já o teu vermouth?

– Já não tomo vermouth

– Tomarás hoje. Vem daí.

Subimos até ao largo de S. Francisco e fomos ter àquela confeitaria onde há um viveiro de passarinhos.

Uma vez instalados ao canto mais sombrio do botequim, disse-nos Ernesto enquanto o servente esperava as nossas ordens:

– Não bebas vermouth francês. Li numa revista médica muito séria, que essa detestável bebida é de todos os veículos alcoólicos o mais rápido para chegar à morte ou ao delirium tremens. Depois dele é que está classificado o ilustre absinto, e em terceiro lugar o piperment.

– Pois tomemos uma passagem de segunda classe. Garçom, dois absintos!

– Com goma?

– Não! com água e gelo. Para que adoçar os meios de morte?…

E, voltando-me de todo para o meu amigo, atirei-lhe misteriosamente a nova pergunta a respeito do que ele fazia nesse momento. Era impossível que Ernesto, o fecundo trabalhador das letras brasileiras, não tivesse em mão um novo livro. Quem sabe mesmo se não seria o excesso de trabalho o que lhe dera ao semblante aquele ar de fadiga e aborrecimento ?… Escrever com arte é coisa tão penosa e acabrunhante!… E eu sabia perfeitamente que Ernesto era desses artistas que, quanto mais produzem, melhor e mais acabado querem produzir; desses que, ao terminar uma obra, pensam logo em principiar outra, porque aquela lhes parece ainda incompleta e falhada. Qual seria, pois, a minha desilusão, qual seria o meu desgosto, notando que Ernesto, em vez de responder ao sincero interesse da minha pergunta de admirador e de amigo, deixara pender a cabeça e olhava vagamente para o seu copo?

– Então?! insisti. E’ segredo?! Fala-me do teu novo livro! Dize-me o que estás escrevendo agora…

– Nada…

– Nada ?! Ora essa! Por quê?

– Não vale a pena!

– Ó injusto! Ó ingrato! Pois tu, o único homem de letras que ultimamente no Brasil tem ganho dinheiro… tu, que tens leitores certos; que tens editores para tudo o que escreves; tu, ó felizardo! tens a coragem de falar desse modo…. Vai para o diabo que te carregue! Não sei que queres tu então!

– Estás enganado… – replicou-me Ernesto sem se alterar. Estás muito enganado a meu respeito. Eu tinha com efeito três leitores, mas um abandonou-me para entregar de corpo e alma ao jogo da bolsa e agora só pensa em salvar-se do naufrágio em que o lançaram; o outro deixou-me pela política e, perseguido pelo governo atual, só pensa em salvar da fome a mulher e os filhos e em livrar do cutelo da legalidade a própria cabeça ameaçada. Bem vês que quem tem a pensar em coisas tão preciosas – o dinheiro e a vida, – não se pode dar ao luxo de ler os meus livros.

– E o terceiro?

– Ah! com o terceiro não conto; não contei nunca para pôr o livro no prelo ou a panela no fogo.

O terceiro é o meu colega, é o literato, é o jornalista, é o crítico; é o leitor que foi muito meu amigo enquanto as minhas obras nada rendiam, e que começou a dar-me bordoada de cego, desde que a coisa cheirou a sucesso de livraria.

Não o amaldiçoa; devo-lhe talvez mesmo a coragem triunfante com que trabalhei durante de anos; devo-lhe a convicção do meu valor e da minha energia, agora apagados; devo-lhe o cuidado crescente com que fui caprichando mais e mais toda a nova obra que eu produzia; mas não estou disposto a escrever só para ele, por uma razão muito simples, porque esse leitor não paga!

– Não! bradei eu com um murro na mesa. Não tens razão. Ou te esvaziaste o teu saco, meu rapaz, ou foste invadido pela preguiça! Os teus paradoxos são desculpas de cabo de esquadra! Dize-me que te esgotaste, e nada protestarei, mas…

– Não! Creio que não me esgotei, porque preciso empregar verdadeira violência para não continuar a escrever. Mas trabalhar para quê? por quê? para quem? em que língua? Nesta que falamos? Mas isso é escrever para a família; isto é o mesmo que falar para dentro de um garrafão vazio? E’ ridículo escrever na língua portuguesa!

