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Adriana Kairos (Eu Conto Carneirinhos)

Gosto de sonhar. Penso que os sonhos são passeios da alma. Sabe,quando queremos espairecer. Sair por aí. Distrair.

 Só que os sonhos fazem viagens bem mais empolgantes. Viajam pelas lembranças, exploram o desconhecido, visitam até o que tememos e nos assustam com terríveis pesadelos. Mas são só pesadelos.

 Revemos amigos, outros bem mais queridos e encontramos até gente nova. Sim!!! Acredito nisso. Sabe quando vemos alguém pela primeira vez e dizemos: “Eu não te conheço de algum lugar?” Sei lá, mas eu acho que é lá das voltinhas dos sonhos, que já o vimos antes.

 Por isso é que gosto quando a noite chega. E espero ansiosa a hora de dormir, só pra saber a surpresa que terei. Que passeio farei, embalada em canções antigas de ninar. Quem sabe hajam caminhos de jujubas e rios de refrigerantes, laguinhos de chocolate com patinhos de bombom. Sei lá… As vezes a grande viajem é refugiar-se apenas no inimaginável.

 Não sou mística ou qualquer outra coisa. Nem gosto de religião. Só quero compartilhar os meus humildes pensamentos. E convidar a sua alma a pôr o pé na estrada te lembrando o quanto é bom sonhar.

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Vicência Jaguaribe (Complô no Reino da Fantasia)

Uma palavra para o leitor

Esta história não deve, de maneira alguma, causar-lhe estranheza, leitor, pois o fenômeno não é novo: não é a primeira vez que personagens de ficção saem das páginas dos livros, ganham autonomia e penetram no mundo real. Vou dar só um exemplo: na peça teatral Seis personagens à procura de um autor, do italiano Luigi Pirandello, seis personagens, ao serem rejeitadas por seu criador, entram na vida real e tentam convencer um diretor de teatro a encenar suas histórias.

**********

Conta-se — mas eu não assino embaixo — que, certa vez, viu-se, no castelo do Príncipe Rodolfo, herdeiro do reino da Appelândia, uma movimentação desusada: há três dias, cavalariços sonolentos limpavam as cocheiras e reorganizavam as baias para receber mais animais; fornecedores chegavam a todo momento para abastecer as despensas; criados domésticos limpavam e arejavam os aposentos fechados e com cheiro de mofo, trocando a roupa de cama, acendendo lareiras e enchendo as grandes tinas de banho, com uma água que talvez nem fosse usada — dizia-se, em surdina, que a maioria dos príncipes não gostava de banho —; chefes de cozinha de fama internacional começavam a preparar pratos que, só de olhar, despertavam não apenas a fome, mas a vontade de comer.

Sua Alteza Real receberia em seu castelo os príncipes que tinham suas vidas e aventuras registradas e deturpadas nos tradicionais contos de fada. Ele próprio fora atingido no papel que desempenha no conto “Branca de Neve e os sete anões”. Mas isso vamos deixar para depois.

Tudo pronto, o príncipe Rodolfo vestiu sua roupa principesca, com manto de príncipe, sapato de príncipe, chapéu de príncipe e tudo o mais de príncipe, e esperou. Se alguém duvidava ser ele um príncipe de verdade, a dúvida acabava ali, naquele momento. Ser príncipe estava em seu corpo e em sua alma: no jeito de olhar, de falar, de andar, de dar ordens, de amar e de odiar. Dizem que os príncipes fazem tudo isso diferente de nosotros. Não confirmo nem nego essa afirmação porque nunca em minha vida vi um príncipe de verdade.

Os convidados fizeram-se anunciar um a um para imprimir à entrada mais pompa e circunstância: 

Sua Alteza Real o Príncipe Nicolau, do Reino da Hipnolândia e da história “A Bela Adormecida”;

Sua Alteza Real o Príncipe Alexandre, do Reino da Cindelândia e da história “Cinderela”;

Sua Alteza Real o Príncipe Aníbal, do Reino da Ferolândia e da história “A Bela e a Fera”;

Sua Alteza Real o Príncipe Orlando, do Reino da Ursolândia e da história “Branca de Neve e Rosa Vermelha”;

Sua Alteza Real o Príncipe Alberto, do Reino da Bravolândia e da história “O príncipe que não temia coisa alguma”;

Sua Alteza Real o Príncipe Ambrósio, do Reino da Sapolândia e da história “Rei Sapo ou Henrique de Ferro”.

E foram anunciados outros príncipes de terras longínquas, cujas histórias eram pouco conhecidas. O príncipe Rodolfo encaminhou suas altezas a um grande salão decorado de espelhos e de lustres feitos do cristal mais puro. 

Todos entraram e a porta foi fechada. Aquela era uma reunião cuja pauta devia ficar em completo sigilo. Príncipes de reinos mais pobres olhavam aparvalhados para tanta beleza e luxo. Os do Oriente admiravam-se com a diferença do gosto e da noção de beleza. Os dos países mais próximos observavam tudo com uma pontinha, deste tamainho, de inveja.

Quando todos se acomodaram, o Príncipe Rodolfo, sentado na cabeceira da enorme mesa, abriu a reunião, falando o maravilhês, língua usada por todos os que vivem na dimensão da magia e do maravilhoso.

— Meus amigos, dignos Príncipes dos reinos vizinhos e dos reinos longínquos, vocês devem ter ficado curiosos e também preocupados com o meu convite. Deixem-me dizer-lhes o motivo pelo qual eu, presidente da Associação dos Príncipes dos Contos de Fada — APCF —, convoquei-os para esta reunião: rever a posição e a caracterização dos príncipes nos contos de fadas. Relendo, há pouco tempo, algumas obras famosas, tomei consciência de como somos tratados nas histórias. E não gostei do que descobri.

(Vamos dizer a verdade sobre o despertar da consciência crítica do Príncipe Rodolfo. Não foram os livros que ele diz haver lido, mas algo muito mais sério. Um dia, quando admirava aquela sala e seus lustres, acompanhado do pai, o Rei William, ouviu dele a informação do encantamento que envolvia o aposento: se uma pessoa tivesse certeza do que queria, se estivesse disposta a corrigir os erros de uma situação, ao fixar-se em um dos espelhos teria o senso crítico intensificado. Na primeira oportunidade, o Príncipe voltou ao salão e, ao mirar-se em um dos espelhos, enxergou a própria vida e a de muitos dos seus pares, como elas eram retratadas nas histórias. E não gostou do desvelamento feito pelo seu senso crítico agora aguçado.)

— Nossas vidas são exatamente como vou aqui expor. Digo, sem titubeio, que não temos nenhuma importância, nenhum carisma e, principalmente, não temos caráter ou personalidade.

— Vossa Alteza nos chamou aqui para nos falar de nossos defeitos e fraquezas? — Ouviu-se a vozinha fraca do Príncipe Sapo.

— Não. — Retomou a palavra o Príncipe Rodolfo. — Chamei-os para alertá-los sobre a maneira como os escritores nos apresentam em suas histórias. Eles desvalorizam nossas figuras. Esse é um ponto que atinge todos os príncipes dos contos maravilhosos, que só existem neles e por eles. Nesses contos, não temos nem nomes; somos conhecidos pelo nome da protagonista da história, que geralmente está presente no título da narrativa — o príncipe de “Branca de Neve”; o príncipe de “Rapunzel”, e assim por diante. Cada um de nós é simplesmente o Príncipe, como se não fôssemos indivíduos, mas entidades sociais ou pessoas jurídicas. Você, por exemplo, Príncipe Nicolau, seu nome não aparece uma única vez na história da Bela Adormecida. E, o que é mais, grave: amputaram o seu conto. Ele termina no seu casamento com a princesa ex-adormecida. Nada daquele final macabro, que faz até jacaré chorar.

— É verdade que o cortaram nesse ponto?! E o que fizeram com o restante?

— Ora! Amassaram e jogaram no lixo. Não vê que agora, no mundo do reality show, é proibido contar para as crianças certos detalhes das histórias. Também inventaram um tal de politicamente correto, que está levando os novos escritores a deformar as histórias tradicionais.

— Como pode ser isso? — Perguntou o Príncipe Ambrósio.

— Pode, meu amigo, no mundo do reality show, as coisas mais estapafúrdias acontecem. E tudo é muito contraditório. A minha história foi alterada: inventaram que  Branca de Neve acordou com um beijo meu. Imaginem se eu beijaria uma defunta ou uma quase! Os deuses me protejam! A verdade é que, quando a vi deitada no esquife, bela como eu jamais pensara que uma princesa pudesse ser, apaixonei-me. Tentei comprar o esquife, mas os anões negaram-se a vendê-lo. Quando, porém, entenderam que eu ficara profundamente apaixonado pela garota e ouviram minha declaração de amor — Dai-me, então, como um presente, pois não posso viver sem ver Branca de Neve.  —, tiveram piedade de mim e mandaram-me levar o caixão. Os servos que traziam o esquife para o meu castelo tropeçaram. A urna não caiu, mas balançou muito, o que fez a princesa expelir o pedaço da maçã envenenada preso em sua garganta. Imediatamente após o incidente, pedi a princesa em casamento.

