Arquivo da categoria: Espírito Santo

Aparecido Raimundo de Souza (Galho Torto)

O motorista estancou, obedecendo a ordem.

Entretanto, ninguém deu as caras com a intenção de ficar naquele lugar. Todos olharam para os lados, outros resmungavam. Um velhinho chamou a atenção pedindo ao engraçadinho que fosse fazer palhaçadas nos quintos do inferno:

— Se manca, pô!…

O carro voltou a se movimentar. A solicitação foi novamente acionada:

— Um minutinho, “motor”…

Em meio à multidão que mais parecia sardinhas em lata, uma jovem beirando os vinte anos, se arrastava com bastante dificuldades, pedindo licença e tentando abrir uma brecha, por menor que fosse, na confusão de braços e pernas agrupadas ao longo do corredor:

— Por favor, companheiros, só um segundinho!

Da roleta, o cobrador não avistava quem implorava por caminho. Dezenas e dezenas de braços, cabeças e costas se juntavam, desordenadamente, à frente de seus olhos. Tampouco o condutor, pelos retrovisores estrategicamente colocados, distinguia com a nitidez devida, à referida personagem:

— É pra hoje, minha filha? – indagou. – Posso fechar a traseira?

Como resposta chegou aos seus ouvidos um “por favor, senhora, um passinho à frente” e “me ajudem, por Nossa Senhora”. E nada de pintar à saída. Cheio de razão e bastante zangado o cidadão não esperou uma segunda ordem. Deu continuidade à marcha. Aos solavancos, seguiu em frente. Apavorada, sem ter alcançado seu objetivo, a garota desatou a gritar e a chorar copiosamente numa escala ascendentemente melodramática:

— Ei, me deixe aqui, pare, pare, paaaaaaaaaaare!…

Não teve conversa. Um rapaz que cochilava, confortavelmente sentado, junto a uma das janelas, resolveu tomar as dores da pobre infeliz. Levantou de seu assento e berrou:

—“Guenta aí, motor”. É uma aleijada!

— Aleijada é a senhora sua mãe…

Foi nessa hora que os ocupantes, em coro uníssono, danaram a fazer alarido, tomando, efetivamente, conhecimento do estado deplorável daquela personagem que pretendia interromper a viagem alguns pontos anteriores. Um sujeito “deste tamanho” parecia um cavalo estabanado, se dependurou no fio da sineta, ao tempo em que protestava, eufórico:

— Esse animal não respeita ninguém. Pensa que está carregando uma manada de elefantes…

Enquanto isto, a humilde e torta paralítica, apoiada num par de muletas, finalmente galgava as escadas almejadas:

— Seu desalmado. Bruto de uma figa. Cafajeste! Fazer isso logo comigo. Agora terei que voltar quase um quilômetro.

O articulado entrou no acostamento e freou estabanadamente. Houve uma enxurrada de palavrões.

Queriam bater no motorista, no cobrador e até num policial civil à paisana, que voltava para casa:

— “Filho da mãe! – esbravejou, ensandecida uma velhinha”.

— “Cachorro!” — emendou um terceiro, que aproveitou a balburdia e desceu pela frente, sem pagar.

Por derradeiro, a deficiente saltou. Saiu aos prantos, lamentando sua desdita. Depois de quase um “bafafá” os ânimos se acalmaram. Na segurança da calçada, a irrequieta mutilada, com uma das pernas do bastão de encosto apontada para o céu, prometia, solenemente, quebrar a cara do sujeito que pilotava a condução. Seu gesto, contudo, permaneceu na vontade. Logo que o transporte se afastou, a moça tirou de dentro da bolsa um enorme saco de pano e, nele guardou os paus de arrimo. Ato contínuo se empertigou e sorriu, com deboche e cinismo. Sem olhar para os lados, atravessou, correndo, a pista movimentada, em direção ao outro lado. Tudo em questão de segundos, sob os olhares incrédulos dos transeuntes que, movidos pela curiosidade, começavam a se agrupar em seu derredor.

