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Luiz Flávio do Prado Ribeiro (Poemas Avulsos)

Libreria Fogola Pisa (facebook)
Buarquianas n°1: No lugar

Ele já vai
e eu nem me despedi.
Vai resoluto,
ajeitando a gola
e eu aqui de camisola
de cor de luto.

Ele já foi
e eu nem me despedi.
Incontinenti,
bateu a porta,
assim como quem corta
o ar da gente.

Por quê assim,
se tantos anos se passaram em alegria,
e outros tantos, tantos dias,
tanta estrada,
entre prantos de esperança,
entre juras de mudança,
pra levar a nada …

Fica a vida tão pequena,
a cama grande demais,
a saudade vem sem pena,
a tristeza não fica atrás.

Homenagem à RPBA
Samba composto em Candeias (Disul), 1983

Jorrou
o primeiro poço em Lobato
e ali começou de fato
um grande movimento
que teve o seu momento
com a Lei 2004

Fruto das aspirações brasileiras
de salvaguardar o país
da intromissão estrangeira
essa lei nos garantiu o monopólio
para industrializarmos
o nosso petróleo

E após tantos anos a velha Bahia
que não tem mais a primazia
dos novos e grandes achados
ainda trabalha com valentia
pra produzir
o seu volume provado

Prestamos a nossa homenagem
a essa Região de Produção
e de tradição:
Água Grande, Taquipe, Araçás, Lamarão
Fazenda Bálsamo, Miranga, Remanso, Dom João
Candeias, Brejinho, Imbé, Conceição
Malombê, Buracica, Mata de São João

Jorrou …

Samba para o trabalhador do Recôncavo

Todos os Santos desceram do céu
com arco-íris, pincel e cinzel
e assim criaram, num lindo desenho
um monumento de arte e engenho …

Mas o Recôncavo
não é só a riqueza de seu solo encantado
não é só a beleza e o nome histórico
é também o suor de seus anônimos heróis
que pela vida
vão deixando a força e a voz

É também a viagem
passagem num mundo de fé e coragem
onde a nobreza é a nascente e a foz

Por isso navega …

Navega, navega
barcaça de cacau
nas ondas tão doces do canavial

Moinhos de sonho são dor e prazer
mão na massa, pé na estrada de massapê

Cavalga, cavalga
cavalo-de-pau
explora esses campos com alto ideal
que a luta, conduta de vida,
é força moral.

Salve o trabalhador:
Herói nacional !

Nossa parte
Enchi do vaso
o espaço terra.

Plantei
adubei
reguei.

Hei de colher,
que a flor
não erra.

Árvore que se planta
e rega,
não nega
a seiva.

O fruto-futuro,
sem eiva.

Fonte:
Goulart Gomes (organizador). Antologia do Pórtico.

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Goulart Gomes (Poemas Avulsos)

O ANALFABETO IDEOLÓGICO
ou Carta Aberta a Herr Brecht

O pior analfabeto é o analfabeto ideológico.
Ele desconhece a importância
do respeito ao ser humano
e é capaz até de destruir tudo à sua volta
pelas suas crenças.
Ele é o pai de todas as guerras.
O analfabeto ideológico é tão burro
que ignora que milhões de pessoas foram mortas
em Auschwitz, em Kronstadt, no Arquipélago Gulag,
em Hanói, em Saigon, em Leningrado, Havana,
Hiroshima e Nagasáki
pela ignorância dos politicamente alfabetizados.

O analfabeto ideológico já não se lembra
do napalm atirado em crianças, no Vietnã
dos tanques esmagando jovens em Beijing
nem da Primavera de Praga.
Ele esqueceu dos desaparecidos
no Araguaia, em Buenos Aires,
em Santiago do Chile.
O analfabeto ideológico
explode bombas contra católicos e protestantes
em Dublin
e contra judeus e muçulmanos
em Jerusalém.

Não sabe o imbecil que da sua ignorância
nasce o mutilado, o órfão,
o neurótico de guerra, a viúva,
las madres de Plaza de Mayo,
as ditaduras.
Tudo isso porque
o analfabeto ideológico tem uma visão estreita,
uma amnésia do passado
e nenhum compromisso com o futuro.

