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Flavio Pinto (Os Olhos nos sonetos de Camões)

A comunicação entre os homens tem grande importância pelo poder de aproximação que exerce entre as pessoas e comumente se faz uso da palavra, do diálogo, para a transmissão de idéias e expressão de sentimentos.

Entendemos que no processo amoroso a comunicação assume um valor especial e, como recurso aproximativo, o olhar favorece a comunicação de pensamentos e emoções e também motiva prazer ou, noutro extremo, causa tormento e angústia. A linguagem do olhar como meio de comunicação, substitui as palavras ou as supera, quando expressa o que não é possível se colocar verbalmente.

Em determinadas situações o olhar adquire um papel de destaque devido a sua extraordinária expressividade. Em outros tempos, a obediência às convenções era uma norma a qual não se podia escapar e conseqüentemente as diferenças entre amante frustrado e Amada inacessível tornava o amor, por princípio, irrealizável. Julga-se então, que esta seja a explicação para a origem da tônica dos olhos, do ver, do olhar e contemplar na poesia lírica de Camões. Entende-se perfeitamente esta explicação, considerando que o “amador” é ciente de que não poderá desejar do amor mais do que a linguagem do olhar permitir.

A análise do papel e do sentido do elemento “olhos” nos Sonetos de Camões será o objeto deste estudo.

Na lírica camoniana é constante e evidente o desencadeamento do amor, a sua continuidade, os conflitos resultantes dele ou o fenecimento deste sentimento serem decorrentes de processos relacionados ao fenômeno da visão, portanto, analisar este elemento é de grande importância para a caracterização do processo amoroso em si ou para o desvendar do estado de espírito e dos sentimentos do amante diante de sua Amada.

I – Os olhos como elemento ornamental da beleza da Mulher

Observamos, logo de início, que na poesia camoniana o Poeta se refere insistentemente aos olhos da Amada, falando de sua beleza, inspirando-se e atribuindo-lhes um valor ornamental, conseqüentemente, estético:

“Fermosos olhos (…)” p. 30, v.1.
“Olhos fermosos (…)” p. 31, v.1.
“O lindo ser de vossos olhos” p. 21, v.2.

Há uma freqüência no que se refere à utilização do termo “claros olhos”:

“Aqueles claros olhos (…)”.p. 144, v.1 e p. 146, v. 4.

Segundo os cânones tradicionais, os olhos verdes eram os mais belos, assim pode-se achar que a designação “claros olhos” supõe também a beleza dos olhos, resultando a referência num elogio. Há também nos Sonetos, uma exceção a essa norma quando o Poeta faz um elogio aos olhos negros, menosprezando os verdes que, segundo ele, se turvam por inveja da beleza superior daqueles:

“Olhos onde tem feito tal mistura
Em cristal branco e preto marchetado
Que vemos já no verde delicado
Não esperança, mas inveja escura” p. 61, vv. 5-8.

Justifica-se isto pelo fato de que a Musa Inspiradora deste Soneto parecer ter sido uma escrava de olhos escuros. Esta variação acidental do conceito de beleza ocorreu por ser uma característica própria da Dama que foi objeto dos amores do Poeta.

Na Renascença era comum valorizar os olhos de acordo com seu brilho: Petrarca faz referência aos “begli occhi lucenti” de sua Musa, e Camões não fugiu a regra quando, expressivamente, evidenciou os olhos da Amada através de metáforas, imagens e comparações:

“Quem pode livre ser, gentil senhora,
Se por entre esta luz a vista passa
Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito traspassado
Assi(m) como um cristal o Sol traspassa.” p. 29, vv. 1, 11-14

“Dos vosso olhos essa luz febéia” p.78, v. 5.

O brilho dos olhos da Amada assume proporções que podem ser comparados ao sol ou até mesmo superá-lo:

“Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia” p. 79, vv. 9-11

E noutro Soneto vai além do estético e passa a ser uma qualidade moral, um indício de inocência e candura:

“Movei dos lindos rostos a luz pura
De vossos olhos belos (…)” p. 72, vv. 9 e 10.

