Arquivo do mês: fevereiro 2009

Dalila Teles Veras (Teia de Poemas)

Vida murada

Sombrios
os muros encobrem
cidade e cidadãos
(o medo aquartelado
medo de ter medo)

Acuados
calados
diante da própria inépcia
———————————————-

Navegando

Velas à solta
minha nau enlouquecida
crava
em tua pele bravia
(gosto de alga e sal)
:
definitiva chancela

—————————————————-
Elemento em fúria

Ao pé das antigas tabuletas
grafitadas de sangue e esperma
foi desatrelada a canga
– campo de palha e fel
campesina
despiu as presunções
sobraçou as certezas
deter
minou
:
indignar-se
riscar o fósforo
centelha restauradora
– campo de figos e mel
————————————-

Paisagem

Regressar
porque se é partida e fuga
e sempre deixamos alguém à espera
É rocha e água este tempo
de areias difusas a paisagem
represada na garrafa

E o gênio à espera
à espera
de caridosas mãos que o desarrolhem
e o tornem eterno e faça-se a história

Que são os anos para quem
vive sob permanente encantamento?
Que é da existência
quando desfeita a paisagem?
————————————

Forasteiros registros nordestinos

Nordestino é feito juriti, avoa depois do tiro mesmo com as tripas de fora. Teimoso, feito pau de buriti, quantas vezes tentem afundá-lo, quantas ele vem pra riba”
Chico Boíba, lavrador piauiense

I
As sementes no solo
O homem na soleira
esperam
hipotéticas chuvas
incerta germinação

II
O feijão
no solo cristado
nega-se a crescer
o homem
amarga na soleira
a fome antecipada

III
Solitária garça
mergulha no rio
solitário homem
atira a tarrafa
fatalistas, bem sabem ambos
da incerteza do gesto
————————————————

Performance

a serena dama borda almofadas e ouve música antiga As notas do cravo de Rameau cravam verbetes em seu peito Flechas de envenenada emoção Incendeiam-se os átomos Explode o bastidor Rebentam as linhas nos nós e o sofá agora tapete mágico sobrevoa campinas e campos minados Arde a arte e o urdir é semântico Pássaro de incendiadas asas em vôo cego de sede e queimaduras
Demônios a postos Folhas em branco preparam-se Com a mesma solenidade com que há pouco bordava almofadas e ouvia música antiga a poeta modela palavras e poemas Apalpa letra a letra como faz com as laranjas e maçãs no mercado Escolhe as mais perfumadas e brilhantes Encadeia cor a cor tom sobre tom como nas linhas do bordado

soltar os nós e urdir as formas ?será da arte este eterno bordaR?
———————————————

Paisagem marítima

Os guarda-sóis, cogumelos inúteis
espalham a cor, mais nada
Mulheres-lagartas untadas
deitam-se ao largo
fritando carnes e ócio

Na embalsamada paisagem
minhas lentes – único movimento
por vezo e ofício
fotografam o avesso
em invisível translação
————————————-

Falsos haicais

entre dentes
as coisas dantes
emoções requentadas

nada além
do caminhar entre ramagens
e dos bolsos cheios de amoras

folha madura estala
sábia, a terra a recolhe
húmus para a memória
————————————

Subúrbio

corpos-húmus
em quartos-túmulos
homens
dois numa cama
dez num quarto
cem num ônibus
mil na cidade
térmitas
corpos-sem-memória
pedras-vivas
morro acima
sísifos
———————————

10 de junho

Olhos e carne a beber o verde-rubro
bandeira escancarada à emoção.

Vinho
(será ele o luso símbolo
ou o sangue que ferve e incendeia
este pendão?).

Saudade
mordendo feito bicho
feito tempo, feito chama.

Orgulho
raça amálgama de raças
cravos de abril rasgando a história
língua pátria outra para milhões

Camões
nem é preciso que o digas
nem compêndios, calendários ou cantigas
apenas o sangue a rugir em campanário
rubro lembrete
mais do que nunca hoje é dia
de sentir-se português.
————————————————–

A fotografar vidas

capturo e eternizo
com o vidro despolido
de minha Yashica
teu sorriso, teu gesto
tua vida em começo
me surpreendo com a idéia
pueril, mágica e banal
de guardar as vidas
queridas
nas gavetas
rio-me
de minha onipotência
—————————
Viuvez sem espera

Negras, as mulheres
nos verdes campos
ceifam a cor.

Curvas as foices
cortando ervas
côncavas as enxadas
cavando dores.

Negras e curvas, as mulheres
adubam com nênias a terra
em definitiva viuvez
—————————

Sol sem aço

ou relendo Mishima em clara manhã de sol
agasalhada de sol
visto a paisagem
sobrepele escandalosamente azul
contemplo
este mesmo céu de Mishima
e sei
que não haverá compensação
nem morte alguma absoluta
a justificar este momento.
agasalho-me e creio
como só quem sabe e viu
o sabre só deve ser desembainhado
a prumo
na exata medida do riscado
————————

Meu Pai – Retrato Falado

Da palavra escrita, tudo ignora
acha que ler demais faz mal
à saúde e aos olhos
(à semelhança de Caeiro
acredita apenas no que vê e vive
nas árvores, nos pássaros, na Tv)
Elegeu, durante oito décadas
algumas (poucas) verdades
imarcescíveis

Também à maneira de Caeiro
não acredita em metafísica
(aliás, ignora solenemente o termo)
mas vez ou outra, elege um Menino Jesus
que tanto pode ser o seu médico
(compreende suas dores – sábio para sempre)
alguém que lhe fale em espanhol
ou aquele que lhe diga apenas o que deseja ouvir

Na memória auditiva
preservou frases imutáveis
válidas para todas as ocasiões
(tantas vezes repetidas
até serem transformadas em verdade)

Não acredita em fantasmas
nem que o homem chegou à lua
Odeia políticos e política
(o Presidente é o culpado por tudo)

No plano dos afetos
os pais e os irmãos
a primeira namorada
a companheira definitiva
os filhos e os netos
dois ou três amigos de infância
(nenhum na velhice – já morreram todos)

Algumas (poucas) paixões:
fotografar
conduzir automóveis
criar passarinhos
vangloriar-se de seus (ingênuos) feitos

Não aceita que lhe falem da velhice
(nenhuma de suas mazelas, acredita,
dela é decorrente)

Um homem frugal
de pensamento concreto
(o que nós vemos das cousas são as cousas)
O mundo resume-se
à sua ética particularista e particularíssima
(o mundo – e o corpo – como vontade)
—————

Fontes:
VERAS, Dalila Teles. Lições de Tempo. SP: Pannartz,1983.
VERAS, Dalila Teles. Inventário Precoce. SP: Pannartz, 1983.
VERAS, Dalila Teles. Elemento em Fúria. Teresina, PI: Academia Piauiense de Letras, 1989.
VERAS, Dalila Teles. Forasteiros Registros Nordestinos (plaquete). SP: Livrespaço, 1991.
VERAS, Dalila Teles. A Palavraparte. SP: Alpharrabio, 1996.
VERAS, Dalila Teles. Madeira: do Vinho à Saudade. SP: Alpharrabio, 1997.
VERAS, Dalila Teles. À Janela dos dias – poesia quase toda. SP: Alpharrabio, 2002

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Dalila Teles Veras (Poesia Madeirense)

A atividade literária na Ilha da Madeira, ou Região Autônoma da Madeira, como preferem chamá-la os seus habitantes, é intensa, contando hoje com uma vasta bibliografia, muito especialmente na poesia.

Difícil seria, nesta breve notícia sobre a poesia na Madeira, estudar com o rigor exigido esse conjunto de obras e classificá-las como literatura madeirense, posto que esse é um terreno escorregadio de polêmicas que, volta e meia, sobem à superfície fazendo patinar quem por ele transite.

A questão sobre a existência ou não de uma literatura madeirense persiste, inclusive, entre os próprios escritores locais e, colocada em mero posto de observadora, limito-me a falar dessas anotações.

