Arquivo da categoria: Caldeirão de Poesias

Caldeirão Poético 2

Eny Santos Júdice
(S. Fidélis/ RJ)

” CARTA PARA O AMOR AUSENTE “
Nesta manhã nevoenta de fumaça
estou morrendo de saudades tuas;
há na minha alma convulsões de luas,
há no meu peito a angústia que amordaça.

Amor, estou sorvendo a amarga taça,
a taça amarga das verdades cruas;
e busco em vão no retinir das ruas,
sufocar este amor que me desgraça.

Inútil! . . . E a obsessão dos teus abraços?!
Sinto em mim ainda as mãos do teu carinho,
dedilharem as cordas dos meus braços,

e a tua ausência, e o teu silêncio enorme,
vivem cantando para mim baixinho,
ninando esta saudade que não dorme!

Enoch Lins
(dados biográficos desconhecidos)

” VOCÊ “
Você é para mim a síntese da vida!
O espírito que eleva; a matéria que prende,
o gozo que nos põe em perenal subida
e as nossas ilusões pelo infinito estende.

É o tédio que caminha á trágica descida
e o orgulho do prazer impiedoso que ofende;
você é para mim essa lição comprida
que a gente, sem saber, rapidamente aprende.

Só você me faz bem e é todo o meu encanto!
Só você, quem de longe o meu pesar ouvindo
vem depressa e num beijo aniquila o meu pranto.

Só você quem me espera os minutos contando…
Só você, quando eu chego, abre a porta sorrindo,
só você quando eu vou… fecha a porta chorando!
==============

Esmarágdo De Freitas
(Floriano/PI)

” NEVER MORE ! “

Em que mundo encantado, em que dor, em que laço,
paira o teu sonho agora, alma que eu tanto quis?
Em que mundo encantado, em que ambiente feliz,
o teu corpo floresce, esquivo ao meu abraço?

Vivas para outro amor embora, como Tasso
ou Dante, hei de seguir-te, Eleonora ou Beatriz!
Na minh’alma este amor tem profunda raiz:
procuro desfazê-lo embalde, e não desfaço…

Em que dia essa carne opulenta e sadia
sentirá minha febre? Em que dia? Em que dia
hei de te possuir, minha estátua de Sais?

Torturo-me a cismar, na ânsia do meu tormento…
Grasna em meu coração atroz pressentimento,
ave negra de Poe: – “Nunca mais! Nunca mais!”
==================

Euclides Dias
(Belém/PA)

” VIVER DORMINDO “

Beijava-te. . . e beijando-te na face
oh! que doce prazer então sentia…
Se, assim, feliz, eu sempre assim sonhasse…
Se, assim, sonhando me passasse o dia…

Apertava-te ao peito em doce enlace,
com suave e terníssima alegria…
Se assim, sonhando, eu sempre te abraçasse
oh! que noites felizes eu teria!

E se eu te visse, assim, sempre a meu lado,
pálpebras roxas, colo perfumado,
lânguida, terna, e boa, e feiticeira,

eu quisera sonhar sempre, dormindo,
e, se sempre, a sonhar, te visse rindo,
passar dormindo a minha vida inteira.
==========

Ezequias da Rocha
Major Izidoro/AL

” O ELOGIO DE NÓS TRÊS “

Eu sou tu. Tu és eu. Nós dois, portanto,
somos, seremos uma só pessoa,
de forma que, quando algo te magoa
meu coração magoa-se outro tanto.

Se está cheia de um céu tua alma boa,
que ri se rio, ou chora com o meu pranto,
a vida é para mim um doce encanto,’
– um paraíso o peito me povoa.

E todas essas coisas que sentimos,
nosso Fernando, em quem nos confundimos,
sente-as , mais do que nós, logo depois;

é que o nosso bom filho, sem defeito,
perfeito como tu, como eu, perfeito,
é a soma certa, exata, de nós dois.

Fonte:
J.G . de  Araujo Jorge . “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”. 1a ed. 1963

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Caldeirão Poético da Bahia I


A. J. CARDIAIS
(Salvador / BA)
Cadeia alimentar

O mundo animal
apesar de parecer violento
é mais natural
do que o do ser humano…

Nenhum animal
mata por prazer
ou por engano…
Mata para se defender
ou para se alimentar.

A cadeia alimentar
não é para aprisionar…
É para manter o equilíbrio.

Desequilibrados, os humanos
quebram esta cadeia
aprisionando-nos neste inferno
que se tornou o Mundo.

Mundo mundo vasto mundo… (Carlos Drummond)

ALBÉRICO SILVA DE CARVALHO
( Salvador / BA)
Ser(tão)

Barro duro, rachado, roto, solo ingrato
No chão e nas paredes das casas.
Barro estéril, torrado e mato seco,
Pedem água!
Na terra, gretas secas, fendas apartadas,
Parecem bocas secas esmolando água!
As casas toscas, secas, enfeitam o cenário
E também sentem sede!

Homens, braços esquálidos
Vestes rotas, pela seca, pés rachados
Também pedem água!
Mais parecem gravetos estéreis,
Que também sentem sede!
Árvores secas com pouco verde
Retorcidas e, com braços esquálidos
Também pedem água!

E o gado, protegendo o osso
Mal se apruma de teimoso igual seu dono
Também sente sede!
Mulheres secas com barrigas grávidas
Também pedem água!
E os braços também esquálidos,
Equilibram outros galhos secos
Cujo choro também pede água.
E o cachorro cria da casa,
Também sente sede!

