Arquivo do mês: outubro 2008

Ademir Braz (1947)

Ademir Braz é de Marabá (Pará). Iniciou-se em Jornalismo na “Província do Pará”, de Belém, em 1972. É advogado desde 2000, formado na primeira turma do campus da UFPA em sua cidade.

Poeta, publicou uma trilogia poética: “Esta terra” (1981, pela Editora Neo-Gráfica, de Belém, edição pessoal rapidamente esgotada); “Antologia Tocantina” (1998), patrocinada pela Fundação Casa da Cultura de Marabá, e produto de pesquisa de 8 anos sobre a poesia produzida em Marabá desde 1917; “Rebanho de pedras” (2003), dentro do Projeto Usimar Cultural. Em 2003, participou da VII Feira Pan-Amazônica do Livro em Belém, como palestrante e expositor, fazendo o lançamento de seu “Rebanho de pedras”.

Suas poesias constam da IX e X Antologias Poéticas Hélio Pinto Ferreira, Concurso Nacional da Fundação Cassiano Ricardo (São José dos Campos, SP, 1995 e 1996) Edição Comemorativa dos 100 anos do Poeta Brasileiro Cassiano Ricardo. Participou, em 1992, do Projeto “O Escritor na Cidade”, com palestras em Belém, Santarém, Bragança, Barcarena e Ananindeua, por iniciativa da Secult-Pará e Instituto Nacional do Livro. Medalha de Ouro no III Concurso Nacional de Poesias, da Editora Brasília (DF). Integra a “I Antologia de Poetas Paraenses”, (Ed. Shogun, Rio de Janeiro).

Tem contos publicados no III e V Concursos de Contos da Região Norte, Novos Contistas da Amazônia, (Editora Universitária UFPA, Belém, 1995 e 1997). Em 1997, classificou-se entre os 20 finalistas do Concurso de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale, do qual participaram 1.584 contos de escritores da França, Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Espanha, São Tomé e Príncipe, Uruguai, Japão, Canadá, Alemanha, USA, Colômbia, Bélgica, Noruega, Bolívia, Panamá, Itália, Equador, Argentina, Suíça e Brasil.

Organizou a Antologia do “II Festival de Poesia, Conto e Fotografia”, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, Desportos e Turismo (Secdetur), lançada em março/2000. Seus versos ilustram o mês de janeiro da agenda “Brasil – Retratos Poéticos 2001”, publicada por Escrituras Editora e Distribuidora de Livros Ltda., em São Paulo (SP), com circulação nacional e internacional. E estão na antologia “Poesia do Grão-Pará”, seleção e notas de Olga Savary (Rio de Janeiro, Graphia Editorial, 2001). Recebeu também o “Prêmio Buiúna 1999”, conferido pela Secdetur, Associação dos Artistas Plásticos de Marabá e Secretaria Municipal de Educação, como Destaque da Cultura Marabaense.

Fonte:
http://www.culturapara.art.br/Literatura/

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Ezra Pound (1885 – 1972)

Ezra Weston Loomis Pound (Hailey, Idaho, 30 de outubro de 1885 — Veneza, 1 de novembro de 1972) foi um poeta, músico e crítico que, junto com T. S. Eliot, foi uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia do início do século XX. Ele foi o motor de diversos movimentos modernistas, notadamente do Imagismo e do Vorticismo.

Cresceu em Wyncote, perto de Filadélfia e formou-se na universidade da Pennsylvania em 1906. Durante um breve período deu aulas em Crawfordsville, Indiana, e entre 1906-1907 viajou por Espanha, Itália e França. O seu primeiro livro de poemas, A Lume Spento, foi publicado em Veneza em 1908. Nesse ano fixou-se em Londres, onde viveu até 1920 e onde travou conhecimento com alguns dos mais importantes escritores da época: Ford Madox Ford, James Joyce, Wyndham Lewis, W. B. Yeats e T. S. Eliot, entre outros.

Em 1909 publicou Personae e Exultations, a que se seguiu um volume de ensaios críticos intitulado The Spirit of Romance de 1910. Entre 1914-1915 foi co-editor da revista do movimento Vorticista, Blast. Em Londres teve ainda a seu cargo a edição da revista de Chicago Little Review (1917-1919) e a partir de 1920 tornou-se correspondente da publicação The Dial na capital francesa, para onde se mudou em 1921.