E com sua história — “Rei Sapo ou Henrique de Ferro” —, Príncipe Ambrósio, ainda foi pior. Nem príncipe aparece. Em uma das versões modernas da história, o sapo se transforma, vejam só, em um corretor de imóveis, que planeja construir, na bela floresta do reino da Sapolândia, o que eles chamam de shopping- center. Outro detalhe: até o criado tem nome — Henrique. E Vossa Alteza, nada.

— Mas qual a razão de fazerem isso com a minha história?

— Acho que foi para denunciar a destruição das florestas que está acontecendo por lá, pelo mundo da realidade.

— E o que houve com minha história? — A pergunta vinha do príncipe Alexandre.

— A sua história, Alteza, já é ridícula desde que foi inventada — falou o príncipe Rodolfo, com sua franqueza habitual. Quem já viu um príncipe de sangue real ir de casa em casa com um sapato na mão, procurar a dona desse sapato, que poderia até ser uma plebeia, para com ela se casar! E, ainda por cima, Vossa Alteza prepara a festa, dança com a jovem desconhecida e ninguém sabe, nem a jovem, muito menos o leitor da história, que seu nome é Alexandre.

— Suas palavras me ofendem, príncipe Rodolfo. 

— Desculpe-me. É esta minha boca que insiste em ser sincera, por isso exagera na verdade.

— Desculpas aceitas, Príncipe Rodolfo.

— E sabe, Príncipe Alexandre  —, continuou o Príncipe Rodolfo — que os estudiosos descobriram uma versão da sua história muito mais antiga do que a europeia que conhecemos? E, talvez, bem mais interessante. É chinesa e parece ter sido a primeira versão escrita do conto “Cinderela” ou “Branca de Neve”.

— Interessante, muito interessante! Mas humilhante para este Príncipe aqui, que nem original é. — Choramingou o Príncipe Alexandre.

— Bem — retomou a palavra o Príncipe Rodolfo — para encerrar nossa reunião, um detalhe dos mais graves: todos nós, os príncipes, parecemos, nos contos de fada, uns idiotas. Apaixonamo-nos, à primeira vista, pela primeira jovem bonitinha que aparece e, rápido como a queda de um raio, contratamos casamento. E ainda somos apresentados como uns imbecis e preguiçosos, que levam a vida caçando, passeando e tentando encontrar dragão. Não temos nenhum papel no reino, a não ser procurar uma noiva e defendê-la dos dragões e das maldições das bruxas. Isso me deixa desolado. E tem mais: aquele felizes para sempre já está tão fora de moda! Quem é feliz para sempre, principalmente casando com as princesas mofinas dos contos de fada? Princesas que não fazem nada de proveitoso, não conseguem nem vestir-se sozinhas, passam os dias esperando a chegada de seus falsos heróis. São tão sensíveis, mas tão sensíveis mesmo, que sentem o desconforto causado por uma ervilha colocada sob vários colchões. Me dá vontade de falar como falam os príncipes e os não príncipes do mundo real: Minha amiga, me dá um tempo. Que tal se garantir um pouco e esperar menos?  Afinal de contas, o que as pessoas do mundo do reality show pensam que nós, moradores do mundo paralelo da fantasia, somos, para nos representar assim?

— É, a situação é grave e vergonhosa. O que Vossa Alteza sugere que façamos? — Perguntaram os príncipes ao mesmo tempo.

— Sugiro uma crise de ilustrações. Sem ilustrações, nada de livro para criança. Cada um de nós se encarregará de achar alguém com o poder de fazer desaparecerem todas as ilustrações das histórias que foram alteradas. Vamos marcar outra reunião para de hoje a um mês.

Satisfeitos, Suas Altezas dirigiram-se à sala onde serviriam o almoço, que foi digno dos deuses. Depois do almoço, repousaram uma meia hora e foram à caça. O Príncipe Rodolfo, com seu senso crítico hipertrofiado pela permanência na sala mágica, pensou um pensamento tão estranho quanto polêmico: Será que os contadores de histórias não estão certos na caracterização — ou falta de caracterização — dos príncipes? Parece que somos todos iguais: parasitas em busca de aventuras e de um amor instantâneo, feito leite em pó.

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P.S. A partir daquele dia, as editoras que trabalhavam com livros infantis foram processadas e tiveram que pagar boas indenizações aos clientes, por venderem livros cujas ilustrações se apagaram.

Fonte:
A Autora

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Arquivado em A Escritora com a Palavra, Ceará.

Olga Agulhon (Na Safra da Vida, a Magia das Cores)

Cronica Vencedora do Concurso Nacional de Crônicas do 3º Jogos Florais de Caxias do Sul (RS) – 2011

No espelho não mais encontro aquela jovem que um dia foi a noiva de branco a se olhar uma última vez antes de se entregar… Um último retoque nos negros fios encaracolados; uma última ajeitada na grinalda de flores de laranjeira… e pronto! Tão linda imagem… perfeita! Estava ali a encarnação da esperança!

Tudo perfeito, afinal, naquele dia. Em cadeiras caprichosamente arrumadas sob a sombra do parreiral em cachos, amigos e familiares em sincera torcida… Quase toda a italianada da colônia…

As uvas pendiam roxas e perfumadas, indicando fartura e bons presságios ao alcance das mãos.

O noivo, de pé, no altar, com brilho de gel nos cabelos, vestia, com certeza, o seu melhor traje. Aguardava, aflito, a donzela que tomaria por esposa como quem espera, finalmente, começar a viver… Cheio de sonhos no olhar!

Não vi, ao caminhar em sua direção, nada além daqueles olhos de anil e promessas… Olhos que guardariam aquele momento para sempre em sua retina… Olhos que me diziam: – Venha, não tenha medo, ninguém aqui ousará ofendê-la, e hoje é o seu dia de rainha.

Unidos pelo santo laço do matrimônio, não mais enfrentaríamos a resistência dos sogros… Estava feito!

Outras safras vieram, ano após ano. Junto com a colheita da uva e a produção do vinho, comemorávamos o aniversário de casamento e, de quando em quando, a dádiva da vida sendo gerada em ventre fértil.

Nem tudo foi assim tão lindo do jeito que foi sonhado… Nem todas as promessas foram cumpridas… Algum encanto se desfez aqui ou acolá, mas tudo foi bem-vindo…  Estávamos juntos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença… Fomos abençoados com cinco valorosos filhos, que formavam lindo degradê, e nossas vidas estariam para sempre entrelaçadas. 

Volto a me buscar no mesmo espelho da penteadeira de imbuia, na mesma casa caiada com as cores da terra… e o meu amor está de partida.

Busco-me no espelho e não me vejo. Na imagem refletida, uma outra habita. Insisto e me procuro naquela imagem de cabelos de neve cobertos… Não reconheço nenhum traço. Não vejo quem sou, não encontro quem fui quando trocamos o “sim” diante do altar…

Lembro-me dos olhos de promessas cheios…  Éramos outros… Tão jovens!

A velhice enrugou o nosso olhar… Não me reconheço diante do espelho e meu loiro não pode me ajudar nesse momento, pois trava um longo combate com a morte, no quarto ao lado… Insisto, aprumo os óculos, fixo-me bem posicionada… nada! O velho espelho também exibe as marcas do tempo. Choro… e as lágrimas silenciosas escorrem lentamente, percorrendo os inúmeros sulcos esculpidos em meu rosto.

Recomponho-me! Aprendi a aceitar os punhados de dor que a vida me reserva e esconde entre tantos potes de felicidade.

Volto e sento-me a seu lado. Ainda ouço um último sussurro: – Te amo, minha nega!… E então, finalmente, me reencontro naquelas retinas, que sempre me viram além da cor e das marcas do tempo.

Firme, seguro sua mão até a travessia, com a certeza de que, na minha hora, ele estará me esperando na margem de lá, com a mão estendida…, e ao caminhar em sua direção não verei mais nada além daqueles olhos de anil e promessas…

Outra safra se aproxima e a saudade ainda machuca o peito, mas alegro-me com a chegada dos filhos ao nosso pedaço de terra nesse cantinho do mundo.
A natureza novamente em cachos perfumados e coloridos.