EDILSON NASCIMENTO LEÃO
(Urandi / BA)
O sol na mente

Cachoeira, água leite
Do leito do rio caudaloso
Escaldante, escaldado…
Corredeiras espumosas
Cor de algodão
Escorrendo pelo chão.
Sobe e desce, bailando numa canção.
Águas gélidas, falantes, calientes
Com o sol nascente.
Cenário abrangente
Água e sol na mente.

JERRE ADRIANO FERREIRA SANTOS
(Cândido Sales / BA)
Sobrevivente da desigualdade

Não posso viver assim!
Ver a vida lutar com a morte
E contar com a sorte pra sobreviver.
Viver e ver, a dor e a fome
Consumir crianças, mulheres e homens.
É triste!
Mas é a pura verdade;
Quem vive aqui padece calado.
A incerteza e a miséria
Predominam essas cidades.
Não sei se vale a pena deixar o nada
E viver outra realidade,
Deixar o sofrimento e viver a saudade,
Ir para bem longe;
E viver nas periferias das grandes cidades.
Viver de ilusão e de incerteza;
Mas sempre com a esperança de um dia voltar,
Para acabar com a fome e a miséria;
Que destrói a vida do povo
Que sobrevive nesse lugar.

JOSE IGNACIO SOLIS
(Salvador / BA)
Por que parei aqui

Por que parei aqui
não sei. Por que não
continuei pra outro lado
de arado em punho é um mistério
suponho. Um ponto avulso no sonho
dos oceanos pernambucanos.
Um caboclo romano à deriva
pelos sertões americanos
com a língua ferida de sal.
Ando descalço à míngua destes anos
sem saber o que semeio
por estas terras do Senhor.
Em meu peito desperto
o seu amor,
em seu seio meu deserto
mastigando o cal
da sua voz acima.
Um carcará Rocinante
por amplia cajuína.
Uma arara azul que berra
ao acaso da sina, do fim
de sua vida errante no Raso
da Catarina.

MARINA MORENO LEITE GENTILE
(Salvador / BA)
Declaração de amor

Recordações das brincadeiras,
Da juventude,
Tempos de sonhos,
Fracassos, sucessos,
Tudo ficou para trás,
Menos nosso amor e união.

Tento harmonizar uma poesia pra ele,
Busco as palavras, digito, digito,
Insisto um pouco mais, e mais,
As palavras ideais não vêm, desisto!
Uma canção do Roberto Carlos resume tudo
– Como é grande o meu amor por você…

(Ao meu irmão Noel Moreno Leite)

VALMARI SANTOS NOGUEIRA
(Salvador / BA)
“PÃE”, com muito orgulho!

Com um sopro divino eles rebentam barulhentos
E passam a compor galhos da grande árvore
(humana)
Que através dos tempos, emana:
Contratempos,
Amor
E alegria!
Logo, crescem…
Dizem uns: – o trabalho será dobrado!
– Não, se houver pais dedicados…!
Dizem outros.
Mas, a sociedade industrial, óbices impõe
E a mãe é tragada pela lida
O pai, então, assume a criação…
Esforça-se…
Bem ou mal dá conta do recado.
Ainda que, no futuro, reconhecimento não ganhe
Nada lhe tira a condição de PÃE
(pai e mãe)
Nas suas horas vagas.
E assim, nessa marcha existencial, percebemos
a dinâmica da genealogia transformando a vida
em sublime poesia!

Fontes:
Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos – Vol. 80
Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos – Vol. 79

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Caldeirão Poético do Rio Grande do Sul II


CRISTINA CECCAGNO
( Pelotas / RS)
[(In) definição

procuro nas palavras de outras pessoas
algo que defina o que sinto por ti
pela insanidade que nos envolve
pela tua ausência

nada nos define
nada nos enquadra

procuro nas lembranças
uma pista do tempo que vivemos
do tempo que perdemos
e do que se perdeu ao longo do tempo

nada nos define
nada nos enquadra

procuro nos andarilhos
o movimento certo para seguir adiante
para acertar o passo
para dançar a música certa
para inventar um ritmo

nada nos define
nada nos enquadra

procuro a ti
nos mesmos lugares
e só te encontro dentro de mim
isso me define: tua
isso me enquadra: pra sempre.

DENISE MULLER GARATEGUY
(Montenegro/ RS)
Todas as tuas cores

Tateio
Teus bolsos,
Encontro
Sementes
E
Nos teus olhos
Vejo
Encardidas ilusões
Há pedras
De todos os tipos
Segurando portas
Por sobre a mesa
Há os vasos de flores
De tomates
E
De pimentas
Há os gatos
Os livros
Os acordes
E as letras

A dura indecisão
Transbordando copos
E pensamentos

Os sonhos
Nos escapam…

Tua presença
Vinga-se
De mim
Na perfeição
De ser
Como
És

GILBERTO MONTEIRO MAZOT
(Porto Alegre / RS)
Cadafalso de mim

Trancado em meu baú de desejos, sonhos, loucuras,
Meu coração faz-me cadafalso de mim.

Atuando meu teatro interior,
Faz-me sorrir,
Aplaudir
Despedaçar-me de chorar por ti.

Contraceno no espelho a consciência inconsciente
de que teu desejo é meu desejo.
Desejo que se torna meu por incorporar tudo o que sente.

Se sente frio,
Frio eu sinto,
Se fome sente,
Sinto fome,
Se pensa em mim,
Teu amor me consome!

