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Trovadorismo (Parte 3)

GÊNERO SATÍRICO

As cantigas satíricas (cantigas de escárnio e cantigas de maldizer) apresentam interesse sobretudo histórico, reunindo cantigas autóctones maliciosa da época. São verdadeiros documentos dos costumes e da vida social e política, principalmente da corte, trazendo até nós os mexericos e os vícios ocultos da fidalguia medieval portuguesa, sem a idealização da cantiga de amor.

Seu objetivo é a crítica social, com intuito humorístico, ridicularizando pessoas de forma sutil ou grosseira, denunciando os falsos valores morais vigentes e atingindo todas as classes sociais: senhores feudais, clérigos, povo e até eles próprios.

Seus principais temas são: a covardia dos cavaleiros, traições, as chacotas e deboches, escândalos das amas e tecedeiras, pederastia (homossexualismo) e pedofilia (relações sexuais com crianças), adultério e amores interesseiros e ilícitos, disputas políticas, mulheres feias.

Tanto nas cantigas de escárnio quanto nas de maldizer, pode ocorrer diálogo. Quando isso acontece, a cantiga é denominada tensão (ou tenção). Pode mostrar a conversa entre a mãe a moça, uma moça e uma amiga, a moça e a natureza, ou ainda, a discussão entre um trovador e um jogral, ambos tentando provar que são mais competentes em sua arte.

É verdade que seu valor poético é pequeno, mas seu aspecto documental torna imprescindível seu estudo. Ademais, são importantes uma vez que apresentam um considerável vocabulário, observando-se, muitas vezes o uso de trocadilhos; e fogem às normas rígidas das cantigas de amor oferecendo novos recursos poéticos.

 A diferenças entre as cantigas de escárnio e de maldizer é sutil.

CANTIGAS DE ESCÁRNIO

 Sátira social ou individual. Crítica indireta, sarcástica, zombeteira e de linguagem ambígua. Presença de menosprezo, desprezo e desdém. Não se nomeia a pessoa criticada, mas esta é facilmente reconhecível pelos demais elementos da sociedade.Uso da ironia, do equívoco e da sutileza, com intuito humorístico.

Veja exemplos de Cantigas de Escárnio

Rui Queimado morreu con amor
 en seus cantares par Sancta Maria
 por ua dona que gran bem queria
 e por se meter por mais trovador
 porque Ih’ela non quis [o] benfazer
 fez-s’el en seus cantares morrer
 mas ressurgiu depois ao tercer dia!

Esto fez-el por ua sa senhor
 que quer gran bem e mais vos en diria;
 porque cuida que faz i maestria
 enos cantares que fêz a sabor
 de morrer i e desi d’ar viver;
 esto faz el que x’o pode fazer
 amar outr’omem per ren non [n] o faria

E non há já de sa morte pavor
 senon sa morte mais la temeria
 mas sabede ben per sa sabedoria
 que vivera dês quando morto fôr
 e faz-[s’] cantar morte prender,
 desi ar viver: vêde que poder
 que Ihi Deus deu, mas que non cuidaria

E se mi Deus a mim desse poder
 qual oi’el há pois morrer
 jamais morte nunca temeria.
(Pero Garcia Burgalés)

 De vós, senhor, quer’eu dizer verdade
 e nom ja sobr'[o] amor que vos ei:
 senhor, bem [moor] é vossa torpicidade
 de quantas outras eno mundo sei;
 assi de fea come de maldade
 nom vos vence oje senom filha dum rei
 [Eu] nom vos amo nem me perderei,
 u vos nom vir, por vós de soidade[…]
(Pero Larouco)

 Ai, dona fea, fostes-vos queixar
 que vos nunca louv[o] em meu cantar;
 mais ora quero fazer um cantar
 em que vos loarei toda via;
 e vedes como vos quero loar:
 dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus mi pardom,
 pois avedes [a]tam gram coraçom
 que vos eu loe, em esta razom
 vos quero ja loar toda via;
 e vedes qual sera a loaçom:
 dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
 em meu trobar, pero muito trobei;
 mais ora ja um bom cantrar farei,
 em que vos loarei toda via;
 e direi-vos como vos loarei:
 dona fea, velha e sandia!
(João Garcia de Ghilhade)

