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Virgínia Crisóstomo (Poesias Avulsas)

Ser
 
No singular é pujança
que vaza e bebe e mergulha
para em seguida emergir
e se deixar derramar

Na alteridade oscila
o pendular desejo
a insinuar sem dizer
no seu falar de viés
de sinuosas vias

Na plenitude é presença
de grota a colher vida
contraste de sombra e de luz
a permear lacunas
frequência de onda lunar

É singular e plural
o sensual divino
do feminino ser
Feito cordas que vibram
antigas canções de ninar

Par a Par

O equilíbrio entre dois
na gangorra
é não ficar do mesmo lado

Não haveria diversão
não fosse o impulso sincronizado
às vezes desajeitado
a mover a gangorra

Sem a alternância
um estaria isolado no topo
e o outro preso no chão

E não desfrutariam do prazer
de estarem para a par na gangorra
a eixo de cada oscilação

Manto azul
 

O sol adormece sobre o cansaço do dia.
Na penumbra das horas a vida repousa
enquanto as trevas cumprem seu destino.

No encontro da noite com o dia,
a lua recolhe os miasmas sinistros
que o sol em breve irá cremar.

As últimas lágrimas de orvalho
diluem-se sobre as folhas,
umedecem a terra,
acordam a semente.

E a brisa da aurora dispersa as nuvens
para dar passagem à manhã
a envolver de esperanças
com seu manto azul, o novo dia.

Salgueiro
 

No recomeço de tudo
o sopro da vida pulsa
no escuro útero

É a regressão do ser
a vestir-se de grão

O broto em mutação
cava a passagem de ida
ao desconhecido instante
de orvalho e de sol
de vento e de lua

Fiel ao fio que o ancora
oferta à generosa chã
altaneira fronde
de flores e frutos

À tormenta e sua ceifa
inclina-se em reverência
e doa-lhe imoladas folhas
adubo de gérmen latente

Cada nó, cada gume
urde a preciosa trama
que forma a antiga morada
de todas as eras

O sopro da vida pulsa
e tudo é recomeço
neste jeito humano de ser

Fonte:
Rebra

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Virgínia Crisóstomo

Virgínia Barbosa Leal Crisóstomo é recifense de nascimento e olindense de coração.

Filha de escritor e de historiadora e mãe de um casal de filhos, por trinta anos foi advogada da Caixa Econômica Federal em Pernambuco.

Iniciou seu percurso literário em 2003, com o livro “O Caleidoscópio da Vida”.

Em 2005 editou “Para quem não tem colírio – Desnudando o comportamento compulsivo”, e “Fênix”.

Participou de algumas antologias, entre elas “Pimenta Rosa” e “O Fim da Velhice – A superação bem humorada de um conceito”, “Pimenta Rosa”, “Antologia das Águas” e “Vozes – A Crônica Feminina Contemporânea em Pernambuco.

É sócia da União Brasileira de Escritores e integrante do Grupo Literário Celina de Holanda.

páginas em sites:

http://www.recife.pe.gov.br/pr/seccultura/fccc/cadastro/
 www.interpoética.com.br

Fonte:
Rebra

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Varal de Trovas n 23 -Barreto Coutinho (Recife/ PE) e Cidoca da Silva Velho (Jundiaí/ SP)

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Núbia Cavalcanti dos Santos (1962)