IONITA KÉSIA PEREIRA
(Sapucaia do Sul / RS)
Não se afaste de mim

Não se afaste de mim
Além de meu olhar

Não se declare com ardor
Além do “eu te amo”

Não cesse seu carinho
Além de um abraço

Não se desnude em você
Além de sua alma

Não dê causa à embriaguez
Além de meus beijos

Não se revele em cores
Além de seus sonhos

Não queira estar comigo
Além de um momento chamado sempre

E não esperarei de você
Além de seu amor por mim.

ISABEL CRISTINA SILVA VARGAS
(Pelotas / RS)
Louvação

Cantam os pássaros
Saudando o sol
A vida que aqui transborda.
Ao seu canto
Acrescento minha prece
Cheia de amor e saudade
Louvando tua preciosa vida
Que a todos encantou.

JULIANO PAZ DORNELLES
(Porto Alegre / RS)
Poeta dos Versos Profanos

Sobrevoando campos verdejantes
Bebo da água da fonte
E navego no mar da tranquilidade

Sangue latino, sonho americano
O andar de um peregrino
Em um terreno plano

Sentimento divino, corpo humano
Espírito vivo, ‘Eu me amo’

Tantra hindu, ritual xamânico
Cartas de vinte e dois arcanos

Deuses gregos, mitos africanos
‘Eu sou o que sou’
O poeta dos versos profanos

Registrando momentos de magia
Dia após dia, ano após ano
Alegro-me na sabedoria
E pela paz reclamo

MARCELO ALLGAYER CANTO
(Cachoeirinha / RS)
Quem é você?

Quem é você?
Que acalma meu coração
Pelo sabor de todas as noites
Seja em qualquer estação.

Quem é você?
Que com sua simplicidade
Me mostra a possibilidade
De um viver despreocupado
Regado pelo amor.

Quem é você?
Que não precisa me procurar na noite,
Pois me encontra dia a dia
Sem clamor, mas com a vida ganha.

Quem é você?
Que me conquistou pela paciência
Seguindo meus passos “descalçados”
Pelas ilusões de meus dias.

Quem é você?
Que ratificou meus caminhos
Com seus doces e suaves carinhos
Me salvando dos despropósitos.

Quem é você?
Você é a minha amada!

MARIA OLINA CARDOSO FEIJÓ
(Pelotas / RS)
Índigos e cristais

Às vezes procuro e não encontro
fotos e molduras, rotas e esquecidas.

Pela razão do estar e permanecer
em linhas fazer-me presente aos distantes
comprometida: encéfalo entre tarjas e confetes.

Paredes, estantes, recantos de lembranças
móveis abatidos e solitários
jogados em vértices da sala, ignoram
busca incessante… Tem que ser assim?
São lembranças que o tempo traz
na ausência de mim.Talvez…
não queira reencontrar-me
em poeiras corroídas pelo tempo,
Ainda que tenha que percorrer
escombros vitais. Trilhar por estradas
tortuosas e sombrias. Sinto o desejo
de tudo esquecer.
Homens comem os cães,
Cães comem o pão… amassou

Quero!…Viver em bolsa amniótica
coberta por células fetais
no estreito mundo dos inocentes
rompendo o casulo de índigos e cristais.

MARTA TREVISOL
(Frederico Westphalen / RS)
Mulher

Enfim, o que sou,
Mulher, mãe, amante…
Sonhos
Apenas fantasia
Criada na imaginação
De um homem
Enfim, hoje sou o quê…
O desejo obscuro,
O sonho irreal
De um homem solitário.
Enfim, o que sou?
Neste mundo real
Onde a magia do sonho
Do amor encantado.
Transformou-se em modernidade
Fragmentos, compilados
Nos fios da internet
E a mulher, mãe, amante,
Ficarão solitárias.
No mundo real
De um homem só.

NEUSA MARIA TRAVI MADSEN
(Lajeado / RS)
Infinita liberdade

Quando eu me for desta vida,
quero liberdade infinita !
Quero poder estar em múltiplos espaços:
Na brisa que move o mundo,
no afeto dos abraços,
no olhar de meus filhos e netos,
no sentimento mais profundo…
Quero poder estar no gorjeio dos pássaros,
no perfume das flores,
na amizade, na paixão, nos amores…
Quero estar na labuta
e na vitória de meus sucessores…
Quero poder estar na paciência,
no perdão, na fé, na benevolência.
Quero estar na aceitação, na compreensão,
nas palavras de conforto e alento,
para amenizar o sofrimento.
Quero estar na emoção, na afeição,
na solidão, na harmonia e no perdão…
Estar nos acordes de minhas canções preferidas,
para animar as pessoas queridas.
Quero estar na alegria, na poesia,
nos afazeres do dia a dia;
Quero estar na luz do sol,
num pedaço do céu azul,
nos raios do luar,
para os poetas e enamorados inspirar…
Quero alcançar a infinita liberdade
Para poder amenizar a saudade…
Quero ser amor e felicidade !

VILMAR WIEDERGRÜN
(Santa Rosa / RS)
Voa, saudade

Voa, voa saudade
Procure até encontrar
O infinito não é longe
Um dia ela há de voltar

Voa, voa saudade
Sua parceira dor fica comigo
Quanto mais ela me invade
Mais me sinto seu amigo.

Um poeta não vive sozinho
Tem amiga melhor que a dor?
Faz doer bem de mansinho
O coração cheio de amor.