CANTIGAS DE MALDIZER

Sátira direta, maledicente, com linguagem objetiva e inequívoca. Neste tipo de cantiga é feita uma crítica pesada, com intenção de ofender e difamar, citando-se o nome da pessoa ridicularizada. Presença de agressividade e uso de termos vulgares, grosseiros e obscenos, inclusive palavrões. Há uma abordagem mais desabusada dos vícios sexuais atribuídos aos satirizados.

Veja exemplos de Cantigas de Maldizer

Rui Queimado morreu con amor
 en seus cantares par Sancta Maria
 por ua dona que gran bem queria
 e por se meter por mais trovador
 porque Ih’ela non quis [o] benfazer
 fez-s’el en seus cantares morrer
 mas ressurgiu depois ao tercer dia!

Esto fez-el por ua sa senhor
 que quer gran bem e mais vos en diria;
 porque cuida que faz i maestria
 enos cantares que fêz a sabor
 de morrer i e desi d’ar viver;
 esto faz el que x’o pode fazer
 amar outr’omem per ren non [n] o faria

E non há já de sa morte pavor
 senon sa morte mais la temeria
 mas sabede ben per sa sabedoria
 que vivera dês quando morto fôr
 e faz-[s’] cantar morte prender,
 desi ar viver: vêde que poder
 que Ihi Deus deu, mas que non cuidaria

E se mi Deus a mim desse poder
 qual oi’el há pois morrer
 jamais morte nunca temeria.
(Pero Garcia Burgalés)

A PROSA TROVADORESCA

A prosa medieval tem caráter documental, retratando com mais detalhes o ambiente histórico-social desta época.

Há quatro gêneros em prosa do período medieval:

1)    Hagiografias:
relatos bibliográficos dos santos da Igreja, escritos em latim.

2)    Cronicões:
relatam, de forma romanceada, acontecimentos históricos/sociais do século XIV, através de anotações em seqüência cronológica.

3)    Livros de Linhagem ou Nobiliários:
árvores genealógicas das famílias nobres, elaboradas com o intuito de resolver problemas de heranças e de evitar “casamentos em pecado”.

4)    Novelas de Cavalaria
 As novelas de cavalaria são narrativas ficcionais de acontecimentos históricos, originárias da prosificação de poemas épicos e das canções de gesta (guerra) francesas e inglesas. Refletiam, de modo geral, os ideais da nobreza feudal: o espírito cavalheiresco, a fidelidade, a coragem, o amor servil. Geralmente não apresentavam autoria e sua temática estava ligada às aventuras dos cavaleiros medievais, na luta entre o “bem” e o “mal” das Cruzadas, em defesa da Europa Ocidental contra sarracenos, eslavos, magiares e dinamarqueses, inimigos da cristandade. Os cavaleiros são castos, fiéis e dedicados, segundo os padrões da Igreja Católica, dispostos a qualquer sacrifício para defender a honra cristã, em contraposição ao cavaleiro da corte, geralmente sedutor e envolvido em amores ilícitos.

 As novelas eram tidas em alto apreço e foi muito grande a sua influência sobre os hábitos e os costumes da população da época.

 As novelas de cavalaria dividem-se em três ciclos e se classificam pelo tipo de herói que apresentam:

ciclo clássico: heróis “emprestados” da antigüidade greco-romana e da literatura clássica (Ulisses, Enéias …); novelas que narram a guerra de Tróia, as aventuras de Alexandre, o grande.

ciclo carolíngio: versando sobre as aventuras de Carlos Magno e os Doze Pares de França.
Algumas dessas novelas foram trazidas para o Brasil no período da colonização, e seus heróis alimentam ainda hoje a literatura de cordel nordestina.

ciclo bretão ou arturiano: o mais fecundo de todos, com as histórias sobre o Reino de Camelot, o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Três são as novelas remanescentes desse ciclo: José de Arimatéia, História de Merlim e A Demanda do Santo Graal.