Núbia Cavalcanti dos Santos nasceu em 17 de junho de 1962, no município de Sanharó, uma pequena cidade do interior de Pernambuco.
É funcionária pública, formada em Ciências Físicas e Biológicas, pela FABEJA – PE.
Herdou da bisavó materna a paixão pela literatura, de acordo com informações obtidas por sua mãe e suas tias. 
Escreve poesias desde os quinze anos de idade. 
No ano de 2003, teve algumas dessas poesias divulgadas em uma Revista Mensal, Intitulada Revista de Sanharó. 
Em setembro de 2010, participou do XXXII Concurso Internacional Literário/SP, das Edições AG, e obteve o sexto lugar, com as poesias Muito além de um sonho e Um velho diário, publicadas na Antologia do livro “Noturno”.
 No ano de 2011, participou do Grande Concurso Cidade do Rio de Janeiro/RJ, com as poesias Reencontro, Solidão e Tributo, publicadas na Antologia “Poesia e Prosa no Rio de Janeiro”. 
No Concurso Quem Sabe Faz Agora/RJ, classificou- se com as poesias Sem você, Vou sair por aí… e Vida, minha vida…. 
Mais uma vez, obteve o quarto lugar  no XXXIII e XXXIV Concurso Internacional Literário/  SP, das Edições AG, com as poesias Amanhã, sem você e Um novo recomeço, publicadas na Antologia do livro “Amanhã, outro dia”; e Insônia e Boneca de Trapo, publicadas na Antologia do livro “Liberdade”. 
No 13º Concurso de Poesia 2011, da Biblioteca Popular de Afogados – Recife/ PE, classificou-se com as poesias Doce infância e Borboletas, ficando entre as cinqüenta selecionadas, que foram publicadas em Antologia no ano. 
No V Concurso Crônica e Literatura – Uberlândia/MG: Prêmio Literário Ferreira Gullar, ficou entre os cem classificados, com a poesia Escrava do medo, que fez parte da Antologia “Emoções Repentina – Volume III”, com publicação em fevereiro. 
Também participou das Antologias de Poetas Brasileiros Contemporâneos, pela CBJE, volumes 78, 79, 80, 81, 82 e 83, 84 e 85, com as poesias Eterno amor, Sonhos desfeitos, Razões do coração, Pai, Inspiração, Insônia, Foram tantas as vezes… e Lá se vai a madrugada, todas classificadas. 
Através dos Concursos Literários procura divulgar suas poesias. 
Fonte:

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Socorro Lima Dantas / PE (Poemas)


AS MAIS DOCES PALAVRAS SOFRIDAS

É madrugada,
 aconchegada pela suave brisa da ilusão,
 traduzo o meu silêncio
  com palavras sofridas, 
 surgidas pelo sopro da tua respiração.
  
 Pensamento embaralhado,
 dos segredos por nós vivenciados,
 semeados pelo tempo outrora passado,  
 obrigam-me a escrever de um amor ainda silenciado.
    
 Com o dedo indicador, vou compondo…
 Concluindo quase a uma frase inteira !
 São palavras loucas, 
 escritas com os olhos vendados,
 procurando o segredo
 entre a versão verdadeira e a ilusão primeira.
  
 São tentativas repetidas, 
 palavras intermináveis…
  Arrisco ler a escrita primeira, 
 Não encontro…
  Pulo para a derradeira…
 Não há tempo sequer de ler a última citação !
 O vento encarregou-se de apagar uma história verdadeira!

 Nesta imensidão de areias brancas,
 diante deste oceano azul,  aspirações contidas, 
 colhidas neste mar de silêncio e pensamento,
 carregaram tão rapidamente meus sentimentos:
 As mais doces palavras sofridas!

QUEM É VOCÊ?

Quem é você ? 
 Que plantou uma rosa em meu jardim,
Adentrou em minha vida,
 chegou assim…  lentamente…
 sem pedir permissão
Penetrou em meu coração, 
e nele passou a habitar
Numa troca de afeição sem fim.

Quem é você ?
Que me traz rosas perfumadas
A cada vez que nos encontramos,
Sem ao menos conhecer a tua voz
Nem tu conheces a minha…
Que em nossas noites insones 
tantos segredos trocamos.

Quem é você ?
Que me faz revelações
Deixa-me sentir segura
Agarra-me forte pelas mãos
amparando-me da maneira mais pura.

Quem é você ?
Que se tornou minha alma-gêmea
dela não consigo mais abrir mão
e passou a fazer parte
do meu coração!

Seria você meu amigo?
Que segura a minha mão
Ouve a minha história
Ri e chora comigo,
E me chama de irmão!