Fonte:
Aparecido Raimundo de Souza. Refúgio para Cornos Avariados. SP: Ed. Sucesso, 2011

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Andrade Sucupira Filho (Poesias Avulsas)

Libreria Fogola Pisa

Andrade é de Vila Velha/ES
I L H A

Acima das nuvens
Fora do solo da irmã Terra
Há uma Ilha

Às vezes vou para lá
Apenas relaxar
Acima dos aviões

Jamais usei drogas para ir lá
Nem para nada
Apenas relaxo…e vou…vou…

Não ouço o ruído da guerra
Vejo a irmã Lua
E o irmão Sol
E tudo muito pequeno
Na Irmã Terra

Sinto-me UNO com o Cósmico

Mas não estou no espaço sideral
Estou na Ilha…agora
Não estou perdido
Não estou fora
Não sinto dor

Estou em uma Ilha
Chamada
EU INTERIOR…

DELEITE EM VERSOS LIVRES
…Hoje me deleitei…com a beleza que vejo em você…
Meus olhos furta-cores buscaram
os seus olhos de esmeralda…
Minhas mãos ‘acariciaram’ seus cabelos,
“negros como as asas da graúna”…
Meus lábios pousaram nos seus lábios
“doces como um favo de mel”…
Suavemente…
Então…Viajamos juntos até o Paraíso…
De repente…desvanecemo-nos em brumas cor de Amor…
…Era somente sonho de Mago e Fada?…
Eu já nem sei se era real…ou nada…
E L O
Eu sou aquele que foge do extremo…
Ligo um extremo ao outro, o meio ao fim…
Onde? A corrente inteira está em mim…
CÉU AZUL

Estava tudo calmo no oceano.
E então foi se fechando o tempo, lento…
Nuvens escuras, raios (que momento),
E ainda: ondas gigantes, mar insano…

E eu, sozinho, em meu barco, desgarrado,
fui navegando nas revoltas águas.
E a natureza a liberar suas mágoas…
E Deus, de Jonas, a bradar, irado.

Dizem que Deus, em sua onisciência,
é sempre bom, é justo, é sempre amigo.
Mas, vez por outra, perde a paciência:
Acho que agora Ele a perdeu comigo…

Por que? Sei que motivos tem de sobra,
com a humanidade inteira…eu somente?
(E enquanto penso, faço uma manobra).
Navego e vou. Canso, meu corpo sente…

Relaxo, e então faço uma prece viva…
Não mais questiono…me entrego…adormeço…
Sonho, deliro, viajo ao léu, me esqueço…
E no oceano, a minha nau deriva…

Raios? Trovões?…e eu a dormir sonhando…
Voltou meu barco ao porto firme, ao sul…
Quando me acordo, vejo o sol brilhando,
a natureza calma, o céu azul…

L U Z
Ah! Quanta Luz entrou pela janela,
Quando evoquei meu Deus interior…
Como expandiu-se a Luz de minha vela!
Que então mostrou-se em três: Luz, Vida e Amor!
Ah! Quanta Luz entrou pelo meu peito,
E se alojou dentro do coração!
Eu me infundi no Um, no Deus perfeito…
E iluminou-se a Vida desde então…
Ah! Quanta Luz entrou na minha mente!
E a vibração que hoje o meu corpo sente
É tão sublime que extinguiu a dor.
Ah! Quanta Luz me invade o corpo inteiro:
Sinto o universo, justo e verdadeiro;
O Todo é o Um, e a criação, o Amor…