 A Demanda do Santo Graal é a novela mais importante para a literatura portuguesa, reunindo dois elementos fundamentais da Idade Média quando coloca a Cavalaria a serviço da Religiosidade. Ela retrata as aventuras dos cavaleiros do Rei Artur em busca do cálice sagrado (Santo Graal), que conteria o sangue recolhido por José de Arimatéia, quando Cristo estava crucificado.

Com o advento do Humanismo, esses ciclos de novelas deram lugar a um novo ciclo – o dos Amadises – desvinculado dos ideais religiosos cristãos e com erotização das relações amorosas.

 A última novela de cavalaria data do século XVI, e, embora visasse à crítica do gênero e de seu conteúdo, que já se acreditavam esgotados, terminou por constituir-se na melhor e mais famosa de todas: D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes.

Fonte:
http://www.gargantadaserpente.com/historia/trovadorismo/index.shtml

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Trovadorismo (Parte 2)

Gêneros:

 – lírico (cantigas de amigo e cantigas de amor): o amor é a temática constante

 – satírico (cantigas de escárnio e de mal dizer): crítica social.

CANTIGAS DE AMIGO

As Cantigas de Amigo têm origem galego-lusitana e autóctone, isto é, originam-se da tradição popular e do folclore da própria Península Ibérica. Cronologicamente, são anteriores às cantigas de amor, mas inicialmente não eram escritas. Só com a chegada das cantigas provençais e o desenvolvimento da arte poética é que se registraram em textos.

 Retratam o cotidiano, a vida rural e o ambiente urbano das aldeias medievais. A mulher que encontramos aqui é real, concreta. É uma camponesa, uma mulher do povo, que fala de seus problemas amorosos.

 Apesar de ser compostas e cantadas por homens, o sujeito-lírico das Cantigas de Amigo é sempre feminino. O trovador enfoca o ponto de vista feminino, colocando-se no lugar da mulher que sofre pelo amado distante, por ciúmes, pelo amor não correspondido.

 A temática é o amor pelo “amigo” (namorado, amante, marido) e a “coita” (sofrimento amoroso, geralmente causado pela ausência do amado). O amor é infeliz, mas também natural e espontâneo. Ademais, trata-se de um amor concreto, realizável. O tom pode ser de frustração, mas o “amigo” é real.

 Há uma forte presença do campo, da natureza e de pessoas do ambiente familiar.

 As situações de diálogo são bastante freqüentes, principalmente em tom de confissão. É comum enfocar as confissões da mulher a sua mãe e suas amigas, e até mesmo em conversas com a natureza, em confissões aos pássaros, fontes, riachos, flores. Todavia, cabe ressaltar que a mulher nunca fala diretamente com seu interlocutor (o “amigo”).

 A linguagem é mais simples do que as das cantigas de amor, tendo em vista seu caráter popularesco, visto que não se ambientam em palácios, abordando pequenos quadros sentimentais.

 Possuem estrutura de cantigas de refrão e paralelísticas. É comum a repetição do mesmo verso (= refrão) ao final de todas as estrofes, o que mantém o ritmo cadenciado e reforça uma mesma idéia, valorizando-a. Daí sua musicalidade, que vai de encontro à tradição oral ibérica.

Há vários tipos de cantigas, conforme a maneira como o assunto é tratado ou o cenário onde se dá o encontro amoroso:

 – albas ou alvas (ao amanhecer);
 – bailias ou bailadas (convite à dança);
 – marinas, marinhas ou barcarolas (temas relacionados a mar, rios, barcos);
 – pastorelas (temas campesinos);
 – plang (canto de lamentação).
 – de romaria (peregrinações a santuários);
 – serranilhas (nas montanhas);

Veja exemplos de Cantigas de Amigo

 Bailemos nós já todas três, ai amigas,
 so aquestas avelaneiras frolidas,
 e quen fôr velida, como nós, velidas,
 se amig’amar, so aquestas avelaneiras frolidas
 Verrá bailar.
 Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
 so aqueste ramo destas avelanas,
 e quem bem parecer, como nós parecemos,
 se amig’amar,
 so aqueste ramo destas avelanas,
 verrá bailar.
 Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos
 so aqueste ramo frolido bailemos,
 e quen bem parecer, como nós parecemos,
 so aqueste ramo so lo que bailemos
 se amig’amar,
 verrá bailar.
(Aires Nunes)

Ondas do mar de Vigo,
 se vistes meu amigo?
 E ai Deus, se verra cedo!