Datam de 1920 as publicações de um segundo volume de textos críticos, Instigations, e de Hugh Selwyn Mauberley, uma das suas obras-primas. O poema Homage to Sextus Propertius foi publicado no ano anterior. Conhecedor das literaturas europeia e oriental, Pound associou-se desde muito cedo à escola dos imagistas, que liderou de forma particularmente enérgica. Os adeptos desta corrente poética, fundada em 1912 sob inspiração das ideias de T. E. Hulme, pretendiam explorar de forma disciplinada as potencialidades da imagem e da metáfora, consideradas a essência da poesia. O movimento, que Pound abandonou em 1914, teve a sua expressão na revista inglesa The Egoist (iniciada em 1912) e na revista americana Poetry (a partir de 1914). As raízes do movimento encontravam-se fundamentalmente na poesia chinesa e japonesa, mas os imagistas inspiraram-se também na poesia latina, em poemas da tradição medieval inglesa, nas composições poéticas dos trovadores provençais e em alguns poetas italianos. Nos seus Cantos, publicados numa longa série entre 1917-1949 e inacabados, Pound procurou elaborar uma versão moderna da Divina Comédia.

A fase de maior proximidade do escritor em relação ao movimento imagista é ilustrada pelas obras Ripostes (1912) e Lustra (1916). Em 1924 Pound mudou-se para Itália, onde as teorias económicas que defendeu o associaram ao fascismo, tendo chegado a proferir comunicações anti-democráticas na rádio italiana durante a Segunda Guerra Mundial. Nos seus tratados económicos e históricos, Jefferson and/or Mussolini de 1935 e Guide to Kulchur de 1938, Pound comprometeu-se definitivamente com o fascismo e foi preso em 1945, tendo sido posteriormente repatriado.

Considerado mentalmente incapaz, foi internado durante 13 anos num hospital psiquiátrico em Washington DC. A acusação de traição foi retirada em 1958 e Pound voltou a Itália depois da sua libertação. Trabalhou nos seus Cantos até 1972, ano da sua morte. A obra, carregada de citações e alusões históricas, permanece uma das mais controversas da poesia deste século. A influência de Ezra Pound e do seu projecto de renovação da linguagem poética fez-se sentir em Joyce, Yeats, William Carlos Williams e particularmente em T. S. Eliot, que submeteu o manuscrito da sua obra The Waste Land à apreciação de Pound antes de o publicar em 1922. As correcções feitas por Pound mereceram-lhe a dedicatória de Eliot: “For Ezra Pound, il miglior fabbro” (A Ezra Pound, o melhor artífice).

