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Moacir Costa Lopes (Estante de Livros)

MARIA DE CADA PORTO

Romance de estréia do autor, Maria de Cada Porto é uma narrativa ousada que nos conta o drama de marinheiros náufragos que, enquanto esperam a salvação ou a morte, refletem sobre sua rotina a bordo e sobre o seu passado de festas, amores e desamor em cada porto.

Trechos do Livro

Mas é bonito o mar. Experimente ficar no bico de pro-a. A gente olha a linha do horizonte e diz tolamente: daqui a pouco estarei lá. E nunca está, nunca transpõe aquela linha que brinca de correr com a gente. A maresia entra-nos pelas narinas e nos dá vontade de ser toninhas, as bailarinas do mar. O sol mergulha e vai surpreender os peixinhos lá embaixo, às vezes mostra um peixe grande correndo atrás dos pequenos para engolir. Os peixes-voadores são zombeteiros, o grande vem com fome, raiva e sede, eles pulam fora d’água e voam vinte metros, o peixe grande engole dez sardinhas por vingança. Mais adiante um lombo escuro empurra o mar para os lados e parece até uma ilha submersa que quer respirar, mas é uma baleia que vem estudando há bilhões de anos um modo de engolir peixes sem água e, não fosse a chaminé em cima da cabeça, teria que mijar muitos dias seguidos.

O sol fica com raiva, vermelho, por não ter podido ferver o mar, e essa vermelhidão cai em cima d’água e resvala, tirando faísca de luz do costado e dos vidros das vigi-as. A maruja fica enternecida, bestamente sentimental, e dá em pensar na infância frustrada e descobre que está longe dela pela velhice de tantas viagens.

Então, um dia a gente pisa no cais, e ele parece mexer-se.

– Linda manhã.

– Manhã linda. Há muito te esperava. Que viagem longa!

– Longa viagem. Regresso mais velho, mais tolo.

E vi muita coisa. Num crepúsculo manso, uma vaga de onda crescendo e se envergando em forma de vespa, vi as bolhas se inflarem com a luz do sol morto, no topo da vaga, e se arrebentarem no arrojo das águas, se partindo, e o som do estalo chegando ao ouvido da maruja embevecida como canto das sereias, de que narram lendas antigas.

E vi também, numa esquina de rua, um homem só morrer sozinho de frio e de fome e de uma chaga roendo-lhe o corpo; janelas abertas ao lado e de frente, homens e mulheres lhe observando a morte, de portas fechadas. Quando o homem deu o último suspiro, esparramando moedas de uma lata no chão, homens e mulheres fecharam suas janelas, abriram as portas e trouxeram velas acesas para cercar o corpo do homem só, que morreu sozinho. Aí rezaram… e sentiram sua morte.

– Vi mais coisa e volto mais velho.

– Vamos então.

– Vamos.

… amores explosivos que têm a existência de um foguete de junho, amor de parada de trem, amor de linha de telefone cruzada, amor de marinheiro. Depois, num cantinho de nossa memória, esse amor catalogado mas sem local, sem data e sem nome.

– Lembrarei esta tarde por muito tempo.

– Então façamos dela uma grande lembrança, meu bem, pois estamos vivendo hoje o nosso passado de amanhã.
 

POR AQUI NÃO PASSARAM REBANHOS

Sexto e mais alegórico romance de Moacir C. Lopes, Por aqui não passaram rebanhos nos convida a refletir sobre o tempo, a transitoriedade do homem e a eternidade simbolizada pela pedra.

Na linha explícita do realismo mágico, o livro sugere que, enquanto busca sua definição como ser completo, o homem é um monstro em transição. Inspirado no Parque das Sete Cidades, no Piauí, cujas antiquíssimas formações rochosas lembram seres petrificados, conta a história de um homem despojado do passado que não sabe o que o espera no futuro.

Longe da civilização e em meio a uma região inóspita, Emiliano refugia-se numa caverna onde encontra Selene, jovem bela e sedutora que o espera há três mil anos. Ele se apaixona e tenta a todo custo embarcar no tempo dela para viverem juntos para sempre. No processo, conhece o Sumé, um velho aguadeiro cujo animal carrega tonéis furados no lombo. Por onde vai pingando a água dos tonéis, nasce uma floresta onde crianças se tornam adultos em questão de minutos. Eles dividem o mesmo espaço, mas seus tempos são desencontrados.

No final, de alguma maneira Emiliano se torna eterno, mas nem ele arriscaria dizer se ficou mais próximo da redenção ou da ruína.

Trecho do Livro

Emiliano não sabe quanto tempo caminhou. Vem de longos caminhos.

Um dia uma mulher morreu nos seus braços e os habitantes de seu povoado, em bandos de caçadores, com armas e cães, o seguiram até o meio da floresta, como fera que estivesse ameaçando o mundo. E ele era apenas uma criança. Nem trazia o contágio da doença que matara aquela mulher. Arrastava consigo apenas o contágio de sua própria espécie.

Muito depois, outra mulher, jovem, morreu nos seus braços. Também esta o amava, e ofertava-lhe o corpo cada noite. Antes, ela lhe dissera: eu vou morrer. E ele falou: vamos. A minha morte será mais longa que a tua. Assim, a partir desse dia, Emiliano começou a morrer. E não sabe quando completará a sua morte.

A última lembrança foi de uma criança com quem conviveu. Não lhe dera nome, nem sabe se chegou a ser sua filha, esposa ou irmã, só recorda que ela estendia-lhe as mãos porque queria convivência. Quando ficou adulta e julgou que já conhecia o mundo, um dia, na bifurcação de dois caminhos, ela seguiu o outro.

Foi esquecendo os gestos aprendidos, porque não conseguiu mais entender seus semelhantes, se aprendeu a sorrir também não sabe. Surpreendeu-se algumas vezes de mãos estendidas mas logo as contraía, envergonhado de querer, de pedir ou mesmo de ofertar-se. Só restava caminhar.

Lembrou-se que, por onde havia passado, o mundo era todo pertencente, cada metro quadrado de chão fora medido, entre um e outro havia faixas que diziam: passe por aqui, cuidado. E cada pedaço do mundo era de alguém que criara um idioma próprio para poder comunicar-se com os rebanhos que lhe pertenciam. Se ele caminhava por um quadrilátero e sua sombra se projetava no quadrilátero vizinho, taxavam bem caro a invasão de sua sombra.

Então, do alto do promontório, contemplando o vale, disse: por aqui não passaram rebanhos. Seguirei por aqui.

Assim, como se o corpo não lhe pertencesse e fosse trapos que espalhara, as estrelas perto do seu rosto, velando seu cansaço, adormeceu sono profundo.