Portanto saudade, vá
E se puder traz minha vida
O coração quer parar
Está tão fraca a sua batida…

VIVIANE LUCHESE
(Caxias do Sul / RS)
Quantas primaveras?…

é o que todos perguntam.
Mais uma primavera?! quantas primaveras?!!
Não são primaveris os dias
Não sei ao certo quantas estações floridas se deram
tenho ciência apenas de que tive algumas
Infelizmente, parece-me mais próprio contar os invernos
talvez porque na noite gélida tenha essa res nascido
ou porque o frio tenha lhe exigido mais destreza
Não sei se são os aprendizados obtidos nas tempestuosidades que lhe fazem melhor recordar do frio, que foram muitos, ou se porque as alegrias do calor solar sempre passam tão depressa.
Não me apraz ser mais uma sombra vivente
Mas o sol estava em ti e derretia os cristais de gelo que se cumularam na minha alma
Quando foras, deste lugar ao inverno e com ele
o frio
e, até agora ao menos, insiste ele em ficar aqui
como uma cúpula de cristal circundando todo e qualquer sentimento gélido,
conservando cada lembrança e fazendo queimar o espírito
Como podem ser infernais os dias em que a paz predomina
Como podem ser ardis as noites frias e solitárias

Um eterno inverno se apodera de mim
Perséfone se perdeu no Hades
e mesmo que por metade não retornou de seu reino tão sombrio
levando consigo o brilho destes olhos que vos dizem estas coisas
esterilizando também este coração,
que nada mais espera colher
que labuta apenas por coação celestial
que vive morto, e não vive e,
de fato está morto desde então.

Fontes:
Câmara Brasileira de Jovens Escritores. “Grandes Poetas, Grandes Versos” – Edição Especial – Fevereiro de 2012.
Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Os mais belos Poemas de Amor” – Edição 2011.

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Gabriel Nascente (Caldeirão Poético: Goiás)


A NINFA DA AMÉRICA

À cidade de Goiânia, meu berço.

Aqui
é a terra de costas para o mar,
das alvas e vermelhas casuarinas
debruçadas sobre os muros.

Aqui é Goiânia:
levante dos Ludovico
& dos Caiado.
Flor-menina
da América,
noiva do porvir.

Aqui é Goiânia:
cidade-brinco dos postais,
poema-sonho dos gerais.

O verde é o seu tesouro.
O crepúsculo, o seu ouro.

O sol se despetala
o ano inteiro.

A primavera é o glamour
de suas auroras.

Terremoto de exóticas belezas
nas esquinas e nos shoppings
Em cada praça, um rastro de perfume
enlouquece os ares.

A paisagem é bêbada de verão.
(Chuva é valsa de lumes
nas pálpebras da terra).

Goiânia, meu chapéu de bronze
dos cerrados,
odisséia das enxadas,
filha das carabinas
e do boi.

Galante estrela do Oeste,
eu te saúdo
das fraldas do meu leito:
aboios da minha terra.

MAR: A MAGIA DO ABISMO

I

Voragem de vagas
nos olhos: o mar
batendo.
Frêmito de ondas,
bátega de águas.
Chicote de salinas
no casco dos veleiros.
(Do tumulto dessas águas
já fui velho passageiro!)

II
Pela montanha (escarpa acima),
espíritos ruminam, indigestos.
Cheiro de formol nas narinas,
o mar batendo: tanque de monstros,
fantasmas de alumínio!

III
Sacudi as ancas na areia,
fui ao cinema com uns versos de
Petrarca na língua.
e a musa Nereida
dos arrecifes,
legislava (inobre e
sonora)
a fuga
das gaivotas.

AS FUGAS DO FUGAZ

É breve a pomba no bico da torre.
é breve a nuvem – o breve choro da
guitarra.

A paz
do conchoso rio,
de orlas cor de estanho.

É breve este sol nos juncos.
É breve a sombra atrás da casa,
no dorso das formigas.
a pálida flor,
carcomida.

A hora (de tão lenta),
também despenca.

Aqui
coloco minha pedra: sou breve.
E venho das turbas periféricas,
cheio de vascas e de mágoas,
à flor dos logos.

Reticência…
eu grifo os fados do mal fado. Oro,
e não me orno.

As donzelas eram breves.
Eram breves as goiabas.
Os dedos da natureza, a tarde,
nos fugines do breve – fúlmen

NO BEIRAL DE UM ADEUS ANÔNIMO

Do outro lado do meu nariz
está o morto. E o nariz do morto
engolindo bálsamo, tem cheiro
de velas danificadas.

O pávido pavio
derretia a luz:
o torso era
de cera.

E dançava, triste,
o lume da fumaça /
no cenho dos entes/
velando
a hora partida,
da vida ida?

O Sol ia chegando, com suas barbas
de prata,
na garupa de um bicicleteiro.

Pu, que lembrança mostodôntica.

Era o dia das mães.
—Ei moço, me dá essa rosa aí,
vestida de sangue!

A voz do bêbado
vibrava gongos.

E o morto,
encerrado na escuridão
de sua claridade,
ali, não (ou-via?) as pombas
no amanhecer,

nem a peleja dos garis
agarrados à varrição,

enquanto
lutuosos olhos
eram esfregados
pelos dedos da insônia,
fedendo a nicotina.

O VÔO DAS METÁFORAS

Havia um sol espatifado
entre as dores da ferragem.