Agradeço ao Criador da vida! O meu quinhão de alegria sempre foi maior que o meu quinhão de dor…

Meus filhos, participando da colheita da uva, são como bálsamo para os meus olhos… Lindos e fortes, uma mistura perfeita de raças, o branco e o negro em profusão de amor: na safra da vida, a magia das cores!

Fonte:
Jornal O Diario. Caderno D+. 31 janeiro 2012.

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Marina Colasanti (A Moça Tecelã)

Ilustração de Ana Peluso
 Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

 Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos  do algodão  mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.  Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta.  Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Fonte:
Marina Colsasanti. Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento. RJ: Global Editora , 2000.

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Arquivado em A Escritora com a Palavra, Rio de Janeiro

Agatha Christie (O Crime da Fita Métrica)

Politt segurou a argola da porta e bateu levemente. Após alguns segundos, tornou a bater. O embrulho que trazia no braço esquerdo ameaçou cair, e ela voltou a arrumá-lo. Este continha o vestido verde da Sra. Spenlow, que ela havia acabado de aprontar. Na mão esquerda, Politt carregava uma sacola de seda preta com uma fita métrica, uma almofada de alfinetes e uma tesoura.

Politt era alta e esquálida; possuía nariz e lábios finos, cabelos ralos e acobreados. Ela hesitou um pouco antes de bater pela terceira vez. Lançou os olhos pela rua e viu alguém que se aproximava a passos largos. Era a Srta. Hartnell — vinte e cinco anos, alegre, um tanto envelhecida — que cumprimentou-a com sua voz de contralto:

— Boa tarde, Politt!

— Boa tarde, Srta. Hartnell — respondeu a costureira. Sua voz era excessivamente fina, e o sotaque um pouco afetado. Seu primeiro trabalho tinha sido como dama-de-companhia de uma senhora.

— Por favor — continuou Politt —, sabe dizer se a Sra. Spenlow está em casa?

— Não faço a menor idéia — retrucou a Srta. Hartnell.

— Não sei o que fazer. Combinamos que hoje, às três e meia, ela experimentaria o vestido novo — disse Politt. A Srta. Hartnell consultou o relógio:

— Já passa um pouco das três e meia.

— É. Eu já bati três vezes, mas ninguém atendeu. Acho que a Sra. Spenlow precisou sair e esqueceu o combinado. É estranho, porque ela não tem o hábito de esquecer seus compromissos e ainda mais que ela precisa do vestido para depois de amanhã.

A Srta. Hartnell abriu o portão e aproximou-se de Politt.

— Por que será que Gladys não abre a porta? — perguntou. — Ah, já sei! Hoje é quinta-feira e ela está de folga. Provavelmente a Sra. Spenlow está dormindo. Creio que você não bateu o suficiente.

Dizendo isso, agarrou a argola e bateu violentamente na porta. Não satisfeita, bateu também com toda força nas almofadas da porta e gritou:

— O de casa! Há alguém aí? Não houve resposta.

Politt murmurou: — Acho mesmo que ela esqueceu e saiu. Eu volto outra hora. — E dirigiu-se para a saída.

— Tolice! — disse a Srta. Hartnell com firmeza. — Ela não pode ter saído. Encontrei-me com ela ainda há pouco. Vou olhar pela janela, e ver se ela dá algum sinal de vida.

Ela soltou uma risada para indicar que era brincadeira, e olhou, sem muito interesse, pela veneziana da janela mais próxima. -Digo sem muito interesse porque ela sabia que a sala da frente raramente era usada. O casal preferia a saleta dos fundos. Mesmo desinteressado, o olhar da Srta. Hartnell encontrou o que procurada. De fato, a Sra. Spenlow não deu sinal de vida, mas de morte, caída sobre o tapete ao lado da lareira.

— Sem dúvida — disse a Srta. Hartnell ao relatar o que se passara. — Eu tive que me controlar. Politt não saberia o que fazer. Disse-lhe que precisávamos manter a calma: ela ficaria lá e eu iria falar com o Investigador Palk. Ela disse que não queria ficar sozinha, mas não dei atenção. Era preciso ser firme com ela. Sempre achei que esse tipo de pessoa gostava de criar problemas. Assim eu já estava de saída quando o Sr. Spenlow surgiu de um dos lados da casa.

Neste ponto, a Srta. Hartnell fez uma pausa significativa que levou as pessoas que a ouviam a perguntar: — Como estava ele? A Srta. Hartnell prosseguiu:

— Sinceramente, eu suspeitei dele imediatamente. Estava calmo demais. Não parecia nem um pouco surpreso, e não creio que seja natural um homem saber que a esposa está morta e não demonstrar o menor sinal de emoção.

Todos concordaram.

A polícia também concordou. Tão desconfiados estavam do alheamento do Sr. Spenlow que nem perderam tempo em verificar em que situação ele ficara com a morte da mulher. Quando descobriram que ela era rica e que com sua morte o marido seria o único herdeiro, de acordo com um testamento feito pouco depois do casamento, as suspeitas aumentaram ainda mais.

Miss Marple, a doce — e, alguns diziam, um tanto maldizente velhinha que morava ao lado da igreja, foi chamada a depor cerca de meia hora após a descoberta do crime. Foi interrogada pelo Investigador Palk, que folheava um livro com ar de importante.

Se não se importa, senhora, gostaria de fazer-lhe algumas perguntas.

— A respeito da morte da Sra. Spenlow? — disse Miss Marple. Palk ficou surpreso. — Desculpe, senhora, mas como soube disso?

— Um passarinho me contou… — disse Miss Marple.

Palk compreendeu logo a resposta. Provavelmente o filho do dono da pensão ter-lhe-ia contado, quando foi levar-lhe o jantar. Miss Marple prosseguiu calmamente:

— Deitada no chão da sala de estar, estrangulada — talvez com um cinto bastante estreito. Mas, com o que quer que tenha sido, já não estava lá.

Palk estava intrigado… Como é que o pequeno Fred sabe disso?…

Miss Marple interrompeu o investigador:

— Há um alfinete no seu paletó.

Palk não esperava o comentário, mas não perdeu a calma.

— Como diz o velho ditado, encontre um alfinete em sua roupa, retire-o e terá sorte o resto do dia.

— Espero que seja verdade. Mas… o que deseja saber? Palk pigarreou, esticou os ombros e consultou seu livro:

— De acordo com o que ouvi do Sr. Spenlow, marido da finada, às duas e meia ele atendeu a um telefonema de Miss Marple, que lhe perguntou se ele poderia ir até sua casa por volta das três e quinze, porque ela precisava muito falar com ele. Isto é verdade?

— Evidente que não! — disse Miss Marple.

— A senhora não telefonou para o Sr. Spenlow às duas e meia?

— Nem às duas e meia e nem em qualquer outra hora.

— Ah! — fez o investigador, passando a mão pelo bigode com grande satisfação.

— Que mais disse o Sr. Spenlow?

— Disse que veio até aqui, como lhe fora solicitado, tendo deixado sua casa às três e dez. Chegando aqui, foi informado pela criada de que Miss Marple não se encontrava em casa.

— Isso é verdade — disse Miss Marple. — Ele esteve aqui, mas eu estava numa reunião da Sociedade Feminina.

— Ah! — fez novamente o investigador.

— Diga-me, Sr. Palk: suspeita do Sr. Spenlow?

— Ainda é cedo para dizer, mas… é como se alguém, sem querer citar nomes, tivesse sido… bastante engenhoso.

Miss Marple disse quase que para si mesma:

— O Sr. Spenlow?

Ela gostava do Sr. Spenlow. Ele era baixo, magro, rígido e convencional — o máximo em respeitabilidade. Era estranho que ele tivesse vindo morar no interior, pois vivera a maior parte da sua vida na cidade. A Miss Marple ele contou por quê:

— Sempre pretendi, desde criança, ir viver no campo um dia, e cultivar um jardim. Sempre adorei flores. Minha esposa tinha uma floricultura. Foi lá que a conheci.

Esta frase, aparentemente seca, deixava entrever todo um romance. A Sra. Spenlow, jovem e bonita, rodeada de flores.

O Sr. Spenlow, entretanto, nada sabia a respeito de flores. Não entendia de sementes, de podas, de canteiros, de temporadas. Vislumbrava apenas a imagem de um jardinzinho em uma pequena casa de campo, repleto de flores perfumadas e coloridas. Havia pedido a Miss Marple algumas informações, e anotado todas elas cuidadosamente em um caderninho.

Era um homem metódico. Talvez por causa disso a polícia tenha se interessado tanto por ele quando sua esposa foi encontrada morta. Com paciência e perseverança, os homens da lei aprenderam muito a respeito da Sra. Spenlow — e logo toda a cidade de St. Mary Mead também.