Examinemos alguns trechos retirados de comunicações apresentadas no I Encontro Regional de Escritores, realizado no Funchal em 1989:

– Irene Lucília cita Agustina Bessa Luís que escreveu: “A Madeira tem plantações de romance como bananais e vinha jaquet. É um nunca mais acabar de personagens, situações, vidas e histórias que não se entende o silêncio das letras acerca delas”. Polemicamente, a própria Irene acrescenta: “Tudo está ali. A obra feita. A ilha viva, autêntica deslumbrante e mágica, obsessiva e dominadora, não precisa de ser recriada por mecanismos de ficção. Por si só, em corpo real ela basta à paixão, preenche os escaninhos do prazer, avassala até à saturação e ao confrangimento”, concluindo com uma nova citação de Agustina, que “a paixão dos lugares tornou-se (…) universal fato de paralisia do trabalho”. Interessante observar que, apesar dela mesma, Irene, ser uma eterna exaltadora dessa “ilha viva”, aponta esse mesmo detalhe também como fator paralisante da criação intelectual. O que, neste caso, convenhamos é um pouco de exagero céptico.

Já o poeta Carlos Nogueira Fino, assume, sem nato ser, a sua insularidade e os seus resultados literários: “O que somos desenha-se do mar a sulcos íngremes: um canto chão perante a majestade antiga dos navios; uma impressão de asas vagarosas sobre o céu do silêncio; (…) Aqui nascemos, ou aqui chegamos, com raízes precárias. Elas se encarregam de crescer por nós em busca do que somos. Deixai crescer, portanto, o chão de onde brotamos, universal pela razão das árvores, até fazer-se a voz que nos revela.”.

Pragmático, o escritor João Dionísio coloca: “com a consagração constitucional da Autonomia, ou a transformação da Ilha da Madeira em Região Autônoma da Madeira, “surge a literatura da Região Autônoma da Madeira”. Anteriormente a esse fato histórico, diz ele, “a literatura madeirense ou da Madeira pertence à literatura portuguesa, como qualquer outra literatura escrita por portugueses. (…) Podemos dizer, agora, que somos a outra gente da literatura portuguesa, com os nossos amores e desamores, mas, sobretudo, com a nossa realidade. Somos a outra gente para sermos a mesma gente da literatura portuguesa. Mas, com uma diferença em relação aos nossos antepassados: eles tiveram a Independência, nós temos a Autonomia. O que significa: somos da literatura portuguesa e somos uma literatura da língua portuguesa. Trazemos, portanto, para a História da Literatura Portuguesa a nossa diferença econômica, social e política, isto é, um ponto de vista literário sobre as estruturas. E, ao enriquecermos a História da Literatura Portuguesa enriquecemos, também, a outra vertente: a História da Literatura de Língua Portuguesa. Em resumo: a partir da data e do fato autonômico, começamos a construir a História da Literatura Madeirense.”

Polêmicas e rótulos à parte, não fica difícil observar que a condição insular, os fatores geográficos e culturais específicos (“o homem fechado sobre si mesmo e, simultaneamente disperso no infinito“, conforme Ferreira de Castro, escritor fascinado pelas pequenas ilhas sobre as quais tanto escreveu), acabam por emprestar ao povo madeirense uma feição cultural muito própria e que, inegavelmente o distingue dos demais portugueses, tanto no seu modo de ser e de estar quanto na sua própria visão de mundo. Isso, é claro, é tema para estudioso de antropologia social, mas, de alguma forma, é fácil observar que esses fatores acabam refletidos também na maneira do madeirense se expressar literariamente e, assim, torna-se matéria de análise sócio-literária.

No nosso cômodo ponto de vista de observadores, essa condição insular refletida no imaginário ilhéu, só fez por enriquecer a literatura produzida na Madeira, emprestando-lhe uma singularidade que a eleva a presença marcante e reconhecível no cenário da literatura de língua portuguesa.

A poesia contemporânea portuguesa de maior expressividade, conta com pelo menos três poetas nascidos na Madeira, Herberto Helder (Funchal, 1930) considerado um dos maiores poetas portugueses da atualidade, José Agostinho Baptista (Funchal, 1948) e José Viale Moutinho (Funchal, 1945) este, dono também de uma extensa obra em prosa, além de Natália Correia e de Sophia de Mello Breyner Andresen, elas também das ilhas, mas dos Açores.

Esses poetas, contudo, por terem alcançado uma posição de destaque no cenário literário português e europeu, não são rotulados como “poetas das ilhas”, “madeirenses” ou “açorianos”, são simplesmente poetas portugueses, como deve ser. Apesar de viverem (viveu, no caso de Natália), fora das ilhas (melhor seria dizer que eles apenas “nasceram” nas ilhas, não se “fizeram” nelas) trazem, aqui e ali, na sua gênese mais profunda, esses fatores de que falamos, ainda que, admitamos, apenas por conta do atavismo.

O que é notável é que a Ilha ainda lhes marca a memória e a palavra, como bem o demonstra este poema de José Viale Moutinho:

ANTIMEMÓRIA COM FUNCHAL
ao Manuel Freire

havia asas pelo corpo sobre os mapas do mar
e a coberto da ilha e da espada cravada
no mais distante rochedo de qualquer praia
de súbito matou a sua primeira gaivota

a guerra aproximava-se do fim era junho
e nunca mais coltaria à casa submersa
persianas corridas rendas de latas verdes
que o homem da música lhe traria numa caixa

morria-se de dentes podres deslizando montes
alguns silêncios se descobriam pelas mãos
e os olhos adoeciam noutra costa distante
de barcos e de redes de rostos encardidos

sem saudade nem reconhecimento do luto
moviam-se as raízes sobre as águas lodas
suposto país que se formara no profundo
e aí reinava o inventado el-dom sebastião

Há, no entanto, um grupo de poetas, nascidos ou residentes na Madeira, que optaram por lá permanecer e dali passaram a impor a sua singular poesia ao próprio Portugal que, é preciso que se diga, ainda olha com certo desdém e desconfiança tudo que não venha do Terreiro do Paço de Lisboa (“as muralhas da continentalidade que tão ínfimo interesse revelam em favor da cultura portuguesa insular”, no dizer do sempre inflamado e competente poeta José António Gonçalves.

A escritora Natália Correia, em prefácio à coletânea Ilha 2, 1979, assim refere-se à poesia madeirense: “Despojai-vos da presunçosa cornada e vinde à Ilha. O continente encerra-vos? Fecha-vos as idéias em inquiridos de antolhadas teorias? Entendei que a poesia é superação do continente. Conteúdo fervente. Como a Ilha, contida. Mas pela animação perpétua do mar. A vida sempre a surgir da água, Madre Marinha. (…) Fechai vossos guichets de bancários da estese e vinde à Ilha. Aqui a poesia é grátis. A criação revela-se geneticamente insular. Daí serem as Musas originariamente aquáticas.”. Natália, como se vê, confirma a marca “genética” da insularidade dessa poesia e exalta, em alto e bom som, a sua qualidade.

O fato de apontarmos essa marca insular na poesia dos madeirenses não significa estarmos, em nenhuma hipótese, a nos referir a qualquer idéia estética de regionalismo, mas, antes, a uma poesia que, no seu conjunto, apresenta uma facies própria que a identifica pelo particular e que, por seus méritos, a coloca na universalidade exatamente pela coragem de ser regional.

Se o Brasil mal conhece a literatura contemporânea portuguesa depois de Eça e Pessoa, que dizer dessa poesia, ainda pouco conhecida em seu próprio país, com um imenso mar a isolá-la e a separar-nos?

Trazer, portanto, a um encontro de língua portuguesa um pouco da poesia feita na madeira é apenas um gesto de tentar (re)unir e (inter)cambiar os poetas e a cultura que o mar separa e que os convênios e acordos oficiais não consegue aproximar. Daí o fato de ser esta apenas uma breve notícia da poesia na Madeira, trazida por uma leitora atenta, desvestida dos méritos acadêmicos para uma análise mais adequada a uma comunicação.

Dentre os muitos poetas madeirenses da atualidade, selecionamos os nomes de José António Gonçalves, Irene Lucília, Carlos Nogueira Fino, José de Sainz-Trueva, Ângela Varela e Maria Aurora Carvalho Homem, não só por sua representatividade dentro do atual panorama poético madeirense, como também por terem merecido o justo destaque da própria crítica portuguesa e, finalmente, por concordarmos com a excelência de suas obras.