Havia um picolezeiro
fabricando
vitrines de gelo.

Havia um strip-tease
de lua
na cabeça dos pára-raios.

E um tremor de caminhões
no bolo de aniversário

Havia um zumbir de abelhas
no cabo dos punhais.

E um navio encalhado
no coração das fragas.

Havia uma chuva
escondendo nuvens
dentro dos sapatos

Havia um rio que nunca
nadou entre as escamas.
E um adejo de pombos
na taça de Dionísio.

E um canivete de prata
no olho de Édipo.

E o haver do não-existir
havia.

Uma procissão de mortos
no ventre dos espelhos.

Um choro de piano
nas águas do
infinito.

AMARGO CANTO DA PRESENÇA

Estou sozinho, Drummond,
num país de oitenta
milhões de frustrados.

Nesta tarde de sexta,
23 de janeiro, dia tão vulgar,
confiro minhas rugas:
são vinte estigmas de sapo,
são vinte concílios de astros?
Não sei. Apenas permaneço fiel
à lucidez do compromisso:
o cão mais solitário
no final de cada rua
tem o rosto metafísico
assombrado deste mundo.

Estou sozinho, Drummond,
num planeta desonrado.

Nesta tarde de sexta
vejo a vida como um cágado:
prudente, sem desespero, ruga
agüentando quatrocentos anos de solidão
num casco espesso como chumbo.

O mundo está solto na rua,
vagabundo como demônio:
girando, girando,
crianças mofinas,
cartazes hediondos.

Estou sozinho, Drummond,
numa golada de uísque.

Uma palavra, um gesto:
a bomba está enxertada.

Nosso brinde na taverna
vale o troco-submundo:
pecados, beberrões,
putas & diplomatas.

Marilurde,
“quarenta horas de ternura”
na ação célere de um beijo.

Estou sozinho, Drummond,
à espera de um desastre.

TRÊS INDAGAÇÕES DOÍDAS DO VIVER

1.

Pai,
o quanto vale viver?
– Viver, meu filho,
tem sabor de azar
quando no tempo
a boca não come.
Tem gosto amargo
quando na véspera
apodrece o fruto.

– Viver, meu filho,
implica humildade
de um boi caminhando,
implica peso de sol
como ferramenta nos ombros,
implica alegria, gosto de menino,
pipoca rebentando, chuva.
Implica tudo, até solidariedade
de uma sombra no caminho.

– Viver, meu filho,
é a conjugação de um verbo
nos vários tempos de uma dor.

2.

Pai,
o quanto vale a vida?
– A vida, meu filho,
é como um rio querendo dormir
na retina de teus olhos:
um rio sexual, um rio imenso,

um rio com seus seios de barranco,
mais o sonho carnal de suas águas.
A vida como um rio.
A vida como um boi,
uma canoa, um remorso,
um remo quebrado,
um rio cheio de solidão,
um rio correndo para a noite
como se lá na frente
uma força puxasse
o silêncio de suas águas.

– A vida, meu filho,
é nada menos que a faísca desses sonhos.

3.

Pai,
o quanto vale a liberdade?
– A liberdade, meu filho,
é coisa difícil
que não se abraça,
é luz ardendo no peito,
é brasa queimando na mão.

A liberdade, meu filho,
é coisa só do vento.

MARCENEIRO

Irmão, que ofício é este
que o faz marceneiro,
se o serro te que ocupa
não faz mobília
pro mundo inteiro?

Peroba-rosa, angico
são matérias
de seu ofício?

Carne parida no chão, madeira:
enxó na mão. Que ofício, irmão,
de móveis e caixão?

O RIO É UMA FLAUTA

Ali é onde o rio
vai à forca.
O parto de suas águas
vem do oco das pedras.
E o rio, como um pulmão,
arma seus abismos
de vidas sem retorno.
O rio é estrela rolando
como o viver
é pesado e fundo e leve
na carne dos cardumes.

Manso como a sandália
ou a casca de uma fruta
o rio é ermo, espremido.
E suspira longo
num corredor de terra.
O mistério de suas águas
é tão leve como a cinza:
o rio é levado pelas asas
de outro rio.

Ninguém sabe
onde começa a história
desse rio:

se do barro ou do sangue,
se do anzol ou da pluma.

O rio é terra.
Logo é diamante
luzindo como a faca
e a morte.

Feito a fatia de uma maçã,
o rio cresce e lembra
a raiz do mar.

Suas águas eram verdes
como a laranja era verde.

Suas águas eram brandas
como a paina.
E doce como os lábios
de uma menina.
O rio já transbordou
pelos barrancos do sonho.
O rio outrora era lento
e viajava luas inteiras.

Já sem fôlego
o rio é pranto.
Já sem peixe
o rio é morte.

O rio vai jogar sua lama
no quintal do oceano.
Não é preciso medo.
O rio tem músculos:

a lua e o remo
o levam ao cortejo
das aves mortas.

O rio é um galo de escamas
na garganta de mil auroras.
Máquina movida
pelo óleo das chuvas.
A primavera abre o lençol das flores
no manso abismo de suas águas:
águas que dormem na panela
das assadas e do mundo.

Água no tanque
e no coração do homem.

Um brinquedo
que naufraga
entre as veias
do planeta,
o rio.

o rio se encalha
num oco de pedras: é turvo como a batalha
dos espermas.

A brisa sopra
a cabeleira do rio.
E no seio das águas
há um gesto de núpcias.

o rio tem jardins
subterrâneos
e sua voz
é um menino
bonito
como o coração
de uma flauta.