Já leu todas as biografias dos grandes estadistas,
mas nunca a do Mahatma Gandhi,
que foi líder sem ser governante
e por isso desconhece ahimsa:
a lei da não-violência.
Em seu radicalismo
ele não ouve, não respeita, não conhece
(ainda que seja para criticar)
outras ideologias, que não a sua.

Ele está preocupado em promover
a discórdia, o confronto,
e não tem o menor respeito à Vida:
nem à sua, nem à dos outros.

L’ANA

A tarde amorenava o dia
permutando cores onde pousava
o seu toque
Lançava sobretudo sua tez
abria um leque à cara do sol
e tingia de penumbra os espaços
dos olhos dela fugia a claridão
e à volta se tingia
aquela cor de pele
espargindo a noite

A quem contar segredos?
Inútil degredo dentro
de nós mesmos
ânsia de ouvir espelhos
clamor de anos que não vieram

L’Ana e su’alma de caranguejo
subterrânea/submarina
tenazes fortes e cor baiana:
a mais doce mistura destas tendas;
seu corpo espraia-se
num descobrir de terras macias
além do Oceano (rio mais grande,
lágrimas de Orixá)
dança, noturna, feito estrela
lua-mãe cheia nos leitos
de um homem e dos rios
fazendo canastras de tarot
Só L’Ana amortece a dor
no parapeito do riso
e seus lábios rubros e ciganos
traçam caminhos, deixam vestígios
úmidos no meu corpo
e palavras em gemidos

TEMPO FARPADO

Matamos o tempo; o tempo nos enterra
(Machado de Assis)

arame farpado
o Tempo recurva
até os pregos;
nos ferros
depõe suas marcas
amarga as madeiras
descendo as ladeiras
dos dias

A flor impera
promessa da semente
e do húmus da terra
espinhos e farpas
não cortam o vento

(o Tempo se cala)
a pétala fala
também somos eternos

DÁDIVA DA VIDA

a ninguém devia nada
no colo, apaixonada
deu por si

ALUNISSAR
um dia chegarei com passos firmes
sem cavalo
e não direi palavra;
o simples gesto da presença
apaga mágoas
e pressupõe surpresas

será um dia comum
– nenhuma ânsia –
com sol, nuvens e pássaros
no rádio, alguma música romântica
estará tocando
a torneira da pia, como sempre
pingando

um dia chegarei em silêncio
e tudo flutuará
por absoluta falta de gravidade

ISTMO

ela, tão triste
ele, tão ausente
nem a lua se fez presente

Fonte:
Goulart Gomes (organizador). Antologia do Pórtico. 2003.

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Gal Braga (Poesias Avulsas)

Gal Braga, natural de Salvador/BA, psicopedagoga, trabalhou com crianças da periferia, viu, de perto, a pobreza, a fraqueza humana diante das drogas e prostituição. Mas fazia o que gostava e com amor .————————
ONDE DEIXOU SEUS SONHOS?

Já não ouço de você seus planos,
já não mais compartilhamos
os momentos em que felizes
ríamos e chorávamos
vendo filmes na TV.
Já não dividimos na praia
o mesmo espaço na areia quente.
já não ouço o seu choro ao telefone,
quando sofria de amor.
E já não vejo seu sorriso aflorar
que nem no nascimento de seu filho.

Onde ficou seus sonhos, meu menino?

Aquela maneira carinhosa e cuidadosa
que me tratava, ah! saudade…
A importância da minha opinião
sobre a melhor roupa “de marca”,
o perfume que deveria usar…

Onde deixou seus sonhos, Menino?

Nos caminhos percorridos
nesse decorrer de anos,
nos planos interrompidos,
por obra do destino ou de Deus?
Ou por essa dúvida atroz
do caminho a ser escolhido.

Meu menino…

Faça um caminho de volta,
se preciso for,
e retome cada sonho perdido
e não os deixe mais escapar,
resgate um por um
e carregue essa sua bagagem
pela estrada da vida.

Pois, não quero ver mais
o meu menino parar de ter sonhos…

MEU REBENTO

És fera
És bela, celestial
És o trovão temeroso
Também um frágil cristal.