 Ondas do mar levado,
 se vistes meu amado?
 E ai Deus, se verra cedo!

 Se vistes meu amigo,
 o por que eu sospiro?
 E ai Deus, se verra cedo!

 Se vistes meu amado,
 por que ei gram coidado?
 E ai Deus, se verra cedo!
(Martim Codax – CV 884, CBN 1227)

– Ai flores, ai flores do verde pino,
 se sabedes novass do meu amigo!
 Ai Deus, e u é?

 Ai flores, ai flores do verde ramo,
 se sabedes novas do meu amado!
 Ai Deus, e u é?

 Se sabedes novas do meu amigo,
 aquel que lmentiu do que pôs comigo!
 Ai Deus, e u é?

 Se sabedes novas do meu amado,
 aquel que mentiu do que mi á jurado!
 Ai Deus, e u é?

 – Vós me preguntades polo voss’amado,
 e eu bem vos digo que é san’e vivo.
 Ai Deus, e u é?

 Vós me preguntades polo voss’amado,
 e eu bem vos digo que é viv’e sano.
 Ai Deus, e u é?

 E eu bem vos digo que é san’e vivo
 e seera vosc’ant’o prazo saído.
 Ai Deus, e u é?

 E eu bem vos digo que é viv’e sano
 e seera vosc’ant’o prazo passado.
 Ai Deus, e u é?
(D. Dinis)

Pois nossas madres van a San Simon
 de Val de Prados candeas queimar,
 nós, as meninhas, punhemos de andar
 con nossas madres, e elas enton
 queimen candeas por nós e por si
 e nós, meninhas, bailaremos i.

 Nossos amigos todos lá irán
 por nos veer, e andaremos nós
 bailando ante eles, fremosas en cós,
 e nossas madres, pois que alá van,
 queimen candeas por nós e por si
 e nós, meninhas, bailaremos i.

 Nossos amigos irán por cousir
 como bailamos, e podem veer
 bailar moças de bon parecer,
 e nossas madres pois lá queren ir,
 queimen candeas por nós e por si
 e nós, meninhas, bailaremos i.
(Pero de Viviãez, CV 336, CBN 698)

CANTIGAS DE AMOR

As Cantigas de Amor têm origem provençal, com os poetas do sul da França, e foram levadas a Portugal através de eventos religiosos e contatos entre as cortes. Todavia, as cantigas de amor em Portugal são mais sinceras e mais autênticas na expressão dos sentimentos do que as que lhes deram origem.

 O sujeito-lírico das Cantigas de Amor é sempre masculino: o trovador faz a corte a uma dama (interlocutor), dentro das convenções do amor cortês traduzidas na “vassalagem amorosa” – reflexo da estrutura social da época – e na idealização da mulher.

 A temática continua sendo a “coita” agregada à distância absurda entre o homem e a mulher objeto de seu amor: é a coita amorosa do trovador perante uma mulher inatingível. O amor é impossível, irrealizável, idealizado, fantasiado. O sofrimento amoroso é, na maioria das vezes, causado por um amor proibido ou não-correspondido.

 A mulher amada está em posição de superioridade, até por sua condição social, sendo tratada como “mia senhor”. Seu nome jamais é revelado, por mesura ou para não comprometê-la (devido às diferenças de posição social ou pelo fato de ser casada). O trovador coloca-se humildemente a seu serviço, como seu vassalo, rogando para que ela aceite sua dedicação e submissão, refletindo a relação social de servidão da época.