Fonte:
http://www.moacirclopes.com.br/obras.php

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Robert Galbraith (O Chamado do Cuco)

Tudo tem início quando o corpo de Lula Landry, uma modelo belíssima, negra, se projeta da varanda de sua cobertura, repleta de neve, na direção da morte. Apesar da beleza rara e da fama internacional, a jovem revelava uma mente perturbada e vinha tentando se recuperar da dependência química. Assim, foi fácil concluir que ela havia se suicidado.

Pouco tempo depois, porém, o irmão dela, que não crê absolutamente nesta possibilidade, procura o investigador particular Cormoran Strike para buscar a verdade. O detetive, ex-combatente na Segunda Guerra, com lesões internas e externas, está à beira da falência, a ponto de fechar o escritório, e mesmo assim não seria capaz de pagar todas as dívidas.

A princípio ele se deixa guiar por seus princípios morais e rejeita a oferta, pois não acredita na possibilidade de assassinato. No fim, porém, sua consciência perde o conflito interno e o protagonista acaba cedendo diante do pagamento generoso do cliente e da probabilidade de dar um fim ao caos que tomou conta da sua vida. Strike se apega ao pretexto que o motivou a aceitar o caso: a luta por justiça.

Sua decisão de desvendar o que se oculta por trás dessa morte o leva a submergir em um universo intrincado, do qual Lula fazia parte. Tudo fica cada vez mais sinistro e os riscos se ampliam. Sua vida passa a correr perigo enquanto ele percorre o submundo londrino. ===============

Robert Galbraith é o nome artístico de J K Rowling, autora consagrada da saga Harry Potter e de Morte Súbita. A escritora britânica Joanne Kathleen Rowling nasceu na cidade de Yate, nas proximidades de Bristol, na Inglaterra, em 31 de julho de 1965.

É o primeiro livro escrito por J. K. Rowling sob o pseudônimo de Robert Galbraith, procurando  desvincular sua imagem e nome famosos para explorar algo diferente ou mesmo evitar comparações com outras obras suas.

Ela surpreendeu o mundo quando, em 2012, anunciou seu primeiro romance adulto, Morte súbita. Porém, a surpresa maior veio em 2013 quando descobriu-se que o autor por trás de Robert Galbraith era ela. O Chamado do Cuco já estava bem cotado no Goodreads muito antes mesmo da informação vazar.

Robert Galbraith, porém, não é o único pseudônimo de Rowling. O próprio nome J. K. Rowling é um pseudônimo. Por volta de 1997, quando seu agente Christopher Little conversava com a autora sobre a publicação de Harry Potter and the Sorcerer’s Stone, ele sugeriu que ela adotasse um nome neutro alegando que os garotos não leriam um livro escrito por uma mulher. Foi quando ela emprestou o nome Kathleen de sua avó paterna e passou a assinar J. K. Rowling.

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~A janela abriu, o Cuco caiu~

Foi através de uma sacada que a supermodelo Lula Landry, também conhecida como Cuco, caiu para a morte no que a polícia e a imprensa qualificaram como suicídio. Porém, seu irmão, John Bristow, não acredita nessa versão e contrata Cormoran Strike para investigar o que de fato aconteceu com Lula no seu último dia de vida. John procura Strike porque o detetive fora amigo de infância de Charlie, seu falecido irmão. A princípio, Strike reluta em aceitar o cargo, mas as dificuldades financeiras por que passa somada aos seus problemas sociais mais prementes o fazem pensar melhor.

    (…) Foi só quando chegou à porta de vidro no andar de cima que Robin percebeu, pela primeira vez, a que tipo de empresa fora enviada para auxiliar. Ninguém na agência lhe dissera. O nome no papel ao lado da campainha estava gravado no vidro: C. B. Strike e, abaixo dele, as palavras Detetive Particular.
Apesar do foco principal do livro ser a investigação do último dia de Lula, ele não se apega somente a isto.

Strike acaba de sair da casa de sua noiva Charlotte com quem estava junto durante anos e, sem ter para onde ir, passa a ter uma subvida morando no escritório em que trabalha. Ele é filho de um homem famoso que mal vira durante seus trinta e cinco anos de vida, mas a fama do pai o ofusca quando as pessoas descobrem sobre sua origem familiar.

Robin passa a trabalhar para Strike por um erro da parte dele, que pensava ter cancelado o contrato com a agência de temporários por não ter como pagar. Ela é aquela pessoa que está indecisa entre seguir as incertezas de um sonho e a segurança e estabilidade de um emprego comum e tedioso.

A narrativa é em terceira pessoa, transitando pelo menos oitenta porcento por Strike e os vinte restantes por Robin. E ela é lenta.

Strike investiga praticamente todos os que tiveram contato com Lula, porém todas essas pessoas trazem informações cruciais para nos animar a ir adiante e criar nossa teoria do que aconteceu.

O tom de humor está muito bem colocado nas páginas. Num momento, Strike está matutando sobre como cobrar os clientes que não lhe pagaram e, no outro, está simplesmente cutucando o nariz quando John Bristow entra na sala para conversar com ele.

Robert começa sua história de maneira bem agradável e ela vai melhorando a cada página até chegar este momento em que a gente quer correr na leitura para saber como Cormoran explicará o que descobriu.

    (…) Escreveram que ela era desequilibrada, instável, inadequada para o superestrelato em que a rebeldia e a beleza a capturaram; que passara a andar com uma classe endinheirada e imoral que a corrompera; que a decadência de sua nova vida atordoou uma personalidade já frágil. Ela se tornou uma densa fábula moral de Schadenfreude, e tantos colunistas fizeram a alusão a Ícaro que a revista Private Eye publicou uma matéria especial.

Veterano na guerra do Afeganistão, o personagem perdeu uma perna em combate e carrega consigo a vergonhosa história de sua família. Filho de uma groupie, que engravidou de um astro do rock e ficou famosa por isso, Strike é sempre lembrado como fruto de uma família desestruturada e de uma mãe que, aos olhos da sociedade, mereceu a morte por overdose.

Não bastasse, no mesmo dia em que é procurado pelo irmão de Lula, o detetive tem uma briga épica com a noiva, Charlotte, com quem termina o relacionamento, passando a morar no escritório em que trabalha. A vida conturbada de Strike tem relação com a de Lula que, assim como a mãe do detetive, é julgada pela imprensa, pelos amigos e até mesmo pela família, que vê sua morte prematura como algo esperado. “Como era fácil tirar proveito da tendência de uma pessoa à autodestruição; como era simples empurrá-la para a inexistência”, escreve a autora em certo ponto sobre a comparação das personagens desvalorizadas.

A seu favor, o detetive tem sua apurada inteligência e sua nova assistente temporária, Robin, uma jovem garota que aceita o trabalho mais pelo fascínio pela profissão do chefe que pelo salário.

A investigação dura o livro todo, com diversas entrevistas com as pessoas que, de algum modo, estavam envolvidas com a modelo em seus últimos dias de vida.