Te tenho no coração
E também no pensamento
Te amo por inteiro
Por seres o meu rebento.

Dedicado a minha filha Danielle com amor e carinho.

MENINO REI

Por que falhaste, menino?
Na lição que te ensinei
Por que não levaste à sério?
Sua idéia de ser “rei”.

Rei da bola, das garotas,
do reggae e até da folia.
Mas desististes dos sonhos,
que te ajudei com alegria,
De te tornares , ao menos,
rei de tuas fantasias…

Por que se esquivou de mim?
Por que nunca me fitavas?
Sua vida era fugir,
e a mim e aos seus evitavas.

A sua missão, menino!
terminou cedo demais.
O trono agora vazio
daquele menino-rei
que agora descansa em paz!

A minha homenagem as crianças que trabalhei
e que as drogas e a violência
foram mais forte que a minha luta de amor.
E em especial ao “menino rei” Allan Kardeck.

ESCUTA, PAI!

No meu coração sempre estarás,
embora não te fizesses presente,
só tenho a vaga lembrança,
de um homem frágil e doente

Por que não me procuraste
quando mais eu precisei?
talvez tivesses evitado
as dores que eu passei.

Marcas profundas,
amargas lembranças
cicatrizes doloridas,
sequelas da minha infância

Pai, junto a Deus, não esqueças:
teu rebento, tua criança!   

AH! QUERIA TANTO QUE…
 
Queria que…

Uma pena voasse, voasse
e que acariciasse
esse corpo só meu.

VIVA O SAPO!

Até que enfim ó sapinho
lembraram de te cantar
só podia ser um anjo
pra esta ciranda criar.

ANOS DOURADOS

Um perfume marcante
Uma música inesquecível
Um beijo roubado…

ABRAÇA-ME

Chegas bem perto, meu dengo
Abraça-me com amor
Sintas o cheiro de mato
Daquela que é tua Flor.

E A VIDA?

Vivo loucamente,
apaixonadamente.
Sem medos
para não recuar.
Sem tabus
para me completar.
Sem preconceito,
prá viver na igualdade.
Autenticidade
prá mostrar meu avesso.

Maravilhoso é viver…

SER MULHER

Sou mulher por inteira,
assumida, verdadeira
e em pleno descompasso.
Trago comigo , o legado
de MARIA, a pureza,
de Madalena, o pecado!

MINHA FANTASIA

Quero cair na folia,
tendo como fantasia:
Colombina estilizada.
Buscar o meu Arlequim,
te-lo bem junto de mim,
até romper a alvorada.

MANGA ROSA

Eu gosto da manga rosa,
chupo até me lambuzar.

E você que está me lendo,
de que fruta vai falar?

MINHAS MÃOS

Minhas mãos,
sempre unidas
oram por nosso amor.
Minhas mãos
unida às suas
num afago constante.
Minhas mãos
abençoadas por Deus.

Fonte:
Portal CEN

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Varal de Trovas n 18- Antonio Juraci Siqueira (Belém/PA) e Austregésilo de Miranda Alves (Senhor do Bonfim/ BA)

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Jacinta Passos (Caldeirão Poético da Bahia)

CANÇÃO DA ALEGRIA

 Urupemba
 urupemba
 mandioca aipim!
 peneirar
 peneirou
 que restou no fim?

 Peneira massa peneira,
 peneira peneiradinha,
 (Ai! vida tão peneirada)
 peneira nossa farinha.

 Olhe o rombo
 olhe o rombo
 olhe o rombo arrombou!
 olhe o cisco
 olhe o cisco
 urupemba furou!

 Eh! Sai espantalho
 da ponta do galho!

 Escorra! Escorra!
 Tirai essa bôrra!

 Urupemba
 urupemba
 mandioca aipim”
 peneirar
 peneirou
 que restou no fim?

 Farinha fininha
 peneiradinha!

 Ai! vida, que vida
 nuinha! Nuinha!

 ESTRELA DO ORIENTE

           (para Bem Ami)

I
Levantai-vos, párias de todo o mundo!
 Não vedes? Ela vem vindo, a Estrela do Oriente,
 alta, bela, imponente, os pés plantados no chão,
 traz o fogo no olhar e uma foice na mão.