 A mulher inacessível é exaltada e sacralizada, refletindo um erotismo disfarçado, deturpado, sublimado pela opressão religiosa e pela sociedade machista, sem a possibilidade de uma sensualidade explícita.

 Há uma contemplação platônica e a aparência física da mulher amada é tratada como extensão das qualidades morais.

 A linguagem é refinada e bem mais trabalhada do que a das cantigas de amigo, tendo em vista seu ambiente cortesão, retratando a vida da nobreza nos palácios.

 Possuem estrutura de cantigas de refrão ou de maestria (mais complexas).

Veja exemplos de Cantigas de Amor

 Hun tal home sei eu, bem talhada
 Que por vós tem a sa morte chegada;
 Vides quen é e seed’en nanbrada;
 Eu, mia dona.

 Hun tal home sei eu que preto sente
 De si morte chegada certamente;
 Vêdes quem é e venha-vos en mente;
 Eu, mia dona.
 Hun tal home sei eu, aquest’oide:
 Que por vós morr’ e vo-lo en partide,
 Vêdes quem é e non xe vos obride;
 Eu, mia dona.
(El-rei D. Dinis)

Quer’eu em maneira de proençal
 fazer agora un cantar d’amor,
 e querrei muit’i loar mia senhor
 a que prez nen fremusura non fal,
 nen bondade; e mais vos direi en:
 tanto a fez Deus comprida de ben
 que mais que todas las do mundo val.

 Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
 quando a faz, que a fez sabedor
 de todo ben e de mui gran valor,
 e con todo est’é mui comunal
 ali u deve; er deu-lhi bon sen,
 e des i non lhi fez pouco de ben,
 quando non quis que lh’outra foss’igual.

 Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
 mais pôs i prez e beldad’e loor
 e falar mui ben, e riir melhor
 que outra molher; des i é leal
 muit’, e por esto non sei oj’eu quen
 possa compridamente no seu ben
 falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.
(El-Rei D. Dinis, CV 123, CBN 485)

 Proençaes soen mui ben trobar
 e dizen eles que é con amor;
 mais os que troban no tempo da frol
 e non en outro, sei eu ben que non
 an tan gran coita no seu coraçon
 qual m’eu por mha senhor vejo levar.

 Pero que troban e saben loar
 sas senhores o mais e o melhor
 que eles poden, soõ sabedor
 que os que troban quand’a frol sazon
 á, e non ante, se Deus mi perdon,
 non an tal coita qual eu ei sen par.

 Ca os que troban e que s’alegrar
 van eno tempo que ten a color
 a frol consigu’, e, tanto que se for
 aquel tempo, logu’en trobar razon
 non an, non viven [en] qual perdiçon
 oj’eu vivo, que pois m’á-de matar.
(El-Rei D. Dinis, CV 127, CBN 489)

Continua…

Fonte:
Garganta da Serpente

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Trovadorismo (Parte 1)

Contexto Histórico

 Trovadorismo foi a primeira escola literária portuguesa. Esse movimento literário compreende o período que vai, aproximadamente do século XII ao século XIV.

 As atividades literárias em Portugal durante a transição da Alta para Baixa Idade Média, nascem quase que simultaneamente com a consolidação da nação portuguesa como reino independente, num período marcado principalmente pelo Feudalismo (plano político-econômico) e pelo Teocentrismo (poder espiritual do clero).

 O Feudalismo foi um sistema político-econômico medieval descentralizado na qual o poder estava diretamente relacionado à posse da terra. A economia era fundamentalmente agrária (subsistência), sem comércio e, portanto, sem intercâmbio cultural. Praticamente todas as mercadorias negociadas nessa época vinham da terra e por isso, a quantidade de terra possuída era a chave da fortuna e do poder, que estava nas mãos da nobreza, representada por senhores feudais ou suseranos. Estes faziam a concessão de pequenos lotes de terra (feudo) a um servo ou vassalo, para que este a cultivasse em troca de proteção. Além da obrigação de cultivar esses lotes, os vassalos tinham que pagar inúmeras taxas impostas pelos donos das terras. Os valores dessas taxas eram tão altos que o dinheiro que restava era apenas o suficiente para a sua subsistência e para o plantio de uma nova safra. Essa relação de dependência entre suserano e vassalo nessa sociedade fortemente hierarquizada era chamada de vassalagem.

