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Santuário da Poesia II

Carlos Drummond de Andrade
MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que
lindas,
essas ficarão.

A. A. de Assis
POR UM BEIJO

Por um beijo eu lhe dou o que sou e o que tenho:
os bons sonhos que sonho, as plantinhas que planto,
a pureza, a alegria, as cantigas que eu canto,
e o meu verso se acaso houver nele arte e engenho.

Por um beijo eu lhe dou, se preciso, o meu pranto,
as angústias da luta em que há tanto me empenho,
as saudades que trago do chão de onde venho,
as promessas que eu faço, piedoso, ao meu santo.

Por um beijo eu lhe dou meus anseios de paz,
minha fé na ternura e no bem que ela faz,
meu apego à esperança, que insisto em manter.

Por um beijo, um só beijo, um momento de amor,
eu lhe dou meu sorriso, eu lhe dou minha dor,
o meu todo eu lhe dou, dou-lhe inteiro o meu ser!

Renate Emanuele
TEMPO

Tempo, nosso precioso tempo
Que tanto corre e se esvai
Esse tempo que engana e trai
Este que imaginamos tão lento

Esse tempo cruel e mordaz
Que a todos sacode e vigia
Que sobre todos se aninha
Um destino para todos se faz

Mas é esse tempo que sobra
Que faz ainda assim poetar
Neste tempo que o verbo sonhar
Que do tempo o tempo nos cobra

Esse tempo que se vai no espaço
Que gira o mundo, faz nascer
Este que também deixa morrer
Quando alivia de nosso cansaço

É esse tempo que os cabelos tinge
Que nos encontra e sobressalta
Que o cansaço e dores ressalta
com castigos que ao corpo infringe

Os sonhos que o tempo realiza
Sonhos que ao pensamento brinda
como posso sonhar neste tempo ainda
Se é desse tempo que em mim finaliza?

Simone Borba Pinheiro
ÂNSIA DE VIVER

Meu tempo, não tem tempo
de esperar por ti.
Por ti que, só enganos, somou
aos meus desenganos.

A noite fria já não tem mais lua
E eu amor, já não sou mais tua.
Meu corpo hoje, se aquece em outros braços
e, é por isso que rompo todos os laços
com o tempo passado,
que nunca teve tempo para mim.

Cansei de esperar pelo vinho
que depois de feito,
já não fazia mais efeito em mim.
Cansei do dia, da noite,
da vida vazia
que se apoderou de mim.

Perdoe amor, os meus desencantos,
mas hoje só canto,
a alegria de viver.
Viver o amor, sem pranto,
com outro amor no meu canto,
cantando pra eu dormir!

Antonio Roberto Fernandes
AS TUAS MÃOS

As tuas mãos tão belas, tão formosas.
As tuas mãos afeitas aos carinhos.
As minhas mãos tão feias, tão nervosas.
As minhas mãos expostas aos espinhos.

As tuas mãos me tocam por piedade.
As minhas mãos te afagam, mas com medo.
As tuas mãos são mãos pra eternidade.
As minhas mãos são mãos de morrer cedo.

As tuas mãos nas minhas, que contraste!
Mas se não fossem elas, que desastre,
nem sei das minhas mãos o que seria!

Por isso às tuas mãos eu agradeço
o carinho que eu sei que não mereço
e que em outras mãos não acharia!…

Ricardo De Benedictis
O TEMPO I

O tempo jamais se mede
num relógio de mulher
no futuro ou no adrede
para o que der e vier…

É um lapso fatal
o tempo despercebido
pra o menino genial
ou pra o homem envelhecido…

Para o jovem apaixonado
o tempo é sempre esperado
e só traduz alegria,

mas pra quem está vencido
o tempo corre perdido
entre a dor e a nostalgia…

Cleide Canton
CANÇÃO PARA TI

Ouça, amor,
os meus versos apaixonados
como se os estivesse declamando
ao teu ouvido.
São versos do meu lado escondido
que sempre clamou por ti.

Ouça, amor,
e mesmo que neles já não veja encantos,
foram para ti feitos
nos soluços dos meus prantos.

Ouça, amor…
Talvez ainda te alcance
aquele antigo perfume
ou a minha voz nas nossas canções.
Quem sabe aquele cheiro de terra molhada
ou as juras desta eterna enamorada…

Antigas emoções,
restos de enlevos e paixões
que não deixei perderem-se em bolor.
Tantas cartas de amor!
Tantos anseios reprimidos,
sonhos perdidos
num amanhecer sem esplendor.

Ouça, amor!
Existe uma tristeza
no bailado das cortinas do meu quarto,
um espreguiçar dos ventos
nos uivos da noite,
enquanto meus lábios emolduram,
sem cor,
a melancolia do meu sorrir.