A Sra. Spenlow começou a vida como criada em uma mansão. Deixou o emprego para casar-se com o jardineiro, e com ele montar uma floricultura em Londres. O negócio prosperou, mas o jardineiro, que há muito andava doente, morreu pouco depois. A viúva deu continuidade ao negócio, aumentou-o e fê-lo prosperar. Depois, vendeu-o por um bom preço e casou-se pela segunda vez — com o Sr. Spenlow, um joalheiro de meia-idade, que havia herdado uma pequena loja que não dava lucros. Algum tempo depois, venderam a joalheria e foram morar em St. Mary Mead.

A Sra. Spenlow tinha uma boa situação. Os lucros provenientes da venda da floricultura tinham sido investidos, sob orientação espiritual, como ela fazia questão de explicar. Os espíritos tinham-na aconselhado com surpreendente sagacidade. Todos os seus investimentos prosperaram, alguns de forma inesperada. Ao invés desse fato aumentar a sua crença no espiritualismo, o casal Spenlow praticamente abandonou os médiuns para envolver-se completamente com uma seita de inspiração hindu. Entretanto, quando a Sra. Spenlow chegou a St. Mary Mead, voltou-se por um certo tempo para a igreja ortodoxa inglesa. Estava sempre na paróquia, e ia aos cultos regularmente. Patrocinava obras sociais da cidade, interessava-se pelos acontecimentos do local e jogava bridge. Levava uma vida rotineira. E, de repente, foi assassinada.

Coronel Melchett, o delgado, chamou o Inspetor Slack. Slack um homem firme. Uma vez tendo formado uma opinião, tinha realmente certeza do que dizia; e desta vez já tinha vaticinado:

— Foi o marido!

— Você acha mesmo?

— Acho. Basta olhar para ele. Culpado dos pés à cabeça. Nunca demonstrou o menor sinal de pesar ou emoção. Voltou à casa sabendo que ela estava morta.

— Não acha que ele poderia ter representado o papel de marido desesperado?

— Ele não faria isso. Está muito contente. Há pessoas que não sabem fingir. São insensíveis demais.

— Havia alguma outra mulher em sua vida? — perguntou o Coronel Melchett.

— Não descobri nada a respeito. Ele é esperto. Evidentemente deve ter encoberto suas pistas. Acho que ele simplesmente estava farto de sua esposa. Ela tinha dinheiro, e creio que devia ser mesmo horrível viver com ela — sempre falando de religião. Então, decidiu livrar-se dela e viver confortavelmente sozinho.

— Isso pode muito bem ter acontecido.

— Foi o que aconteceu. Planejou tudo com cuidado. Fingiu receber um telefonema…

Melchett interrompeu-o: — Fingiu?

— Sim. E isso também quer dizer que ele mentiu ou que aquela chamada foi feita de um telefone público. Os únicos telefones públicos da cidade são o da estação e o do correio. Do correio não pode ter sido. A Srta. Blade vê todas as pessoas que entram lá. Da estação, sim. Há um trem que chega às duas e vinte e sete, e sempre se forma um certo tumulto. O principal é que ele disse que Miss Marple telefonou para ele e isso certamente não é verdade. A chamada não partiu de sua casa. Ela própria estava na Sociedade Feminina.

— Você não está considerando a possibilidade de o marido ter sido deliberadamente afastado da casa por alguém que desejasse assassinar a Sra. Spenlow, está?

— O senhor está pensando em Ted Gerard, eu sei. Já investiguei isso também. Não creio nessa possibilidade. Ele não ganharia nada com isso.

— Mas ele não presta. Já deu um desfalque uma vez.

— Não estou dizendo que ele preste, e sim que, de uma forma ou de outra, ele restituiu o dinheiro daquele desfalque. Seus chefes é que não tiveram bom senso.

— E está ligado ao tal Grupo Oxford — disse Melchett.

— Mas arrependeu-se e fez tudo o que pôde para emendar-se. Admito que ele tenha sido astuto. Devia saber que suspeitavam dele e resolveu bancar o penitente.

— Você é um céptico, Slack — disse o Coronel.

— Já falou com Miss Marple?

— E o que ela tem com isso?

— Nada. Mas ela sabe de tudo o que acontece na cidade. Por que não bate um papo com ela? E uma velhinha bastante esperta.

Slack mudou de assunto:

— Gostaria de perguntar-lhe uma coisa: aquele primeiro emprego da falecida — a casa do Sr. Robert Abercrombie… Não foi lá que houve um roubo de jóias? Esmeraldas… Uma fortuna. Os ladrões nunca foram apanhados. Estive investigando isso. Deve ter acontecido quando a Sra. Spenlow ainda trabalhava lá, embora ela fosse quase uma menina na época. Ela não poderia estar metida nisso? Spenlow era um desses joalheiros pobretões — a pessoa indicada para isso.

Melchett abanou a cabeça:

— Não acredito nisso. Ela nem conhecia Spenlow naquela época. Lembro-me bem do caso. Na polícia, era voz corrente que um dos filhos de Abercrombie, Jim, estava envolvido no caso. Um perdulário! Nadava em dívidas e, logo depois do roubo, elas foram saldadas. Disseram que fora ajudado por uma mulher muito rica, mas eu não me convenci. Principalmente porque o velho Robert tentou afastar a polícia do caso.

— Foi apenas uma idéia — disse Slack.

Miss Marple recebeu o Inspetor Slack com alegria, principalmente quando soube que ele tinha sido enviado pelo Coronel Melchett.

— Foi uma gentileza do Coronel. Não sabia que ele se lembrava de mim.

— É claro que se lembra. Contou-me que aquilo que a senhora não sabe a respeito de St. Mary Mead não vale a pena procurar saber…

— Ele é realmente muito gentil, mas eu não sei mesmo nada a respeito desse assassinato.

A senhora sabe como se comenta sobre isso.

— Sim, claro! Mas de que adiantaria ficar repetindo fofocas? Slack tentou ser esperto:

— Isto não é um interrogatório. Ê uma conversa informal.

— Quer mesmo saber o que as pessoas estão dizendo, e se é verdade ou não?

— Isso mesmo!

— Bem, as pessoas sempre exageram muito as coisas. Além disso, há duas correntes de opinião: uma acredita que foi o marido. O companheiro é, de uma forma ou de outra, a primeira pessoa de quem se desconfia, não é mesmo?

— Pode ser — disse o inspetor, com cautela.

— Há também o lado financeiro. Soube que o dinheiro que possuíam era dela e que o Sr. Spenlow seria beneficiado com sua morte. Neste mundo corrompido, as piores maldades acabam tendo justificativa.

— Ele ficou com uma soma respeitável.

— Exatamente. Seria plausível que ele a tivesse estrangulado, deixado a casa pelos fundos, vindo pelo campo até minha casa, perguntado por mim, fingindo ter recebido um telefonema e voltado para casa, encontrando a esposa assassinada. Esperava, por certo, que o crime fosse atribuído a algum vagabundo ou ladrão.

O inspetor concordou:

— E o dinheiro? Eles poderiam não estar se entendendo bem ultimamente.

Miss Marple não o deixou continuar:

— Eles se entendiam muito bem!

— Como pode estar tão certa?

— Todos saberiam se eles brigassem! A criada, Gladys, teria espalhado o fato por toda a cidade.

O inspetor murmurou entre os dentes:

— Ela provavelmente não sabia… — e recebeu um olhar descrente como resposta.

Miss Marple prosseguiu:

— Há quem diga que foi Ted Gerard — um rapaz bem apessoado. Acho que o senhor sabe, a aparência às vezes influencia mais do que deve. Lembra-se do último vigário que tivemos? Foi um achado! Todas as moças compareciam à igreja, de manhã à noite, e muitas senhoras tornaram-se anormalmente diligentes no trabalho da paróquia. Isto sem contar os casacos e os cachecóis que faziam para ele. Muito embaraçoso para o rapaz!

— Mas, o que eu estava dizendo? Ah, sim! Esse tal Ted Gerard… Têm falado nele. Vinha vê-la com freqüência, embora a própria Sra. Spenlow tenha dito que ele era membro do tal Grupo Oxford — um movimento religioso. São bastante sinceros e fervorosos e a Sra. Spenlow estava muito impressionada com isso.

Miss Marple fez uma pausa e continuou:

— Eu estou convencida de que não havia nada além disso, mas sabe como é o povo. Muita gente acha que a senhora Spenlow estava encantada com o rapaz e que lhe havia emprestado uma soma considerável. Além disso, ele foi visto na estação naquele dia, saltando do trem das duas e vinte e sete. Mas é claro que seria mais fácil para ele pular para o outro lado da linha, entrar pelo atalho, saltar a cerca e contornar a sebe, sem passar pela estação. Assim, evitaria ser visto a caminho do sítio. E, logicamente, a roupa que a Sra. Spenlow estava usando era um tanto… imprópria.