MOVIMENTOS DE UMA TARDE

A tarde se debruça sobre os ombros da cadeira.
Andorinha faz xixi no muro, ninguém aplaude.

o céu empurra seu quinhão de nuvens
para o sossego das varandas.

É caseiro esse fim de domingo
no olhar do povo, no perfil das árvores.

Maçã-de-amor, picolés, perfumes vagabundos:
o povo passeia livre dos onívoros da pátria.

E na varanda a folhagem (suprema lembrança
do verde) está suspensa:
será que o céu
lhe dá socorro?

Barão, o querençoso cão de casa,
entrevou-se na velhice e chora
como alguém de costas para a vida.

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Caldeirão Poético do Goiás I


Aidenor Aires

A ESPERA

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

meu rosto espera pronto

os dentes do teu arado.

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

minhas mãos assistiram,

quais raízes,

a morte azul

das flores e dos ventos.

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

antes que alguém

vibre na noite

gemidos de Chopin,

vem.

Tu, que hás de vir um dia,

o céu de maio é doloroso e belo,

as flores começam a morrer.

Vem, antes que o Scherzo

da agonia vibre

o amaríssimo clamor

dos seus acordes

e eu queira vida.

Tu, que hás de vir um dia,

por que não hoje?

É maio,

é belo o dia.

Aidenor Aires

PRESENÇA

Ter que ficar aqui

no meio da rua testemunhando a vida

quando todas as ruas estão mortas.

Vir para o meio do mundo

e dizer do alto das escadas

que a poesia é triste

e que a vida é feita de estradas.

Vir para o meio do mundo

quando já não cabe no mundo

a chave da sua porta.

Alberto Vilela Chaer

CAFÉ

mil anos depois

a porcelana

toca teus lábios

é lá

onde vou buscar

a nova especiaria

ferver

os grãos mais nativos

na infusão de teu vestido

revelar uma Gazela

te levar embora para a Abissínia

lá sou amigo das cabras

vou coar o oriente

pelos teus poros

teu brilho perderá o sono

Bandeira passou perto

Abissínia fica depois de Pasárgada

Alberto Vilela Chaer

SANDÁLIAS

sejam as pedras

portuguesas

de São Tomé

ou de Pirenópolis

todas as calçadas

cochicham

os teus passos

aprendi com elas

a escutar os sussurros

das tuas pernas

para abafar

a espera acústica

desta alma mascate

um coração estendido

tapete persa

mosaicos do descompasso

teus pés sempre estarão nus

nas cerâmicas

das minhas mãos frias

os ladrilhos

se esta rua

se esta rua fosse minha

Alexandre Bonafim

QUARESMEIRAS

Por entre as paredes

da memória

desenhado a giz

um menino teima

em brincar

com as sombras

do silêncio.

Quaresmeiras

latejantes de cor

também insistem

em fincar raízes

no que se perdeu.

ao adentrares a brancura

dessa página

folhas e húmus

hão de enredar

o teu nome

o teu passado.

A brancura desse poema

há de mergulhar

a tua voz

nas origens

de todo

esquecimento.

Por entre os muros

da palavra

uma criança teima

em desenhar

na existência

um rosto de chuva

para sempre iluminado.

Alexandre Bonafim

O PAVÃO

As penas do pavão

guardam as entranhas

da luz

as raízes da água.

Olhos do inominado

pupilas do silêncio

as penas do pavão

desvelam a lua

na arquitetura

do arco-íris.

E tudo se silencia

tudo se cala

ante a fulguração

do mistério:

a estranheza

o susto

toda a perplexidade

se petrificam

ante a cintilação

do real.

Aos pés

daquela esfinge

tombam perguntas

ocas

ecos de ecos

sem voz.

As penas do pavão

abrem o ministério

como um leque

de brisas insanas.

Alice Spíndola

SEMPRE BUSCANDO A CANÇÃO ESQUECIDA

No frêmito da ventura,

a fuga e o retorno da imagem

do pequeno barco.

Imagem — fonte e oráculo —

mergulhada na insularidade

do mar de gestos e de palavras.

Com a alma seqüestrada

pela beleza do rio

e pelo rumor de suas águas,

o menino procura a canção esquecida.

Menino parisiense voga nas milhas do sol.

Alice Spíndola

A CHAVE

No meio da noite, configura

a fragrância das palavras mágicas

Na chave da noite, a ternura,

pluma que verte enigmas

Nas mãos do tempo,

o arado que rasga os mistérios

do sentimento que define

O homem da meia noite,

em seu caminho de volta

que faz

ao adentrar a meia lua

das unhas dos enigmas.

A mão da noite destrava a chave

da fragrância das palavras mágicas

Angélica Torres Lima

DE LOBOS E ANJOS II

O que é que eu faço, Anjo?

Quer que eu corra, que eu dance

que eu morra? que me levante

e cante uma ode à insõnia?

Não vê que o crepúsculo

já faz muito se desfez?

Que a lua é selada

em céu negro-martírio?

E não guarda o meu sono

nem me faz companhia,

Cruel, que só me inspira

elegias!

Angélica Torres Lima

TRILHAS PARA O ALTAR

Face de maçã trincada na manhã de louça.

Lâminas de agulhas negras fatiam

o altiplano azul no sonho das cabeças

A pedra engastada em prateleiras

oculta o segredo de gestos e passos

: corpos estagnados de anseio.

