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Theo Padilha (Júlia, Jarbas e o Amor)

“Que dias há que na alma me tem posto um não-sei-quê, que nasce não sei onde, chega não sei como e dói não sei porque?”

Era uma vez uma menina muito bonita, morena, cheia de charme, de belos seios, um lindo rosto, cabelos lisos, lábios grossos e vermelhos, dentes perfeitos, uma verdadeira pintura em forma de mulher, com treze anos de idade, chamada Júlia.

Corria os meados do ano de 1955, quando seus pais resolvem mudar para um pequeno patrimônio no norte do Paraná. Naquele pequenino fim de mundo, ela causou muitos comentários junto ao povo que ali residia. Com aquela garota na vila, as meninas ficaram temerosas pelos seus namorados e até as mulheres pelos seus maridos. Julia, criada num centro maior, sabia encantar a todos. Para poder ir aos bailes, a menina tinha que fugir de seus pais. E a cada baile que ia sempre havia uma briga pela disputa daquela bela prenda. E ali era na bala e no facão. A família de Julia morava num sobrado, bem em frente a praça. Da janela do sobrado ela ouvia muitos elogios. Ficava toda cheia quando ouvia:

– Nossa! Ela parece uma boneca!

Apesar de gostar dos assédios, ela não se achava tão bacana assim. Dizia que os homens dali é que não conheciam nada, pela rudeza de seus modos. Pela simplicidade daquele lugar.

Num desses bailes, ela foi tirada para dançar por um caboclo educado, charmoso, cheiroso. Ela sai para a dança, mas quando olha nos pés do cidadão, este estava de botas e calçava esporas.

– O moço vai dançar ou vai amansar cavalo? – disse a moça, em tom de brincadeira.
– Por que a moça pergunta? – disse o vaqueiro.
– De esporas, nem pense! – e largou do rapaz no meio do salão.

Enquanto o homem tirava as esporas, Julia já estava com outro rodopiando pelo salão. Nisso deram um tiro certeiro no lampião que clareava o baile. Na confusão, a pobre moça foi jogada pela janela e correu para a sua casa, perdendo o salto do sapato.

E o moço das esporas começou a freqüentar o bar que os pais de Julia tinham. Seu padrasto estava muito doente e ela ajudava a mãe nos afazeres, juntamente com uma empregada. Certo dia aquele moço aparece no bar e confessa:

– Aquele tiro no lampião foi porque outro homem tirou minha prenda! – disse o moço chamado Jarbas. Comigo não tem disso não!
– O povo desse lugar parece índio! – respondeu Julia.

E assim ficaram amigos. E em outro baile lá estavam juntinhos dançando.

– Como é bonita essa música, Jarbas!
– Eu gosto muito dessa “Saudades do Matão”, tem muito a ver comigo criado no mato. – responde Jarbas.

E no calor daquele idílio, Jarbas aproveita para pedir a Julia para passear com ele em Jacarezinho.

– Não, meu bem, não posso ir. Não conheço ninguém por lá! – reclama a moça.

Jarbas era muito persistente. Não demorou muito para que fizesse a cabeça da pequena Julia. E então, logo fizeram muitas viagens pela região. Tudo que Julia queria, não tinha preço e era comprado na hora para sua satisfação.

Os dias passam, os meses correm e os dois viviam um para o outro. O interessante é que eles saiam juntos, posavam fora, mas não mantinham relações sexuais. Aquilo deixava Jarbas mais apaixonado. Um dia ele prometeu:

– Meu amor, te amo, te adoro, te dava a Lua se pudesse, mas agora chega! Não agüento mais!

Diante dessas palavras, Julia que também desejava esse momento, marcou um encontro para o dia 6 de agosto de 1956. Ela agora, estava com 14 anos e dez meses de idade. Jarbas tinha 33 anos. E aconteceu de tudo, naquela primeira noite do casal, que agora estavam mais apaixonados. Ficaram dormindo juntos e saindo até o dia que a mãe de Júlia descobriu:

– Olha aqui Jarbas, estou sabendo de tudo. Você assume ou vou mandá-lo para a cadeia!

Jarbas não titubeou, chamou sua namorada e foram juntos comprar a mobília da casa. Julia, então começa uma vida de atropelos. Ele era ciumento, possessivo, mas muito amoroso. Ela sempre fiel. Nunca tinha dado motivos. Mas o ciumento sempre encontra seus motivos.

