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Folclore Mexicano (Ti, o Pica-pau Avisador)

Conto inspirado numa lenda do povo Tzeltal, de Chiapas, no México, adaptado por Ana Maria Machado
Antigamente, quando o senhor Santo Ildefonso andava por aqui fazendo os trabalhos de Deus na Terra, ficava temeroso de que acontecesse alguma coisa aos filhos quando estivesse longe. Por isso, encarregou o pica-pau Ti de ficar tomando conta deles e avisá-los dos perigos. 
O passarinho passou a fazer isso muito bem. Por qualquer coisa, voava para junto dos meninos, pousava no ombro de um deles e cantava:
— Ti-ti-ti-ti…
Eles já sabiam. O passarinho não estava só dizendo seu nome. Estava era avisando de algum risco. Então, tomavam cuidado e se defendiam. Por isso, nunca tinham problemas.
Santo Ildefonso ficou muito satisfeito. Para recompensar o passarinho Ti, fez que ele tivesse uma plumagem bonita. E também o ajudou para que nunca lhe faltasse comida. Ensinou-o a bater com o bico na casca das árvores, cavando buraquinhos para poder pegar as lagartas e outros insetos que se escondessem lá dentro. 
Então, o passarinho passava os dias nas árvores apanhando comida para os filhotes:
— Toque-toque-toque…
Mas, quando era preciso avisar os filhos de Santo Ildefonso, já se sabe. O pássaro Ti ia lá, pousava no ombro de um deles e cantava:
— Ti-ti-ti-ti…
E eles se preveniam contra os problemas.
O pica-pau fazia seu trabalho tão bem que o santo resolveu ser generoso e dividir os avisos de perigo com todo mundo. Disse ao passarinho:
— Ti, você agora fica encarregado de voar por perto das estradas e veredas, avisando aos caminhantes quando houver algum perigo. Assim, eles podem se cuidar.
O pássaro Ti passou a fazer isso, sempre muito bem. Pousava no ombro de quem passava e cantava:
— Ti-ti-ti-ti…
Era só o caminhante tomar cuidado e não acontecia nada de mau.
Mas os filhos do senhor Santo Ildefonso não gostaram nada da novidade. Não queriam dividir com ninguém os avisos do pica-pau. Por isso, um dia, quando Ti chegou, os meninos cuspiram nele.
O passarinho voou até a casa onde estava Santo Ildefonso e contou:
— Senhor santo, veja só o que seus filhos me fizeram. Maltrataram-me e cuspiram em mim. E cuspe de gente deixa passarinho manchado. Olhe só como minhas penas ficaram todas salpicadas de saliva.
Santo Ildefonso olhou e disse:
— Não posso fazer nada para consertar sua plumagem. Mas vou castigar meus filhos. De hoje em diante, eles não vão mais se livrar de nenhum perigo e vão ter muitos problemas. E você pode cuidar só da sua vida e de seus filhotes. Nunca mais precisa avisar ninguém de nada.
Por isso, até hoje, o pica-pau Ti tem as penas bonitas, mas sarapintadas. E sabe muito bem procurar comida debaixo da casca das árvores.
Por isso, também, as pessoas correm riscos e têm problemas. Mas, às vezes, o passarinho se lembra de seus tempos de avisador e canta, embora nunca mais tenha pousado no ombro de ninguém. E até hoje, pelas estradas de Chiapas, o caminhante atento e devoto toma cuidado quando ouve o pica-pau Ti no meio de uma viagem, pois sabe que pode ter contratempos pelo caminho.
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Como utilizar o texto em sala de aula

Rico em recursos visuais e linguísticos, o conto que você acabou de ler pode ser um ótimo instrumento didático. Quem dá a dica é Alice Vieira, professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), que se baseou no texto para conceber duas versões de plano de aula. A primeira se dirige às séries do primeiro grau menor, e a segunda, às turmas de sétima e oitava. Acompanhe as sugestões.

Para primeira a quarta série

Difícil, nessa fase, é prendera atenção das crianças. Para evitar dispersões, peça que desenhem a história enquanto você faz a leitura do texto em voz alta. Com um detalhe: os alunos não podem tirar o lápis do papel. Divertida, a atividade estimula a concentração e a percepção da narrativa e possibilita melhor fluência de idéias. Experimente, depois, comparar os desenhos. Haverá, com certeza, diferenças e semelhanças interessantes entre as releituras. Nas aulas de Educação Artística, ensine a turma a fazer origamis (dobraduras de papel) inspirados em elementos do conto: pássaro, árvores, índios, meninos. Outra opção é dividir a história em oito partes e a classe em oito grupos. Cada grupo deve desenhar um dos trechos em cartolinas. Monte um mural com as “obras-primas” e a história ganhará lindas ilustrações.

Para sétima e oitava série

Aqui, a professora Alice Vieira sugere uma pesquisa sobre o povo tzeltal, de onde emergiu a lenda do pica-pau avisador. Os tzeltals vivem até hoje em Chiapas, Estado mais pobre do México, e sua população é composta por vários povos indígenas. Revoltados com a miséria da vida rural, eles se organizaram contra o governo mexicano e fundaram, em 1994, o Exército Zapatista de Libertação Nacional.

Os zapatistas são guerrilheiros que só aparecem em público usando máscaras negras de lã e cujo líder, o subcomandante Marcos, se transformou na mais famosa lenda da região. O tema rende boas discussões nas aulas de História, Geografia e Ética.

Nas aulas de Português, a proposta é trabalhar diferentes leituras do texto. Que tal fazê-lo num estilo de narração de jogo de futebol, em ritmo de câmera lenta ou como se fosse um noticiário jornalístico?
Se os alunos se empolgarem com essa última categoria, peça que simulem entrevistas com os personagens da história: o pica-pau Ti, os caminhantes, Santo Ildefonso (600-667, espanhol) e seus filhos ciumentos. Para arrematar a atividade, e aproveitando a mensagem que a lenda oferece, organize um debate sobre o egoísmo. Depois, solicite aos alunos um texto individual com o seguinte tema: “Como podemos combater o egoísmo no mundo?”

Fonte:
Revista Nova Escola

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