É interessante notar que estas figuras têm a característica de hipérbole por enfatizarem o brilho dos olhos relacionando-os com outros brilhos mais intensos, dando-lhes, portanto, um alto valor.

II – A função de revelar as características da Dama.

O poeta se impressiona ainda mais pelo fato dos olhos possuírem não só um valor estético, mas por deixarem transparecer características espirituais das suas musas inspiradoras. Assim, os olhos nos são apresentados revelando diferentes aspectos da dama, como uma criatura meiga e afável que se compadece do amante sofredor:

“Um mover dos olhos brando e piedoso” p. 77, v. 1.

Ou outra que, ciente de sua condição superior, mesmo expressando rigor não esconde sua meiguice:

“De vossa vista branda e rigorosa” p. 15, v. 10.

Encontramos também, verso que revela nobreza:

“Aqueles reais olhos(…)” p. 241, v. 4.

E outro que transmite superioridade social:

“(…)uns olhos de que eu não era digno” p. 50, v. 7.

E ainda temos aquela dama que cativa e destrói corações:

“(…) olhos(…) que triunfando

Derrubam corações (…)” p. 71, vv. 7 e 8.

Nessa poesia o elemento “olhos” freqüentemente revela-nos Damas de grande perfeição e quase sempre idealizadas.

III – O efeito dos olhos da Dama sobre o Poeta.

Analisando agora a atuação do elemento em estudo, temos a influência dos olhos da mulher sobre quem a ama.

Olhos que expressam ora meiguice, ora altivez, desencadeiam no “Amador” sentimentos contraditórios:

“Os olhos(…) (que o conquistaram)
(…) foram causa do mal que vou passando.” p. 32, vv 9 e 10:

Ele procura fuga, mas não encontra firmeza e acaba vencido:

“Vossos olhos, Senhora(…)
Meus sentidos vencidos se so(b)metem
Assi(m) cegos a tanta divindade” p.28, vv. 1, 5, 6.

Rendendo todo seu ser:

“Os olhos com que todo nos roubaste” p. 32, v. 9.

Chegando a torna-se uma obra resultante do poder desses olhos.

“Olhos fermosos (…)
Se quiserdes saber quanto possais
vede-me a mi(m) que sou vossa feitura” p. 31, vv. 1, 3, 4.

Apesar de todo sofrimento pelo qual o Amador passa, ele demonstra uma atitude pacífica, não se revoltando contra a Dama , atribuindo a culpa não a ela, mas a beleza de seus olhos:

“Ditoso seja o dia e hora, quando
Tão delicados olhos me feriam” (p.186, vv. 5 e 6)

Ou ao Amor que causa desventuras:

“(…) quando o Amor virou
a roda à esperança que corria
tão ligeira que quase era invisível
converteu-se-me em noite o claro dia” (p. vv. 9 a 12)

E noutras vezes o destino é o grande culpado de tudo:

“Fortuna (…)
Em verde derrubou minha alegria” (p. 198, vv. 1 e 2)

Em dois Sonetos encontramos uma rebelação a atitude da Amada. No primeiro ele reage, armando-se de força:

e, no segundo, diante da não correspondência amorosa o Poeta faz-lhe um ultimato para que ela permita-o desfrutar do seu amor.

IV – Os olhos do Amador

Passando ao estudo do valor dos olhos do amante, notamos que esse elemento aparece como veículo revelador do que vai na alma do Poeta no processo amoroso, expressando ora alegria, ora revelando sentimentos de amor, manifestações essas sempre de cunho positivo. Contudo, freqüentemente há também passagens nas quais os olhos do amante nos comunicam, em oposição, sentimentos de tristeza, mágoa, tormento e cansaço, e há momentos até que os seus olhos exprimem sentimentos paradoxais como, por exemplo, alegria pela dor que experimentam.

Fonte:
http://www.coladaweb.com/

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