Jarbas tinha um sítio perto daquele patrimônio. Ele acordava às cinco horas da manhã para tirar leite. Júlia ficava na casa dos pais. Eles tinham um código. Quando Jarbas chegava em determinada curva antes do sítio, ele dava um tiro. Ela tinha que no outro dia falar a hora que ouvira o estampido. Quando ele estava bravo dava mais tiros.

Jarbas começou a cuidar dos costumes de Júlia. As amizades eram por ele escolhidas. Decote. Modo de sentar. Tudo tinha que ser de uma primeira dama. Jarbas tinha um revólver 38 niquilado que servia de espelho para Júlia retocar o batom. Ele jamais levantou a mão contra ela. Havia ali um respeito mútuo, necessário a toda relação. E aquele castelo de areia começou a desabar. Algumas brigas botaram um ponto final naquela união. Só o que restou dessa relação foi o filho, que agora Julia tinha que cuidar.

Durante a separação ela pleiteou na Justiça a guarda do filho Leandro e ganhou. Eles tinham toda a assistência médica, farmácia, empório. Eles estavam muito bem de saúde, mas para não deixar fechar a conta da farmácia, tomaram muito Biotônico Fontoura. E para aproveitar o dinheiro do aluguel que Jarbas tinha que dar, foram morar na casa da avó.

Certa vez Jarbas prometeu:

— Se você arrumar outro homem eu te mato!

Júlia muito corajosa, casou-se com outro só para enfrentar o bicho. Casou-se com um amigo de infância, Pedro. No dia 8 de abril de 1976. Foi só uma fuga. Nunca houve amor entre ambos. Júlia preparou toda a festa de casamento na conta de Jarbas. O bolo era lindo.

A SEGUNDA LUA DE MEL

Quando o baile do casamento terminou, Pedro já se havia recolhido. Júlia vestindo um lindo penhoar sobre uma camisola, entra no quarto e Pedro estava empacotado no meio das cobertas. Nem viu sua beleza.

— “Se fosse o Jarbas, estaria me carregando no colo, como sempre fazia.” – pensou Júlia.
Pedro estava tremendo, embaraçado e nada aconteceu. Júlia prometeu consertar o bode. Mas não teve concerto.

Júlia agora era vendedora e viajava muito. Era desembaraçada, sorridente, carinhosa. Pedro era o oposto disso tudo.Com o casamento Julia dispensou todo o auxílio de Jarbas. Pedro não aceitava a ajuda do outro. Certa noite aparece Jarbas, todo valente. Batendo na porta com o cabo do revólver. Júlia viu o pobre Pedro amarelar. Correu para a porta da cozinha. Enquanto Jarbas esbravejava na porta da sala. Júlia achou aquilo hilário. Um batendo aqui e o outro correndo qual um canguru pulandinho pelos fundos. E aquela união depois de quatro anos foi por água a baixo. Separaram-se.

Júlia só pensava no Jarbas. Um belo dia ele aparece.

— Soube que você se separou vim ver o que você precisa! – disse Jarbas. Júlia levou um susto.
— Tanto posso vir aqui com tirar você daqui! O que resolve? – perguntou o rapaz.
— Aqui, não! – respondeu a moça.

Então mudaram-se de cidade. Toda sexta feira Jarbas a trazia para a casa da mãe. Andavam por ruas sem movimento, às escondidas.

— Não matei ninguém. Não roubei. A mulher é minha. O filho é meu. Hoje vou mostrar para este povo que sou bem macho! – disse Jarbas bem alto.

E passeou com Julia de carro por toda a cidade. Ele adorava exibir sua Julia. Era um verdadeiro troféu para ele.

Nasce Ana, Jarbas já estava muito doente. E a doença já o deixava mais ciumento. Julia resolve deixá-lo definitivamente. Mesmo assim ele vinha trazer doces e guloseimas para a nova filhinha. Eles já não mais se viam. Jarbas morreu no dia 9 de janeiro de l985. Julia até hoje não vê ninguém que tenha o jeito tão especial que teve Jarbas, e mesmo tendo outros casos ele a amava verdadeiramente.

Joaquim Távora, 4 de abril de 2009

Fonte:
Academia Poçoense de Letras e Artes “Apolo”
http://www.apoloacademiadeletras.com.br/

Fotomontagem sobre imagem de http://bymk.com.br
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