— Imprópria?

— Um quimono, e não um vestido. — Miss Marple enrubesceu. — Esse tipo de coisas não deixa de ser sugestivo para algumas pessoas.

— A senhora também acha?

— Não, não. Eu não acho! Para mim, isso é perfeitamente normal.

— A senhora acha normal?

— De acordo com as circunstâncias, sim. — O olhar de Miss Marple era frio e pensativo.

O Inspetor Slack disse:

— Isso poderia ser mais uma prova contra o marido: ciúme.

— Não creio. O Sr. Spenlow nunca seria ciumento. Não é do tipo observador. Se sua esposa o tivesse abandonado e deixado um bilhete de despedida, esta seria a primeira vez que ele pensaria no assunto. — O Inspetor Slack estava intrigado com a maneira decidida pela qual ela o olhava. Tinha a impressão de que a conversa tinha por objetivo tocar em algum ponto que ele ainda não havia captado. Ela disse com firmeza:

— O senhor não tem nenhuma pista, inspetor?

— Ninguém deixa pegadas ou pontas de cigarro hoje em dia, Miss Marple.

— Mas esse eu tenho a impressão de ter sido um crime à antiga — sugeriu ela.

Slack retrucou:

— O que quer dizer com isso? Miss Marple respondeu calmamente:

— Acho que o Investigador Palk poderá ajudá-lo. Ele foi a primeira pessoa a chegar ao local do crime, como se costuma dizer.

O Sr. Spenlow estava sentado em sua espreguiçadeira. Parecia perplexo. Após algum tempo, disse, com um fio de voz:

— Posso imaginar o que ocorreu. Já não escuto tão bem quanto escutava antes, mas ouvi distintamente um garotinho dizer na rua: “Quem é o assassino?” Isso… Isso me deu a impressão de que ele estava querendo dizer que eu matei minha querida esposa.

Miss Marple, despetalando delicadamente uma rosa, disse:

— Essa era a impressão que ele queria dar, sem dúvida.

— Mas o que poderia ter sugerido essa idéia a um menino? Miss Marple pigarreou:

— Sem dúvida, a opinião dos pais.

— A senhora realmente acredita que outras pessoas pensem assim?

— Quase a metade do povo de St. Mary Mead.

— Mas, minha senhora, o que poderia ter dado ensejo a essa suposição? Eu gostava muito da minha esposa. De fato, ela não se adaptou tão bem à vida no campo quanto eu gostaria, mas ninguém pode concordar em tudo. Isso é um ideal impossível. Asseguro-lhe que senti muito perdê-la.

— E provável. Mas, se o senhor me desculpar a indiscrição, não parece.

O Sr. Spenlow ergueu-se e disse:

— Minha senhora há alguns anos li que um filósofo chinês, quando perdeu sua esposa, continuou calmamente a tocar um gongo pela rua — um costume chinês, eu acho — como se nada houvesse acontecido. O povo da cidade ficou muito impressionado com isso.

— Mas — disse Miss Marple — o povo de St. Mary Mead reage de maneira um pouco diferente. A filosofia chinesa não tem muito prestígio por aqui.

— E a senhora? Entende? Miss Marple fez que sim:

— Meu tio Henry — explicou — possuía um autocontrole fora do comum. Seu lema era nunca demonstrar emoção e também gostava muito de flores.

— Eu estava pensando — disse o Sr. Spenlow com certo entusiasmo — que poderia cultivar ramadas no lado oeste do sítio. Rosas vermelhas e glicínias também. E há um tipo de flor estrelada, cujo nome não me lembro agora e que…

Usando o mesmo tom com que falava com seu sobrinho-neto de três anos, Miss Marple disse:

— Tenho um catálogo de flores ilustrado, que é muito interessante. Gostaria de dar uma olhada? Preciso ir até à cidade.

Deixando o Sr. Spenlow no jardim a examinar o catálogo, Miss Marple subiu até seu quarto, embrulhou rapidamente um vestido num pedaço de papel pardo e saiu em direção ao correio. A Srta. Politt, a costureira, morava num pequeno apartamento, no segundo andar do edifício.

Todavia, Miss Marple não subiu imediatamente até lá. Eram duas e trinta, e uma perua estacionou na porta do correio. Isso acontecia todos os dias em St. Mary Mead. A funcionária do correio andava de um lado para outro, despachando pacotes, porque, além de cuidar do correio, ela vendia balas, livros de bolso e brinquedos.

Por alguns minutos, Miss Marple viu-se sozinha nas dependências do correio.

Antes que a funcionária retornasse, Miss Marple subiu até o apartamento da Srta. Politt e explicou que gostaria de reformar seu vestido cinza — torná-lo um pouco mais moderno, se fosse possível. A Sta. Politt disse que ia ver o que podia fazer.

O delegado ficou surpreso quando soube que Miss Marple desejava vê-lo. Ela entrou na sala e foi logo pedindo desculpas:

— Desculpe incomodá-lo. Eu sei que o senhor é um homem muito ocupado, mas tem sido sempre tão atencioso, que eu preferi vir falar diretamente com o senhor ao invés de procurar o Inspetor Slack. Eu não gostaria de criar problemas para o Investigador Palk. Quero dizer: acho que ele não deveria cuidar desse caso.

O Coronel Melchett olhou-a espantado:

— Palk? Mas ele é o investigador de St. Mary Mead! O que foi que ele fez?

— O senhor não se lembra? Havia um alfinete no seu paletó no dia do crime. Ocorreu-me que o alfinete poderia ter ido parar lá porque ele estivera na casa da Sra. Spenlow.

— É possível. Mas, afinal, o que representa um alfinete? Ele pode ter ficado preso na roupa dele quando ele estava examinando o corpo. Ele veio aqui ontem e contou isso a Slack. Acredito que ele o tenha feito falar. Não deveria ter agido assim, é claro, mas como eu já disse, o que pode representar um alfinete? Era um alfinete comum — o tipo da coisa que qualquer mulher usa.

— Não, não, Coronel Melchett. Aí é que o senhor está enganado. Um homem não saberia distinguir um alfinete comum de um especial, e aquele era especial, muito fino, geralmente usado por costureiras.

Melchett ficou paralisado. Aos poucos, parecia ir compreendendo tudo. Miss Marple sacudia a cabeça veementemente.

— Mas é claro! Para mim está claro como água! A Sra. Spenlow estava usando um quimono porque ia experimentar um vestido novo. Ela foi até a sala de estar e a Srta. Politt disse alguma coisa a respeito de tirar medidas e colocou a fita métrica em torno do seu pescoço. Depois, foi só puxar a fita. Fácil, não parece? Então ela saiu e ficou do lado de fora batendo a porta como se tivesse acabado de chegar. O alfinete prova, no entanto, que ela já havia estado lá.

— E foi Politt quem telefonou para Spenlow?

— Sim. Do Correio, às duas e meia. Exatamente na hora em que a perua chega e o local fica vazio.

— Minha cara Miss Marple, por que motivo ela faria isso? Por Deus! Não se pode assassinar alguém sem motivo.

— Eu acho, Coronel, que isso é uma velha história. Fez-me lembrar meus dois irmãos: Anthony e Gordon. Tudo o que Anthony fazia dava certo, o que não acontecia com Gordon. Cavalos adoeciam, a lavoura não progredia e a propriedade ia cada vez pior. Acho que isso deve ter acontecido com as duas mulheres. Elas devem ter trabalhado juntas no passado.

— Em quê?

— No roubo. Há muito tempo. Eram esmeraldas valiosíssimas, pelo que eu sei. A dama-de-companhia e a criada. Porque… uma coisa não está clara. Como a criada casou-se com o jardineiro e logo montou uma floricultura? Logicamente, com a sua parte do roubo. No final tudo deu certo. O dinheiro foi bem aplicado — rendeu. Mas a outra moça não deve ter sido bem-sucedida e acabou se tornando apenas uma costureira de cidade do interior. Aí novamente se encontraram. Tudo parecia ir bem até Gerard aparecer. A Sra. Spenlow tinha crises de remorso, tornara-se fervorosamente religiosa. O rapaz, sem dúvida, instigava-a a purificar-se, e não duvido que ela própria estivesse realmente inclinada a fazê-lo. Miss Politt, porém, não pensava assim. Começou a achar que poderia ir para a cadeia por um roubo que praticara há muito tempo e resolveu acabar com a Sra. Spenlow. Acredito que ela sempre tenha sido um pouco fraca. Provavelmente não moveria uma palha se o Sr. Spenlow fosse incriminado. O Coronel Melchett disse bem devagar:

— Há um dado da sua hipótese que podemos verificar: o fato de a dama-de-companhia dos Abercrombie e a Srta. Politt serem a mesma pessoa, mas…

Miss Marple insistiu:

— Não será difícil. Ela é o tipo da mulher que confessará tudo no momento em que for acusada. Além disso… ontem eu apanhei sua fita métrica quando fui experimentar uma roupa. Ela vai dar falta do objeto e pensar que poderá ir parar nas mãos da policia. É uma pessoa ignorante e pensará que isso é uma prova decisiva contra ela.