 Havia ainda uma outra classe social política e economicamente poderosa, detentora de grandes extensões de terras: o clero. A Igreja era a maior Instituição feudal da época, determinando o modo de pensar e viver de uma sociedade fortemente marcada pela idéia de Deus como centro do universo. A própria produção artística vai estar impregnada por esse espírito teocêntrico, numa época em que religião e profano se confundem. Tanto a pintura quanto a escultura procuravam retratar cenas da vida de santos ou episódios bíblicos. A vida do povo lusitano estava voltada para os valores espirituais e a salvação da alma. Emoção e fé regiam as ações, determinando uma visão mais subjetiva do mundo, caracterizando certo irracionalismo. Surge a Escolástica, filosofia medieval que tentava justificar a fé pela lógica. A Igreja pregava a renúncia aos bens materiais e aos prazeres terrenos como condição para salvação eterna. Nessa época, eram freqüentes procissões, romarias, construção de templos religiosos, missas etc.

 A influência do clero evidenciou-se principalmente durante as Cruzadas, expedições e batalhas de cunho religioso, entre cristãos e muçulmanos, que tinham como principal objetivo a libertação dos lugares santos, situados na Palestina e venerados pelos cristãos, além da expulsão dos árabes da Península Ibérica.

 Tais aspectos sócio-culturais são importantes para entendermos certas características das manifestações literárias desse período. O feudalismo terá reflexos até mesmo na linguagem da poesia lírica. Ademais, as cortes dos reis e dos grandes senhores feudais são os centros de produção cultural e literária. O teocentrismo, por sua vez, vai se refletir tanto nas novelas de cavalaria como na poesia de temática religiosa, nas hagiografias e obras de devoção. Devido às cruzadas, a maioria dos textos líricos demonstrava a saudade da amada pelo amado que foi para lutar em favor da igreja, contra os mouros. Os outros textos líricos demonstravam o amor platônico, amor impossível de se consumar (o que nesse caso é com o casamento), pois o sujeito-lírico desses poemas é um amante de uma escala mais baixa na hierarquia feudal, sempre era um camponês morrendo de amores por uma nobre.

 O Trovadorismo vai entrar em declínio durante a crise do feudalismo e as consequentes modificações na maneira de governar de Portugal, incluindo o contexto de conflitos com a Espanha que culminam com a decadência do mecenantismo real.

 Muitos marcam o fim do Trovadorismo em 1385, com o fim da dinastia de Borgonha, quando D. João I é aclamado rei de Portugal e inicia-se a dinastia de Avis. Para outros, seu fim é marcado com a nomeação de Fernão Lopes para cronista-mor da torre do Tombo em 1418.

POESIA TROVADORESCA.

Na literatura, o Trovadorismo foi a primeira escola literária portuguesa. Esse movimento compreende o período que vai, aproximadamente, do século XII ao século XIV.

Convencionou-se que o marco inicial do Trovadorismo data da primeira cantiga feita por Paio Soares Taveirós, provavelmente em 1189 (ou 1198?), intitulada Cantiga de Guarvaia, mais conhecida como Cantiga da Ribeirinha. Essa cantiga, originalmente em galego-português, um romanço (língua de origem latina falada na costa da Península Ibérica) – visto que ainda não havia uma unidade lingüística entre Portugal e a Galiza – foi endereçada a Maria Pais Ribeiro (a ribeirinha), uma mulher muito cobiçada na corte portuguesa e que foi amante de D. Sanho I, o segundo rei de Portugal.

Cantiga da Ribeirinha
 (Paio Soares de Taveirós)

No mundo non me sei parelha,
 mentre me for’ como me vai.
 ca ja moiro por vos – e ai!
 mia senhor branca e vermelha,
 queredes que vos retraia
 quando vos eu vi en saia!
 Mao dia me levantei,
 que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, des aquel dia, ai!
 me foi a mi mui mal,
 e vós, filha de don Paai
 Moniz, e Ben vos semelha
 d’haver eu por vos guarvaia,
 pois eu, mia senhor, d’alfaia
 nunca de vos houve nen hei
 valia d’ua correa.