Pequena bibliografia e breve antologia da poesia madeirense:

José António Gonçalves – Nasceu em São Martinho, Funchal, Madeira, em 13 de junho de 1954. Escritor e jornalista. Presidente da Direção da Associação da Escritores da Madeira, da qual é um dos fundadores, membro da Associação Portuguesa de Escritores, Coordena o movimento Ilha e dirige e edita a coleção Cadernos Ilha
Publicou: Poesia – É Madrugada e Sinto, 1974; Pedra-Revolta, 1975; 20 Textos para Falar de Mim, 1988; Antologia Verde, 1991; Os Pássaros Breves, 1995; Tem o Poder da Água (obra poética 1973-1995), 1996, À Espera dos Deuses, 1999; Giacomo Leopardi e o Suave Desprendimento do Infinoto, 1999; A Aventura na Casa dos Livros, 2000; Lembro-me desses Natais; 2000. Ficção – Réstea de Qualquer Coisa, crônicas, 1973; Organizou e integrou as antologias Ilha, 1975; Ilha 2, 1979; Ilha 3, 1991; Ilha 4, 1994; O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses, 1989; Poet´Arte 90, 1990; Poesia na Ilha, 1991; Crônicas do Norte, textos de Horácio Bento de gouveia (seleção, organização e prefácio de sua autoria), 1994. Filmografia – Açores Outono (documentário), 1978; Madeira – Bordado de Sonho (documentário), 1980; Ora… o Mar (conto – teledramático), 1988; Retratos da Madeira, (série biográfica, 6 episódios), 1989; Canto da Ilha (Programa do 20º aniversário da RTP-M), 1992; e O morto, 1994.

PÔR-DO-SOL
para Virgílio Higino Pereira

Este é o mar que se veste de vermelho,
convidado pelo ocaso do poema
para o baile do fim do dia.

Ei-lo à distância, abraçando a periferia
de um olhar que se perde nas falésias,
sorridente na brevidade da sua figura.

Poderia o ilhéu dar o salto inconsciente,
entregando-se ao sal rosado do seu vestuário,
curioso por provar a água do seu bordado.

Porém, resguarda-se no calor da terra,
pisando a ilha com a carne da sua loucura,
acorrentado às ervas que nascem no recolher das casas.

E suspira, como um anjo esquecido
na multidão solitária que percorre as ruas,
perguntando pelo lugar onde descansam as suas asas.
(in Aventura na casa do livros)

Irene Lucília – Irene Lucília Mendes de Andrade, é natural do Funchal (1938). Licenciada em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Professora de Educação Visual. Desenvolveu diversificada atividade, como produtora de radio, autora de textos para a infância e no domínio das artes plásticas participou em vários exposições na Madeira e nos Açores. É membro da Associação de Escritores da Madeira.
Publicou: Poesia – Hora Imóvel, 1968; Histórias que o Vento Conta, 1979; Palavras que Levo em Viagem, in Ilha 2, 1979; O Pé Dentro D´Água, 1982; Ilha Que é Gente (cantigas), complementado com um disco single, 1986; “A Mão Que Amansa os Frutos”, 1990. Sobre a Memória deste Dias, in Ilha 3, 1991; Amargo é o Estar do Tempo, in Ilha 4, 1994. Romance – Angélica e a sua Espécie, 1993. Está representada em várias antologias. Tem colaboração dispersa por vários jornais e revistas.

Sete partidas

1 a boca curta
2 o timbre inútil
3 alguns percursos inviáveis
soterrados
sob o peso deslumbrado dos asfaltos
4 intentos e caminhos reduzidos
a um tráfego de cansaços e esquecimento
5 a ilusão horizontal dos olhos
rasando a virtude da água
6 a dolorosa porção de espaço
perimetria do espasmo e dos espantos
enorme convulsão
entre o silêncio e a fábula
7 o gesto insuficiente do coração
entre o mar e o mar como se
mais mundo não houvesse e só
os territórios interiores
fatigados duma melancólica geografia.

as sete partidas duma viagem inflexível
quedam-se à volta de muitas raízes
e duma dramática sedução de flores
onde a luz quebra o viço generoso das sombras
e reforça a intensidade fátua dos perfis suspeitos.
(in Amargo é o Estar do Tempo, Ilha 4, 1994)

José de Sainz-Trueva – nasceu em São Gonçalo, Funchal, a 9 de junho de 1947. Membro da Direção da Associação de Escritores da Madeira e Associação Portuguesa de Escritores entre outras associações. Chefe de Divisão de Proteção ao Patrimônio Cultural da Direção de Serviços do Patrimônio e Atividades Culturais.
Publicou – Espaço na Relva, in Ilha 2, 1979; Entre os Olhos, in Ilha 3, 1991; Musa Grata, in Ilha 4, 1994; está representado em inúmeras antologias; Tem publicado textos de investigação sobre temas madeirenses nas revistas Atlântico, Islenha, Girão e no suplemento do Diário de Notícias do Funchal, bem como colaborou em várias outras publicações.

De um só golpe
um anjo decepado
afunda-se na lama
o nó aperta
esfuma-se a restinga
imóvel rosa dúctil
virada do avesso
secura e culpa
ao fim de cada hora
o que te faço?
vibra
escasso amor
é laço é ferida em carne viva
(in Entre os Olhos – Ilha 3, 1991)

Mais secreto é o dia
rio livre
sem lei

como um vulto na rua

de
sombra e
sol

sem
certeza de
nada bravo como um
touro
(in Musa Grata, Ilha 4, 1994)

Carlos Nogueira Fino – Nasceu em Évora em 25.11.50. Reside na Madeira desde dezembro de 1959. Mestre em Educação (análise e organização de ensino). Docente na Universidade da Madeira. Deputado à Assembléia Legislativa Regional. Membro da Associação de Escritores da Madeira e da Sociedade Portuguesa de Autores.
Publicou – XXIII Poemas de Ilhamar, 1987 – prêmio Leacock 87); Simbiose, 1988, de parceria com o escultor Celso Caires; Este Cais Vertical, 1989; Iniciação à Luz in Ilha 3, 1991; Contemplação do Olhar, 1992; (Pre)Meditação, 1992; Alquimias, in Ilha 4, 1994

a ambigüidade não é a que insinua
no cerne das palavras o corte
com as coisas

mas esta saliência na significação das árvores
onde assentamos a aparência da imobilidade

entretanto pulula
na dissolução das folhas
a azáfama do solo
0o0

mas não direi estas palavras
sem abri-las por dentro
como te abro e me revelo
para conhecer-te

o gérmen do teu nome inscrito
no meu nome
(in (PRE)MEDITAÇÃO)

Ângela Varela (de seu nome completo, Ângela Maria Varela Miranda Rodrigues), natural da Ilha da Madeira, Camacha, é licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, com a dissertação O Poema em Prosa na Literatura Portuguesa. Lecionou no Ensino Secundário em Paris, no Funchal, em Oeiras e na Escola de S.João do Estoril onde é professora efetiva, além de ter exercido o cargo de Leitora de Português na Universidade de Estrasburgo (França). Prepara tese de Doutorado sobre a poética do “poema em prosa”.

Publicou: Espaços de Passagem, in Ilha 3, 1991; Corpo – Ilha, in Ilha 4, 1994. Tem publicação dispersa de ensaio e (ou) poesia nas revistas Colóquio/Letras e Sílex, de Lisboa, Nova Renascença, do Porto, Atlântico, da Madeira e Nordès, de Vigo, bem como em jornais da Madeira e Lisboa. Publica crônicas no Diário de Notícias do Funchal

A Fala das coisas

Olhar. Olhar apenas: o mar soprado sobre a terra a olhar.
As nuvens boiam no balão do espaço – bolhas no vidro.
O muro é branco – agudamente branco. O ângulo da perna
branco encaixa no fundo azul.

Mancha. Massa apenas. Abafa o som de todas as palavras.
Deixa que as coisas falem sem filtro – com a voz do olhar.

Corpo Mineral

As casas-cavernas talhadas na rocha. O sol a penetrar nos
poros da pele. A espuma a golfar das cavidades do nariz,
da boca.