Síntese biobibliográfica
1885 Nasce em Hailey, Idaho (30 de outubro).
1901/5 Estudos na Universidade de Pennsylvania e no Hamilton College.
1906 Professor de letras românicas na Universidade de Pennsylvania. Viagem à Europa (Bolsa Harrison).
1907 Leciona francês e espanhol no Wabash College, Crawfordsville, Indiana.
1908 Itália. A Lume Spento, Veneza. Vai para Londres, onde reside até 1920.
1909 Personae e Exultations. Primeiro estudo sobre Arnaut Daniel (“II Miglior Fabbró’).
1910 Provença. The Spirit of Romance.
1911 Canzoni.
1912 The Sonnets and Ballate of Guido Cavalcanti. Rispostes.
1913 Personae and Exultatíons. Canzoni and Ripostes. Revista Poetry (abril): A Few Don’ts, postulados do Imagismo. Colabora com Walter Morse Rummel na publicação de Neuf Chansons de Troubadours des Xlle et Xllle Siècles. que inclui a transcrição de duas canções de Arnaut Daniel localizadas por EP na Biblioteca Ambrosiana em Milão e por ele referidas no Canto 20.
1914 Casa-se com Dorothy Shakespear. Edita a antologia Des Imagistes.
Publica Vorticism na Fortnight Review. Participa de Blast, de Wyndham Lewis. (1914-15)
1915 Cathay. Edita a Catholic Anthology.
1916 Lustra. Gaudier Brzeska. “Noh” or Accomplishment e Certain Noble Plays of Japan, dos manuscritos de Ernest Fenollosa. Começa a escrever os Cantos.
1917 A primeira versão dos Cantos 1 a 111 é publicada em Nova York.
1918 Pavannes and Divisions.
1919 Quia Pauper Amavi e Homage to Sextus Propertius. Primeira versão do Canto IV. Começa a compor a ópera Le Testament, sobre textos de Villon.
1920 França (Paris), até 1924. Hugh Selwyn Mauberley. Umbra. Instigations, incluindo as traduções de 10 canções de Arnaut Daniel.
1921 Os Cantos V a VII são publicados em Dial.
1922 The Eight Canto (mais tarde, Canto II).
1923 Indiscretions ou Llne Revue des deux mondes. Os Malatesta Cantos (mais tarde, Cantos VIII, IX, X e XI).
1924 Itália. Antheil and the Treatise on Harmony. O canto XIII e o trecho de “Baldy Bacorí’ do Canto XII aparecem na Transatlantic Review, de Ford Madox Ford.
1925 Instala-se em Rapallo. A Draft of XVI Cantos of Ezra Pound for the Beginning of a Poem of some Length (Paris).
1926 Personae: The Collected Poems of Ezra Pound. Apresentação,. em Paris, de “Parolles de Villorí’, árias e fragmentos da ópera Le Testament.
1928 A Draft of the Cantos 17-27 of Ezra Pound. Selected Poems, com introdução de T.S Eliot.
1930 A Draft of XXX Cantos. Imaginary Letters.
1931 Guidg Cavalcanti: Rime. How to Read.
1932 Profile: An Anthology.
1933 Active Anthology. ABC of Economics.
1934 Eleven New Cantos: XXX XLI. ABC of Reading. Make it New.
1935 Alfred Venison’s Poems. Jefferson andlor Mussolini. Social Credit: An Impact.
1936 The Chinese Written Character as a Medium for Poetry, por Ernest Fenollosa, introdução e notas de E.P. Ta Hio, the Great Learning (tradução).
1937 The Fifth Decade of Cantos. Polite Fssays.
1938 Guide to Kulchur.
1939 Visita aos EE.UU. Doutor honoris causa pelo Hamilton College.
1940 Itália. Cantos LII-LXXI. Começa a fazer transmissões pela Rádio Roma.
1943 O Tribunal do Distrito de Colúmbia formula acusão de traição contra E.P.
1945 Entrega-se em Gênova à tropas norte-americanas (maio). Internação no Campo de Pisa (Disciplinary Training Center). 3 semanas numa gaiola de aço (“gorilla cage”). Após 6 meses de pressão, é transportado de avião aos EE.UU. para ser julgado (novembro). ‘
1946 Declarado louco e internado no Hospital de Sta. Elisabeth, em Washington, até 1958
1947 The Unwobbling Pivot and the Great Digest of Confucius.
1948 The Cantos of Ezra Pound (incluindo os Pisan Cantos).
1949 O Prêmio Bollingen é outorgado aos Cantos Pisanos.
1950 The Letters of E.P. (1907-1941). Patria Mia. Money Pamphlets.
1953 The Translations of E.P.
1954 Literary Fssays of E.P.
1955 The Classic Anthology defined by Confucius (305 odes).
1956 Section Rock-Drill: 85-95 de los Cantares. Women of Trachis, de Sófocles.
1958 Libertação de Pound. Regresso à Itália.
1959 Thrones: 96-109 de los Cantares.
1960 Impact: Essay on the ignorance and the decline of American Civilization.
1962 A revista The Paris Review publica fragmentos dos Cantos 115 e 116.
1963 Concede entrevista à revista italiana Epoca (24 de março): “Io so di non sapere nulla.”.
1965 Assiste aos funerais de Eliot em Londres (4 de fevereiro). Visita Paris, para ser homenageado pelos seus 80 anos com a edição do 1° dos dois grandes volumes consagrados a sua obra pela editora L’Herne e com o lançamento da tradução francesa dos Cantos Pisanos.
1967 Visita o túmulo de Joyce, em Zürich.
1969 Viaja para Nova York, onde lhe exibem o recém-descoberto manuscrito de The Waste Land, corrigido por ele. Late Cantos and Fragments.
1970 Primeira publicação dos Cantos 1 a 117 no volume The Cantos of Ezra Pound (New Directions, Faber & Faber).
1972 Ezra Pound morre em Veneza (1° de novembro). Sepultado no cemitério da ilha de San Michele. Á nova edição de The Cantos (New Directions) inclui um fragmento do Canto 120.

Fonte:
Ezra Pound – Poesia. Editora Universidade de Brasília – 1983.
http://pt.wikipedia.org

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Ezra Pound (Poemas Avulsos)

ENVOI (1919)

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.
(tradução de Augusto de Campos)

E ASSIM EM NÍNIVE

“Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

“Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

“Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”

(tradução de Augusto de Campos)

SAUDAÇÃO

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
(tradução de Mário Faustino)

SAUDAÇÃO SEGUNDA

Fostes louvados, meus livros,
porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
Não renegueis vossa progênie.

Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:

“Então é isto”, dizem eles, “o contra-senso
que esperamos dos poetas?”
“Onde está o Pitoresco?”
“Onde a vertigem da emoção?”
“Não ! O primeiro livro dele era melhor.”
“Pobre Coitado ! perdeu as ilusões.”

Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !

Cumprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guisos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
Ide com vaias e assobios !

Dançai a dança do phallus
contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !

Levantai as saias das pudicas,
falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas –
Dizei-lhes que não trabalhais
e que viverei eternamente.

(tradução de Mário Faustino)

TENZONE

Será que as aceitarão ?
(i.é., estas canções).
como tímida fêmea perseguida por centauros
(ou por centuriões),
Elas já vão fugindo, urrando de terror.

Ficarão comovidos pelas verossimilitudes ?
Sua estupidez é virgem, é inviolável.
Eu vos imploro, meus críticos amistosos,
Não saiais por aí procurando-me um público.

Deito-me com quem é livre em cima dos penhascos;
os recessos ocultos
Já têm ouvido o eco de meus calcanhares
na frescura da luz
e na escuridão.

(tradução de Mário Faustino)

CINO

Arre! Já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei ao sol.

Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.

Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, “Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!”

Uma vez, duas vezes, um ano –
E vagamente assim se exprimem:
“Cino ?” “Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata ?”
“Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas…
(São todos a mesma coisa, esses vagabundos)
Peste! As canções eram dele ?
Ou cantava as dos outros ?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade ?”

Mas e senhor, “Meu Senhor”, bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino-Sem-Terra, tal como eu sou,
O Sinistro.

Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei do sol.
…eh?… a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei do sol.

“Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d’azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!

Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze do teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem som!

Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol…
……………………………………….
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.

E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
(tradução de Mário Faustino)

Fonte:
http://www.culturapara.art.br/opoema/ezrapound/ezrapound.htm

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Ademir Braz (Poesias Avulsas)

Quando saem os tigres

Mal freqüento esta casa
em que os frutos apodrecem sobre a mesa.
No entanto, trouxe flores – duas,
que fizeram bem aos olhos na rua
e deram essa ilusão de ter quem recebê-las.
(Quando puder consumir-me, talvez a casa
não será imensa nem a solitude tanta
nem no espelho brotarão gerúndios).

Trouxe também n’alma a vaga sede
dos pântanos e no coração um sobressalto.

Enquanto ponho n’água as flores soturnas
penso que os astros aconselham um largo
passeio (sozinho) pelos lugares que você
gosta e penso nos lugares que gostaria
e não os acho em meio a esta enorme sedução.
Quem estará hoje nas ruas?
Os loucos e os distraídos… E eu, sairei?

Sim, sairei… Talvez eu siga existindo por uma rua
que me faça lembrar dos acenos
que chamam a aurora sem degredos
a tessitura da pedra sob o orvalho
a enegrecida substância do poema.
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Elegia de verão

Enquanto Pedro agoniza
e sangra a vida nas pedras
do chão estreito da praça
na praça tonta de luz
acácias douram o dia
aves alegres revoam
na praça tonta de luz.

Pedra entre pedras a poça
dos olhos vítreos de Pedro
reflete lotes de nuvens
no latifúndio do céu.

Enquanto Pedro agoniza
e um sol perfeito resseca
o sangue espesso nas pedras
Pedro ignora que a terra
a terra amante e mãe
com leves dedos afaga
o corpo que a desejou.

Inacabado horizonte
exangue pássaro Pedro:
seu corpo é sua sina
de pedra a mão campesina

Seu corpo é sua sina
de pedra a mão campesina.
=====================
Em carne viva

Juntam gravetos e lume,
arde a fogueira na rua.
No sete-estrelo dos céus
Canções de roda e lembranças
Giram os vitrais da infância
na viuvez das estrelas.

Sobe da ilharga do fogo
um alarido tribal.
Ora pro nobis nas velas
Outro obscuro Natal.

Fazíamos assim, no tempo
que esta noite resgata:
Adultos sobre a calçada,
boca-de-forno, crianças,
Voz do Brasil no Transglobe
de válvula e bateria.

Com a seda garça da lua,
e fios de fada e encantos,
à luz de vela tecia
dona Itália o manto
da virgem que desencanta
(fiando fibras de urtiga
na carne viva da mão)
o príncipe que a bruxa má
tornara ave infeliz.

A cada noite a vida
ganhava em luz e magia
quando Itália na porta
cercada pelos meninos
contava histórias perdidas
entre degraus da calçada:
“Era uma vez…”, e girava
a estrela azul entre as algas
e o fogo-fátuo dos astros
nos infinitos luzia.
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Celebração

Abre a geladeira quase com ternura:
entre sua mão
os soníferos
o uísque
as ternas pedras de gelo
há uma espécie de traição.
.
Lá fora o sol corrosivo
entontece as árvores.