QUO VADIS?
Passo na porta, quase que enlatado…
Deparo com o humilde escudeiro:
“-Aonde vais senhor?” – Ao mundo inteiro.
Respondo ao homem do olho dilatado.
Embora tendo um olho…e outro não.
Meu escudeiro, sempre dedicado,
Sorri pra mim, depois cospe de lado
E me convida, no dialeto: – Vão?”
Meu escudeiro???…Mas, que tempo é esse?
Onde é a espada o símbolo do bem?
Tempo de muitos? Tempo de ninguém?
Tempo de ajuste? Tempo de benesse?
E então me acordo: um reboliço imenso…
Nas ruas, terremoto, um tiroteio…
Furacão, meteoro… é devaneio?
Como Descartes: Já que existo, penso…
ESPERA
Olho p’ra natureza e leio…leio…
Cai a semente…sol e chuva…espera…
Espera…e nasce, e cresce…é primavera…
E o tempo passa…espera…o fruto veio…
Espera…e o vento, e a chuva…e o fruto cresce…
Espera…e gira a terra, e esfria, e esquenta,
Tudo se acalma…chove, e gela, e venta…
E o tempo…espera…e o fruto amadurece…
E cai o fruto…e o ciclo recomeça…
Vem o verão e o outono…e o inverno surge…
E o vento sopra, e a chuva cai e cessa…
E a natureza vive…e o tempo urge…
…Vou caminhando e lançando semente…
E passa o dia, o mês, o ano…a era…
…Minha colheita?…A voz que nunca mente
“Me diz: “espera…espera…espera…espera…”
R E A L

(Escrita em 1981, publicada no livro “Vôos de pés no chão” – ACE – 1ª edição – 1995 – Vitória –ES)

 A natureza eu sinto em mim vibrando:

O mar, o submar, peixes nadando,
Gaivotas e pardais em frenesi,
As gotinhas do orvalho cintilando,
O amor, a planta, a flor, o colibri,
O infinito e essa imensidão de estrelas
Que fascinam e eu me detenho a vê-las,
Querendo ir morar no meio delas…
Sensitivas janelas de minh’alma,
Que se tocam com tudo a minha volta,
Os meus olhos percebem, mente solta,
Que afinal há o real, o grito, a calma.
E a poesia, que fora lírio puro,
Passeia por casebres, por calçadas,
Pelos presídios, pelo beco escuro,
Pelos muitos, por poucos, pelos nadas…
O lirismo se envolve à realidade,
Que é o bem e o mal, concreto, natureza,
Amor, amor, furor, sonho, verdade…
Morrem e nascem pessoas na cidade.

Fonte:

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Antuérpio Pettersen Filho (Poesias Escolhidas)

A ROSA E O BANDIDO

No jardim da casa
 onde morava um bandido
 um botão se abriu em rosa
 e desbrochou.
 Não compreendendo
 que aquele jardim era proibido
 a rosa ali continuou.

 Ninguém podia compreender
 o feio e o bonito
 ali, juntos…

 Por que a semente
 o vento não levou
 para outra casa
 perto dali?

 Mas, não…
 a rosa preferiu
 aquele jardim dentre todos,
 e isso a vizinhança
 não podia aceitar.

 Logo alguém
 roubou a rosa do jardim…
 O bandido desesperado
 pela rosa procurou
 mas não achando nada
 com seis tiros se matou.

 Desde esse dia
 todo mundo que ali passava
 falava que naquela casa
 mora o amor.

A QUALQUER MOMENTO

A qualquer momento…
 Qualquer coisa…
 Pode acontecer…

 Há algo mais pesado no ar
 Do que jatões transcontinentais.
 Há algo mais circulando
 Pelas ruas da cidade
 Do que motocicletas
 E carros em alta velocidade…

 Há um cheiro mais forte no vento
 Do que combustível queimado
 Ou odor de cigarro.
 Há no peito marcas mais visíveis
 Do que as de freio no asfalto
 Ou um salto na escuridão.

 Existe nos olhos
 Uma luz mais intensa
 Do que o brilho dos refletores
 Ou dos letreiros luminosos…Agora!
 A qualquer momento…
 Qualquer coisa pode acontecer!
O VELHO PAI

Todos os dias
 o velho acordava
 pegava a cadeira
 colocava na varanda
 pegava a vassoura
 varria a calçada…
 e assistia
 as pessoas passaram.

 Um dia
 o velho não acordou
 não pegou a cadeira
 não colocou na varanda
 não pegou a vassoura
 não varreu a calçada…
 não assistiu
 as pessoas passarem.

