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Hermoclydes S. Franco (Livro de Trovas e Poesias)

Hoje fiquei sabendo que o poeta e trovador Hermoclydes S. Franco faleceu ontem no Rio de Janeiro. Mais uma grande perda para o meio literário brasileiro.
Como amigo e irmão das letras, senti que devia fazer algo para homenagear este grande trovador, deixando gravado os seus textos nas páginas da história da literatura brasileira, por isso abaixo pode-se ler , baixar ou imprimir o Livro de Trovas e Poesias dele.
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Augusto dos Anjos (Livro de Poesias)


CONTRASTES

A antítese do novo e do absoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!…

DEBAIXO DO TAMARINDO

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilissimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

DECADÊNCIA

Iguais ás linhas perpendiculares
Caíram, como cruéis e hórridas hastas,
Nas suas 33 vértebras gastas
Quase todas as pedras tumulares!

A frialdade dos círculos polares,
Em sucessivas atuações nefastas,
Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,
Estragara-lhe os centros medulares!

Como quem quebra o objeto mais querido
E começa a apanhar piedosamente
Todas as microscópicas partículas,

Ele hoje vê que, após tudo perdido,
Só lhe restam agora o ultimo dente
E a armação funerária das clavículas!

IDEALISMO

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
– Alavanca desviada do seu fulcro –

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

IDEALIZAÇÃO

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
– Homens que a herança de ímpetos impuros
Tomara etnicamente irracionais!

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão…

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

O LÁZARO DA PÁTRIA

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de úlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefantíase dos dedos…
Há um cansaço no Cosmos… Anoitece.

Riem as meretrizes no Cassino,
E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

O MARTÍRIO

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
E como o paralítico que, á mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem á boca uma palavra!

PSICOLOGIA

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e á vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Fonte:
ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. Editora Martin Claret, 2001.

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Carolina Ramos (Lançamento do Livro de Poesias "Destino")

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Fonte:
A Poetisa

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Nilton Bobato (Livro de Poesias)


TESTAMENTO

Quando eu morrer
não chore, sorria!
Quando eu morrer
não reze, cante!
Quando eu morrer
não compre um caixão
com flores
não encomende um terno
sem cor
não pinte minhas unhas

No dia da minha morte
faça uma festa
Neste dia terei amado
a noite toda
Terei abraçado e beijado
meus filhos

Quando minha morte vier
quero estar empinando pipas
no gramadão
Neste dia quero ter
suado a camisa
jogando futebol

No dia de minha morte
escreverei poemas e contos
revelarei ao mundo
todo o amor que senti
e os sonhos que realizei
até o dia que minha morte chegou

Quando este dia acontecer
estarei reunido com
meus mais queridos
amigos
Tomarei cerveja
e acenderei um
cigarro
esperando
na varanda
de minha casa
no crepúsculo
de uma tarde
ensolarada

LIMITE

Hoje passei dos limites
Hoje mesmo
Perdi o controle
Perdi a paciência
Hoje mesmo
Não suportei o faltar
de consciência
Não suportei o falar
para as paredes

Ando tão bruto
Insensível
Impaciente…
Tenho vontade
de chorar

EVOLUÇÃO

Olho em volta.
O que vejo?
Fujo. Corro.
Tenho medo.
Assusto-me…
Escondo-me…

Troquei a indignação
pelo horror.
Substituí a revolta
pelo nojo.

Olho em volta.
Trêmulo. Assustado.
O que vejo?
Um menino,
sujo, …, fedorento, …,
se aproxima, …

ROTINA

As mesmas histórias se repetem
Como um livro não escrito
Ou um poema repetido
Insistentemente

A tempestade pinta nosso céu de negro
O granizo cai sobre nossas cabeças
O vendaval arranca nossas árvores
Impiedosamente

O mato continua a crescer no quintal
As frutas apodrecem nos galhos
As flores murcham no jardim
Rotineiramente

Amarramos nossas mãos para não desatar os nós
Fazemos de conta que não vemos os sinais
Tapamos os ouvidos para os ruídos
Repetidamente

Neste semestre tudo igual outra vez
O amor é superado pela estupidez
Os mentirosos se julgam vitoriosos

Procuro a receita
Um dia ditada por Renato
Dou voltas na quadra
Quase sem destino
Mas tento estancar o sangue
E olho para as flores murchas
Grito por uma nova primavera
Que é preciso ter esperanças
Ver a água límpida azul
No fundo do poço
Sorrindo