Uma mulher sorri.
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Quermesse

Quase contraforte ergue-se o muro.

Luzem nele opalas metálicas
rubis topázios em navalha
metódicas esmeraldas
incrustradas
na gengiva de tijolos nus.

Ruas de luz trafegam sobre o muro.

Detrás do muro:
grades portas janelas (crianças
invisíveis às vezes riem).

Na rua, além do litoral,
sacis e vento inventam cabra-cega
entre saias floridas e quintais.

Fonte:
http://www.culturapara.art.br/Literatura/

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Ademir Braz (Vestígios de Duília)

Foi só enquanto saltava amarelinha sobre o calçamento irregular que ia da casa dela até à esquina, sob a rama de oitizeiros, que me apercebi: nunca mais nos veríamos. Recordo que, tonto, sentei-me no meio-fio e permaneci horas olhando a madrugada rabiscar adeuses naquela porta. Eu ainda a vi num sonho: o ônibus alcançava o extremo da rua e a amada, num gesto insano, lançava um beijo por trás dos vidros; então o sol dourava a rua cheia de pó, andava um alarido de carros no ar, sobre a banca de revista flamejava a cidade irreal. Ela foi embora, dei-me conta ao acordar. “Ela foi embora”, eu disse e mãe pôs de lado a cabeça num gesto seu e acenou assim a cabeça me fitando em silêncio, nesse mistério que as palavras não alcançam. Nenhum símbolo tem a exatidão do silêncio, eu sei, e dito assim soa trágico – eu sou trágico mas não quero ser trágico -, embora esta bebida solitária tenha hoje gosto de pólvora e eu sequer consiga passar minha saudade a limpo. Na noite seguinte vesti a roupa mais sóbria, colhi duas pequeninas flores vermelhas, deixei os cabelos por enxugar, pentear – eles que se arrumassem, se quisessem. Aquele ônibus talvez vadeasse ainda o caldo espesso da noite, longe, atônito. Sentia-me frágil, limpo e docemente triste. Levei as flores ao bar na intenção de dá-las. Em casa, quase amanhecia quando consegui colocá-las num copo d’água antes de despencar bêbado entre a cama e a mesinha de leitura.

A carta veio certa manhã pelo amigo comum e dizia dos filhos do casamento em ruínas no planalto distante. Durante dias levei-a no bolso aonde fosse, parava na rua para acariciá-la, atrás de qualquer coisa das mãos de Duília. Também escrevia, sempre, como se atirasse garrafas ao mar, certo que chegariam a lugar nenhum mas certo de livrar-me da alma que aos poucos destruía e deixava destruir. Os escritos nunca enviados guardei-os numa caixa todos esses anos, até incinerá-los ao certificar-me que o tempo me cobrira de escamas enquanto cercava em muralhas um sentimento desde sempre inútil. Acho que a mãe pressentiu quando libertei no quintal meus pássaros de criação, porque eu nada disse antes de desterrar-me.

Minha solidão tornou-se uniforme, indivisível. É certo que andei por aí, mochila às costas, muitas amantes, raros amores, vi o sol ácido do mar entre pescadores de taínha. Mas por que falar nisso, no mistério das pedras ou na semente que a mão gredosa atirou em solo infértil? Debaixo da pele o rosto da esfinge permanecia violáceo, mais seu olhar, sabor, a flor exótica do rosto. Certa feita, quantos anos depois?, entre búfalos e andorinhas sonhei com uma praia. À tona d’água o sol ensandecia, o vento uivava entre mechas de cabelo, e lá estava ela – gaivota breve e tão translúcida no ar que parecia gota de luz no azul sem fim. Diziam, quando nasci, que chorei na barriga da mãe e cresci entre visões dolorosas que as tias exorcizavam com cânticos, rezas, defumações. Pensava haver-me libertado de tudo isso, do lar não construído, da insurreição não feita. Agora, o que eu tinha? Terra sob as unhas, sonhos derruídos, histórias de pesadelos, mares e pescarias, amores contingentes exatos em si mesmos. Pássaro reencarnado, doeu-me até onde sentia, em todas as dobras do meu tempo, na carne, no sonho voando em círculos.