REALIDADE

Quando eu me dei por mim,
 Ela já estava ali…
 Batendo por detrás da porta
 tocando a campainha
 insistindo em entrar…

 Eu corri, e tranquei a janela.
 Fechei as cortinas, prendi a respiração.
 Apaguei as luzes… Fingi dormir.

 Então, em um golpe certeiro
 Ela pôs abaixo a porta…
 Entrou na ventania
 os pés sujos de barro
 manchando o carpete da sala.
 A minha biblioteca
 ficou toda revirada.

 Ela não vacilou:
 Bateu na minha cara
 sentou no sofá da sala
 e ficou ali me olhando…
 Minha vida estava por um triz.

 Chegou invadindo o meu lar
 destruindo os meus sonhos…
 Eu nem havia chamado
 mas Ela estava ali
 me cobrando ser homem,
 e a decisão.

AMOR À PORTUGUESA 

 Eu beijo de língua
 a Língua da Portuguesa
 mas isso me faz
 sentir-me mau.

 Aliás,
 não sei se me sinto mal
 com “l”
 ou se me sinto mau
 com “u”:

 Pensando bem
 me sinto bem !
 Meu bem.

Fontes:

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Maria do Carmo Marino Schneider (Cristais Poéticos)

SONETO DO ETERNO AMOR 

Sabes que, em tempo algum, jamais alguém
 te amou, assim, como eu sempre te amei.
 É o brilho de teus olhos diz, também,
 que eterna amada para ti serei…

 Esse amor de ontem que pensei perdido,
 é chama ardente, sonho revivido,
 mar proceloso que meu ser invade,
 a me afogar em ondas de saudade.

 Minh’alma aflita sofre a se indagar:
 virá tão grande amor a extinguir-se
 perdendo-se no ardil do esquecimento?

 E o coração me diz a sussurrar:
 jamais! Pois esse amor há de nutrir-se
 no seio de um e outro, enquanto houver alento.

QUIMERAS

Eu quisera poder parar o tempo,
 retendo o doce enlevo do momento,
 naquela grata surpresa, inesperada,
 de ver-te à minha espera, na chegada…

 Eu quisera esquecer, enfim, o mundo,
 correndo ao teu encontro, num segundo,
 para beijar-te longa e ternamente,
 como sempre o desejara, ardentemente…

 Eu quisera não deter o grito rouco
 e o descompasso do coração louco
 amando-te, afinal, ao ter-te perto…

 Eu quisera tantas coisas que não fiz…
 Mas embora muda a boca e preso o gesto,
 O meu olhar falou-te: estou feliz!

CORRENTEZA

O meu barco vida
 governar quisera
 nesta correnteza…

 Nas águas do tempo,
 em veloz corrida,
 eu me vejo presa…

 Navego o meu barco
 e, na dura lida,
 me vence o cansaço…

 São tantos os seixos,
 são tantas as pedras,
 são tantos percalços…

 Mas sigo sem queixas.
 Se a esperança medra,
 não detenho os braços.

 O leme seguro
 e, transpondo as águas,
 contemplo o futuro

ONDE ESTAVAS?

Onde estavas, onde estavas,
 Quando as sombras e o silêncio
 Vestiram a ilha dos sonhos
 De solidão, sem candeias?

 Por certo que te encontravas
 Velejando em outros mares,
 Buscando estrelas e luares
 Em céus que não conhecias…

 Da ilha, berço do carma,
 No teu baú de saudades,
 Só levaste farpas, mágoa,
 Quando na noite fugias…

 Abandonaste, esquecidos,
 O pão, o mel, a água fresca,
 A luz que clareia a estrada,
 E os sonhos, tesouros perdidos…

FIO DE ARIADNE

Ah! esse sabor amargo
 que na boca aflora
 e esse vazio atróz
 que faz de mim sozinha
 o que antes era nós…

 Ah! esse silêncio largo
 que me envolve agora
 e essa dor intensa
 que cedo me definha
 e cala minha voz…

 Ah! esse amor aziago
 que minh’alma chora,
 que torna a vida densa
 e os dias negras mós,
 é o que cortou a linha
 de seculares nós…

ACALANTO

Hoje, tranquei o meu canto.
 Nenhuma palavra vem.
 Quisera poder prender meu pranto
 também!