Maré-cheia os olhos-linha de horizonte.

Os cabelos-algas boiando. O perfil de pedra, lavado
no fluxo das águas salgadas. O musgo do corpo descarnado
do calor animal, do sopro vegetal:

no reino mineral a escavar-se.
(in Ilha 4, 1994)

Maria Aurora Carvalho Homem – Nasceu em Beira Alta, radicada na Madeira desde 1974. Cursou Filologia Românica na Universidade de Coimbra. Foi jornalista em A Capital e Diário de Lisboa. Produziu programas infantis na televisão portuguesa, ganhando o prêmio de Imprensa em 1968, como melhor apresentadora de Televisão. Na Madeira, entre outras atividades, foi professora, coordenadora da revista Margem, fez rádio e televisão, com destaque para o premiado programa “Letra Dura & Arte Fina”.
Publicou: Raízes do Silêncio, 1982; Ilha a Duas Vozes (com João Carlos Abreu), 1988; Vamos Cantar Histórias (infantil, 1991; Juju, a Tartaruga (infantil), 1992; A Santa do Calhau (contos), 1993; Cintilações (poesia sobre aquarelas de Mellos), 1995 e Para Ouvir Albinoni (contos), 1995, além de estar antologiada em várias publicações.

UM JEITO DE DIZER SOLIDÃO

A palavra não chega a ser murmúrio
Mastigo-a na sombra a intervalos breves:
é um dizer silencioso
um tempo sem rosto
uma ausência presente em cada gesto.
A palavra viaja no meu corpo
prendo-a na franja dos olhos
corrompe a limpidez da distância
na precisão incolor dos dias.
É cardo, gume, alfazema e jasmim.
Persigo-a neste gesto de quem quer.
A palavra é este olhar de tudo cheio
este cheiro de noite
este acaso de nada
adágio sufocado em catedral vazia
vôo raso de pássaro vadio.
A palavra tem rosto de mulher
olhar de noiva eternamente virgem
é a pele que me veste cada dia
e que me despe à noite devagar.
Faço-a minha na ternura calada
de quem desfolha rosas no outono.
Caladas nos dizemos:
amantes confessados

Fonte:
Comunicação apresentada no III Encontro Luso-Afro-Brasileiro de Língua Portuguesa – Literaturas e Comunicação Social, Faculdade Casper Líbero, SP, Capital, em maio 2000. Este texto consta do Anais do referido encontro, publicado em 2 volumes, pela Imprensa Oficial do Estado/Faculdade Casper Líbero, em 2001.
http://www.dalila.telesveras.nom.br/

Foto de Pedro Gaia = http://olhares.aeiou.pt/

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Dalila Teles Veras (1946)

Dalila (Isabel Agrela) Teles Veras, natural do Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, (1946), emigrou com a família para o Brasil (São Paulo, Capital), em 1957. Em 1972, após seu casamento com o advogado e escritor Valdecirio Teles Veras, radicou-se em Santo André, cidade onde nasceram suas três filhas, Carolina, Isabela e Alice, na qual reside até hoje.

Publicou mais de uma dezena de livros, nos gêneros poesia, crônica e o livro “Minudências”, um diário do ano de 1999. Participou de inúmeras antologias no país e no exterior. Possui trabalhos (artigos, ensaios e textos literários) publicados em jornais e revistas de todo o país e do exterior.

Assinou, de 1995 a 1999, a coluna semanal Viaverbo, no Caderno “Cultura & Lazer” do Diário do Grande ABC.

É filiada à União Brasileira de Escritores, entidade onde ocupou os cargos de Secretária Geral, Diretora e membro do Conselho, nas gestões de 1986/88, 1990/92 e 1994/96.

Fundadora do Grupo Livrespaço de Poesia (1982-1993) que manteve intensa atuação na divulgação da poesia e publicou 5 coletâneas. Foi uma das editoras da revista literária Livrespaço, ganhadora do Prêmio APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, como melhor realização cultural de 1993.

Animadora cultural, há mais de três décadas colabora na organização de cursos, seminários e congressos. É freqüentemente convidada a proferir palestras e participar de debates em Faculdades e instituições culturais, bem com a assessorar e criar projetos literários, como ciclos de debates, exposições, mesas redondas. Participou de dezenas de concursos como integrante do júri.

Participou, como convidada da UNESCO, do Colóquio Imprensa de Língua Portuguesa no Mundo, realizado em junho de 1991, em Paris, com a comunicação “A Imprensa Alternativa no Brasil como resistência cultural”. Coordenou dezenas de oficinas de criação literária, dentre as quais, “O Laboratório da Paixão”, na Oficina da Palavra, Casa Mário de Andrade, SP.

Participou do Projeto “O Escritor nas Bibliotecas” (1993/1994) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, bem como do Escritor 96 – promovido pela mesma Instituição.

Eleita “Intelectual do Ano”, 1997, no Prêmio Capital, instituído pelo Jornal cultural O Capital, de Aracaju – SE.

Desde 1992 é diretora-proprietária da Alpharrabio Livraria e Editora, em Santo André, SP, referência cultural na região, onde promove constante atividade voltada para a difusão da cultura, das artes e o debate de idéias no Grande ABC. Dirige a Alpharrabio Edições, chancela que já publicou mais de 70 títulos e edita o jornal literário “Abecês”.

Dentro os inúmeros projetos sob a sua direção e produção, destaca-se o projeto “7 Anos 7 Cidades – Culturas”, comemorativo aos 7 anos da Livraria Alpharrabio (1999) que durante 7 meses dedicou um mês a cada uma das cidades da Região do Grande ABC, mostrando diversos artistas e discutindo aspectos da cultura de cada uma delas. Desse projeto participaram diretamente mais de 100 pessoas (artistas, produtores e pessoas ligadas à cultura regional), merecendo enorme destaque na imprensa e menção honrosa das Câmaras Municipais das Cidades de Santo André, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires.

Organizou, em parceria com Luzia Maninha Teles Veras, o livro “Alpharrabio 12 Anos – Uma história em curso” (Alpharrabio Edições, 2004, 346 pgs.), minucioso levantamento de mais de 500 atividades e inúmeras transcrições debates, todos desenvolvidos na Alpharrabio Livraria e Editora.

Colaborou, como curadora da área de literatura, do evento Plataforma ABC, em três diferentes edições, bem como do PALAVRAPONTOCOM, promovidos pelo SESC, unidade São Caetano do Sul.

Foi responsável por uma página literária nos Cadernos CEAPOG (Centro de Estudos de Pós-Graduação), publicação semestral do IMES – Instituto Municipal de Ensino Superior de , em 12 números daquela publicação.

Em 2000 a revista Livre Mercado outorgou-lhe o Prêmio Desempenho de Empreendedora Cultural.

Em 2004 a Câmara Municipal de Santo André outorgou-lhe o título de Cidadã Honorária.

Livros publicados:

Poesia

• Lições de Tempo. SP: Pannartz,1982 (2ª ed., 1983).
• Inventário Precoce. SP: Pannartz, 1983.
• Madeira: do Vinho à Saudade. Col. Cadernos Ilha. Funchal, Madeira (Portugal): José António Gonçalves editor, 1989 (2ª ed., fac-simile, SP: Alpharrabio Edições, 1997).
• Elemento em Fúria. Teresina, PI: Academia Piauiense de Letras, 1989.
• Forasteiros Registros Nordestinos (plaquete). SP: Livrespaço, 1991.
• Poética das Circunstâncias (plaquete). SP: Alpharrabio Edições, 1996.
• A Palavraparte. SP: Alpharrabio Edições, 1996.
• À Janela dos dias – poesia quase toda. SP: Alpharrabio Edições, 2002
• Vestígios. plaquete, edição fora do comé}rcio, 200 exemplares numerados e rubricados pela autora, Alpharrabio Edições, 2003
• Poesia do Intervalo. poemas, com desenhos de Guedo Gallet, livro de arte (Alpharrabio Edições, 2005, 200 exemplares numerados e rubricados pelos autores.
• Solilóquios. plaquete, 200 exemplares numerados e rubricados pela autora, Alpharrabio Edições, 2005
• Pecados. caixa artí}stica, publicada por ocasiã}o da comemoração dos 60 anos da autora, com 7 poemas ilustrados em 7 pranchas pelos artistas André Miranda, Constanç}a Lucas, Guedo Gallet, Mariano Amaral Neto, Perkins T. Moreira, Ricardo Amadasi e Sian, 200 exemplares, numerados e rubricados pela autora, Alpharrabio Edições, 2006
• Retratos Falhados, Coleção Ponte Velha, Editora Escrituras, 2008

Prosa
• A Vida Crônica (crônicas). SP: Alpharrabio Edições, 1999.
• As Artes do Ofício – um olhar sobre o ABC (crônicas). SP: Alpharrabio Edições, 2000
• Minudências (diário). SP: Alpharrabio Edições, 2000.