 II
 Canta, Jacinta, teu hino,
 louva a Estrela do Oriente,
 Mariana, Guiomar,
 venham, venham me ajudar.

 Não sei a cor de seus cabelos,
 não posso saber,
 não as linhas do seu corpo,
 não posso saber.

 Não posso vê-la à distância
 como vejo o meu vizinho,
 serei o seu sexo ou seu dedo mindinho?

 Mariana! Guiomar!
 Só na voz da própria Estrela,
 podemos cantar.

METAMORFOSE

    (a Dias, João, Divaldo, Miranda, Luiz Rogério, Almir Matos, Osvaldo Pereira)

Fui moleque,
 jornaleiro,
 nunca tive opinião,
 ajudante de pedreiro,
 fui chofer de caminhão,
 trabalhei na Plataforma,
 operário de sabão,
 já morei
 oi!
 já morei no Taboão.

 Carneirinho! Carneirão!
 Olha pro céu! Olha pro chão!

 Céu é Barra, é Avenida,
 outra vida!
 nunca a gente foi lá não.

Nem eu sei como foi isso,
 foi feitiço,
 arte do Cão,
 mas um dia fiquei rico
 que nem o rei Salomão.

 Chave do mundo,
 tenho na mão.
 Desceu o céu!
 Subiu o chão!

 Minha gente venha ver
 coisa que nunca se viu,
 um mulato virou branco,
 subiu! Subiu!
 A formiga criou asas,
 o pato passou a ganso,
 lagarta virou besouro,
 de repente virei tudo,
 virei até um rei mouro,
 virei sábio, virei gentleman,
 meu cabelo virou louro,
 virei genro, industrial,
 tabu, ministro, escritor,
 quase viro ditador. 

 Agora cheguei em cima,
 agora vi que eu sou dois.

 Quem sois?

 Minhas senhoras:
 Meus senhores:

 O meu drama começou.

 Serei moleque e rei mouro,
 serei dentro e serei fora,
 serei ontem e serei hoje,
 serei noite e luz da aurora?
 Quem sois?
 Serei eu e serei tu,
 serei Sancho e D. Quixote,
 serei Deus e Belzebu?
 Não posso viver assim!
 Serei Pierrot e Arlequim,
 serei anjo e homem carnal,
 serei o ser e o não-ser,
 serei o bem e o mal?
 Serei foice e serei sigma?
 Enigma!
 Que serei eu afinal?
 Ai de mim!
 Serei o princípio e o fim?

DIÁLOGO NA SOMBRA

— Que dissestes,  meu bem?

Esse gosto,
 Donde será que ele vem?

 Corpo mortal.
 Águas marinhas.

 Virá da morte ou do sal?
 Esses dois que moram no fundo e no fim.

 — De quem falas amor, do mar ou de mim?
                             
 CANÇÃO DA LIBERDADE

Eu só tenho a vida minha.
 Eu sou pobre, pobrezinha,
 tão pobre como nasci,
 não tenho nada no mundo,
 tudo o que tive, perdi.
 Que vontade de cantar:
 a vida vale por si.

           Nada eu tenho neste mundo,
           sozinha!
           Eu só tenho a vida minha.

 Eu sou planta sem raiz
 que o vento arrancou do chão,
 já não quero o que já quis,
 livre, livre o coração,
 vou partir para outras terras,
 nada mais eu quero ter,
 só o gosto de viver.

           Nada eu tenho neste mundo,
           sozinha!
           Eu só tenho a vida minha.

 Sem amor e sem saúde,
 sem casa, nenhum limite,
 sem tradição, sem dinheiro,
 sou livre como a andorinha,
 sua pátria é o mundo inteiro,
 pelos céus cantando voa,
 cantando que a vida é boa.

           Nada eu tenho neste mundo,
           sozinha!
           Eu só tenho a vida minha.

CANÇÃO DO AMOR LIVRE

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.

CANTIGA DAS MÃES
(Para minha mãe)

“Fruto quando amadurece
cai. das árvores no chão,
e filho depois que cresce
não é mais da gente, não.
Eu tive cinco filhinhos
e hoje sozinha estou.
Não foi a morte, não foi,
Oi!.
foi a vida que roubou.