Ouça, amor,
enquanto ainda puderes ouvir,
enquanto minha voz ainda ecoa,
enquanto teu beijo ainda eu possa sentir.
Escuta, amor!
Não me deixes partir!

Cassiano Ricardo
O RELÓGIO

Diante de coisa tão doida
Conservemos-nos serenos

Cada minuto da vida
Nunca é mais, é sempre menos

Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser

Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer

Emília Possídio
FARINHA E FERMENTO

Somos farinha e fermento
gotículas de mel na flor
amantes vestidos de amor
seguindo a trilha do vento

Nossas verdades e esperas
se cruzam em nossos olhares
se firmam no coração

grandes felicidades
na solidez dos pensares

Olhamos além do céu
para vislumbrar quão grande
e insondável é o mar!
Seguindo a trilha do vento
misturam-se farinha e fermento

Estamos aqui ou alhures
não temos morte nem fim
somos migalhas do grão
do amor que se eterniza
nascido do vento e da brisa

Sejamos tudo no mundo
ressaca em mar bravio

onda que quebra em penhasco
amores em desafio

Sejamos sementes que brotam
pelas curvas dos caminhos.

Vilma Oliveira
TÚNEL DO TEMPO

Penetrei no túnel do tempo de olhos fechados…
Sem me aperceber que trazia nas mãos meu destino
Entreguei-me ao senhor do tempo, cordeiro da vida,
Onde preparei a terra para a semeadura
E colhi na ramagem dos anos avencas floridas!

Conduzi os meus sonhos tolhidos, inacabados,
Com passos inertes a mercê da inconstância
Quando tudo é parte de um mesmo caminho
Percorro aleatoriamente o rumo dos oceanos
Quando atrai as ondas para si insinuante!

No fluxo das águas resvalam meus ais…
Desliza cachoeira abaixo a minha ilusão
Carregada pelos braços da nascente boreal…

Acendi o lampião do sol para iluminar o dia
Enquanto pernoitasse os olhos da noite
Em luas crescentes contornando o espaço!

Foi então, que despertei semi-acordada,
Num súbito vislumbre de contradição
Marchei frente a vida diante da sorte
Refiz minha viagem além da visão!

Mário Quintana
A VIDA

A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida…

Quando se vê, passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado..
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava
o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca
dourada e inútil das horas…
Seguraria o meu amor, que está a muito à minha frente, e diria
EU TE AMO…
Dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido
à falta de tempo.

Não deixe de ter alguém ao seu lado
por puro medo de ser feliz.

A única falta que terás será desse tempo que infelizmente…
não voltará mais.

Herculano Ericeira Coelho
COPO DE CHOPE

Ouro liquefeito,
coroado em marfim,
nos limites do cristal!…
Se alguns te julgam meu defeito,
certo, certo és, para mim,
amigo diário e fraternal.

O frio orvalhado do teu corpo
faz ponto no suor do meu dia que termina em ti.
E faz-se então em ar de estrelas borbulhantes
que cintilam e acenam pra noite que chega
de orvalho molhada trabalho, lazer
e amizade banhada de luz e prazer.

Amigos se fazem em amizades já feitas…
amores se afirmam em beijos lembrados
da musa dileta, nos versos cantados
do amor do poeta.

Camila da Silva César
EU, VOCÊ E O TEMPO.

Eu continuo te amando
E o tempo nos separando,
Você sorri para a vida
Enquanto o tempo nos desliga

Eu choro com nosso desencontro
O tempo nem consola seu abandono.
Você me tira do serio
E o tempo me desvenda o mistério.

Eu, você e o tempo.
Mistura com tempero, devaneio.

J. G. de Araújo Jorge
ESCOLHA

Se perguntassem ao marinheiro
como gostaria que fosse o seu instante derradeiro
ele diria: no mar
Se perguntassem ao aviador onde e como desejaria
o seu último dia,
por certo responderia:
no ar!
Para seus dias terminar
o marinheiro: quer o mar;
o aviador: os espaços
Eu… se pudesse escolher
uma forma de morrer,
queria morrer de amor
em teus braços…

Antonio Manoel Abreu Sardenberg
BEIJO PERDIDO

O tempo passa rápido demais,
Levando na bagagem mais um dia,
Deixando uma saudade para trás
Que a gente nem ligava e percebia.

Levou aquele abraço que não dei,
O beijo que eu tanto quis um dia,
Deixou em seu lugar melancolia,
Tristeza por não ter o que sonhei.

E o tempo, quando vai, nunca mais volta.
Não adianta a gente lamentar
E nem ficar curtinho essa revolta.

Abraço que escapa não tem volta,
Beijo perdido não se recupera,
Não adianta o ódio nem a ira…
Desejo que o tempo levou – já era!

Andrezza Rangel Sardenberg
IMAGEM PERDIDA

Por onde passo
Sinto seu cheiro
Ouço sua voz
Vejo o seu jeito.