 O tempo é um duende alado
 que não permite a ninguém
 viver feliz sempre ao lado
 de um bem.

 Por isso, choro saudade,
 lamento a falta de alguém,
 Onde está a felicidade?
 Não vem?

 Adormeço na esperança
 De encontrá-la no além,
 Que ela venha sem tardança…
 Amem!

AMOR ANTIGO

O amor antigo que minh’alma abriga
 nasceu há muito, já não tem idade.
 É como som dolente de cantiga
 a repetir-se pela eternidade.

 O amor antigo, de esperança ausente,
 nada pede, nem exige, só perdura
 na espera triste, vã, calma e silente
 da sofrida e amante criatura.

 O amor antigo tem raízes fundas,
 feitas de sofrimento e de beleza;
 é o guardião dos sonhos mais profundos
 criando, na alma solitária, a fortaleza.

 O amor antigo, cultivada flor,
 perfuma, assim, a dor e não fenece.
 E, tanto mais vence o tempo é mais amor,
 no seio de quem ama e não esquece.

VÔO PEREGRINO

A alma, em suspense,
 espera o vôo que retarda
 adiando o sonho…
 Soltar-se,
 romper cadeia,
 deixar o tempo
 tecer sua teia,
 sem outro desejo
 que o de viver,
 e nada esperar,
 senão o adormecer
 da última esperança.

Fonte:

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Maria do Carmo Marino Schneider (1941)

Maria do Carmo Marino Schneider nasceu no município de Colatina, no Estado do Espírito Santo, em 1 de setembro de 1941. 

Professora universitária, Graduada em Letras pela UFES, com especialização em Educação à Distância, pela UNED-Madri, Espanha, Mestrado em Educação pela PUC – Rio. 

Membro da Academia Feminina Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira nº 17, cuja patrona é Maria Madalena Pisa. 

Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e do colegiado cultural do jornal Estado de São Paulo. 

Diretora Cultural da Aliança Francesa de Vitória. 

Vencedora de vários prêmios literários no país, em prosa e verso, tem obras publicadas em antologias de poetas representativos da literatura nacional em Brasília, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. 

Maria do Carmo lançou em 2007 um CD “Caminho, Verdade e Vida”, com músicas religiosas.

Obras:
– “Fio de prumo” 1989
– “Só ser” – 1991
– “Nós” – 1992
– “Sonatas” – (Reune textos dos primeiros livros, Fio de prumo (1989), Só ser (1991), e mais inéditos), Prefácio de Francisco Aurélio Ribeiro, Vitória, 1996
– “Aquarelas Poéticas” ( poemas) – Prefácio de Maria de Lourdes M.A. Soares, Lei Rubem Braga/Companhia Vale do Rio Doce, Vitória, 1996
– “A música folclórica brasileira” – das origens à modernidade 1999
– “Victor Hugo – a face desconhecida de um gênio” 1999