CONVERSA DE UMA MANHÃ

Eu direi para você
Outros já escreveram disso
Você já falou disso
Mas não se importe
Venha falar de seus amigos
E de seus inimigos
Venha brincar de sorrir e pular
Correr
Olhar o sol se pondo
Admirar o sol nascendo
Deixa eu repetir as mesmas coisas
Talvez até colocar uma bola vermelha
No nariz
Não estarei só
Olhe em meus olhos
Veja as nuvens por detrás das montanhas
Você prefere não acreditar
Mas existem riachos
Estradas de chão
Janelas para olharmos
Ver através das grades
Vamos pular carnaval
Sem noção de samba
Cantar uma música
Sem qualquer afinação
Salte os buracos das calçadas
Esburacadas
Aceite o risco de tropeçar
Não se prenda
Atravessaremos a ponte
É só olhar o horizonte
Está ali tão próximo
Quem diz que não dá
Eu estava em casa só
Foi você que começou
Agora não me venha
Com estas conversas
Há brilho no sol
E você prometeu sorrir
Então me dê um sorriso de bom dia.

EMBALANDO

Caminho e ouço sua voz
Todo cambia el momento
Ouvir o canto que se foi
Como el mosquito en la piedra
Mas ficou a voz
Como el amor con sus esmeros
Puro y sincero
Vá Mercedes, espalhar seu canto
Derramar sua voz em outras plagas
Vá brotando e vá brotando
Pois flores e sementes nascerão
Frutos ficarão
No canto
Na voz
Na mente
No sonho
Que todos um dia sonhamos
Vá Mercedes, espelhe seu canto
Mesmo quando no haja nada cerca o lejos
Continue oferecendo seu coração
Continue hablando por la vida
Hablando de cambiar esta nuestra casa
Cambiarla por cambiar no más
Vá Mercedes, esparrame seu canto
Sua voz continua aqui
Suas cinzas embalarão novas esperanças
Sua suavidade rebelde continuará
Embalando…
Embalando…
Embalando…
Vá Mercedes…

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Laeticia Jensen Eble (Livro de Poesias)

A DIALÉTICA DO MUNDO ME ABRAÇA

A dialética do mundo me abraça.
Não alcanço a razão do dia,
nem o mistério da noite.

Do pó da criação ao pó que na terra deitará
tudo se transforma e se justifica.
Somos um só corpo a respirar
o breve sopro da existência eterna.
Só o destino nos une ao futuro.
E nosso destino é viver o presente,
síntese do que foi e do que será.

A escuridão e a luz movem,
como alavancas indissociáveis,
esse imenso ser em contínuo duelo.
O preto e o branco
O quente e o frio
O mais e o menos
O céu e a terra
O tudo e o nada
O som e o silêncio
O nascer e morrer
Olhar e não ver
Estar e não ser
São instâncias da mesma realidade.
A harmonia se impõe na superação dos limites.

A DÚVIDA

Caminho diariamente
Percorro as estradas gélidas
do deserto escaldante da dúvida
pincelando a vida
de erros e acertos
noites e oásis
frustrações e delírios
e dúvidas
A cada suspiro de alívio
uma nova dúvida
A cada projeto
A cada desafio
A cada sol
A cada lua
A cada pausa
A cada recomeço
Lá está escondida,
enterrada,
disfarçada:
a dúvida
Nada é absoluto.
Nada?

A ESPERANÇA É…

A esperança é um fio
É um tesouro na areia
É um alvo pequeno
É o som da sereia
É um pote de ouro
no fim do arco-íris.
É o colo de Deus
dizendo: – Vem!
A esperança não teme,
não pede favor,
não escolhe o dono,
não cobra valor.
A esperança é …
simplesmente existe.
É oferta e entrega,
pra quem preencher
uma só condição:
Um peito aberto
do tamanho certo
para ela brincar.

ANCESTRAIS

Nada em mim é inédito.
Nada se criou do nada,
Nem tampouco tive escolha.
Me surpreendo
vivendo experiências já vividas,
amando de um jeito já amado,
falando palavras já ditas.
Meu corpo conta uma história viva
escrita por muitos autores.
Do capítulo da minha vida
eu sou a última frase
E ao vazio após o ponto
Medito.
Olho para trás…
Se não me é dado escrever
Eu canto
Meu refúgio é a voz
Ah, voz
Avós.