MINHA VIDA

Há vezes: – deparo-me com indagações,
procuro repostas às minhas aflições,
da história de um amor guardado,
o tempo perdido…
coberto pela poeira do passado.

Peito comprimido,
hóspede dos sentimentos perdidos,
ressente-se com imagens de outrora,.
fecho meu mundo numa concha
permito escoar para mim vãs recordações.
Estou inerte !…  sem resposta alguma…
são inquietações e sofrimentos vividos.

Arrastada pela solidão,
comparo-me a uma bailarina… imóvel !…
no picadeiro, ninguém a me aplaudir…
um grito selvagem aborda o meu íntimo.
Sinto-me só, em meio a uma multidão.
Vem àquela vontade de esquecer,
partir definitivamente…
numa noite insone, exposta ao inesperado,
sem identidade da alma …

sem levar a saudade !
quero esquecer o passado… o desejo insólito,
perdido ao encontro do nada…

Não há resposta a esta incerteza que me cerca !…
permanecem meus anseios,
aproxima-se o tédio…  
a saudade que ficou…
as recordações alteram as batidas do meu coração,
na inútil reconstrução do que fui,
e o que será deste meu eterno devaneio…

De repente,  
desperto meus pensamentos antes adormecidos !
descubro, sem querer acreditar,
tudo não passou de uma aspiração !…
pensamentos levados pelo vento
removidos pelos castelos construídos por mim,
num tempo vivido apenas para sonhar.

Anseios reprimidos,
aborda-me a vontade de esquecer tudo !
Retorno ao caminho de volta,
na inútil tentativa de mudar o destino.
Quero recontar a minha história,
alterar as versões…
mudar a rota dos nossos corações,
transformar nossas almas sofridas e amarguradas,
numa amplidão de amor ao alvorecer !
Quero viver este sonho,
quero te amar  como se não fosse existir outro momento igual,
quero esquecer a sucessão de outros dias,
viver apenas o presente !
Quero ser EU e TU numa só existência,
assim será a minha vida !

TRISTEZA… SOLIDÃO

Essa tristeza,
que não me abandona este coração,
recusa-se partir… dizer adeus…
Deixando-o em total desolação!

Essa tristeza,
que insiste em invadir a realidade,
atraindo o acesso a solidão,
que o peito não deseja enxergar…
entregando-se a saudade.

Essa tristeza… essa solidão…
Adentraram nesta alma sofrida,
que guarda um amor contido
sem licença pedir, 
Como se fosse seu !
É uma dor sem jeito, 
deixando-a perdida.

Essa tristeza… essa solidão…
que  impedem esta vida em paz prosseguir
 em seus sonhos imaginados,
devaneio de alegria
juras de amor
felicidade eterna
vida feliz
sem traumas
 sem cobranças
nem decisões imediatas.

Essa tristeza… essa solidão…

A VALSA DOS MEUS SONHOS

Embalada pelos braços da vida,
 Estou aqui, mais uma vez,
 entrando neste salão cheio de luzes e cores.
 Preparando-me para a realização de mais um sonho,
 confesso, com timidez.
    
 Interrompo o caminhar…
 Procuro abrigo para dividir esta alegria.
 Apuro o olhar e o sentir.
 Contemplo a orquestra… As pessoas…
 Descubro amigos a espera!!
 Por um momento, detenho-me,
 desacreditando viver este momento!
 Afinal, sou uma dama sonhadora
 Preste a concretizar uma aspiração,
 Este será o grande dia?!…
    
 Adianto o passo até o meio do salão,
 todos aplaudem, risonhos,
 denunciando a cumplicidade neste grande evento.
 A orquestra inicia os primeiros acordes
 da música tão esperada.
 Quanta emoção!
 Irei dançar  a valsa dos meus sonhos…
    
 Embalada pela realização, dou os primeiros passos!
 Flutuando como um pássaro…
 A melodia leva-me ao deslumbre do momento,
 Meu coração pulsa descompassado,
 São instantes de pura emoção!
  