Participação nas coletâneas: 
– A poesia Espírito-santense no Século. XX – org. Assis Brasil, Ed. Imago.
– Antologia de Escritoras Capixabas – org. Prof. Francisco Aurélio Ribeiro
– Entre dois séculos: Escritos de Vitória -18 – Cidade Presépio
Poemar.
– Antologia 2003 – Textos e Tramas, da AFESL
– Antologia 2004 – Ecos da Terra Capixaba, da AFESL
– Antologia 2005, da AFESL, Dança das Palavras, organização dela e de Marlusse Pestana Daher.
– Antologia Clepsidra, da AFESL, organização de Jô Drumond e Graça Neves, Vitória/ES, 1a. edição, GSA – Gráfica Santo António Ltda, 2007
– IV Varal de Poesias, com os poemas “Sombras no silêncio”, declamado por Ângela Chequer e “Ninho da alma”, declamado por Márcia Galdio. Este projeto é uma realização do Vagão Espaço Arte, idealizado pelo poeta Italo Campos, em 1998,
– V Varal de Poesias, com o poema “Informática” declamado por Ângela Chequer e “Sombras no silêncio”, declamado por Haroldo Bussotti.
– VII Varal de Poesias, com o poema “Chama”, declamado por Madu Marino.
– VIII Varal de Poesias, com o poema “Mulher “.
– IX Varal de Poesias.
– “Fruta no Ponto” – 2009, sob a Direção Geral de Suely C. Milagres, Gestora Cultural e Curadora do Vagão Espaço Arte. 
– Catálogo 2009, Letras Capixabas em Arte, organizado por Maria das Graças Silva Neves.
– Projeto “Primavera: Arte e Literatura”, realizado na Galeria Virgínia Tamanini, no período de 27/10 a 20/11/2009
– “Espaço Cultural do TECAB”, realizado do dia 22/06 a 12;07/2010.
– Antologia “Múltiplas Vozes”, 2010, da AFESL.

Parcerias: 
Canzoni D’Amore (italiano/português)1999
Ave Marias 1998
Mistral (português e francês.)1999

Bibliografia: 
Vozes e Perfis – Antologia 2002 Academia Feminina Espírito-santense de Letras
A Poesia Espírito-Santense no Século XX, organização, introdução e notas de Assis Brasil,1998

Fonte:

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Rubem Braga (Chegou o Outono)

 Não consigo me lembrar exatamente o dia em que o outono começou no Rio de Janeiro neste 1935. Antes de começar na folhinha ele começou na Rua Marquês de Abrantes. Talvez no dia 12 de março. Sei que estava com Miguel em um reboque do bonde Praia Vermelha. Nunca precisei usar sistematicamente o bonde Praia Vermelha, mas sempre fui simpatizante. É o bonde dos soldados do Exército e dos estudantes de Medicina.

Raras mulatas no reboque; liberdade de colocar os pés e mesmo esticar as pernas sobre o banco da frente. Os condutores são amenos. Fatigaram-se naturalmente de advertir os soldados e estudantes; quando acontece alguma coisa eles suspiram e tocam o bonde. Também os loucos mansos viajam ali, rumo do hospício. Nunca viajou naquele bonde um empregado da City Improvements Company: Praia Vermelha não tem esgotos. Oh, a City! Assim mesmo se vive na Praia Vermelha. Essenciais são os esgotos da alma. Nossa pobre alma inesgotável! Mesmo depois do corpo dar com o rabo na cerca e parar no buraco do chão para ficar podre, ela, segundo consta, fica esvoaçando pra cá, pra lá. Umas vão ouvir Francesca da Rimini declamar versos de Dante, outras preferem a harpa de Santa Cecília. A maioria vai para o Purgatório. Outras perambulam pelas sessões espíritas, outras à meia-noite puxam o vosso pé, outras no firmamento viram estrelinhas. Os soldados do Exército não podem olhar as estrelas: lembram-se dos generais. Lá no céu tem três estrelas, todas três em carreirinha. Uma é minha, outra é sua. O cantor tem pena da que vai ficar sozinha. Que faremos, oh meu grande e velho amor, da estrela disponível? Que ela fique sendo propriedade das almas errantes. Nossas pobres almas erradas!

Eu ia no reboque, e o reboque tem vantagens e desvantagens. Vantagem é poder saltar ou subir de qualquer lado, e também a melhor ventilação. Desvantagem é o encosto reduzido. Além disso os vossos joelhos podem tocar o corpo da pessoa que vai no banco da frente; e isso tanto pode ser doce vantagem Como triste desvantagem. Eu havia tomado o bonde na Praça José de Alencar; e quando entramos na Rua Marquês de Abrantes, rumo de Botafogo, o outono invadiu o reboque. Invadiu e bateu no lado esquerdo de minha cara sob a forma de uma folha seca. Atrás dessa folha veio um vento, e era o vento do outono. Muitos passageiros do bonde suavam.