Sua principal crítica é voltada à sujeira do mundo da fama. Na falsidade e superficialidade de seus agentes, assim como nos fãs, obcecados por ídolos que pouco têm a oferecer e que, mesmo depois da morte, continuam a ser referência. A imprensa também ganha alfinetadas, principalmente os famosos tabloides ingleses, que exploram ao máximo e incansavelmente pessoas e suas histórias, por vezes trágicas e indignas de serem reveladas. Em certo ponto, a perseguição sofrida por Lula pelos jornais é apontada pela escritora como um dos responsáveis por sua morte.

Apesar da falta de charme e de todas as dificuldades encontradas para desenvolver a investigação, Strike consegue ser um personagem que prende o leitor. Seus pensamentos são relacionáveis e sua falta de simpatia não é motivo para aversão.

Fontes:
Ana Lucia Santana. http://www.infoescola.com/livros/o-chamado-do-cuco/
Tiago de Souza http://ocapitulodolivro.blogspot.com.br/2013/11/resenha-o-chamado-do-cuco.html
Raquel Carneiro. http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/livros-da-semana/j-k-rowling-se-reinventa-com-misterioso-o-chamado-do-cuco/

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Fabiane Ribeiro (Jogando Xadrez com os Anjos)

Jogando Xadrez com os Anjos é um livro que ao mesmo tempo em que machuca o leitor faz com que ele se encante com a maneira que a jovem protagonista supera todos os seus obstáculos e cria toda uma atmosfera reflexiva.

Narrado em terceira pessoa, conhecemos Anny, tem apenas 8 anos em 1947. Ela vive na Inglaterra justamente quando o país tenta se reerguer no período pós-guerra. A protagonista passa muito tempo sozinha, com o coração apertado pelas saudades dos pais, os quais recebem uma “proposta de emprego” irrecusável e decidem aceitar, deixando a filha  aos cuidados de um casal totalmente desequilibrado , em uma casa onde há apenas rancor..

Nestes momentos de ausência a garota fica sob os cuidados de uma serviçal. Meiga, ela se esforça para compreender e aceitar a conjuntura em que vive. Por determinação dos pais, ela é obrigada a permanecer o tempo todo em sua casa; por esta razão não pode ir à escola e recebe aulas particulares de Jane, uma mestra que Anny considera desprezível.

A criança mal pode imaginar que sua vida está prestes a passar por uma triste reviravolta. Os pais são obrigados a ficar fora por mais tempo e, assim, só poderão ver a filha uma vez por ano. Eles então recorrem à Jane e seu marido; pagam a ambos para que acolham Anny.

Como já desconfiava, a menina encontra um lar desprovido de amor e atenção. Sua tutora a trata mal, não permite que ela se divirta com seus inúmeros brinquedos e também a impede de assistir televisão. Além disso, a austera professora determina que a menina cumpra tarefas domésticas e só lhe concede duas refeições diárias.

Mas Anny não perde a fé e preserva a inocência em seu coração. Ela se entretém com o cultivo do jardim e suplica a Deus que lhe envie alguém para preencher sua profunda carência afetiva. Tudo que traz do passado é o tabuleiro de xadrez que ganhou do pai e a oportunidade de olhar à distância para sua antiga residência.

É quando a protagonista encontra em sua jornada pela vida anjos que a guiarão neste momento difícil. Entre eles está Pepeu, um estranho rapaz que modificará definitivamente a sua existência. Com ele a menina realiza um aprendizado essencial, sem jamais sair dos limites de seu jardim.

Ao seu lado a garota mergulha no reino encantado presente em seu tabuleiro de Xadrez; aí as possibilidades são infinitas e tudo se torna acessível. As pessoas que surgem em seu caminho contribuirão para seu crescimento espiritual e ela vai receber ensinamentos fundamentais, conquistando valores como o altruísmo, a fé e o amor em sua face mais autêntica.

Estes amigos que Anny faz a defendem e ajudam a menina a ter um pouco de infância, além de alguns fazerem parte do seu Reino Xadrez, que é um lugar para o qual a menina é transportada quando sonha, já que o Reino reflete ao inconsciente da menina e também adiciona um “ambiente” a mais na história.

O livro é carregado por um clima fortemente soturno, as páginas são semelhantes ao barulho de um vento triste e as maldades, saudades e frustrações da personagem principal contribuem para que o enredo se torne ainda mais triste. Mas não se engane, achando que irá chorar o livro todo, pois Anny encontra como saída desse mundo perverso: a fuga da realidade e penetra em um mundo feito de Xadrez, onde faz suas próprias leis, além de ter um dom especial e uma maturidade excepcional.

ALGUNS PERSONAGENS DO LIVRO

PEPEU (Pedro Leopoldo), 21 anos, norte-americano. Artista de rua e membro do grupo artístico itinerante denominado “Anjos da Arte” (e, posteriormente, “Anjos da Guerra”). Um eterno menino sonhador e apaixonado, extremamente sensível, nostálgico, mas também divertido.

Pepeu na história: Em um belo dia, Pepeu surge misteriosamente nos canteiros do jardim cuidado por Anny. Com o passar do tempo, eles tornam-se amigos, cúmplices, companheiros para as partidas de xadrez, danças ao som de gaita e conversas sobre o mundo além daqueles canteiros. O amor que sentem um pelo outro é um amor fraterno; são como irmãos, como uma família. No decorrer da história, Pepeu desabafa com Anny sobre seu passado e as razões para o sofrimento que ele carrega. Porém, ao mesmo tempo em que as respostas são dadas, muitos mistérios continuam a envolvê-lo.

“Lentamente, Pepeu subiu os degraus da igreja, a contemplar os próprios pés e as pedras do chão. Tudo cheirava a mar.

Na escadaria, uma sombra surgiu, e veio de encontro à sua. Seu coração soube antes de seus olhos quem estava ali naquele deserto junto a ele. Era o Infinito ganhando forma novamente.

Ele levantou lentamente a face e viu a moça descendo os degraus da igreja, caminhando ao seu encontro.

Tirou a boina da cabeça, segurou-a junto ao coração, e ficou parado com um pé em cada degrau, a contemplar aqueles cabelos.

As ondas dos fios castanhos se misturavam ao longe com as ondas do oceano e ele pôde sentir a alegria invadir cada célula de seu corpo.

Ela estava parada bem à sua frente. Usava um vestido azul, como o mar e o céu, que eram seus únicos companheiros naquele local esquecido pelo mundo.

Ela falou, e sua voz pareceu uma manhã de primavera:

— Ângela.

— Ângela… – ele repetiu – que nome lindo. Parece nome de anjo”.