   Enternecida nesta magia,
 Sigo deslizando docemente ao ritmo da valsa
 que não para de tocar!
 Esta é a mais linda música
 no salão de mais uma conquista.
 Será a mais inesquecível das valsas já bailadas…
 A felicidade invade minha alma!
    
 A incerteza dissolve-se…
 Descubro ser verdade!
 Extasiada pela magia do momento,
 sigo dançando com o coração cintilando
 nesta imensa realização da minha existência.
 Divido com vocês este encanto!
 Afinal, são os figurantes principais 
deste acontecimento na minha vida.
    
 Estou dançando a valsa da Felicidade!
 A valsa da realização!
 A valsa da emoção!
 A valsa de um sonho conquistado
 apenas com a alma!
 Convido todos para dançar comigo
 a valsa dos meus sonhos!

Fonte:

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Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Campos (Cinco em Um)

Da esquerda para a direita: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira,
Mário Quintana e Paulo Mendes Campos
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
PAPAI NOEL ÀS AVESSAS

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

VINICIUS DE MORAES
O HAVER

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
MANUEL BANDEIRA
RONDÓ DOS CAVALINHOS

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O sol tão claro lá fora
E em minhalma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
Alfonso Reys partindo,
E tanta gente ficando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo…
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minhalma — anoitecendo!

Consta que o poema acima, feito durante a “II Grande Guerra”, foi escrito enquanto o autor almoçava no Jóquei-Clube do Rio de Janeiro, assistindo às corridas.
MÁRIO QUINTANA
O MAPA

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…
PAULO MENDES CAMPOS
POEMA DIDÁTICO

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me,
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar ?

Meu instante agora é uma supressão de saudades. instante
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser visão, agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse.
E não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia –
E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica –
E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto ?
O mundo, companheiro, decerto não é um desenho
De metafísicas magnificas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de frustrações em combate.
nele, como causa primeira, existe o corpo do homem
– cabeça, tronco, membros, as pirações e bem estar…

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das necessidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse no sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo –
Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram –
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,
sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei a minha dor,
Também multipliquei a minha esperança.

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Ernesto Coutinho Junior / PE (Poemas Avulsos)

VAQUEIRO ERRANTE

A vida de um vaqueiro
tem coisas para se contar
o patrão exige e grita
que ele deve cavalgar.

Surge um berro
chega um boi,
em galopada vibrante,
mensageiro da boiada
que ouviu o seu berrante.

A boiada assim entendendo
passo a passo caminhou,
para fazenda do patrão
que em pouco tempo chegou.

Reunido no curral,
nem um rés faltou,
o povo admirou,
o vaqueiro não chegou.

Cumprida a sua missão,
partiu para encontrar,
o amor que lhe foi roubado,
sem ter tempo de gritar.

Assim o vaqueiro foi
um dia ele há de voltar
pois na vida de um vaqueiro
tem coisas para se contar.

AS PEGADAS DA VIDA

Há momentos na vida
difíceis de se suportar
quando surge uma mão amiga
docilmente a nos acalantar.

O brilho que antes era raro
se faz presente ao acordar
descobrindo novos caminhos
fazendo-nos novamente triunfar.

Hoje a noite se tornou mais bela
o cérebro magnamente a criar
idéias, sonhos e anseios
no desejo nobre de reconquistar.

Permanecendo sempre humilde
deixando o exemplo de sempre servir
a todos com nobreza de alma
escrevendo o nome do verdadeiro amor.

LÁGRIMAS

Lágrimas que rolam de um rosto
Lágrimas que mexem sentimento
Lágrimas que se alegram por momentos
Lágrimas que expressam uma vida
Lágrimas derramadas em noites longas
Lágrimas que por horas se tornam pesadas
Lágriams doadas de um amor puro
Lágrimas sentidas de um homem criança
Lágrimas que falam de um alguém
Lágrimas que amam
Lágrimas que perdoam
Lágrimas que buscam
Mesmo com mágoas
Se alegram ao ver alguém
Quem? Você.
Fonte:
União Brasileira de Escritores

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