Antonio Carlos Machado

ANUNCIAÇÃO

Urubús em vôo altaneiro

— quem os sabe —

Planando em tarde estival

(morte consumada!)

Andorinhas prenunciadoras

— quem as esperava —

o verão tão distante

as esperanças sepultadas.

Antonio Carlos Machado

AMOR QUE SE ESCOA LENTO

Que eu durma,

enquanto repousas!

Que a memória permaneça,

enquanto passamos!

Que a dor silencie,

enquanto não partimos!

Que os cães ladrem,

é noite, apenas!

Que a neblina as adormeça,

vagas estrelas testemunhas.

E a lua, o cavalo, o êxtase,

o silêncio solidário?

Antonio Geraldo Ramos Jubé

BURITI

Buriti, buriti da verde várzea.

A saudade é paisagem, água quérula.

O céu, redoma azul sobre a planura,

no espaço claro de manhã de pérola.

Buriti, buriti ancião, decrépita

testemunha de coisas e mudanças.

Que fizeram contigo? Edifícios

te afogaram, em sombras e lembranças.

Foram-se os anos te deixando, apenas,

nos campos invadidos, espectral.

Antes, a água bebida nas raízes,

agora, um pranto podre no canal.

Buriti, buriti da verde várzea,

testemunha calada da mudança.

Ainda estás de pé em meio ao tráfego.

Em volta a fúria, a fúria urbana avança.

Antonio Geraldo Ramos Jubé

AS SEARAS

I

Arrozal, verde vento, verdes chuvas

plantadas nesta água verdemente.

A esperança cavalga aéreas nuvens,

germina nos segredos da semente.

Veranicos dardejam sóis, presente

o dinamismo oculto das saúvas.

Nos cachos do arrozal o dia acende

seu coração de luz sob áureas luvas.

Deus vê crescer a planta: ela precisa

de iguais rações de sol e chuva. E o tempo

amadurece o grão na mão da brisa.

Agora ei-lo saudoso de sua haste

chino cristal de leite simplesmente.

Dando graças à terra em que o plantaste.

II

Em fila o milharal ergue cocares

cor de ouro na manhã de papagaio.

E as folhas lanceoladas de guerreiros

armados para a guerra, perfilados.

O verde milharal sobe da terra

para o espaço de sol, todo lavado.

Em torno gira a festa buliçosa

das jandaias e dos maracanãs.

Rebentam as bonecas promissoras

com seu cabelo ruivo, de entre a palha.

— Doce milho que chega à nossa mesa

envolvido nas palhas da pamonha.

III

Do canavial as verdes lanças

e o verde mel nos colmos acondicionado.

A doçura do caldo a ferver nas tachas,

depois no alambique, elaborando

a cachaça e a rapadura.

De onde vem essa essência doce,

essa seiva nutriz?

Do suor do lavrador no eito?

Da mansidão do boi na canga?

Do carro moroso a gemer no eixo?

Da tortura da engrenagem no engenho

gira-girando no sereno da madrugada?

Esse gosto de mel de moenda…

Fonte:

Antonio Miranda

Imagem = criação por José Feldman

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Zacarias Martins (Tocantins Poético)

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POLIVALENTE

Conserto quase tudo
mesmo que às vezes
possa provocar
alguns estragos.

Fazer o quê?
Ninguém é perfeito!

SORRISO ENIGMÁTICO

À noite,
ficava horas a fio
com aquele sorriso maroto,
mergulhada em seus pensamentos.
Jamais se conformou por ser apenas
uma dentadura num copo d´água!

SONHÓDROMO

Não me impeçam de viver o meu sonho.
Também tenho o direito de sonhar,
mesmo que às vezes,
isso incomode muita gente
por causa do barulho.

TÁ CERTO, TÁ CERTO…

É curioso
quando certas pessoas
conseguem a proeza
de terem razão
mesmo quando estão erradas.

SÍNDROME DE CELEBRIDADE

…E de repente descobri
que sou um homem de palco
e não de platéia.

Zacarias Gomes Martins, poeta e jornalista, nasceu em Belém do Pará em 1957 e reside em Gurupi, TO desde 1983. É membro fundador da Academia Tocantinense de Letras e do Conselho Municipal de Cultura.

Livros de poesia: Transas do Coração (1978), O poeta de Belém (1979), Poetar (1980), O Profeta da felicidade (1984), Vox Versus (1986) e Pinga-fogo (2004). Participou de várias antologias.

Blog: http://www.zacapoeta.zip.net

Fonte:
Antonio Miranda

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Caldeirão Poético I

Evaldo da Veiga
ESSE SOU EU

Já caminhei tanto
Jamais pensei viver tantos caminhos
Sinto que a linha de chegada está perto
Muitas coisas em vacilo, mas em outras
Tenho convicção que vivi tudo que podia

Vivi a vida que se ofereceu e um pouco mais
Esquivei-me do fim várias vezes
Muitas vezes não escolhi os caminhos
Segui por coincidência

Por instinto, um farol que indicava
E até mais do que isso, um empurrão
Que não sabia vindo de onde
Eu fiz como podia, segundo aprendi

Tudo bem ao meu modo
Muitas vezes não sendo o que eu queria
Consciência leve,
Não fiz melhor porque não pude

Em especial fiz melhor quando amei
Os momentos de rancor produziram pouco valor
Minha colheita melhor
Foi quando plantei o bem