Atrás dos óculos olho a cidadela de cal e sol na cruz dos rios. Para lá da janela do quarto de hotel a luz devora montes de lixo no leito arruinado das ruas. Choveu parte da noite, vai o dia lavado chegando às onze e estou aqui, barbeado, em bermudas, essa bebida intragável nas mãos, um bem-te-vi trinando na mangueira do outro lado da rua. Deve ter sido este, mal desnuda a pele do primata, o sentimento de poderosa gratuidade que teve o homem ao sentir-se imerso nas coisas do mundo. Neste momento não há deuses além do sol. Só uma voz pontiaguda, rara, gimme somebody, entre guitarras plangentes. Tudo e tão perfeito! Mesmo esta secreta decisão de só estar aqui vendo enquanto posso o vento nas folhas da palmeira nos fundos do hotel; a trepadeira agarrou-se na janela e, por trás dela, os cachos de carambolas, entre laivos verdes, têm a síntese da vida. “Não estou pensando em nada/ E essa coisa central, que é coisa nenhuma/ É-me agradável como o ar da noite,/ Fresco em contraste com o Verão quente do dia”.

Enquanto caminho, o cheiro da chuva impregna o ar. Na outra margem da rua uma mulher estende roupas no varal e tudo é espantosamente singelo e real, como a menina que imita agora mesmo o cantar de galos e sua voz sobrepõe-se a um rádio, restos de palavras, o ruído da carroça puxada a burro que sacoleja sobre o chão molhado; ouço pássaros – as cambaxirras de outrora! – cantarem próximo e vejo uma revoada de pardais entre oitizeiros. Um tanto mais distraído, sou hoje contemplativo do mundo e das pessoas, observo enquanto os pés roçam o sagrado das pedras e revejo agastado os lugares lembrados em noites de angústia e perda. Não há mais qualquer vestígio do corpo de Duília, do seu cheiro de pau-dangola. Eu sou o estranho na paisagem, o estrangeiro do ontem. Não fora o que sou, poeta, seria mar: todo cheio de velas e adeuses. O bar antigo não existe mais, soterrado entre prateleiras e pares de sapatos. Sei que a amada está aqui e penso que se pudesse ocultaria a alma em sobressalto exposta às memórias que vêm do pó, enquanto o aço da arma pesa toneladas no cós da calça. Eu não quero pensar, recordar, olhar sobre o ombro para o mar que uniu-se ao precipício e soterrou pássaros e tigres. Sou o estranho na paisagem, o passageiro do ontem refletido nos vidros da sapataria. O que deve ser feito, será feito, para isso eu vim. Antes, quero apenas rever os olhos da esfinge.

Fonte:
http://www.culturapara.art.br/Literatura/

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Ademir Braz (Nas cores da vida, com Rajinheeshi)

Esta noite sairei, beberei um vinho tinto, ficarei à margem do rio sob as estrelas. Em junho as noites são frescas e doces, os bares põem cadeiras ao longo do cais e ao embalo das águas passa-se o tempo. Toca às vezes música dos anos sessenta e ouço a brisa em minha pele ressequida por antigos verões. Na outra margem, a praia é um corpo de mulher esparramado ao luar.

A praia!… Do alto da montanha que abriga a igreja de Nossa Senhora da Penha, meu coração incontrolável arremessou-se aos ventos e espatifou-se para sempre nas areias da capixaba Vila Velha. (De Alagoas, não falo. Sob o céu alagoano respira uma pequena sereia de olhos claros e ferro nos dentes que faz programas com marujos e bucaneiros enquanto sonha com um cavaleiro encantado que virá, entre fadas, arrebatá-la num corcel alado).

A luz do verão, para mim, animal notívago, recorda crises de sinusite. Doem-me a fronte e as têmporas, dói o respirar, é difícil conciliar com o sol a ternura da cerveja repousada entre espumas. Um dia, um amigo ensinou-me um remédio caseiro: eu deveria, disse ele, cortar em 4 partes uma buchinha, depois em outras 4 porções e, por fim, colocar uma dessas divisões mínimas de molho durante um dia em 20 mililitros de água destilada. Segui à risca o conselho. Depois bebi, envenenei-me, morri. Não era de beber: era pra botar uma gota duas vezes por dia no nariz.

Todas as praias são bonitas, suponho. Do Nordeste conheço poucas – uma ou duas de Fortaleza, uma de São Luiz – e algumas, no Pará, que sequer constam dos mapas turísticos. Ilha de Romana é uma dessas, até onde sei. Para alcançá-la, tive de adular quase uma semana os pescadores artesanais que partem da corrutela chamada “Abade”, entre as espantosas ruínas de Curuçá, e que me largaram em pleno mar, distante da praia, a pretexto de que era raso e não havia porto nem como o barco chegar mais perto da terra firme.

Caminhei mais de um quilômetro no mar, com a água pela cintura, mochila às costas, a companheira travada de pavor. Então o paraíso desabou diante dos meus olhos: uma prancha de areias finas como sal, igualmente brancas, 16 pessoas vivendo entre “currais de peixe”, muito sol e uma solidão luminosa sob a qual se passa e repassa o sentido da vida e de repente nada existe além da cumplicidade eleita entre o olhar e a presença áspera do mar.