Tão lindos, tão pequeninos,
como cresceram depressa,
antes ficassem meninos
os filhos do sangue meu,
que meu ventre concebeu,
que meu leite alimentou,
Não foi a morte, não foi,
Oi!.
Foi a vida que roubou.

Muitas vidas a mãe vive.
Os cinco filhos que tive
multiplicaram por cinco
minha dor, minha alegria.
Viver de novo eu queria
pois já hoje mãe não sou.
Não foi a morte, não foi,
Oi!
foi a vida que roubou.

 Foram viver seus destinos,
 sempre, sempre foi assim.
 Filhos juntinho de mim,
 berço, riso, coisas puras,
 briga, estudos, travessuras,
 tudo isso já passou.

Não foi a morte, não foi,
 oi!
 foi a vida que roubou.

O INIMIGO

A Coluna descansou
da marcha, na noite fria.

Ficaram olhos acesos
e a fogueira, de vigia.

 Su su su

 menino mandu
dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
Debaixo deste telheiro

em cima pia a coruja
com seu piado agoureiro.

Su su su
menino mandu

Soldados dormem quietos
no bivaque de improviso

até as armas descansam
que este descanso é preciso.

Dorme na lagoa
sapo-cururu

Soldados dormem quietos
na barraca e na varanda,

eis de repente o inimigo
– Depressa, levanta e anda!

Depressa, são feras,
depressa ou quiseras
nas mãos do inimigo
cair, que o perigo
de perto ameaça
de morte ou mordaça
cadeia ou degredo.

 Galopa sem medo!

Legalista do Inferno! .
donde o Governo –
tais feras tirou?

Ah! raiva que eu sou.

Depressa e a trote
esporas, chicote,
as crinas revoltas,
de rédeas bem soltas
e bridas também
(Que medo não tem!)
depressa e a trote
mão no cabeçote
o pé na estribeira
encilha e carreira!
esquipa montado
depressa, soldado
que medo não tem.

Legalista do inferno
não vale um vintém!

A Coluna descansou
da marcha na noite fria.

Picaram olhos acesos.
E de repente partia.

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/bahia/jacinta_passos.html

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Carlos Machado (Caldeirão Poético da Bahia)

Formatação por J. Feldman com imagens obtidas na internet
COMÉRCIO

comprar tempo
em barras
– como ouro
ou sabão –
e estocá-lo
nos armazéns
da cobiça

instituir
o próspero
comércio
da eternidade

e abrir as
portas
para nova
e concorrida
profissão:
ladrão
de tempo

PUNHOS

o tempo tem punhos
de renda

e toda a cerimônia dos
carrascos

na mão direita três
punhais:

ponteiros de metal
cravados

na pele fria de cada
hora que vai

PÊNDULO
o braço do pêndulo
nunca se agita

apenas acena sem
ênfase

em compasso de
despedida

MARGARIDA

na margarida
do relógio

desfolho
uma a uma
as pétalas do dia

nesse jogo
de sal e saibro
toda pétala
a mais é
vida a menos

e toda flor
malmequer

FIDELIDADE

só a pedra é fiel
a sim mesma:

a lesma {e seus
coleios}

a lesma {e sua
gosma}

de molusco} é
sempre

o avesso do que
se supõe

mas a pedra ¿não
será ela

mesma uma forma
dura de lesma?

ANATOMIAS

anatomia de coisas

desnudar
o pássaro de vidro
e ver em seu lado
oculto
o outro lado
de seu vulto

dissecar
vozes
sombras descalças
e perquirir
a substância
escassa que principia
na polpa
branca do dia

flagrar a ânsia
do relógio
e a cadência
dessa máquina
humana

fotografar
a permanência
da chama

anatomia do gesto

dobrar a esquina
de mim mesmo
olhar pra trás
e ainda
enxergar
o resto de
meu gesto
tonto