Miss Marple sorriu encorajando-o:

— O senhor não terá trabalho, pode estar certo.

Falou como lhe falara sua tia, dando-lhe certeza de que iria passar na prova para a Academia de Polícia. E ele passou.
Fonte:
Christie, Agatha(1891-1976). Os Três ratos cegos e outras histórias (tradução de Regina Saboya de Santa Cruz Abreu). Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1979.

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Arquivado em A Escritora com a Palavra, Inglaterra

Agatha Christie (Estranha Charada)

— E esta — disse Jane Helier, terminando as apresentações — é Miss Marple!

Como toda atriz, conseguiu o seu intento. Aquilo era realmente o clímax, o triunfante final! O tom de sua voz era igualmente respeitoso.

O estranho é que a pessoa tão efusivamente apresentada não passava de uma solteirona afável e bisbilhoteira. No olhar dos dois jovens a quem Jane, tão gentil, a tinha apresentado, havia incredulidade e uma certa decepção. Eram ambos bonitos; a moça, Charmian Stroud, morena e elegante, e o rapaz, Edward Rossiter, louro, alto e amável.

— É um prazer enorme conhecê-la — disse Charmian, um pouco ofegante. Mas lançou um rápido olhar, cheio de dúvidas, para Jane Helier.

— Querida — disse Jane, em resposta a seu olhar —, ela é uma pessoa maravilhosa. Deixe tudo por conta dela. Prometi que a traria e cumpri a promessa. — E voltando-se para Miss Marple: — Você resolverá tudo para eles, tenho certeza. Não será difícil.

Miss Marple volveu os calmos olhos azuis para Edward: — Poderia dizer-me do que se trata?

— Jane é uma grande amiga nossa — disse Charmian, impaciente. — Edward e eu estamos com um problema sério. Então, Jane nos convidou para esta festa, dizendo que nos apresentaria a alguém que poderia… bem, que talvez pudesse…

— Jane nos disse que a senhora é uma excelente detetive, Miss Marple — completou Edward.

Os olhinhos da solteirona piscaram, mas ela protestou, humilde: — Não, Não! De forma alguma. É que quem mora em uma cidadezinha como essa sempre acaba conhecendo um pouco melhor a natureza humana. Mas agora vocês me deixaram curiosa. Qual é o problema?

— Acho que é algo terrivelmente corriqueiro… um tesouro enterrado — informou Edward.

— É mesmo? Isso parece muito interessante!

— Pois é. Como a Ilha do Tesouro. Pena que no nosso caso falte o romantismo de costume. Não há mapas marcados com uma caveira ou um fêmur, nem indicações como “quatro passos à esquerda, a oeste pelo noroeste”. É bastante prosaico o lugar onde devemos procurá-lo.

— Vocês já tentaram?

— Nós cavamos cerca de dois acres. O local foi preparado para virar uma horta. Agora estamos decidindo se devemos plantar verduras ou batatas.

— Será que, realmente, devemos falar-lhe a respeito disso? — interrompeu Charmian.

— Mas é claro, minha querida!

— Então, só precisamos encontrar um lugar tranqüilo. Venha, Edward. — Ela saiu da sala apinhada e sufocante de fumaça e dirigiu-se a uma saleta no segundo pavimento.

Sentaram-se, e Charmian disse, de chofre:

— Bom, é o seguinte. Tudo começou com tio Mathew, quer dizer, um tio de nosso avô, meu e de Edward. Ele era muito velhinho, gostava bastante de nós e sempre dizia que, quando morresse, nos deixaria todo o seu dinheiro. Tio Mathew morreu em março e deixou tudo o que tinha para ser dividido igualmente entre Edward e eu. Pode até pensar que é mentira, mas sua morte não me alegrou absolutamente. Gostava dele, de verdade. Mas já estava doente há algum tempo.

— O problema é que tudo o que ele deixou era praticamente nada. Isso, francamente, foi um choque para nós, não foi, Edward?

Edward concordou, dizendo: — Sabe… nós estávamos contando com isso. Quando se espera receber uma bolada, não se faz muito esforço pra ganhá-la… de outra forma. Sou da Marinha e só tenho o meu soldo, e Charmian não possui nada. Trabalha como assistente de diretor num teatro de segunda categoria. É um trabalho interessante que ela gosta de fazer, mas não ganha quase nada. Pretendíamos nos casar e não estávamos preocupados com dinheiro porque sabíamos que, algum dia, ficaríamos bem.

— E como vê, não estamos! — disse Charmian. — E, o que é pior, Ansteys, a propriedade da nossa família, provavelmente terá que ser vendida. Edward e eu a amamos tanto! Acho que não suportaríamos isso! Se não encontrarmos o dinheiro de tio Mathew, é o que teremos de fazer.

— Charmian, ainda não tocamos no X do problema — disse Edward.

— Fale, então.

Edward encarou Miss Marple. — À medida que tio Mathew envelhecia, ia-se tornando cada vez mais desconfiado. Suspeitava de tudo e de todos.

— Muito sensato de sua parte — retrucou Miss Marple. — A ambição dos homens pode chegar a limites inacreditáveis.

— É. Tem razão. Era o que tio Mathew também pensava. Ele tinha um amigo que perdera todo o dinheiro em negociatas bancárias, e outro que fora arruinado por um advogado desonesto e ele próprio já havia perdido o dinheiro que investira em uma companhia fraudulenta. Tio Mathew ficou tão impressionado com esses acontecimentos que decidiu de uma vez por todas, transformar o dinheiro em tesouro, e enterrá-lo.

— Ah — disse Miss Marple. — Começo a compreender.

— Os amigos argumentaram com ele, fazendo-o ver que não obteria nenhum lucro desta forma, mas ele estava irredutível. Dizia que seu dinheiro deveria ser guardado em uma caixa debaixo da cama ou ser enterrado no jardim.

— E, quando morreu, deixou muito pouco em ações, apesar de ser muito rico. Por isso acreditamos que tenha, realmente, feito o que dizia — concluiu Charmian.

Edward continuou a explicação. — Descobrimos que tinha vendido algumas ações e retirado grandes somas em dinheiro, mas ninguém sabe o que fez dele. É provável que tenha agido de acordo com seus princípios, ou seja, comprado ouro e enterrado.

— Ele não disse nada antes de morrer? Não deixou nada escrito? Um documento, uma carta…?

— É isso o que nos deixa loucos. Ele não deixou nada. Ficou inconsciente por alguns dias, mas voltou a si pouco antes de morrer. Olhou-nos e suspirou levemente. Depois disse: — Vocês estarão bem, meus queridos pombinhos. — Então piscou o olho direito e morreu. Pobre Tio Mathew!

— Ele piscou o olho… — repetiu Miss Marple, pensativa. Edward replicou ansioso: — Isso lhe diz alguma coisa? Fez-me lembrar de uma história de Arsène Lupin. Havia alguma coisa escondida no olho de vidro de um homem. Mas tio Mathew não tinha olho de vidro.

Miss Marple abanou a cabeça. — Não… Não me ocorre nada no momento.

Charmian estava desapontada. — Jane jurou que você diria logo onde deveríamos cavar.

Miss Marple sorriu. — Bem, não sou mágica. Não conheci seu tio, não sei que tipo de homem era ele e não conheço nem a casa nem o solo.

— E se o conhecesse? — perguntou Charmian.

— Talvez fosse fácil dizer alguma coisa — respondeu Miss Marple.

— Ótimo — disse Charmian. — Venha conosco a Ansteys para ver o que pode fazer.

Ê possível que Charmian não imaginasse que Miss Marple fosse levar o convite a sério; porém, ela disse logo: — É muita gentileza sua, minha querida. Sempre desejei procurar um tesouro escondido, e — continuou olhando para eles com um jeito romântico e cúmplice — ainda mais havendo amor em jogo!