Em cada passo
Sinto o descompasso
De um coração ferido,
Frágil e doído.

Como esquecer
Se em cada passo
Tropeço em você?

Como deixar
Se em cada olhar
Sua imagem vem decidida
A me atormentar?

Como posso viver
Se parte da minha
Alma está aí, com você?

Você, imagem perdida
No espelho d’ água
Da poça formada
Pelos prantos de minhas lágrimas

Marlene Rangel Sardenberg
PARA UM POETA

Deus o fez poeta. Pobre peregrino
neste mundo de sonhos e ilusões!
Forjou-lhe a alma eterna de menino
pra resguardá-lo das decepções

das horas de espera sem chegada
que ele sente e não consegue entendê-las:
como viver na solidão gelada
quando se está tão perto das estrelas!?

Depois de tropeçar no paraíso,
cair de amores, ainda é preciso
da caminhada encontrar a meta?

Pra conviver com as angústias que o consomem,
sofre, então, como homem que é poeta
por viver como poeta, que é homem.

Tere Penhabe
CAMINHANTE DAS ESTRELAS

Conta-me esse seu segredo
mas fala devagarinho
só não me deixe pensar
que estarei sempre sozinha.

Se a sua alma é paixão
de paixão também é a minha
vem dar ao meu coração
a vida que ele já tinha.

Estou aqui, não me vês?
Oh Deus meu, como farei?
Essa vontade de beijos
é minha vontade também.

E os abraços pendurados
na esperança de lhe ver
esvoaçam o dia inteiro
querendo seus braços ter.

Se dorme com o seu anjo
comigo vive a sonhar
pergunta a ele se aceita
de lugar comigo trocar.

Que eu verei com bons olhos
dividir consigo as estrelas
caminhando entre os sonhos
e estar no lugar delas.

Então sim, poderei sentir
seus pés a me tatear
longo caminho a seguir
muito prazer pra trocar.

Fontes:
Amor em Verso e Prosa.
Alma de Poeta.

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Antonio Augusto de Assis (Santuário da Poesia)

Carnaval

É sexta-feira,
véspera da folia.
Lá vai Maria.

Lá vai lavar em lágrimas
a vida ávida de vida,
sofrida vida dividida
em dívidas e dúvidas.

É sábado, é domingo,
é segunda, é terça gorda.
Roda no asfalto o samba,
geme o povo em sobressalto.
Roda rotunda a moça moma,
peitos nus lançando chamas.
Gemem bocas de crianças,
barrigas ocas
mendigando mamas.
Roda impávido o desfile
na avenida multicor.
Gemem pálidos
rostos esquálidos
desfilando a dor.
O sonho roda, geme o horror.

O samba-enredo, o medo em roda.
A serpentina, o ser penante.
A passarela, o pária ao lado.
O palanque, a pelanca.
O pandeiro, a pancada.
O sambeiro, o sem-nada.
O tamborim, o camburão.
O saxofone, o saque-sem-fundo.
A fantasia, a mão vazia.
A apoteose, a verminose.
A alegoria, onde a alegria?

O trilo do apito,
o grito do aflito,
o confete, o conflito.

É quarta-feira, cinzas.
Lá vai Maria.
Lavai, Maria.
Lavai o mundo, Maria.
Lavai o imundo,
mundo imundo vasto mundo,
lavai o mundo, Maria!

Luolhar

Duas luas
viu Ismália
na noite em que enlouqueceu:
“viu uma lua no céu,
viu outra lua no mar”.

Bem mais louco,
vejo três,
quando me ponho a cismar:
a terceira é a que flutua
tentadoramente nua
na noite do teu olhar.

Aurora bela

Da janela do meu quarto
vejo Aurora na janela.

Toda tarde, à mesma hora,
Aurora lá.
Que será que ela olhará?

Aurora, Aurora,
Aurora bela,
bela Aurora da janela,
Aurora
de olhar sem fim…

Se sobrar uma olhadinha,
por favor, olha pra mim!

Por um beijo

Por um beijo eu lhe dou o que sou e o que tenho:
os bons sonhos que sonho, as plantinhas que planto,
a pureza, a alegria, as cantigas que eu canto,
e o meu verso se acaso houver nele arte e engenho.

Por um beijo eu lhe dou, se preciso, o meu pranto,
as angústias da luta em que há tanto me empenho,
as saudades da infância e do chão de onde venho,
as promessas que eu faço em segredo ao meu santo.

Por um beijo eu lhe dou meus anseios de paz,
minha fé na ternura e no bem que ela faz,
meu apego à esperança e ao que a possa manter.

Por um beijo, um só beijo, um momento de amor,
eu lhe dou meu sorriso, eu lhe dou minha dor,
o meu todo eu lhe dou, dou-lhe inteiro o meu ser!

Fonte:
Revista da Academia Niteroiense de Letras, recebido por e-mail.

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