Fonte:
http://www.dalila.telesveras.nom.br/

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Entrevista com Dalila Teles Veras

Entrevista concedida ao escritor Floriano Martins

FLORIANO: Comecemos falando da ponte existente entre o nascimento em Funchal e a residência brasileira em São Paulo. De que maneira as variações nessa paisagem cultural – do insular ao continental – foram aguçando os sentidos do poeta?

DALILA Ninguém cruza a linha do Equador impunemente. Atada à cinta, a carga atávica, heranças avós das quais dificilmente nos desvencilhamos. Ante a impossibilidade do retorno é preciso render-se e assimilar a cor circunstancial e, do sal recolhido na travessia, temperar esse novo viver. Para além do Bojador, a dualidade se faz presente, o sentido agudo de ser estrangeiro. Não são mais os mares que começam, mas terras que nunca se acabam. As raízes, veias abertas, passam a receber influências novas, convívios outros, determinando nova visão de mundo e, claro está, que isso irá refletir lá adiante nos sentidos da poeta.

FLORIANO: O convívio com duas tradições líricas sensivelmente distintas, como o são a portuguesa e a brasileira, imagino também deve ter sido um aspecto bastante enriquecedor em tua formação. Paralelo ao enriquecimento como convivias com a percepção do abismo que separa ambas as tradições?

DALILA: No Brasil, aportada ainda menina e tendo aqui completado minha escolaridade, talvez a primeira percepção tenha sido a de que, em tese, a língua era (quase) a mesma, mas a práxis cultural não.
Cresci ouvindo minha bisavó materna recitando Bocage e Camões, e minha mãe valendo-se das trovas populares para celebrar todas as ocasiões. Bebi de todas as tradições, portuguesas e brasileiras, desde o lírico Augusto Gil e sua balada da neve, que aos 9, 10 anos, declamava com paixão nas festas escolares no Funchal e, já no Brasil, os românticos brasileiros, como Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Castro Alves, que li com devoção na adolescência. Os portugueses modernos descobri por minha conta e risco, já em terras brasileiras. Pessoa em primeiro, um mergulho do qual necessitei muito tempo para emergir e, enfim, poder nadar por outras águas.
Na minha memória de leituras não há uma percepção desse possível abismo entre as duas literaturas, antes, uma fusão, como foi a vida, amalgamada pelo sincretismo cultural. Isso se refletiu, inclusive, num aspecto conceitual no que concerne à minha “nacionalidade literária”. Quando da minha opção pela palavra como ofício, enfrentei outro dilema: não era possível ser uma escritora portuguesa escrevendo como brasileira. Apazigüei-me, considerando-me uma escritora brasileira que nasceu em Portugal. A língua como a pátria possível.

FLORIANO: No diálogo com essas duas tradições, há algumas particularidades que tenham alcançado uma mais alta voltagem em termos de afinidades estéticas? Não me refiro exatamente a autores, mas sim a aspectos de linguagem. E também quero que te sintas livre para aqui mencionar outros focos apaixonantes e mesmo influentes, não somente em termos de ambientação Brasil-Portugal e menos ainda exclusivamente literários.

DALILA: Em termos de afinidades estéticas, a pintura talvez tenha sido a que primeiro se estabeleceu, como até hoje tem sido. Ao tempo que lia os românticos, encantava-me com os impressionistas, queria, àquela época, atingir uma escrita diáfana, uma realidade “borrada” como nos jardins de Monet, mas a tentativa poética não passou de um “borrão” mesmo. A minha poesia muito tem dialogado com a pintura, em especial com a de Constança Lucas, Hugo Gallet, Ricardo Amadasi, André Miranda, Mariano do Amaral Neto, Sian, Perkins T. Moreira, pintores/escultores, meus contemporâneos, que admiro e com os quais já realizei trabalhos conjuntos.
Quando de minha tomada de consciência estética, vi-me diante do impasse em que se meteu toda a poesia depois dos anos 50 no Brasil: filiar-me a grupos com (ainda) severas imposições canônicas, nas quais a poesia deve cumprir um papel formal exacerbado, os chamados poetas-críticos, o que, absolutamente, nunca foi minha vocação, ou buscar uma voz que encontrasse o equilíbrio entre a pesquisa formal e a emoção como sua dimensão humana.
Todas as escolas fizeram de mim uma poeta sem escola nem geração, mesmo porque penso que a segunda metade do século XX não formou gerações literárias, mas vozes, em muitos casos, dissonantes, que retiraram da tradição, do modernismo e das vanguardas apenas aquilo que mais lhes interessou.
Acredito, entretanto, que essa aparente insubordinação de não pertencer a “escolas” não exclui o fato de se estar ligada, em termos de linguagem, a uma determinada “corrente literária” que, a meu ver, estaria representada por uma certa marca ou parentesco planetário.
Nestes 25 anos de exercício poético, sem deixar de experimentar outras possibilidades de dicção e linguagem, venho perseguindo o caminho da concisão, a busca da densidade de significados em versos cada vez mais econômicos.

FLORIANO: Transcendência singular e evocações de intenso caráter de consagração convivem, em tua poesia, com uma leitura cosmopolita de aspectos memoriais e visão crítica. Há um interlocutor almejado por um plano estético? Com quem buscas dialogar?

DALILA: Desde os meus 11 anos de idade que vivo numa metrópole. Sou, portanto, um ser urbano, com pouca possibilidade de refletir a natureza que não tenha sido transformada pelo homem. Tento, de dentro do olho desse furacão, refletir essa realidade complexa que é a da cidade moderna e as minúcias do seu cotidiano, onde velocidades incompatíveis com a natureza humana não mais permitem o direito ao silêncio, ao ócio ou à própria reflexão. Não tenho propriamente uma intenção em transcender essa realidade, mas transformá-la em outra realidade, espelho do espelho, o que não exclui uma dose memorial, recriada, já que não há verdade nas memórias, ainda que também acredite que o esquecimento pode ser repositário delas, caixa de Pandora, à espera que alguém a destampe.

FLORIANO: Estatísticas irrefutáveis alertam para um quadro perigosamente agravado ao longo do tempo, que é o índice de leitura per capita do brasileiro. Evidente que não se pode esquecer que aí também se revela uma condição intelectual do país, ou seja, também nossos intelectuais lêem abaixo do sustentável. Entenda-se, ao menos teoricamente, por condição intelectual aquela que abriga tanto o universo literário (autores e críticos, por exemplo), como clero, imprensa, academia e casta política. O resultado dessa cadeia viciosa é uma espiral cuja expansão se dá sempre em sentido degenerativo. Como se pode romper com isto?

DALILA: A escola precisa voltar a priorizar a leitura e estimular a pesquisa e o pensar, única maneira de formar cidadãos que possam fazer escolhas. O ensino optou por “instrumentalizar” o cidadão para o mercado, deixando de lado a cultura humanística, única capaz de transformar, de preparar cidadãos para o discernimento. Como disse Edgar Morin, “o conhecimento racional, empírico e técnico deve conviver com o simbólico, o mítico e o poético”. A pessoa que lê não reproduz, mas pensa e cria, toma decisões. Vive-se na era do simulacro e do fragmento, onde a lei do mais “fácil” impera. O conhecimento, que advém da leitura, requer esforço, dá trabalho. Será preciso uma verdadeira brigada pró-leitura, diante da concorrência e da facilidade enganosa que o advento da Internet incutiu nos mais jovens, a ponto de se achar que livro é coisa do passado, que a Internet é o melhor meio de “estudo” e que basta clicar no “Google” para encontrar, imprimir e entregar, prontinho, ao professor, qualquer pesquisa, sobre qualquer assunto, sem a necessidade de nem mesmo ler o que se imprimiu. A leitura não poderá ficar de fora dos grandes debates atuais. É uma questão irrenunciável que deverá obrigatoriamente se transformar em uma estratégia para uma revolução que deve passar pelo intelecto e pela vontade política.