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU

A poesia almeja ser
música no ritmo?
pintura na imagem?
escultura na forma?
O poeta perde-se
entre o que é ou não é
e o que quer ser
Maestro ou concerto?
Pintor ou pintura?
Escultor ou escultura?
Profeta ou profecia?
Deus ou criação?

Algumas palavras
nunca precisam ser ditas
Alguns poemas
nunca ser pronunciados
Os olhos a lamber, a beijar, a sugar
certos versos embebidos
de puro sentir
No silêncio se aprofunda
o abismo
entre poema e leitor
Nele epicamente se ergue
a ponte divina da salvação, etérea
construída palmo a palmo, arquitetonicamente,
sofregamente,
de palavras escolhidas
e colhidas ao vento
para unir inabalável
e por todo o sempre
o coração do poeta
ao coração do leitor.

HOJE QUERO A ÁGUA BATENDO EM MEU ROSTO

Hoje quero a água batendo em meu rosto
como uma benção
Quero as brumas envolvendo meus cabelos
como uma prece
Quero a carícia da terra em meus pés caminhando
como um lamento
De tudo que não fiz
de tudo que não disse
de tudo que não quis.
Quero fazer parte do todo
para me desfazer em nada.
Preciso de um recanto
de um conselho
de um silêncio amigo
Não sei onde ando
com quem ando
onde quero ir.
Só sei que preciso chegar
mas não querem me esperar
Choro sozinha esquecida
na solidão de minhas mãos
que me acodem a secar as lágrimas
Suspiros são como gritos agora
É tudo que emito
Ahhh…
Que saudade do tempo
em que eu não sabia
o que era viver
A felicidade era tão simples
Tão fácil de ser alcançada
Agora sigo meu destino
cansada de andar
Para cada vez mais longe.

NAVEGAR É PRECISO?

Dantes, das naus do caos
redes de ferro e fogo
dominaram-nos, converteram-nos
Hoje, redes virtuais
pendem de embarcações
que nunca tocaram o mar maculado
A epopéia se refaz
E nós, excluídos.

– Digite sua senha

Ao povo não guia a bússola vil dos argonautas
Continuamos selvagens – aborígines
miséria que abastece e entorna a taça daquele que ri
A mão calejada colhe o aroma do seu perfume,
corta na própria carne o cerne do seu assento
Globalização – traição!
Escavação das trevas.

– Digite sua senha

A fé anima a febre
desse povo que agoniza
Tupã nos salve!
Rogai às aves que aqui gorjeiam
acordem-nos desse sono hipnótico
E se revele aos nossos olhos a riqueza
Desfrutemos do legítimo direito
de abastecer nossos próprios cálices
De onde só entornavam lágrimas,
já pode verter dignidade.

– Senha inválida
Tente novamente
mais tarde.

Este poema foi premiado com o 2º lugar pelo II Prêmio SESC de Poesia,
no DF em 2003
—–

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João Felinto Neto (Livro de Poesias)


ÚNICO MOTIVO

Te amo
Em teus ouvidos,
Pelas horas de silêncio.
Te amo
Pelo tempo
Que ainda é pouco para te amar.
Te amo
Pelo ar
Que no arfar
Mal o respiro.
Te amo
Pelo único motivo
Que é para sempre
Te amar.

SEPARADOS

Quando eu era uma criança,
Media a distância
Ao meu futuro esperado.
Hoje, vejo o meu passado
Na lembrança
E é bem maior a distância
Que nos mantêm separados.

BOQUIABERTO

Na cidade de minha morada,
Sempre estou boquiaberto.
As pessoas não levam a sério,
As leis sancionadas.
O pedestre confunde a calçada
Com o meio da rua;
Ainda usa e abusa
Dessa prática arriscada.
O semáforo já não vale nada,
Sendo verde, vermelho ou amarelo
É invenção descartada.
O pedestre que morre na faixa
É chamado de cego.
Considera-se certo,
O suborno ao guarda.
Contramão se tornou mão usada.
Proibido parada
É onde para o esperto.
Nesse trânsito caótico, o remédio
É ser muito discreto
E fingir não ter mérito,
Nem vergonha na cara.

AINDA ESTOU VIVO

Ainda estou vivo,
percebo isso
em meus pulsos.

Ainda estou vivo,
assim percebo
pelos meus gemidos.

Ainda estou vivo,
percebo isso
nos meus próprios gritos.

Ainda estou vivo,
isso eu percebo
por minha exaustão.

Ainda estou vivo,
é percebível
pelo meu silêncio.

Ainda estou vivo,
percebo e sinto
o meu coração.