E mesmo assim poderia
Ter feito bem melhor
Mas se soubesse o que sei hoje
Na época eu fiz o que sabia fazer

Busquei ver tudo até o detrás dos escombros
Até em noites escuras de incerteza
Busquei manter-me calmo
Planejando um amanhecer de luz e amor

Esses foram meus melhores momentos
Se fui afoito em alguns instantes
Em outros tive cuidado
Principalmente quando envolvia vida
Que não era a minha
Era bom cuidar além de mim, ser protetor

Fiz sempre assim ao meu modo
Houve dias de amargura, chorar por dentro
Na maioria só eu sabia da dor
A dor da gente nem sempre é notada

Quando dói mesmo não tem testemunhas
Às vezes o erro foi porque fui puro
Outras vezes não esperei o sinal
Quando eu quis abraçar o mundo com as mãos…

Mas nada disso já importa
O que vale é que,
se não posso alterar o início
Posso criar um novo começo, agora

Antônio Fonseca
MEU PORTO SEGURO

Cai a chuva com seus lamentos.
Encontra os meus e me inunda:
Medos, temores, desconfianças, síndromes e escuridão.
É necessária,
Mas rasga meu peito no espocar dos trovões
E cega-me os flashes intermitentes.
Agarro-me no que tenho:
Nau errante desgovernada.
Só Deus sabe a que distância está meu porto seguro!
Resta-me lavar a saudade
Nas águas vertentes dos olhos
Dos céus,
E meus!…
Em contrapartida existe o sonho
Que expulsa a lentidão desse telescópio
Nos erros grosseiros dos astrônomos,
E coloca-me lado a lado com Maria…
Com Maria (que me rege).
Assim; pode cair temporal!

Maria Rosana Temoteo da Silva
DESPEDIDA

Os versos que nunca te ofereci
surgem no momento de maior dor,
jamais pensei que omitirias
o sentimento que batizastes de amor.

Agora tu és o meu passado
e eu, um dia, tua namorada.
Ao me perguntarem hoje, o que sou tua
direi então: – “Simplesmente nada”.

Talvez um dia ainda seremos
cúmplices no amor e na arte.
Aí então, depois de passada a mágoa,
te amarei novamente por toda a eternidade!

Delasnieve Daspet
SOMBRAS

Tantas saudades…
Começo a renovação,
Mas as sombras
Pesam-me nos ombros.

Cesar Moura
ABADIA

Prior regente do amor
Perdeu-se em ironia
Vencido pela dor,
Ao ver por arcaico modo
O destino da paixão.

Vencido pelo cansaço
O abade pois os pés no chão,
Quisera acreditar nesta fantasia
Que vestira a ilusão…

Precisou pintar de lorde
Nesta côrte o menestrel,
Não foi preciso desafiar à espada um dragão
Pela mão de uma princesa,
Bastou somente a realeza em vestes pompa
Para consagrar esta fábula na união!

Mas na abadia desfilou toda a congregação
No tapete vermelho da alta moda
Só por caviar e ostentação.

Vi no olhar do pobre súdito
Que desejava o confessor à confessar o seu amor
Por esta nata de toda nobreza,
Que ao pensar no desprezo que tem pela ralé,
Que só de doer já é pecar.

Conceição Pazzola
ECOS BANAIS

Sobrepondo-se ao cair da água
O choro da moça menina
Abala as paredes do banheiro
Testemunhas impotentes

Acima e abaixo do coração
Chora em silêncio lá fora
A mulher que tudo ouve
Impotente mãe, ora

Filha é também por instantes
Em seu mergulho interior
Conhece os porquês de ser
De tantas lágrimas inúteis

Depois do leite derramado
De tantas palavras ocas
Caídas no vazio do tempo
Ecos banais tão repetidos.

Roldão Aires
COINCIDÊNCIA

Sinto a tua ausência,
Aperta-me, a saudade.
Não sei se te mando
Rosas, para veres
Que meu amor, é verdade.
Quando, a estes versos
Escrevia,
Ouço baterem à porta.
Levantei-me para abri-lá
Eras tu com um ramalhete.
Pensastes como eu pensei,
Sentistes a mesma dor,
Que só quem ama sente.
Viestes com rosas.
Prá mim bastava,
Só um bilhete.

Marisa Cajado
VERSOS NA MADRUGADA

Há pouco foste embora…
Pouco tempo pra tanta demora
Em te encontrar novamente.
Deixastes impregnado levemente
Teu cheiro, tua lembrança
No quarto, na cama, no travesseiro
Na gama da química do amor.

Deitei-me no leito de forro marinho
E cobri-me com o lençol branco
O mesmo que nos cobriu e se fez ninho
Nestes dias de amar aberto e franco.
E tenho que calar no peito este afeto
Que teima em explodir, enquanto calas
O que por certo, não quer dizer teu ser inquieto.

E eu diria: _ Por que não falas?
Por que o silêncio que te distancia
Mais que os quilômetros que nos separam?
Dúvidas, anseios, que no ser resvalam
Em meio as recordações que já passaram
Tiram-me o sono, em nascente de poesia.
Pelas doces impressões que aqui ficaram

Como entender a química do sentimento
Que se expressa de modo tão diverso
Deixando adverso o pensamento
Sem resposta na tônica do meu verso?
Talvez o inverso deste verso que componho
Seja o teu verso, o teu testemunho
Deste querer que não trazes imerso,
Por não ser eu, a musa do teu sonho.

Fonte:
Colaboração de Poetas del Mundo

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