– Uma bela língua!

– Qual história! Uma língua incompleta e dificílima; uma língua sem prestígio, sem utilidade, sem vocabulário técnico para a ciência e para as coisas da vida moderna; unia língua que nem sequer tem ortografia, porque não tem ainda um dicionário definitivo; uma língua tão mesquinha, que não tem palavras de tratamento. – O homem é senhor, a mulher é senhoira, e acabou-se! Demoiselle, Miss, Senhorita não têm tradução em português. Uma língua em que é preciso errar, quando se não quer ser afetado na linguagem, porque não se há de fazer os personagens tratarem-se por vós, quando o que se usa é você. Você é gíria, é uma asneira que não existe autorizada por língua nenhuma do mundo!

– Você é a corrupção de Vossa Mercê.

– Não é tal! Vossa Mercê é um tratamento respeitoso, e eu não posso perguntar a urna senhora a quem falo pela primeira vez: “Você como vai?” o Usted espanhol, sim, é que pode ser usado e corresponde em respeito e legalidade ao desusado e inútil Vossa Mercê da língua portuguesa.

– Não! Pode-se perfeitamente falar ou escrever a boa língua portuguesa sem errar.

– Sem afetação clássica é impossível. Diz-me a gramática que o imperativo consta de “Faze tu; fazei vós; e eu digo todos os dias ao meu criado: “Faça isto: faça aquilo”. Um horror! Pois eu posso lá continuar a escrever em semelhante língua?… Maldita a hora em que nô-la impingiram os donos dela, A língua portuguesa foi um presente grego!

– Ninguém pode negar que é um idioma elegante…

– Elegante e limpo: A barba que se usa por debaixo do queixo chama-se “Passa-piolho”. A nostalgia da pátria chama-se “Morrinha galega”.

O Antônio Castilho para dizer numa página que, no lugar descrito por ele, havia grande número de raparigas, exprimiu-se assim: “havia moçame à tripa forra”… Que elegância! Que distinção!

– Não concordo contigo.

– Pois não concordes. Ainda não há muito tempo, o Azeredo Coutinho, fazendo a tradução de uma comédia francesa, viu-se em sérios embaraços, para dizer em português um diálogo travado entre dois personagens de sexo diferente, porque os dois não deviam, nem podiam tratar–se por tu, mas também não deviam tratar-se por senhor, que é tratamento muito cerimonioso; e como não existe ou não se usa em português o tratamento de vós, o nobre tradutor, para não abandonar a sua obra, teve de fazer, sabes o teve de dar um título a cada um dos dois personagens, a mulher fez baronesa, e ao homem conde, para que eles pudessem conversar do seguinte modo, sem se tratarem por tu, nem por senhor: “A Baronesa é cruel”, “Não diga isso, Conde”, “A Baronesa não quer ouvir-me, mas eu hei de fazer-me ouvir pela Baronesa…”, “Oh, o Conde não tem razão, mas eu perdoo o Conde”. Delicioso! Mas ainda assim, prefiro que os senhores tradutores vão imitando Portugal na farta distribuição de títulos, ruas não imitem os atuais escritores portugueses que, apertados como o Azeredo na dificuldade do tratamento, recorreram ao passivo si, fazendo-o concordar com a pessoa com quem se fala; de sorte que, escritas por esses mestres aquelas frases citadas, ficariam assim: “A Baronesa não quer ouvir-me, ruas eu hei de fazer-me ouvir por si”, “O Conde não tem razão, mas eu perdoo a si”. Ah, bandidos! E queres tu, meu amigo, que eu escreva em semelhante língua, e para semelhante público de imbecis?!… Não! antes uma boa morte!

E Ernesto, com a resolução de um suicida, gritou para o moço do botequim:

– Garçom! traz um expresso de segunda ordem, bem carregado, bem forte, bem rápido, que me atire o mais depressa possível ao outro inundo! Ao menos lá hei de falar alguma língua que não seja a do padre Sena Freitas!

O Combate, 5 de março de 1892.