Estou vivo, não vivo em vão.

FIO DA MEADA

Se o amor é uma palavra abstrata,
por que a dor
é tão física?
Por que a carne
é tão fraca?
Entre nós,
impressões desfeitas.
Entre outros,
o fio da meada.

EMBARCAÇÕES

Pontos retratados
sobre um lençol de espumas,
que o lápis do tempo
redesenhando,
rascunha;
e tornam-se figuras,
contornadas pela realidade,
embarcações.

PERFIL

Tocasse a vida
com sua mão
em uma tinta turva,
e contornasse em sinuosa
curva,
uma forma definida,
traços que marcam uma silhueta:
Testa, nariz,
lábios e queixo,
olho e orelha,
restauraria seu perfil.
Lábios calados,
olho vazio,
nariz sangrando,
testa febril,
queixo quebrado
e orelha de abano.

VEGETAL

No espaldar da cadeira
encosto minhas costas curvadas,
que sob o peso do tempo
sente o abreviamento
de uma vida inteira.

Silencio-me no esquecimento,
com exceção dos gemidos.
Expio uma oculta dimensão.
Passado e presente,
passando à frente,
à minha mão.

No esforço de manter-me vivo,
acumulo os anos
sobre meus ombros.
Meus ossos, fragmentados pelo peso,
aprisionam-me.
Vegetal ilhado por sonhos
e lembranças de ontem.

FANTASIA OU LOUCURA

A ilusão caminha solta pela rua,
onde as calçadas são de pedra de sabão.
Os transeuntes são apenas esculturas
que se derretem sob a chuva
numa eterna ilusão.

Rente aos telhados passa, a luminosa lua,
transformada numa bolha de sabão.
Há dentro dela, uma bela dama nua
que na sua face oculta,
amarga desilusão.

Observando esta cena, continua
extasiada com sua imaginação,
a inusitada e sombria figura.
Será fantasia ou loucura,
essa alucinação?

GRAVETOS

De cabeça baixa,
a fraca luz me ilumina.
Os meus próprios versos
são gravetos que atiçam o fogo
que clareia a minha alma.
Nada se compara
aos ruídos noturnos,
nem mesmo o inconfundível crepitar
dos meus versos
em brasa.
Fecho-os num livro
e percebo as chamas
que queimam suas capas.
Gravetos,
não são cavacos soltos,
são um feixe inteiro
de poemas toscos.

SONETO DA INIQUIDADE

Eu não dividi águas;
nem multipliquei comida.
Não sigo mandamentos
de uma lei prescrita.

Se eu usei provérbios
para falar da vida,
não vejo condenados,
vejo apenas vítimas.

Em meu barco à deriva,
há homens imortais
da terra prometida.

Dos homens imortais,
havia apenas ossos,
quando aportei no cais.

ESCALADA

Todas as razões são impostas,
se alguém não gosta,
é apenas mais um louco.
Algumas montanhas são rochosas,
outras são de ouro.
Nada impede a escalada
simplesmente pela conquista;
a visão apaixonada
até se perder de vista.
A vitória de um tolo.
A tolice de um morto.
As razões, ninguém explica.

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Marilda de Almeida (Livro de Poesias)



VIAJANTE DO TEMPO



Viajante sou, no tempo e no espaço,

Procuro nas incontidas idas e vindas,

O calor humano, o sabor da vida,

A maciez do abraço apertado,

O carinho dado, mas a mim negado.

Em meus devaneios procuro o amor,

A paixão que arrebata e acalma,

No desejo ardente, pela vida e pelo viver.

Nas cores de um arco-íris depois das chuvas,

Busco no brilho dos céus, que refletem nos meus olhos, a saudade dos teus.

O brilho da alegria, do olhar e do toque.

Não me permito a dor, em meu ser, em meu querer.

Os sonhos e as ilusões são a minha esperança.

Não quero silenciar minha alma viajante,

Só irei parar no tempo e no espaço,

Quando os ponteiros do relógio marcar minha hora,

De partida ou encontro com o meu Eu, com a minha felicidade.

Viajante sou, com desejos e tentações ,

Mas não quero deixar nenhuma página em branco,

Por tudo que a vida me deu, e que Deus me permitiu viver.

Encontros e desencontros; caminhos e descaminhos;

amores e desamores; alegrias, tristezas e solidão.

E no espelho de minha alma, continuo viajante solitário,

Sigo meu caminho, sem hora marcada para chegar ou partir.