HERMES, homem inglês de meia-idade. É o responsável pela “adoção” de Anny após a partida misteriosa dos pais, juntamente com sua esposa, Jane. Um homem frio e de olhar triste, cujo coração parece não ter alegria de viver. Será que Anny conseguirá conviver com um homem tão amargurado? Talvez a razão para tamanha amargura esteja nos erros do passado…

Hermes na história: Sempre com a cara fechada e sem expressões, Hermes arrasta a vida sem alegrias e esperanças. Até que Anny, a protagonista de oito anos, surge em sua casa pequena e cinzenta. A princípio a presença da garota, cheia de vida e alegria, é como veneno para sua existência dolorosa. Mas ela não medirá esforços para compreendê-lo e ajudá-lo. Hermes tem um capítulo especial, durante um Natal inesquecível, em que muito de seu passado é revelado. Assim, a tristeza em seu olhar, finalmente, começa a ter uma explicação.

“Hermes era casado com Jane há duas décadas. Eles não conseguiram ter filhos e, com o passar dos anos, se acostumaram tanto com a ideia de que nunca seriam pais que nunca mais tocaram no assunto. Ele era um homem sério, que tinha menos idade do que aparentava. Sua barba era tão malcuidada que chegou a dar nojo em Anny quando ela o olhou de perto. A garota pensou que ele não tinha alegria de viver quando olhou dentro de seus olhos pela primeira vez, deparando-se com uma expressão vazia e cansada, de quem espera pouco e entrega pouco à vida”.

“Enquanto falava, Hermes parecia reviver sua própria história, mergulhando cada vez mais profundamente nas lembranças – lembranças de quando ele ainda vivia e não simplesmente existia.

Há tanto tempo ele não se permitia relembrar…

Havia guardado aquelas recordações no fundo de sua alma por tanto tempo, que elas, agora, pareciam empoeiradas. Era difícil revivê-las, pois eram doces, e o coração do homem, com o tempo, havia se tornado amargo.

Anny deixou-se embalar pelas memórias de Hermes e foi acompanhando cada detalhe, também criando as cenas em sua mente”.

BORBOLETA AZUL aparece tanto na realidade, quanto no Reino Xadrez, onde é o único pontinho colorido em um reino branco e preto. Ela sempre traz esperança e aparece em momentos importantes da vida (e dos sonhos) da pequena Anny, a protagonista da história e rainha do Reino Xadrez! A borboleta azul é uma representação muito especial na trama e trará bons sentimentos e aprendizados à pequena rainha sempre que aparecer.

“A borboleta azul demorou-se muito no jardim, e Anny pensou que ela devia estar reconhecendo seu segredo nas plantas, o amor; assim como Pepeu o reconhecera.

Ela voou por entre as flores que nasciam, e Anny foi andando atrás dela, imitando sua leveza. Então, a menina esticou os dedos e a borboleta azul pousou sobre um deles.

Anny a observou por vários instantes, maravilhada com sua perfeição. Ela era linda de se ver”.

“A rainha Anny declarou que aquele era o dia mais feliz de seu reinado, e todos os súditos de cristal dançaram alegremente nos gramados quadriculados. No castelo, que uma vez estivera em ruínas, músicas alegres tocavam – todas elas eram originadas por belos pianos. E, ao redor do palácio, voava uma borboleta azul-celeste. Linda, cheia de vida e cor”.

DESIRÉ, 12 anos, Inglesa. Enxerga o mundo através das palmas das mãos.

Desiré na história:

Ela surge, junto de seu irmão George, no muro da casa vizinha à de Anny, trazendo alegria e suavidade a sua história sofrida. Deficiente visual, Desiré conta com a ajuda de sua fiel cachorrinha, Nina, e com o amor imenso pela vida que existe dentro do seu peito. Ela ajuda Anny a também conhecer o mundo com as palmas das mãos – e, assim, senti-lo da forma verdadeira –, é sua confidente e companheira nas tardes em que cuida dos jardins e durante momentos preciosos em que ambas descobrem a arte da dança. Anny e Desiré são um grande exemplo de amizade, pureza e superação e, também junto de Pepeu, vivem momentos encantadores por entre as flores que Anny cultivara nos jardins antes sem vida.

“Outro dia, as meninas estavam conversando distraidamente, quando Desiré parou e disse:

— Quem está aí?

Sem que Anny notasse, elas realmente tinham companhia:

— Pepeu! – gritou Anny, indo abraçar o rapaz – Que bom que está aqui. Eu gostaria que você conhecesse minha nova amiga. É a Desiré. Ela é muito especial. Venha, aproxime-se do muro, para que ela possa conhecê-lo.

O rapaz aproximou-se de Desiré e ela esticou as mãos para tocar-lhe a face. A menina ficou alguns minutos analisando cada traço de Pepeu, então, sorriu:

— Você é lindo!”
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Fabiane Ribeiro já escrevia quando tinha 6 ou 7 anos de idade. Seu entretenimento predileto era criar narrativas. A leitura também era sua maior paixão. Ela lia compulsivamente, sem escolher estilos ou gêneros. Graduada em Veterinária, ama os animais assim como as palavras.

TRECHOS DO LIVRO
“O castelo continuava lindo, enorme e xadrez, exceto por um pontinho azul que o circundava.
Era ela, a borboleta azul…

Então, uma chuva começou no Reino Xadrez. Não era uma forte tempestade. Afinal, não representava fúria ou descontrole. Era uma chuva fina, reconfortante; uma chuva para limpar a alma.

Representava alento, recomeço.

Era como se o céu chorasse junto com Anny, mas de uma forma suave…
Sobre o castelo se abriu uma fresta de luz entre as nuvens. Era o sol, abrindo caminho para seus raios em meio à chuva. Tudo era exatamente como no interior de Anny…”

“De um lado, estava o exército preto, e de outro, os súditos de cristal do exército branco.

As peças marchavam em direção ao enorme tabuleiro central, tudo era gigante aos olhos de Anny. Os passos coordenados das peças ecoavam por todo o reino, anunciando o duelo de xadrez que se formaria em instantes.

Quando tudo estava organizado, Anny perguntou:

— Com quem irei jogar?

E foi nessa hora que se ouviu o galopar de um cavalo ao longe, e ele surgiu entre as colinas quadriculadas: o cavaleiro bondoso que Anny conhecera na primeira vez em que estivera no reino.

À medida que ele se aproximava, seu rosto se tornava mais familiar. Com suas bochechas rosadas e seu lindo sorriso. Anny sabia que era ele: seu fiel cavaleiro, aquele a quem ela tanto amava. Aquele que a salvou da tristeza e da solidão diversas vezes e a ensinou a ouvir o coração.

Ele fez uma demorada reverência à rainha, dizendo:

— A partida pode começar.”