— Aqui estamos — disse Charmian, gesticulando vivamente. Acabavam de visitar as dependências de Ansteys. Estiveram no jardim (que mais parecia uma trincheira), andaram pelo pequeno bosque, onde, em volta de cada árvore, havia uma escavação, e olharam tristemente para as alamedas outrora limpas e belas. Estiveram também no sótão, onde velhos baús e cômodas foram esvaziados. Entraram em porões onde lajes foram retiradas à força dos suportes. Mediram e deram tapas nas paredes e mostraram a Miss Marple todas as peças do antigo mobiliário que pudessem abrigar uma gaveta falsa.

Uma pilha de papéis jazia sobre uma mesa do escritório — todos os documentos deixados pelo finado Mathew Stroud. Nenhum fora destruído e Charmian e Edward sempre voltavam a relê-los, examinando cuidadosamente cada promissória, convite ou correspondência, na esperança de se deparar com uma pista que, até então, tivesse passado despercebida.

— Será que sobrou ainda algum lugar? — perguntou Charmian, ansiosa.

Miss Marple abanou a cabeça. — Parece que nada foi esquecido, minha querida. Talvez tudo tenha sido vasculhado demais. Sempre achei que se devia ter um plano. É como diz uma amiga minha, a Sra. Eldritch, cuja criada era especialista em polir assoalhos. Um dia ela tanto se esmerou em polir o chão do banheiro que a Sra. Eldritch, ao sair do banho, escorregou, caiu e quebrou a perna. Foi um lamentável acidente porque a porta do banheiro, como era de se esperar, estava fechada e o jardineiro teve que subir numa escada e entrar pela janela, situação muito embaraçosa para a Sra. Eldritch, uma mulher de respeito.

Edward mexia-se na cadeira impacientemente.

Desculpem-me, por favor. Estou sempre me desviando do assunto. E que uma coisa lembra outra, e isso, às vezes, ajuda. O que quis dizer é que se tentássemos imaginar um lugar…

Edward interrompeu. — Pense, Miss Marple. O meu cérebro e o de Charmian não são mais capazes disso!

— É claro, meu querido! É muito cansativo para vocês. Se não se importam, gostaria de examinar tudo isso — e apontou os documentos que estavam sobre a mesa. — Isto é, se não forem confidenciais. Não quero parecer bisbilhoteira.

— Esteja à vontade. Mas acho que não vai encontrar nada. Miss Marple sentou-se e começou a examinar aquele amontoado de papéis. Ã medida que os examinava, ia organizando-os em pequenas pilhas. Quando terminou, ficou olhando para elas por alguns minutos.

Edward perguntou, com um toque de malícia na voz: — Então, Miss Marple?

Ela sobressaltou-se. — Desculpe-me. Estava distraída.

— Encontrou alguma coisa importante?

— Não, não. Mas acho que descobri que tipo de pessoa era seu tio Mathew. Bem parecido com meu tio Henry — amigo de brincadeiras óbvias. Um solteirão, evidentemente, não sei bem por que, talvez uma desilusão na juventude… metódico, não gostava de se sentir preso; poucos solteirões gostam!

Por trás das costas de Miss Marple, Charmian fez um sinal para Edward indicando que Miss Marple estava ficando gagá.

Miss Marple continuou a falar animadamente de seu tio Henry. — Gostava de charadas. Algumas pessoas sentem-se mal com charadas; um simples jogo de palavras pode ser irritante. Era desconfiado também. Estava definitivamente convencido de que os criados o estavam roubando. E, às vezes, eles estavam mesmo, é claro. Isso tomou conta dele de tal maneira — pobre homem! — que, no final, desconfiava de que estivessem envenenando sua comida. Passou a só comer ovos quentes. Costumava dizer que ninguém pode envenenar um ovo quente. Querido tio Henry! Eu o conheci tão alegre… gostava tanto de um cafezinho depois do jantar… Costumava dizer: — Este café está muito frio — o que se podia traduzir por: — Quero mais um.

Edward sentiu que se ouvisse mais alguma coisa a respeito do tio Henry iria enlouquecer.

— Gostava dos jovens — continuou Miss Marple —, mas tinha certa tendência a instigá-los. Costumava colocar sacos de balas fora do alcance das crianças.

Deixando a educação de lado, Charmian disse: — Ele me parece horrível!

— Ah, não, querida! Era apenas um velho solteirão não muito ligado a crianças. Até que ele não era de todo ruim. Guardava uma boa quantia em dinheiro em casa, dentro de um cofre seguro, e fazia muito alarde sobre isso. Por causa de todo o seu falatório, uma noite ladrões entraram em sua casa e arrombaram o cofre.

— Bem feito! — disse Edward.

— Ah, mas não havia nada no cofre — disse Miss Marple. — Ele guardava o dinheiro em outro lugar — atrás de algumas obras religiosas na biblioteca. Dizia que ninguém retirava um livro desse tipo da prateleira!

Edward interrompeu. — É uma idéia! Que W olharmos na biblioteca?

Charmian sacudiu a cabeça com desdém.

— Você acha que ainda não tinha pensado nisso? Procurei atrás de todos os livros. Foi terça-feira passada, quando você foi a Portsmouth. Tirei todos os livros das prateleiras. Sacudi-os. Nada!

Edward suspirou. Depois levantou-se e tratou de livrar-se estrategicamente de sua indesejável hóspede. — Foi muito gentil de sua parte ter vindo e tentado nos ajudar. Sentimos muito desapontá-la e tomar seu precioso tempo. Vou tirar o carro e a senhora poderá apanhar o trem das 15 e 30…

– Mas… — disse Miss Marple — precisamos encontrar o dinheiro! Você não pode desistir, Edward. Se não conseguir a princípio, tente, uma, duas, três vezes, mas tente novamente!

— Quer dizer que devemos continuar tentando?

— Exatamente — disse Miss Marple. — Eu ainda nem comecei. “Primeiro cace sua lebre…” como ensina aquele famoso livro de receitas. Um livro maravilhoso, mas caríssimo e a maioria das receitas começa assim: “Tome meio litro de leite e uma dúzia de ovos”.Mas onde é que estava mesmo? Ah, sim. Acho que nós, de alguma forma, caçamos nossa lebre, ou seja, seu tio Mathew, e só nos falta descobrir onde ele escondeu o dinheiro. E isso deve ser bastante simples.

— Simples? — exclamou Charmian.

— Sim, querida. Estou certa de que ele teria feito o óbvio. Uma gaveta secreta, este é meu palpite.

— Ninguém poderia esconder barras de ouro em uma gaveta secreta — disse Edward, secamente.

— Não, não, é claro que não. Mas não há razão para crermos que o dinheiro esteja em ouro.

— Mas ele sempre dizia…

— Meu tio Henry também. Lembra-se do cofre? Eis por que acredito que aquilo fosse uma pista falsa. Diamantes, por exemplo, poderiam estar em uma gaveta secreta.

— Mas nós procuramos em todas as gavetas secretas! Clamamos um carpinteiro para examinar a mobília.

— Verdade? Você é esperta. Eu sugeriria… a gaveta da escrivaninha de seu tio. É aquela ali, perto da parede?

— É. Vou mostrar. — Charmian foi até ela. Retirou a tampa. Dentro dela havia caixilhos e pequenas gavetas. Abriu uma portinhola central e tocou uma mola por dentro da gaveta da esquerda. O fundo da parte central soltou-se. Charmian retirou-o, revelando uma cavidade vazia.

— Isso não é uma coincidência? — exclamou Miss Marple. — Tio Henry tinha uma escrivaninha semelhante a esta; apenas a madeira era diferente.

— De qualquer forma — disse Charmian —, não há nada lá, como se pode ver.

— Acredito — disse Miss Marple — que o carpinteiro fosse muito jovem para conhecer tudo a respeito de sua profissão. Antigamente, os carpinteiros eram mais engenhosos quando fabricavam esses esconderijos. Há segredos dentro de segredos.

Ela apanhou um grampo do coque dos cabelos grisalhos e impecáveis; espetou em um orifício quase imperceptível, que havia num dos lados do segredo. Com um certo esforço, puxou uma gavetinha dentro da qual se via um maço de cartas amareladas e um papel dobrado.

Edward e Charmian debruçaram-se sobre o achado, ao mesmo tempo. Com os dedos trêmulos, Edward desdobrou o papel para logo deixá-lo cair com um grito de decepção.

— Uma receita! Presunto ao forno.

Enquanto isso, Charmian desatava a fita do maço de cartas. Escolheu uma e leu-a rapidamente. — Cartas de amor!

Miss Marple exclamou romanticamente: — Que lindo! Talvez esteja aí a razão por que seu tio nunca se casou.

Charmian lia:

— “Meu querido Mathew: Devo confessar que parece ter passado muito tempo desde que recebi sua última carta. Tento ocupar-me com minhas tarefas e sempre penso que sou mesmo muito feliz por ter a oportunidade de conhecer o mundo e que nunca poderia imaginar que viajaria tanto por essas ilhas, desde que cheguei à América”.