No Rio de Janeiro faz tanto calor que depois que acaba o calor a população continua a suar gratuitamente e por força do hábito durante quatro ou cinco semanas ainda.

Percebi com uma rapidez espantosa que o outono havia chegado. Mas eu não tinha relógio, nem Miguel. Tentei espiar as horas no interior de um botequim, nada conseguindo. Olhei para o lado. Ao lado estava um homem decentemente vestido, com cara de possuidor de relógio.

– O senhor pode ter a gentileza de me dar as horas?

Ele espantou-se um pouco e, embora sem nenhum ar gentil, me deu as horas: 13:48. Agradeci e murmurei: “chegou o outono”. Ele deve ter ouvido essa frase tão lapidar, mas aparentemente não ficou comovido. Era um homem simples e tudo o que esperava era que o bonde chegasse a um determinado poste.

Chegara o outono. Vinha talvez do mar e, passando pelo nosso reboque, dirigia-se apressadamente ao centro da cidade, ainda ocupado pelo verão. Ele não vinha soluçando les sanglois longs des violons de Verlaine, vinha com tosse, na quaresma da cidade gripada.

As folhas secas davam pulinhos ao longo da sarjeta; e o vento era quase frio, quase morno, na Rua Marquês de Abrantes. E as folhas eram amarelas, e meu coração soluçava, e o bonde roncava.

Passamos diante de um edifício de apartamentos cuja construção está paralisada no mínimo desde 1930. Era iminente a entrada em Botafogo; penso que o resto da viagem não interessa ao grosso público. O próprio começo da viagem creio que também não interessou. Que bem me importa. O necessário é que todos saibam que chegou o outono. Chegou às 13:48 horas, na Rua Marquês de Abrantes, e continua em vigor. Em vista do que, ponhamo-nos melancólicos.

 Fonte:
200 Crônicas Escolhidas.

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Bernardo Trancoso (Caderno de Sonetos I)

A ROSA BRANCA (I)

Tantas púrpuras rosas no rosal;
Grosas e grosas, tão bonitas rosas;
Entre as rosas vultosas, majestosas,
Brota uma branca rosa, desigual.

Meu olhar só percebe a rosa tal;
Prefere-lhe, entre rosas mais charmosas;
Rosas prá te dizer que, em meio às grosas,
És como a rosa branca, especial.

Tens no andar que alucina novas cores;
É por ter novas cores que alucina;
És preferida, dentre mil amores.

Como a flor no rosal, tão pequenina
Que, perante outras mais formosas flores,
Difere e, o coração, logo ilumina.

A ROSA BRANCA (II)

Tantas púrpuras rosas pelo chão;
Grosas e grosas, lá se vão as rosas;
Entre as rosas feiosas, mal-cheirosas,
Brilha uma branca rosa, em exceção.

Meu olhar escolheu tal rosa, então,
Protegeu-lhe, entre rosas perigosas.
Rosa a seiva que falta àquelas grosas,
Concede à rosa branca o coração.

Contrastes já não valem mais, nem cores
Que, dentre mil amores, são só teus,
Pois o tempo carrega esses primores.

Vale é ser essa flor que, aos olhos meus,
Nunca apodrecerá, como outras flores.
Vais brilhar nos rosais do eterno Deus.

A ROSA BRANCA (III)

Tantas púrpuras rosas na avenida;
Grosas e grosas, tão vendidas rosas;
Entre as rosas vistosas, preciosas,
Falta uma branca rosa, preferida.

Meu olhar arrancou da rosa a vida,
Elevou-lhe, entre rosas valiosas.
Rosa eterna nos versos e nas prosas,
És como a rosa branca, a mais querida.

Elegi essa cor, dentre outras cores,
Prá provar grande amor que, às vezes, vem.
Que não podem trazer vermelhas flores,

Que nem podem querer comprar, também,
Porque, nessa avenida, os vendedores
Não darão seus amores prá ninguém.

