Arquivo da categoria: Humorismo

Anônimo (O Amigo da Onça)

A literatura popular brasileira também tem seu riso próprio, suas boas histórias e seus personagens marcantes. É o caso do Amigo da Onça, que virou a marca registrada do desenhista de humor Péricles Maranhão na revista Cruzeiro dos anos de 1950. E acabou consagrando-se como uma expressão de uso corrente na nossa língua. Uma das melhores versões desta literatura de origem oral foi registrada por Lindolfo Gomes em 1931, em Contos Populares Brasileiros.

A Onça, que é bicho valente – mas nem sempre atilado, como se pensa -, estava quietinha no seu canto quando lhe apareceu o compadre Lobo e lhe foi dizendo:

– Saiba de uma coisa, comadre Onça: você – com perdão da palavra – não é, como supõe, o bicho mais valente e destemido que existe no mundo, nem também o Leão, com toda a sua prosa de rei dos animais.

– Como assim! – gritou a Onça, enfurecida. – Então, como é isso, grande pedaço de idiota? Haverá bicho mais valente e poderoso do que eu?

O Lobo, adoçando a voz, respondeu:

– Ó comadre, me perdoe. Estou arrependido de dizer tal coisa… Mas a minha intenção foi preveni-la contra um “bicho” terrível que apareceu nesta paragem. Uma pessoa prevenida vale por duas.

– Sim, não deixa você de ter alguma razão – acudiu a Onça mais acomodada. Mas sempre quero saber o nome desse bicho. Como se chama?

– Esse bicho, compadre, chama-se “homem”, conforme me disse o amigo papagaio. Nunca vi em minha vida animal de mais perigosa valentia. Ele sim, e ninguém mais, é o que me parece ser mesmo o verdadeiro rei dos animais. Basta dizer que, de longe, o vi matar, com dois espirros, nada menos do que um leão e uma hiena. Ih! Compadre, com o estrondo dos espirros parecia que tudo ia pelos ares. Deus nos livre!

– Oh! Compadre, não me diga!

– É como lhe conto. E o que mais admira é ser o “bicho-homem” de pequeno porte. Parece até fraco, e é muito mal servido de unhas e dentes. Deve ser um “bicho” misterioso e encantado.

– Pois bem, compadre, estou curiosa, e desejo que, sem demora, me conduza ao lugar onde se encontra tão estranho animal.

– Ah, compadre, peça-me tudo, menos isso. Pelos estragos que, de longe, vi o homem fazer, com seus malditos espirros, nunca me atreveria a tal aventura…

– Pois queira ou não queira, tem de mostrar-me o “bicho”, ou então, agora mesmo perderá a vida.

– lá por isso não seja – disse o Lobo amedrontado. – Iremos. Mas havemos de tomar todas as precauções. Eu – com a sua licença – posso correr mais do que a comadre.

Assim, levaremos uma embira daquelas que não arrebentam nunca. Amarro uma das pontas no pescoço da comadre e a outra em minha cintura. Em caso de perigo, se for preciso fugir, a comadre e eu corremos…

– Fugir! Veja lá o que diz! Você já viu, “seu” podrela, alguma vez onça fugir?

– Não me expliquei bem. Eu é que fugirei. A comadre será apenas arrastada por mim. Isso não é fugir. Está certo?

– Está bem. Faremos como propõe.

E partiram. A Onça com a embira atada ao pescoço, e o Lobo, muito respeitoso e tímido, a puxá-la.

Quando chegaram ao destino, o “bicho-homem”, surpreendido ao avistá-los, tirou da cinta a garrucha e, atarantado, bateu fogo, isto é, espirrou. uma, duas vezes, que foi mesmo um estrondo de todos os diabos.

O Lobo então mais que depressa disparou numa corrida desabalada, redobrando quanto podia as forças para arrastar a Onça pela forte embira “que tinha atado no pescoço dela”.

De repente, já muito distante, o Lobo sentiu que a Onça estava mais pesada. Parou então e contemplou a companheira estendida no chão, com os dentes arreganhados, sem o mais leve movimento.

O Lobo, sem perceber que a Onça havia morrido enforcada no laço da embira – antes pensando que estivesse apenas cansada -. disse-lhe, tremendo como varas verdes:

– He lá, comadre! Não ri não que o negócio é sério!