Fontes:
Fabiane Ribeiro. http://www.fabianeribeiro.com.br/
Ana Lucia Santana. http://www.infoescola.com/livros/jogando-xadrez-com-os-anjos/
http://gossinp.blogspot.com.br/2012/09/resenha-jogando-xadrez-com-os-anjos.html
Cris Toledo. http://livronasmaos.blogspot.com.br/2013/02/resenha-jogando-xadrez-com-os-anjos-de.html

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John Banville (O Mar)

O escritor e crítico literário irlandês John Banville, 61 anos, é quase um desconhecido do público brasileiro. O que não chega a ser surpresa: ele também não goza lá de grande fama entre os leitores anglófonos. Considerado um autor “difícil” por sua prosa poeticamente trabalhada e pelo ritmo lento de suas narrativas, Banville nunca teve vendas além de uns poucos milhares de exemplares – tiragem de ficcionista brasileiro – até ganhar o Booker Prize de 2005, e com ele uma avalanche de manchetes, por este “O mar”. O romance é narrado de forma não linear por um crítico de arte de meia-idade que, tentando se recuperar da morte da mulher, retorna à cidadezinha praiana onde passava férias na infância e mergulha num mar de memórias dolorosas. A maior parte da crítica internacional saudou o livro como a obra-prima de Banville, e os elogios, embora eu ainda esteja no início da leitura, me parecem fundados.

A sinopse do livro nos conta o seguinte: “Neste romance, John Banville constrói uma narrativa emocionante, trabalhando a linguagem como um grande artista. Em ‘O mar’, Banville conta uma história com vários momentos, na qual o narrador, Max Morden, procura viver o presente e o futuro no passado, na busca por recuperar-se da constante presença da morte.”

Banville constrói sua narrativa com idas e vindas em seu passado, presente e por assim dizer a projeção do futuro. Narrativa entrecortada, mas que com as palavras certas, e um certo tom irônico e às vezes cômico, nos leva a participar da história, da sua dor, da construção da sua vida e dos momentos por vezes imaginário.

Lidar com perdas, com dor, não é tarefa simples, mas não o torna um livro pesado e arrastado, pelo contrário, apesar de ter deixado em mim algumas marcas, é uma narrativa que nos faz pensar em algumas coisas sim, acerca da vida e da morte.

Em alguns trechos do livro, nos identificamos, pois a linguagem simples e clara do autor, nos leva a essa imediata empatia.

A beleza hipnótica de sua prosa, conservada pela tradução, brilha no trecho abaixo, que abre o livro:

Os deuses partiram no dia daquela maré estranha. Durante toda a manhã, sob um céu leitoso, as águas da baía foram subindo, subindo, atingindo alturas inauditas, com pequenas ondas lambendo a areia ressecada que, por anos a fio, não soube o que era umidade, a não ser pela chuva, e chegando até a base das dunas. Os despojos enferrujados do velho navio encalhado lá na entrada da barra, e que, para qualquer um de nós, estavam naquele lugar desde sempre, devem ter achado que tinha chegado a hora de voltar a navegar. Depois daquele dia, nunca mais nadei. As aves gritavam e mergulhavam do céu, parecendo perturbadas pelo espetáculo daquela imensa bacia cheia de água que inchava como uma bolha de um azul quase chumbo malignamente reluzente. Naquele dia, os pássaros estavam mais brancos, com uma cor nada natural. As ondas iam deixando uma faixa de espuma amarelada na areia. Nenhuma vela manchava a linha do horizonte. Não, não voltei a nadar depois desse dia. Nunca mais.

Acabou de passar alguém sobre o meu túmulo. Alguém.

A casa se chama Os Cedros, como antigamente. Um punhado eriçado dessas árvores, de um marrom cor-de-macaco, um cheiro rançoso de resina e os troncos assustadoramente retorcidos, ainda cresce à esquerda da casa, diante de um gramado maltratado que fica defronte da grande janela abaulada do cômodo que era a sala de visitas, mas que Miss Vavasour, como boa profissional do ramo, preferia chamar de saguão. A porta da frente fica do outro lado, dando para um pátio quadrado, recoberto de cascalho manchado de óleo, logo depois do portão ainda pintado de verde, embora a ferrugem tenha reduzido aquela pomposa grade a uma frágil filigrana. Fiquei impressionado ao ver como tudo mudou tão pouco nos mais de cinqüenta anos que se passaram desde que estive aqui pela última vez. Impressionado, e desapontado. Diria até horrorizado, por razões que não consigo descobrir; afinal, por que eu desejaria que as coisas houvessem mudado, logo eu, que voltei a viver em meio aos escombros do passado?

Não sei por que a casa foi construída desse jeito, de lado, com uma parede branca e sem janelas virada para a rua; talvez, em outros tempos, antes da construção da estrada de ferro, o traçado da rua também fosse diferente, passando bem diante da porta da frente. Tudo é possível… Miss V. é bastante vaga quanto a datas, mas acha que, de início, construíram ali uma casinha pequena, em princípios do século passado, quero dizer, do anterior, estou perdendo a noção dos milênios, e, depois, foram fazendo obras e aumentando a casa meio aleatoriamente ao longo dos anos. Isso explicaria o ar caótico daquela construção, com salinhas que dão passagem para outras salas maiores, janelas que se abrem para paredes cegas, e tetos baixos de ponta a ponta da casa. O assoalho de pinho dá um toque náutico ao local, assim como a minha cadeira de rodinhas, com encosto de ripas de madeira. Posso até imaginar um velho lobo-do-mar, cochilando ao pé da lareira, finalmente assentado em terra firme, e o vento do inverno fazendo as janelas baterem. Ah, ser esse marinheiro… Ter sido ele…

Quando estive aqui tantos anos atrás, no tempo dos deuses, Os Cedros era uma casa de veraneio, alugada por quinzena ou por mês. Todo ano, em junho, um médico rico e sua família estridente infestavam o lugar — não gostávamos dos seus filhos esganiçados, que riam de nós e ficavam nos atirando pedras, protegidos pela barreira impenetrável do portão. Depois deles, vinha um casal misterioso, de meia-idade, que não falava com ninguém e quase toda manhã levava, sempre de cara amarrada, o cachorro salsicha para passear, descendo a Station Road até a praia. Para nós, agosto era o mês mais interessante naquela casa. A cada ano, havia inquilinos diferentes, gente da Inglaterra ou do Continente; uns casais esquisitos em lua-de-mel, que ficávamos tentando espionar, e, certa vez, veio inclusive uma trupe de teatro ambulante que estava se apresentando na matinê do cinema do vilarejo, com o seu telhado de zinco. E, então, naquele ano, veio a família Grace.