Sigo apenas como um viajante nômade,

Perdido no tempo e no espaço.

SENTIR O AMOR!

É ter o mundo aos nossos pés.

Ter um olhar atrevido, lépido,

faceiro, traquino.

Na mão… uma flor e na boca

Um silêncio que fala.

Ingênuo, às vezes criança.

Mas, está vivo a cada instante,

O coração pulsa flamejante.

Tem na alegria o sentido da vida.

É ser um sonhador, ir até os céus ,

E falar com Deus.

Trazer no olhar, as estrelas,

Fazer da lua sua eterna paixão.

De um breve momento, um reflexo,

Cristalizar uma gota de lágrima,

Para eternizar o sentimento.

É ter asas e poder subir aos cumes,

Cantar o amor em prosa e verso.

É perdoar, caminhar lado a lado,

Ter abraços para se entregar, mesmo

contra a própria razão.

Pois a razão… o amor desconhece.

Sentir o amor, é ter o elixir da vida.

E não poder confessar, sentir o perfume

que brota, no coração quando

ao seu lado estou, ávida

dos carinhos de suas mãos.

DESCOMPASSO DE UMA VIDA.

Invadiu minha alma rompendo saudades,

Sonhos, desejos, acalentando verdades,

Meu coração bateu descompassado,

Pensei ter encontrado meu bem.

Aos sons de harpas desafinei meu compasso,

Acordei em mim o desejo de amar,

Meu corpo cambaleou no caminhar,

Quando ao teu encontro segui passo a passo.

Levitei até as estrelas,

Busquei encher de brilho nossas vidas

E o meu olhar, para te entregar,

E entre abraços me fazer amada.

Mas o tempo mostrou-me quão tola fui,

Meus pensamentos serviram-me de armadilha,

Para ludibriar meus devaneios,

Emudeci minhas lágrimas.

Deixei-te partir e o pranto

Não deixei rolar pela face,

Pois quero a calma da madrugada,

Para minha harpa poder afinar,

E na minha vida um suave canto entoar.

COMO FÊNIX…

Sou como fênix, que ressurjo das cinzas…

Em uníssono a voz de minh’alma clama pela vida.

A paixão escondida, renasce em meus sonhos,

Inquieta, querendo explodir no peito.

Sinto falta de um bem querer, de carinho, abraço,

do dormir agarradinho e de um perfume que inebria.

Mas que pena, onde está você, que não me vê…

Calada, deparo-me guardando o melhor de mim,

Meu sorriso, o brilho do olhar, minha alegria, somente

por te amar.

Uma dor singra no vazio, por onde anda você, que não me vê…

Levo-me à exaustão, pensamentos fervilhando,

Queimando a minha alma, incendiando meu ser.

E como fênix, acredito no milagre, na renovação.

Quem sabe, com o sol reluzindo sobre o verde dos campos,

E o vento soprando em meu rosto, trazendo a esperança

de que tudo pode renascer

Nossos olhares se encontrarão para que o amor flua numa chama ardente,

Milagre de uma vida.

SE QUISERES…

Se quiseres ver-me sofrer, perder o encanto rouba o brilho das

estrelas, apaga a luz do luar.

Tira de mim o sol que aquece meu corpo e minh’alma.

Arranca dos lábios da criança o sorriso e a alegria que

encanta com sua inocência.

Se quiseres ver-me sofrer, destrói a natureza, mata os

pássaros que cantam em minha janela.

Polui as águas dos rios que matam minha sede

e nas tardes de verão, banho meu corpo para renovar as energias.

Se quiseres ver-me sofrer, polua o ar que respiro,

enche meus pulmões com os gases e fuligens que

saem pelas chaminés de suas fábricas.

Se quiseres ver-me sofrer tira de mim a alegria do sorrir,

do abraço amigo que acalma minhas dores.

Se quiseres mesmo ver-me sofrer, parte na calada da noite,

em silêncio, deixando apenas o perfume suave

das madrugadas, para o meu amanhecer.

Mas se quiseres ver-me feliz, suplica a Deus que

transforme meus sonhos em realidade,

transforme o coração do homem que destrói o mundo,

pede a Ele que acabe com a violência, com as tragédias e as dores

que assolam o nosso planeta.

Fonte:

ORSIOLLI, Sonia Maria Grando; FERNANDES, Dorival C. SCARPA; Maria Antônia Canavezi; JULIO, Sandra M. (organizadores). 1a. Coletânea Teia dos Amigos 2008. Itu,SP: Ottoni, 2008.

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