Fonte:
Biblioteca Virtual de Literatura

Imagem = Aluizio Azevedo, por William Medeiros

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Luiz Flávio do Prado Ribeiro (Poemas Avulsos)

Libreria Fogola Pisa (facebook)
Buarquianas n°1: No lugar

Ele já vai
e eu nem me despedi.
Vai resoluto,
ajeitando a gola
e eu aqui de camisola
de cor de luto.

Ele já foi
e eu nem me despedi.
Incontinenti,
bateu a porta,
assim como quem corta
o ar da gente.

Por quê assim,
se tantos anos se passaram em alegria,
e outros tantos, tantos dias,
tanta estrada,
entre prantos de esperança,
entre juras de mudança,
pra levar a nada …

Fica a vida tão pequena,
a cama grande demais,
a saudade vem sem pena,
a tristeza não fica atrás.

Homenagem à RPBA
Samba composto em Candeias (Disul), 1983

Jorrou
o primeiro poço em Lobato
e ali começou de fato
um grande movimento
que teve o seu momento
com a Lei 2004

Fruto das aspirações brasileiras
de salvaguardar o país
da intromissão estrangeira
essa lei nos garantiu o monopólio
para industrializarmos
o nosso petróleo

E após tantos anos a velha Bahia
que não tem mais a primazia
dos novos e grandes achados
ainda trabalha com valentia
pra produzir
o seu volume provado

Prestamos a nossa homenagem
a essa Região de Produção
e de tradição:
Água Grande, Taquipe, Araçás, Lamarão
Fazenda Bálsamo, Miranga, Remanso, Dom João
Candeias, Brejinho, Imbé, Conceição
Malombê, Buracica, Mata de São João

Jorrou …

Samba para o trabalhador do Recôncavo

Todos os Santos desceram do céu
com arco-íris, pincel e cinzel
e assim criaram, num lindo desenho
um monumento de arte e engenho …

Mas o Recôncavo
não é só a riqueza de seu solo encantado
não é só a beleza e o nome histórico
é também o suor de seus anônimos heróis
que pela vida
vão deixando a força e a voz

É também a viagem
passagem num mundo de fé e coragem
onde a nobreza é a nascente e a foz

Por isso navega …

Navega, navega
barcaça de cacau
nas ondas tão doces do canavial

Moinhos de sonho são dor e prazer
mão na massa, pé na estrada de massapê

Cavalga, cavalga
cavalo-de-pau
explora esses campos com alto ideal
que a luta, conduta de vida,
é força moral.

Salve o trabalhador:
Herói nacional !

Nossa parte
Enchi do vaso
o espaço terra.

Plantei
adubei
reguei.

Hei de colher,
que a flor
não erra.

Árvore que se planta
e rega,
não nega
a seiva.

O fruto-futuro,
sem eiva.

Fonte:
Goulart Gomes (organizador). Antologia do Pórtico.

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Nilto Maciel (Apontamentos para um Ensaio)

Chegou antiquíssima, atual e eterna, com a sua cara de máscara.
Moreira Campos, Dizem que os cães veem coisas.

 No dia 7 de maio de 1994 Mauritz Zetterling chegou a Fortaleza. Não esperava nenhuma recepção, quer no aeroporto, quer no hotel. Afinal, ninguém da cidade o conhecia. Ninguém sequer sabia de sua existência. Talvez algum estudioso de literatura já tivesse lido seu nome. E se essa pessoa tivesse lido seus livros? Não, seus livros não haviam sido ainda traduzidos para o português. Nem mesmo em Portugal. Decididamente nenhum habitante de Fortaleza o conhecia. Ele, porém, conhecia uma pessoa daquela cidade. Não, não conhecia a pessoa, mas a obra literária dela. Pequena parte da obra, é verdade. E com aquela viagem tinha exatamente o objetivo de conhecer pessoalmente o autor de uns maravilhosos contos que havia lido em Estocolmo. Ah! como ansiava conversar com Moreira Campos.

No táxi trocou duas palavras com o motorista. E se perguntasse se conhecia o escritor? Não, os escritores não são cantores populares. Nem nas suas próprias terras. Apesar de muito cansado, tomou banho, almoçou, folheou um jornal e se pôs diante de uma televisão.