“Há momentos em que o passado tem tanta força que parece que vamos ser aniquilados por ele.” página 43

E mais um trecho que faz pensar bastante:

“Os últimos raios de luz do dia, que eu podia ver em parte pela metade superior da janela do bar que não era pintada, tinham aquela tonalidade raivosa de um marrom-arroxeado que acho comovente, mas, ao mesmo tempo, perturbadora, e que é a própria cor do inverno. Não que eu tenha algo contra o inverno; na verdade, é a minha estação favorita, juntamente com o outono; mas, este ano, esse brilho de novembro parecia o presságio de algo mais do que o inverno, e mergulhei num clima de amarga melancolia.” página 212

Os livros nos escolhem e sempre nos impregnam com suas linhas e palavras, para mim é mágico, por vezes curativo, por vezes arrebatador e também serve de alerta.

Fontes:
Letícia Alves in  http://www.minhastempestades.com.br/2013/04/o-mar-john-banville.html
Sérgio Rodrigues in http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/primeira-mao/john-banville-o-mar/

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Milton Hatoum (Relato de um Certo Oriente)

A obra de estreia do escritor amazonense Milton Hatoum, Relato de um certo Oriente, nasceu em 1989, quando o autor apresentou à então editora da Companhia das Letras, Maria Emília Bender, o manuscrito de seu livro. Aprovado por Luiz Schwarcz, proprietário da Cia das Letras, o romance foi finalmente publicado, depois de um longo percurso de escrita, iniciado em 1982, na capital francesa.

 Busca mostrar as dificuldades presentes na convivência diária de familiares e amigos entre si, com seus diferentes segredos e comportamentos, faz deste um grande enredo.

O romance mostra que o refúgio da memória é a interioridade do indivíduo, reduzido e isolado na sua própria história, quase que incomunicável com outro mundo que não seja o dele.

A memória, a identidade e a reconstituição de lembranças são os temas principais deste romance. A personagem protagonista consegue, por meio da rememoração de seu passado e com a ajuda das lembranças de outros, enriquecer sua vida, dar sentido e valor à sua origem.

A (re)construção do passado é interessante, pois a narradora utiliza de diferentes recursos para reanimá-lo, seja por um odor, seja por uma voz, seja por um lugar. Esses e outros recursos são utilizados como meios de recuperar a memória perdida.

O enredo do romance é uma tessitura de retalhos narrativos que se alinham em oito capítulos. São várias histórias que se entrelaçam e se completam, lembrando assim o estilo da narrativa oral. Estas várias narrações, que em muito lembram a estrutura das Mil e Uma Noites, se desenrolam em um cenário que lembra constantemente as estruturas de passagem que compõem a existência humana.

A trama se passa numa cidade marcada pelo hibridismo cultural e atravessada pelas ideias de fronteira e trânsito: Manaus, uma capital que se separa da floresta pelas águas fluviais e se situa num estado que faz divisa com três outros países. Ela também é a cidade natal do escritor. No livro também estão presentes a diversidade de costumes, línguas, e a convivência entre indivíduos de diferentes nacionalidades.

Nesta busca incansável da personagem principal por sua identidade e suas origens, em uma Manaus que é mais margem do que propriamente uma metrópole, apesar de ser a capital amazonense, o leitor vai desvelando junto com a protagonista um passado repleto de segredos e revelações inimagináveis, relembrando e descobrindo histórias do seu passado e da família que a criou.

Retornando a Manaus, após estar internada em uma clínica de repouso em São Paulo, a narradora chega na noite que precede o dia da morte de Emilie, sua mãe adotiva.

Inicia-se, então, o trabalho de recuperar Emelie através da memória, não apenas a sua, mas também a de outros personagens que entrelaçaram seu percurso de forma significativa ao daquela família: o filho mais velho, o único a aprender o árabe e que também irá se distanciar de todos, ao mudar-se para o sul; o alemão Dorner, amigo da família e fotógrafo; o marido de Emelie, recuperado, mesmo depois de morto, através da memória de Dorner, e Hindié Conceição, amiga sempre presente, a partilhar com a conterrânea a solidão da velhice. Muitas vozes a compor um mosaico, nem sempre ordenado, nem sempre claro naquilo que revela, mas sobretudo rico em pequenos detalhes de extrema significação.

No intuito de enviar uma carta ao irmão, que se encontra em Barcelona, a fim de lhe revelar a morte de Emilie, escreve um relato com depoimento de membros da família e de amigos, conforme o irmão lhe pedira na última correspondência que lhe enviara. Esses testemunhos proporcionam uma verdadeira viagem à memória, com regresso à infância e aos fatos marcantes da vida familiar.

No primeiro capítulo, a narradora descreve uma parte da casa na qual acabara de acordar, em Manaus. A descrição das duas salas contíguas é repleta de marcas identificatórias do Oriente, indicando uma representação estilizada desse local: tapete de Isfahan, elefante indiano e reproduções de ideogramas chineses são alguns dos objetos de consumo dos ocidentais, tomados como símbolos, que estão presentes nos cômodos.

No romance as histórias falam das possibilidades e das dificuldades do trabalho com a memória, das tensões e da convivência de culturas, religiões, línguas, lugares, sentimentos e sentidos diferentes das personagens em relação ao mundo. A casa de Emilie, matriarca da família na narrativa do Relato, é um microcosmo onde estas tensões aparecem e são vividas cotidianamente.

O que mantêm a tensão no romance é a narrativa centrada em incidentes – o atropelamento de Soraya Ângela, o afogamento de Emir.

A obra, em sua estrutura e estratégia de composição, parece oscilar entre a narração – em que a figura do narrador é extremamente importante e o relato é feito principalmente com base nas tradições orais, como uma tentativa de rememorar as experiências coletivas do passado – e o romance, que surgiria como um gênero literário devido as transformações da sociedade capitalista, que destrói cada vez mais a possibilidade de que a experiência comum viva e se revele no relato dos narradores.

Este mosaico narrativo é também influenciado por outro retrato memorialístico, tecido pelo francês Marcel Proust no seu clássico Em Busca do Tempo Perdido. Para Hatoum a memória é uma peça fundamental, sem a qual não se tece a verdadeira literatura. E esta obra é, sem dúvida, uma das maiores apologias ao seu poder.

Fontes:
http://www.passeiweb.com/estudos/livros/relato_de_um_certo_oriente
Ana Lucia Santana. http://www.infoescola.com/livros/relato-de-um-certo-oriente/

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Isabel Furini (Relançamento do Livro de Poemas: “Os Corvos de Van Gogh”)

Terça-feira, 26 de novembro, a partir das 19 horas, será relançado o livro de poemas “Os Corvos de Van Gogh” da escritora e poeta premiada Isabel Furini, no Palacete dos Leões, Av. João Gualberto, 570, Alto da Glória, Curitiba.

Van Gogh foi um artista obstinado, um mestre, um pintor genial.  Ignorado pelos homens de sua época, sua obra foi reconhecida depois da sua morte. Isso o torna ainda mais fascinante. 