FLORIANO: Tua integração ao ambiente da produção cultural em São Paulo possui uma conotação talvez ainda não corretamente avaliada, desde as atividades em torno do grupo Livrespaço até a criação deste espaço nobre de produção e difusão literária que é a Livraria e Editora Alpharrabio. Qual a tua percepção deste caso incomum entre brasileiros, de alguém que é essencialmente escritor e se desdobra em uma aventura de abrir condições editoriais e de circulação para seus pares e gerações mais jovens?

DALILA: De fato, são poucos os que se dedicam à “disseminação” e ao debate da cultura e esses estão divididos em duas categorias: aqueles ligados à chamada cultura do espetáculo, que dependem de patrocínios e da lógica do mercado para circular. Além disso, e por isso mesmo, encontram facilidades com leis de incentivo, patrocínios, etc.; a segunda categoria, se é que se pode chamar assim, é a dos abnegados, que, por vocação pessoal ou por uma lei não identificada, dedicam-se às causas da cultura e da arte, quixotes urbanos, numa sociedade que pouco está se importando para o que não represente entretenimento, moda ou lazer. Sempre tive a convicção de que todo escritor deveria ir além do papel, ou seja, exercer também “outros papéis”, entre eles o da solidariedade entre seus pares e, sobretudo, a contribuição para a promoção da leitura. Essa foi uma das preocupações do grupo Livrespaço, contribuir para a formação de leitores de todas as maneiras possíveis. Sou uma editora de circunstâncias. Jamais obtive qualquer resultado financeiro com aquilo que publiquei. Publico por um desejo que chamo de utopia da página impressa. Jamais fui movida a metas, como mandam as leis empresariais, mas a inquietações e, no caso da edição, publico aquilo que me seduz, que acredito tenha possibilidades de permanecer como literatura e também, em alguns casos, pelo prazer de ver um escritor em seu momento de nascimento para, depois, como já aconteceu, vê-lo trilhar caminhos que sejam reconhecidos.

FLORIANO: O convívio com a prosa (crônicas, diário, crítica esparsa), de que maneira interfere em tua poesia?

DALILA: A transversalidade cultural, as identificações no lugar da identidade, talvez seja a marca do nosso tempo. O diário continua sendo uma prática, tentativa de aprisionar os dias. Dele e de todos os outros textos, por vezes me acontece identificar uma frase como verso e que acaba se transformando em cerne de um poema. Como também me acontece ao contrário, ou seja, de um verso, construir uma crônica.

FLORIANO: Dos livros todos reunidos em À Janela dos Dias até a presente edição, podemos falar em saltos, abismos, conseqüências ou alguma outra avaliação mais pertinente?

DALILA: Acredito que não haja nenhum salto, mas talvez a confirmação de uma certa “dicção” que ali já estava presente, assim como também uma retomada do poema em prosa, onde resvalo pelo discursivo mas que, assim como em A Palavraparte, que é de 1996, impõe-se como condição dentro da proposta temática, neste caso, os “retratos”.

FLORIANO: Esquecemos algo?

DALILA: Sempre haveria algo a dizer, mas também o calar pode vir carregado de significados que poderão ser descobertos, assim espero, pelo leitor dos poemas.

Fonte:
VERAS, Dalila Teles. Retratos Falhados. Ed. Escrituras, 2008. prefácio.

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João Cirino Gomes (Floresta Encantada)

Os moradores da floresta encantada viviam em festa e fantasia.

Cascudinho e Douradinho eram dois peixinhos, e moravam em um riacho que cortava a floresta.

Naquela tarde ensolarada os dois amiguinhos brincavam de pular.

Douradinho se dizia campeão de salto em altura. Como Cascudinho não queria ficar atrás, começou a disputa.

A cada pulo olhavam pra fora da água, apostando quem enxergava mais longe.

Na volta diziam o que tinham visto.

Depois de vários saltos, Douradinho voltou com a novidade.

– Esta chegando alguém.

– Quem será? – Perguntou Cascudinho que era curioso.

– Não sei, mas vamos ver – respondeu Douradinho.

Em seguida, viram a dona Anta, e suas duas filhas, Antônia e Antonieta que se aproximavam… Depois de saciarem a sede, elas se sentaram na relva e se puseram a conversar.

Em dado momento, Antônia pediu: – Mamãe; conta àquela estória do menino que era desobediente?

-É mesmo mamãe! – Concordou sua irmã Antonieta toda empolgada.

Depois de algumas insistências, dona Anta começou: – Era uma vez um garoto branquinho, que morava com sua mãe na floresta. A mulher era muito bondosa, mas seu filho se tornou um peralta. João de Barro é quem o diga. O garoto vivia o perseguindo.

Dona Sabiá também não tinha sossego, e já estava magra de tanto fugir das pedradas do menino. Com sua perversidade o malvado tirava a paz de todos os moradores da floresta. Muitas vezes o garoto tentou derrubar a casinha, que João de barro construíra com sacrifício.

Sua maior magoa, era ver João de barro e Joaninha cantarem felizes da vida, sobre os galhos da paineira.

Certa tarde, depois de muito matutar, o menino resolveu que acabaria com aquela alegria. Escondido da mãe pegou um tição no fogão, e foi para a floresta.

Todo empolgado juntou um monte de folhas, e acendeu uma fogueira junto ao tronco da paineira, onde morava João de barro.

– Eles vão ver comigo – dizia o perverso, esfregando a mão de contentamento.

Deitou-se na relva, e ficou olhando para o alto, esperando o resultado da sua perversidade. Mas pegou no sono, e as chamas começaram a se alastrar.

João de barro e Juaninha percebendo o perigo; cantavam tentando desperta-lo, mas nada do menino acordar.

Quando as chamas lamberam seu calcanhar, ele se levantou e pensou em fugir, porem já era tarde… Desesperado tentou subir na arvore para se livrar das labaredas. Quando se agarrou em um galho foi ao chão e quebrou a perna. Então aumentou seu desespero; não conseguia se levantar, e começou a gritar.

Tanto gritou que sua mãe veio ao seu socorro.

Depois de enfrentar as chamas, a bondosa senhora o pegou no colo, e o levou para a casa.

Mas o malvado tinha se queimado, e estava pretinho como um carvão.

Desde então, ganhou o apelido de Saci Perere.

***

– Mamãe agora conta àquela estória do bicho papão? – Pediu Antonieta.

– Vamos para casa, pois já esta ficando tarde. Amanhã eu conto – concluiu dona anta, e saiu, sendo seguida por suas filhas.

Os dois amiguinhos também se despediram.

E quando iam se afastando, apareceu “Odoro”, tio de Douradinho, que chegava para fazer uma visita a sua irmã Dorotéia.

– Ao avistar o sobrinho, Odoro perguntou: – Que você esta fazendo até estas horas longe de casa menino?

– Tio eu e meu amigo Cascudinho estávamos ouvindo a dona Anta contar a estória de um menino muito levado, que se chama Saci Perere. Ele era malvado, e não obedecia a sua mãe, e talvez por isso tenha recebido um castigo.

– Quando eu era jovem, ouvi falar deste menino – disse Odoro.

– O que você ouviu titio?

– Vamos pra casa, chegando lá eu conto.

Então Douradinho abanou a cauda mais rapidamente, e devido a sua grande curiosidade pediu: – O tio vai contando pelo caminho! – Fique calmo guri, eu vou contar, agora ande vamos!

Nem bem entraram por entre as pedras, onde morava Dourotéia, e o garoto já estava ao lado do tio, pedindo ansioso: – Agora conta!

Diante da insistência, Odoro começou a narrativa.