PÁSSARO DE VIDRO (2)
quanto mais escancaras
teu íntimo de vidro

quanto mais descortinas
o avesso dos sentidos

mais o que revelas
deixas escondido

PÁSSARO DE VIDRO (3)
o pássaro é cego
e cego é quem
se agita
em seu espaço
ambíguo

esse espaço
de incessante
tarde nua

onde o vôo
risca um traço
branco
de vidro no vidro

ANJO MURITIBANO
sim, uma vez
vi um anjo

nada dos anjos
católicos
gabriéis
armados e vingativos

nada dos anjos
de Rilke
alemães terríveis

meu anjo
sem asa
e sem palavra
não foi visto num castelo
em Duíno
mas numa casa
chã e rasa

em Muritiba

era um anjo
pequenino
morto morto
placidamente morto

estava numa
caixa de sapatos

SÁBADO

cavalos burros
jumentos
na rua:
é dia de feira

no paralelepípedo
a pata do quadrúpede
acende uma centelha

CANÇÃO DE MÁRIO E FERNANDO 

estética e angústia
traços-de-união
entre dois orpheus
desencontrados

um sem biografia
o outro sem história
arte longa curta vida

— e ambos viraram
sílabas

sombras fugidias
sobre as águas
do Tejo ou do Sena:

a vida escrevivida
         vale a pena?

orpheus na sala
de espelhos
divididos
multiplicados

ai tortuosa
aritmética da alma

1 é número múltiplo

CÃMERA

How you die is the most
important thing you ever do.
                    Thimoty Leary

uns preferem
a morte discreta
asséptica
sem vexame

outros apostam
no alvoroço:
enxame
de câmeras até
o osso do nada

thimothy leary
guru
lisérgico não quis
o analgésico
do silêncio

 morreu em show
cibernético
câmera aberta
para o olho
              poente

 ESFINGES

 Alguns, prudentes, não falam com estranhos.
Outros, muito práticos, dizem apenas o necessário
Para o bom andamento dos negócios.

Alguns, calmos e sérios, fecham portas e janelas.
Outros, afoitos, ou filhos de um deus sem-terra,
Oferecem biscoitos, talvez flores, e longa prosa.

De todos, quem sorri com mais dentes de ouro?
quem finge? quem vê no espelho sua própria esfinge?

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sao_paulo/carlos_machado.html

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Carlos Machado (1951)

Nascido baiano de Muritiba, em 1951, é jornalista especializado em informática e vive em São Paulo desde 1980. Autor de livros técnicos publicados pela Editora Campos (RJ), emprega seu talento e competência em prol também da literatura, e de forma generosa. É o criador e editor do boletim semanal poesia.net, em que dedica com esmero páginas à divulgação de poetas, principalmente contemporâneos e em sua maioria, brasileiros. Publicou de sua própria lavra o livro Pássaro de Vidro (poesias, Editora Hedra, SP, 2006), a respeito do qual escreveu Donizete Galvão:

“Todos que conheciam o olhar atento, a observação acurada e a sintaxe elegante dos comentários de Machado que acompanham os poemas de poesia.net, podem ver essas mesmas qualidades condensadas em sua poesia. Pássaro de Vidro nos apresenta um poeta em plena sua maturidade, rigoroso na sua concisão substantiva, em que a clareza e a leveza estão a serviço de uma poesia reflexiva e consistente. Vale ressaltar o acabamento impecável dos poemas que resultam em artefatos límpidos, sem rasura. Seguindo a máxima de Aníbal Machado, o autor retira dos poemas toda estridência para que ganhem mais alcance e ressonância”.

Sobre o trabalho do poeta diz também Luiz Alberto Machado em seu blog: “Carlos Machado já é digno de meus aplausos acalorados pela iniciativa de criar o Ave, Palavra, onde divulga semanalmente um boletim denominado de poesia.net, abrigando, revelando, resgatando, revalorizando e reproduzindo poemas de toda sorte de poeta, desde os clássicos até os novos e novíssimos.(…) Isso prova o quanto de aplauso efusivo o seu trabalho merece. Este poeta dos bons tem poemas publicados em revistas literárias, como Cacto e Jandira, além de jornais, como O Escritor, da União Brasileira de Escritores. Na rede, tem uma seleção de poemas reunidos no legendário Jornal de Poesia. Agora ele chega com O pássaro de vidro, dividido nas sessões “Horológio”, “Pássaro de vidro” e “Garrafa de Náufrago”.

Fonte:
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sao_paulo/carlos_machado.html

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