O livro de poemas “Os Corvos de Van Gogh” procura perceber os movimentos da alma de Van Gogh e os corvos da tristeza e da frustração presentes na sua vida. 
A obra é apresentada pelo poeta Benilson Toniolo, nas orelhas as artistas plásticas Sandra Hiromoto e Cláudia de Lara também dão a sua visão. 
No final do livro o escritor José Feldman faz uma breve biografia do pintor. 

O livro fala dos “corvos de Van Gogh”, além daqueles eternizados no quadro “Trigal com Corvos”, quadro pintado pelo artista pouco tempo antes de sua morte, os poemas representam o medo, a frustração, a solidão, ou seja, os “corvos” interiores.

Na continuação, um poema do livro:

CAMPO DE TRIGO (Van Gogh, 1890)

Corvos ferinos, mímicos ferinos,
sombras da genialidade.

Murmúrio
de rios subterrâneos,
canal das águas do inconsciente,
campo de trigo com pretos corvos
moendo
as tenebrosas horas.

O vento sussurra
entre os ouvidos e a tela.
– quase um ulular de morte.

Fonte:
A Autora

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Sérgio Sant’Anna (A Senhorita Simpson)

A narrativa A Senhorita Simpson, de Sérgio Sant’Anna, foi publicada em 1989. A obra serviu de inspiração para o cineasta Bruno Barreto produzir “Bossa Nova”, filme lançado em 2000.

 O assunto deste conto envolve o choque de valores que se dá entre a puritana protagonista, que parece ter saído das páginas do romancista americano Henry James, e a burguesia carioca com quem convive nas aulas de inglês que ministra em Copacabana.

 Em A Senhorita Simpson o ponto de partida é um cursinho de inglês, o Piccadilly, que serve como motivo principal para a narrativa. As inter-relações vitais para o enredo vão surgindo como decorrência dos encontros noturnos para as aulas, tendo como narrador-protagonista Pedro Paulo Silva, um dos alunos da turma, 29 anos, funcionário-público no Tribunal de Justiça, separado da mulher, um casal de filhos, habitando sozinho um pequeno apartamento na Prado Júnior e profundamente envolvido com uma dependência por Valium, como soporífero, e por mulheres, como carência de afeto. De certa forma sugerindo em tom de paródia o tipo romântico: a crise existêncial, uma espécie de obsessão pelo encontro intermeada por um ligeiro temor, a fuga das responsabilidades ‘morais’ e a fragilidade das relações não duradoura.

 A narrativa sugere um pequeno espaço brasileiro, essencialmente urbano: a zona sul da cidade do Rio de Janeiro, Copacabana, a classe-média, o inglês como língua de mercado e da moda, a mulher no trabalho, a separação conjugal, o misticismo oriental e a utopia da trilha pela Bolívia e Peru rumo a Cuzco e Machu-Pichu (roteiro seguido por tantos jovens da época). Tudo isto trabalhado com muita ironia e consciência crítica sobre o ato de narrar, por parte de um autor que certamente esteve no contexto, olhando desconfiado para alguns modelos, apreciando o sabor e a possibilidade do encontro e parecendo ter nunca se submetido ao vício.

 Assim, mantendo-se fora do interior da narrativa, Sérgio Sant’Anna distancia-se do mundo de seu protagonista, não se identifica enquanto narrador e através da alteridade transfere para a personagem a vivência da história (em seu duplo sentido: ficção e experiências do passado). A intertextualidade metaficcional enquanto reflexividade consciente do papel da ficção na contemporaneidade, é feita através do ‘pastiche’ em relação às histórias do gênero “meu tipo inesquecível”, que aparecem na “Seleções do Reader’s Digest”, conforme apresentação feita na epígrafe da obra. E esse roteiro problematizador confunde-se com a própria narração enquanto técnica e modo de compor a narrativa. Como característica pós-modernista, no entanto, em tomo de uma superposição crítica e paródica, ficcional e historiográfica, Sérgio Sant’Anna procura reconstituir o estilo (gênero) ao invés da sensibilidade compositiva mais do que sob uma conceituação estética que privilegie o contexto puramente ideológico do discurso.

 O gênero “meu tipo inesquecível” instala-se na figura de Miss Simpson, faixa etária dos 40, sobrevivente de Woodstock, professorinha de inglês no Picadilly e que por um instante se converte na mãe desejada no auxílio geral e no sexo. E aqui também, como em toda história do gênero, aparece um final de “agradeço por tê-lo(a) conhecido”, em deferência à importância da personagem narrada para a vida de quem com ele(a), de algum modo, um dia conviveu. Para o protagonista Pedro Paulo Silva, trata-se de Miss Simpson, que “lhe restará sempre na memória” enquanto forma de encontro necessário e vital.

 Assim, como técnica de narração, o tema e o enredo parecem juntar-se enquanto arranjo de linguagem e artificio cênico da mera banalidade do ato de viver: a linguagem é simples, objetivando uma aceitabilidade fácil e sugerindo o efeito comum de representação da vida enquanto dissolução do cânone maior. Ao mesmo tempo, no entanto, realçando o caráter da importância do fato para o narrador que tem na vivência do texto elaborado um motivo a mais para viver. Como pretexto de ter o que contar e lembrar. Não importa que quem narre seja deveras um escritor (no sentido de autor em alto grau), mas um narrador cônscio da sua própria fragilidade, um que se identifica (ou pelo menos pode fazê-lo) com tantos outros que pretendem também participar da ação de terem um dia narrado. Desta forma, vivência e ficção se confundem já que o gênero “meu tipo inesquecível” reproduz a verossimilhança com o vivido. E diante da extinção na contemporaneidade da experiência de narrar”, quando o ser humano está diluído no meio da multidão e se torna presa fácil da tecnologia, as vivências históricas (não mais experiências propriamente)” tornam-se ocasionais, dissolvidas nos fragmentos colhidos pelos meios de comunicação de massa. Este é o lugar da narrativas do gênero “meu tipo inesquecível”: um último refúgio que possibilite às gerações terem ainda o que e onde contar.

 O ponto de vista do narrador não é onisciente. Ele não mergulha na vida das demais personagens, que só se formam enquanto incursão cotidiana de relacionamento. Personagens opacas, portanto, sem aprofundamento psicológico. Apresentadas não em si mesmas, mas em relação às demais. Delas só se conhecem as superficialidades que estão presentes no contexto da ação. O próprio Pedro Paulo Silva é construído a partir de migalhas: pequenos detalhes aqui e ali. Assim, através de uma sugestão cênica fragmentada em episódios, o leitor vai se apropriando aos poucos de todo o enredo, o qual também é desprovido de profundeza. E as inter-relações pessoais no contexto da obra se esgotam rápido e fácil. O Piccadilly é quase que o único local de encontro. Nele os alunos da turma de Miss Simpson (sete no total) se conhecem e se entretêm como se fossem jovens adolescentes, possivelmente como um pretexto para o rompimento com o estado diurno do trabalho. As aulas noturnas de inglês funcionam, assim, como um espaço lúdico: próprio para o relaxamento e a desrepressão. Brincadeiras acontecem, num constante passar de bilhetinhos em classe, além das gozações mútuas.