Fonte:
Flávio Moreira da Costa (org.). Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal. 5.ed. RJ: Ediouro, 2001.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Conto, Humorismo

Stanislaw Ponte Preta (FEBEAPÁ – Festival de Besteira que Assola o País)

O cidadão Aírton Gomes de Araújo, natural de Brejo Santo, no Ceará, era preso pelo 23.º Batalhão de Caçadores, acusado de ter ofendido “um símbolo nacional”, só porque disse que o pescoço do Marechal Castelo Branco parecia pescoço de tartaruga e logo depois desagravava o dito símbolo, quando declarava que não era o pescoço de S. Exa. que parecia com o da tartaruga: o da tartaruga é que parecia com o de S. Exa.
==============

Cerca de 51 bandeiras dos países que mantêm relação com o Brasil foram colocadas no Aeroporto de Congonhas. O Secretário de Turismo de São Paulo — Deputado Orlando Zancaner — quando inaugurou a ala das bandeiras, disse que “era para incrementar o turismo externo”.
==============

Quando a Censura Federal proibiu em Brasília a encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo, a atriz Maria Fernanda foi procurar o Deputado Ernani Sátiro para que o mesmo agisse em defesa da classe teatral. Lá pelas tantas, a atriz deu um grito de “viva a Democracia”. O senhor Ernani Sátiro na mesma hora retrucou: “Insulto eu não tolero”.
==============

O Diário Oficial publica “Disposições de Seguros Privados” e mete lá: “O Superintendente de Seguros Privados, no uso de suas atribuições, resolve (…), “Cláusula 2 — Outros riscos cobertos — O suicídio e tentativa de suicídio — voluntário ou involuntário”.
==============

Em Niterói o professor Carlos Roberto Borba iniciou ação de desquite contra a professora Eneida Borba, alegando que sua esposa não lhe dá a menor atenção e recebe mal seus carinhos quando é hora de programas de Roberto Carlos na televisão. A professora vai aprender que mais vale um Carlos Roberto ao vivo que um Roberto Carlos no vídeo.
==============

Colhemos num coleguinha do Jornal do Brasil:
“O General José Horácio da Cunha Garcia fez uma firme apologia da Revolução e manifestou-se contrariamente às teses de pacificação, bem como condenou o abrandamento da ação revolucionária. O conferencista foi aplaudido de pé”. O distraído Rosamundo leu e, na sua proverbial vaguidão, comentou: “Não seria mais distinto se aplaudissem com as mãos?”.
==============

Enquanto o Marechal Presidente declarava que em hipótese alguma permitiria fosse alterada a ordem democrática por estudantes totalitários, insuflados por comunistas notórios, quem passasse pela Cinelândia no dia 1.º de abril depararia com o prédio da assembléia Legislativa totalmente cercado por tropas da Polícia Militar. Na certa, a separação de poderes, prevista na Constituição, passará a ser feita com cordão de isolamento e muita cacetada.
==============

Notícia publicada pelo jornal O Povo, de Fortaleza (CE): “O Dr. Josias Correia Barbosa, advogado e professor, esteve à beira de um IPM (Inquérito Policial Militar) por haver passado um telegrama para sua sobrinha Loberi, em Salvador, comunicando-lhe que a bicicleta e as pitombas tinham seguido. Houve diligencias pelas vizinhanças, parentes foram procurados e outras providências tomadas. Passados dois dias, soube o Dr. Josias que o despacho telegráfico não fora transmitido porque um James Bond do DCT (Departamento de Correios e Telégrafos) estranhara os termos “bicicleta”, “pitombas” e “Loberi”, que “deviam ser de um código secreto”.
==============

A peça “Liberdade, Liberdade” estreou em Belo Horizonte e a Censura cortou apenas a palavra prostituta, substituindo-a pela expressão: “Mulher de vida fácil”, o que, na atual conjuntura, nos parece um tanto difícil. Ninguém mais tá levando vida fácil.
==============

Segundo Tia Zulmira “o policial é sempre suspeito” e — por isso mesmo — a Polícia de Mato Grosso não é nem mais nem menos brilhante do que as outras polícias. Tanto assim que um delegado de lá, terminou seu relatório sobre um crime político, com estas palavras: “A vítima foi encontrada às margens do riu sucuriu, retalhada em 4 pedaços, com os membros separados do tronco, dentro de um saco de aniagem, amarrado e atado a uma pesada pedra. Ao que tudo indica, parece afastada a hipótese de suicídio”.
==============

A mini-saia era lançada no Rio e execrada em Belo Horizonte, onde o Delegado de Costumes (inclusive costumes femininos), declarava aos jornais que prenderia o costureiro francês Pierre Cardin (bicharoca parisiense responsável pelo referido lançamento), caso aparecesse na capital mineira “para dar espetáculos obscenos, com seus vestidos decotados e saias curtas”. E acrescentava furioso: “A tradição de moral e pudor dos mineiros será preservada sempre”. Toda essa cocorocada iria influenciar um deputado estadual de lá — Lourival Pereira da Silva — que fez um discurso na Câmara sobre o tema “Ninguém levantará a saia da Mulher Mineira”.
==============