Charmian interrompeu bruscamente a leitura:

— De onde é esta carta? Do Havaí! — E prosseguiu:

Por incrível que pareça, esses nativos são mesmo de um primitivismo incrível. Não se vestem, são selvagens e passam a maior parte do tempo nadando, dançando e adornando-se com guirlandas de flores. O pastor Gray já fez algumas conversões, mas o trabalho é quase sempre inútil, e tanto ele quanto sua esposa estão muito desmotivados. Tenho feito o que posso para encorajá-los, mas também às vezes me sinto triste por um motivo que você conhece, meu querido. A distância é uma prova muito severa para um coração apaixonado. As suas sinceras manifestações de carinho e afeto animaram-me muito. Agora e sempre você é dono de meu devoto e fiel coração, querido Mathew. Seu verdadeiro amor, Betty Martin.

P.S. — Esta está endereçada à nossa amiga Matilda Graves, como sempre. Espero que Deus me perdoe este pequeno subterfúgio.

Edward assoviou. — Uma missionária! Eis o romance de Tio Mathew! Por que será que nunca se casaram?

— Ela parece ter viajado pelo mundo inteiro — disse Charmian, examinando o resto das cartas. — Mauritânia, toda espécie de lugares. Provavelmente morreu de febre amarela ou coisa parecida.

Um leve suspiro chamou-lhes a atenção. Miss Marple estava muito intrigada. — Muito bem — disse ela. — Vejam isto agora.

Ela lia a receita de presunto ao forno. Sentindo seus olhares inquiridores, começou a ler em voz alta: “Presunto ao forno com espinafre. Tome um bom pedaço de presunto defumado, recheie com cravo-da-índia e cubra com açúcar mascavo. Assem em forno morno e sirva com purê de espinafre”.O que acham disso?

— Que estranho — disse Edward.

— Não, talvez fosse até gostoso. Mas o que acham disso tudo? De repente o rosto de Edward iluminou-se. — Acha que isso pode ser um código? — Apanhou o papel. — Olhe, Charmian. É evidente! Por qual outro motivo ele guardaria esta receita numa gaveta secreta?

— Exatamente — disse Miss Marple. — Isto é muito significativo.

— Quem sabe não é o truque da tinta invisível? Vamos aquecer o papel. Acenda o fogo — disse Charmian.

Edward assim o fez mas não havia sinal de tinta invisível.

Miss Marple pigarreou. — Realmente acho que vocês estão tornando tudo muito difícil. A receita deve ser apenas uma pista. As cartas é que devem ser importantes.

— As cartas?

— Sim, especialmente a assinatura.

Mas Edward nem a ouviu. Gritava, animado:

— Charmian, venha cá! Ela está certa! Veja, os envelopes são antigos, sim. mas as cartas foram escritas há pouco tempo.

— Exatamente — disse Miss Marple.

Elas foram envelhecidas. Aposto como foi o próprio tio Mat quem as envelheceu!

— Exatamente — disse Miss Marple.

— Tudo deve ser código. Nunca houve missionária alguma! -Minhas queridas crianças! Não há razão para dificultar as brincadeiras. Realmente um homem muito simples. Quis apenas brincar.

Pela primeira vez os dois jovens deram total atenção a Miss Marple.

— O que quer dizer com isso, Miss Marple? — perguntou Charmian.

— Quero dizer, querida, que você tem o dinheiro em suas mãos neste momento.

Charmian fitou as próprias mãos.

— A assinatura, querida! É a chave de tudo. A receita é apenas uma pista. Cravos-da-índia, açúcar mascavo e tudo o mais, o que significa? Ora, presunto e espinafre. Presunto e espinafre! Significam… nada! Está claro, então, que as cartas, sim, são importantes. Principalmente se levarmos em consideração tudo o que seu tio fez pouco antes de morrer. Ele piscou o olho, não foi o que disse? Muito bem. Eis a pista!

— Quem está louco aqui, nós ou a senhora? — perguntou Charmian.

— Sem dúvida, minha querida, você já deve ter ouvido uma expressão que indica que alguma coisa não é o que parece, ou será que já não é mais usada? numa situação como esta costumava-se dizer: “um piscar de olhos e Betty Martin”.

Edward ficou sem ação. Seus olhos estavam fixos no papel que tinha nas mãos. — Betty Martin…

— É claro, Edward. Como você mesmo disse, não existe ou não existiram tais pessoas. As cartas foram escritas por seu tio e acredito que ele se tenha divertido muito com isso. Os envelopes são bem mais antigos; não poderiam pertencer às cartas porque o selo postal data de 1851.

Ela estacou e repetiu bem devagar. — 1851. Isso explica tudo, não?

— Não para mim — disse Edward.

— Claro! — exclamou Miss Marple. — Também não faria sentido para mim se não fosse meu sobrinho-neto, Lionel. Um menino maravilhoso e um apaixonado filatelista. Sabe tudo sobre selos. Foi ele quem me contou a respeito de um tipo de selo raro e valiosíssimo. Um deles foi achado recentemente e leiloado. Era um selo de dois centavos, datado de 1851. Foi arrebatado por 25.000 libras, se bem me lembro. Imagino que os outros selos também devam ser raros e valiosos. Sem dúvida seu tio os comprou através de intermediários e tomou todo cuidado para não deixar pistas, como se diz nas histórias policiais.

Edward resmungou alguma coisa, sentou-se e escondeu o rosto nas mãos.

— O que houve? — perguntou Charmian.

— Nada. Apenas um mau pensamento. Se não fosse por Miss Marple, nós teríamos queimado essas cartas sem dar-lhes maior atenção.

— Ah! É isso que esses velhinhos espirituosos nunca imaginam. Meu tio Henry, por exemplo, certo Natal enviou uma nota de cinco libras para sua sobrinha favorita. Colocou a nota dentro de um cartão de Boas Festas, fechou-o e escreveu: “Todo o meu amor e votos de felicidades. Sinto só poder enviar-lhe isso este ano”.

— A moça, desiludida com a mensagem, atirou o cartão na lareira sem ao menos abri-lo. E ele acabou tendo que enviar-lhe outra nota.

A impressão de Edward a respeito de tio Henry sofreu uma completa transformação.

— Miss Marple — disse ele — vou abrir uma garrafa de champanha. Vamos beber à saúde de seu tio Henry.

Fonte:
Christie, Agatha(1891-1976). Os Três ratos cegos e outras histórias (tradução de Regina Saboya de Santa Cruz Abreu). Rio de Janeiro; Nova Fronteira, 1979.

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Clevane Pessoa (O Anjo, a Rosa, o Beija-flor)

                       Um dia, a rosa mais olorosa do jardim, sempre cuidada por um pequeno ser de luz- amante de sua beleza inefável, mãos pacientes e cuidadosas, a afofar e regar a Terra, arrancar ervas daninhas e afastar as formigas, mesmo sujando-as ou ferindo os dedinhos leves-recebeu a visita fremente de um beija-flor. Este, tão pequeno quanto o outro, mas dono das asas que ele não possuía e um bico que podia extrair o nectar precioso, encantou a pequena rosa orvalhada…

                      O anjinho luminoso, observando toda a perfeição daquilo, o encantamento do beija-flor batendo as asas centenas de vezes a equilibrar-se no ar, a cumprir um ciclo vital, um equilíbrio necessário na Natureza, resolveu ir embora, para não sofrer mais… Para sempre. Doía-lhe muito porque outro cuidava de sua flor, agora. Mas apenas quem ama verdadeiramente é realmente capaz de renunciar… Afastou-se de vez,-e então, abriu-se nele um par de asas luminosas, por ele desconhecidas, mas presentes desde que nascera para amar- e foi então que, travestido em um colibri de arco-íris nas asinhas vibráteis, ele pôde reaproximar-se da rosa que o reconheceu, no momento exato em que ela fenecia, pois tinha a vida efêmera, arrependida de não ter conseguido reconhecer a tempo toda a dedicação de quem cuidara de si desde que abrira as pétalas pela primeira vez…Agora era muito tarde…O que precisa ser feito em amor, não deve ser adiado, nunca…É preciso ser ousado para viver plenamente o momento amoroso…E então, a flor se foi…

                     O anjinho beija-flor,porém, por representar Eros, tinha o dom da eternidade e foi assim que ele descobriu outras rosas, outras flores e seguiu através dos séculos a cultuar o AMOR…

Fonte:
Clevane Pessoa de Araújo Lopes/Brasil,no e-book “Pequenas Histórias em Atos”-Ensaio Poético da AVBL,organizado por Maria Inês Simões

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