 Evidente que a trama maior se dá em tomo do narrador e protagonista Pedro Paulo Silva: seu relacionamento remoto com a ex-esposa Antonieta; sua visita ocasional aos filhos quando lhes conta estórias inventadas; seu ligeiro contato com o pai e amigo advogado, alcoólatra e depois suicida, que vive com a quarta mulher, Maria de Fátima (nome artístico: Mara Regina), num apartamento em Laranjeiras; seu distanciamento da mãe agora casada “com um joalheiro careca e chatísismo”; seu encontro com o misterioso e suspeito Wan-Kim-Lau chinês, amigo de Antonieta, impregnado com a sabedoria oriental e professor de tai-chi-chuan numa academia; sua dependência por Valium antes de dormir e seu infatigável apetite sexual por mulheres movido por uma espécie de descontrole emocional baseado no desejo de livrar-se do tédio.

 Em forma de flashes momentâneos, a ação e o cenário vão se compondo, quando a narrativa se propõe a realçar a similitude com as histórias do gênero “meu tipo inesquecível”. Assim, o estilo é claro, sem maior ostentação retórica e técnica, a não ser pelo recurso utilizado na passagem em que Pedro Paulo Silva conta para o Gordo sua transa com Ana e o autor sobrepõe simultaneamente e de modo engenhoso três focos narrativos diversos. Também algumas frases de efeito aparecem: “A gente sempre morre antes da última dose” (deixada pelo pai suicida dentro de uma “garrafa quase vazia”, antes de se matar); “meu reflexo de passageiro da vida no espelho” (em conotação com a contemporaneidade); “a fragrância de um perfume na memória” (parecendo Marcel Proust); “o alvorecer das utopias” (em analogia ao sonho hippie); “A história se repetia como comédia; esperava-se que não se repetisse como tragédia” (parodiando Karl Marx).

 No interior da narrativa uma proposta intertextual aparece enquanto uso constante de um inglês básico, que aqui e ali postula do leitor um mínimo de domínio. E esse cruzamento interlinguístico deriva do Picadilly, onde, através de Miss Simpson, Pedro Paulo Silva e o resto da turma preenchem o vazio de suas próprias histórias com as aventuras vividas pelos Dickinsons, Harrisons e Jones, personagens de uma outra história; o livro didático utilizado.

 Por outro lado, as questões sociais e políticas são abandonadas ou, no mais, deixadas à imaginação do leitor enquanto apelo irônico; como exemplo, o episódio da greve no Piccadilly, ironizando maio de 68 e o movimento político brasileiro pós-64. O Matoso, um dos alunos da turma, é pego fumando marijuana no banheiro da escola e um ruidoso Mr. Higgins, o diretor, pretende expulsá-lo pois, embora fosse uma droga leve e que “se disseminara por todas as escolas”, conforme argumentara Miss Simpson assumindo a defesa dos alunos, em “- Escolas só de inglês, não -“, receoso de que “se aquilo se tomasse um hábito”, “o nome do Piccadilly (…) iria por água abaixo”. Como se fosse um ‘É proibido proibir’ a greve então é proposta. No entanto não acontece; Miss Simpson convence o diretor.

 Mas, tem-se a alusão a “um marco histórico no movimento estudantil”, ao “dinheiro da CIA no negócio”; o eco das “palavras liberty and democracy” e a ovação para que o protagonista Pedro Paulo Silva seja elevado à categoria de “líder revolucionário”. A ironia se faz presente, então, de forma completa: em seu caráter ideológico contraditório, já que estabelece um vínculo com a história ao mesmo tempo em que sugere o tema como um passado perdido. Assim, o que ocorrera em termos reais até em desprendimento (enquanto abnegação = sacrifício dos próprios interesses em beneficio de uma causa maior) torna-se agora fragmentos do passado, memória apenas de uma vivência de se ‘ter ouvido falar’.

 A partir dessa analogia intertextual entre o passado e o presente, entre a novela e as histórias do gênero “meu tipo inesquecível”, percebe-se na composição cênica de A Senhorita Simpson a vida aparecendo como o grande intertexto. Já não mais em torno de um ‘eu’ utópico, indivisível e potente enquanto projeto “liberal humanista”, mas de um ‘eu’ fragmentado e, de repente, se vê no vazio. Vale, então, a lembrança de ‘roteiros’, não mais como um enredo coeso em tomo de um princípio, um meio e um fim. Mas, enquanto possibilidade de apego a um presente de imagens meio-ambientais (natureza – indivíduo(s) – objetos) que se arranja ou se compõe como ajuntamento de estilhaços visuais: como “um tremendo pôr-do-sol sobre o mar de Copacabana”, a “porta pantográfica” do elevador, ou os “reflexos luminosos que estampavam tonalidades fantasmagóricas na pele de Miss Simpson”.

 O arranjo cênico então sugere ‘os olhos a se alimentarem de luz’, fixos na possibilidade que o meio-ambiente oferece, uma vez que o passado virou migalhas e já não há mais experiências reais para se narrar: somente vivências ou lembranças momentâneas. Neste ponto, a intertextualidade entre ficção e historiografia propõe a reflexão de que todo o jogo político do passado foi apenas um modo de constructo ideológico enquanto jogo de poder. E a identidade histórica torna-se qualidade apenas narrativa, na arte da composição. Para Pedro Paulo Silva, esse recurso significa procurar a lembrança de seu ‘tipo inesquecível’ e, conforme sugere Walter Benjamin, “começar tudo de novo”, “contentar-se com pouco”, operando “a partir de uma tábula rase’. E ele assim faz: fura uma das orelhas para “colocar nela um brinco dourado” e ao completar 30 anos estará deixando para trás não a sua juventude, mas a sua velhice, rumo à Bolívia, Peru, Cuzco e Machu-Pichu.

A senhorita Simpson é o exemplo da terceira fase do autor, onde continua fazendo exercícios metalinguísticos, mas os subordina ironicamente à história que conta. A obra transgride as próprias “convenções” do autor: o diálogo é ágil, mais “realista”, sem as massas verbais típicas da sua representação do mundo; há uma nitidez, uma luminosidade que atravessa a narrativa inteira; e, o mais significativo, no final da novela encontramos um dos raros momentos em que o narrador, com simplicidade, endossa o ponto de vista de seu personagem, entregando-se ao texto sem atravessá-lo de ironia: “Aos trinta anos, eu estaria deixando para trás não a minha juventude, mas a minha velhice”.

Créditos:
Carlos Eduardo Vieira de Figueiredo, Mestre em Literatura Brasileira, UFSC. Disponível em Passeiweb

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