A poesia trovadoresca era cantada na língua galego-portuguesa e acompanhada por instrumentos musicais, caracterizando-se pela tradição oral e coletiva.

Numa época em que a população era quase toda analfabeta, a cultura era transmitida essencialmente por via oral, o que estabelecia um dualismo lingüístico entre a cultura monástica (escrita e erudita, inicialmente só expressa em latim) e a cultura laica ou profana, transmitida oralmente, em língua galego-portuguesa, onde se inclui a poesia trovadoresca.

A poesia trovadoresca tem origem em duas tradições poéticas fundamentais: a tradição popular da região e a influência direta do “troubadours” provençais. Compreende um conjunto de cerca de 1600 cantigas de caráter profano, com temática pagã, erótica e satírica, a que poderemos acrescentar cerca de 400 poemas de conteúdo religioso. Há um predomínio da literatura oral, associada à música e à dança. A poesia não era escrita para ser lida por um leitor solitário. Os poemas eram cantados e acompanhados de instrumentos musicais, recebendo o nome de cantigas (ou ainda de canções ou cantos), e eram próprias para apresentações coletivas. Seu público não era, portanto, constituído de leitores, mas de ouvintes. Infelizmente, as partituras das músicas se perderam quase todas, sobrando nos dias de hoje apenas cinco, escritas por Martim Codax.

– Trovador: Aquele que escreve as cantigas (geralmente nobres). Cabe lembrar que são sempre homens.

 – Menestréis: músicos-poetas sedentários; viviam nas casas de fidalgos.

 – Segréis: trovadores profissionais, fidalgos desqualificados que iam de corte em corte, acompanhados por um jogral.

 – Jograis: do provençal: joglar = brincar. Cantores e tangedores ambulantes, geralmente de origem plebéia (espécie de bobos da corte, que apenas executavam ou interpretavam as composições alheias).

 – Soldadeira ou Jogralesca; moça que dançava e tocava castanholas ou pandeiro.

 Esses artistas eram a “alma” das trovas, porque eles as interpretavam e tinham que transmitir todo sentimento passado por seus personagens, suas decepções, saudades, ilusões, sofrimentos e a dor de um amor impossível.

Devido ao fato de serem poesias cantadas, são de tradição popular e são menos sofisticadas em relação à poesia escrita, apresentando simplicidade temática e formal. Quanto à forma, as cantigas dividem-se em:

Cantigas de Maestria: sete versos em cada estrofe, sem refrão, mais difíceis e sofisticadas.

Cantigas de Refrão: quatro versos em cada estrofe, com repetição de um deles (refrão) no final, mais populares.

Cantigas Paralelísticas: há versos encadeados que repetem a mesma estrutura, com pequenas variações, em pares de estrofes consecutivos, com rimas.

Quanto a temática, as cantigas podem ser divididas em dois grandes grupos:
cantigas líricas (cantigas de amor e cantigas de amigo) e
cantigas satíricas (cantigas de escárnio e cantigas de maldizer).

Do ponto de vista literário, as cantigas líricas, nas quais o amor é temática constante, apresentam maior potencial pois formam a base da poesia lírica portuguesa e até brasileira. Já as cantigas satíricas, geralmente, tratavam de personalidades da época, numa linguagem popular e muitas vezes obscena.

 Só tardiamente (a partir do final do século XIII) as cantigas foram compiladas em manuscritos chamados cancioneiros. Três desses livros, contendo aproximadamente 1 680 cantigas, chegaram até nós:

Cancioneiro da Ajuda (310 Cantigas).

Cancioneiro da Vaticana (1205 Cantigas).

Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (1647 Cantigas), também conhecido por

Cancioneiro Colocci-Brancutti.

Continua…

Fonte:
Garganta da Serpente

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