Em Brasília, depois de um dos maiores movimentos do Festival de Besteira, que bagunçou a Universidade local, o Reitor Laerte Ramos — figurinha que ama tanto uma marafa que cachaça no Distrito Federal passou a se chamar “Reitor” — nomeava um professor para a cadeira de Direito Penal. O ilustre lente nomeado começou com estas palavras a sua primeira aula: “A ciência do Direito é aquela que estuda o Direito”.
==============

A Igreja se pronunciou, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, sobre recentes publicações pretensamente científicas, “que abordam problemas relacionados ao sexo com evidente abuso”. O documento não explicou se o abuso era do problema ou se o abuso era do sexo. Em compensação, nessa mesma conferência, Dom José Delgado, Arcebispo de Fortaleza, dava entrevista à Agência Meridional sobre pílulas anticoncepcionais, uma pílula formidável para fazer efeito no Festival de Besteira. Como se disse bobagem sobre o uso ou não da pílula, meus Deus!!! Dom Delgado, por exemplo, dizia: “A protelação do casamento é a única conclusão a que chego, atualmente, para a planificação da família e o controle da natalidade. E, depois disso, só existe um caminho seguro: o da continência na vida conjugal”. Como vêem, o piedoso sacerdote era um bocado radical e queria acabar com a alegria do pobre. Ainda mais, falando em sexo e em continência na vida conjugal, deixou muito cocoroca achando que, dali por diante, era preciso bater continência para o sexo também.
==============

Fontes:
Festival de Besteira que Assola o País. RJ: Editora do Autor, 1966.
2.º Festival de Besteira que Assola o País. RJ: Editora Sabiá, 1967.
FEBEAPA 3. RJ: Editora Sabiá, 1968.

Deixe um comentário

Arquivado em Humorismo, O Escritor com a Palavra

Trova XLVI

Trova sobre caricatura do CEI Municipal de São Carlos

Deixe um comentário

Arquivado em Balaio de Trovas, Humorismo, Nova Friburgo em Trovas, Rio de Janeiro

Trova XXXVII

Trova sobre charge de Márcio Diemer

Deixe um comentário

Arquivado em Balaio de Trovas, Humorismo, Rio de Janeiro em Trovas

Trova XXXV

Deixe um comentário

3 de julho de 2009 · 23:38

Trova XXXIV

Trova sobre Caricatura de Maurízio de Reda

Deixe um comentário

Arquivado em Balaio de Trovas, Belo Horizonte, Humorismo, Minas Gerais

Otto Melander (A Mulher e o Cachorro)

O alemão Melander (1571 – 1640) sabia latim tão bem quanto seus colegas italianos e franceses. Protestante, quando podia alfinetava frades e freiras. Ele inclui-se no grupo de humanistas do Renascença, Escrevendo num gênero típico da época, que constituía em coletâneas ao mesmo tempo instrutivas e recreativas, misturando anedotas e fatos curiosos. O conto em questão faz porte de Joco-Seria (Coisas Jocosas e Sérias) e inclui-se dentro da tradição boccaciana.
————————–
Costumava certo fidalgo da Vestefália convidar para o almoço domingueiro o seu presbítero, homem moço, conversador e faceto, conduzido havia pouco ao leme da Igreja.

Um dia teve de viajar para o estrangeiro. Estando já a meia milha de seu castelo, disse ao escudeiro, de repente:

– Lembro-me agora de uma coisa de que faço muita questão que minha esposa seja advertida; para ela também é muito importante. Volta, pois, imediatamente, e adverte-a em meu nome, de modo grave e solene, que não dê ao presbítero, em minha ausência, nem almoço nem jantar; não o deixe entrar em casa durante todo o tempo em que eu não estiver lá; e, principalmente, não ponha os pés em casa dele, e se abstenha de qualquer conversa com ele.

O escudeiro prometeu a seu amo cumprir a ordem, e regressou ao castelo. Mas, apenas se afastara um pouco, pôs-se a meditar e a resmungar: – “Decerto o meu amo assustou-se com a idéia de que esse nosso presbítero novato, cheio de seiva como é natural em um moço, rapaz forte, formoso e lúbrico, se pusesse a assaltar o pudor da senhora.

Deve ser por isso que lhe proibiu toda espécie de familiaridade com ele. Mas eu, por Hércules, conheço os costumes dessas mulherezinhas. Elas praticam de preferência justamente as coisas de que têm ordem de se abster. Portanto, para que em nossa ausência ela não tenha ligações com o tal acólito, nada lhe direi, absolutamente, sobre a ordem do meu amo, mas inventarei algum outro recado por ele dado a mim.”