Recordo que fiquei um mês longe de rádios, tevês, jornais, vendo a luz dar ao mar nuanças do verde-safira ao róseo-açafrão, cores que tive de nomear assim mesmo para melhor retê-las no fundo dos olhos e do coração. Lembro de um único livro que andava comigo, então, entre pães ressequidos, aguardente, charque, açúcar e saquinhos de café: uma coletânea dos ensinos de Rajnheeshi sobre o amor sem fronteiras e sem normas e da necessidade de perceber-se que viver é o ato que se renova permanentemente, a cada instante.

Fonte:
http://www.culturapara.art.br/Literatura/

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Yasunari Kawabata (1899 – 1972)

Yasunari Kawabata (Osaka, Honshu, 14 de Junho de 1899 – Zuschi, 16 de Abril de 1972), escritor japonês, foi o primeiro japonês a ser laureado com o Prémio Nobel da Literatura, em 1968.

Infância

Enquanto criança, Kawabata desejava tornar-se pintor, mas optou por se tornar escritor após publicar alguns contos durante o tempo em que frequentava o liceu.

Ainda jovem foi marcado por acontecimentos trágicos e pela solidão, ficando órfão com três anos, passando então a ser criado pelos avós, no campo. Perdeu a avó com apenas sete anos, a única irmã com nove anos e o avô com catorze.

Juventude

Estudava Literatura na Universidade Imperial de Tóquio quando formou, juntamente com Yokimitsu Riichi, um jornal de letras – Bungei Jidai – que ajudava a promover um novo movimento literário (Shinkankakuha) que, segundo Kawabata e Yokomitsu, tinha como principais preocupações a apresentação de “novas sensações” na literatura, considerando a arte pura como missão primordial do escritor. Nessa revista publicou, em 1926, “Izu no Odoriko” (“A Dançarina de Izu”), uma história que explorava o erotismo do amor juvenil, com imagens líricas inspiradas em escrituras budistas e poetas medievais japoneses.

Idade adulta

O seu primeiro romance foi Yukiguni (“Terra de Neve” em Portugal e “O país das neves ” no Brasil), começado em 1934 e publicado gradualmente de 1935 a 1937. Relata a história de amor entre um homem diletante da cidade de Tóquio e uma gueixa de uma povoação remota onde este encontra um refúgio do stress da sua vida citadina. Este romance colocou Kawabata imediatamente na posição de um dos escritores japoneses mais importantes e promissores, tornando-se o romance num clássico instantâneo que é, hoje, considerado uma das suas mais importantes obras-primas.

Iniciou em 1949 a série “Mil Garças”, em que consta o célebre “Nuvens de Pássaros Brancos”, e “O Som da Montanha”.

Após o final da Segunda Guerra Mundial Kawabata continuou a publicar romances como Senbazuru, Yama no Oto, “A Casa das Belas Adormecidas”, Utsukushisa to Kanashimi to e Koto (“Kyoto” em Portugal). No entanto o romance que Kawabata considerava ser o seu melhor foi Meijin, publicado entre 1951 e 1954.

Kawabata foi ainda membro da Academia Imperial e presidente do Pen Club do Japão, atuando em várias reuniões internacionais de escritores.

Suicidou-se em meio a um surto depressivo, em Zushi, perto de Yokohama.

Estilo

O estilo de escrita de Yasunari Kawabata distingue-se por uma linguagem suave, mais abstracta que descritiva, onde predomina a subjectividade em relação à objectividade, aproximando-se muitas vezes da prosa poética.

Por seu tratamento de atmosferas e cores, ficou conhecido como alguém que “pintava as palavras” de branco irradiante, praticamente sem outras cores, como se vê em “O País das Neves” e em “Nuvens de Pássaros Brancos”.

A solidão, a angústia da morte e a atração pela psicologia feminina foram seus temas constantes.

Títulos mais importantes
A Dançarina de Izu (Izu no Odoriko 1926)
Terra de Neve (Yukiguni, 1935-1937, 1947)
The Master of Go (Meijin, 1951-4)
Thousand Cranes ( Senbazuru, 1949-52)
O som da montanha ( Yama no Oto, 1949-54)
O lago (() Mizuumi, 1954)
A Casa das Belas Adormecidas ( Nemureru Bijo, 1961)
Kyoto (Koto, 1962)
Contos da palma da mão (Palm-of-the-Hand Stories)
Beauty and Sadness (Utsukushisa to Kanashimi to, 1964)

Lançamento de Livros no Brasil

Segundo o diretor editorial da Estação Liberdade, Angel Bojadsen, nos títulos Kyoto ou A Velha Capital e Mil Tsurus, o primeiro sobre o processo de ocidentalização do Japão e o último sobre antigas tradições japonesas, entre elas a cerimônia do chá. Kawabata, um conservador, como seu amigo Mishima, era um poço de contradições. Ao receber o Nobel, em 1968, condenou com veemência o suicídio, mas se matou (como Mishima) quatro anos depois, por não suportar a doença que o levou à depressão.