SONHO ACORDADO

Sonhei teu grande amor ter encontrado.
Quando acordado, não acreditei
No corpo que avistei, ali, deitado,
Bem ao meu lado, como desejei.

Paraíso sem lei, por mar cercado;
Diante de um reinado imenso, o rei;
De desejo, eu fiquei desencontrado;
Fui tentado a sonhar, quando acordei.

Por demais te querer, te ter também –
Sentimento que, vez em quando, imponho,
Quando alguém já me torna mais risonho –

Tive a alegria, enfim, que poucos têm,
Ao ver um dia, ao lado do meu bem,
Um sonho, transformar-se em outro sonho.

SONHOS E TROVAS

Um grande sonhador quer acordar
No meio de um amor que faz sonhar
Prá, quando se deitar, sua alma em flor,
Desperto, ele sonhar com esse amor.

Quer mais um trovador, já quer cantar
Toda forma de amor que imaginar
Prá, quando a flor murchar e ele se for,
Seu canto inda ecoar, num sonhador.

Sonhos e trovas juntos na alegria
Que, um dia, plante fé no coração,
Ao sentimento amor, que principia,

Levando o sonhador à conclusão:
Paixão não sobrevive, sem poesia;
Poesia também morre, sem paixão.

O PERFUME

O amor, como o perfume, deixa indícios
De euforia em quem sente o seu odor;
Ambos dão alegria, ambos dão vício,
E mesmo os seus resquícios têm sabor.

Em tão pequenos frascos, benefícios;
Num coração ou vidro, tanto ardor;
Mas deves desfrutar sem desperdícios,
Seja perfume d’alma, seja amor.

Têm de todos os tipos prá agradar:
Um deles, quase eterno; outro, ligeiro.
Melhor é o que mais caro te custar,

Mas importa que seja verdadeiro
Pois, tendo um falso, logo há de notar
Que paixão não vai dar, com ou sem cheiro.

NATUREZA

Tens das pedras dureza; tens, agora,
Da noite que apavora, vã frieza.
A incerteza que tens, é de quem chora
Quando o amor vai embora; tens tristeza.

Tens, porém, chama acesa; vida aflora
Do teu peito, ó senhora; és natureza –
Da fauna, tens riqueza e quem te adora,
E da flora, bem mais, pois, tem beleza.

Só pareces não ter o dom vibrante,
O desejo constante de viver,
A grandeza de ser a cada instante,

Quando o mais importante é renascer.
Esse dom de manter a dor distante,
Em plantas e animais, vais perceber.

CEM PALAVRAS

Não pode ser você quem vejo aqui!
Sim, sou… Que bom te ver! Tempo passou,
Você cresceu… Você também mudou…
Por onde andou? Aí… Muito aprendi!

Por que voltou? Saudade deu de ti!
Não fale assim… É, sim… Quem me ensinou
O amor, nunca esqueci… por isso, estou
Aqui! Prá ter de volta o que perdi!

Anos depois… Pois é… Um dia, eu cá
Pensei, não voltará! Errei… Você
Deixou-me a dor, mas cri… Quem ama, crê!

Foi tanto o que sofri! Não sofrerá!
Se depender de ti… Mudei! Virá?
Vou… Sem palavras, já… Falar, prá quê?

JARDINEIRO

– Recita uma poesia para mim!
– Jardim! – o trovador já respondia –
tens do brilho das flores a alegria.
Em teu corpo, o perfume é de jasmim.

Lugar que eu regaria tanto assim,
Com luz e com paixão, e todo dia.
Para mim, nada mais importaria
Que ter tua beleza minha, ao fim.

Faria um paraíso em teu canteiro,
Se tu me concedesses um segundo,
Prá provar meu amor, que é verdadeiro.

Nessa doce empreitada, lá no fundo,
Eu seria o teu servo, um jardineiro…
O jardineiro mais feliz do mundo.

Fonte:
Sonetos

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