Mal entrara o escudeiro no castelo, já à senhora acudia, e, com lágrimas nos olhos, perguntou-lhe:

– Que significa a tua volta tão apressada? Será que os negócios de meu marido não andam bem?

– Andam, sim, muito bem – respondeu o criado, – Meu senhor mandou-me voltar para, em seu nome, advertir-vos de uma coisa. Quer e manda o meu nobre senhor que em sua ausência não vos ponhais a brincar com aquele nosso grande molosso, acostumado a rédeas, nem o monteis. Teme que aquele cachorro irritável e sempre disposto a morder venha a morder-vos, por acaso.

– Não entendo muito bem esta proibição – respondeu a mulher. – Por Hércules, nunca tive a idéia de acariciar o molosso, ainda menos de montá-lo. Digo mais: não há ninguém no mundo que me haja visto brincar com ele. Por tudo isso, esta recomendação era inteiramente supérflua.

Mas o escudeiro, antes de se ir, insistiu:

– Compreendestes, então, minha senhora, o recado de vosso marido? Ponde, pois, todo o empenho em lhe obedecer.

– Volta a meu marido – respondeu a mulher -, transmite-lhe os meus votos de felicidade, e dize-lhe que fique tranqüilo, não se preocupe comigo, pois farei todo o possível para lhe provar, pelo meu procedimento, quanto lhe estou submissa neste ponto, como em outro qualquer.

Mal o escudeiro tinha virado as costas, eis que a mulher começa a matutar: – “Não posso imaginar por que razão meu marido me proíbe de acariciar o molosso ou montar nele. Deve haver aí algum motivo oculto. Não me lembro, por Castor, de o ter o feito ou mesmo tentado. Bem, de qualquer maneira está certo: morra eu se tocar o cão com um dedo sequer!”

Depois de tais reflexões, vai buscar alguns pedaços de pão e joga-os ao cachorro. Verificando que este os devora avidamente e vem lisonjeá-la depois, traz mais pão e repasta o animal até saciá-lo. Acaba acariciando-o, sem dúvida para experimentar se é tão irritável como pretende o marido. Vendo que o animal suporta bem o tratamento, exclama:

– Vejam só como é tratável o nosso molosso!

Nisto, senta-se no cão, apertando-lhe um tanto as costas com as nádegas. O cachorro se enfurece, arreganha os dentes e crava-os no braço da mulher.

Ensangüentada, agoniada pela dor, ela vê-se forçada a chamar um médico para tratar-lhe da ferida.

Passam-se os dias. Retorna o fidalgo, e encontra a esposa de cama, com ar abatido, muito pálida.

– Que desgraça te aconteceu, minha luz? – pergunta-lhe, alarmado.

– Tudo isto é por tua causa – respondeu ela. – Se não me houvesses recomendado, pelo escudeiro, que não brincasse com o molosso, nunca me haveria atrevido a tocá-lo.

O fidalgo, surpreendido, procura justificar-se por todos os meios e jura por Júpiter não ter mandado dizer pelo escudeiro nada de semelhante; depois, chama-o:

– Então, patife, eu mandei dizer a minha mulher que não acariciasse o molosso?

– Nada disso – responde o criado. – Mandastes-me proibi-la de introduzir o presbítero em vossa casa enquanto estivésseis ausente. Eu, porém, inventei outro recado, por saber do costume que têm as mulheres de fazer precisamente o que se lhes proíbe. Se de fato eu lhe tivesse vedado todo e qualquer contato com o padrezinho, sem nenhuma dúvida ela o haveria introduzido em casa, e agora, em vez de terdes uma esposa honesta, teríeis o vosso lar transformado em hediondo prostíbulo. Foi isso que eu quis evitar, convencido de que a mulher procura sempre o que se lhe proíbe; e podeis ver a prova manifesta disso no fato de ela ter acariciado o cachorro e tê-lo montado, embora eu lho houvesse vedado com a maior insistência.

O fidalgo não deixou de aprovar a atitude do prudente criado, a quem daí em diante teve em melhor conceito, e encerrou o incidente com as palavras:

– Prefiro ver minha mulher mordida pelo cachorro a sabê-la desonrada pelo acólito.

Fontes:
COSTA, Flávio Moreira da (organizador). Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal. 5.ed. RJ: Ediouro, 2001.
Imagem = Revista Virtual de Variedades

Deixe um comentário

Arquivado em Alemanha, Contos, Humorismo, O Escritor com a Palavra