– Certa tarde eu nadava na maior tranqüilidade, quando notei dois pescadores se aproximando em uma canoa.

Ao invés de prestarem atenção no que estavam fazendo, eles remavam distraidamente, conversando animadamente.
Eu aproveitei estas distrações, e tirei a isca do anzol deles por varias vezes. Mas não querendo abusar da sorte, e já de barriga cheia, fiquei ouvindo suas conversas.

O mais velho disse:

– Este riacho me parece encantado, em todo lugar que vou pescar, nunca perco uma fisgada, quando puxo sai uma lasca de um peixão, e aqui já puxei varias vezes; perdi varias iscas e não peguei nada.

– Como assim encantado? – Perguntou o pescador mais novo, ao contador de prosa, que usava um chapelão de palha.

– Rapaz, eu tenho um compadre chamado Bentinho, que cuida de uma roça pra estas bandas, – disse o velho.

Certa vez ele me contou, que quando voltava do trabalho, resolveu pegar umas espigas de milho. Chegando a casa debulhou o milho e colocou numa panela. Em seguida encheu o cachimbo com um fumo que ele mesmo cultivava, e começou a meditar:

– Depois de comer um punhado de pipoca, dou uma tragada no meu cachimbo e vou descansar.

Com estes pensamentos, deitou-se na rede e ficou balançando, esperando a pipoca estralar.

E como estava cansado, meu compadre adormeceu.

Quando acordou, foi até o fogão, e notou que não havia nenhum grão de pipoca na panela. Então ele ficou cismado.

Pegou seu cachimbo, e nele também não tinha fumo.

– Eu não lembro de ter fumado, – pensou ele.

Olhou para um canto, olhou para o outro, coçou a cabeça, e perguntou a si mesmo, – será que estou caducando? Não pode ser; também não comi pipoca, e tenho certeza que eu trouxe milho. A maior prova disso são as palhas que estão aqui!

Naquela noite meu compadre ficou matutando até tarde.

No dia seguinte foi para a roça, e trabalhou o dia todo pensativo.

À tarde quando saiu do trabalho, olhou para o milharal, e pegou outras espigas.

Chegando a sua casa debulhou o milho e colocou na panela. Pegou seu cachimbo encheu de fumo, e o deixou sobre o fogão.

Deitou-se na rede, e ficou ali com um olho fechado e o outro aberto, fingindo que cochilava.

Logo escutou um assobio. Em poucos instantes um menino pretinho chegou pulando numa perna só. Entrou porta adentro e foi direto ao fogão. Encheu a mão de pipoca, e levou a boca. Lambeu os beiços, e despejou o restante da pipoca dentro da toca.

Depois pegou uma brasa colocou no cachimbo, deu uma baforada e saiu.

Já no terreiro, deu uma gargalhada e sumiu.

– Então é isso seu safado? – pensou meu compadre.

Eu estouro pipoca; você vem e come, fuma meu cachimbo, e ainda sai dando risada?

– Há, mas eu vou te dar uma lição; vou sim, pode esperar seu danado!-Disse meu compadre; que estava bravo feito uma onça.

No dia seguinte, fez à mesma coisa, escolheu três rechonchudas espigas de milho, com belas cabeleiras ruivas, e foi para casa.

Lá chegando, debulhou o milho e colocou na panela.

Só que ao invés de por fumo no cachimbo, colocou pólvora. Deitou – se na rede, e ficou fingindo que cochilava…

Não demorou muito ouviu o assobio, logo o pretinho entrou sorridente pulando numa perna só. Foi para o fogão, experimentou um punhado de pipoca e despejou novamente o restante dentro da toca. Pegou o cachimbo, e quando o ascendeu e deu uma tragada, a pólvora se incendiou e, bumm!

Com a explosão, e a fumaceira, o Saci tomou um susto e caiu de costas.

Meu compadre deu um grito, e só viu o vulto que se engatinhou por baixo da rede e fugiu.

Bentinho foi até a porta e gritou: – Viu seu safado, quem ri por ultimo ri melhor! Em seguida deu uma gargalhada e retornou para dentro da casa ainda enfumaçada.

Quando já se deitava na rede, notou que na sua pressa, o Saci tinha esquecido a toca cheia de pipoca.

O dia seguinte amanheceu fazendo muito frio, e Bentinho resolveu dormir até mais tarde.

Assim que o sol começou a surgir, escutou um choro.

Saiu para o quintal, e viu o saci chorando.

– Porque chora seu peralta? – Perguntou Bentinho.

-É que eu estou com muito frio. Por favor, seu moço me devolva minha toca. Sem ela eu não tenho magia.

– Então você esta querendo a toca de volta, para continuar aprontando das suas em?

– Não seu moço, eu prometo não fazer mais artes.

– Se for assim eu devolvo.

Depois de colocar a toca na cabeça, o Saci agradeceu e se foi. Daí em diante ninguém mais ouviu falar nele!

***

– Tio, amanhã a dona Anta vai contar uma estória do bicho papão, será que ele existe mesmo?

– Já faz muito tempo que não ouço falar nele! – Respondeu Odoro.

– Há muito tempo atrás, o rei Leão autorizou o Bicho Papão comer todas as crianças desobedientes.

Com medo do Bicho Papão, as crianças se tornaram boas, e não desobedeciam mais seus pais.

Desta forma aconteceu que o Bicho Papão ficou sem alimentação, pois o rei tinha autorizado ele comer somente as crianças teimosas.

Com fome; Bicho Papão que era cheio de astúcia, resolveu fazer uma festa. Sua intenção era convidar todos os animais, e come-los um a um.

O Bicho Preguiça ficou incumbido de entregar os convites.

Quando chegou o dia da festa, nenhum convite ainda tinha sido entregue.

E o bicho papão desiludido, virou uma fera.

Chamou o Bicho Preguiça de lerdo, de irresponsável… E o Bicho Preguiça chateado com as ofensas respondeu:

– Se você ficar me criticando, e me apressando; eu não vou entregar droga de convite nenhum.

Então o Bicho Papão se afastou resmungando, mas não desistiu.

No dia seguinte, resolveu organizar uma nova festa.

Desta vez, o macaco que era mais ágil, é quem iria entregar os convites.

Só tinha um inconveniente, precisavam de um barco, pois a festança seria em uma ilha.

E os animais da floresta, sem desconfiar das intenções do Bicho Papão, começaram a trabalhar na construção do barco.
No dia da festa, o Pavão apareceu todo empolgado com sua plumagem colorida.

O Coelho e dona Coelha, davam saltos de alegria.

Todos entraram no barco e seguiram em direção a ilha.

A festa estava animada…. A bicharada dançava, pulava e batia palmas.

O macaco batucava, a cigarra chiava, a coruja cantava e tocava sanfona, e o bode corria entre os convidados, fazendo a maior farra.

E o Bicho Papão em um canto, Matutava:

– Vou embebedar a todos… Assim será mais fácil come-los!

O Gambá foi o primeiro a ficar bêbado, e queria brigar com o Tatu.

Então Bicho Papão apartou a briga e disse:

– Eu levarei o compadre ao riu para se refrescar. Abraçou-se ao Gambá e se afastaram. – Este é o primeiro que vou comer, – pensou ele.

Assim que chegaram ao rio, viu que tanto ele quanto o Gambá estavam fedendo.

Por mais que o esfregasse aquele mau cheiro persistia. Varias vezes tentou engolir o gambá, chegou até a tapar o nariz, mas quando se aproximava com a boca aberta, sentia o fedor, fazia ânsia e se afastava.

Depois de muito tempo dentro da água gelada, o bicho papão começou a espirrar. – Atichim… Atichim… Revoltado, e com fome, abandonou o bêbado em um canto, e decidiu voltar para o baile.

Antes, porem, resolveu soltar o barco na correnteza.

Enquanto desamarrava o barco dizia: – Agora ninguém mais sai daqui. E quando eu sarar desta gripe, vou comer todos, um após o outro.

Mas o Pavão que estava de ressaca, foi beber água no rio. Ao ouvir o que o bicho papão dizia, voltou voando para a festa, e lá chegando contou para bicharada o que tinha visto e ouvido.

