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Rui Barbosa (Dois Poemas)

À MARIA AUGUSTA

Dantes o ondeado cabelo
Deixavas-me sempre vê-lo
Em longos anéis sombrios
Nos ombros teus a chover.
Pendia daqueles fios
Minha alma de amores presa;
E a vista, em volúpia acesa,
Não se cansava de ver.

Como é que agora oprimido,
Tão contrafeito e escondido,
A nativa formosura
Não lhe deixas expandir?
Não vês que em teu rosto a alvura,
Que os próprios lírios suplanta,
Ri mais viva, mais encanta,
Se o deixas solto cair.

Por que as lindas madeixas,
Desfeitas baixar não deixas,
De aroma inefável cheias
Ao colo cândido e nu?
Louquinha, que das cadeias,
Com que os olhos cativas,
Assim sem pena te privas!
Criança ingênua que és tu!…

Olha as rosas nas roseiras
Como se miram faceiras
Naquelas tranças viçosas
De que o estio as adornou:
Se, pois, inveja nas rosas,
Feiticeira linda, as passas,
Por que desprezas as graças
Com que Deus te avantajou?

Primores do céu não tolhas:
As madeixas mais não colhas!
Sedução tão graciosa
Não na queiras tu perder!
Em moldura caprichosa
Deixa a coma deslumbrante,
Livre, airosa, flutuante
Tuas faces envolver!
(*) Poema dedicado à noiva de Rui Barbosa, no ano do casamento

A XXX

Feiticeira Moreninha,
Casta flor da minha vida,
Quando cismas à tardinha
Nos teus sonhos embebida
Não sentes a aragem trêmula
Que em teus cabelos se enlaça,
E o murmúrio que perpassa
Como uma queixa perdida
Do dia que além se esvai?
Dize — sabes o segredo
Que essa linguagem te diz,
Quando a brisa oscula a medo
As tuas tranças gentis?…

Pois ouve… não fujas, não…
Escuta o gemer da brisa;
É minha alma que desliza
Nas asas da viração
 

Fonte:
“Obras completas de Rui Barbosa”, prefácio de Américo Jacobina, vol. 1, MEC, 1971, RJ
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Wilson Woodrow Rodrigues (Poemas Avulsos)

BALADA DO RAIO DE LUAR “

De uma lagrima vim . . . pingo de lua
feito orvalho de lua sempre a dançar.
Na transparência clara se insinua
que o meu eterno destino é dançar no ar.
Ali! beleza imortal da forma nua
    beijada pelo luar.
E quando a lua, no céu, leve flutua
como se fosse nau a velejar,
eu levo aos anaias, de rua em rua,
saudades que vem, de mar em mar.
Ah! beleza imortal da forma nua
beijada pelo luar.

Sempre escuto uma voz que diz “sou tua”
nas noites brancas, brancas de luar,
que os namorados são filhos da lua
e irmãos mais novos do raio de luar.
Ah! beleza imortal da forma nua
beijada pelo luar.

” LEMBRANÇA “

Das três tristezas que tenho
uma foi lagrima só,  
a outra foi lave gemido,
e a última desfez-se em pó.

Das três alegrias que tenho
uma foi sorriso vão,
a outra foi manso gorjeio,
e a última foi a ilusão.

Das três saudades quê tenho
uma bem cedo murchou,
a outra durou muito pouco,
e a última foi que ficou.

LUNDU DE DONA SINHÁ “

Tanta brancura na pele,
tanta negrura nos olhos,
tanta risada sonora
no mundo não há
fora do colo macio,  
dos olhos tão envolventes,
da boquinha tão vermelha
de Dona Sinhá.

Pegar com jeito no leque,
fazer mesura na valsa,
dizer adeus com o lenço
    no mundo não há
como o jeito delicado,
o sapatinho de seda,
a mãozinha tão alva
de Dona Sinhá .  

Rezar na igreja, sonhando.
dizer “não” sempre sorrindo  
prometer tanto em silêncio
    no mundo não há
como a reza mais sincera,
os lábios enganadores
e as promessas escondida
    de Dona Sinhá.

fingir chilique de choro,
zombar do próprio marido
e trair o próprio amante
    no mundo não há
como as lagrimas fingidas,
os carinhos mentirosos
a os amores levianos
    de Dona Sinhá.

” NASCIDA FOSTE… “

Nascida foste sobre um mar de bruma
e ao mar roubaste as curvas peregrinas.
E guardas em teu corpo a cor da espuma
e em teu olhar desejos de neblinas.

Danças em torno a mim. São névoas finas
os gestos sensuais. E dança alguma
sugere tanto o misto de onda a pluma,
de mar e céu de dúbias bailarinas.

És para mim paisagem de delícias
diversa e vaga, lúbrica e ondulante
perdida numa tarde tão nevoenta.

que eu mesmo temo que sutis carícias
me poderão fugir num breve instante,
quando de instante a instante o amor aumenta.

” O MURUCUTUTU “
( Cantiga de ninar )

Murucututu,
que esta escondidinho
na copa folhuda
do pé de araçá.

Murucututu,
o meu irmãozinho
precisa de sono,
onde a que ele está ?

Murucututu,
amigo da lua,
que não teme a noite
que não tem luar.

Murucututu,
que sorte é a sua
ir dentro da noite
o sono buscar.

Murucututu.
o meu irmãozinho
que não tinha sono
sonhando já. está?

Fonte:
Antologia da Nova Poesia Brasileira . J.G . de  Araujo Jorge – 1a ed.   1948 

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