Melancólico, Kawabata identificava-se com Mishima em muitos aspectos. Nenhum dos dois teve uma infância feliz. Enquanto o primeiro, criado pela avó, reprimiu sua homossexualidade e formou um exército particular para defender o imperador e os valores tradicionais do Japão, Kawabata, órfão aos três anos, jamais conseguiu se recuperar do sentimento de perda provocado pelas sucessivas mortes em família. Fatos inspirados em sua vida aparecem camuflados em grande parte de seus livros, a exemplo dos relatos autobiográficos de García Márquez — e Memoria de Mis Putas Tristes não é exatamente uma exceção.

Se Márquez faz do bordel uma confessionário, Kawabata o transforma num templo, como em A Casa das Belas Adormecidas. No prefácio que Mishima escreveu para o livro (não incluído na edição brasileira), o escritor o define como uma perturbadora reflexão sobre “o terror da luxúria no prelúdio da morte”. De fato, Kawabata escreve sobre a impossível relação amorosa entre um ancião e as jovens de um estranho bordel. Nele, as garotas não podem ser violadas, apenas contempladas. Dormir ao lado dessas criaturas dopadas (as meninas dormem sob efeito de narcóticos) é a única compensação para a senilidade de Eguchi, em busca do tempo e dos prazeres perdidos da juventude.

O livro começa com a dona da “hospedaria” recomendando a Eguchi que não enfie o dedo na boca da menina adormecida ou faça qualquer outro gesto obsceno. Kawabata constrói uma narrativa circular. Dá voltas e termina na fronteira entre o profundo sono da garota e uma morte. O que era uma possibilidade de amor (a vida, a juventude) se desfaz com a proximidade do fim. Kawabata costumava definir essa identificação entre paixão senil e morte como a tragédia inconsolável de um amnésico tentando conjurar fantasmas do passado.

Um parente literário de Kawabata no Ocidente bem poderia ser o austríaco Arthur Schnitzler, que, em Breve Romance de Sonho contrapõe igualmente o impulso erótico à morte, jogando seu protagonista numa situação limite, como Kawabata no epílogo de A Casa das Belas Adormecidas.

O País da Neves (tradução de Neide Hissae Nagae, 160 págs., R$ 29) acentua ainda mais essa proximidade com Schnitzler. Nele, a relação entre o rico Shimamura, a gueixa Komako e a jovem Yoko é mais lírica, mas não menos trágica. Kawabata começou a escrever o livro em 1937, mas só o concluiu dez anos depois. A fantasmagoria do protagonista do romance de Schnitzler (que deu origem ao filme De Olhos Bem Fechados, o último de Kubrirck) é um tanto semelhante ao delírio do esteta Shimamura de O País da Neves, que vê o objeto de seu desejo como uma projeção, um reflexo no espelho, como a gueixa Yoko. Daí para o cinema foi um pulo. O livro foi filmado por Shiro Toyoda em 1957.

Em Kawabata, os personagens masculinos são quase sempre eclipsados pela presença da mulher. Shimamura, o esteta, é bem menos real aos olhos do leitor que a aprendiz de gueixa, que vê esporadicamente em suas incursões pelo mundo bucólico das montanhas, fugindo de um casamento frustrado e de uma Tóquio já descaracterizada. Shimamura é incapaz de ter uma relação real com as mulheres. Nele, tudo é idealizado (como o protagonista da novela de Schnitzler).

Já as mulheres de Kawabata são tão concretas que até mesmo a gueixa Komako — ele admitia — foi inspirada num modelo real, mas o escritor, como de costume, deixa bastante espaço para a imaginação do leitor. Kawabata, nascido numa família próspera e culta de Osaka, começou a estudar literatura aos 21 anos e publicou sua primeira novela cinco anos depois. Quase sempre tratou da incapacidade do homem de amar, mesmo desejando as mulheres. Paradoxo incontornável.

Fontes:
GONÇALVES FILHO, Antônio. O Estado de São Paulo. 29 de novembro de 2004
http://www.estacaoliberdade.com.br/
http://pt.wikipedia.org/

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