De madrugada a coruja começou a cantar um estranho refrão:

– Coitado de quem não sabe?

E a bicharada respondia: – Ainda bem que estou sabendo!

E o refrão continuava. – Coitado de quem não sabe…! – Ainda bem que estou sabendo…

– Atichim… Que musica é esta? – Perguntou o Bicho Papão.

– Então o compadre não sabe? – Vem vindo um temporal ai, e o vento vai levar tudo pelos ares – respondeu o macaco.

– Não diga! E como eu farei compadre? Eu não quero ser levado pelo vento! – Disse o Bicho Papão temeroso.

– Nós vamos nos amarrar nas arvores! – Informou o macaco.

– E o compadre pode me amarrar?- Perguntou o Bicho Papão.

-Sim! Só que você será o ultimo! – Falou o macaco, que era muito maroto.

– Eu sendo o dono da festa, tenho o direito de ser amarrado primeiro! – Questionou o Bicho Papão.

– Então vamos consultar os convidados, – disse o macaco. – Se todos estiverem de acordo, faremos a sua vontade!
Só tem um inconveniente, precisamos de um cipó bem forte.

-Pode deixar que eu pego o cipó! – Falou o bicho papão.

Entrou na floresta, e logo retornou com uma braçada de cipó.

Então os animais amarraram o Bicho Papão em um tronco, e lhe deram uma surra com vara de marmelo.

Depois jogaram o tronco na correnteza.

E o Bicho Papão se foi rio abaixo.

Se ainda existe não sei. Mas que existiu, existiu! Isso eu falo e afirmo! – Disse Odoro.

Fontes:
Colaboração do autor. http://www.autores.com.br/
Saci Pererê = http://centoeuma.com.br/
Bicho-Papão = http://www.jangadabrasil.com.br/

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Arquivado em Literatura Infantil

Sandra M. Júlio (Amanhecer dos Sonhos…)

Pintura à óleo de Angela Kelly Topan
Hoje, minhas letras choram a inquietude desta ausência… Desconhecendo toda lógica, adentram à cumplicidade da solidão em horizontes que transcendem sonhos e desilusões.

Escrevem-se com a transparente tinta da saudade imortalizando instantes quando, à mercê da noite, pensamento e fantasia beijaram-me os lábios, adormecidos na carência das tuas digitais… Momentos que ainda refletem no espelho dos meus olhos uma lágrima pacífica ao anseio de incansáveis esperas.

Esperança se faz paisagem, estação para cansados hiatos que ainda esculpem o cotidiano de cada dia.

Entre as treitas do sorriso, palavras aprimoram rimas num asfixiar de lamentos onde a covardia negou à realidade, sonhos…

Sob uma vírgula, emoção esconde a semente da alegria. Vacilo onde se oculta o pecado da felicidade.

Tanto de mim… quanto de ti, compondo a sinfonia de nossas vidas… Uma sinfonia vazia de tons e pautas onde caminhos e escolhas são apenas crenças da falibilidade de convicções e verdades.

No cansaço do olhar, a brisa de todas as estações ignoram o farfalhar do tempo e, nesta desordem a razão escreve seus tolos ditames.

Tropeço porém no pulsar do coração… Na essência desnuda que só às estrelas é dado conhecer, quando desabitada de mim, a elas entrego-me.

Hoje, introspectivas, minhas letras vasculharam universo, paraíso e inferno, onde o presente alicerça a magia da solidão, mesmo sabendo que em outros silêncios existem janelas abertas ao amanhecer de novos sonhos.

Fonte:
Colaboração de Douglas Lara.
http://www.sorocaba.com.br/acontece

Pintura = fotografia de José Feldman

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I Seminário de Direito Militar em Curitiba

Segundo Centro Integrado de Defesa Aérea e
Controle de Tráfego Aéreo
OBJETIVO:

O I Seminário de Direito Militar no CINDACTA II tem por objetivo proporcionar o exame de temas jurídicos afetos ao quotidiano das Organizações Militares no que tange à seara do direito penal militar, direito processual penal militar, direito administrativo militar e legislações correlatas; bem como, promover integração entre as assessorias jurídicas das Forças Armadas e Ministério da Defesa.

PÚBLICO-ALVO:

Adjuntos, Assistentes e Assessores Jurídicos que atuam no âmbito do Ministério da Defesa, Militares das Forças Armadas e das Polícias Militares, Professores de Escolas Militares e Universidades, Acadêmicos de Direito e Convidados.

DATA:
4 e 5 de Março de 2009.

LOCAL:
Auditório 14 BIS no CINDACTA II
Rua Pref. Erasto Gaertner, 1000
Curitiba – PR

PROGRAMA:

4 DE MARÇO DE 2009 – (QUARTA-FEIRA)

12h40min às 13h40min – Credenciamento dos participantes.
13h40min – Solenidade de Abertura.
14h00min – Palestra de Abertura
Tenente-Brigadeiro-do-Ar Flávio de Oliveira Lencastre
Ministro Presidente do Superior Tribunal Militar (STM)
Tema: “Justiça Militar da União”.

14h40min – Palestra
Coronel Aviador Leonidas de Araújo Medeiros Junior
Comandante do CINDACTA II
Tema: “Segundo Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo – CINDACTA II – Estrutura e Missão”.

15h10min às 15h30min – Intervalo para o Café.
15h30min – Palestra
Dr. Alexandre Augusto Quintas
Juiz-Auditor Substituto da Auditoria da 5ª Circunscrição da Justiça Militar
Tema: “Questões controvertidas atinentes à lavratura do Auto de Prisão em Flagrante Delito”.

16h10min – Debates.
16h30min – Palestra
Dr. Alexandre Reis de Carvalho
Promotor de Justiça Militar – Procuradoria de Justiça Militar em Curitiba-PR
Tema: “A atuação do Ministério Público Militar em decorrência do recebimento de notícia-crime e denúncia apócrifa”.

17h10min – Debates.
17h30min – Encerramento do 1º dia.

5 DE MARÇO DE 2009 – (QUINTA-FEIRA)

8h30min – Palestra
Dr. Sérgio Fernando Moro
Juiz Federal da 2ª Vara Criminal de Curitiba – Seção Judiciária do Paraná
Tema: “Considerações acerca do parágrafo 2º, do art. 142, da Constituição da República Federativa do Brasil: não cabimento de habeas-corpus em relação a punições disciplinares militares”.

9h10min – Debates.
9h30min – Palestra
Dra. Lucélia Biaobock Peres de Oliveira
Procuradora-Chefe da União no Paraná
Tema: “Representação em juízo das Organizações Militares e de seus agentes, promovida pela Advocacia Geral da União”.

10h10min – Debates.
10h30min às 10h50min – Intervalo para o Café.
10h50min – Palestra
Dr. Marcelo José Araújo
Advogado Especialista em Trânsito, Professor de Direito de Trânsito e Assessor Jurídico do Conselho Estadual de Trânsito do Paraná
Tema: “Trânsito e Forças Armadas – Polêmicas e Curiosidades”

11h30min – Debates.
11h50min – Intervalo para o Almoço (livre).
14h30min – Palestra
1º Tenente QCOA SJU Inayá Potyra F. Fortes Oliveira
Consultoria Jurídica-Adjunta do Comando da Aeronáutica (COJAER)
Tema: “Necessidade do Legal Advisor no Teatro de Operações – entendimento consolidado na Força Aérea Brasileira”.

15h10min – Debates
15h30min – Palestra de Encerramento
Dr. Flávio Flores da Cunha Bierrenbach
Ministro do Superior Tribunal Militar (STM)
Tema: “Forças de Paz: A participação brasileira em missões da ONU e os aspectos legais”.

16h10min – Debates.
16h30min – Solenidade de Encerramento.

INSCRIÇÕES GRATUITAS:

Através de e-mail contendo Nome, Posto/Graduação, Cargo/Função, Organização Militar/Órgão Público, Entidade de Ensino (se for o caso), número de telefone e endereço de e-mail para seminariodireitomilitar@gmail.com até 02/03/2009.

INFORMAÇÕES:
(41) 3251-5280
Assessoria Jurídica do CINDACTA II

Fonte:
Colaboração do Dr. Valter M. Toledo

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