O primeiro brasileiro lido por Mauritz tinha sido Jorge Amado. Havia quase vinte anos. Interessou-se pelo Brasil e leu outros brasileiros. Em sueco ou em inglês. Lenngren, um tradutor amigo seu, levava-lhe novidades. Em 1993 mostrou-lhe um livro de Moreira Campos. Traduziu alguns contos para o sueco e, entusiasmado, pediu a opinião a Mauritz. Um novo Tchekhov, gritou o crítico. E se pôs a fazer apontamentos para o ensaio.

Os estudos de Zetterling sobre as obras de George Stiernhielm e Esaias Tegner eram tidos como essenciais para a compreensão da arte literária sueca desde Erikskrönikan. Nenhum crítico na Suécia o superava em conhecimento da literatura de sua pátria. Por que, então, abandonar esse posto e partir em busca de outros mares, de distantes, desconhecidas e ainda informes literaturas?

Tão exaltado se achava Mauritz que decidiu conhecer pessoalmente o contista brasileiro. E zarpou para o Rio de Janeiro. Logo, porém, se encheu de decepção e descrença. Nas livrarias não encontrou nenhum livro do contista. Nas universidades ninguém sabia da existência de Moreira Campos. Teria sido ludibriado? Maldito Lenngren! Ou o castigo imposto ao escritor partia dos editores, livreiros, professores, jornalistas? Já desesperado, ouviu de um vendedor – esse autor é gaúcho e os livro dele só são vendidos em Porto Alegre. Rumou para o sul. Não, Moreira Campos era mineiro e somente em Minas Gerais era lido. De Belo Horizonte partiu para Brasília. No Itamarati ninguém sabia da existência de contistas. Mandaram-no ao Ministério da Cultura. O sueco se havia equivocado – o nome da pessoa procurada era Moreira Campista, deputado e cotista de uma empresa de transportes urbanos. Dirigiu-se à Câmara. O deputado nem escrever sabia. A pessoa a quem Mauritz buscava – informou um assessor legislativo – chamava-se Moreia Campos, banqueiro.

Pronto a desistir de encontrar o escritor e voltar a Estocolmo, o crítico arrumou as malas e sentou-se na beira da cama. Não, não existia um contista brasileiro chamado Moreira Campos. Súbito lembrou-se de detalhe da biografia do contista traduzida por Lenngren: “Moreira Campos nasceu em Senador Pompeu”. Ora, certamente o escritor ainda morava na cidade natal, razão por que não se teria feito conhecido no resto do país. Consultou um mapa do Brasil. Não, o contista não viveria numa cidadezinha. Provavelmente morava numa cidade maior. Levou o mapa ao gerente do hotel e concluiu ser em Fortaleza a morada de Moreira Campos.

Animado com os novos rumos de sua peregrinação, Mauritz viajou para a capital do Ceará. Algumas horas depois de sua chagada, já quase satisfeito consigo mesmo, esteve para morrer de susto – o locutor de televisão anunciou o falecimento de Moreira Campos. E num relance o sueco constatou: havia sido conduzido pelo destino a conhecer o contista no seu último dia.

Surpresa maior Mauritz sentiu após os funerais. Em visita à casa da viúva encontrou os apontamentos por ele feitos para um ensaio sobre a obra de Moreira Campos. Achavam-se junto a rascunhos de contos. Apavorado, perguntou à senhora quem havia escrito ou copiado aquilo. E justificou a pergunta, cuidadoso de não ofender a viúva. Ora, havia deixado aquelas anotações numa gaveta fechada a chave, em sua casa. Lembrou-se do sorriso nos lábios do falecido, ao vê-lo deitado no caixão.

No dia seguinte Mauritz Zetterling regressou a Estocolmo. Tinha pressa em abrir a gaveta da escrivaninha. Virou a chave e nem sequer teve tempo de rever seus apontamentos para o ensaio. Subitamente tombou, sem vida.

Fonte:
MACIEL, Nilto. A leste da morte. Editora Bestiário, 2006.

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